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Ponto 11 - Islão

O documento discute a transição política e social do Império Turco, destacando a ascensão e queda do poder otomano, a influência do Islã e as dinâmicas de poder entre diferentes grupos étnicos e religiosos. A análise abrange desde a expansão territorial sob sultões como Suleyman até a estagnação e desafios enfrentados no século XIX, incluindo a modernização e o surgimento do nacionalismo. A complexidade da sociedade otomana é evidenciada pela coexistência de diversas religiões e a luta interna pelo poder entre os príncipes da dinastia.

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Rodrigo Rainha
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Ponto 11 - Islão

O documento discute a transição política e social do Império Turco, destacando a ascensão e queda do poder otomano, a influência do Islã e as dinâmicas de poder entre diferentes grupos étnicos e religiosos. A análise abrange desde a expansão territorial sob sultões como Suleyman até a estagnação e desafios enfrentados no século XIX, incluindo a modernização e o surgimento do nacionalismo. A complexidade da sociedade otomana é evidenciada pela coexistência de diversas religiões e a luta interna pelo poder entre os príncipes da dinastia.

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Núcleo conceitual 1 - Transição, permanências e rupturas na Idade Média Tardia

Pensar no Islão na Idade Média Tardia e na modernidade é necessário nos


remetermos a organização islâmica pós cruzadista. Em especial a observação sobre a
construção do Império Turco.
É necessário observar que m islão mais cosmopolita durante o domínio
abássida, e permitido sua disseminação no mundo persa, norte africano e até a Europa
também o disseminou como uma forma de reconhecimento a grupos diversos. A força
que o discurso que relaciona a religião e a política é tão intenso, que, quando grupos
que entraram no mundo islâmico como: perigos e invasores tenderam logo a
converter-se, como pode ser observado com os mongóis, e principalmente com os
turcos.
A assimilação dos turcos, iniciada no entorno de Bagdá com os Seljúcidas,
permitiu a um conjunto com uma dinâmica própria de poder, uma vez convertido
iniciar um modelo de reinos autônomos e constante expansão militar dentro da
organização do mundo muçulmano, gerando inclusive que diversos grupos passassem
a tratá-los ora como inimigos e ora buscando articulações que os visse como inimigos.
Esta face do mundo islâmico, a dificuldade de estabelecer coalisões que
fugissem a estrutura comercial, gerou um quadro de fragilidades políticas que
acabaram por permitir movimentos como o dos cristãos vindos do Ocidente e a
expansão mongol, que acabaram por demarcar a fragilidade das cidades e emergir o
discurso que marcassem a necessidade de culturas mais restritivas, seja na conversão,
sejam nas práticas cotidianas, grupos como Almorávidas e Almoadas no norte da África
e um novo movimento Turco, defendem ideais de uma religião que estivesse forjada
na ascese e no expansionismo militar.
O movimento de disputas militares não cessou nos séculos XIV e XV, ainda
existindo como um ideal, distante, pouco atingível, de uma retomada de Cristãos no
Oriente Próximo, como vemos no exemplo do esquadrão de três dúzias de navios -.
fornecidos pelos venezianos e pelo papa Clemente VI e os Hospitalários de Rodes
chega a conquistar o porto de Esmirna, costa da Ásia Menor, que os Hospitalários
mantiveram até 1402. Pedro I do Chipre saqueia a cidade de Alexandria no Egito, é
outro exemplo. A região, aliás, da Ásia Menor após o avanço mongol havia deixado um
vácuo de poder na Ásia Menor, o que gerou uma série de pequenos e efêmeros
principados. A região se transforma uma vez mais com a chegada da periferia do Dar-
al-Islam um líder e um novo conjunto turco, líder que acaba levando seu nome a este
domínio, Osman e os turcos Otomanos, os outros turcos.
Foi este grupo, que tinha na sua auto-imagem que seu comprometimento
deveria se transformar em Jihad, com o comprometimento se misturando com
princípios de Guerra Justa, sendo um princípio de guerra de fato. O seu avanço pela
