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REDE INTERNACIONAL DE ENSINO LIVRE

INTERNATIONAL COURSES COLLEGE INTERNATIONAL OF FREE COURSES

CURSO PROFISSIONAL DE AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE

LIVRE E PARA FINS CULTURAIS E DE CONHECIMENTOS

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REDE INTERNACIONAL DE ENSINO LIVRE

A MAIOR E MAIS COMPLETA UNIVERSIDADE DO BRASIL E DO MUNDO, MAIS DE 2.500 CURSOS CULTURAIS E SOCIAlS Desde 1990, com mais de 40 mil alunos em dezenas de países.

1-NÍVEL BÁSICO

2-NÍVEL AVANÇADO

A - ESPECIALIZAÇÃO; B - MESTRADO;

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APRESENTAÇÃO

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Parabéns por estar se ingressando nesse momento na maior

universidade de cursos livres do Brasil e do mundo. São mais de 2.500

cursos em todas as áreas de trabalhos, para satisfazer as necessidades

das pessoas que precisam de documentos para fins curriculares em busca

de emprego; promoção e classificação para quem já está trabalhando e,

para aperfeiçoamento em alguma área onde o aluno já atua e trabalha e

que depende de colocar o lindo CERTIFICADO no escritório, escola,

oficina ou ambiente de trabalho como distinção e reconhecimento da

cultura perante os olhos do público em geral e, ainda a carteirinha.

Inovar requer ousadia e coragem, mas acima de tudo sabedoria.

É preciso valorizar as experiências adquiridas no passado, perceber todas

as nuances da realidade que o presente nos coloca, e finalmente estar

atento às mudanças e às oportunidades que o futuro nos reserva. Em

1990, nascíamos como a primeira Escola de Cursos Livres do país a

oferecer

curso

na

área

de

vendas.

Naquela

época,

muitos

não

entendiam

a

amplitude

do

segmento

de

vendas,

nem

mesmo

sua

importância para a economia do País. Conceitos como potenciais de

Venda e Consumos foram introduzidos, e o mais importante: iniciamos um

processo efetivo de qualificação profissional, cada dia mais valorizado pelo

mercado de trabalho. Desde então, o pioneirismo marca a história da

FACULDADE LIVRE, determinando mudanças profundas também nos

rumos do ensino brasileiro e mundial. Crescemos muito e são muitos os

exemplos de cursos inéditos lançados pela Instituição como os de níveis

avançados: especializações, mestrados, doutorados e pós-PhD, onde os

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estudos, embora sejam também livres, mas é avançado, ou seja, são mais

aprofundados e por isso são apropriados para pessoas que já concluíram

alguma faculdade, e, exigimos como requisito para se matricular que o

aluno já tenha o de graduação na área respectiva, contudo é somente para

conhecimento e cultura. Nossos certificados não são técnicos, não são

profissionalizantes e nem de graduações, e, por si só não dão direito ao

exercício da profissão, são tão somente culturais e de conhecimento.

Em

2005,

ratificando

sua

capacidade

de

antecipar-se

às

tendências e a preocupação em atualizar profissionais alinhados às

expectativas do mercado, passou a integrar a Rede Internacional de

Universidades Livres e a oferecer aos alunos benefícios exclusivos,

pautados

em

qualidade

internacional,

formação

multicultural

e

empregabilidade global. A busca constante pela excelência em formação

educacional é outro ponto marcante na trajetória da FACULDADE LIVRE.

Ao longo dos anos, a FACULDADE LIVRE não tem medido esforços para

oferecer o que há de mais avançado em infra-estrutura virtual, bem como

cursos livres do mais alto nível, formado por profissionais de grande

destaque. Por isso, é com orgulho que convido para conhecer um pouco

mais

a

FACULDADE

INTERNACIONAL

DE

CURSOS

LIVRES:

uma

instituição

criativa

e

inovadora,

comprometida

com

sua

missão

de

“contribuir

para

a

construção

de

um

mundo

melhor,

produzindo

conhecimento e formando talentos criativos e empreendedores, capazes

de ter sucesso em sua vida pessoal, social e profissional”.

Sucesso e boa sorte. A diretoria.

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CURSO PROFISSIONAL EM AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE

ÍNDICE

MÓDULO I

INTRODUÇÃO

01- Realizar Mapeamento da Comunidade

02- Sociedade Contemporânea

03- Vida Social e Comunicação

04- Histórico das Políticas de Saúde do Brasil

05- Fundamentos de Assistência a Família em Saúde

MÓDULO II

CONCEITOS BÁSICOS

06- Saúde de Informação da Atenção Básica(SIAB), como Instrumento de Trabalho da Equipe do PSF

07- Epidemiologia das Doenças não Transmissíveis

08- Administração de Serviços de Saúde

09- Números de Epidemiologia

10- Mensuração

MÓDULO III

PRINCÍPIOS GERAIS

11- Doenças causadas por Fungos

12- Doenças causadas pelo Lixo

13- Controle da Poluição

14- Saúde Pública

15- Doenças causadas por Mosquito

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CURSO

BÁSICO

PROFISSIONAL

AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE

01- Realizar mapeamento da comunidade Mapeamento da comunidade Uma vez que as pessoas estiverem cientes da necesidade de se fazerem preparativos para um possível desastre, pode ser muito útil que elas façam um mapa da sua comunidade. Os mapas dão às pessoas a oportunidade de examinar sua comunidade por inteiro e considerar as coisas de diferentes maneiras. Os mapas podem ajudar a mostrar como certas coisas podem estar ligadas: por exemplo, moradias pobres em terras em que freqüentemente há enchentes ou poços perto de casas de pessoas ricas. Os mapas desenhados por diferentes grupos, tais como homens, mulheres ou pessoas mais idosas, podem mostrar algumas diferenças interessantes.

Os mapas podem ser desenhados no chão, com varetas, folhas e pedras para representar coisas, ou em folhas grandes de papel, com canetas. As pessoas devem ser incentivadas a marcar as características naturais, tais como rios, fontes de água, solo elevado e árvores grandes, assim como os postos de saúde, as escolas, as igrejas, as casas ou as estradas. Elas devem também marcar os locais em que pode haver algum risco em particular, como, por exemplo, pontes fracas, poços abertos, ladeiras íngremes com risco de desmoronamento.

Incentive os participantes a relaxar e permitir que todos dêem seus pontos de vista dentro de cada grupo. Uma vez que todos os grupos tiverem terminado, dê tempo para que todos apresentem seus mapas e permita que haja uma discussão.

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7 Discussão • Reserve um dia para fazer o mapeamento da comunidade. O melhor é fazer

Discussão

Reserve um dia para fazer o mapeamento da comunidade. O melhor é fazer este exercício com grupos de 10 a 20 pessoas. As pessoas de diferentes idades, os homens e as mulheres podem ter idéias bem diferentes. Use grupos mistos ou faça com que diferentes grupos de pessoas desenhem seus próprios mapas. Por exemplo, jovens, mulheres casadas, homens, e pessoas mais idosas poderiam todos produzir mapas.

Quais poderiam ser os resultados positivos de se fazer um mapeamento da

comunidade?

Por que os diferentes grupos etários, os homens e as mulheres mencionaram aspectos diferentes em seus mapas? Como as diferentes observações podem ser combinadas? Os pontos de vista e as observações de quem são as mais importantes?

Como as descobertas deveriam ser compartilhadas e usadas?

Há alguma coisa que apenas um grupo tenha identificado? O que foi? Por que alguns grupos têm mais probabilidade de observar certas coisas?

02- Sociedade Contemporânea

A sociedade contemporânea em que vivemos, precisamente o século XXI, é marcada por mudanças. Mudanças de paradigmas, mudanças culturais, sócio-econômicas e de valores, que implicam necessariamente em uma re-adaptação do indivíduo em seu meio. Frente a tantas mudanças, que não deixam de interferir no afeto e no comportamento, o indivíduo em sua unicidade e a própria coletividade têm sentido os efeitos desses impactos.

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Ao contrário do que muitos pensam, a Dependência Química não é uma causa dos males atuais da sociedade, mas, um dos efeitos do caos em que emerge esta mesma sociedade.

Esta falta de identidade contemporânea tem trazido ao indivíduo uma necessidade de se alienar de toda esta angústia conseqüente. Por outro lado, paradoxalmente, quando o indivíduo busca as drogas, este tem a uma possibilidade de encontrar a identidade perdida por meio da identificação grupal.

Diante de todos os efeitos que a sociedade tem presenciado frente a este processo mutante contemporâneo, é sobre a Dependência Química enquanto efeito que vamos discutir neste artigo.

Relacionamentos e Qualidade de Vida:

A sociedade contemporânea é marcada pelo individualismo. A necessidade crescente do indivíduo precisar cada vez mais de se qualificar, estudar, se informar, é um processo solitário, mesmo que aconteça em grupo. A internet e as possibilidades cada vez maiores de o indivíduo poder resolver seus problemas via computador, fazem com que as relações interpessoais cotidianas sejam cada vez mais desnecessárias.

Desta forma, ao contrário do que acontecia nas sociedades tradicionais, a sociedade contemporânea não é muito apropriada para sustentar amizades. As amizades, que outrora eram preservadas desde a infância, hoje estão cada vez mais superficiais. Uma das grandes queixas do indivíduo usuário de drogas, é a solidão. É falta de compreensão, é a falta de amigos.

No Centro de Acolhimento SOS Drogas, 37% dos adolescentes que buscam o serviço relatam experimentar a droga devido à influência de colegas, seguido de problemas familiares, que correspondem a 27%. Este acontecimento que os usuários relatam como “influência” mostra a necessidade de o indivíduo se inserir em um grupo e ser reconhecido a qualquer custo. Mesmo que para isto ele deva usar drogas.

Esta influência e esta superficialidade nas relações não aparecem somente nos grupos

externos.

No Centro de Acolhimento SOS Drogas, 76% dos usuários que buscam o serviço têm parentes que usam drogas. “Ao contrário do que se poderia esperar, há mais discussões em famílias emocionalmente próximas; quando a família realmente tem problemas, pais e filhos se evitam, em vez de discutir.” (CSIKSZENTMIHALYI, 89). Desta forma, o indivíduo se aliena usando drogas para que possa se sentir incluído.

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Algum outro familiar faz e fez uso de drogas?

Algum outro familiar faz e fez uso de drogas? Sim Não Não consta
Sim Não Não consta
Sim
Não
Não consta

Centro de Acolhimento SOS Drogas

O físico John Archibaldo Wheeler expressa seu ponto de vista diretamente: “Se você não

discute suas idéias, você está por fora. Ninguém, eu sempre digo, pode ser alguém sem que haja pessoas por perto” (CSIKSZENTMIHALYI, 95). Este pensamento tem congruência com a Psicanálise,

onde Lacan ressalta que a criança existe para e pelo outro, “já que é um pólo de expectativas, projetos e atributos” (LACAN, 659)

Quanto aos relacionamentos, um outro tópico a ser levantando é a sexualidade. Uma das grandes revoluções da nossa cultura foi a Revolução Sexual do século XX. A sexualidade foi descontextualizada, porém, e gerou-se a idéia errônea de que a felicidade estaria presente na variedade e na freqüência dos encontros sexuais em detrimento de sua intensidade e profundidade. Paradoxalmente, percebe-se no indivíduo contemporâneo que, quanto mais ele busca sua essência nos relacionamentos sexuais, mais distante ele fica deste encontro. E mais uma vez, a droga entra para tamponar a angústia gerada por mais este conflito.

Enquanto no passado a sexualidade era reprimida, hoje podemos perceber a sexualidade sendo de todas as formas encorajadas e com uma forte influência da sociedade de consumo, que dá a ilusão de uma realização sexual. Desta forma, assim como as amizades e as famílias, os relacionamentos sexuais tornam-se também cada vez mais superficiais.

O Trabalho e o Ócio

Uma outra mudança que a sociedade vem sofrendo diz respeito à dualidade trabalho X ócio. Por incrível que pareça, um dos grandes desafios da sociedade contemporânea é aprender a usar seu tempo de maneira sensata.

A maneira de se perceber o trabalho mudou muito. Enquanto as sociedades tradicionais

percebiam o trabalho como um esforço físico, a sociedade contemporânea percebe o trabalho como

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uma manifestação de genialidade e criatividade, uma vez que a especialização faz-se cada vez mais dominante e atuante. Karl Marx já defendia esta idéia quando dizia que só mediante a atividade produtiva é que podemos realizar nosso potencial humano. Por outro lado, por mais que a sociedade evolua, os estereótipos sexuais ainda existem e os homens experienciam o trabalho de maneira diferenciada. O homem ainda se sente o provedor da casa e a mulher, aquela que proporciona à família um ambiente adequado físico e emocionalmente.

Ao mesmo tempo, a cada geração o conceito de trabalho torna-se mais vago, devido ao excesso de informações contrapondo à escassez de formações. A natureza mutável do trabalho e a falta de oportunidades aos jovens tem deixado-os confusos quanto à carreira que pretendem seguir. Enquanto as crianças das sociedades tradicionais já eram educadas para a execução de um ofício, os jovens contemporâneos se perdem ante as alternativas. No emprego, as pessoas têm a oportunidade de usar mente e corpo e com isto se sentem úteis. Desta forma, a ociosidade é uma porta aberta para que o indivíduo busque alternativas, como as drogas, para mais uma vez tamponar esta angústia.

“O indivíduo médio está despreparado para o ócio. Sem metas e sem outros com quem interagir, a maioria das pessoas perde a motivação e a concentração. A mente começa a viajar, e geralmente se concentra em problemas insolúveis que provocam ansiedade. Para evitar essa

condição indesejável, a pessoa recorre a estratégias que afastam o pior (

obsessivo ou na sexualidade promíscua, ou ficar bêbado ou se drogar. Essas são maneiras rápidas

de reduzir o caos na consciência a curto prazo (

Acolhimento SOS Drogas, 88% dos usuários que buscam o serviço relataram não estudar nem

68). No Centro de

envolver-se no jogo

),

).”(CSIKSZENTMIHALYI,

Situação Profissional

Situação Profissional trabalha estuda não trabalha/não estuda aposentado desempregado trabalha e estuda

trabalhaestuda não trabalha/não estuda aposentado desempregado trabalha e estuda outros não consta

estudatrabalha não trabalha/não estuda aposentado desempregado trabalha e estuda outros não consta

não trabalha/não estudatrabalha estuda aposentado desempregado trabalha e estuda outros não consta

aposentadotrabalha estuda não trabalha/não estuda desempregado trabalha e estuda outros não consta

desempregadotrabalha estuda não trabalha/não estuda aposentado trabalha e estuda outros não consta

trabalha e estudatrabalha estuda não trabalha/não estuda aposentado desempregado outros não consta

outrostrabalha estuda não trabalha/não estuda aposentado desempregado trabalha e estuda não consta

não constatrabalha estuda não trabalha/não estuda aposentado desempregado trabalha e estuda outros

trabalhar no momento. Este índice nos mostra a dificuldade do indivíduo, principalmente o homem, de adaptar à ociosidade, uma vez que apenas 18% eram mulheres.

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Centro de Acolhimento SOS Drogas

Sexo

Sexo Masculino Feminino Não consta
Masculino Feminino Não consta
Masculino
Feminino
Não consta

Centro de Acolhimento SOS Drogas

Uma outra característica acerca desta relação ócio X trabalho, é a crescente prática do lazer passivo. Enquanto outrora as pessoas utilizavam seu tempo ocioso com práticas como esportes, jardinagem, dentre outras que proporcionavam ao indivíduo uma satisfação de se sentir útil, hoje, o lazer passivo tem sido uma prática crescente como assistir à televisão, estar com amigos, acessar a Internet. Essa ausência de movimento até para o lazer, isola o sujeito cada vez mais, e o insere cada vez mais na atual sociedade individualista.

Conclusões:

A Dependência Química é uma doença bio-psico-social. Ela se origina e se alimenta das adversidades orgânicas, psíquicas e sociais. Desta forma, a Dependência Química vista isoladamente, de nada serve para que se possa fazer algo contra ela. Ela é fruto da sociedade contemporânea, que se encontra adoecida pela falta de identidade.

Fatores mencionados como as relações, o trabalho e o ócio, são problemas atuais que só se tornaram entraves, porque os indivíduos não sabem mais se posicionar ante estas questões inerentes à vida humana.

Desta forma, a prevenção à Dependência Química é uma ação isolada, porém conjunta ao mesmo tempo. Quando o indivíduo na sua unicidade, paralelamente a sociedade como um todo perceberem estas questões que perpassam pela vida cotidiana, conseguirão se encontrar, se adaptar aos novos paradigmas, aos novos modos de vida e não precisarão mais se alienar para conseguirem viver.

A Idade Contemporânea é um tempo histórico em aberto. Compreendendo o final do século XVIII até os dias atuais, a contemporaneidade atrai o interesse de muitas pessoas devido à emergência e o apelo que as questões históricas e filosóficas observadas neste período trazem à

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tona. O desenvolvimento do capitalismo e a ascensão dos valores de um mundo em “progresso ininterrupto” figuram importantes fatos e correntes de pensamento do século XIX. No último século, os problemas e transformações de um mundo globalizado fizeram desta época, conforme apontado pelo historiador Eric J. Hobsbawn, um século “breve”.

A sociedade contemporânea tem se caracterizado por um conjunto de acontecimentos que

estão induzindo o desenho de uma nova realidade social, resultado de fenômenos econômicos, políticos, culturais que discutem mecanismos clássicos do direito, exigindo por isso dos operadores e pesquisadores da área jurídica respostas eficazes para a configuração da complexibilização desses

fatores.

Alguns fatores dessa mudança de perspectiva estão diretamente relacionados à edificação dos Direitos Humanos como princípio orientador da preocupação maior do sistema jurídico e que tem no Estado o maior garantidor de sua eficácia; a internacionalização voraz da economia que subtrai de tudo um valor econômico suscetível de comercialização e de apropriação; o avanço das descobertas científicas e tecnológicas que induzem o surgimento de novos temas que passam a ser objeto de discussão da comunidade acadêmica para sua configuração.

O ser humano é o verdadeiro detentor da qualidade de pessoa, e deve sempre destacar sua

maior característica que vem a ser a sua dignidade ética, que o faz titular de direitos inatos, inalienáveis e imprescritíveis, dos quais o Estado e a comunidade científica devem muito respeito.

A dignidade da pessoa humana não vem a ser uma criação jurídica do direito público ou

privado, mas um elemento preexistente a toda a experiência jurídica, logo, este elemento encontra-se ameaçado, tendo em vista todos os avanços da tecnologia científica, pois hoje se fala até mesmo em

Biopirataria de “DNA” humano; ou seja, em pleno século XXI a sociedade se defronta com problemas de patenteamento de seres vivos, que estão diretamente ligados com a influência da economia hoje em nossa sociedade.

É importante que a sociedade comece a se precaver e tente estimar acima dos valores

propriamente econômicos os valores éticos, visando a impedir que as atividades se desenvolvam ao sabor exclusivo dos interesses apenas individuais, sem atenção aos interesses coletivos, e sociais.

Todos os seres humanos devem estar convictos de que existem interesses superiores aos da ordem econômica, como a preservação da dignidade humana, que levam a ordem jurídica a submeter a economia a certos ditames, como por exemplo normas que preservam a integridade física e a saúde do ser humano, como as que limitam as horas de trabalho, entre outras normas que

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atuam nos mais variados campos de proteção ao ser humano, sendo que infelizmente ainda não temos ditames que minimizem a situação deprimente hoje enfrentada com a Biopirataria e demais problemas que colocam o ser humano como protagonista deste cenário de violência.

Diante da análise da sociedade contemporânea esta tem se caracterizado por um conjunto de acontecimentos que estão induzindo o desenho de uma nova realidade social, resultado de fenômenos econômicos, políticos, culturais. Será que esta nova realidade social é a realidade ideal?

Respondendo à pergunta, não é o ideal, e não tem ainda a menor possibilidade de ser o ideal, pelo simples motivo de que este conjunto de acontecimentos evolutivos são importantes, mas não estão devidamente controlados, estando como principal problema a necessidade de regulamentação. Diante do estudo dos direitos humanos de quarta geração, deve-se adicionar a observação de todos os princípios da bioética, como por exemplo, a autonomia, a justiça, e a beneficência, sendo estudados de forma unificada, e conseguindo resguardar bens maiores, como o direito à vida e à dignidade da pessoa humana, sendo importante destacar que esta atitude não vem sendo obedecida.

A quarta geração de direitos humanos refere-se a um jogo de interesses e uma diversidade

de valores que por muitas vezes causam conflitos, cabendo aqui destacar que o problema da atualidade é desfrutar dos avanços e progredir. Paralelamente a isso, a humanidade deve se preparar para os problemas que necessitaram de soluções mais complexas no futuro, tanto que os estudos mais recentes justificam que as novas descobertas científicas no campo da ciência da vida são grandiosas, mas podem gerar problemas que não serão tão fáceis de se resolver em períodos posteriores.

É lógico que se consideram os questionamentos de ordem ética, moral e jurídica que nascem com o avanço da bioética, bem como o crescente desenvolvimento das pesquisas científicas

e a utilização da biotecnologia, como técnica aplicada ao estudo da vida, pois a bioética deve ser estudada em conjunto com seus princípios, visto que quando se leva em consideração o estudo da ética da vida, está se permitindo o progresso da ciência perante a humanidade; porém não devendo nunca ser esquecida a dignidade humana como interesse prevalecente, a qual traz resultados positivos ao homem, como por exemplo, a melhoria da saúde humana.

A idéia é trazer um momento de discussão para a sociedade, para que todos possam parar

e refletir acerca dos avanços apresentados na ciência da vida, que têm sido em grande escala e em

ritmo alucinante. Importa ressaltar que a sociedade também deve e precisa ser esclarecida e ouvida,

a fim de que uma regulamentação justa e unânime seja imposta e que venha realmente atender aos

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interesses de toda a humanidade, pois o assunto não discute qualquer bem pertencente ao homem,

e sim o seu bem maior que é a vida, o material genético humano.

Apesar de todas as tentativas em sentido contrário, realizadas, sobretudo a partir da Modernidade, é impossível negar que toda reflexão sobre as relações entre ética e trabalho se assenta, a rigor, sob um paradoxo, estabelecido pela estrita separação entre esses dois domínios. Em virtude dessa necessária, porém abrupta entrada na matéria, temo, no entanto que a incompreensão inicial, longe de despertar a curiosidade, suscite no leitor a desconfiança e o desinteresse, senão pela filosofia, ao menos pelo texto que, no encerramento desta coletânea, ela inspira. Assim sendo, devo prevenir-me e, para fazê-lo, vou permitir-me um desvio pelo território tão eminentemente filosófico das definições, antes de dar a vislumbrar o cenário contemporâneo em que, enfim, as relações entre ética e trabalho deverão ser examinadas.

Tomemos, pois, esse desvio, não para retardar a discussão, mas para evitar que ela incida sobre o campo da moral – da discussão, normativa ou simplesmente interrogativa, sobre os bons costumes, sobre o código de conduta, sobre o comportamento julgado adequado em ambiente de trabalho.

Seja, pois, por um lado, a ética, como reflexão sobre os princípios – ou, o que vem a dar

exatamente no mesmo, sobre os fins últimos, sobre as finalidades do agir humano, sobre o próprio sentido da existência individual e coletiva; seja ainda, por outro lado, o trabalho, como atividade que é meio para produção de alguma coisa, que está relacionada a um fazer eficaz, a uma ação apropriada

e conforme a fins que são exteriores à atividade.

Apresentada como reflexão, a ética diz respeito à decisão, que incumbe a cada indivíduo e a cada sociedade, de julgar, escolher e instituir em sua própria existência os princípios, os valores que deverão guiar suas relações com o mundo, com as coisas, com os outros homens, submetendo-os a permanente questionamento.

As decisões relativas ao trabalho dependem, quanto a elas, do que se poderia chamar, numa acepção bastante ampla, de técnica: escolha dos saberes a serem convocados, dos instrumentos, dos procedimentos, das ações a serem empregados na consecução do resultado final. Será forçoso constatar que assim definidos os dois termos, não existe uma ética do trabalho, embora possam (e devam!) existir formas éticas de se investir a atividade do trabalho. Mas, nesse caso, essas formas deverão estar continuamente submetidas ao exercício da auto-reflexão e do questionamento constante.

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É

com tal atitude que o presente artigo se propõe a contribuir.

O

trabalho como significação imaginária social

Muito embora sob o termo genérico de «humanidade» possamos reconhecer uma série de características biológicas, funcionais, psíquicas, comuns a todos os humanos, é sempre de maneiras muito diferentes que essas determinações são incorporadas, trabalhadas e retrabalhadas pelas diversas culturas e momentos históricos, sob a forma de costumes, de representações, de formas de encarar o mundo, de definir sua existência e, no caso que nos interessa aqui, de organizar e valorar as atividades humanas. Assim, cada sociedade, cada época, institui aquilo que C. Castoriadis denominava seus «tipos antropológicos» próprios. O modo de ser e de agir dos antigos babilônios não é o mesmo dos revolucionários franceses de fins do século XVIII; as formas de trabalhar, de raciocinar, de sentir, de desejar, de fazer planos, de se afetar, de temer de um tupi-guarani, há quinhentos anos, em nada se assemelhava àquelas do português navegador, ou dos brasileiros e brasileiras atuais.

Encarnando-se em «tipos antropológicos» específicos, os indivíduos formados e socializados em e por uma sociedade específica, dão existência e realidade às significações que cada sociedade institui para si, que a fazem ser como tal sociedade, e não uma outra:

Toda sociedade cria seu próprio mundo, criando, precisamente, as significações que lhe são específicas… O papel dessas significações imaginárias sociais, sua «função» – para empregar o termo sem qualquer conotação funcionalista – é tripla. São elas que estruturam as representações do mundo em geral, sem as quais não pode existir ser humano. Essas estruturas são, a cada vez, específicas: nosso mundo não é o mundo grego antigo, e as árvores que vemos por estas janelas não abrigam, cada uma delas, uma ninfa, é simplesmente madeira, é esta a construção do mundo moderno. Em segundo lugar, elas designam as finalidades da ação, elas impõem o que deve ser feito, ou não deve ser feito: deve-se adorar a Deus, ou então é deve-se acumular as forças produtivas – ainda que nenhuma lei natural ou biológica, nem mesmo psíquica, diga que se deve adorar Deus ou acumular as forças produtivas. E, em terceiro lugar – ponto, sem dúvida, mais difícil de abordar – elas estabelecem os tipos de afetos característicos de uma sociedade. (…) Mas, entre as significações instituídas por cada sociedade, a mais importante é, sem dúvida, a que concerne à própria sociedade.

São precisamente essas significações imaginárias sociais que fornecem, de maneira mais ou menos explícita, e de acordo com o grau de autonomia da sociedade, sentido para as atividades humanas. Ora, a reflexão ética começa, exatamente, quando os sentidos para a existência que nos

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são fornecidos pela sociedade passam a ser objeto de nosso questionamento consciente e contínuo.

Por isso, a relação que buscamos, entre ética e trabalho, nos impõe o questionamento dos sentidos

que são associados a essa atividade e da centralidade que lhe foi concedida por toda a sociedade

ocidental contemporânea.

Centralidade do trabalho industrial

Foi apenas há relativamente pouco tempo, na história, que aquilo que denominamos de trabalho foi erigido à condição de valor central da existência. É claro que as diferentes sociedades sempre tiveram que lidar com as necessidades relativas à sua sobrevivência, que foram a cada vez instituídas, organizadas e orientadas de acordo com cada cultura específica; é claro também que nenhuma sociedade sobreviveria se não fosse capaz de atribuir significado às atividades que visavam a garantir, exatamente, sua continuidade. Assim, era à própria vida, considerada valor máximo, que o trabalho devia seu reduzido sentido. No entanto, de modo geral, a idéia de que se pudesse passar toda a vida a trabalhar foi a maior parte do tempo encarada com perplexidade:

punição dos deuses ou condição dos povos vencidos, reduzidos à escravidão, a consagração integral ao trabalho, longe de conferir dignidade, marcava a fatalidade e o opróbrio que sobre alguns recaía.

Essa é, pois, a grande novidade introduzida pela Modernidade: que o trabalho – e, muito particularmente, o trabalho industrial, tenha se estabelecido como referência absoluta para todas as atividades da vida.

Conhecemos bem as condições objetivas que serviram de base para essa profunda transformação radical: acúmulo de riquezas sob a forma de capital financeiro, rápido avanço da ciência e de suas aplicações tecnológicas, incessante invenção de máquinas e procedimentos destinados à atividade industrial. E conhecemos, também, suas condições históricas e culturais:

declínio das formas tradicionais de organização política e social, emergência de nova atitude de confiança indiscriminada na razão humana e suas possibilidades, instituição do projeto de «domínio absoluto da natureza» e de um verdadeiro fascínio pela idéia de «progresso».

Em poucos séculos, o trabalho passou do lugar de desconfiança e desprezo a que foi

relegado tradicionalmente para o topo da hierarquia das atividades humanas: entre os séculos XVII e

XIX ele se transformou, de fonte de toda propriedade legítima (Locke), em condição da própria

humanidade e expressão máxima do homem (Marx). E, em que pesem as recusas que enfrentou, as terríveis polêmicas, as infinitas análises e as tantas vezes sangrentas ações que suscitou, em sua campanha vitoriosa, o trabalho moderno foi, até meados do século XX, não apenas uma realidade inexorável, mas igualmente objeto de uma verdadeira «glorificação teórica».

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Isso não significa que não se tenha percebido desde logo que o preço a ser pago por essa ascensão do trabalho era extremamente caro: mas não pareciam restar dúvidas, nem para os teóricos, nem para os «homens de ação», de que a empreitada não só valia a pena como era digna da imensa confiança que nela se depositava. Assim, ainda que as primeiras críticas ao trabalho moderno coincidam com sua instauração, elas não chegam a abalar a crença de que a mudança era um caminho sem volta, uma exigência histórica que se fazia, a partir dali, verdadeiro princípio e condição da emancipação dos indivíduos e da felicidade social.

E, por toda parte onde se espraiou, o trabalho moderno modificou definitivamente os hábitos e as mentalidades, modelando as antigas culturas às suas novas exigências: urbanização, aparelhamento burocrático, «racionalização» dos comportamentos e vínculos. Na tarefa, demonstrou um vigor historicamente inaudito de propagação e, também sob esse aspecto, proclamou-se o advento de uma nova temporalidade, a partir da qual se pôde conceber o destino da espécie e avaliar os méritos de cada sociedade. Redesenhadas, as fronteiras de poder reafirmam a divisão do mundo em áreas desenvolvidas, e áreas que passarão a buscar, permanentemente, o desenvolvimento; em povos e nações que podiam desfrutar imediatamente das benesses da nova era, da nova humanidade, e aqueles que deviam dedicar muito afinco e muito esforço até que pudessem ver realizadas as promessas de inclusão no paraíso moderno.

As últimas décadas do século XX precipitaram, porém, de forma ainda mais brusca todo o edifício construído pela modernidade. Crises de diversas ordens – financeiras, ocupacionais, infra- estruturais – obrigaram ao reconhecimento da fragilidade das bases sobre as quais o projeto de organização social dos modernos fora construído. Até então, a ascensão do trabalho se fez passar, sob certos aspectos, por uma verdadeira conquista do éden: vitória definitiva sobre o tempo cíclico da natureza, pela aquisição do tempo progressivo da produção, todo feito de superação; triunfo, até mesmo, sobre o tempo linear em que se realiza a existência humana, sempre submetido à inexorável lei segundo a qual «tudo que floresce conhece também o declínio», já que o desenvolvimento indefinido da ciência e da técnica tornou-se simplesmente o paradigma a partir do qual se imaginava um tempo fora daquilo que faz, precisamente, existir para nós a noção do tempo: os limites.

A realidade revelou-se, porém, outra: longe de promover um sempre crescente e ampliado bem-estar, o modelo de organização social correspondente ao trabalho moderno só fez acentuar as desigualdades e exclusões, tanto entre os países, como no interior de praticamente todos os países do mundo. Assentado sob a ilusão de uma exploração ilimitada da natureza, o modelo civilizatório que produziu a ascensão do trabalho conduziu à rápida devastação das reservas de matérias primas

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e de energia necessárias à produção – e não é um detalhe que, ao fazê-lo, colocou em risco as próprias condições de vida no planeta.

O pressuposto fundante, historicamente presente na maior parte das correntes de pensamento econômico, foi o de que é possível a análise do processo de criação da riqueza por meio

da abstração da natureza, limitando a visada da teoria aos aportes relativos do capital e do trabalho ou, mais recentemente, ao papel do conhecimento. A partir desse pressuposto se constrói o paradigma de crescimento sem limite, que foi hegemônico na cultura ocidental desde a consolidação da idéia de progresso. Todavia, como argumentou com lucidez Herman E. Daly, a economia é um subsistema aberto que opera no interior de um sistema mais amplo, fechado e com limites finitos que

é o planeta Terra, com o qual estabelece relações de permanente intercâmbio. Por meio desses

intercâmbios, o subsistema econômico obtém, como insumos, os recursos naturais e energéticos que está a requerer, enquanto descarrega sobre a natureza os resíduos e dejetos de sua atividade. Assim sendo, só é possível abstrair essas relações de intercâmbio na teoria e no cálculo econômico enquanto a dimensão ou escala desse subsistema econômico é pequena, em relação à dimensão do planeta – podendo-se, assim, para propósitos práticos, trabalhar com o pressuposto de uma natureza sem limites. Sem embargo, na medida em que o subsistema econômico cresce e se apropria de uma proporção crescente, tanto dos recursos como da capacidade de carga da Terra, já não é mais possível manter a ficção da economia como um sistema fechado e auto-suficiente. Atingido esse ponto, já não é mais possível ignorar os limites do crescimento.

Tampouco era a capacidade de consumo social inesgotável, sobretudo em vista da lógica de concentração de renda, que levou o capital financeiro a autonomizar-se não somente em relação aos riscos permanentes a que está submetida a atividade produtiva, mas também em relação à forma de organização nacional que lhe era correlata. Assistiu-se, em conseqüência, a uma profunda retração do emprego, contra a qual os governos, apesar de toda a retórica economicista, nada puderam e que vem se revelando quase insuportável em países como o Brasil. Na década de 1950, H. Arendt advertira: «o último estágio de uma sociedade de operários…é a sociedade de detentores de emprego»; e, então, já não é a confiança no progresso, a crença nas promessas da razão, o desejo obscuro de colocar-se fora do tempo que sustentam a relação dos sujeitos com o trabalho, mas apenas o mero instinto de sobrevivência, a requerer «um funcionamento puramente automático» dos indivíduos.

