José Enes em livro de Miguel Real.
Um filósofo fala de outro filósofo
Nuno A. Vieira
Vieira, N. (2010), José Enes em livro de Miguel Real. Um Filósofo fala de
outro filósofo. Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 19: 463-474.
Sumário: O presente artigo pretende seguir os passos de Miguel Real no intuito de “dar a
conhecer aos leitores a qualidade e originalidade da obra de José Enes, um dos maiores
pensadores açorianos e um dos mais importantes filósofos portugueses do século XX.”
A acção de José Enes, fundador e Reitor da Universidade dos Açores, primeiro secretário das
Semanas de Estudo dos Açores e autor do livro que aponta para a revelação de uma expe-
riência noético-ontológica – À Porta do Ser – é analisada nas três grandes paixões da sua vida:
a Poesia, os Açores e a Filosofia.
Vieira, N. (2010), José Enes in a book by Miguel Real. A Philosopher speaks
of another philosopher. Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 19: 463-474.
Summary: The present article intends to follow the steps of Miguel Real with the purpose “of
informing the readers of the quality and originality of José Enes’s work, one of the greatest
Azorean thinkers and one of the most important Portuguese philosophers of the 20th century”.
The activity of José Enes, founder of the University of the Azores, First Secretary of the week-
long Conferences for the Study of the Azores, and the author of the book that “directs one’s
attention for the revelation of a noetic-ontological experience – À Porta do Ser – is analyzed
through the three great passions of his life: Poetry, the Azores, and Philosophy.
Nuno A. Vieira – Stonehill College e Massasoit College.
Palavras-chave: Ser, essência, existência, humanismo, coordenadas noéticas e metafísicas,
beleza ontológica, progresso científico.
Key-words: Being, essence, existence, humanism, noetic and metaphysical co-ordinates, onto-
logical beauty, scientific progress.
Introdução
A rectidão e talento intelectual de um homem que, na obscuridade pes-
Miguel Real acharam ser de justiça soal da sua humildade, passou uma
dar a conhecer ao público a obra de vida inteira investigando e agindo, em
464 Boletim do Núcleo Cultural da Horta
termos simultaneamente concretos e No livro José Enes-Poesia, Açores
universais, para o progresso e bem- e Filosofia, os filósofos José Enes e
‑estar comum da sociedade e da huma- Miguel Real emergem como a perso-
nidade. Em Junho do passado ano de nificação do conselho de Séneca a
2009, Miguel Real publicou o livro Lucílio: Nada merece admiração
cujo título capta as três paixões de senão o espírito, cujas marcas o impe-
José Enes – José Enes-Poesia, Açores dem de se impressionar com qualquer
e Filosofia. Jorge Trigo, director da outra coisa. Ambos ouviram Epicuro:
colecção de livros Fonte da Palavra, para se conquistar verdadeira liber-
na qual se integra esta nova publi- dade há que ser escravo da filosofia.
cação, diz que Miguel Real “faz neste (Tradução do inglês feita pelo autor
livro a justiça de dar a conhecer aos deste artigo).
leitores a qualidade e originalidade
da obra de José Enes, um dos maiores José Enes nasceu nas Lajes do Pico no
pensadores açorianos e um dos mais ano de 1924. Estudou no Seminário
importantes filósofos portugueses do de Angra e formou-se em escolástica
século XX”.1 tomista na Universidade Gregoriana
Miguel Real, filósofo, professor e de Roma (1945-1950 e 1964-1966).
escritor, é apresentado, em palavra Dedicou a sua vida ao ensino, ini-
de Prefácio de José Eduardo Franco, ciando-o no Seminário de Angra.
