P. 1
Makarenko

Makarenko

|Views: 178|Likes:
Publicado porRebeca Batalim

More info:

Published by: Rebeca Batalim on May 06, 2013
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

11/05/2013

pdf

text

original

Série: PENSAMENTO E AÇÃO NO MAGISTÉRIO RENÉ CAPRILES MAKARENKO - O NASCIMENTO DA PEDAGOGIA SOCIALISTA HISTORIA DA EDUCAÇÃO FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO SOCIOLOGIA

DA EDUCAÇÃO EDITORA SCIPIONE RENÉ CAPRILES - Jornalista e cineasta, com trabalhos realizados na França e na América Latina; - Correspondente da agência de notícias Nóvosti, da União Soviética; do jornal boliviano El diário e da revista venezuelana Nueva sociedad; - Redator da Enciclopédia Mirador e dos Cadernos Rioarte do Instituto Municipal de Arte e Cultura do Rio de Janeiro; - Editor de publicação culturais sobre a União Soviética. RESPONSABILIDADE EDITORIAL Luiz Esteves Sallum SUPERVISÃO. PROJETO EDITORIAL E EDIÇÃO DE TEXTO Valdemar Vello COORDENAÇÃO EDITORIAL Lidia Maria Melo Chaib ASSESSORIA EDITORIAL Maria Estela Heider Cavalheiro

preparação: Célia M. Delmont de Andrade revisão de provas: Jonas Pereira dos Santos José Roberto Segantiní DIREÇÃO DE ARTE M. Beatriz de Campos Elias Alice Reika Haga PROGRAMAÇÃO VISUAL Capa: Luiz Trigo Tah Kim Chiang Miolo: Luiz Trigo ILUSTRAÇÃO DE CAPA Rogério Nunes Borges FOTOS Arquivo do Autor COMPOSIÇÃO E ARTE Diarte Composição e Arte Gráfica coordenação geral: Nelson S. Urata coordenação de arte-final. Silvio Vivian composição: Shigueru Hayashi PARÂMETRO: impressão e acabamento todos os direitos reservados editora scipione Ltda. Praça Carlos Gomes, 46 - CEP 01501 Caixa Postal 65.131 tel. 37-4151 1989 divulgação Rua Fagundes, 121 - CEP 01508 Caixa Postal 65.131

Tel. 37-4151 ISBN 85-262-1475-6 Para Aurore Bubú Ana Huara e Rudá, meus filhos. Anissim Polonski e Vladislav Dmitrienko, jornalistas ucranianos, meus camaradas. E também Lidia Chaib e Valdemar Vello, mãe e pai deste livro. Finalmente, para Lúcia Chayb, minha esposa, que sacrificou seu tempo para me ajudar carinhosamente. Agradeço especialmente a colaboração do meus amigos Antõnio Carlos Lobo Regina Bezerra, Cláudia Maciel Dilsa Terra, Moacyr Félix e Gerardo Mello Mourão, sem cuja ajuda e conselhos não poderia ter escrito este livro sobre Makarenko. Quero agradecer muito especialmente à agência de notícias Nóvosti, de Moscou, pela permanente colaboração pela cessão dos direitos de reprodução das fotos e Ilustrações contidas nesta obra.

SUMÁRIO PREFÁCIO .. 7 APRESENTAÇÃO .. 9 INTRODUÇÃO .. 11 1. A HERANÇA PEDAGÓGICA .. 17 2. A GRANDE VIRADA SOCIALISTA .. 27 3. MAKARENKO CRESCE COM A REVOLUÇÃO SOCIAL .. 37 4. O JOVEM PROFESSOR MAKARENKO .. 51 5. A EXPERIÊNCIA EM DOLINSKAIA .. 59 6. O EDUCADOR MAKARENKO EM FA CEDO FUTURO .. 67 • A continuação dos estudos .. 68 • Novos rumos durante a revolução .. 70 • Górki e a luta contra a delinqüência infantil .. 78 7. A COLÔNIA GÓRKI .. 81 • O difícil começo .. 82 • Górki é um dos nossos! .. 87 • A organização do coletivo .. 89 • Viagem a Moscou .. 94 - Os objetivos da educação .. 95 • O retorno à Colônia Górki .. 99 • A autogestão gorkiana .. 102 - Documentário fotográfico da Colônia Górki em Poltava .. 105 • A tomada de Kuriáj .. 109 - Documentário fotográfico da Colônia Górki em Kuriáj .. 113 • O depoimento de Galina Stakhievna .. 118 • Os conflitos com o Comissariado .. 127 • A visita de Máximo Górki à Colônia .. 132 8. A COMUNA DZERJINSKI .. 145 • A primeira escola em regime de autogestão .. 146 9. OS PRINCÍPIOS DA PEDAGOGIA MAKARENKIANA .. 153

10. O CAMINHO DA VIDA .. 165 BIBLIOGRAFIA .. 182

PREFÁCIO Não poderia ser mais oportuno o lançamento de Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista, de René Capriles, exatamente neste ano, em que se comemora o centenário de nascimento desse eminente e inovador Pedagogo ucraniano, Anton Semiónovitch Makarenko. O texto, que começa com um breve estudo comparativo das várias tendências, métodos e 'escolas' pedagógicas que precederam o trabalho do grande mestre, é o relato, solidamente apoiado em pesquisa, estudo e reflexão, com riqueza de fatos, detalhes e comentários, da vida e da obra do ilustre biografado, sobre o pano de fundo histórico que foi a época das turbulências 'que abalaram o mundo pouco antes e pouco depois da Revolução de Outubro, na Rússia. A vida de Makarenko foi uma espécie de epopéia. E sua obra de Educador assim mesmo, com maiúscula - foi uma epopéia de fato, ou melhor, um poema épico: o Poema pedagógico, como tão a propósito ele batizou sua obra-prima de escritor e reinventor da pedagogia, uma pedagogia dinâmica e construtiva, baseada nas inesgotáveis potencialidades do ser humano em geral e do jovem em particular. Tudo isso está contido, comentado e analisado em profundidade neste livro de René Capriles, de indiscutível utilidade e estímulo para nossos professores, pedago gos e educadores, especialmente aqueles ligados ao trabalho com crianças e adolescentes pobres, carentes, abandonados - que aqui, como sabemos, já consti-

tuem uma legião. Se educar é uma tarefa difícil, mais difícil é reeducar. E foi essa tarefa que Makarenko escolheu e assumiu, ao criar suas colônias - seus coletivos - com a meta de salvar e recuperar essas crianças, transformando-as em cidadãos no mais pleno sentido da palavra. Makarenko reabilitou esses ' menores'' (como aqui são chamadas as crianças pobres...), vítimas do período de guerra, da revolução e da fome, restituindo-lhes a dignidade. Os bezprizornies, infelizes pivetes e pixotes, lançados, órfãos, abandonados e desvalidos, na miséria, na vagabundagem, no vício, na prostituição, e mesmo na delin7 qüência, tornaram-se homens e mulheres de verdade. A essa tarefa hercúlea, Makarenko devotou-se com admiravel coragem, determinação e dedicação, sustentado pelo seu comovido, mas jamais piegas, amor pelas crianças desprivilegiadas de seu país. Foi um desafio aparente mente invencíveis que ele, no entanto, soube enfrentar com talento, audácia e criatividade, conseguindo realizar seu ideal de construção ao ser humano novo" dentro de um novo contexto histórico, através de uma luta penosa, na qual teve de se haver com poderoso: "dragões" : desde a labiríntica burocracia soviética e uma imensa falta de recursos materiais, até a resistência chegando às vezes à violência física, da parte dos próprios educandos - semi-selvagens e mesmo delinqüentes -, passando pelas críticas e oposições de pedagogo e pseudopedagogos oficiais, e Pelos obstáculos criados por autoridades impositivas e preconceituosas. Essa luta lhe trouxe muitas vitorias - como o reconhecimento precoce, o estímulo e o apoio permanente de seu grande inspirador e modelo, Máximo Górki - e

de Makarenko. "Educar o ser humano é proporcionar-lhe perspectivas. exigindo o máximo ao pessoa e respeitando-a ao máximo eis algumas das idéias de Anton Semiónovitch Makarenko que René Gapriles apresenta ao leitor neste livro. inclusive a discussão dos pontos polêmicos . com boa medida de autogestão. destinadas a servir de exemplo para seu país e o resto do mundo. crítica de teatro e tradutora. trabalho e estudo. conduzindo-o para a felicidade do amanhã". 8 APRESENTAÇÃO . arte e lazer. senso social e respeito pelo indivíduo.e não resta dúvida de que eles existem no método educacional desse mestre extraordinário e original. Makarenko foi (e ainda é. Todos esses aspectos estão presentes neste livro. Embora apoiado numa organização de bases firmes e voluntariamente aceito pelo cotetivo de educandos e professores em cujos poderes criativos confiava com fé e otimismo inabaláveis. responsabilidade pessoal e coletiva. por alguns) acusado de autoritarismo principalmente pelas conotações militaristas que alguns atribuem a sua pedagogia. que soube associar disciplina e camaradagem. dentro da "disciplina para a construção ao caráter" . direito e dever. (TATIANA BELINKY) Nota: Tatiana Belinky é escritora. crítica literária.realizações brilhantes. noções de honra e dignidade. tendo feito a tradução do Poema pedagógico.

Bandeiras nas torres e O livro dos pais. Passaram-se os anos e a figura de Makarenko sempre se mesclou à minha visão da América Latina. num colégio de jesuítas. que criou as bases de uma escola autogerida no altiplano boliviano. e descobri que minha vida toda tinha sido marcada pela influência pedagógica socialista que recebi desse grande educador. Paulo Freire me disse certa vez: "Ele é o pai de todos nós. estudava em La Paz. onde continuei meus estudos até a universidade.Quando fui convidado a escrever sobre Anton Makarenko. a favela argentina. Numa outra ocasião. entrei em contato com a experiência de Utama. Imaginava que um dia a realidade social latino-americana descobriria em toda a sua plenitude. a proposta defendida por Makarenko. já no início dos anos 30. com professores e discípulos aimarás. em 1959. Quando isso aconteceu. a primeira iniciativa makarenkiana desenvolvida na América Latina. localizada numa vila miséria. Essa avaliação começou com os referenciais políticos que determinam a história da América Latina. fiz uma avaliação de meu relacionamento pessoal com textos fundamentais. antes de partir para a Argentina. Visitei quase todos os países de nosso continente e constatei as enormes deficiências existentes em seu sistema educacional. li pela primeira vez o Poema pedagógico e conheci duas professoras que aplicavam o método numa escolinha. como o Poema pedagógico. um Samora Machel". Em seguida fui tara Mar del Plata. intuí que Darcy . Víctor Paz Estenssoro liderou na Bolívia uma revolução social que mudou a visão da educação em nosso continente. A respeito dele. 1965. um Amílcar Cabral. com quem muito aprendi sobre Makarenko. eu tinha 7 anos de idade. Poucos anos depois. e ouvia meus amigos mencionarem as escolas comunais indígenas que a revolução havia criado. Em 1952. Ele é tão grande quanto um Fidel. Nessa época.

optei por uma linguagem cinematográfica. e a narração da experiência educativa tinha que refletir igualmente uma mudança geral da sociedade.Ribeiro. caminhava na direcão de Makarenko. na União Soviética. a paixão e o amor que Anton Semionovitch tinha pela educação do ser humano. a Colônia Górki e a Comuna Dzerjinski. Na Ucrânia. no Brasil. Ao começar a escrever sobre Makarenko. muito menos uma pedagogia autogerida. Acredito que essa iniciativa seja fruto da leitura da própria obra de Makarenko e de seu posicionamento em face do leitor. Nesse sentido. essa experiência foi destruída pela direita. em que as seqüências narrativas se agrupam em grandes blocos temáticos. me envolvi de tal maneira com a obra. Tanto Paulo Freire quanto Darcy Ribeiro 9 são os educadores que mais perto estiveram. com seu programa ligado aos CIEPs cariocas. e sim por meio de parábolas narrativas. Tal como a experiência boliviana de Utama. que não admite uma educação popular. Espero ter respeitado. O passado voltou à minha memória e decidi optar por uma reconstrução biográfica que não fosse um simples relato de datas e acontecimentos. da aplicação cabal das propostas pedagógicas de Makarenko. muitas vezes não me expresso em termos estritamente pedagógicos. que ela passou a ser o centro de minha vida cotidiana e me levou até a União Soviética. estavam diretamente ligadas às grandes transformações sociais e históricas. em Moscou e em outros lugares percebi a dimensão de seu trabalho e seu significado social. . infelizmente. Em função de minha vivência com o teatro e o cinema. para estudar mais de perto os passos do grande pedagogo. na sua integridade.

" Anton Semiónovitch Makarenko escreveu a frase e respirou aliviado: tinha resolvido. Este livro representa um passo nessa direção. como pedagogo soviético. O desejo não lhe era nada estranho. Olhou em direção ao parque. todas as suas dúvidas. do outro lado da rua. aprendizado revolucionário. levantou-se da sua cadeira de trabalho e foi até a janela de sua casa. Figura: Anton Semiónovitch MAKARENKO (18881939) 12 "TALVEZ ESTE LIVRO SEJA UMA IMPERTINÊNCIA. já que nunca tinha feito outra . ao mesmo tempo. localizada num primeiro andar da travessa Lavrushinski. adquirira ao longo de duros anos de ensino e. certezas e responsabilidades que.A maior homenagem que posso prestar ao autor do Poema e de Bandeiras é desejar que meus filhos sejam educados segundo os princípios de uma escola como a Colônia Górki ou a Comuna Dzerjinski. nessa linha magistral. RENE CAPRILES 10 INTRODUÇÃO Página 12. e sentiu vontade de brincar com as crianças que se diverriam entre as bétulas. Deixou de lado sua pequena e velha máquina de escrever Underwood. para contemplar o ar límpido e as casas verde-esmeralda da primavera moscovita de 1937. a essa hora da manhã.

coisa senão viver. não há coletivo. era um dia particularmente luminoso. canções minhas. que revelava a Makarenko uma faceta de Moscou por ele desconhecida: a de suas cores transparentes. o universo infantil... atribuições. Anton Semiónovitch refletiu durante um instante observando o jogo das crianças e anotou no caderno de rascunhos: Anton MAKARENKO -> "O coletivo é um organismo social vivo e. compreendendo que as estrofes finais tinham muito a ver com seu trabalho e com sua vida. por isso mesmo. lembrou um clássico poema ucraniano. nos melhores momentos de sua comunhão com a natureza. canções minhas. há urna simples multidão. respirou fundo e. Antes de continuar escrevendo a versão definitiva do ensaio pedagógico O livro dos pais. Sim. responsabilidades. Ele se emocionava facilmente e. vos tenho cuidado. intitulado canções. correlações e interdependência entre as partes. passaram pela sua memória mais de três mil rostos de pivetes que ele transformara em homens e mulheres donos de seu próprio destino. Se tudo isso não existe.. como numa série de seqüências cinematográficas. Ouviu os gritos de alegria dos meninos. escrito em 1893 por Taras Tchevtchenko. Flores minhas. possui órgãos. 13 Taras TCHEVTCHENKO "canções. como adulto. como era seu hábito... filhas minhas! Vos criei. . mas dizei-me por piedade. uma concentração de indivíduos".

mãe bem-amada. que eu aqui permanecerei. Nos livros e nas obras da revolução reside já a pedagogia do homem novo. também encontrareis a glória. órfãos meus. Será possível não a ouvir. Lá na Ucrânia encontrareis um coração que vos compreenda. tem as suas grandes obras. pelo menos.. Taras TCHEVTCHENKO (1814-1861) Makarenko voltou para sua mesa de trabalho e continuou escrevendo: "Ao educarem seus filhos. será possível não saber como deve- . Em cada pensamento. .onde poderia deitar-vos? Ide à Ucrânia.. cada sopro da nossa vida ressoa a glória do novo cidadão do mundo. a história do mundo. Ucrânia. A nossa revolução tem os seus grandes livros. ide para lá. à nossa Ucrânia." Figura página 14 . conseqüentemente. como se fossem tuas criaturas. aconchega em teu regaço. mas mais ainda.Auto-retrato. os meus filhos insensatos. cada movimento. palavras carinhosas.. destrinchar os seus principais problemas? "Felizmente não me é exigida esta pertinência. os pais de hoje estão educando aqueles que farão a história do nosso pais e. a verdade pura e. Terei eu ombros suficientemente fortes para assumir o enorme peso de um assunto tão vasto? Terei eu o direito e serei necessariamente audaz para resolver ou. talvez.

cuja grandeza e cujo significado talvez sejamos incapazes de aprender. nos tanques. nas minas de Stalino. o segundo. de pilotos. a instruiu. que criamos esta juventude? Mas se assim é. 14 "A nossa juventude é um fenômeno mundial incomparável com qualquer outro. faltava tempo: construía-se. e sim passar como uma simples corrente de ar. na verdade. as nossas escolas e nosso ensino superior? Não achávamos os nossos comissários da Instrução Pública unicamente dignos de recriminações? A família parecia estalar por todas as costuras. a educou. e. o amor não parecia exalar o hálito do zéfiro. nos aviões. . o terceiro dia da sua criação. nos submarinos. de mecânicos agrícolas. os velhos. de sábios? Teremos sido. nos laboratórios. esquecendo-se de que têm à mão a grande filosofia da revolução. "Mas repare-se: nos fabulosos espaços das oficinas de Kramatorsk. e isto desde o primeiro. de engenheiros. voltava-se a construir. de Makeevka. em que momento foi? Por que é que não percebemos isso? Nós não tínhamos adquirido o hábito de vilipendiar. lutava-se. nós. a propósito de tudo e de nada. Acontece por vezes aos pais procurarem no meio delas a verdade.mos educar os nossos filhos? "Mas a nossa vida tem os seus dias de prosa. de capitães. Quem a engendrou. e nesta prosa formam-se complicados novelos de pequenos pormenores. O homem perde-se às vezes nas coisas pequenas da vida. a colocou a serviço da Revolução? De onde surgiram todos esses milhões de hábeis operários. nos pavilhões infindáveis da fábrica de tratores de Stalingrado. entre nós. de Gorlovka. e ainda agora continuamos a construir sem tempo para descer dos andaimes. grudados ao microscópio. Evidentemente.

" "Eles realizam a nossa obra''. tranqüilos e seguros. Górki significa "amargo". nas cabines das gruas. em todos os quadrantes. 15 Ele.. e a escolha do apelido deve-se às duras experiências vividas pelo escritor em sua infância. por toda parte. chamada assim em sua homenagem. sem palavreados e sem lamentações. Para eles não existe nada impossível!" (Máximo Górki) 16 .. Muitas vezes Anton Semiónovitch ouviu elogios sobre a profundidade com a qual chegou a compreender a personalidade humana. é verdade. eles realizam a nossa obra. e era verdade. sem histeria e sem posse. há milhões e milhões de homens jovens. após três dias de convivência com educandos da Colônia Górki. com ritmos imprevistos. nas entradas e saídas. "São modestos. Figura da página 15: GÓRKI (1869-1936) Máximo Górki é o pseudônimo de Alexei Máximovicth Pêshkov. inovadores e imensamente interessantes.por cima das solidões do Ártico. escreveu Makarenko. quando conheceu Makarenko pessoalmente. Máximo Górki já tinha afirmado isto em 1928. "Mas são os mestres da vida. às vezes de linguagem pouco requintada e com freqüência de um humor bastante rude . o senhor é simplesmente um homem extraordinário! Soube educar excelentes garotos. no momento de se despedir do pedagogo lhe disse: "Anton Semiónovitch. sem um olhar para trás.

limitando radicalmente a continuação dos estudos superiores. tanto em termos de clãs como de classes. até a Revolução de 1917. o analfabetismo atingia 98% da população. naquela época e até o início de nosso século. especialmente no setor da educação. a ausência de direitos e a miséria mais terrível foram a sorte das massas populares do império tzarista. dos latifundiários. As escolas primárias russas. em termos nacionais. não relacionavam os seus respectivos programas entre si. e uma pequena parte era do . A maioria da população era analfabeta. Nota: 1897 . que. Nas atuais repúblicas de Tadjiquistão. Kirguízia e Uzbequistão a falta de instrução era quase total. os índices revelam que. um dos países mais atrasados do mundo. No início do século XX a Rússia era. Isso refletia no nível geral da instrução de maneira separatista. A grande maioria das instituições de ensino eram de propriedade de alguns setores da grande burguesia. Por outro lado. revelando o grave problema do analfabetismo na Rússia.A HERANÇA PEDAGÓGICA A ignorância. Os documentos do censo nacional realizado em 1897 demonstram que entre os homens apenas 29% sabiam ler e escrever. o analfabetismo. enquanto a porcentagem das mulheres alfabetizadas era muito mais baixa ainda: 13 em cada 100. no campo. dirigidas com critérios feudais. Cerca de 50 povos que hoje integram a União Soviética não tinham sequer a sua escrita codificada. nas áreas urbanas. 4 em cada 5 crianças não tinham a mínima possibilidade de estudar. eram instituições isoladas.realiza-se o censo nacional.CAPÍTULO 1 .

A Igreja. canto religioso. na escola primária clássica. geometria e algumas outras matérias não-significativas. elementos básicos de aritmética e. o império russo dos tzares teve nas escolas paroquiais seu principal meio de ensino e doutrinação. A grande maioria das crianças que tinham a sorte de freqüentar essas escolas. Sua proposta para uma reforma democrática no ensino visava não somente a criação de um grande sistema público de instrução. O primeiro pedagogo russo que levantou essa questão. com 95% do estudantado. tinha uma duração máxima de dois a três anos. história e geografia do país. Nessas escolas. Num pequeno número dessas instituições. o ensino perfazia. como também.Estado. excepcionalmente. recebiam uma instrução não-científica. foi Constantin Dimitrievitch Uchinski. em termos de uma grande discussão nacional. procurava normalizar a formação de quadros . Nesses estabelecimentos. Grupos progressistas. Quanto ao programa. além de controlar maciçamente a instrução popular. baseada unicamente na leitura de textos eclesiásticos e em rudimentares conhecimentos aritméticos. e principalmente. 5% do total. noções de leitura e escrita. existiam aulas complementares de gramática russa. segundo as estatísticas oficiais. seis anos. sempre. nos meios operários e camponeses. anteriores à Revolução de Outubro. 18 Até seu fim. a mais difundida no país. o ensino se limitava a transmirir o dogma religioso. também era proprietária de um significativo número de estabelecimentos educacionais. lutaram durante muitas décadas pela criação de escolas públicas de ensino leigo. geralmente sendo todas as matérias ministradas por um único professor.

pedagógicos capazes de continuar as suas teorias de uma antropologia pedagógica. em Tula. e que são os homens e a sociedade que a modificam e corrompem. de 1762. contribuindo especialmente para a formação de muitos professores. ministrada na língua materna de cada povo. A escola era gratuita. Figura . de acordo com a natureza. Ele próprio abriu uma escola em 1859. apoiadas na teoria da "educação livre". Estudos relacionados com a obra pedagógica do autor de Guerra e paz mostraram que seus métodos educacionais funcionaram muito bem e tiveram grande repercussão nos meios intelectuais da capital. Tolstoi escreveu. A metodologia de ensino de Tolstoi se baseava na crença de que a criança é perfeita. contendo noções científicas e contos populares. a 100 quilômetros de Moscou.Constantin UCHINSKI (1824-1870) 19 Figura . em 1903 20 As teorias de Uchinski tiveram no romancista Leon Tolstoi (1828-1910) o seu mais importante defensor. preconizada por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). inspirados nas teorias das "escolas novas". para os filhos de seus colonos. que começaaám a surgir na Europa. especialmente para seus alunos. na sua propriedade de Iasnaia Poliana. Uchinski desejava uma educação baseada na cultura popular e nas tradições regionais russas ou não. . um ABC em quatro volumes. mas não obrigatória. no livro Émile ou da educação.Tolstoi em Iasnaia Poliana.

Lênin. . e a luta pela instrução pública. fundador do Estado soviético Apesar de o governo tzarista. Naquele momento." Como não existia nenhum plano de estudos. Deve ser válida a mesma liberdade para todos os educandos de perceber a influência. visto que só eles podem julgar se o educador verdadeiramente conhece e ama tudo aquilo que ensina. a Rússia ingressou numa nova fase do desenvolvimento capitalista: o imperialismo. amplamente analisado por Vladimir Ilitch Ulianov Lênin (1870-1924). principalmente a das mães.0 movimento revolucionário já era uma realidade concreta. O professor deve saber incentivar naturalmente o aluno e nunca obrigá-lo a demonstrar um interesse que não experimenta.. depois de esmagar a revolução democrático-burguesa de 1905-1907. A situação das mulheres. aliando-se 21 na luta contra a autocracia. as contradições sociais determinaram um incremento radical na consciência política do proletariado. houve casos de crianças que freqüentaram a escola muitos anos e não conseguiram aprender a ler nem a escrever. Nos seus estudos sociais e políticos. Lênin revela que o desenvolvimento da produção industrial é acompanhado de um inevitável incremento da exploração com a conseqüente agravação das condições de vida dos trabalhadores.Leon Tolstoi: "A excitação do interesse é a mola mais eficaz do tirocínio perfeito. Findo o século XIX. Figura . levando a classe operária e o campesinato a erguerem-se. conside- . uma parte importante e integrante dessa luta. era acentuadamente difícil.

Essa educadora apresentou. quando as mulheres eram ativamente atrai22 das para a produção social. afirma a historiadora Anna Foteeva. de preferência já no jardim-de-infância. surgem três nomes muito especiais.rar desnecessária a instrução pública. ao ensino russo. no período do incremento industrial.I. Kapterev (1849-1922) realçava que. Vasili Porfírievitch Vakhterov (1853-1924) foi outro pedagogo preocupado com as condições sociais do ensino.F." Mas foi somente com E. Nas vésperas da Revolução de Outubro. na pré-escola e no primeiro grau. Tikheeva (1866-1944) que a pedagogia russa começou sua etapa de aprofundamento da qualidade da instrução. convinha conjugar desde tenra idade a educação familiar com a educação social. Todos eles eram sucessores de Uchinski. "juntamente com suas antologias. A sua Cartilha russa era conhecida em todo o país e teve 117 edições até 1917. um perfil de contemporaneidade em relação às pesquisas e aos métodos aplicados nessa época tanto na Europa como nos Estados Unidos. uma tese sobre a unidade e a continuidade da educação das crianças em casa. seus materiais didáticos e a sua metodologia do aprendizado da língua russa desempenharam um papel extraordinariamente importante no desenvolvimento do ensino da leitura às crianças. São eles o engenheiro e profes- . biólogo de profissão. Posteriormente. o pedagogo e psicólogo P. que darão. "Os seus manuais". elaborou uma original teoria sobre a educação física na escola primária. num encontro de professores realizado em Moscou. Piotr Frantsevitch Lesgaft (1837-1909). os pedagogos progressistas tentavam encontrar um meio para pôr em prática as idéias da educação social nas crianças.

notícias sobre as teorias de educação aplicadas por Dewey nos meios operários. pela educadora italiana Maria Montessori (1870-1952) e aplicadas nos primeiros anos da educação soviética. essas idéias seriam desenvolvidas. A época soviética se inicia com a Revolução de 1917. que em 1905 já tinha aberto uma pequena escola popular para filhos de operários em Shelkovo. Em 1904. por caminhos independentes. a destacada pedagoga revolucionária Louise K. O período anterior à revolução denomina-se época tzarista ou russa Louise Shleger. Dessa 23 época são as declarações de Chatski referentes aos princípios pedagógicos das instituições estadunidenses. pois é através dele que se desvenda o mundo interior de cada criança.sor Alexandr Zelenko. Nota. Shleger (1863-1942) e o grande especialista em John Dewey (1859-1952) e teórico da educação na época soviética. Chatski (1878-1934). Nesse opúsculo. pela primeira vez. no ensino pré-escolar. merece a máxima atenção e seriedade. Stanislav T. escreveu um manual dedicado aos professores da pré-escola (existiam 250 em toda a Rússia). subúrbio de Moscou. trazendo. Poucos anos mais tarde. Shleger afirma que o jogo. Stanislav T. que propunham uma reforma social por meio da educação. CHATSKI: "Lutando diariamente pela mudança dos métodos relacionados com o interesse infantil e o possível desen- . intitulado Material para conversação com as crianças. Alexandr Zelenko voltou para Moscou depois de longa viagem pela Europa e Estados Unidos.

multilateral e harmonioso. tanto soviéticos como de outras nacionalidades. ainda em 1899. Teve formação superior e lia . deveria criar as condições materiais com tudo o que fosse necessário para seu desenvolvimento pleno. da liberdade de imprensa. também. ela escreveu. após a Revolução. Krúpskaia escreveu muitos artigos sobre o problema da educação. Tanto que este defechamento do estabelecimento e ordenou a prisão de Zelenko e Chatski "por ensinarem o socialismo às crianças". Ao examinar a questão da educação num regime socialista. Essa entidade converteu-se numa escola experimental. sob a direção de Chatski. Dois anos depois. sem dúvida nenhuma. cultas e informadas da sua geração. em 1906.volvimento da capacidade criativa da criança. a colocam num lugar de destaque no panorama intelectual da época. Após a conquista. tomei conhecimento do cuidadoso estudo realizado por Dewey e fiquei profundamente impressionado pela sua filosofia pragmática. Todos eles afirmam que ela foi uma das mulheres russas mais instruídas. Shleger e Chatski fundam o Primeiro Centro de Assistência Social de Moscou. que exige levar escrupulosamente para a prática a teoria de que a educação deriva da participação do indivíduo na consciência social. como. Nadejda Konstantínovna Krúpskaia. o livro A mulher trabalhadora. onde afirma que a nova sociedade não somente deveria se preocupar em garantir às crianças os meios indispensáveis para a existência. que desagradou o governo." Dois anos depois. a escola voltou a funcionar e. de reunião e de associação. Zelenko. Mas a principal figura da época pré-revolucionária foi. ficou oficializada com o nome de Primeira Estação Experimental de Educação Pública. isto é. que agrupava uma série de instituições infantis. em 1905. Os historiadores dessa área.

cujo pensamento. determinava que a atividade intelectual estava sempre subordinada às finalidades da ação. num dos seus milhares de panfletos. e Krúpskaia. para Krúpskaia o papel da educação se transforma num método científico de produção coletiva fundamentado no trabalho e na autodeterminação conjunta dos seus membros.fluentemente alemão. na Inglaterra. na França. na Alemanha. principalmente durante seus anos de exílio. 24 Figura . no qual ela propõe ao governo a tarefa de organizar o maior número possível de instituições gratuitas para crianças em idade pré- . Esposa e companheira de luta de Lênin. e Hermann Lietz (1868-1919). considerada a fundadora da pedagogia pré-escolar soviética. Edmond Demolins (1852-1907). Interessou-se especialmente pela obra de Dewev e procurou amplas informações sobre o movimento "escola nova" dirigido por Cccii Reddie (1858-1932).Nadejda KRUPSKAIA (1869-1939). fundado em bases puramente lógicas ou racionais. Nadejda Konstantinovna publica o seu famoso Programa escolar municipal. Conheceu pessoalmente William James (1842-1910). Estudou cuidadosamente as diversas tendências pedagógicas do estrangeiro. Em fevereiro de 1917 o Governo Provisório assume o poder na Rússia. francês e inglês. 25 Em maio do mesmo ano. Com a incorporação do marxismo na sua visão de mundo. denuncia que as novas autoridades nada fizeram para modificar a situação escolar no país.