Em suma: o trabalho industrial, que pôde se apresentar como figura e modelo não só do trabalho na modernidade, mas de todas as atividades humanas, dá hoje provas evidentes de seu total esgotamento – o que sem dúvida não quer dizer que sua influência não se faça mais sentir

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sobre a existência individual e coletiva. Antes pelo contrário: paradoxalmente, é ainda o trabalho industrial que serve de figura e de modelo a partir do qual se pensa o conceito mais amplo de trabalho em nossas sociedades.

O trabalho, a ação, o sentido

Marx definia o domínio do trabalho como o da objetivação humana: para ele, o trabalho cria

o homem. Mais do que nunca antes, a afirmação é valida para os tempos modernos – e para a

contemporaneidade, também. Mas, de forma mais geral, é igualmente verdadeiro que, pelo trabalho,

o sujeito faz existir aquilo que não existia anteriormente, que não estava na natureza, que só existe em função da vida social: o mundo objetivo das coisas. H. Arendt afirmava que essa atividade de fabricação se distingue nitidamente das atividades visando a mera sobrevivência, que ela denominava labor, e que, a rigor, não produzem mais do que as condições objetivas de manutenção da vida. O labor guarda, assim, uma estreita associação com a dimensão natural, diríamos, fisiológica do humano. O trabalho, no entanto, cria a artificialidade da vida humana, ele é

a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana… O trabalho produz um

mundo «artificial» das coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita cada vida individual, embora este mundo se destine a sobreviver e transcender todas as vidas individuais. (…) O trabalho e o seu produto, o «artefato humano» emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do tempo humano.

Em comparação à objetividade dos produtos do trabalho, os «produtos» da atividade direta entre os homens – da atividade ação, que já não se realiza sobre a natureza ou com a matéria, mas com a linguagem, sobre si próprio e sobre os outros – aparecem como extremamente «fúteis», isso

é, frágeis e intangíveis.

…a ação, o discurso e o pensamento… não «produzem» nem geram coisa alguma: são tão fúteis quanto à própria vida. Para que se tornem coisas mundanas, isso é, feitos, fatos, eventos e organizações de pensamento ou idéias, devem primeiro ser vistos, ouvidos e lembrados, e em seguida transformados, «coisificados», por assim dizer, em ditos poéticos, na página escrita ou no livro impresso, em pintura ou escultura, em algum tipo de registro, documento ou monumento. Todo o mundo fatual dos negócios humanos depende, para sua realidade e existência contínua, em primeiro lugar da presença de outros que tenham visto e ouvido e que lembrarão; e em segundo lugar, da transformação do intangível na tangibilidade das coisas. Tudo aquilo que, para o humano, é sentido, a começar por sua própria auto-representação, sua identidade, mas também o mundo de significações que o fazem existir, suas crenças, seus objetivos, seus valores, suas relações, depende

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de uma certa objetivação que é garantida, em primeiro lugar, pelo outro, pela comunidade em que o indivíduo se insere e com a qual compartilha, por via da socialização, esses sentidos; e, em seguida, pelas diferentes coisas que, constituindo o mundo objetivo dos humanos, sem esses sentidos seriam apenas «um amontoado de artigos incoerentes, um não-mundo».

E é também obra dessa comunidade a construção da significação atribuída à própria materialidade de que a vida humana não pode se passar. Em outras palavras, se o trabalho é condição para emergência da realidade mundana, a criação de um mundo comum de significações é

a condição de possibilidade para a construção, pelo sujeito, do sentido de sua existência individual, que sempre parte dos sentidos coletivos que essa sociedade põe a disposição de seus membros.

Os muros da cidade, os monumentos, as casas, os utensílios cotidianos e os objetos rituais, as obras de arte, os livros, tudo isso faz existir um mundo mais ou menos durável de coisas materiais, fornece tangibilidade à experiência humana no mundo. No entanto (e é bem por essa razão que grifei, duas citações acima, a palavra «certa») mesmo esse sentimento de permanência concedida à existência pela materialidade dos frutos do trabalho jamais puderam se comparar à imperecibilidade daquilo que Arendt denomina a ação – a atividade de constituição do espaço comum, a política, que cria a esfera pública, que é condição para a emergência da memória e da história que sobreviverão a nós.

Subsiste, pois, uma contínua tensão entre o movimento de criação dos sentidos da existência coletiva e individual e a necessidade de sua materialização, de sua realização como produtos objetivos do trabalho humano. Ora, dizer que o trabalho assumiu, a partir da Modernidade, uma crescente centralidade no seio da vida social implica dizer que essa tensão tendeu a ser rompida: que o «fazer coisas» prevaleceu sobre o «agir», que houve perda do sentido comum da existência, reduzida agora à materialidade dos produtos objetivos do trabalho. E, de fato, às incertas conquistas que a ação realizou, nos tempos modernos, correspondeu nos primeiros momentos a triunfante e inquestionável evidência dos avanços do fazer humano.

Foi só então que se acreditou que, ao invés de receber seu sentido da ação, o trabalho poderia, ele próprio, passar a fornecer sentido para a existência e a convivência humanas: não é outro o movimento de retração da esfera pública, ou de «racionalização» da sociedade que o liberalismo apregoa. O político é substituído pelo especialista, a frágil matéria das deliberações coletivas pela objetividade da lógica de mercado – tudo, enfim, parece poder ser dominado pelo fazer

instrumental: E, realmente, entre as principais características da era moderna, desde o seu início até

o nosso tempo, encontramos as atitude típicas do homo faber: a «instrumentalização» do mundo, a

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confiança nas ferramentas e na produtividade do fazedor de objetos artificiais; a confiança no caráter global da categoria de meios e fins e a convicção de que qualquer assunto pode ser resolvido e qualquer motivação humana reduzida ao princípio da utilidade; (…) o equacionamento da inteligência com a engenhosidade, ou seja, o desprezo por qualquer pensamento que não possa ser considerado como o primeiro passo… para a fabricação de objetos artificiais, principalmente de instrumentos para fabricar outros instrumentos e permitir a infinita variedade de sua fabricação; e, finalmente, o modo natural de identificar a fabricação com a ação.

Assim, o trabalho passa a ser o que há em comum entre os homens, a «produtividade» critério de todo o valor, o correlato objetivo, universalmente válido e inapelavelmente fiel a partir do qual todos os homens devem passar a ser medidos e hierarquizados, tanto em sua representação de si quanto em seu lugar na sociedade. Ocorre que o desaparecimento da esfera pública, que é correlativo à expansão desmesurada da atividade privada, resulta na própria fragilização do sentido da existência: pois é agora o modelo de uma produção de objetos cada vez mais efêmeros, prontos a serem consumidos e substituídos, que serve de base para a criação das referências e valores que estabelecem o mundo comum. Um mundo do qual a perenidade, a estabilidade foram inteiramente banidas.

Privatização, crise do sujeito, crise da ética

Não somente a esfera pública tendeu a desaparecer no mundo moderno, sob o impacto da «racionalização» da sociedade e do conjunto de atividades humanas; também as certezas, os valores, as instituições, as verdades, as referências culturais e históricas sobre as quais o mundo comum se apoiava passam a ser objeto de um radical questionamento. Relacionando-se cada vez mais com os outros na esfera do trabalho e quase que somente aí, o homem moderno descobriu-se só na tarefa de fornecer sentido e direção para sua existência.

Analisando os impasses da ética na sociedade atual, M. R. Kehl considera que o sujeito contemporâneo é, na verdade, um ser duplamente dividido: apartado dos outros, ele foi instituído como «indivíduo», ser solitário para quem já não contam as dimensões coletivas da existência humana.

A ausência do outro priva o sujeito de «modos de pertinência, de produção de sentidos para a vida, de filiação, de amparo simbólico», enfim, das referências que forneciam sustentação à sua constituição como sujeito social, à sua socialização. Mas é também da própria experiência de si, que tanto depende dos outros, que o sujeito contemporâneo se encontra privado: ele se desconhece, não entende mais o que determina seus próprios impulsos, tendências, não reconhece o seu desejo.

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É essa a outra face da privatização: o aprisionamento do sujeito em uma subjetividade anônima – que não encontra nenhum correlato na cultura, na vivência social.

…ao final do processo assistimos à emergência de um sujeito que passa a desconhecer tanto suas determinações íntimas como o caráter coletivo, social, das forças que o atravessam. Para se acreditar independente, «individual» entre seus semelhantes, ele tem que ignorar (recalcar?) todas as evidências de sua dependência.

O sujeito contemporâneo está só, com seus apetites e desejos: ao invés de um sentido mais

perene e durável para sua existência, ele quer apenas a segurança e o conforto; ao invés de construir um projeto para sua vida, interessa-lhe usufruir ao máximo, evitar ao máximo toda dor e

frustração.

Dessa forma, à crise «objetiva» do mundo que se ergueu sob as bases do trabalho moderno, soma-se a crise da subjetividade, a falência dos processos de identificação e dos modelos de socialização que faziam existir os indivíduos e serviam de referência para suas atividades. «Como pode o sistema, nessas condições, continuar a existir?» pergunta-se C. Castoriadis. Sua resposta é, no mínimo, embaraçosa:

Ele se mantém por que se beneficia ainda de modelos de identificação produzidos no passado: o matemático que acabo de mencionar, o juiz «íntegro», o burocrata legalista, o operário consciencioso, o pai responsável por seus filhos, o professor que, sem qualquer razão, ainda se interessa por seu trabalho. Mas nada no sistema tal como é justifica os «valores» que estes personagens encarnam, que eles investem e que se espera que persigam em sua atividade. Mas por que um juiz deveria ser íntegro? Por que um professor deveria se cansar com seus guris, ao invés de deixá-los passar o tempo, salvo em dia de visita do inspetor? Por que um operário deveria se matar tentando apertar o centésimo qüinquagésimo parafuso, se ele pode dar um jeitinho face ao controle de qualidade? Não há, nas significações capitalistas, desde o começo, mas, sobretudo, em vista do que se tornaram atualmente, nada que possa fornecer uma resposta a esta questão.

Eu comecei afirmando que os domínios da ética e do trabalho são separados: não há uma ética que derive espontaneamente do trabalho, não é da lógica do trabalho que se pode implicar uma ética capaz de fornecer sentido à existência. Ao insistir no contrário, a modernidade fez mais do que tornar a distância entre ética e trabalho ainda mais descomunal: ela levou a sociedade e os indivíduos por ela socializados a uma existência cada vez mais esvaziada, cada vez mais empobrecida. É isso que faz Castoriadis afirmar que a sociedade se mantém às custas da contraditória sobrevivência de valores e de sentidos do passado, às custas de «modelos de

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identificação produzidos no passado». Triste a sociedade que é forçada a se amparar nas ruínas daquilo que conscienciosamente destruiu, pois ela reserva a seus membros uma única e dolorosa alternativa: continuar se agarrando a valores que não mais se objetivam nas produções, instituições e comportamentos sociais – valores que carecem, pois, de qualquer visibilidade, que são continuamente desacreditados pela lógica social; ou, então, viver uma vida ancorada na efemeridade e na instabilidade dos «valores» disponíveis, na expectativa de um consumo e de uma fruição que não vêm para a maioria dos indivíduos, mas que condena a todos à frustração.

Mas, valeria a pena continuar buscando no trabalho um sentido que ele não pode fornecer? Parece-me que não! No entanto, isso não implica necessariamente – como tantos já pensaram – em adotar a atitude contrária, imaginando outro éden, este agora em que os homens estariam todos libertos do trabalho, do labor, da pena relativa à labuta diária. Em que condições poderá, então, a atividade do trabalho assegurar a necessária objetivação à existência humana, sem por isso cobrar dessa existência sua integral submissão ao que, por si só, carece de sentido?

Esse parece ser, a meu ver, o grande desafio da atualidade: a construção de sentidos mais duráveis, mas estáveis, mais generosos para a existência depende da reconstrução dos laços sociais, e esses, por sua vez, se tecem pela experiência de participação em uma obra comum. Ser- me-á objetado que essa afirmação nada tem de novo, que há muito os sociólogos do trabalho já «descobriram» – pelo menos desde meados do século passado – que a valorização das relações humanas, o cuidado com o outro, o estabelecimento de condições de trabalho satisfatórias eram essenciais para o desempenho do trabalhador. Mas, a rigor, esses sociólogos jamais puderam comprovar suas teses; muito ao contrário, face à crise do trabalho, que não previram, elas revelaram- se inteiramente infundadas.

Ora, onde essa sociologia errou foi em acreditar que se poderia extrair da lógica do trabalho moderno um sentido de humanização que limitasse seus excessos, que suavizasse sua inflexível busca de lucro, que ponderasse sua irrefreável tendência a tudo reduzir ao critério da produtividade. Em outras palavras, errou em buscar justificar pelas próprias exigências do trabalho uma ética de humanização, em propor uma compatibilidade entre a ética e as exigências de eficácia e rendimento. Não nos preocupamos com a felicidade dos outros porque isso nos tornará mais eficazes e racionais, mas porque somos humanos, e escolhemos nos preocupar com os humanos; não investimos na autoconstrução humana porque essa é uma exigência do desenvolvimento técnico e científico, pelos ganhos materiais que daí advirão, mas porque decidimos acreditar que o desenvolvimento técnico e científico, que os ganhos materiais não têm sentido em si, mas só valem a pena ser buscados se deles puder usufruir toda a sociedade.

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Em suma, a ética que pode, hoje ainda, significar o trabalho depende de outra coisa, que não é o próprio trabalho, por si só: depende de uma decisão que, tomada solitariamente, é insuportável; depende da consciência de que o sentido da existência individual se ancora nos sentidos coletivamente construídos; depende da decisão de conceber a verdadeira finalidade da atividade humana no mundo como sendo muito mais do que a produção de bens materiais ou imaterais; como sendo, antes de tudo, o da auto-criação, por parte de cada humano, de sentidos mais generosos para sua existência individual e coletiva. E como dessa auto-criação, o outro tem, necessariamente, que participar, penso que a ética depende, finalmente, da decisão de abandonar os móveis de fruição e gozo individuais pelo projeto de construção comum da sociedade em que habitaremos.

03- Vida social e comunicação

Vida social é um padrão de comportamento que envolve o indivíduo e a sociedade, caracterizado pela suas inter-relações. De modo simplificado, a vida social é o contato com amigos, o conhecimento de novas pessoas e a visão que os outros têm sobre a pessoa na sociedade, que o motiva a aprender coletivamente e perceber responsabilidades e compromissos sociais.

Em Sociologia, uma sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade. A sociedade é objeto de estudo comum entre as ciências sociais, especialmente a Sociologia, a História, a Antropologia e a Geografia.

Em Biologia, sociedade é um grupo de animais que vivem em conjunto, tendo algum tipo de organização e divisão de tarefas, sendo objeto de estudo da Sociobiologia.

Uma sociedade é um grupo de indivíduos que formam um sistema semi-aberto, no qual a maior parte das interações é feita com outros indivíduos pertencentes ao mesmo grupo. Uma sociedade é uma rede de relacionamentos entre pessoas. Uma sociedade é uma comunidade interdependente. O significado geral de sociedade refere-se simplesmente a um grupo de pessoas vivendo juntas numa comunidade organizada.

A origem da palavra sociedade vem do latim societas, uma "associação amistosa com outros". Societas é derivado de socius, que significa "companheiro", e assim o significado de sociedade é intimamente relacionado àquilo que é social. Está implícito no significado de sociedade que seus membros compartilham interesse ou preocupação mútuas sobre um objetivo comum. Como

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tal, sociedade é muitas vezes usado como sinônimo para o coletivo de cidadãos de um país governados por instituições nacionais que lidam com o bem-estar cívico. Pessoas de várias nações unidas por tradições, crenças ou valores políticos e culturais comuns, em certas ocasiões também são chamadas de sociedades (por exemplo, Judaico-Cristã, Oriental, Ocidental etc.). Quando usado nesse contexto, o termo age como meio de comparar duas ou mais "sociedades" cujos membros representativos representam visões de mundo alternativas, competidoras e conflitantes.

Também, alguns grupos aplicam o título "sociedade" a eles mesmos, como a "Sociedade Americana de Matemática". Nos Estados Unidos, isto é mais comum no comércio, em que uma parceria entre investidores para iniciar um negócio é usualmente chamada de uma "sociedade". No Reino Unido, parcerias não são chamadas de sociedade, mas cooperativas.

Margaret Thatcher não foi a única a dizer que não existe sociedade. Ainda há um debate em andamento nos círculos antropológicos e sociológicos sobre se realmente existe uma entidade que poderíamos chamar de sociedade. Teóricos marxistas como Louis Althusser, Ernesto Laclau e Slavoj Zizek argumentam que a sociedade nada mais é do que um efeito da ideologia dominante e não deveria ser usada como um conceito sociológico.

Tendo como fio condutor as análises que procuram discutir como se dão as relações que as pessoas mantêm com o seu tempo, este texto busca examinar os vínculos entre tempo, indivíduo e vida social, acentuando, principalmente, as diferenças existentes entre uma vivência orientada pela perspectiva do futuro, característica da modernidade, e outra que, centrada no momento presente, para alguns analistas, indicaria o nascimento de uma nova ordem social. Será também avaliada a hipótese que aponta para a emergência de um novo tempo social dominante e de novas formas de manifestação da individualidade, elementos que caracterizariam o surgimento dessa nova ordem.

O tempo social dominante de uma sociedade é aquele que lhe permite cumprir os atos necessários para a produção dos meios que garantem sua sobrevivência, possibilitando a criação, manifestação, realização e atualização de seus valores fundamentais.

Os procedimentos envolvidos nesse processo qualificam aqueles que os utilizam, a sociedade em que vigoram e as relações sociais que desencadeiam.

Em cada tipo de coletividade, e em todos os níveis, a satisfação das existentes e a criação de novas necessidades, a transmissão à descendência do modo adequado de ser e da maneira desejável de agir, atribui significados, faz nascer valores que passam a ser compartilhados, constituindo modos de vida e tipos de sociabilidade.

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A forma pela qual uma dada sociedade garante a manutenção da vida, expressa no seu

modo de produzir, nas regras que a organizam e nas principais atividades exigidas por essa produção, interfere sobre o seu ritmo temporal e indica qual é o tempo que nela predomina. Como as atividades que são secundárias para a definição desse processo articulam-se em torno dele, os tempos sociais em que essas atividades se desenvolvem: articulam-se em torno do tempo social dominante e submetem-se a seu ritmo. As mais diferentes teorias sociais qualificam a ordem social moderna como "sociedade do trabalho", exatamente porque reconhecem na categoria trabalho sua dinâmica central. O tempo do trabalho – regular, homogêneo, contínuo, exterior, coercitivo, linear e abstrato – é o tempo social nela dominante. Por conseguinte, qualquer dos outros tempos sociais existentes, referentes a atividades que não são determinantes para sua caracterização, é penetrado por esses traços, que adquirem a conotação de identificadores do tempo. Pessoas e instituições lhe estão submetidos, fazendo com que a própria definição de ser social – individual e coletivo – sofra a mediação dos conceitos de trabalho e tempo de trabalho.

Entretanto, atualmente, o trabalho vem sendo questionado como valor central da vida social, tanto objetiva como subjetivamente. É identificada uma crise, ligada ao fim da percepção da categoria trabalho como dimensão qualificadora da sociedade, e do tempo a ele referente, como tempo dominante, sugerida a transição para um novo conjunto de significados, a emergência de uma nova ordem e, em decorrência, de um novo tempo social dominante, ainda que não plenamente configurados.

A perspectiva temporal, como a concebemos, só se concretizou quando, além da percepção

de um ontem, referente ao passado, e de um hoje, relativo ao presente, tornou-se possível pensar a emergência de um amanhã que pudesse, realmente, representar uma alternativa futura ao que

existia. A forma com que nos habituamos a perceber o mundo e nele viver tornou-se vigente somente quando, não apenas individualmente, mas também em termos sociais, surgiu a possibilidade efetiva de apreensão dessa tripla dimensão temporal.

Substituindo um andamento cíclico, o surgimento de um tempo tridimensional, marcado pela distinção entre passado, presente e futuro, é um dos elementos qualificadores da vida moderna. O presente identifica o momento no qual, amparada pela experiência do passado e lançando mão da razão, a humanidade projetaria o seu futuro.

A própria relevância do tempo "depende[ria] da capacidade de interrelacionar o passado e o

futuro no presente" (4 apud 5). A emergência da possibilidade de uma visão histórica do (e no) mundo estaria, portanto, vinculada ao surgimento dessa forma de percepção temporal.

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Ainda mais importante, a idéia de progresso, a crença no planejamento como controle racional dos processos sociais e na possibilidade de construção de um projeto, coletivo ou individual, só passaram a atuar na orientação das condutas humanas a partir do momento em que o futuro passou a ser prefigurado, almejado, buscado. Dessa forma, a sociedade moderna e seus valores básicos estão referidos à crença na possibilidade de um futuro visualizado no presente e a partir deste construído, de um futuro pressentido como abertura – um possível configurado pela ação humana.

Em contraste, atualmente, alguns autores afirmam que a memória histórica já não está viva. Para eles, a intensificação crescente do ritmo temporal implica que já não se tenha memória do passado e esteja cada vez mais distante a possibilidade de um futuro. O esforço para manter-se em dia com o seu próprio tempo provoca, nas pessoas, o afastamento dos padrões significativos do passado, sem que suas próprias referências de valor se enraízem; com isso, as perspectivas de um (possível) futuro ficam também obscurecidas. Do mesmo modo, a experiência do passado já não garante a base para atuação no presente.

passado já não garante a base para atuação no presente. Beck afirma que, na sociedade contemporânea,

Beck afirma que, na sociedade contemporânea, entendida por ele como sociedade de risco, "o passado perde o poder de determinar o presente; seu lugar é tomado pelo futuro". Dessa forma, algo inexistente, inventado, fictício aparece como causa de uma experiência atual. "Tornamo-nos ativos, hoje, para prevenir, aliviar ou tomar precauções contra crises e problemas de amanhã e de depois de amanhã" e é notável a rapidez com que ocorre a obsolescência das formas de fazer, de agir e/ou de pensar.

Sua análise ressalta a transformação crucial em curso na própria noção de tempo, acentuando que a consciência do risco repousa não no presente, mas no futuro: em conseqüência, é necessário projetar o que virá depois a fim de determinar e organizar (agora) as ações. Esse segundo ponto deve ser enfatizado: para prevenir riscos, o futuro deve ser antecipado, de forma a gerar ações preventivas no presente. Dessa forma, mesmo considerando que, como no passado, o

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futuro ainda aparece como dimensão importante, hoje, é o presente o tempo acentuado, enquanto, anteriormente, o futuro a ser construído aparecia como a dimensão temporal forte.

Paralelamente, a destruição do passado surge como um dos fenômenos mais terríveis do século XX – perdem-se os mecanismos sociais capazes de vincular a experiência pessoal da atual geração à das gerações passadas. Ao mesmo tempo, os jovens contemporâneos parecem habitar uma espécie de presente contínuo, expresso na vivência repetida do agora, a busca desenfreada do momento atual. Aliás, essa é uma característica da vida contemporânea: a busca intensificada do prazer, a necessidade de viver para o momento, "viver para si, não para os que virão a seguir, ou para a posteridade".

A intensificação dessa percepção do presente é também expressa na idéia de que "a categoria temporal do futuro é suprimida e substituída pela do presente prolongado", um presente ampliado, que passa a absorvê-lo. Problemas que, antes, podiam ser remetidos a um tempo futuro, penetram o presente, impõem soluções que poderiam esperar o amanhã, mas exigem ser tratadas hoje mesmo. Dessa forma, o futuro não mais oferece o campo livre para a projeção dos desejos, esperanças e crenças, cada vez mais obscurecido pelas questões do momento, criando uma dinâmica própria do presente, que se torna seu próprio centro.

Fala-se na falência da perspectiva do futuro, sentimento disseminado que estaria na raiz do desencantamento e da desesperança que caracteriza(ria)m não só a vivência das novas gerações mas contaminam a totalidade da vida contemporânea. Diferentemente das sociedades tradicionais, centradas no passado, ou daquelas orientadas para o futuro, o presente é(seria), atualmente, cada vez mais privilegiado.

Eis aqui, portanto, o problema: o nosso seria um tempo de dissolução dos elementos que, há pelo menos três séculos, tem constituído a base temporal em que ocorrem os processos sociais. Essa constatação sugere estar em curso uma assustadora re-significação do tempo, caracterizada pela crescente desvalorização cultural do passado, a progressiva perda de perspectiva e de esperança em relação ao futuro, e a acentuação exasperada da vivência do presente, preenchido exaustivamente.

Portanto, não haveria mais passado ou futuro, e, considerando que, sem conexão com o que foi e com o que está por vir, rigorosamente, o presente acaba por não ter existência e que um tempo unidimensional não pode, a rigor, receber essa qualificação, tampouco se poderia falar em presente, pois "um presente eterno não pode ser um presente" (13 apud 5). Essa assertiva aplicar- se-ia tanto aos conjuntos quanto aos indivíduos. Lasch, por exemplo, salienta que o homem

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psicológico do século XX nega o passado e tem dificuldade de enfrentar o futuro, o que acarreta a perda de significado do próprio presente.

Tem sido sugerido que atingimos um momento em que própria sobrevivência da sociedade, da forma que aprendemos a percebê-la, está ameaçada. A desintegração dos velhos padrões de

relacionamento humano e, com ela, a quebra dos elos entre gerações, entre passado e presente, foi

a mudança mais perturbadora ocorrida no século XX. Castoriadis, entre outros, já havia tratado de

questão semelhante, lembrando a necessidade do restabelecimento desses vínculos, a fim de que não naufraguem os valores da civilização, não se instale a barbárie nas relações humanas e possa ser superada a crise no processo de identificação, que se manifesta atualmente.

Sem dúvida, as alterações que se processam nas formas de produção da vida, por um lado,

e na percepção e vivência da temporalidade, bem como na dimensão temporal que é valorizada, por

outro, repercutem no processo de constituição dos indivíduos do nosso tempo, na própria maneira como se vêm e àqueles com os quais compartilham o mesmo sentido de tempo.

É necessário lembrar que um dos traços marcantes da relação entre indivíduo e tempo, característica da modernidade, era a possível construção do traçado da própria vida pelos indivíduos. Tratava-se, pois, da afirmação bem sucedida de suas próprias capacidades, implicando que seu futuro podia ser, pelo menos em parte, escolhido livremente, com a ênfase incidindo sobre a escolha livre.

Essa forma de conceber a trajetória individual afastava a crença – atuante desde a antigüidade até o Renascimento –, em um destino inexorável, irrevogável e imutável que, mesmo conhecido previamente, não podia ser evitado, o que exigia das pessoas, para serem bem sucedidas, que atuassem de modo adequado, conformando-se a (e com) ele. A idéia da sociedade de/do risco, trabalhada por Beck, traz de volta a idéia do destino, ainda que de forma não idêntica. "Agora, na civilização desenvolvida, existe uma espécie de destino de risco, no interior do qual se nasce, do qual não se pode escapar, com a pequena diferença (que tem um grande efeito) que estamos todos igualmente confrontados com ele.".

Presentemente, tem sido com freqüência questionada a possibilidade da existência de pessoas com as qualidades e características louvadas pelo discurso moderno, em seus primórdios:

indivíduos capazes de serem livres para alcançarem um grau mais alto de verdade, condição que traduzia o ideal ocidental do que significava ser humano. Em outras palavras, cada vez mais, tem-se duvidado que, em nosso tempo, ainda seja factível a emergência de seres humanos racionais, livres

e iguais, nos quais se tenham desenvolvido, de maneira equilibrada, os sentidos de alteridade e de

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pertença. Pessoas que sejam orientadas para o futuro, capazes de, mediante atos voluntários, sacrificarem a satisfação imediata de seus desejos, em nome da segurança e da preservação - material e moral - da própria existência. Na emergência da modernidade, a habilidade em utilizar a experiência do passado para conhecer o presente e, dessa forma, poder antecipar racionalmente uma sociedade alternativa futura, pela mediação de um projeto transformador, distinguia o indivíduo, era o cerne da manifestação da individualidade. Esta se caracterizava pela capacidade de pensar e de agir autonomamente, de dar início ao novo, pela capacidade de previsão e provisão do próprio futuro e daqueles que eram próximos, tendo um horizonte que ultrapassava, de longe, a expectativa de vida de alguém, tomado isoladamente.

Ainda durante o período da II Grande Guerra, Horkheimer já havia sugerido serem cada vez mais difíceis as possibilidades de planejar o futuro. Acreditava que o "indivíduo contemporâneo pode[ria] ter mais oportunidades do que seus ancestrais, mas suas perspectivas concretas têm prazo cada vez mais curtos, [uma vez que o] futuro não entra rigorosamente em suas transações.".

Esse impedimento, já percebido em meados do século XX, desdobrou-se em uma situação incomparavelmente mais complexa, no início do século XXI. Hoje, é difícil visualizar um futuro factível, as perspectivas parecem inexistentes, circunstância vivenciada como ameaça de derrota, unida à sensação do retorno de um destino irrevogável, contra o qual não há oposição possível.

Além dessa, uma outra questão está presente, ligada à crescente dificuldade que as pessoas têm de valorizar o tempo disponível como aquele em que se torna possível a realização de expectativas, a fruição do que se almeja, a expressão de si naquilo que é feito. No mesmo momento em que o valor realização de si emerge como um dos pontos principais de manifestação da individualidade, acentuam-se as contradições inerentes ao processo de individualização contemporâneo, atuante num processo societário que torna a autonomização individual crescentemente impossível.

Explico-me. O indivíduo se efetiva, ao lado da identidade genérica derivada do fato de ser membro da espécie humana, pelo talento e possibilidade que demonstra de cultivar, em si, aquelas qualidades que o tornam único e singular. No século XIX, atingia o status de indivíduo, na acepção forte do termo, aquela pessoa capaz de constituir a si mesma enquanto obra, aplicando-se cotidiana e continuamente ao cultivo daqueles traços que a distinguissem das outras, sem qualquer equívoco. Essa tarefa, simultaneamente estressante e dignificadora, imprimia um sentido à vida de cada um, comportando busca consciente, planejamento deliberado e liberdade de escolha.

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Nesse registro, trabalhar era sinônimo de disciplina, dignidade, auto-estima, bem-estar, progresso, conquista de autonomia. Sucesso ou fracasso dependia do tipo de trabalho exercido e da atitude de cada um diante dele. A possibilidade de trabalhar (acreditava-se) estava aberta para todos os que se dispunham a conquistar seu lugar no mundo, (bem) utilizando suas capacidades e habilidades.

A situação atual mudou, em vários sentidos. De um lado, ocorre que, hoje, cada vez mais intensamente, cresce o número de pessoas que, embora procurando trabalhar, não conseguem colocação e não contam com qualquer outra forma de sobrevivência. Assim, ainda que, objetivamente, haja condições para que disponham de mais tempo livre e possam preenchê-lo de forma mais independente, aumenta o número daqueles que, ao invés de tempo livre, vivem um tempo sem ocupação, sentem-se pressionados pela condição de não-trabalho e, portanto, impedidos de crescerem enquanto indivíduos.

Por outro lado, a utilização do tempo livre com atividades prazerosas e significativas – vinculadas ao trabalho, ao estudo, à arte ou ao artesanato – não é mais capaz de preencher as expectativas das pessoas. Aparentemente, a dimensão do consumo ocupa todos os domínios, inclusive o tempo livre. Ainda no mesmo registro, é possível constatar que o foco preferencial no agora impõe uma vida social em que, quanto mais amigos se têm, menos tempo é possível dedicar a cada um, os relacionamentos são efêmeros, mesmo sendo intensos, os laços sociais são, continuamente, produzidos, reproduzidos e consumidos, e é muito difícil compartilhar narrativas e experiências.

Tempo, individualidade, vida social. Aparentemente, dizendo respeito a processos ultrapassados, são noções que supostamente já não possibilitam compreender o momento histórico em que vivemos e, em conseqüência, interferir sobre as condições que o constituem. Entretanto, mesmo reconhecendo que as mudanças em curso não permitem, como parecia se dar anteriormente, que a apreensão das situações se processe em noções mais ou menos cristalizadas, é imensa a dificuldade de projetar uma nova percepção do tempo, uma estruturação diversa da vida social, uma noção de indivíduo radicalmente distinta.

Sem dúvida, o momento em curso é crucial. Entretanto, o que talvez deva ser acentuado é que, hoje, está havendo uma radicalização tão intensa das características atribuídas ao tempo, ao indivíduo e à vida social, desde o início dos tempos modernos, que parece alterar sua qualidade. Em conseqüência, diferentemente do que, no passado, era anunciado como condição generalizável, o

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processo de individualização/individuação está agora restrito àqueles(as) poucos(as) capazes de sucesso na criação de suas personalidades e de atribuição de significado e dignidade às suas vidas.

Diante das questões suscitadas pelas considerações acima, à guisa de conclusão, emprego

palavras utilizadas num outro contexto: "No centro (

contemporânea, de seus valores e significados, e do tempo no qual operam] não está um novo tipo de sociedade, mas um novo tipo de indivíduo, que não cultiva nem a nostalgia de um passado dourado, nem a esperança por um futuro redentor, mas que, possuindo uma 'inflexibilidade treinada para enxergar as realidades da vida', está apto para responder 'às demandas do dia.".

[da profunda transformação da vida social

)

04- Histórico das políticas de saúde do Brasil

A História do Brasil é um domínio de estudos de História focado na evolução do território e organização social do Brasil que, canonicamente, se estende da chegada dos portugueses até os dias atuais. No entanto, este artigo também contém informações sobre a pré-história do Brasil, ou seja, o período em que não houve registros escritos sobre as atividades desenvolvidas pelos povos indígenas no Brasil.

O primeiro europeu a chegar nas terras que hoje formam o Brasil foi o espanhol Vicente Yáñez Pinzón no dia 26 de Janeiro de 1500. Apesar disso oficialmente o Brasil foi descoberto em 22 de Abril de 1500 pelo navegador português Pedro Álvares Cabral, que, no comando de uma esquadra com destino à Índia, chegou ao litoral sul da Bahia, na região da atual cidade de Porto Seguro, mais precisamente no distrito de Coroa Vermelha, onde foi realizada a primeira missa no Brasil. A partir de 1530, a Coroa Portuguesa implementou uma política colonizadora, inicialmente com as capitanias hereditárias, depois com o governo geral, instalado em 1548.

