COMENTÁRIO À EPÍSTOLA DE TIAGO

POR

JOÃO CALVINO1

O ARGUMENTO
A partir dos escritos de Jerônimo e Eusébio, parece que antigamente esta Epístola não era recebida sem oposição por muitas igrejas. Hoje também existem alguns que não a consideram com digna de autoridade. Contudo, estou disposto a recebê-la sem controvérsia, porque não vejo boa causa para rejeitála. Pois aquilo que no capítulo dois parece inconsistente com a doutrina da justificação gratuita, explicaremos facilmente em seu devido lugar. Embora, ao proclamar a graça de Cristo, ele pareça ser mais escasso do que convinha a um apóstolo, certamente não é necessário que todos lidem com os mesmos argumentos. Os escritos de Salomão diferem muito dos de Davi – enquanto o primeiro estava atento à formação do homem exterior e ao ensino dos preceitos da vida civil, o último falava continuamente da adoração espiritual a Deus, da paz de consciência, da misericórdia de Deus e da promessa gratuita da salvação. Mas esta diversidade não deveria nos levar a aprovar um e a condenar o outro. Além disso, entre os próprios evangelistas existe tanta diferença ao demonstrar o poder de Cristo, que os outros três, comparados a João, mal possuem centelhas do pleno esplendor que se mostra tão conspícuo neste; e, no entanto, nós recomendamos a todos eles de igual modo. É suficiente dizer, para que os homens recebam esta Epístola, que ela não contém nada indigno de um apóstolo de Cristo. Na verdade, está cheia de instrução sobre vários assuntos, cujo benefício se estende a todos os aspectos da vida cristã; pois aqui há passagens notáveis sobre a paciência, oração a Deus, a excelência e o fruto da verdade celestial, humildade, deveres sagrados, o comedimento da língua, o cultivo da paz, a repressão das paixões, o desprezo do mundo, e coisas semelhantes, que discutiremos separadamente em seus devidos lugares. Mas, quanto ao autor, existe um pouco mais de razão para dúvidas. Na verdade, é certo que não foi o filho de Zebedeu, pois Herodes o matou logo após a ressurreição de nosso Senhor. Os antigos são quase unânimes em pensar que fosse um dos discípulos e parente de Cristo, chamado Oblias, que fora colocado sobre a igreja em Jerusalém; e eles consideravam que fosse aquele que Paulo mencionara juntamente com Pedro e João – os quais afirma serem considerados as colunas (Gl 2:9). Mas que um dos discípulos fosse mencionado
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Tradução: Rodrigo Reis de Faria (rodrigoreisdefaria@gmail.com). Fonte: Calvin’s Commentaries (traduzido para o inglês por John King, disponível no site: http://www.sacred-texts.org).

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como uma das três colunas, e assim exaltado acima dos demais apóstolos, não me parece provável. Portanto, estou mais inclinado a conjecturar que aquele de quem Paulo fala fosse o filho de Alfeu. Contudo, não nego que um outro fosse o governante da igreja em Jerusalém, e, de fato, alguém do colégio dos discípulos; pois os apóstolos não estavam vinculados a nenhum local particular. Mas qual dos dois foi o escritor desta Epístola, não cabe a mim dizer. Que Oblias era realmente um homem de grande autoridade entre os judeus revela-se inclusive a partir disto, que, como havia sido cruelmente condenado à morte pela facção de um ímpio sumo sacerdote, Josefo não hesitou em imputar a destruição da cidade em parte à sua morte.

TIAGO 1:1-4
1. Tiago, servo de Deus, e do Senhor 1. Jacobus, Dei ac Domini Jesu Christi Jesus Cristo, às doze tribos que andam servus, duodecim tribubus quae in disperdispersas, saúde. sione sunt, salutem. 2. Meus irmãos, tende grande gozo 2. Omne gaudium existimate, fratres mei, quando cairdes em várias tentações; quum in tentationes varias incideritis; 3. Sabendo que a prova da vossa fé ope- 3. Scientes quod probatio fidei vestrae, ra a paciência. patientiam operatur 4. Tenha, porém, a paciência a sua obra 4. Patientia vero opus perfectum habeat, perfeita, para que sejais perfeitos e com- ut sitis perfecti et integri, in nullo pletos, sem faltar em coisa alguma. deficientes.

