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Este trabalho de conclusão de curso apresenta um material didático sobre sequências de funções, um tópico avançado em análise matemática, destinado a licenciandos em matemática. O objetivo é preencher lacunas na formação dos estudantes e facilitar a compreensão de conceitos essenciais, utilizando como referência obras de Elon Lages Lima. O material busca ser acessível e contribuir para a formação de profissionais mais capacitados na área.

Enviado por

GlaubertoMaia
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

a
FACULDADE DE FILOSOFIA DOM AURELINO MATOS
CURSO DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA

JOEL VITOR BARRETO SANTOS

SEQUÊNCIAS DE FUNÇÕES: MATERIAL DE APOIO PARA O ESTUDO


DE ANÁLISE MATEMÁTICA

LIMOEIRO DO NORTE - CEARÁ


2022
JOEL VITOR BARRETO SANTOS

SEQUÊNCIAS DE FUNÇÕES: MATERIAL DE APOIO PARA O ESTUDO DE


ANÁLISE MATEMÁTICA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao curso de Licenciatura em Matemática
da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano
Matos, centro da Universidade Estadual do
Ceará, como requisito parcial à obtenção do
grau de licenciado em Matemática.

Orientador: Prof. Dr. Flávio Alexandre


Falcão Nascimento

LIMOEIRO DO NORTE - CEARÁ


2022
JOEL VITOR BARRETO SANTOS

SEQUÊNCIAS DE FUNÇÕES: MATERIAL DE APOIO PARA O ESTUDO DE


ANÁLISE MATEMÁTICA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao Curso de Licenciatura em Matemática da
Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos,
centro da Universidade Estadual do Ceará,
como requisito parcial à obtenção do grau de
licenciado em Matemática.

Aprovada em: 12/12/2022 .

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Flávio Alexandre Falcão Nascimento (Orientador)


Universidade Estadual do Ceará (UECE)

Prof. Dr. José Erivamberto Lima Oliveira


Universidade Estadual do Ceará (UECE)

Profa. Dra. Mariana de Brito Maia


Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA)
1

Dedico este trabalho a Deus e à minha


famı́lia, em especial as três mulheres da mi-
nha vida, mãe, esposa e minha falecida avó
que estará sempre em meu coração.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Jeová Deus, por seu meu ajudador em todas as


provações.
Agradeço á minha famı́lia e amigos, em especial meus pais, Sonia Maria Barreto
e Paulo Cezar Cunha Santos, meus exemplos de vida e porto seguro. Sem o incentivo
e a confiança depositadas em mim por eles nada disso seria possı́vel. Também expresso
meus profundos agradecimentos a meu primo, Inácio Alan, que me incentivou em diversos
aspectos, em particular na matemática.
Agradeço a minha esposa Gecicleide, a qual sempre me apoiou, motivou e me
fez um homem melhor em todos os sentidos.
Agradeço aos professores que fizeram parte de minha formação acadêmica,
em particular os professores Flávio Falcão, que sempre acreditou em mim e me apoiou
em palavras e ações, além de ter participado diretamente na produção deste trabalho
como meu orientador, Jose Matias da Costa, por acreditar em mim e pelas oportunidades
oferecidas, e Wanderley de Oliveira Pereira pelo apoio e os ensinamentos.
A todos aqueles que participaram de forma direta ou indireta na produção
deste trabalho, meu mais sincero obrigado.
1

“A beleza da matemática só se mostra aos


seguidores mais pacientes.”
(Maryam Mirzakhani)
RESUMO

Em geral, nos cursos de Licenciatura em Matemática, as disciplinas destinadas ao es-


tudo da Análise se restringem a apresentação dos conceitos iniciais. Levando em conta a
importância que carregam os tópicos tratados no estudo dessa área e a dificuldade relaci-
onada à compreensão destes conceitos, o presente trabalho visa desenvolver um material
didático e acessı́vel sobre um tópico avançado e essencial para o avanço nos estudos em
Análise, Sequências de Funções. Para tanto, foi tomado como referência principal os li-
vros “Análise Real: funções de uma variável” e “Curso de Análise” volume 1, ambos de
autoria de Elon Lages Lima. O público ao qual se destina tal material são os licenciandos
em Matemática que buscam preencher as lacunas deixadas em sua formação, seja para
amadurecer em sentido matemático e, consequentemente, se tornar um profissional mais
capacitado, ou para prosseguir na carreira acadêmica.

Palavras-chave: Sequências de Funções. Licenciatura em Matemática. Material didático.


ABSTRACT

In general, in Mathematics Degree courses, the disciplines intended for the study of Analy-
sis are restricted to the presentation of initial concepts. Taking into account the impor-
tance that the topics treated in the study of this area carry and the related difficulty to
the understanding of these concepts, the present work aims to develop a material didac-
tic and accessible on an advanced and essential topic for the advancement of studies in
Analysis, Sequences of Functions. For this purpose, the books were taken as the main re-
ference. “Análise Real: funções de uma variável” and “Curso de Análise”, volume 1, both
by authored by Elon Lages Lima. The public to which such material is intended are the
licensees in Mathematics who seek to fill in the gaps left in their education, whether for
mature in a mathematical sense and, consequently, become a more professional trained,
or to pursue an academic career.

Keywords: Function Sequences. Degree in Mathematics. Didactic material.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Exemplo 3.3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29


Figura 2 – Exemplo 3.4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
Figura 3 – Exemplo 3.5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
Figura 4 – Exemplo 3.6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
Figura 5 – Faixa de raio ε em torno do gráfico de f . . . . . . . . . . . . . . 32
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
2 RESULTADOS PRELIMINARES . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
2.1 Sequências de Números Reais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
2.2 Alguns Exemplos de Sequências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
2.3 Séries Numéricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
2.4 Topologia da Reta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
2.5 Funções Contı́nuas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
2.6 Integral de Riemann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
2.7 Cálculo com Integrais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
3 SEQUÊNCIAS DE FUNÇÕES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
3.1 Convergência Simples . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
3.2 Convergência Uniforme . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
3.3 Propriedades da convergência uniforme . . . . . . . . . . . . . . 34
3.4 Série de Funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
3.5 Séries de Potências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
3.6 Funções Trigonométricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
3.7 Séries de Taylor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
4 EXERCÍCIOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
4.1 Seção 1: Convergência Simples e Convergência Uniforme. . . . 65
4.2 Seção 2: Propriedades da convergência uniforme. . . . . . . . . 75
4.3 Seção 3: Séries de Potências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
REFERÊNCIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
11

1 INTRODUÇÃO

A matemática atualmente pode ser dividida em três grandes áreas, a saber,


a Geometria, Álgebra e Análise. A história do desenvolvimento da Análise remonta ao
que se pode considerar os primórdios da matemática, com a civilização grega em suas
tentativas de obter a área do cı́rculo através da construção, apenas com régua e compasso,
de um quadrado que possuı́sse a mesma área do cı́rculo, tentativa essa que não teve
êxito. Em particular, destaca-se nesse perı́odo o método da exaustão, criado por Eudoxo
e aprimorado por Arquimedes, que consistia em calcular áreas através da inscrição de
polı́gonos em uma figura. É possı́vel notar neste método um vislumbre do que seria
formalizado futuramente com o conceito de limite.
Mais a frente no tempo, com René Descartes (1596-1650), foi desenvolvido um
método para determinar retas tangentes a curvas planas descritas por uma equação, o
qual segue um caminho diferente do que hoje conhecemos como o conceito de derivada
para obter retas tangentes, mas que já evidenciava a necessidade de tratar deste conceito.
Posteriormente, com Issac Barrow (1630-1677), notou-se a relação existente entre o pro-
blema de determinar a área de figuras não necessariamente planas e a obtenção de retas
tangentes. Não se pode deixar de mencionar também os famosos precursores do Cálculo,
Issac Newton (1643-1727) e Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), os quais deram con-
tribuições inestimáveis para o desenvolvimento dessa área da Matemática, Newton com
a criação do método dos fluxos e Leibniz com o estabelecimento de famosas fórmulas do
cálculo e notações que perduram até os tempos atuais. Apesar de todos esses avanços
na área do cálculo essa teoria ainda necessitava de um maior rigor no tratamento de
suas definições e propriedades, trabalho este que ficou a cargo dos futuros matemáticos
que sucederam Newton e Leibniz, como é o caso de Leonhard Euler (1707-1783), Jean-
le-Rond d’Alembert (1717-1783), Joseph Luis Lagrange (1736-1813), Bernhard Bolzano
(1781-1848), Augustin-Louis Cauchy (1789-1857), dentre outros, os quais colaboraram
no desenvolvimento da análise por tornarem mais rigorosos os conceitos de limites e de
sequências, os quais desempenham um papel fundamental nessa área (Thomé, Duro, and
Andrade, 2020). Nesse contexto, encontra-se um tema bastante relevante que é o conceito
de sequências de funções, que é o tema principal desta monografia.
O presente trabalho tem como objetivo principal produzir um material didático
de Análise Matemática, com ênfase no conteúdo de sequências de funções. Para tanto,
foram estabelecidos como objetivos especı́ficos: 1) explorar sequências de funções com
base em bibliografias voltadas para o estudo de análise, como é o caso das obras de Lima
(2014), Lima (2012), Figueiredo (1996) e Rudin (1976); 2) expor os resultados de forma
clara, de modo a tornar o conteúdo o mais acessı́vel o possı́vel para os leitores e 3) tratar
com mais detalhes os resultados omitidos e evidenciados nas literaturas utilizadas como
referência, como os exemplos e os exercı́cios propostos nas mesmas.
12

De acordo com o objetivo principal desta pesquisa, ela pode ser classificada
como exploratória, visto que, segundo Gil,

Estas pesquisas têm como objetivo proporcionar maior familiaridade


com o problema, com vistas a torná-lo mais explı́cito ou a constituir
hipóteses. Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal
o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições. (GIL et al.,
2002, p.41)

Já com respeito a metodologia adotada pode-se classifica-la como uma pesquisa
bibliográfica, pois, conforme Gil et al. (2002), este tipo de pesquisa é desenvolvida tendo
como base material já elaborado, principalmente livros e artigos cientı́ficos.
Um dos fatores motivadores para a elaboração deste trabalho foi, em um pri-
meiro momento, a possibilidade de produzir um material didático sobre um tema relevante
na área da Análise Matemática, o qual, por diversos fatores, acaba não sendo abordado
nas disciplinas voltadas para a Análise nos cursos de Licenciatura. Em verdade, grande
parte dos cursos de Licenciatura restringem o estudo de Análise aos tópicos iniciais, como
a construção do conjunto dos números naturais através dos Axiomas de Peano, a axioma-
tização do corpo ordenado completo dos números reais e sequências e séries numéricas.
Isto, por sua vez, pode ter um impacto negativo na formação do discente, visto que este
não terá a oportunidade de conhecer bases teóricas em que boa parte da Matemática se
sustenta e de amadurecer em sentido matemático ao enfrentar os desafios e barreiras que
os demais temas desta área trazem consigo. Outro entrave que esta situação desencadeia
diz respeito aos estudantes que almejam prosseguir uma carreira acadêmica, os quais se
veem obrigados a seguir os estudos de forma autônoma, o que pode ser desmotivador,
devido a maturidade que tais alunos carecem e que é indispensável para compreender as
teorias que se seguem.
O texto encontra-se dividido em 4 capı́tulos, iniciando com resultados pre-
liminares sobre temas recorrentes no decorrer deste trabalho, como sequências e séries
numéricas, topologia da reta, funções contı́nuas e integral de Riemann. No segundo
capı́tulo será dado inı́cio ao estudo de sequências de funções, abordando tópicos como as
principais propriedades da convergência uniforme, série de funções, séries de potências
e uma definição analı́tica das funções trigonométricas através de séries de potências. A
seguir, serão apresentadas no terceiro capı́tulo as resoluções dos exercı́cios presentes no
último capı́tulo do livro de Lima (2014). No quarto e último capı́tulo encontram-se as
considerações finais acerca da elaboração deste trabalho, como os desafios enfrentados e
as perspectivas para futuros trabalhos.
13

2 RESULTADOS PRELIMINARES

Neste primeiro momento iremos apresentar algumas definições, teoremas e pro-


posições que julgamos ser de grande importância para o desenvolvimento e compreensão
da teoria que será apresentada no Capı́tulo seguinte. Vale ressaltar que, nesta seção, serão
omitidas, na maioria dos casos, as demonstrações, levando em conta que: 1) os resultados
apresentados nesse capı́tulo serão apenas para situar o leitor dos argumentos utilizados
no próximo capı́tulo e na resolução dos exercı́cios que se encontram no fim deste trabalho
e 2) as propriedades aqui expostas remetem a um curso de Cálculo e um curso de Análise
Real, o qual estamos supondo já fazer parte do currı́culo do leitor. Todavia, todas as
demonstrações dos resultados poderão ser encontradas no texto de Lima (2014).

2.1 Sequências de Números Reais

Definição 2.1. Uma sequência de números reais é uma função x : N → R, que associa
a cada número natural n um número real xn , o qual chamaremos de n-ésimo termo da
sequência.
Definição 2.2. Escrevemos (x1 , x2 , . . . , xn , . . . ), (xn )n∈N ou simplesmente (xn ) para de-
notar a sequência cujo n-ésimo termo é xn .
Definição 2.3. Dada uma sequência x = (xn )n∈N , uma subsequência de x é uma restrição
da função x a um subconjunto infinito N′ = {n1 < n2 < · · · < nk < . . . } de N.
Observação 1. Denotamos uma subsequência de x por x = (xn )n∈N′ ou x = (xnk )k∈N .
Notemos que a segunda notação nos mostra como uma subsequência pode ser considerada
uma sequência.
Definição 2.4. Uma sequência (xn ) diz-se limitada superiormente (inferiormente) quando
existe c ∈ R tal que xn ≤ c (c ≤ xn ), para todo n ∈ N. Diz-se que uma sequência é limi-
tada quando esta é limitada inferior e superiormente.
Definição 2.5. Diz-se que um número real a é limite da sequência (xn ) quando, para todo
número real ε > 0, dado arbitrariamente, pode-se obter n0 ∈ N tal que todos os termos
xn com ı́ndice n > n0 cumprem a condição |xn − a| < ε. Escreve-se então lim xn = a.
Em sı́mbolos, podemos escrever a definição acima como

lim xn = a ⇔ ∀ε > 0, ∃n0 ∈ N; n > n0 ⇒ |xn − a| < ε.

Quando existe a = lim xn dizemos que (xn ) converge para a ou, simplesmente, que xn é
convergente. Caso não exista tal limite dizemos que (xn ) diverge.
Teorema 2.1. (Unicidade do Limite) Uma sequência não pode convergir para dois
14

limites distintos, isto é, se lim xn = x e lim xn = y, então x = y.


Teorema 2.2. Se lim xn = a, então toda subsequência de xn converge para o limite a.
Teorema 2.3. Toda sequência convergente é limitada.
Definição 2.6. Uma sequência (xn ) chama-se monótona quando se tem xn ≤ xn+1 ou
xn+1 ≤ xn , para todo n ∈ N. No primeiro caso diz-se que a sequência é monótona não
decrescente e no segundo dizemos que a sequência é monótona não crescente.
Observação 2. É digno de nota o seguinte fato: se (xn ) é não decrescente (não crescente)
então (xn ) é limitada inferiormente (superiormente) pelo seu primeiro termo.
Teorema 2.4. Toda sequência limitada e monótona é convergente.
Observação 3. Na demonstração deste último teorema temos que, no caso de xn ser não
decrescente e limitada, lim xn = sup{xn , n ∈ N}. Já no caso de xn ser não crescente
obtemos lim xn = inf{xn , n ∈ N}.
Definição 2.7. Um número real a chama-se valor de aderência da sequência (xn ) quando
a é limite de uma subsequência de (xn ). Se (xn ) é limitada, denotamos por lim inf xn e
lim sup xn , respectivamente, o menor valor de aderência e o maior valor de aderência da
sequência (xn ).
Corolário 2.1. (Teorema de Bolzanno-Weierstrass) Toda sequência limitada de
números reais possui uma subsequência convergente.
Teorema 2.5. Seja a = lim xn . Se b < a então, para todo n suficientemente grande,
tem-se b < xn . Analogamente, se a < b, então xn < b para todo n suficientemente grande.

Corolário 2.2. Sejam a = lim xn e b = lim yn . Se xn ≤ yn , para todo n suficientemente


grande então a ≤ b. Em particular, se xn ≤ b para todo n suficientemente grande então
lim xn ≤ b.
Teorema 2.6. (Teorema do Sanduı́che.) Se lim xn = lim yn = a e xn ≤ zn ≤ yn
para todo n suficientemente grande então lim zn = a.
Teorema 2.7. Se lim xn = a e lim yn = b então:
1. lim(xn + yn ) = a + b;
2. lim(xn · yn ) = a · b;
3. lim( xynn ) = ab , se b ̸= 0.
 
xn+1
Proposição 2.1. Se xn > 0 para todo n ∈ N e lim = a < 1 então lim xn = 0.
xn
Definição 2.8. O número de Neper e é definido como o limite da sequência

1 1
an = 1 + 1 + + ··· + .
2! n!
15

 n  n
1 n+1
Proposição 2.2. A sequência numérica bn = 1 + = converge e, além
n n
disso, tem-se lim bn = e.
Definição 2.9. Dada uma sequência xn , diz-se que ”o limite de xn é mais infinito”e
escreve-se lim xn = +∞, quando dado arbitrariamente A > 0, existe n0 ∈ N tal que
n > n0 ⇒ xn > A. Analogamente, lim xn = −∞ significa que, para todo A > 0 dado,
existe n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ xn < −A.
Teorema 2.8. Se lim xn = +∞ e existe c > 0 tal que yn > c para todo n ∈ N, então
lim(xn · yn ) = +∞.
Proposição 2.3. Dada uma sequência (xn ), se lim x2n = lim x2n−1 = a, então lim xn = a.

Demonstração. Temos por hipótese que, dado ε > 0, existem n0 , n1 ∈ N, tais que

n > n0 ⇒ |x2n − a| < ε

e
n > n1 ⇒ |x2n−1 − a| < ε.

Logo, tomando n2 = max{n0 , n1 }, ambas as desigualdades acima serão satisfeitas para


n > 2n2 . Dessa forma, consideremos os dois possı́veis casos para um ı́ndice n > n2 :
ˆ n é par. Nesse caso, n = 2p, para algum p ∈ N. De n > 2n2 vem que

2p > 2n2 ⇒ p > n2 ⇒ |xn − a| = |x2p − a| < ε.

ˆ n é ı́mpar. Aqui, n = 2q − 1, para algum q ∈ N. Daı́, n > n2 implica

2q − 1 > 2n2 > 2n2 − 1 ⇒ q > n2 ⇒ |xn − a| = |x2q−1 − a| < ε.

Portanto, para qualquer que seja n > n2 sempre teremos |xn − a| < ε, donde concluı́mos
que lim xn = a.

Proposição 2.4. Seja (xn ) uma sequência tal que lim |xn | = +∞. Então (xn ) diverge.
Demonstração. Suponhamos por absurdo que existe L = lim xn . Seja A > |L|. De
lim |xn | = +∞, vem que existe n1 ∈ N tal que

n > n1 ⇒ |xn | > A.

Por outro lado, de lim xn = L, segue que existe n2 ∈ N cumprindo

n > n2 ⇒ |xn − L| < A − |L|.


16

Dessa forma, tomando n0 = max{n1 , n2 }, temos que

n > n0 ⇒ |xn | − |L| ≤ ||xn | − |L|| ≤ |xn − L| < A − |L| ⇒ |xn | < A,

o que é uma contradição, pois como n > n0 ≥ n1 deverı́amos ter |xn | > A. Portanto, (xn )
diverge.

2.2 Alguns Exemplos de Sequências


1
Exemplo 2.1. Seja xn = . Mostremos que lim xn = 0.
n
Com efeito, como R é arquimediano, sabemos que dado ε > 0, existe n0 ∈ N
tal que
1 1
n0 > ⇒ < ε.
ε n0
1 1
Visto que n > n0 implica < , podemos concluir que
n n0

1 1 1
n > n0 ⇒ −0 = < < ε,
n n n0

1
donde segue que lim= 0, como querı́amos mostrar.
n
Exemplo 2.2. Sejam a ∈ R, com |a| > 1, e xn = an . Afirmamos que (xn ) diverge.
De fato, notemos que, sendo |a| > 1 temos duas possibilidade: a > 1 ou
a < −1. No primeiro caso temos a = 1 + d, com d > 0, logo, pela desigualdade de
Bernoullli, segue que an = (1 + d)n ≥ 1 + nd, para todo n ∈ N. Portanto, dado A > 0,
(A − 1)
sabemos que existe n0 ∈ N tal que n0 > , logo
d

(A − 1)
xn0 = an0 ≥ 1 + n0 d > 1 + d = A.
d

Sendo assim, xn é ilimitada superiormente e, pelo Teorema 2.3, segue que xn diverge.
Para o segundo caso temos que a < −1 implica a = −b, com b > 1. Consideremos
a subsequência x2n = a2n = (−b)2n = b2n = (b2 )n . Como a sequência yn = (b2 )n é
ilimitada superiormente pelo primeiro caso (note que b > 1 ⇒ b2 > 1), concluı́mos que
(xn ) possui uma subsequência que é ilimitada superiormente. Portanto, (xn ) é ilimitada
superiormente e, novamente pelo Teorema 2.3, segue que (xn ) diverge.
Exemplo 2.3. Sejam a ∈ R com 0 < a < 1 e xn = an . Afirmamos que lim xn = 0.
Mostremos inicialmente que (xn ) é decrescente. Com efeito, de a > 0 obtemos
an > 0, para todo n ∈ N, logo multiplicando an na desigualdade 0 < a < 1, segue que
0 < an+1 < an ,
17

donde segue que (xn ) é decrescente.


1 1
De a < 1 obtemos > 1. Assim, pelo exemplo anterior, temos que yn = ( )n é ilimitada
a a
superiormente. Daı́, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que
 n0
1 1
> ⇒ an0 < ε.
a ε

Portanto, como (xn ) é decrescente, concluı́mos que

n > n0 ⇒ |an − 0| = an < an0 < ε,

ou seja, lim xn = 0.
Observação 4. Da definição de limite de sequência podemos concluir que

lim xn = 0 ⇔ lim |xn | = 0.

Desta observação e do exemplo anterior podemos obter o limite da sequência xn = an


quando |a| < 1. Com efeito, temos que |xn | = |an | = |a|n , logo, de |a| < 1 e do exemplo
anterior segue que lim |xn | = 0, o que equivale, pela observação feita, a lim xn = 0.
Exemplo 2.4. Consideremos a sequência xn = nn . Provemos que lim xn = +∞.
Notemos que, para n ≥ 2, vale nn−1 ≥ 1, logo nn ≥ n. Dessa forma, como
lim n = +∞ (pois R é arquimediano), segue que dado K > 0 existe n0 ∈ N tal que n > n0
implica n > K. Daı́, tomando n1 = max{n0 , 2}, concluı́mos que

n > n1 ⇒ nn ≥ n > K,

isto é, lim xn = +∞, como querı́amos provar.



Exemplo 2.5. Sejam a > 0 e xn = n a. Afirmamos que lim xn = 1.
Mostremos inicialmente que (xn ) é monótona e limitada. Como o caso a = 1
é imediato (pois a sequência reduz-se a sequência constante igual a 1), trataremos dos
casos mais interessantes a > 1 e 0 < a < 1.
1 1 1 1
Para o caso 0 < a < 1 temos, de < , que a n+1 > a n . Já para a > 1, temos
1
n+1 n
1
a n+1 < a . Em qualquer dos casos, (xn ) é monótona.
n
1
Mostremos agora que (xn ) é limitada. Com efeito, se a < 1 então 0 < a n < 1 para todo
1
n ∈ N. No caso a > 1, (xn ) é decrescente, logo 0 < a n < a = x1 , para todo n ∈ N. Assim,
em qualquer dos casos, (xn ) é limitada.
Portanto, do Teorema 2.4, segue que (xn ) converge, digamos para L. Resta-nos mostrar
1
que L = 1. Antes disso provemos que L > 0. De fato, se 0 < a < 1, então a < a n para
1
todo n ∈ N, logo, 0 < a ≤ L pelo Corolário 2.2. No caso a > 1, temos a n > 1 para todo
18

n ∈ N, portanto, L ≥ 1 > 0, novamente pelo Corolário 2.2.