No final do século XVII foram descobertas ricas jazidas de ouro nos atuais estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso que foi determinante para o povoamento do interior do Brasil. Em 1789, quando a Coroa portuguesa anunciava a derrama, medida para cobrar supostos impostos atrasados, eclodiu em Vila Rica (atual Ouro Preto) a Inconfidência Mineira. A revolta fracassou e, em 1792, um de seus líderes, Tiradentes, morreu enforcado.

No início do século XIX, com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte, o regente Dom João VI abriu os portos do país, permitiu o funcionamento de fábricas e fundou o Banco do Brasil. Com isso, o país tornou-se Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e Dom João VI, coroado rei. Logo depois voltou para Portugal, deixando seu filho mais velho, Dom Pedro I do Brasil, como regente do país.

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Em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro proclamou a independência e reinou até 1831, quando foi sucedido por seu herdeiro, Dom Pedro II, que tinha apenas cinco anos. Aos catorze anos em 1840, Dom Pedro II teve sua maioridade declarada, sendo coroado imperador no ano seguinte. No final da primeira década do Segundo Reinado, o regime estabilizou-se. As províncias foram pacificadas e a última grande insurreição, a Revolta Praieira, foi derrotada em 1849. Nesse mesmo ano, o imperador extingue o tráfico de escravos. Aos poucos, os imigrantes europeus assalariados substituíram os escravos. No contexto geopolítico, o Brasil se alia à Argentina e Uruguai e entra em guerra contra o Paraguai. No final do conflito, quase dois terços da população paraguaia estava morta. A participação de negros e mestiços nas tropas brasileiras na Guerra do Paraguai deu grande impulso ao movimento abolicionista e ao declínio da monarquia. Pouco tempo depois, em 1888, a princesa Isabel, filha de Dom Pedro II, assina a Lei Áurea, que extingue a escravidão. Ao abandonar os proprietários de escravos, sem os indenizar, o império brasileiro perde a última base de sustentação.

Em 15 de novembro de 1889, ocorre a proclamação da república pelo marechal Manuel Deodoro da Fonseca e tem início a República Velha, terminada em 1930 com a chegada de Getúlio Vargas ao poder. A partir daí, a história do Brasil destaca a industrialização do Brasil e a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Estados Unidos; o movimento militar de 1964, onde o general Castelo Branco assumiu a presidência.

O Regime Militar, a pretexto de combater a subversão e a corrupção, suprimiu direitos constitucionais, perseguiu e censurou os meios de comunicação, extinguiu os partidos políticos e criou o bipartidarismo. Após o fim do regime militar, os deputados federais e senadores se reuniram , em 1988, em assembléia nacional constituinte e promulgaram a nova Constituição, que amplia

Periodização. A periodização tradicional divide a História do Brasil normalmente em quatro períodos gerais:

Ano

Período

Antes de

Pré-

1500

Descobrimento

1500

a

1822

Colônia

1822

a

1889

Império

Depois

República

de

1889

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Período pré-descobrimento (até 1500)

Quando descoberto pelos portugueses em 1500, estima-se que o atual território do Brasil (a costa oriental da América do Sul), era habitado por 2 milhões de indígenas, do norte ao sul.

A população ameríndia era repartida em grandes nações indígenas compostas por vários grupos étnicos entre os quais se destacam os grandes grupos tupi-guarani, macro-jê e aruaque. Os primeiros eram subdivididos em guaranis, tupiniquins e tupinambás, entre inúmeros outros. Os tupis se espalhavam do atual Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte de hoje. Segundo Luís da Câmara Cascudo, os tupis foram «a primeira raça indígena que teve contacto com o colonizador e (…) decorrentemente a de maior presença, com influência no mameluco, no mestiço, no luso-

brasileiro que nascia e no europeu que se fixava». A influência tupi se deu na alimentação, no idioma, nos processos agrícolas, de caça e pesca, nas superstições, costumes, folclore, como explica

Cascudo:

«O tupi era a raça histórica, estudada pelos missionários, dando a tropa auxiliar, recebendo

o batismo e ajudando o conquistador a expulsar inimigos de sua terra. (…) Eram os artífices da rede de dormir, criadores da farinha de mandioca, farinha de pau, do complexo da goma de mandioca, das bebidas de frutas e raízes, da carne e peixe moqueados, elementos que possibilitaram o avanço branco pelo sertão».

Do lado europeu, a descoberta do Brasil foi precedida por vários tratados entre Portugal e Espanha, estabelecendo limites e dividindo o mundo já descoberto do mundo ainda por descobrir.

Destes acordos assinados à distância da terra atribuída, o Tratado de Tordesilhas (1494) é o mais importante, por definir as porções do globo que caberiam a Portugal no período em que o Brasil foi colônia portuguesa.

Estabeleciam suas cláusulas que as terras a leste de um meridiano imaginário que passaria

a 370 léguas marítimas a oeste das ilhas de Cabo Verde pertenceriam ao rei de Portugal, enquanto as terras a oeste seriam posse dos reis de Castela (atualmente Espanha).

No atual território do Brasil, a linha atravessava de norte a sul, da atual cidade de Belém do Pará à atual Laguna, em Santa Catarina. Quando soube do tratado, o rei de França Francisco I teria

indagado qual era "a cláusula do testamento de Adão" que dividia o planeta entre os reis de Portugal

e Espanha e o excluía da partilha.

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Período colonial (1500-1808)

A chegada dos portugueses

O período compreendido entre o Descobrimento do Brasil em 1500, (chamado pelos portugueses de Achamento do Brasil), até a Independência do Brasil, é chamado, no Brasil, de Período Colonial. Os portugueses, porém, chamam este período de A Construção do Brasil, e o estendem até 1825 quando Portugal reconheceu a independência do Brasil.

No dia 22 de abril de 1500, o então português Pedro Álvares Cabral, saindo de Lisboa, iniciou viagem para oficialmente descobrir e tomar posse das novas terras para a Coroa, e depois seguir viagem para a Índia, contornando a África para chegar a Calecute. Levava duas caravelas e

13 naus, e por volta de 1 500 homens - entre os mais experientes Nicolau Coelho, que acabava de

regressar da Índia; ] Bartolomeu Dias, que descobrira o cabo da Boa Esperança, e seu irmão Diogo Dias, que mais tarde Pero Vaz de Caminha descreveria dançando na praia em Porto Seguro com os índios, «ao jeito deles e ao som de uma gaita». As principais naus se chamavam Anunciada, São edro, Espírito Santo, El-Rei, Santa Cruz, Fror de la Mar, Victoria e Trindade. O vice-comandante da frota era Sancho de Tovar e outros capitães eram Simão de Miranda, Aires Gomes da Silva, Nuno Leitão, Vasco de Ataíde, Pero Dias, Gaspar de Lemos, Luís Pires, Simão de Pina, Pedro de Ataíde, de alcunha o inferno, além dos já citados Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias. Por feitor, a armada trazia Aires Correia, que havia de ficar na Índia, e por escrivães Gonçalo Gil Barbosa e Pero Vaz de Caminha. Entre os pilotos, que eram os verdadeiros navegadores, vinham Afonso Lopes e Pero Escobar. Diz a Crônica do Sereníssimo Rei D. Manuel I:

«E, porque el Rei sempre foi mui inclinado às coisas que tocavam a nossa Santa fé católica, mandou nesta armada oito frades da ordem de S. Francisco, homens letrados, de que era Vigário frei Henrique, que depois foi confessor del Rei e Bispo de Ceuta, os quais como oito capelães e um vigário, ordenou que ficassem em Calecut, para administrarem os sacramentos aos portugueses e aos da terra se se quisessem converter à fé.»

Âncoras levantadas em Lisboa, a frota passou por São Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, em 16 de março. Tinham-se afastado da costa africana perto das Canárias, tocados pelos ventos alísios em direção ao ocidente. Em 21 de abril, da nau capitânea avistaram-se no mar,

boiando, plantas. Mais tarde surgiram pássaros marítimos, sinais de terra próxima. Ao amanhecer de

22 de abril ouviu-se um grito de "terra à vista", pois se avistou o monte que Cabral batizou de Monte

Pascoal, no litoral sul da atual Bahia.

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Ali aportaram as naus, discutindo-se até hoje se teria sido exatamente em Porto Seguro ou em Santa Cruz Cabrália (mais precisamente no ilhéu de Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália), e fizeram contato com os tupiniquins, indígenas pacíficos. A terra, a que os nativos chamavam Pindorama ("terra das palmeiras"), foi a princípio chamada pelos portugueses de Ilha de Vera Cruz e nela foi erguido um padrão (marco de posse em nome da Coroa Portuguesa). Mais tarde, a terra seria rebatizada como Terra de Santa Cruz e posteriormente Brasil. Estava situada 5.000 km ao sul das terras descobertas por Cristóvão Colombo em 1492 e 1.400 quilômetros aquém da Linha de Tordesilhas. Sérgio Buarque de Holanda descreve, em História Geral da Civilização Brasileira:

«Tendo velejado para o norte, acharam dez léguas mais adiante um arrecife com porto dentro, muito seguro. No dia seguinte, sábado, entraram os navios no porto e ancoraram mais perto da terra. O lugar, que todos acharam deleitoso, proporcionava boa ancoragem e podia abrigar mais de 200 embarcações. Alguma gente de bordo foi à terra, mas não pode entender a algaravia dos habitantes, diferente de todas as línguas conhecidas».

No dia 26 de abril, um domingo (o de Pascoela), foi oficiada a primeira missa no solo brasileiro por frei Henrique Soares (ou frei Henrique de Coimbra), que pregou sobre o Evangelho do dia. Batizaram a terra como Ilha da Vera Cruz no dia 1 de maio e numa segunda missa Cabral tomou posse das terras em nome do rei de Portugal. No mesmo dia, os navios partiram, deixando na terra pelo menos dois degredados e dois grumetes que haviam fugido de bordo. Cabral partiu para a Índia pela via certa que sabia existir a partir da costa brasileira, isto é, cruzou outra vez o Oceano Atlântico e costeou a África.

O rei D. Manuel I recebeu a notícia do descobrimento por cartas escritas por Mestre João, físico e cirurgião de D. Manuel e Pero Vaz de Caminha, semanas depois. Transportadas na nau de Gaspar de Lemos, as cartas descreviam de forma pormenorizada as condições geográficas e seus habitantes, desde então chamados de índios. Atento aos objetivos da Coroa na expansão marítima, Caminha informava ao rei:

«Nela até agora não podemos saber que haja ouro nem prata, nem alguma coisa de metal nem de ferro lho vimos; pero a terra em si é de muitos bons ares, assi frios e temperados como os d'antre Doiro e Minho, porque neste tempo de agora assi os achamos como os de lá; águas são muitas infindas e em tal maneira é graciosa, que querendo aproveitar-se dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem; pero o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente (…) boa e de boa simplicidade».

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Damião de Góis narra o descobrimento em sua língua renascentista:

«Navegando a loeste, aos xxiiij dias do mes Dabril viram terra, do que forão muito alegres, porque polo rumo em que jazia, vião não ser nenhuma das que até então eram descubertas. Padralures Cabral fez rosto para aquela banda & como forão bem à vista, mandou ao seu mestre que no esquife fosse a terra, o qual tornou logo com novas de ser muito fresca & viçosa, dizendo que vira andar gente baça & nua pela praia, de cabelo comprido & corredio, com arcos & frechas nas mãos, pelo que mandou alguns dos capitães que fossem com os bateis armados ver se isto era assi, os quaes sem sairem em terra tornaram à capitaina afirmando ser verdade o que o mestre dixera. Estando já sobrancora se alevantou de noite hum temporal, com que correram de longo da costa ate tomarem hum porto muito bom, onde Pedralures surgio com as outras naos & por ser tal lhe pos nome Porto Seguro».

Além das cartas acima mencionadas, outro importante documento sobre o descobrimento do Brasil é o Relato do Piloto Anônimo. De início, a descoberta da nova terra foi mantida em sigilo pelo Rei de Portugal. O resto do mundo passou a conhecer o Brasil desde pelo menos 1507, quando a terra apareceu com o nome de América na carta (mapa) de Martin Waldseemüller, no qual está assinalado na costa o Porto Seguro.

Expedições exploratórias

Em 1501, uma grande expedição exploratória, a primeira frota de reconhecimento, com três naus, encontrou como recurso explorável apenas o pau-brasil, de madeira avermelhada e valiosa usada na tinturaria européia, mas fez um levantamento da costa. Comandada por Gaspar de Lemos, a viagem teve início em 10 de maio de 1501 e findaria com o retorno a Lisboa em 7 de setembro de 1502, depois de percorrer a costa e dar nome aos principais acidentes geográficos. Sobre o comandante, podem ter sido D. Nuno Manuel, André Gonçalves, Fernão de Noronha, Gonçalo Coelho ou Gaspar de Lemos, sendo este último o nome mais aceito. Em 1501, no dia 1 de novembro, foi descoberta a Baía de Todos os Santos, na atual Bahia, local que mais tarde seria escolhido por D. João III para abrigar a sede da administração colonial.

Alguns historiadores negam a hipótese de Gonçalo Coelho, que só teria partido de Lisboa em 1502. O Barão do Rio Branco, em suas Efemérides, fixa-se em André Gonçalves, que é a versão mais comumente aceita. Mas André Gonçalves fazia parte da armada de Cabral, que retornou a Lisboa quando a expedição de 1501 já partira para o Brasil e com ela cruzou na altura do arquipélago de Cabo Verde.

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Assim, diversos historiadores optam por Gaspar de Lemos, que entre junho e julho de 1500 havia chegado a Portugal com a notícia do descobrimento. O florentino Américo Vespúcio vinha como piloto na frota (e por seu nome seria batizado todo o continente, mais tarde). Depois de 67 dias de viagem, em 16 de agosto, a frota alcançou o que hoje é o Cabo de São Roque (Paraíba) e, segundo Câmara Cascudo, ali plantou o marco de posse mais antigo do Brasil. Houve, na ocasião, contatos entre portugueses e os índios potiguares.

Ao longo das expedições, os portugueses costumavam batizar os acidentes geográficos segundo o calendário com os nomes dos santos dos dias, ignorando os nomes locais dados pelos nativos. Em 1 de novembro (Dia de Todos os Santos), chegaram à Baía de Todos os Santos, em 21 de dezembro (dia de São Tomé) ao Cabo de São Tomé, em 1 de janeiro de 1502 à Baía da Guanabara (por isso batizada de "Rio de Janeiro") e no dia 6 de janeiro (Dia de Reis) à angra (baía) batizada como Angra dos Reis. Outros lugares descobertos foram a foz do rio São Francisco e o Cabo Frio, entre vários. As três naus que chegaram à Guanabara eram comandadas por Gonçalo Coelho, e nela vinha Vespúcio. Tomando a estreita entrada da barra pela foz de um rio, chamaram- na Rio de Janeiro, nome que se estendeu à cidade de São Sebastião que ali se ergueria mais tarde.

Em 1503 houve nova expedição, desta vez comandada (sem controvérsias) por Gonçalo Coelho, sem ser estabelecido qualquer assentamento ou feitoria. Foi organizada em função um contrato do rei com um grupo de comerciantes de Lisboa para extrair o pau-brasil. Trazia novamente Vespúcio e seis navios. Partiu em maio de Lisboa, esteve em agosto na ilha de Fernando de Noronha e ali afundou a nau capitânia, dispersando-se a armada. Vespúcio pode ter ido para a Bahia, passado seis meses em Cabo Frio, onde fez entrada de 40 léguas terra adentro. Ali teria deixado 24 homens com mantimentos para seis meses. Coelho, ao que parece, esteve recolhido na região onde se fundaria depois a cidade do Rio de Janeiro, possivelmente durante dois ou três anos.

Nessa ocasião, Vespúcio, a serviço de Portugal, retornou ao maior porto natural da costa brasileira, a Baía de Todos os Santos. Durante as três primeiras décadas, o litoral baiano, com suas inúmeras enseadas, serviu fundamentalmente como apoio à rota da Índia, cujo comércio de produtos de luxo – seda, tapetes, porcelana e especiarias – era mais vantajoso que os produtos oferecidos pela nova colônia. Nos pequenos e grandes portos naturais baianos, em especial no de Todos os Santos, as frotas se abasteciam de água e de lenha e aproveitavam para fazer pequenos reparos.

No Rio de Janeiro, alguns navios aportaram no local que os índios chamavam de Uruçu- Mirim, a atual praia do Flamengo. Junto à foz do rio Carioca (outrora abundante fonte de água doce) foram erguidas uma casa de pedra e um arraial, deixando-se no local degredados e galinhas. A

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construção inspirou o nome que os índios deram ao local (cari-oca, "casa dos brancos"), que passaria a ser o gentílico da cidade do Rio. O arraial, no entanto, foi logo destruído. Outras esquadras passariam pela Guanabara: a de Cristóvão Jacques, em 1516; a de Fernão de Magalhães (que chamou o local de Baía de Santa Luzia), em 1519, na primeira circunavegação do mundo; outra vez a de Jacques, em 1526, e a de Martim Afonso de Sousa, em 1531. Outras expedições ao litoral brasileiro podem ter ocorrido, já que desde 1504 são assinaladas atividades de corsários. Holanda, em Raízes do Brasil, cita o capitão francês Paulmier de Gonneville, de Honfleur, que permaneceu seis meses no litoral de Santa Catarina. A atividade de navegadores não-portugueses se inspirava doutrina da liberdade dos mares, expressada por Hugo Grotius em Mare liberum, base da reação européia contra Espanha e Portugal, gerando pirataria alargada pelos mares do planeta.

Extração de pau-brasil

O pau-brasil (que os índios tupis chamavam de ibirapitanga) era a principal riqueza de crescente demanda na Europa. Estima-se que havia, na época do descobrimento, mais de 70 milhões de árvores do tipo, abundando numa faixa de 18 km do litoral do Rio Grande do Norte até a Guanabara. Quase todas foram derrubadas e levadas para a Europa. A extração foi tanta que atualmente a espécie é protegida para não sofrer extinção.

Para explorar a madeira, a Coroa adotou a política de oferecer a particulares, em geral cristãos-novos, concessões de exploração do pau-brasil mediante certas condições: os concessionários deveriam mandar seus navios descobrirem 300 léguas de terra, instalar fortalezas nas terras que descobrissem, mantendo-as por três anos; do que levassem para o Reino, nada pagariam no primeiro ano, no segundo pagariam um sexto e no terceiro um quinto. Os navios ancoravam na costa, algumas dezenas de marinheiros desembarcavam e recrutavam índios para trabalhar no corte e carregamento das toras, em troca de pequenas mercadorias como roupas, colares e espelhos (prática chamada de "escambo"). Cada nau carregava em média cinco mil toras de 1,5 metro de comprimento e 30 quilogramas de peso.

Em 1503, toda a terra do Brasil foi arrendada pela coroa a Fernão de Noronha (ou Loronha), e outros cristãos-novos, produzindo 20 mil quintais de madeira vermelha. Segundo Capistrano de Abreu, em Capítulos da História Colonial, cada quintal era vendido em Lisboa por 2 ducados, mas levá-lo até lá custava apenas meio ducado. Os arrendatários pagavam 4 mil ducados à Coroa.

Comerciantes de Lisboa e do Porto enviavam embarcações à costa para contrabandearem pau-brasil, aves de plumagem colorida (papagaios, araras), peles, raízes medicinais e índios para escravizar. Surgiram, assim, as primeiras feitorias. O náufrago Diogo Álvares, o Caramuru,

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estabeleceu-se desde 1510 na barra da Baía de Todos os Santos, onde negociava com barcos portugueses e estrangeiros. Outra feitoria foi chamada de Aldeia Velha de Santa Cruz, próxima ao local da descoberta.

Além dos portugueses, seus rivais europeus, principalmente franceses, passaram a freqüentar a costa brasileira para contrabandear a madeira e capturar índios. Os franceses contrabandearam muito pau-brasil no litoral norte, entre a foz do rio Real e a Baía de Todos os Santos, mas não chegaram a estabelecer feitoria. Outro ponto de contrabando, sobretudo no século XVII, foi o Morro de São Paulo (Bahia). Até que Portugal estabelecesse o sistema de capitanias hereditárias, a presença mais constante na terra era dos franceses. Estimulados por seu rei, corsários passam a freqüentar a Guanabara à procura de pau-brasil e outros produtos. Ganharam a simpatia dos índios tamoios, que a eles se aliaram durante décadas contra os portugueses.

Portugal, verificando que o litoral era visitado por corsários e aventureiros estrangeiros, resolveu enviar expedições militares para defender a terra. Foram denominadas expedições guarda- costas, sendo mais marcantes as duas comandadas por Cristóvão Jacques, de 1516-1519 e 1526- 1528. Suas expedições tinham caráter basicamente militar, com missão de aprisionar os navios franceses que, sem pagar tributos à coroa, retiravam grandes quantidades do pau-brasil. A iniciativa teve poucos resultados práticos, considerando a imensa extensão do litoral e, como solução, Jacques sugeriu à Coroa dar início ao povoamento.

A expedição enviada em 1530 sob a chefia de Martim Afonso de Sousa tinha por objetivos

explorar melhor a costa, expulsar os franceses que rondavam o sul e as cercanias do Rio de Janeiro,

e estabelecer núcleos de colonização ou feitorias, como a estabelecida em Cabo Frio. Martim Afonso doou as primeiras sesmarias do Brasil.

Foram fundados por esta expedição os núcleos de São Vicente e São Paulo, onde o português João Ramalho vivia como náufrago desde 1508 e casara-se com a índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá. Em São Vicente foi feita em 1532 a primeira eleição no continente americano e instalada a primeira Câmara Municipal e a primeira vila do Brasil. A presença de Ramalho, que ajudava no contato com os nativos e instalara-se na aldeia de Piratininga, foi o que inspirou Martim Afonso a instalar a vila de São Vicente perto do núcleo que viria a ser São Paulo.

A mais polêmica expedição seria a de Francisco de Orellana que, em 1535, penetrando pela

foz do rio Orinoco e subindo-o, descreve que numa única viagem, em meio de um incrível emaranhado de rios e afluentes amazônicos, teria encontrado o rio Cachequerique, raríssima e incomum captura fluvial que une o rio Orinoco aos rios Negro e Amazonas.

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Administração colonial

Capitanias do Mar (1516-1532)

A administração das terras ultramarinas, que a princípio foi arrendada a Fernão de Noronha, agente da Casa Fugger (1503-1511), ficou a cargo direto da Coroa, que não conseguia conter as freqüentes incursões de franceses na nova terra. Por isso, em 1516, D. Manuel I e seu Conselho criam nos Açores e na Madeira as chamadas «capitanias do mar», por analogia com as estabelecidas no Oceano Índico. O objetivo fundamental era garantir o monopólio da navegação e a política do mare clausum (mar fechado). De dois em dois anos, o capitão do mar partia com navios para realizar um cruzeiro de inspeção no litoral, defendendo-o das incursões francesas ou castelhanas. No Brasil, teriam visitado quatro armadas.

As armadas de Jacques assinaram-se com insistência no rio da Prata. Também em 1516 ocorre a primeira tentativa de colonização metódica e aproveitamento da terra com base na plantação da cana (levada de Cabo Verde) e na fabricação do açúcar. Já devia ter havido algumas tentativas de capitanias e estabelecimentos em terra, pois em 15 de julho de 1526 o rei D. Manuel I autorizou Pedro Capico, "capitão de uma capitania do Brasil", a regressar a Portugal porque "lhe era acabado o tempo de sua capitania". Talvez Jacques tenha ido buscar Capico em Porto Seguro, pois a ele era justamente atribuída a fundação de uma feitoria no local, muito antes de ser doada como capitania a Pero do Campo Tourinho. Outras capitanias incipientes podem ter existido pelo menos em Pernambuco, Porto Seguro, Rio de Janeiro e São Vicente.

Roberto Simonsen (em História Econômica do Brasil, pág.120) comenta:

«Na terra de Santa Cruz, o valor e as possibilidades de comércio não justificavam (…) organizações da mesma importância» que as feitorias de Portugal na África. «Mesmo assim, foram instaladas, quer pelos concessionários do comércio do pau-brasil, quer pelo próprio governo português, várias feitorias, postos de resgate onde se concentravam, sob o abrigo de fortificações primitivas, os artigos da terra que as naus vinham buscar. São por demais deficientes até hoje as notícias sobre estas feitorias, Igaraçu, Itamaracá, Bahia, Porto Seguro, Cabro Frio, São Vicente e outras intermediárias, que desapareciam, ora esmagadas pelo gentio, ora conquistadas pelos franceses. Mas o próprio comércio do pau-brasil é uma demonstração de sua existência, e as notícias sobre a década anterior, de 1530, salientam a preocupação do Governo português de defendê-las.» Eram assim postos de resgate de caráter temporário, estabelecimentos efêmeros, assolados por entrelopos e corsários franceses, por selvagens. Por muitos anos cessará todo o

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interesse de Portugal pelo Brasil. O Brasil ficou ao acaso… Colonizar a nova terra seria dispendioso, sem lucro imediato. Portugal, no auge de sua técnica de navegação, de posse de feitorias fincadas em vastíssimas costas de oceanos, não tinha recursos humanos, com uma população estimada em um milhão de habitantes. Impunha-se uma atitude predominantemente fiscal. Havia o quê? Havia macacos, papagaios, selvagens nus e primitivos. Mas havia pau-brasil…»

João Ribeiro (em História do Brasil) diz que

«depois das primeiras explorações, as terras do Brasil tornaram-se constante teatro da pirataria universal. Especuladores franceses, alemães, judeus e espanhóis aqui aportam, comerciam com o gentio ou seelvajam-se e com eles convivem em igual barbaria. Os navegadores de todos os pontos aqui se aprovisionam ou se abrigam das tempestades. Aventureiros aqui desembarcam, e vivem à ventura, na companhia de degredados e foragidos. O que procura a corte portuguesa de D.

não é o

Manuel I são as riquezas do Oriente, e se alguma expedição aqui toca e se demora, ( Brasil que as atrai mas ainda a fascinação do Oriente.»

)

Capitanias hereditárias (1532-1549)

A apatia só iria cessar quando D. João III ascendeu ao trono. Na década de 1530, Portugal começava a perder a hegemonia do comércio na África Ocidental e no Índico. Circulavam insistentes notícias da descoberta de ouro e de prata na América Espanhola. Então, em 1532, o rei decidiu ocupar as terras pelo regime de capitanias, mas num sistema hereditário, pelo qual a exploração passaria a ser direito de família. O capitão e governador, títulos concedidos ao donatário, teria amplos poderes, dentre os quais o de fundar povoamentos (vilas e cidades), conceder sesmarias e administrar a justiça. O sistema de capitanias hereditárias implicava na divisão de terras vastíssimas, doadas a capitães-donatários que seriam responsáveis por seu controle e desenvolvimento, e por arcar com as despesas de colonização. Foram doadas aos que possuíssem condições financeiras para custear a empresa da colonização, e estes eram principalmente "membros da burocracia estatal" e "militares e navegadores ligados à conquista da Índia" (segundo Eduardo Bueno em "História de Brasil"). De acordo com o mesmo autor, a sugestão teria sido dada ao rei por Diogo de Gouveia, ilustre humanista português, e respondia a uma "absoluta falta de interesse da alta nobreza lusitana" nas terras americanas.

Foram criadas, nesta divisão, quinze faixas longitudinais de diferentes larguras que iam de acidentes geográficos no litoral até o Meridiano das Tordesilhas, e foram oferecidas a doze donatários. Destes, quatro nunca foram ao Brasil; três faleceram pouco depois; três retornaram a

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Portugal; um foi preso por heresia (Tourinho) e apenas dois se dedicam à colonização (Duarte Coelho em Pernambuco e Martim Afonso de Sousa na Capitania de São Vicente).

Das quinze capitanias originais, apenas as capitanias de Pernambuco e de São Vicente prosperaram. As terras brasileiras ficavam a dois meses de viagem de Portugal. Além disso, as notícias das novas terras não eram muito animadoras: na viagem, além do medo de "monstros" que habitariam o oceano (na superstição européia), tempestades eram freqüentes; nas novas terras, florestas gigantescas e impenetráveis, povos antropófagos e não havia nenhuma riqueza mineral ainda descoberta. Em 1536, chegou o donatário da capitania da Baía de Todos os Santos, Francisco Pereira Coutinho, que fundou o Arraial do Pereira, na futura cidade do Salvador, mas se revelou mau administrador e foi morto pelos tupinambás. Tampouco tiveram maior sucesso as capitanias dos Ilhéus e do Espírito Santo, devastadas por aimorés e tupiniquins.

Governo-Geral (1549-1580)

Tomé de Sousa

Após o fracasso do projeto de capitanias, o rei João III unificou as capitanias sob um Governo-Geral do Brasil e em 7 de janeiro de 1549 nomeou Tomé de Sousa para assumir o cargo de governador-geral. A expedição do primeiro governador chegou ao Brasil em 29 de março do mesmo ano, com ordens para fundar uma cidade para abrigar a sede da administração colonial. O local escolhido foi a Baía de Todos os Santos e a cidade foi chamada de São Salvador da Baía de Todos os Santos. As condições favoráveis da terra, o clima quente, o solo fértil, a excelente posição geográfica, fizeram com que o rei decidisse reverter a capitania para a Coroa (expropriando-a do donatário Pereira Coutinho). As tarefas de Tomé de Sousa eram tornar efetiva a guarda da costa, auxiliar os donatários, organizar a ordem política e jurídica na colônia. O governador organizou a vida municipal, e sobretudo a produção açucareira: distribuiu terras e mandou abrir estradas, além de fazer construir um estaleiro.

Desse modo, o Governo-Geral centralizou a administração colonial, subordinando as capitanias a um só governador-geral que tornasse mais rápido o processo de colonização. Em 1548, elaborou-se o Regimento do Governador-Geral, que regulamentava o trabalho do governador e de seus principais auxiliares - o ouvidor-mor (Justiça), o provedor-mor (Fazenda) e o capitão-mor (Defesa). O governador também levou ao Brasil os primeiros missionários católicos, da ordem dos jesuítas, como o padre Manuel da Nóbrega. Por ordens suas, ainda, foram introduzidas na colônia as primeiras cabeças de gado, de novilhos levados de Cabo Verde. Ao chegar à Bahia, Tomé de Sousa encontrou o velho Arraial do Pereira com seus moradores, e mudaram o nome do local para Vila

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Velha. Também moravam nos arredores o náufrago Diogo Álvares "Caramuru" e sua esposa Paraguaçu (batizada como Catarina), perto da capela de Nossa Senhora das Graças (hoje o bairro da Graça, em Salvador). Consta que Tomé de Sousa teria pessoalmente ajudado a construir as casas e a carregar pedras e madeiras para construção da capela de Nossa Senhora da Conceição da Praia, uma das primeiras igrejas erguidas no Brasil. Tomé de Souza visitou as capitanias do sul do Brasil, e, em 1553, criou a Vila de Santo André da Borda do Campo, transferida em 1560 para o Pátio do Colégio dando origem a cidade de São Paulo.

Duarte da Costa

Em 1553, a pedidos, Tomé de Sousa foi exonerado do cargo e substituído por Duarte da Costa, fidalgo e senador nas Cortes de Lisboa. Em sua expedição foram também 260 pessoas, incluindo seu fiho, Álvaro da Costa, e o então noviço José de Anchieta, jesuíta basco que seria o pioneiro na catequese dos nativos americanos.

A administração de Duarte foi conturbada. Já de início, a intenção de Álvaro em escravizar os indígenas, incluindo os catequizados, esbarrou na impertinência de Dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil. O governador interveio a favor do filho e autorizou a captura de indígenas para uso em trabalho escravo. Disposto a levar as queixas pessoalmente ao rei de Portugal, Sardinha partiu para Lisboa em 1556 mas naufragou na costa de Alagoas e acabou devorado pelos caetés antropófagos.

Durante o governo de Duarte da Costa, uma expedição de protestantes franceses se instalou permanentemente na Guanabara e fundou a colônia da França Antártica. Ultrajada, a Câmara Municipal da Bahia apelou à Coroa pela substituição do governador. Em 1556, Duarte foi exonerado, voltou a Lisboa e em seu lugar foi enviado Mem de Sá, com a missão de retomar a posse portuguesa do litoral sul.

Mem de Sá

O terceiro Governador-Geral, Mem de Sá (1558-1572), deu continuidade à política de concessão de sesmarias aos colonos e montou ele próprio um engenho, às margens do rio Sergipe, que mais tarde viria a pertencer ao conde de Linhares (Engenho de Sergipe do Conde). Para enfrentar os colonos franceses estabelecidos na França Antártica, aliados aos Tamoios na baía de Guanabara, Mem de Sá aliou-se aos Temiminós do cacique Araribóia. O seu sobrinho, Estácio de Sá, comandou a retomada da região e fundou a cidade do Rio de Janeiro a 20 de Janeiro de 1565, dia de São Sebastião.

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União Ibérica (1580-1640)

Com o desaparecimento de D.Sebastião e posteriormente a morte de D. Henrique I, Portugal ficou sob união pessoal com a Espanha, e foi governada pelos três reis Filipes (Filipe II, Filipe III e Filipe IV, dos quais se subtrai um número quando referentes a Portugal e ao Brasil). Isso virtualmente acabou com a linha divisória do meridiano das Tordesilhas e permitiu que o Brasil se expandisse para o oeste.

Várias expedições exploratórias do interior (chamado de "os sertões") foram organizadas, fosse sob ordens diretas da Coroa ("entradas") ou por caçadores de escravos paulistas ("bandeiras", donde o nome "bandeirantes"). Estas expedições duravam anos e tinham o objetivo principalmente de capturar índios como escravos e encontrar pedras preciosas e metais valiosos, como ouro e prata. Foram bandeirantes famosos, entre outros, Fernão Dias, Bartolomeu Bueno da Silva (Anhangüera), Raposo Tavares, Domingos Jorge Velho, Borba Gato e Antônio Azevedo.

A União Ibérica também colocou o Brasil em conflito com potências européias que eram amigas de Portugal mas inimigas da Espanha, como a Inglaterra e a Holanda. Esta última atacou e invadiu extensas faixas do litoral nordestino, fixando-se principalmente em Pernambuco e na Paraíba por vinte e cinco anos.

