1.
OBJETIVOS DA INVESTIGAÇÃO FINANCEIRA
Nas lições da doutrina especializada, a investigação financeira, tem por
objetivo: (PME POL MS)
1. Identificar os produtos e proveitos do crime; Produtos e proveitos
2. Iniciar as medidas cautelares assecuratórias; Medidas cautelares
3. Revelar a estrutura econômica e financeira da Estrutura econômica
organização criminosa; e financeira
4. Evidenciar e individualizar a participação de outros Participação dos
integrantes, pessoas físicas ou jurídicas, na organização integrantes
criminosa;
5. Identificar de todos os atos de ocultação e/ou Ocultação e
dissimulação do produto do crime, para a caracterização dissimulação
do crime de lavagem de dinheiro;
6. Identificar o(s) líder(s) da organização criminosa; Líderes
7. Documentar e sedimentar a metodologias de Metodologias e
investigação adotadas, bem como, o modus operandi modus operandi
mapeado;
8. Auxiliar na proteção de um sistema financeiro hígido, Sistema financeiro
expurgando do mercado instituições fraudulentas.
2. ROTEIRO DE INVESTIGAÇÃO FINANCEIRA
Pode-se afirmar que nenhuma investigação possui uma “receita de bolo”, mas
isso não impede que um roteiro seja adotado, tendo em vista ações progressivas no
curso da investigação e objetivando a elucidação do caso.
Nesse sentido, o roteiro abaixo conduz, dentro de um cenário ideal, a como
deve se dar a investigação financeira (CRDDPM):
1. COLETA E ANÁLISE: Levantamento de todas as informações possíveis sobre o
alvo (KYT);
2. RIC/COAF: Solicitar junto ao COAF o RIF sobre o alvo e de PFs ou PJs que
tenham relevância dentro do caso.
3. DADOS FISCAIS: Representação para o afastamento do sigilo de dados fiscais
juntos a órgãos federais, estaduais ou municipais.
4. DADOS BANCÁRIOS E/OU BURSÁTEIS: Representação para o afastamento do
sigilo de dados bancários e/ou bursáteis juntos a órgão federais, estaduais ou
municipais.
5. PATRIMÔNIO DO ALVO: Identificação de toda composição patrimonial do
alvo.
6. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS: Representação para as medidas cautelares
assecuratórias junto ao Poder Judiciário.
2.1. COLETA DE DADOS (KYT):
Sendo um dos objetivos da investigação criminal a identificação da autoria de
fatos criminosos, é “conditio sine qua non” a coleta e busca de dados relacionados
ao autor do fato investigado. Desta forma, obter informações eficientes sobre o alvo
(qualificação, vínculos sociais, vínculos profissionais...) contribui, de forma
significativa, na construção de seu perfil econômico-financeiro.
Frise bem isso: Sabendo que uma das fases do crime de lavagem de dinheiro é
a ocultação de BDVs (bens, direitos e valores), haverá uma relação proporcional
entre o nível de conhecimento sobre seu alvo e a construção do perfil econômico
do mesmo, inferindo diretamente no sucesso da investigação e na recuperação de
ativos vinculados ao crime investigado.
A coleta e análise se dá: em fontes abertas, fontes restritas, vigilância, BACEN
e operadoras de telefonia.
A coleta deve se dar em diversas fontes, sejam estas abertas, restritas e não
disponíveis em sistemas de dados, visando conhecer quem é o alvo, seus
relacionamentos, possíveis antecedentes criminais, possíveis bens e seu estilo de
vida, para que, como já referido, possamos construir seu perfil econômico-
financeiro.
Assim, é de suma importância estar bem ciente do fato investigado (O quê?
Onde? Quando? Quem? Como? Por quê?...), sabendo quais dados são relevantes, os
períodos que devem ser observados, em que fontes pesquisar, qual o nível de
profundidade de pesquisa sobre o alvo, onde solicitar acesso a dados protegidos,
como solicitar e como relatar de forma objetiva e eficiente o resultado destas
pesquisas.
