ATOS DE ANTROPOFAGIA CONJUGAL
I- Dança simbiótica
Toque seus dedos nos meus
Apenas toque
Sinta nossos átomos se encaixando
Nossas mãos se tornando uma.
Me abrace e perceba nossos peitos
Se fundindo, misturando nossas cores
Nossos cabelos se enrolando
Sua coroa crespa e minhas ondas do mar.
Leite integral e café amargo
Somos nós
Combinamos como nenhum outro casal.
E enquanto nós nos tornamos uma só
Una sua consciência e realidade à minha
Divida seu ego comigo
Seja minha, eu serei sua.
Nosso medo será um
A distância não será um problema.
II- Corpo Humano
Quero que você me engula
Como quem é artista e absorve o mundo
Quero que você me tome para si
Como quem cai no poço e não vê o fundo.
Fique comigo, puxe minha existência
E cole no seu interior
Me deixe morar dentro do seu âmago.
Abra minha coluna vertebral
Como quem abre as páginas de um livro
Pegue minhas vértebras —
Reorganize, abra-as e leia meus segredos.
Eles são seus também.
Rasgue meus quadris
Da maneira mais gentil e visceral
Que você conhecer.
Me engula.
III- Consumir
Me beije até meus pensamentos ruins
Virarem fumaça
Me beije até minha mão trêmula
Parar de se debater.
Me toque
Mas não me toque por que peço
E sim porque em algum lugar dentro de si mesma
Você tem necessidade de mim.
O belo da poesia está em seus lábios
Desnudos, crus, entreabertos
Tocando nos meus.
Eu permito que você puxe meus cabelos
Faça o que for mais profano comigo
Seria um prazer para mim
Ser o seu desejo às escondidas.
O que você causa em mim é tão primitivo e animal
Que não cabe à lapiseira descrever.
IV- Dilaceração
Faça um corte vertical na linha da minha coluna
Reto, direto, preciso, cirúrgico
Separe os pedaços
Retire meus órgãos
Entre no meu corpo
Faça minha cabeça
Reorganize minhas ideias
Faça-as suas
Me dilacere de dentro para fora.
Essa luz bonita e suave
Emanando do corte
São minhas ambições
Esse líquido branco e brilhante são os meus sonhos contigo
Tome, são tão seus quanto meus
Somos uma agora.
Inspire-me
De todas as formas humana e divinamente possíveis
Trague meu espírito, o beba como vinho num cálice de prata na Santa Ceia
Não sou Jesus, mas me adore
Não sou blasfêmia, mas me deixe ser o seu pecado pessoal
V- Antropofagia Conjugal
Ela é o frescor das manhãs vermelhas recém-amanhecidas
O calor de uma pelve contra a outra
Um suspiro desesperado pedindo por um pouco mais]
Ela é horas e horas de beijos envergonhados
Uma mão dentro da minha blusa
Um toque pedindo por permissão
"Eu posso?"
Ela, um olhar atravessado no meu seio
Uma risada sussurrada
Me afogando nos cabelos dela
Uma mordida no meu queixo, no meu pescoço, no meu ser.
Um beijo dela me derrete
Metaforicamente me decompõe
Já que meu amor é a deusa da putrefação.
E que tudo o que é mais sacro evapore num cachimbo em seus lábios, se ela partir]
Que toda a minha santidade se esvá com ela
Que qualquer sanidade se extingua da terra
Que eu suma, se ela sumir.