Estado do Maranhão e Estado do Brasil (1621-1755)

Das mudanças administrativas durante o domínio espanhol, a mais importante sucedeu em 1621, com a divisão da colônia em dois Estados independentes: o Estado do Brasil, que abrangia de Pernambuco à atual Santa Catarina, e o Estado do Maranhão, do atual Ceará à Amazônia. A razão se baseava no destacado papel assumido pelo Maranhão como ponto de apoio e de partida para a colonização do norte e nordeste. O Maranhão tinha por capital São Luís, e o Estado do Brasil sua capital em Salvador. Nestes dois estados, os súditos eram cidadãos portugueses (chamados de "portugueses do Brasil") e sujeitos aos mesmos direitos e deveres, e as mesmas leis as quais estavam submetidos os residentes em Portugal, entre elas, as Ordenações manuelinas e as Ordenações filipinas.

Quando o rei Filipe III (IV da Espanha) separou o Brasil e o Maranhão, passaram a existir três capitanias reais: Maranhão, Ceará e Grão-Pará, e seis capitanias hereditárias. Em 1737, com sua sede transferida para Belém, o Maranhão passou a ser chamado de Grão-Pará e Maranhão. Tal instalação era efeito do isolamento do extremo norte do Estado do Brasil, pois o regime de ventos impedia durante meses as comunicações entre São Luís e a Bahia. No século XVII, o Estado do

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Brasil se estendia do atual Pará até o Rio Grande do Norte e deste até Santa Catarina, e no século XVIII já estariam incorporados o Rio Grande de São Pedro, atual Rio Grande do Sul e as regiões mineiras e parte da Amazônia. O Estado do Maranhão foi extinto na época de Marquês de Pombal.

Economia colonial

A economia da colônia, iniciada com o puro extrativismo de pau-brasil e o escambo entre os colonos e os índios, gradualmente passou à produção local, com os cultivos da cana-de-açúcar e do cacau. O engenho de açúcar (manufatura do ciclo de produção açucareiro) constituiu a peça principal do mercantilismo português, organizadas em grandes propriedades. Estas, como se chamou mais tarde, eram latifúndios, caracterizados por terras extensas, abundante mão-de-obra escrava, técnicas complexas e baixa produtividade.

Para sustentar a produção de cana-de-açúcar, os portugueses começaram, a partir de meados do século XVI, a importar africanos como escravos. Eles eram pessoas capturadas entre tribos das feitorias européias na África (às vezes com a conivência de chefes locais de tribos rivais) e atravessados no Atlântico nos navios negreiros, em péssimas condições de asseio e saúde. Ao chegarem à América, essas pessoas eram comercializadas como mercadoria e obrigados a trabalhar nas plantações e casas dos colonizadores. Dentro das fazendas, viviam aprisionados em galpões rústicos chamados de senzalas, e seus filhos também eram escravizados, perpetuando a situação pelas gerações seguintes.

Nas feitorias, os mercadores portugueses vendiam principalmente armas de fogo, tecidos, utensílios de ferro, aguardente e tabaco, adquirindo escravos, pimenta, marfim e outros produtos.

Até meados do século XVI, os portugueses possuíam o monopólio do tráfico de escravos. Depois disso, mercadores franceses, holandeses e ingleses também entraram no negócio, enfraquecendo a participação portuguesa.

Gilberto Freyre comenta:

«O Brasil nasceu e cresceu econômica e socialmente com o açúcar, entre os dias venturosos do pau-de-tinta e antes de as minas e o café o terem ultrapassado. Efetivamente, o açúcar foi base na formação da sociedade e na forma de família. A casa de engenho foi modelo da fazenda de cacau, da fazenda de café, da estância. Foi base de um complexo sociocultural de vida».

Houve engenhos ainda nas capitanias de São Vicente e do Rio de Janeiro, que cobriam cem léguas e couberam ambas a Martim Afonso de Sousa. Este receberia o apoio de João Ramalho e de

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seu sogro Tibiriçá. No Rio, funcionava o engenho de Rodrigo de Freitas, nas margens da lagoa que hoje leva seu nome. Ao entrar o século XVII, o açúcar brasileiro era produto de importação nos portos de Lisboa, Antuérpia, Amsterdã, Roterdã, Hamburgo. Sua produção, muito superior à das ilhas portuguesas no Atlântico, supria quase toda a Europa. Gabriel Soares de Sousa, em 1548, comentava o luxo reinante na Bahia e o padre Fernão Cardim exaltava suas capelas magníficas, os objetos de prata, as lautas refeições em louça da Índia, que servia de lastro nos navios: «Parecem uns condes e gastam muito», reclamava o padre.

Em meados do século XVII, o açúcar produzido nas Antilhas Holandesas começou a concorrer fortemente na Europa com o açúcar do Brasil. Os holandeses tinham aperfeiçoado a técnica, com a experiência adquirida no Brasil, e contavam com um desenvolvido esquema de transporte e distribuição do açúcar em toda a Europa. Portugal foi obrigado a recorrer à Inglaterra e assinar diversos tratados que afetariam a economia da colônia. Em 1642, Portugal concedeu à Inglaterra a posição de "nação mais favorecida" e os comerciantes ingleses passaram a ter maior acesso ao comércio colonial. Em 1654 Portugal aumentou os direitos ingleses; mas poderiam negociar diretamente vários produtos do Brasil com Portugal e vice-versa, excetuando-se alguns produtos como bacalhau, vinho, pau-brasil). Em 1661 a Inglaterra se comprometeu a defender Portugal e suas colônias em troca de dois milhões de cruzados, obtendo ainda as possessões de Tânger e Bombaim. Em 1703 Portugal se comprometeu a admitir no reino os panos dos lanifícios ingleses, e a Inglaterra, em troca, a comprar vinhos portugueses. Data da época o famosíssimo Tratado de Methuen, do nome de seu negociador inglês, ou tratado dos Panos e Vinhos. Na época, satisfazia os interesses dos grupos dominantes mas teria como conseqüência a paralisação da industrialização em Portugal, canalizando para a Inglaterra o ouro que acabava de ser descoberto no Brasil.

No nordeste brasileiro se encontrava a pecuária, tão importante para o domínio do interior, já que eram proibidos rebanhos de gado nas fazendas litorâneas, cuja terra de massapê era ideal para o açúcar. Estuda-se bem o açúcar no item dedicado à invasão holandesa.

A conquista do sertão, povoado por diversos grupos indígenas foi lenta e se deveu muito à

pecuária (o gado avançou ao longo dos vales dos rios) e, muito mais tarde, às expedições dos Bandeirantes que vinham prear índios para levar para São Paulo.

O Ciclo do Ouro

No final do século XVII foi descoberto, pelos bandeirantes paulistas, ouro nos ribeiros das terras que pertenciam à capitania de São Paulo e mais tarde ficaram conhecidas como Minas Gerais.

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Descobriram-se depois, no final da década de 1720, diamante e outras gemas preciosas. Esgotou-se o ouro abundante nos ribeirões, que passou a ser mais penosamente buscado em veios dentro da terra. Apareceram metais preciosos em Goiás e no Mato Grosso, no século XVIII. A Coroa cobrava, como tributo, um quinto de todo o minério extraído, o que passou a ser conhecido como "o quinto". Os desvios e o tráfico de ouro, no entanto, eram freqüentes. Para coibi-los, a Coroa instituiu toda uma burocracia e mecanimos de controle. Quando a soma de impostos pagos não atingia uma cota mínima estabelecida, os colonos deveriam entregar jóias e bens pessoais até completar o valor estipulado — episódios chamados de derramas.

O período que ficou conhecido como Ciclo do Ouro iria permitir a criação de um mercado

interno, já que havia demanda por todo tipo de produtos para o povoamento das Minas Gerais. Era preciso levar, Serra da Mantiqueira acima, escravos e ferramentas, ou, rio São Francisco abaixo, os rebanhos de gado para alimentar a verdadeira multidão que para lá acorreu. A população de Minas Gerais rapidamente se tornou a maior do Brasil, sendo a única capitania do interior do Brasil com grande população. A essa época maioria da população de Minas Gerais , aproximadamente 78%, era formada por negros e mestiços. A população branca era formada em grande parte por cristãos-novos vindos do norte de Portugal e das Ilhas dos Açores e Madeira. Os cristãos novos foram muito importantes no comércio colonial e se concentraram especiamente nos povoados em volta de Ouro Preto e Mariana. Ao contrário do que se pensava na Capitania do Ouro a riqueza não era mais bem distribuída do que em outras partes do Brasil. Hoje se sabe que foram poucos os beneficiados no solo mais rico da América no século XVIII.

As condições de vida dos escravizados na região mineira eram particularmente difíceis. Eles

trabalhavam o dia inteiro em pé, com as costas curvadas e com as pernas mergulhadas na água. Ou então em túneis cavados nos morros, onde era comum ocorrerem desabamentos e mortes. Os negros escravizados não realizavam apenas tarefas ligadas à mineração. Também transportavam mercadorias e pessoas, construíam estradas, casas e chafarizes, comerciavam pelas ruas e lavras. Alguns proprietários alugavam seus escravos a outras pessoas. Esses trabalhadores eram chamados de "escravos de ganho". Era o caso, por exemplo, das mulheres que vendiam doces e salgados em tabuleiros pelas ruas.

A Sociedade Mineradora e as Camadas Médias

O Brasil passou por sensíveis transformações em função da mineração. Um novo pólo

econômico cresceu no Sudeste, relações comerciais inter-regionais se desenvolveram, criando um mercado interno e fazendo surgir uma vida social essencialmente urbana. A camada média,

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composta por padres, burocratas, artesãos, militares, mascates e faisqueiros, ocupou espaço na sociedade. A população mineira, salvo nos principais centros Vila Rica, Mariana, Sabará, Serro e Caeté, era essencialmente pobre. O custo de vida altíssimo e a falta de gêneros alimêntícios uma constante.

As minas propiciaram uma diversificação relativa dos serviços e ofícios, tais como comerciantes, artesãos, advogados, médicos, mestre-escolas entre outros. No entanto foi intensamente escravagista, desenvolvendo a sociedade urbana às custas da exploração da mão de obra escrava. A mineração também provocou o aumento do controle do comércio de escravos para evitar o esvaziamento da força de trabalho das lavouras, já que os escravos eram os únicos que trabalhavam. Os escravos mais hábeis para a mineiração eram os "Minas" trazidos da Costa ocidental africana, onde eram mineiradores de ouro, e saídos do porto de Elmina, em Gana, onde ficavam no Castelo de São Jorge da Mina. Foi muito comum a fuga de escravos e a formação de muitos quilombos em Minas Gerais, sendo o mais importante foi o "Quilombo do Ambrósio".

Também foi responsável pela tentativa de escravização dos índios, através das bandeiras, que com intuito de abastecer a região centro-sul promoveu a interiorização do Brasil.

Apesar de modificar a estrutura econômica, manteve a estrutura de trabalho vigente, beneficiando apenas os ricos e os homens livres que compunham a camada média. Outro fator negativo foi a falta de desenvolvimento de tecnologias que permitissem a exploração de minas em maior profundidade, o que estenderia o período de exploração (e consequentemente mais ouro para Portugal).

Assim, o eixo econômico e político se deslocou para o centro-sul da colônia e o Rio de Janeiro tornou-se sede administrativa, além de ser o porto por onde as frotas do rei de Portugal iam recolher os impostos. A cidade foi descrita pelo padre José de Anchieta como "a rainha das províncias e o empório das riquezas do mundo", e por séculos foi a capital do Brasil.

Invasões estrangeiras e conflitos coloniais

O início da colonização portuguesa no território brasileiro foi a primeira invasão estrangeira da história do país, então denominado pelos nativos tupis como Pindorama, que significa "Terra das Palmeiras". A resposta imediata foi de longos embates, entre eles a Guerra dos Bárbaros. Houve ainda disputas com os franceses, que tentavam se implantar na América pela pirataria e pelo comércio do Pau-Brasil, chegando a criar uma guerra luso-francesa. Tudo isso culminou com a

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expulsão dos franceses trazidos por Nicolas Durand de Villegagnon, que haviam construído Forte Coligny no Rio de Janeiro, estabelecendo-se em definitivo a hegemonia portuguesa.

A época colonial foi marcada por vários conflitos, tanto entre portugueses e outros europeus,

e europeus contra nativos, como entre os próprios colonos. O maior deles, sem dúvida, foi a Guerra

contra os Holandeses (ou Guerras Holandesas, de 1630 a 1647, na Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

A insatisfação com a administração colonial provocou a Revolta de Amador Bueno em São

Paulo e, no Maranhão, a Revolta de Beckman. Os colonos enchiam os navios que aportavam no Brasil, esvaziando o reino, e foram apelidados "emboabas" porque andavam calçados contra a maioria da população, que andava descalça. Contra eles se levantaram os paulistas, nas refregas do início do século XVIII que ficariam conhecidas como Guerra dos Emboabas e paulistas e ensanguentaram o rio que até hoje se chama Rio das Mortes.

Em Pernambuco, a disputa política e econômica entre mercadores e canavieiros, após a expulsão dos holandeses, levou à Guerra dos Mascates. Os escravos negros que fugiam das fazendas se refugiavam nas serras do agreste nordestino e lá fundavam quilombos, dos quais o mais importante foi o de Palmares, liderado por Ganga Zumba e seu sobrinho Zumbi. A campanha para destruí-lo foi a Guerra de Palmares (1693-1695).

No sul, a tentativa de escravizar indígenas levou a confrontos com os missionários jesuítas, organizados nas "reduções" (missões) de catequese com os guaranis. As Guerras Guaraníticas duraram, intermitentemente, de 1750 a 1757.

Já com o Ciclo do Ouro, a capitania de Minas Gerais sofreu a Revolta de Filipe dos Santos e

a Inconfidência Mineira (1789), seguida pela Conjuração Baiana em Salvador dez anos mais tarde.

Esses dois grandes movimentos ficaram marcados por terem a intenção de proclamar a independência.

Inconfidência Mineira

A Inconfidência Mineira foi um movimento que partiu da elite de Minas Gerais. Com a

decadência da mineração na segunda metade do século XVIII, tornou-se difícil pagar os impostos

exigidos pela Coroa Portuguesa. Além do mais, o governo português pretendia promulgar a derrama, um imposto que exigia que toda a população, inclusive quem não fosse minerador, contribuísse com

a arrecadação de 20% do valor do ouro retirado. Os colonos se revoltaram e passaram a conspirar contra Portugal.

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Em Vila Rica (atual Ouro Preto), participavam do grupo, entre outros, os poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, os coronéis Domingos de Abreu Vieira e Francisco Antônio de Oliveira Lopes, o padre Rolim, o cônego Luís Vieira da Silva, o minerador Inácio José de Alvarenga Peixoto e alferes Joaquim José da Silva Xavier, apelidado Tiradentes. A conspiração pretendia eliminar a dominação portuguesa e criar um país livre. Pela lei portuguesa a conspiração foi classificada como "crime de lesa-majestade", definida como "uma traição contra a pessoa do rei" nas ordenações afonsinas.

A forma de governo escolhida foi o estabelecimento de uma República, inspirados pelas

idéias iluministas da França e da recente independência norte-americana. Traídos por Joaquim Silvério dos Reis, que delatou os inconfidentes para o governo, os líderes do movimento foram detidos e enviados para o Rio de Janeiro, onde responderam pelo crime de inconfidência (falta de fidelidade ao rei), pelo qual foram condenados. Em 21 de abril de 1792, Tiradentes, de mais baixa condição social, foi o único condenado à morte por enforcamento. Sua cabeça foi cortada e levada para Vila Rica. O corpo foi esquartejado e espalhado pelos caminhos de Minas Gerais. Era o cruel exemplo que ficava para qualquer outra tentativa de questionar o poder de Portugal. Apesar de considerada cruel hoje o enforcamento e esquartejamento do corpo, no contexto da época a pena foi menos cruel que a pena aplicada, naquela mesma época, à família Távora, no Caso Távora, por igual crime de lesa-majestade, foi condenação à fogueira.

Conjuração Baiana

A Conjuração Baiana foi um movimento que partiu da camada humilde da sociedade da

Bahia, com grande participação de negros, mulatos e alfaiates, por isso também é conhecida como Revolta dos Alfaiates. Os revoltosos pregavam a libertação dos escravos, a instauração de um

governo igualitário (onde as pessoas fossem promovidas de acordo com a capacidade e merecimento individuais), além da instalação de uma República na Bahia.

Em 12 de Agosto de 1798, o movimento precipitou-se quando alguns de seus membros, distribuindo os panfletos na porta das igrejas e colando-os nas esquinas da cidade, alertaram as autoridades que, de pronto, reagiram, detendo-os. Tal como na Inconfidência Mineira, interrogados, acabaram delatando os demais envolvidos. Centenas de pessoas foram denunciadas - militares, clérigos, funcionários públicos e pessoas de todas as classes sociais. Destas, 49 foram detidas, a maioria tendo procurado abjurar a sua participação, buscando demonstrar inocência. Mais de 30 foram presos e processados. Quatro participantes foram condenados à forca e os restos de seus corpos foram espalhados pela Bahia para assustar a população.

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Principado do Brasil

O Principado do Brasil durou entre 1645 a 1816.

Tendo sido o Brasil uma colônia do Império Português, careceu de bandeira própria por mais de trezentos anos. Não era costume, na tradição vexilológica lusitana, a criação de bandeiras para suas colônias, quando muito de um brasão. Hasteava-se no território a bandeira do reino, ou do representante direto do monarca, como o governador-geral ou o vice-rei. Ainda que não seja considerada uma bandeira brasileira, visto que seu uso era exclusivo aos herdeiros aparentes do trono português, o pavilhão dos príncipes do Brasil pode ser tido como a primeira representação flamular do Brasil. Sobre campo branco – cor relacionada à monarquia – inscreve-se uma esfera armilar – objeto que viria a ser, por muito tempo, o símbolo do Brasil. Já no pavilhão pessoal de D. Manuel I, aparece este que foi um objeto crucial para viabilizar as explorações marítimas de Portugal.

Corte no Brasil (1808-1822)

Mudança da Corte e Abertura dos Portos

Em novembro de 1807, as tropas de Napoleão Bonaparte obrigaram a coroa portuguesa a procurar abrigo no Brasil. Dom João VI (então Príncipe-Regente em nome de sua mãe, a Rainha Maria I) chegou ao Rio de Janeiro em 1808, abandonando Portugal após uma aliança defensiva feita com a Inglaterra, que escoltou os navios portugueses no caminho.

Os portos brasileiros foram abertos às nações amigas - designadamente, a Inglaterra). A abertura dos portos se deu em 28 de janeiro de 1808 por outra carta régia de D. João, influenciado por José da Silva Lisboa. Foi permitida a importação "de todos e quaisquer gêneros, fazendas e mercadorias transportadas em navios estrangeiros das potências que se conservavam em paz e harmonia com a Real Coroa" ou em navios portugueses. Os gêneros molhados (vinho, aguardente, azeite) pagariam 48%; outros mercadorias, os secos, 24% ad valorem. Podia ser levado pelos estrangeiros qualquer produto colonial, exceto o pau-brasil e outros notoriamente estancados, que eram produzidos e armazenados na própria colônia.

Era efeito também da expansão do capital; e deve-se recordar a falência dos recursos coatores portugueses e a tentativa de diminuir, abrindo os portos, a total dependência de Portugal da Inglaterra. No Reino, desanimaram os que se haviam habituado aos generosos subsídios, às 100

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arrobas de ouro anuais, às derramas, às tentativas de controle completo. Um autor português do século XIX comenta que foi

"uma revolução no sistema comercial e a ruína da indústria portuguesa; era necessária, mas cumpria modificá-la apenas as circunstâncias que a haviam ditado desaparecessem; ajudando assim o heróico Portugal em seu esforço generoso, em vez de deixar que estancassem as fontes da prosperidade!"

D. João, sua família e comitiva (a Corte), distribuídos por diversos navios, chegaram ao Rio de Janeiro em 7 de março de 1808. Foram acompanhados pela Brigada Real da Marinha, criada em Portugal em 1797, que deu origem ao Corpo de Fuzileiros Navais brasileiros. Instalaram-se no Paço da Cidade, construído em 1743 pelo Conde de Bobadela como residência dos governadores. Além disso, a Coroa requisitou o Convento do Carmo e a Cadeia Velha para alojar os serviçais e as melhores casas particulares. A expropriação era feita pelo carimbo das iniciais PR, de Príncipe- Regente, nas portas das casas requisitadas, o que fazia o povo, com ironia, interpretar a sigla como "Ponha-se na Rua!".

A abertura foi acompanhada por uma série de melhoramentos introduzidos no Brasil. No dia 1 de abril do mesmo ano, D. João expediu um decreto que revogava o alvará de 5 de janeiro de 1785 pelo qual se extinguiam no Brasil as fábricas e manufaturas de ouro, prata, seda, algodão, linho e lã. Depois do comércio, chegava "a liberdade para a indústria". Em 13 de maio, novas cartas régias (decretos) determinaram a criação da Imprensa Nacional e de uma Fábrica de Pólvora, que até então era fabricada na Fábrica da Pólvora de Barcarena, desde 1540. Em 12 de outubro foi fundado o Banco do Brasil para financiar as novas iniciativas e empreitadas. Tais medidas do Príncipe fariam com que se pudesse contar nesta época os primórdios da independência do Brasil.

Em represália à França, D. João ordenou ainda a invasão e anexação da Guiana Francesa, no extremo norte, e da banda oriental do rio Uruguai, no extremo sul, já que a Espanha estava então sob o reinado de José Bonaparte, irmão de Napoleão, e portanto era considerada inimiga. O primeiro território foi devolvido à soberania francesa em 1817, mas o Uruguai foi mantido incorporado ao Brasil sob o nome de Província Cisplatina. Em 9 de fevereiro de 1810, no Rio de Janeiro, foi assinado um Tratado de Amizade e comércio pelo Príncipe Regente com Jorge III, rei da Inglaterra.

Enquanto isso, na Espanha, os liberais, ainda acostumados com certa liberdade econômica imposta por Napoleão enquanto ocupara o país, de 1807 a 1810, se revoltaram contra os restauradores Bourbon, dinastia à qual pertencia a Carlota Joaquina, esposa de D. João, e impuseram-lhes a Constituição de Cádiz em 19 de março de 1812. Em reação, o rei Fernando VII,

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irmão de Carlota, dissolveu as cortes em 4 de maio de 1814. A resposta viria em 1820 com a vitória da Revolução Liberal (ou constitucional). Por isso, D. João e seus ministros se ocuparam das questões do Vice-Reinado do Rio da Prata, tão logo puseram os pés no Rio de Janeiro, surgindo assim a questão da incorporação da Cisplatina.

É importante lembrar que apesar de ser elevado a Principado em 1645, tendo sido o Brasil uma colônia do Império Português, careceu de bandeira própria por mais de trezentos anos. Não era costume, na tradição vexilológica lusitana, a criação de bandeiras para suas colônias, quando muito de um brasão. Visto que seu o título uso era exclusivo aos herdeiros aparentes do trono português, o pavilhão dos príncipes do Brasil pode ser tido como a primeira representação flamular do Brasil. Sobre campo branco – cor relacionada à monarquia – inscreve-se uma esfera armilar – objeto que viria a ser, por muito tempo, o símbolo do Brasil. Já no pavilhão pessoal de D. Manuel I, aparece este que foi um objeto crucial para viabilizar as explorações marítimas de Portugal. Contudo, como Principado, não possui nenhum privilégio administrativo, militar, econômico ou social, pois ainda era visto como uma colônia portuguesa.

Elevação a Reino Unido

No contexto das negociações do Congresso de Viena, o Brasil foi elevado à condição de Reino dentro do Estado português, que assumiu a designação oficial de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 16 de dezembro de 1815. A carta de lei foi publicada na Gazeta do Rio de Janeiro de 10 de janeiro de 1816, oficializando o ato. O Rio de Janeiro, por conseguinte, subia à categoria de Corte e capital, as antigas capitanias passaram a ser denominadas províncias (hoje, os estados). No mesmo ano, a rainha Maria I morreu e D. João foi coroado rei como João VI. Deu ao Brasil como brasão-de-armas a esfera manuelina com as quinas, encontradas já no século anterior em moedas da África portuguesa (1770).

Revolução no Porto e Retorno de D. João VI

D. João VI deixaria o Brasil em 1821. Em agosto de 1820 houvera no Porto uma revolução constitucionalista (revolução liberal portuguesa de 1820), movimento com idéias liberais que ganhou adeptos no reino. Em setembro de 1820, uma Junta Provisória de Governo obrigou os portugueses a jurarem uma Constituição provisória, nos moldes da Constituição espanhola de Cádiz, até redação de uma constituição definitiva. Em janeiro de 1821, em Portugal, aconteceu a solene instalação das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, encarregadas de elaborar a constituição, mas sem representantes brasileiros. Em fevereiro, D. João VI ordenou que deputados do Brasil (bem como dos Açores, Madeira e Cabo Verde) participassem da assembléia.

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Em março, as Cortes em Portugal expediram decreto com as bases da constituição política da monarquia . No Rio, outro decreto comunicava o retorno do rei para Portugal e ordenava que, «sem perda de tempo», fossem realizadas eleições dos deputados para representarem o Brasil nas Cortes Gerais convocadas em Lisboa. Chegaria em abril a Lisboa um delegado da Junta do Pará, Maciel Parente, que por exceção conseguiu discursar e foi o primeiro brasileiro a falar perante aquela Assembléia. Em abril, no Rio, realizou-se a primeira assembléia de eleitores do Brasil, que resultou em confronto com mortos, pois as tropas portuguesas dissolveram a manifestação. No dia seguinte, cariocas afixaram à porta do Paço um cartaz com a inscrição "Açougue do Bragança", referindo-se ao Rei como carniceiro. D. João VI partiu para Portugal cinco dias depois, em 16 de abril de 1821, deixando seu primogênito Pedro de Alcântara como Príncipe-Regente do Brasil.

Em 1821, o Brasil elegeu seus representantes, em número de 81, para as Constituintes em Lisboa. Em agosto de 1821, as Cortes apresentariam três projetos para o Brasil que irritaram os representantes brasileiros com medidas recolonizadoras que estes se recusavam a aceitar. Depois de Maciel Parente, o monsenhor Francisco Moniz Tavares, deputado pernambucano, seria o primeiro brasileiro a discursar oficialmente, em vivo debate com os deputados portugueses Borges Carneiro, Ferreira Borges e Moura, contra a remessa de mais tropas para Pernambuco e a incômoda presença da numerosa guarnição militar portuguesa na província.

A separação do Brasil foi informalmente realizada em janeiro de 1822, quando D. Pedro declarou que iria permanecer no Brasil ("Dia do Fico"), com as seguintes palavras: Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico. Agora só tenho a recomendar-vos união e tranquilidade. Porém, a separação do Brasil se é dada no dia 7 de setembro de 1822, com o "grito do Ipiranga" que foi romantizado, apesar da separação anteriormente.

Império (1822-1889)

Primeiro reinado

Após a declaração da independência, o Brasil foi governado por Dom Pedro I até o ano de 1831, período chamado de Primeiro Reinado, quando abdicou em favor de seu filho, Dom Pedro II, então com cinco anos de idade.

Logo após a independência, e terminadas as lutas nas províncias contra a resistência portuguesa, foi necessário iniciar os trabalhos da Assembléia Constituinte. Esta havia sido convocada antes mesmo da separação, em julho de 1822; foi instalada, entretanto, somente em maio de 1823. Logo se tornou claro que a Assembléia iria votar uma constituição restringindo os poderes imperiais

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(apesar da idéia centralizadora encampada por José Bonifácio e seu irmão Antônio Carlos de Andrada e Silva). Porém, antes que ela fosse aprovada, as tropas do exército cercaram o prédio da Assembléia, e por ordens do imperador a mesma foi dissolvida, devendo a constituição ser elaborada por juristas da confiança de Dom Pedro I. Foi então outorgada a constituição de 1824, que trazia uma inovação: o Poder Moderador. Através dele, o imperador poderia fiscalizar os outros três poderes.

Surgiram diversas críticas ao autoritarismo imperial, e uma revolta importante aconteceu no Nordeste: a Confederação do Equador. Foi debelada, mas Dom Pedro I saiu muito desgastado do episódio. Outro grande desgaste do Imperador foi por o Brasil na Guerra da Cisplatina, onde o país não manteve o controle sobre a então região de Cisplatina (hoje, Uruguai). Também apareciam os primeiros focos de descontentamento no Rio Grande do Sul, com os farroupilhas.

Em 1831 o imperador decidiu visitar as províncias, numa última tentativa de estabelecer a paz interna. A viagem deveria começar por Minas Gerais; mas ali o imperador encontrou uma recepção fria, pois acabara de ser assassinado Líbero Badaró, um importante jornalista de oposição. Ao voltar para o Rio de Janeiro, Dom Pedro deveria ser homenageado pelos portugueses, que preparavam-lhe uma festa de apoio; mas os brasileiros, discordando da festa, entraram em conflito com os portugueses, no episódio conhecido como Noite das Garrafadas.

Dom Pedro tentou mais uma medida: nomeou um gabinete de ministros com suporte popular. Mas desentendeu-se com os ministros e logo depois demitiu o gabinete, substituindo-o por outro bastante impopular. Frente a uma manifestação popular que recebeu o apoio do exército,não teve muita escolha, assim criou o quinto poder. Mas não deu certo a idéia, e não restou nada ao imperador a não ser a renúncia, no dia 7 de abril de 1831.

Período regencial

Durante o período de 1831 a 1840, o Brasil foi governado por diversos regentes, encarregados de administrar o país enquanto o herdeiro do trono, D. Pedro II, ainda era menor. [8] A princípio a regência era trina, ou seja, três governantes eram responsáveis pela política brasileira, no entanto com o ato adicional de 1834, que, além de dar mais autonomia para as províncias, substituiu o caráter tríplice da regência por um governo mais centralizador.

O primeiro regente foi o Padre Diogo Antônio Feijó , que notabilizou-se por ser um governo de inspirações liberais, porém, devido às pressões políticas e sociais, teve que renunciar. O governo de caráter liberal caiu para dar lugar ao do conservador Araújo Lima, que centralizou o poder em suas mãos, sendo atacado veementemente pelos liberais, que só tomaram o poder devido ao golpe

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da maioridade. Destacam-se neste período a instabilidade política e a atuação do tutor José Bonifácio, que garantiu o trono para D. Pedro II.

Teve início neste período a Revolução Farroupilha, em que os gaúchos revoltaram-se contra a política interna do Império, e declararam a República Piratini. Também neste período ocorreram a Cabanada, de Alagoas e Pernambuco; a Cabanagem, do Pará; a revolta dos Malês e a Sabinada, na Bahia; e a Balaiada, no Maranhão.

Segundo reinado

O Segundo Reinado teve início com o Golpe da Maioridade (1840), que elevou D. Pedro II

ao trono, antes dos 18 anos, com 15 anos. A economia, que teve como base principal a agricultura –

tornando-se o café o principal produto exportador do Brasil durante o reinado de Pedro II, em substituição à cana-de-açúcar –, apresentou uma expansão de 900%. A falta de mão-de-obra, na época chamada de "falta de braços para a lavoura", em conseqüência da libertação dos escravos foi solucionada com a atração de centenas de milhares de imigrantes, em sua maioria italianos, portugueses e alemães. O que fez o país desenvolver uma base industrial e começar a expandir-se para o interior.

Nesse período, foi construída uma ampla rede ferroviária, sendo o Brasil o segundo país latino-americano a implantar este tipo de transporte, e, durante a Guerra do Paraguai, foi possuidor da quarta maior marinha de guerra do mundo. A mão-de-obra escrava, por pressão interna de oligarquias paulistas, mineiras e fluminenses, manteve-se vigente até o ano de 1888, quando caiu na ilegalidade pela Lei Áurea. Entretanto, havia-se encetado um gradual processo de decadência em 1850, ano do fim do tráfico negreiro, por pressão da Inglaterra, além de que o Imperador era contra a escravidão, pela opção dos produtores de café paulistas que preferiam a mão de obra assalariada dos imigrantes europeus, pela malária que dizimou a populução escrava naquela época e pela guerra do paraguai quando os negros que dela participaram foram alforriados.

A partir de 1870, assistiu-se ao crescimento dos movimentos republicanos no Brasil. Em

1889, um golpe militar tirou o cargo de Primeiro Ministro do Visconde de Ouro Preto, e, por incentivo

de republicanos como Benjamin Constant Botelho Magalhães, o Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República e enviou ao exílio a Família Imperial. Diversos fatores contribuíram para a queda da Monarquia, dentre os quais: a insatisfação da elite agrária com a abolição da escravatura sem que os propietários rurais fossem indenizados pelos prejuízos sofridos, o descontentamento dos cafeicultores do Oeste Paulista que se tornaram adeptos do Partido Republicano Paulista e da abolição pois usavam apenas mão de obra européia dos imigrantes, e perdendo apoio dos militares,

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especialmente do exército que se sentiam desprestigiados entendendo que o imperador preferia a marinha do Brasil e que almejavam mais poder, e as interferências do Imperador em assuntos da Igreja.

Não houve nenhuma participação popular na proclamação da República. O que ocorreu, tecnicamente foi um golpe militar. O povo brasileiro apoiava o Imperador. O correspondente do jornal "Diário Popular", de São Paulo, Aristides Lobo, escreveu sobre a derrubada do império, a frase histórica:

- A população assistiu a aquilo tudo bestilizada, muitos acreditando tratar-se de uma parada

millitar.

Para poupar conflitos, não houve violência e a Família Imperial pôde exilar-se na Europa em segurança.

O período pode ser divido em três etapas principais:

a chamada fase de consolidação, que se estende de 1840 a 1850. As lutas internas são pacificadas, o café inicia a sua expansão, a tarifa Alves Branco permite a Era Mauá.

o chamado apogeu do Império, um período marcado por grande estabilidade política, quando de 1849 até 1889 não aconteceu no Brasil nenhuma revolução, algo inédito no mundo: 50 anos de paz interna em um país, permitida pelo sistema parlamentarista,(o parlamentarismo às avessas) e pela política de troca de favores. Em termos de Relações Internacionais, o período é marcado pela Questão Christie e pela Guerra do Paraguai.

o chamado declínio do Império, marcado pela Questão Militar, pela Questão Religiosa, pelas lutas abolicionistas e pelo movimento republicano, que conduzem ao fim do regime monárquico.

