Linhas de Pesquisa
Enrico Moriconi
OS TEOREMAS DE GÖDEL
Versão 1.0
Linhas
di
Pesquisa
SWIF - Site Web Italien pour la Philosophie
Revista eletrônica de filosofia - Registro n. ISSN 1126-4780
Linhas de Pesquisa - SWIF
Gian Maria Greco
Fabrizio Martina
Supervisão: Luciano Floridi
Redação: Eva Franchino, Federica Scali.
AUTOR
Enrico Moriconi [moriconi@[Link]] estudou na Escola Normal Superior de Pisa e se formou com
Francesco Barone em 1973 com uma tese sobre a Teoria da demonstração de D. Hilbert. Atualmente é professor titular de
Lógica no Departamento de Filosofia de Pisa. Trabalha predominantemente em Teoria da demonstração e
Fundamentos da matemática. Sobre esses assuntos, publicou vários ensaios e volumes. Entre os mais recentes, destacamos
il volumeComputabilità, Roma 2001 (in collaborazione con L. Bellotti e L. Tesconi) e i saggi "Filosofia della
matematica" no volume Filosofie delle scienze (a cura de [Link]), Torino 2003, e Sobre o Significado de Hilbert's
Problema da Consistência (Paris, 1900), na Synthese 2003.
A revisão editorial deste capítulo é de responsabilidade de Gian Maria Greco.
LdR é um e-book, entendido como um número especial da revista SWIF. É editado por Luciano Floridi com o coordenamento editorial
de Gian Maria Greco e a supervisão técnica de Fabrizio Martina.
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em que cada texto é um capítulo autônomo. Nele, o autor ou a autora, presumindo apenas um mínimo de conhecimentos básicos,
fornece uma visão panorâmica e crítica dos temas principais, dos problemas mais importantes, das teorias mais significativas e dos
autores mais influentes, no âmbito de uma área específica de pesquisa da filosofia contemporânea atualmente em discussão e de
notável importância. O objetivo é fornecer ao público italiano uma ideia geral sobre quais são os temas de pesquisa mais importantes.
interesse nos vários setores da filosofia contemporânea hoje, com um estilo não histórico, acessível a um público de filósofos não
especialistas no setor específico, mas interessados em se manter atualizados.
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AUTOR, SWIF, 2006, ISSN 1126-4780, p. X, [Link]/biblioteca/lr.
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¨
OS TEOREMAS DE GODEL
Enrico Moriconi
Versão 1.0
1 Introdução
Os teoremas de Gödel constituem talvez os mais importantes, e sem dúvida os mais
noti, resultados obtidos no campo da pesquisa lógico-matemática. Após uma
fase de recepção fátiga, há muito tempo se tornaram parte do 'senso
comum” também em disciplinas não estritamente técnicas; ou técnicas, mas
não especificamente lógico-matemáticas. Muitas vezes se fala delas discutindo
e avaliando as consequências – para a lógica, a matemática, os fundamentos
da matemática, a filosofia da matemática, a filosofia da ciência, a
filosofia da mente, as ciências cognitivas,... – dando por certo o proce-
tão demonstrativo que é a base1 . Ou acontece que se forneçam
demonstrações extremamente gerais do teorema, a fim de identificar as
condições que qualquer teoria deve satisfazer para demonstrar os resultados
g¨odeliani, com a consequência de se perder de vista o percurso específico se-
guito da G¨odel, no sentido de que entre essas demonstrações e a original existe
pu`o estabelecer uma relação análoga àquela existente entre o teorema canto-
1 Veja-se, por exemplo, Cellucci [1998], Cellucci [2002] e Lolli [1992].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 715
riano da não-numerabilidade do contínuo e a demonstração de Liouville que
permite construir efetivamente números transcendentais2
Nestes páginas, pretende-se tentar refazer a viagem
originário de G¨odel na convicção de que, sem absolutamente querer diminuir
o grande relevo daquelas generalizações, ele mantém uma notável fre-
esboço teórico e um notável interesse heurístico. Para isso, após um breve
inquadramento histórico, seguiremos os passos dados por Kurt G¨odel, para depois
propor uma breve avaliação do significado geral daqueles teoremas3 .
2 A pré-história
Compreender e avaliar o significado dos resultados de incompletude da aritmética,
obtidos por Gödel no decorrer de 1930, comunicados em setembro daquele mesmo
ano no famoso Congresso de Königsberg, e publicados em 19314, requer
2`
E esta é uma tendência que provavelmente começou com S. C. Kleene em Kleene [1952]. Sobre isso
mesma comprimento de onda, veja por exemplo a compacta e sem dúvida eficaz tratativa
Não em Casari [1997]. Interessantes, a esse respeito, as observações do mesmo G¨odel
em uma nota de 1965 quando, a propósito dos "Equivalentes diofantinos das proposições
indecidíveis”, dizia:
Observe que este raciocínio pode ser totalmente transferido.
preciso a cada sistema cujas fórmulas tenham um significado bem definido, pur-
que os axiomas e as regras de inferência sejam corretas para este significado e
no sistema está contida a aritmética. Obtém-se assim uma prova da existência
de proposições indecidíveis naquele sistema, mas nenhum exemplo específico de
uma proposição indecidível (Gödel [1986], p.363).
3 Nãovamos nos ocupar de muitos dos detalhes mais técnicos. Para estes e para muitos resultados
conectados com aqueles go¨delianos, remetemos à discussão em Bellotti et al. [2001] e à
indicada bibliograficamente. Uma visão geral sobre os resultados godelianos pode ser encontrada em Shanker.
[1991], enquanto uma coletânea de textos (em tradução inglesa e com introduções úteis) com-
nessi com a memória gödeliana, além de que essa mesma memória, pode-se encontrar em vão
Heijenoort [1967]
4 Ristampati em G¨odel [1986].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 716
que eles sejam enquadrados no quadro teórico determinado pelo programa
fundacional proposto por David Hilbert durante os anos 20.
2.1 Não contradição como garantia da existência
Esquematicamente, podemos distinguir três fases na reflexão hilbertiana.
A prima está ligada à natureza da axiomatização formal, ou existencial, por ele.
proposta con leGrundlagen der Geometriedel 1899. A differenza della assio-
matemática clássica, euclidiana, que não se procede declarando antecipadamente que
o que são os entes de que a teoria se ocupa: a natureza destes resulta, na verdade,
determinada precisamente pela formulação, feita pelos axiomas, do
relacionamentos que valem entre aqueles entes. Isso significa que não há mais nenhum
"modelo" privilegiado da teoria e que a ligação que une axiomas e teoremas
é precisamente a ligação de consequência lógica: de qualquer sistema de objetos
Se os axiomas forem verdadeiros, os teoremas também serão verdadeiros. O que são?
"pontos", "linhas" e "planos", o que significa "jazer sobre", etc.
que resulta definido implicitamente pelos axiomas. Quem objeta contra isso
a configuração foi de Gottlob Frege, que teve um breve, mas epistemologicamente
muito importante, intercâmbio epistolar com Hilbert entre o final do século 19 e o início
do ’900. O ponto destacado por Frege era que as enunciações adotadas como
Os axiomas não podiam desempenhar tanto o papel de axiomas quanto o de definições.
Um axioma, de fato, deve ser um enunciado, ou seja, uma expressão suscetível
le di ricevere um valor de verdade (e em particular deve ser uma declaração
vero), mas isso requer (para a composição) que seja conhecido o si-
gnificato de todas as suas partes. Coisa impossível se nele aparecem termos
o cujo significado não é já conhecido. Por outro lado, se aqueles termos já possuem
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 717
um significado, independentemente e previamente ao seu aparecimento nos
enunciados propostos como axiomas, então qual é o sentido de atribuir a estes últimos
também o papel de definições? A isso Frege acrescentava que para ele havia apenas um
modo de provar a não contradição de um sistema de axiomas: exibi-los
um modelo.
Hilbert respondeu de maneira muito clara a essas observações. Reiterado
a concepção hipotético-dedutiva da axiomatica, enfatiza então que
Se os axiomas estabelecidos arbitrariamente não estão em contradição
com todas as suas consequências, então eles são verdadeiros, então existem
os entes definidos por meio desses axiomas. Isso é para mim o
critério da verdade e da existência.5
Aqui está estabelecida a equação entre existência e não contradição que
ratterizza esta primeira fase da investigação hilbertiana: a suposição da qual
prende le mosse l’assiomatizzazione della geometria (“Siano dati tre sistemi
Dentre eles, o primeiro chamamos de sistema de pontos e para eles usamos as letras
x, y, z, . . .”) virá para considerar descarregada de uma prova de não contradição-
riet`a, a qual demonstra que o sistema de axiomas é um sistema de pensamentos
possível, ou seja, que existe pelo menos um modelo (embora, cabe dizer, não
necessariamente aquele entendido6 .