como “excelente romancista e arguto Mais tarde, foi professor fundador e
analista da nossa cultura e mentali- Reitor do Instituto Universitário dos
dade... sem dúvida, é-lhe merecida Açores e subsequentemente da Uni-
a atribuição do cognome de valori- versidade dos Açores. Em Lisboa, foi
zador ou reabilitador da memória dos professor na Universidade Católica
grandes espíritos, das grandes obras Portuguesa e na Universidade Aberta
e das grandes correntes...”.2 Neste (1992-1994), de onde se jubilou como
livro, Miguel Real, de uma maneira vice-reitor. Exerceu funções públicas
metodológica e pedagógica conduz de relevo e colaborou com várias uni-
o leitor no itinerário biográfico, lite- versidades públicas portuguesas e es-
rário e filosófico do Professor Doutor trangeiras. Autor de inúmeros artigos
José Enes Pereira Cardoso. para jornais e revistas, publicou sete
livros: A Interpretação da Paisagem
1
de Roberto Mesquita (1955), Água do
Real, Miguel, José Enes. Poesia, Açores
e Filosofa, Fonte da Palavra Ltda., 2009,
Céu e do Mar (1960), A Autonomia
p. 10. da Arte (1964?-1965?), À Porta do
2
Ibidem, p..11. Ser. Ensaio sobre a Justificação Noé-
Nuno A. Vieira 465
tica do Juízo de Percepção Externa Miguel Real tenta explicar o abandono
em S. Tomás de Aquino (1969), Estu- da prática da poesia, por parte de José
dos e Ensaios (1982), Linguagem e Enes, pelo “rigor analítico absor-
Ser (1983) e Noeticidade e Ontologia vente exigidos pela investigação filo-
(1999). sófica”.4 Continua: “José Enes não
Segundo Miguel Real, as três grandes permaneceu poeta, continuou porém
paixões de José Enes são a Poesia, os poeta, não filosofando poeticamente,
Açores e a Filosofia. Diz o mesmo mas guardando na sua investigação
autor que a Poesia, no campo da prá- filosófica o sentido mais originário
tica versatória se esgotou em 1960 da poesia (o trabalho sobre a lingua-
com a publicação de Água do Céu e gem) que, em parte, lhe comandara
do Mar, e, no campo da crítica lite- a vida entre 1953-1964”.5 É curioso
rária e da teoria da arte, em 1964/65, que esta hipótese, de algum modo,
parece apresentar um certo paralelis-
com a publicação de A Autonomia da
mo com o argumento, fornecido por
Arte. Nessa altura, José Enes parte
Aristóteles a favor da necessidade
para Roma para preparar a sua tese
de filosofar, citado no compêndio de
de doutoramento (À Porta do Ser)
Carolus Boyer, S. I., Cursus Philoso-
que viria a defender no ano de 1968 phiae, usado no Seminário de Angra
com a distinção de summa cum laude no tempo de José Enes. Aristóteles
e medalha de ouro. Miguel Real escreveu: “Si philosophandum est,
escreve: “À Porta do Ser estatui-se phiolophandum est; et si non est
como uma das teses de doutoramento phiosophandum, philosophandum est
mais importantes do século XX no (nempe ad ostendum non esse philo-
campo da filosofia, tanto revolucio- sophandum): ergo necessario philo-
nando a linguagem tomista quanto sophandum est”.6 Em tradução pes-
mantendo-se-lhe fiel, culminando-se soal: Se se deve filosofar, deve-se
assim, em 1969, com a sua publica- filosofar; e se não se deve filosofar,
ção, a deriva teórica desta corrente deve-se filosofar (certamente para
filosófica em Portugal ao longo das mostrar que não se deve filosofar):
décadas de 1950 e 60”.3 portanto deve-se filosofar.
3 6
Ibidem, p. 14. Boyer, Carolo, S.I., Cursus Philosophiae,
4
Ibidem, p. 14. Desclée De Brouwer, 1954, p. 47.
5
Ibidem, p. 15.