Europa, tanto à base da diplomacia quanto da guerra, parecia incontrolável – claro em
uma visão cristão os chamando de novos demônios em documentos diversos.
Os turcos de Osman se estruturam a partir de uma cabeça de ponte inicial em
Galípoli, em 1354, eles abriram um leque primeiro para estabelecer controle, e a,
seguir, para governar diretamente a Bulgária, a Sérvia, a Albânia e o norte da Grécia.
Explicando: esse foi o pano de fundo para a Cruzada de Nicópolis, em 1396, uma
expedição que foi diferente de outras de seu tempo porque não era limitada em seu
propósitos, nem pequena em escala. Seu objetivo era nada menos que deter o avanço
turco. Uma força internacional foi recrutada na França, na Alemanha e na Inglaterra
para formar o que foi muito possivelmente o maior exército cruzado jamais reunido,
que então marcou ao longo do Danúbio sob a liderança do rei Sigismundo da Hungria.
Enquanto isso, uma frota sob o comando do grão-mestre da ordem dos Hospitalários e
composta por navios.
A derrota em Nicópolis deixou Constantinopla vulnerável. Os turcos ainda
demoraram a dominar definitivamente a simbólica cidade por conta de novas
expansões mongóis lideradas por Tamerlão, mas em 1453 a cidade passaria ao
comando dos turcos. É importante notar que o Império Turco tinha um diálogo
permissivo em especial nas áreas conquistadas, permitindo o funcionamento da Igreja
grega, e tendo grande parte de sua população entre cristãos e judeus. Houve uma
mudança da postura do cristianismo na relação com o Islão, por outro lado. O novo
tratamento foi encontrado no arsenal intelectual preferido da era do humanismo
renascentista: estudo textos e retóricos. Primeiro aprenda sobre o islã, depois discuta
cortesmente com seus adeptos.
Só que o Islão turco receberia um novo golpe no século XV: a peste. O mesmo
flagelo que assolou a Europa desestruturou a economia dos espaços do islão persa,
que já saíra inteiramente do domínio turco e fundara um novo estado, geraria um
Estado fraco e que permitiu que o mundo islâmico se dividisse em emirados e
domínios menores, e um poder de maior influêcia turca.
Um ator geopolítico de primeira ordem que, mesmo em seus tempos de
ostensivo declínio, no século XIX, continuou pautando uma boa parte da agenda dos
Estados da Europa e do Reino da Pérsia são os turcos. No entanto, como sua história
tende a ser narrada em função do Ocidente, raramente os compêndios escolares lhe
destinam mais do que um número irrisório de páginas.
Devemos marcar, aliás uma explicação importante aquio Devlet-i ‘Aliye-i
‘Osmaniye (Alto Estado Otomano) foi uma entidade multiétnica, e as origens turcas da
dinastia governante (Osmanlis) não significam que o domínio político turco, significava
uma unidade de um povo único, suas elites tinham origem turca, balcânica,
caucasiana, árabe e iraniana.
A casa de Osman governou o império por mais de 600 anos (marcado e
legitimado por uma origem mítica vinculado a sem que tivesse produzido um corpo
mínimo de regras escritas para estabelecer critérios de sucessão ao trono.
Era atributo pessoal do sultão a escolha de um herdeiro entre seus filhos e não
havia nada que se assemelhasse ao direito de primogenitura que predominava na
Europa. Havia constantes disputas entre os príncipes que se consideravam no direito
de assumir a Sublime Porta. Às vezes, eles iam à guerra, cada um mobilizando suas
facções militares. Outras vezes, era o próprio monarca quem desencadeava uma
solução violenta, eliminando todos os seus filhos, exceto o escolhido como herdeiro. O
mecanismo encontrado pelos sultões para diminuir o impacto das contendas
intrafamiliares e, ao mesmo tempo, manter presente a autoridade da dinastia nas
diversas partes do império foi o de fazer de seus filhos e de outros membros da
parentela os governadores (paças ou pashas = paxás) das províncias (paçalik ou
pashalik). Na teoria, o desempenho militar e administrativo de cada um poderia dar o
parâmetro para a escolha do sucessor. Na prática, era uma solução temerária, uma vez
que os príncipes aproveitavam o distanciamento da corte para articular apoio entre os
notáveis locais e arregimentar sequazes para combaterem pelo trono no momento
preciso.