Tendo garantido que L > 0 mostremos agora que L = 1. Para tanto, consideremos a
1 1 1
subsequência xn(n+1) = an(n+1) de (xn ). Como = − , segue que
n(n + 1) n n+1

1
!
(1) 1 an (2) L
L = lim xn(n+1) = lim a n(n+1) = lim 1 = = 1,
a n+1 L

como querı́amos mostrar.


Exemplo 2.6. Consideremos a sequência xn = n · an , com 0 ≤ a < 1. Mostremos que
tal sequência converge para 0.
De fato, notemos que para a = 0 a conclusão lim xn = 0 é imediata. Para
0 < a < 1 temos que

(n + 1)an+1
      
xn+1 1
lim = lim = lim 1+ a = a < 1.
xn nan n

Assim, pela Proposição 2.1, segue que lim xn = 0, como querı́amos mostrar.
n
Exemplo 2.7. Sejam a > 1 e xn = n . Afirmamos que xn → 0 (isto é lim xn = 0).
a
Com efeito, como
   n+1    
xn+1 an+1 1 1 1
lim = lim n = lim 1+ = < 1,
xn an
a n a

segue da Proposição 2.1 que lim xn = 0.



Exemplo 2.8. Seja xn = n n. Temos que lim xn = 1.
 n
1
Sabemos da Proposição 2.2 que lim 1 + = e < 3. Sendo assim, pelo
n
 n
1
Corolário 2.2, temos que existe n0 ∈ N tal que 1 + < 3 para todo n > n0 . Logo,
n
tomando n1 = max{n0 , 3} temos que
n
√ √

1
n > n1 ⇒ n > 1 + ⇔ nn · n > (n + 1)n ⇔ nn+1 > (n + 1)n ⇔ n n > n+1
n + 1.
n

Dessa forma, obtemos que a subsequência (xn1 +n ) de (xn ) é decrescente. Como (xn1 +n )
é limitada (pois 0 < xn1 +n ≤ xn1 +1 para todo n ∈ N) segue que (xn1 +n ) converge e,
consequentemente, (xn ) converge, digamos L = lim xn .
Por xn ≥ 1, para todo n ∈ N temos L ≥ 1. Provemos agora que L = 1. De fato,
1
Pelo Teorema 2.2, a subsequência (xn(n+1) ) também converge para L.
2
Teorema 2.7.
19

1
considerando a subsequência x2n = (2n) 2n de (xn ), temos que
h 1
i2 h 1
i2  1 1
 (3) 1
L2 = lim(2n) 2n = lim (2n) 2n = lim 2 n · n n = 1 · lim n n = L.

Como L ≥ 1 > 0, vale L ̸= 9. Daı́, de L2 = L, segue que L = 1, como querı́amos mostrar.

Exemplo 2.9. Seja 0 < a < 1. A sequência (xn ) dada por

1 − an+1
x n = 1 + a + a2 + · · · + an =
1−a

1
tem limite igual a .
1−a
De fato, como a > 0 temos que an > 0 para todo n ∈ N, logo

xn+1 = 1 + a + · · · + an + an+1 > 1 + a + · · · + an = xn , ∀n ∈ N,

isto é, (xn ) é crescente. Além disso,

1 − an+1 1
xn = < , ∀n ∈ N,
1−a 1−a

ou seja, (xn ) é limitada e, consequentemente, convergente. Por fim, notemos que

an+1
   
1 1 (4)
lim − xn = lim = · lim an+1 = 0,
1−a 1−a 1−a

portanto, de
 
1 1 1
lim − xn = lim − lim xn = − lim xn ,
1−a 1−a 1−a

1
concluimos que lim xn = 1−a
como querı́amos mostrar.
Observação 5. Notemos que no exemplo acima se definirmos (xn ) como sendo xn =
1 b
b + ba + ba2 + · · · + ban teremos lim xn = b · = . A sequência que acabamos
1−a 1−a
de apresentar chama-se série geométrica e seu limite é a soma infinita dos termos da
progressão geométrica de primeiro termo b e razão a.
xn+1
Exemplo 2.10. Se xn > 0 para todo n ∈ N e lim = a < 1, então lim xn = 0.
xn
xn+1
De fato, seja c ∈ R tal que a < c < 1. Por lim = a < 1, vem pelo Teorema
xn
xn+1
2.5 que existe n0 ∈ N satisfazendo < 1, para todo n > n0 , ou ainda, 0 < xn+1 < xn ,
xn
3
Teorema 2.7.
4
Exemplo 2.3
20

isto é, a sequência (xn )n>n0 é monótona e limitada, logo, é convergente.


xn+1
Daı́, vem que (xn ) converge. Seja b = lim xn . De lim = a < c obtemos novamente
xn
pelo Teorema 2.5 um n1 ∈ N tal que xn+1 < c · xn , para todo n > n1 . Portanto,

lim xn+1 ≤ lim c · xn ⇒ b ≤ c · b ⇒ b(1 − c) ≤ 0 ⇒ b = 0,

pois, de c < 1 temos 1 − c > 0.


an
Exemplo 2.11. Se a > 0 então lim = 0.
n!
n
a xn+1 a
Com efeito, sendo xn = , vem que lim = lim = 0 < 1. Logo,
n! xn n+1
an
pelo Exemplo 2.10, concluı́mos que lim xn = lim = 0, como querı́amos mostrar.
n!
Exemplo 2.12. Admitindo a existência da função crescente log : R+ → R, que satisfaz
log n
log(x · y) = log x + log y e log x < x, para todo x ∈ R+ , provemos que lim = 0.
√ √ √n
Das hipóteses assumidas temos que log n = log( n · n) = 2 log n, ou ainda,
√ 1
log n = log n. Além disso, log n = log(n · 1) = log n + log 1, o que implica log 1 = 0,
2 √ √
e por log ser crescente concluı́mos que log n ≥ 0, para todo n ∈ N. Como log n < n
temos que
1 √ √ log n 2
log n < n ⇒ log n < 2 n ⇒ <√ .
2 n n
2 log n 2 log n
Sendo assim, por lim √ = 0 e 0 < < √ , segue do Teorema 2.6 que lim = 0.
n n n n

2.3 Séries Numéricas

Definição 2.10. Dada uma sequência (an ) de números reais, a partir dela formamos
Xn
uma nova sequência (sn ) dada por sn = a1 + a2 + · · · + an = ak . Os números sn são
X k=1
denominados as reduzidas da série an e a parcela an chama-se termo geral da série.
Vemos assim que uma série nada mais é do que um caso particular de sequência,
X
sendo assim, esta pode ou não convergir. Se existir s = lim sn diremos que a série an
X X
é convergente e s = an . Caso contrário diremos que an diverge.
X X
Teorema 2.9. (Critério de Comparação.) Sejam an e bn séries de termos
não negativos. Se existem c > 0 e n0 ∈ N tais que an ≤ cbn , para todo n > n0 , então a
X X X
convergência de bn implica a de an , enquanto que a divergência de an implica
X
a de bn .
Teorema 2.10. O termo geral de uma série convergente tem limite zero.
Teorema 2.11. (Leibniz.) Se (an ) é uma sequência monótona decrescente que tende a
X
zero então (−1)n+1 an converge.
21

X X
Definição 2.11. Uma série an diz-se absolutamente convergente quando |an | con-
verge.
Teorema 2.12. Toda série absolutamente convergente é convergente.
Teorema 2.13. (Teste de d’Alembert.) Seja an ̸= 0 para todo n ∈ N. Se existir uma
an+1 X
constante c tal que ≤ c < 1 para todo n suficientemente grande então a série an
an
an+1
será absolutamente convergente, em particular, se lim < 1 a mesma conclusão é
an
válida.
p
Teorema 2.14. (Teste de Cauchy.) Quando  existe um número real c tal que n
|an| ≤
p
n
c < 1 para todo n ∈ N suficientemente grande em particular, quando lim |an | < 1 , a
X
série an é absolutamente convergente.
Observação 6. Ao se utilizar os dois testes descritos acima, em geral, busca-se calcular
|an+1 | p
os limites lim e lim n |an |.
|an |
X xn
Exemplo 2.13. Provemos que a série converge para qualquer x ∈ R fixado arbi-
n!
trariamente.
n
Com efeito, fazendo an = xn! temos que

|xn+1 |
|an+1 | (n+1)! |x|
lim = lim |xn |
= lim = 0 < 1.
|an | n+1
n!

X xn
Portanto, pelo teste de d’Alembert, segue que é (absolutamente) convergente para
n!
qualquer x ∈ R fixado arbitrariamente.

X
Exemplo 2.14. Consideremos a série n · an . Mostremos que esta série converge para
todo a ∈ R tal que |a| < 1.
De fato, fazendo xn = n · an , temos que
p √ √
lim n
|xn | = lim n n · an = lim( n n · |a|) = |a|.
p
Assim, se |a| < 1, então lim n
|xn | < 1, o que implica, pelo teste de Cauchy, que a série
X
n · an converge.
Temos a seguir um teorema que associa os dois testes anteriores. Notemos que, fazendo
um comparativo, o teste de d’Alembert parece bem mais atrativo, visto que, ao lidar com
an+1
a fraçao , alguns termos costumam se cancelar e ficamos com uma expressão mais
an p
simples do que uma raı́z do tipo n |an |.
22

an+1
Teorema 2.15. Seja (an ) uma sequência cujos termos são diferentes de zero. Se lim an
=
p
L então lim n |an | = L.
X1
Exemplo 2.15. A série harmônica é divergente.
n
Seja (sn ) a sequência das reduzidas da série harmônica, isto é,
n
X 1
sn = . Mostremos que lim sn = +∞.
k=1
k
Com efeito, consideremos a subsequência (s2n ) de (sn ), ou seja,

1 1 1
s2n = 1 + + + ··· + n.
2 3 2

Visto que 2n − 2 = 2 + 4 + . . . 2n−1 , para todo n ∈ N podemos associar as parcelas de s2n


como segue
     
1 1 1 1 1 1 1 1 1
s2n =1+ + + + + + + + ··· + n−1
+ ··· + n .
2 3 4 5 6 7 8 2 +1 2

Daı́ segue que


     
1 1 1 1 1 1 1 1 1
s2n = 1 + + + + + + + + ··· + + ··· + n
2 3 4 5 6 7 8 2n−1 + 1 2
     
1 1 1 1 1 1 1 1 1
> 1+ + + + + + + + ··· + + · · · +
2 4 4 8 8 8 8 2n 2n
1 2 4 2n−1
= 1 + + + + ··· + n
2 4 8 2
1
= 1+n· .
2
 
1 1
Como lim 1 + n · = +∞ segue de s2n > 1 + n · que lim s2n = +∞.
2 2
Sendo assim, dado K > 0 existe n0 ∈ N tal que

n ≥ n0 ⇒ |s2n | > K.

1
Como (sn ) é crescente (pois n
> 0 para todo n ∈ N) vem que, para n1 = 2n0 > n0 ,
obtemos
n > n1 ⇒ |sn | > |s2n0 | > K,
X1
donde concluı́mos que sn → +∞, isto é, diverge, como querı́amos mostrar.
n
X 1
Exemplo 2.16. Para todo r > 1, a série converge.
nr
2 X  2 n
Como r > 1 temos r < 1, logo, a série geométrica é conver-
2 2r
23

X  2 n n  k
X 2
gente, digamos c = . Escrevendo tn = temos que (tn ) é crescente
2r k=1
2r
 k !
2
pois > 0, para todo k ∈ N , logo vale que
2r

c = lim tn = sup{tn ; n ∈ N} ≥ tn , ∀n ∈ N.
X 1
Mostremos que a sequência das reduzidas da série é limitada por c, isto é,
n
nr
X 1
sn = < c, para todo n ∈ N.
k=1
kr
Com efeito, sabemos que (sn ) é crescente, logo, dado n ∈ N tomemos m ∈ N tal que
n ≤ 2m − 1 (tal m existe pois o conjunto {2k − 1; k ∈ N} é infinito e, consequentemente,
ilimitado em N), donde obtemos
     
1 1 1 1 1 1 1 1
sn ≤ s2m −1 = 1+ + + + + + + ··· + + ··· + m
2r 3r 4r 5r 6r 7r (2m−1 )r (2 − 1)r
     
1 1 1 1 1 1 1 1
< 1+ + + + + + + ··· + + · · · + m−1 r
2r 2r 4r 4r 4r 4r (2m−1 )r (2 )
m−1
X 2 k
2m−1
 
2 4
= 1 + r + r + · · · + (m−1)r = r
= tm−1 ≤ c.
2 4 2 k=1
2

(vale ressaltar que a associação feita acima para as parcelas do termo s2m −1 só foi possı́vel
pois 2m − 1 = 1 + 2 + 4 + · · · + 2m−1 , para todo m ∈ N.)
Portanto, sendo (sn ) crescente e limitada, podemos concluir que (sn ) converge, o que
conclui a demonstração.

2.4 Topologia da Reta

Definição 2.12. Diz-se que um ponto a ∈ R é interior ao conjunto X ⊂ R quando existe


um ε > 0 tal que o intervalo aberto (a − ε, a + ε) está contido no em X. Denotamos por
int X o conjunto dos pontos interiores de X.
Definição 2.13. Um conjunto X ⊂ R é dito aberto quando int X = X, isto é, quando
todos os pontos de X são interiores a X.
Definição 2.14. Diremos que um ponto a é aderente ao conjunto X ⊂ R quando a for
limite de uma sequência de pontos xn de X.
Observação 7. É imediato que todo ponto a ∈ X é aderente a X, pois basta tomar a
sequência constante xn = a e teremos lim xn = a.
Definição 2.15. Chama-se fecho de um conjunto X ao conjunto X formado por todos
os pontos aderentes a X.
24

Definição 2.16. Um conjunto X é dito fechado quando X = X, isto é, quando todo
ponto aderente a X pertence a X.
Teorema 2.16. Um conjunto X ⊂ R é fechado se, e somente se, seu complementar
R − X é aberto.
Definição 2.17. Chama-se cobertura de um conjunto X a uma famı́lia C de conjuntos
S
Cλ , indexada pelo conjunto L, cuja reunião contém X, isto é, X ⊂ λ∈L Cλ . Quando
todos os Cλ são abertos diz-se que C é uma cobertura aberta. Se L = {λ1 , . . . , λn } é um
conjunto finito, diz-se que X ⊂ Cλ1 ∪ Cλ2 ∪ · · · ∪ Cλn é uma cobertura finita. Por fim, se
L′ ⊂ L é tal que ainda se tem X ⊂ λ∈L′ Cλ , diz-se que C ′ = (Cλ )λ∈L′ é uma subcobertura
S

de C.
Definição 2.18. Diz-se que um conjunto X ⊂ R é compacto quando, para qualquer
cobertura aberta C de X, pode-se extrair uma subcobertura finita C ′ .
Teorema 2.17. Um conjunto X ⊂ R é compacto se, e somente se, é fechado e limitado.
Teorema 2.18. Dada uma sequência decrescente X1 ⊃ X2 ⊃ · · · ⊃ Xn ⊃ . . . de conjun-
tos compactos não vazios, então existe (pelo menos) um número real que pertence a todos
os Xn .

2.5 Funções Contı́nuas

Definição 2.19. Uma função f : X → R é dita contı́nua no ponto a ∈ X quando, dado


ε > 0 arbitrariamente, pode ser encontrado δ > 0 tal que x ∈ X e |x − a| < δ impliquem
|f (x) − f (a)| < ε. Simbolicamente, temos

∀ε > 0 ∃δ > 0; x ∈ X, |x − a| < δ ⇒ |f (x) − f (a)| < ε.

Observação 8. Quando dissermos simplesmente que f é contı́nua compreende-se que f


é contı́nua em todos os pontos de seu domı́nio.
Teorema 2.19. A fim de que a função f : X → R seja contı́nua no ponto a ∈ X é
necessário e suficiente que, para toda sequência de pontos xn ∈ X, com lim xn = a, se
tenha lim f (xn ) = f (a) (isto é, lim f (xn ) = f (lim xn )).
Teorema 2.20. (Teorema do Valor Intermediário.) Seja f : [a, b] → R contı́nua.
Se f (a) < d < f (b) então existe c ∈ (a, b) tal que f (c) = d.
Teorema 2.21. (Weierstrass) Sejam f : X → R contı́nua e X compacto. Então
existem x1 , x2 ∈ X tais que f (x1 ) ≤ f (x) ≤ f (x2 ), para todo x ∈ X.
Observação 9. Na demonstração do Teorema de Weierstrass enunciado acima é provado
que, para toda função contı́nua f definida em um conjunto compacto X, tem-se f (X)
25

compacto, isto é, toda função contı́nua leva compacto em compacto.

2.6 Integral de Riemann

Definição 2.20. Uma partição do intervalo fechado [a, b] é um subconjunto finito de


pontos P = {t0 , t1 , . . . , tn } ⊂ [a, b] tal que a ∈ P e b ∈ P . Convencionaremos

a = t0 < t1 < · · · < tn = b.

Observação 10. Dada um função limitada f : [a, b] → R denotaremos

m = inf{f (x); x ∈ [a, b]} M = sup{f (x); x ∈ [a, b]}.

Seja P uma partição do intervalo [a, b]. Escrevemos mi = inf{f (x); x ∈ [ti−1 , ti ]}, Mi =
sup{f (x); x ∈ [ti−1 , ti ]} e ωi = Mi −mi para indicar, respectivamente, o ı́nfimo, o supremo
e a oscilação de f no i-ésimo intervalo de P .
Definição 2.21. Seja f : [a, b] → R uma função limitada. A soma inferior e a soma
superior de f , relativas a partição P , são, respectivamente, os números
n
X
s(f ; P ) = m1 (t1 − t0 ) + m2 (t2 − t1 ) + · · · + mn (tn − tn−1 ) = mi (ti − ti−1 )
i=1

e
n
X
S(f ; P ) = M1 (t1 − t0 ) + M2 (t2 − t1 ) + · · · + Mn (tn − tn−1 ) = Mi (ti − ti−1 ).
i=1

Definição 2.22. A integral inferior e a integral superior da função limitada f : [a, b] → R


são dadas, respectivamente, por
Z b Z b
f (x) dx = sup s(f ; P ) e f (x) dx = inf S(f ; P ),
a P a P

onde o sup e o inf são tomados com respeito a todas as partições P do intervalo [a, b].
Definição 2.23. Uma função limitada f : [a, b] → R diz-se integrável quando sua inte-
gral inferior e sua integral superior coincidem. Esse valor comum chama-se integral (de
Z b
Riemann) de f e é indicado por f (x)dx.
a
Teorema 2.22. (Condição imediata de integrabilidade.) Seja f : [a, b] → R
limitada. As seguintes afirmações são equivalentes
(1) f é integrável;
26

(2) Para todo ε > 0, existem partições P e Q de [a, b] tais que S(f ; Q) − s(f ; P ) < ε;
(3) Para ε > 0, existe uma partição P = {to , . . . , tn } de [a, b] tal que
n
X
S(f ; P ) − s(f ; P ) = ωi (ti − ti−1 ) < ε
i=1

.
Teorema 2.23. Se f : [a, b] → R é uma função integrável então |f | é integrável e vale
Z n Z b
f (x)dx ≤ |f (x)|dx.
a a

Observação 11. Se a < b denotaremos por |I| = b − a o comprimento do intervalo que


tem como extremos a e b (seja ele aberto, fechado ou semi-aberto).
Definição 2.24. Diz-se que o conjunto X ⊂ R tem medida nula quando, para todo ε > 0
S
dado, existe uma cobertura finita ou infinita enumerável X ⊂ Ik de X por intervalos
P
abertos Ik cuja soma dos comprimentos é |Ik | < ε.
Exemplo 2.17. Notemos que todo conjunto enumerável X = {x1 , x2 , . . . , xn , . . . } tem
medida nula. De fato, dado ε > 0, seja Ik o intervalo aberto de centro xk e comprimento
ε S
k+1
. Tem-se assim uma cobertura infinita enumerável por abertos X ⊂ Ik de modo
2
que
∞ ∞ ∞  1 
X X ε X 1 4 ε
|Ik | = k+1
= ε · k+1
= ε · 1 = < ε,
k=1 k=1
2 k=1
2 1 − 2
2

o que prova o desejado.


Teorema 2.24. Se o conjunto D dos pontos de descontinuidade da função limitada f :
[a, b] → R tem medida nula então f é integrável.

2.7 Cálculo com Integrais.

Teorema 2.25. Teorema Fundamental do Cálculo. Seja f : I → R contı́nua no


intervalo I. As seguintes afirmações a respeito de uma função F : I → R são equivalentes:
(1) F é uma integral indefinida de f , isto é, existe a ∈ I tal que
Z x
F (x) = F (a) + f (t)dt, ∀x ∈ I;
a

(2) F é uma primitiva de f , isto é, F ′ (x) = f (x) para todo x ∈ I.


Teorema 2.26. Seja f : I → R derivável no intervalo I, com f ′ (x) = k · f (x). Se, para
um certo x0 ∈ I, tem-se f (x0 ) = c então

f (x) = c · ek(x−x0 ) , ∀x ∈ I.
27

Concluı́mos essa seção destacando novamente que, dentre a gama de resultados


referentes aos temas salientados acima, foram selecionados as proposições mais utilizadas
no decorrer do texto e na resolução dos exercı́cios.
28

3 SEQUÊNCIAS DE FUNÇÕES

Neste capı́tulo apresentaremos a definição de sequência de funções junto com


dois conceitos de convergência destas. Vale ressaltar que, diferente de sequências e séries
númericas, há diversas noções de convergência de uma sequência (ou série) de funções,
entretanto, destacaremos neste trabalho os dois conceitos mais comuns.
Definição 3.1. Seja X ⊂ R. Uma sequência de funções fn : X → R é uma corres-
pondência que associa, a cada n ∈ N, uma função fn definida em X e tomando valores
reais.
Vejamos alguns exemplos:
Exemplo 3.1. fn : R → R, fn (x) = nx. Ou seja, (x, 2x, 3x, . . . , nx, . . . ).
Exemplo 3.2. gn : R → R, gn (x) = enx . Ou seja, (ex , e2x , . . . , enx , . . . ).

3.1 Convergência Simples

Definição 3.2. Diz-se que uma sequência de funções fn : X → R converge simples-


mente para a função f : X → R quando, para cada x ∈ X, a sequência numérica
(f1 (x), f2 (x), . . . , fn (x), . . . ) converge para f (x). Ou seja, para todo x ∈ X fixado,
tem-se lim fn (x) = f (x).
n→∞

Em outras palavras, fn → f simplesmente em X quando, dados ε > 0 e


x ∈ X, existe n0 = n0 (ε, x) ∈ N tal que n > n0 implica |fn (x) − f (x)| < ε. Analisemos
este conceito através dos seguintes exemplos:
Exemplo 3.3. Consideremos a sequência de funções fn : R → R, definidas por fn (x) =
x
. Afirmamos que fn converge simplesmente para a função identicamente nula. De fato,
n
fixado arbitrariamente x ∈ R , temos

x 1
lim fn (x) = lim = x · lim = x · 0 = 0.
n n

Exemplo 3.4. Seja a sequência de funções fn : [0, 1] → R, dadas por fn (x) = xn .


Mostremos que fn converge simplesmente para a função f , onde
(
0, se x ̸= 1
f (x) = .
1, se x = 1
Com efeito, notemos que, para x ∈ [0, 1) fixado arbitrariamente, temos

lim fn (x) = lim xn = 0,


29

pois x ∈ [0, 1) implica |x| < 1 (ver Observação 4). Além disso, para x = 1, temos

fn (1) = 1n = 1, ∀n ∈ N.

Logo
lim fn (1) = 1

.
Dessa forma, obtemos
(
0, se x ∈ [0, 1)
lim fn (x) = ,
1, se x = 1
como querı́amos mostrar.
Exemplo 3.5. Vejamos que a sequência de funções fn : [0, 2π] → R, dadas por
fn (x) = cos(nx) não converge simplesmente para nenhuma função em [0, 2π].
Notemos que, da definição de convergência simples, para que fn não convirja simplesmente
é suficiente apresentar um ponto x ∈ [0, 2π] tal que lim fn (x) diverge. Tomando x = π,
teremos fn (π) = cos(nπ) = (−1)n , logo, lim fn (π) = lim(−1)n não existe, pois a sequência
numérica fn (π) possui duas subsequências convergindo para valores diferentes, a saber,
f2n (π) = 1 e f2n−1 (π) = −1, o que prova o desejado.
Vamos analisar como o conceito da convergência simples se apresenta geome-
tricamente:
Dizer que fn → f simplesmente em X significa que, fixado arbitrariamente um ponto
x ∈ X, a sequência das ordenadas dos pontos obtidos pela interseção dos gráficos das fn
com a vertical levantada pelo ponto (x, 0) converge para f (x). Voltemos aos três exemplos
anteriores para observar os gráficos das funções da sequência dada:

Figura 1 – Exemplo 3.3

Fonte: Elaborado pelo autor.