466 Boletim do Núcleo Cultural da Horta
Poesia e Critica Literária
A poesia e a crítica literária de José Miguel Real verifica que José Enes,
Enes, durante o período de onze ao analisar o segundo livro de poe-
anos (1953-1964), não constituíram mas de Emanuel Félix, revela três
um compartimento estanque na sua características que serão uma cons-
vida. Pelo contrário, foram veículo de tante na sua crítica literária: “1. – pro-
entrada no desenvolvimento da sua funda sensibilidade literária de quem
segunda paixão (açorianidade) através não se encontra fora da poesia, mas
de leituras, associações e convívio desta comunga penetrantemente;
com intelectuais. Esta preocupação 2. – uma informadíssima terminologia
pela açorianidade está presente no seu conceptual, tanto no campo da histó-
primeiro livro da colecção “Cadernos ria recente da literatura quanto na
de Pensamento”. De importância, ain- prática concreta da crítica literária;
da, foi a sua identificação com a Gera- 3. – a utilização de uma terminolo-
ção da Gávea que no dizer de Miguel gia não raro provinda mais da filo-
Real “se estatuiu como uma das mais sofia do que dos estudos literários”.7
emblemáticas designações para a O ensaísta continua: “como se cons-
compreensão da história do movi- tata, José Enes, enquanto crítico lite-
mento cultural dos Açores do século rário, não se limita a analisar a poe-
XX “com colaboradores como Ema- sia: vive-a, partilha emotivamente o
nuel Félix, Rogério Silva, Almeida livro com o autor, elevando-a, depois
Firmino, Silva Grelo, Artur Goulart e não a mera análise crítica, mas a ver-
José Enes. O convívio com os poetas dadeira análise filosófica, integrando
Eduíno de Jesus, Silva Grelo e Coe- os poemas em correntes culturais que
lho de Sousa, assim como a análise da ultrapassam a literatura...”.8
poesia de Cortes-Rodrigues, Roberto Desde o princípio, José Enes “procura
Mesquita, Ruy Galvão de Carvalho um novo modo de fazer crítica literá-
e Vitorino Nemésio veicularam José ria. Está numa fase de tanteamento”.
Enes a uma interpretação cultural de “José Enes tenteia e tacteia o seu
açorianidade através do contacto e próprio caminho, utilizando palavras
da vivência da história da poesia dos e expressões próprias, de evidente
Açores”. cariz filosófico...”.9 Mais tarde, a cria-
7 8
Real, Miguel, José Enes. Poesia, Açores Ibidem, p. 18.
9
e Filosofia, Fonte da Palavra Ltda., 2009, Ibidem, p. 18.
p. 17.
Nuno A. Vieira 467
ção poética será, para José Enes, não “União”, José Enes culpa a “reforma
uma “atitude diletante, mas uma fun- pombalina de educação... com um
ção vital, uma tomada de consciência enciclopedismo fragmentário... e ine-
do seu (do poeta) papel no mundo”.10 xistência de uma mentalidade huma-
Numa análise do artigo “Duas Tenta- nista” como a causa do “pouco con-
ções dos Poetas”, publicado em 1957, tributo dado para a literatura uni-
Miguel Real escreve: “evidencia-se o versal pelos portugueses de há três
selo filosófico característico da sua séculos para cá”. José Enes “regista
crítica, e logo o autor estabelece a que tal facto se deve à inexistência de
sua singularidade face ao programa preocupação pelo homem concreto,
da crítica literária portuguesa de fins encontrado na vivência dos dramas
da década de cinquenta do passado fundamentais de que tece a sua exis-
século”.11 tência”.12 O conceito de “existência”
Em 1953, no suplemento cultural torna-se fundamental na sua crítica
católico “Pensamento”, do jornal a literária e pensamento filosófico.
Retorno ao Humanismo
Há, pois, que retornar ao “huma- açoriana” e regista-lhe característi-
nismo” e José Enes toma passos con- cas: “a presença do mar, saudade de
cretos na realização deste objectivo: longes nunca vistos e melancolia,
continuam os Cadernos de Pensa- acompanhados de um cuidado pelos
mento, cria-se o Instituto Açoriano mais humildes”.13
de Cultura e publicação da revista É em 1957 que José Enes explicita a
Atlântida e na primeira metade da sua orientação filosófica, enquanto
década de sessenta, por iniciativa e faz suas as palavras de Diamantino
orientação pessoal, estabelece um Martins: “No fundo, o A. (autor,
programa de acção através das Sema- Diamantino Martins) permanece um
nas de Estudo dos Açores que viriam tomista, que usando de razão especu-
a ter um impacto cultural incontes- lativa penetra, com intuição analó-
tável em várias estruturas da socie- gica do ser, nas úberes regiões da
dade açoriana. experiência existencial”. Continua:
Em 1954, José Enes afirma “a exis- “Assim, como já o havia feito a poe-
tência de uma genuína literatura sia, a filosofia agora prestará conte-
10 12
Ibidem, p. 19. Ibidem, p. 19.