5 Resposta de Hilbert a Frege de 29/12/1899, traduzida em Frege [1965], p. 464.
6 Sobre esses temas, podem ser vistos meus Moriconi [2001] e Moriconi [2003] e a bibliografia
ivi lembrada.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 718
2.2 As demonstrações como "objetos" de uma investigação matemática
A segunda fase das investigações hilbertianas é constituída pela sua reação às
antinomia, ou paradoxos, descobertos no início do século. Na memória de 1904
Hilbert [1904]7encontramos os primeiros elementos do que será a "teoria da
"demonstração" de Hilbert: não se pode fundar a matemática na lógica
pois as duas disciplinas devem ser desenvolvidas juntas assumindo
como dados intuitivamente uma série discreta e concretamente dominável de
signos:
|,||, . . .
os chamados “numerais” (Zahlzeichen). A tese de Hilbert é que o tipo de
evidência intuitiva necessária para a manipulação desses sinais concretos
é o que deve ser empregado para fornecer a prova de não contraditoriedade
do sistema dos axiomas. Para isso, e esta é a importante novidade com-
mantida nesta memória, é necessário submeter o objeto de demonstração
uma investigação de tipo matemático. Esta abordagem de evidente sabor
kantiano (a razão deve submeter à crítica seus instrumentos para discriminar-
o uso correto daquele condenado a um resultado antinômico se concretiza
na delineação de um diferente, em relação ao tradicional semântico, mo-
para mostrar a não contradição dos axiomas: é necessário submeter os
demonstrações – melhor: o aparato demonstrativo da teoria constituído pelos
axiomas e regras de inferência - a uma investigação de tipo sintático da qual
deve resultar a impossibilidade de demonstrar uma contradição. Com referência-
Eu me refiro a um sistema de axiomas muito simples, Hilbert dá um exemplo do
7 Tradução italiana em Hilbert [1985]
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 719
modo de proceder da prova de não contradição assim concebida. Se as-
suma que se concretamente dada a demonstração de uma contradição: em
esta base se mostra então que esta eventualidade é impossível porque esta
a propriedade deve ser preservada remontando à demonstração da fórmula
a finale através da aplicação das regras, até chegar aos axiomas, os
quais, é evidente, não contêm contradições.
Contra esta segunda proposta hilbertiana se levantou a crítica de Poincaré.
caré, em Poincaré [1906], que destacou que esse procedimento emprega
evidentemente o princípio da indução completa; portanto, se o objetivo é esse
tentar provar de esta forma a não contradição dos axiomas
aritméticos, um dos quais é precisamente o princípio da indução completa, se
cai inevitavelmente em um círculo.
2.3 O programa de conservação
Ao longo dos anos 20, Hilbert, apoiado por um grande grupo de notáveis
8
os matemáticos formularão sua terceira e definitiva proposta fundacional em que
tento responder à objeção de Poincaré e também avaliar de forma
a crítica freghiana mais meditativa9 O primeiro caractere distintivo deste
proposta é constituída pela distinção de uma área matemática e de uma ideia
le 10. A prima, também conhecida como finita ou finitária, é a matemática combinatória
e intuitiva (no sentido de que não é regida por princípios formais) dos numerais. Os
as características das afirmações que são feitas neste âmbito são decididas
8 Recordamos apenas W. Ackermann, P. Bernays e J. von Neumann.
9 Entre as várias memórias desses anos, limitamo-nos a recordar Hilbert [1926], que é o texto
em uma conferência realizada em 1925, e que foi traduzida para o italiano em Hilbert [1985].
10 Às vezes, para nos referirmos aos dois âmbitos, usaremos os nomes ReI.
E. Moriconi - Os teoremas de Gödel - Versão 1.0 720
bilit`a e l’effettivit`a, e i ragionamenti induttivi sono basati sulla costruzione e
decomposição dessas figuras concretas – sequências finitas de barras – que são
os numerais: todos os procedimentos que terminam em um tempo finito. Hilbert não
aprofundar a análise dos procedimentos da matemática real, do qual salienta
a segurança: com elas certamente se podem cometer erros, mas não chegar
um paradoxo, ou seja, erros produzidos pela aplicação correta das regras. O
o tipo de evidência intuitiva aqui empregue deriva seu caráter de confiabilidade
do fato de que os objetos aos quais se aplicam levam, podemos dizer, "escrito em
"face" o que são. Não remetem a nada para sua justificação.
As afirmações que se situam no limite entre matemática real e matemática
ideais são as declarações abertas, como por exemplo
a+|=|+a
che está para a comunicação do fato de que para qualquer substituição de um nu-
merale no lugar do segnoasi obtém uma afirmação real verdadeira. Já negar
um enunciado como o anterior leva ao campo da matemática ideal,
o infinitaria, a que pertencem as afirmações usuais que fazem referência,
trâmite a quantificação, a totalidade infinita e a procedimentos que não necessitam
sariamente terminam em um número finito de passos. À diferença de quanto
acontecia com os numerais, as manipulações que fazemos nas fórmulas do-
a matemática ideal não encontra justificativa no significado dos símbolos
empregados: que∃xA(x) segue de¬∀x¬A(x) não é justificado pelo significado
intuitivo ou informal dos quantificadores, mas repousa nas regras e nas definições
ni adotadas. Torna-se fundamental garantir que tais regras não sejam
contraditórias. Mas neste período Hilbert desloca o foco da atenção
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 721
do problema da não contradição ao problema de mostrar que a ma-
a temática ideal é uma extensão conservadora da real: o que deve
ser provado, usando os métodos da matemática finita, é que se uma afirmação
A formação real é demonstrada com métodos ideais, então já era demonstrável.
com os únicos instrumentos finitistas. Os dois problemas, aquele da não contradição
e aquele da conservatividade em relação a R, são distintos, ainda que estreitamente
mente conectados: se cada enunciado real demonstrável em I`e é finisticamente
Verdade, então, já que 0 = 0 não é verdadeiro, não é nem mesmo demonstrável.
resulta assim não contraditório: pela lei do Pseudo-Scoto, de fato, em
uma teoria contraditória é demonstrável qualquer enunciado. Por outro lado,
se I é completa em relação a R, ou seja, se em I são demonstráveis todas as formas.
que expressam enunciados reais verdadeiros, então a não contradição implica
a conservatividade. De fato, se não são contraditórios, então 0 = 0 não é um
teorema diI(poich´e per ipotesi inI`e dimostrabile l’enunciato reale vero
0 = 0): isso é, se (a fórmula que expressa) um enunciado real e demonstrável em
Então aquela afirmação é finitisticamente verdadeira11 .
A objeção de Poincaré encontra aqui pelo menos um esboço de resposta: a
a proposta fundacional hilbertiana evita cair em um círculo vicioso porque
Os dois princípios de indução são diferentes. Aquele próprio de R, ao qual cabe o
o dever de justificar os axiomas da aritmética é restrito a fórmulas desprovidas
de quantificadores, ou seja, do tipo
α(0)
α(a)→α(a+ 1)
α(b)
11 Paraum aprofundamento dos temas relacionados com o programa fundacional hilbertiano
rimando ao meu Moriconi [1987].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 722
enquanto aquele que deve ser justificado não tem nenhuma restrição.
E também a objeção de Frege encontra uma resposta mais drástica, se se
quer, mas também mais meditada. Abrindo mão da equação entre não-contradit-
toriet`a e esistenza, Hilbert riconosce che, a differenza di quello che succedeva
com os numerais, as fórmulas da matemática ideal, ou infinita, contêm
símbolos aos quais não está conectada qualquer tipo de evidência intuitiva: é por isso
que a sua manipulação necessita de uma justificativa. A solução de
Hilbert foi então aquele que aderiu à concepção formalista: as expressões
ni do objeto-linguagem não têm significado, são formais no sentido que
A aplicação das várias regras requer apenas a possibilidade de reconhecer o
forma o ordenamento dos sinais usados. Dotados de significado são, ao contrário, os
afirmações da metateoria, nas quais são utilizadas as procedimentos de R.
3 Chegada ¨
Godel
O ponto central da construção godeliana foi o de tomar sobre
sério, de certa forma "literalmente", o resultado anterior das investigações hil-
bertiane: se são apenas sinais puros, então podem ser escolhidos arbitrariamente.
Por exemplo, é possível usar diretamente os números inteiros. A maneira como
G¨odel procedeu, retomando os projetos leibnizianos da pesquisa de uma ca-
característica e combinatória universais capazes de gerar todas as verdades,
tornou-se então padrão e é chamado de aritmética, ou também, diretamente,
g¨odelizzazionedella metateoria o sintaxe.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 723
3.1 A aritmetização
Fazemos referência a uma teoria formal usual de primeiro ordem da aritmética
que chamaremos PA, contendo como símbolos primitivos 0, , ′+, ×, e que aos
axiomas da lógica de primeira ordem com identidade adicionam os axiomas peanianos
se zero e sucessor, mais as equações recursivas para soma e produto, e em
quais são os nomes disponíveis para os números naturais12. Assumimos também que temos
assegnado de alguma forma um número natural g(σ), que podemos sup-
porre per concretezza dispari, a ogni segno σ del vocabolario primitivo della
teoria. Obviamente, de modo que a sinais distintos sejam atribuídos números (ou
g¨odeliani, os códigos, como também costumamos dizer) distintos. Com esta base,
a cada sequência finita de sinais primitivos da linguagem da teoria, σ1 , . . . , σ n ,
e portanto, em particular, a cada termo ou fórmula é atribuído o
número
g(σ 1 , . . . , σ n ) =pg(σ )1 g(σ )
1 ×. . .×p n
n
pombo1 , p2 São os números primos em ordem crescente. Analogamente, a cada
sequência finita de sequências finitas de símbolos primitivos, digamos α1 , . . . , α n , e
portanto, em particular, a cada sequência finita de fórmulas que constitua uma
demonstração, corresponde ao número
g(α 1 , . . . , α n ) =pg(α1 ) ×.