Núcleo conceitual 2 – A História política do Império Turco


Este período na história otomana pode ser dividido em duas eras
distintas de eras de crescimento econômico e cultural territorial antes de 1566,
seguida por uma era relativa estagnação militar e política.
Após a conquista de Constantinopla em 1453, o Império Otomano entrou
em longo período de conquista e expansão estendendo suas fronteiras
profundamente na Europa e norte da África. O Império prosperou sob o domínio
de séries de sultões culminando no governo de Suleyman, conhecido como aquele
de “magníficas conquistas.”
Chamam atenção a disciplina e inovação dos militares turcos e o
desenvolvimento de uma marinha eficiente, que fortaleceu e protegeu o comércio,
transformando o império como grande potência comercial.
Economicamente graças ao seu controle das principais rotas comerciais
terrestres entre a Europa e a Ásia é algo importante. Não há isolamento, proibição,
ou vingança. AS rotas eram frequentadas por povos diversos, reguladas, protegidas
por um governo.
No entanto , a morte de Suleymans em 1566 marcou o início de um era de
diminuição dos ganhos territoriais. A ascensão das nações da Europa Ocidental
como potências navais e o desenvolvimento de rotas marítimas alternativas da
Europa para a Ásia e o Novo Mundo prejudicou a economia otomana. Sem deixar
de ser importante a dinâmica com as regiões.
As estruturas militares e burocráticas eficazes do século anterior
também ficaram sob pressão durante o período prolongado de sultões que não
tiveram a mesma eficiência de seus antecessores. Mas isso não representa uma
fragilidade, diferente do que pode sugestionar o olhar ocidental. O império
permaneceu grande e expansionista até a Batalha de Viena em 1683, o primeiro
grande Derrota otomana em solo europeu.
Expansão e apogeu tem um inventário de vitórias, que vamos apontar
somente como forma de perceber a força do império.
A conquista otomana de Constantinopla em 1453 consolidou o status do
império como o poder preeminente no sudeste da Europa e no leste
Mediterrâneo.
Durante o século seguinte , o império estenderia sua influência para o
coração do mundo árabe e viria a dominar o sudeste da Europa Sultão Selim
1512 - 1520 expandiu dramaticamente os impérios das fronteiras leste e sul
derrotando o jovem Xá safávida da Pérsia - Ismail - na Batalha de Chaldiran.
Selim estabeleceu o domínio otomano no Egito e criou presença naval no Mar
Vermelho. Suleyman sucedeu Selim e é conhecido como o Magnífico (1520 – 1566) .
Depois de capturar Belgrado em 1521 Suleyman conquistou Reino de
Hungria estabelecendo o domínio otomano no território da atual Hungria e
outros territórios da Europa Central , vencendo a Batalha de Mohacs em 1526.
Ele então colocou cerco a Viena em 1529, mas não conseguiu tomar a cidade
após o início do inverno forçou sua retirada. Durante o reinado de Suleyman
foram expandidos os territórios da Transilvânia, Walachia e Moldávia. Império
Otomano no leste os otomanos tomaram Bagdá dos persas em 1535 dando-
lhes o controle de Mesopotâmia e acesso naval ao Golfo Pérsico.
Os Estados europeus começaram a contornar o monopólio comercial
turco estabelecendo suas próprias rotas navais para a Ásia. Estamos no período do
mercantilismo e uma importante batalha comercial e disputas de rota passam a ser
travadas, partindo da península itálica. Ali, foi trabada uma importante batalha por
um porto, na Batalha naval de Lepanto 1571 apressou o fim da primazia dos
impérios turcos no Mediterrâneo e , de fato , esta batalha foi considerada por
alguns historiadores anteriores para sinalizar o início do declínio otomano.
No final do século XVI , a era de ouro da conquista e da expansão
territorial estava sobre a fronteira de Habsburgo , em particular, tornou-se mais ou
fronteira menos permanente, marcada por acordos até o século XIX,
No campo de batalha , os otomanos gradualmente ficaram para trás dos
europeus na tecnologia militar à medida que a inovação que alimentava os
impérios de expansão forçada tornou-se sufocada pelo crescimento
conservadorismo religioso e intelectual. As mudanças nas táticas militares
europeias fizeram com que a outrora temida cavalaria Sipahi perdesse sua
relevância militar.
Economicamente o enorme fluxo de Prata espanhola do Novo Mundo
causou forte desvalorização da moeda otomana e inflação desenfreada Isso
teve sérias consequências negativas em todos os níveis do Otomano sociedade.
No entanto, o século XVII não foi simplesmente uma era de estagnação e
declínio, mas também período-chave em que o Estado otomano e suas