11 13
Ibidem, p. 23. Ibidem, p. 21.
468 Boletim do Núcleo Cultural da Horta
údo existencial ao ser” Conclui: “Há sentido concreto, que faz dele o nome
que “libertar a palavra Ser do signi- mais próximo de Deus”.14
ficado abstracto, para lhe dar um
As Semanas de Estudo dos Açores
As primeiras três Semanas de Estudo Parafraseando Miguel Real acerca do
dos Açores foram secretariadas por pensamento de José Enes, no tocante
José Enes entre os anos de 1961 e aos Açores, entre várias ideias, saltam
1964 com o fim de “reunir especia- as seguintes: Nos Açores, há uma dis-
listas ilhéus e nacionais sobre temas crepância entre o progresso científico
fulcrais dos Açores”.15 – Nas pala- e o moral. Nos Açores, arquipélago
vras do seu secretário: “mais saber isolado, divorciado do todo mundial,
melhor viver”.16 No primeiro dia da não há mobilidade social de grupo ou
III Semana dos Açores, José Enes de classe. Enquanto na Europa, os sin-
intervém, na qualidade de secretário, dicatos procuram uma melhoria para
lendo um texto – Orientação e Méto- os seus representados, nos Açores
do – que define a visão apaixonante – onde a concorrência já está elimi-
da sua açorianidade: nada – as empresas procuram assegu-
rar a maior margem possível de lucro
“Viemos fazer um inventário às nossas
ideias, aos nossos sentimentos, aos nos- através de um sistema de influências.
sos valores, às nossas atitudes, às nossas O clero, por seu lado, mantém-se
acções. Para nos sentirmos responsáveis, desligado de práticas modernas de
queremos saber em que medida vivifi- apostolado e de novos processos de
camos ou matamos a sociedade a que
espiritualidade, limitando-se à admi-
pertencemos (...). Abri as vossas inteli-
gências e os vossos corações. Quebrai nistração dos sacramentos com um
as crenças do orgulho, dos preconceitos, pietismo onde se salientam as festas
dos ressentimentos. Deixai que uma dos santos com cortejo e manifesta-
lufada de ar puro entre pelas janelas dos ções folclóricas. Conclui José Enes
vossos espíritos e vá renovar a atmosfera
que, nos Açores, existe o “desconhe-
interior das vossas ideias e dos vossos
sentimentos. E, frescos e alegres, assomai cimento e uma certa descrença com
a essas janelas para ver os horizontes respeito à técnica e às suas inovações.
largos e claros de um novo dia”.17 Daqui a impressão de imobilidade e
14 16
Ibidem, p. 29. Ibidem, p. 34.
15 17
Ibidem, p. 34. Ibidem, pp. 34-35.
Nuno A. Vieira 469
de impotência consentida perante as expressa pelos representantes do Go-
perspectivas novas”.18 verno nacional do arquipélago”.21
Segundo Miguel Real, esta comuni- Onésimo Teotónio de Almeida ex-
cação feita por José Enes, na última plica nos seguintes termos, a reacção
Semana de Estudo dos Açores, provocada pela comunicação de José
“constitui uma pedrada no charco Enes: “nas condições particulares da
das habituais participações médias sociedade açoriana de meados da
das jornadas”.19 Ao falar da “Inte- década de 1960 e tendo em conta o
gração do açoriano no mundo actual”, regime político do Estado Novo, cer-
José Enes “disseca a situação econó- ceador da liberdade de expressão
mica, social e cultural do profundo e da livre manifestação de ideias, a
atraso em que o açoriano sobrevi- comunicação de José Enes foi mal
via”.20 Ainda segundo Miguel Real, recebida, levando ao afastamento
esta comunicação “encontra-se, nesta deste das Semanas de Estudo. José
data precisa, em total conflito com Enes sai dos Açores”.22
a mentalidade política e cultural
O Filósofo
Entre os anos de 1976-2000, José grega de Aristóteles, lida pela inspi-
Enes dedica-se à Filosofia, mas não ração de São Tomás de Aquino”.23
se separa das estruturas políticas e É assim que José Enes chega À Porta
sociais dos Açores. Pelo contrário, do Ser, uma obra de meio milhar de
o seu interesse pela açorianidade páginas, onde segundo Miguel Real
mantém-se, de sobremaneira, vivo, “se descobrem algumas das páginas
agora, na função de fundador e pri- filosóficas mais originais que se têm
meiro reitor da Universidade dos escrito sobre o acesso ao Ser, em lín-
Açores. Filosoficamente, José Enes, gua portuguesa... O seu intento é, nas
que confessa que desde dos dezasseis suas palavras (de José Enes) ‘acor-
anos se familiarizara com as grandes dar’, na língua latina e noutra dela
escolas e correntes tomistas, propõe- derivada (a língua portuguesa), o
‑se “regressar humanisticamente à processo de pensar por que, falando-
metafísica... na sua fonte primeva, a ‑as, o homem acede ao Ser’. A reela-
18 21
Ibidem, p. 37. Ibidem, p. 37.