1
. .×pg(α
n
) n
fazendo com que todos os objetos da teoria correspondam a um nome
número natural como seu código ou g¨odeliano. Vice-versa, dado um número natural
12 Os chamados numerais, onde está o numeral para o número natural n.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 724
qualquer um, podemos produzir sua decomposição em fatores primos - que é única para
menos da ordem dos fatores - e, se for um código, recuperar o objeto teórico de
quem é13. A este ponto, a conjuntos de fórmulas e relações entre fórmulas de PA
corresponderão conjuntos e relações numéricas; ou seja, os conjuntos dos números
quais são os códigos dessas fórmulas e as relações entre os números que são os g¨ode-
liani da aquelas fórmulas. Gödel conseguiu então provar que em muitos casos aquelas
conjuntos e aquelas relações admitem uma definição puramente aritmética,
che`eesprimibile formalmenteinPA(preciseremo piu` avanti che cosa ci`o
voglia dire). Come conseguenza di queste operazioni si ha che le asserzio-
ni metateóricas se transformam em asserções numéricas, e desde que
PA contém uma formalização da aritmética torna-se possível expressar
as asserções metateóricas com cuiparliamodiPAall'internodella stessa
PA, ou seja, ao nível da sua linguagem. Determina-se uma "dupla vida" dos
números: objetos dePAe códigos. Graças à aritmética, enunciados me-
teóricos tornam-se enunciados teóricos, de um lado, e, do outro, é possível
que enunciados numéricos representem, utilizando a chave do código adot
tato, asserções metateóricas sobre PA. A possibilidade de que esta confusão
de teoria e metateoria –refutada, deve-se lembrar, por Hilbert– abre aquela de
construir enunciados que falem de si mesmos. Estas são as situações de au-
referencialidade que está na base das chamadas antinomias semânticas, e
o mesmo G¨odel destaca a analogia entre seu raciocínio e a antinomia de
13 Não nos interessam aqui os detalhes desta correspondência, que nos limitamos a solicitar
injetiva. Pode-se notar que os códigos dos símbolos primitivos são números ímpares; aqueles dos
os termos e as fórmulas são pares (pois contêm o fator 2), mas com o expoente
del primo fattore dispari (in quanto codice di un simbolo primitivo), enquanto aqueles dos
as demonstrações são pares, mas com o expoente do primeiro fator par (uma vez que o código
diga uma fórmula).
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 725
Richard. De fato, examinar mais de perto esta analogia é muito útil para
destacar o esquema do raciocínio godeliano14.
3.2 A antinomia de Richard
Para obter a antinomia de Richard, consideremos as expressões da língua
italiana que definem propriedades de números naturais. Obviamente, essas são
não tanto quantos são os números naturais: haverá a primeira, a segunda, ...
ponhamos que as tenhamos ordenadas, por exemplo, lexicograficamente, na sequência
infinita
E1 , E2 , . . . , E n , . . . (1)
Perm, números naturais arbitrários faz sentido perguntar se possui ou não
a propriedade expressa daEn No sentido de que compreendemos as condições de
veracidade da afirmação que atribui a propriedade expressa por Enao número
naturalem. Escreveremos, respectivamente, En (m) e¬(En (m)). Consideremos
a este ponto a propriedade numérica expressa por "o número não possui
a propriedade expressa daEn ”, ou seja
¬(En (n)) (2)
Poichè anche questa è una proprietà numerica espressa in italiano, e poichè
(1) enumera todas as propriedades numéricas expressas em italiano, (2) deve coincidir
cidere com uma das propriedades da sequência (1). Suponhamos que seja a rejeição:
14 Estainvestigação foi realizada pela primeira vez em Hilbert e Bernays [1939], onde é
fornece também a primeira exposição detalhada dos resultados godelianos. Essa abordagem
ela se encontra em Mostowski [1952]. Para mais indicações, pode-se ver Mariani e
Moriconi [1984] e Bellotti et al. [2001].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 726
ci significa che per ognuno, le condizionir (n) e¬(En (n)) coincidem. Isso
que vale para todos, valerá em particular para, e assim obtemos o seguinte
contradição15 :
EtranslatedText (r) sse¬(Er (r)) (3)
3.3 O raciocínio de G¨odel
É instrutivo tentar reconstruir essa antinomia na linguagem for-
male da teoriaPA, a propósito da qual assumimos que seja não contraditória
dittoria. Obviamente, em vez das expressões da língua italiana, teremos
formule com uma variável individual livre de PA16Estas também são uma
totalidade numerável ordenável na sequência infinita
α1 (x1 ), α2 (x2 ), . . . , αn (xn ), . . . (1∗)
Procedendo na reconstrução da antinomia, deveríamos agora expressar em
PAla fórmula¬(αn [xn /n])17, ou seja
não possui a propriedade expressa pela fórmula αn (xn ) (2∗)
15 Onde com 'sse' abbreviamos, como de costume, a expressão 'se e somente se'.
Lembramos que a antinomia de Richard é um exemplo típico de raciocínio impredecável.
a propriedade
atm
ulsem
asreleaqulada,1)(aqeuniêcsàaniêcrefoecm
rdaniirdfeé
ser um membro. Ou seja, é definida fazendo referência a uma totalidade à qual ela própria aparece.
tem, e portanto, em certo sentido, é definida em termos de si mesma. Para uma discussão de
este tipo de definições pode ser visto no clássico Fraenkel et al. [1973].
dezesseis Ou seja, fórmulas do tipo α(x), com as quais se expressam propriedades numéricas; como, por exemplo,
“x`e pari”, “x`e composto, “x`e divisibile per 23”,. . .
17 Com a expressão (α [x (n]) refere-se à fórmula que se obtém da fórmula α(x )
n n n
substituindo sua variável individual liberaxncom o numeral din, ou seja, conn.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 727
Mas aqui surge logo uma dificuldade: (2*), como o anterior (2), resulta-
é imediatamente compreensível porque utilizamos o conceito intuitivo de
veridade. Mas este caminho não é percorrível dentro de PA, onde esse conceito não é
disponível. Podemos tentar superar essa dificuldade utilizando, como
substituto rigoroso do conceito de verdade, o de demonstrabilidade dentro de PA.
Em vez de (2*) teríamos então:
o enunciadon [xn /n] não é demonstrável em PA (2∗ ∗)
A este ponto, para continuar o processo de reconstrução da antinomia,
seria necessário identificar (2**) com uma das propriedades expressas pelas fórmulas
di (1*). Aqui encontra-se uma segunda dificuldade, devido ao fato de que enquanto
É uma teoria formal dos números, e portanto suas afirmações dizem respeito a
propriedades e relações numéricas, em (2**) aparecem expressões que não de-
não em conjuntos ou relações numéricas, mas noções metateóricas: “enunciado”
“demonstrável”, “substituição”,. . .. Entra aqui em jogo o papel fundamental
svolto pela aritmetização da metateoria: graças a ela, de fato, ao
o conjunto dos enunciados corresponde ao conjunto dos números que são códigos de
enunciados; ao fato de que um enunciado seja demonstrável, ou seja, ao fato de que seja
o último membro de uma sequência finita de fórmulas que constitui uma dim
strazione diPA, (G¨odel conseguiu engenhosamente mostrar que) corresponde
uma relação numérica, digamos DimPA (m, n), que vale entre dois números se
primo é o código de uma demonstração da fórmula de que o segundo é o co-
dados; à operação de substituição que produz a enunciação αn [xn /n] (G¨odel
riuscindo engenhosamente a mostrar que corresponde a uma função numérica,
E. Moriconi - Os teoremas de Gödel - Versão 1.0 728
diciamost(p, q), tal que sepeqsono, respectivamente, os códigos de (αn (xn ))
e din(cio`e, sep=g(αn (xn )) eq=g(n)), produza como valor o código
do enunciadoαn [xn /n],. . .