Destacaremos duas fontes de dados que estão vinculadas a instituições
financeiras e empresas de telefonia. Estes dados são de grande relevância para
pedidos futuros, tais como pedido de quebra de dados telefônicos/telemáticos e
bancários:
2.1.1. Dados Cadastrais
Excelente ferramenta de investigação à disposição das equipes de
investigação são os dados cadastrais sobre os investigados, os quais poderão ser
acessados mediante requisição do Delegado de Polícia Civil, conforme expresso
permissivo do art. 17-B da Lei 9.613/98: Art. 17-B.
A autoridade policial e o Ministério Público terão acesso, exclusivamente, aos
dados cadastrais do investigado que informam qualificação pessoal, filiação e
endereço, independentemente de autorização judicial, mantidos pela Justiça
Eleitoral, pelas empresas telefônicas, pelas instituições financeiras, pelos
provedores de internet e pelas administradoras de cartão de crédito.
2.1.2. Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional – CCS
Como espécie de dados cadastrais, o Cadastro de Clientes do Sistema
Financeiro Nacional é o banco de dados mantido pelo Banco Central do Brasil,
contendo os dados de todas as contas de bens, direitos ou valores mantidos pelas
instituições financeiras em todo o território nacional.
Assim dispõe a Lei nº 9.613/98:
Art. 10A. O Banco Central manterá registro centralizado formando o
cadastro geral de correntistas e clientes de instituições financeiras, bem
como de seus procuradores.
Mecanismo de consulta, sob gestão do Banco Central, que permite indicar,
com segurança, tempestividade e alto grau de automação, com quais instituições os
clientes do S.F.N. mantêm relacionamento, diretamente ou por seus representantes
legais e procuradores.
Atualmente, a Polícia Civil do Estado do Pará tem acesso direto para
consultas ao CCS, através do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de
Dinheiro (LAB-LD), enquanto unidade integrante da Rede Nacional de
Laboratórios. Desta forma, eventuais consultas ao CCS, podem ser solicitadas pela
autoridade policial do LAB-LD.
2.1. RELATÓRIO DE INTELIGÊNCIA FINANCEIRA:
Segundo o COAF, o Relatório de Inteligência Financeira (RIF) é “o resultado
das análises de inteligência financeira decorrentes de comunicações recebidas, de
intercâmbio de informações ou de denúncias”.
Por sua vez, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) é uma
Unidade de Inteligência Financeira (Financial Information Unit – FIU). É a agência
nacional e central, responsável por receber, requerer, analisar e distribuir às
autoridades competentes as denúncias sobre as informações financeiras com
respeito a procedimentos presumidamente criminosos. (De Sanctis, Fausto Martin,
Combate à Lavagem de Dinheiro).
O COAF tem por finalidade disciplinar, aplicar penas administrativas, receber,
examinar e identificar as ocorrências suspeitas de atividades ilícitas (art. 14 da Lei
9.613/1998), podendo requerer aos órgãos da Administração Pública as
informações cadastrais bancárias e financeiras de pessoas de pessoas envolvidas
em atividades suspeitas.
O COAF, enquanto Unidade de Inteligência Financeira atua na coleta de dados
perante as pessoas obrigadas, análise desses dados, elaboração do Relatório de
Inteligência Financeira (RIF) e encaminhamento do mesmo às autoridades
competentes.
Os Relatórios de Inteligência Financeira podem ser:
Espontâneo (de ofício): RIF elaborado por iniciativa do COAF, resultante
da análise de comunicações recebidas ou de denúncia; ou
De intercâmbio (solicitação): RIF elaborado para atendimento a
solicitação de intercâmbio de informações, por autoridades nacionais ou
por Unidades de Inteligência Financeira.
Os dados constantes nos RIFs envolvem tanto operações tidas como suspeitas
(saques em dinheiro de grandes valores, operações com seguros, grandes
movimentações em sequência) quanto operações em espécie, além de dados de
registro obrigatórios, como transações com imóveis.
Esses dados podem rapidamente mostrar relações bancárias entre suspeitos
sem que haja necessidade de autorização judicial e quebra de sigilo bancário.
Os RIFs, muito embora sejam intitulados de “relatórios de inteligência”,
possuem natureza de relatório de informações, podendo, portanto, serem
utilizados nos procedimentos de investigação, como os inquéritos policiais.
Ressalte-se, contudo, que os RIF´s contém dados e informações de
movimentações ou transações financeiras suspeitas ou atípicas, não caracterizando
por si só a ilicitude de tais transações. Desta forma, configuram-se como excelente
ferramenta investigativa à disposição das equipes policiais.