estruturas começaram a se adaptar a novas pressões e novas realidades internas e
externas.
O sultão guerreiro Murad IV (1612 – 1640) que recapturado Yerevan 1635 e
Bagdá 1639 dos Safávios é o único exemplo nesta era de sultão que exerceu
forte controle político e militar do império. Notavelmente Murad IV foi o último
imperador otomano que foi para guerra na frente de seu exército.
A derrota das forças otomanas lideradas pelo Grão-Vizir Kara Mustafa
Pasha no Segundo Cerco de Viena em 1683 nas mãos dos exércitos
combinados da Polônia e do Império Romano sob Jan III Sobieski foi o evento
decisivo que balançou o equilíbrio de poder na região em favor das nações
europeias sob os termos do Tratado de Karlowitz que pôs fim à Grande Guerra
Turca em 1699. Os otomanos cederam quase toda a Hungria Otomana,
Transilvânia , a Morea e Podolia à Áustria e Polônia eles também reconheceram
pela primeira vez em sua história que o Império Austríaco poderia tratar com
eles em igualdade de condições.
Mahmud II iniciou a modernização da Turquia preparando o Edital de
Tanzimat em 1839, que teve efeitos imediatos , como a legislação de arquitetura
de roupas de estilo europeu , organização institucional e reforma agrária.
O período Tanzimat da TanzimÆt turco significa que a reorganização
durou de 1839 a 1876. Durante este período muitas mudanças significativas foram
implementadas exército bastante moderno foi organizado o sistema bancário foi
reformado e as guildas foram substituídas por fábricas modernas.
Economicamente o império teve dificuldade em pagar seus empréstimos
aos bancos europeus ao mesmo tempo em que enfrentou desafios militares na
defesa de si mesmo contra a invasão e ocupação estrangeiras Egito , por
exemplo , foi ocupado pelos franceses em 1798, enquanto Chipre foi emprestado
aos britânicos em 1878 em troca de favores britânicos no Congresso de Berlim
após a derrota de o Império Otomano na Guerra Russo-Turca de 1877-78.
Enquanto esta era não foi sem alguns sucessos a capacidade do Estado
otomano de ter qualquer efeito sobre revoltas étnicas foi seriamente colocado
em questão Reformas fez não parar a ascensão do nacionalismo nos
Principados Danúbios e na Sérvia , que tinha sido semi-independente por quase
décadas em 1875 Sérvia Montenegro, Wallachia e a Moldávia declarou sua
independência do Império e após a Guerra Russo-Turca de 1877-78 a
independência foi formalmente concedida à Sérvia Romênia e Montenegro com
os outros territórios dos Balcãs permanecendo sob controle otomano.
Núcleo conceitual 3 – A Sociedade no Império Turco
O império abrigava súditos de outras religiões abraâmicas, protegidos (dhimmi)
do Islã. Milhares e milhares de cristãos e judeus viviam em seu território. Desde o
reinado de Mehemet II (1451–1481), o Estado começou a organizá-los em
comunidades denominadas millets (do árabe millah, religião ou grupo religioso). Seus
líderes representavam-nas diante do sultão e deviam cuidar dos afazeres do dia-a-dia,
provendo a educação, os serviços religiosos e a resolução dos conflitos que não
envolviam islâmicos. Cabia-lhes, também, a cobrança dos impostos. Eles compunham
setores mais ou menos integrados à estrutura política do sultanato. Os principais
millets cristãos eram o dos gregos ortodoxos, submetidos ao patriarca de
Constantinopla, e o dos armênios gregorianos. Outras denominações, como
nestorianos, sírios ortodoxos, maronitas e eslavos ortodoxos, existiam de fato como
millets, mas tendiam a ser subordinados aos
líderes gregos ortodoxos.
A autoridade patriarcal do homem mais velho era reconhecida por todos, algo
comum a islâmicos, cristãos e judeus. Com frequência, os jovens contraíam
matrimônios negociados entre seus pais. Os casamentos eram em sua maioria
monogâmicos, embora as unidades familiares fossem alargadas, com vários casais e
seus descendentes coabitando o mesmo espaço. Havia, ainda, fortes propensões à
endogamia, donde os numerosos casamentos entre primos. Parece fora de dúvida que,
entre os nômades e as populações aldeãs, as mulheres sofriam menos restrições do
que nas cidades. Elas pouco usavam os véus e tinham mais facilidades de acesso aos
homens de outras famílias.
A vida pública era um domínio essencialmente masculino, e mesmo as
mesquitas eram pouco frequentadas pelas mulheres. Neste ponto, convém dar uma
palavra sobre o harém, instituição que despertou os mais curiosos devaneios nas
mentes ocidentais. A palavra (do árabe haram) indica um lugar proibido, sagrado. No
caso das residências, um ou mais aposentos onde ficam esposas, irmãs e filhas,