Como já dissemos, Gödel conseguiu demonstrar que em muitos casos
esses conjuntos, relações e funções numéricas podem ser expressos formalmente
mente inPA, mesmo que esta teoria contenha como primitivos apenas a constante
zero e le funzioni di successore, addizione e moltiplicazione. Assumendo di
Depois de ter feito tudo isso, podemos formular (2**) da seguinte maneira:
¬∃yDimPA (y, st(n, n)) (2***)
Poichê (2***) é uma fórmula com uma variável individual livre, e portanto
constitui a definição aritmética de uma propriedade aritmética, deve existir
em (1*) uma fórmula que expressa emPAla propriedade (2***). Suponhamos
che siaril suo g¨odeliano. Il passo conclusivo consiste nell’applicazione della
diagonal, ou seja, na substituição da única variável livre da fórmula de
g¨odelianorcon l’r-esimo numerale, ottenendo cos`ı
¬∃yDimPA (y, st(r, r)) (3*)
Como vimos, a antinomia de Richard se concluía com uma contradição
dização: o que podemos dizer sobre (3*)? Esta afirmação asserta que
não existe nenhuma demonstração emPAdella a fórmula obtida a partir da fórmula
di g¨odelianor–cio`e, da (2***)– substituindo sua única variável livre com
o numeral do seu próprio código. Agora, refletindo sobre o que foi feito, vê-se
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 729
que a afirmação que faz essa asserção e a afirmação sobre a qual essa asserção
vem feita a coincidência, são ambos (3*). Portanto, (3*) afirma a sua própria
indimostrabilidade emPA.
Poderia (3*) ser demonstrável em PA? Não, pois caso contrário sa-
rebbe intuitivamente falsa (em quanto afirma, acabamos de ver, a pro-
pria indimostrabilit`a). Se quindi assumiamo che i teoremi diPAsiano in-
Intuitivamente verificado, temos que não existe nenhuma demonstração de
(3*).
Poderia a negação de (3*) ser demonstrável em PA? Não, pois
isso implicaria (para a não contradição assumida de PA) o indimo-
estabilidade, e portanto a verdade intuitiva, de (3*). Teríamos então que emPA
seria demonstrável a negação de um enunciado intuitivamente verdadeiro: o que
e de novo impossível.
Diferente da antinomia de Richard, portanto, o resultado da construção
ne g¨odeliana não é antinômico, não nos deparamos, ou seja, em uma contradição,
mas na existência de um enunciado indecidível. A assimetria do resultado final
depende do fato que enquanto para a verdade vale o terceiro excluído (uma enunciação-
é ou não é verdade, e neste segundo caso é então falso), o mesmo
não vale para a demonstrabilidade. Ou seja, é certamente verdade que uma enunciação
ou é demonstrável ou não é demonstrável. Mas neste segundo caso não há
qualquer motivo pelo qual a afirmação deva, então, ser refutável, ou seja, deva
ser demonstrável a sua negação. Isso acontece apenas nas teorias que
sono sintatticamente complete: cosa che apparentemente non è.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 730
Debitos pagos
Nos parágrafos anteriores, frequentemente usamos expressões como “assu-
miamo de ter feito isso ou aquilo..." ou "esclareceremos mais adiante o que
ci`o voglia dire”. Para delinear o fio do raciocínio g¨odeliano, nós temos
É dado por feitas certas operações e por compreendidas certas noções. Sabendo
ora onde tudo ia dar, torna-se obrigatório tentar preencher pelo menos
algumas das lacunas anteriores. Entre elas, são fundamentais as duas seguintes:
1. assumimos que a função "st" e a relação diádica "DimPA ”
ammettano definições puramente aritméticas;
2. fizemos uso do conceito de "intuitivamente verdadeiro" e às pro-
A propriedade de demostrar apenas enunciados intuitivamente verdadeiros e de não
demonstrar a negação de enunciados intuitivamente verdadeiros.
É̀ oportuno, para ver como Gödel enfrentou essas duas dificuldades, pré-
Cisare em primeiro lugar o conceito de "exprimibilidade" na teoria PA. Dizemos
che uma relação de adição formalmente representável em fases existe
uma fórmula di PA com variáveis livres1 , . . . , x ntale che valgono as
afirmações seguintes:
se valeR(n1 , . . . , n n ) então ⊢PAα(x11 , . . . , x nn ) (1)
se não valeR(n1 , . . . , n n ) então ⊢PA¬α(x1 /n1 , . . . , x nn ) (2)
Dizemos que representa formalmente R, se valem (1) e (2). Se vale apenas
(1) digamos que R é representável em PA através de α. Neste ponto-
E. Moriconi - Os Teoremas de Gödel - Versão 1.0 731
a, uma relação é dita (semi-)expressível em PAse e formalmente (semi-
rappresentabile in PA. Si definisce poi l’esprimibilità di una funzionen-aria
tratando-a como uma relação (n+ 1)-adica e impondo que valham (1)
e a óbvia condição de univocidade. Agora, o caminho escolhido por Gödel para exibir a
a representatividade de grande parte das noções metateóricas foi mostrar que
quais funções e relações – uma vez tornadas, graças à aritmética,
funções e relações numéricas – eram funções e relações recursivas primitivas,
digamos por brevidade RP. As funções RP são um subconjunto próprio de uma
classe de funções, as funções recursivas gerais, caracterizadas por
feito de ser efetivamente calculável, no sentido de que para cada assunto
o cálculo do valor relativo é realizado através de uma série finita de passos,
cada um dos quais determina de forma única o seguinte.
3.4.1 As funções recursivas
Entre as muitas possíveis caracterizações do conceito de função efetivamente
te calcolável, aquela feita em termos de funções recursivas segue a caratte-
rizzazione assiomatica da aritmética feita por Dedekind e Peano. Os conceitos
primitivos aqui são o zero (“0”), o sucessor (“’”), o esquema de definição
por recursão primitiva e o18princípio da indução19.
A estas que são os componentes estritamente matemáticos da de-
18 Dovela funzione è definita per ricorsione primitiva a partire da due
funções já notegeh, respectivamente n-ária en+ 2-ária, se valem:
f ( x 1 , . . . , x n ,0) =g(x1 , . . . , x n ) (1)
f ( x 1 , . . . , x n ,e′ ) =h(x1 , . . . , x ny,f(x
, 1 , . . . , x n ,y)). (2)
19 Aforma como este último é incorporado na definição do conceito de procedimento
eficaz é a equivalente do princípio do número mais pequeno. Suponhamos que gsia
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 732
definição de função recursiva, adiciona-se então um mínimo de capacidade man
polativa dos símbolos: aquela de identificar um determinado termo dentro de uma data
sequência 20 , e aquela de preencher os lugares de argumento de uma função já
21
nota com os valores de outras funções também já conhecidas.
Podemos então definir o conjunto das funções recursivas como o mais
pequeno conjunto que contém as seguintes funções iniciais
1. a função constante zero: 0
2. a função de sucessor: ’
3. para cada um, k≤n, a função de projeção Πnk
ed'echiusosotto a composição, a recursão primitiva e a µ-recursão.
As funções efetivamente utilizadas por Gödel foram aquelas obtidas
li solo com composição e recursão primitiva e precisamente por isso sou
chamadas as funções recursivas primitivas.
uma função já conhecida de (n + 1) argumentos, e suponhamos que para ela vale que:
∀x1. . .∀x n ∃y(g(x1 , . . . , x n , y) = 0),
Então, dizemos que é definida por recursão sobre o mínimo, ou µ-recursão, se vale:
f ( x 1 , . . . , x n ) =µy(g(x1 , . . . , x n , y) = 0).
Ou seja, o valor do f é o menor para o qual a lag se anula, e deve existir pelo menos
um desses valores é garantido pela hipótese feita acima.
20 O que significa que consideramos efetivamente calculáveis todas as funções Πntali che
k
Πkn(x1 , . . . , x k , . . . , x n ) =xk
vantagem
21 Sea função ham-argomenti e as funções g 1 , . . . , g mos anargomenti são conhecidos, então
aceitamos como efetiva a função anargomenti, digamos que se obtém graças
toda a operação de substituição que produz a seguinte configuração:
f ( x 1 , . . . , x n ) =h(g1 (x1 , . . . , x n ), . . . , gm (x1 , . . . , x n ))
e diz-se que a função é obtida por substituição ou composição a partir de 1 , . . . , g m .
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 733
3.4.2 O lema de G¨odel
A utilização metateórica das funções RP é motivada pela forma como pro-
cede a construção de uma teoria formal: muitas noções metateóricas, como
por exemplo, a de "ser uma fórmula" e a de "ser uma deriva-
zione", são, de fato, efetivamente decidíveis. No sentido de que as regras da
teoria permite decidir com um procedimento efetivo se uma sequência
a fórmula de (sequências finitas de) sinais do vocabulário primitivo
(respectivamente, uma derivação). A possibilidade de usar as funções RP
para explicitar esse caráter de efetividade (de algumas) das noções e operações
razões metateóricas e dada pela aritmização da metateoria. Dir-se-á
Portanto, as operações e as propriedades metateóricas são representáveis.
ricorsivamente se esses podem ser representados em termos de funções e
predicati RP22seus códigos dos elementos em questão. Com uma série de 45
definições G¨odel mostrou que muitos predicados e operações aritméticas as-
sociati –através da aritmetização– às operações e propriedades metateóricas
sou RP. Sou particularmente RP as operações associadas aos conectivos lógicos;
sono RP as noções de fórmula, axioma, consequência imediata através de uma
regra de inferência, . . . , e RP é a operação de substituição, está a relação
23
diadicaDimPA
22 Nós dissemos o que é uma função RP; um predicado é dito RP se tal é a
sua função característica, ou seja, a função que assume valor 1 para os argumentos de que o
predicado vale e valor 0 para aqueles de que não vale.