Libertação dos escravos

Os primeiros movimentos contra a escravidão foram feitos pelos missionários jesuítas, que combateram a escravização dos indígenas mas toleraram a dos africanos. O fim gradual do tráfico negreiro foi decidido no Congresso de Viena, ainda em 1815. Desde 1810, a Inglaterra fez uma série de exigências a Portugal e passou a reprimir violentamente o tráfico a partir de 1845, com a Lei Aberdeen. Em 1871, o Parlamento Brasileiro aprovou e a Princesa Isabel assinou a Lei 2.040, conhecida como Lei Rio Branco ou Lei do Ventre Livre, determinando que todos os filhos de escravos nascidos desde então seriam livres a partir dos 21 anos. Em 29 de setembro de 1885, promulgou-se uma outra lei, a Lei dos Sexagenários (Lei Saraiva–Cotegipe) que determinava que escravos a partir

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de 60 anos poderiam ser livres, [47] mas na verdade era uma ironia, pois os escravos raramente passavam dos 45 anos. Desde 1880, havia sido criada a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão que, juntamente com a Associação Central Abolicionista e outras organizações, passou a ser conhecida pela Confederação Abolicionista liderada por José do Patrocínio, filho de uma escrava negra com um padre. Em 1884, os governos do Ceará e do Amazonas resolveram abolir a escravidão, no que foram pioneiros.

As fugas de escravos prosseguiam. O exército se negava a perseguir os negros fugidos. Há que lembrar ainda os Caifases, liderados por Antônio Bento, que promoviam a fuga dos negros, perseguiam os capitães-de-mato e ameaçavam os senhores escravistas. A abolição definitiva era necessária. Havia 1 540 000 escravos para população de 14 milhões habitantes: cerca de 11%.

Finalmente, o primeiro-ministro conservador João Alfredo promoveu a votação de uma lei que determinava a extinção definitiva da escravidão. Em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que já havia sido aprovada pelo Parlamento, abolindo toda e qualquer forma de escravidão no Brasil. Logo após a Princesa assinar a Lei Áurea, ao cumprimentá-la, João Maurício Wanderley, o barão de Cotejipe, o único parlamentar que votou contra o projeto da abolição da escravatura, profetizou:

-"A senhora acabou de redimir uma raça e perder o trono".

A aristocracia escravista, oligarquia rural arruinada com a abolição sem indenização, culpou o governo e aderiu ao Partido Republicano na oposição ao regime: uma das conseqüências da abolição seria a queda da Monarquia. A economia cafeeira paulista do oeste paulista, porém, quando comparada à de outras regiões, não sofreu abalos, pois já se baseava na mão-de-obra livre, assalariada. Muitos escravos negros permaneceram no campo, praticando uma economia de subsistência em pequenos lotes, outros buscaram as cidades, onde entraram num processo de marginalização. Desempregados, passaram a viver em choças e barracos nos morros e nos subúrbios. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.

República (1889-presente)

Primeira República (1889-1930)

Em 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca decretou o fim do período imperial em um golpe militar de Estado sob a forma de uma quartelada quase sem força política e nenhum apoio popular, e o início de um período republicano ditatorial, destituindo o último imperador brasileiro, D. Pedro II, que teve de partir em exílio para a Europa. O nome do país mudou de Império

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do Brasil para Estados Unidos do Brasil. A primeira constituição da República do Brasil foi feita dia 15 de novembro de 1890. Após 4 anos de ditadura com um caos e várias mortes de federalistas, negros lutando por seus direitos, entre outros, iniciou-se a era civil da República Velha, com a chamada República Oligárquica.

Conflitos

O período foi marcado por inúmeros conflitos, de naturezas distintas. O primeiro deles foi a

Revolta da Vacina, em 1904, que foi um movimento popular deflagrado na cidade do Rio de Janeiro contra a vacinação compulsória.

A Revolução Acreana foi o processo político-social que levou à incorporação do território

desse estado ao Brasil. O período começa em julho de 1899, quando o território é proclamado estado independente, sob Luis Gálvez Rodríguez de Arias, e termina em 1903, depois que os brasileiros

residentes no local vencem a disputa pela força das armas, comandados por José Plácido de Castro.

A Revolução Acreana chegou ao fim com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em 1903, pelo qual

a Bolívia cedeu o território ao Brasil - e o Peru aceitou a divisão de fronteiras - em troca de 2.000.000

de Libras esterlinas e da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, apelidada "Mad Maria".

Durante o período civil (1894-1930) ocorreram outras grandes revoltas no país de caráter localizado: Guerra de Canudos, Revolta da Vacina e Revolta da Chibata. Ocorreram, também, várias revoltas de caráter estadual como a Revolução de 1923 e a República de Princesa ocorrida na Paraíba em 1930. Nenhuma destas revoltas foram tentativas de se derrubar o governo federal, situação muito comum nos demais países da América Latina.

O movimento tenentista e a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922, porém,

foram ameaças sérias ao governo de Epitácio Pessoa.

A Guerra do Contestado foi um conflito armado entre a população cabocla e os representantes do poder estadual e federal brasileiro travado entre outubro de 1912 a agosto de 1916, numa região rica em erva-mate e madeira disputada pelos estados brasileiros do Paraná e de Santa Catarina.

O cangaço tem suas origens em questões sociais e fundiárias do Nordeste brasileiro, caracterizando-se por ações violentas de grupos ou indivíduos isolados: assaltavam fazendas, seqüestravam latifundiários e saqueavam comboios e armazéns. Não tinham moradia fixa: viviam perambulando pelo sertão, praticando tais crimes, fugindo e se escondendo. O cangaceiro mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião", denominado o "Senhor do Sertão" e também "O

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Rei do Cangaço". Atuou durante as décadas de 1920 e 30 em praticamente todos os estados do Nordeste brasileiro. No dia 28 de julho de 1938 na localidade de Angicos, no estado de Sergipe, Lampião foi vítima de uma emboscada onde foi morto junto com sua mulher, Maria Bonita e mais nove cangaceiros.

República do Café com Leite

Entre 1889 e 1930, o governo foi oficialmente uma democracia constitucional e, a partir de 1894, a presidência alternou entre os estados dominantes da época São Paulo e Minas Gerais. Como os paulistas eram grandes produtores de café, e os mineiros estavam voltados à produção leiteira, e segundo produtores de café do Brasil, a situação política do período ficou conhecida como Política do Café-com-Leite.

Esse equilíbrio de poder entre os estados, foi uma política criada pelo presidente Campos Sales, chamada de Política dos Estados ou Política dos governadores. A República Velha terminou em 1930, com a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, um civil, instituindo-o "Governo Provisório", até que novas eleições fossem convocadas.

Era Vargas (1930-1945)

A Revolução de 1930 e o Governo Provisório

Em 1 de março de 1930 ocorre a última eleição presidencial da República Velha. Disputaram essa eleição o presidente de São Paulo (hoje se diz governador) Júlio Prestes de Albuquerque apoiado pelo presidente Washington Luís e por 17 estados contra o candidato Getúlio Vargas apoiado apenas por 3 estados: Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Júlio Prestes é eleito e aclamado presidente, porém os perdedores não reconheceram a vitória de Júlio Prestes.

Assim, em 1930, acontece a Revolução de 1930 iniciada a 3 de outubro. Quando as tropas revolucionárias marcharam para o Rio de Janeiro, então capital federal, ocorre a 24 de outubro um golpe militar que depõe e presidente Washington Luís, que fora antes presidente de São Paulo. Washington Luís foi deposto e exilado, Júlio Prestes, é impedido de tomar posse como presidente da república e é exilado. É formado uma Junta Militar Provisória, a qual passa o poder a Getúlio Dorneles Vargas, em 3 de novembro de 1930, encerrando a República Velha e iniciando o Governo Provisório que tem Getúlio Vargas como seu chefe. Logo após a tomada do poder em novembro de 1930, Getúlio Vargas nomeou interventores federais para governar os estados. Para São Paulo foi nomeado o tenente João Alberto Lins de Barros, um pernambucano, sendo que a maioria dos líderes

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paulistas foram exilados. Do exílio em Portugal, Júlio Prestes escreve já em 1931, acreditando ele que a situação da ditadura estava se tornando insustentável:

a situação da ditadura estava se tornando insustentável: O que não compreende é que uma nação,

O que não compreende é que uma nação, como o Brasil, após mais de um século de vida constitucional e liberalismo, retrogradasse para uma ditadura sem freios e sem limites como essa que nos degrada e enxovalha perante o mundo civilizado!a situação da ditadura estava se tornando insustentável: — Júlio Prestes Ao se iniciar o ano

essa que nos degrada e enxovalha perante o mundo civilizado! — Júlio Prestes Ao se iniciar

Júlio Prestes

Ao se iniciar o ano de 1932, crescem os reclamos dos políticos paulistas que se uniram na Frente Única Paulista, em prol do fim da interferência dos tenentes em São Paulo e pela instalação de uma assembléia nacional constituinte que poria fim ao Governo Provisório, o qual era chamado pelos paulistas de ditadura.

Uma previsível reação dos paulistas a um conluio contra São Paulo e seus interesses já fora percebida, em 1929, pelo senador fluminense Irineu Machado, que afirmou:

1929, pelo senador fluminense Irineu Machado, que afirmou: A reação contra a candidatura do Dr. Júlio

A reação contra a candidatura do Dr. Júlio Prestes representa não um gesto contra o presidente do estado, mas uma reação contra São Paulo, que se levantará porque isto significa um gesto de legítima defesa de seus próprios interesses"!1929, pelo senador fluminense Irineu Machado, que afirmou: — Irineu Machado Os paulistas, que mantinham um

gesto de legítima defesa de seus próprios interesses"! — Irineu Machado Os paulistas, que mantinham um

Irineu Machado

Os paulistas, que mantinham um esquema de domínio político junto com Minas Gerais durante a primeira república, tentam articular uma revolução em 1932 para depor Getúlio Vargas. A justificativa encontrada pelas oligarquias locais para buscar apoio do povo é que o país precisava de uma Constituição, pois, desde 1930, Getúlio Vargas dizia que "assumia provisoriamente" a presidência e que o mais cedo possível entregaria uma nova Constituição ao país, com a subsequente realização de eleições para presidente. Daí o nome de Revolução Constitucionalista de 1932, deflagrada a 9 de julho. Os paulistas foram apoiados pelo sul estado do Mato Grosso onde foi criado o Estado de Maracaju, mas as tropas federais, ajudas pelas tropas gaúchas e mineiras, garantiram uma vitória de Getúlio Vargas depois de 3 meses de luta, a qual foi a maior guerra civil brasileira de todos os tempos. Finalmente em 3 de maio de 1933, são feitas eleições para uma Assembléia Nacional Constituinte que em 1934 elege Getúlio Vargas presidente da república.

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O período constitucional de Getúlio Vargas

Em 1934, no entanto, o país ganha uma Constituição. Getúlio Vargas é eleito presidente. Este governo constituicional durou três anos até 1937. Foram anos conturbados, em que ocorre certa polarização na política nacional. [ De um lado ganha força a esquerda, representada principalmente pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) e pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB); de outro a direita, que ganha forma num movimento de inspiração fascista chamado Integralismo.

Uma articulação revolucionária de esquerda é tentada em 1935, chamada de Intentona Comunista, por parte de um setor das forças armadas e de alguns indivíduos ligados a URSS. Um dos principais líderes desse movimento foi o ex-tenente do exército Luís Carlos Prestes, que fica preso e ficou incomunicável por 8 anos. Sua mulher, a comunista e judia Olga Benário, tem um destino pior: O Supremo Tribunal Federal a expatriou para a Alemanha Nazista, seguindo os acordos de extradição vigentes entre Brasil e Alemanha que mantinham relações diplomáticas normais. Olga acaba morrendo em um campo de concentração, concluindo um dos episódios mais vexatórios da política externa brasileira.

O escritor Graciliano Ramos também é preso depois da Intentona Comunista, supostamente

por praticar atividades subversivas. Um retrato de seus dias na prisão e da situação política instável

do país está gravado em seu livro Memórias do Cárcere.

O Estado Novo

Graças ao clima de pânico provocado pela polarização política (os integralistas tentam um putsch algum tempo depois, em 1938), Getúlio Vargas articula uma situação que lhe permite decretar um golpe de estado dois meses antes da eleição presidencial marcada para janeiro de 1938. Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas anuncia o Estado Novo.

A justificativa primária do golpe é a existência de um plano comunista para a tomada do

poder, "apoiado por Moscou" - é o chamado Plano Cohen. Posteriormente descobriu-se que o plano foi uma armação dos agentes de Getúlio Vargas. O apoio militar e o apoio da classe média garante o sucesso do golpe, pois há algum tempo cresciam os temores de que o comunismo poderia promover uma revolução no Brasil.

Getúlio Vargas consegue prolongar seus anos de presidência até 1945. É emblemático notar que uma das figuras mais conhecidas de seu governo foi o chefe de polícia Filinto Muller. A censura oprime a expressão artística e científica: em 1939 é criado o DIP, Departamento de

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Imprensa e Propaganda. Além da censura, o DIP atuava na propaganda pró-Vargas e contrária à República Velha, fazendo com que a imagem do presidente fosse exaltada ao extremo.

Por essas características é que, iniciada a Segunda Guerra Mundial, não se sabia se Getúlio Vargas apoiaria o Eixo (com quem parecia ter mais afinidade) ou os Aliados. O clima de tensão culminara na adesão aos países aliados em 1942, após ataques alemães em navios mercantes brasileiros que resultaram na morte de dezenas de pessoas. A barganha getulista obtivera vantagens econômicas e militares: instituiu-se um acordo econômico com os Estados Unidos que possibilitara a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Além disso, outro acordo possibilitara o reaparelhamento das forças armadas brasileiras.

Além da CSN, houve outras importantes conquistas feitas pelo Estado Novo tais como: o Ministério da Aeronáutica, a Força Aérea Brasileira, o Conselho Nacional do Petróleo, o Departamento Administrativo do Serviço Público, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Nacional de Álcalis, a Companhia Vale do Rio Doce, o Instituto de Resseguros do Brasil, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, a estrada Rio-Bahia, o Código Penal, o Código de Processo Penal Brasileiro e a Consolidação das Leis do Trabalho, a Justiça do Trabalho, o salário mínimo e a estabilidade no emprego do trabalhador, após de dez anos no emprego.

A pressão popular pela criação de uma força expedicionária torna-se concreta, mesmo contra a vontade de Vargas, que afirmara que o envio de tropas brasileira ocorreria quando "a cobra fumar". Posteriormente, percebendo a crescente pressão interna (camadas médias urbanas) e externa (os Estados Unidos temiam uma possível desestabilização de poder no Brasil, não desejosa em tempos de guerra), Vargas cedeu, criando a Força Expedicionária Brasileira (FEB); cujo lema fora "A Cobra Vai Fumar". A compensação à ajuda financeira deu-se de forma logística e material:

garantiu-se o suprimento de matérias-primas aos aliados (2º ciclo da borracha), e permitiu-se a instalação de uma base militar na região Nordeste (Rio Grande do Norte), garantido o domínio logístico e militar dos aliados sobre o atlântico sul. Ao término da guerra, fazia pouco sentido que Getúlio Vargas continuasse no poder. O fascismo fora derrotado, e os brasileiros notaram isso. Getúlio Vargas é forçado a renunciar em 29 de outubro de 1945 pelas forças armadas, seguindo para seu estado natal, o Rio Grande do Sul, e elegendo-se senador da república.

República Nova (1945-1964)

O período conhecido como República Nova ou República de 46 inicia com a renúncia forçada de Vargas, em outubro de 1945. O General Eurico Gaspar Dutra foi o presidente eleito e

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empossado no ano seguinte. Em 1946 foi promulgada nova Constituição, mais democrática que a anterior, restaurando direitos individuais.

Em 1950, o Brasil recebe a Copa do Mundo de Futebol. Apesar de perder a final para o Uruguai, por 2 a 1, coloca o país definitivamente em destaque no cenário internacional, bate todos os recordes e deixa como legado o Estádio do Maracanã, o maior do país.

Nesse ano, Getúlio Vargas foi mais uma vez eleito presidente, desta vez pelo voto direto. Em seu segundo governo foi criada a Petrobrás, fruto de tendências nacionalistas que receberam suporte das camadas operárias, dos intelectuais e do movimento estudantil. Porém, os tempos não eram mais os mesmos, e Getúlio não conseguiu conduzir tão bem o seu governo. Pressionado por uma série de eventos, em 1954 Getúlio Vargas comete suicídio dentro do Palácio do Catete. Assume o vice-presidente, João Fernandes Campos Café Filho.

Em 1955, Juscelino Kubitschek foi eleito presidente e tomou posse em janeiro de 1956, ainda que tenha enfrentado tentativas de golpe. Seu governo caracterizou-se pelo chamado desenvolvimentismo, doutrina que se detinha nos avanços técnico-industriais como suposta evidência de um avanço geral do país. O lema do desenvolvimentismo sob Juscelino foi 50 anos em 5. Em 1960, Kubitschek inaugurou Brasília, a nova capital do Brasil.

Já em 1961, Jânio Quadros, eleito em 1960, assumiu a presidência, mas renunciou em agosto do mesmo ano. Jânio, um ex-professor paulista que pregava a moralização do governo e era membro da UDN, fez um governo contraditório: ao lado de medidas polêmicas (como a proibição de lança perfume e da briga de galo), o presidente condecorou o revolucionário argentino Ernesto Che Guevara, para a supresa da UDN. Com a condecoração, Jânio tentava uma aproximação com o bloco socialista para fins estritamente econômicos, mas assim não foi a interpretação da direita no Brasil, que passou a alardear o pânico com a "iminência" do comunismo.

O vice-presidente João Goulart, popularmente conhecido como Jango, assumiu após uma rápida crise política: os militares não queriam aceitá-lo na presidência, alegando o "perigo comunista", ou seja que Jango era simpatizante do comunismo e mantinha vários comunistas em seu governo. Além de ex-ministro trabalhista, Goulart encontrava-se na China quando da renúncia de Jânio Quadros. Uma solução intermediária é acertada e instala-se o parlamentarismo no Brasil.

Em 1963, entretanto, João Goulart recuperou a chefia de governo com o plebiscito que aprovou a volta do presidencialismo. João Goulart governou até 1 de abril de 1964, quando se refugiou no Uruguai deposto que foi pela Revolução de 1964. No seu governo houve constantes

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problemas criados pela oposição militar, em parte devido a seu nacionalismo e posições políticas radicais como a do Slogan "Na lei ou na marra" e "terra ou morte", em relação à reforma agrária . O maior protesto dos setores conservadores da sociedade contra seu governo ocorreu nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, em 19 de março de 1964, com a chamada Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Regime Militar (1964-1985)

O governo de João Goulart foi marcado por alta inflação, estagnação econômica e uma forte oposição da Igreja Católica e das forças armadas que o acusavam de permitir a indisciplina nas Forças Armadas e de fazer um governo de caráter esquerdista.

Em 31 de março de 1964 as Forças Armadas realizam um Golpe Militar de 1964, destituindo João Goulart que se exilou no Uruguai. Os líderes civis do golpe, foram os governadores dos estados do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, de Minas Gerais, Magalhães Pinto e de São Paulo, Adhemar de Barros. A maioria dos militares que participaram do golpe de estado eram ex-tenentes da Revolução de 1930.

Foram 5 os presidentes da república, todos generais de exército, durante o regime militar: o General Humberto de Alencar Castelo Branco, seguido pelo General Arthur da Costa e Silva (1967- 1969), eleitos pelo Congresso Nacional. O General Emílio Garrastazu Médici (1968-74) foi escolhido pela Junta Militar que assumira o poder com a morte de Costa e Silva em 1969 e eleito pelo Congresso Nacional. O General Ernesto Geisel (1974-79) e o General João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-84) foram eleitos por colégios eleitorais formados pelo Congresso Nacional mais representantes das assembléias legislativas dos estados.

Entre as características adquiridas pelos governos decorrentes do golpe militar, também chamado de "Revolução de 1964" e de "Contra-Revolução de 1964", destacam-se o combate à subversão, a supressão de alguns direitos constitucionais dos elementos e instituições ligados à suposta tentativa de golpe pelos comunistas, e uma forte censura à imprensa, após a edição do AI-5 de 13 de dezembro de 1968.

O golpe de estado foi chamado de "Contra-Revolução de 1964" porque os golpistas estavam tentando impedir uma provável revolução comunista no Brasil, nos moldes da recém ocorrida revolução cubana ocorrida anos antes.

Em 1965, pelo Ato Institucional nº 2, todos os partidos políticos então existentes são declarados extintos, e teve início a intensificação da repressão política aos comunistas. Somente dois

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partidos eram permitidos, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que veio a servir de refúgio a toda a esquerda e extrema esquerda política.

Em pequenos municípios, porém, a divisão entre os dois partidos, ou as vezes, dentro do mesmo partido político, pois cada partido podia lançar até 3 candidatos a prefeito (as sublegendas), não era de idéias ou paradigmas, mas sim disputas pessoais entre os líderes locais. Em 1970, o MDB quase foi extinto por ter tido uma votação mínima para o Congresso Nacional.

Em 1967, o nome do país foi alterado para República Federativa do Brasil.

Em 15 de março de 1967, promulgada a sexta Constituição Brasileira pelo Congresso, institucionalizando o movimento e estabelecendo eleições indiretas para presidente, realizada via colégio eleitoral, este eleito diretamente. A partir daquele dia ficavam revogados os atos instituicionais baixados desde 1964. Nesse mesmo dia, diante do crescimento dos movimentos de contestação ao regime militar, o General Arthur da Costa e Silva assumiu a presidência da república. Porém esta normalidade institucional dada pela constituição de 1967 durou pouco.

Em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva fechou o Congresso Nacional e decretou o Ato Institucional nº 5, o AI-5, que lhe deu o direito de fechar o Parlamento, cessar direitos políticos e suprimir o direito de habeas-corpus. Em 1969 é feita uma ampla reforma da constituição de 1967, conhecida como emenda constituicional nº 1, que a torna mais autoritária.

Neste período, intensificou-se a luta armada nas cidades e no campo em busca da derrubada do governo militar. Praticamente, tudo teve início com o atentado no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife, em 1966, com diversos mortos e feridos, e em diversos outros pontos do país, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. Foi após a configuração desta conjuntura de terror e justiçamentos da parte dos grupos comunistas que a censura teve sua implantação consolidada.

Em 1969, Costa e Silva sofreu uma trombose e ficou incapacitado; uma junta militar formada pelos comandantes das Forças Armadas assumiu o poder. Em outubro, o General Médici tomou posse como presidente eleito pelo Congresso Nacional que ele pediu que fosse reaberto.

Médici comandou o período de maior repressão aos grupos esquerdistas que combatiam a ditadura militar, em especial, a repressão aos grupos de revolucionários e guerrilheiros marxistas, com suspeitos e colaboradores sendo presos, ocasionalmente exilados, torturados e/ou mortos em confrontos com as forças policiais do Estado. Em 1969, os guerrilheiros atacaram o Quartel General

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do II Exército, atual Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, quando morreu o soldado Mário Kozel Filho.

No governo Médici teve início o movimento guerrilheiro no Araguaia e a realização de sequestros de embaixadores estrangeiros e assaltos a bancos comerciais por grupos de esquerda. Estes sequestros eram usados, em sua maioria, como forma de pressionar o governo militar a libertar presos políticos. Após a redemocratização do país, contabilizou-se mais de trezentos mortos, de ambos os lados.

Em 1974, o General Ernesto Geisel assumiu a presidência, tendo que enfrentar grandes problemas econômicos, causados pela dívida externa criada pelo governo Médici, agravados pela crise internacional do petróleo, e uma alta taxa de inflação.

Geisel iniciou a abertura democrática "lenta, gradual e segura", que foi continuada pelo seu sucessor, o General Figueiredo (1979-85). Figueiredo não só permitiu o retorno de políticos exilados ou banidos das atividades políticas durante os anos 1960 e 70. Foram anistiados os militantes das guerrilhas do tempo de governo Médici. Figueiredo também autorizou que estes anistiados concorressem às eleições municipais e estaduais em 1982.

O regime militar termina com as eleições indiretas para presidente em 1984, com Paulo Maluf concorrendo pelo PDS e Tancredo Neves pelo PMDB apoiado pela Frente Liberal, dissidência do PDS liderada por José Sarney e Marco Maciel. Venceu Tancredo Neves, na eleição indireta de 15 de janeiro de 1985, para governar por 6 anos, a partir de 15 de março de 1985, até 1991.

Essas eleições, as últimas indiretas da história brasileira, foram precedidas de uma enorme campanha popular em favor de eleições diretas, levada a cabo por partidos de oposição, à frente o PMDB, que buscava a aprovação pelo Congresso Nacional da Emenda Constitucional que propunha a realização de eleições diretas. A campanha foi chamada de "Diretas já", e tinha à frente o deputado Dante de Oliveira, criador da proposta de Emenda. Em 25 de abril de 1984, a emenda foi votada e obteve 298 votos a favor, 65 contra, 3 abstenções e 112 deputados não compareceram ao plenário no dia da votação. Assim a emenda foi rejeitada por não alcançar o número mínimo de votos para a aprovação da emenda constitucional.

As principais realizações dos governos militares foram: a Ponte Rio-Niterói, os metrôs de São Paulo e Rio de Janeiro, a usina hidrelétrica de Itaipu, a barragem de Sobradinho, a Açominas, a Ferrovia do Aço, a rodovia Transamazônica, o FGTS, o BNH, a reforma administrativa atráves de decreto-lei nº 200, o Banco Central do Brasil, a Polícia Federal e o sistema DDD.

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Nova República (1985-presente)

O primeiro presidente civil eleito desde o golpe militar de 1964 foi Tancredo Neves. Ele não chegou a assumir, sendo operado no dia 14 de março de 1985 e contraindo infecção hospitalar. No dia da posse, 15 de março de 1985, assume então José Sarney de modo interino, e após 21 de abril, data do falecimento de Tancredo Neves, como presidente em caráter pleno.

A democracia foi re-estabelecida em 1988, quando a atual Constituição Federal foi

promulgada.

Fernando Collor foi eleito em 1989, na primeira eleição direta para Presidente da República desde 1964. Seu governo perdurou até 1992, quando renunciou devido a processo de "impugnação" movido contra ele. O processo de afastamento ocorreu em decorrência de uma série de denúncias envolvendo o Presidente Collor em esquemas de corrupção, que seriam comandados pelo seu ex- tesoureiro de campanha, Paulo César Farias. O vice-presidente, Itamar Franco, assume em seu lugar.

No governo de Itamar Franco é criado o Plano Real, articulado por seu Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. O governo Itamar contou com a presença de vários senadores como ministros. Historiadores chegam a considerar esse fenômeno como um "parlamentarismo branco"</ref>[2]</ref>. Cardoso foi eleito em 1994 e reeleito em 1998. Cumpre dois mandatos e transmite a faixa presidencial ao seu sucessor em 1° de janeiro de 2003.

O candidato Luis Inácio Lula da Silva, do PT, foi eleito presidente com aproximadamente

61% dos votos válidos. Lula repetiria o feito em 2006, sendo reeleito no segundo turno disputado contra Geraldo Alckmin, do mesmo PSDB.

Apesar da estabilidade macro-econômica que reduziu as taxas de inflação e de juros e aumentou a renda per capita, colocando o país em uma lista dos países mais promissores do mundo, ao lado de China, Rússia, Índia e África do Sul com Fernando Henrique e Lula, diferenças remanescem ainda entre a população urbana e rural, os estados do norte e do sul, os pobres e os ricos. Alguns dos desafios dos governos incluem a necessidade de promover melhor infra-estrutura, modernizar o sistema de impostos, as leis de trabalho e reduzir a desigualdade de renda e diminuir o custo brasil.

A economia brasileira contém uma indústria desenvolvida, inclusive com indústria

aeronáutica e uma agricultura desenvolvida e associada à indústria - o agronegócio, sendo que o setor de serviços cada vez ganha mais peso na economia . As recentes administrações expandiram a

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competição em portos marítimos, estradas de ferro, em telecomunicações, em geração de eletricidade, em distribuição do gás natural e em aeroportos com o alvo de promover o melhoramento da infra-estrutura. O Brasil começou à voltar-se para as exportações em 2004, e, mesmo com um real valorizado e a crise internacional, atingiu em 2008 exportações de US$ 197,9 bilhões, importações de US$ 173,2 bilhões, o que coloca o país entre os 19 maiores exportadores do planeta.

05- Fundamentos de assistência a família em saúde

INTRODUÇÃO

O modelo assistencial em saúde, ainda predominante no país é caracterizado pela prática

“hospitalocêntrica”, pelo individualismo, pelo uso desmedido dos recursos tecnológicos disponíveis e com baixa resolução. Vem gerando insatisfação para todos os participes do processo-gestores,

profissionais de saúde e população que utiliza o serviço (SOUZA, 2000).

O Ministério da Saúde (MS) assumiu desde 1991, a implantação do Programa de Agentes

Comunitários de Saúde (PACS) como transitório à formatação do Programa de Saúde da Família (PSF), em 1994, que visava estrategicamente, a reorientação do modelo assistencial brasileiro (SOUSA, 2000; TEIXEIRA et al, 2000).

Ao nosso ver, a perspectiva do PSF foge da concepção usual dos programas de atenção à saúde concebidos no MS, por não se tratar de intervenção pontual no tempo e no espaço direcionados a assuntos específicos, e tão pouco de forma vertical ou paralela às atividades dos serviços de saúde. Ao contrário, tem como objetivo, a integração e a organização das atividades em um território definido, com o propósito de enfrentar e resolver os problemas identificados, com vistas às mudanças radicais no sistema, de forma articulada e perene.

Com a implantação do PSF, vemos a ênfase crescente no desenvolvimento de estudos, cuja abordagem tem como foco principal, a família. Esta perspectiva vem de forma inovadora mudar a forma da atenção básica à saúde em nosso país, onde a estrutura é voltada para promoção de saúde voltada à família, nos seus mais variados contextos.

A equipe de Saúde da Família deve ser composta, no mínimo, por 1 médico generalista

(com conhecimento de clínica geral), 1 enfermeiro, 1 auxiliar de enfermagem e de 4 a 6 Agentes Comunitários de Saúde (BRASIL, 2001). De acordo com o BRASIL (2001); Teixeira et al (2000) assistir com integralidade inclui, entre outras questões, conceber o homem como sujeito social capaz de traçar projetos próprios de desenvolvimento.

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Segundo ANGELO (1999); ANTUNES & EGRY (2001) a ênfase crescente na família tem resultado na mudança da maneira como ela é percebida no contexto de saúde ultrapassando, sobretudo, as definições utilitárias que se atribuía à família, quando era vista unicamente como um bem para o paciente, sua presença às vezes, tolerada em especial em ambientes de assistência à saúde, levando-se em conta seu papel na esfera afetiva da recuperação do familiar doente.

No programa de saúde da família, este núcleo é entendido como uma unidade de cuidado e de perspectiva no processo de trabalho (ANGELO & BOUSSO, 2001a). Para o enfermeiro assistir à família, é necessário conhecer o funcionamento, os fatores que influenciam as suas experiências na saúde e na doença e o sentido de assistir família. Entender a Saúde da Família como estratégia de mudança significa repensar práticas, valores e conhecimentos de todos os grupos envolvidos no processo de produção social da saúde, respeitando suas culturas.

Segundo ANGELO & BOUSSO (2001b) a saúde da família é descrita como um estado ou processo da pessoa com um todo em interação com o ambiente, sendo que a família representa um fator significativo nele. A análise da saúde da família deve incluir simultaneamente saúde e doença, além dos aspectos individuais e coletivos. Algumas definições de saúde da família incluem a saúde individual dos membros da família e o bom funcionamento desta na sociedade, e envolve muito mais do que saúde física.

Assim, a definição deve compreender dois focos: o da saúde da família, relativo ao estado de saúde dos indivíduos que a compõem e, o do funcionamento da família, como uma descrição avaliativa das funções e estruturas da família, compondo, um quadro onde o foco da avaliação e da assistência está tanto na saúde individual, como na saúde da família como um todo (ANGELO & BOUSSO, 2001a).

De acordo com ANGELO & BOUSSO (2001a) é essencial compreender a família como a mais constante unidade de saúde para seus membros. Assim, a assistência à família como unidade de cuidado implica em conhecer como cada família cuida e identifica as suas forças, as suas dificuldades e os seus esforços para partilhar as responsabilidades. Com base nas informações obtidas, os profissionais devem usar seus conhecimentos sobre cada família, para junto dela, pensar e implementar a melhor assistência possível.

Segundo WRIGHT & LEAHEY (2002) para fundamentar-se teoricamente no entendimento de família devem considerá-la como um sistema. Quando esta definição é aplicada às famílias, possibilita-nos ver a cada uma delas como uma unidade, conseqüentemente, focalizar-nos na

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interação entre seus membros e não assistí-los individualmente. Assim, é preciso considerar cada membro da família, como um subsistema de um sistema.

A investigação em enfermagem da família no Brasil é muito recente, apesar de constar

artigos datados de 1993, nos periódicos indexados à base LILACS (Literatura Latino-Americana e do

Caribe em Ciências da Saúde). As publicações estão mais direcionadas a descrição das mudanças que estavam ocorrendo no modelo de atenção básica a saúde em nosso país.

O papel do enfermeiro em saúde da família, implica em relacionar todos os fatores sociais,

econômicos, culturais, etc, apresentados e não apenas em lidar com as situações de saúde e doença

da família, mas também interagir com situações que apóiem a integridade familiar (ANGELO & BOUSSO, 2001a)

Reconhecemos a importância da família, no contexto atual da saúde, revelando-a como ponto de partida para a melhoria das condições a que estas estão submetidas, fundamentadas na promoção de conhecimento para o bem-estar. Destacando aqui a enfermagem como profissão dotada de características específicas, capazes de realizar a promoção integral á saúde que se inicia com o trabalho preventivo. Trabalho este de fundamental importância para a diminuição de agravos no âmbito da atenção primária.

enfermeiro,

contribuirá para o planejamento das intervenções e melhoria quanto aos registros dos dados epidemiológicos.

Entendemos

que

a

qualificação

da

equipe,

principalmente

o

profissional

Desta forma, propusemo-nos a investigar as publicações acerca de saúde em família, onde nossos objetivos foram: identificar os artigos científicos sobre o cuidado de enfermagem à família, publicados em periódicos nacionais de enfermagem, indexados na base LILACS; e discutir sobre o cuidado de enfermagem à família, a partir de uma revisão bibliográfica, com vistas a subsidiar a abordagem desta problemática no campo de saúde coletiva.