30

Figura 2 – Exemplo 3.4

Fonte: Elaborado pelo autor.

Figura 3 – Exemplo 3.5

Fonte: Elaborado pelo autor.

Notemos que, mesmo que fn → f simplesmente, os gráficos das fn podem


ser bem distintos do gráfico da f , e até mesmo nunca se aproximarem dele. O próximo
exemplo torna isso mais claro:
Exemplo 3.6. Tomemos a sequência de funções fn : [0, 1] → R, definidas por fn (x) =
xn (1 − xn ). Notemos que fn → 0, pois, dado x ∈ [0, 1), temos

lim xn (1 − xn ) = lim xn · lim(1 − xn ) = 0 · 1 = 0 (visto que x ∈ [0, 1) ⇒ |x| < 1)

e, para x = 1, fn (1) = 1 · 0 = 0, para todo n ∈ N.


A fim de esboçarmos os gráficos das fn , calculemos os seus pontos crı́ticos. Fixando n ∈ N
31

arbitrariamente, obtemos

(fn (x))′ = (xn (1 − xn ))′ = 0 ⇒ nxn−1 (1 − xn ) + xn (−nxn−1 ) = 0


⇒ nxn−1 − nx2n−1 − nx2n−1 = 0
⇒ 2x2n−1 = xn−1
  n1
1
⇒ x= .
2

1
!
1n 1 1
Como fn = , então , para cada n ∈ N, o valor máximo de fn (x) é igual a
2 4 4
  n1   n1
1 1
e é atingido no ponto x = . Além disso, como lim = 1 (ver Exemplo 2.5),
2 2
esses pontos onde a função atinge o seu valor máximo, se aproximam cada vez mais de 1
a medida que n cresce. Com estas informações podemos esboçar os gráficos das funções
fn e observar que, mesmo convergindo simplesmente para a função identicamente nula
em [0, 1], os gráficos das fn apresentam uma diferença fundamental ao gráfico da função
limite, a saber, seu ponto de máximo:

Figura 4 – Exemplo 3.6

Fonte: Elaborado pelo autor.

Podemos também tratar da “debilidade” da convergência simples


por outra perspectiva. Da definição, temos que fn → f simplesmente em X quando dado
ε > 0, podemos obter, para cada x ∈ X, um n0 ∈ N, dependendo de ε e x, tal que n > n0
implica |fn (x) − f (x)| < ε. Entretanto, mantendo ε fixo, pode não ser possı́vel determinar
um n0 que satisfaça a definição para todo x ∈ X.
Exemplo 3.7. Retomemos a sequência do Exemplo 3.4. Vimos que a sequência fn con-
verge para a função f : [0, 1] → R, dada por f (x) = 0, se 0 ≤ x < 1 e f (1) = 1. Fixando,
1
por exemplo, ε = , podemos obter, para qualquer n0 ∈ N, pontos x ∈ [0, 1), tais que
2
1
|fn0 (x) − f (x)| ≥ .
2  
Com efeito, como lim− xn0 = 1 pois, sendo xn0 contı́nua, tem-se lim xn0 = 1 , vai exis-
x→1 x→1
tir δ > 0 tal que

1 1
1 − δ < x < 1 ⇒ |xn0 − 1| < ⇒ |fn0 (x) − f (x)| = xn0 > .
2 2
32

Tendo abordado a debilidade da convergência simples nos resta agora apre-


sentar um conceito de convergência de funções que nos fornece mais recursos e que nos
permita estender propriedades das funções da sequência para a função limite.

3.2 Convergência Uniforme

Definição 3.3. Diz-se que uma sequência de funções fn : X → R converge uniformemente


para uma função f : X → R quando, para todo ε > 0 dado, existe n0 ∈ N tal que n > n0
implica |fn (x) − f (x)| < ε, seja qual for x ∈ X.
Observação 12. Notemos que na definição n0 só depende de ε, não mais de x.
Assim como foi na convergência simples, podemos lançar mão do apelo geométrico
para tornar mais claro o conceito de convergência uniforme. Para tanto, precisamos antes
apresentar a ideia de faixa em torno do gráfico de uma função:
Definição 3.4. Dada uma função f : X → R chamaremos de faixa de raio ε > 0 em
torno do gráfico de f ao conjunto :

F (f, ε) = {(x, y) ∈ R2 ; x ∈ X, f (x) − ε < y < f (x) + ε}.

Figura 5 – Faixa de raio ε em torno do gráfico de f

Fonte: Elaborado pelo autor.

Podemos agora interpretar a definição anterior da seguinte forma: Dizer que


fn → f uniformemente em X significa que, dado ε > 0, os gráficos das funções fn , a partir
de um certo n0 , estão contidas na faixa de raio ε em torno do gráfico de f . Notemos que

|fn (x) − f (x)| < ε, ∀x ∈ X ⇔ (x, fn (x)) ∈ F (f, ε), ∀x ∈ X.

Observação 13. Segue diretamente das definições que, se fn → f uniformemente, então


fn → f simplesmente. A recı́proca não é verdadeira como veremos adiante, ao tratar da
convergência uniforme nos exemplos já citados.
33

Observação 14. Uma forma de mostrar que fn não converge uniformemente para f em
X é exibir um ε > 0 tal que, para todo n0 ∈ N, for possı́vel encontrar n > n0 e x ∈ X
com |fn (x) − f (x)| ≥ ε.
Vamos retornar aos exemplos citados anteriormente, e alguns novos, para ana-
lisá-los quanto a convergência uniforme.
x
Exemplo 3.8. fn : R → R, fn (x) = . Afirmamos que a convergência fn → 0 não é
n
uniforme em R. Com efeito, como cada fn é ilimitada em R, temos que, dado ε > 0 e
x
n0 ∈ N, existe x ∈ R tal que |fn0 (x) − f (x)| = ≥ ε, basta tomar x ≥ ε · n0 . Em
n0
outras palavras, nenhuma faixa de raio ε em torno do eixo das abscissas pode conter o
gráfico de uma das fn .
Entretanto, se X ⊂ R é um conjunto limitado, então fn → 0 uniformemente em X.
De fato, sendo X limitado, existe c ∈ R tal que |x| ≤ c,para todo x ∈ R. Daı́, dado
c
ε > 0, podemos tomar n0 > (pois R é arquimediano), e teremos n > n0 implicando que
ε
|x| c c
|fn (x)| = ≤ < < ε.
n n n0
Exemplo 3.9. fn : [0, 1] → R, fn (x) = xn . A convergência fn → 0 não é uniforme em
1
[0, 1]. De fato, relembremos do Exemplo 3.7 que ao tomar ε = podemos obter, para
2
1
qualquer n0 ∈ N, pontos x ∈ [0, 1), tais que |fn0 (x) − f (x)| ≥ .
2
Todavia, fn → 0 uniformemente em todo intervalo do tipo [0, 1 − δ], com 0 < δ < 1. Com
efeito, tomando a = 1 − δ, temos 0 < a < 1, logo lim an = 0.
Dessa forma, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que

n > n0 ⇒ |an | < ε.

Assim, como, para todo x ∈ [0, 1 − δ], tem-se 0 ≤ x ≤ a, obtemos xn ≤ an , para todo
n ∈ N.
Logo, n > n0 implica |fn (x)| = |xn | ≤ |an | < ε, para todo x ∈ [0, 1 − δ].
Exemplo 3.10. fn : [0, 1] → R, fn (x) = xn (1 − xn ). Mostramos que fn → 0 sim-
plesmente em [0, 1], porém, essa convergência não é uniforme. Basta recordarmos que
  n1 !
1 1 1
fn = , para todo n ∈ N, logo, tomando ε < , teremos, para todo n0 ∈ N, um
2 4 4
  n1 !
1 0 1
ponto x ∈ [0, 1] x = , tal que |fn0 (x)| = > ε. Isto é, nenhuma função fn tem
2 4
seu gráfico contido em uma faixa de raio menor que 14 em torno do eixo das abscissas.
Entretanto, temos fn → 0 uniformemente em todo intervalo do tipo [0, 1 − δ], com
0 < δ < 1. De fato, do Exemplo 3.9, temos xn → 0 uniformemente em [0, 1 − δ], ou seja

∀ε > 0, ∃n0 ∈ N; n > n0 ⇒ |xn | < ε, ∀x ∈ [0, 1 − δ].


34

Ora, como x ∈ [0, 1 − δ], temos


0 ≤ x < 1 ⇒ 0 ≤ xn < 1 ⇒ 0 < 1 − xn ≤ 1 ⇒ 0 < xn (1 − xn ) ≤ xn , ∀n ∈ N.
Logo,
n > n0 ⇒ |fn (x)| = |xn (1 − xn )| = xn (1 − xn ) ≤ xn = |xn | < ε.

Exemplo 3.11. x  Consideremos a sequência de funções fn : [0, π] → R, definidas por


fn (x) = cos .
n
Afirmamos que fn → 1 uniformemente em [0, π]. Com efeito, devemos mostrar que, dado
ε > 0, existe n0 ∈ N tal que
x x
n > n0 ⇒ cos − 1 < ε ⇔ 1 − ε < cos < 1 + ε, ∀x ∈ [0, π].
n n
x x
Como cos ≤ 1, para todo x ∈ [0, π] e todo n ∈ N, temos cos < 1 + ε sendo
n n
satisfeito para quaisquer x ∈ [0, π] e n ∈ N. Notemos que, para ε ≥ 1, podemos  x  tomar
x π
n0 = 2 e teremos ∈ [0, ), para todo x ∈ [0, π] e todo n > n0 , logo, cos >0≥
 n 2x  x n 
1 − ε o que implica | cos − 1| < ε, visto que cos < 1 + ε é satisfeito sempre .
n n
π
Consideremos agora 0 < ε < 1. Para tal, podemos tomar n0 ∈ N tal que n0 > .
arccos(1 − ε)
É digno de nota o fato de que, sendo 0 < ε < 1, arccos(1 − ε) está bem definido, pois
0 < 1 − ε < 1. Daı́,

π π
n > n0 ⇒ n > ⇒ < arccos(1 − ε)
arccos(1 − ε) n
π 
⇒ cos > 1 − ε (cos é decrescente em [0, π])
n
x 
⇒ cos > 1 − ε ∀x ∈ [0, π].
n
 x π  
na última implicação acima notemos que cos ≥ cos , ∀x ∈ [0, π].
n n
x
Novamente, isto implica cos − 1 < ε, para todo x ∈ [0, π].
n

3.3 Propriedades da convergência uniforme

Teorema 3.1. Se uma sequência de funções fn : X → R converge uniformemente para


f : X → R e cada fn é contı́nua no ponto a ∈ X, então f é contı́nua em a.
Demonstração. Dado ε > 0, como fn → f uniformemente em X, existe n0 ∈ N tal
que n > n0 implica |fn (x) − f (x)| < 3ε , para todo x ∈ X. Fixemos n > n0 . Como fn é
contı́nua em a, existe δ > 0 tal que, se x ∈ X, |x − a| < δ, então |fn (x) − fn (a)| < 3ε . Daı́,
35

para n > n0 ,

x ∈ X, |x − a| < δ ⇒ |f (x) − f (a)| = |f (x) − fn (x) + fn (x) − fn (a) + fn (a) − f (a)|


≤ |fn (x) − f (x)| + |fn (x) − fn (a)| + |fn (a) − f (a)|
ε ε ε
< + + = ε.
3 3 3

Em resumo, dado ε > 0, exibimos δ > 0, tal que:


se x ∈ X, |x − a| < δ, então |f (x) − f (a)| < ε.
Logo, f é contı́nua em a, como querı́amos.
Observação 15. Segue diretamente do Teorema 3.1 que, se uma sequência de funções
contı́nuas converge uniformemente, então a função limite também é uma função contı́nua.

O Teorema 3.1 nos fornece uma ferramenta para garantir que a


convergência de uma sequência de funções não é uniforme: se a sequência de funções
contı́nuas converge simplesmente para uma função descontı́nua, então a convergência não
pode ser uniforme. Tal artifı́cio justifica o porque a convergência do Exemplo 3.4 não é
uniforme, visto que, nesse caso, cada fn é contı́nua em x = 1, entretanto f é descontı́nua
em x = 1 ( lim− f (x) = 0 ̸= 1 = f (1)).
x→1

Como já foi comentado, a convergência simples não implica necessariamente


na convergência uniforme, porém, em casos particulares de convergência simples e sobre
certas hipóteses, podemos assegurar tal implicação. Antes de apresentarmos tal resultado
precisamos definir tal caso particular ao qual nos referimos:
Definição 3.5. Diz-se que uma sequência de funções fn : X → R converge monotonica-
mente para a função f : X → R quando, para cada x ∈ X, a sequência numérica (fn (x))
é monótona e converge para f (x).
Lema 3.1. Se fn → f monotonicamente em X, então |fn+1 (x) − f (x)| ≤ |fn (x) − f (x)|,
para todo x ∈ X e todo n ∈ N.
Demonstração. Como, para cada x ∈ X, a sequência (fn (x)) é monótona e converge
para f (x), temos duas possibilidades :
1. (fn (x)) é não decrescente, isto é, fn (x) ≤ fn+1 (x), para todo n ∈ N. Neste caso,
temos
f (x) = sup{fn (x), n ∈ N} (pela demonstração do Teorema 2.4), donde obtemos

−fn (x) ≥ −fn+1 (x) ⇒ f (x) − fn (x) ≥ f (x) − fn+1 (x)


(5)
⇒ |f (x) − fn (x)| ≥ |f (x) − fn+1 (x)|
⇒ |fn (x) − f (x)| ≥ |fn+1 (x) − f (x)|.
36

2. (fn (x)) é não crescente, isto é, fn (x) ≥ fn+1 , para todo n ∈ N. Aqui temos
f (x) = inf{fn (x), n ∈ N}, logo
(6)
fn (x) − f (x) ≥ fn+1 (x) − f (x) ⇒ |fn (x) − fn+1 (x)| ≥ |fn+1 (x) − f (x)|.
Sendo assim, em qualquer dos casos, obtemos o desejado.

Teorema 3.2. (Dini) Sejam X ⊂ R um conjunto compacto e fn : X → R uma sequência


de funções contı́nuas que converge monotonicamente para a função contı́nua f : X → R.
Então a convergência é uniforme.
Demonstração. Dado ε > 0, definamos Xn = {x ∈ X; |fn (x) − f (x)| ≥ ε}, para cada
n ∈ N. Afirmamos que cada Xn é compacto. De fato, como Xn ⊂ X, e X é limitado,
segue que Xn é limitado. Seja (yk )k∈N uma sequência de pontos de Xn , com lim yk = y.
Por yk ∈ Xn , temos |fn (yk ) − f (yk )| ≥ ε, para todo k ∈ N, donde segue que

(7) (8)
|fn (y) − f (y)| = lim |fn (yk ) − f (yk )| ≥ ε.
k→∞

Logo, y ∈ Xn e, consequentemente, Xn é fechado. Assim, concluı́mos que cada Xn é


compacto.
Como a convergência é monótona temos, pelo Lema 3.1, que
a ∈ Xn+1 ⇒ |fn+1 (a) − f (a)| ≥ ε ⇒ |fn (a) − f (a)| ≥ ε ⇒ a ∈ Xn ⇒ Xn+1 ⊂ Xn .
Temos portanto uma cadeia decrescente de compactos X1 ⊃ X2 ⊃ · · · ⊃ Xn ⊃ . . . .
T
Por lim fn (x) = f (x), para todo x ∈ X, concluı́mos que Xn = Ø, pois, se existisse
n→∞
T
a ∈ Xn , terı́amos lim fn (a) ̸= f (a).
Segue, do Teorema 2.18, que algum Xn0 é vazio, logo, para todo n > n0 tem-se Xn ⊂
Xn0 ⇒ Xn = Ø. Daı́, obtemos que n > n0 implica |fn (x) − f (x)| < ε, seja qual for x ∈ X,
como querı́amos mostrar.
5

f (x) = sup{fn (x), n ∈ N} ⇒ f (x) ≥ fn (x) ⇒ f (x) − fn (x) ≥ 0


⇒ f (x) − fn (x) = |f (x) − fn (x)|, ∀n ∈ N.

6
Análogo ao caso anterior, visto que, nesse caso, f (x) ≤ fn (x), para todo n ∈ N.
7
Sabemos que a função g : R → R, g(x) = |x|, é contı́nua, além de que, por hipótese, cada fn e f são
contı́nuas. Logo, a composição g ◦ (fn − f ) é contı́nua, e temos

|fn (y) − f (y)| = (g ◦ (fn − f ))(y) = (g ◦ (fn − f ))( lim yk ) = lim (g ◦ (fn − f ))(yk )
k→∞ k→∞
= |fn (yk ) − f (yk )|.

8
Para todo k ∈ N, temos |fn (yk ) − f (yk )| ≥ ε, logo lim |fn (yk ) − f (yk )| ≥ ε.
k→∞
37

Teorema 3.3. (Passagem ao limite sob o sinal de integral) Se a sequência de


funções integráveis fn : [a, b] → R converge uniformemente para f : [a, b] → R então f é
Z b Z b
integrável e vale f (x)dx = lim fn (x)dx.
a n→∞ a
Z b Z b
Ou seja, lim fn (x) = lim fn (x), desde que a convergência seja uniforme.
a n→∞ n→∞ a
Demonstração. Dado ε > 0, existe (pois fn → f uniformemente) n0 ∈ N tal que n > n0
ε
implica |fn (x) − f (x)| < , para todo x ∈ [a, b]. Fixemos m > n0 . Como fm é
4(b − a)
n
X ε
integrável, existe uma partição P de [a, b] tal que wi′ (ti − ti−1 ) < , onde wi′ é a
i=1
2
oscilação de fm no intervalo [ti−1 , ti ] de P . Além disso, para quaisquer x, y ∈ [ti−1 , ti ],
temos

|f (y) − f (x)| ≤ |f (y) − fm (y)| + |fm (y) − fm (x)| + |fm (x) − f (x)|
(9) ε ε ε
< + wi′ + = wi′ + .
4(b − a) 4(b − a) 2(b − a)

Disto vem que wi′ + 2(b−a)


ε
é cota superior do conjunto {|f (x) − f (y)|; x, y ∈ [ti−1 , ti ]|},
logo, denotando por wi a oscilação de f no intervalo [ti−1 , ti ], obtemos

ε
wi = sup{|f (y) − f (x)|; x, y ∈ [ti−1 , ti ]} ≤ wi′ + .
2(b − a)

Daı́,
n n  
X X ε
wi (ti − ti−1 ) ≤ wi′ + (ti − ti−1 )
i=1 i=1
2(b − a)
n n
X ε X
= wi′ (ti − ti−1 ) + · (ti − ti−1 )
i=1
2(b − a) i=1
n
X ε
= wi′ (ti − ti−1 ) + ·b−a
i=1
2(b − a)
ε ε
< + = ε.
2 2

Isto mostra que f é intergrável.


9
wi′ = sup{|fm (y) − fm (x)|; x, y ∈ [ti−1 , ti ]} ⇒ |fm (y) − fm (x)| ≤ wi′ , ∀x, y ∈ [ti−1 , ti ].
38

Z b Z b
Mostremos agora que f (x)dx = lim fn (x)dx. Para todo n > n0 temos
a n→∞ a

Z b Z b Z b
fn (x)dx − f (x)dx = (fn (x) − f (x))dx
a a a
(10)
Z b
≤ |fn (x) − f (x)|dx
a
Z b
ε ε ε
< dx = · (b − a) = < ε,
a 4(b − a) b−a 4
Z b Z b
isto é, dado ε > 0 obtemos n0 ∈ N tal que n > n0 implica fn (x)dx − f (x)dx < ε,
a a
logo Z b Z b
lim fn (x)dx = f (x)dx,
a a

o que conclui a demonstração.


Vejamos dois exemplos que expressam a importância de possuirmos a con-
vergência uniforme como hipótese do Teorema 3.3.
Exemplo 3.12. Seja {r1 , r2 , . . . , rn , . . . } uma enumeração dos números racionais do
intervalo([a, b]. Definamos fn : [a, b] → R, dadas por
1, se x ∈ {r1 , . . . , rn }
fn (x) =
0, se x ∈/ {r1 , . . . , rn }
Para ficar mais claro a definição das funções fn ilustremos os casos n = 1 e n = 2. Com
efeito, f1 (x) = 1, se x = r1 , e f1 (x) = 0, se x ̸= r1 . Já f2 (x) = 1, se x ∈ {r1 , r2 }, e
f2 (x) = 0, se x ∈/ {r1 , r2 }.
( que fn → f simplesmente em [a, b], onde
Afirmamos
1, se x ∈ Q ∩ [a, b]
f (x) = .
0, se x ∈/ Q ∩ [a, b]
Com efeito, fixado arbitrariamente x ∈ [a, b] temos duas possibilidades:
1. x ∈ Q ∩ [a, b]. Nesse caso, x = rn0 , para algum n0 ∈ N, logo, para todo n ≥ n0 ,
fn (x) = 1, o que implica lim fn (x) = 1.

2. x ∈
/ Q ∩ [a, b]. Aqui, x ̸= rn , para todo n ∈ N, logo, fn (x) = 0, para todo n ∈ N.
Daı́, lim fn (x) = 0.
Entretanto, apesar de cada fn ser integrável (pois cada uma possui uma quantidade finita
de pontos de descontinuidade, a saber, os pontos {r1 , . . . , rn }) a função f , não é integrável.
De fato, para qualquer partição P de [a, b], temos mi = inf{f (x); x ∈ [ti−1 , ti ]} = 0 e
Mi = sup{f (x); x ∈ [ti−1 , ti ]} = 1 para todo i ∈ {1, . . . , n}, pois para todo intervalo
[ti−1 , ti ] existirão x1 racional e x2 irracional com x1 , x2 ∈ [ti−1 , ti ].
10
Como, por hipótese, fn e f são integráveis, temos que fn − f é integrável (ver Teorema 2.23)
39

Logo,
n
X n
X n
X
s(f ; P ) = mi (ti − ti−1 ) = 0 e S(f ; P ) = Mi (ti − ti−1 ) = (ti − ti−1 ) = b − a.
i=1 i=1 i=1

Assim, tomando ε < b − a, não existe partição P de [a, b] tal que S(f ; P ) − s(f, P ) < ε,
portanto, f não é integrável (ver Teorema 2.22).
Exemplo 3.13. Para cada n ∈ N, definamos fn : [0, 1] → R como fn (x) = nxn (1 − xn ).
Mostremos que fn → 0 simplesmente em [0, 1].
Temos fn (1) = 0, para todo n ∈ N.
Para 0 ≤ x < 1, segue que

0 ≤ 1 − xn < 1 ⇒ 0 ≤ nxn (1 − xn ) < nxn ⇒ 0 ≤ fn (x) < nxn , ∀n ∈ N.

Como lim nxn = 0 (ver Exemplo 2.6), segue pelo teorema do confronto que que lim fn (x) =
0, para todo 0 ≤ x < 1, donde concluı́mos que fn → 0 simplesmente em [0, 1].
Apesar disso,
Z 1 Z 1  
n 2n 1 1
fn (x)dx = n (x − x )dx = n · −
0 0 n + 1 2n + 1
n2
=
(n + 1)(2n + 1)
1
= ,
1 + n 2 + n1
1


Z 1 Z 1
1
o que implica lim fn (x)dx = , enquanto f (x)dx = 0.
0 2 0
No próximo resultado veremos que,a fim de alternamos o limite com a de-
rivação, não é necessário a convergência uniforme das fn mas sim de suas derivadas fn′ .

