Você está na página 1de 5

Método do limite superior

Introdução

O método do limite superior é uma alternativa analítica aproximada aos métodos completos
(ex. método das linhas de escorregamento) que possui um domínio de aplicabilidade muito
vasto e que permite obter valores de potência iguais ou superiores à potência real dos
processos tecnológicos.

O método do limite superior baseia-se num campo generalizado de velocidades


cinematicamente admissível/compatível (que pode ser obtido a partir das extensões,
deslocamentos lineares ou rotação angular), respeitando as condições de fronteira.

∫ σ ε& dV + ∫ k ∆v dS − ∫ t i v i* dS ≥ ∫ t i v i dS
* * *
ij ij
S SD V SD ST SU

Teorema do limite superior:


du i = du*i A aplicação de um campo de velocidades cinematicamente
admissível tem associado uma potência de deformação
plástica igual ou superior à que é despendida pela acção das
V
tensões exteriores aplicadas ao longo da superfície SU, onde
ST
SU as velocidades estão impostas. No caso concreto dos
processos tecnológicos de deformação plástica, estas
tensões exteriores são originadas, na sua generalidade, pela
acção exercida pelas ferramentas sobre as peças.
t = t* 1

Método do limite superior


Introdução – enquadramento histórico

O desenvolvimento do método do limite superior remonta aos


anos 50 através dos trabalhos de Hill, Prager, Hodge e Drucker.
A utilização do método do limite superior na resolução de
problemas de deformação plástica só ficou definitivamente
estabelecida após Kudo, Halling, Mitchell, Avitzur e Johnson o
terem empregue em estudos de natureza teórica-experimental
relacionados com operações de forjamento, extrusão e The Mathematical Theory of Plasticity
laminagem. By Rodney Hill, 1950

Os primeiros programas de computador destinados à simulação numérica de


processos tecnológicos de deformação plástica foram desenvolvidos no
decurso dos anos 70, tendo por base o método do limite superior.

Embora nos anos 80, e principalmente na década de 90, se tenha assistido à


substituição do método do limite superior pelo método dos elementos finitos,
Hideaki Kudo
enquanto técnica principal de análise de processos de deformação plástica a
sua utilização continua a apresentar um conjunto significativo de vantagens
que derivam, não só da sua facilidade de utilização, como da capacidade que
possui na interpretação explícita dos fenómenos físicos associados. Estes
factos explicam a importância que deve ser dada a este método na área
formativa/educativa das tecnologias de fabrico.
Betzalel Avitzur
2

1
Método do limite superior
Introdução – hipóteses simplificativas

• O material é homogéneo e isotrópico

• O material tem um comportamento rígido


perfeitamente plástico, desprezando-se todos os
efeitos associados à componente elástica da
deformação e ao encruamento do material

• Devem apenas ser consideradas duas condições


de atrito distintas nas interfaces de contacto
entre o material e a ferramenta; ausência de atrito
e existência de atrito máximo

As hipóteses simplificativas atrás enunciadas correspondem às exigências expressas no


teorema do limite superior na sua forma original. Contudo, é importante salientar que muitas
das aplicações conhecidas do método do limite superior, no domínio das tecnologias de
fabrico, ultrapassam os requisitos teóricos e as hipóteses simplificativas exigidas pelo
teorema do limite superior. É frequente contabilizar-se o efeito do encruamento, incluir-se o
atrito através de diferentes modelos e considerar-se a evolução geométrica das peças nos
casos em que os processos de deformação plástica não são estacionários.