METODOLOGIA

Para a elaboração deste estudo, consultamos periódicos indexados ao LILACS, através de uma pesquisa bibliográfica de artigos científicos publicados sobre a temática do cuidado de enfermagem à família. Para isto, incluímos as publicações acerca do tema encontradas nos periódicos no período de 1993- 2003. Para fins de estudo, foram consideradas as publicações relacionadas ao cuidado de enfermagem à família, utilizando como palavras-chaves “Assistência à Família”, “Saúde da Família” e “Enfermagem e Família”. A escolha dos artigos foi realizada mediante

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a leitura dos resumos, a fim de confirmar a temática proposta. Em caso de dúvidas sobre a abordagem do tema relacionado, realizávamos uma nova leitura, e após uma análise do resumo, decidíamos ou não por sua inclusão no estudo, baseados nas categorias previamente definidas.

Os artigos selecionados devem-se ao período que reflete as prerrogativas iniciais do Programa Saúde da Família e seu desenvolvimento durante os anos que se seguiram, levando assim, a uma busca de conhecimentos relacionados à atenção à família. Os artigos foram analisados de acordo com as seguintes categorias previamente definidas: conceitos e composição das famílias, sistematização e propostas de ações de enfermagem e formação e qualificação dos autores.

Após o mapeamento dos dados, os artigos foram identificados conforme os enfoques priorizados, agrupados e apresentados de acordo com sua temática: família, cuidados de enfermagem e caracterização dos autores.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os periódicos de enfermagem brasileira indexados no LILACS, a partir de 1993, publicaram 9 artigos referentes à família, encontrados por nós, acordados com a metodologia do trabalho.

Em consonância com os objetivos adotados neste estudo, agrupamos as publicações conforme as categorias previamente definidas: conceitos e composição das famílias, sistematização e propostas de ações de enfermagem e formação e qualificação dos autores. A Tabela 1 apresenta estes dados e ainda evidencia a associação de enfoques.

Tabela 1 – Distribuição das publicações sobre o cuidar de enfermagem à família indexados na base LILACS, conforme o enfoque priorizado – Brasil – 2003.

autores

ano

titulo

temática

ANGELO, M.

1999

Abrir-se para a família:

Propostas de ações.

superando desafios

ANGELO, M.; BOUSSO, R. S

2001a

Fundamentos da assistência à família em saúde

Conceito e composição das famílias.

ANGELO, M.; BOUSSO, R. S

2001b

Buscando preservar a integridade familiar: A família vivendo a experiência de ter um filho na UTI

Conceito de família

ANGELO, M.; BOUSSO, R. S

2001c

A enfermagem e o cuidado na Saúde da Família

Sistematização do cuidado

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2001

O

Programa Saúde da

Propostas de ações

ANTUNES, M. J. M.; EGRY, E. Y.

Família e a Reconstrução da Atenção Básica no SUS: A Contribuição da Enfermagem Brasileira.

GUIORSI, A. R.;

1992

Possibilidades e limitações para uma

Conceito de família e propostas de ações.

prática transformadora na enfermagem

familiar

LACERDA, M. R.;

1997

O

cuidado transpessoal

Conceito de família, sistematização do cuidado e propostas de ações.

de enfermagem no contexto familiar.

SOUSA, M. F.;

2000

A

enfermagem

Propostas de ações.

reconstruindo sua prática: mais que uma conquista no PSF.

TEIXEIRA, R. A.; MISHIMA, S. M.; PEREIRA, M. J. B.

2000

O

Trabalho de

Propostas de ações.

Enfermagem em Atenção Primária à Saúde – A Assistência à Saúde da Família.

Inicialmente, analisamos os mesmos quanto ao conceito de família, do total 4 artigos (44,4%) trazem alguma definição de família, mesmo que entrelaçada de particularidades para fins operacionais, onde vemos a família sendo analisada por vários enfoques e conceitos diferentes, que partem da concretude ao abstratismo filosófico pertinente a situação, fundamentada nos eixos da entidade familiar como um sistema referencial simbólico, biológico e natural. Os vínculos se fazem presentes, em equidade ou não, sustentados em uma estruturação embasada na dependência mútua equivalente de proteção, alimentação, social e etc., como aspectos básicos para a manutenção do complexo existente, indo além do natural e biológico, chegando ao afetivo de forma conclusiva para termos à família.

De acordo com GUIORSI (1993) a família é um produto da sociedade, na qual a mesma está inserida, de forma articulada, mantendo relações entre seus indivíduos, entremeada e embasada na estrutura social de classes. Unidade criativa e independente, compartilhando valores e experiências próprias, poder e afetividade, tornando-se um meio para as reivindicações da melhoria social. Segundo LACERDA (1997) família é conceituada como um conjunto de pessoas, que possuem vínculos afetivos/efetivos podendo ou não ser ambíguos. Fruto da constituição social a qual

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se integra diferenciando cultural e socialmente. Considerada centro integral de convivência de pessoas onde às necessidades são providas pelos membros integrantes uniformemente de forma, a manter a representação social da família.

A família nos trabalhos analisados é vista de forma abrangente e complexa onde, as relações entre os indivíduos são embasadas na estrutura de classes, de acordo com a sociedade a qual, a mesma integra. Faz-se unidade independente e criativa compartilhando valores e experiências próprias, poder e afetividade, fazendo se um meio em busca da melhoria de suas condições de vida.

De acordo com dados do ministério da saúde (BRASIL, 2001) as ações dos profissionais da Unidade de Saúde da Família devem entender a família em seu espaço social, compreendendo-o como rico em ações interligadas (Interações) e em conflitos.

Quanto à composição somente 1 artigo (11,1%) nos traz tal definição, onde a família para ANGELO & BOUSSO (2001a) é formada por membros que podem ou não estar relacionados ou viver juntos, podem conter ou não crianças sendo elas de único pai ou não. A definição nos traz as

evidências das mudanças estruturais que a família vem passando ao longo dos anos. Se refletirmos

a respeito de tal assunto, veremos que a família não apresenta na atualidade em sua maioria uma

composição baseada na estrutura paternalista, uma mudança estrutural esta sendo motivada pelas condições sociais, econômicas e culturais. As dificuldades a que as famílias são postas, fazem com que as mesmas reajam de forma a manter a integridade familiar, sendo para isso, necessário alterar

a composição da família.

A composição familiar é assunto que demanda discussão, para se chegar à definição mais próxima do correto possível, mas o que vemos são definições repletas de particularidades citadas por seus descritores. A família é entidade histórica representativa e base fundamental para a vida humana, e assim como a sociedade, a economia, a política entre outros fatores sofreram mudanças, ela também vem mudando de forma gradual, lutando por seu espaço, articulando da melhor forma encontrada para manter sua estrutura e bem-estar dos membros que a compõe. Somos fiéis creditadores da nova estrutura familiar que está se reorganizando na atualidade, motivados pelas alterações estruturais, onde os membros da família são parte de um todo, de forma a tornar inquestionável, e insubstituível a falta de um membro para a manutenção da família.

Estruturamos aqui família numa visão estereotipada, uma vez que nós também fazemos parte de uma, e sabemos o quanto nos é importante cada membro de nossa família, a falta de um membro na mesma, por morte ou outro motivo, traz momento de angústia e sensação de invalidez

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em relação à vida, mas se analisarmos este aspecto vemos que todas as barreiras e dificuldades são superadas, para algumas famílias com mais facilidade que outras. Vemos, portanto a força e a importância da família, e sua capacidade para lidar com as dificuldades de forma a produzir um ambiente melhor para cada indivíduo que a compõe, diminuindo o impacto que a vida, exprime a cada um de seus membros.

A sistematização do cuidado, foi retratada por 2 autores (22,2%) como ponto fundamental à

promoção do cuidado. LACERDA (1997) em seu trabalho apresenta a sistematização do trabalho de enfermagem no lar, onde retrata a experiência do cuidado transpessoal, afirmando o marco do cuidar

estar ligado a um tipo especial de relação de cuidado humano, aonde paciente e enfermeiro, tem maior consideração pelo todo da pessoa em seu ser no mundo. De uma forma o cuidado é prestado quando o enfermeiro consegue detectar o mundo subjetivo do paciente, unindo experiências, onde um completa o outro. Essa complementação é vista como ponto crucial à eficácia do cuidado, pois, o enfermeiro sede parte de suas forças para que o paciente se apóie, ocorrendo assim, à superação dos desafios. É importante lembrar que para prestar este tipo de cuidado, o enfermeiro deve estar preparado para doar e receber auxílio social, cultural, e etc, embasado nos princípios do cuidado transpessoal.

O processo do cuidar transpessoal é dividido em etapas, aonde se identificam fases para chegar ao cuidar, que são: contato inicial, aproximação, encontro transpessoal e separação.

A abordagem de ANGELO & BOUSSO (2001c) sobre a sistematização do cuidado na saúde

da família, tem como objetivo, a promoção da saúde através da mudança de propostas de ajuda a família, criando novas formas de interação para lidar com a doença, dando novos significados para a experiência ante a doença como: conhecer os pensamentos da família sobre o que causou a doença e as possibilidades de cura, para que esta, mude as crenças que impedem a implementação de estratégias para lidar com o cuidado da pessoa doente. E para isto, deve-se usar um modelo de avaliação e intervenção, capazes de promover o entendimento da maneira de ser da família sob análise.

A avaliação da família é composta de fundamentos teóricos de várias disciplinas resultando

numa estrutura multidimensional, subdividida em 3 categorias relativas à família: 1) Estrutural onde se deve saber quem faz parte da família, como se dá o relacionamento entre seus membros, quem se relaciona melhor com quem dentro da família, e como é o relacionamento da família com o meio. 2) Desenvolvimento – relativo ao processo de mudança estrutural e transformação progressiva da história familiar durante as fases do ciclo familiar, com as mudanças na constituição familiar durante

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os anos que se passam sobre aquelas que têm ou não filhos, que adotam, que morrem, casam, divorciam, etc; E assim, formular hipóteses sobre as experiências e dificuldades vividas anteriores, e então, junto dela, propor ou descartar estratégias para a superação dos problemas a partir destas experiências. 3) Avaliação funcional - que indica o modo de como os indivíduos geralmente se comportam em relação um ao outro. E assim, explorá-los sob dois aspectos, relativos às atividades diárias e cotidianas (comer, dormir, lazer, tomar remédios, etc). E outros aspectos de comunicação verbal e não-verbal entre os membros da família.

De acordo com ANGELO & BOUSSO (2001b) o uso do genograma e do ecomapa como instrumentos, de avaliação estrutural da família auxiliam positivamente, permitindo obter este conhecimento de forma rápida, prática e confiável.

respeito das

propostas, embasadas no Programa de Saúde da Família (PSF), que tem como objetivo a reestruturação da atenção básica no Brasil.

Quanto às propostas de ações, 6 artigos (66,6%)

tecem comentários a

De acordo com SOUZA (2000); BRASIL (2001) a estratégia do PSF propõe uma nova dinâmica para a estruturação dos serviços de saúde, bem como para a sua relação com a comunidade e entre os diversos níveis de complexidade assistencial. O programa assume o

compromisso de prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e resolutiva à população,

na unidade de saúde e no domicílio, acordados com as reais necessidades, de forma a identificar os

fatores de risco e intervir nos mesmos de forma adequada.

Ainda se propõe com esta nova estruturação da atenção básica, a humanização das práticas de saúde, buscando a satisfação do usuário através do estreito relacionamento dos profissionais com a comunidade e estimulando-a ao reconhecimento da saúde como direito de cidadania, melhorando a qualidade de vida de todos.

A estratégia da Saúde da Família, por ser um projeto estruturante, deve provocar uma transformação interna do sistema de saúde, com vistas à reorganização das ações e serviços de saúde. Esta mudança implica na ruptura da dicotomia entre as ações de saúde pública e a atenção médica individual, assim como, entre as práticas educacionais e assistenciais.

Apesar da experiência de Saúde da Família no Brasil caracterizar-se pela sua jovialidade, já apresenta significativa acumulação de práticas e saberes, apontando para a relevante importância de

se promover um permanente intercâmbio técnico e científico entre os atores envolvidos no processo.

A crescente evolução na produção de conhecimentos existente na área de enfermagem da família,

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ainda não tem resultado em sua aplicação na prática com a mesma intensidade. A observação mostra que nem todas as categorias profissionais da área de saúde concebem família como parte de sua prática, e que mesmo entre aqueles em que tradicionalmente a família está presente, como na pediatria e obstetrícia, nem todos os enfermeiros consideram a família como foco de sua atenção.

A enfermagem ainda está muito impregnada pelo modelo assistencial hospitalocêntrico, de caráter individualista, e centrado na doença, onde a família não passa de fonte de orientação e de busca de informações a respeito do paciente.

A sensibilização está ocorrendo de forma lenta, fornecida por uma formação acadêmica que considera a família como centro do cuidado, que é elemento essencial, preenchendo a estrutura curricular, que se tem como eixo o cuidar em família. Estar sensibilizado é ser capaz de reconhecer a família como um fenômeno complexo que demanda apoio, sobretudo na situação de doença, considerando a importância da família para o cuidado de enfermagem e a importância do cuidado da família em suas experiências de saúde (ANGELO, 1999).

Outro aspecto importante juntamente com a sensibilização é a instrumentalização do enfermeiro e demais profissionais da saúde, como estímulo a uma prática avançada; buscando dispor de recursos de conhecimentos que os capacitem a pensar e agir em família. A aproximação dos enfermeiros ao conhecimento existente sobre família, como referenciais teóricos, instrumentos de avaliação, estratégias de aproximação, relacionamento com a família, técnicas de intervenção, capacita-os a pensar em família, a utilizar uma linguagem apropriada e a formular questões acerca da prática realizada (ANGELO, 1999).

Trabalhar em família não é tarefa fácil, e exige do enfermeiro a análise acurada do contexto sócio-econômico e cultural, em que a família esta inserida, analisando suas representações perante a sociedade, conhecendo a sua realidade de forma a desvendar o entendimento da família para que o conhecimento se funda à prática, de forma a superar os limites e possibilidades para a concretização das propostas.

Quanto à formação e qualificação dos autores que publicaram trabalhos acerca de enfermagem em família observamos que os trabalhos, foram realizados por 6 doutores (40%), 3 mestres (20%), e 6 especialistas (40%), coincidindo com a qualificação dos autores que publicam a respeito de diversos temas nas áreas enfermagem, em decorrência do preparo formal que doutores, mestres e especialistas recebem para o desenvolvimento da investigação científica e promoção de novos conhecimentos.(Ver Gráfico 1). Ainda observamos que 12 (80%) dos autores realizam atividades na área de saúde coletiva e/ou participam de alguma atividade que envolve o estudo em

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família, como por exemplo o Grupo de Estudos em Enfermagem da Família (GEEF), evidenciando as áreas de enfermagem que realizam estes tipos de estudos, permanecerem maior parte do tempo na atenção básica, o que os motivam ao trabalho em família e a sua importância. Observa-se que do total de autores 13 (86.6%), são professores ligados a alguma instituição de enfermagem de nível superior, e 2 (13.3%) são profissionais que atuam na área de saúde pública. A análise deste fato, nos permite evidenciar o interesse, dos docentes de enfermagem pela família, motivados pela nova vertente que tende o modelo de assistência a saúde no país, embasados e estruturados por formas de assistência vindas de outros países, cujos resultados parecem promissores. Destacamos ainda que o PSF no Brasil está passando por um processo de adaptação à realidade da saúde no país, onde o seu próprio perfil está sendo delineado.

06- Saúde de informação da atenção básica(SIAB), como instrumento de trabalho da equipe do PSF

A origem do Programa Saúde da Família ou PSF, teve início, em 1994, como um dos programas propostos pelo governo federal aos municípios para implementar a atenção básica. O PSF é tido como uma das principais estratégias de reorganização dos serviços e de reorientação das práticas profissionais neste nível de assistência, promoção da saúde , prevenção de doenças e reabilitação. Traz, portanto, muitos e complexos desafios a serem superados para consolidar-se enquanto tal. No âmbito da reorganização dos serviços de saúde, a estratégia da saúde da família vai ao encontro dos debates e análises referentes ao processo de mudança do paradigma que orienta o modelo de atenção à saúde vigente e que vem sendo enfrentada, desde a década de 1970, pelo conjunto de atores e sujeitos sociais comprometidos com um novo modelo que valorize as ações de promoção e proteção da saúde, prevenção das doenças e atenção integral às pessoas. Estes pressupostos, tidos como capazes de produzir um impacto positivo na orientação do novo modelo e na superação do anterior, calcado na supervalorização das práticas da assistência curativa, especializada e hospitalar, e que induz ao excesso de procedimentos tecnológicos e medicamentosos e, sobretudo, na fragmentação do cuidado, encontra, em relação aos recursos humanos para o Sistema Único de Saúde (SUS), um outro desafio. Tema também recorrente nos debates sobre a reforma sanitária brasileira, verifica-se que, ao longo do tempo, tem sido unânime o reconhecimento acerca da importância de se criar um "novo modo de fazer saúde".

Atualmente, o PSF é definido com Estratégia Saúde da Família (ESF), ao invés de programa, visto que o termo programa aponta para uma atividade com início, desenvolvimento e finalização. O PSF é uma estrátégia de reorganização da atenção primária e não prevê um tempo para finalizar esta reorganização.

80

No Brasil a origem do PSF remonta criação do PACS em 1991, como parte do processo de reforma do setor da saúde, desde a Constituição, com intenção de aumentar a acessibilidade ao sistema de saúde e incrementar as ações de prevenção e promoção da saúde. Em 1994 o Ministério da Saúde, lançou o PSF como política nacional de atenção básica, com caráter organizativo e substitutivo, fazendo frente ao modelo tradicional de assistência primária baseada em profissionais médicos especialistas focais. Atualmente, reconhece-se que não é mais um programa e sim uma Estratégia para uma Atenção Primária à Saúde qualificada e resolutiva.

Percebendo a expansão do Programa Saúde da Família que se consolidou como estratégia prioritária para a reaorganização da Atenção Básica no Brasil, o governo emitiu a Portaria Nº 648, de 28 de Março de 2006, onde ficava estabelecido que o PSF é a estratégia prioritária do Ministério da Saúde para organizar a Atenção Básica — que tem como um dos seus fundamentos possibilitar o acesso universal e contínuo a serviços de saúde de qualidade, reafirmando os princípios básicos do SUS: universalização, equidade, descentralização, integralidade e participação da comunidade - mediante o cadastramento e a vinculação dos usuários.

Como conseqüência de um processo de des_hospitalização e humanização do Sistema Único de Saúde, o programa tem como ponto positivo a valorização dos aspectos que influenciam a saúde das pessoas fora do ambiente hospitalar.

Características e composição

De acordo com a Portaria Nº 648, de 28 de Março de 2006, além das características do processo de trabalho das equipes de Atenção Básica ficou definido as características do processo de trabalho da Saúde da Família:

1. manter atualizado o cadastramento das famílias e dos indivíduos e utilizar, de forma

sistemática, os dados para a análise da situação de saúde considerando as características sociais, econômicas, culturais, demográficas e epidemiológicas do território;

2. definição precisa do território de atuação, mapeamento e reconhecimento da área

adstrita, que compreenda o segmento populacional determinado, com atualização contínua;

3. diagnóstico, programação e implementação das atividades segundo critérios de risco

à saúde, priorizando solução dos problemas de saúde mais freqüentes;

4. prática do cuidado familiar ampliado, efetivada por meio do conhecimento da estrutura

e da funcionalidade das famílias que visa propor intervenções que influenciem os processos de

saúde doença dos indivíduos, das famílias e da própria comunidade;

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5. trabalho interdisciplinar e em equipe, integrando áreas técnicas e profissionais de

diferentes formações;

6. promoção e desenvolvimento de ações intersetoriais, buscando parcerias e integrando

projetos sociais e setores afins, voltados para a promoção da saúde, de acordo com prioridades e sob a coordenação da gestão municipal;

7. valorização dos diversos saberes e práticas na perspectiva de uma abordagem

integral e resolutiva, possibilitando a criação de vínculos de confiança com ética, compromisso e

respeito;

8. promoção e estímulo à participação da comunidade no controle social, no

planejamento, na execução e na avaliação das ações; e

9. acompanhamento e avaliação sistematica das ações implementadas, visando à

readequação do processo de trabalho.

Baseado nesta mesma portaria foi estabelecido que para a implantação das Equipes de Saúde da Família deva existir (entre outros quesitos) uma equipe multiprofissional responsável por, no máximo, 4.000 habitantes, sendo que a média recomendada é de 3.000. A equipe básica composta por minimamente médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem (ou técnico de enfermagem) e Agentes Comunitários de Saúde, deve ter uma jornada de trabalho de 30 horas semanais para todos os integrantes. Inúmeras cidades brasileiras contratam outros profissionais como farmacêuticos, nutricionistas, educadores físicos, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, etc.

Atribuições dos membros da Equipe de Saúde da Família

As atribuições dos profissionais pertencentes à Equipe ficaram estabelecidos também pela Portaria Nº 648, de 28 de Março de 2006, podendo ser complementadas pela gestão local.

Atribuições comuns a todos os Profissionais que integram as equipes

1. participar do processo de territorialização e mapeamento da área de atuação da

equipe, identificando grupos, famílias e indivíduos expostos a riscos, inclusive aqueles relativos ao

trabalho, e da atualização contínua dessas informações, priorizando as situações a serem acompanhadas no planejamento local;

2. realizar o cuidado em saúde da população adscrita, prioritariamente no âmbito da

unidade de saúde, no domicílio e nos demais espaços comunitários (escolas, associações,entre

outros), quando necessário;

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3. realizar ações de atenção integral conforme a necessidade de saúde da população

local, bem como as previstas nas prioridades e protocolos da gestão local;

4. garantir a integralidade da atenção por meio da realização de ações de promoção da

saúde, prevenção de agravos e curativas; e da garantia de atendimento da demanda espontânea, da realização das ações programáticas e de vigilância à saúde;

5. realizar busca ativa e notificação de doenças e agravos de notificação compulsória e

de outros agravos e situações de importância local;

6. realizar a escuta qualificada das necessidades dos usuários em todas as ações,

proporcionando atendimento humanizado e viabilizando o estabelecimento do vínculo;

7. responsabilizar-se pela população adscrita, mantendo a coordenação do cuidado

mesmo quando esta necessita de atenção em outros serviços do sistema de saúde;

8. participar das atividades de planejamento e avaliação das ações da equipe, a partir da

utilização dos dados disponíveis;

9. promover a mobilização e a participação da comunidade, buscando efetivar o controle

social;

10. identificar parceiros e recursos na comunidade que possam potencializar ações

intersetoriais com a equipe, sob coordenação da SMS;

11. garantir a qualidade do registro das atividades nos sistemas nacionais de informação

na Atenção Básica;

12. participar das atividades de educação permanente; e

13. realizar outras ações e atividades a serem definidas de acordo com as prioridades

locais.

Do Enfermeiro do Programa Agentes Comunitários de Saúde

1. planejar, gerenciar, coordenar e avaliar as ações desenvolvidas pelos ACS;

2. supervisionar, coordenar e realizar atividades de qualificação e educação permanente

dos ACS, com vistas ao desempenho de suas funções;

3. facilitar a relação entre os profissionais da Unidade Básica de Saúde e ACS,

contribuindo para a organização da demanda referenciada;

4. realizar consultas e procedimentos de enfermagem na Unidade Básica de Saúde e,

quando necessário, no domicílio e na comunidade;

5. solicitar exames complementares e prescrever medicações, conforme protocolos ou

outras normativas técnicas estabelecidas pelo gestor municipal ou do Distrito Federal, observadas as

disposições legais da profissão;

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6. organizar e coordenar grupos específicos de indivíduos e famílias em situação de

risco da área de atuação dos ACS; e

7. participar do gerenciamento dos insumos necessários para o adequado

funcionamento da UBS.

Do Enfermeiro

1. realizar assistência integral (promoção e proteção da saúde, prevenção de agravos,

diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção da saúde) aos indivíduos e famílias na USF e, quando indicado ou necessário, no domicílio e/ou nos demais espaços comunitários (escolas, associações etc.), em todas as fases do desenvolvimento humano: infância, adolescência, idade

adulta e terceira idade;durante o tempo e frequencia necessarios de acordo com as necessidades de cada paciente;

2. conforme protocolos ou outras normativas técnicas estabelecidas pelo Conselho

Federal de Enfermagem (COFEN) aprova a Resolução n.º 195, de 18/02/97, observadas as

disposições legais da profissão, realizar consulta de enfermagem, solicitar exames complementares e prescrever medicações;

3. planejar, gerenciar, coordenar e avaliar as ações desenvolvidas pelos ACS;

4. supervisionar, coordenar e realizar atividades de educação permanente dos ACS e da

equipe de enfermagem;

5. contribuir e participar das atividades de Educação Permanente do Auxiliar de

Enfermagem, ACD e THD; e

6. participar do gerenciamento dos insumos necessários para o adequado

funcionamento da USF.

7. Planejar, gerenciar, coordenar, executar e avaliar a USF.

Do Médico

1. realizar assistência integral (promoção e proteção da saúde, prevenção de agravos,

diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção da saúde) aos indivíduos e famílias em todas as

fases do desenvolvimento humano: infância, adolescência, idade adulta e terceira idade;

2. realizar consultas clínicas e procedimentos na USF e, quando indicado ou necessário,

no domicílio e/ou nos demais espaços comunitários (escolas, associações etc);

3. realizar atividades de demanda espontânea e programada em clínica médica,

pediatria, ginecoobstetrícia, cirurgias ambulatoriais, pequenas urgências clínico-cirúrgicas e procedimentos para fins de diagnósticos;

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4. encaminhar, quando necessário, usuários a serviços de média e alta complexidade,

respeitando fluxos de referência e contrareferência locais, mantendo sua responsabilidade pelo acompanhamento do plano terapêutico do usuário, proposto pela referência;

5. indicar a necessidade de internação hospitalar ou domiciliar, mantendo a

responsabilização pelo acompanhamento do usuário;

6. contribuir e participar das atividades de Educação Permanente dos ACS, Auxiliares de

Enfermagem, ACD e THD; e

7. participar do gerenciamento dos insumos necessários para o adequado

funcionamento da USF.

Do Auxiliar e do Técnico de Enfermagem

1. participar das atividades de assistência básica realizando procedimentos

regulamentados no exercício de sua profissão na USF e, quando indicado ou necessário, no domicílio e/ou nos demais espaços comunitários (escolas, associações etc);

2. realizar ações de educação em saúde a grupos específicos e a famílias em situação

de risco, conforme planejamento da equipe; e

3. participar do gerenciamento dos insumos necessários para o adequado

funcionamento da USF.

Do Cirurgião Dentista

1. realizar diagnóstico com a finalidade de obter o perfil epidemiológico para o

planejamento e a programação em saúde bucal;

2. realizar os procedimentos clínicos da Atenção Básica em saúde bucal, incluindo

atendimento das urgências e pequenas cirurgias ambulatoriais;

3. realizar a atenção integral em saúde bucal (promoção e proteção da saúde, prevenção

de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção da saúde) individual e coletiva a todas as famílias, a indivíduos e a grupos específicos, de acordo com planejamento local, com resolubilidade;

4. encaminhar e orientar usuários, quando necessário, a outros níveis de assistência,

mantendo sua responsabilização pelo acompanhamento do usuário e o segmento do tratamento;

5. coordenar e participar de ações coletivas voltadas à promoção da saúde e à

prevenção de doenças bucais; acompanhar, apoiar e desenvolver atividades referentes à saúde bucal com os demais membros da Equipe de Saúde da Família, buscando aproximar e integrar ações de saúde de forma multidisciplinar.

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6. contribuir e participar das atividades de Educação Permanente do THD, ACD e ESF;

7. realizar supervisão técnica do THD e ACD; e

8. participar do gerenciamento dos insumos necessários para o adequado

funcionamento da USF.

Do Técnico em Higiene Dental (THD)

1. realizar a atenção integral em saúde bucal (promoção, prevenção, assistência e

reabilitação) individual e coletiva a todas as famílias, a indivíduos e a grupos específicos, segundo programação e de acordo com suas competências técnicas e legais;

2. coordenar e realizar a manutenção e a conservação dos equipamentos odontológicos;

3. acompanhar, apoiar e desenvolver atividades referentes à saúde bucal com os demais

membros da equipe de Saúde da Família, buscando aproximar e integrar ações de saúde de forma

multidisciplinar.

4. apoiar as atividades dos ACD e dos ACS nas ações de prevenção e promoção da

saúde bucal; e

adequado

funcionamento da USF.

dos

5. participar

do

gerenciamento

insumos

necessários

para

o

Do auxiliar de Consultório Dentário (ACD)

1. realizar ações de promoção e prevenção em saúde bucal para as famílias, grupos e

indivíduos, mediante planejamento local e protocolos de atenção à saúde;

2. proceder à desinfecção e à esterilização de materiais e instrumentos utilizados;

3. preparar e organizar instrumental e materiais necessários;

4. instrumentalizar e auxiliar o cirurgião dentista e/ou o THD nos procedimentos clínicos;

5. cuidar da manutenção e conservação dos equipamentos odontológicos;

6. organizar a agenda clínica;

7. acompanhar, apoiar e desenvolver atividades referentes à saúde bucal com os demais

membros da equipe de saúde da família, buscando aproximar e integrar ações de saúde de forma multidisciplinar; e

8. participar do gerenciamento dos insumos necessários para o adequado

funcionamento da USF.

Atribuições específicas do Agente Comunitário de Saúde. Agente Comunitário de Saúde (ACS) mora na comunidade e está vinculado à USF que atende a comunidade. Ele faz parte do time da Saúde da Família! Quem é o agente comunitário? È alguém que se destaca na comunidade, pela

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capacidade de se comunicar com as pessoas, pela liderança natural que exerce. O ACS funciona como elo entre e a comunidade. Está em contato permanente com as famílias, o que facilita o trabalho de vigilância e promoção da saúde, realizado por toda a equipe. É também um elo cultural, que dá mais força ao trabalho educativo, ao unir dois universos culturais distintos: o do saber científico e o do saber popular.

O seu trabalho é feito nos domicílios de sua área de abrangência. As atribuições específicas do ACS são as seguintes:

1. Realizar mapeamento de sua área; 2. Cadastrar as famílias e atualizar permanentemente esse cadastro; 3. Identificar indivíduos e famílias expostos a situações de risco; 4. Identificar área de risco; 5. Orientar as famílias para utilização adequada dos serviços de saúde, encaminhando-as e até agendando consultas, exames e atendimento odontólogico, quando necessário; 6. Realizar ações e atividades, no nível de suas competências, na áreas prioritárias da Atenção Básicas; 7. Realizar, por meio da visita domiciliar, acompanhamento mensal de todas as famílias sob sua responsabilidade; 8. Estar sempre bem informado, e informar aos demais membros da equipe, sobre a situação das família acompanhadas, particularmente aquelas em situações de risco; 9. Desenvolver ações de educação e vigilância à saúde, com ênfase na promoção da saúde e na prevenção de doenças; 10. Promover a educação e a mobilização comunitária, visando desenvolver ações coletivas de saneamento e melhoria do meio ambiente, entre outras; 11. Traduzir para a ESF a dinâmica social da comunidade, suas necessidades, potencialidades e limites; 12. Identificar parceiros e recursos existentes na comunidade que possa ser potencializados pela equipe.

Núcleos de Apoio da Saúde da Família (NASF)

Considerando, dentre outras questões, o Inciso II do Art. 198 da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, que dispõe sobre a integralidade da atenção como diretriz do Sistema Único de Saúde – SUS, o Ministério da Saúde criou os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) – através da [Portaria Nº154, de 24 de janeiro de 2008].

Segundo o Art. 1º da Portaria, os NASF têm por objetivo “ampliar a abrangência e o escopo das ações da atenção básica, bem como sua resolubilidade, apoiando a inserção da estratégia de Saúde da Família na rede de serviços e o processo de territorialização e regionalização a partir da atenção básica”.

Para isso, a Portaria classifica os NASF em duas modalidades: NASF 1 e NASF 2. Para cada uma das modalidades, estipula um mínimo de profissionais de nível superior, como o

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Profissional de Educação Física, o Assistente Social, o Fisioterapeuta, o Fonoaudiólogo, dentre outros, conforme descrito no Art. 3º (abaixo):

Art. 3º - Determinar que os NASF estejam classificados em duas modalidades, NASF 1 e NASF 2, ficando vedada a implantação das duas modalidades de forma concomitante nos Municípios e no Distrito Federal.

§ 1º - O NASF 1 deverá ser composto por, no mínimo cinco profissionais de nível superior de ocupações não-coincidentes entre as listadas no § 2º deste artigo.

§ 2º - Para efeito de repasse de recursos federais, poderão compor os NASF 1 as seguintes

ocupações do Código Brasileiro de Ocupações - CBO: Médico Acupunturista; Assistente Social; Profissional da Educação Física; Farmacêutico; Fisioterapeuta; Fonoaudiólogo; Médico Ginecologista; Médico Homeopata; Nutricionista; Médico Pediatra; Psicólogo; Médico Psiquiatra; e Terapeuta Ocupacional.

§ 3º - O NASF 2 deverá ser composto por no mínimo três profissionais de nível superior de ocupações não-coincidentes entre as listadas no § 4º deste artigo.

§ 4º - Para efeito de repasse de recursos federais, poderão compor os NASF 2 as seguintes

ocupações do Código Brasileiro de Ocupações - CBO: Assistente Social; Profissional da Educação Física; Farmacêutico; Fisioterapeuta; Fonoaudiólogo; Nutricionista; Psicólogo; e Terapeuta Ocupacional.

A trajetória do Programa

Década de 70

1974 Projeto de Saúde Comunitária da Unidade São José do Murialdoda Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sulcom Projeto Voluntários de Saúde (pessoal da comunidade atuando junto à equipe de saúde comunitária do Murialdo.

1976 PIASS

Início dos primeiros programas de Residênia Médica na área (Saúde Comunitária, Medicina Integal e Medicina Comunitária.

Década de 80 - início da experiência de Agentes Comunitários e Saúde pelo Ministério da

Saúde.

88

1991 – Criação oficial do PACS (Programa de Agentes Comunitários de Saúde) pelo

Ministério da Saúde

1994 – Realização do estudo “Avaliação Qualitativa do PACS”; criação do Programa Saúde

da Família; primeiro documento oficial “Programa Saúde da Família: dentro de casa”; e criação de

procedimentos vinculados ao PSF e ao PACS na tabela do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS); a população coberta pelo PSF era em torno de 1 milhão de pessoas.