assistidas ou não por serviçais, acessíveis apenas a uns poucos homens da família. No
passado, o número de esposas (até quatro para um muçulmano) e de concubinas que
um chefe de clã possuía demonstrava sua riqueza e seu prestígio, cabendo-lhe
sustentá-las e protegê-las. Os mais abastados dispunham de eunucos. Muitas
mulheres eram escravas, compradas ou raptadas. Outras eram negociadas, em troca
de proteção, por seus pais ou seus irmãos. Firmavam-se, assim, relações de clientela.
O comércio de escravos nutriu, por séculos, os cofres da casa otomana e forjou
segmentos poderosos da burguesia mercantil. Até meados do século XVIII, ele se
alimentava principalmente dos Bálcãs e do Cáucaso. Quando o império perdeu a
capacidade de se expandir sobre aquelas regiões, ele se voltou para a África.
Destinadas aos serviços domésticos ou aos haréns, as mulheres tinham preços
normalmente mais elevados do que os dos homens. A elite dava preferência aos
cativos brancos nos haréns e nos serviços palacianos. Os negros predominavam nas
atividades comerciais, nas oficinas e nas residências. A modalidade de escravidão que
notabilizou o império otomano foi o devsirme (ou devçirme), um modo de recrutar
militares e funcionários públicos introduzido no final do século XIV. Ele consistia na
cobrança de um tributo sob a forma de adolescentes masculinos às comunidades
cristãs, sobretudo gregos, eslavos e albaneses.
Em intervalos variados de anos, oficiais turcos (yaya-basis) ou seus prepostos
alistavam jovens entre oito e 20 anos, cuidando que não fossem judeus, membros de
certos grupos de artesãos, órfãos, filhos únicos ou casados. Eles eram levados para as
escolas palacianas, convertidos ao Islã, e, de acordo com as aptidões demonstradas,
conduzidos para a administração pública, o exército ou o serviço de pajem nas
residências reais. Alguns, após receberem uma educação islâmica rigorosa,
aprenderem turco, árabe e as regras do conviver cavalheiresco, tornavam-se oficiais
militares, os janízaros (yeniçeri = nova tropa).
Tropa de elite, os janízaros sofreram diversas mudanças desde o século XVI,
conforme o devsirme deixou gradualmente de ser a principal forma de recrutamento
de seus membros. Selim I permitiu que se casassem. Selim II (1566–1574) autorizou o
alistamento de seus filhos. Pouco depois, nativos turcos puderam entrar para as
tropas. No reinado de Murad IV (1623–1640), o tributo balcânico em escravos foi
suspenso. Daí em diante, os soldados vieram principalmente das populações locais,
mas os janízaros duraram até 1826, quando foram violentamente extintos.
“Os escravos do sultão representaram um novo patamar de
articulação burocrática e militar do Estado. Nos tempos iniciais do
sultanato, havia três corpos nas tropas assalariadas: uma infantaria
(yayas), uma cavalaria (sipahis e musellems) e os akincis, soldados que
compunham a linha de frente. Nas batalhas, os corpos regulares eram
precedidos por uma tropa de choque formada por nômades turcos e
bandos de eslavos, gregos, árabes, e até mesmo latinos. As demais
funções militares eram exercidas por soldados que se alistavam
voluntariamente, os azabs. A segurança das estradas e dos entrepostos
ficava aos cuidados do derbend, soldados cristãos ou muçulmanos
remunerados com isenção de tributos ou com direitos de coletar os
impostos. Os gazis eram recompensados através do sistema de timar,
concessão que lhes assegurava terras capazes de sustentar sua
parentela e seus soldados, que podiam ser mobilizados a qualquer
momento. (IMPÉRIOS NA HISTÓRIA COMPELAR)
Profissional, rigorosamente hierarquizada, essa elite militar contrastava com os
gazis da aristocracia turca tradicional. As tensões entre o devsirme e a velha guarda se
traduziram em confrontos de facções que deram o tom político do império, afetando
com frequência os processos sucessórios da casa otomana. Os êxitos na Anatólia, os
confrontos com Veneza no Egeu e as batalhas contra os principados balcânicos foram
empreendidos muitas vezes contra a opinião de segmentos da aristocracia turca.
O governo de Bayezit II (1481–1512) foi menos expansionista e mais
preocupado com a consolidação interna do Estado. Mesmo assim, conquistou regiões
da Moldávia (1484–1498), entrou em guerra com o Reino da Polônia e reduziu, através
de diversas vitórias navais, as pretensões de Veneza no mar Egeu (1499–1503). No Irã,
em 1501, um adolescente do clã azeri dos safávidas, Ismail, cercado por uma elite de
soldados, os qizilbash (cabeças vermelhas), tomou Tabriz, proclamou-se a encarnação