Leningrado).A GRANDE VIRADA SOCIALISTA A revolução socialista de outubro de 1917 provocou mudanças radicais na organização da instrução pública. A escola privada desapareceu. essa data. Figura: tomada do Palácio de Inverno. Em 1929 é nomeada vice-comissária para a Instrução Pública. Nadejda também liderou um movimento independente de pedagogos que visava a criação de creches e jardins-de-infância para filhos de operários. Petrogrado. A revolução cultural refle- . Suas obras completas. publicadas pela Academia de Ciências Pedagógicas de Moscou. A instrução e a democracia. 26 CAPÍTULO 2 . escrito em 1936. 1917: em 26 de outubro. compreendem 11 volumes. Conjuntamente com a transformação da economia e o desenvolvimento das relações sociais socialistas começou a renovação cultural. 1917. cargo equivalente hoje a vice-ministro da Educação. a Rússia passa a chamar-se União das Repúblicas Socialistas Soviéticas -URSS.-escolar. A sua essência consistia na criação de uma cultura socialista e na democratização de toda a vida espiritual da sociedade. e o sistema escolar adquiriu um caráter democrático. Nesta época. Todos os povos da jovem União das Repúblicas Socialistas Soviéticas obtiveram o direito de desenvolver sua própria cultura em suas próprias escolas. em Petrogrado (hoje. tendo sido o principal. atualmente. corresponde a 7 de novembro. Com a adoção do calendário gregoriano.

da Bélgica. Comissariado do Povo para a Instrução. reitor da Segunda Universidade de Moscou. cronista e prolífico orador. Anatoli Vasilievitch Lunatchárski. destacado crítico. através das transformações realizadas pela direção do ensino popular entre 1917 e 1929 denominada. "o mais culto e mais instruído de todos os ministros da Educação da Europa''.Anatoli LUNATCHÁRSKI (1875-1933) Lunatchárski era. segundo a definição de Romain Rolland (1866-1944). que preconizavam o conceito do "trabalho educativo" ou o da "formação do homem útil". segundo a definição dessa época fornecida pelo professor Alberto Pinkevitch. Nesse período inicial da revolução. Homem de vastos conhecimentos enciclopédicos. Os cursos realizados para a formação de pedagogos eram teoricamente confusos. os nomes de Ovide Decroly (1871-1932). superior e profissional 29 . foram rejeitados pelo primeiro comissário do povo para a Instrução. hoje. a necessidade ele reconstruir o sistema educativo obrigou as autoridades a adotar medidas maximalistas'.riu-se na esfera da instrução. e de Georg Kerschensteiner (1854-1932). na época. 28 Os educadores começaram a pesquisar em várias direções e. Lunatchárski foi o verdadeiro responsável por toda a transformação legislativa da escola russa e o criador dos sistemas de ensino primário. Ministério da Educação. já nos primeiros dias. historiador da arte e da literatura universal. Figura .

o Comissariado do Povo para a Instrução Pública. uma decisiva participação das massas na construção ativa do socialismo. a participação de Alexei G. nos primeiros anos.da futura pedagogia socialista. Sobre esse problema. teve como meta conseguir a alfabetização geral e a educação política da população. no frustrante . oficinas e fábricas. desde seus primeiros dias. o defensor da "educação integral" e autor do famoso texto pedagógico anarquista Campos. Lênin lhe confiou a missão de articular as negociações com a velha intelectualidade russa. No final de 1918 foi assinado o decreto "Sobre a mobilização dos que sabem ler e escrever .segundo o qual toda a população culta ficava compromissada com o trabalho da instrução geral. como Chatski. que colaborou com o novo governo até 1925. ano em que ele rompeu como Partido Comunista. dos métodos ocidentais de instrução e da realidade nacional permitiu resolver as principais questões de organização do coletivo na construção da nova sociedade. após conhecer os resultados da campanha. Criado em fins de novembro de 1917. Finalmente. para que dela participe. Kalashnikov. Por causa do amplo prestigio intelectual de Lunarchárski. para que esta pudesse se integrar na nova realidade sem grandes traumatismos éticos. Lunatchárski obteve. Foram chamados pedagogos importantes. não-comunistas. é necessário primeiro ensiná-la a ler e escrever". Lênin dizia que "uma pessoa analfabeta fica de fora da vida política e. também. Mas a própria sombra do analfabetismo impediu. seguidor das teorias de Pietr Kropotkin (1842-1921). publicado em 1899. Seu conhecimento das teorias marxistas.

conforme o desejo de cada um. nas formas em que era conhecida. Com a transformação da sociedade burguesa em sociedade socialista. com a completa conservação do salário. Por exemplo: para todos os que estudavam. levou muitos dos marxistas russos. a jornada de trabalho foi reduzida em duas horas diárias. O Estado soviético não só obrigou as pessoas a estudar. igrejas. Era 30 permitido aproveitar as Casas do Povo. os . diretamente ligada à reestruturação cultural proposta pela revolução socialista. da dialética do processo pedagógico. Assim. casas particulares e locais adequados nas fábricas. no dia 26 de dezembro de 1919. o decreto "Sobre a liquidação do analfabetismo". Essa visão inédita do universo social. em 1920. entre a teoria e a prática. que obrigava toda a população com idade compreendida entre os 8 e os 50 anos. clubes. a fixar os parâmetros que revelariam uma nova relação. já com 32 anos.informe do Conselho de Comissários do Povo. e cada membro dessa coletividade deve sentir forçosamente sua dependência com relação a ela. e entre eles o próprio Lênin. a se alfabetizar na língua materna ou na russa. a escola passa a ser uma coletividade total e única. Lênin assinou. Ë nesse clima de euforia do ensino popular que o jovem pedagogo Anton Semiónovitch Makarenko começa. a considerar inicialmente que a escola também era uma superestrutura que refletia a sociedade burguesa e estava. na qual têm que estar organizados todos os processos educativos. para dar aulas. destinada a desaparecer. empresas e repartiçoes soviéticas. mas também criou todas as condições necessárias para que isto acontecesse. com ele. por isso mesmo. que não sabia ler nem escrever.

na visão de Friedrich Engels (1820-1895). sobre este fenômeno editorial: "A Rússia. a função escolar se tornaria uma função natural da comunidade de trabalho. que testemunhou o processo revolucionário. Em plena catástrofe. e um dia a escola e a fábrica acabariam por coincidir na sua própria existência. e os soldados aprendiam a ler com as famosas cartilhas especialmente escritas por Krúpskaia para o front. no auge da guerra civil. foram editados 115 títulos das obras clássicas da literatura russa. Para a edificação de um sistema de educação estatal . o país atravessou uma segunda crise econômica. o governo soviético determinou que o segundo maior orçamento estatal fosse aplicado na instrução popular. O jornalista estadunidense John Reed (1887-1920). posteriormente. agravada. existiria o "desaparecimento gradual do Estado depois 31 da expropriação dos bens da burguesia". somente o exército teve prioridade absoluta nas despesas provocadas pela guerra e suas seqüelas devastadotas. torcia-se em dores ao engendrar um novo mundo e devorava o material impresso com a mesma insaciabilidade com que a areia seca absorve a água. em 1918. escreveu. obrigando os soviéticos a mobilizar todas as forças humanas e materiais para a defesa da nação. Deste ponto de vista. com uma tiragem de seis milhões de exemplares.mais radicais levantaram a hipótese da "morte da escola" do mesmo modo que. pela eclosão de uma guerra civil (1918-1920). Logo após a criação do Estado socialista. o grande gigante." A campanha de alfabetização tomou conta também da guerra. Ainda assim.

crítica ideológica e bases LEF é a sigla de Levy Front Iskustv. elaborar uma nova teoria da educação. especialmente o livro Auto- . mas também a literatura. era necessário. permitiriam que a lingüística e o marxismo. Figura . muitos foram partidários de Friednich Fróebel (1782-1852). estabelecessem normas políticas. e que defende um ponto de vista romântico sobre a criança face ao universo real. As revistas que Brik fundaria posteriormente. Mas. A esse movimento também estão relacionados Iuri Tiniánov (1894-1943). Frente Artística de Esquerda. escrito em 1826. A arte da comuna (1918) e a famosa LEF(1923-1925). A nova pedagogia foi estruturada com muitas dificuldades e com freqüentes divergências de opinião na direção a seguir. que influenciaria não somente a educação. em colaboração com Vladimir Maiakovski. principalmente o Fróebel de A educação do homem. no campo da educação.com bases socialistas. Também foram estudadas as teorias da primeira época de Maria Montessori. Ali nasceu toda uma importante corrente do pensamento revolucionário.MAIAKOVSKI (1893-1930) 32 educativas "para criar um mundo novo". Grande influência teve o pensamento formalista do Circulo Lingüístico de Moscou. da instrução e do ensino. o teatro e o cinema. fundado pelo lingüista e crítico de arte Otto Brik (1888-1945). Os educadores sofreram grande influência desses teóricos. então. Boris Eikhenbaum (1886-1959) e o grande Vitor Bonisovitch Sldovski (1893-?). integrados numa nova forma expressiva de vanguarda. no inicio da formulação da nova linha a seguir.

Os pedagogos soviéticos acreditavam que ensinar segundo esses métodos era uma contradição em relação ao pensamento marxista e leninista. pelo psicólogo e educador Lev Semiónovitch Vygotsky (1896-1934). na escola soviética. a qual não é uma simples soma das consciências individuais. Lunatchárski e Pinkevitch. o famoso Plano Dalton. pois esses métodos trabalham com estruturas temáticas e não com disciplinas globais.-educação nas escolas elementares. não-soviéticas. proposto pela "escola progressiva". Esta obra teve enorme repercussão na nascente pedagogia soviética. de 1916. nos anos 20. fornecendo assim. mas representa uma síntese nova. criado em Massachusetts. foram pesquisadas outras correntes pedagógicas. nos anos 20. as teses do criador da epistemologia genética. como modelo. tais como as propostas pelo sociólogo e filósofo francês Ëmile Durkheim (18581917). sente e quer de um modo autônomo". que advoga que o fenômeno social "é caracterizado pelo fato de ser o produto da consciência social ou coletiva. dado o caráter individualista de sua proposta didática. Seus livros. de 1899 e Democracia e educação. foram estudados tanto por Krúpskaia como por Chatski. nos quais ele demonstrou a impossibilidade de aplicar. realizados em Moscou. Ainda na década de 20. O Ensaio sobre alguns aspectos do . como se se tratasse de um sujeito que pensa. teve grande repercussão na União Soviética. do estadunidense John Dewey. de 1916. Também se efetuaram importantes e profundos estudos sobre a obra de Jean Piaget (1896-1980). ás crianças. Mais adiante. Também foi aplicado no ensino soviético o "método integral". Estados Unidos. Escola e sociedade. conhecimentos fragmentários e dispersos da realidade. mas ele acabou sendo rejeitado.

na Europa Ocidental. na idade evolutiva. publicado por Piaget. Célestin Freinet (1896-1966). na década de 30. já que as justificações psicológicas do estudo sobre o desenvolvimento da inteligência. que é a fonte da evolução histórica e. Segundo Vygotsky: "A lógica objetiva.33 desenvolvimento da noção de parte na criança. naquela época. descoberta mediante a investigação científica. necessária e estável. De acordo com Pinkevitch. a ponta mais avançada da "pedagogia de esquerda". constituem uma visão histórica antidialética dos problemas de educação e da formação cultural. Karl Marx (1818-1883) atribui ao educador e economista William Petti (1632-1687) a primeira formulação teórica desse método de instrução. na época. Exatamente o contrário do que afirmava Piaget. despertou. Isto significa que o desenvolvimento da psique da criança está organicamente ligado ao meio social. manifesta uma certa ordem. a razão da sua existência. certa curiosidade entre os soviéticos pelo conteúdo cooperativista e popular de seus textos e de suas experiências pedagógicas. entre os fenômenos e os processos da realidade concreta". que representava. em 1921. estamos frente ao representante [Kerschensteiner] do regime burguês. Kerschensteiner tampouco foi bem-sucedido na União Soviética com suas teorias da "escola do trabalho". que aspira a fornecer ao capitalismo . posteriormente aplicado segundo as novas técnicas da "escola de Munique". que tanto interesse despertou em Edouard Claparède (1873-1940) e sua "escola funcional". na relação causal. por isso. foi recebido pelos educadores marxistas com severas críticas.

aqueles que criaram as bases de uma literatura socializante. Considerado herdeiro de Belinski na liderança da intelligentsia radical russa. Lênin. Também foram profusamente estudados os trabalhos do cientista. foi preso por ordem do tzar. pelo seu temperamento iracundo e pelos violentos artigos jornalísticos que divulgavam as idéias socialistas contra o sistema de servidão . cirurgião e pedagogo. A "escola do trabalho" teve nos professores Shulgin e Pistrak seus principais cultores na União Soviética. crítico literário e revolucionário democrata na época tzarista. nacionalista e libertária. em 1863. Feodor Dostoievski (1821-1881) escreveu Notas do subterrâneo. que apreciava muito sua obra.integraram os planos de estudo do segundo período da reforma educativa.importante escritor. em 1864. Foi assim que a obra de Nikolai Ivanovitch Pirogov (1810-1881) . aos quais tem se inculcado uma visão de submissão perante o regime capitalista atual e dotado de profundas crenças sobre a natureza mítica do Estado como árbitro dos interesses de classe". critico literário e ensaísta. chamado popularmente "o furioso Vissarion".anatomista. Nikolai Gavrilovitch Tchernishevski (1828-1889). de 1921 a 1924. também. na Universidade de Moscou e a de Vissarion Grigorevitch 34 Belinski (1811-1848) . que disciplinou a cátedra de Medicina. e desterrado para a Sibéria. Foram eles que insistiram. escritor. atacando o racionalismo apregoado por Tchernishevski. . em estudar a obra dos revolucionários democratas da segunda metade do século XIX. o considerava um precursor do marxismo na Rússia.legiões de operários devidamente educados e vocacionalmente instruídos.

de codificar. ao enunciar que: Anton MAKARENKO -> "A prática pedagógica é a organização do coletivo. seriam determinantes na condução dos educandos e na formulação da ação no coletivo. criador da reflexologia. somente. Considerei de suma importância apresentar um quadro mais ou menos geral dos acontecimentos e da evolução da pedagogia russa para a soviética. constituída como parte integrante de um coletivo de produção social. evidenciou a base fisiológica do pensamento. Esta concepção do homem e da estrutura psíquica e social forneceu a Lunatchárski valiosos elementos que. o conteúdo desse princípio. a fim de que se possa compreender melhor. que é a linguagem. 36 . no Brasil. o pensamento e o método de Makarenko. para a educação da personalidade no coletivo e.Especial importância na formulação teórica do ensino marxista tiveram as teses do fisiologista Ivan Petrovitch Pavlov (1849-1936). através do coletivo. em cujo desenvolvimento cabe à palavra o papel primordial. Pavlov. posteriormente. além do primeiro sistema de sinalização. um segundo. Corresponderia a Makarenko a responsabilidade histórica. a teoria materialista sobre a atividade nervosa superior." É nesse panorama de grandes transformações históricas e sociais que surge a obra. já nos anos 30. ao demonstrar que o homem possui. como uma experiência total. a proposta de Makarenko: a construção de uma 35 sociedade socialista através de uma ciência dialética chamada pedagogia.

utilizado pela Igreja Ortodoxa Russa e pelo império tzarista. sendo Kiev considerada "a mãe de todas as cidades russas UNIÃO DAS REPÚBLICAS SOCIALISTAS SOVIÉTICAS 1 RSFSR República Socialista Federativa Soviética da Rússia 2 RSS da Ucrânia (Kiev. Foi na Ucrânia. província de Kharkov. século IX. Dali surgiram três povos: o russo. em 1900. Poltava. capital da Ucrânia. e a 650 ao sul de Moscou. posteriormente conhecida como Rus de Kiev. Krementchug. O governo soviético adotou oficialmente o calendário gregoriano somente em fevereiro de 1918.CAPÍTULO 3 . fiéis à cronologia do antigo calendário juliano ou bizantino. o bielo-russo e o ucraniano. o primeiro Estado eslavo oriental socialmente organizado. Dolinskaia. Kharkov) 3 RSS da Bielo-Rússia 4 RSS do Uzbequistão 5 RSS do Cazaquistio 6 RSS da Geórgia . na cidade ucraniana de Belopólie. Alguns biógrafos de Makarenko mencionam sua data de nascimento como sendo 12 de março. Belopólie.MAKARENKO CRESCE COM A REVOLUÇÃO SOCIAL Anton Semiónovitch Makarenko nasceu no dia 13 de março de 1888. a 400 quilômetros a leste de Kiev. Fundada no início do século XVII. Belopólie. era. no curso médio do rio Dnieper que se fundou a antiga Rus. que em russo quer dizer campo branco. um importante centro comercial e um ativo entroncamento ferroviário com mais de 15 mil habitantes.

Ele trabalhava em Kriúkov quando conheceu Tatiana Mikhailovna Dergatchova.Aldeia ucraniana Figura 2 .7 RSS do Azerbadijão 8 RSS da Lituânia 9 RSS da Moldávia 10 RSS da Letônia 15 RSS da Kirguízia 12 RSS do Tadjiquistão 13 RSS da Armênia 14 RSS da Turcomênia 15 RSS da Estônia 38 Figura 1 . 39 Figura 1 . filha de um soldado que serviu durante 25 anos no exército tzarista. Natália e Vitali.Paisagem ucraniana 40 Anton Semiónovitch foi o segundo filho de uma família de operãrios típicos da região. Após o casamento.A Igreja exercia forte influência sobre o povo da velha Rússia. Semion Grigorievitch Makarenko. Semion e sua família mudaram-se para Belopólie para trabalhar nas oficinas da rede ferroviária nacional.Casal de camponeses Figura 2 . filho de um operário de Kharkov. . e os irmãos mais novos. Seu pai. Sua irmã mais velha chamava-se Alexandra. era pintor de paredes.

pela sua pró41 pria condição física. quero ver somente as melhores notas . com 7 anos. o que não foi um empecilho para seu normal desenvolvimento. sempre preferia ouvir as histórias e lendas tradicionais ucranianas. com toda a simplicidade dos operários. então obrigatoriamente terá que demonstrar ao professor o seu talento. com uma insistência pouco comum. Makarenko lembra as palavras de seu pai. evitando assim os jogos bruscos. Aos 5 anos já sabia ler e. Anton foi uma criança de saúde delicada. Makarenko. as causas de cicia fato ou de cada fenômeno.. característicos das crianças da sua idade. No dia que ingressou na escola primária.Os pais de Makarenko. que. cujo curso tinha duração de dois anos. As suas excelentes aptidões para o estudo fizeram dele o melhor aluno de sua turma.Figura . e já que você quer estudar. disse-lhe: "As escolas urbanas não foram feitas para nós.Anton Semiónovitch na escola primária 42 Não foi muito difícil para o menino Anton cumprir os desejos do pai. Se você obtiver boas classificações . Em 1895. Era um observador profundo da natureza e das coisas que o todeavam. melhor nem voltar para casa.. Sempre perguntava. fisicamente miúda... possuía bom ouvido musical e cantava no coro in- . trabalhava na horta escolar.. Juntamente com seus companheiros.. você me entendeu? Figura . foi matriculado na escola primária.

não tinha possibilidades de freqüentar esses espetáculos. a bailarina Anna Pávlova (1885-1931) e muitos outros não menos importantes. Para preencher as vagas dessas oficinas. o salário de Semion Grigorievitch era muito baixo. Em 1900 foram abertas grandes oficinas fertoviárias na vila de Kriúkov.fantil. Na família Makarenko. Krementchug ocupa um lugar de relevo na biografia . Uma comprida ponte. e em constantes mudanças. que na época tinha 10 mil habitantes. como o baixo Feodor Chaliapin (1873-1938). entre os operários. construída pela empresa ferroviária. ávido de conhecimento e cultura. foram recrutados operários de diversas regiões da Ucrânia e. unia o subúrbio com a grande cidade. considerado um verdadeiro privilégio. em algumas ocasiões lograva poupar escassos rublos para poder assistir às apresentações do poleiro do teatro. Em Ktementchug atuaram artistas mundialmente famosos. que naquela época morava em barracos operários. É óbvio que a família Makarenko. em janeiro de 1901. Kriúkov era um importante subúrbio da cidade de Krementchug. vestir e calçar seus quatro filhos. onde nascera a mãe do pedagogo. Naquele tempo Krementchug possuía um grande teatro de drama. Anton. como em todas as famílias de pouca renda. que poupava para poder alimentar. Ali se apresentavam os artistas mais importantes de Moscou e São Petersburgo. Makarenko começou a tocar violino e a freqüentar os concertos públicos da cidade. mais desenvolvida. Seu professor descobriu nele talento para o desenho e para a música. Ainda que ser empregado nas oficinas do sistema ferroviário fosse. a família Makarenko se muda para sua nova moradia perto do rio Dnieper. Era esta a via que permitia aos habitantes de Kriúkov ter acesso à cultura urbana. o controle das finanças era exercido pela mãe. outro de operetas e vários cinemas.

Chegava e depositava na cozinha a marmita embrulhada num pano vermelho onde sempre levava a sua ração de comida. excepcionalmente. bastante completo. Semion Makarenko. Sobre as lembranças desta época. De simples pintor foi promovido a postos de maior responsabilidade. que Anton descreveria posteriormente. Quinze minutos mais tarde. Aritmética. . assim que começava a soar a sirene de uma fábrica vizinha a nosso bairro. coberto de poeira." Diferente de Semion. Voltava para casa no entardecer. chegando a um cargo de chefia no setor de pintura e manutenção nas oficinas ferroviárias. começou a melhorar sua condição de vida. com grandes esforços pessoais. operários e artesãos. História. Tatiana Mikhailovna era uma mulher alegre e otimista.de Makarenko. Anton escreveu nas suas memórias este emocionante depoimento: "Diariamente. meu pai se levantava às cinco da manhã. O programa docente era. ele caminhava ao longo dos muros cinzentos da nossa desgraçada rua. Tinha aptidão para narrar histórias. sempre severo e pouco comunicativo. Nela viveu sua juventude e foi ali que iniciou a sua atividade pedagógica. durante dezenas de anos. cansado e sério. já que a esta cidade estão ligados quase dois decênios de sua vida. com a expressão musical "tom maior". Makarenko estudou na Escola Urbana de Krementchug durante seis anos. Geografia. fazendo amizade com seus novos colegas. filhos de pequenos funcionários públicos. mais ou menos às seis horas. nas suas obras autobiográficas. Ensinava-se Russo. Ciências Naturais e Física. Também foi 43 nessa cidade que seu pai. um grande senso de humor e mantinha no seu lar uma atmosfera de entusiasmo vital.

Fisicamente frágil. conhecia muito bem Filosofia. os exercícios físicos dos alunos da sua turma. Apesar das limitações impostas pela sua difícil situação econômica e pelo próprio sistema de ensino. por isso. Esta era uma das formas pelas quais o sistema educacional tzarista eliminava todas as perspectivas dos estudantes de ter instrução superior.Fora destas aulas. Este primeiro treinamento pedagógico já perfilava a sua fritura profissão. Sua paixão pela leitura e pelo conhecimento levava-o a dispensar os divertimentos em grupo. que seu professor resolveu nomeá-lo seu assistente e. As línguas estrangeiras estavam proibidas e. Makarenko não foi simplesmente um excelente aluno: ele foi um grande companheiro. Anton passou a dirigir diariamente. Anton continuou estudando com grande entusiasmo nas bibliotecas públicas ou participando. os educandos não podiam se matricular nos graus superiores de ensino. linear e artístico. dos debates de alguns círculos intelectuais da cidade. aulas de catecismo. tais como os jogos e os esportes violentos. Ginástica e. Makarenko gostava especialmente dos esportes individuais e praticava a ginástica rítmica com tanta elegância e sucesso. Astronomia e Ciências Naturais. Canto. também os alunos tinham cursos de Desenho. Apesar da pouca idade. uma vez formados. Era um enciclopedista nato. por esta razão. de manhã cedo. como Lógica e Filosofia. além de faltar outras disciplinas mais universais. Seus colegas apreciavam especialmente sua disposição permanente de ajudar os alunos mais fracos. tão apreciados entre os jovens. Ele chegava à escola bem antes do início das aulas e explicava as matérias aos mais 44 atrasados nos estudos. naturalmente. como ouvinte. Empregava a maior parte de seu .

necessários 30 anos para que ele pudesse ver o seu primeito título impresso: A marcha dos anos 30. quando estudava na escola de Krementchug. em 1936. Ivan Vaghilevicht. o jovem Makarenko se inteirou da história da Europa através de Walter Scott. mas foram 45 Figura . A canção do falcão e O anunciador da tempestade. Iakiw Gholovatski. na minha juventude.tempo estudando os clássicos russos e universais. do teatro. em 1933. Anos mais tarde. Conhecia perfeitamente as obras da lírica ucraniana. Foi grande admirador de um dos maiores poetas russos: Alexandr Sergueievitch Púshkin (1799-1837). Tinha verdadeira paixão pela poesia de Ivan Frankó (1856-1918) e de Taras Tchevtchenko. Victor Hugo e Henryk Sienkiewicz.Tchekhov e Górki. a minha vida decorreu sob o signo de Górki". ele reconheceu essa influência definitiva: "Após ter lido. assimilou profundamente as obras de seus contemporâneos. um ensaio geral para o seu monumental Poema pedagógico. do romance e da poesia. Mas a descoberta da obra de Nikolái Vasilievitch GóGol (1809-1852). principalmente as de Grigori Skovorodá (1722-1794). Markian Chachkevitch. Além de ler livros de aventuras e de viagens. que apareceria nas prateleiras. foi um marco na sua formação. O despertar precoce da sua consciência social ficou evidente desde suas primeiras experiências literárias. Mas o grande papel no despertar da consciência cívica de Makarenko foi exercido pela obra de Górki. . a quem veio a conhecer pessoalmente. Anton começou a escrever ficção por volta de 1903. como Paviovitch Tchekhov (1860-1904) e Máximo Górki. também ucraniano.

Makarenko edita o Poema pedagógico. Ao contrário do que acontece geralmente com os escritores novatos. A marcha dos anos 30. aos dezesseis anos. obrigando o tzar Nicolau II (1868-1918) a ceder perante os revolucionários. surpreendentes traços de humor crítico da realidade. as aulas pedagógicas e recebe o seu primeiro diploma como educador.Makarenko edita seu primeiro livro. Anton Semiónovitch ingressou num curso que formava em apenas onze meses jovens profissionais do ensino para o magistério primário. Na primavera boreal de 1905. Muitos de seus colegas decidiram continuar os estudos nas escolas técnicas da rede ferroviária. Em 1904. que o fez conhecido em todo o mundo. Perante o jovem Makarenko levantou-se a questão: ''Que fazer agora?". Decidiu ser professor. os de Anton continham. que se iniciam na poesia com versos românticos e entusiásticas descrições da beleza natural. 46 Figura . basicamente. termina o ginasial com nota máxima em todas as matérias. Makarenko termina. outros elegeram a carreira militar. Em agosto do mesmo ano. com grande animação.Notas: 1932 ."Domingo sangrento ' de São Petersburgo. relatando sua experiência pedagógica. 1933 . abalaram as estruturas do poder monárquico. Os acontecimentos políticos de janeiro de 1905. Numa . O jovem começa a sonhar em conhecer mais e mais para compreender melhor a essência humana. o famoso "domingo sangrento" de São Petersburgo.

O massacre de São Petersburgo repercutiu na Ucrânia. fornecia 24% do produto nacional bruto e atingia até 70% da produção siderúrgica do país. a população rural. com resultados ainda mais violentos.Colheita de cereais na Ucrânia. Era responsável por 26% das exportações russas. deixando um saldo de mais de 500 mortos. tanto na agricultura como na indústria. de 19 de agosto. todas elas reivindicando melhores condições de vida tanto para os trabalhadores da indústria como para os camponeses. uma passeata com mais de 30 mil pessoas. superando largamente a produção conjunta de vários países europeus. uma espécie de parlamento. Figura . dominando. A classe operária constituía 22% da mão-de-obra da nação. A Ucrânia ficou famosa na Europa pela sua farta produção de cereais e conquistou o título de "celeiro do mundo" por causa da generosidade das colheitas de trigo. . sem contar a grande população camponesa. Os latifundiários mantinham o controle absoluto das terras. instituiu-se a Duma do Estado. no dia 18 de outubro de 1905. após o manifesto do tzar. Makarenko e seus companheiros receberam a notícia estarrecidos. A resposta foi inequívoca: as tropas tzaristas metralharam os manifestantes. em condições quase escravistas. Todos esses fatos eram conhecidos por Makarenko e foram essenciais na sua formação social e política. que teve quatro convocações. A primeira Duma (abril-julho de 1906) e a segunda Duma (fevereiro-junho de 1907) foram dissolvidas pelo próprio governo tzarista. 47 Nessa época. Os operários de Kiev organizaram. a Ucrânia era uma das regiões mais desenvolvidas do império.aparente transição democrática.

que o processo do ensino na escola. o pri48 meiro jornal legal bolchevique de circulação nacional. Essa publicação. o Nóvaia Jizni (Vida nova). Dessa forma. são fatores determinantes na formação da sua visão crítica da realidade. assinaram. especialmente as famosas "Notas sobre a pequena burguesia". O apetite de conhecimento faz do jovem Anton Semiónovitch um devorador de livros. produzindo um ser coletivo a caminho da felicidade. a linha divisória entre o trabalho físico e o mental desaparece. desde seu lançamento. fundado por Górki e Lênin. foi uma das pioneiras na divulgação dos princípios do pensamento marxista. que tinha Lênin como redator-chefe.Em Kriúkov. Foi no Vida nova que Makarenko conheceu os textos críticos de Górki. prematuramente. em 27 de outubro de 1905. uma prática política. e a descoberta de Germinal(1885). inserido na produção social. que narra a luta revolucionária dos mineiros franceses. de Olga Kobilianskaia (1863-1942). de Émile Zola (1840-1902). Sua capacidade intuitiva faz com que ele compreenda. sobre os vícios da posse da terra pelos latifundiários. A leitura do romance ucraniano A terra (1901). é o que determina a personalidade do indivíduo. Anton Semiónovitch e um grupo de professores progressistas ligados ao ensino. Anton MAKARENKO -> "Estou convicto de que a finalidade da nossa educa- . interessados em obter maiores informações sobre o desenvolvimento teórico e prático da cultura e do socialismo. também. Já nesse período de sua vida começa a tomar consciência de que o fenômeno pedagógico é.

.ção reside não somente em educar um homem de espírito criador.O JOVEM PROFESSOR MAKARENKO Anton Semiónovitch começou a sua juventude trabalhando. diversos legumes e muito condimento." Todos celebraram com grandes risos e aplausos a irônica descrição feita pelo jovem professor debutante. beterraba. por ocasião da conversão dos principados eslavos ao cristianismo. o vinho. seu espírito brincalhão lhe inspirou declamar estes versos de Gavrila Tomanovitch Derzhavin (1743-1816). no jardim da nossa isbá. cebola. antes do jantar.. CAPÍTULO 4 . um homem-cidadão capacitado para participar com a máxima eficiência na edificação do Estado. anteciparam os tons dourados do outono ucraniano". na Escola Primária Ferroviária de Kriúkov. De acordo com a tradição. ri a fruta dentro dos cestos. posteriormente transformadas numa metodologia de ação pedagógica. As noites de núpcias." Com estas conclusões. nos canecos. na hora em que as brasas morrem. alegremente. o ponche. embelezam. quando os pratos chegaram à mesa. No dia 1º de setembro de 1905. uma boa razão para estar feliz: esse dia marca a sua estréia como professor da língua russa. o saboroso fermento de malte com mel. prato que contém peixe. que gostava de descrever a fartura das mesas imperiais: "A áurea sopeira de tcheksná. foram até o bosque próximo para recolher lenha de bétula e acender a fogueira no jardim de sua casa. sua mãe. ele e seus amigos. Nós devemos educar. A cinza da fogueira estival. perto do fogo. sempre foram bons motivos para celebrar. O tempo era fresco e Anton festejava pletórico. em ucraniano chama-se watra e representa o fim de um ciclo e o inicio de outro. "a amizade deve ser forte como madeira de lei . Makarenko tinha 1905. dialogando com os companheiros ou familiares. tinha preparado um forte guisado adequado para essa época do ano: o tradicional okrostchka. também. na hora da refeição. ora como faiscas. brilhando.. O seu talento dramático já era amplamente conhecido por 52 . Tatiana. o borsch e o kaimak já estão à mesa. inventado pelo príncipe Vladímir de Kiev em 988. ovos.. o nobre poeta da corte de Catarina II (1729-1796). o fim do verão. Makarenko iniciou sua longa caminhada em direção ao Homem. uma pessoa que seja obrigatoriamente feliz. os incensários queimam icônicos aromas. a partida ou a volta de um amigo. até a filosófica hora da watra. pronunciando frases sempre poéticas: "no entardecer as labaredas. rabanetes. tudo isso resfriado num caldo de kvas. ora como gelo.".

Nessas rodas quotidianas eram lidos textos do semanário clandestino Proletari. os estudantes podiam continuar num curso de especialização que formava operários qualificados para o sistema ferroviário. Seu pai. prosseguindo com sua atividade política. até seus conhecidos. divididos em dois níveis. Durante o jantar. No primeiro. além de outras publicações culturais. A irreverência. Pela sua facilidade nas ilustrações efetuadas no quadro-negro. O programa oficial da escola ferroviátia constava de cinco anos de estudos. e neles dialogava não só sobre arte e cultura. Aos poucos foi estabelecendo contato com um grupo de jovens intelectuais com os quais se reunia diariamente. logo no início da aula. Confessou que. internacional. Este circulo. cinco professores se dividiam no atendimento dos educandos. orgulhoso dos elogios feitos a Anton. também. um de três anos de duração e um outro de dois. pela primeira vez. A escola funcionava num local contíguo à oficina de manutenção e pintura onde Semion trabalhava. 53 No final de 1905. tinha ficado um pouco nervoso. ambos. rapidamente controlou a situação. tinham saído juntos para o trabalho. adquiriam conhecimentos elementares de leitura e aritmética. Desde os primeiros dias. Semion Grigorievitch. Anton Semiónovitch fez amizade com seus pupilos que. mas que. às vezes. líder da revolta militar de novembro que contou com o apoio dos estudantes e trabalhadores da capital ucraniana. em alguns casos. por sua vez. Terminados os dois ciclos. comentou com os presentes que a direção do estabelecimento ferroviário de instrução tinha gostado muito da sua capacidade como educador e. escrita em 1902. na vizinha cidade de Krementchug. Makarenko participou ativamente na organização de um congresso de jovens professores. gostavam do jeito simples e comunicativo do jovem professor de 17 anos de idade. especialmente. sobre "as criaturas . Contando Makarenko. Numa dessas ocasiões. dirigido por Lênin com a colaboração de Lunatchárski.tê-lo posto em evidência em mais de uma oportunidade. no segundo. geralmente crianças de até 10 anos. como sobre os polêmicos temas da atualidade nacional e. direito de ministrar o curso complementar de desenho técnico e artístico. da energia com a qual ele transmitia os conhecimentos. Makarenko conheceu a peça de Górki. como sua turma era de garotos filhos de operários e. utilizava o domicilio de qualquer um deles para os encontros. No estabelecimento estudavam ao todo cerca de 200 alunos. que formavam turmas de 40 escolares. todos eles filhos dos empregados da rede ferroviária imperial. que não tinha uma sede própria. os jovens recebiam uma formação mais técnica. Foi ali que Makarenko tomou conhecimento dos sangrentos acontecimentos de Kiev e. os alunos. pai e filho. cada uma. no caso do poema de Derzhavin. A repressão tzarista condenou à morte alguns deles e muitos sofreram penas de desterro. era tanto mais acentuada quanto a evocação do luxo imperial contrastando com a sua frugalidade operária. lembrou silenciosamente a estranha sensação que experimentara quando nesse dia. como era natural. ele ganhou. aproximadamente. ouviu falar do subtenente Bons Zhadanovski. especialmente em reuniões como essa. entre amigos. de manhã cedo. Ralé.