1996 – Legalização da Norma Operacional Básica (NOB 01/96) para definição de um novo

modelo de financiamento para a atenção básica à saúde.

1997 – Lançamento do Reforsus, um projeto de financiamento para impulsionar a

implantação dos Pólos de Capacitação, Formação e Educação Permanente de Recursos Humanos para Saúde da Família; publicação de um segundo documento oficial “PSF: uma estratégia para a reorientação do modelo assistencial”, dirigido aos gestores e trabalhadores do SUS e instituições de ensino; PACS e PSF são incluídos na agenda de prioridade da Política de Saúde; publicação da Portaria MS/GM nº. 1882, criando o Piso de Atenção Básica (PAB), e da portaria MS/GM nº. 1886, com as normais de funcionamento do PSF e do PACS.

1998 — O PSF passa a ser considerado estratégia estruturante da organização do SUS;

início da transferência dos incentivos financeiros fundo a fundo destinados ao PSF e ao PACS, do Fundo Nacional de Saúde para os Fundos Municipais de Saúde; primeiro grande evento: “I Seminário de Experiências Internacionais em Saúde da Família”; edição do “Manual para a Organização da Atenção Básica”, que ser serviu como importante respaldo organizacional para o PSF; definição, pela primeira vez, de orçamento próprio para o PSF, estabelecido no Plano Plurianual.

1999 — Realização do 1º Pacto da Atenção Básica e do segundo grande evento, “I Mostra

Nacional de Produção em Saúde da Família — construindo um novo modelo”; realização do estudo “Avaliação da implantação e funcionamento do Programa Saúde da Família”; edição da Portaria nº. 1.329, que estabelece as faixas de incentivo ao PSF por cobertura populacional.

2000 — Criação do Departamento de Atenção Básica para consolidar a Estratégia de Saúde

da Família; publicação dos Indicadores 1999 do Sistema de Informação da Atenção Básica; a

população atendida alcança o percentual de 20% da população brasileira.

2001 — Edição da “Norma Operacional da Assistência à Saúde — NOAS/01”, ênfase na

qualificação da atenção básica; realização de um terceiro evento, “II Seminário Internacional de

Experiências em Atenção Básica/Saúde da Família”; apoio à entrega de medicamentos básicos às

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Equipe de Saúde da Família (ESF); incorporação das ações de saúde bucal ao PSF; realização da primeira fase do estudo “Monitoramento das equipes de Saúde da Família no Brasil”.

2002 — Realização de um quarto evento: “PSF — A saúde mais perto de 50 milhões de

brasileiros” e da segunda fase do estudo “Monitoramento das equipes de Saúde da Família no

Brasil”; A população coberta pelo PSF ultrapassa os 50 milhões de pessoas.

2003 — Início da execução do Programa de Expansão e Consolidação da Estratégia de

Saúde da Família (Proesf), cuja proposta inicial era a ampliação do programa em municípios de grande porte, ou seja, com mais de 100 mil habitantes, e publicação dos Indicadores 2000, 2001 e 2002 do Sistema de Informação da Atenção Básica.

2006 — Considerando a expansão do PSF, que se consolidou como estratégia prioritária

para reorganização da atenção básica no Brasil e primeiro nível da atenção à saúde no SUS, o Ministério da Saúde publicou a Portaria Nº 648, de 28 de Março de 2006 e outras de importância.

07- Epidemiologia das doenças não transmissíveis

A Europa apresenta actualmente uma elevada prevalência de doenças não transmissíveis, tais como o cancro, a diabetes, as doenças cardiovasculares, a obesidade e as perturbações músculo-esqueléticas, que podem ser atribuídas a uma interacção de vários factores, nomeadamente genéticos, ambientais e, sobretudo, relacionados com o estilo de vida, como é o caso do tabaco, do consumo excessivo de bebidas alcoólicas, da má alimentação e da inactividade física. No seu programa de acção no domínio da saúde para 2008-2013, a União Europeia recomenda, para lutar contra as doenças que podem ser evitadas, que sejam desenvolvidas estratégias e mecanismos de prevenção, troca de informações e resposta às ameaças de doenças não transmissíveis, incluindo as ameaças para a saúde específicas de um determinado sexo e as doenças raras. Visto que, na sua maioria, este tipo de doenças pode ser evitado, as principais actividades deverão privilegiar a sensibilização do público, o aumento dos conhecimentos na área em questão e o reforço das medidas preventivas. A UE tenciona apoiar essas acções através da criação de sistemas e redes de troca de informações entre os Estados-Membros, tendo em vista gerar um fluxo de informações, análises e intercâmbio de boas práticas no domínio da saúde pública.

O objectivo da morbidade e da mortalidade por grupo de trabalho é o de proporcionar um fórum de discussão e troca de opiniões e experiências em matéria de informação e conhecimento nas áreas de morbilidade e mortalidade a nível nacional, sub-nacional ea nível da União Europeia. O

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Grupo de Trabalho serve como um grupo de peritos para aconselhar sobre a informação eo conhecimento para o acompanhamento das políticas comunitárias e outras iniciativas no domínio da morbidade e mortalidade.

O conceito de informação em saúde e conhecimento deve ser entendido pelas principais doenças transmissíveis como a recolha, tratamento, análise e partilha de objectivos, fiáveis, compatíveis e de dados comparáveis sobre as doenças que afectam a saúde humana. As questões a ser abordadas, a fim de tornar doença informações mais relevantes para a acção comunitária no domínio da saúde pública, incluir a identificação dos principais grupos de utilizadores, dos problemas identificados a nível da UE - como a qualidade dos dados disponíveis (por exemplo, actualidade, comparabilidade) , as lacunas na informação e inacessíveis os dados (por exemplo, dados que não são amplamente disponíveis).

O Grupo de Trabalho irá, assim, contribuir para a melhoria da informação e do conhecimento para o desenvolvimento da saúde pública. Irá assistir a Comissão no desenvolvimento e coordenação do Sistema de Informação de Saúde, a conclusão do trabalho técnico e científico fundo para o estabelecimento dos principais indicadores e doenças raras e outras necessidades de informação.

A actividade no domínio da morbidade e mortalidade por doenças transmissíveis não dirá respeito (incluindo as doenças raras), bem como condições crônicas nas seguintes dimensões:

Objectivo morbidade reflete "reais" necessidades de saúde independente do ponto de vista subjectivo, tanto do paciente e do examinador. Este é o clássico dados relativos à incidência e prevalência dos "verdadeiros" problemas de saúde (doenças), como são descritas pela ciência médica nesse momento.

Morbidade auto-relatada é totalmente ligada a sentimentos pessoais do paciente através de HIS (Health Interview Surveys), independentemente de qualquer objectividade ou diagnóstico.

Os fatores de risco para morbidade através população nacional baseada HES (Saúde Exame Inquéritos), com uma ampla geral (não-doença específica / focado) saúde ou como foco definido em alguns estudos epidemiológicos. Outras individuais dos exames realizados, quer em todo um inquérito ou de acordo com os temas escolhidos saúde em alguns inquéritos.

Diagnosticados morbidade que só intervém na fase final do processo reflecte tanto os resultados das etapas anteriores (daí a necessidade ea procura), bem como o funcionamento do

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sistema de saúde em si. Por esta razão, é também um indicador do nível socioeconômico incidência de morbidade.

Especial grupos-alvo "dimensões relacionadas a categorias específicas (por exemplo, a saúde infantil, etc), bem como indicadores relacionados com a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Neste domínio físico, necessidades e demandas é um aspecto que poderia ser analisado pelo MMWP.

Mortalidade, como a análise das tendências europeias mortalidade delineando a diferença importante para diversas causas de morte antes de tentar interpretar as diferenças entre países em termos de fatores etiológicos avaliar os eventuais vícios que afectam a comparabilidade dos dados.

As desigualdades em saúde são horizontais um ponto a ser considerado por todos os grupos de trabalho. É sobejamente conhecido que a morbidade e mortalidade e os padrões são diferentes nos grupos sociais de acordo com a idade, classe social, situação de emprego, condições de vida e condições de trabalho. Como resultado, existem diferenças marcantes na morbidade e mortalidade entre os diferentes grupos sócio-económicos nos Estados-Membros.

O MMWP não vai lidar com a morbidade dimensão (mas ele vai lidar com a mortalidade dimensão ou com a condições mórbidas levando a uma deficiência) relacionados com as doenças transmissíveis e doenças profissionais, para que outras estruturas específicas existe. O grupo de trabalho é assistido por uma assistência científica Office (SAO) coordenado pela NIVEL (Netherlands Institute for Health Services Research, Holanda). As principais tarefas da SAO estão a ajudar a Comissão e Serviços WPMM como componentes do conselho estruturas dentro da Informação vertente do Programa de Saúde Pública 2003-2008. Em particular, reunindo a experiência e conhecimentos no âmbito do Grupo de Trabalho (ou seja, de peritos nacionais e dos resultados dos projectos), contribuindo para uma melhor integração dos resultados do Programa de Saúde Pública 2003-2008 da UE em política de saúde pública e práticas; e contribuir para a elaboração da síntese dos projectos "saídas para as reuniões do NWPL e do ANC, a fim de preparar a tomada de decisões pelos Estados-Membros.

Musculosqueléticas condições incluem mais de 150 doenças e síndromes, que são geralmente progressiva e associada a dor. Elas podem ser categorizadas como amplamente conjunta doenças, incapacidade física, distúrbios espinhal, e as condições resultantes de trauma. Essas condições, com o maior impacto sobre a sociedade incluem artrite reumatóide, osteoartrite, osteoporose, lombalgia, e membro trauma. O termo indeterminado musculoskeletal problemas não é uma abordagem diagnóstica, que inclui todas as condições dor no sistema musculoesquelético.

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Dor é a queixa mais freqüentemente relatada em entrevista saúde inquéritos. Há uma confusão de nomes dado a magnitude dor queixas reflectindo opiniões divergentes e uma falta de consenso do que é toda sobre. Musculosqueléticas condições (MSC) é muito comum e tem consequências importantes para o indivíduo e para a sociedade. Normalmente cerca de 50% da população relatório dor em um ou mais locais para, pelo menos, uma semana no último mês. Inquéritos à população mostram que a dor lombar é o local mais comum de dor regional na meia idade e jovens adultos, e dor no joelho idosos. A prevalência de deficiência física é maior em mulheres do que homens. Ela aumenta com a idade, cerca de 60% das mulheres com idades compreendidas entre os mais de 75 anos residentes na comunidade relatam algumas limitações físicas. Em indivíduos em idade de trabalhar, MSC - em especial, as dores nas costas e dor generalizada generalizada - são uma causa comum de faltas por doença e invalidez trabalho de longo prazo e, portanto, um grande problema para os indivíduos afetados, com enormes consequências económicas para a sociedade.

Entre as pessoas mais velhas artrite reumatóide, osteoartrite e osteoporose estão associados com uma perda de independência e uma necessidade de mais apoio na comunidade ou a admissão de cuidados. Cerca de 15-20% das consultas de cuidados primários são para MSC. Muitas destas pessoas são referidas como as profissões da saúde aliado fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais ou quiropráticos, nem com médicos especialistas, como reumatologistas, cirurgiões ortopédicos ou reabilitação especialistas. Total conjunta substituição (sobretudo da anca ou joelho) é uma das mais comuns eletivo operações para as pessoas idosas na maioria dos países europeus. As principais conseqüências para os serviços de saúde são antebraço da osteoporose e fracturas vertebrais e da anca fraturas. Existe uma significativa mortalidade associada à fratura da anca.

08- Administração de serviços de saúde

1. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) monitora a ocorrência de infecções

pós-cirúrgicas por Micobactérias de Crescimento Rápido (MCR) em diferentes regiões do país, de

forma permanente.

2. Essa ocorrência de infecção em serviços de saúde tem sido considerada pela instância

federal como uma emergência epidemiológica e sua investigação vem sendo conduzida de modo articulado pela Anvisa e Ministério da Saúde, com participação das vigilâncias epidemiológicas e sanitárias dos estados e dos municípios; 3. De 2003 até abril de 2008, foram notificados 2102 casos

de infecção por MCR, distribuídos predominantemente em hospitais privados do país. Há confirmação de casos de infecção por MCR nos estados do RJ (1.014), PA (315), ES (244), GO

93

(230), PR (110), RS (79), SP (43), MT (21), DF (16), MG (10), PI (09), MS (08), BA

(02) e PB (01);

4. As infecções por MCR estão fortemente relacionadas às falhas nos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de produtos médicos. Na maioria dos serviços de saúde investigados, os instrumentais cirúrgicos foram submetidos somente ao processo de desinfecção e não ao processo de esterilização como é definido pela Resolução da Anvisa - RE nº. 2606/06. Também foi detectada a precariedade no funcionamento dos Centros de Material e Esterilização dos serviços, já que estes não possuem registros e validação dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização dos instrumentais cirúrgicos;

durante as investigações, em pessoas submetidas a

procedimentos invasivos, em sua maioria do tipo "scopias", particularmente naquelas efetuadas por

videocirurgias, confirmaram a ocorrência de infecção pela espécie M. massiliense;

5. As amostras biológicas, colhidas

II – AÇÕES DESENVOLVIDAS PELA ANVISA

As ações prioritárias para prevenir e interromper as infecções por MCR, em

Serviços de Saúde, foram estabelecidas, em conjunto, por representantes do nível federal - Anvisa e Ministério da Saúde -, estadual e municipal envolvidos na investigação e contenção da emergência epidemiológica no país. Dentre essas ações, a Anvisa já adotou as seguintes iniciativas:

divulgou alertas e atualizações sobre a ocorrência de casos de infecções nos estados (Informes Técnicos 01, 02, 03 e 04/2007, disponíveis no site da Anvisa - publicou os informes técnicos para os profissionais contendo as orientações sobre as características da infecção, diagnóstico e tratamento (Informes Técnicos 01, 02, 03 e 04/2007, disponíveis no site da Anvisa); publicou os informes técnicos orientando os serviços de saúde quanto às medidas para identificar, conter, interromper e prevenir as infecções por MCR (Informes Técnicos 01, 02, 03 e 04/2007, disponíveis no site da Anvisa);

− publicou os informes técnicos quanto ao correto manuseio de substância química

esterilizante, mais freqüentemente identificada no evento, em serviços de saúde, como a solução de Glutaraldeído a 2% (Informe Técnico nº 04/2007, publicado em março de 2007);

− determinou que todo artigo crítico deve ser esterilizado e definiu quais os artigos. médicos que não podem ser reprocessados - RDC nº 156, RE Nº 2.605 e RE Nº 2.606, de 11 de agosto de 2006; − divulgou o documento: “Fundamentos para A Utilização do Glutaraldeído em

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Estabelecimentos de Assistência à Saúde - Anvisa);

(Informe Técnico nº 04/2007, divulgado no site da

− emitiu informes circulares para as Secretarias de Saúde do país e Vigilâncias

Sanitárias - OF. CIRC. 006/07- VISA ESTADUAIS_MICOBACTÉRIA,

Ofício

Circular nº. 017/2007 - GGTES/ANVISA, Brasília, 10 de maio de 2007;

− divulgou no sítio eletrônico da Anvisa orientação correta para a limpeza, a desinfecção e

a esterilização de produtos médicos, ressaltando as bases legais para o reprocessamento de artigos críticos;

− instituiu o grupo de trabalho com especialistas para elaborar resolução sobre

Centros de Materiais e Esterilização e Manual sobre Processamento de Produtos médicos em Serviços de Saúde;

− realizou treinamentos em investigação de surtos em serviços de saúde no âmbito com técnicos de cada estado da federação;

− complementação e sistematização de banco de dados nacional dos pacientes infectados pela MCR – banco em desenvolvimento. Enviado Of. Circular

008/2008-GGTES/ANVISA, Brasília, 08 de abril de 2008;

− realizou a reunião nacional para definir ações prioritárias para prevenir e interromper

infecções por micobactéria não tuberculosa em serviços de Saúde, em novembro de 2007. Relatório da reunião disponível no site da Anvisa; − iniciou a elaboração de diagnóstico atual dos processos

de trabalho dos Centros de Materiais e Esterilização e Bloco Cirúrgico nos hospitais que tiveram casos notificados – em elaboração;

− promoveu o aperfeiçoamento da resposta institucional às emergências epidemiológicas,

sempre buscando a integração entre profissionais de saúde dos setores público e privado,

secretarias estaduais e municipais de Saúde - Criado os centros de respostas rápidas

− realizou o Curso de Especialização em Investigação de Surtos para os agentes do

Sistema Nacional de Vigilância Sanitária em parceria com a UFMG – curso iniciado em 2008, com 35 alunos.

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III. Novas Ações

Estamos diante de uma situação nova para os profissionais da saúde em todo o mundo. As infecções por micobactérias, na proporção como as alcançadas no Brasil, não têm registro aqui e nem outros paises, se configurando epidemiológicamente uma doença emergente.

Diante da grave situação identificada em quase todos os estados do país, em relação especificamente às infecções pela M. massiliense consideramos ser necessário o monitoramento e o acompanhamento sistemático, junto aos serviços de saúde quanto a realização dos procedimentos adequados de limpeza e esterilização dos equipamentos e ou artigos, que possam ser reutilizados, de acordo com as normas em vigor.

Outras medidas precisam ser realizadas para a identificação da fonte de infecção e assim rever as recomendações das medidas de controle do surto, pois foram identificados novos casos de infecção em 2008, nos estados do ES, RJ, PA, MG e RS, apesar de todos os esforços que vêm sendo empreendidos.

Diante do exposto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária:

- orienta os serviços de saúde para que realizem a esterilização de artigos críticos com

outros métodos disponíveis para esterilização, como medida cautelar, diante dos indícios de resistência da Micobacteria massiliense ao glutaraldeído a 2%;

- alerta para que todos os serviços e profissionais de saúde cumpram as normas técnicas de esterilização previstas pelas RDC 156/06 e REs 2605/06 e 2606/06;

- orienta as vigilâncias sanitárias e as entidades de classe no sentido de que divulguem

alerta para que todos os serviços e profissionais de saúde cumpram as normas técnicas de

esterilização previstas pelas RDC 156/06 e REs 2605/06 e 2606/06;

- apresentará nas assembléias do CONASS e do CONASEMS os resultados das investigações, a fim de sensibilizar os gestores dos estados e municípios para que implementem medidas de inspeção visando a prevenção e contenção dos surtos de M. massiliense;

- reunirá todos os coordenadores de Vigilância Sanitária ou os responsáveis pelas inspeções de Serviços de Saúde, dos estados, para apresentar o diagnóstico atual da infecção e reforçar a necessidade de inspeções nos serviços de saúde com foco no processo de limpeza, desinfecção e esterilização de produtos médicos na CME.

96

equipamentos

procedimentos por dia, para adoção pelos serviços de saúde;

vai

regulamentar

o

número

de

-

necessários,

por

tipo

e

número

de

- definirá uma metodologia de análise para investigar a eficácia e segurança do

glutaraldeído e outros saneantes, como desinfetantes e esterilizantes para a M. massiliense, a ser utilizada pelo INCQS, pelos laboratórios de saúde pública e pelos laboratórios analíticos para fins de registro e controle da qualidade;

- serão desenvolvidos estudos para verificação da eficácia e segurança do glutaraldeído,

sob a coordenação da Gerência-Geral de Laboratórios de Saúde Pública – GGLAS/Anvisa, com a participação da Gerência-Geral de Saneantes – GGSAN, do Instituto Nacional de Controle e

Qualidade em Saúde (INCQS) e da FUNED/MG;

- as possíveis fontes da infecção serão investigadas, considerando que as cepas colhidas

em diferentes estados brasileiros indicam identidade genética única nas amostras analisadas. Essa investigação compreenderá a análise do glutaraldeido em todas as etapas de produção, incluindo as fábricas localizadas em outros países, abrangendo também os sistemas de transporte e armazenamento;

- serão revisadas as normas regulatórias (Portaria 15/1988 e RDC 14/2007), adequando-as

à real potência micobactericida do glutaraldeído e demais saneantes, sob a coordenação da Gerência-Geral de Laboratórios de Saúde Pública – GGLAS/Anvisa, com a participação da Gerência- Geral de Saneantes – GGSAN e da Gerência-Geral de Inspeção - GGIMP.

- vai solicitar aos fabricantes de todos os esterilizantes e desinfetantes hospitalares para

artigos semi-críticos, laudos emitidos por laboratórios Reblas, que comprovem a eficácia e segurança

do saneante como desinfetante e/ou esterilizante, para a M. massiliense, nas concentrações sabidamente não tóxicas;

- Vai reavaliar as normas para a concessão do registro para saneantes e os registros existentes, com base nos atuais conhecimentos científicos

09- Números de epidemiologia

É relativamente recente, não ultrapassando os dois últimos decênios, a influência que se tem feito notar no sentido de cindir o estudo epidemiológico em duas correntes aparentemente antagônicas. O caráter fundamental da epidemiologia, assim dita "tradicional", e também freqüentemente adjetivada de "conservadora" ou "convencional", vem sendo objeto de investidas

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visando mudança radical. Os que assim se posicionam acusam-na de ser "irremediavelmente positivista" e de ter logrado firmar-se graças ao atrelamento, para não dizer submissão, ao método indutivo, fazendo da observação o princípio básico para produção do conhecimento (Almeida Filho, 1989). Segundo essa corrente de opinião, o maior pecado que lhe é atribuído vem a ser o de ter, de maneira excessiva, concentrado as pesquisas no estabelecimento da causalidade entre eventos e, conseqüentemente, erigindo como objeto fundamental do estudo epidemiológico, o das associações entre a doença e os vários fatores ambientais.

O reconhecimento da epidemiologia como ciência humana, atuando de maneira inseparável,

tanto na área biológica como social, induziu à abordagem mais freqüente, e com maior ênfase, dos fatores sociais. Em especial modo, daqueles de natureza sócio-econômica. Emergiu assim a

chamada "epidemiologia social" focalizando precipuamente suas causas na gênese da doença e do estado de saúde da população. Em decorrência, o estudo epidemiológico se fará no que tange às dimensões sociais, estas evidentemente variáveis de acordo com as leis e as características que regem o desenvolvimento de cada sociedade (Breilh e Granda, 1980).

Em contraposição, e como herdeira da referida, metodologia supostamente tradicional, tem sido colocada a chamada "epidemiologia clínica". Atribui-se-lhe a orientação de lidar com associações causais, consideradas isoladamente da condição social que as determina. Vem sendo definida como sendo o estudo de grupos de pessoas, objetivando a aquisição de conhecimentos básicos necessários para as decisões clínicas a serem tomadas no tratamento do indivíduo doente (Feinstein, 1985). Trata-se, em princípio, de metodologia de pesquisa clínica, adotando principalmente o processo indutivo derivado de observações experimentais.

É pois evidente a tentativa de transformar a epidemiologia, dividindo-a em duas partes. Uma

delas; inteiramente de ordem social, e a outra apenas como apêndice metodológico da ciência médica. Na primeira, está a pesquisa do conhecimento epidemiológico fundamentada na abordagem dos fatores sociais mediante a lógica do determinismo e da dialética. Na segunda, como refúgio da teoria da causalidade, dá-se ênfase aos fatores relacionados a problemas de ordem clínica.

Tal situação é de se considerar bastante preocupante no que se concerne ao nosso meio em particular, e ainda mais, ao se ponderar que, por mais que se argumente em favor de uma ou de outra, o grande impasse persiste. Diz respeito à zona de transição entre o biológico e o social que nos estudos do relacionamento entre eles nem sempre são levados em conta de maneira equivalente. Há boas razões para se admitir que, pelos menos para o biológico, a teoria da causalidade tem aplicação mais adequada. No que tange ao social, ao lado do estabelecimento de

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conexões causais, a ampliação dos conceitos de determinação representam evolução valiosa da pesquisa epidemiológica (Bunge, 1972, Rodrigues da Silva apud Almeida Filho, 1989).

Contudo, em que pese o mérito inconteste de encarar os princípios filosóficos em sua aplicação social, não há como negar os resultados obtidos até agora pela epidemiologia, com o emprego da metodologia tradicional. O radicalismo do pensamento de Popper (1975), e dos seus adeptos, deveria levar em conta que o estabelecimento de leis universais, se aplicáveis à física teórica, para a epidemiologia constitui procedimento que se reveste do aspecto de "camisa-de-força", à qual ela não se adapta adequadamente. É de se duvidar que o cepticismo popperiano possa ter eficiência e eficácia na pesquisa epidemiológica. Por mais que se queira, o conhecimento que esta procura não objetiva a universalidade dos fatos, mas sim a compreensão dos processos subjacentes que propiciam a ocorrência de certos fenômenos e em determinadas condições.

É óbvio que as ciências sociais, ao focalizarem o indivíduo na população, levam para sua

área os estudos epidemiológicos. Qualquer das variáveis biológicas usadas para descrever o organismo, como idade, sexo, ocupação, fazem-no também em sentido social, propiciando o relacionamento, entre si, dos componentes de determinado conjunto populacional. Assim pois, parece ser um tanto redundante falar em "epidemiologia social", uma vez que se afigura difícil conceber a existência de uma epidemiologia que não o seja. A utilização dessas variáveis individuais pela análise epidemiológica não subentende que os indivíduos sejam submetidos à investigação, à semelhança de pacientes na clínica médica. Toda essa discussão parece alimentar-se da falta de implementação prévia de bases metodológicas consistentes. Tem-se mostrado pouco produtivo o estabelecimento de "marcos" ou modelos teóricos, sem a anterior consolidação de métodos competentes e capazes de reconhecer concretamente os determinantes causais. E ainda menos, no que tange à orientação para as soluções possíveis.

A epidemiologia é ciência de ação e, em vista disso, consuetudinariamente de caráter

utilitário. Os seus conhecimentos destinam-se à solução prática de problemas concernentes à saúde pública e à medicina. É nesse sentido que, até agora, tem evoluído a pesquisa epidemiológica, constantemente alimentada pela pesquisa básica. Sob todos os pontos de vista, seria desejável que se tentasse chegar a uma solução para essa dicotomia que é, por todos os títulos, inconveniente ao progresso científico. Não há porque rejeitar, inapelavelmente, a causalidade da "metodologia tradicional", e nem os modelos teóricos da assim dita "metodologia crítica". Se aquela pode ser acoimada de "irremediavelmente positivista", esta pode sê-lo de irremediavelmente dialética. E nem existe motivo para a radicalização de opiniões, como a que atribui àquela a única utilidade de servir para "aulas nos cursos de epidemiologia da graduação". Na construção do conhecimento científico, a

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verdade deve ser buscada na concordância e na colaboração das várias teorias, e nunca no antagonismo maniqueísta.

Em conclusão, o conhecimento epidemiológico deriva de pesquisa que, de maneira exclusiva, se interessa pelo seu desenvolvimento. Há que se evitar, por inconveniente, implicações desnecessárias, preservando a epidemiologia como campo único de estudo. E sem divisões conceituais que, sobre serem de pouca utilidade, somente propiciam a fragmentação estéril dessa ciência. Não há, e é de se duvidar que venha a haver a necessidade de mais de uma epidemiologia. A menos que pressões de outra ordem propiciem a criação de uma "epidemiologia política". Mas isso nada terá a ver com a Ciência.

A Epidemiologia está dando os números

Ainda não passou de todo, mas abrandou-se muito a sofreguidão com que se apontou a epidemiologia como salvadora da saúde pública. Identificando-a como a única disciplina capaz de dar racionalidade ao funcionamento dos serviços, procurou-se introduzi-la à força na cabeça dos profissionais que aí atuam. A vida real incumbiu-se de mostrar que a razão técnica (epidemiológica) dificilmente supera as outras: administrativa, econômica, política (TESTA, 1992).

Fracassado o intento por essa via unidirecional, escolheu-se outra, o planejamento. Planejados, os serviços funcionam, eis a nova razão técnica. Desta vez fadada ao sucesso: o planejamento inundava todos os setores, a saúde não podia escapar. Também não deu certo. Da mesma forma que ocorrera com a epidemiologia, também o planejamento não se implantou a sério. Apesar dos esforços para contextualizá-lo em situações concretas, quando apontaria estratégias de ação.

Por ensaio e erro, chegou-se à investigação. É preciso ensinar o pessoal de serviço a investigar. Suas próprias rotinas podem ser alteradas se submetidas ao crivo da pesquisa. Esta nova panacéia encontra ainda forças para prosperar. Existe uma rede internacional de investigação em serviços e sistemas de saúde que edita boletins, promove reuniões, financia modestos projetos nos países pobres.

O resultado desta pesquisa peculiar não é obrigatoriamente uma publicação científica, mas um sumário executivo apresentado ao dirigente encarregado da tomada de decisões. Necessariamente sucinto, afinal é um sumário e, ademais, dirigido a pessoa tão atarefada que não tem tempo de ler mais que algumas poucas linhas. A razão instrumental encontra aqui quase seu valor supremo.

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Vinda '''pela noite tão longa de fracasso em fracasso", à Saúde Pública, "cansada de tudo", só parecia "restar o cansaço". Ao contrário da canção famosa, a saúde pública não envelhece, nem chega ao fim. O sentido da sua crise é o de um prenúncio de solução, renasce continuamente a esperança de que os novos caminhos são sempre mais radiosos. Em cada uma das tentativas mencionadas sempre se conseguiram avanços. A epidemiologia, o planejamento, a investigação, não resolveram a situação mas, bem ou mal, implantaram-se nos serviços e nos sistemas de saúde. Não há como negar. O que, sim, se nega é a idéia ingênua de que intervenções singulares na instância técnica resolverão sozinhas a crise profunda que se abateu sobre a saúde pública em nível mundial. Também aqui identificamos o crescente processo de globalização ou mundialização: a coca-cola, o "big-mac" e a saúde em crise estão em toda a parte : na China e na Chechênia, mas também nos EUA, na Bélgica e na Índia. Para não mencionar o Brasil.

A epidemiologia salvou-se do naufrágio de uma maneira singular. Aliás, ressalte-se que a

própria saúde pública volta à tona, ainda que adernada. As novas "vertentes" da epidemiologia dão- lhe um vigor inesperado. A epidemiologia clínica, originalmente concebida para ilustrar clínicos e cirurgiões de grande prestígio que sistematicamente são escolhidos para dirigir a saúde pública (MORROW & BUCK, 1983), fracassa como movimento ideológico. Mas encontra seu nicho a nível dos serviços, especialmente nos hospitais, avançando no terreno da avaliação de procedimentos terapêuticos e testes diagnósticos e no delineamento de prognósticos. A epidemiologia social avança de forma fantástica num sentido epistemológico, dando a disciplina uma consistência teórica e metodológica nunca antes alcançada. A epidemiologia molecular, em sua aplicação diagnóstica imediata e sua inserção num arcabouço teórico mais sofisticado (epidemiologia evolutiva), representa um elemento novo e de grande significado.

Já nem me lembro se a origem é italiana ou espanhola. Usava-se no Brás e na Moóca, e também no Ipiranga, bairros tradicionais da cidade de São Paulo. Quando uma pessoa ficava meio louca, dizia-se: fulano está dando os números. Considero ocioso o debate sobre uma epidemiologia com números ou sem números. Prefiro pensar que a epidemiologia está dando os números: uma loucura branda, lúcida, versátil e, sobretudo, produtiva.

Município global ou Mundo municipal?

Existem duas tendências atuais, de extraordinária relevância e incrivelmente contraditórias, que se impõem ao atônito cidadão comum: a globalização e a municipalização.

A globalização ou mundialização crescente da economia, especialmente da produção e do

sistema financeiro (COMISSÃO SUL, 1990), mas também do consumo e da informação, tem que ser

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encarada com a maior seriedade. Representa, antes de tudo, para os cientistas, um desafio teórico, metodológico e epistemológico. Como interpretar as novas realidades, com o aparente fim de ciclo dos estados-nação? A Comissão Sul, presidida por Julius Nyerere, da Tanzâia, analisa a questão em seu relatório final O desafio do Sul. Contava com vinte e oito membros , oito latino-americanos, sendo dois brasileiros: Paulo Evaristo Arns e Celso Furtado. Preocupada com a crescente marginalização do hemisfério sul, debruça-se sobre o caráter assumido pela globalização. Identifica a formação de blocos regionais com intenção deliberada de criar espaços econômicos maiores e mais fortes. No âmbito da cultura, a revolução das comunicações representa uma invasão sem migrações, do sul pelo norte, de muito maior impacto do que o representado pelas correntes migratórias em sentido inverso. Aliás, esta intensa movimentação internacional de pessoas é outro aspecto marcante no processo. A degradação do ambiente também não pode ser encarada senão em âmbito global. O mesmo seja dito para o tráfico de drogas ilícitas e a corrupção. Na área da saúde, a erradicação da varíola e outras propostas semelhantes e, mais ainda, as propostas de controle da epidemia de AIDS só podem mesmo ser pensadas globalmente.

Contraponto à globalização é representado pela evidência de que o exercício da cidadania está na radicalização da democracia. Um meio termo entre uma democracia representativa e outra participativa, ou direta,. exige uma radicalização da participação da sociedade a nível local, municipal no caso brasileiro. O cidadão comum não vai exercitar seus direitos no Mercado Comum Europeu, no NAFTA ou no MERCOSUL. Vai fazê-lo, em tendo consciência, no bairro ou no município. Se o objetivo é o bem estar, o âmbito em que este é conseguido é no micro ambiente imediato e não num etéreo mundo globalizado. Nesta complexa dialética, o mínimo tangência o máximo! O maior desafio é precisamente a construção de uma globalização, fortemente impulsionada pelo vertiginoso crescimento da tecnologia, que consista na melhoria das condições de vida nos locais singulares onde as pessoas vivem.

A crise da saúde é mundial

O mesmo debate, que se propõe em outros setores, atinge também o da saúde. Pensar alternativas à abordagem clássica da saúde internacional é imperioso.

Nos países do norte, especialmente nos EUA, a saúde internacional é geralmente tratada apenas como um esforço de proteção nacional contra a invasão de doenças já controladas. Rígidos mecanismos de vigilância epidemiológica, no âmbito do Regulamento sanitário Internacional, são resíduos das propostas de quarentena que no passado foram sempre impostas pelos mais fortes, freqüentemente atendendo mais aos interesses comerciais do que aos sanitários.