O RIF somente pode ser solicitado pelo Delegado de Polícia, a autoridade que
é devidamente habilitada pelo COAF, para tanto deverá fazê-lo via o sistema
Eletrônico de Intercâmbio do COAF – SEI-C.
O COAF concentra diversas informações que poderão auxiliar na investigação,
tais como operações bancárias e imobiliárias. Após a solicitação de informações,
que para os cadastrados se dá por meio do SEI-C, o órgão elabora um Relatório de
Informações Financeiras (RIF) com os dados solicitados.
Para acesso ao SEI-C, o Delegado de Polícia deverá se cadastrar no sistema
através do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD),
unidade responsável pelo gerenciamento do perfil institucional da Polícia Civil do
Estado do Pará.
3. HISTÓRICO (convenções):
CONVENÇÃO DE VIENA DE 1988 (marco normativo mais importante)
CONVENÇÃO DE ESTRASBURGO (2ª geração da legislação antilavagem)
CONVENÇÃO DE PALERMO (definiu grupo criminoso organizado)
CONVENÇÃO DE MÉRIDA (objetiva atacar a corrupção por financiar ORCRIM)
3.1. CONVENÇÃO DE VIENA DE 1988:
Tráfico ilícito de entorpecentes e de substâncias psicotrópicas.
Esta convenção pode ser considerada o marco normativo mais importante no
que tange à instituição de normas incriminadoras de condutas de lavagem de
dinheiro.
O seu art. 3º passou a tipificar as condutas relacionadas à lavagem de
dinheiro, dando as bases para a criação destes tipos no direito interno dos estados
signatários. Definiu medidas de confisco de bens do lavador, a abertura do sigilo
bancário em questão de provas do delito, a cooperação e integração entre países,
bem como outras transferências de inteligência entre os signatários.
3.2. CONVENÇÃO DE ESTRASBURGO:
Sobre lavagem de dinheiro, busca, apreensão e confisco dos produtos do
crime.
Realizada em 1990, entrou em vigor em 1993, pode ser considerada a 2ª
geração da legislação antilavagem, uma vez que ampliou os delitos antecedentes.
Pode-se afirmar que uma das principais preocupações dessa convenção é a
apreensão dos capitais ilícitos, impedindo que os criminosos tirem proveito desses
valores.
3.3. CONVENÇÃO DE PALERMO:
Convenção das Nações Unidas contra o crime organizado transnacional.
Assinada em novembro de 2000. Definiu o conceito de grupo criminoso
organizado. Passou a considerar como delito antecedente, além do narcotráfico, a
participação em grupo criminoso, a corrupção e a obstrução da justiça. Trouxe
diversas disposições acerca do controle interno dos bancos e também sobre o
confisco de bens.
3.4. CONVENÇÃO DE MÉRIDA:
Convenção das Nações Unidas contra a corrupção, de 9 de dezembro de 2003,
que teve por objetivo atacar a corrupção enquanto crime financiador das
organizações criminosas, que possui como uma das suas características a
infiltração nas estruturas estatais, retirando dali parte de seus recursos.
Em seu art. 23 trata da criminalização da lavagem de dinheiro como
obrigação dos países signatários, que devem adotar medidas legislativas para
qualificar como delito as condutas ali definidas. Reforça a necessidade de
cooperação internacional no combate a esses delitos e no confisco e recuperação
de ativos.
4. LEGISLAÇÃO (Lei 9.613/98):
4.1. CONCEITO E TIPIFICAÇÃO:
Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição,
movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes,
direta ou indiretamente, de infração penal.
§ 1º Incorre na mesma pena quem, para ocultar ou dissimular a
utilização de bens, direitos ou valores provenientes de infração penal:
I - os converte em ativos lícitos;
II - os adquire, recebe, troca, negocia, dá ou recebe em garantia, guarda,
tem em depósito, movimenta ou transfere;
III - importa ou exporta bens com valores não correspondentes aos
verdadeiros.
§ 2º Incorre, ainda, na mesma pena quem:
I - utiliza, na atividade econômica ou financeira, bens, direitos ou valores
provenientes de infração penal;
II - participa de grupo, associação ou escritório tendo conhecimento de
que sua atividade principal ou secundária é dirigida à prática de crimes
previstos nesta Lei.