55 O incidente com Alexei. aconteceu um incidente que abalaria profundamente seu sensível espírito e provocaria uma catarse na sua prática pedagógica. Makarenko. levando-o a vomitar sangue. abandonando a "instrução". No terceiro ano da sua vida como professor. percebeu. que se manifestou. teve especial importância na vida profissional do jovem pedagogo. nesse momento. passando a reconsiderar tudo aquilo que tinha assimilado no contato com os educandos. mediante um sistema de pontuação elaborado por ele. que o pequeno estava muito doente e que a tuberculose já tinha tomado conta do frágil organismo. 54 que uma vez já foram homens". as quais foram barradas imediatamente pela direção da instituição. as graves condições econômicas de sua família. Alexei narrou. Assim aceitou o desafio de inovar no "estilo" do sistema escolar vigente. Este. isto é.A alegre música dos ucranianos não faltava nesses encontros. caso por caso. então. o canto folclórico e as trovas políticas estavam obrigatoriamente presentes. apenas transmitindo informações com fins basicamente instrutivos. o que o levou a buscar uma saída mais relacionada com a vida. lecionando com uma visão mais humanista e real. chamado Alexei. como até então tinha feito. avaliou e qualificou como o mais atrasado nos estudos um menino de 10 anos.Figura . na consciência de Makarenko. Mas nem sempre era a política ou a polêmica que predominava nos encontros. deixou muito claro. Geralmente. que lecionava segundo os métodos aprendidos no breve curso de 1905. também. Apresentou uma série de propostas para modificar estrutura pedagógica da Escola Primária Ferroviária de Kniúkov. numa crise nervosa e num violento acesso de tosse. que a educação das pessoas não era um ato isolado da realidade. Ela contribuiu para as modificações que introduziria no seu relacionamento com os educandos. Os atritos que ele mantinha com o diretor eram cada vez mais freqüentes e violentos. Esta obra. decidiu. Anton Semiónovitch ficou perturbado. nervoso e possuído por um agudo conflito interior. Makarenko. e se defrontou com a direção do estabelecimento de ensino onde trabalhava. analisando. Lutou contra o obscurantismo imposto pela autocracia e pela Igreja. parco e pouco comunicativo. as circunstâncias globais que interferiam na vida do estudante. teve de pronto um ataque de depressão. Preparou um teste cuja escala de valores variava de 1 a 37 (era este o número de inscritos na sua turma) e. da qual já tinha ouvido falar muito. ao ser informado de que era "o pior da turma". após distribuir uma série de folhas contendo as questões a serem respondidas. a completa falta de tratamento médico para combater a enfermidade e os enormes esforços que ele fazia para poder estudar. Makarenko não somente denunciava publicamente as miseráveis condições de . que não havia pesquisado anteriormente as razões pelas quais o menino tinha tanta dificuldade em aprender. na hora da despedida. realizar uma experiência singular: avaliar a capacidade de assimilação de cada um dos seus alunos. Ainda não tinha uma formulação teórica na qual se basear. Também a tradição musical e o temperamento alegre dos ucranianos estavam presentes neles. no último trimestre de 1908. pela sua dramaticidade. mas já nessa época decidiu deixar de transmitir informações.

também. 56 inspirada na experiência tolstoiana de Iasnaia Poliana. que passou a ser muito respeitado entre os educadores. nesses dias. referindo-se ao próprio diretor geral. informando-o de que tinha sido transferido para outra escola. o classificou de "corrupto" e "monarquista"." Lênin tinha escrito. Alguns dias depois. foi nomeado inspetor de instrução pública (mesmo cargo que exerceu o pai de Lênin). pois os alunos. No final do discurso. mas também criticava os objetivos finais da entidade. a Rússia latifundiária. O regime escolar era o de internato. 57 49 CAPÍTULO 5 . Chegou a afirmar que a política de limitar a instrução a conhecimentos meramente utilitários servia aos critérios inescrupulosos que visavam produzir. lendo Tolstoi. Anton Semiónovitch aproveitou a ocasiao para fazer um discurso político: "Com Tolstoi também morreu a Rússia escravista. Makarenko recebeu uma comunicação oficial da Direção Distrital de Instrução. Tolstoi deixou-nos uma herança que não pertence ao passado e sim ao futuro. entre suas novas obrigações. Anton tinha. que tinha morrido no dia 20 de novembro. tão em moda na Europa desses anos. distante pouco mais de 100 quilômetros ao sul de Kriúkov. nas suas acusações. com grande entusiasmo. eram menores. arrumou suas malas e partiu.A EXPERIÊNCIA EM DOLINSKAIA Em 1911. ampliada de acordo com as teorias da "escola de trabalho". Convidado pelos colegas a presidir um ato cultural em homenagem a Leon Tolstoi. Makarenko. nas dependências da própria escola que dirigiria. essa herança explicará. filhos de . dividindo a moradia com os outros professores e todos os alunos do estabelecimento. mão-de-obra escravizada. Instalou-se. Anton Semiónovitch aceitou esse novo desafio. após o incidente de Kriúkov. o que foi que a monarquia e a Igreja fizeram com eles. No entusiasmo da sua exposição. o conflito entre Makarenko e o diretor geral da escola atingiu seu ponto critico. localizada na estação de Dolinskaia. com a responsabilidade de supervisionar o pequeno plantel docente existente em Dolinskaia. a estação ferroviária de Dolinskaia era um entroncamento secundário da linha que descia em direção ao porto de Odessa e a outras cidades vizinhas do Mar Negro. que já tinha sido enterrada pela Revolução de 1905.vida dos filhos dos operários ferroviários que eram seus educandos. Em dezembro de 1910. palavras semelhantes. aos trabalhadores. quando. Makarenko. apregoando a alfabetização geral. através do ensino. que já conhecia a obra pedagógica de Tolstoi. a atribuição de mentor pedagógico da pequena comunidade ali formada e composta quase unicamente por funcionários da ferrovia. na sua totalidade. finalmente. as razões da sua fraqueza e qual será o caminho a seguir de agora em diante. o povo russo compreenderá. não poupou adjetivos. contra a administração do estabelecimento educacional ferroviário e surpreendeu a todos os participantes presentes ao ato. defendeu a instauração de uma "escola livre".

tanto com relação à sistematização do estudo quanto ao interesse criador envolvendo o coletivo. obrigatoriamente. Nos depoimentos registrados sobre esta época da vida de Makarenko pode-se encontrar um perfil de suas preocupações didáticas no campo da interação entre a família e a escola. guarda-linhas. especialmente. na pequena escola da estação de Dolinskaia. bailes de máscaras. Makarenko 60 organizou um grupo de teatro. as meninas convenciam suas mães a emprestar-lhes as melhores roupas do enxoval para poder vestir Irina. lia sempre para grupos de ouvintes e escrevia constantemente. Logo no início de sua gestão. jornais etc. . descreve o interesse do grande educador pela vida da comunidade: "Ele estava estreitamente ligado a todos nós. falava a língua materna com perfeição. Estas iniciativas já perfilavam. uma banda de música. formou uma rica biblioteca. personagens de Ralé." O círculo de interesse do jovem professor era muito amplo: pintava aquarelas. tinha que lecionar em russo. tanto a seus alunos. foguistas. maquinistas. o tzar proibiu a utilização da língua ucraniana. Eles próprios confeccionavam os cenários e os figurinos. assim que chegou. aos nossos pais. revistas. Sempre ouvia pacientemente as opiniões de todos e respondia detalhadamente qualquer pergunta que lhe fosse formulada.agulheiros. Nos dias de reunião. Não podiam ser publicados nesse idioma livros. ainda que timidamente. Visitava com muita assiduidade cada uma das casas do povoado e conversava demoradamente sobre a educação no seio da família. fornalheiros e outros funcionários. e freqüentes festas escolares. centenas de meninas e meninos. copiava quadros de pintores russos. Todos ficavam admirados com o lado humano desse homem que tão bem conduzia dezenas e. distante algumas dezenas de quilômetros da escola. mas que observavam e aprendiam como tratar as crianças para quando as tivessem. o entusiasmo era geral e toda a comunidade participava da preparação do espetáculo. Sob sua direção. Obviamente a língua local estava absolutamente interditada nas escolas e repartições oficiais. Com mais liberdade em Dolinskaia que em Kriúkov. Com sua presença. às vezes. Makarenko. um futuro revolucionário no campo da pedagogia. em 1876. os alunos ensaiavam peças do repertório clássico russo. protagonistas de A gaivota. denominados "quadros vivos". na comunicação verbal e escrita. Anton Semiónovitch tomou uma série de medidas inovadoras. tanto com os internos quanto com os moradores da vizinhança. Nestas ocasiões. Para evitar o crescimento do nacionalismo durante o século XIX. Makarenko teve. Nina e Polina. Na escola. Mas por ser filho de uma família ucraniana. costuravam panos velhos para vestir Luca e Santine. que moravam ao longo da estrada de ferro. eu lembro que muitas vezes assistiam a esses encontros trabalhadores dos galpões das locomotivas e outras pessoas que não tinham filhos. Todos os que o conheceram trabalhando em Dolinskaia se referem a ele como um grande organizador de eventos pedagógicos. Valentina Moroz nascida em Dolinskaia. fazia retratos e boas caricaturas. e discípula de Anton Semiónovitch. como às crianças que não freqüentavam a escola e. Neste lugar. no pátio da escola. composta principalmente de clássicos russos e de obras sobre a história universal. começou uma vida cultural e artística jamais conhecida antes na região. a sua primeira experiência concreta de bilingüismo.

Humanismo surpreendente. O educador L. fábula de Ivan Andreievitch Krilov (1769-1844). explicou que as regras metodológicas empregadas nessa ocasião mostravam o Krilov inspirado em Esopo (Séc. ouvidos até altas horas da madrugada. entre 15 e 18 de setembro. cantou em coro. Havia duas bandas de música. uma para cada exército.C. O sucesso foi total. e até alguns cavalos para os oficiais de ambos os lados. Napoleão deixou o Kremlin no dia 16. VII-VI a. que estes sentiam-se homenageados com sua presença. Citou a definição de Gógol e . foram feitos explosivos de confecção caseira. baseado na estrutura linear da orquestração da famosa Abertura 1812. realizado pelos alunos de Dolinskaia. estafetas. data que marcou o começo da sua derrota. ao centro. que a versatilidade do inspetor fascinava as crianças. os “vencedores” celebraram a salvação da Rússia e a conquista da glória universal. Finalmente. reproduziu a estratégica resistência das forças russas e o famoso incêndio de Moscou. colega de Anton Semiónovitch em Dolinskaia. O seu relacionamento com os educandos estava marcado por um exato equilíbrio “entre o emocional e o cognitivo”. que durou três dias. aos gritos de 62 “vitória”. O espetáculo. quando ele foi convidado a opinar sobre o que tinha visto e ouvido. até a porta da escola. Ele ouvia com muita atenção as minhas intervenções e as das crianças. Bandeiras. com seus amigos professores em Dolinskaia. Com a ajuda de alguns operários. foram incendiados. à tarde. iluminando uma enorme clareira da estepe que rodeava o vilarejo. a uma hora determinada. finalmente. eram uma constante na ação pedagógica de Makarenko. Figura . tendas de campanha. sob a direção de Anton Semiónovitch. que serviram para simular os disparos dos canhões. Episódios semelhantes. e os ferroviários mais fortes carregavam Makarenko nos ombros. conta no seu livro. Stepantchenko.O incêndio de Moscou (detalhe) pintura de autor anônimo. numa demontração de gratidão e admiração incontestável.) ou em La Fontaine (1621-1695) e não no fabulismo russo ligado às raízes nacionais. tudo foi previsto para dar mais realismo ao evento. Stepantchenko conta que as intervenções de Makarenko nas aulas de outros professores eram efetuadas com tanto tato. embora sem a grandiosidade particular desse. foi uma produção de dimensões gigantescas. Ele afirma que a principal arma de Makarenko era a perfeita intuição de saber intervir no momento adequado.Ficou muito famoso o espetáculo que preparou para celebrar o centenário da derrota de Napoleão Bonaparte (1769-1821) 61 durante a campanha da Rússia em 1812. Figura – Makarenko. meus alunos e eu analisávamos libélula e a formiga. vibrando ainda pela força emocional da festa. esclarecendo qualquer ponto colocado em discussão. Com materiais procedentes das oficinas da ferrovia. composta em 1880 por Piotr Ilitch Tchaikovski (1840-1893). Makarenko. 63 "Numa ocasião. A população. foram distribuídas estrategicamente centenas de barris de alcatrão que. quando Anton Semiónovitch entrou na nossa aula.

começou a ter sérios problemas com a visão. As reuniões desse círculo aconteciam todos os domingos. divertido pela zanga da menina. que tinha voltado para Moscou após sete anos de exílio na ilha de Capri. todos os alunos e até eu estávamos participando duma criação coletiva que já não era a fábula de Krilov e sim uma reflexão sobre a vida e os costumes do nosso habitat regido pela ferrovia. O seu isolamento no interior da província não limitou seu lado político: utilizava a ferrovia como meio de comunicação diário e assim acompanhava de perto a convulsionada história que a Rússia vivia nesses anos. Esta deficiência." Essas intervenções de Makarenko faziam parte do seu próprio aprendizado.responderam as crianças. pela qual ambos os escritores identificavam Krilov com as tradições camponesas nacionais. num bosque vizinho à estação de Dolinskaia. ao que respondi concordando imediatamente.Muito bem. Você é uma sapeca . Desenvolveu sua gigantesca capacidade de trabalho baseada numa autodisciplina inflexível. . Makarenko. Num determinado momento. a qual o ajudou a superar muitos dos obstáculos a que era submetido pelas suas limitações físicas. Em 1913. sem nenhum ensaio. Terminamos a brincadeira cantando e dançando temas populares cossacos. crianças .Como a personagem da libélula. – Vocês querem brincar mais um pouco ainda? . com os pequenos vibrando de alegria. .Eu não quero ser a libélula . ele já tinha organizado um grupo de trabalhadores e intelectuais revolucionários delicados ao estudo dos novos valores democráticos.. acrescentando-lhe outras personagens espontâneas. Você fará o papel da formiga e ela o papel da libélula. também.. pelos esforços constantes a que se submetia. Eu serei o avô Krilov. Anton Semiónovitch me perguntou se ele podia reter meus alunos por mais alguns minutos. mas eu te pedi isso somente para brincar. Venham até aqui. .. somada a transtornos circulatórios. produto das constantes leituras da imprensa pedagógica e do intercâmbio de conhecimentos que mantinha com os amigos de Kriúkov e Krementchug através do correio. determinou uma relação especial para com o mundo e para consigo mesmo.respondeu Anton Semiónovitch. de acordo? . No início de 1914.protestou a menina. Vamos. Anton Semiónovitch escreveu um pequeno conto sobre a presença da religião na educação. sendo obrigado a usar pincenê a maior parte do tempo. Quero um menino e uma menina. vamos improvisar um teatrinho.Queremos! . A moral da história.Atenção. a 'libélula' e o 'avô Krilov'. Após hesitar durante algum tempo. lendo as fábulas de Krilov. Makarenko. que é a do trabalho social produzido pela 64 comunidade. Eles diziam que um estrangeiro..de Ivan Turgueniev (1818-1883). teria uma noção do caráter nacional russo muito mais exata do que se tivesse lido enormes tratados sobre o nosso país. A resposta . na historinha que contou o professor Stepantchenko. hipertensão etc. ficou eternamente gravada no espírito das crianças.. começaram a interpretar a fábula.disse Makarenko. decidiu enviar uma cópia manuscrita a Górki. é o símbolo da preguiça e das pessoas ruins. venha aqui. "A 'formiga'. Então. você não quer interpretar esse papel para não ser chamada de preguiçosa. riu a gargalhadas e todas as crianças presentes também participavam da brincadeira. e eram.

já que ainda não tinha feito o serviço militar. Ele achava que a profissão de professor facilitaria ao escritor a sua função criativa. para ser coerente com a verdade. antes do final do ano. experimente novas histórias e remeta-as para mim. nos quais ele tomou consciência da complexidade dessa disciplina tão especial que é a pedagogia. Terminam assim nove anos dedicados à docência infantil. pouco tempo depois da carta de Górki. . tornar-se escritor. Somente o futuro demonstraria as suas especiais aptidões para a literatura. concentrando-se completamente no seu labor docente. fato que era incomum nessa época. concordando. a narração é muito interessante. Makarenko se demite de suas funções na pequena escola da estação de Dolinskaia. Anton Semiónovitch ultrapassa o primeiro ano de estudos com facilidade. 65 A carta de GÓrki marcou uma etapa importante na vida de Anton Semiónovitch.que recebeu o aprendiz de literato foi uma sincera e lacônica crítica. mas ela tem o problema de estar escrita sem força. Makarenko recebe. trabalhei muito para me aperfeiçoar e. sempre ávido por adquirir novos conhecimentos. e já no cume de sua obra ele diria simplesmente: "Após a resposta de Górki. escreveu mais tarde: "me despedi dos meus sonhos de escritor". recentemente inaugurado nessa cidade. Ele tinha assegurada sua sobrevivência graças aos rublos poupados durante os quatro anos que trabalhou como inspetor na escola de Dolinskaia. Anton ficou preocupado.O EDUCADOR MAKARENKO EM FACE DO FUTURO & A CONTINUAÇÃO DOS ESTUDOS O bombardeio dos portos russos do Mar Negro e o inicio da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) determinam grandes mobilizações na Ucrânia. por isso. como objetivo. O professor aspirava dominar as riquezas da cultura e desde cedo tinha-se imposto. o dramatismo utilizado para descrever o sofrimento do pope não está de acordo com a ação e. Tampouco o diálogo resulta atrativo. que dizia: “Pelo seu tema. solicita sua admissão e deslumbra os professores da banca examinadora durante as provas para o ingresso. também. sua matrícula como estudante. mas em 1915 ele teve que dar aulas particulares para poder pagar as despesas de alimentação e moradia em Poltava. Górki lhe revela que estava enganado e. localizada a 100 quilômetros ao norte de Krementchug. e decide ingressar imediatamente no Instituto Pedagógico de Poltava. Gostaria de ler outras coisas suas. nem a fraca descrição do lugar que serve de pano de fundo para o tema." Em agosto de 1914. não fica claro o dilema da personagem. Anton. O Instituto era um estabelecimento de nível superior que formava professores para o ensino secundário. 66 CAPÍTULO 6 . com o intuito de se especializar nas disciplinas de ensino superior. me preparei durante toda a vida para a atividade literária. Com 26 anos de idade já cumpridos.

ao conceder-lhe o título de professor com direito a lecionar nas escolas de 2? grau. Makarenko sente a cada instante a inutilidade de sua presença messe lugar. desenvolvimento intelectual e grande laboriosidade. ou para exercer a profissão nos institutos de estudos científicos.No ano seguinte morre seu pai. sua turma e. acontece o que tanto tinha evitado: é chamado a prestar o serviço militar. para Makarenko. 1916. foi recrutado e destinado à guarnição principal de Kiev. e a violenta grosseria dos sargentos e oficiais do seu regimento. significavam. Com o título na mão. onde dormia num leito de palha. apesar de sofrer de uma miopia de grau bastante elevado. e ele passa a ser o responsável legal pela família Makarenko. S. e decide escrever a seus amigos íntimos para que solicitem ajuda entre as pessoas influentes. graças a sua perseverança. a sujeira dos galpões. todas as honras que o Instituto conferia. 68 No Instituto Pedagógico de Poltava. demonstrou especial interesse pelo exercício da docência. particularmente. ele conhece a vida miserável do exército imperial. Anton. uma atividade docente na escola superior. novamente. Makarenko termina o curso. possuir uma instrução adequada e completa para desenvolver. Makarenko voltou a se defrontar com a realidade do sistema educacional daquela época: muito rapidamente ele soube que o próprio ensino recebido impunha limitações técnicas e culturais aos recém-formados. recebendo. durante a cerimônia de formatura. Seu domínio das ciências humanas e pedagógicas revela profundas leituras que enriquecem as brilhantes composições por ele apresentadas. Já no quartel. No início de 1917 volta para Poltava e procura recuperar o tempo perdido. para alunos distinguidos nos estudos. formalmente. A lealdade de alguns deles faz com que seu caso seja revisto. pensa nos estudos que perde inexoravelmente. com a mesma verticalidade 69 . nas disciplinas relativas à nossa história e à língua russa". Makarenko. realmente. raramente outorgados aos alunos procedentes das camadas sociais mais populares. O Conselho Pedagógico da Direção Distrital de Instrução não somente lhe outorga uma medalha de ouro. Na justificativa da mesa examinadora encontra-se registrado o seguinte parecer: "A. A educação autocrática herdada pelo novo governo continuava se impondo após 1905. No outono do mesmo ano. A nova junta médica que o examina determina a sua incapacidade física e assim ele deixa de prestar serviço nos quadros militares. um verdadeiro prêmio por seus esforços e dedicação e um estímulo para se transformar. Em abril. aluno destacado pela sua capacidade pedagógica. Descobriu que a conclusão do curso do Instituto Pedagógico de Poltava para o Magistério não significava. mas também. com o objetivo de se atualizar em todas as matérias em que estava atrasado e cujas aulas perdera durante os meses de ausência. destinada ao melhor aluno do ano. Anton estuda até 15 horas diárias. Será um grande professor em todas as matérias do programa vigente e. passa a liderar. conhecimentos culturais. o habilita profissionalmente para ocupar cargos administrativos e de direção a nível nacional. num grande educador. Esses elogios. em ocasiões especiais. integralmente. em julho de 1917.

produziram um estado de fome generalizada e as mais miseráveis condições de vida. que tinham consciência da repressão sofrida durante o regime tzarista e mantida pelo Governo . & NOVOS RUMOS DURANTE A REVOLUÇÃO No outono de 1917. ele aproveita o tempo livre para aprofundar seus conhecimentos sobre as origens do homem e das culturas ucraniana e russa. por Charles Darwin (1809-1882). nesses dias. cuja linguagem plástica e conteúdo folclórico revelavam a Makarenko valores nacionais de conteúdo eslávico. a partir das variedades de vida mais simples para dar origem às mais complexas. Anton aproveita seu tempo observando minuciosamente as obras dos artesãos das famosas feiras artesanais de Poltava. numa série de congressos nacionais. Os intelectuais. Na biblioteca do museu. Essas contradições sociais. A leitura da teoria evolucionista de Darwin afasta Makarenko definitivamente dos padrões cosmológicos utilizados pela catequese religiosa. uma 70 inflação incontrolável e um índice de desemprego gigantesco. o caso da Ucrânia. que. a que se juntavam soldados e marinheiros. seguindo a liderança de Lênin. posteriormente seriam muito importantes para sua definição política. Além das visitas ao museu. em particular. assim. se fazia muito mais difícil em termos políticos conjunturais. a tomada do poder pelos sovietes. a crise da burguesia e a consciência política das massas trabalhadoras. descobre um exemplar do livro A origem das espécies através de meios culturais de seleção ou a conservação das raças favorecidas na luta pela vida. o futuro se apresenta com uma única solução: lutar até ingressar numa universidade. nega a versão teológica da criação independente do homem e aceita a teoria de que os seres vivos evolucionaram. Nas discussões nas quais tomava parte era analisado. do qual Makarenko conhecia somente alguns fragmentos divulgados nas publicações científicas. a luta. Makarenko.elitista exercida durante o regime monárquico. agosto e setembro. Ao aceitar a seleção natural como o principal fator da evolução dos seres vivos. originalmente publicado em 1859. A situação era desesperadora. inserida no processo global da revolução proletária russa. Pelas próprias características nacionalistas da região. que controlavam as funções vitais das principais cidades do país. liderado por Alexandr Fiodorovitch Kerenski (1881-1970). Para Anton Semiónovitch. Para isto decide freqüentar diariamente o Museu Etnográfico de Poltava. ali estuda particularmente os objetos arqueológicos e lê as teses antropológicas. Este princípio terá grande influência nas formulações pedagógicas que Makarenko elaboraria posteriormente. seguindo a pré-revolucionária. resolveram. somados ao sacrifício humano que era continuar lutando na guerra contra os Impérios Centrais e Otomano. era evidente que o colapso econômico e político do Governo Provisório. participava ativamente do desenrolar dos acontecimentos. numa escala contínua. considerado até hoje um dos mais completos e ricos do país. Durante os meses de férias. assumir o controle político da nação. revelaram que já estavam dadas todas as condições necessárias para promover uma insurreição popular imediata e determinar. conduzia o país para o desastre nacional.

que nada tem a ver com a realidade”. sob a presidência de Mihailo Khuchevski (1866-1934). industrial. à criação de textos literários compromissados com a realidade nacional ucraniana e à impressão de livros. tinha resgatado alguns dos seus direitos. uma espécie de assembléia legislativa instituída em Kiev.Aldeia ucraniana nos primeiros anos do século XX. para os primeiros. que "a interdependência econômica existente entre a Rússia. pela Duma de Moscou. que prometiam benefícios para eles. supostamente independente. que os trabalhadores rurais e urbanos da Ucrânia apoiassem as mudanças sociais do Estado russo. sobretudo. jornais e revistas no idioma vernáculo. Era natural. sendo as principais a unidade religiosa estruturada pela Igreja Ortodoxa Russa e a língua. na revolução de fevereiro de 1905.Provisório. Defendendo a unidade pan-russa. para os segundos. representava a continuação das desumanas condições de vida impostas pelas indústrias controladas pelo capital judeu-alemão das regiões mineiras. A Rada começou a legislar combatendo os bolcheviques e. ele afirmou. negava qualquer projeto de independência que não avaliasse a tradição eslava. Ele sempre criticava muito duramente as restrições impostas em 1914.” Para chegar a essas conclusões . 71 Figura . “Nossa nação está constituída pelos povos da Rússia. é um fato que transcende as diversas formas de organização social e política propostas pelos nacionalistas de Kiev. separar esses três povos seria como desmembrar e negar uma história comum de mais de 1000 anos. que. quando legislaram 'sem romper com o Estado russo" na Rada Ucraniana Central. principalmente os que se referem ao ensino na escola primária. indiscutivelmente. As opções que tinham eram muito claras para eles: aderir a esse processo significava. promovendo a guerra civil. na prática. ele falava sentindo nas suas veias o sangue cossaco e se definindo por uma solução federativa. e a Ucrânia. Makarenko as recebia com absoluto ceticismo. produtora de matéria-prima e alimentos. então. em março de 1917. mais tarde. surgida. da mesma raiz fonética. lutavam pela criação de uma República Ucraniana independente. Todas essas notícias. A burguesia nacionalista demonstrou. Não acreditava que o nacionalismo burguês proposto pela Rada Central fosse o caminho correto para a sobrevivência social. O programa político da Rada Central apresenta uma Ucrânia auto-suficiente. Ucrânia e BieloRússia. Mas o movimento nacionalista despertou pouco interesse entre os camponeses e ainda menos entre os operários. a partir de um ponto de vista progressista. continuar sob o domínio dos latifundiários de origem polonesa e de religião católica. que dominavam as terras férteis da margem ocidental do rio Dnieper e. que os trabalhadores tinham razão. professor e autor da importante História 72 da Ucrânia russa. Anton Semiónovitch chamou a atenção para o perigo da dominação polonesa e a penetração dos capitais de outros países europeus e. além das outras razões históricas pelas quais ambos os povos estavam unidos. nessa época. ao uso público da língua ucraniana. Lênin estava de acordo com eles e já em junho de 1917 tinha denunciado publicamente o Governo Provisório por não cumprir com "seu elementar dever democrático" declarando a Ucrânia completamente livre. Nas ocasiões em que Makarenko foi consultado.

nas oficinas ferroviárias e nos círculos culturais ou políticos. dedicada a instruir o homem novo. Os soviéticos não somente tinham libertado a classe operária. sede do Governo Provisório e hoje Museu Ermitage. . entre outras camadas profissionais que até então trabalhavam nas condições mais sombrias imagináveis.E aqui está a Revolução! . pelo profundo significado dessa frase. na administração pública. marinheiros e guardas vermelhos. invadem o "gabinete principal do Palácio" e reproduzem as históricas e verdadeiras palavras dos sublevados de Petrogrado: . nas ruas. na histórica noite de 25 pata 26 de outubro de 1917. Com o triunfo da Revolução de Outubro.disse um ministro. As informações fornecidas pelo soviete local refletiam o clima de euforia que viviam os revolucionários na capital. mas também os sábios e os intelectuais. Os jornais divulgam as propostas sobre a paz universal e as determinações sobre a reforma agrária e a reforma educativa.. divergentes e controvertidas opiniões sobre a grande mudança social acontecida no país. No momento que eclode a Revolução Socialista. ele lembrou o episódio que mais o tinha sensibilizado durante esses conturbados dias: durante uma visita ao pátio das locomotivas. Particularmente. Anton tudo ouve e registra. Nos dias seguintes à tomada do poder. da época em que brincava nos trilhos do trem que ligava diariamente Kiev. ele viu algumas crianças brincando entre os vagões e descobriu que a brincadeira era uma representação teatral dos momentos decisivos da rebelião. para começar o assalto ao Palácio de Inverno. realizando uma das suas famosas encenações pedagógicas com os educandos da Colônia Górki. mas também das horas em que Anton se dedicava a contemplar as manobras dos barqueiros. as crianças. No jogo.foi a resposta do coro socialista. a agitação foi enorme. que acontecia entre os trilhos e locomotivas. vindos de Minsk e de outras cidades bielo-russas. Aos gritos de: Atacar. Makarenko encontrava-se em Kriúkov e seguia com atenção os acontecimentos de Petrogrado. nos 73 cafés.Aqui está o Governo! . ancorado no rio Neva. nas áreas de . que interpretavam soldados. compreende que havia terminado uma época da história social da humanidade.. Anton Semiónovitch. formulam-se as mais apaixonadas. o dever dos pedagogos era criar uma nova metodologia da docência. A população ucraniana fervilha opinando sobre os acontecimentos.tiveram grande importância as suas vivências infantis. Makarenko conta que os meninos começavam o jogo pelo famoso disparo do canhão do cruzador Aurora. e outras representavam os ministros do governo deposto. Este era o sinal secreto. Poltava e Kriúkov com Moscou e Leningrado. o espírito da revolta estava perfeitamente reproduzido. O vagão-restaurante foi transformado pela fantasia infantil nas salas do último reduto dos ministros do agonizante governo da burguesia russa. segundo o calendário juliano. combinado pelos revolucionários. algumas faziam o papel dos revolucionários. filhos de operários revolucionários. Anton Semiónovitch toma conhecimento dos principais decretos elaborados por Lênin e sancionados pelo governo revolucionário. Kharkov. todo o poder aos sovietes!. e como ela foi dita pelas crianças. no rio Dnieper. Krementchug. Anos mais tarde.

o país vive intensamente todos os seus desejos antes frustrados. Destes povos. a mais poderosa de todas as armas. tanto na escola como no conjunto da sociedade. nas artes plásticas. em todos os níveis da criação. o campo de atuação que se apresentava com a mudança era gigantesco: os educadores teriam que alfabetizar dezenas de milhões de pessoas e instruir todas elas de acordo com as exigências políticas do socialismo. Nikolai Iakovlevitch Marr (1864-1934) forneceria a Makarenko elementos de grande importância na utilização da língua “como uma arma essencial na luta de classes. Na poesia. Ainda em fins de 1917. sem a escravidão econômica. Nas suas memórias escreveu: “A Revolução abriu. o lingüista marxista Evgueni Dimitrievitch Polivanov (1891-1938) realizou a transcrição. não seria mais uma ferramenta ou um 75 instrumento para o conhecimento. de 72 sistemas fonológicos. A teoria de Marr. em 1932. a Revolução expande o universo das possibilidades criativas. a luta de classes manifesta-se. uma ideologia e uma língua própria.74 lingüística e pedagogia. que seria impossível durante o tzarismo e que o governo de Kerenski não teve interesse em tomar. que a pedagogia soviética tinha um formidável desafio. e sim uma arma. admirado pelo trabalho dos novos sistemas epistemológicos. Makarenko recebe o impacto da intelectualidade que desborda entusiasmo pelo trabalho. foi um dos passos mais importantes da Revolução em termos de destruição dos velhos padrões elitizantes. a cultura literária em geral. somente 30 possuíam seu próprio alfabeto. Por encomenda do Comissariado do Povo para as Nacionalidades. já que ela podia ser aplicada em 102 línguas diferentes com as suas respectivas escritas já codificadas. que era presidido por Iossif Stalin (1879-1953). com suas tradições e particularidades regionais. A decisão atingia um amplo espectro de 152 nacionalidades. na arquitetura. Aos 29 anos. Isto permitiu aos pedagogos estabelecer novas relações e conceitos de intercâmbio com os educandos. subitamente (para mim). que foi um dos maiores lingüistas contemporâneos. no cinema. Makarenko. Isto nos leva a uma conclusão lógica: a de que a língua. no teatro. mediante grafemas cirílicos e latinos. Esta medida. A Revolução de Outubro desenvolveu uma doutrina que considerava a linguagem uma disciplina científica e política. comentou com seus ouvintes. um enorme campo de trabalho. comecei a ampliar minha proposta sobre uma educação nova partindo do coletivo para poder formar uma personalidade humana livre. como uma luta lingüística. no caminho da edificação do socialismo". também. por conseqüência direta. possuidor de uma pessoal visão dialética da pedagogia. Com a grande mudança social. durante uma conferência. Makarenko começa a sentir que as portas da nova educação se abrem para desenvolver com mais liberdade as suas teorias da docência. espalhadas por todo o território soviético.” . para sua sobrevivência. pode ser resumida num dos seus pensamentos: "Cada classe social possui. o Comissariado do Povo para a Instrução decidiu modernizar a gramática russa com o objetivo de democratizar a escrita e. nas mãos do dominador.

ocupando o lugar da Rada Central. aproveitando a divisão do Estado. Os bolcheviques. na primavera de 1918. após as resoluções do Primeiro Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Deputados Soldados de toda a Ucrânia. A luta entre o governo soviete e a Rada. que aprova em janeiro de 1918 o decreto "Sobre a separação da Igreja do Estado e a escola da Igreja". Lunatchárski. Na região oriental do rio Dnieper. não existiam locais apropriados para receber as enormes quantidades de educandos. As novas diretrizes na área da instrução determinam que esse estabelecimento docente. Mas os ucranianos tardariam muito tempo ainda para conhecer um estado de paz. durou vários meses. As dificuldades materiais para exercer o ensino eram gigantescas. enquanto a burguesia.Até fins de 1917. por sua vez. com milhares de soldados. incita o governo kievita a abrir uma segunda frente de luta: a guerra civil. já que ela deixará posteriormente abandonados muitos jovens que seriam reeducados por Makarenko. Enquanto isso acontecia na Ucrânia. Anton Semiónovitch participa na organização das equipes responsáveis pela implementação da docência operária na Ucrânia. No início de 1918. às forças contra-revolucionárias. o conflito da guerra civil ucraniana. por sua vez. põe um ponto final na intervenção eclesiástica na escola. o líder camponês Nestor Makhnó (1884-1934) organiza. o Conselho dos Comissários do Povo. baseado em critérios político-pedagógicos. Makhnó foi derrotado em agosto de 1921 pelo governo revolucionário. Makhnó logra converter seu originalmente fraco movimento anarquista num poderoso exército. 77 Em agosto de 1919. em fevereiro de 1918. a República Soviética da Ucrânia. o soviete local o nomeia diretor do Departamento de Instrução Primária do Instituto de Educação de Poltava. assim. decide intervir mais diretamente instalando em Kiev um governo militar germânico. A ocupação de grande parte da Ucrânia por tropas do exército alemão era tolerada pela Rada Central com sede em Kiev. como titular do Comissariado do Povo para a Instrução. no dia 25 de dezembro de 1917. despojada de seus poderes. o soviete de Kriúkov nomeia Makarenko para dirigir a mesma escola ferroviária da qual ele tinha sido afastado sete anos antes. Cito aqui a existência desta corja de bandidos. pelo domínio territorial. encerrando. em outras oportunidades. até que a Alemanha. aliando-se ocasionalmente aos bolcheviques e. onde tinha oportunidade de aplicar melhor os seus conhecimentos. instalado em Moscou. Makarenko assume suas funções e estrutura um quadro básico de professores que recebem orientações específicas sobre a prática do ensino. seja transformado numa escola de 2º grau. Um exemplo . que fornecia mão-de-obra qualificada para a estrada de ferro. 76 Figura . prepara o texto do segundo decreto nacional. Makarenko se traslada para a cidade de Poltava. A guerra mundial continuava fazendo estragos entre a população ucraniana.Exército alemão de ocupação em Kiev durante a guerra civil. um grupo de mercenários com os quais abre uma terceira frente de luta na guerra civil. instalados na cidade industrial de Kharkov. Uma vez instalado. proclamaram. que semeava o terror.