do imã e assumiu o título de xá. Em poucos anos, a região de Shirvan, a Armênia e o
Azerbaijão foram incorporados aos seus domínios. Os safávidas fizeram do xiismo uma
religião de Estado.
O território imperial era dividido em províncias (eylets) compostas por diversos
distritos (kaza). As unidades administrativas e militares eram chamadas de sanjaks (ou
sancaks), governadas por sanjakbeyi. Vários sanjaks formavam um eyalet sob a
autoridade de um beylerbey. Até o final do século XV, havia apenas duas províncias, a
Anatólia (Anadolu) e as terras da Europa (Rumeli). Em meados do século XVI, o império
possuía 31 eyalets, cinco na Europa (três com capitais nos Bálcãs: Sofia, Sarajevo e
Galipoli).
As administrações provinciais deviam assegurar o fornecimento contínuo de
receitas para o Tesouro do Estado e promover o recrutamento de soldados. Os
governadores (paxás ou beys) estavam encarregados de manter o policiamento e a
defesa e de solucionar as pendências que as comunidades subjugadas eram incapazes
de resolver. Os juízes (qadis) cuidavam dos assuntos legais. Na prática, a autoridade
desses altos cargos se confundia e acarretava tensões internas ao estamento
burocrático. Seus titulares distribuíam favores e articulavam alianças com a elite
regional. Muitos paxás forjaram suas próprias dinastias obtendo, algumas vezes,
bastante autonomia diante de Istambul. Houve diferenças significativas entre as
macrorregiões do império. Nos Bálcãs, os turcos nunca se tornaram maioria, mas
alguns países, como a Bósnia e a Albânia, foram profundamente islamizados.
Nos demais países, as comunidades gregas ou eslavas predominaram
largamente. Durante a maior parte do tempo em que dominou a região, o sultanato foi
muito bem-sucedido no controle das populações. Numerosos senhores feudais foram
incorporados ao império, tendo suas propriedades asseguradas e continuando a
manter o jugo sobre os camponeses. Muitos se transformaram em altos funcionários
do Estado. As classes populares não foram submetidas a impostos extorsivos até
meados do século XVIII. Seu maior problema era o devsirme, que ceifava muitas
famílias do seu melhor estoque de mão-de-obra. Ocorreram, sem dúvida, muitas
rebeliões contra os dominadores e seus acólitos locais; porém, antes do século XIX,
elas fizeram poucos estragos no poder imperial. As diversas saídas (rio Danúbio e
mares Adriático, Negro e Mediterrâneo) possibilitaram acesso permanente à Europa
Ocidental, que comprava milho, algodão, azeite, vinho e frutas, e vendia tecidos,
açúcar, vidros, armas, pólvora e especiarias. Formaram-se setores mercantis
poderosos na costa adriática e nas ilhas do Egeu. Nasceram, ainda, núcleos artesanais
exportadores. No mundo árabe, grupos de mercadores e artesãos cristãos e judeus
viviam em um território inteiramente islâmico. No Egito e no Hijaz, muitos funcionários
civis e militares do Estado mameluco foram mantidos em seus postos, subordinados a
membros da casa otomana e ao kapi kulari.
No Magrebe, as tropas e a burocracia eram, em grande medida, compostas por
nativos, muitos deles filhos de homens do devsirme com mulheres locais. O celeiro
egípcio garantia ao sultanato as rendas do comércio de arroz e açúcar. O Magrebe lhe
fornecia azeite. Os camponeses e as corporações de mercadores e artesãos eram
submetidos a tributos muito pesados, agravados pela forte concorrência dos europeus.
Em meados do século XVIII, o controle otomano sobre diversas regiões do mundo
árabe se enfraqueceu. Os mamelucos ocuparam os altos cargos militares e
burocráticos do Egito, embora reconhecessem a autoridade do sultão.
No Iraque (Basra, Bagdá e Mossul) e na Síria, governadores aliados aos notáveis locais
(ayans) procuraram fundar suas próprias dinastias e, contando com tropas pessoais,
conseguiram manter razoável independência do
centro imperial. Somente no século XIX, Istambul retomou o controle dessas áreas. Na
Anatólia, os turcos compunham a imensa maioria da população submetida a um clero
e uma burocracia fortes e conservadores. Nas áreas rurais, pastores nômades e
camponeses, dominados pelos detentores de timar, abasteciam Istambul. Nas cidades,
gregos, armênios e judeus operavam a vida comercial e artesanal. Apesar das
epidemias e das crises de abastecimento, a região conheceu um forte crescimento
demográfico ao longo da Era Moderna, o que motivou disputas permanentes pelos
escassos recursos naturais, agravadas pela alta contínua dos preços e pela tentativa
dos aristocratas de transformar seus direitos de timar em feudos (malikâne).