4.2. COMPETÊNCIA:
Art. 2º O processo e julgamento dos crimes previstos nesta Lei:
I – obedecem às disposições relativas ao procedimento comum dos
crimes punidos com reclusão, da competência do juiz singular;
II - independem do processo e julgamento das infrações penais
antecedentes, ainda que praticados em outro país, cabendo ao juiz
competente para os crimes previstos nesta Lei a decisão sobre a unidade
de processo e julgamento;
III - são da competência da Justiça Federal:
a) quando praticados contra o sistema financeiro e a ordem econômico-
financeira, ou em detrimento de bens, serviços ou interesses da União,
ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas;
b) quando a infração penal antecedente for de competência da Justiça
Federal.
§ 1º A denúncia será instruída com indícios suficientes da existência da
infração penal antecedente, sendo puníveis os fatos previstos nesta Lei,
ainda que desconhecido ou isento de pena o autor, ou extinta a
punibilidade da infração penal antecedente.
5. FASES DA LAVAGEM DE DINHEIRO:
O processo completo da lavagem de dinheiro é composto por ao menos três
fases: colocação, ocultação e integração dos bens à economia formal.
5.1. 1ª FASE: COLOCAÇÃO/PLACEMENT:
Consiste na separação física do dinheiro dos autores do crime, sem ocultação
da identidade dos titulares, antecedida pela captação e concentração do dinheiro.
É a fase mais vulnerável, nela há a aplicação direta do dinheiro no sistema
financeiro, utilizando-se, por exemplo, de transferências de valores. a esta fase o
Conselho de Controle de Atividades Financeira – COAF apresenta o seguinte
conceito:
1ª - Colocação: é a entrada do dinheiro no sistema econômico.
Objetivando ocultar sua origem, os criminosos procuram movimentar o
dinheiro em países com regras mais permissivas e naqueles que
possuem um sistema financeiro liberal. A colocação se efetua por meio
de depósitos, compra de instrumentos negociáveis ou compra de bens.
Nessa fase, há a conversão em moeda estrangeira através de “doleiros” e
a utilização de “mulas” para o transporte físico de divisas para o exterior.
É muito comum também o artifício da importação de mercadorias
superfaturadas ou inexistentes, para a remessa de dinheiro ao exterior.
Mediante prévia combinação com o exportador, a parte que excede o
valor correto da transação é depositada em conta bancária indicada pelo
importador.
5.2. 2ª FASE: OCULTAÇÃO / LAYERING:
Nessa fase, multiplicam-se as transações anteriores, com várias
transferências por cabo (wire transfer) através de muitas empresas e contas, de
modo a que se perca a trilha do dinheiro (paper trail), com que não se possa
identificar a origem ilícita dos valores ou bens.
É a o momento para a dissociação dos recursos ilegais, fazendo-os passar por
diversas e sucessivas transações financeiras.
Caracteriza-se pelo uso de transações comerciais ou financeiras posteriores à
ocultação que, pelo número ou qualidade, contribuem para afastar os valores de
sua origem ilícita. São exemplos da dissimulação o envio do dinheiro já convertido
em moeda estrangeira para o exterior via cabo para contas de terceiros ou de
empresas das quais o agente não seja beneficiário ostensivo, o repasse dos valores
convertidos em cheque de viagem ao portador com troca em outro país, as
transferências eletrônicas não oficiais, ou mistura com quantias movimentadas
legalmente dentre tantas outras.
Para o COAF:
2ª - Ocultação: consiste em dificultar o rastreamento contábil dos
recursos ilícitos. O objetivo é quebrar a cadeia de evidências ante a
possibilidade da realização de investigações sobre a origem do dinheiro,
buscando os criminosos movimentá-lo de forma eletrônica, transferindo
os ativos para contas anônimas ou de “laranjas”. No processo de
transferência, o dinheiro ilícito mistura-se com quantias movimentadas
legalmente. O desenvolvimento da Internet e da tecnologia do dinheiro
digital ampliou as possibilidades de ação dos agentes criminosos,
propiciando-lhes maior rapidez nas transações, com a garantia do
anonimato. Nesta etapa, ocorrem as transferências internacionais “via
cabo” (wire transfer), e a utilização de sociedades em centros off-shore, e
a compra de instrumentos financeiros com possibilidades de rotação
rápida e contínua, composta de ativos de fácil disponibilidade.