Nestas verdadeiras prisões. Ali. sei com que apavorante rapidez o contágio da delinqüência progride. ele e os estudantes compartilhavam as instalações do estabelecimento com os funcionários dessa entidade." Lênin respondeu imediatamente a Gorki aprovando a idéia. na qual incluirei as personalidades mais competentes em matéria de educação da infância deficiente e da luta contra a delinqüência infantil. na grande maioria dos casos. A criminalidade infantil aumentou até se transformar num sério fator Romain . que estava localizada no edifício da Seção Provincial de Economia Nacional. gerando fome e desespero.dessa situação é a própria escola dirigida por Makarenko. Máximo Górki. proponho. pela tarde. a visão de uma reclusão punitiva foi rejeitada logo no início dos estudos dos programas de reabilitação. que se prestaria somente ao ensino. Agora que estou informado do estado deste problema. mediante a educação. à direita. Este tratamento sempre produzia um efeito contrário ao desejado. com a finalidade de fazer deles cidadãos perfeitamente integrados na produção social. indiretamente. Na Rússia pré-revolucionária. os problemas básicos da Ucrânia aumentaram sensivelmente. todas elas reincidentes e. Impõem-se outras medidas. dos 9 aos 15 anos. A guerra civil deixou uma longa série de seqüelas gravemente destrutivas em todo o país. para o educador de massas que era Anton Semiónovitch. entre elas. Com o caos político 79 reinante desde a instauração da Rada Central. A carta diz textualmente: "Por outro lado. os menores delinqüentes eram. Estas dificuldades. Gorki sugere que Lunatchárski estude a possibilidade de resolver o problema educacional dos pivetes. 78 Em abril de 1920. & GÓRKI E A LUTA CONTRA A DELINQÜÊNCIA INFANTIL Figura . Há garotos de 12 anos. portanto. as quais exigiam que fosse feito um trabalho concreto de readaptação das crianças e dos jovens. Essa solução policialesca era incompatível com as novas diretrizes formuladas pela Comissão Górki. significavam desafios que sempre superava com imaginação e criatividade. Com a mudança dos valores sociais. Isolá-los não seria uma solução. Em Petrogrado contam-se mais de 6000 crianças criminosas. chamo a sua atenção para a necessidade de tomar medidas decisivas acerca da luta contra a delinqüência infantil. psicopatas incorrigíveis. um bom número de assassinos. todos os reformatórios infantis eram considerados estabelecimentos de tipo correcional e dependiam da administração judicial. O acordo estabelecia que na parte da manhã trabalhavam os empregados do departamento econômico e.Máximo Gôrki. Makarenko assumia o local. e no verão de 1920 foi criada a Comissão para a Luta contra a Delinqüência Infantil. simplesmente. determina todo o futuro de Makarenko sem saber ainda da sua existência. gerando. junto com o escritor francês Rolland. cada um deles com três mortes nos seus antecedentes. sob a presidência de Górki e com a ativa participação do próprio Lunatchárski e da educadora Krúpskaia. Numa carta escrita em Petrogrado e enviada a Lênin. isolados da sociedade. criar uma liga para a luta contra a delinqüência infantil.

a seis quilômetros da cidade de Poltava. com o cabelo cortado rente. O segundo. já não existia o enigma e a incerteza. 1920. conhecer o homem que era Makarenko. 80 CAPÍTULO 7 . então. monumental obra sobre a grande aventura educativa de lidar com meninos criminosos. desconhecida batalha pedagógica. ciente da responsabilidade que isso significava. baseada na interligação do coletivo geral com o coletivo dos educandos e o coletivo dos educadores. ele aceita o novo desafio. o pincenê permanentemente montado sobre seu nariz um tanto grande. até então. Como Anton Semiónovitch estava profundamente influenciado pela constante leitura das obras de Gorki sobre a vida e os problemas das crianças criadas na rua. Anton Semiónovitch. num reformatório prérevolucionário. e sua clássica camisa ucraniana. Num retrato tirado em Poltava. como escreveu depois. no caminho de Kharkov. e autorizou o delegado provincial de Instrução Pública a organizar o novo estabelecimento educativo. Era esta a oportunidade que sempre esperara para pôr em prática as suas teorias sobre o desenvolvimento de uma nova ação docente. literatura. Ao assumir a liderança de uma nova e. nessa época capital do setor soviético. havia chegado o grande momento.A COLÔNIA GÓRKI & O DIFÍCIL COMEÇO Para poder compreender quem era esse jovem professor de 32 anos que aceitou ensinar poesia. para o pedagogo socialista e para a escola soviética. "através de gestos exatos como os passos de um tigre siberiano". O Soviete de Kharkov considerou que a proposta de abrir uma escola de trabalho e educação social e não um reformatório era a solução mais lógica. segundo seu amigo o escritor Kornéi Tchukovski (1882-1969). também. o primeiro passo importante foi transferir o sistema correcional do âmbito da justiça comum para o setor da educação. As autoridades decidiram.Makarenko. adotar medidas radicais para controlar especialmente esse problema. "em face do futuro". de corte cossaco. que usaria a vida toda. especialmente.desestabilizador da paz social proposta pelo Governo Revolucionário. Makarenko percebeu. Fisicamente esbelto. 82 mais fortes. Makarenko é convidado para dirigir como docente essa primeira colônia experimental. história. de acordo com as instruções da Comissão Górki. o valor do trabalho a rapazes na maioria analfabetos. Sua voz . que seu destino estava resolvido. que viviam do produto do crime sem esperar nada da vida. para poder continuar. Em setembro de 1920. embora tivesse estatura média. foi abrir uma colônia para acolher os pivetes. é necessário. Suas fotografias daquela época revelam uma personalidade enérgica e de sóbria expressividade. em 1920. socialmente desajustados e humanamente famintos. música e. impunha-se aos Figura . ele aparece com o clássico barrete revolucionário russo. Makarenko narrou este episódio na primeira página do Poema pedagógico. Para Makarenko.

um dos edifícios estava em condições . Dois meses depois. Ele recebeu um sítio de 20 hectares. num perigoso "corpo a corpo". Os educandos. priorizar a práxis em detrimento na teoria. Seus colegas de ensino procuraram. para a qual retornou imediatamente. completamente destruídos. sendo do “diretor do reformatório”. Todas as suas fotografias guardaram a imagem certa: a de um homem muito inteligente. com antecedentes muito graves. Anton Semiónovitch teve a sua grande oportunidade numa explosão de cólera ao ser ofendido pessoalmente. então. que. seus companheiros e auxiliares. isto é. o colocou num plano de igualdade humana com seus discípulos na linguagem quotidiana conhecidos como bezprizornies. e quando falava sempre o fazia com a maior cordialidade. a crise era inevitável.de moradia. Makarenko decidiu. na verdade. Anton Semiónovitch não queria aplicar punições e sim conquistar a disciplina dos educandos pela própria iniciativa deles. O incidente foi severamente criticado pelo coletivo colônia. sem nenhuma vaidade. mas que deflagrou em Makarenko sua visão de uma aplicação dialética e revolucionária da educação. mas esta reação. todos delinqüentes. uma proposta de trabalho adequada para estes casos. Foi a única vez que Makarenko envolveu-se dessa maneira com um discípulo. cheio de pinheiros e bétulas. nos tratados pedagógicos. não respeitavam as normas do estabelecimento. as relações entre professores e educandos melhoraram sensivelmente. mas não a encontraram. pixotes ucranianos. A partir desse momento. Figura . Mas para educar todos os alunos simultaneamente era necessária urna metodologia . que ainda se consideravam reclusos. Um deles. os primeiros meses de existência do reformatório foram para Makarenko. de olhar profundo.era perfeitamente modulada. durante um assalto assassinou uma pessoa. Colocando em perigo a própria existência da colônia. sempre com um bondoso sorriso. nem obedeciam as instruções que lhes eram dadas. um período de desespero e buscas. Do jardim tinham sido arrancadas até as árvores frutíferas. escolasticamente. O começo de seu trabalho na colônia foi muito difícil. em Poltava.ainda que precárias . o considerou um “absurdo pedagógico”. deu uma surra no mais temível de todos eles. 83 A estréia de Makarenko foi marcada pela perplexidade do método a utilizar. Todos tinham sido saqueados. das salas de aula e até os vidros de todas as janelas. O confronto entre professores e alunos tornou-se permanente e cada vez mais violento. foi ali que no dia 4 de dezembro de 1920 se instalaram os seis primeiros educandos. rapazes de 16 a 18 anos. não estudavam. Foi detido por um dos agentes da própria colônia. seguro de si mesmo. poucos dias depois de ingressar na colônia. com cinco prédios de tijolos vermelhos.rompeu a barreira formada por cinco dos jovens delinqüentes e. como a de um bom ator. Sem planejar a forma de dominar a situação. Em termos marxistas significou. roubaram os móveis da administração. com uma permanente atitude de desafio ao futuro e à câmara fotográfica. ele respondeu à insolência do grupo . razão pela qual o coletivo docente abandonou o método da “influência sucessiva” que determina atuar sobre cada um dos estudantes em separado. esquecer todos os princípios educacionais já aplicados e partir em busca de métodos práticos.Vista da Colônia (Górki. Após as primeiras semanas do "namoro” que a equipe docente mantinha com os educandos.

Grupo de bezprizornies. Aqueles primeiros meses de existência da colônia foram muito duros. a colônia não era uma soma mecânica de indivíduos. de forma que os próprios educandos sentiam-se parte fundamental do todo. simplesmente esperava terminar com os roubos e outras ações criminosas menores no momento exato em que a situação pedagógica o determinasse. principalmente.compreensível para ambos os contextos . "Era preciso ter muita paciência para continuar e acreditar no êxito do método encontrado.o coletivo dos educandos e o dos educadores . menores delinqüentes. o depósito dos alimentos sofria saques noturnos permanentes. Esta formulação Makarenko denomina-a 84 "perspectiva necessária" e consiste na superação revolucionária das relações econômicas e políticas alienadas pela sociedade classista. o estabelecimento já contava com 30 rapazes. no sentido jurídico da expressão. famintos. mas nada fez para impedir essa prática delitiva. muitas vezes roubavam-se os pertences dos próprios . sarnosos. Convencido de que seus educandos não eram "transgressores da lei". mas Anton Semiónovitch contagiava a todos com seu entusiasmo e. na qual ele foi intransigente: manter uma disciplina rígida. nem se desviar do caminho escolhido". Formulou a idéia acompanhada de uma exigência única. Makarenko resolveu que a "perspectiva necessária" era salvar a colônia da sua própria autodestruição. Em março de 1921. Vista assim. Makarenko sabia que muitos deles.capaz de estimular o convívio social. 85 Makarenko colocou os próprios educandos na condução dos principais programas elaborados para desenvolver o processo produtivo. na sua grande maioria vagabundos. sem nunca deixar-se desanimar. impelidos pela fome. mas um complexo social único na busca da solidariedade. que eram encaminhados à Colônia Górki. com a confiança que tinha no futuro. Os roubos na própria colônia aconteciam diariamente. De posse da resposta que buscava e que tinha sido fornecida pela própria contradição da ação educativa. Ele não tinha condições físicas nem econômicas para pôr fim a esses atos. transformando suas vidas no exemplo mais pungente do sofrimento dos que estão condenados à solidão. Organizou a vida da colônia mediante um sistema de interligação coletiva das responsabilidades. Anton Semiónovitch percebeu que o conflito essencial de cada um deles era ter sido rejeitado tanto pela família como pela sociedade. incorporando o trabalho socialmente útil aos fundamentos da sua proposta educativa. sujos e vestidos com farrapos. com a finalidade de que as exigências progressivas a que cada indivíduo era submetido tornassem possíveis as transformações desejadas. regularmente cometiam roubos na cidade. Pouco a pouco os educandos foram tomando consciência da situação e começaram a sentir um mínimo de responsabilidade na defesa do patrimônio coletivo. escreveu nas suas memórias. Figura .

se coloque apenas uma questão: ser membro da sociedade ou romper com ela. & GÓRKI É UM DOS NOSSOS! No inverno de 1921 (novembro-dezembro). a unidade de exigências. Assim o trabalho manual foi integrado definitivamente como meio de convívio social no amplo programa de bases socialistas que visava. ao ponto em que não há mais nenhuma possibilidade de evolução. e tão próximos do poder desta. Os rapazes tinham um prazer especial em ouvir os relatos autobiográficos de Máximo Górki: Minha infância (1913) e Pelo mundo (1918). que não tinha chave. e a obras de construção e manutenção dos edifícios escolares e de moradia. os quais os educandos. trazendo-a a uma afirmação existencial do pensamento e da ação coletiva pelo interesse da sociedade. Anton Semiónovitch fez um apelo para que o dinheiro fosse devolvido e. Makarenko anunciou ao coletivo docente que a opinião social tinha surgido pela dialética do processo pedagógico. Makarenko compreendeu.educandos. a emulação e a autogestão. Pela tarde. incorporaram a disciplina já conquistada o processo produtivo de bens materiais. "Nesse sentido. dando-se especial ênfase à literatura. a paixão pela leitura tomou conta dos ex-vagabundos. e isto gerou um clima de irritação. O climax dessa situação foi o assalto à escrivaninha de Makarenko. frente à flexibilidade ou à ruptura. e os próprios educandos decidiram organizar a defesa dos seus interesses: formaram o primeiro tribunal de justiça da colônia. ao cuidado do bosque vizinho. seguindo as linhas gerais traçadas por Anton Semiónovitch. então eles sequer têm tempo de escolher (não podem deixar de tomar partido). que era uma propriedade estatal incorporada à colônia. que o momento de agir tinha chegado. 86 Superada essa etapa fundamental da vida da colônia. que. o autoserviço. Makarenko dividiu as atividades docentes em dois turnos metade do dia era dedicada à produção agrícola. os educandos assistiam às aulas. eu denomino por explosão o conflito levado ao seu extremo. Anton Semiónovitch. que Makarenko definiu com a palavra "solidariedade". para cuja realização passa a se saber co-responsável. e de onde foi furtado o pagamento do corpo docente. Quando os atingidos estão tão abalados em suas relações com a sociedade. Nos dias posteriores houve mais saques ~s provisões de alimentos da comunidade. apareceu a quantia exata. no início. e a sugestão do movimento coletivo os arrasta. então. Somente um abalo explosivo deste liberta o indivíduo de sua consciência defeituosa. Para atingir esse estado de consciência era necessário um abalo explosivo que determinasse uma ação e um pensamento coletivos. não acreditavam que fossem verdadeiros. ao explicar os . 87 Não era raro observar durante as frias noites ucranianas que os dormitórios ficavam iluminados pelos lampiões até altas horas da noite: eram as rodas de leitura coletiva. começou a segunda.” Nesse momento a noção de "nosso" tomou conta do coletivo formado pelos educandos e. em que a disputa de direito entre personalidade e sociedade amadureceu. antes de tudo. no dia seguinte.

Então Górki é um dos nossos camaradas.objetivos humanistas da revolução socialista. fato que determinou. mas já em 1922. os professores. palavras de ordem nas disputas. então. tampouco. comportava 10 ou 12 . Não podemos simplesmente educar um homem. à cidade de Poltava.' Na prática. é um trabalho educativo apolítico”. Os educandos se manifestavam com alegria: . ao mesmo tempo. No conjunto. ele dimensionou o verdadeiro sentido da palavra educação pelo processo dialético: “A pedagogia. como foi que essa denominação chegou até os povoados vizinhos e. escalas de referência para medir os valores humanos [. “Somente o coletivo como um todo pode ser objeto da educação soviética. e. é sobretudo uma ciência com objetivos práticos. na escola. também demonstrava que a vida de Górki era o exemplo mais eloqüente da transformação social que o país estava vivendo. 88 Com essa revelação.. Ninguém sabe exatamente como aconteceu. fundamentos para as brincadeiras. psicologicamente. posteriormente. pois ele próprio tinha sido. onde todos definiam como gorkiano tudo aquilo que fosse relativo à colônia educativa. os educandos e toda a colônia era denominada. uma padrinho da colônia. é uma pessoa que sofreu como todos nós? Isto é formidável! Figura . não temos o direito de realizar um trabalho educacional. Górki tinha sido um bezprizorni exatamente igual a eles. 89 Tendo a educação como objetivo final "a formação política do cidadão para a construção do socialismo". Makarenko introduziu uma série de elementos inovadores na estrutura da organização coletiva.Górki tornou-se um símbolo. os educandos passaram a se autodenominar "gorkianos". Anton Semiónovitch reproduziu.. mas a rotina diária foi governada segundo as leis do inter-relacionamento celular e dividida em destacamentos semelhantes aos dos pioneiros. Um trabalho educativo que não persegue uma meta detalhada. No Poema pedagógico. a maior disciplina e a mais ampla liberdade. Makarenko registrou o grau de importância que chegaram a ter os relatos autobiográficos: "A vida de Máximo Górki começou a fazer parte da nossa vida. a visão leninista da condução social. composta por homens e mulheres sem nenhuma diferença nem discriminação. quando não temos frente aos olhos um objetivo político determinado. clara e conhecida em todos os seus aspectos. um bezprizorni. por esse adjetivo. especialmente a teoria da educação. à Direção Provincial de Instrução Pública.]”. apenas quando educamos o coletivo podemos contar com uma forma de organização em que a personalidade individual possua. Cada unidade destes destacamentos. Ninguém sabe. alguns dos episódios que narra nas suas lembranças passaram a ser. elementos de comparação. simplesmente. entre nós. Makarenko considerou que esse objetivo tinha que ser atingido em concordância com a organização coletiva que realizou a Revolução de Outubro. as aulas continuaram sendo a unidade estrutural fundamental da vida da colônia. o futuro comportamento de toda a colô nia. quando criança. principalmente. & A ORGANLZAÇAO DO COLETIVO Para poder levar adiante seu grande projeto pedagógico.

. bons métodos para aplicar nas aulas. No dia 24 de agosto de 1922. as "perspectivas" frituras. A ciência pedagógica deve considerar o fato. A correta educação soviética deve estar organizada mediante a criação de coletividades únicas. senão da sua antítese dialética: "trabalho-preocupação". Figura . antes de tudo. o fenômeno pedagógico. uma condução democrática da microssociedade que era a colônia. ao preservar a disciplina imposta pelo regimento interno. a necessidade de resolver com urgência a codificação da nova ciência pedagógica e. Nele expunha. Segundo os métodos atuais. superaram largamente as expectativas de Makarenko. a criança é o objetivo principal da investigação pedagógica. A escola tem que ser uma coletividade única na qual possam estar contidos todos os processos educativos. ele enviou um relatório sobre suas experiências e as bases da sua tese ao Instituto Central de Organizadores da Instrução Pública. também. Para isto é necessário reestruturar toda a psicologia do trabalhador escolar. Acredito que este não é um princípio correto. A base fundamental da escola russa não deve partir da teoria "ocupaçãotrabalho". permitindo. com sede em Moscou. prevalecendo os interesses sociais da comunidade. e cada membro da coletividade deve sentir sua dependência com relação à mesma. na sua essência. que então decidiu sistematizar a experiência e transmiti-la aos seus colegas de ensino. Quanto mais os educandos assumiam.educandos comandados por um chefe (homem ou mulher) eleito por um conselho formado pelos próprios educandos. Os destacamentos. 3º Renunciar completamente à idéia de que para existir uma boa escola é necessário." Os resultados práticos da colônia. assim.Desfile de pioneiros. ele propunha as seguintes medidas indispensáveis para o desenvolvimento da educação socialista: 1º Elaboração de um método científico de investigação pedagógica. para isso. é uma visão burguesa. ricos no seu conteúdo. e assim deve ser entendido o processo da realização de lei pedagógica. direcionavam. 5º A escola russa de trabalho tem que ser reestruturada completamente já que. como o objetivo final dessa investigação. Somente a organização da escola como uma função econômica a tornará socialista. Existiam regras que facultavam a todos os estudantes atingir a chefia pela alta rotatividade do posto. também. O que se necessita para obter uma boa escola é um sistema cientificamente organizado. o conceito essencial do coletivo. 90 Este tipo de organização do coletivo estudantil permitiu a criação de uma metodologia completamente nova e facilitou aos educadores a tarefa de interferência ativa direcionante da educação socialista. 91 4º A psicologia não deve ser o fundamento da pedagogia e sim a continuação dela. fortes e influentes. "Todo educador deve saber exatamente o que é que ele quer e de que maneira obtê-lo. 2º Aprofundar a atenção em relação à coletividade infantil como um todo orgânico. compreendendo todas as suas influências. eles próprios. tanto mais desaparecia a idéia do "indivíduo".

Galina Stakhievna ajudou Makarenko com especial entusiasmo nos trâmites legais para que ele pudesse viajar a Moscou e estudar no Instituto Central de Organizadores da Instrução Pública. aproximar a escola da verdadeira vida social [. Figura . se casaria com Makarenko. fins de 1922. em 30 de dezembro de 1922. Galina Stakhievna acrescentou Makarenko ao seu nome. 92 Nadejda KRÚPSKAJA -> "As escolas que se comprometam com o objetivo de desenvolver os instintos sociais nos alunos não podem ficar isoladas. Deste ponto de vista.]. Esse especial entusiasmo transformou-se em amor e. Galina Stakhievna Salkó." Outra educadora.. teve seu primeiro encontro com a pedagoga Galina Stakhievna Salkó (1892-1962). insistiu na participação direta do Komsomol na orientação política dos educandos. em 1911: pedagoga que. e Anton Semiónovitch foi convidado para uma palestra explicativa de sua tese. importante dirigente do Comissariado do Povo para a Instrução Pública da Ucrânia. após conhecer a proposta e o trabalho de Makarenko. 93 O informe repercutiu ainda na capital ucraniana (Kharkov). tendo ao fundo a Catedral de São Basílio. 16 anos depois. Uma vez instalado em Moscou. escreveu Delinqüentes. Através do Komsomol. Nessa ocasião. em 1922. & VIAGEM A MOSCOU Figura . Krúpskaia. em 1927. junto com os ucranianos que. enriquecendo as suas vidas.O informe de Makarenko teve grande repercussão entre os pedagogos soviéticos.Moscou. Lídia Nikolaievna Seifúlina (1889-1954). mostrando esse universo com a mesma ternura e compreensão transmitida por Anton Semiónovitch. que se interessou profundamente pela experiência makarenkiana e aconselhou-o a elaborar uma monografia teórica. Anton Semiónovitch apresentou às autoridades pedagógicas um breve informe sobre as dificuldades econômicas que teve no início da colônia e os problemas pedagógicos ocasionados pela falta de um programa revolucionário para a reeducação dos jovens delinqüentes que . Temos que alargar os limites das impressões sociais das crianças. os escolares se relacionarão com a juventude operária e camponesa. 94 Makarenko viajou a Moscou num clima de euforia patriótica. que trabalhava na Sibéria com crianças abandonadas e menores criminosos. adquire grande importância a organização de células escolares do Komsomol.. Praça Vermelha. passaram a integrar oficialmente a federação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.Grupo de Komsomols reunidos em uma fábrica. seguindo o caminho de Makarenko. Mas a grande maioria dos educadores soviéticos acusou Makarenko de promover uma escola espartanista e criticou seus métodos severos e autogestionários.

Makarenko afirmou ainda. o administrador ideal. com hortas cultivadas. E que nesses dois anos ele não somente tinha conquistado a confiança dos recalcitrantes. o político ideal. Estamos obrigados a educar o cidadão que nossa sociedade necessita. Em ocasiões diversas a sociedade apresenta este imperativo com muita impaciência e exigência: necessitamos médicos. Os objetivos do trabalho executivo somente podem ser deduzidos pelas exigências que a sociedade apresenta. como ele gostava de chamá-los. senão também sobre a educação de um novo tipo de conduta. até a peça mais pequena. que recebera praticamente decrépita. Cada pessoa que educamos constitui o resultado de nosso trabalho pedagógico. traços e qualidades da personalidade que são necessários no 95 Estado soviético. O êxito do nosso trabalho depende de uma infinita quantidade de circunstâncias: da técnica pedagógica. numa empresa produtiva em termos culturais e econômicos. dos mantimentos. E tanto nós mesmos como a sociedade devemos examinar minuciosa e detalhadamente o nosso produto. faz-se completamente inadmissível substituir a descrição exata do nosso produto por alocuções gerais.tinha sob a sua responsabilidade. constituem conjuntos muito complexos. senão porque. de fato. uma verdadeira barbeiragem. dos caracteres. "É evidente que não faltaram esforços para determinar os 'objetivos da educação' por outras vias. parques decorativos e uma granja para a criação de diversos tipos de animais. compostos para definir isto de alguma forma. 10%. O nosso material básico. A amabilidade ideal.05%? E o que fazemos com o material excedente? “Se colocamos a questão oeste modo. as crianças. torneiros. aceitável ou simplesmente defeituoso ainda mais. exclamações patéticas e frases revolucionárias'. engenheiros. da qualidade do material. “Estas exortações fedem tanto a ideal que. de pequenas perfeições e determinadas predisposições e aversões.90%. 50%. na esfera da conduta. que considerava indispensável para a educação politécnica uma empresa com o mais alto nível de organização e programada com um plano de produção autogestionário. Relatou que com esses "educandos". Como em toda produção. O ideal abstrato como objetivo da educação não somente resulta difícil porque o ideal de forma geral é inatingível. técnicos etc. Surge então a pergunta: que proporção deste material serve para educar um 'ser cheio de iniciativas?' . 0. nessa oportunidade. Os princípios dessa proposta encontram-se perfeitamente definidos neste texto de sua autoria: && Os objetivos da educação “Um aspecto de extraordinária importância em nosso trabalho consiste em que ele deve ser inquestionavelmente útil. o resultado do nosso trabalho pode ser magnífico. satisfatório. é incalculavelmente variável. "Os objetivos de nosso trabalho devem expressar-se através das qualidades reais das pessoas que culminarão a sua educação sob a nossa orientação pedagógica. "Devemos falar não somente sobre a formação profissional da nova geração. organizou o programa docente e o trabalho agrícola do reformatório. a lua aplicação resulta absolutamente impossível. estão muito misturadas as relações recíprocas entre os ideais. As tentativas de . como também tinha transformado uma velha fazenda.