23 Não é, em vez disso, RP a noção de teorema, digamos Teorema , definida da seguinte forma:
PA
T eorPA (x) =df∃yDimPA (y, x)
em quanto é obtida de uma relação RP através de uma quantificação existencial que limita
ta. Conjuntos desse tipo são chamados de semi-efetivos, mais precisamente, recursivamente.
enumeráveis, entendendo que existe uma função RP (ou mais geralmente recursiva) cuja
codomínio enumera (eventualmente com repetições) os elementos do conjunto. No caso
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 734
Subsequentemente, G¨odel demonstra que mesmo se PA possui apenas zero,
sucessor, adição e multiplicação, todas as funções e os predicados RP
` é o chamado 'lema'
são formalmente representáveis em PA. E este
di G¨odel” com o qual, de certa forma, se fecha o círculo: as noções
metateóricas tornam-se, graças à aritmética, noções numéricas; muitas
dessas são RP; todas as funções e todos os predicados RP são representáveis
formalmente na teoriaPA; portanto, uma parte relevante da metateoria é
representável formalmente dentro da teoria tornando assim possíveis situações
de autorreferência. Adicionamos que a recursividade primitiva, e portanto a
representatividade formal em PA, deDimPA (y, st(n, n)) –cio`e della relazione
que entra na constituição do enunciado indecidível - deriva do fato de
ter sido obtida por substituição a partir da relação DimPAe dalla
funzionest, ambos RP; e a substituição é exatamente um dos procedimentos
que levam de funções e predicados RP a funções e predicados RP.
3.4.3 Propriedade diPA
Entre as propriedades que deve possuir para se poder obter o teorema de
Gödel até agora explicitamente formulou e usou apenas a representação
habilitação formal das funções e dos predicados RP24, coisa que é geralmente
particular deT eorPA (x) a procedura recursiva é dada pela máquina demonstrativa do
sistema que produz uma após a outra todas as fórmulas demonstráveis do sistema. O carat-
a disemi-efetividade consiste no fato de que não está disponível um procedimento análogo para
enumerar o complemento do conjunto, pelo qual se uma certa fórmula é um teorema primeiro
o poi aparecerá na enumeração, mas se ainda não apareceu em um certo ponto de
desenvolvimento da enumeração não podemos dizer que não é um teorema (ou seja, não podemos
dizer que nunca aparecerá): nada exclui que possa aparecer prolongando ainda um
pela enumeração.
24 Na verdade, demonstra-se que um predicado é expressível em PAsse e é recursivo, mas para o nosso
O raciocínio é suficiente para se limitar ao caso dos RP. Para detalhes, veja Bellotti et al. [2001].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 735
indicada dizendo que a teoria é "suficientemente adequada" ou "suficiente-
mente potente”. Mas, como lembrou na segunda lacuna destacada em
parágrafo 3.4, fizemos mais duas suposições sobre PA. A primeira é um'as-
sujeição de correção (tudo que é demonstrável é verdadeiro) e vem rem-
piazzata no raciocínio godeliano a partir da suposição, mais fraca, que PAsia
não contraditória. A segunda (as negações não devem ser demonstráveis
di enunciati intuitivamente veri) é substituída pela suposição que PÁsia
ω-não contraditória: onde uma teoria é ω-não contraditória se não existe
alguma fórmula com uma variável livre xtal que seja possível demonstrar,
`
de um lado, α[x/n] para todo n ∈ N, e, do outro, ¬∀xα(x). É oportuno
sublinhar que a noção de ω-não contradição é uma versão sintática
tica di quella semantica della categorizzazione: equivale infatti a postulare che
os objetos do domínio sejam constituídos por todos e somente pelos números naturais, os
objetos designados pelos numerais25.
Um terceiro grupo de condições que a teoria deve satisfazer é
as chamadas condições de derivabilidade, que dizem respeito à relação DimPA
e foram explicitadas pela primeira vez em Hilbert e Bernays [1939] e
sucessivamente precisadas por L¨ob em L¨ob [1955]. Trata-se das três seguintes
25 Como mostrado por Rosser em Rosser [1936], com uma modificação da definição da
relação de demonstrabilidade, a noção de ω-não contraditoriedade poderia ser eliminada em
favor da simples não contradição. Veja Bellotti et al. [2001] para uma discussão
geral do significado deste resultado.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 736
condizioni
⊢PA α ⇒ ⊢PATe o r i a PA (g(α)) (D1)
⊢PA Te o r i a PA (g(α))→TeoremaPA (g(TeorPA (g(α)))) (D2)
⊢PA Te o r PA (g(α))→(TeorPA (g(α→β))→TeoremaPA (g(β))) (D3)
` bastante fácil verificar que os sistemas formais "usuais" satisfazem
É
essas três condições. Consideremos apenas a primeira. Se α é demonstrável em
PA, ou seja se vale
⊢PA α
então, por definição, existe uma demonstração de α em PA. Podemos então
calcular o código desta demonstração e suponha que seja, deve ser
um termo fechado. Para a representabilidade da relação de demonstração,
vale então
⊢PA DimPA (t, g(α))
Por lógica, daí se segue
⊢PA ∃xDimPA (x, g(α))
Ou seja, ainda por definição,
⊢PA Te o r i a PA (g(α)) (1)
como desejado26.
26 Para uma discussão das outras duas condições, também em relação às teorias dotadas de
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 737
3.5 Os dois teoremas da incompletude
Como vimos na reconstrução de 3.3, o enunciado indecidível de
Gödel, chamemo-o γ, equivale à asserção da sua própria indecibilidade.
A fórmula da qual parte o raciocínio de Gödel, vamos chamá-la
γ(n)`e infatti
¬∃yDimPA (y, st(n, n)). (1)
Esta fórmula afirma a indemonstrabilidade da fórmula obtida pela for-
mula di codicensostituendo la sua unica variabile libera con il numerale
do seu próprio código. Como toda fórmula, também esta terá seu código:
suponhamos que siag(¬∃yDimPA (y, st(n, n))) = re consideriamo
¬∃yDimPA (y, st(r, r)) (2)
Esta fórmula fechada, que chamamos de γ, afirma sua própria indimo-
estabilidade, de fato vale
⊢PA g(γ) =st(r, r) (3)
Então vale
⊢PA γ↔ ¬∃yDimPA (y, st(r, r)) (4)
ou se preferir
⊢PA γ↔ ¬TeorPA (g(γ)) (5)
A construção de γconstitui a aplicação particular de uma mais geral
procedimento cuja admissibilidade é sancionada pelo chamado lema de diago-
uma relação de demonstrabilidade à Rosser, veja Bellotti et al. [2001].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 738
nalização, cuja primeira formulação parece ser a contida no
parágrafo 35 de Carnap [1934].
Lema 3.1 Seja α(x) uma fórmula de PA contendo apenas la como variável.
libera. Então existe um enunciado tal que
⊢PA δ↔α(g(δ))
DimostrazioneDataα(x), consideramos a fórmulaα(st(x, x)). Siadil seu
número de G¨odel e chamamos δ a fórmula fechada α(st(d, d)). Para as escolhas
Assim, esta última fórmula é equivalente a α(st(g(α(st(x, x))), d)). Daí,
calculando a funzionest, obtemos α(g(α(st(d, d)))), que é o que procuramos.
2
Si note que para obter a enunciação indecidível γ, basta aplicar o
` a parentalidade entre o lema e o
Lema da fórmula¬TeorPA (x). É evidente
teorema de recursão demonstrado por Kleene em 1936, sendo ambos resultados
tati dipunto fisso, mas o que deve ser destacado é que G¨odel demonstrou seus
teoremas não só previamente ao desenvolvimento da verdadeira teoria
da recursão - desenvolvimento que foi, por sua vez, em parte não indiferente determinado
de seus teoremas–, mas também antes que os referidos resultados fossem conhecidos. Em um
Certo sentido, podemos dizer que ele identificou precisamente o caso particular
re daqueles resultados que serviam para demonstrar o teorema da incompletude;
teorema que neste ponto podemos demonstrar rigorosamente.
Teorema 3.2 Seja γl’enunciato anteriormente construído e para o qual vale a equiva-
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 739
linha
⊢PA γ↔ ¬TeorPA (g(γ))
então se não é contraditório não é demonstrável em e se
ω-não contraditória então γnão é nem refutável em PA, ou seja, não é
demonstrável¬γ.
Demonstração. Raciocinemoss por absurdo. Suponhamos que γ seja demonstrado.
bile inPA. Portanto (D1) temos então
⊢PA Te o r i a PA (g(γ))
Mas isso, junto com a equivalência caracterizadora γ, para a lógica nos dá que então
emPAsarebbe demonstrável¬γ, contra a não-contraditoriedade dePA.