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Em recente trabalho, FERREIRA et al (1992) procuram ultrapassar esta visão estritamente destinada à proteção dos interesses do hemisfério norte. Pensando a saúde num mundo globalizado, identificam fatores que influenciam os sistemas de saúde nos países, para além do próprio conflito norte-sul. Detêm-se particularmente: nos problemas de financiamento do sistema; na medicalização; nas relações assimétricas entre categorias profissionais da área da saúde; na limitação das propostas de melhoria que culpabilizam as vítimas, considerando os estilos de vida como se fossem opções individuais e não construções sociais dos padrões de consumo; na introdução indiscriminada da tecnologia médica; nas tentativas de resolver por critérios biomédicos, problemas sociais resultantes de determinantes sócio-econômicos, riscos ambientais e da própria atomização do sistema de saúde.

As bandeiras desfraldadas pelo movimento sanitário mundial, capitaneado pela própria OMS, estão em frangalhos. O brado saúde para todos, consubstanciado na sigla SPT/2000, estabelece a chegada do século XXI como limite temporal ético para atingir universalmente os melhores níveis de saúde possíveis. Mesmo com todas estas limitações, o limite foi mudado para o quanto antes. O que poderia dar a entender que mesmo antes do ano 2000 a eqüidade em saúde poderia ser atingida, falácia até mesmo para uma coisa aparentemente mais simples como a eqüidade no acesso aos serviços. Os interesses mercantis caminham com desenvoltura muito maior. A OMS não conseguirá chegar a SPT/2000, mas algumas empresas privadas já anunciam que isto é possível para alguns, em qualquer lugar deste maravilhoso mundo globalizado. Uma delas, em anúncio largamente difundido na televisão comercial brasileira, oferece os serviços de um enfermeiro alemão de múltiplas competências. Pelo tom da propaganda, não existe donzela neste país que não queira quebrar uma perna no exterior, só para ser atendida por ele. Desde, é claro, que pague o seguro privado que fez o anúncio.

A epidemiologia faz do distrito a sua moradia

Cansada de tanto "dar os números", a epidemiologia resolveu comportar-se. Após andar por ceca e meca e olivais de santarém, buscou refúgio nos distritos sanitários para alí, operacionalizar uma modesta proposta de análise da situação de saúde, segundo condições de vida. Aproveitou-se, na verdade, da transformação operada no próprio âmbito da proposta SPT/2000. A sintonia fina mostrou que o caminho estava na Atenção Primária em Saúde (APS), na construção dos Sistemas Locais de Saúde (SILOS) e Distritos Sanitários. É, de novo, a globalização buscando suporte no âmbito de elementar, do local, do municipal. A busca da eqüidade passa pela proposta das novas ações de saúde a nível dos distritos (WHO, 1992).

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Num processo aparentemente simples, mas de extrema complexidade pelo vulto do entulho

a remover, procura-se definir sistemas de informação adequados ao uso da epidemiologia na

proposição de ações concretas. O fluxo das informações no sistema de saúde pode ter dois sentidos:

ascendente e descendente. Atendem a interesses que se complementam mas conduzem a arquiteturas distintas do sistema de informações. O planejamento central das ações de saúde, a nível nacional, exige níveis de agregação dos dados absolutamente inúteis para o exercício das ações a nível local. Para estas, o fluxo ascendente é o essencial. Dados buscados na própria comunidade são os únicos que permitem a micro-localização dos fenômenos ligados à saúde e, portanto, as propostas de ação. Se não forem agregados, estes dados serão inúteis para o nível central. A tendência atual é definir operacionalmente o Distrito Sanitário, do ponto de vista do sistema de informações, como o local de encontro dos fluxos ascendente e descendente (WHO, 1994). Aqui deve localizar-se a unidade de análise, com forte conteúdo epidemiológico.

A micro-localização das necessidades, ou a abordagem da situação de saúde, segundo

condições de vida, evoluiu com rapidez nos últimos anos. Técnicas simplificadas de estimativas rápidas são complementadas, às vezes pela utilização de avanços da informática, como o geoprocessamento. De maneira simples, manual, ou sofisticada pelo uso de microcomputadores, definirem-se necessidades pela óptica dos técnicos ou da população (inquéritos de opinião). Problematizar as questões de saúde, ou transformar necessidades em problemas exige também a utilização de mecanismos apropriados. Métodos qualitativos como os Grupos Focais são importantes, mas insuficientes. Captam as representações, mas não permitem avançar se não forem encontrados outros canais mais formais de controle social. Uma participação efetiva da população apenas se viabiliza pela criação de Conselhos com poder deliberativo e capazes de controlar a utilização dos fundos públicos destinados à saúde. Os riscos do corporativismo e os da transformação destas

instâncias em locais de confronto político, ideológico ou mesmo partidário são inevitáveis. Mas este

é, inegavelmente, o local adequado a sua explicitação e equacionamento. Entendida como razão

técnica, a epidemiologia joga aqui um papel fundamental, quando outras razões estão presentes.

Cada um com o seu

O discurso precedente conduz a uma estranha sensação reotáxica: a saúde nadando contra

a corrente. À tendência globalizante, contrapõe-se uma proposta de fragmentação. Como negar a

negação? O processo de implantação do SUS nos quase seis mil municípios brasileiros é exemplar.

À absurda generalização da idéia da falência completa do sistema público, contrapõem-se dezenas,

ou mesmo centenas, de experiências bem sucedidas, às quais não se tem dado a divulgação necessária. Não podemos considerar a implantação do SUS como processo isolado. É o exemplo

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atual mais fascinante de tentativa de construção da cidadania no Brasil. Organizar a saúde no âmbito dos distritos sanitários tem forte interação dialética com outros recortes, nacionais e internacionais, tanto no âmbito da saúde quanto no âmbito social, econômico e político mais geral.

No meu entender, a chave para esta superação dialética veio de uma fonte inesperada. Apontando para a obrigação de se respeitar a diversidade, e com espantosa candura, uma adolescente escolhida como madrinha da bateria da Escola de Samba Mangueira, no Carnaval de 1995, entrevistada, saiu-se com uma frase definitiva: "Eu sou da comunidade. Outras escolas escolheram atrizes, modelos e vedetes. Não tenho nenhuma crítica pois acho que, no Carnaval, è cada um com seu cada qual".

O Boletim Epidemiológico da Aids 2004 mostra pela primeira vez os números da epidemia segundo raça e cor. Os dados apontam que a população branca representa a maior parte dos registros (51,35%), seguida da população negra e parda (33,44%). A porcentagem de casos entre índios é a menor e representa 0,17% do total. Observa-se que, proporcionalmente, há uma tendência de estabilização entre a população branca e crescimento entre a população parda e negra.

A publicação apresenta uma base de dados reformulada e ampliada, a partir do cruzamento com duas bases de dados oficiais. O procedimento permitiu demonstrar, com mais realidade, o registro de casos de aids no Brasil. A nova composição do boletim une as informações do Sistema de Controle Laboratorial (Siscel), do Programa Nacional de DST/Aids; e do Sistema Nacional de Agravos de Notificação/Aids (Sinan/Aids). Isso permitiu a recuperação de 41.249 casos que ainda não tinham sido notificados no Sinan/Aids. Com isso, o total de casos da doença acumulados desde 1980 passou de 321.163 para 362.364. Os dados apontam que a epidemia de aids está em um processo de estabilização, embora mantenha patamares elevados. Um outro destaque do Boletim 2004 são os casos de sífilis congênita, que constam pela primeira vez da publicação e muitas vezes não são notificados. De janeiro a junho deste ano, foram 2.221 casos da doença congênita – o que representa uma incidência de 0,7 casos a cada mil nascidos vivos.

Se os números da sífilis se mantiverem no segundo semestre, 2004 terminará com ligeira queda dos índices em relação a 2003, quando foram registradas 4.607 ocorrências congênitas (incidência de 1,5 casos a cada mil nascidos vivos). Considerando as características maternas, a maioria dos casos de sífilis ocorre em mulheres entre 20 e 29 anos, com acompanhamento pré-natal, tendo sido a doença diagnosticada durante a gestação, e cujos parceiros não receberam tratamento adequado. A abordagem correta seria diagnosticar e tratar a mãe e o seu parceiro (no caso de ela ter um fixo), para evitar recontaminação da mulher.

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Homens e mulheres – Os números da aids entre homens demonstram a tendência de estabilização da doença. Em 1998, foram notificados 21.056 casos, contra 19.648 em 2003. Até junho deste ano, o registro é de 8.306 casos. Essa estabilização pode ser vista principalmente na categoria de exposição homo/bissexuais. A porcentagem de casos entre homens que fazem sexo com homens, que era de 30% em 1998, caiu para 25% em 2004. Já entre os homens da categoria heterossexual, o índice tem crescido. Nesse mesmo período, foi observado um aumento de 30% para

42%.

Entre as mulheres, por outro lado, o número de casos é o maior desde o início da epidemia. Enquanto em 1998 havia 10.566 registros, em 2003 esse número chegou a 12.599. Até junho de 2004, mais 5.538 casos já tinham sido notificados. A proporção entre homens e mulheres, que era de 16 casos em homens para cada mulher, no começo dos anos 80, atualmente é de dois para um. Esses números demonstram a importância da mobilização do Dia Mundial de Luta contra a Aids, comemorado em 1º de dezembro, que tem como tema este ano “Mulheres, meninas, HIV e aids”.

Entre os usuários de drogas injetáveis, o número de casos de aids vem mantendo a tendência de queda observada nos últimos anos. A porcentagem de casos nessa categoria de exposição, que era de 27% em 1994 (no sexo masculino), desceu para 13% em 2004. Entre as mulheres da mesma categoria, o índice de uma década atrás era de 17%. Hoje, é de apenas 4,3%. Já a taxa de mortalidade aponta para um quadro de estabilidade, nos últimos anos. No público masculino, o índice registrado em 2003 é o mesmo de 2001 – 8,8 mortes a cada grupo de 100 mil homens. Entre as mulheres, houve um discreto aumento: em 2001, foram 3,9 óbitos por 100 mil mulheres; em 2003, o total registrado foi de 4 mortes a cada 100 mil mulheres. Situação regional – Considerando a taxa de incidência da aids (número de casos da doença por grupo de 100 mil habitantes), o crescimento da epidemia é observado em todas as regiões do país, exceto no Sudeste, onde há estabilização com tendência de queda. Entre 1998 e 2003, a taxa de incidência nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo caiu de 29,4 para 24,3. No mesmo período, o Nordeste apresentou um discreto aumento na incidência, que passou de 6,7 para 6,8.

Nas demais regiões, a taxa de incidência da aids só aumentou, no comparativo entre 1998 e 2003. No Sul, saltou de 24,9 para 26,6 (crescimento de 6,8%). No mesmo período, o Centro Oeste viu seu índice saltar de 13,9 para 19,9 (mais de 43% de aumento. E o Norte experimentou o maior crescimento (46,6%) na taxa de incidência: passou de 6,0 para 8,8 casos a cada 100 mil habitantes. A taxa de incidência deve ser mais levada em conta do que o número absoluto de casos porque revela o risco de determinada população ter a doença.

106

Faixa etária – No corte por idades, o boletim epidemiológico revela algumas diferenças entre os sexos. Nos homens, observa-se um certo deslocamento do aumento na taxa de incidência para a população acima de 40 anos. Os indivíduos masculinos na faixa dos 40-49 anos apresentam taxa de incidência estável: 51,0 em 1998; 50,9 em 2003. Já na faixa dos 50-59 anos registra aumento no mesmo período: a taxa passa de 25,2 para 26,4. Considerando todas as faixas etárias, a taxa geral de incidência caiu de 26,4 para 22,6 em cada grupo de 100 mil homens. Entre 1998 e 2003, observa- se que o aumento da taxa de incidência na população feminina desloca-se para os grupos acima dos 30 anos. Nas mulheres, há crescimento da taxa de incidência em todas as faixas etárias a partir dessa idade. A exceção é entre as jovens, que demonstram discreta queda do indicador nos grupos entre 13 e 29 anos. Considerando todas as faixas etárias, a taxa geral de incidência subiu de 12,9 para 14,0 em cada grupo de 100 mil mulheres.

10- Mensuração

Os ativos intangíveis, como as qualificações dos funcionários, a tecnologia da informação e os incentivos à inovação, por exemplo, podem desempenhar papel preponderante na criação de valor para a empresa. Os sistemas tradicionais de mensuração, porém, não foram concebidos para lidar com a complexidade desses ativos, cujo valor é potencial, indireto e dependente do contexto. O fato de que os ativos intangíveis são verdadeiramente valiosos ainda não convenceu um bom número de pessoas, para as quais aquilo que não é contabilizado não possui valor. Os ativos baseados no conhecimento devem ser avaliados com extrema cautela, porque seu impacto sobre o destino de qualquer negócio é tremendo. E este é um dos grandes problemas da Contabilidade: mensurar este goodwill, pois existe muita especulação quanto à supervalorização de empresas. De acordo com Edvinsson & Malone (1998), a lacuna existente entre as informações refletidas nos balanços patrimoniais e a percepção do mercado sobre as empresas está se tornando um verdadeiro abismo.

1 – Introdução

Como um bem humano, o capital intelectual nas empresas nos apresenta um paradoxo, porque, apesar de ser reconhecido, por grande número de organizações, como um de seus mais importantes patrimônios, não é devidamente contabilizado.

Com a globalização e o avanço tecnológico, as empresas estão investindo em capital humano, com o objetivo de ter retorno mais rápido. Neste contexto, valorizar os recursos humanos é fundamental para a competitividade empresarial, pois eles são os principais responsáveis pelo

107

desempenho das empresas e constituem vantagens competitivas num mercado cada vez mais exigente.

Mas este capital – suas habilidades, competências e talentos –, ao contrário dos investimentos dirigidos para o seu desenvolvimento e dos encargos sociais para sua manutenção na empresa, não aparecem nos registros contábeis. Para dar respostas à esta questão, a Contabilidade precisa de ajustes, com objetivo de atender aos usuários das informações nessa nova era que é a sociedade do conhecimento. Portanto, a Contabilidade não pode deixar de fornecer, a esses usuários, informações de natureza intelectual, ecológica, social e humana.

O capital intelectual não se enquadra nos moldes contábeis tradicionais, por envolver inúmeras variáveis que não repercutem imediatamente nos resultados das empresas e, portanto, não são consideradas pela Contabilidade atual.

Os ativos intelectuais se tornaram os elementos mais importantes no mundo dos negócios.

O valor contábil, como referencial econômico-financeiro das organizações modernas, está

desatualizado, não diagnosticando eficientemente o patrimônio empresarial, principalmente das

empresas do conhecimento, e, desta forma, não atingindo a finalidade maior da Contabilidade: a informação com qualidade. Entretanto, não se pode deixar de reconhecer a necessidade premente

de mudanças e alguns ajustes nos sistemas e práticas contábeis para que essa nova realidade seja

devidamente reconhecida e refletida nos registros contábeis.

2 – O conhecimento como gerador de riqueza das organizações

O novo milênio está desafiando todas as organizações a mostrarem suas competências. Os sistemas têm que ser cada vez mais abertos, igualitários e honestos. Os empregados têm que pensar

em conjunto para explorar as oportunidades, executar os serviços e resolver os problemas.

Segundo Crawford (1994), o conhecimento é a capacidade de aplicar informação a um trabalho ou um resultado específico. Então, informação é a matéria-prima do conhecimento. O autor

diz que a sociedade passou por quatro momentos econômicos diferentes.

- O primeiro foi a sociedade primitiva, baseada numa visão natural do mundo, cujas principais atividades econômicas eram a colheita, a caça e a pesca.

- O segundo momento foi à sociedade agrícola, formada num sistema político feudal, baseada em crenças religiosas, quando o conhecimento era concentrado em matemática e astronomia.

108

- O terceiro momento foi a sociedade industrial, caracterizada pela valorização do capital

físico e da mão-de-obra com habilidades específicas. A imprensa e a televisão eram os principais meios de comunicação.

- O quarto e atual momento é representado pela sociedade do conhecimento, que compartilha ilimitados meios eletrônicos de comunicação e tem como principal atividade econômica a prestação de serviços baseados no conhecimento. Outra característica desta era é a valorização do indivíduo, capaz de transformação contínua e de crescimento. O capital humano é o recurso fundamental.

Para Drucker (1970), hoje o recurso realmente controlador, o fator de produção absolutamente decisivo, não é o capital, a terra ou a mão-de-obra. É o conhecimento. Ao invés de capitalismo e proletariados, as classes da sociedade pós-capitalista são os trabalhadores do conhecimento e os trabalhadores em serviços.

3 – Capital intelectual: principal fonte de intangíveis nas empresas e um diferencial competitivo em relação aos concorrentes

O termo capital intelectual teve sua origem na propriedade intelectual. Ele representa os componentes de conhecimentos de uma empresa, reunidos e legalmente protegidos. É um conjunto de benefícios intangíveis que agregam valor às empresas.

Segundo Brooking apud Antunes & Martins (2002), o capital intelectual pode ser dividido em quatro categorias:

- Ativos de Mercado: potencial que a empresa possui em decorrência dos intangíveis que

estão relacionados ao mercado, tais como: marca, clientes, lealdade dos clientes, negócios recorrentes, negócios em andamento (backlog), canais de distribuição e franquias.

- Ativos Humanos: compreendem os benefícios que o indivíduo pode proporcionar para as

organizações por meio da sua expertise, criatividade, conhecimento, habilidade para resolver problemas, tudo visto de forma coletiva e dinâmica.

- Ativos de Propriedade Intelectual: incluem os ativos que necessitam de proteção legal para

proporcionar, às organizações, benefícios como know-how, segredos industriais, copyright, patentes

e designs. - Ativos de Infra-estrutura: compreendem as tecnologias, as metodologias e os processos empregados, como cultura, sistema de informação, métodos gerenciais, aceitação de risco e banco de dados de clientes.

109

O capital intelectual, segundo o FASB apud Wernke (2001), pode ser definido de duas

formas:

- ativos intangíveis combinados que permitem a companhia funcionar e manter uma vantagem competitiva;

- a diferença entre o valor real de mercado da companhia e o valor real de mercado dos ativos tangíveis menos passivos da companhia.

Os fatores que geram o capital intelectual, de acordo com Brooking apud Antunes & Martins (2002), são:

- conhecimento, pelo funcionário, de sua importância para os objetivos da empresa;

- funcionário tratado como ativo raro;

- alocar a pessoa certa na função certa, considerando suas habilidades;

- oportunizar o desenvolvimento profissional e pessoal;

- identificação do know-how gerado pela pesquisa e desenvolvimento (P & D);

- avaliar o retorno sobre o investimento em P & D;

- definir uma estratégia proativa para tratar a propriedade intelectual;

- mensurar o valor de marcas;

- avaliar investimentos em canais de distribuição;

- avaliar a sinergia resultante de treinamento e os objetivos corporativos;

- prover infra-estrutura e adequado ambiente de trabalho;

- valorizar a opinião dos funcionários;

- oportunizar a participação dos funcionários na definição dos objetivos da empresa;

- estimular os funcionários para a inovação.

Fica, assim, clara a importância do capital intelectual para o desenvolvimento das empresas,

além de representar diferencial competitivo em relação aos concorrentes.

Lopez (2000) classifica o capital intelectual em três componentes estreitamente inter- relacionados: capital humano, capital estrutural e o capital do cliente. Todos são intangíveis, mas descrevem coisas tangíveis para os executivos. É o intercâmbio entre eles que cria o capital intelectual.

3.1 – Capital humano – a mina na empresa

Constituem o capital humano o conhecimento acumulado, a habilidade e as experiências dos funcionários para realizar as tarefas do dia-a-dia, os valores, a cultura, a filosofia da empresa, e

110

diversos ativos intangíveis, ou seja, as pessoas que são os ativos humanos da empresa. A principal estratégia da empresa será de atrair, reter, desenvolver e aproveitar o máximo o talento humano, que será, cada vez mais, a principal vantagem competitiva.

Segundo Duffy (2000), capital humano é o valor acumulado de investimentos em treinamento, competência e futuro de um funcionário. Também pode ser descrito como competência do funcionário, capacidade de relacionamento e valores.

Para entender melhor o capital humano, é preciso entender as habilidades que determinam qualquer tarefa, processo ou negócio. Silva (2002) relaciona as seguintes:

- Habilidade do tipo commodity: são as habilidades adquiridas, costumam não serem específicas de uma empresa e podem ter o mesmo valor para qualquer organização. É, por exemplo, a habilidade de atender ao telefone.

- Habilidades alavancadas: o conhecimento pode ser mais valioso para uma determinada empresa do que para outra. São específicas a um setor e não a uma empresa. Os programadores da Andersen Consulting, por exemplo, podem alavancar essa habilidade enquanto os do Bank of America só agregam valores aos seus funcionários.

- Habilidades proprietárias: são os talentos específicos da empresa, em torno dos quais uma organização constrói seu negócio. Podem ser codificadas em forma de patentes, direitos autorais, expertise. O Ritz-Carlton é o especialista em administração hoteleira.

O mesmo autor coloca ainda que Bill Gates, por exemplo, abriu o capital de sua empresa a seus funcionários, porque estes criaram a principal propriedade das empresas: os códigos de software. Desse modo, ele incentivou os funcionários no aspecto financeiro, ao invés de levá-los para outras empresas.

passa

identificação das potencialidades estratégicas a desenvolver e pela capacitação necessária.

A

gestão

do

capital

humano

pelo

levantamento

do

potencial

humano,

3.2 - Capital estrutural

pela

Duffy (2000) diz que este capital é o valor que é deixado na empresa, quando os funcionários – capital humano – vão para casa. Exemplos: bases de dados, listas de clientes, manuais, marca e estruturas organizacionais. Compreende os ativos intangíveis relacionados com a estrutura e os processos de funcionamento interno e externo da organização que apóiam o capital

111

humano, ou tudo o que permanece na empresa quando os empregados vão para casa. Baum & Gonçalves (2001) dizem que no capital estrutural se destacam dois aspectos, o tecnológico e a infra- estrutura.

- O capital tecnológico é formado pelas patentes, marcas registradas, banco de dados, softwares, copyrights, franquias, tecnologias de processos e de produtos.

- O capital relativo à infra-estrutura da empresa é representado pela estrutura de comando,

a filosofia e cultura da organização, processos de gestão e sistemas de informação. Edvinsson (1997) propõe a seguinte divisão para o capital estrutural:

- Capital organizacional: abrange o investimento da empresa em sistemas, instrumentos e

filosofia operacional que agilizam o fluxo de conhecimento pela organização, bem como em direção

às áreas externas, como aquelas voltadas para os canais de suprimento e distribuição.

- Capital de inovação: refere-se à capacidade de renovação e aos resultados da inovação

sob a forma de direitos comerciais amparados por lei, propriedade intelectual e outros ativos e talentos intangíveis utilizados para criar e colocar rapidamente no mercado de novos produtos e

serviços.

- Capital de processos: é constituído por aqueles processos, técnicas (como o ISO 9000) e

programas direcionados aos empregados, que aumentam a ampliam a eficiência da produção ou a prestação de serviços. É o tipo de conhecimento prático empregado na criação contínua de valor.

Stewart (1998) diz que o capital estrutural é o que transforma um monge capaz de gerar uma caligrafia elegante no sorridente astro de um comercial de televisão da Xerox, capaz de fazer muitas cópias de um documento. Funcionando como uma espécie de amplificador, ele embala o capital humano e permite seu uso repetido para a criação de valor, da mesma forma como uma matriz pode estampar peça após peça.

3.3 – Capital do cliente

O capital do cliente é gerado quando o capital intelectual se transforma em dinheiro. É definido como o valor de sua franquia, seus relacionamentos contínuos com pessoas e organizações para as quais vende. É de vital importância para as empresas a gerência do capital do cliente. Os investimentos no capital do cliente devem ser realizados em conjunto com os clientes, buscando o benefício mútuo no que diz respeito às informações e aos conhecimentos gerados.

112

Oliveira (2002) relaciona algumas maneiras de investir no capital do cliente:

- Inove com os clientes: independente de quem seja o seu comprador, ele deseja obter o

máximo do cliente dele. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento podem ser muito mais produtivos, caso já se tenha um cliente capaz de se beneficiar pelo fato de ser o primeiro a

experimentar a inovação.

- Invista em seus clientes de empowerment: oferecer aos clientes a oportunidade de acompanhar eletronicamente, passo a passo, a fabricação de um produto, pode ter desvantagens com relação ao poder de barganha. Entretanto, apresenta uma infinidade de vantagens, destacando- se a possibilidade de se obter feedback do cliente, antes mesmo de se cometer erros.

- Concentre-se nos clientes como indivíduos: o empowerment, como benefício, aumenta a

capacidade da empresa em adquirir informações sobre os seus clientes. Entretanto, transformar essas informações em capital do cliente, um ativo duradouro, requer a capacidade de atender com flexibilidade às necessidades dos clientes individuais. Isso torna necessário que as informações a serem utilizadas possam ser extraídas de bases de dados organizadas por clientes, onde constem cadastros individualizados.

- Divida os ganhos com seus clientes: o conceito de capital do cliente só faz sentido quando

o produtor e o cliente não lutam pelo excedente que criaram juntos, mas concordam abertamente em possuí-los juntos. Quanto mais estreitos os laços entre produtor e consumidor, maior é a capacidade de se gerar excedente em forma de capital do cliente.

- Aprenda o negócio do seu cliente e lhe ensine o seu: afinal, quanto melhor informado

estiver sobre o negócio de um cliente, melhor poderá servi-lo. Isso se dará através da identificação

das necessidades não-expressas do cliente, o que permitirá o desenvolvimento de produtos que os atendam.

- Torne-se indispensável: as informações sobre o cliente podem e devem ser utilizadas para

que se busque ofertar um serviço vital para o cliente, de difícil substituição por outro fornecedor. Por meio de informações, é possível conhecer as características e especificidades de determinado produto que o tornam especialmente atraente aos olhos do comprador.

4 – Gestão do capital intelectual. Segundo estudo do Financial and Management Acconting Committee (Técnica Contable) apud Baum & Gonçalves (2001), os conceitos básicos relativos à medida e gestão do capital intelectual estão relacionados a três aspectos:

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- Contexto econômico – o crescimento é maior nas indústrias e nações voltadas à criação,

transformação e capitalização dos conhecimentos do que naquelas ligadas à exploração e utilização dos recursos naturais em seus processos. O conhecimento é um diferencial de competitividade.

- Contexto Contábil – a Contabilidade tradicional não está habilitada a medir aspectos da

empresa quanto à capacidade de dirigentes e pessoal, o valor das informações, da capacidade tecnológica, potencial de mercado e investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Para Stewart (1998), os ativos intelectuais de uma corporação são geralmente três ou quatro vezes mais valiosos que os tangíveis que constam nos livros. Ele diz que os passos para administrá-lo são:

- definir a importância do investimento intelectual para o desenvolvimento de novos produtos;

- avaliar a estratégia dos componentes e o ativo do conhecimento;

- classificar o seu portfolio: o que você tem, o que você usa, onde eles estão alocados;

- analisar e avaliar o valor do portfolio: quanto eles custam, o que pode ser feito para maximizar o valor deles, se deve mantê-los, vendê-los ou abandoná-los;

- investir, baseado no que se apreendeu nos passos anteriores, identificar espaços que

devem ser preenchidos para explorar conhecimento, defender-se da concorrência, direcionar a ação

da empresa ou avançar na tecnologia; e

- reunir o seu novo portfolio de conhecimento e repetir a operação ad infinitum.

O capital intelectual assume várias formas e por este motivo é difícil de gerenciá-lo. A informatização crescente das empresas, a utilização de sistema de informações em redes, a flexibilidade dos horários (trabalhos feitos em casa), a terceirização dos serviços farão com que o ativo tangível represente uma parcela decrescente em relação ao valor total do patrimônio, acarretando uma diminuição do patrimônio físico tradicional. Encontram-se em desvantagem, em relação às demais, as empresas que ainda não se deram conta do seu capital intelectual, pois não encontraram a importância do capital intelectual dentro do seu patrimônio. O primeiro passo para o gerenciamento deste capital é identificá-lo, para depois mensurá-lo.

5 – Mensuração do capital intelectual

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O maior desafio da Ciência Contábil é saber como avaliar e mensurar o capital intelectual de

uma entidade, pois, de acordo com Paulo (2000), o ativo intangível tem relevância sobre o valor da empresa e influencia o poder de geração de benefícios futuros do ativo tangível.

Entre os diversos instrumentos que buscam medir o capital intelectual da empresa, destacam-se:

- diferença entre o valor de mercado e o valor contábil;

- razão entre o valor de mercado e o valor contábil;

- “Q” de Tobim;

- Modelo de Stewart;

- valor intangível calculado;

- Modelo de Edvinsson & Malone;

- Modelo de Sveiby;

- Modelo Heurístico

5.1 – Diferença entre o valor de mercado e o valor contábil – (CI=VM-VC)

É determinado pela diferença entre o valor contábil e o valor de mercado de uma empresa. Assim tem-se:

Se o valor de mercado de uma empresa é maior do que o seu valor contábil, faz sentido atribuir a diferença ao capital intelectual. Paiva (1999) diz que essa equação apresenta alguns problemas, devido às variáveis exógenas que interferem no mercado, como por exemplo: se as taxas de juros e as ações da Microsolf caem x%, isso significa que o valor do seu capital intelectual também caiu? Se uma empresa é negociada abaixo do seu valor contábil, isso significa que não tem mais ativo intelectual? Outro ponto desfavorável é que tanto o valor contábil quanto o de mercado podem estar subestimados, o que, em ambos os casos, interfere no resultado.

5.2 – Razão entre o valor de mercado e o valor contábil (CI=VM/VC)

Este indicador elimina em boa parte os fatores exógenos que afetam todas as empresas de um setor de forma mais ou menos semelhante. Segundo Paiva (1999), os boatos – que influenciam o valor de mercado – são filtrados pelo próprio mercado e por isso este indicador é adequado como base de comparação e evolução ao longo de um determinado período ou mesmo como base comparativa com os concorrentes.

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Em ambos os modelos (CI=VM-VC e CI=VM/VC), existe uma simplificação, em virtude de que a maioria dos ativos físicos ou financeiros está representada no Balanço Patrimonial pelos seus custos históricos e não pelos custos de reposição.

5.3 – “Q” de Tobim – (Q=VM/CR)

Desenvolvido pelo economista James Tobim, este método é a comparação entre o valor de mercado e o seu custo de reposição dos ativos. Este método prevê decisões de investimentos independentemente de influências macroeconômicas. Mesmo não sendo uma medida desenvolvida para medir especificamente o capital intelectual, é um bom referencial, ao comparar o valor de mercado da empresa e o custo de reposição de seus ativos.

Stewart (1998) diz que: se o “Q” for menor que 1 – ou seja, se um ativo vale menos que seu custo de reposição –, é improvável que uma empresa compre novos ativos do mesmo tipo; por outro lado, se o “Q” for maior que 1 – ou seja, um ativo vale mais do que seu custo de reposição –, as empresas tendem a investir mais naquele tipo de ativo.

É possível calcular o “Q” de Tobim para ativos específicos, como veículos, máquinas, edificações, ou para empresa como um todo. Nas indústrias de software, onde o capital intelectual é abundante, o “Q” de Tobim tende para um número igual ou superior a 7 (sete) ou mais e nas companhias de capital físico, este indicador tende para valores aproximados de 1 (um).

5.4 – Modelo de Stewart - Navegador do capital intelectual

Stewart (1998) entende que o capital intelectual deve analisar o desempenho da empresa sob várias perspectivas. Para tanto, sugere um gráfico circular, cortado por várias linhas, em forma de uma tela de radar. Este gráfico tem a vantagem de poder agrupar várias medidas diferentes (por exemplo: razão, %, valores absolutos, etc) num mesmo quadro. O autor utiliza uma medida geral (razão valor de mercado/valor contábil) e indicadores para cada um dos elementos que compõem o capital intelectual: humano, estrutural e cliente. Exemplificando o Navegador do capital intelectual, tem-se a figura 1, onde a área do interior do polígono representa a situação atual, enquanto a área externa indica a situação desejada. Em outras palavras, alcançar a extremidade do círculo seria o ideal.

Com base na figura acima, pode-se concluir que a empresa, em termos de "satisfação de clientes", está quase atingindo as metas pretendidas. Entretanto, o índice de "participação de novos produtos na receita total" está longe do objetivado pela empresa. Pode-se concluir, neste exemplo,

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que a empresa tem um desempenho satisfatório em medidas de capital do cliente, entretanto um péssimo desempenho nos índices de medidas de capital estrutural.

O Navegador do capital intelectual tem a vantagem da fácil visualização e do

acompanhamento da evolução do desempenho da empresa. Deve-se ter cuidado especial na

escolha dos índices de desempenho para que sejam adequados à estratégia da empresa.

5.5. – Valor Intangível Calculado (VIC)

Stewart (1998) informa que a NCI Research em Evanston, nos EUA, afiliada à Kellogg School of Business, na Northwestern University, montou um grupo de projeto para encontrar uma maneira de medir intangíveis. O valor dos ativos intangíveis foi definido como a capacidade da empresa de superar o desempenho de um competidor semelhante. Então, calcula-se primeiro o retorno sobre os ativos para uma empresa, no decorrer de três anos, e apura-se a média para o setor. Baseado nos ativos da empresa, o excesso (déficit) de ganhos é calculado e comparado com o que seria produzido por uma empresa média. O imposto é deduzido e o resultado é o prêmio de ganhos atribuíveis aos ativos intangíveis da empresa. Tal prêmio é convertido em seu valor presente líquido para chegar a um valor de capital.

5.6 – Grupo Skandia – Modelo de Edvinsson & Malone

O grupo Skandia identificou certos valores de sucesso que deveriam ser maximizados e incorporados à estratégia organizacional. Estes fatores foram agrupados em cinco áreas distintas que, de acordo com Edvinson & Malone (1998), são: financeiro, cliente, processo, humano, renovação e desenvolvimento, para avaliar o capital intelectual da seguradora e emitir relatório.

Os mesmos autores estabeleceram passos, a fim de criar uma equação que traduzisse em

um número o valor do capital intelectual da Skandia:

- Identificar um conjunto básico de índices que possa ser aplicado a toda a sociedade com mínimas adaptações.

- Reconhecer que cada organização possa ter um capital intelectual adicional que necessite ser avaliado por outros índices.

- Estabelecer uma variável que capte a não tão-perfeita previsibilidade do futuro, bem como a dos equipamentos, das organizações e das pessoas que nela trabalham.