Teorema 3.4. Seja (fn ) uma sequência de funções de classe C 1 no intervalo [a, b] (isto é,
cada fn′ é contı́nua em [a, b]). Se, para um certo c ∈ [a, b], a sequência numérica (fn (c))
converge e se as derivadas fn′ convergem uniformemente em [a, b] para uma função g,
então (fn ) converge uniformemente em [a, b] para uma função f , de classe C 1 , tal que
f ′ = g.
Isto é, (lim fn )′ = lim fn′ , desde que fn′ convirja uniformemente.
Demonstração. Pelo Teorema Fundamental do Cálculo, para cada n ∈ N e todo
x ∈ [a, b], temos
Z x Z x

fn (t)dt = fn (x) − fn (c) ⇒ fn (x) = fn (c) + fn′ (t)dt.
c c
40

Pelo Teorema 3.3, vem que


Z x Z x Z x
lim fn′ (t)dt = lim fn′ (t)dt = g(t)dt.
c c c

Além disso, existe z = lim fn (c) Daı́,


Z x
f (x) = lim fn (x) = z + g(t)dt.
c

Assim, Z c
f (c) = z + g(t)dt = z.
c
Z x
Logo, podemos escrever f (x) = f (c) + g(t)dt.
c
Como fn′ é contı́nua para todo n e fn′ → g uniformemente em [a, b] temos, pelo Teorema
3.1, que g é contı́nua em [a, b] (consequentemente, integrável em [a, b]), logo, f (x) =
f (c) + h(x) − h(c), onde h′ (x) = g(x).
Daı́ concluı́mos que f é derivável e

f ′ (x) = 0 + h′ (x) − 0 = g(x), ∀x ∈ [a, b].

Em particular, f ′ é contı́nua, isto é, f é de classe C 1 .


Resta mostrar que fn → f uniformemente em [a, b].
Com efeito, vamos considerar, sem perda de generalidade, que |a − c| > |b − c| (o que nos
dá |x − c| ≤ |a − c|, ∀x ∈ [a, b])(11) . Assim, dado ε > 0, existem n0 , n1 ∈ N tais que
 ε
 n > n0 ⇒ |fn (c) − f (c)| < (pois (fn (c)) converge)
2

ε , ∀x ∈ [a, b]
 n > n1 ⇒ |fn′ (x) − g(x)| <
 (pois fn′ → g uniformemente)
2|a − c|
11
Para mostrar que essa desigualdade é válida para todo x ∈ [a, b] temos dois casos a considerar
(
0≤c−x
ˆ Se a ≤ x ≤ c ⇒ ⇒ |a − c| = c − a ≥ c − x = |x − c|.
0≤c−a
(
0≤b−c
ˆ Se c < x ≤ b ⇒ ⇒ |x − c| = x − c ≤ b − c = |b − c| < |a − c|.
0≤x−c
41

Logo, tomando n2 = max{n0 , n1 }, temos


Z x Z x
n > n2 ⇒ |fn (x) − f (x)| = fn (c) + fn′ (t)dt − f (c) − g(t)dt
c c
Z x
≤ |fn (c) − f (c)| + (fn′ (t) − g(t))dt
c
(12)
Z x
≤ |fn (c) − f (c)| + |fn′ (t) − g(t)|dt
c
ε ε
< + (x − c)
2 2|a − c|
ε ε
≤ + |x − c|
2 2|a − c|
ε ε
≤ + |a − c| = ε,
2 2|a − c|

para todo x ∈ [a, b], como querı́amos mostrar.

Neste ponto pode surgir a seguinte dúvida: se uma sequência de funções de


classe C 1 converge uniformemente podemos garantir que a sequência de suas derivadas
também converge uniformemente? O próximo exemplo que trataremos nos dará a res-
posta. Porém, vamos antes demonstrar um Lema que será de grande valia para justificar
as afirmações feitas a seguir.
m·π
Lema 3.2. Todo intervalo (a, b) contém um número da forma x = , com m, p ∈ Z
p
(p ̸= 0).
π
Demonstração. Consideremos o conjunto X ⊂ N, X = {p ∈ N; < b − a}. Como R
p
é arquimediano, existe p ∈ N tal que

π π
p> ⇒ < b − a ⇒ p ∈ X.
b−a p

Logo X ̸= Ø.
Sendo assim, pelo Princı́pio da Boa Ordenação, existe p0 = min X.
m·π
Seja A = {m ∈ Z; ≥ b}.
p0
Novamente, por R ser arquimediano, exite m ∈ N ⊂ Z tal que

bp0 mπ
m> ⇒ > b ⇒ m ∈ A.
π p0

b · p0
Logo A ̸= Ø e, além disso, A é limitado inferiormente por . Portanto existe m0 =
π
12
Como fn′ , g e a função modulo são contı́nuas, segue que |fn′ − g| é contı́nua e, consequentemente,
integrável, logo a desigualdade se justifica pelo Teorema 2.23.
42

(m0 − 1)π
min A. Daı́ temos que m0 − 1 ∈
/ A, o que implica < b.
p0
(m0 − 1)π
Afirmamos que ∈ (a, b).
p0
(m0 − 1)π
De fato, supondo que ≤ a obtemos
p0
 m0 π
 ≥b

p0 m0 π (m0 − 1)π π
(m − 1)π ⇒ − ≥b−a⇒ ≥ b − a,
 −
 0
≥ −a p0 p0 p0
p0
o que é uma contradição, pois p0 ∈ X.
(m0 − 1)π (m0 − 1)π
Portanto, > a, ou seja, ∈ (a, b), como querı́amos mostrar.
p0 p0
Exemplo 3.14. Consideremos a sequência de funções fn : R → R, onde fn (x) =
sen (nx) 1
. Notemos que fn → 0 uniformemente em R. De fato, como → 0, dado
n n
ε > 0, existe n0 ∈ N tal que
1 ε
n > n0 ⇒ < .
n 2
Daı́, por |sen (nx)| ≤ 1 para todo x ∈ R e todo n ∈ N, segue que

sen (nx) ε ε
< |sen (nx)| · ≤ < ε, ∀x ∈ R.
n 2 2

Por outro lado, afirmamos que sequência de suas derivadas fn′ (x) = cos(nx) não converge
(nem mesmo simplesmente) em intervalo algum. Com efeito, pelo Lema 3.2, em qualquer

intervalo (a, b) existe um número da forma x = , logo a sequência (fn′ ) assume infini-
p
tas vezes o valor 1 e −1, pois, assumindo, sem perda de generalidade, m ∈ N ı́mpar, vem
que
  (
′ mπ 1 , se n é par
fnp = cos(nmπ) = .
p −1 , se n é ı́mpar
 
′ mπ
Assim, a sequência numérica fnp possui duas subsequências convergindo para valo-
  p   
mπ mπ
res distintos a saber, f2np → 1 e f(2n−1)p → −1 , portanto, a sequência
   p p
′ mπ
fnp diverge, o que prova o afirmado.
p
Observação 16. Podemos notar que no exemplo anterior assumimos que o inteiro m
é ı́mpar. Podemos assumir, sem perda de generalidade, tal fato, pois, dado um inter-
m0 π
valo (a, b), sabemos que existe, pelo Lema 3.2, um número da forma x0 = tal
  p0
b+a
que x0 ∈ a, . Se m0 é ı́mpar nada há o que fazer, caso contrário, tomamos
2
43

π (m0 + 1)π
x = x0 + , e obtemos x = onde m0 + 1 é ı́mpar e
p0 p0
π (13) b − a m0 π m0 π b − a (14) b+a b−a
0< < ⇒ <x< + ⇒ a<x< + = b ⇒ x ∈ (a, b).
p0 2 p0 p0 2 2 2

3.4 Série de Funções

Tudo que foi apresentado até este ponto abrange o caso particular, e de grande
X
importância, de um limite de sequência de funções: a soma f = fn de uma série de
Xn
funções fn : X ⊂ R → R. Aqui, f = lim sn , onde sn = f1 + f2 + · · · + fn = fk
n→∞
k=1
(estamos tomando cada fn definidas no mesmo domı́nio X). Assim, faz sentido tratar da
P
convergência (simples ou uniforme) da série fn no conjunto X.
Também podemos tratar qualquer limite φ = lim φn de uma sequência de funções
φ : X → R como sendo a soma de uma série de funções. Basta tomar f1 = φ1 , f2 =
Xn
φ2 − φ1 , . . . , fn = φn − φn−1 , . . . , donde obtemos φn = f1 + f2 + · · · + fn = fk , logo
X k=1
φ = lim φn = fn .
X
Definição 3.6. Dizemos que uma série de funções fn converge simplesmente num
X
conjunto X se, para cada x ∈ X, a série numérica fn (x) converge, ou seja, se a
X n
sequência das reduzidas sn = fk converge simplesmente em X.
k=1
X
Definição 3.7. A série de funções fn converge uniformemente num conjunto X se a
Xn
sequência de suas reduzidas sn = fk é uniformemente convergente em X.
k=1
X
Assim, dizer que fn converge uniformemente para f em X significa que,
dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que a função

rn (x) = f (x) − sn (x) = fn+1 + fn+2 + . . . (restos da série)

cumpre a condição |rn (x)| < ε, para todo n > n0 e todo x ∈ X (isto é rn → 0 uniforme-
mente em X).
Por se tratar de casos particulares de limite de sequência de funções, temos 4 Teoremas
13
O natural p0 foi obtido, pelo Lema 3.2, como sendo o mı́nimo do conjunto

π b+a b−a
{p ∈ N; < −a= }.
p 2 2

14 mo π b+a
Note que a < < .
p0 2
44

para séries análogos aos Teoremas 3.1, 3.2, 3.3 e 3.4.


X
Teorema 3.5. Se fn converge uniformemente para f e cada fn é contı́nua no ponto
a, então f é contı́nua no ponto a.
X n
Demonstração. Como cada fn é contı́nua em a, cada reduzida sn = fk da série
k=1
é contı́nua em a (a soma de funções contı́nuas é uma função contı́nua). Assim, temos a
sequência de funções (sn ) contı́nuas em a convergindo uniformemente para f , logo, pelo
Teorema 3.1, f é contı́nua em a.
Teorema 3.6. Seja X ⊂ R um conjunto compacto. Se cada fn : X → R é uma função
X
contı́nua, com fn (x) ≥ 0, para todo x ∈ X, e a série fn converge simplesmente para
uma função contı́nua f : X → R, então a convergência é uniforme.
X n
Demonstração. Como cada fn é contı́nua, cada sn = fk é contı́nua. Por fn (x) ≥ 0,
k=1
para todo x ∈ X, temos
n
X n
X
sn+1 (x) = fk (x) + fk+1 (x) ≥ fk (x) = sn (x)
k=1 k=1

para todo x ∈ X e todo n ∈ N, isto é, (sn ) é monótona não decrescente. Visto que sn
converge simplesmente para a função f , temos uma convergência monótona, logo, pelo
Teorema 3.2, sn → f uniformemente em X.
X
Teorema 3.7. Se cada fn : [a, b] → R é integrável e fn converge uniformemente para
Z bX XZ b
f : [a, b] → R, então f é integrável e fn (x)dx = fn (x)dx.
a a
n
X
Demonstração. Novamente, temos cada sn = fk integrável (pois cada fn é in-
k=1
tegrável), logo, por sn → f uniformemente e, pelo Teorema 3.3, segue que f é integrável.
Alem disso, ainda pelo Teorema 3.3 vem que
Z b Z b n
Z bX n Z b
(15) X
f (x)dx = lim sn (x)dx = lim fk (x)dx = lim fk (x)dx
a a n→∞ n→∞ a k=1 n→∞
k=1 a
XZ b
= fn (x)dx.
a

X
Teorema 3.8. Se cada fn : [a, b] → R é de classe C 1 , se fn′ converge uniformemente
X X
em [a, b] e se, para algum c ∈ [a, b], a série numérica fn (c) converge, então fn
X X
′ ′
converge uniformemente para uma função de classe C 1 e ( fn ) = fn .
15
A integral da soma é igual a soma das integrais.
45

n
X n
X
Demonstração. Sejam sn = fk e t n = fk′ . Temos que (sn )′ = tn , para todo
k=1 k=1
n ∈ N (derivada da soma é igual a soma das derivadas). Além disso, tn é contı́nua em
[a, b], visto que cada fn′ é contı́nua, e existe c ∈ [a, b] tal que a sequência (sn (c)) converge.
Sendo assim, estamos nas hipóteses do Teorema 3.4, logo, (sn ) converge uniformemente
X
para uma função f em [a, b] (o que equivale a fn → f uniformemente em [a, b]) e f é
de classe C 1 . Ainda pelo Teorema 3.4, temos

X X
( fn )′ = (lim sn )′ = lim(sn )′ = lim tn = fn′ ,

o que conclui a demonstração.



x2 X
Exemplo 3.15. Consideremos a série de funções , definidas em toda a reta.
n=0
(1 + x2 )n
Afirmamos que esta série converge simplesmente para a função
(
1 + x2 , se x ̸= 0
f (x) = .
0 , se x = 0

X x2
Com efeito, fixado x ∈ R, com x ̸= 0, temos que a série numérica é uma
n=0
(1 + x2 )n
1
série geométrica, cujo primeiro termo é x2 e a razão é (1+x2 )
, logo,


X x2 x2
= 1 = 1 + x2 (ver Exemplo 2.9 e Observação 5).
n=0
(1 + x2 )n 1 − 1+x 2


x2
X x2
Para x = 0, temos (1+x2 )n
= 0, para todo n ∈ N, logo = 0.
n=0
(1 + x2 )n
Como cada termo da série é uma função contı́nua em x = 0 (pois se tratam de funções
racionais com 0 pertencendo ao seu domı́nio) e f é descontı́nua em x = 0 (lim f (x) =
x→0
1 ̸= 0 = f (0)), a convergência não pode ser uniforme, pelo Teorema 3.5.
Vejamos uma proposição que temos sobre séries numéricas que pode ser esten-
dida para séries de funções:
X X
Proposição 3.1. Se |fn | converge uniformemente em X, então fn também con-
verge uniformemente em X.
X X
Demonstração. Como |fn (x)| converge uniformemente em X então |fn (x)|
X
converge simplesmente, ou seja, para cada x ∈ X, a série numérica |fn (x)| converge,
X
logo, fn (x) também irá convergir para cada x ∈ X (toda sére numérica absolutamente
convergente é convergente).
X
Sendo assim, podemos considerar o ”resto”da série fn (x):
46


X
rn (x) = fn+1 (x) + fn+2 (x) + · · · = fk (x)
k=n+1
m
X
e a sua sequência de reduzidas rnm (x) = fk (x).
k=n+1

X X
Sejam tn (x) = |fn+1 (x)| + |fn+2 (x)| + · · · = |fk (x)| (restos da série |fn (x)|) e
k=n+1
m
X
tnm (x) = |fk (x)|. Como, para todo n ∈ N, x ∈ X e m ∈ N, m > n, temos
k=n+1
m m
X (16) X
|rnm (x)| = fk (x) ≤ |fk (x)| = tnm (x),
k=n+1 k=n+1

então, para cada x ∈ X fixado arbitrariamente, obtemos

(17)
lim |rnm (x)| ≤ lim tnm (x) ⇒ |rn (x)| ≤ tn (x).
m→∞ m→∞

X
Sendo assim, por tn → 0 uniformemente (pois |fn (x)| converge uniformemente), dado
ε > 0, existe n0 ∈ N tal que

n > n0 ⇒ |tn (x)| < ε ⇒ |rn (x)| ≤ tn (x) = |tn (x)| < ε, ∀x ∈ X.
X
Logo, rn → 0 uniformemente em X, o que equivale a dizer que fn (x) converge unifor-
memente em X, como querı́amos mostrar.
Tratemos agora de um resultado sobre séries de funções que não possui análogo
para sequências:
Teorema 3.9. (Teste de Weierstrass) Dada uma sequência de funções fn : X → R,
X
seja an uma série convergente de números reais an ≥ 0, tais que |fn (x)| ≤ an , para
X X
todo n ∈ N e todo x ∈ X. Nestas condições, as séries |fn | e fn são uniformemente
convergentes.
Demonstração. Notemos inicialmente que, pela Proposição 3.1, basta mostrarmos que
X X n n
X
|fn | converge uniformemente. Com efeito, sejam sn = |fk | e tn = ak . Como
k=1 k=1
|fn (x)| ≤ an , segue que sn (x) ≤ tn , para todo n ∈ N e todo x ∈ X. Logo,
X X
|fn (x)| = lim sn ≤ lim tn = an , ∀x ∈ X.
16
Generalização da desigualdade triangular.
17
A função módulo é contı́nua, logo, lim |rnm (x)| = lim rnm (x) = |rn (x)|.
m→∞ m→∞
47

X
Assim, pelo critério de comparação (ver Teorema 2.9), concluı́mos que |fn (x)| converge
para cada x ∈ X.
X X∞
Daı́, podemos considerar os ”restos”da série |fn |, rn (x) = |fk (x)| e suas reduzidas
k=n+1
m
X
rnm (x) = |fk (x)|.
k=n+1
Novamente, por |fn (x)| ≤ an , temos
m
X m
X ∞
X
rnm (x) ≤ ak ⇒ lim rnm (x) ≤ lim ak ⇒ rn (x) ≤ ak ,
m→∞ m→∞
k=n+1 k=n+1 k=n+1
X
para todo x ∈ X e todo n ∈ N. Como an converge, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que


X n
X ∞
X
n > n0 ⇒ ak − ak < ε ⇒ ak < ε
k=1 k=1 k=n+1
(18)
⇒ |rn (x)| < ε, ∀x ∈ X.
X
Daı́, concluı́mos que rn → 0 uniformemente em X, que equivale a dizer que |fn |
converge uniformemente em X, o que conclui a demonstração.
∞ ∞
X sen (nx) X sen (nx)
Exemplo 3.16. As séries 2
e 2
convergem uniformemente em R.
n=1
n n=1
n
sen (nx)
De fato, a função fn : R → R, dada por fn (x) = n2
, satisfaz

1 1
|fn (x)| ≤ 2
= 2,
n n
X 1
para todo n ∈ N e todo x ∈ R. Além disso, a série numérica 2
é convergente (ver
∞ ∞
n
X sen (nx) X sen (nx)
Exemplo 2.16), logo, pelo Teste de Weierstrass, e convergem
n=1
n2 n=1
n2
uniformemente em R.
O Teste de Weierstrass nos fornece uma condição suficiente para a convergência
uniforme, porém essa condição não é necessária, como podemos ver no exemplo seguinte:

Exemplo  3.17. Seja a sequência de funções fn : [1, +∞) → R, dadas por


 1 , se x ∈ [n, n + 1)
fn (x) = x .
 0 , se x ∈ / [n, n + 1)

X ∞
X
18
|rn (x)| = rn (x) ≤ ak = ak .
k=n+1 k=n+1
48


X 1
Temos, para cada x ∈ [1, +∞), que . De fato, fixado x ∈ [1, +∞), teremos
fn (x) =
n=1
x
S 
x ∈ [n0 , n0 + 1), para algum n0 ∈ N pois [1, +∞) = n∈N [n, n + 1) , logo, sendo sn (x) =
n
X 1
fk (x), obtemos sm (x) = , para todo m ≥ n0 , o que implica
k=1
x

X 1
fn (x) = lim sn (x) = .
n=1
x
1
Além disso, sn → f uniformemente em [1, +∞), onde f (x) = . Com efeito, notemos
x
que
1
isto é, 0 ≤ f (x) − sn (x) < n1 ,

0 ≤ f (x) − [f1 (x) + · · · + fn (x)] <
n
para todo x ∈ [1, +∞) e todo n ∈ N, pois, se x ≤ n, então x ∈ [m, m + 1), para algum
m ∈ {1, . . . , n}, logo
 
1 1 1
f (x) − [f1 (x) + · · · + fn (x)] = − 0 + · · · + + · · · + 0 = 0 < .
x x n
Entretanto, se for x > n, então f1 (x) = · · · = fn (x) = 0, e ainda teremos
1 1
f (x) − [f1 (x) + · · · + fn (x)] = < .
x n
1 1
Portanto, como n
→ 0, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 implica < ε, daı́
n
1
n > n0 ⇒ |f (x) − sn (x)| = f (x) − sn (x) < < ε, ∀x ∈ [1, +∞),
n
donde concluı́mos que sn → f uniformemente em [1, +∞).
Afirmamos que, apesar disso, não existe uma série numérica convergente de termos não
P
negativos an tal que fn (x) ≤ an , para todo n ∈ N e todo x ∈ [1, +∞). De fato, supondo
que exista tal série, tomemos, em particular, os pontos x = n, com n ∈ N, para os quais
1 X1
teremos ≤ an , para todo n ∈ N. Como a série diverge (ver Exemplo 2.15), temos
P n n
que an diverge (ver Teorema 2.9), o que é uma contradição, logo, tal série não existe.

3.5 Séries de Potências

Diversas funções importantes da Análise podem ser exprimidas como séries


da forma: ∞
X
f (x) = an (x − x0 )n = a0 + a1 (x − x0 ) + · · · + an (x − x0 )n + . . . .
n=0
Séries dessa natureza são denominadas séries de potências, onde podemos notar que se
trata de uma generalização dos polinômios. Trataremos aqui, preferencialmente, o caso

X
em que x0 = 0, ou seja, séries da forma an xn . Todos os resultados demonstrados para
n=0
esse caso podem ser estendidos para o caso geral pela mudança de variável y = x − x0 .
X
Buscaremos agora determinar todos os pontos x para os quais a série an (x − x0 )n
49

converge. Veremos adiante que o conjunto destes pontos é um intervalo de centro x0 . Tal
intervalo pode ser aberto, fechado, semi aberto, reduzir-se a um ponto e até mesmo ser
toda a reta real. Analisemos antes alguns exemplos que retratam essas possibilidades:
X xn
Exemplo 3.18. . Afirmamos que essa série converge para todo x ∈ R.
n!
De fato, para cada x ∈ R, temos, pelo teste de d’Alembert (Teorema 2.13), que
xn+1
(n+1)! x
lim xn = lim = 0 < 1.
n|
n+1
X (−1)n
Exemplo 3.19. · x2n+1 . Mostremos que essa série converge para todo x ∈
2n + 1
[−1, 1] e diverge fora desse intervalo.
Com efeito, para cada x ∈ (−1, 1), utilizando o teste de d’Alembert obtemos,
x2n+3    
2n+3 2 2n + 1 2 2
lim x2n+1 = lim x · = x · lim 1 − = x2 < 1.
2n+1
2n + 3 2n + 3
Logo, para x ∈ (−1, 1) a série converge.
X (−1)n
Para x = 1 temos a série alternada , que converge pelo Teorema de Leibniz
2n + 1
1 1
(Teorema 2.11), pois an = é uma sequência decrescente e lim = 0.
2n + 1 2n + 1
X (−1)n+1 X (−1)n
Para x = −1, obtemos =− que novamente converge pelo teorema
2n + 1 2n + 1
de Leibniz.
(−1)n
Por outro lado, se x > 1, então o termo geral da série cn = · x2n+1 não converge
2n + 1
x2n+1 n
para 0. De fato, seja bn = . Sabemos do Exemplo 2.7 que n → 0, daı́, dado
2n + 1 x
K > 0, existe n0 ∈ N tal que

n 1 xn
n > n0 ⇒ < ⇒ > K.
xn K n
 
n0 − 1
Logo, em particular, para todo n ∈ N satisfazendo 2n + 1 > n0 isto é n >
2
2n+1 2n+1
x x
teremos > K, donde obtemos lim = +∞.
2n + 1 2n + 1
n 4n+1
(−1) 2n+1 x
Assim, cn = x diverge, pois c2n = = b2n → +∞.
2n + 1 4n + 1
O caso x < −1 reduz-se a este da seguinte forme: x = −1 implica x = −y, com y > 1,
x2n+1
daı́, definindo a sequência an = , temos
2n + 1

x2n+1 y 2n+1
an = =− → −∞.
2n + 1 2n + 1

(−1)n 2n+1 x4n+1


Logo, cn = x diverge, pois c2n = = a2n → −∞.
2n + 1 4n + 1
X (−1)n+1
Exemplo 3.20. · xn . Tal série converge para x ∈ (−1, 1] e diverge fora desse
n
50