"Mais ainda. evidentemente. As exigências da sociedade são válidas somente para uma época. O aspecto mais perigoso continuará sendo ainda por muito tempo o do medo à diversidade humana. Sim. 97 Por isso. "A solução deste problema seria completamente impossível se procurássemos resolvê-lo silogisticamente: para seres humanos diferentes. por mais integral que nos pareça (fazendo uma generosa abstração). diferentes formas de realização desse trabalho. e ainda continuam se equivocando quando educam . "Nossa educação deve ser comunista. na nossa tarefa. Com relação a isto. constitui um material de qualidade desigual para a educação. diferentes métodos. Nada é eterno e absoluto nas nossas tarefas. Qualquer outro princípio não é nada mais do que uma impersonalização. a falta de habilidade para construir um todo equilibrado partindo de elementos díspares. Seria uma superficialidade inconcebível ignorar a diversidade do ser humano e procurar juntar todas as questões relacionadas com as tarefas da educação numa linha única. Por isso é muito natural que essas fórmulas não cheguem a criar nada na vida real. nunca pensaremos em fabricar facas de alumínio ou chumaceiras de mercúrio. sempre. a tarefa de planejar a personalidade se transforma num assunto extraordinariamente difícil e que requer muita precaução. por isso. comum para todas. Este princípio afasta imediatamente do nosso produto as túnicas ideais. enquadrar o ser humano num arquétipo estereotipado. Este princípio generalizador pressupõe. porque a evolução das exigências que a sociedade apresenta pode acontecer na esfera dos menores e pouco significativos detalhes. e o 'produto' que possamos fabricar. "Os traços comuns e individuais da personalidade formam nós extremamente complexos nos diferentes seres vivos e. 96 "O projeto da personalidade como produto da educação deve estar baseado nas exigências da procura da sociedade.sintetizar os objetivos que procura a educação numa fórmula breve. não demonstram senão um absoluto afastamento de todo tipo de prática concreta e específica. modelar todos com o mesmo padrão. de acordo com a variedade do material e suas diversas formas de emprego na sociedade. "Por isso. no nosso trabalho concreto. e estas modificações serão introduzidas paulatinamente. educar uma estreita série de tipos humanos parece um assunto mais fácil do que a educação planejada com uma visão diferenciada. mais ou menos limitada. necessariamente. sempre devemos lembrar que o ser humano. cada um na sua época. na medida em que se desenvolva e aperfeiçoe toda a vida social. Podemos estar perfeitamente certos de que à próxima geração lhe serão apresentadas exigências bastante modificadas. Vou citar um exemplo: apesar de termos unificado muitas substâncias no conceito único de 'metal'. e cada pessoa que eduquemos deve ser útil à causa da classe operária. terá que ser muito variado. este mesmo erro foi cometido pelos espartanos e os jesuítas. as previsões sempre devem ser extremamente cuidadosas e perspicazes. cuja duração é. Mais ou menos deste modo pensavam os pedologistas ao criarem instituições para 'rapazes difíceis' separadas das instituições para rapazes normais.

senão um membro da coletividade. "Grandes dificuldades nos esperam tão-somente no trabalho prático. a tese leninista que pode ser resumida nos seguintes pontos: 1) Implantar a instrução geral e politécnica gratuita e obrigatória (na qual se ensine a teoria e a prática dos principais ramos da produção) para os jovens de ambos os sexos até os 16 anos. ficaremos sem a possibilidade de nos ocuparmos somente da 'criança' isolada." & O RETORNO À COLÔNIA GÓRKI Moscou. pelo outro. na sua totalidade. Lênin já tinha determinado a criação da Nova Política Econômica. 2) Unir intimamente o ensino ao trabalho socio-produtivo. em 1923. permita. que tão evidentemente se manifesta na ultrapedagógica palavra 'criança'. Devemos entregar. o trabalho de planejar a personalidade adquire novas condições para a sua solução. 3) Proporcionar a todos os alunos alimentação. 4) Intensificar a ação política e a conscientização social entre os docentes. ao tentar resolver este problema. Partindo disto. Isto me parece um tema digno do esforço dos cientistas. rapidamente chegaremos todos até a unidade individualista. onde a palavra de ordem era o "novo". de um lado. deve ter seus traços determinados. não simplesmente uma personalidade que possua estes ou outros traços. 5) Preparar para o magistério novos quadros docentes. geracionais. com a particularidade de que esta. também. ao mesmo tempo. imediatamente. Ergue-se perante nós. roupas e material de ensino. Esta importante reforma salvou o Estado da catástrofe. então. que cada somente pode ser a criação de um método que. e Makarenko assume. imbuídos das idéias do socialismo. 7) Promover a ampla colaboração do poder soviético na auto-educação e formação individual dos operários e camponeses trabalhadores (organizar . morais). Lênin já tinha definido o papel do ensino na construção do socialismo. "É completamente evidente que. conserve a sua individualidade e avance pelo caminho das suas vocações. Neste aspecto tropeçamos a cada passo 98 nas contradições existentes entre os diferentes detalhes e as condições da tarefa. Se continuamos desenvolvendo esta lógica pela via da ramificação das particularidades pessoais (sexuais. e entre o princípio coletivo e pessoal. a coletividade como objeto de nossa educação. Por isso. "A única tarefa organizativa digna da nossa época. sendo personalidade independente desenvolva as suas aptidões. No campo da educação. o planejamento da personalidade deve estar precedido de uma análise dos fenômenos intracoletivos e pessoais. Estas contradições são muito numerosas e poderosas. a famosa NEP.separadamente os homens das mulheres. era um centro intelectual fervilhante. na qualidade de produto.. sociais. "Acredito que é importante acrescentar aqui que eu não posso nem tenho força para desenvolver esse projeto. 6) Incorporar a população trabalhadora numa participação ativa na instrução pública (desenvolver os Conselhos de Instrução Pública mobilizando os que sabem ler e escrever).. comum e único. pelo decreto de 9 de agosto de 1921.

responde simplesmente às necessidades objetivas do binômio cultura-sociedade. universidades populares. escrita por Maiakóvski para comemorar o primeiro aniversário da Revolução de Outubro e dirigida por Vsevolod Emiliévitch Meyerhold (1874-1940). já esquecidos da vida marginal anterior. Em geral. Por exemplo. a noção do 'método' tomou proporções gigantescas e hoje significa muitas coisas. posteriormente conhecidas como "método biomecânico". O entusiasmo gerado pela volta de Makarenko transformou definitivamente a estrutura da Colônia Górki. "Pouco a pouco fui analisando esta experiência e formou-se dentro de mim uma certa escala de valores diferente das conhecidas naquele momento. pois foi literalmente "perseguido" pelos educandos da Colônia Górki. cujos trabalhos eram conhecidos por Anton desde 1916. interpretando o teatro como um fato surgido da filosofia materialista científica do coletivo. escreveu anos depois. A linha criadora revolucionária fixada pela primeira peça teatral soviética. cinemas. Anton não teve muito tempo para ficar em Moscou. vinha sofrendo profundas influências das teorias formalistas da Sociedade para o Estudo da Língua Poética (OPOIAZ). Todos estes aportes e descobertas confirmam que o pensamento de Makarenko. neste caso.bibliotecas. Makarenko tinha o caminho aberto para a criação da "nova escola" que compreendia todos os processos relativos ao conhecimento e à expressão cultural. O pensamento deste lingüista apresenta notáveis semelhanças com as propostas teóricas de Makarenko sobre o que deve ser o objeto principal a ser estudado. Para o 'formalista' não é o problema do método o essencial nos estudos literários. da criação teatral. 99 8) Desenvolver a mais ampla propaganda das idéias socialistas. Makarenko voltou para o coletivo da Colônia convicto de que os princípios por ele elaborados eram corretos. São muitas as coincidências dos escritos de Makarenko com os textos de Bons Eikhendaum sobre as teorias do método formal. senão a literatura mesma como objeto de estudo". nas quais exigiam sua volta imediata.). naquela época. Mistério bufo (1918). escolas para adultos. senão dos esforços realizados para a criação de uma ciência autônoma e concreta. Os adolescentes. estúdios de artes plásticas etc. recebeu um telegrama da chefia da Seção de Instrução Pública de 100 Poltava com instruções para retornar a seu posto de trabalho. através de dezenas de cartas. O método que tinha nas minhas mãos não era por causa do meu talento como pedagogo e sim por ser um produto das circunstâncias e das necessidades impostas pela realidade e pela missão que me encomendaram". consistiam na elaboração da montagem em ciclos semelhantes aos utilizados por um engenheiro para a construção de uma ponte: o coletivo. Finalmente. não da constituição de um sistema 'metodológico'. começaram a se transformar em . permite consolidar sua visão do coletivo como fonte principal da educação. As bases do teatro de Meyerhold. Eikhendaum escreveu: "O assim denominado 'método formal' resulta. despojado de todo vedetismo.

pela falta de iniciativas criadoras. que somente o coletivo inserido no trabalho social é capaz de criar. as iniciativas eram as mais variadas: foram criados diversos círculos artísticos e esportivos. simplesmente visando o autoabastecimento. contrapondo essa condição à realidade dos outros estabelecimentos de ensino que funcionavam. sem finalidades produtivas. à beira da falência. no nosso caso. Makarenko explicou que ele reconhecia a necessidade de que os educandos administrassem seu próprio dinheiro: "A pessoa que começa uma vida independente deve ter alguma experiência no controle da sua poupança. na qual estavam integrados tanto os professores quanto os alunos. & A AUTOGESTÃO GORKIANA No verão de 1925. discutia-se o pagamento da produção dos alunos. Na Colônia. inclusive no setor da pecuária. isto me parecia completamente contrário à minha proposta original do coletivo pedagógico e. A implantação do salário provocou uma gigantesca polêmica na classe docente soviética. a Colônia Górki atingiu seu mais alto nível de realizações. Nas escolas de trabalho. Makarenko transformou a Colônia numa fonte de renda autogestionária com investimentos diversificados. data na qual ele solicitou autorização do 101 Comissariado de Instrução Pública da Ucrânia. Nessa época Makarenko começou a analisar as relações entre educação. muito pelo contrário. um grupo de teatro amador com . A pequena comunidade dos gorkianos tinha uma vida cultural multifacetada. Naquela época e também posteriormente as comunidades educativas infantis das áreas rurais sempre tinham uma limitada produção agrícola. tanto no campo pedagógico como no econômico. trabalho. Para superar o estágio primitivo da educação através do trabalho. Em poucos anos. a fabricação de uma mesa ou pelos quilos de batata colhida na horta.educadores dos novatos que chegavam para receber instrução. muitas vezes. por exemplo. A Colônia Górki passou a ser uma instituiçao próspera. Fixa uma nova "perspectiva" revolucionária ao instituir a remuneração econômica aos educandos. isso não era novidade. No início eu não estava de acordo com a idéia de fixar um salário para elevar a produtividade. A relação entre a educação e a produtividade sempre deve estar vinculadas a estes valores. calcular seu orçamento e saber como gastar o que ganha. Por isso. que aprovou esses pagamentos aos educandos. Makarenko resolveu não ficar limitado exclusivamente ao processo produtivo como prática pedagógica. geralmente. quando trabalhávamos sem remuneração. Realmente nova era a interpretação desse fato feita por Makarenko: ele não efetuava pagamentos por serviços prestados nem por trabalhos concretos como. Makarenko oficializou esse método em junho de 1924. o que realmente importava para avaliar o tipo de pagamento e a quantidade era a relação de produção social e os méritos gerais do educando no seio do coletivo. a produtividade não era o problema. "Não posso afirmar que a implantação do salário facilitara o sucesso das tarefas já que. O estudo diário era complementado com o trabalho rural ou pecuário. produção e dinheiro. Não se deve entrar na vida sem saber o que é o dinheiro". cumpríamos todos os planos de produção previamente estabelecidos. sempre tive a certeza de que um trabalho que não tencionasse a criação de valores pedagógicos não poderia ser um elemento positivo na educação.

com grandes esforços. os camponeses da vizinhança. Sobre a personalidade do jovem membro do Komsomol. de Kharkov. já tinha acrescentado na sua biografia muitos elementos interessantes. Para chegar a esse nível de organização e disciplina. concordando com as teorias de Krúpskaia.ele tinha 24 anos de idade -. todos elogiavam as crianças e os jovens sempre vestidos sobriamente. uma grande festa.excelentes intérpretes e até uma banda de música muito boa. Esse fundo ajudava também nas despesas matrimoniais dos que decidiam se casar. tanto no campo como na escola. o coletivo da Colônia Górki preparou. Isto ficava ainda mais evidente quando de Poltava ou. Todas as iniciativas. havia acumulado uma grande experiência da atividade política e era. um homem inteligente. além do mais. O fundo social criado com base nos lucros dos investimentos realizados na agricultura e na pecuária permitiu aos educandos formados na Colônia continuar seus estudos nos institutos técnicos ou científicos. Para comemorar os cinco anos de existência. O comitê central dessa entidade na Ucrânia. a Colônia Górki era um vergel surpreendentemente limpo e muito bem cuidado. demonstrou ser um grande conhecedor da natureza do trabalho e dos princípios políticos. Imediatamente na colônia organizou-se uma célula composta por nove Komsomols". Makarenko. eventos e conquistas do coletivo da Colônia Górki foram documentados por uma equipe de jornalistas amadores que. com muita freqüência realizavam excursões para conhecer outras terras e outros costumes ucranianos. enviou para trabalhar com os gorkianos um delegado da juventude. bondoso e tranqüilo. vinham às vezes pequenos criminosos para receber instrução. Foi assim que Tijon Nestoróvitch Kóval foi nomeado instrutor político da colônia. também. em 1923. editavam um pequeno jornal-mural. Makarenko escreveu: "Tijon Nestoróvitch era um 103 homem do campo. amáveis. especialmente aqueles relacionados com a luta no campo. para a qual foram convidados não somente os vizinhos como as autoridades docentes da . disciplinados e contagiados do permanente otimismo que Makarenko transmitia a todos os seus pupilos. Na colônia organizavam-se festas nas datas principais do ano. ele lhes falou como um camarada e. após analisar profundamente o interesse de incorporar nos seus quadros rapazes ex-delinqüentes. além das autoridades regionais. no outono de 1925. O estudo e o trabalho se completavam sem contradições e numa rara harmonia. Apesar da sua juventude . o que atraía as pessoas de todas as regiões vizinhas. aqueles vagabundos sujos e famintos. cheio de flores e árvores frutíferas. dispostos ao trabalho. com quem os educandos fizeram amizade após duros anos de rejeição mútua. para colaborar na formação política dos educandos. Nada lembrava neles os bezprizornies. 102 Visualmente. sem esperanças na vida. Desde seu primeiro contato com os educandos. que tinham sido antes de ali chegar. solicitou a participação da organização leninista da juventude. decidiu fazer a experiência e. para as quais convidavam-se. o Komsomol. Os educandos iam ao teatro tanto na cidade de Poltava como na de Kharkov.

protegendo-a durante o inverno. por sua vez. 106 Figura 1 – Atividade de jardinagem. também muito valorizada por Makarenko na Colônia Górki. Figura 3 – Um destacamento a caminho do trabalho no campo.capital. O sucesso da Colônia Górki passou a ser também seu maior inimigo. outorgou a Makarenko o título de "Herói Vermelho do Trabalho". Figura 2 – Educandos em Trepke. As autoridades de ensino de Poltava. além de reconhecer com prêmios e presentes o trabalho de oito dos funcionários mais antigos . Figura 2 – Festa do primeiro qüinqüênio da Colônia Górki.Os exercícios físicos na Colônia Górki liberavam a imaginação. Sermion Kalabalin (Karabánov. A vida da colônia tinha atingido o zênite do seu processo criador. 107 Figura Figura Figura Figura Figura 108 & A TOMADA DE KURIÁJ Em 1926 Makarenko percebeu que o coletivo iniciava uma etapa de estagnação gerada pela própria contradição dialética do método que ele inventara.todos eles membros fundadores do reformatório -. Anton Semiónovitch sentiu que tinha esgotado as 1 2 3 4 5 – – – – – Grupo de gorkianos prestes a ingressar nos cursos superiores. no Poema Pedagógico). 1925. Grigori Souproun (Burún. ainda em Poltava. resolveram premiar Makarenko com uma viagem a Moscou e Leningrado. 104 Documentário fotográfico da Colônia Górki em Poltava Figura 1 – Destacamento de educandos preparando um depósito para guardar a produção agrícola. 105 Figura 1 . segundo local ocupado pela Colônia Górki. Figura 2 – Gorkiano fazendo guarda à bandeira durante uma excursão ao campo. pois desde o momento em que as autoridades docentes observaram que a reeducação dos pequenos criminosos estava garantida nas mãos de Makarenko decidiram enviar-lhe contingentes cada vez maiores de inadaptados sociais. Para Makarenko. no Poema pedagógico) Alexandre Tcheveli Nikolai Cherchnev. uma das mais altas distinções concedidas pelo poder soviético. . a expressão corporal e o jogo teatral eram atividade importantíssimas para os educandos. Os representantes do Comissariado do Povo para a Instrução Pública. Kharkov. Makarenko começou a se transformar numa celebridade nacional.

por causa da famosa novela de Gógol. a sua teoria da função do coletivo. fato que poderia se transformar num fenômeno temível. um processo de evolução linear contínuo. Os senhores têit as condições materiais para que isso aconteça. Makarenko tomou conhecimento da existência de uma colônia infantil localizada em Kuriáj. O lugar era um . "Aqui já fizemos tudo o que tínhamos a fazer. pela lógica makarenkiana a riqueza que resultaria da posse de tão vasta área poderia atuar negativamente no plano pedagógico. A sua visão de estrategista pedagógico lhe fez perceber que somente poderia multiplicar a acumulação com a finalidade de ampliar o consumo. a forma de existência de um coletivo humano livre é o seu progresso. a seis quilômetros de Kharkov. na confluência dos rios Dnieper e Kara-Tchekrak. Somente uma experiência total. dentro de seis meses estaremos com os nervos destroçados. uma comissão de supervisores docentes de Kharkov é enviada à Colônia Górki. Makarenko compreendeu então que o bem-estar material criado pelos educandos do reformatório era apenas uma das condições de desenvolvimento do indivíduo. Queremos ficar com a cabeça cheia de trabalho e estamos perdendo tempo." O problema da estagnação e suas preocupações sobre o futuro da colônia foram apresentados por Makarenko numa assembléia geral do coletivo dos educandos e dos educadores. um processo dialético total. privações materiais e outras conseqüências sociais. Ele queria evitar a institucionalização da burocracia pedagógica."perspectivas" já existentes. posta à prova tanto em seu próprio curso como em seus resultados. Pouco tempo depois. afirmou perante os seus superiores que o estabelecimento educativo tinha se tornado pequeno demais para eles e para poder desenvolver o programa elaborado. A práxis educacional. segundo Makarenko. Deter esse movimento é uma forma de caminhar para a morte. após conhecerem de perto as realizações de Makarenko. Os visitantes. Não fiquem somente com os princípios teóricos. Após deliberar sobre a necessidade de fixar novas metas e novas perspectivas. mais conhecida como "terras de Taras Bulba". "A base para o estatuto soviético da educação deve ser a indução de uma experiência total. rejeitam alguns dos seus métodos pedagógicos. e que era administrada pelo Comitê de Ajuda à Infância. Makarenko recebeu instruções para visitar uma fazenda improdutiva de 1500 hectares na fértil região denominada Sech Zaporózhkaia. A imensidão do lugar foi uma das razões pelas quais o coletivo gorkiano não concretizou essa transferência. "Um coletivo operário livre não deve parar no seu desenvolvimento. considerados por eles "de tendência pequeno-burguesa". de maneira que disto surja. Anton Semiónovitch aproveitou essa ocasião e. especialmente de manter a 109 metodologia estabelecida pelo coletivo. os membros da colônia concordaram em enviar uma carta ao Comissariado do Povo para a Educação manifestando a importância de uma mudança de local e. mas nenhum deles convinha ao coletivo. sem temer novas dificuldades. A resposta não demorou muito. somente a comparação de complexos de experiências totais podem fornecer indicações para uma seleção e decisão. O Comissariado do Povo para a Instrução Pública da Ucrânia continuou oferecendo outros lugares aos educandos e docentes de Makarenko com a finalidade de transladar a Colônia Górki. anulando. Numa ocasião. determina. seguindo os princípios marxistas. na prática. no coletivo e para ele. se continuamos neste lugar.

Eles perguntavam . Nele estavam concentrados 400 rapazes criminosos e 40 educadores nas mais dramáticas condições de convivência. após alguns meses de . Os antigos educadores de Kuriáj questionavam alguns aspectos de natureza organizativa. No dia 15 de maio a Colônia Górki deixou definitivamente Poltava e entrou em cheio em Kuriáj: eram 120 gorkianos coesos em torno de um ideal. dimensão que os gorkianos consideraram 110 ideal para continuar o trabalho educativo de Anton Semiónovitch. "irresponsabilidade pedagógica". Mas os fatos eram evidentes e não podiam ser contestados. Levou para essa primeira etapa de conquista dos pequenos vândalos quatro educadores e onze educandos da Colônia Górki. "aventureirismo" e muitas outras sempre se defrontavam com uma realidade muito diferente e claramente explicada por Makarenko. quase em minas. O problema eram os inadaptados que ali moravam e os naturais conflitos que tinham que ser superados. por que eram formados "conselhos de chefes de destacamentos" e não "comitês de alunos" e assim por diante. Anton Semiónovitch tinha que perder tempo em longas explicações burocráticas respondendo a esse tipo de questões. todos eles num estado de total abandono e desleixo. Mas. Instaurou o regime de mutirão e. organizados monoliticamente tanto pelo ensino makarenkiano como pela disciplina política do Komsomol e com uma vontade de ferro voltada para a construção do socialismo soviético. as transformações da nova colônia podiam ser conferidas diariamente e seu progresso não podia ser contido. no dia 9 de maio de 1926. Esse pequeno destacamento gorkiano efetuou logo nos primeiros dias tarefas de ação psicológica na turba kuriajiana. instalou-se na direção da colônia. Isto causou um impacto imediato entre os internos de Kuriáj e. desenvolveu as bases indispensáveis para o trabalho preparatório de 111 readaptação dos "hóspedes" de Kuriáj. rodeado por um edifício de três andares e vários pavilhões de madeira. os gorkianos reestruturaram a vida dos kuriajianos.antigo mosteiro. Figura . O assunto foi debatido na Colônia Górki e. por exemplo. após os naturais conflitos gerados pelo choque da grande mudança. Anton Semiónovitch planejou minuciosamente a "tomada de Kuriáj" e. por que existiam “destacamentos” e não "turmas de aula". Muitos funcionários dos diversos Comitês de Instrução Pública não compreendiam a projeção da proposta pedagógica descoberta na Colônia Górki e cometiam injustiças fazendo informes negligentes. As comissões de educadores enviados para conferir se procediam as denúncias de "castigos". o coletivo de educadores e educandos decidiu "tomar de assalto Kuriáj". Nos círculos docentes da capital começaram os boatos sobre o "método" Makarenko. numa semana. finalmente.Vista da Colônia Gôrkiem Kuriáj. Os integrantes das comissões não compreendiam como rapazes delinqüentes até pouco tempo atrás podiam ocupar postos de chefia e serem transformados em educadores dos internos de Kuriáj. A propriedade possuía pouco mais de 120 hectares de terra cultivável.

Figura 3 – Kozyr e Voltchenko. Anton Semiónovitch 112 estabeleceu parâmetros analíticos entre os resultados obtidos na Colônia Górki (acrescentados dos dados da experiência em Kuriáj) e as informações sobre a qualidade de ensino nas outras instituições oficiais de educação infantil. De posse dessa metodologia. colonos em 1926. Figura 2 – Gorkianos de Kuriáj. 1926. e foi criada a Direção Geral das Colônias Infantis. A nova instituição nomeou Makarenko para a direção pedagógica e Nikolai Eduardovitch Feré para a direção da produção.Galina Stakhievna. Figura 2 – Educando trabalhando no campo. 117 & O DEPOIMENTO DE GALINA STAKHIEVNA Figura . em 1927. Documentário fotográfico da Colônia Górki em Kuriáj Figura . redeterminando sua auto-compreensão. . quando esta já funcionava em Kuriáj. sob a responsabilidade da pedagoga Galina Stakhievna Salkó. Makarenko começou a sistematizar o conhecimento acumulado. aqui é vista numa foto de 1953. Figura 2 – Preparação física dos colonos no pátio da igreja existente em Kuriáj. Esta idéia sociopedagógica teve uma resposta favorável no Comissariado do Povo para a Instrução Pública da Ucrânia. 115 Figura 1 – O toque de corneta anunciava os acontecimentos no dia-a-dia da colônia. Galina Stakhievna relata a sua primeira visita à Colônia Górki.trabalho gorkiano em Kuriáj.Educandos na época da “tomada de Kuriáj". no jardim da colônia. Em 1927 elaborou um projeto de unificação das 18 colônias de trabalho existentes na região de Kharkov para funcionar como um complexo pedagógico único. Este emotivo documento demonstra perfeitamente o clima e as impressões que sentiam os visitantes quando chegavam ao estabelecimento correcional. que em 1927 se tornou esposa de Makarenko. 116 Figuras – Gorkianos de Kuriáj em formação e marcha. 113 Figura 1 – Construção da pocilga. 1928. 114 Figura 1 – O primeiro trator da colônia. Figura 3 – Grupo de educandos e funcionários da colônia.

No centro do pátio. Por último. Diante das casas se dividiam os canteiros de flores. multiplicadas e divididas pelo número de pedagogos. A desorganização é também uma forma especial de educação. pareciam brinquedos. em algumas casas infantis. depois de um sucesso mais ou menos duradouro. concreto e diário. inclusive as boas. Nosso automóvel parou neste improvisado estacionamento e atravessamos o pátio com cuidado. "Sentia curiosidade por ver os organizadores. grandes e pequenas. Eu mesma já havia visto umas duas centenas de casas infantis e havia dirigido durante vários anos uma casa com 150 crianças. ou seja. Devo confessar que fui à Colônia Górki invadida por um sentimento de frialdade e ceticismo. abrindo novas e grandes perspectivas. a mecânica deste trabalho. "Naquele tempo era difícil explicar por quê. educandos. estavam vinculadas 119 a um árduo e indissolúvel complexo que tornava difícil determinar onde estava o principal e o secundário.o máximo e o mínimo . guardiães e chefes desta vida tão ordenada. problemas como o regime de ordem interna."Chegamos num dia cinzento de chuva fininha e um pouco de neve. Não encontrei resposta aos problemas que me preocupavam em nenhuma das instituições infantis que . em perfeita harmonia. entre elas. a responsabilidade pelas tarefas encomendadas e pela comprovação oportuna de seu cumprimento não eram levados em conta. “Hoje já está completamente claro que os êxitos e as possibilidades pedagógicas são determinados pela qualidade. empregados técnicos. Continuavam sem solução problemas aparentemente secundários. "Desconheço por que não nos ocorria a idéia tão simples de que a boa e a má organização também educam. ficavam brancas casinhas de acolhedoras marquesinhas. complicadas umas 200 ou 500 vezes mais. "Todas estas exigências imperiosas da vida. suas dificuldades incríveis e o padrão relativamente modesto .alcançado naquela época na maioria das instituições. imaginando amargamente que me esperavam várias horas de aborrecimento oficial. seus empregados. Conhecia. trabalha intensamente neste terreno. portanto. O pátio e a igreja eram tão grandes que três ônibus de turismo. O resultado disso era que o período de organização se prolongava demasiado. Em geral eram questões de organização: conservação de todas as listas e os tipos de bens adquiridos e seu cuidado. encontravam uma espécie de 'Rubicão' pouco menos que intransponível. tão freqüentes quando se visita por pouco tempo um estabelecimento infantil. isto é. O pátio era circundado por grandes árvores e. erguia-se a mole da igreja 118 principal do mosteiro. os inspetores de ensino. manutenção da ordem e da limpeza nos edifícios e tudo aquilo que se refere ao interior da instituição infantil. Nos últimos anos o pensamento pedagógico. prático e científico. enfileirados. graças aos nossos esforços pedagógicos. Entramos no interior da propriedade da colônia e logo percebi algo especial nesse lugar. restando pouco tempo para o próprio trabalho da educação. pelo conteúdo ideológico de todo o sistema de educação. uma forma anárquica. pelo nível alcançado na elaboração da metodologia e da técnica.

Nessa ocasião. disse que havia reservado lugar na mesa para nosso motorista e que não nos preocupássemos com mais nada. deu-nos as boasvindas e. Ainda que este já tivesse começado. encontrei-me casualmente entre amigos. O diretor da colônia era um homem ainda jovem. enquanto nos conduzia ao refeitório. muitas flores e grande quantidade de dourados bolos ucranianos e outros manjares. muito atenciosa e amável. "Nos aproximamos do edifício principal. "Enquanto tirávamos os casacos. Nossos anfitriões do décimo segundo destacamento eram meninos e meninas de diferentes idades. contando suas famílias. interessou-se pelo estado da estrada pela qual viéramos. retraído e um tanto frio. fizeram-nos sentar e nos agasalharam com a cordialidade e a atenção que constituíam um dos elementos do estilo da colônia. Todos nos saudaram. Abriu a porta e entramos em uma sala enorme. por experiência própria. "Pelo visto. Neste dia só eram convidados os amigos da colônia e. todas cobertas com toalhas brancas. nos disseram que este jovem Komsomol era o responsável pelo serviço de guarda da colônia e se chamava Krupov. a porta de entrada cedeu facilmente ao nosso contato e fechou muito suavemente a nossas costas. pois adiantou-se a receber-nos. apresento-lhes nossos hóspedes'. Isto também foi uma surpresa agradável. refinado no trato. sólido e orgânico. disse: 'Camaradas colonos. Mas a ordem que reinava no interior da Colônia Górki era muito significativa. . com ostentação ou fachada.tive então oportunidade de conhecer. Ele dirigia todas as atividades do dia e respondia pela manutenção da ordem. Isto não é possível se não existe um trabalho autêntico. esboçando um sorriso. com duas fileiras de janelas. No vestíbulo 120 não havia nenhum adulto. ela não estava acionada por aquelas molas que fecham violentamente. "Com esta cerimônia gastronômica anual. Fomos recebidos num pequeno e modesto vestíbulo por um jovem portando uma fita vermelha no braço que. todos os educandos e funcionários da colônia comemoravam solenemente o 28 de março. viviam na colônia 500 educandos e não menos de 30 funcionários. aniversário do seu amado padrinho Alexei Maximovitch Górki. meu estado de ânimo naquela época garantia uma atitude mais do que objetiva em relação ao que deveria encontrar. ainda que seja por algumas horas. inclusive. ocupada completamente por grandes mesas. bem-educado e. Eu sabia perfeitamente. Anton Makarenko havia sido avisado da nossa visita. estes jovens eram os amos e senhores do lugar. o décimo segundo destacamento nos esperava à mesa na qual iríamos ficar. O jovem aproximou-se novamente de nós e apresentou uma menina de uns 14 anos como membro da comissão de recepção de convidados. Quando nos aproximamos da mesa do décimo segundo destacamento. Por isso me parecia não ter muita importância visitar uma casa a mais ou a menos. O diretor da colônia comia nesta mesma mesa. que num estabelecimento infantil não se pode preparar nada de antemão. naquele dia. "De qualquer forma. cumprimentou-nos e disse que os gorkianos sentiam grande satisfação com a nossa visita. "A jovenzinha. Nossos pratos estavam em seu lugar. e nos advertiu de que estávamos um pouco atrasados para o almoço. garrafas de vinho e limonada.

“A conversação era geral. Eles fizeram tudo com animação e grande desenvoltura. que respondiam amavelmente nossas palavras de cortesia e continuavam seu trabalho. destacava-se a brancura de uma pilha de tábuas. vimos em um longo corredor muitas estufas com chamas crepitantes. 121 "Depois do almoço. à entrada de alguns edifícios e os responsáveis por cada um deles abriam e fechavam os ferrolhos das portas e armários com agradáveis sons. meninos e meninas. dela participavam os meninos maiores e. Deixei de assombrar-me: sentia-me sinceramente como Alice. o estábulo e as cavalariças. "Ficou especialmente gravado na minha memória o secador de madeiras. estavam sentados dois robustos 122 adolescentes. "Com um tom oficial amistoso muito particular. de construção recente. Éramos muitos. Makarenko dirigir-se a eles com palavras que podiam ser tomadas como semipergunta e semidisposição: 'Estão se aborrecendo hoje?'. Um relógio na parede espalhava pela sala seu sonoro tique-taque. peça bem mobiliada. sobre um mesa. e organizamos um grupo compacto. com um cachorro de pêlo claro deitado a seus pés. a organização leninista das crianças. Passamos pelo invernadouro. Eram pessoas unidas por interesses comuns e que juntas levavam adiante uma grande empresa comum. Um sistema invisível de calefação esquentava o lugar. responsabilidade de todos. Era um desses fins de tarde primaveris. Entramos num amplo ambiente sem janelas. . cheio dos mais diversos modelos e jogos feitos pelas próprias crianças. possuidor de um segredo extraordinário. onde se reunia essa ativa junta diretora juvenil. pelo secador de madeiras. com mais de cinco mil volumes. Na semi-obscuridade. silenciosas. ainda que eles mantivessem em relação ao diretor uma atitude de estima respeitosa. pela primeira vez. Apareciam. Não vimos nelas fisionomias tristes ou descontentes. ficando os educandos com toda a responsabilidade pelo complicado cerimonial desta grande recepção. Visitamos o edifício da escola e os aposentos dos educandos. a chuva tinha cessado e tudo tinha uma tonalidade esverdeada. O único adulto que encontramos em toda a colônia foi o agrônomo Feré. no país das maravilhas. um pouco agressivo no princípio. Também passamos pela biblioteca. Sobre uma das pilhas. Makarenko propôs aos hóspedes que percorrêssemos a colônia. "Depois entramos no 'recanto vermelho'. trabalhavam com rapidez e habilidade invejáveis. alegres e laboriosas ou por jovens adolescentes. mas logo acalmado com a chegada de seu amo. Os meninos saltaram ligeiro das tábuas e nos saudaram. estava o último número de compêndio das tarefas. Conhecemos também a Sede do Komsomol. Localizava-se bastante afastado das casas e tivemos que andar bastante por um caminho estreito até chegar a ele. "Todos os lugares eram dirigidos por crianças de grande presença. sede dos pioneiros. parecendo-me que o diretor da colônia deveria ser um bruxo. destinado aos dormitórios. Num edifício grande. Fiquei emocionada. escutei. não se notava em seu comportamento ou em suas palavras nenhuma afetação. continuamos pelo ateliê de artes plásticas e. "O animado ágape durou bastante tempo. e percorremos as salas de estudo.

A colônia já estava em contato com essas organizações. Basta à nossa juventude experimentar algumas vezes esta sensação para que depois não haja maneira de contê-la. São poucos os que fazem assim? E quando se pergunta quem tem a culpa. quando tiver mais independência e audácia: se lhe dá na cabeça. 1842) figura esta magnífica passagem . Por que aborrecidos? Ê muito próprio do homem a abnegação. mas muito conciso: 'Perfeitamente'.e citou de memória: 'Dispondo-se a empreender o caminho da vida. Voltou à minha mente a imagem das meninas que. até a vida. Há que inculcar-lhes esta alegria. Teremos tempo de assistir à segunda sessão e ao baile'. lembrei-me também de Vitia e Mina que ficaram no isolado e escuro secador de madeiras e de outros meninos que em seus postos ajudavam na empresa comum com tanta energia e satisfação. Saltava aos olhos a tradição da colônia a respeito dos quadros que dela saíam. Quando chegasse a sua hora. "Voltamos já sob a noite fechada. prometer tudo. chamando os chefes de destacamentos a informar sobre as novidades. há que ter mais respeito pelas pessoas. então: 'Em Almas mortas (Gógol. Sua atitude não denotava que considerasse todo aquele bem-estar como uma realidade especial. Makarenko sorriu: 'Camaradas. vemos que foram mal educados'. Nessa noção da própria força há muito mais alegria. Makarenko disse. E. mantinham a temperatura constante do invernadouro. abandona a guarda. meninas e meninos bem vestidos mostravam essa animação própria dos dias de festa. leva contigo todas as . Makarenko não dava nenhuma explicação. "Escutei com simpatia a réplica de um dos convidados: 'Mas tenha em conta que os garotos estavam muito aborrecidos ali. ao contrário. Disse-nos que durante a noite o serviço de aquecimento obedecia ao sistema de turnos de duas horas. Um tanto surpreso. Esta ordem clara e exata era para ele uma situação costumeira. não demonstrava nem persuadia. ela é a base de tudo'. outra iria trabalhar nas fábricas. do que no simples divertimento padronizado. partindo dos fáceis anos juvenis para entrar no duro caminho do homem feito e direito. "Começou uma discussão sobre este tema. 123 "Falamos com Makarenko sobre as regras que seguia para distribuir as obrigações. como faziam outros diretores. que lhes fornecia ajuda material e moral. ressoaram alegremente no ambiente primaveril os floreados toques de cometas. nessa idade se pode. "A sala espaçosa estava irreconhecível: as mesas haviam sido levadas ao refeitório permanente e foram substituídas pelo modesto mobiliário do clube. sem um bom treinamento desde criança nenhuma pessoa saberá como se comportar ao crescer. Não falava da próxima promoção nem da colocação dos alunos. Isto você não pode negar'. sozinhas. perguntou: 'E por acaso pode ser de outra forma? Não é coisa fácil saber-se dominar. E saímos. cada criança deveria abandonar a sala de recreação e substituir seus camaradas. Durante dezenas de anos os pedagogos ensinaram a ler e escrever. Estes jovens sem família tinham garantida uma ligação eficiente com sua amada coletividade. embora não tivéssemos nada a objetar. a banda de música tocava a plenos pulmões. sem pensar. Havia muita luz. Uma parte iria estudar em institutos tecnológicos ou científicos.Um dos meninos respondeu: 'A secagem dura até as dez. Makarenko disse carinhoso e alentador. confiando que a educação se adquiria por si mesma. "Quando nos aproximamos do edifício principal.