19 22
Ibidem, p. 35. Ibidem, pp. 37-38.
20 23
Ibidem, p. 35. Ibidem, p. 42.
470 Boletim do Núcleo Cultural da Horta
boração linguística do português verbal, contudo encontra expressão
assim empreendida, no ‘recesso às na metáfora.
origens’, utiliza uma análise e recria- 2. O sentir. “ ‘O sentir’ estatui-se com
ção da fala, como método de acesso o pôr-se do ser em acção de ser-se...
(ao Ser)”.24 no sentido de elemento vivencial ou
de participante íntegro e essencial de
Diz Miguel Real que “À Porta do um processo de ser...isto é, o ser dos
Ser revela, de facto, uma filosofia seres”.29 José Enes discorre filosofi-
pessoalíssima, que não possui para- camente: “Os seres tangem, tocam o
lelo na historiografia filosófica por- pensar, agindo sobre os sentidos; o
tuguesa do século XX”.25 José Enes pensar tange, toca e contacta os seres
debruça-se sobre a tese tomista da agindo neles através do sentir. Sentir
“distinção real entre a essência e a é um com-agir, um autêntico coagir,
existência dos entes finitos e contin- onde a coacção recíproca põe frente
gentes” 26 e desenvolve os três pontos a frente o ser do homem e o ser dos
centrais do seu pensamento filosó- seres. No virar-se um para o outro,
fico: “1. o intuito; 2. o sentir como para trás e para diante, de tal reci-
conaturalidade do homem ao mundo; procidade, vigora o pró do mútuo
3. a metáfora como fundamento da proveito. Em virtude dele avançam,
linguagem e expressão humana do promovendo-se juntos na companhia
Ser”.27 Segue-se uma explicação su- de parceiros que partilham o mesmo
mária destes três pilares da Filosofia pão. Ambas as partes se viram para a
enesiana. mesma direcção constitutiva do todo
em movimento: são o universo”.30
1. O intuito. “... o primeiro acto da 3. A metáfora. Citando José Enes,
inteligência pelo só olhar penetra, Miguel Real explica-a do seguinte
pelo só ver capta, pelo só mirar per- modo: “É pelo intuito que se acede
cebe, pelo só fitar apreende, pelo só ao ser num movimento que se estatui
fixar compreende, pelo só guardar apenas “como um começo da fala”.31
retém, fazendo isto intui e intuindo Falar é fazer “marca” um “sinal”
protege [o Ser]”.28 Este intuito é sonoro, que representa as coisas, é
aconceitual e desprovido de alocução apropriar-se do seu ser através de
24
Ibidem, p. 43. 28
Ibidem, p. 48.
25
Ibidem, p. 44. 29
Ibidem, p. 50.
26
Ibidem, p. 44. 30
Ibidem, p. 50.
27
Ibidem, pp. 46-47. 31
Ibidem, p. 52.