5.3. 3ª FASE: INTEGRAÇÃO / INTEGRATION:
Ocorre quando o dinheiro é empregado em negócios lícitos ou compra de
bens, dificultando ainda mais a investigação.
Nessa fase, através de aplicações, investimentos ou compras de outros ativos,
procura-se justificar os ativos originalmente ilícitos através de uma aparência de
licitude.
Para o COAF:
3ª - Integração: nesta última, os ativos são incorporados formalmente ao
sistema econômico. As organizações criminosas buscam investir em
empreendimentos que facilitem suas atividades - podendo tais
sociedades prestar serviços entre si. Uma vez formada a cadeia, torna-se
cada vez mais fácil legitimar o dinheiro ilegal. Os meios mais utilizados
nesta etapa são os investimentos em cadeias hoteleiras, supermercados,
participação em capital social de empresas, compra de imóveis, ouro,
pedras preciosas, obras de arte, etc.
6. TIPOLOGIAS:
As tipologias tratam-se de uma classificação utilizada para a catalogação das
técnicas de lavagem de dinheiro identificadas, como forma, de facilitar as
investigações, através da fixação de características comuns e similitudes.
6.1. MERCADO IMOBILIÁRIO:
A lavagem de dinheiro é uma prática muito frequente no setor imobiliário.
Por meio da transação de compra e venda de imóveis, os agentes criminosos lavam
recursos com relativa facilidade.
O método consiste geralmente em operações simuladas de compra e venda de
imóveis, com emprego de empresas de fachada ou testas-de-ferro e conta com o
apoio e/ou omissão das imobiliárias e notários. O investimento no setor da
construção civil também é usado, na medida em que ao aportar recursos para um
empreendimento imobiliário, nem sempre a origem dos recursos é declarada ou,
muitas das vezes, é dissimulada.
6.2. JOGOS E SORTEIOS:
São conhecidos os casos de lavagem de dinheiro por meio de jogos e sorteios,
como bingos e loterias.
As principais características desses processos criminosos envolvem a
manipulação das premiações e a realização de alto volume de apostas em uma
determinada modalidade de jogo, buscando fechar combinações. A compra de
bilhetes premiados também é um método bastante utilizado.
6.3. SIMULAÇÃO DE LUCROS EM PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM GERAL (POSTOS
DE GASOLINA, GARAGENS, RESTAURANTES, HOTÉIS, CONSULTORIAS, LOCADORAS
DE VEÍCULOS ETC.):
Lucro fictício na contabilidade da empresa, de forma a esquentá-lo.
6.4. AUTO-EMPRÉSTIMO:
Esse método teria as seguintes características: efetua-se um depósito em
conta bancária, em um país onde não existam maiores controles, em nome de um
terceiro ou de uma empresa de fachada.
Com um comprovante de depósito, o “lavador” solicita um empréstimo em
outro banco, geralmente em outro país, utilizando o depósito efetuado como
garantia, e simulando a aplicação do crédito em algum negócio.
Posteriormente, o empréstimo não é pago e a instituição financeira executa a
garantia, recebendo o dinheiro “sujo”, com aparência de legalidade. Ao mesmo
tempo, o dinheiro recebido pelo “lavador”, através da instituição, (empréstimo)
também tem aparência de legalidade, conseguindo-se, assim, o intento de
dissimular a origem ilícita do dinheiro.
6.5. SUPERFATURAMENTO E SUBFATURAMENTO:
Superfaturar é atribuir a uma operação de caráter econômico valor superior
ao valor real da operação, enquanto subfaturar é realizar o contrário.
Para fins de lavagem de dinheiro, empresas ligadas aos criminosos
geralmente simulam rendimentos, superfaturando lucros, créditos, pagamentos
etc., para fazer com que o dinheiro sujo pareça ser proveniente da atividade
comercial.
Nesse tipo de operação, os delinquentes são grandes pagadores de impostos,
já que demonstram um lucro sobre o qual pagam corretamente a porcentagem que
a legislação exige. É por esse motivo que muitos países têm investigado pessoas
que recolhem impostos de maneira excessivamente correta e pontual.