Uma boa orquestra significa cultura. mas vamos sempre aumentando'. lês pouco. meu filho. mais queres saber?'. "Lembrei. e do espetáculo artístico. de toda forma. Ainda que a colônia tivesse sua própria central elétrica. começou o baile. "Aliosha não emudeceu. Makarenko acompanhou o grupo de mulheres convidadas até o local destinado ao pernoite. 'Eu não posso trabalhar sem músicos. não concebo uma coletividade sem banda de música! Você já viu que não vivemos com facilidade. seu rosto se encheu de alegria pela atenção de que foi objeto. já sabe tudo?' Makarenko riu com alegres e francas gargalhadas. isto já entra em cheio na nossa preocupação como pedagogos'. então.formas humanas de atuar. nos privamos do que for necessário para mante-la. No entanto. mas. Desapareceram certas barreiras como a força de vontade. Atrás das janelas se ouviram os claros toques da corneta chamando à reunião geral. Anton Semiónovitch. Makarenko juntou-se a nós e me perguntou: 'Gosta de música? Temos uma boa orquestra. não? São 50 instrumentos. depois será difícil recuperá-las. 'E você estuda?' . "Dirigiu-se. as ciências que nos reduzem as experiências desta vida tão fugaz'. e a avidez humana de que quanto mais sabes. Tu. um autêntico baile animado pela banda de música. então. você precisa estudar. 'Certo. A banda de música era seu orgulho. Aliosha? Já estás vendo que coisa útil é a literatura. Makarenko olhou-o atenta e seriamente nos olhos: 'Se subentende que estudo pelo que pensas'. para evitar que. 'E isto também' – corroborou Makarenko -. tontinho. as palavras de Púshkin: 'Aprende. arraste uma carga excessiva. Vejo que continuas pensando que os romances são uma invenção. Normalmente. A escuridão era tão intensa que não podia se pensar em voltar à cidade. pode-se aprender muito com eles'. de forma que nada possam perder em sua marcha. muito rápida por certo. nos divertíamos sentados. aparecendo seu grande e profundo carinho pelas pessoas. Pelo contrário. observando os jovens. Pensei que em momentos como esse também os educandos sentiam por ele uma particular afinidade. segundo pude deduzir pelos registros da biblioteca. por inexperiência. o dever. O perigo de sobrecarregá-los é insignificante. 'mas com a ressalva de que aqui há que incluir nossa correção soviética: é preciso dar ao jovem uma seleção exata dos movimentos humanos necessários. que nos custou muito trabalho reunir uma banda. ao contrário. se. a um aluno que durante todo o tempo não perdia uma palavra da nossa conversa. orgulho da coletividade e uma boa expressão material de unidade'. como sempre acontece nessas ocasiões. 125 agora. a maioria fica com o que é 124 mais fácil. A resposta de Aliosha teve um tom de perplexidade tão ingênuo que provocou a hilaridade geral: 'Para quê. sua potência era muito pequena e não chegava para iluminar todo o pátio. Terminou respondendo a Aliosha: 'Ah. ao contrário. Transformou-se num homem simples e acessível. Estes são poucos. Os adultos . "Aos acordes da última melodia. ''Depois da reunião solene. . obrigá-los a tomar para o caminho aquilo que lhes é necessário. nisso consiste a vida'.perguntou. não as perca pelo caminho.convidados e pedagogos -. Makarenko mantinha barreiras intransponíveis entre ele e os alunos. saímos para a escuridão da noite.

Assim estarei mais tranqüilo'.. Ë infinitamente mais agradável e útil cuidar da plantação do que andar subindo nas árvores alheias para roubar maçãs. Pedagogicamente. A resposta foi imediata: 'Anton Semiónovitch. Limitado por discussões burocráticas. mas os cachorros o reconheceram. O homem ama o risco. transformou-se num livro intitulado O livro dos pais. Misha e sua guarda se sentem heróis de verdade e pedem ao destino que lhes enviem uma aventura. verificando os postos. apaixonou-se por ele. O breve clarão de uma lanterna de bolso abriu um círculo iluminado na escuridão e apareceu o rosto magro de um jovem de pequena estatura com um fuzil pendurado no ombro. Com essa escuridão. reforcei a guarda nos pontos necessários e estou. Makarenko queixou-se benevolente: 'Trouxeram tantos cachorros que não há como ver-se livre deles.’ "Um do nosso grupo perguntou: 'E você o cumprimenta por estas fantasias. Anton Semiónovitch. O diretor nos apresentou: 'Misha Tcharski. ''Makarenko lhe perguntou sobre o tempo que já estava de vigia. após ter tido a experiência de trabalhar com Anton Semiónovitch na Direção das Colônias Infantis. E o que dizer das façanhas que lhes atribuem."Quando chegamos à altura da igreja. Por isso. exercitar-se na vida. que ele mesmo ajudara a criar. alguma vez os lençóis já me pegaram? Você sabe que nunca aconteceu isso comigo'. Mas se ouvissem falar deles. tirar lições. eles já afungentaram daqui um estranho. & OS CONFLITOS COM O COMISSARIADO O êxito. não é? Já sabes que deves ir à cidade'. O diretor continuou: 'Não vais ficar dormindo de manhã. E se ainda fossem cães autênticos. os pedagogos aproveitam mal um material tão magnífico. Já falta pouco para amanhecer'. “Meus adversários sempre tiveram . desta união saiu uma obra conjunta que. Makarenko rompeu numa 126 risada: ‘Mas. No entanto. acreditariam que se trata de verdadeiros dogues. transplantando árvores já crescidas.. em proveito da causa comum. Tudo é produto da fantasia. que não aceitavam a metodologia makarenkiana. você poderá dormir tranqüilo. ele se deteve ao ouvir um grito: 'Quem vem lá?'. o que você acha? Ele merece ser cumprimentado. ao contrário. E se não existem perigos. era freqüentemente obrigado a ir a Kharkov para esclarecer denúncias contra suas iniciativas. por outro gerava problemas com a classe docente.. não somente elogiou e defendeu Makarenko no Comissariado do Povo para a Instrução Pública. Hoje não apareceu nenhum tipo suspeito pelas imediações. eu mesmo. Galina Stakhievna Salkó. Na colônia. posteriormente. Constantemente ele tinha atritos com seus colegas da capital. Makarenko decidiu renunciar ao posto da Direção das Colônias Infantis. Misha respondeu: 'Umas duas horas. só se ouve falar agora do pomar. como também. chefe da guarda'. Desejamos-lhe uma guarda tranqüila e continuamos.. mas não passam de cuscos vagabundos de aldeia. Makarenko casou com Galina em 1927. ao mesmo tempo que abria a Makarenko algumas portas. Hoje. isto é uma atitude nobre. há que brincar com o perigo. Fizemos aqui um pomar. Misha disse: 'Não sabia quem se aproximava. Faz falta viver. "No caminho. Mas há que ensinar-lhe a arriscar-se ajuizadamente. não se sabe quem é quem.?'. acompanhado de dois cãezinhos bricalhões. Acaso está cumprindo mal seu dever? Graças à preocupação dele.

agora. "Nossa vida seguiu seu curso. pressupõe a organização pela práxis dos elementos que compõem o processo educacional coletivo. quando os convidávamos . O trabalho cultural era dinâmico e o ciclo primário da escola tinha a duração de seis anos. A Colônia Górki. Aumentou a animação em nosso 'trem' e ele. Os jornais e as revistas quinzenais publicavam artigos simples e cordiais sobre nossa comunidade. Elas (as ciências) devem ter. mas os inquéritos eram constantes e não me deixavam um minuto livre para continuar nas 127 minhas pesquisas. Acredito que não temos o direito de chegar a conclusões pedagógicas partindo destas ciências. na pedagogia." O segundo princípio relativo à redeterminação da pedagogia. multifacetada. Aos domingos. grupos de operários. Eu queria sistematizar o aprendizado e não tinha forças para lutar contra a burocracia. Com ambição de metas. nós não temos o direito de começar um processo pedagógico sem procurar um determinado objetivo político. a dialética dos meios educativos. A vida da Colônia Górki em Kuriáj continuou com suas conquistas. apertavam as mãos de seus novos amigos e. Makarenko introduz.a habilidade de predispor funcionários influentes e algumas autoridades docentes contra o experimento pedagógico das colônias unificadas. "Um trabalho educativo que não persegue uma meta detalhada. a sociologia ou a biologia. encontrava grande resistência entre os educadores nacionalistas ucranianos cuja pedagogia era hostil ao sistema soviético. Também é verdade que nós tínhamos muitos amigos que acreditavam no nosso trabalho. Para gerar esta dialética do processo pedagógico. o padre ortodoxo da comunidade. corria velozmente para adiante cobrindo de fumaça cheirosa e alegre os amplos campos da jubilosa vida. A obra de Makarenko era plural. A biblioteca era um centro nevrálgico de conhecimentos e comunicação. especialmente esta última. pedagogos. possuidora de qualidades únicas na história da pedagogia. em Kuriáj. era uma comunidade de crianças felizes. os objetivos políticos da sociedade. tínhamos convidados: eram estudantes de diversos institutos. jornalistas. Os homens soviéticos contemplavam a nossa vida e se alegravam." 128 Esta linha de pensamento determinou uma forma concreta na organização do coletivo. Makarenko obteve um projetor de filmes com o qual organizou um clube de cinema imediatamente anatematizado pelo pope. vinham acompanhados de fotografias da granja e da oficina de carpintaria. Os visitantes abandonavam a colônia algo emocionados com nosso brilho modesto. a partir das pesquisas efetuadas por Pavlov na área dos reflexos condicionados e da atividade nervosa superior do homem. na verdade. clara e conhecida sob todos os seus aspectos é um trabalho educativo apolítico. é que Makarenko. Depois da banda de música. "Estou convicto de que a metodologia do trabalho educativo não pode ser deduzida simplesmente das noções que nos fornecem as ciências afins tais como a psicologia. evidentemente. Numa palavra: era revolucionária." O que acontecia. Makarenko estabeleceu dois princípios básicos: ambição de metas e dialética dos meios educativos. seu lugar e sua significação no processo educativo mas nunca para extrair definições e sim como princípios de controle na medição das nossas conquistas práticas. baseando-se nas idéias marxistas sobre a educação.

responsável pelo combate à contra-revolução. largas escadarias. quando lá chegou. Para render uma homenagem póstuma a Dzerjinski por esta gigantesca tarefa. Na beira de uma recente plantação de carvalhos.Edifício principal da Comuna Dzeriinski. de comum acordo com Lênin. erguia-se uma formosa casa de cor cinza. 129 Figura . com verdadeiro bom gosto. os educandos da Colônia Górki (Kuriáj) receberam informações de que a Comissão para Melhoria das Condições de Vida das Crianças estava construindo uma nova colônia infantil nos arredores da capital ucraniana. No verão de 1927. Deixei isso . simplesmente. Tcheká. Makarenko partiu imediatamente para observar as instalações da futura escola e. um oficial do Tcheká visitou a Colônia Górki.Félix DZERJINSKI (1877-1926). pisos encerados e tetos pintados?! Para as crianças desvalidas?. das epidemias e das doenças sofridas pela população nos anos 20. era um setor especial da polícia secreta do governo soviético. criada em 1919.. "Os construtores da comuna encomendaram à Colônia Górki e a mim a preparação da nova instituição para sua inauguração." Poucos dias depois da Páscoa de 1927. o estadista soviético Félix Edmúndovitch Dzerjinski. de face para Kharkov. O criador dessa comissão foi o presidente do Tcheká. produto da guerra civil. "Para as oficinas tinham sido destinadas duas áreas. Dzerjinski. com a missão de contatar Makarenko e solicitar dele assessoria técnica. as quais foram salvas da fome. retratos.” O sonho de Makarenko de erguer palácios pedagógicos começava a ser uma realidade. cortinas. o Tcheká decidiu levantar um verdadeiro monumento pedagógico vivo em sua memória: a Comuna Dzerjinski. como era mais conhecido. contrariando o estilo imposto pelo Comissariado do Povo para a Instrução Pública. imitando a nossa conhecida saudação. na área pedagógica. salas luxuosas. ficou muito surpreso diante do que estava vendo. Kharkov. cujo nome oficial era Comissariado Extraordinário para Assuntos de Segurança do Estado. respondiam 'Às suas ordens!'. para o novo estabelecimento educativo. na comuna. Como?! Um enorme palácio cheio de sol. tomou a iniciativa de colaborar na assistência aos meninos abandonados que vagabundeavam por toda a Rússia e outras repúblicas soviéticas. em Kuriáj. Ele escreveu no Poema pedagógico estas palavras: "Eu fiquei estupefato.. Na oficina de mercearia a comuna dispunha de boas máquinas. 130 Figura . Tudo tinha sido planejado. A casa tinha dormitórios altos e claros. uma oficina de sapataria. mas nesta seção percebia-se uma certa insegurança de parte dos organizadores. Tinha sob sua responsabilidade o cuidado de milhões de crianças sem família. o famoso Vetcheká ou. Essa comissão. com grande surpresa. no canto de uma delas vi.para voltar futuramente. "O prédio da Comuna Dzerjinski já estava terminado.

"E com a mesma alegre confiança de sempre fizemos a nossa festa.como um vergel florido . Somente uma coisa não podiam dar à nova comuna: uma teoria pedagógica. se dedicou de cheio a essa nova tarefa. todo o seu tempo livre e toda a energia de suas almas e de suas inteligências. Makarenko era questionado nos "sábios círculos pedagógicos" do Comissariado do Povo para a Instrução que funcionavam na Ucrânia. também. a amizade epistolar que os alunos da colônia e Makarenko mantinham com Máximo Górki. onde foi recebido pelas crianças. finalmente. Mas. vagabundos. com um intercâmbio de cartas. Finalmente. Mas não sei por qual razão eles não tinham medo da prática pedagógica. Sobre isso Górki escreveu. nasciam pessoas trabalhadoras.pelo trabalho e os sorrisos. mas como era um monumento a Félix Dzerjinski. "E. Makarenko narra este episódio no Poema pedagógico. os tchequistas ucranianos investiram nessa obra não somente seus meios pessoais como. a ortografia delas. a antiga capital. no dia 8 de junho de 1928. As nossas preocupações se elevavam sobre nós como um arco-íris e fincavam-se no céu os refletores das nossas ilusões.nas mãos do estudante Kirguizov que. desta maneira: "Os dias passavam e eram agora dias felizes e maravilhosos. nesse tempo observei como mudava. que o autor de A mãe jamais 132 pôde esquecer. existia um setor docente revolucionário que defendia a nova metodologia baseada nos princ~pios marxistas-leninistas. em 1925. a gramática. Nossa vida quotidiana enfeitava-se . A transferência definitiva da colônia para a comuna era adiada permanentemente à espera da anunciada visita de Górki à colônia que levava seu nome. 131 Os tchequistas eram fracos neste terreno. também. . sem que o escritor e os alunos tivessem sido apresentados formalmente. na cidade de Kiev. esse dia chegou. em 1929: "Estive trocando cartas com as crianças da colônia durante quatro anos (até 1928). percebi como se ampliava a sua concepção da realidade: de pequenos anarquistas. de conduta inatacável. ladrões e jovens prostitutas. Máximo Górki chegou a Kuriáj. pelo corpo docente e por Makarenko com uma festa "luminosa". Apesar disso. e como crescia a instrução social. Anton Semiónovitch não queria perder a ocasião de receber um hóspede tão ilustre e de tanta significação na sua vida pessoal e profissional. a maior festa da nossa história. com sua brigada." Em fins de novembro tudo ficou pronto e Makarenko foi convidado a transferir para Dzerjinski muitas de suas crianças. gradualmente. Muita influência teve. "A Comuna Dzerjinski foi planejada para acolher somente 100 crianças. Este relacionamento começou. pela claridade de nosso caminho. pelas palavras ardentes e amistosas. por outro lado. Formaram-se grupos de educadores que criticavam violentamente os métodos empregados por Anton Semiónovitch na reeducação dos pequenos criminosos." & A VISITA DE MÁXIMO GÓRKI À COLÔNIA Durante os primeiros meses de 1928 Makarenko dirigiu simultaneamente a Colônia Górki e a Comuna Dzerjinski.

estes. se interessava por tudo. montados em cavalos. com um rosto que revelava grande sabedoria e de olhar amigável. 'Górki começou a caminhar ao longo das fileiras. antigos 'vagabundos' e 'ex-elementos socialmente perigosos'. após a partida do escritor.. Makarenko. Uma parte do livro.. Muito bem! . este tinha afirmado que na colônia de reeducação que levava seu nome um "pedagogo de novo tipo" havia descoberto “as leis da educação escolar soviética" e que a verdadeira dimensão dessa nova proposta educativa possuía um "significado universal". "Queria conhecer profundamente a alma desses rapazes". No alto dos prédios tremulavam as bandeiras e se agitavam as grinaldas. 134 da metodologia pedagógica a ser implementada na docência revolucionária. meus amigos ainda sem conhecê-los. Alexei Maxímovitch e Anton Semiónovitch ficavam sozinhos para tomar um chá perto do samovar examinando minuciosamente os problemas 133 Figura – Górki visitando a colônia Kuriáj. Górki. nessas tardes. pouco tempo depois da visita de Górki. desde muito cedo. a que se refere a Makarenko. Máximo Górki publicou seu livro Pela unido dos sovietes. Górki perguntava tudo. que atraía grande número de peregrinos. os olhares ardentes dos rapazes. Rodeava o mosteiro um bosquezinho. Como uma longa corrente humana.. Nos fins de tarde. alisou seu espesso bigode de operário com dedos trêmulos e sorriu: ... e o resultado dessas conversas foi sua total adesão aos princípios aplicados originalmente em Poltava e posteriormente em Kuriáj... são os teus garotos?. patrulhavam orgulhosos. os educandos..' "A simbólica saudação da nossa orquestra à bandeira.' Os três dias que Alexei Ma.'Saúde! .. muito famoso na época. Então. diria mais tarde. na estrada de Akhtir. em todos os nossos canteiros havia flores. esperava uma guarda de honra. com largos intervalos. formou-se um acampamento com as mais diferentes pessoas da cidade: autoridades."Naquela manhã. tudo isso foi como um tapete estendido por nós perante nosso visitante. Confirmando esse sentimento.. o farfalhar das mãos juvenis. No pátio principal. nossas almas abertas. onde conheci Ioann Kronstadski. Anton Semiónovitch recebeu. "Estive no mosteiro de Kuriáj no verão de 1891. seu aliado mais importante. Recordo que este mosteiro existiu com os nomes de Rizhovski e Pesóchinski. ouvia "fascinado" a narração das experiências makarenkianas. uma parte . Mas só me lembrei de que estivera alguma vez no mosteiro ao terceiro dia de convivência entre as quatro centenas de seus novos donos. Era um homem alto. percebeu que tinha ganho. fotógrafos e cinegrafistas. em volta da colônia. a fileira formada pelos garotos. naturalmente.. onde narra documentalmente seus contatos pessoais com as bases da revolução. todo um batalhão de jornalistas. vamos adiante! . estendia-se. ele quis passá-los com as crianças.. Desceu do automóvel e observou ao seu redor. em Moscou. Em princípios de 1929. foi escrita ainda em 1928 e reflete exatamente as impressões que deixara nele o breve convívio com os educandos da Colônia Górki. informações de que. No ano de 1891 era muito rico e venerado o 'milagroso' ícone da Virgem. "Górki chegou protegido por um barrete branco.ximovitch Górki ficou na colônia.

alguns estudam em Kharkov e um já está no segundo ano da Faculdade de Medicina. vêm rezar nela duas ou três centenas de velhos e velhas das aldeias próximas. através de seus sólidos muros assomavam duas igrejas e outras dependências para diversas atividades. Isto incomoda muito os educandos. As novas vagas são preenchidas imediatamente por crianças enviadas pelos órgãos de Instrução Criminal. um refeitório 135 para 200 pessoas e o dormitório das meninas da colônia. No transcurso destes sete anos sairam dela várias dezenas de meninos e meninas que ingressaram em escolas fabris. 70 porcos de raça. N. cavalos etc.do qual foi transformada em parque. erguia-se a imagem. Atualmente. A economia da colônia conta. mas já como 'educadoras' de crianças. nem um só dos 400 passa ao largo diante das portas da escola. apesar da distância de oito verstas até a cidade. 27 hectares de bosque. Nota: Verstas: medida russa de comprimento que equivale a 1067m. Na vetusta igreja de inverno ainda são rezadas missas nos dias de festa. guardas etc. Mas todos vivem na colônia e. operários.' "Atualmente há na colônia 62 komsomols. ou pela polícia. os camponeses destruíram o parque e o bosque. Não há grande inclinação para o estudo e. a disciplina da colônia começa a capengar. participam ativamente dos trabalhos cotidianos de seus camaradas. Claro que é mais difícil organizar a vida com os novos do que com os que já se acostumaram ao trabalho e à atividade social. também. agricultores. de novo. São muito poucos os meninos mais velhos que ficam. Com a saída dos meninos maiores. 136 "Os 400 educandos estão divididos em 24 destacamentos: marceneiros. dos quais esteve quatro na província de Poltava. não devemos permitir isso e não o permitiremos. organizando-se. Muitos de nossos colegas veteranos empreenderam vida independente: na produção. tratoristas. vacas. em seu interior. depois de uma ladeira ficava a capela de verão e. Os porcos têm grande aceitação entre os . Nos anos da guerra civil. não obstante. o número global de colonos nunca é menor do que 400. pastores. em outras colônias. transformando-a em um edifício de dois andares onde se alojam hoje o clube. ficando como lembrança deles apenas o sólido e tosco campanário. se não me engano. em nome de todos os 'chefes': Se você soubesse como tudo mudou depois de sua partida. Denisenko. agronômicas ou militares e. o salão de reuniões. um dos colonos. Em outubro do ano passado. a escola de sete graus e oficinas de aprendizagem para adolescentes. nas escolas fabris e nas escolas de ofício. da igreja de verão tiraram as cúpulas. Também não são poucos os vagabundos que se apresentam voluntariamente. todos são novos. destruíram os muros do mosteiro. pois a utilizaríamos como refeitório e não teríamos que nos dividir em dois turnos de 200 pessoas para almoçar e jantar. o ímã do mosteiro. com 43 hectares de terrenos cultiváveis. Assim perdemos uma infinidade de tempo precioso. que os olham suspirando: Pena que não a deram para nós. me escreveu. as nascentes de água secaram. a capela foi saqueada. "A colônia subsiste já há sete anos. sapateiros. todo o ensino em nossa colônia foi reestruturado. que as recolhe das ruas.

Também existe esta outra 137 tradição: quando trazem à colônia uma menina ou um menino. e em todo o tempo de existência da colônia só foi rompida uma vez esta regra. Eles têm as chaves de todos os armazéns. nas mãos dos 24 chefes eleitos nas brigadas de trabalho. um dos chefes. que acabou em um drama. A jovem mãe escondeu o recém-nascido sob a cama e este morreu asfixiado. estuda. de fato. evitar reiteradamente o trabalho mais duro. qualquer menosprezo aos interesses da coletividade é castigado com a expulsão da colônia.Sendo Komsomol. As faltas mais sérias e freqüentes: demonstrar preguiça. os educandos fazem-se de surdos. Os carpinteiros estão trabalhando em um pedido para fornecer 12 mil caixas para a fábrica de explosivos ucraniana. a música e os livros. Desde os 15 comanda um destacamento de meia centena de garotos. "A. aderi ao anarquismo e. então podes partir. sobre o qual pesa a ameaça de ter que viver em uma casa de menores. Vive. que os donos aqui somos nós mesmos. "Não namorar as meninas da própria colônia é também uma das tradições obedecidas. ofender um camarada. chegou à colônia quando tinha 13 anos. . Em resposta dizem simplesmente: '. me parece que não passaram de dez os que partiram' de lá.camponeses da região. mais tarde. Ao culpado comprovado. ao que me lembro. o qual também tinha sido castigado. "Toda a fazenda da colônia e sua ordem se encontram. como viveram. Em sete anos da colônia. foi condenada pelo tribunal a quatro anos de isolamento. sobretudo. Mas a colônia solicitou das autoridades judiciais a sua custódia e. não acreditam e zombam dele. Contaram-me que é um excelente camarada. Isto sempre influi positivamente na criança. Amo a vida e.Já estás vendo que isto não é uma prisão. Mas estes casos são muito raros. Em sua autobiografia escreveu: . leva em conta também o culpado.. um chefe muito severo e muito justo. julgar seus camaradas pela negligência no trabalho. estabelecem os planos de trabalho e dirigem sua execução.. comunica a sentença do conselho de chefes diante da formação dos colonos: admoestação ou cumprimento de um trabalho suplementar. Se o novato começa ele mesmo a contar sua vida. O conselho de chefes decide: aceitar ou não os que acodem voluntariamente à colônia. pelas infrações da disciplina e da 'tradição'. sou um apaixonado pela música. Ë observada rigorosamente. trabalha conosco e se não gostares. fui expulso. iguais a ti. é terminantemente proibido perguntar-lhes quem são. casou-se com o pai da criança.. Em geral. a maioria mais velhos do que ele. o diretor da colônia. participando obrigatoriamente e da forma mais ativa com todo o destacamento. dois tratores e um gerador de energia elétrica que abastece a colônia. cada membro do conselho de chefes recorda perfeitamente sua vida anterior. Anton Semiónovitch.' "O novato logo se convence de que esta é a pura verdade e se fixa facilmente na coletividade. como caíram nas mãos da polícia. agora tem 17 anos. instituição unanimemente temida pelos 'vagabundos'. Há também máquinas agrícolas. por isso. se ele se gaba de suas façanhas.

tenham reconhecido o seu talento. durante as férias. papel e telas para pintar. "Ch. Depois foi repórter do jornal Sêvernaia Pravda. Tomei-o como exemplo para ilustrar que tipo de seres acolhia Makarenko. nem mesmo ali. de trenó cruzou os Urais por Obdorsk e chegou até Arkhánguelsk: ali roubou. Esteve numa colônia infantil em Iaroslavl. se desorientou. Talvez seja assim por um duro golpe que lhe tocou viver: conheceu em Arkhánguelsk um jovem chamado Vaska. com um rosto orgulhoso. foi detido. na pintura e no desenho.. deixando preso em seu peito o seguinte bilhete: 'Devo à dona da casa oito copeques. assombrosamente atencioso com os pequenos e afável com os camaradas de sua idade. Elegeram Ch. também pintor. Logo trabalhou como instrutor recolhedor de impostos em espécie. redigida por três colonos. é poeta. aprendeu a língua deles e viveu com os nenets. levando de passagem umas quantas moedas de ouro do tempo dos tzares. Foi um dos primeiros nos exames e ainda que. jovem de indiscutível talento e seriedade. preparando-se. Por agora termino dizendo que ele se apresentou voluntariamente à colônia de Kuriáj. se puderes. Não. passando a 'limpar' carteiras nos bondes. para a escola de sete graus. também chefe. naturalmente. trabalha proveitosamente. 138 Navegou pelo Mar Branco como ajudante de foguista. viveu em asilos noturnos. compõe versos líricos em ucraniano. A. e. como alguém que andou por um pântano. Depois trabalhou com um protético que o fez apaixonar-se pela leitura e pelo desenho. Mas a rua o atraía e abandonou o dentista. mas por debilidade visual se viu obrigado a desembarcar. ainda que se mostre desconfiado e cauteloso com respeito a suas próprias atitudes. As ilustrações são feitas por Ch. como ele. deixou de ler livros. apaixonado pela literatura. Entre os colonos existem vários poetas. os colonos me deram um magnífico presente: 284 garotos e garotas escreveram e me enviaram suas autobiografias. paga-os 139 . Trabalhou em artes plásticas. e esteve preso em uma instituição correcional até a primavera. Eles publicam uma excelente revista ilustrada chamada Promin (Raio de sol). ele não acreditou. falsificou seus documentos e ingressou no Instituto Técnico Artístico-Industrial de Viatka. de onde fugiu. estuda e ensina os pequenos. para o comitê estudantil como encarregado da seção de cultura. é um refugiado polonês que começou sua existência vagabunda aos 8 anos. Gastou-as em livros. Não viveram muito tempo juntos. depois dedicou-se a pintar letreiros e decorações. Descobriram que seus documentos eram falsos. 'Continuo querendo ser uma pessoa. ele narra tudo com simplicidade. entre os komis nizhemios. pois Vaska se enforcou. no rio Petchora. onde vive atualmente. Mas. de óculos. fazendo trabalho cultural. sem a menor intenção de despertar compaixão. "Levaria muito tempo para contar a curta porém rica biografia de Ch. parco em palavras e prudente.. escreveu-me. No inverno. depois por um bosque. ao mesmo tempo. E um corajoso e garboso jovem.. ainda me apaixonam os livros e os lápis'.''Por iniciativa deste menino. ''Ele conta isso tudo sem vaidade e. saiu por uma estradinha e sabe que na areia se anda mal.

a beber vodca e muitas outras coisas. Eu também. pensativa: palEstou falando agora com você depois de ter sidoaprostituta durante dois anos. toca flauta maravilhosamente na banda de música da colônia. Os pequenos se deparam de repente com condições inesperadas de atenção por parte dos adolescentes que tanto pavor lhes causavam nas ruas. as gens vivas do relato. é um jovem de qualidades valiosas e penso que agora já encontrou o seu caminho. sempre temeroso de dizer algo inadequado. Um dos pequenos. de “ . Minha mãe. aprendeu o instrumento em cinco meses. no primeiro momento. magnificamenteiassimilado por eles.apensei. "Estas comovedorasvras foram pronunciadas co aismo se a garota estivesse recordando um pesadelo. ruiva e alegre. ao mesmo tempo. mas insuperavelmente educativa dos mais fortes. o espírito coletivista. na colônia. temor que me faz falar com dificuldade. E Máximo Górki continua ainda descrevendo o que vira e o que aprendera na Colônia Górki de Kuriáj. encaixasnecessariamente nas passa. só ficaram os que estavam plenamente capacitados para se autodefender. lhes ensinavam a roubar. com traços mais ou menos vivos. Os educandos da colônia de trabalho de Kuriáj produzem a estranha impressão de serem bem-educados. quase todos eles têm uma individualidade já esboçada. Sua biografia não é uma exceção. Se comem a me surrar. Mas. pois são uns narradores consumados e cada umltem uma história a contar. As crianças de herança mais perniciosa e vacilante. nestas crianças. que rapazes viqui! Alguns deles já conheçassecia da rua. ainda que severa. . falando dos s que tinha lido.repente. os exploravam. Este menino me disse: 140 vem Quando cheguei aqui me apavorei.. já sucumbiram pela sua fraqueza e. tendo-se em coue sou um homem que não sa be falar com crianças. cada menino destes é um indivíduo com personalidade própria. diante do encanto das ruas. nas aulas ministradas por Makarenko. agora pastor. naturalmente. são assim a maioria das que li e das que me contaram. com os novatos. Na segunda parte do seu relato sobre a obra de Makarenko. tambémvàs meninas. entendi suas palavrasdcomo se não fossem mo que uma frase de introduda deção inesperada. Eu diria que a vida. são meninos que querem aprender e estudam muito. Órfãos dos que morreram nos anos da guerra civil por causa das epidemias e da fome. ninguém me pôs um dedo emacima. pelo visto. se estende. Mas. formou também. Isto se nota particularmente nas suas relações com os pequenos. passam de meia centena.. disse. que acatam facilmente a disciplina determinada com tato e que não ofenda sua noção de dignidade pessoal. não havia necessidade de falar com eles. Não se deve esquecer que adolescentes como estes os maltratavam. acabavam co ntmigo. ele escreveu: “De onde procedem estes vagabundos? São crianças evacuadas das regiões ocidentais que o torvelinho da guerra disseminou por toda a Rússia. Mas as crianças de Kuriáj não despertaram em mim este temor. Compreendem o significado do trabalho coletivo e a conveniência de seus valores. "O sentimento de camaradagem. que. Além do que. aqueles mais preparados para enfrentar a vida. de uns 16 anos. como vê. que fazem com gosto qualquer trabalho. "Eu me sentia completamente à vontade e livre entreqeles.“Não cabe a menor dúvida de que Ch.. Meninos fortes.rUma delas. com um olharointeligente. que acabam de chegar ou são levados pelas autoridades.

reconhecido pelos vinte e quatro restantes como ogmais inteligente e mais experiente de todos. Ëlam dele com orgul um homem exteriormente se do vero. Quatro comcentos pares de olhos de diversas tonalidades que. conhecevcada colono pelo nome. os chefes distribuem octrabalho entre seus damentos. Nestas ocasiões. parco em palavras. Todo este 'cerimo de tnial' agrada às crianças. nada lhe escapa. temialgo de militar e de mestre rural po dos que susten tam idéias. quando estes discutem na prática o ritmo dos trabalhos na colônia. Às sete. ainda que não haja luxo e sejam bas paretante modestos. move-se lentamente. Todos o escutam com atenção e não deixamsde discutir como se else um vigésimo quinto cama a alrada. trabalham noecampo e na horta. narigudo. bordam. A banda da colô cadonia animou. "Introduziu na colôniumas características de es crâncola militar. Diaa formação. No refeitório e nos dormitórios reinasa limpeza. aparentando pouco mais de 40tanos. são assinaladasvmutuamente as falhas nas tarefas dos destacamentos e oseerros. depois dotcafé. "Mas. caracterizando-os com apenasacinco palavras. Por toda partecse percebe o amor ao trabalho e o afã de fazer mais belara vida destes 400 pequenos. São as 'donas' da colônia. dois camaradas colonos armados com fuzis guardam odporta-bandeira. mostram-se ducadas. Ele é o organizadoron 141 e diretor da colônia. nessa ocasião. ouvem-se as sanções impostas peloaconselho de chefes. olhar inteligente e esquadrinhador.amas acode a todas as partes. Quase sempre são palas provras de censura. Ás seis da manhã a come nta toca a alvorada no pátio da colônia.atambém divididas em camentos com suas respecti nelvas chefes. sem sen mais funda emoção. cheios de orgulho e sorrindo."Como os meninosjovens têm também um aspecbem-eto sadio. "Nas reuniões dos chefes. o ato. Fizeram-se discursos sobre o grandioso signifido trabalho que cria a cul 14tura. ''Era impossível olharla fila de carinhas agradátir aveis e sérias. que até o mais pesadotparece um jogo divertido. Makarenko anun tarecia em breves palavras asfas do dia e.baos quais sempre acaricirincalhão os cabelos corta edos à reco. com ainda mais pompa e solenidade. manunciadas como por um cama e forada maior. o que causou desavenças com os órgãos daiInstrução Pública da Ua. Anton Makarenko fica sentadozem um canto e só d em quando intervém na conpalavversa com duas ou três ras. são também acolhedores. Fala com voz rouca. Senti nele uma grande ternura pelos pequenos. a colôniarentregou cinco vagões em de caixas de madeira enábriccomendadas por uma fa cliente. devoravam com o . que só lição da propriedade priva aquda faz os homens amigos e irmãos. como se fizesse um instantâneo de seu caráter. Os colo adoram sinceramente e faho. Não há dúvida de que é um pos gogo de talento. extermina todas aseamarguras da vida e todos os seus dramas. que só o trabalho livre e coletivo leva as pessoas a2a abo uma vida justa. costuram. E. põem toda sua for desça e tanto empenho no trabalho. Em seguida. As própriasdmeninas enfeitam as es com ramos de flores cam o pestres e arranjos de cheirosas ervas secas. "Quem pode mudar de forma tão radical e reeducarucentenas de crianças tãel e ofensivamente deforma edadas pela vida? Anton Makarenko. Lavam. se alguém co estmeteu alguma falta. outro toque de cometa e os colonos formam umequadrado no meio do pátio com a bandeira no centro.