intervalo.
De fato, para x ∈ (−1, 1), temos, pelo teste de d’Alembert, que
(−1)n+2 xn+1  
n+1 x·n n 1
lim (−1)n+1 xn = lim = |x| · lim = |x| · lim 1 − = |x| < 1.
n+1 n+1 n+1
n
X (−1)n+1
Logo, para x ∈ (−1, 1) a série converge. Se x = 1, temos a série alternada .
n
1 X (−1)n+1
Como an = é decrescente e lim an = 0, temos pelo teorema de Leibniz que
n n
converge.
X1 X (−1)2n+1 X1
Se x = −1, temos =− que diverge, pois diverge.
n n n
Para o caso |x| > 1, a demonstração de que a série diverge segue a mesma linha do
exemplo anterior, por isso deixamos a cargo do leitor.
X
Exemplo 3.21. xn . A série geométrica converge para x ∈ (−1, 1) e diverge fora deste
intervalo.
Basta notar que, sendo |x| < 1, temos
xn+1
lim = lim |x| = |x| < 1,
xn X
donde obtemos, pelo teste de d’Alembert, que xn converge.
Para |x| > 1, o termo geral da série cn = xn diverge, logo a série irá divergir nesse caso.
Para x = 1 a seqência cn = xn é constante igual a 1, portanto, não converge para 0 e,
consequentemente, a série diverge.
Para x = −1 a sequência cn = xn diverge, pois possui duas subsequências convergindo para
valores diferentes (a saber c2n = 1 → 1 e c2n−1 = −1 → −1) logo temos também nesse caso
que a série diverge.
X
Exemplo 3.22. nn xn . Neste caso a série converge apenas para para x = 0.
X
De fato, se x = 0, então nn xn = 0, logo converge.
Por outro lado, se x ̸= 0, então o termo geral da série não tende a 0. Para justificar essa
afirmação dividamos em casos:
• |x| < 1: Aqui a sequência xn é limitada, logo lim nn · xn = +∞, pois lim nn = +∞
(ver Teorema 2.8 e Exemplo 2.4).
• |x| > 1: Nesse caso, x2n > 1, para todo n ∈ N, daı́ 2n2n · x2n > 2n2n e, por
2n2n → +∞ (pois se trata de uma subsequência de nn ), segue que a2n = 2n2n ·x2n → +∞,
logo an = nn(
xn diverge.
x = 1 ⇒ nn xn = nn → +∞
• x = ±1: .
x = −1 ⇒ 2n2n x2n = 2n2n → +∞ ⇒ nn xn diverge
Em qualquer dos casos temos que nn xn não converge para 0, logo a série diverge.
an xn converge
P
Para determinar os pontos x para os quais a série
p
utilizaremos o teste de Cauchy, o qual irá analisar o comportamento da sequência ( n |an |).
51

p X
Proposição 3.2. Se a seqência ( n |an |) é ilimitada, então a série an xn converge
apenas quando x = 0.
p
Demonstração. Com efeito, fixado arbitrariamente x ̸= 0, a sequência bn = n |an xn | =
p p
|x| n |an | é ilimitada, pois dado K > 0, existe (visto que n |an | é ilimitada) n0 ∈ N tal
p K p
que n0 |an0 | > , logo |x| n0 |an0 | > K.
|x|
Disto segue que |an xn | também é ilimitada. De fato, supondo que fosse limitada, isto é,
p √
existe L > 0 satisfazendo |an xn | ≤ L, para todo n ∈ N, concluı́mos que |x| · n |an | ≤ n L,

para todo n ∈ N. Logo, como a sequência cn = n L é limitada (pois converge pelo Exem-
√ p
plo 2.5), existe M > 0 tal que n L ≤ M ,para todo n ∈ N, o que implica |x| · n |an | ≤ M ,
para todo n ∈ N, ou seja, bn é limitada, o que é uma contradição.
X
Portanto, |an xn | diverge e, consequentemente, o termo geral da série an xn não con-
verge para zero (lim bn = 0 ⇔ lim |bn | = 0), logo a série diverge. Quando x = 0, segue
X
diretamente que an xn = 0, logo a série converge.
p
Por outro lado, se ( n |an |) for limitada, podemos afirmar que o conjunto
p 1
R = {ρ > 0; n |an | < para todo n suficientemente grande}
ρ
é não vazio.
p p
De fato, como ( n |an |) é limitada, existe K > 0 tal que n |an | < K, para todo n ∈ N,
1
logo, ρ = ∈ R.
K
Além disso, se ρ ∈ R e 0 < x < ρ, então x ∈ R, pois
p 1 1
ρ ∈ R ⇒ ∃n0 ∈ N; n > n0 ⇒ n |an | < < ⇒ x ∈ R.
ρ x
Logo, R é um intervalo do tipo (0, r), (0, r] ou (0, +∞), onde r = sup R. O número real
X
r é chamado de raio de convergência da série an xn . Optaremos por escrever r = +∞
quando R for ilimitado superiormente.
X
Analisemos algumas propriedades do raio de convergência da série an xn :
X
a) Para todo x ∈ (−r, r) a série an xn converge absolutamente.
p 1
Com efeito, tomando ρ tal que |x| < ρ < r, temos ρ ∈ R, ou seja, n |an | < para
ρ
todo n suficientemente grande e, consequentemente,

p
n
p |x|
|an xn | = |x| n |an | < < 1,
ρ
X
para todo n suficientemente grande. Logo, pelo teste de Cauchy, an xn converge
absolutamente.

X
b) Se |x| > r então a série an xn diverge.
p
n 1
Com efeito, nesse caso |x| ∈
/ R, logo não se tem |an | < para todo n suficien-
|x|
temente grande. O que equivale a dizer que
52

p 1
n
|an | ≥ ⇒ |an xn | ≥ 1,
|x|
para uma infinidade de valores de n. Logo, (an xn ) não tende a zero, pois dado ε < 1
sempre existirão ı́ndices n tais que |an xn | ≥ 1 > ε. Assim, como o termo geral não
X
tende a zero, a série an xn diverge.

X
c) Se x = ±r, nada se pode dizer em geral, a série an xn pode ou não convergir.
Apresentaremos adiante casos onde a série converge e casos onde a série diverge
nesses pontos.

p 1
d) Se existir L = lim n
|an |, então r = (se for L = 0, então r = +∞).
n→+∞ L p
Suponhamos inicialmente que L ̸= 0. Como n |an | ≥ 0, para todo n ∈ N, temos
1
necessariamente que L > 0. Mostremos que nesse caso r = . Com efeito, para
L
p
n 1
todo ρ ∈ R, existe n0 ∈ N tal que n > n0 implica |an | < . Fazendo n → +∞
ρ
obtemos
p 1 1 1
lim n |an | ≤ lim ⇒L≤ ⇒ρ≤ .
n→+∞ n→+∞ ρ ρ L
1 1
Assim, ρ ≤ , para todo ρ ∈ R. Logo, de r = sup R segue que r ≤ . Suponhamos
L L
1 1 1
que r < . Nesse caso existiria c ∈ R tal que r < c < , donde L < . Sendo
L p L c
assim, por lim n |an | = L e pelo Teorema 2.5, existe n1 ∈ N tal que
p 1
n > n1 ⇒ n |an | < ⇒ c ∈ R ⇒ c ≤ r,
c
1
o que é uma contradição. Portanto, r = .
L
No caso L = 0 afirmamos que R será ilimitado superiormente. De fato, para qual-
p 1 p
quer ρ > 0 existirá n2 ∈ N tal que n > n2 implica n |an | < (pois lim n |an | = 0),
ρ
logo, ρ ∈ R. Daı́, concluı́mos que (0, +∞) ⊂ R e, consequentemente, R = (0, +∞), o
que prova o afirmado. Pelo que convencionamos acima vem que nesse caso r = +∞.
Observação 17. Sabemos do Teorema 2.15 que, se an ̸= 0 para todo n ∈ N, e existe L =
|an+1 | p
lim , então L = lim n |an |. Esse resultado nos fornece outra forma de determinar
|an |
o raio de convergência de uma série de potências.
X
Teorema 3.10. Uma série de potências an xn , com raio de convergência r, converge
uniformemente em todo intervalo compacto [−ρ, ρ], onde 0 < ρ < r.

Demonstração. Notemos que, sendo 0 < ρ < r, temos da propriedade a) acima


X
que a série an ρn é absolutamente convergente. Consideremos a sequência de funções
fn : [−ρ, ρ] → R, dadas por fn (x) = an xn . Temos, para todo x ∈ [−ρ, ρ] e todo n ∈ N,
que
53

|x| ≤ ρ ⇒ |an xn | ≤ |an |ρn = |an ρn | ⇒ |fn (x)| ≤ |an ρn |.


X
Assim, pelo teste de Weierstrass, segue que an xn converge uniformemente em [−ρ, ρ],
como querı́amos mostrar.
X
Corolário 3.1. Se r > 0 é o raio de convergência da série an xn , a função f :
X
(−r, r) → R, definida por f (x) = an xn é contı́nua.
n
X
Demonstração. Como cada sn (x) = ak xk é contı́nua (tratam-se de polinômios), e
k=0
dado a ∈ (−r, r), existe 0 < ρ < r, com a ∈ [−ρ, ρ], temos assim, pelo Teorema 3.10, a
sequência de funções contı́nuas (sn ) convergindo uniformemente em [−ρ, ρ] para f , logo
f é contı́nua em a. Por a ter sido tomado arbitrariamente em (−r, r), f é contı́nua em
(−r, r).
Consideraremos agora um exemplo que confirma o fato de que uma série de potências,
mesmo convergindo uniformemente em todo intervalo compacto contido em (−r, r), pode
não convergir uniformemente em todo intervalo:
X xn
Exemplo 3.23. Seja . Notemos que o raio de convergência dessa série é infinito,
n+1
n!
x
(n+1)! x X xn
pois, lim xn = lim = 0 (ver Observação 17). Mostremos agora que
n!
n+1 n!
não converge uniformemente em R. Com efeito, consideremos os restos da série rn (x) =
X xk
. Sempre que x for positivo, teremos
k>n
k!

m
xn+1 X xk (19) xn+1
rn (x) = + lim ≥ .
(n + 1)! m→+∞ k=n+2 k! (n + 1)!

Sendo assim, dado ε > 0, para qualquer n0 ∈ N que tomemos, sempre existirá x positivo
p
que tornará rn0 (x) ≥ ε, basta tomar x ≥ n0 +1 ε(n0 + 1)! que teremos
xn0 +1
≥ ε ⇒ rn0 (x) ≥ ε,
(n0 + 1)!
X xn
ou seja, rn não converge uniformemente para 0 em R e, consequentemente, não
n!
converge uniformemente em R.
Vejamos a seguir como se comportam as séries de potências com
respeito a integração e derivação.
Teorema 3.11. (Integração termo a termo) Seja r o raio de convergência da série
X
de potências an xn . Se [α, β] ⊂ (−r, r) então

m m
19
X xk X xk
Como x é positivo, temos ≥ 0, para todo m ∈ N, logo lim ≥ 0.
k! m→+∞ k!
k=n+2 k=n+2
54

X Z βX an
( an xn )dx = (β n+1 − αn+1 ),
α n + 1
Z β X XZ β
n
isto é, ( an x )dx = an xn dx.
α α
X
Demonstração. Notemos que an xn converge uniformemente em [α, β], pois, pondo
ρ = max{|α|, |β|} < r, teremos [α, β] ⊂ [−ρ, ρ] ⊂ (−r, r). Logo, pelo Teorema 3.3, se
n
X
sn (x) = ak xk , temos
k=1

Z β Z β Z β n n
X
n
X X an
( an x )dx = lim sn (x)dx = lim ak xk dx = lim (β n+1 − αn+1 )
α α α k=1 k=1
n+1
X an
= (β n+1 − αn+1 ).
n+1

Teorema 3.12. (Derivação termo a termo) Seja r o raio de convergência da série de


X X
potências an xn . A função f : (−r, r) → R, dada por f (x) = an xn , é derivável, com
X∞ ∞
X
′ n−1
f (x) = n · an x e a série de potências n · an xn−1 ainda tem raio de convergência
n=1 n=1
r.

X
Demonstração. ′
Seja r o raio de convergência da série n · an xn−1 . Afirmamos
n=1

X ∞
X
que n · an xn−1 converge se, e somente se, n · an xn converge. Com efeito, fixando
n=1 n=1
arbitrariamente x ∈ (−r′ , r′ ) e considerando as reduzidas das séries em questão, isto é,
Xn n
X
k−1
un = k · ak x e vn = k · ak xk , temos que un = x · vn , para todo n ∈ N.
k=1 k=1
Notemos que se x = 0 é imediato que ambas as sequências, (un ) e (vn ), convergem. Para
x ̸= 0 temos que, se (un ) converge, digamos lim un = u, então

lim vn = lim(x · un ) = lim x · lim un = x · u,

ou seja, (vn ) converge.


Reciprocamente, se (vn ) converge, digamos lim vn = v, então
 
1 1 v
lim un = lim · vn = lim · lim vn = ,
x x x

ou seja, (un ) converge, provando assim o afirmado.


55


X

Sendo assim, r é também o raio de convergência da série n · an xn , isto é,
n=1

p 1
r′ = sup R′ = sup{ρ > 0; n
|n · an | < , para n suficientemente grande}.
ρ

Mostremos agora que r′ = r. Para tornar a linguagem menos carregada, abreviemos


”para n suficientemente grande”por ”n >> 1”. Se 0 < ρ < r, então, tomando c com
p 1 √
0 < ρ < c < r, temos n |an | < , n >> 1. Por outro lado, como lim n n = 1, vale
√ c
c
n
n < , n >> 1 (note que ρ < c ⇒ ρc > 1). Daı́, temos
ρ
pn
√ 1 c p 1
|an | · n n < · ⇒ n |n · an | < , n >> 1.
c ρ ρ
Portanto, ρ ∈ R′ , ou seja, 0 < ρ < r implica 0 < ρ < r′ .
Se 0 < ρ < r′ temos, por n = |n| ≥ 1, para todo n ∈ N, que
p
n
p 1
|an | ≤ n |n · an | < , n >> 1.
ρ
Daı́, vem que ρ ∈ R, isto é, 0 < ρ < r′ implica 0 < ρ < r, logo, r = r′ (note que se fosse

X ∞
X
r < r′ ou r′ < r uma das implicações seria falsa). Assim, as série n · an xn−1 e an x n
n=1 n=0
tem o mesmo raio de convergência.
X∞

Resta agora mostrar que f (x) = n · an xn−1 . Fixado qualquer x ∈ (−r, r), tomamos ρ
n=1
X∞ ∞
X
n
tal que |x| < ρ < r. Ambas as séries an x e n·an xn−1 convergem uniformemente em
n=0 n=1
n
X n
X
k
[−ρ, ρ], logo, as sequências de funções (sn ) (sn (x) = ak x ) e (tn ) (tn (x) = k·ak xk−1 )
k=0 k=1
convergem uniformemente em [−ρ, ρ] e (sn (x))′ = tn (x) , para todo x ∈ [−ρ, ρ] e todo
n ∈ N, portanto, pelo Teorema 3.4,

X∞ ∞
X
′ n ′ ′ ′
f (x) = ( an x ) = ( lim sn (x)) = lim (sn (x)) = lim tn (x) = n · an xn−1 .
n→∞ n→∞ n→∞
n=0 n=1

X
Corolário 3.2. Seja r o raio de convergência da série de potências an xn . A função
X
f : (−r, r) → R, definida por f (x) = an xn , é de classe C ∞ . Para quaisquer x ∈ (−r, r)
e k ∈ N tem-se

X
f (k) (x) = n(n − 1) . . . (n − k + 1)an xn−k .
n=k

f (k) (0)
Em particular, ak = .
k!
56

Demonstração. O fato de que f é de classe C ∞ segue de sucessivas aplicações do


Teorema 3.12. Provemos por indução em k que vale a igualdade

X
(k)
f (x) = n(n − 1) . . . (n − k + 1)an xn−k .
n=k

Com efeito, para k = 1, a igualdade segue do Teorema 3.12. Supondo válida a igualdade
para k − 1 temos

X
f (k−1) (x) = n(n − 1) . . . (n − k + 2)an xn−k+1
n=k−1

(20) X
= (p + k − 1)(p + k − 2) . . . (p + 1)ap+k−1 xp
p=0
X∞
= bp x p ,
p=0

onde bp = (p + k − 1)(p + k − 2) . . . (p + 1)ap+k−1 .


Portanto, pelo Teorema 3.12, dado x ∈ (−r, r), vem que

X ∞
X
(k−1) ′ (k) p−1
(f (x)) = f (x) = p · bp x = (p + k − 1)(p + k − 2) . . . (p + 1)p · ap+k−1 xp−1
p=1 p=1
X∞
= n(n − 1) . . . (n − k + 1)an xn−k ,
n=k

isto é, a igualdade é válida para k, logo, vale a igualdade para todo k ∈ N.
f (k) (0)
Em particular, f (k) (0) = k(k − 1) . . . 2 · 1 · ak = k! · ak , o que implica ak = .
k!

3.6 Funções Trigonométricas

Nesta seção mostraremos como é possı́vel definir as funções trigonométricas


analı́ticamente. Para tanto, consideremos as séries de potências
∞ ∞
X (−1)n 2n X (−1)n 2n+1
c(x) = x e s(x) = x .
n=0
(2n)! n=0
(2n + 1)!
Tais séries possuem raio de convergência infinito. De fato,
(−1)n+1 (−1)n+1
(2n+2)! 1 (2n+3)! 1
lim = lim =0 e lim = lim = 0.
(−1)n (2n + 2)(2n + 1) (−1)n (2n + 3)(2n + 2)
(2n)! (2n+1)!

Assim, ambas definem funções c : R → R e s : R → R, de classe C ∞ . Observando as


séries expandidas
20
p = n − k + 1.
57

x 2 x4 x 3 x5
c(x) = 1 − + + ... e s(x) = x − + + ...,
2! 4! 3! 5!
temos que c(0) = 1, s(0) = 0. Além disso,

X (−1)n X (−1)n
c(−x) = (−x)2n = x2n = c(x)
(2n)! (2n)!

e
X (−1)n X (−1)n
s(−x) = (−x)2n+1 = − x2n+1 = −s(x),
(2n + 1)! (2n + 1)!
ou seja, c é uma função par e s é uma função ı́mpar.
Derivando termo a termo, temos
x 3 x5 x2 x 4
c′ (x) = −x + − + · · · = −s(x) e s′ (x) = 1 − + + · · · = c(x).
3! 5! 2! 4!
Proposição 3.3. (c(x))2 + (s(x))2 = 1, para todo x ∈ R.

Demonstração. Com efeito, a função f (x) = (c(x))2 + (s(x))2 tem derivada igual a

f ′ (x) = 2c′ (x) · c(x) + 2s′ (x) · s(x) = −2s(x)c(x) + 2c(x)d(x) = 0, ∀x ∈ R,

logo é constante. Como f (0) = 12 + 02 = 1, segue que f (x) = 1, para todo x ∈ R, isto é
(c(x))2 + (s(x))2 = 1, para todo x ∈ R, como querı́amos mostrar.
Proposição 3.4. Para todo x, y ∈ R são válidas as igualdades:
ˆ s(x + y) = s(x)c(y) + s(y)c(x);
ˆ c(x + y) = c(x)c(y) − s(x)s(y).

Demonstração. Fixemos arbitrariamente y ∈ R e definamos as funções

f (x) = s(x + y) − s(x)c(y) − s(y)c(x)


e
g(x) = c(x + y) − c(x)c(y) + s(x)s(y).

Notando que, sendo y fixado, s(y) e c(y) são constantes, temos

f ′ (x) = c(x + y) − c(x)c(y) + s(y)s(x) = g(x), ∀x ∈ R


e
g ′ (x) = −s(x + y) + c(x)s(y) + s(x)c(y) = −f (x) ∀x ∈ R.

Logo, novamente, a função h(x) = (f (x))2 + (g(x))2 tem derivada nula, donde segue
que ela é constante. Como f (0) = g(0) = 0, segue que h(0) = 0 e, consequentemente
h(x) = (f (x))2 + (g(x))2 = 0, para todo x ∈ R. Sendo assim, f (x) = g(x) = 0, isto é,
s(x + y) − s(x)c(y) − s(y)c(x) = 0 ⇒ s(x + y) = s(x)c(y) + s(y)c(x)
e
58

c(x + y) − c(x)c(y) + s(x)s(y) = 0 ⇒ c(x + y) = c(x)c(y) − s(x)s(y),


para todo x ∈ R.
Como y foi fixado arbitrariamente, ambas as igualdades valem para quaisquer x, y ∈
R.
Proposição 3.5. Existe x > 0 tal que c(x) = 0.

Demonstração. Suponhamos que não exista tal x. Como c é contı́nua (pois é de-
rivável) e c(0) = 1, temos c(x) > 0, para todo x > 0 (21) . Por s′ (x) = c(x), segue que a
função s é crescente na semi-reta R+ . Então, para qualquer x > 1, vale, pelo Teorema
Fundamental do Cálculo, que
Rx Rx Rx
1
s(t)dt = (−c(x)) − (−c(1)) ⇒ c(x) = c(1) − 1
s(t)dt > 0 ⇒ c(1) > 1
s(t)dt.

Rx (22) R
x
Como 1 s(t)dt ≥ 1 s(1)dt = s(1)(x − 1), obtemos c(1) > s(1)(x − 1), para todo x > 1,
o que é um absurdo, visto que c(1) é constante e lim s(1)(x − 1) = +∞ (pois, sendo s
x→+∞
crescente em R+ , tem-se 0 = s(0) < s(1) e lim (x − 1) = +∞). Logo, deve existir tal
x→+∞
x > 0.

Notemos que o conjunto X = {x ∈ R+ ; c(x) = 0} é fechado. De fato, dada


uma sequência (xn ), com xn ∈ X e xn → y, temos, por c ser contı́nua, que

c(y) = c(lim xn ) = lim c(xn ) = lim 0 = 0 ⇒ y ∈ X.

Por X ser limitado inferiormente, existe x = inf X, e, sendo X fechado, temos que x ∈ X
implica que x = min X. Sabemos que x ̸= 0, pois c(0) = 1. Denotaremos tal x por π2 .
Proposição 3.6. As funções c e s são funções periódicas, de perı́odo 2π.

Demonstração. Com efeito, da fórmula de adição e de c2 + s2 = 1, temos


c(2x) = (c(x))2 − (s(x))2 = 2(c(x))2 − 1, logo,
π π
c(π) = c(2 · ) = 2(c( ))2 − 1 = −1
2 2
e
c(2π) = 2(c(π))2 − 1 = 1.

Por c2 + s2 = 1, segue que


21
Atentemos ao fato de que, se existisse x1 > 0 tal que c(x1 ) < 0 concluirı́amos, pelo Teorema do Valor
Intermediário, que existiria x2 ∈ (0, x1 ) tal que c(x2 ) = 0, o que estamos assumindo não acontecer.
22
Visto que s é crescente em [1, x] vem que s(t) ≥ s(1), para todo t ∈ [1, x], logo
Z x Z x
s(t)dt ≥ s(1)dt = s(1)(x − 1)
1 1

.
59

p
s(π) = 1 − (c(π))2 = 0
e
p
s(2π) = 1 − (c(2π))2 = 0.
Novamente, pelas fórmulas de adição, temos

s(x + 2π) = s(x)c(2π) + s(2π)c(x) = s(x)


e
c(x + 2π) = c(x)c(2π) − s(x)s(2π) = c(x),
como querı́amos mostrar.
Deste ponto em diante podemos utilizar as notações mais conhecidas para as funções c
e s, c(x) = cos(x) e s(x) = sen (x).As demais funções trigonométricas são definidas da
sen (x) 1 1 cos(x)
maneira habitual: tan(x) = , sec(x) = , csc(x) = , cot(x) = .
cos(x) cos(x) sen (x) sen (x)
Em particular, temos que

sen (x) sen (x) − sen (0)


lim = lim = sen ′ (0) = cos(0) = 1.
x→0 x x→0 x−0

3.7 Séries de Taylor


X
Definição 3.8. Quando a série de potências an (x − x0 )n tem raio de convergência
r > 0, diz-se que ela é a série de Taylor, em torno do ponto x0 , da função
X
f : (x0 − r, x0 + r) → R, f (x) = an (x − x0 )n .

Observação 18. Esta nomenclatura se justifica pelo fato de que a soma dos primeiros
n
 + 1 termos desta série formam o ′polinômio
 de Taylor de ordem n de f no ponto x0
f (x0 )
lembremos que, nesse caso, an = .
n!
Apresentaremos nesta seção as séries de Taylor de algumas funções
recorrentes do cálculo.
1. Função seno e cosseno.