Este facto, tem levado muitos investigadores a encararem a técnica do limite superior como
um balanço energético assente em campos de velocidade cinematicamente admissíveis. 3

Método do limite superior


Teorema do limite superior – significado físico-geométrico

Distorção instantânea do material sobre uma linha de descontinuidade de velocidade xx’

x'

A B vt0 vn0 = vn1


θ B' v0 vt1 φ v0
O
θ
A' D C ∆vxx'
C' v1
v1
D'
φ
x

A construção do hodógrafo foi efectuada com base nas propriedades que caracterizam uma linha de
descontinuidade de velocidade:

• As componentes normais da velocidade em cada um dos sub˘domínios criados pela v n 0 = v n1


linha descontinuidade de velocidade (LDV) têm que ser iguais

• A diferença entre os vectores de velocidade absoluta, v0 e v1, tem que coincidir em


módulo, direcção e sentido com o vector da descontinuidade de velocidade, ∆vxx’ , o ∆v xx ' = v t 1 − v t 0
qual, por seu lado, tem que ser tangente à linha de descontinuidade de velocidade xx’.
4

2
Método do limite superior
Teorema do limite superior – significado físico-geométrico
Incremento de trabalho plástico necessário à modificação instantânea da geometria do
paralelogramo quando atravessa uma linha de descontinuidade de velocidade xx’

x' x'
B'

A B A=A' B τ
B' v0
θ dh0 O
C'
ds
γ
A' D C D=D' C
θ
C'
v1 x
φ
D'

____ ____

⎛ ____ ⎞ ____ dW ⎛ ____ ⎞ CC ' dW ⎛ ____ ⎞ CC ' ⎛ ____ ⎞


dW = F d = ⎜ k BC ⎟ CC' = ⎜ k BC ⎟ = ⎜ k BC ⎟ = ⎜ k BC ⎟ ∆v xx '
⎝ ⎠ dt ⎝ ⎠ t dt ⎝ ⎠ t ⎝ ⎠

dW
No caso geral .... dt ∫
= k ⋅ ∆v xx ' ds

Método do limite superior


Campos de velocidades

Existem dois tipos de campos de velocidades que estão na base da grande maioria das
soluções limite superior utilizadas na análise de processos de deformação plástica:

• Blocos rígidos – campos de velocidade construídos a partir da subdivisão da região em


deformação plástica através de blocos rígidos, delimitados por linhas de
descontinuidade de velocidade rectilíneas.

Vo

A B E
60º
1
2 3
dW
= ∫ k ⋅ ∆v ds ∫ σ ε& dV = 0
* *
C D ij ij
4
dt V

• Campos de velocidade contínuos – campos de velocidade definidos a partir de funções


Vo
matemáticas e que podem exigir ou não a delimitação
da região em deformação plástica através de linhas de
L
descontinuidade de velocidade.
x

y
h
O
dx

2v 0 2v 0
vx = x vy = − y vz = 0
h h 6
Vo

3
Método do limite superior
Exemplo de aplicação

Considere a operação de indentação sem atrito em condições de


deformação plana que se encontra representada na figura.

Vo

A B E
60º
1
2 3

C D
4

a) Determine o campo de velocidades e proceda à sua representação no hodógrafo.


b) Calcule o valor da pressão de compressão adimensionalizada com a tensão limite de
elasticidade do material p/2k.
c) Compare o valor obtido na alínea b) com o que tinha sido calculado através do método das
linhas de escorregamento.
7

Método do limite superior


Tópicos avançados – cálculo de temperaturas

Se a deformação plástica for realizada de um modo suficientemente rápido para que


prevaleçam condições adiabáticas no interior da região em deformação plástica, isto é, para
que sejam insignificantes as perdas de calor para as ferramentas, lubrificantes e ambiente,
pode-se calcular o aumento da temperatura associado ao atravessamento de uma
descontinuidade de velocidade fazendo o seguinte equilíbrio energético:

⎛ dW ⎞
⎜ ⎟ = k ∆v xx ' ds = V&xx ' ρ c ∆T xx ' k ∆v xx ' ds = v 0 dh 0 ρ c ∆T xx '
⎝ dt ⎠ xx '

V&xx ' = v 0 dh0

k ∆v xx ' σ ∆v xx '
∆T xx ' = α =α
ρc vn 3 ρc vn

α = 0.90 − 0.95

Em face do exposto é lícito afirmar-se que as linhas/superfícies de descontinuidade de


velocidade são igualmente linhas/superfícies de descontinuidade térmica, responsáveis por
acréscimos instantâneos da temperatura do material. 8

4
Método do limite superior
Auto estudo
Resolver os exercícios 9.1 e 9.2