Bibliografia:
BISSIO, Beatriz. O mundo falava árabe. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. _
DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004.297(091) D443m _ _
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras,
1994. _953 H836h
LEWIS, Bernard. Os árabes na História. Lisboa; Estampa,

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Londres: The Eothen Press; 1998.

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thousand years Nova York: Scribner; 1995.

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Boulder: Westview Press; 1999.

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6. Kitsikis Dimitri. L’empire ottoman Paris: P.U.F.; 1985. 7. Mantran


Robert. Histoire de la Turquie Paris: P.U.F; 1968.
8. Pedani Maria Pia. Breve storia dell’Impero Ottomano Roma:
Aracne; 2006.

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10. Stavrianos Left en. A global history: from prehistory to the


present Englewood Cliffs: Prentice Hall; 1995.
11. SILVA, F. C; CABRAL, R. MUNHOZ, S. Impérios na História. Rio de Janeiro: Elsevier,
2009.

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A imponente catedral de Hagia Sophia foi convertida na grande


mesquita de Aya Sofya. As mudanças atraíram, além de turcos da
Anatólia, gregos da Moréia e da Ásia Menor, eslavos dos Bálcãs,
iranianos, árabes de vários países e refugiados judeus da Itália, da
Alemanha e da Espanha (sefarditas). Os novos governantes
asseguraram a continuidade das atividades comerciais.

Você pode visitar a mesma vitualmente: https://www.youtube.com/watch?


v=iZH9EwMKVB4&t=2s

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