Do que acabamos de demonstrar, segue-se, pela efetividade da relação
da demonstrabilidade, que para cada um vale
⊢PA ¬DimPA (n, g(γ))
Da ci'o, insieme con l'ipotesi della ω-noncontraddittorietà di PA, segue l'in-
demonstrabilidade de∃yDimPA (y, g(γ)), que não é outra coisa senão a negação de γ.
2
O segundo teorema da incompletude diz respeito à indizibilidade, dentro
PA, da enunciado que afirma a não contradição de PA. Existem vários
enunciados que exprimem a não contradição de PA; um deles é
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 740
exemplo
⊢PA DimPA (x, g(α))→ ¬DimPA (z, g(¬α)).
che chiamiamo WF. Intuitivamente, l'indimostrabilità di WF segue facil-
mente considerando que a primeira metade do teorema 3.2 estabelece que sePA
e não contraditória, então γ não é demonstrável, ou seja, não existe alguma coisa que
sia il codice di una dimostrazione inPAdiγ, cioè, sempre argomentando
Intuitivamente, γ. Ou seja, estabelece que WF ⇒ γ. Se portanto fosse demonstrável
o enunciado que afirma a não contradição de P seria demonstrável,
permodus ponens, ancheγ, contro o primeiro teorema da incompletude.
Formalizar o raciocínio intuitivo anterior requer uma atenção especial
cura e requer mais precisamente que se usem todas as três condições de deriva
bilit`a, o que significa que para demonstrar o segundo teorema da incompletude
deve ser garantido que a definição da noção de demonstrabilidade seja tal
da reproduzir e tornar formalmente demonstráveis as principais propriedades do
conceito metateórico do qual ele pretendia constituir a contraparte forma-
lizzata. Não é esta a sede para reproduzir tal demonstração27, enquanto e
facilmente obtido um outro importante resultado estritamente ligado
com o godeliano: o teorema de Tarski sobre a indefinibilidade da verdade.
Refletimos ainda sobre o teorema 3.2: ele sinaliza um desfasamento entre o conceito
de demonstrabilidade e de verdade. O enunciado γ, de fato, é tal que nem ele nem
sua negação é demonstrável, mas, pelo terceiro excluído, um dos dois deve
ser verdade. Como se explica esta situação? Uma resposta veio justamente
do resultado tarskiano. Começaremos com a definição do que significa que
27 Pode-se ver em Bellotti et al. [2001].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 741
uma teoria possui uma definição de verdade: dizemos, com Tarski, que uma
fórmula υ(x) com uma variável livre e uma definição de verdade para PAse
per ogni αdiPAvale
⊢PA υ(g(α))↔α. (3)
Podemos neste ponto demonstrar o seguinte
Teorema 3.3 SePA é não contraditória, então não possui uma definição
exposição de verdade relativa a enunciados aritméticos.
Demonstração. Raciocinemoss por absurdo assumindo que PA possui uma
definição de verdade υ(x). Consideremos então a fórmula ¬υ(st(x, x)). Co-
me todas as fórmulas terá um código, suponhamos que vocês considerem
a afirmação¬υ(st(t, t)). Pois esta é a afirmação que se obtém da enun-
ciato de g¨odelianotsostituindo sua única variável livre com ela mesma
gödeliano, pelas propriedades da funcionestvale obviamente
⊢PA g(¬υ(st(t, t))) =st(t, t). (4)
Por outro lado, para (3) vale
⊢PA υ(g(¬υ(st(t, t))))↔ ¬υ(st(t, t)). (5)
Ma da (5) grazie a (4) otteniamo infine
⊢PA υ(st(t, t))↔ ¬υ(st(t, t)). (6)
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 742
A contradição obtida nos faz rejeitar a hipótese por absurdo e isso conclui.
a demonstração.2
O teorema de Tarski sobre a indefinibilidade da verdade explica a desfasagem
prima rilevata fra questa nozione e quella della dimostrabilità facendoci sa-
pere que enquanto este último é semi-exprimível em PA, a noção de verdade
não é, ao contrário, nem mesmo definível em PA. Essa situação é geralmente
comentando que enquanto o teorema de Gödel estabelece uma limitação-
nem todas as capacidades dedutivas de uma teoria formal são capazes de expressar pelo menos
a aritmética, a de Tarski, no limita as suas capacidades expressivas.
Às vezes, o primeiro teorema da incompletude é mal interpretado e considera-
a um resultado de indecidibilidade; mas trata-se justamente de um mal-entendido:
O enunciado é efetivamente indecidível, mas esse fato não é suficiente.
para declarar a teoria PA indecidível. Para isso é, de fato, necessário
che tenha uma resposta negativa a pergunta que é própria do problema da
decisão: existe um procedimento eficaz que para cada enunciado α permite
responder em um tempo finito, e com uma série de passos cada um dos quais deter-
mina il successivo, se l’enunciato sia o no un teorema? Si noti che il problema
della decisão é uma solução óbvia: sim, o procedimento existe e o seu
Esito não! Por outro lado, a indecidibilidade de Passar será demonstrada cinco anos
`
mais tarde de A. Church.28E também é apropriado observar que, mesmo que nós ab-
Fizemos referência à teoria PA, o primeiro teorema da incompletude é
demonstrável para toda extensão de PA que seja não contraditória e efetiva
(isso significa que, nessa extensão, o conceito ainda é sempre decidível
28 Em Church [1936a] e Church [1936b]. Para detalhes, veja Bellotti et al. [2001].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 743
à demonstração). Isso é às vezes expresso dizendo que PA não
solo incompleta sintaticamente, ma anche incompletabile. D’altra parte, il
o resultado godeliano é demonstrável também para uma teoria, o chamado sistema
de Robinson, que é uma subteoria da PA, uma vez que não contém o
esquema de axiomas de indução completa.
Por ser um resultado de natureza sintática, o primeiro teorema de
a incompletude tem uma importante consequência de natureza semântica. Com si-
derivamos a aritmética de segunda ordem, digamos PA2. Obviamente o primeiro
o teorema da incompletude é demonstrável também neste ambiente: existirá
então aqui também um enunciado indecidível, digamos γ∗. Agora consideremos
as duas teorias que se obtêm de PA2 adicionando uma vez γ∗ e a outra
¬γ∗. Estas duas teorias não são contraditórias, se o`ePA2. Portanto, se
se ambas tivessem um modelo teríamos uma contradição com o fato de que,
lo demonstrou R. Dedekind no final do século XIX29,PA2`é categórica:
os dois modelos, de fato, não poderiam ser certamente isomórficos, uma vez que um
rificherebbeγ∗e l’altro¬γ∗. A saída dessa contradição está
no reconhecimento do fato de que a lógica de segunda ordem não é uma exigência
ticamente completa. E `de fato, o teorema da completude semântica que ao
O primo ordem conecta a não contradição com a existência de um modelo.
A incompletude sintática da aritmética de primeiro ordem produz a incom-
completude semântica da lógica de segunda ordem, pelo que se pode dizer que
G¨odel`e aquele que em 1929 provou que a lógica de primeira ordem`e
semantically complete e nel 1930 che quella del secondo ordine (e di ogni
outro pedido superior) é semanticamente incompleto.
29 Para uma demonstração, pode-se ver Bellotti et al. [2001].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 744
Esta última observação é relevante também por outro fato. Como
temos várias vezes sinalizado, o teorema de Gödel é justamente chamado de um
teorema da incompletude, no sentido de que se demonstra que existe uma enunciação-
não é demonstrável nem refutável em PA, e portanto esta teoria é incompleta
sintaticamente. Naturalmente, deve ser lembrado, na medida em que a teoria da I ordem
não, perPAvale o teorema de completude semântica, demonstrado por G¨odel
o ano anterior, o que significa que tal teoria, incompleta em relação à verdade
A aritmética é completa em relação à verdade lógica. Este fato é óbvio, mas
importante porque nos diz que o resultado godeliano é relevante não apenas por
o programa de Hilbert, mas também para o logicista de Frege e Russell:
a significativa distinção estabelecida entre verdade lógica e verdade aritmética, em-
Fatos, representa certo um obstáculo não banal para a tese de que não existem
não são noções nem princípios inferenciais especificamente matemáticos, mas que sejam
tudo formulável utilizando apenas noções e procedimentos lógicos. A obviedade de
este levantamento resulta do fato de que se relaciona à I ordem, onde os axiomas
aritméticos são adicionados àqueles lógicos, enquanto Frege se movia a nível
do II ordem. Mas a este nível torna-se pertinente a observação sobre
incompletude semântica da lógica de segunda ordem: a falta de uma pro-
a cedura de demonstração completa para a lógica de 2º ordem coloca, de fato, em
questione, independentemente do paradoxo de Russell, a possibilidade da
redução logicista.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 745
4 De Novo Hilbert
Como se lembrará, dentro da proposta fundacional hilbertiana, no pa-
ragrafo 2.3 tínhamos distinguido um “programa da não contradição” de
um mais geral “programa de conservação”. Se o primeiro pode ser
identificado com a tarefa de demonstrar a fórmula WF, o segundo é formu-
labile dizendo que se trata de demonstrar em R que se uma enunciação real α é
demonstrável em I, ou, podemos dizer, em PA, então já é demonstrável também
inR; em símbolos
⊢RTe o r PA (α)→α.