Nuno A. Vieira 471
um sinal distintivo – eis a metáfora.” expressa. O objecto de tal interpreta-
“A metáfora oculta e revela o ser da ção é constituído por aquelas formas:
coisa” 32 esclarece Miguel Real. a linguagem, os ritos, as crenças, e
Outro ponto importante no pensa- as doutrinas”.34 Acaba por dizer:
mento de José Enes é a noeticidade “De tudo quanto viemos apurando, a
nos três actos noeticos: o intuito, o experiência religiosa do homem culto
juízo e a demonstração. caracteriza-se pela manifestação de
No processo hermenêutico de acesso Deus como pessoa destinante, que
ao ser, José Enes desenvolve uma lin- impõe ao homem a coabitação em
guagem que leva Miguel Real a afir- conformidade com uma ética”.35
mar: “Apenas por este labor, merece- Ao perguntar-se “O que é a ver-
ria José Enes que se publicasse um dade”, José Enes tece as seguintes
pequeno dicionário dos novos senti- considerações: “Viver para o homem
dos que descobriu no léxico da língua é sempre conviver. É por isso que a
portuguesa”.33 verdade, como via de acesso ao ser,
Ao abordar a relação entre fenome- reside na fala que estabelece entre os
nologia e religião, José Enes escreve: homens o intercâmbio do ser. Todo o
“O que pretende fazer (a fenomeno- abrir-se uns aos outros dos homens é
logia) é descobrir a experiência reli- fala, embora possa não ser palavra”.
giosa na sua constituição fundamental Continua: “... a verdade é o modo
através da interpretação das formas estruturante da convivência humana,
por que o comportamento humano se revelador do ser na fala”.36
A Utopia do Sebastianismo
Em 1984, vinte e um anos após à que se celebra a “instauração de
comunicação feita à III Semana de uma nova ordem social programati-
Estudo dos Açores (1963), José Enes camente melhor do que a que antes
é convidado a proferir, em Ponta Del- vigorava” permitindo que os Açores
gada, a conferência comemorativa tivessem conseguido “com êxito até
dos dez anos da revolução do 25 de então não alcançado” uma “forma
Abril de 1974. Certamente pensando de governo próprio” que ultrapassa
no seu comunicado de 1963, José o eufemismo de “ilhas adjacentes”.37
Enes inicia a conferência afirmando Em discurso feito em 1987, José
32 35
Ibidem, p. 63. Ibidem, p. 73.
33 36
Ibidem, p. 61. Ibidem, p. 74.
34 37
Ibidem, p. 67. Ibidem, p. 79.
472 Boletim do Núcleo Cultural da Horta
Enes faz uma interpretação pessoal 4. O discurso de “legitimação ideoló-
da história político-social de Portugal gica da soberania para encontrar no
à volta do mito de D. Sebastião. Diz sobrenatural o suplemento de energia
Miguel Real: “O autor considera que e meios”.
na fonte da soberania do Estado tem 5. A projecção da figura do rei “dese-
prevalecido um discurso messiânico jado” da devoção e da fidelidade à
que singulariza a nação e o diferen- vontade de Deus expressa no “pro-
cia dos restantes Estados”.38 Face às jecto histórico” messiânico de Por-
“sucessivas crises nacionais” Portu- tugal.
gal teria “de projectar em alguém, 6. O acatamento da decisão de
que simbolizasse as melhores virtua- D. Sebastião de partir para África.
lidades da grei, as ideias de pre- José Enes explica: “Com o desapa-
destinação e de redentorismo, que recimento deste em Alcácer Quibir, a
poderiam propiciar a política de vira- burguesia, a nobreza e o clero ‘ajei-
gem, indispensável à consagração do taram-se às conveniências da união
país”.39 É assim que surge uma socie- dinástica, entre Portugal e Espanha,
dade Sebastianista consubstanciada apenas o ‘povo permaneceu firme no
pelos seguintes factores: seu nacionalismo e foi a partir dele
que se elaborou o mito do regresso de
1. A espontaneidade psíquica do D. Sebastião para libertar Portugal
orgulho nacional ameaçado. da dominação espanhola’”.40
2. O sentimento de um “projecto de
engrandecimento da personalidade A figura mítica de D. Sebastião deu,
colectiva” face à possível perda de assim, origem à “projecção de uma
independência devido à sucessão transcendência redentora da Histo-
dinástica privilegiar o rei Felipe II ria, elevando o povo português a povo
de Espanha caso D. Sebastião não eleito de Deus” 41 ao mesmo tempo
tivesse nascido. que se crivava “a consciência interna
3. A angústia da “apercepcão avalia- de uma forte subalternidade face ao
dora do empreendimento [a perma- exterior”.42
nência da soberania portuguesa]” O anticlericalismo dos dirigentes po-
e da capacidade de recursos para o líticos da I Republica – que tinham
avaliar. em mente por fim à religião – pro-
38 41
Ibidem, p. 80. Ibidem, pp. 81-82.