Para conhecê-lo melhor quero reprodaqui um fragmento do pequeakareno prefácio escrito por Mnko às biografias dos colo nos que educou: Quando escrevi a máquina a centésima biografia. perto drkov. estes se. A ventilação é a melhor. Nesta última só hanos evia uns 100 ou 120 meni era evidente que havia sistrardo fundada para demon o ideal de uma colônia innfratfantil de trabalho para iores da lei. trivial pa de Kra eles. Aqueles que só se preocupam em nãoesentir mais do que uma comiseração e o desejo me l eloso de procurar algo agradável para as crianças.' "Além da colôniauriáj. salas limpas e claara as aulas. Eu nãoetinha o direito de circuver-me ao sentimento de pe na e comiseração para com eles. narrada comgas palavras mais sinceras e desapiedadas. com 19 janelas na parede da frente. naturalmente.' Talvez eu encontre nesta tra mais sofrimenro.choque com elementos hostis. como uma só voz.limitam simplesmente a encobrir sua hipocrisia com esta abundância de dor infantipor isso mesmo. experimentada es 1pecialmente por mim quando lia estas anotações. As crianças vestem confortáveis roupas de trabalho. são a narração simples e sincera daepessoa de pouca idade atirada à solidão. retum' saíbou o orgulhoso 'Viva!do de 400 peitos.tr '.sos dormitórios são esos.estão equipaíssimdas com maquinaria nova e dotadas de ricas ferra paçmentas. mais compreensível e eloqüenterque as mais belas palavras imagináveis. acostumada a não se Nisturbar com essa situaçãoso. se encer gédra a horrível tragédia de nossa época. tragédia que só nósipercebemos: para os gorkianos não existe tragédia. boa roupa de cama. Ê a dor infantil concentrada. poisaesta é a relação habitual entre eles e o mundo. tudo é exem cuplar. Anton Ma uzkarenko sabe falar às crianças sobre o trabalho com essaiforça serena e latente. Nesta comunaepodem aprender muito os otganizadores deste tipo deninstituição. As três oficinasade carpintaria. salão de reu e luniões. Dtos do que qualquer outurante oito anos não só ti nscve que ver a dor desmedida destas crianças atiradas àrrua. severo e firme. abundância de materiais desestudo. Maje e. estive também na Coe Khamuna Dzerjinski. olôni . em injos campos os os trabalham durante o verã Noto.olhar os carrosacarregados até em cima s caixas feitas por educanstosodos carpinteiros. edificada especialmente para esteifim. Anexo à comuna há um rico sovkhós. que são um pe tarigo para a sociedade. No que se refereaa sua dor.Nisto reside a minagédia. eu tinha de ser tão filósofo como eles eram em relação a si mesmos. mas também seu dilaceramento espiritual. largas janelas e muitaoluz. Já fazia muito que havia compreendido que se quisesse salvá-los estava obrigadoha ser com eles exigente. Esta deve ser uma tragédia para todos nós que não temos o doc43 direito de fugir. por toda parttro e limpeza. desacostumadarcom qualquer espécie de comiseração. e até as crianças estão tão saudáveis que parecemmter sido escolhidas para serem expostas. A comuna está instalada em umarcasa de dois andares. sapa e mecânica . habituada ao. uma rica biblioteca.icompreendi que estava lendo o livro mais comovedor danminha vida.a: Sovkós: granja estatal soviética. churas pveiros. Em cada umaudas suas linhas observo que estes relatos não pretendemédespertar pena em nm e não querem provocar ne pnhum tipo de efeito.

ela começou a albergar principalmente os filhos de família em crise. mas. dotada de uma escola primária com um ciclo de 10 graus. em diversas ocasiões. Destas cas briosas. vi cerca de 2500 'vagabundos'. de reduzido tamanho. Nesse momento o trabalho produtivo desempenhou grande papel na educação dos jovens e foi a base da prosperidade material da comuna. en o cravados na terra cinza e ressecada pelo sol. .4capazes de resistir às mais duras provas. Foi fundadatrecentemente e encontra-se em período de organização. transformando-as em verdadeiras oficinas produtoras das chamadas mercadorias deficitárias.aAfanoso e alegre ferve balho de formiga destas peadas quenas pessoinhas queimpelo sol. O êxito comercial da oficina de transformação de madeira foi tão grande que em poucos meses consolidou seu prestígio entre as escolas de trabalho soviéticas."Visitei depois a ca de Baku. sairão cidadãos singulares. Este problema também foi superado por Makarenko com criatividade: convidou um administrador experiente para organizar as áreas artesanais. No dia 3 de setembro de 1928. Todo o trabalho de Makarenko na comuna decorria em condições muito diferentes das de um reformatório. pela inexperiência pedagógica de acordo com a metodologia makarenkiana. Makarenko deixou para sempre a colônia. saudáveis e se 14duzidas pelo trabalho sério. segundo suas próprias palavras. teve de exercer funções de ditador. Em junho de 1930.Coletivo pedagógico da Comuna Dzerjinski. São dois edifrcios edondezas dessa cidade. A colônia é diri prgida por um homem que ama seu oficio com a mesmaopaixão que Anton Makarenko e segue a sua metodologiafeducativa. com os quais criou as bases da nova organização educativa. para 500 educanínas dos. Para poder iniciar suas atividades na Comuna Dzerjinski. eram lugares nos quais se podia trabalhar.rmas as crianças já sonham em ter um jardim zoológico. que meudeixaram uma das mais ndas impressões para o resriançto de minha vida. Makarenko selecionou 60 colonos gorkianos. No início eram enviadas para lá crianças abandonadas. abalado pelos conflitos que mantinha com seus superiores do Comissariado do Povo para a Instrução Pública da Ucrânia. "Em suma. a Comuna Dzerjinski deu um passo revolucionário na história da 146 Figura . seguindo as normas docentes determinadas pelo Comissariado de Moscou. esses organizadores tinham esquecido a importância da base produtiva. 9191919191 CAPÍTULO 8 . Anton Semiónovitch assumiu integralmente a direção da comuna de trabalho Félix Dzerjinski.A COMUNA DZERJINSKI & A PRIMEIRA ESCOLA EM REGIME DE AUTOGESTÃO Três meses após a visita de Górki. Anton Semiónovitch e seus pupilos não demoraram muito em perceber que os construtores da comuna tinham previsto tudo para oferecer às crianças uma vida saudável mas. Somente as oficinas artesanais. depois de ser oficialmente inaugurada a comuna. onde ele.

foi inaugurada a segunda fábrica da comuna especializada em instrumentos elétricos. Posteriormente. ao observar a utilidade das fábricas criadas pelos próprios educandos. Makarenko. dirigia a comuna e elaborava a mais importante metodologia pedagógica do século XX. sem deixar de reconhecer a enorme força educativa da produção. copiaram os modelos estrangeiros e os aperfeiçoaram." As iniciativas de Makarenko e dos estudantes não tinham limites: uma outra aventura foi empreendida com a finalidade de montar Makarenko e o médico da comuna. Enquanto respondia a inquéritos. Makarenko tinha opinião contrária e insistiu sempre em que as aulas eram de muita importância e deviam ocupar pelo menos de cinco a seis horas diárias. eram de fácil manipulação e foram batizados com o nome de FD-1. uma carta a Makarenko: Máximo GÓRKI -> "Querido Anton Semiónovitch. traziam mais aborrecimentos burocráticos a Makarenko. conseguiram assimilar a tecnologia empregada na fabricação das furadeiras. Os novos modelos pesavam mais ou menos cinco quilos. Figura . especialmente. em um mês e meio. Em cada página pode-se perceber o seu carinho para com as crianças. ontem li seu livro A marcha dos anos 30. não podia aceitar que a jornada de trabalho dos educandos fosse maior do que quatro horas diárias. Você transmitiu muito bem o que é a comuna e a vida dos comuneiros. de repercussão nacional. As horas de que dispunha. Muitos dirigentes da Comuna Dzerjinski ligados ao Comissariado de Instrução. Um ano mais tarde. a sua preocupação constante pelo bem-estar delas e. na Itália. o banco estatal concedeu um significativo empréstimo à comuna para a montagem de uma fábrica mecanizada para a construção de furadeiras elétricas. mas os comuneiros de Makarenko.Fábrica construída na comuna. Foi uma leitura que me emocionou muito e me deixou cheio de alegria. Até então União Soviética tinha que importar estas ferramentas tanto dos Estados Unidos como da Inglaterra. que eram poucas. foi adotada uma solução de consenso: quatro horas para o trabalho na produção e quatro a cinco horas diárias para o estudo. Já em 1925 tinha começado a escrever o Poema pedagógico. caso contrário as aulas da escola poderiam ser seriamente afetadas. que foram publicadas em 1932 sob o título A marcha dos anos 30. dedicava-as à leitura.pedagogia mundial: foi a primeira escola pública em regime de autogestão econômica. Este seu primeiro livro mereceu críticas elogiosas de parte de Górki. . que escreveu de Sorrento. Felicito-o sinceramente por este livro. exigiam que os comuneiros trabalhassem até seis horas por dia. em 1931. uma compreensão sutil da alma infantil. No outono e no inverno de 1930 escreveu uma série de reportagens sobre a vida da Comuna Dzerjinski. cuja existência mantinha sigilosamente na gaveta. Figura 148 Após inúmeras negociações. A direção docente ucraniana gerou uma polêmica sobre o tempo que diariamente deveriam investir os educandos nas tarefas produtivas. Makarenko não desperdiçava nenhum instante vago. no dia 7 de janeiro de 1932. 147 Estes sucessos.

Ë muito importante lembrar aqui que nessa fábrica. trabalhavam unicamente meninos e meninas de 13 a 15 anos de idade..Máquina fotográfica FED. de acordo com as palavras de Makarenko. e que.uma fábrica de máquinas fotográficas e. por isso mesmo. possui órgãos. Liam os principais jornais e revistas soviéticos. os dzerjinskianos não descuidavam também da cultura geral. A FED era composta por mais de 300 peças. “Uma outra tese de minha teoria é que nenhum método pode ser elaborado à base do par professor-aluno. participavam de debates políticos. alternavam-se conscientemente os estudos e o trabalho. mas só podem ser resolvidas mediante a recomendação da forma. enfim. 150 Figura 1 – Grupo de teatro da comuna durante um excursão Figura 2 – Educandos com sua exposição de objetos artesanais. o que em outras palavras significava ter atingido um nível pedagógico bem elevado. o que lhe conferia um sistema óptico exato. praticavam vários esportes. tenho considerado não só como meu. ele é um organismo social vivo e. 151 CAPÍTULO 9 – OS PRINCÍPIOS DA PEDAGOGIA MAKARENKIANA Makarenko começou a codificar a sua experiência pedagógica sintetizada até então nestes termos: “O meu princípio fundamental (aliás. as questões do trabalho educativo nunca podem ser resolvidas por meio da recomendação de algum método de cada professor em relação a cada aluno. mas também de todos os pedagogos soviéticos) tem sido sempre exigir o máximo do educando e. Além da dedicação total à educação produtiva. na véspera de completar seu primeiro qüinqüênio. estilo e tom para toda a organização. Nesta época. eram realmente felizes. a qual teve merecido reconhecimento internacional pela qualidade da sua fabricação. algumas com precisão microscópica de até 0. divertiam-se. pioneira na União Soviética. e o que é o coletivo? Não se poderá imaginar o coletivo se tomarmos a simples soma de pessoas isoladas. tratá-lo com o maior respeito possível.001 milímetros. Figura 3 – Ensaio da orquestra da comuna. . para poder reproduzir a famosa máquina fotográfica alemã Leika. Por conseguinte. pois 149 Figura . o trabalho "tinha que ser um jogo". a comuna já tinha 500 educandos que eram chamados de "operários de choque".. A educação pelo trabalho transformou-se numa educação produtiva. batizada assim em homenagem a Félix Edmúndovitch Dzerjinski. a comuna apresentou seu primeiro aparelho: a famosa FED. ao mesmo tempo. “E a primeira destas formas necessárias à educação soviética é o coletivo. produzida pela Comuna Dzerjinski. atribuições. no dia 28 de dezembro de 1932. mas só à base da idéia geral da organização da escola e do coletivo.

o seu trabalho educativo segundo o seu próprio entendimento e desejo. que era mais uma espécie de família. que não perdoe nada a ninguém nem faça concessões a quem quer que seja. tenho uma vaga. Que corram até boatos de que este ou aquele professor ficou gostando dela. se não houver um coletivo de pedagogos. ‘Decidi que este coletivo. eu unia netas os educandos que estudavam e trabalhavam em conjunto. Se tudo isso não existe. cheguei à conclusão de que isso era prejudicial ao coletivo e em cada turma coloquei crianças e jovens de 7 aos 18 anos. Ë de se notar que não considero necessário educar uma pessoa isolada. há uma simples multidão. Deste modo criam-se as mais cordiais relações de camaradagem. mas educar todo um coletivo.. seria mais vantajoso no sentido educativo: ali os mais velhos cuidam dos mais novos e estes respeitam aqueles. às vezes não. que goste de todos e perdoe a todos e que dê notas máximas a todos. não há coletivo. Por que razão? Esta moça simpática introduziria nele a juventude. “O coletivo dos professores e o coletivo das crianças não são dois coletivos diferentes. correlações e interdependência entre as partes. já que eles são os responsáveis pelos mais novos. E quem estudou a importância dessa atmosfera? Ë necessário que no coletivo haja também um velho ranzinza. mas. Também a questão da correlação entre os velhos pedagogos e os mais jovens é igualmente uma questão científico-pedagógica.responsabilidades. achando que o meu coletivo necessitava de uma moça simpática. É o único caminho para a educação correta. durante todos os anos do meu trabalho pedagógico no período soviético. às vezes pecava secretamente. Portanto. mas sim o mesmo coletivo pedagógico. É preciso que haja também uma ‘alma boa’. pois já tinha muitos velhos. uma concentração de indivíduos. envidei os meus maiores esforços na solução da questão da construção do coletivo. No início. separadamente. isso só animará a atmosfera do coletivo. “No meu trabalho experimentei dúvidas bastante sérias quando se abriam vagas para educadores novos. Assim os pequeninos não ficarão fechados no seu próprio grupo e os mais velhos nunca 154 contarão anedotas escabrosas e se controlarão nos palavrões.. “Eu dividia os educandos em turmas. Não restam dúvidas de que não se poderá fazê-lo se cada um dos pedagogos de uma escola realiza. a quem devo convidar para preenchê-la? O princípio casual da formação do coletivo pedagógico às vezes dá certo. Por exemplo. dos seus órgãos. “Nas minhas pesquisas cheguei a mais uma conclusão: não imaginei nem imagino como se poderia educar um coletivo. este homem reduzirá os atritos que surgirem no coletivo. o frescor e um certo entusiasmo. do sistema de atribuições e do sistema de responsabilidades. 155 . pelo menos um coletivo infantil. um homem de certo modo maleável. Lembrome de casos em que eu considerava necessário convidar um educador jovem. após esta experiência. “Vou mais adiante: estou disposto a analisar questões como a duração do coletivo de pedagogos e o tempo de serviço de cada um dos seus membros porque um grupo constituído de educadores com apenas um ano de experiência será indubitavelmente um coletivo fraco. as quais eram o meu coletivo básico. depois decidi que era necessário separar os mais jovens dos mais velhos.

formando-o. não poderemos contar só com seu talento. também são um jogo. levantar-se da cadeira. se nós não o educamos. todas estas gravatas. e nós. é necessário guardá-lo. mas estamos — sei lá por quê! — convencidos de que para o divertimento deve haver um lugar separado e é a isso que se limita toda a participação do jogo na educação. durante muito tempo. abotoaduras. Tudo isso parece muito natural. mas. sorrir.. hábitos e meios que todos os pedagogos e educadores devem conhecer. mas quando tal coletivo existe e funciona. Existem muitos indícios desta mestria. para se formar um bom coletivo. mas só é preciso ter em vista uma autêntica mestria. por exemplo. convenções de toda espécie. cheguei à convicção de que a questão pode ser resolvida pela mestria baseada na competência e na qualificação. até do balé: é a arte da impostação da voz. tudo isso deve ser marcado também por uma grande mestria. ‘Junto ao coletivo é necessário pôr a mestria. Para isso é necessário criar formas que obriguem cada aluno a fazer parte da movimentação comum. Estou profundamente convencido disso.Eu próprio fui professor desde os 17 anos de idade e. no entanto. pontual e competente Tal coletivo não pode ser formado por um decreto. a arte do tom. pedagogos. temos muitos brinquedos. a maneira de erguera voz. E isso não é de modo algum porque um deles seja talentoso e o outro não. não brincamos? Claro que brincamos! Tomemos. cheguei à conclusão de que. ‘‘Consideramos que a criança deve brincar... o consolidamos. ou seja. adultos. cuidá-lo e. que necessita do jogo. E uma coisa excepcionalmente cara. na . tornando-se uma grande força educadora.. devemos participar dele. Independentemente da instrução que dermos a um pedagogo. ás vezes. do olhar. E. E assim que educamos o coletivo. “E os camaradas que não me conhecem pensam que nós. de fazer silêncio e de movimentar o corpo. mas com todos. como a maneira de se manter em pé.. Eu afirmo. sem isso não se pode ser um bom educador. depois outro. que a organização infantil deve contar com muitos jogos. clubes exclusivos. Ora. mas simplesmente porque um é mestre e o outro não. pensei que fosse melhor educar um aluno. Nesta última. é preciso falar não com um aluno só. e esta necessidade deve ser satisfeita: não porque o trabalho deva ser intercalado pelo divertimento. e assim por diante. E a confirmação veio não no reformatório que denominei Colônia Górki. então.. ‘Nas nossas escolas.. colarinhos. após o que ele próprio cria. todo o processo educativo decorre com muita facilidade. Tudo isso é necessário. o conhecimento real do processo educativo. 156 “É necessário não só dar instrução aos pedagogos. E eu fui partidário do princípio de que toda organização do coletivo deve incluir o jogo. “Na minha prática tornaram-se decisivas o que normalmente se consideravam ‘coisas insignificantes’. nem criado num lapso de dois ou três anos: a sua criação exige mais tempo. mas também educá-los. mas na Comuna Dzerjinski. olhar etc. a competência educativa. severa. mas porque o trabalho da criança depende da maneira como ela brinca. trata-se da idade infantil. Depois. Mediante a experiência. dessa maneira. sentar-se. os alunos comportam-se bem nas aulas de um professor e mal nas aulas de outro. Aqui nós entramos num terreno conhecido por todos e denominado ‘arte dramática’ ou. consegui que o próprio coletivo se tornasse uma magnífica força criadora.

eu o depositava na caixa econômica. Por exemplo. então chamávamos um da ‘reserva’ e o enviávamos nessa missão como forma de castigo. Por exemplo. existem mais dois temas importantes nos quais gostaria de me aprofundar um pouco: o do castigo e o do trabalho. nem sujes o chão ou machuques teu nariz!’. a dos educandos definitivamente incorporados à comuna. era a maioria esmagadora. Nisso. tão logo vemos uma criança a tratamos com a maior seriedade.realidade. Eu podia recusar ao aspirante o dinheiro que lhe correspondia para seus gastos pessoais. Mas. O que representava este serviço-castigo?. é agradável: por exemplo. alguns nem sequer dependiam de mim. pois se não terminava disciplinadamente sua pena. dizem os pais. quer dizer. O membro da 158 . e ele então ficava ‘na reserva’ até que se apresentava o momento oportuno. “Quanto aos educandos da comuna. em vez de entregar nas suas mãos o salário. Não podia impor este castigo ao aspirante. assim se sente um homem vestindo um macacão novo que é o uniforme operário. Os mais diversos trabalhos. na roupa de uma criança devem existir elementos de jogo. ‘Vai brincar um pouco. Quando se aplicavam estes castigos ninguém procurava o aspirante até o fim da sua tarefa. às vezes brincamos de homens importantes nos nossos gabinetes. “Todos os meus pupilos da Comuna Dzerjinski se dividiam em duas grandes seções administrativas. havia ocasiões em que nós não tínhamos um trabalho adequado para o aspirante castigado. “Em todo caso. eu tinha o direito de punir um aspirante encarregando-o do cumprimento de um serviço extraordinário. de onde ele não podia retirá-lo sem minha assinatura. também nós brincamos. brincamos de bibliófilos quando nos rodeamos de livros e pensamos que temos uma biblioteca. quando havia necessidade de ir até a cidade para fazer compras ou outras encomendas. A outra parte era constituída pelos aspirantes.. outros macacões profissionais e não poucos sonham usar um deles algum dia. “Eu podia privar o aspirante das suas licenças para deixar a comuna. pois ele ainda não estava em condições de compreendê-lo. de um ferroviário talvez. existe alguma coisa que faz bem.. para o aluno. ele ficava em observação. mas não quebres nada. “No que se refere ao castigo. que eram as crianças recebidas mais recentemente e que passavam por um estágio antes de serem admitidas em caráter permanente. Tampouco corríamos para aplicar a punição na mesma hora. isso é ainda mais importante. isto é próprio não só dos pequenos... eu não tinha direito de aplicar tais castigos. pregamos conceitos moralistas e a obrigamos a ir estudar? E quando elas devem brincar então?. acredito. o mandávamos colocar botas e capa e lhe dizíamos: ‘Vá arrumar os barris!’ O castigo mais freqüente era ajudar na cozinha. A mais importante. mas também dos adultos: muitos deles usam uniforme. 157 “Por fim. quando começava a chover e era necessário pôr os barris para colher água. o castigado não podia ir a parte alguma. Para esses jovens existia uma única penalidade que chamávamos de ‘prisão’. existiam duas modalidades para diferenciar ambos os tipos de estudantes. Em outras ocasiões. Por que razão. então. mesmo nos dias de folga. dizem os professores. ‘Elas brincam nos intervalos entre as aulas’.

se eles prometiam uma coisa. centro da vida de toda a comuna. Nesse caso eu tinha o direito de levar a questão para uma reunião geral. o jovem saía e voltava à hora que achara mais cômoda para cumpri-lo. Quanto mais abrangente o coletivo. então o jovem devia responder-me obrigatoriamente: ‘Sim. observando tudo aquilo . o principal era o gabinete. já não se dele falar mais sobre ela. eles variam de acordo com as mudanças da sociedade e a finalidade da educação é satisfazer essas necessidades de mutação social de cada coletividade. “Todo educador deve saber exatamente o que quer obter do coletivo em cada momento da sua vida e como fazer para identificar esse momento. pois aqui alguém começou a quebrar vidraças. Os objetivos não são imutáveis. Diz que não tem dinheiro? O que vamos fazer então?’ etc.. eu não podia repimpar-me numa cadeira e abster-me. ele próprio resolvia quando devia ser cumprido o castigo. mas devo confessar que não me lembro de nenhum caso dessa natureza e que muito raramente era necessário punir alguém. eu devia dar-lhes todo o crédito. informando apenas a hora em que deveria regressar . Na comuna.. pois o castigo não deve aturdir todo o coletivo e tornar-se uma rotina. eu devia levantar-me. . compre. os clientes eram atendidos etc. significava que não estava de acordo com o meu castigo. eu conduzia as conversações de tal modo que sempre fazia alguma alusão indireta ao jovem ‘preso’. eu dizia ao meu interlocutor: ‘Se você for à cidade. O que representa esta punição? Tal como no caso dos serviços extraordinários. tanto mais belo é o homem e mais elevada a sua posição. Esta é uma tradição muito importante e 159 poupa o castigado de quaisquer zombarias. onde tocava o telefone.comuna podia deixá-la sem autorização prévia. “Eu pessoalmente considero que não podem ser aplicadas muitas punições.. E o garoto ficava lá sentado. para terem a devida atenção do coletivo inteiro. cujas perspectivas sociais se transformam em perspectivas pessoais próprias do homem. temos uma regra: depois que o culpado é informado da punição e a acata. ou seja. no entanto. A ‘lei’ existente entre nós reza que. Nós demos ainda um outro direito aos membros da comuna: eu devia acreditar na sua palavra. A ‘prisão’ não passava de uma formalidade. ‘‘Nessas ocasiões. para proferir a sentença. senhor! Duas horas de prisão!’ Se o membro da comuna. Nunca me permitia. atenazar o educando que cometera essa falta dizendo-lhe diretamente que ele tinha feito isso ou aquilo e que o que tinha cometido era um ato ruim. uma caixa de vidres. Se ele.. o educando. por exemplo. inclusive. não. eu devia levantar-me e dizer: ‘Duas horas de prisão!’. não dizia isso. Esta punição consistia em o castigado passar no meu gabinete o tempo prescrito. por considerá-la um ato inconveniente. Dizia: ‘Vim cumprir a pena de prisão!’. Quando um educando era punido. Ao saber do castigo. quebrava um vidro intencionalmente. Eles devem ser raros. o membro da comuna só podia ser punido com a ‘prisão’. por favor. eu somente podia determinar a pena. Portanto.

outras mais longínquas e profundas. em propor aos educandos organizar diversos eventos coletivos como o mencionado jantar fora. isto é. uma tensão de trabalho. Entre as perspectivas imediatas também devem ser planejadas algumas que exijam determinados esforços manuais e morais. ‘0s fracassos pedagógicos de muitas instituições infantis se devem a que as perspectivas propostas foram fracas e indefinidas. isto é imprescindível. Inclusive. Estes eventos não devem passar de dois ou três por ano e devem saturar toda a vida da coletividade escolar. Nesta empreitada devem estar compromissados todos os componentes da coletividade. a influência organizadora do objetivo se obtém. a União Soviética. muitas instituições infantis muito bem dotadas dos mais modernos equipamentos. “Neste ponto é muito importante não cometer o erro estrutural de planejar o futuro se limitando somente ao principio de fazer apenas coisas agradáveis. É necessário integrar os educandos na vida social geral da nação. conduzir os educandos até o nível geral das metas propostas pelo governo aos cidadãos de todo o país. significa o grau . “Na etapa inicial da criação da coletividade. Para isto a coletividade deve se preparar meticulosa e sistematicamente para os próximos acontecimentos. mediante o planejamento de diversas tarefas que se denominam ‘perspectivas imediatas’. como disse anteriormente. Isto pode ser feito no regime de responsabilidades assumidas pelos círculos acadêmicos existentes na escola. A metodologia deste trabalho consiste em organizar novas perspectivas imediatas. por esse caminho somente forneceremos ~s crianças um epicurismo absolutamente inadmissível. “Quando a coletividade já está solidamente organizada e quando a opinião social amadureceu e torna-se mais exigente. principalmente. as quais correspondem a outras três fases no desenvolvimento da própria coletividade. finalmente. “Os preparativos para acontecimentos solenes são uma perspectiva intermediária importante. a preocupação relativa ao futuro do nosso país. como por exemplo: balanço geral. em utilizar aquelas que já temos e planejar. alunos e pedagogos. então é o momento de introduzir ativamente a ‘perspectiva intermediária’. principalmente. ‘‘Pode-se começar por planejar um bom jantar fora da escola ou uma saída para o teatro ou para um circo. Cada perspectiva Perspectivas imediatas 160 consiste. Esta etapa consiste na preparação de uma série de medidas complementares. Mas é importante que estas iniciativas surjam espontaneamente e que elas ampliem gradativamente as perspectivas de toda a coletividade para poder. “A busca do objetivo comum coletivo passa por três fases. a preocupação ativa de cada aluno com o futuro da sua coletividade.‘‘Educar o ser humano significa capacitá-lo para utilizar adequadamente seu tempo imediato. uma excursão. pouco a pouco. remodelação de diversos setores de trabalho etc. se não organizam os educandos com a metodologia aqui apresentada. encontros com convidados ilustres (grandes figuras internacionais). a ida coletiva ao cinema ou ao teatro. ao seu progresso. “O conteúdo da ‘perspectiva distante’ determina. nunca poderão atingir a realização de um bom trabalho e muito menos a disciplina.