Cos`ıformulato, o programa hilbertiano se revela um caso particular –em
quanto ristretto a enunciati reais– do mais geral problema de demonstrar
a correção de uma teoria: a teoria demonstra apenas enunciados verdadeiros; ou seja, do
problema de demonstrar que vale o chamado Princípio de Reflexão
⊢PA Te o r i a PA (g(α))→α. (PRFPA )
Como foi dito no parágrafo 2.3, dada a espécie particular de evidência pri-
vilegiata de Hilbert, aquela finitista, os dois problemas resultam, embora com-
atualmente distintos, extensionalmente equivalentes; em geral vale que a
a não contradição é um caso particular do princípio da reflexão, aquele
in cuiPRFPAe ristretto a formule Π10. Estas precisões eram oportunas-
nem porque tradicionalmente se acreditava que apenas o segundo teorema de G¨odel
preocupa-se com o programa de Hilbert, enquanto ambos são, na verdade, relevantes.
O primeiro teorema da incompletude atinge de fato o programa da con-
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 746
observação: isso depende do fato de que a declaração indecidível γ de G¨odel
satisfaz, por definição:
⊢PA ¬TeorPA (g(γ))→γ,
se poi valessePRFPAteria também
⊢PA Te o r e m a PA (g(γ))→γ,
e, portanto, por lógica,
⊢PA γ,
contra, precisamente, o primeiro teorema da incompletude. Contra o program-
mas da não contradição se dirige explicitamente o segundo
teorema g¨odeliano. É também oportuno observar que o segundo teorema-
ma de incompletude, que diz respeito ao programa da não contradição
(um caso particular, vimos, da conservação), envolve
propriedades mais refinadas, como atestado pelo fato de que sua demonstração
exige todas as três condições de derivabilidade, das noções intuitivas que
não aquelas usadas na demonstração do primeiro teorema da incompletude, o
qual se refere ao mais geral programa de conservação e requer
somente a primeira condição de derivabilidade.
5 Depois de ¨ Godel
Entre os muitos temas que foram objeto de investigação de maneira mais ou menos
estritamente ligada aos resultados godelianos, limitamo-nos a mencionar brevemente
E. Moriconi - Os teoremas de Gödel - Versão 1.0 747
brevemente à procura de enunciados indecidíveis que, ao contrário de γeWF,
não sejam de natureza metamatemática, mas possuam um conteúdo direto
significado matemático30.
O primeiro exemplo de tal enunciado apareceu em 1936 pela obra de G.
Gentzen31trata-se do princípio de indução transfinita até o primeiro ǫ nu-
mero, mediante o qual ele forneceu uma demonstração de não-contradição
para a aritmética. Trata-se de um princípio que pode ser expresso, mas não
demonstrado na aritmética. Em Gentzen [1943] Gentzen demonstrou diretamente
você32que todos os princípios de indução estritamente mais fracos do que a ǫ -indução
são equivalentes ao princípio de indução usual, enquanto a indução ǫ não
é demonstrável na aritmética. Aqui está, portanto, um primeiro exemplo de um enunciado
ciato independente dos habituais axiomas aritméticos e não obtido através da
codificação da metateoria.
Vários outros exemplos de enunciados aritméticos não produzidos através da aritmética
A tizzazione foram encontradas a partir dos anos 70 do século recém-concluído.
Desses mencionamos apenas brevemente o primeiro, construído por J. Paris e L.
Harrington é publicado em Paris e Harrington [1977]. A procedura adotada
tata consistiu em produzir um enunciado φ e dois modelos de PAtali que
em um deles a afirmação é verdadeira e no outro falsa. Já formular isso
enunciadoϕapresenta algumas complicações. Comecemos dizendo que seX`e
um conjunto de naturais indicamos com [X]na família de todos
30 Istoé, siaγsiaWF são enunciados numéricos, obviamente, mas enquanto tais não têm-
nenhum significado particular. Isso é obtido se forem lidos, através do código
da aritmetização, como enunciados metateóricos.
31 Em Gentzen [1936].
32 Indiretamente, isso já seguia do fato de que aquele princípio permitia demonstrar a
não contradição da aritmética. Para detalhes, pode-se ver Mariani e Moriconi
[1984]
E. Moriconi - Os teoremas de Gödel - Versão 1.0 748
os subconjuntos de X de cardinalidade n. Uma função C: [X]n−→c, onde está um
naturalmente identificado com o conjunto de seus predecessores {0, . . . , c−1}, é chamado de
uma função de coloração. Com essa terminologia podemos enunciar a
seguinte teorema demonstrado em 1929 por F. P. Ramsey:
Teorema 5.1 Sianonecnumeri interi positivi: per ogni funzione di colo-
ritura
C: [N]n−→c
existe um subconjunto infinito Y de N que é homogêneo para C, no sentido de que
a função Cristretta a[Y]ne constante.
O significado do teorema 5.1 não é de forma alguma imediato e podemos ren-
torná-lo um pouco mais intuitivo observando que, para o caso em questão igual a 1,
diz que se um conjunto infinito é dividido em um número finito de partes, então
pelo menos uma parte é infinita. O teorema 5.1 tem uma versão finita que agora
enunciamos:
Teorema 5.2 Sianos, necnumeri naturais cons≥n+ 1. Então existe
um número R(s, n, c) tal que para todo r ≥ R(s, n, c), para todo conjunto X de
cardinalidade para cada função de coloração
C: [X]n−→c
existe um conjunto homogêneo para que tenha cardinalidade pelo menos.
O teorema 5.2 pode ser demonstrado em PA. Para formular a enunciação
indecidível ϕ precisamos de outro conceito ainda, aquele de um
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 749
conjunto de naturais que é relativamente grande: este é um conjunto cuja
cardinalidade maior ou igual do menor membro do conjunto. Ad
exemplo, o conjunto {3,6,89,123} é relativamente grande, enquanto o conjunto
{6,89,123}não. O enunciado indecidível ϕ formulado por Paris e Harrington
é uma modificação de 5.2, obtida adicionando o pedido de que o conjunto
omogêneo Ysia relativamente grande. Por si só, não é certamente imediatamente
claro o significado desta adição. De qualquer forma, Paris e Harrington fizeram
ver que é verdadeira no modelo padrão dos naturais, mas que existe também um
modelo dos naturais em que é falso: portanto, temos que ϕ é independente dos
assiomi diPA.
A afirmação ϕ, ao contrário da godeliana, é uma afirmação clara
ramente numérico, anzi combinatório, e diversa`e também a procedimento dimo-
estrativa: não mais sintática, mas semântica, como na tradição geométrica
(a demonstração da independência do axioma das paralelas, por exemplo)
e insiemística (a demonstração da independência do axioma da escolha e do-
a hipótese do contínuo). Uma outra diferença reside na complexidade dos
dois enunciados: aquele godeliano é do tipo ∀xα(x), onde α(x) é decidível,
cio`e recursivo primitivo;ϕ`e invece del tipo∀x∃yα(x, y), perα(x, y) decidibi-
Dessa mesma complexidade, ou de complexidade maior, são também outros
enunciados indecidíveis subsequentemente identificados (e sobre os quais não me detenho
meremo33), pelo que se pode dizer que o construído por Gödel resulta o mais
simples enunciado indecidível até agora construído.
33 Para informações, pode-se ver Kaye [1991].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 750
6 Os teoremas de¨ Godel e a discussão sobre o mecanicismo
Concluímos com alguns breves comentários sobre a discussão sobre as potencialidades
da mente humana, discussão profundamente renovada pela introdução de
quais máquinas simbólicas que são as máquinas de Turing (daqui em diante MT)
e que envolveu, e ainda envolve, os teoremas godelianos de incompletude.
As perguntas em torno das quais gira a discussão são, em primeiro lugar, se se
posso dizer que a mente humana funciona como um sistema formalizado e, em
segundo lugar, se o programa de uma MT constitui um modelo adequado
da mente humana.
À tese de que uma MT pode fazer qualquer coisa que a mente humana pode
fazer, o filósofo Lucas rebateu que as habilidades da mente humana são sem
pre superiores a aquelas de um carro, substancialmente com base no fato
que enquanto a afirmação γ resulta indecidível para aquela máquina particular
che'ePA, a mente humana pode, em vez disso, argumentar - procedendo de acordo com
a linha intuitiva que seguimos em 3.3 - a favor da veracidade da declaração
γ. Isso implicaria que nenhum programa de computador é capaz de
representar adequadamente a mente humana: qualquer programa para
gerar as verdades aritméticas pode, de fato, ser representado por um sistema
formais do tipo dePA, sistema formal que será não contraditório se tal
era o programa. A este ponto, qualquer pessoa capaz de compreender-
dada a natureza do sistema formal, pode reconhecer a verdade da proposição
indecidível, enquanto esse fato nunca estará entre os fatos de saída do sistema-
ma formal34. Contra a argumentação de Lucas, foram levantadas várias
34 A argumentaçãode Lucas é na verdade mais complicada, mas em última análise o ponto é que
esposto. Para detalhes, veja Lucas [1961], Anderson [1964] e Penrose [1994].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 751
objeções, a mais convincente das quais parece ser aquela centrada no fato de que
essa usa a assunção da não contradição de PA, assunção que, no entanto,
pelo segundo teorema da incompletude, está destinada a permanecer assim. Isso
o que se deveria dizer, então, é que a verdade de é demonstrável por uma teoria
que seja capaz de tratar a semântica através da noção de verdade (que
porém, como sabemos pelo teorema 3.3, o teorema de Tarski, não é definível
inPA). Ou seja, uma teoria em que seja demonstrável a verdade de que é uma teoria
aqui se acrescentou uma declaração de infinito: que seja um modelo de PA,
através da definição de verdade de segunda ordem, seja, portanto, a afirmação
sintática da não contradição. E não é imediato ver como esta
declaração, em qualquer uma das duas formas acima mencionadas, esteja disponível para
uma mente finita.