6.6. “LARANJAS” OU “FANTASMAS”:
Os “laranjas” são pessoas encarregadas de figurar como titulares de contas
bancárias utilizadas pelos criminosos para receber depósitos e transferências no
intuito de fazer circular o dinheiro ilícito.
Sua utilização visa, portanto, dificultar a tarefa do investigador já que
contribuem para manter no anonimato os verdadeiros donos do dinheiro. Os
laranjas geralmente são “contratados”, emprestando dados pessoais ou
efetivamente comparecendo à instituição bancária para abrir contas correntes ou
efetuar movimentações financeiras.
6.7. MESCLA (COMMINGLING):
É a ocultação de capital sujo em meio a dinheiro com origem lícita, de modo a
tornar mais difícil a separação de um e de outro pelas autoridades de fiscalização e
repressão.
Para esta tipologia é comum a utilização de ramos de negócio em que se
costuma pagar em dinheiro e cuja identificação dos clientes não existe ou é
praticamente impossível (por exemplo, restaurantes, lavanderias, hotéis e
pousadas, postos de gasolina, empresas de ônibus etc.).
7. DECOR e REDE-LAB:
7.1. DECOR:
Art. 2º A DECOR/PC-PA, dirigida por Delegado de Polícia Civil de
carreira, da ativa, estável no cargo, subordinada ao Delegado-Geral da
Polícia Civil do Estado do Pará, é unidade administrativa de atuação
operacional da instituição, com atuação em todo o Estado do Pará, tendo
por atribuições precípuas:
I - apurar ações que importem “lavagem” ou ocultação de bens, direitos e
valores decorrentes da infração penal;
II - promover a apuração dos crimes praticados contra a Ordem
Tributária em face do Estado do Pará, no âmbito da Administração
Pública Direta e Indireta, mesmo nos casos nos quais o Estado do Pará
tome parte como beneficiário, partícipe ou terceiro interessado; e
III - apurar a ocorrência de fraudes e corrupção praticadas no âmbito da
Administração Pública, cujas consequências importem em lesão ao
Erário e à moralidade administrativa, em especial aquelas previstas na
Lei Federal nº 8.429, de 2 de junho de 1992, e na Lei Federal nº 8.666, de
21 de junho de 1993.
Vale destacar que a DECOR é composta pelas seguintes divisões: Divisão de
Repressão à Lavagem de Dinheiro (DRLD); Divisão de Repressão a Crimes Contra
Ordem Tributária (DOT) e Divisão de Repressão à Corrupção e ao Desvio de
Recursos Públicos (DECORD).
As divisões que compõe a DECOR tem circunscrição sobre todo o Estado do
Pará, atuando sobre as demandas decorrentes de requisição ou por meio de
instauração de ofício.
7.2. REDE-LAB:
O Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) é uma
unidade de análise de dados que visa à identificação de atividades ilícitas, com a
aplicação de soluções tecnológicas, metodologia e perfis profissionais próprios.
O Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro atua
especificamente na atividade de análise de dados, especialmente dados financeiros,
tais como os provenientes de afastamento de sigilos bancário e fiscal,
documentação contábil, entre outros.
Na Polícia Civil do Estado do Pará, o LAB-LD foi instituído, através de
convênio de cooperação federativo com o Ministério da Justiça, como unidade de
análise vinculada diretamente ao Núcleo de Inteligência Policial (NIP), com
subordinação imediata ao Delegado-Geral de Polícia Civil.
8. ENCCLA:
Em 2003, através de iniciativa capitaneada pelo Ministério da Justiça, iniciou-
se um novo processo de restruturação nacional para a articulação e integração de
forças para o combate à criminalidade organizada, resultando-se na criação da
ENCCLA.
No Brasil, o SBPCLD adotou por diretrizes o combate ao crime organizado, à
lavagem de dinheiro e o enfretamento à corrupção.
A ENCCLA é a principal rede de articulação para o arranjo e discussões em
conjunto com uma diversidade de órgãos dos Poderes Executivo, Legislativo e
Judiciário das esferas federal e estadual e, em alguns casos, municipal, bem como
do Ministério Público de diferentes esferas, e para a formulação de políticas
públicas voltadas ao combate àqueles crimes.
A ENCCLA tem a seguinte estrutura: Plenária, Gabinete de Gestão Integrada
(GGI) e Grupos de Trabalho Anual e Secretaria Executiva.