Pela definição que demos na seção anterior, as séries de Taylor, em torno do


ponto x = 0, dessas funções são:

x3 x 5 x2 x4
sen (x) = x − + − . . . e cos(x) = 1 − + − ....
3! 5! 2! 4!
1 1 1
2.As funções , e .
1 − x 1 + x 1 + x2
60

X 1
A série xn é uma série geométrica, a qual converge para a soma
1−x
quando |x| < 1, e diverge quando |x| ≥ 1. Dessa forma, ela é a série de Taylor da função
1
f : (−1, 1) → R, definida por f (x) = .
1−x
Da mesma forma, 1 − x + x2 − x3 + · · · = (−1)n xn é a série de Taylor da função
P
1
g : (−1, 1) → R, dada por g(x) = .
1+x
Temos também que 1 − x2 + x4 − x6 + · · · = (−1)n x2n é a série de Taylor da função
P
1
h : (−1, 1) → R, h(x) = . Estas três séries são séries de Taylor das funções respec-
1 + x2
tivas em torno do ponto x = 0.
Por motivos que ficarão mais claros posteriormente, podemos exprimir estas três funções
por somas finitas:

1 xn+1
= 1 + x + · · · + xn + , x ̸= 1;
1−x 1−x
1 (−1)n xn+1
= 1 − x + . . . (−1)n xn + , x ̸= −1;
1+x 1+x
1 2 n 2n (−1)n x2n+2
= 1 − x + · · · + (−1) x + , x ∈ R.
1 + x2 1 + x2
Afirmamos que, em cada uma das expressões acima, a última parcela é o resto da fórmula
de Taylor infinitesimal. Com efeito, sejam

xn+1 (−1)n+1 xn+1 (−1)n+1 x2n+2


r(x) = , s(x) = e t(x) = .
1−x 1+x 1 + x2

Temos que:
r(x) x
lim = lim = 0;
x→0 xn x→0 1 − x

s(x) (−1)n+1 x
lim = lim = 0;
x→0 xn x→0 1+x
t(x) (−1n+1 xn+2 )
lim = lim = 0.
x→0 xn x→0 1 + x2
3. Função exponencial.

X xn
A série converge para todo x ∈ R (ver Exemplo 2.13). Portanto, a
n! X xn
função f : R → R, definida por f (x) = , é de classe C ∞ . Ao derivar termo a termo
n!
obtemos que
X nxn−1 X xn−1 ∞

X xm
f (x) = = = = f (x).
n≥1
n! n≥1
(n − 1)! m=0
m!
Como f (0) = 1, concluı́mos pelo Teorema 2.26 que f (x) = ex , para todo x ∈ R. Dessa
61

forma,
x 2 x3
ex = 1 + x +
+ + ...
2! 3!
é a série de Taylor da função exponencial em torno do ponto x = 0.
4. Função Logaritmo.
Como log x não está definida para x = 0, determinaremos a série de Taylor da função
Z xpara todo x > −1. Temos, por definição da função
log(1 + x), a qual está definida
1
logaritmo, que log(1 + x) = dt. Já vimos que, para t ∈ (−1, 1), a função
0 1+t
1 X
f (t) = coincide com a série (−1)n tn . Assim, para x ∈ (−1, 1) podemos integrar
t+1
termo a termo e obter
Z x Z xX XZ x X (−1)n X (−1)m−1 xm
1 n n
dt = (−1) t = (−1)n tn = xn+1 = .
0 1+t 0 0 n+1 m≥1
m

Notemos que o raio de convergência desta série é igual a 1, pois

(−1m )
m+1 m
lim = lim = 1.
m→+∞ (−1)m−1 m→+∞ m + 1
m

X (−1)m−1 xm
Sendo assim, é a série de Taylor, em torno do ponto x = 0, da função
m≥1
m
log(1 + x) em (−1, 1).
1
Entretanto, pelo Teorema de Leibniz, esta série também converge para x = 1, pois é
m
decrescente e converge para 0, mas diverge para x = −1, visto que
X (−1)2m−1 X 1 X 1
= − e a série harmônica diverge. Daı́, surge a dúvida: a
m≥1
m m≥1
m m
X (−1)m−1 xm
função f : (−1, 1] → R, dada por f (x) = coincide com log(1 + x)?
m≥1
m
Afirmamos que sim. Com efeito, já sabemos que f coincide com log(1 + x) em (−1, 1),
analisemos por fim o caso x = 1. Integrando termo a termo o desenvolvimento finito de
1
visto anteriormente (desta vez desenvolvendo até a ordem n em vez de n + 1) temos
1+t

x x
(−1)n tn
Z Z  
1 2 n−1 n−1
log(1 + x) = dt = 1 − t + t − · · · + (−1) t + dt
0 1+t 0 1+t
x2 x3 xn
= x− + − · · · + (−1)n−1 + rn (x)
2 3 n
n m−1 m
X (−1) x
= + rn (x), (1)
m=1
m

x
tn
Z
n
onde rn (x) = (−1) dt. Para x = 1, temos que
0 1+t
62

1 1 Z 1 n Z 1
tn tn
Z (23)
Z (24)
t 1
|rn (1)| = dt ≤ dt = dt ≤ tn dt = .
0 1+t 0 1+t 0 1+t 0 n+1
1 1
Como lim = 0 e 0 ≤ |rn (1)| ≤ , vem pelo Teorema do Sanduı́che que
n+1 n+1
lim |rn (1)| = 0, o que equivale a lim rn (1) = 0.
Portanto, de (1), vem que

n n
X (−1)m−1 1m X (−1)m−1
log(2) = + rn (1) ⇒ lim (log(2)) = lim + lim rn (1)
m=1
m n→+∞ n→+∞
m=1
m n→+∞


X (−1)m−1
⇒ log(2) = = f (1),
m=1
m

como querı́amos mostrar.

5. Função arctan x.
Tendo em vista que o desenvolvimento em série de Taylor da função tan x utiliza recursos
que fogem do escopo do presente trabalho, não apresentaremos aqui. Entretanto podemos
desenvolver a função arctan x utilizando as ferramentas
 π π apresentadas até o momento. 1
Sabemos do Cálculo que a função arctan : R → − , tem derivada igual a ,
Z x 2 2 1 + x2
1
para todo x ∈ R. Assim, temos que arctan x = 2
dt, para todo x ∈ R.
0 1+t
1 X
Vimos anteriormente que, se t ∈ (−1, 1), então = (−1)n t2n , sendo assim, quando
1 + t2
|x| < 1, teremos [0, x] ⊂ (−1, 1) (ou [x, 0] ⊂ (−1, 1)), o que nos permite, pelo Teorema
1
3.11, integrar termo a termo o desenvolvimento de Taylor de , donde obtemos
1 + t2
Z xX XZ x X (−1)n x2n+1
n 2n
arctan x = (−1) t dt = (−1)n t2n dt = .
0 0 2n + 1
Como o argumento de integrar termo a termo só é válido para |x| < 1, podemos concluir
X (−1)n x2n+1
que a função f : (−1, 1) → R, dada por f (x) = , coincide com arctan x
2n + 1
para x ∈ (−1.1). Entretanto, essa série também converge para x = 1 e x = −1. De fato,

X (−1)n 12n+1 X 1 X (−1)n (−1)2n+1 X 1


= (−1)n e =− (−1)n ,
2n + 1 2n + 1 2n + 1 2n + 1

1
pelo Teorema de Leibniz, ambas as séries convergem, pois é decrescente e converge
2n + 1
para 0.
X (−1)n x2n+1
Portanto, podemos analisar se f : [−1, 1] → R, dada por f (x) = , coincide
2n + 1
com arctan x para todo x ∈ [−1, 1]. Para tanto, iremos integrar o desenvolvimento finito
23 tn
é contı́nua em [0, 1].
1+t
1 tn
24
0≤t≤1⇒1≤1+t≤2⇒ ≤1⇒ ≤ tn .
1+t 1+t
63

1
de visto anteriormente (indo até a ordem n), donde obtemos
1 + t2

x
(−1)n t2n
 Z 
2 4 n−1 2n−2
arctan x = 1 − t + t − · · · + (−1) t + dt
0 1 + t2
x3 x5 (−1)n−1 x2n−1
= x− + − ··· + + rn (x)
3 5 2n − 1
n−1
X (−1)m x2m+1
= + rn (x),
m=0
2m + 1

x
t2n
Z
n
onde rn (x) = (−1) dt.
0 1 + t2
Para x = 1 temos
1 1 1
t2n t2n
Z (24)
Z (25)
Z
1
|rn (1)| = dt ≤ dt ≤ t2n dt = .
0 1 + t2 0 1 + t2 0 2n + 1
Já para x = −1 vale
Z −1 2n Z 0 2n Z 0 Z 0
t t (25) t2n (26) 1
|rn (−1)| = 2
dt = 2
dt ≤ 2
dt ≤ t2n dt = .
0 1+t −1 1 + t −1 1 + t −1 2n + 1
1 1 1
Assim, como lim = 0, 0 ≤ |rn (1)| ≤ e 0 ≤ |rn (−1)| ≤ , segue
2n + 1 2n + 1 2n + 1
pelo Teorema do Sanduı́che que lim |rn (1)| = lim |rn (−1)| = 0 e, consequentemente,
n→+∞ n→+∞
lim rn (1) = lim rn (−1) = 0.
n→+∞ n→+∞
Portanto,

n−1 n−1
X (−1)m X (−1)m
arctan 1 = + rn (1) ⇒ lim (arctan 1) = lim + lim rn (1)
m=0
2m + 1 n→+∞ n→+∞
m=0
2m + 1 n→+∞


X (−1)m
⇒ arctan 1 = = f (1)
m=0
2m + 1

n−1
X (−1)m (−1)2m+1
arctan(−1) = + rn (−1)
m=0
2m + 1
n−1
X (−1)m+1
⇒ lim (arctan(−1)) = lim + lim rn (−1)
n→+∞ n→+∞
m=0
2m + 1 n→+∞


X (−1)m+1
⇒ arctan(−1) = = f (−1).
m=0
2m + 1

25 t2n
é contı́nua.
1 + t2
1 t2n
26
0 ≤ t2 ⇒ 1 ≤ 1 + t2 ⇒ 2
≤1⇒ ≤ t2n .
1+t 1 + t2
64

X (−1)n x2n+1
Dessa forma, podemos concluir que vale a igualdade arctan x = para
2n + 1
π
todo x ∈ [−1, 1]. Lembrando que arctan 1 = , obtemos a fórmula de Leibniz
4
π 1 1 1
= 1 − + − + ....
4 3 5 7
65

4 EXERCÍCIOS

Como já citado no inı́cio deste trabalho, esta seção foi dedicada a resolução
dos exercı́cios propostos no capı́tulo 12 do livro de (LIMA, 2014), os quais estão divididos
em três seções, a saber, Convergência Simples e Convergência Uniforme, Propriedades da
convergência uniforme e Séries de potências.

4.1 Seção 1: Convergência Simples e Convergência Uniforme.

1. Mostre que a sequência de funções fn : [0, +∞) → R, dadas por fn (x) = xn /(1+xn ),
converge simplesmente. Determine a função limite e mostre que a convergência não
é uniforme.
Solução. Inicialmente relembremos do capı́tulo de sequências numéricas que

 lim an = 0 , se 0 ≤ a < 1
n→+∞
.
 lim an = +∞ , se |a| > 1
n→+∞

Mostremos que se x ∈ [0, 1), temos lim fn (x) = 0 e, se x ∈ (1, +∞), temos
lim fn (x) = 1. Com efeito,

ˆ se x ∈ [0, 1), então

xn
     
1 1
lim fn (x) = lim = lim 1 − = 1−lim = 1−1 = 0,
1 + xn 1 + xn 1 + xn

pois lim xn = 0 nesse caso.


n→+∞
ˆ se x ∈ (1, +∞), então

xn
     
1 1 (27)
lim fn (x) = lim = lim 1 − = 1 − lim = 1.
1 + xn 1 + xn 1 + xn

Por outro lado, se x = 1, então fn (x) = 12 , ∀n ∈ N.


Assim, f n → f simplesmente em [0, +∞), onde

 0 , se x ∈ [0, 1)
1

fn (x) = , se x = 1 .

 2
1 , se x ∈ (1, +∞)

Sabemos que, se uma sequência de funções contı́nuas converge uniformemente, então
a função limite
 é contı́nua. Logo, como
 cada fn é contı́nua em x = 1 e f é decontı́nua
em x = 1 pois lim f (x) não existe , a convergência não é uniforme.
x→1

 
27 n n 1
x ∈ (1, +∞) ⇒ lim x = +∞ ⇒ lim(1 + x ) = +∞ ⇒ lim = 0.
1 + xn
66

2. Prove que a sequência do exercı́cio anterior converge uniformemente em todos os


intervalos do tipo [0, 1 − δ] e [1 + δ, +∞], 0 < δ < 1.
Solução.
ˆ Intervalos do tipo [0, 1 − δ].
Seja x ∈ [0, 1 − δ]. Temos que 0 ≤ x < 1, donde xn ≥ xn+1 , para todo n ∈ N.
Sendo assim,

xn 1 (28) 1 xn+1
fn (x) = = 1 − ≥ 1 − = = fn+1 (x), ∀n ∈ N.
1 + xn 1 + xn 1 + xn+1 1 + xn+1

Daı́, segue que, para cada x ∈ [0, 1 − δ], a sequência (fn (x)) é monótona (não
crescente). Já vimos na questão 1 que, para x ∈ [0, 1), lim fn (x) = 0, logo,
temos uma sequência de funções contı́nuas, definidas em um conjunto com-
pacto, convergindo monotonicamente para a função contı́nua (f (x) = 0, ∀x ∈
[0, 1 − δ]), o que, pelo Teorema de Dini, nos garante que a convergência é uni-
forme.

ˆ Intervalos do tipo [1 + δ, +∞].


Seja a = 1 + δ. Como δ > 0, segue que a > 1, logo, lim an = +∞. Daı́, dado
n→+∞
ε > 0, existe n0 ∈ N tal que

1 1
n > n 0 ⇒ an > − 1 ⇒ 1 + an > .
ε ε
1
Visto que, para todo x ∈ [1 + δ, +∞], x ≥ a, temos 1 + xn ≥ 1 + an > , para
ε
todo n > n0 , donde obtemos

1 1 xn
< ε ⇒ < ε ⇒ − 1 < ε.
1 + xn 1 + xn 1 + xn

Em resumo, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 implica |fn (x) − 1| < ε,
para todo x ∈ [1 + δ, +∞], ou seja, fn → f (f (x) = 1 , ∀x ∈ [1 + δ, +∞])
uniformemente em [1 + δ, +∞].
28 n 1 1 −1 −1
x ≥ xn+1 ⇒ 1 + xn ≥ 1 + xn+1 ⇒ ≤ ⇒ ≥ .
1 + xn 1 + xn+1 1 + xn 1 + xn+1
67


X
3. Prove que a série xn (1 − xn ) converge quando x pertence ao intervalo (−1, 1].
n=1
A convergência é uniforme em todos os intervalos do tipo [−1 + δ, 1 − δ], onde
1
0<δ< .
2
Solução.
ˆ Notemos que, se −1 < x < 1, então

−1 < xn < 1 ⇒ 0 < 1 − xn < 2 ⇒ 0 < |1 − xn | < 2


⇒ 0 ≤ |xn ||1 − xn | ≤ 2|xn |
⇒ |xn (1 − xn )| ≤ 2|xn |, ∀n ∈ N
X
Como, para cada x ∈ (−1, 1) (ou seja |x| < 1), a série geométrica 2|xn | =
X X
2 |xn | converge, concluı́mos, pelo critério de comparação, que a série |xn (1−
X
xn )| converge, logo xn (1 − xn ) também irá convergir para cada x ∈ (−1, 1).
X
Além disso, para x = 1, xn (1 − xn ) = 0, ou seja, a série converge.
X
Portanto, a série xn (1 − xn ) converge para todo x ∈ (−1, 1].
ˆ Mostremos agora que a convergência é uniforme em todo intervalo do tipo
[−1 + δ, 1 − δ]. Tomemos a = 1 − δ. Assim,

x ∈ [−1 + δ, 1 − δ] ⇔ |x| ≤ a < 1 ⇒ |xn | ≤ an ,

para todo n ∈ N. Além disso, para todo n ∈ N e todo x ∈ [−a, a], temos

(29)
−1 < x < 1 ⇒ |xn (1 − xn )| ≤ 2|xn |
(30)
⇒ |xn (1 − xn )| ≤ 2|xn | ≤ 2an .

Assim, a sequência de funções fn : [−a, a] → R, dadas por fn (x) = xn (1−xn ),


satisfazem |fn (x)| ≤ 2an , para todo n ∈ N e todo x ∈ [−a, a], além de que a
X X
série numérica 2an = 2 an é convergente (pois |a| = a < 1) e 2an ≥ 0.
X X X
Logo, pelo teste de Weierstrass, fn (x) = xn (1 − xn ) (e |xn (1 − xn )|)
converge uniformemente em [−a, a].
29
Segue-se da mesma forma como foi na primeira parte da solução.
30
Pois x ∈ [−a, a].
68

4. A fim de que a sequência de funções fn : X → R convirja uniformemente, é ne-


cessário e suficiente que, para todo ε > 0 dado, exista n0 ∈ N tal que m, n > n0 ⇒
|fm (x) − fn (x)| < ε, qualquer que seja x ∈ X. (Critério de Cauchy.)
Solução. (⇒) Suponhamos que fn → f uniformemente, isto é, dado ε > 0, existe
ε
n0 ∈ N tal que n > n0 implica |fn (x) − f (x)| < , para todo x ∈ X. Assim, para
2
todo ε > 0, podemos tomar esse n0 da hipótese, o que nos fornece

ε ε
m, n > n0 ⇒ |fm (x) − fn (x)| ≤ |fm (x) − f (x)| + |f (x) − fn (x)| < + = ε, ∀x ∈ X.
2 2

(⇐) A hipótese nos diz que, para cada x ∈ X, a sequência numérica (fn (x)) é de
Cauchy, ou seja, convergente. Seja f (x) = lim fn (x). Por hipótese, dado ε > 0,
n→+∞
ε
existe n0 ∈ N tal que m, n > n0 implica |fm (x) − fn (x)| < , para todo x ∈ X.
2
Fixando arbitráriamente n > n0 e x ∈ X teremos, por lim fm (x) = f (x), que
m→+∞

ε (31) ε ε
lim |fm (x) − fn (x)| ≤ ⇒ lim (fm (x) − fn (x)) ≤ ⇒ |f (x) − fn (x)| ≤ < ε.
m→∞ 2 m→∞ 2 2

Ou seja, n > n0 ⇒ |f (x) − fn (x)| < ε, para todo x ∈ X, portanto, fn → f


uniformemente em X.

31
Como a função g : R → R, dada por g(x) = |x|, é contı́nua, então fazendo am (x) = fm (x) −
fn (x) (notemos que an (x) é uma seqência numérica visto que x foi fixado) temos lim g(am (x)) =
  m→∞
g lim am (x) .
m→∞
69

5. Se a sequência de funções fn : X → R converge uniformemente para f : X → R,


prove que f é limitada se, e somente se, existem K > 0 e n0 ∈ N tais que n > n0 ⇒
|fn (x)| ≤ K para todo x ∈ X.
Solução. (⇒) Suponhamos que f é limitada, isto é, existe L > 0 tal que |f (x)| ≤ L,
para todo x ∈ X. Como fn → f uniformemente, temos que existe n0 ∈ N tal que

(32)
n > n0 ⇒ |fn (x) − f (x)| < 1 ⇒ ||fn (x)| − |f (x)|| < 1
⇒ |fn (x)| − |f (x)| < 1
⇒ |fn (x)| < 1 + |f (x)| ≤ 1 + L, ∀x ∈ X.

Assim, existem K > 0 (K = 1 + L) e n0 ∈ N tais que n > n0 implica |fn (x)| ≤ K,


para todo x ∈ X.
(⇐) Suponhamos agora que existem K > 0 e n1 ∈ N tais que n > n1 implica
|fn (x)| ≤ K, para todo x ∈ X. Novamente, por fn → f uniformemente, existe
n2 ∈ N tal que n > n2 implica |f (x) − fn (x)| < 1, para todo x ∈ X.
Tomando n0 = máx{n1 , n2 }, temos que

n > n0 ⇒ |f (x) − fn (x)| < 1 ⇒ ||f (x)| − |fn (x)|| < 1


⇒ |f (x)| − |fn (x)| < 1
⇒ |f (x)| < 1 + |fn (x)| ≤ 1 + K, ∀x ∈ X

Logo, existe L > 0 (L = 1 + K) tal que |f (x)| ≤ L, para todo x ∈ X., ou seja, f é
limitada.
32
|a − b| ≥ ||a| − |b||.
70

6. Se a sequência de funções fn : X → R é tal que f1 ≥ f2 ≥ · · · ≥ fn ≥ . . . e fn → 0


X
uniformemente em X, prove que a série (−1)n fn (x) converge uniformemente em
X.
Solução. Notemos inicialmente que, sendo f1 ≥ f2 ≥ · · · ≥ fn ≥ . . . e fn → 0
uniformemente em X, temos fn (x) ≥ 0, para todo n ∈ N e todo x ∈ X, pois, caso
existissem x0 ∈ X e n0 ∈ N satisfazendo fn0 (x0 ) < 0 terı́amos

fn (x0 ) ≤ fn0 (x0 ) < 0,

para todo n ≥ n0 e, consequentemente, a sequência numérica (fn (x0 )) não conver-


giria para 0, o que é uma contradição.
Xn X
Seja sn (x) = (−1)k fk (x) a sequência de reduzidas da série (−1)n fn . Prove-
k=1
mos que (sn ) converge simplesmente para 0.
De fato, fixado arbitrariamente x ∈ X, temos por hipótese que a sequência (fn (x))
X
é decrescente e converge para 0, logo, pelo Teorema 2.11, vem que (−1)n fn (x)
converge, ou seja, (sn ) converge.
Para provar que (sn ) converge uniformemente em X consideremos os restos da série

X
rn (x) = (−1)k fk (x). Queremos mostrar que rn → 0 uniformemente em X e,
k=n+1
para tanto, fixemos arbitrariamente x ∈ X e analisemos duas subsequências de (rn ):
ˆ (r2n−1 ): Notemos que
X∞
(a) r2n−1 (x) = (−1)k fk (x) ≤ f2n (x), para todo n ∈ N.
k=2n
m
X
De fato, para cada n ∈ N, seja r2n−1m (x) = (−1)k fk (x) a sequência
k=2n
das reduzidas de r2n−1 (x). Temos dois casos a considerar:
m é par: Nesse caso temos

r2n−1m (x) = f2n (x) − f2n+1 (x) − · · · + fm (x)


= f2n (x) + (−f2n+1 (x) + f2n+2 (x)) + · · · + (−fm−1 (x) + fm (x))
(33)
≤ f2n (x).

33
De fn ≥ fn+1 temos −fn ≤ −fn+1 , ou ainda, −fn + fn+1 ≤ 0.
71

m é ı́mpar: Aqui vale

r2n−1m (x) = f2n (x) − f2n+1 (x) − · · · − fm (x)


= f2n (x) + (−f2n+1 (x) + f2n+2 (x)) + · · · − fm (x)
(32) (34)
≤ f2n (x) − fm (x) ≤ f2n (x)

Logo, como r2n−1m (x) ≤ f2n (x), para todo m ∈ N, concluı́mos que lim r2n−1m (x) =
m→∞
r2n−1 (x) ≤ f2n (x).
(b) r2n−1 (x) ≥ 0, para todo n ∈ N.
Consideremos novamente as duas possibilidades para o ı́ndice m na sequência
das reduzidas r2n−1m (x) de r2n−1 (x):
m é par: Nesse caso temos

r2n−1m (x) = f2n (x) − f2n+1 (x) − · · · + fm (x)


= (f2n (x) − f2n+1 (x)) + · · · + (fm−2 (x) − fm−1 (x)) + fm (x)
≥ fm (x) ≥ 0.

m é ı́mpar: Nesta situação vale

r2n−1m (x) = f2n (x) − f2n+1 (x) − · · · − fm (x)


= (f2n (x) − f2n+1 (x)) + · · · + (fm−1 (x) − fm (x)) ≥ 0

Logo, r2n−1m (x) ≥ 0, para todo m ∈ N e, por conseguinte, lim r2n−1m (x) =
m→∞
r2n−1 ≥ 0.
(c) r2n−1 (x) ≥ r2n+1 (x), para todo n ∈ N.
A desigualdade acima equivale a r2n−1 (x) − r2n+1 (x) ≥ 0, ou ainda,
m
X m
X
k
lim (−1) fk (x) − lim (−1)k fk (x) ≥ 0.
m→∞ m→∞
k=2n k=2n+2

34
fm (x) ≥ 0.
72

Provemos portanto esta última desigualdade,


m
X m
X
k
lim (−1) fk (x) − lim (−1)k fk (x) =
m→∞ m→∞
k=2n k=2n+2
m
! m
X X
= lim f2n (x) − f2n+1 (x) + (−1)k fk (x) − lim (−1)k fk (x)
m→∞ m→∞
k=2n+2 k=2n+2
Xm m
X
= f2n (x) − f2n+1 (x) + lim (−1)k fk (x) − lim (−1)k fk (x)
m→∞ m→∞
k=2n+2 k=2n+2
= f2n (x) − f2n+1 (x) ≥ 0.