Renunciamos sem dúvida a seguir o intricado debate que se desenvolveu
a partir desses temas, e que já é parte importante da disciplina
chamada Inteligência Artificial35. Vale a pena lembrar que G¨odel
o mesmo, nos anos 50, interveio sobre esses temas tentando argumentar a
a favor da tese segundo a qual as leis do pensamento não são mecânicas, mas
segundo uma linha diferente da que acaba de ser mencionada. No famoso Gibbs
Na palestra, realizada em 26 de dezembro de 1951, ele enfatiza que a incompletude
da matemática resulta particularmente evidente do segundo teorema de...
completude, aquilo que diz respeito à indeterminabilidade da enunciação que expressa
a não contradição de PA. O seu raciocínio é o seguinte:
O segundo teorema [. . .] torna impossível que alguém possa
35 Além
dos textos já citados, podem ser vistos Benacerraf [1967], Chihara [1972], Dennett [1978],
Putnam [1960] e Smart [1961]
E. Moriconi - Os teoremas de Gödel - Versão 1.0 752
estabelecer um certo sistema bem definido de axiomas e regras e
faça consistentemente a seguinte afirmação sobre isso: Todos esses
axiomas e regras que percebo (com certeza matemática) serem
correto, e além disso acredito que eles contenham toda a matemá-
Se alguém faz tal afirmação, ele se contradiz.
Pois se ele perceber os axiomas em questão como corretos,
ele também percebe (com a mesma certeza) que eles são con-
stent. Portanto, ele possui uma percepção matemática que não pode ser derivada de
seus axiomas36.
Para esclarecer melhor seu ponto, logo após ele distingue a má-
temática objetiva (o sistema de todas as proposições matemáticas)
a subjetiva (o sistema de todas as proposições matemáticas demonstra
bili), e precisa che é só a primeira que não pode ser capturada por um bem-
sistema definido de axiomas corretos: a afirmação que estabelece que o sistema é
o não contraditório é de fato verdadeiro, mas não demonstrável (pelo segundo teore-
ma de incompletude, exatamente). Essa distinção, no entanto, move para um
certo senso o problema: a incompletude da matemática objetiva segue
do primeiro teorema da incompletude (para o terceiro excluído, ou a enunciação inde-
cidibile ou a sua negação deve ser verdadeira) e, obviamente, pelo teorema de
Tarski. O que está aqui propriamente em discussão é, em vez disso, o sistema da
matemática subjetiva, a respeito da qual Gödel observa de fato que não
e está excluída a possibilidade de que exista uma regra finita que produza todos os axiomas
mi della matematica soggettiva, anche se resta comunque esclusa, e questa
volta efetivamente pelo segundo teorema da incompletude, a possibilidade de
36 G¨odel [1995] pp. 308-309.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 753
conhecer, com certeza matemática, que todas as proposições produzidas pela
regra sonocorretas. Ou seja, enquanto o raciocínio antimeccanicista (de Lucas
e outros) usa a afirmação indecidível de Gödel como prova do fato de que nenhum
algoritmo, nenhuma MT, é adequado para representar as capacidades aritméticas
umane, que se utiliza o fato de que a construção da enunciação indecidível e
A apuração da verdade pressupõe a possibilidade de "observar" o sistema
formalidade de fuorinella sua inteireza; esta é de fato a condição para que
é possível proceder à sua aritmização, por sua vez condição da
diagonalização que produz a declaração indecidível. A conclusão que
vem de uma forma avançada e não está excluída a possibilidade de que exista um
sistema formal capaz de codificar todas as capacidades aritméticas humanas,
mas nós não seríamos capazes de contemplá-lo do exterior para poder prosseguir
para toda a sua aritmética. Em outras palavras, não se pode excluir que exista
um algoritmo capaz de codificar todo o conhecimento matemático humano,
mas mesmo que existisse ainda estaria fora do nosso alcance. Em outras
parole ancora, a extensão do conceito "conhecimento (aritmético) efetivo"
não pode por sua vez ser objeto de um conhecimento efetivo.
O que é possível é que se perceba a verdade disso.
scunaproposizione produzida, uma após a outra, para cada número finito delas.
Para dar uma ideia de uma situação do tipo a que se refere aqui
G¨odel se pense no comportamento diverso do quantificador universal, a se-
conda que esteja em posição teórica ou metateórica, no caso do primeiro teorema
da incompletude. De um lado, na verdade, pela efetividade da relação de
demonstrabilidade em PA, e pelo primeiro teorema da incompletude, temos que
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 754
per ogninvale:⊢PA¬DimPA (n, g(γ))
Non vale invece, poiché sarebbe un’affermazione equivalente alla dimostrabi-
lit`a dell’enunciato indecidibileγ:
⊢PA ∀n¬DimPA (n, g(γ)).
Aqui estamos falando de possibilidades, mas Gödel prossegue e observa que se real-
Se existisse uma tal regra, então isso significaria que
a mente humana (no reino da matemática pura) é equivalente a
emprestado a uma máquina finita que, no entanto, é incapaz de entender
completamente seu próprio funcionamento37
sublinhando que aqui não está em questão a compreensão do funcionamento
fisicodel meccanismo do pensamento, mas da tese segundo a qual este mec-
o mecanismo produz solo e sempre resultados corretos. Evidentemente, aqui G¨odel
assumir como óbvio que se uma máquina entende completamente a sua própria
funcionamento, então deve ser capaz de reconhecer a correção
Em todo caso, a incapacidade aqui em questão leva Gödel a sustentar
que a matemática objetiva estaria então incompleta não apenas no sentido de
não estar contida em nenhum sistema axiomático bem determinado, mas no
sinto que existiriam problemas quanto aos números naturais que não poderiam
ser decidido por nenhuma demonstração matemática concebível pela mente
humana.
37 G¨odel [1995] pagg. 309-310.
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 755
A existência de enunciados indecidíveis desse tipo vem, portanto, dele
interprete como uma prova da seguinte alternativa:
Ou a matemática é incompletável nesse sentido, que é evidente
os axiomas nunca podem ser compreendidos em uma regra finita, ou seja, o
mente humana (mesmo dentro do reino da matemática pura) infini-
tely supera os poderes de qualquer máquina finita, ou então existem
problemas diofantinos absolutamente insolúveis do tipo especificado.38
Isso é,
Olá, a mente humana não é mecânica (no sentido que supera em-
finita mente a capacidade de qualquer máquina finita), ou eu
números naturais não são uma construção nossa (no sentido que
não existem conhecimentos sobre nossas próprias construções que nos
são por princípio preclusas)39 .
E é preciso acrescentar que não está excluída para ele a possibilidade de que ambos os
membros da disjunção são verdadeiros, caso em que sua tese parece sustentar
direciona para a afirmação da não mecanicidade da mente humana e da
objetividade, no sentido platônico, da verdade matemática.
A enunciação deste dilema (ou melhor: trilema) parece a
Gödel um fato estabelecido matematicamente, mas de grande interesse filosófico
fico. Esta tese, no entanto, pareceu a muitos problemática e difícil
avaliação. Aqui nos limitamos a observar, em conclusão, que embora pré-
escindindo da ambiguidade inerente em identificar a (uma) mente humana com
38 G¨odel [1995] p. 310.
39 Também é pertinente para estas discussões o volume Webb [1980].
E. Moriconi - Os teoremas de G¨odel - Versão 1.0 756
uma máquina finalizada, com uma MT, ou de qualquer forma sustentando que possa ser
rappresentada (mas como?) por uma MT, permanece o fato de que a suposição sobre
a que base se move G¨odel`e longe de ser óbvia. Assumir que reconhecer
a correção do seu funcionamento faz parte do conhecimento do
mesmo funcionamento, assim como a suposição de que podemos completamente
descrever e decidir as propriedades das nossas construções, quase um chamado
do vichianoverum ipsum factum, são de fato dificilmente avaliáveis, também
para o nível de generalidade em que se move G¨odel, e parecem, em última análise
o fruto de uma sobreposição entre os conceitos, ou melhor: entre dois particulares
interpretações dos conceitos de "enumerável recursivamente" e de "recursivo".
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