39 42
Ibidem, p. 81. Ibidem, p. 82.
40
Ibidem, p. 81.
Nuno A. Vieira 473
vocou uma reacção clerical de natu- “decisão sebastianista”. O pensador
reza messiânica por parte da Igreja prossegue: É assim que uma vez mais
Católica em Portugal. É assim que as o povo português continua “divor-
“aparições de Fátima” lançam Por- ciado dos discursos ideológicos de
tugal numa “nova missão mundial” fundamentação do Estado”. José Enes
de natureza religiosa com a alusão tenta provar que no contexto histórico
à conversão da Rússia, o segredo de o sebastianismo foi o “refinamento do
Fátima e peregrinações nacionais e esquema accional de como em Portu-
internacionais de grande projecção. gal os agentes políticos determinam
Segundo José Enes, a “guerra do o acontecer do curso da história”.43
Ultramar” que “se desenvolveu du- “Para ultrapassar o sebastianismo,
rante treze anos como um longo Alcá- José Enes propõe para a completa
cer Quibir” e a “utopia marxista da modernização de Portugal, o racio-
vitória da classe operária” adoptada nalismo da eficiência técnica e cien-
pelo novo Estado a seguir ao 25 de tífica”.44
1974 são outros dois modelos de uma
Conclusão
Ao terminar a leitura do livro de mento dos Açores. Miguel Real apre-
Miguel Real “José Enes – Poesia, senta José Enes como o filósofo em
Açores e Filosofia”, o leitor sente busca das últimas causas das coisas
a satisfação própria do aluno que e aí José Enes surge como o grande
aprendeu a lição, ou, pelo menos, pensador português do século XX.
uma boa parte dela e nutre senti- Mas também fica esboçado o retrato
mentos de gratidão para com o seu da outra faceta do interventor na vida
professor. É com clareza e profi- cívica, social e cultural da sua terra,
cuidade que o ensaísta-filósofo situa os Açores.
José Enes no contexto cultural da sua Fiz duas leituras do livro. A primeira,
época e subsequentemente investiga, para saborear a linguagem do meu an-
disseca, analisa e ordena o seu pen- tigo professor. Sentei-me outra vez
samento literário-filosófico. Miguel nas suas aulas de Literatura Portu-
Real cumpriu magistralmente a mis- guesa, Psicologia e Filosofia, nas
são de dar a conhecer a obra e a acção aulas números 3, 5 e 6 (1959-1961), e
de José Enes em prol do desenvolvi- voltei a ouvir a sua voz sábia, medida e
43 44
Ibidem, p. 84. Ibidem, p. 84.
474 Boletim do Núcleo Cultural da Horta
melódica. O meu professor era conhe- quarenta e poucos anos, na minha
cido pelos seus alunos pela grande carreira de professor do ensino secun-
profundidade do seu pensamento. dário e superior.
Tudo deveria passar pelo crivo da ra-
zão crítica. O livro de texto, adoptado José Enes, o intelectual que soube
no curso, não bastava. Entrava sem- aliar o pensamento à acção, apelou
pre na aula com um braçado de livros pelo uso da razão nos seguintes
abarrotados de folhas soltas de apon- termos: “o grande perigo do homem
tamentos e a serem concertados e está em ele não aplicar a sua activi-
segurados pela outra mão livre. dade conhecitiva a todos os sectores
Na leitura deste livro, voltei a ajudar da sua vida, em não raciocinar por
o meu antigo professor a corrigir as completo a sua existência”.45 Tinha
provas da sua célebre tese À Porta do razão Jorge Trigo, director da Colec-
Ser. O Dr. José Enes, em realidade, ção “Fonte de Palavra”, ao definir
foi o professor e a pessoa que me José Enes em quatro palavras: “Um
acompanhou, como mentor, durante Homem do Saber”.46
45 46
Ibidem, p. 27. Ibidem, p. 9.