“A capacidade de uma pessoa para entrar na vida com uma ou outra pespectiva está definida pelo critério adotado na importantíssima missão de fornecer uma educação correta. Makarenko defendia o princípio do comando único na direção da coletividade escolar. Assinalava que somente o diretor pode ter todos os poderes para dirigir uma escola e que todos os outros pedagogos devem desempenhar “funções iguais e manter relações iguais”. o enfraquecimento do centro da coletividade e de sua direção está diretamente ligado com a ativação das tendências anarquistas as quais levam a serem destruídos todos os contatos coletivistas fazendo com que ‘apodreça o organismo coletivo’. não somente falar e ler sobre ele. Se ela somente se conforma com seu próprio porvir. afirma que somente em 1932 Makarenko chegou a estabelecer o princípio de que a noção de coletividade apenas poderia existir numa sociedade socialista.superior na organização das metas futuras: isto significa não somente conhecer este porvir de ouvir falar. o bem-estar de cada um depende diretamente do bem-estar de todos. ainda que seja longínquo. o que libera as outras. Uma e outra coisa são determinadas exclusivamente pela forma como ele vê as perspectivas. senão sentir com todas as fibras internas o movimento do nosso país para adiante. mas não suscita em nós sensações de beleza pessoal nem verdadeiro valor. Até agora nos acostumaram a pensar que o importante é valorizar no homem a sua força e a sua beleza. coletividade. nela. Por sua vez. Já a subestimação da autogestão. suas obras e seus sucessos. eles têm que saber diferenciar os amigos e os inimigos de sua pátria. também. o escritor soviético Viktor Kumarin. Os educandos de uma instituição infantil soviética devem conhecer os perigos reais que ameaçam a organização do Estado. conduz. Um dos principais estudiosos da obra de Makarenko. nem poderia haver. estimulando as iniciativas e a interdependência dos próprios alunos para que estes possam se incorporar o mais rápido possível ao processo 162 ativo da direção da coletividade e aos processos da educação própria e da autogestão. a ausência. o que é prejudicial. Violar este equilíbrio traz obrigatoriamente conseqüências negativas. “Enquanto não existiu o socialismo não houve. cujas perspectivas são também para o homem as suas pessoais. de uma opinião social progressista. Devem entender que 161 a vida de cada um dos educandos é uma parte do presente e do futuro de toda a nossa sociedade. “A preparação para este tipo . na coletividade. A pessoa que determina sua conduta com uma visão do futuro imediato é sempre mais fraca.” A sociedade socialista está baseada no princípio do coletivismo e. Quanto mais ampla é a coletividade. pois transforma a coletividade num meio de pressão sobre o indivíduo. pode nos parecer forte. para se dedicarem exclusivamente ao trabalho pedagógico. é fundamental e decisivo um rigoroso equilíbrio dialético da direção e da autogestão. neste caso os professores. a um fortalecimento do poder administrativo. tanto mais bela e sublime é a pessoa. “Para fazer uma vida normal na qual a coletividade possa se desenvolver. Desta maneira as funções administrativas ficam nas mãos de uma única pessoa.

que é enviada para participar de um concurso nacional . que dizia: "É a República dos Sovietes. transformado em júri popular. Esta particularidade se pode explicar. resultou a leitura do manuscrito do Poema pedagógico. em 1931. publicação de seu livro de reportagens A marcha dos anos 30 e a finalização da novela FD-1. qualquer crítica reacionária. em 1930. “pelo grande sentido científico e prático da coletividade diretamente vinculada à tese marxista de que são as próprias pessoas que criam as circunstâncias. que explicava. Ekk.Cenas do filme O caminho da vida. onde foi consagrado como "a melhor obra do certame" pelo público. O caminho da vida foi apresentado no Festival de Cinema de Veneza.de relações e para tais dependências realiza-se. 163 CAPÍTULO 10 – O CAMINHO DA VIDA No início da década de 30. faz contato com Makarenko e. convencida do poder do trabalho realizado em comum e livremente aceito. ainda em elaboração. na qual se reproduz um tipo de relação característico para todo o conjunto da sociedade. Ekk decide transformar essa aventura numa saga cinematográfica e. em primeiro lugar. de acordo com Makarenko. A principal diferença representa a unidade de contatos: os membros da coletividade estão ligados mutuamente por relações e dependências diretas. pela sua verdade. filma O caminho da vida. famoso entre os artistas de teatro por ter sido ator e discípulo de Meyerhold. deste encontro. Após o sucesso em Veneza. na coletividade. influenciadas pela educação que receberam”. Após conhecer a experiência educativa dos bezprizornies. as causas da delinqüência juvenil dos anos 20 e terminava com uma frase assinada pelo pedagogo da Colônia Górki. mas também destacou-se por ser o primeiro filme falado do cinema soviético. Em 1932. num tom didático. No ano seguinte escreve a peça teatral Tom maior. de Vsevolod Pudovkin (1893-1953). conhecido pelo seu desempenho no filme A mãe (1926). O entusiasmo permanente de Górki em relação ao trabalho de Anton Semiónovitch despertou grande interesse no cineasta Nikolai Ekk (1898-). Esta fama era consolidada pelo prólogo do filme. Na União Soviética o filme ficou vários anos em cartaz. Nos países marcadamente anticomunistas a censura teve que fechar os olhos e aceitá-lo como uma obra que ultrapassava. ampliando ainda mais o prestígio de Makarenko. 166 A versão cinematográfica da Colônia Górki não somente foi considerada uma obra mestra. a obra pedagógica de Makarenko ultrapassa as fronteiras da docência e começa a ser divulgada nos diversos meios intelectuais de Moscou. na qual ele descreve uma nova etapa da vida da Comuna Dzerjinski. que dará a estes jovens a sua folha de arruda para toda a vida". narrando a epopéia makarenkiana. mereceu elogios pela sua interpretação no papel de Makarenko. também discípulo de Meyerhold. Figura . o filme percorreu o mundo. Makarenko estabelece diferenças claras para os conceitos de “sociedade’’ e de ‘‘coletividade’’. O ator Nikolai Batalov.” Analisando a coletividade como uma microestrutura social. 1932 foi um ano muito produtivo para Makarenko: lançamento internacional do filme.

tenho recebido informações por outros amigos de que você começa a se sentir cansado e que já se faz necessário um merecido descanso. onde o exbezprizorni. Li com grande emoção a cena do encontro dos gorkianos com os rapazes de Kuriáj. mas em 1932 já estava pronto o prefácio. e ele é publicado algum tempo depois. ele se aprofunda num dos pontos mais conflitantes de sua metodologia . Makarenko envia para Górki a segunda parte da trilogia pedagógica. mas. Tal como se pode ler no Poema pedagógico. fundada por Górki. meu querido amigo".de obras teatrais. não foi concluído. dizia: "Querido Anton Semiónovitch. encerra a terceira e última parte do Poema pedagógico e envia o texto para Górki. se você não termina seu livro. Nesse ano." Outro ano de grande importância literária para Makarenko foi 1934. em 1935. com a finalidade de que este providenciasse sua publicação. Makarenko ingressou como membro militante na União dos Escritores Soviéticos. Esse trabalho. Falando claramente. Nela analisava as dificuldades geradas pelo processo dialético da interação dos elementos gerais e individuais da . vá para qualquer zona de clima temperado e escreva até o fim seu livro. de uma forma geral. Anton Semiónovitch recebeu uma afetuosa carta de Górki. dirigido por Górki. Makarenko revela. e ninguém o conhecerá. Enquanto isso. Górki enviou cinco mil rublos como parte dos direitos autorais. Makarenko terminou a primeira parte do Poema pedagógico. escreve esta carta para Makarenko: ~ A terceira parte do poema me parece ainda mais valiosa que as duas primeiras. iniciado em 1931. Anton Semiónovitch foi julgado por um tribunal docente pelas suas concepções de disciplina e de honra. Há 12 anos você vem trabalhando sem parar e os resultados de sua obra não têm preço. que marca uma nova etapa da sua obra literária. Felicito-o por este bom livro. Assim que Górki terminou a leitura da saga gorkiana. ainda mais que tenho a responsabilidade de o apadrinhar. Juntamente com a carta. ele continua trabalhando no Poema pedagógico. Em fins de 1933. ainda em rascunho. que aparece no Almanaque ano dezoito. No dia 1º de julho desse mesmo ano. que foi imediatamente publicada no Almanaque ano dezessete. eu mesmo já deveria ter percebido que você necessita descansar. que está trabalhando na sistematização teórica das suas descobertas pedagógicas. Seguindo a mesma temática dos seus livros anteriores. muito preocupado com a saúde de Makarenko. Este tema ele desenvolveu na novela A honra. ficou conhecida com o título de A experiência metodológica na colônia infantil de trabalho. parabéns de todo o coração. Em fevereiro de 1933. já despojada do documentarismo. todo ele me emociona muito.o conceito de honra. numa conferência proferida no Circulo Docente de Kharkov. Essa obra. e estas coisas simples 167 deveria entendê-las eu mesmo. entre janeiro e setembro de 1935. Mas esse esforço ninguém o conhece. os 168 três primeiros capítulos de introdução e um capítulo denominado "O período organizativo". No outono de 1934. Então. O júri faz grandes elogios a este trabalho dramático de Makarenko. pois comprometia-se a editar o livro. Finalmente. A sua admissão foi saudada com verdadeiro entusiasmo pelos principais escritores da época.

escrita em 1935 e publicada no ano seguinte. Vladimir Monomakh. Em julho de 1935.. baseia-se. a práxis ética existente entre os homens que Makarenko definia como "A preocupação central do marxismo". que desde 1934 voltara a ser a capital da Ucrânia. que evitam que o educador torne os educandos objetos manipuláveis. todas as suas preocupações e pensamentos. e se instala na localidade de Irpén. Assisti à evolução que se manifesta normalmente a qual é conhecida como crescimento e desenvolvimento: a criança estuda no terceiro. e percebi que se Marx exigia uma superação revolucionária das relações econômicas e políticas alienadas na sociedade. trabalhando na Comuna Dzerjinski. pouco antes de ser transferido para Kiev a fim de trabalhar como assistente da chefia na Direção das Colônias de Trabalho do Comissariado do Povo do Interior da Ucrânia. Eu levo em conta uma influência instantânea. o educando a uma integração social exigida numa sociedade socialista. porém para isto é necessário um trabalho particularmente preciso da máquina. Nesta etapa da sua vida já tinha elaborado a estrutura geral do romance histórico sobre a Ucrânia. por uma 'explosão' ." E mais adiante ele acrescenta: "Isto não quer dizer. desta forma. os quais o consideram ainda seu diretor" moral. Makarenko definiu na sua Metodologia para a organização do processo educativo. alguns que mereciam ser elogiados e outros muito difíceis." A base fisiológica pavloviana manifesta-se mais lógica e clara do que nunca no seu pensamento. "De qualquer modo estava claro para mim que muitos detalhes da personalidade e do comportamento humanos podem ser reproduzidos em série com a prensa mecânica. Quando descobri a expressão externa dessas mudanças. a criança individualmente considerada deveria superar seu comportamento defeituoso mediante 'explosões e abalos' educativos. Entre os . então passei a me ocupar de elaborar uma metodologia destas 'explosões' e não acho outro termo para sua definição. que passou a ser o eixo central do processo educativo makarenkiano. de maneira alguma. conduzindo. que não exista uma diferença entre um caráter deformado e o que conhecemos por normal.. ali não tive problemas com os processos evolutivos do caráter. mas ele confessa que "existem propriedades individuais não-fabricáveis''. 169 Por explosão' não quero dizer que temos que colocar uma dinamite na pessoa. acender a mecha e sair correndo sem esperar que a pessoa voe em pedaços. eleva sua qualificação e adquire costumes de tipo social. durante o desfile de honra da olimpíada dos aficionados da arte das colônias de trabalho. a teoria das ''explosões pedagógicas''. trabalhar com cuidado e precisão escrupulosos. que revolucione todos os desejos da pessoa. Depois passa a trabalhar na fábrica. Isto significa. Em 1935.. na verdade. A distância que o separa da Comuna Dierjinski não limita seus contatos com os educandos. quarto grau e depois passa para o quinto. nas necessidades da própria coletividade''. o que não o impedia de receber freqüentemente visitantes de todo o pais.. A saúde de Makarenko piorava seguidamente. mas sim significa que o 'endireitamento' do caráter é muito mais simples realizá-lo mediante um método . perto da cidade. Makarenko encabeça a coluna dos comuneiros vitoriosos no certame. Este método ainda está em estudo. fundamentalmente. onde conheci muitos caracteres diversos.personalidade. onde continua escrevendo sua metodologia. Makarenko chega a Kiev. Ampliam-se seus horizontes e ela adquire mais conhecimentos e hábitos. se assim fica mais claro. ''Nos últimos cinco anos. Nesse ano.

admiradores que chegaram a Irpén conta-se Kornéi Chukovski (1882-1969), conhecido escritor soviético de obras para crianças, a quem Makarenko deu conselhos pedagógicos para acrescentar às suas histórias literárias. Em fevereiro de 1937, Makarenko transferiu-se para Moscou juntamente com sua família - sua esposa Galina e seu filho adotivo Liodka - e dedicou-se inteiramente à atividade literária. Seus artigos sobre pedagogia e outros temas afins apareciam regularmente nos jornais Pravda, Izvestia e outros, de Leningrado e do interior do país. Diariamente era convidado para dar palestras sobre educação nas escolas e no rádio. As principais conferências 170 realizadas na escola nº 310 de Moscou foram taquigrafadas e formam um volume especial na sua bibliografia . Em 1937 Makarenko publicou uma das suas obras-mestras de conteúdo pedagógico - O livro dos pais. Ele disse: "O que me levou a escrevê-lo? Acontece que em 1935-36 tive que organizar em Kiev várias colônias de trabalho e, nessa época, tinha que me ocupar menos das crianças vagabundas que das que tinham 'família'. Para isso tive que pesquisar as relações familiares e estudar o comportamento delas; esse material me pareceu interessante para poder escrever um livro destinado aos pais. No primeiro volume eu me refiro ao tema relativo à família como coletividade. O segundo analisa, fundamentalmente, as relações entre a educação moral e política da família e a função da escola para os filhos dessas famílias. O terceiro volume será dedicado às questões relativas à educação do trabalho e à orientação profissional, e o quarto volume, para mim o mais importante, tratará do tema sobre a necessidade de educar o homem para que seja feliz. Verdade que é interessante?'' A obra ficou incompleta. Makarenko terminou somente os dois primeiros volumes, como um profético testamento do seu pensamento humanístico. "A modesta tarefa desta obra consiste em ajudar os pais a olhar para trás, a refletir, a abrir os olhos." Na edição original, o livro explica a arte da educação por meio de imagens, exemplos e ilustrações, contendo, ao mesmo tempo, muitas teses teóricas sobre a educação. São esclarecidas noções como "boa família" e o que deve ser a correta orientação na educação dos filhos, bem como os aspectos negativos que às vezes são imperceptíveis, mas conduzem, inesperadamente, para os pais. No outono de 1937, a Rádio Central de Moscou transmitiu oito conferências de Makarenko dedicadas aos problemas da educação familiar, hoje amplamente conhecidas no mundo inteiro por terem sido conservadas na sua versão taquigráfica. Neste mesmo ano, a revista Outubro publica, em novembro e dezembro, as duas primeiras partes do romance de Makarenko A honra, e em janeiro-fevereiro de 1938, as duas partes finais. Poucos meses antes, no outono de 1937, Makarenko publicou um polêmico artigo literário no estilo das nossas crônicas, intitulado A felicidade, onde denominou a 171 literatura mundial "uma falação sobre a dor humana", demonstrando que nenhum dos grandes escritores tinha se ocupado com uma obra de vulto descrevendo a felicidade. Ele afirmou que a essência da questão estava nas propriedades tecnológicas do material literário, já que a felicidade não era, como tema, aproveitável. Somente a dor, por ser um fenômeno geral, dava direito ao protagonista a entrar na literatura. As citações

de autores iam de Tolstoi até Shakespeare, passando por Pushkin. A conclusão do artigo expressava a idéia de que a felicidade pessoal entraria na literatura numa época na qual ela não seria uma coisa fortuita e quando essa felicidade não estivesse do lado oposto da injustiça social. A felicidade apareceria como eixo central do romance somente numa obra literária produzida por uma sociedade livre, sem antagonismos de classe. Figura - Em Moscou Makarenko sente seu coração dar os primeiros de esgotamento. 172 O ritmo de trabalho abalou ainda mais a sua fraca Durante uma conferência, realizada na Universidade de Moscou, tema "Para que o homem precisa de defeitos?", segundo narra o Viktor Fink, "sentiu uma rápida visita da parca". Seu coração o primeiro sinal de esgotamento ... saúde. sobre o escritor tinha dado sinais

Nota: Parca, de acordo com a mitologia, refere-se a cada uma das deusas (Cloto, Láquesis e Átropos) que fiavam, faziam os novelos e cortavam o fio da vida. Relaciona-se, portanto, à morte. No inverno de 1938, ele já estava sob estrito controle médico: seu coração manifestou-se novamente. "Decidi levar a sério a tarefa de restaurar minha velhice: no próximo 1º de novembro parto para me tratar numa estação de repouso em Kislovodsk, o sanatório da serra de Krestóvaia; os médicos dizem que será muito fácil curar-me. Passarei o mês de setembro nos arredores de Moscou, numa espécie de prisão médica, mas os doutores não se contentam só com isso: preciso tomar banhos carbogasosos. Tenho que trabalhar muito; atualmente me ocupo sobretudo dos jovens. São pessoas cheias de vontade, de decisão, de resistência e energia, mas, infelizmente, falta-lhes talento, e essa é uma coisa terrivelmente importante. Por isso, temo muito que meu trabalho seja em vão. Acabo de começar um romance que se chamará Os anéis de Newton. É uma obra sobre os defeitos do homem, mas também sobre a sua dignidade. Escrevo-a com facilidade, sobretudo porque não estou com pressa, ainda não prometi nada a ninguém, ninguém me aperta, e trabalho de acordo com a minha vontade." O escritor soviético Kornéi Chukovski, também doente nessa época e que mantinha contato com Makarenko, escreveu nas suas memórias: "As nossas habitações ficavam no mesmo andar, e desde o primeiro dia que Makarenko chegou à clínica de repouso batia na sua máquina incansavelmente. Os médicos tinham-lhe solicitado que deixasse de escrever, mas ele continuou imperturbável. Naquele momento estava começando seu romance Caminhos de uma geração. As vezes tive a sorte de levá-lo a passear até a montanha, e no caminho Anton Semiónovitch recitava versos dos nossos grandes poetas. Ele me deu muitos conselhos pedagógicos, que apliquei nas minhas criações literárias para as crianças". O romance Bandeiras nas torres foi uma das suas obras mais importantes no campo da literatura pedagógica. No Poema pedagógico, Makarenko narra suas experiências com os "transgressores da lei", segundo 173

novas visões do comportamento social. Ele queria mostrá-los, sobretudo, como seres humanos com bons sentimentos, simpáticos e simples. Queria despertar na sociedade a simpatia para com eles e que a sociedade acreditasse neles. Já no livro Bandeiras nas torres, Makarenko conta a história da Comuna Dzerjinski, que era, na sua forma exterior, uma continuação da Colônia Górki. No Poema pedagógico, Anton Semiónovitch procura responder à questão de como representar a luta do indivíduo consigo mesmo e a luta do coletivo pela sua valorização e pela conquista de sua fisionomia, dos seus direitos. Uma luta que, segundo o próprio Makarenko, foi "mais ou menos tensa". Em Bandeiras nas torres, Makarenko tinha um outro objetivo; nesse livro ele procurou representar um coletivo feliz numa sociedade feliz. Ao mesmo tempo, queria mostrar que "a felicidade deste coletivo, que se manifesta em muitas ocasiões sob formas profundamente poéticas, consiste também numa luta, mas esta luta não é tão tenaz nem se trava contra os obstáculos e inimigos evidentes, como foi no reformatório; ela é delicada e se manifesta num movimento das forças internas humanas, expressas com freqüência por tonalidades interiores e dificilmente perceptíveis". Todos estes problemas importantes e complicados, Makarenko somente os percebeu na Comuna Dzerjinski. Ali”, diz ele, "notei e senti, com particular sensibilidade, que ainda não tinha abrangido suficientemente toda a complexidade do processo da educação do homem novo. Mas também entendi que este processo acontece não somente no seio da própria coletividade, senão no conjunto da nossa sociedade socialista. E um processo que compreende o trabalho e as suas relações internas, o crescimento do próprio homem e, finalmente, as múltiplas e sutis relações entre os educandos Bandeiras nas torres apareceu em 1939. No dia 31 de janeiro do mesmo ano, Makarenko recebeu uma das mais importantes condecorações do governo soviético: a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho, "pelos seus destacados êxitos e realizações em prol da literatura e da pedagogia soviéticas". Nestes meses ele continuou uma intensa vida produtiva; tinha terminado o roteiro literário para um filme denominado Um caráter verdadeiro e já tinha entregue o argumento de outro roteiro cinematográfico 174 chamado Em comissão de serviço. As suas ligações com o cinema eram cada vez maiores. Na área pedagógica ele continuava produzindo diariamente; em pouco tempo escreveu vários artigos importantes, entre os quais os famosos "Sobre a ética comunista" e "Literatura e sociedade". Nas cartas dessa época, ele fala muito sobre o cinema e sobre a intenção de se dedicar nos próximos três anos a elaborar um trabalho fundamental acerca da educação comunista. Em fevereiro de 1939, Makarenko solicitou seu ingresso no Partido Comunista, petição que foi imediatamente concedida. O pedido de Makarenko foi incluído na ordem do dia em 4 de abril de 1939, para ser oficializado durante a reunião que o Partido Comunista realizaria na União dos Escritores Soviéticos. Na primeira semana de março, Anton Semiónovitch realizou uma nova viagem a Kharkov onde, no dia 9, no Instituto Pedagógico, pronunciou a sua famosa conferência que leva o titulo "Minhas concepções pedagógicas''. Ali ele entrevistou-se com muitos dos seus antigos educandos, alguns deles já professores da comuna e de outras instituições de ensino. Esta foi a sua última intervenção pública e seu último encontro com seus queridos pupilos.

principalmente. a uma permanente exigência de cada pessoa. que eu aqui permanecerei. uma obra gigantesca feita em benefício das crianças e dos homens. Observou o céu azul e lembrou os versos de Tchevtchenko . que fez jus a todos os seus preceitos. se há ainda neve. Tinha 51 anos. Makarenko protestou sempre contra as calúnias da velha docência sobre a missão do coletivo que. fazendo planos para o futuro. tendo criado. supostamente.Em Moscou ele continuava sua vida agitada. mais de três mil crianças passaram sob seu atento olhar. Escreveu: "A felicidade é artesanal. as granjas dos camponeses cheias de girassóis e flores. Ao elaborar as leis do processo pedagógico socialista. órfãos meus.. Anton Semiónovitch observava da janela do trem o luminoso dia moscovita. que determinaram as leis do desenvolvimento da sociedade. Makarenko demonstrou quais eram as bases da educação soviética. como também a seus objetivos e tarefas concretas. e não se pode dizer o que brilha nelas e com que luz brilha.. ligadas. Entre as bétulas. procedente da cidadezinha de Golitsino. um belo coletivo de educandos e educadores. Cada um dos meios da educação foi encarado por Makarenko não de maneira isolada. Foi um pedagogo marxista. os ribeiros e os garotos. onde o indivíduo recebe "uma instrução plena. e dedicou os últimos 15 anos de sua vida à aplicação prática e ao aperfeiçoamento do sistema de educação da juventude. a quatro tempos. em suas obras ele denunciou impiedosamente o idealismo e a metafísica na pedagogia.. ide para lá." Makarenko fechou os olhos e sorriu aliviado. Não é feita em fábrica. "despersonalizava" o indivíduo. Mas a fila que formam em Golitsino é verdadeira e luxuosamente real. à nossa Ucrânia. nesse tempo. um pássaro canta delicadamente uma frase muito simples. desenvolve-se multilateralmente e entra na sociedade madura com uma marcante visão pessoal da vida". 175 w botas de feltro e golas de pele. ele pensava: "A natureza inventou a morte. Anton Semiónovitch Makarenko consagrou 30 anos da sua vida à atividade pedagógica.. localizada perto da capital soviética.." Pensa: “Um claro dia de primavera e. por Lênin. durante uma viagem. o dia continuava luminoso e as bétulas resplandecentes faziam dessa primavera um momento ainda mais feliz. esses festejam a primavera. A resposta de Anton Semiónovitch a essa reação foi a definição do "coletivo perfeito". No dia 1? de abril de 1939. A sua obra pedagógica inculca uma alta confiança nas possibilidades humanas. os bosques de bétulas. Agora já sabia o que era a felicidade.. mas vinculada a todo o sistema geral educacional. ainda que com grandes dificuldades.. cujo objetivo é a formação do coletivo humano perfeitamente integrado no coletivo social. gelo.. e depois recomeça. . Afirmando a prioridade da sociedade sobre o indivíduo. as da natureza social do homem e as da nova moral socialista. Makarenko caminhou pela estrada aberta pelos teóricos da Revolução de Outubro e. por outro lado... 'Ide ü Ucrânia. Em suas conclusões. Makarenko enfocou de maneira inovadora os 176 . encostou a cabeça no vidro da janela. As bétulas cintilam com um clarão primaveril. Cala-se. mas o homem aprendeu a não fazer caso dela".

O homem existe com todas as suas inquietações grandes e pequenas. A natureza. o mundo também não tem finalidade. os inimigos. Através de uma luta pessoal. Protesta. O pedagogo deve ser um bom organizador. Makarenko sublinhava constantemente o papel fundamental do pedagogo na totalidade do processo educativo. Makarenko. Quanto mais a humanidade se desenvolveu. ou em regras de repressão. por assim dizer. na sua aplicação. E é preciso. Makarenko afirmava que a mestria pedagógica deve atingir tal grau de perfeição que. A cada uma destas ações corresponde uma finalidade. "Tal finalidade não é. ignora a noção de finalidade. também fez referência a estas questões. A base da disciplina deve ser a exigência da participação de todos nos interesses gerais do coletivo. t uma finalidade razoável e é razoável 177 querer atingi-la. Todavia. Na realidade é um falso problema. Mas o homem não pode suportar a morte. Evidentemente o essencial é responder à pergunta: qual é a finalidade absoluta da vida? Este problema sempre é apresentado e todos acreditam que é necessário dar-lhe uma resposta. uma finalidade em si mesma. evidentemente. A morte parece-lhe um fenômeno atroz. não respondê-lo. a idéia de coletividade é expressa sob as suas formas mais perfeitas. No mundo antigo. não deve se esgotar em uma ordem externa. Exprime apenas o desejo de obter o máximo do que é dado pela própria natureza. ela própria. uma finalidade absoluta. Está bem ou está mal? "Não está bem nem está mal. A juventude caracteriza-se pelo entusiasmo e pela busca da verdade. essa finalidade era atingida por todos nós com os seus próprios riscos e perigos. A vida é uma seqüência de ações pequenas ou grandes destinadas a sobreviver. No socialismo. O texto a seguir foi escrito oito meses antes da sua morte e revela a profundeza do seu espírito: "A vida humana desenrola-se segundo leis rigorosas.problemas da disciplina: esta. deve dominar a técnica do trabalho educativo e sempre se sentir como o membro responsável do coletivo. a fome. ela possa ser considerada tecnicamente como uma ciência exata. a necessidade. contra o frio. na sua visão filosófica. Para poder realizar esta educação dos "homens em homens". Que é uma finalidade? De onde provém o conceito de finalidade e o próprio termo? "O conceito de finalidade provém da atividade humana. segundo ele. Toda a vida do homem consiste em lutar contra a natureza. A disciplina soviética deve ser o resultado de um trabalho educacional. mais começou a compreender que essa finalidade seria atingida mais facilmente se o homem não lutasse sozinho mas em coletividade. mas todas estas finalidades não são de fato mais do que uma só e mesma coisa: a preocupação de viver a maior quantidade de tempo e o melhor possível. está sempre na busca de um sentido para sua vida. não quer morrer. na natureza não há e não pode haver finalidade. simplesmente. uma disciplina de luta voltada para a superação das dificuldades impostas pelos objetivos do coletivo. a finalidade continua a ser a mesma: o homem quer viver a maior quantidade de tempo e o melhor possível. numa palavra. mas não se deve duvidar do fato de que dentro de alguns séculos se encontrarão formas de coletividade novas e ainda mais ricas. . Mas a realidade do universo nunca deve ser esquecida.

Aí reside a sabedoria da vida e. com esta plenitude de alegria e de tristeza. o progresso do homem-matéria. ou pela revolução tecnológica. que ela está na origem de tudo o que é belo. Educava tal como vivia: com o coração. 179 . também. Estou persuadido de que os homens continuarão lutando sucessivamente contra a natureza. contra a sua própria natureza. às vezes. "Os homens sempre viveram assim e assim continuarão. a vida mais odiosa. não há qualquer contradição entre elas. com uma plenitude de sentimentos. A vida e a morte são leis naturais. "Mesmo quando imaginamos a vida eterna. Eu quero viver na matéria que me surge em toda a riqueza e esplendor da minha individualidade. algo tão importante que eu a trocaria de muito boa vontade pela eternidade. enquanto os outros encontram prazeres mais complexos e mais ricos: o trabalho. possa alterar qualquer coisa é uma suposição que em nada se baseia. como aliás é fácil falar de Pedagogia. quando à vida opomos a morte. a luta. sua finalidade. a alegrarem-se. nela os sofrimentos serão desagradáveis. lutar contra a natureza e. Imaginar que uma finalidade. que há de mal nisso? Que direito temos de desprezar a matéria? É uma coisa notável. não há. De qualquer forma. Vivo porque amo a vida. uns consideram que o encanto da vida é um pedaço de pão ou um copo de vodca. Ela é bela justamente porque não é prática. não com as suas vitórias pessoais. "E é tudo. uma finalidade absoluta que a vida tivesse. ou pelas grandes invenções. mas com as vitórias da humanidade. amo o dia e a noite. Torna-se repugnante na nossa imaginação. “Discutir sobre o fato de sermos matéria não serve de nada. rica em possibilidades e em beleza. porque não tem o egoísmo por medida. Em outras palavras: a matéria expressa pela música de Beethoven ou de Tchaikovski. porque é feita de lutas e de perigos. é uma grande coisa. Gosto da vida tal como ela é. O homem aprendeu a lutar contra a morte. nós não temos direito a isso. Simplesmente. aprenderão a viver melhor e mais tempo. “Eu considero que a vida deve ser bela. de sofrimentos e de pensamentos. e esse é o sentido verdadeiro do socialismo. mas de qualquer maneira viverão sempre quase como eu. embora a sofresse. e saber viver essas belezas." Makarenko queria transmitir ao homem uma confiança infinita. mas não deve em absoluto ter uma finalidade. de uma espécie 178 de orgulho e de independência com relação à natureza. Ora. aprenderão cada vez mais a sentir as alegrias da vida em coletividade. A morte é tão natural quanto a vida. a desprezar a morte. Ele convencia os seus educandos de que eles eram "uma fonte inesgotável de possibilidades". são temas bem conhecidos e todas as pessoas se dizem especialistas nessas matérias". Pelo contrário. Simplesmente. E mesmo não sendo mais do que matéria. amo a luta. ele dizia: "Ë fácil falar do amor.Na realidade. evidentemente. nada de terrível na morte. e o estado de nada não tem nada de repelente. entre outras coisas. a beleza. Quando se encontrava com outros professores. Tudo isso me agrada. O mais importante é saber distinguir as belezas de hoje e de amanhã. ela em pouco diferirá da nossa vida atual. gosto de ver o homem crescer. isto é. a visão demasiadamente nítida de uma finalidade individual torna. e a felicidade agora também é uma coisa agradável.

muito simplesmente. Frente Cultural. La Paz. 1987. Impresiones de ia Rusia soviética y del mundo revolucionario. 1974. 1984. N. Madri. Anatoli. Alberto Corazón Editor. (25) PAVLOV. 1985. 1982. Alianza. Progresso. Evgueni. (3) . Poema pedagógico. Les maitres de la langue. 2. 1977. (23) MEYERHOLD. (17) . Historia de la Rusia soviética. Bons et alii. 1968. Lisboa. O livro dos pais. Vladimir Ilich. (10) KRÜPSKAIA. Charlas y artículos. respondeu: . La literaturay el arte . Madri. (15) . Maspero. Recuerdos acerca de Makarenko. Anton Semiónovitch. Alberto. Moscou. 1987. Moscou. Progresso. (6) FEDIUKINE. Horizonte Pedagógico. A revolução socialista na Rússia e a intelectualidade. et alii. Conferências sobre educação infantil. 1968. 2. México. 1981. Moscou. Progresso. Problemas da educação escolar. o que Makarenko ensinava. e VISALBERGHI. (24) MUDRIK. 5. São Paulo. Horizonte Pedagógico. A ciência e a educação popular soviética. 2v. 1986. 1981. D. Edward Hallett. (16) MAKARENKO. História da pedagogia. Mikhail. 1973. 4v. Progresso. Moscou. Textos teóricos. Moscou. 1978. Moscou. . Madri. Academia de Ciências da URSS. Nuestra Cultura. Moscou. (21) . Formalismo e vanguarda. Progresso. Paris. O melhor para as crianças. 14v. (11) KUMANIOV. A educação na escola secundária. Alberto Corazón Editor. (12) LATÍSHINA. 3v. Progresso. (9) IROCHNIKOV. (26) PINKEVICH. (13) LÊNIN. Moscou. (8) GORKI. (22) MARR. Banderas en las torres. John. Moscou.A sermos felizes. ed. Moscou. 1987. Zahar. (19) . A. La cultura y la revolución cultural. Moraes. 3. (4) DEWEY. Nóvosti. ed. (5) EIKHENBAUM. V. Vsevolod. 1973. 1976. ed. 1972. Lisboa. 1982. Moscou. quando perguntaram a Semion Kalabalin. Nóvosti. Nadejda. Ivan P. La escuela primaria soviética. Máximo et alii. Progresso. 5. 1954. ed. Inti. 182 (20) . 1985. Progresso. 180 BIBLIOGRAFIA (1) ABBAGNANO. O primeiro governo soviético. (14) . La revolución rusa: de Lênin a Staíin — 1917-1929. São Paulo. Reflexos condicionados e inibições. Madri. 1981. 2v. Alianza. Moscou. Seara Nova. A. (18) . 1939. La nueva educación en la Unión Soviética. o educando que figura no Poema pedagógico com o sobrenome Karabánov. Progresso.E uma vez. 1974. (7) FOTEEVA. Rio de Janeiro. 1979. ele. La educación comunista. Brasiliense. Lisboa. Nikolai & POLIVANOV. (2) CARR. 1981. Madri. Sobre a educação.

La Paz. (28) PRIBITKOV. 1979. Progresso. Progresso. Imprescindíveis a todos os educadores que. La ense.Temas voltados para a elaboração dos mais variados recursos auxiliares no processo de ensino-aprendizagem. contudo. 1984. 1982. L. participando vivamente de seu desenvolvimento global. Alberto Corazón Editor. Cada livro encerra a experiência concreta de educadores muito atuantes. Os três selos abaixo — Fundamentos. Moscou. Gisbert y Casanovas. FUNDAMENTOS PARA O MAGISTÉRIO . La disimilisud de lo similar. (30) SKLOVSKI. Kitty D. desejando transformar o futuro. Alfredo Guillén & GUILLEN. 1945. Victor. Madri. Pygmalion. Generación de los luchadores optimistas.(27) PINTO. Buenos Aires. (31) UCHINSKI. Utama. Moscou. 1975.Obras que dão uma visão histórica e filosófica da atuação de mestres que se dedicaram ou contribuíram para a Educação. et alii. (29) SCHNITZER. Como foi liquidado o analfabetismo no país dos sovietes. 1984. 183 Capa PENSAMENTO E AÇÃO NO MAGISTÉRIO A série Pensamento e Ação no Magistério baseia-se numa concepção global da Educação e propõe-se a abordar de forma integrada a teoria e a prática educacionais. Moscou. Histoire du cinema sovietique: 1919-1940. RECURSOS DIDÁTICOS PARA O MAGISTÉIRO . V. A série é dirigida àqueles que buscam interagir com a criança e o adolescente. Natty Peñaranda de.ianza y el desarrollo. Moscou. Paidós. 1973. Recursos Didáticos e Mestres da Educação — indicam a ênfase dada a cada um desses aspectos. precisam compreender o passado e o presente. Obras escolhidas. Paris. recursos didáticos e mestres da educação.Livros que focalizam a fundamentação teórica indispensável à formação pedagógica dos professores de pré-escola. (32) WEAVER. MESTRES DA EDUCAÇÃO . 1º grau e demais licenciaturas. Educación preescolar en la Unión Soviética. . sem esquecer. (34) ZINÓVIFV M. Constantin. Progresso. A. A série Pensamento e Ação no Magistério reúne as contribuições teóricas e práticas necessárias a todos os educadores que desejam modificar seu fazer pedagógico no dia-a-dia em sala de aula. (33) ZANKOV. 1973. os componentes metodológicos. Progresso. & PLECHAKOVA. Os títulos estão distribuídos em três grandes áreas de interesse: fundamentos. com freqüência só divulgada pela tradição oral. Jean & Luda.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->