Dessa forma, como f2n → 0 uniformemente em X, segue que, dado ε > 0,


existe n1 ∈ N tal que n ≥ n1 implica |f2n (x)| < ε, logo,

(b) (c) (b) (a)


|r2n−1 (x)| = r2n−1 (x) ≤ r2n1 −1 (x) = |r2n1 −1 (x)| ≤ |f2n (x)| < ε,

para todo n ≥ n1 e todo x ∈ X.


ˆ (r2n ): De modo análogo ao que foi feito para a subsequência (r2n−1 ) pode-se
mostrar que
(d) r2n (x) ≥ −f2n+1 (x), para todo n ∈ N e todo x ∈ X.
(e) r2n (x) ≤ 0, para todo n ∈ N e todo x ∈ X.
(f) r2n (x) ≤ r2n+2 (x), para todo n ∈ N e todo x ∈ X.
Daı́, como f2n+1 → 0 uniformemente em X, dado ε > 0, existe n2 ∈ N tal que
n ≥ n2 implica |f2n+1 (x)| < ε, para todo x ∈ X, logo

(e) (f ) (d)
|r2n (x)| = −r2n (x) ≤ −r2n2 (x) = |r2n (x)| ≤ |f2n+1 (x)| < ε,

para todo n ≥ n2 e todo x ∈ X.


Tomando n3 = max{n1 , n2 } temos dois casos a considerar para ı́ndices n mai-
ores que 2n3 , a saber:

n é par: Nesse caso, n = 2p, para algum p ∈ N, logo n > 2n3 implica 2p >
2n2 , ou ainda, p > n2 , donde obtemos

|rn (x)| = |r2p (x)| < ε, ∀x ∈ X.

n é ı́mpar: Aqui n = 2q − 1, para algum q ∈ N, logo 2q − 1 > 2n3 > 2n3 − 1


73

implica q > n1 e, consequentemente,

|rn (x)| = |r2q−1 (x)| < ε, ∀x ∈ X.

Em resumo, n > 2n3 implica |rn (x)| < ε, para todo x ∈ X, o que equivale a
dizer que rn → 0 uniformemente em X, como querı́amos mostrar.
74

P P
7. Se |fn (x)| converge uniformemente em X, prove que fn (x) também convergee
uniformemente em X.
Solução. Ver Proposição 3.1.
75

4.2 Seção 2: Propriedades da convergência uniforme.

1. Se fn → f e gn → g uniformemente no conjunto X, prove que fn + gn → f + g


uniformemente em X. Prove ainda que se f e g forem limitadas então fn · gn → f · g
uniformemente em X. Finalmente, se existir c > 0 tal que |g(x)| ≥ c, para todo
x ∈ X, prove que 1/gn → 1/g uniformemente em X.
Solução.
ˆ fn + gn → f + g: Por hipótese, dado ε > 0, existem n1 , n2 ∈ N tais que
ε

 n > n1 ⇒ |fn (x) − f (x)| <

2 , ∀x ∈ X.
ε
 n > n2 ⇒ |gn (x) − g(x)| <

2
Assim, tomando n0 = máx{n1 , n2 }, teremos

n > n0 ⇒ |(fn + gn )(x) − (f + g)(x)| = |(fn (x) − f (x)) + (gn (x) − g(x))|
≤ |fn (x) − f (x)| + |gn (x) − g(x)|
ε ε
< + = ε, ∀x ∈ X.
2 2

Logo, fn + gn → f + g uniformemente em X.

ˆ fn · gn → f · g: Como f e g são limitadas, existem K, L > 0 tais que |f (x)| ≤ K


e |g(x)| ≤ L, para todo x ∈ X. Além disso, pela Questão 5 (Seção 1), existem
M > 0 e n1 ∈ N tais que n > n1 ⇒ |fn (x)| ≤ M, ∀x ∈ X.
Novamente por hioótese, dado ε > 0, existem n2 , n3 ∈ N tais que
ε

 n > n2 ⇒ |fn (x) − f (x)| <

2L , ∀x ∈ X.
ε
 n > n3 ⇒ |gn (x) − g(x)| <

2M
Assim, tomando n0 = máx{n1 , n2 , n3 } teremos

n > n0 ⇒ |(fn · gn )(x) − (f · g)(x)|


= |fn (x)gn (x) − fn (x)g(x) + fn (x)g(x) − f (x)g(x)|
≤ |fn (x)||gn (x) − g(x)| + |g(x)||fn (x) − f (x)|
ε ε
< M· +L· = ε, ∀x ∈ X.
2M 2L

Logo, fn · gn → f · g uniformemente em X.

ˆ Como gn → g uniformemente em X, então dado ε > 0, existem n1 , n2 ∈ N tais


que
76

εc2

 n > n1 ⇒ |gn (x) − g(x)| <

2 , ∀x ∈ X.
 n > n2 ⇒ |gn (x) − g(x)| <
 c
2
Além disso, para todo x ∈ X e todo n > n2 , temos

|g(x)| ≥ c ⇒ |gn (x) − gn (x) + g(x)| ≥ c ⇒ |gn (x)| + |gn (x) − g(x)| ≥ c
⇒ |gn (x)| ≥ c − |gn (x) − g(x)|
c c
⇒ |gn (x)| > c − = .
2 2

Assim, tomando n0 = máx{n1 , n2 }, teremos

1 1 g(x) − gn (x) 2 1 εc2 2


n > n0 ⇒ − = < |g(x)−gn (x)|· · < · = ε, ∀x ∈ X.
gn (x) g(x) gn (x) · g(x) c c 2 c2

Portanto, 1/gn → 1/g uniformemente em X.


77

2. Seja p : R → R um polinômio de grau ≥ 1. Mostre que a sequência de funções


1
fn : R → R, dadas por fn (x) = p(x) + , converge uniformemente para p em R,
n
porém (fn2 ) não converge uniformemente para p2 .
Solução.
1
ˆ fn → p: Como → 0, então dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que
n

1
n > n0 ⇒ < ε.
n

Logo,

1 1
n > n0 ⇒ |fn (x) − p(x)| = p(x) + − p(x) = < ε, ∀x ∈ R.
n n

Portanto, fn → p uniformemente em R.

ˆ Suponhamos que fn2 → p2 uniformemente em R. Sendo assim, existe n0 ∈ N


tal que

2p(x) 1
n > n0 ⇒ (p(x))2 + + 2 − (p(x))2 < 1
n n
2p(x) 1
⇒ + 2 <1
n n

1 2p(x) 1
⇒ −1 − 2
< <1−
n n n2
n 1 n 1
⇒ − − < p(x) < − , ∀x ∈ R.
2 2n 2 2n

Daı́, tomando n1 = n0 + 1, obtemos

n1 1 n1 1
− − < p(x) < − ,
2 2n1 2 2n1

para todo x ∈ R, o que implica que o polinômio p de grau ≥ 1 é limitado, o


que é um absurdo. Logo, (fn2 ) não converge uniformemente para p2 em R.
78

sin(nx)

3. Seja a sequência de funções fn : [0, 1] → R, onde fn (x) = . Prove que (fn )
n
converge uniformemente para 0 mas a sequência das derivadas fn′ não converge em
ponto algum do intervalo [0, 1].
1
Solução. Mostremos inicialmente que fn → 0. Com efeito, como √ → 0, temos
n
1
que dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 implica √ < ε. Assim,
n

sin(nx) 1
n > n0 ⇒ |fn (x) − 0| = √ ≤ √ < ε, ∀x ∈ [0, 1].
n n

Logo, fn → 0 uniformemente em [0, 1].



Provemos agora que fn′ (x) = n · cos(nx) não converge em ponto algum de [0, 1].

Para isso, suponhamos que exista x0 ∈ [0, 1] tal que a sequência ( n · cos(nx0 )) seja
convergente. Afirmamos que, nessa situação, vale lim cos(nx0 ) = 0.
n→+∞
De fato,

 
1
lim cos(nx0 ) = lim n cos(nx0 ) · √ = 0,
n→+∞ n→+∞ n
√ 1
pois ( n cos(nx0 )) é limitada (pois é convergente) e lim √ = 0.
n→+∞ n
2 2
Sendo assim, de cos(2nx0 ) = cos (nx0 ) − sen (nx0 ) e lim cos(2nx0 ) = 0 (pois
n→+∞
(cos(2nx0 )) é uma subsequência de (cos(nx0 )), obtemos

0 = lim [cos2 (nx0 ) − sen 2 (nx0 )] = lim [2 cos2 (nx0 ) − 1] = −1,


n→+∞ n→+∞


o que é absurdo. Portanto, fn′ (x) = n · cos(nx) não converge em ponto algum de
[0, 1].
79

xn
4. Mostre que a sequência de funções gn (x) = x + converge uniformemente em [0, 1]
n
para uma função derivável g e a sequência das derivadas gn′ converge simplesmente
em [0, 1] mas g ′ não é igual a lim gn′ .
Solução. Provemos primeiro que gn → g uniformemente em [0, 1], onde g(x) = x.
1
De fato, por → 0, temos que, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 implica
n
1
< ε. Além disso, para todo x ∈ [0, 1], tem-se 0 ≤ xn ≤ 1, ou ainda, |xn | ≤ 1,
n
logo
xn 1
n > n0 ⇒ |gn (x) − x| = ≤ < ε, ∀x ∈ [0, 1].
n n
Como querı́amos provar.
Resta-nos mostrar que g ′ =
̸ lim gn′ . Já sabemos que g(x) = x é derivável e g ′ (x) = 1.
Afirmamos que gn′ (x) = 1 + xn−1 converge simplesmente em [0, 1] para a função
(
1, se x ̸= 1
f (x) = .
2, se x = 1
Com efeito, fixado arbitrariamente x ∈ [0, 1), temos lim gn′ (x) = lim(1 + xn−1 ) = 1
(pois, como |x| < 1, lim xn−1 = 0). E, para x = 1, lim gn′ (1) = lim 2 = 2. Dessa
forma, g ′ ̸= lim gn′ , visto que g ′ (1) = 1 ̸= 2 = f (1) = lim gn′ (1).
80

5. Seja g : Y → R uniformemente contı́nua. Se a sequência de funções fn : X → R


converge uniformemente para f , com f (X) ⊂ Y e fn (X) ⊂ Y , para todo n ∈ N,
prove que g ◦ fn → g ◦ f uniformemente em X. Analise também a questão mais
simples fn ◦ g → f ◦ g.
Solução. Queremos mostrar que, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 implica
|g(fn (x)) − g(f (x))| < ε, para todo x ∈ X.
Como g é uniformemente contı́nua, então existe δ > 0 tal que, se fn (x), f (x) ∈ Y
e |fn (x) − f (x)| < δ, então |g(fn (x)) − g(f (x))| < ε (notemos que f (x), fn (x) ∈ Y
para todo x ∈ X, pois f (X) ⊂ Y e fn (X) ⊂ Y para todo n ∈ N). Por outro
lado, como fn → f uniformemente em X, então existe n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒
|fn (x) − f (x)| < δ, para todo x ∈ X. Daı́, segue que
n > n0 ⇒ |fn (x) − f (x)| < δ ⇒ |g(fn (x)) − g(f (x))| < ε, ∀x ∈ X,
como querı́amos mostrar.
Para mostrar que fn ◦ g → f ◦ g uniformemente em Y devemos supor inicialmente
que g(Y ) ⊂ X. Temos por hipótese que, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que
n > n0 ⇒ |fn (x) − f (x)| < ε, para todo x ∈ X. Logo, em particular, temos que

n > n0 ⇒ |fn (g(y)) − f (g(y))| < ε, ∀y ∈ Y, pois g(Y ) ⊂ X.

Isso mostra o desejado.


81

6. Sejam X compacto, U aberto e f : X → R contı́nua tal que f (X) ⊂ U . Se uma


sequência de funções fn : X → R converge uniformemente para f , prove que existe
n0 ∈ N tal que n > n0 implica fn (X) ⊂ U .
Solução. Primeiramente vamos demonstrar um resultado auxiliar:

Proposição 4.1. Sejam X, Y conjuntos não vazios, com X compacto e Y fechado.


Então existem x0 ∈ X e y0 ∈ Y tais que |x0 − y0 | ≤ |x − y|, para quaisquer x ∈ X,
y ∈Y.
Demonstração. Consideremos o conjunto A = {|x − y|; x ∈ X, y ∈ Y }. Tal
conjunto é limitado inferiormente por 0, logo existe c = inf A. Como c = inf A ∈ A,
existe uma sequência (cn ) de pontos de A com lim cn = c ou, equivalentemente,
lim |an − bn | = c, com an ∈ X, bn ∈ Y , para todo n ∈ N.
Visto que X é compacto existe uma subsequência (ank ) de (an ) tal que lim ank =
k→+∞
x0 ∈ X. Notemos ainda que

|bnk | = |bnk − ank + ank | ≤ |ank − bnk | + |ank |,

logo, como (|ank −bnk |) e (ank ) convergem, existem L, M > 0 tais que |ank −bnk | ≤ L
e |ank | ≤ M , para todo k ∈ N, donde obtemos |bnk | ≤ L + M , para todo k ∈ N, isto
é, (bnk ) é limitada.
Pelo Teorema de Bolzanno-Weierstrass (ver Corolário 2.1) (bnk ) possui uma sub-
sequência convergente, (bnkp ) e, por Y ser fechado, vem que lim bnkp = y0 ∈ Y .
p→+∞
Do exposto concluı́mos que

(35) (36)
|x0 − y0 | = lim ankp − lim bnkp = lim |ankp − bnkp | = c ≤ |x − y|,
p→+∞ p→+∞ p→+∞

para quaisquer x ∈ X e y ∈ Y .

Voltemos agora a resolução da questão. Por f ser contı́nua vem que f (X) é compacto
(ver Observação 9). Assim, temos o conjunto compacto f (X) e o fechado R − U
(ver teorema 2.16). Pela proposição provada acima segue que existem x0 ∈ X e
v0 ∈ R − U satisfazendo ε = |f (x0 ) − v0 | ≤ |f (x) − v|, para quaisquer x ∈ X e
v ∈ R − U.
Notemos que ε > 0. De fato, se fosse ε = 0 terı́amos f (x0 ) = v0 ∈ R − U , o que é
35
(ankp ) é uma subsequência de (ank ), logo, lim ankp = lim ank = x0 .
p→+∞ k→+∞
36
Como lim ankp − lim bnkp = lim (ankp − bnkp ) e a função módulo é contı́nua, temos
p→+∞ p→+∞ p→+∞

| lim (ankp − bnkp )| = lim |ankp − bnkp |


p→+∞ p→+∞

.
82

uma contradição, pois f (X) ⊂ U . Dessa forma, vale que

v ∈ R − U ⇒ ε ≤ |f (x) − v|, ∀x ∈ X,

ou, equivalentemente,

|f (x) − v| < ε, para algum x ∈ X ⇒ v ∈


/ R − U (isto é v ∈ U ).

Sendo assim, por fn → f uniformemente em X, sabemos que para este ε existe


n0 ∈ N tal que
n > n0 ⇒ |f (x) − fn (x)| < ε, ∀x ∈ X.

Isto é, para todo n > n0 temos fn (x) ∈ U , para todo x ∈ X, ou seja, fn (X) ⊂ U , o
que conclui a solução.
83

7. Se uma sequência de funções contı́nuas fn : X → R converge uniformemente num


conjunto denso D ⊂ X, prove que (fn ) converge uniformemente em X.
Solução. Como fn converge uniformemente em D ela é uma sequência de Cauchy
(Questão 4, Seção 1). Assim, dado ε > 0, existe n0 ∈ N tal que

ε
m, n > n0 ⇒ |fm (x) − fn (x)| < ∀x ∈ D.
2

Como D é denso em X, para todo x ∈ X, existe um sequência (xk ), com xk ∈ D,


para todo k ∈ N, tal que lim xk = x. Logo, fixados arbitrariamente m, n > n0 ,
temos

(37)
|fm (x) − fn (x)| = |fm (lim xk ) − fn (lim xk )| = | lim[fm (xk ) − fn (xk )]|
(38)
= lim |fm (xk ) − fn (xk )|
(39) ε
≤ < ε, ∀x ∈ X.
2

Portanto, pela questão 4 da Seção 1, segue que (fn ) converge uniformemente em X.

37
Cada fn é contı́nua, logo fn (lim xk ) = lim fn (xk ), para todo n ∈ N.
38
A função módulo é contı́nua, logo, fazendo sk = fm (xk ) − fn (xk ), temos | lim sk | = lim |sk |.
ε
39
Como |sk | = |fm (xk ) − fn (xk )| < , para todo k ∈ N, segue que lim |sk | ≤ 2ε .
2
84

8. A sequência de funções fn : [0, 1] → R, fn (x) = nx(1 − x)n , converge, porém não


uniformemente. Mostre que, apesar disso, vale
Z 1 Z 1 
( lim fn ) = lim fn .
0 n→∞ n→∞ 0

Solução Mostremos inicialmente que a sequência (fn ) converge simplesmente para


a função identicamente nula. De fato, fixado arbitrariamente x ∈ (0, 1) temos que
fn (x) > 0, para todo n ∈ N e

fn+1 (x) n n
lim = lim (1 − x) = (1 − x) · lim = 1 − x < 1,
fn (x) n+1 n+1

logo, pela Proposição 2.1, segue que lim fn (x) = 0 para todo x ∈ (0, 1). Para x = 0
e x = 1 é imediato que fn (x) = 0, para todo n ∈ N, portanto, lim fn (x) = 0, para
todo x ∈ [0, 1].
Provemos agora que essa convergência não é uniforme. Com efeito, determinemos
os pontos crı́ticos de cada fn no intervalo (0, 1):

1
(fn (x))′ = 0 ⇒ n(1 − x)n − n2 x(1 − x)n−1 = 0 ⇒ x = .
n+1

Como fn (0) = fn (1) = 0 para todo n ∈ N e


   n  n+1
1 n 1 n
fn = 1− = > 0,
n+1 n+1 n+1 n+1

1
para todo n ∈ N, então x = é o ponto de máximo de fn em [0, 1].
n+1
Visto que
    n  " #
1 n n n 1
lim fn = lim = lim · n+1 n

n+1 n+1 n+1 n+1 n
n 1
= lim · lim n+1 n
n+1 ( n )
1
=
lim( n+1
n
)n
(40) 1
= ,
e
1
temos que, dado ε > 0, com ε < , existe n1 ∈ N de tal modo que n > n1 implica
  e
1
ε < fn .
n+1
40
Ver Proposição 2.2
85

1
Logo, para quaisquer ε < e n0 ∈ N, podemos encontrar n ∈ N (basta tomar
e 
1
n > max{n0 , n1 }) e x ∈ [0, 1] x = tais que
n+1

n > n0 e ainda assim |fn (x)| > ε.

1
(Ou seja, nenhuma faixa de raio ε < em torno do eixo das abscissas pode conter
e
todos os gráficos das funções fn a partir de um certo ı́ndice n0 ).
Podemos assim concluir que fn não converge uniformemente em [0,Z1].
Z 1 1
Entretanto, notemos que, para cada x ∈ [0, 1], (lim fn (x))dx = 0 dx = 0 e
0 0

Z 1 Z 1  Z 1 
n n
lim fn (x)dx = lim nx(1 − x) dx = lim n x(1 − x) dx
0 0 0
  Z 0 
(41) n
= lim n − (1 − u)u du
1
  
1 1
= lim n −
n+1 n+2
n n
= lim − lim =1−1=0
n+1 n+2
Z 1 Z 1
Logo, (lim fn (x))dx = lim fn (x)dx, como querı́amos mostrar.
0 0
41
Mudança de variável u = 1 − x.
86

9. Dada uma sequência de funçõe fn : X → R, suponha que exista c ∈ R tal que


pn
|fn (x)| ≤ c < 1 para todo x ∈ X e todo n ∈ N suficientemente grande. Prove
X X
que |fn (x)| e fn (x) convergem uniformemente em X.
Solução. Por hipótese, existe n0 ∈ N tal que
p
n > n0 ⇒ n
|fn (x)| ≤ c < 1 ⇒ |fn (x)| ≤ cn < 1, ∀x ∈ X.

Como a série cn é convergente (série geométrica) e cn > 0, para todo n ∈ N, temos


P
X X
pelo teste de Weierstrass que |fn0 +n (x)| e fn0 +n (x) convergem uniformemente
em X.
Daı́, dado ε > 0, existe n1 ∈ N tal que

X
n > n1 ⇒ |fn0 +k (x)| < ε , para todo x ∈ X.
k≥n

Logo,
X
n > n0 + n1 ⇒ |fk (x)| < ε, para todo x ∈ X
k≥n
X  X 
donde concluı́mos que |fn (x)| consequentemente fn (x) converge unifor-
memente em X, o que prova o desejado.
87

4.3 Seção 3: Séries de Potências


X
1. Seja r o raio de convergência da série de potências an (x − x0 )n . Prove que se
1
r ∈ R+ então r = , onde L é o maior valor de aderência da sequência limitada
L
p 1
( |an |). Assim temos, r =
n
p .
lim sup n |an |
Solução. Relembremos inicialmente que um número real a é valor de aderência
de uma sequência (an ) quando a é limite de uma subsequência de (an ). Além
disso, se (an ) é limitada e A é o conjunto dos valores de aderência de (an ), então
lim sup an = max A. Para provar o desejado, mostremos inicialmente um resultado
auxiliar sobre limite superior:
Proposição 4.2. Sejam (an ) uma sequência limitada e x ≥ 0. Então vale a igual-
dade lim sup(an · x) = x · lim sup an .
Demonstração. Para o caso x = 0 a igualdade segue de forma imediata, visto que
(an ·x) será a sequência constante igual a 0. Consideremos o caso x > 0. Suponhamos
que lim sup(an · x) > x · lim sup an . Segue daı́ que existe uma subsequência (ank · x)
de (an · x) tal que lim ank · x > x · lim sup an . Afirmamos que, denotando por
k→+∞
a
a = lim ank · x, vale lim ank = . De fato, dado ε > 0, existe k0 ∈ N tal que
k→+∞ k→+∞ x
a
k > k0 ⇒ |ank · x − a| < x · ε ⇒ ank − < ε,
x

provando assim o afirmado.


Dessa forma, temos que

lim ank ·x > x·lim sup an ⇒ x· lim ank > x·lim sup an ⇒ lim ank > lim sup an ,
k→+∞ k→+∞ k→+∞

o que é absurdo, pois lim sup an é o maior valor de aderência da sequência (an ).
Analogamente, suponhamos lim sup(an · x) < x · lim sup an , o que equivale a

lim sup(an · x)
< lim sup an .
x

Obtemos dessa desigualdade uma subsequência (anp ) de (an ) satisfazendo

lim sup(an · x)
lim anp > ⇔ x· lim anp > lim sup(an ·x) ⇔ lim (anp ·x) > lim sup(an ·x),
p→+∞ x p→+∞ p→+∞

novamente um absurdo. Sendo assim, concluı́mos que lim sup(an ·x) = x·lim sup an .

1
Voltemos a resuloção da questão. Suponhamos que r > p . Assim, vale
lim sup n
|an |
88

1 1
que p + x0 < r + x0 , logo existe x ∈ R com p + x 0 < x < r + x0 ,
n
|an | lim sup n |an |
1
ou seja, p < x − x0 < r. Daı́, segue que
lim sup n |an |

1 (42) p
n (43) p
p < |x−x0 | ⇒ |x−x0 |·lim sup |an | > 1 ⇒ lim sup( n |an · (x − x0 )n |) > 1.
lim sup n |an |
p p
Logo, existe uma subsequência ( nk |ank (x − x0 )nk |) de ( n |an (x − x0 )n |) tal que
p p
lim nk |ank (x − x0 )nk | > 1. Daı́ e do Teorema 2.5 vem que nk |ank (x − x0 )nk | > 1
k→+∞
para todo k suficientemente grande ou, equivalentemente, |ank (x − x0 )nk | > 1,
para todo k suficientemente grande. Obtemos assim uma infinidade de termos da
sequência (an (x − x0 )n ) tais que |an (x − x0 )n | > 1, donde podemos concluir que
X
(an (x − x0 )n ) não converge para 0 e, consequentemente, an (x − x0 )n diverge, o
que é um absurdo, pois x ∈ (x0 − r, x0 + r) (0 < x − x0 < r ⇒ x ∈ (x0 − r, x0 + r)).
1
Suponhamos agora que r < p . Nesse caso podemos obter x ∈ R satis-
lim sup n |an |
1
fazendo r < x − x0 < p . Logo,
lim sup n |an |

(44) 1 p
n
p
|x−x0 | < p ⇒ |x−x0 |·lim sup |an | < 1 ⇒ lim sup( n |an (x − x0 )n |) < 1.
lim sup n
|an |
p
Sendo assim, temos que n |an (x − x0 )n | < 1 para todo n suficientemente grande,
X
donde concluı́mos, pelo teste de Cauchy, que an (x − x0 )n converge, o que é um
absurdo, pois |x − x0 | > r (visto que |x − x0 | = x − x0 > r).
1
Do exposto, temos que r = p .
lim sup n |an |
42
p p
Como n
|an | ≥ 0, para todo n ∈ N, então lim sup n
|an | ≥ 0, logo

1
0≤ p < x − x0 ⇒ |x − x0 | = x − x0 .
lim sup n
|an |

43
p p
Pela Proposição 4.2 temos |x − x0 | · lim sup n
|an | = lim sup( n |an · |x − x0 |) =
p
lim sup( n |an · (x − x0 )n |).
44
0 ≤ r < x − x0 ⇒ |x| = x.
89

p
2. Se lim n
|an | = L, prove que as séries de potências
X X
an x2n e an x2n+1

1
tem ambas raio de convergência igual a √ .
L
Solução.
X X
ˆ an x2n : Consideremos a série de potências bn xn , onde b2n = an e b2n+1 =
X X
0. Provemos que an x2n converge se, e somente se, bn xn converge, isto
é, estas séries possuem o mesmo raio de convergência. Com efeito, sendo
Xn Xn
2k
sn = ak x e tn = bk xk temos que
k=0 k=0

2n+1
X 2n
X 2n
X
k k 2n+1
t2n+1 = bk x = bk x + b2n+1 x = bk xk = t2n .
k=0 k=0 k=0

Além disso,
n
X
2 2n 2 2n
t2n = b0 +b1 x+b2 x +· · ·+b2n x = a0 +0+a1 x +0+· · ·+0+an x = an x2n = sn .
k=0

X X
Logo, se an x2n converge temos an x2n = lim sn = lim t2n = lim t2n+1 e,
X X X
pela Proposição 2.3, segue que an x2n = lim tn = bn xn , isto é, bn x n
converge.
X X
Da mesma forma, se bn xn converge temos bn xn = lim tn = lim t2n =
X X
lim sn = an x2n , ou seja, an x2n converge.
X
Sendo assim, para determinar o raio de convergência da série an x2n pode-
p
mos agora analisar a sequência ( n |bn |).
p √
Afirmamos que lim sup n |bn | = L. De fato, para qualquer subsequência
p p
( k |bk |)k∈N′ de ( n |bn |) temos três possibilidades
(a) N′ possui uma quantidade finita de ı́ndices pares (consequentemente uma
quantidade infinita de ı́ndices ı́mpares).
Neste caso tomemos k0 = max{k ∈ N′ ; k é par}. Daı́,
p p p
k ∈ N′ , k > k0 ⇒ k = 2m + 1 ⇒ k
|bk | = 2m+1
|b2m+1 | = 0 ⇒ k
bk → 0.

(b) N′ possui uma quantidade finita de ı́ndices ı́mpares.


Tomemos aqui k1 = max{k ∈ N′ ; k é ı́mpar}, donde obtemos

p p qp
′ k 2m m
k ∈ N , k > k1 ⇒ k = 2m ⇒ |bk | = |b2m | = |am |.
90

qp √
Mostremos agora que lim m
|am | = L. De fato, como
m→+∞


p
m
|am | − L
qp
m
|am | − L = q p √
m
|am | + L
p
e lim m
|am | = L, vem que, dado ε > 0, existe m0 ∈ N tal que
p
m

m > m0 ⇒ |am | − L < L · ε.

qp √ √
Disto, e de m
|am | + L≥ L > 0, concluı́mos que

p
m
|am | − L √
qp
m
√ L·ε
m > m0 ⇒ |am | − L = q p √ < √ = ε.
L
m
|am | + L

p √
Dessa forma, temos k
|bk | → L.
(c) N′ possui uma quantidade infinita de ı́ndices ı́mpares e uma quantidade
infinita de ı́ndices pares.
Aqui a subsequência irá divergir pois possuirá duas subsubsequências (uma
formada pelos ı́ndices ı́mpares que pertencem a N′ e outra formada pelo

ı́ndices pares) convergindo para valores diferentes, a saber 0 e L, pelos
dois casos considerados acima.
√ p √
Portanto, como L > 0, podemos concluir que lim sup n |bn | = L. Assim,
X X
o raio de convergência da série bn xn , que é o mesmo da série an x2n , é
1
r=√ .
L
X X
ˆ an x2n+1 : Notemos que a série an x2n+1 converge se, e somente se, a série
X
an x2n converge (a demonstração dessa afirmativa segue a mesma linha do
que foi feito na demonstração do Teorema 3.12). Dessa maneira, estas séries
possuem o mesmo raio de convergência e, pelo que já foi provado, concluı́mos
1 X
que r = √ é o raio de convergência da série an x2n+1 .
L
91

3. Determine o raio de convergência de cada uma das seguintes séries:


X 2
X √ X log n
an x n , a n n
x e n n xn .

Solução.
X 2
ˆ
p
an xn : Devemos determinar lim sup n |an2 |. Como
q p
n
|an2 | = n
|a|n·n = |a|n ,
p
segue que ( n |an2 |) converge para 0 quando |a| < 1, converge para 1 quando
|a| = 1 e, por fim, diverge (e será ilimitada) quando |a| > 1 (ver Exemplo
2.2 e Observação 4). Assim, denotando por r o raio de convergência da série
X 2
an xn concluı́mos que

 r = +∞ , quando |a| < 1

r = 1 , quando |a| = 1 .

r = 0 , quando |a| > 1

X √
ˆ a n xn : Notemos que
q √ √
n
n √1
|a n | = |a| n = |a| n .

Analisemos quatro casos possı́veis:


(a) |a| > 1. Temos nesse caso que

√ √ 1 1 (45) √ 1 √1
n+1 > n ⇒ n+1> n⇒ √ < √ ⇒ |a| n+1 < |a| n , ∀n ∈ N,
n+1 n

√1 √1
ou seja, a sequência (|a| n ) é decrescente. Como 0 ≤ |a| n ≤ |a|, para
√1
todo n ∈ N, concluı́mos que (|a| n ) é convergente (monótona e limitada).
√1
Além disso, a subsequência (|a| k ), onde k = n2 , com n ∈ N, converge
√1 1 √1
para 1. pois |a| n2 = |a| n → 1 (ver Exemplo 2.5). Portanto, |a| n → 1 e,
X √
por conseguinte, o raio de convergência da série a n xn é igual a 1.

(b) 0 < |a| < 1. Como lim n = +∞, segue que lim √1n = 0. Daı́, dado
M > 1, existe n0 ∈ N tal que

1 (46) √1
n > n0 ⇒ √ < log|a| M ⇒ |a| n > M,
n

√1
X √
n n
ou seja, (|a| n ) é ilimitada, logo, o raio de convergência da série a x
é 0.
45
A função f (x) = ax é crescente quando a > 1.
46
A função f (x) = ax é decrescente quando 0 < a < 1.
92

√1
(c) |a| = 1. Nesse caso, lim |a| n = 1, donde concluı́mos que o raio de con-
X √
vergência da série a n xn é 1.
√1
(d) |a| = 0. Aqui temos lim |a| n = 0, logo, o raio de convergência da série
X √
a n xn é +∞.
Resumindo, 
r = 1 , quando |a| ≥ 1


r = 0 , quando 0 < |a| < 1 .

r = +∞ , quando |a| = 0

q
X log n n log n log n
ˆ n
n n x : Mostremos que lim n n = lim n n2 = 1.
Com efeito, sabemos que
log n 2
log n log n log n
n n2 = elog n n2
=e n2
·log n
= e( n ) .
 2
log n log n
De lim = 0 (ver Exemplo 2.12) obtemos lim = 0. Por outro
n n
lado, como a função f (x) = ex é contı́nua concluı́mos que
log n log n 2 2
lim n n2 = lim e( n ) = elim( logn n ) = e0 = 1.

X log n
Portanto, o raio de convergência da série n n · xn é r = 1.
93

X
4. Prove que a função f : (−r, r) → R, dada por f (x) = an xn , onde r é o raio de
convergência desta série, é uma função par (respectivamente, ı́mpar) se, e somente
se, an = 0 para todo n ı́mpar (respectivamente, par).
Solução. Relembremos que uma função f : I → R, onde I é um intervalo com
centro 0, é dita par quando f (−x) = f (x), para todo x ∈ I. Da mesma forma,
dizemos que f é ı́mpar quando f (−x) = −f (x), para todo x ∈ I. Antes de soluci-
onarmos a questão provemos um resultado envolvendo a paridade de uma função e
suas derivadas.
Proposição 4.3. Se f : I → R é par, suas derivadas de ordem par (quando exis-
tem) são funções pares e suas derivadas de ordem ı́mpar são funções ı́mpares. Em
particular, estas últimas se anulam em x = 0.
Demonstração. Suporemos aqui que f é infinitamente derivável, haja vista que
em nossa aplicação desse resultado possuiremos tal hipótese.
Temos que f (−x) = f (x), para todo x ∈ I. Mostremos por indução em n que
f (2n) (−x) = f (2n) (x), para todo x ∈ I e todo n ∈ N. Com efeito, de f (−x) = f (x)
e da regra da cadeia vem que

(−x)′ ·f ′ (−x) = f ′ (x) ⇒ −f ′ (−x) = f ′ (x) ⇒ −(−x)′ ·f ′′ (−x) = f ′′ (x) ⇒ f ′′ (−x) = f ′′ (x),

para todo x ∈ I. Supondo que f (2k) (−x) = f (2k) (x), para todo x ∈ I, obtemos

(−x)′ · f (2k+1) (−x) = f (2k+1) (x) ⇒ −f (2k+1) (−x) = f (2k+1) (x)


⇒ −(−x)′ · f (2k+2) (−x) = f (2k+2) (x)
⇒ f (2(k+1)) (−x) = f (2(k+1)) (x), ∀x ∈ I,

logo, f (2n) (−x) = f (2n) (x), para todo x ∈ I e todo n ∈ N, isto é, as derivadas
de ordem par de f são funções pares. Analogamente mostra-se que f (2n−1) (−x) =
f (2n−1) (x), para todo x ∈ I e todo n ∈ N.
Em particular, como toda função ı́mpar se anula em x = 0 (pois f (−0) = −f (0)
implica f (0) = 0), as derivadas de ordem ı́mpar de f se anulam em x = 0.
Observação 19. Da mesma forma como foi feito na demonstração acima pode-
se provar que se f : I → R é ı́mpar então suas derivadas de ordem par (quando
existem) são funções ı́mpares e suas derivadas de ordem ı́mpar são funções pares.
Voltemos a solução da questão.
ˆ f é par se, e somente se, an = 0, para todo n ı́mpar.
(⇒): Pela proposição acima temos que as derivadas de ordem ı́mpar da f são
funções ı́mpares e, além disso, se anulam em x = 0. Assim, pelo Corolário 3.2,
94

vem que
f (2n−1) (0)
a2n−1 = = 0, ∀n ∈ N.
(2n − 1)!
X X
(⇐): Notemos que, se a2n−1 = 0, para todo n ∈ N, então an x n = a2n x2n ,
para todo x ∈ (−r, r) (a justificativa segue os mesmos passos que foram dados
no inı́cio da solução da Questão 2 - Seção 3).
Disto, segue que
X X X X
f (−x) = an (−x)n = a2n (−x)2n = a2n x2n = an xn = f (x),

para todo x ∈ (−r, r), ou seja, f é par.


ˆ f é ı́mpar se, e somente se, an = 0, para todo n par.
(⇒): Pela observação feita anteriormente temos que as derivadas de ordem par
da f são funções ı́mpares e, além disso, se anulam em x = 0, logo

f (2n) (0)
a2n = = 0, ∀n ∈ N.
(2n)!
X X
(⇐): Sendo a2n = 0, para todo n ∈ N, vem que an x n = a2n−1 x2n−1 , para
todo x ∈ (−r, r) (para justificar tal fato basta seguir os mesmos passos dados no
inı́cio da solução da Questão 2- Seção 3, com a mudança b2n = 0 e b2n+1 = an ).
X n
Daı́, fixando arbitrariamente x ∈ (−r, r), e sendo rn = a2k−1 x2k−1 , obtemos
k=1

X X X
−f (−x) = − an (−x)n = − a2n−1 (−x)2n−1 = − (−1)2n−1 a2n−1 x2n−1
= − lim(−rn )
= lim rn
X
= a2n−1 x2n−1
X
= an xn = f (x),

para todo x ∈ (−r, r), ou seja, f é ı́mpar.


95

X
5. Seja an xn uma série de potências cujos coeficientes são determinados pelas igual-
dades a0 = a√ 1 = 1 e an+1 = an + an−1 . Mostre que o raio de convergência desta
−1 + 5
série é .
2
Solução. Seja r o raio de convergência da série dada. Como os  termosan são todos
an+1
positivos podemos determinar r através do limite da sequência . Provemos
√ an
an −1 + 5
que lim é igual ao número de ouro c = , ou seja, a única raı́z positiva
an+1 2
da equação x2 + x − 1 = 0.
1
Com efeito, como c satisfaz c2 + c − 1 = 0, vem que c(c + 1) = 1, ou ainda, c = .
1+c
an 1
Daı́, fazendo xn = , temos que xn+1 = , pois
an+1 1 + xn

an+1 an+1 1 1
xn+1 = = = an = .
an+2 an+1 + an 1 + an+1 1 + xn

1 1
Notemos que, de c = , x1 = 1 e c > 0, vem que c = < 1 = x1 . Além disso,
1+c 1+c
1 1
x2 = implica x2 < = c. Temos assim as desigualdades x2 < c < x1 .
1 + x1 1+c
Por outro lado, como x1 > x2 , temos

1
x1 > ⇒ x1 (1 + x1 ) > 1 ⇒ x1 (1 + x1 ) + x1 > 1 + x1
1 + x1
⇒ x1 (2 + x1 ) > 1 + x1
1 + x1 1
⇒ x1 > = 1 = x3 .
2 + x1 1 + 1+x 1

1 1 1
Visto que x3 = e x2 < c, segue que x3 > = c. Logo, x4 = <
1 + x2 1+c 1 + x3
1 1 1
= c e x4 = > = x2 .
1+c 1 + x3 1 + x1
Até aqui temos as desigualdades x2 < x4 < c < x3 < x1 . Prosseguindo induti-
vamente, tendo garantido que x2 < · · · < x2n < c < x2n−1 < · · · < x1 podemos
concluir que x2 < · · · < x2n < x2n+2 < c < x2n+1 < x2n−1 < . . . x1 , pois

1 1
x2n < c ⇒ x2n+1 = > = c,
1 + x2n 1+c
(47)
x2n−1 > x2n ⇒ x2n−1 > x2n+1 ,
1 1
x2n+2 = < = c,
1 + x2n+1 1+c
1 1
x2n+2 = > = x2n .
1 + x2n+1 1 + x2n−1
96

Obtemos assim a cadeia de desigualdades

x2 < x4 < · · · < x2n < · · · < c < · · · < x2n−1 < · · · < x3 < x1 .

Portanto, ambas as subsequências (x2n ) e (x2n−1 ) são monótonas e limitadas, donde


1 + x2n
concluı́mos que existem lim x2n = u e lim x2n−1 = v. Das igualdades x2n+2 =
2 + x2n
1 + x2n−1
e x2n+1 = , segue que
2 + x2n−1
 
1 + x2n 1+u
lim x2n+2 = lim ⇒u= ⇒ u2 + u − 1 = 0
2 + x2n 2+u

e  
1 + x2n−1 1+v
lim x2n+1 = lim ⇒v= ⇒ v 2 + v − 1 = 0.
2 + x2n−1 2+v
Como u, v ≥ 0 (pois x2n > 0 e x2n−1 > 0, para todo n ∈ N) e c é a única raı́z
positiva da equação x2 + x − 1 = 0, vem que u = v = c. Pela Proposição 2.3,
obtemos lim xn = c.
1 1
Sendo o raio de convergência da série dada igual a √ = , segue que
lim n an lim an+1
an


an −1 + 5
r = lim = lim xn = c = .
an+1 2

47
Basta seguir os mesmos passos feitos quando partimos de x1 > x2 e concluı́mos que x1 > x3 .
97

6. Prove que a função



X 1  x 2n
f (x) = (−1)n · ·
n=0
(n!)2 2

f′
está bem definida para todo x ∈ R e que f ′′ + + f = 0 para todo x ̸= 0.
x
∞ ∞
X 1  x 2n X (−1)n
Solução. Notemos que (−1)n · 2
· = 2 4n
· x2n . Sendo assim,
n=0
(n!) 2 n=0
(n!)
1
pela Questão 2 desta seção, o raio de convergência da série dada é r = √ , onde
s L
(−1) n
L = lim sup n .
(n!)2 4n
|an+1 | (−1)n
Sabemos que L = lim , onde an = , desde que esse limite exista.
|an | (n!)2 4n
|an+1 |
Afirmamos que lim = 0. De fato,
|an |

(−1)n+1
[(n+1)!]2 ·4n+1 (n!)2 1
lim = lim = lim = 0.
(−1)n 4 · [(n + 1)!]2 4(n + 1)2
(n!)2 ·4n


X 1  x 2n
Dessa forma, (−1)n · 2
· converge para todo x ∈ R, isto é, f está bem
n=0
(n!) 2
definida para todo x ∈ R.
f′
Mostremos agora que f ′′ + + f = 0, para todo x ̸= 0. Para isso, precisamos
x ∞
X (−1)n
determinar f ′′ e f ′ . Seja g(x) = 2 4n
· xn . Pelo que já mostramos, g está bem
n=0
(n!)
definida para todo x ∈ R, logo é de classe C ∞ . Além disso, f (x) = g(x2 ), para todo
x ∈ R, logo, pela regra da cadeia, temos

f ′ (x) = 2x · g ′ (x2 ) e f ′′ (x) = 2 · g ′ (x2 ) + 4x2 g ′′ (x2 ).


∞ ∞
X (−1)n · n n−1
X (−1)n · n(n − 1)

Sendo g (x) = ·x ′′
e g (x) = · xn−2 , vem que
n=1
(n!)2 4n n=2
(n!)2 4n


X (−1)n · n
f ′ (x) = 2x · · x2(n−1)
n=1
(n!)2 4n

∞ ∞
′′
X (−1)n · n 2(n−1) 2
X (−1)n · n(n − 1)
f (x) = 2 · ·x + 4x · · x2(n−2) .
n=1
(n!)2 4n n=2
(n!)2 4n
n
X (−1)k · k
Fixemos arbitrariamente x ∈ R, x ̸= 0. Sendo bn = 2 · · x2(k−1) + 4x2 ·
k=1
(k!)2 4k
98

n n n
X (−1)k · k(k − 1) 2(k−2)
X (−1)k · k X (−1)k
2(k−1)
2 k
· x , c n = 2x · 2 k
· x e d n = 2 k
· x2k ,
k=2
(k!) 4 k=1
(k!) 4 k=0
(k!) 4
′′ ′
temos que f (x) = lim bn , f (x) = lim cn e f (x) = lim dn . Daı́,

f ′ (x)  cn 
f ′′ (x) + + f (x) = lim bn + + dn .
x x

Como
n n
X (−1)k · k 2(k−1)
X (−1)k · k(k − 1)
bn = 2 · ·x +4· · x2(k−1)
k=1
(k!)2 4k k=2
(k!)2 4k
n n
X (−1)k · k X (−1)k · k(k − 1) 1
= 2· · x2(k−1) + 4 · · x2(k−1) − ,
k=2
(k!)2 4k k=2
(k!)2 4k 2
n k n
cn (−1) · k 2(k−1)
X (−1)k · k 2(k−1) 1X
= 2 2 4k
· x = 2 2 4k
·x − ,
x k=1
(k!) k=2
(k!) 2
n
X (−1)k 2k x2
dn = 2 4k
· x + 1 − ,
k=2
(k!) 4

segue que
n n n
cn X (−1)k k(k − 1) 2(k−1)
X (−1)k k 2(k−1)
X (−1)k 2k x2
bn + + dn = 4 x +4 x + x −
x k=2
(k!)2 4k k=2
(k!)2 4k k=2
(k!)2 4k 4
n n
X (−1)k k 2 2(k−1) X (−1)k 2k x2
= 4 · x + · x −
k=2
(k!)2 4k k=2
(k!)2 4k 4
n n
X (−1)k 2(k−1)
X (−1)k 2k x2
= · x + · x −
k=2
[(k − 1)!]2 4k−1 k=2
(k!)2 4k 4
n n
(48) X (−1)k 2k
X (−1)k−1
= 2 4k
· x − 2 4k−1
· x2(k−1)
k=2
(k!) k=3
[(k − 1)!]
(−1)n x2n
= .
(n!)2 4n

(−1)n x2n |x|n |x|n


  
1 (49)
Dessa forma, por lim 2 n
= lim · lim ·lim n = 0, concluı́mos
(n!) 4 (n!) (n!) 4
n 2n
(−1) x ′′ f ′ (x)
da Observação 4 que lim = 0 e, por conseguinte, f (x) + + f (x) = 0,
(n!)2 4n x
o que conclui a solução.
n n n
X (−1)k X (−1)k x2 x2 X (−1)k−1
48
2 k−1
· x2(k−1) = 2 k−1
· x2(k−1) + = − · x2(k−1) .
[(k − 1)!] 4 [(k − 1)!] 4 4 4 [(k − 1)!]2 4k−1
k=2 k=3 k=3
49 |x|n
De x ̸= 0, obtemos |x| > 0, logo, do Exemplo 2.11 segue que lim = 0. Além disso, por
n!
1
lim 4n = +∞, temos que lim n = 0.
4
99

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer do presente trabalho foram destacados pontos relevantes no estudo


de sequências e séries de funções assim como a resolução de exercı́cios acerca desse tema,
buscando sempre manter o rigor matemático e, principalmente, uma linguagem clara e
acessı́vel, tanto nas demonstrações dos resultados apresentados quanto na resolução das
questões.
No que diz respeito ao desenvolvimento deste projeto, houveram inúmeros
obstáculos enfrentados, sejam referentes ao tema em si, visto que se trata de um assunto
que exige maturidade matemática, ou voltados para a digitação em LATEX. Todavia,
com o auxı́lio do acervo bibliográfico aqui referenciado e do orientador Flávio Falcão, foi
possı́vel superar todos esses obstáculos. Sem sombra de dúvida há vários pontos a serem
melhorados e/ou ajustados, principalmente na seção de exercı́cios, tendo em vista que,
para cada um dos exercı́cios apresentados, há diversas formas de solução.
Com relação a futuros trabalhos, pode-se notar que o assunto aqui abordado
tem diversas aplicações em teorias mais avançadas, como é o caso das séries de Fourier,
Equações Diferenciais Parciais, Integral de Lebesgue, etc. Dessa forma, o aprofundamento
ou uma introdução para tais temas, utilizando-se dos conceitos e de toda a teoria apresen-
tada neste trabalho, pode ser encarado como uma possı́vel continuação desta monografia.
Como mencionado na introdução, o principal objetivo dessa monografia é dis-
ponibilizar um material de consulta prático aos estudantes de Licenciatura em Matemática
que buscam aprofundar seus conhecimentos na área da Análise Matemática, porém, vale
salientar que esse trabalho não pode ser tratado como substituto dos livros didáticos,
em particular, as obras das quais foram baseadas essa monografia, mas pode ser compre-
endido como uma ferramenta que irá auxiliar os interessados no assunto a compreender
certos passos dados no desenvolvimento da teoria aqui abordada.
100

REFERÊNCIAS

FIGUEIREDO, Djairo Guedes. Análise I . 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1996. 266 p.

Gil, Antonio Carlos; et al. Como elaborar projetos de pesquisa, v. 4. Atlas São Paulo,
2002.

LIMA, Elon Lages. Curso de Análise. 14. ed. Rio de Janeiro: Associação Instituto
Nacional de Matemática Pura e Aplicada, 2012. 431 p.

LIMA, Elon Lages. Análise Real: funções de uma variável. 12. ed. Rio de Janeiro:
IMPA, 2014. 198 p.

RUDIN, Walter. Principles of Mathematical Analysis. 3. ed. New York:


McGraw-Hill, 1976. 352 p.

Thomé, Vinı́cius Weite; Duro, Mariana Lima; Andrade, Carina Loureiro. História da
Análise Matemática e Desenvolvimento Cognitivo. Bolema: Boletim de Educação
Matemática, v. 34, p. 399–420, 2020.

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