1. Às doze tribos. Quando as dez tribos foram deportadas, o rei da Assíria as estabeleceu em diferentes lugares. Depois, como normalmente ocorre nas revoluções dos reinos (tal como ocorreu então), é mui provável que eles se movessem daqui para lá, em todas as direções. E os judeus estavam espalhados em quase todos os cantos do mundo. Então, ele escreveu e exortou a todos aqueles a quem não podia se dirigir pessoalmente, porque estavam espalhados por toda a parte. Mas, que ele não fale da graça de Cristo e da fé nele, a razão parece ser porque se dirigia àqueles que já haviam sido devidamente ensinados por outros; de modo que não precisavam tanto de doutrina como dos aguilhões das exortações.2
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A saudação é peculiar; mas no mesmo formato da carta enviada a Antioquia pelos apóstolos (dos quais Tiago era um), e pela igreja em Jerusalém (At 15:23). Portanto, é apostólica, ainda que adotada a partir de um formato normalmente utilizado pelos escritores pagãos. Vede At 23:26. João (em Jo 2:10 e 11) usa o verbo χαίρειν em um sentido similar; e este significa propriamente regozijar-se. Sendo um infinitivo, o verbo λέγω, dizer ou mandar, é expresso antes por João, e evidentemente está subentendido aqui. Por isso, a saudação pode ser traduzida assim: “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, manda (ou envia, ou deseja) alegria às doze tribos que estão na sua dispersão”. Houvera uma dispersão oriental e outra ocidental, a primeira no cativeiro assírio e babilônico, e a segunda durante o predomínio do governo grego, que começou com Alexandre o Grande. Como esta epístola foi escrita em grego, não há dúvida de que fora planejada mais especificamente para os desta última dispersão. Mas o benefício da dispersão oriental logo fora considerado, uma vez que a primeira

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2. Grande gozo. A primeira exortação é: suportar as provas com um espírito alegre. E naquele tempo era especialmente necessário confortar os judeus, praticamente esmagados como estavam por dificuldades. Pois o próprio nome da nação era tão infame que eles eram odiados e desprezados por todos os povos, para onde quer que fossem; e sua condição como cristãos os tornava ainda mais miseráveis, porque tinham sua própria nação como seus inimigos mais inveterados. Ao mesmo tempo, esta consolação não era tão apropriada para um único momento, mas é sempre útil para os fiéis, cuja vida é uma constante batalha na terra. Mas para que saibamos mais perfeitamente o que ele quer dizer, sem dúvida precisamos entender tentações ou provas como incluindo todas as coisas adversas; e elas são assim chamadas porque são os testes da nossa obediência a Deus. Ele manda aos fiéis, enquanto exercitados por elas, a se regozijarem; e isto não apenas quando caem em uma única tentação, e sim em muitas; não apenas de um tipo, mas de vários tipos. E, sem dúvida, visto como servem para mortificar a nossa carne, assim como os vícios da carne espocam constantemente em nós, do mesmo modo elas devem ser necessariamente repetidas com frequência. Além disso, assim como labutamos sob enfermidades, do mesmo modo não é de se surpreender que devam ser aplicados remédios diferentes para removê-las. Então, o Senhor nos aflige de várias maneiras, porque a ambição, avareza, inveja, glutonaria, intemperança, o amor excessivo ao mundo, e as inúmeras paixões em que abundamos, não podem ser curadas pelo mesmo remédio. Quando ele nos manda ter grande gozo, é o mesmo que se tivesse dito que as tentações devem ser estimadas como ganho, a fim de que fossem consideradas como ocasiões de alegria. Em suma, ele quer dizer que não há nada nas aflições que deva perturbar a nossa alegria. E, assim, não apenas nos manda suportarmos as adversidades tranqüilamente, e com um espírito sereno, mas nos revela que esta é a razão pela qual os fiéis deveriam se regozijar quando abatidos por elas. De fato, é certo que todos os sentidos da nossa natureza estão formados de tal modo que toda a prova produz em nós aflição e tristeza; e nenhum de nós pode se despir da sua natureza de tal modo a não se afligir e ficar triste sempre que sinta algum mal. Mas isto não impede que os filhos de Deus se ergam, pela orientação do Espírito, acima da tristeza da carne. Pois, por outro lado, alguém poderia objetar: “Como podemos considerar como doce aquilo que é amargo ao sentido?” Então, ele revela, através do efeito, que devemos nos regozijar nas aflições porque elas produzem um fruto que deve ser sumamente valorizado – a paciência. Se, então, Deus providencia a nossa salvação, ele nos concede um motivo de alegria. Pedro usa um argumento semelhante no começo da sua primeira Epístola: “Para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro, possa estar, etc.” (1 Pe 1:7). Certamente tememos as doenças, e a necessidade, e o exílio, e a prisão, e o opróbrio, e a morte, porque as conversão do Novo Testamento fora preparada nesta língua, ou seja, no siríaco; e isto fora feito no começo do segundo século.

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sideramos como males; mas, quando entendemos que elas são transformadas pela bondade de Deus em socorros e auxílios para a nossa salvação, é ingratidão murmurar, e não nos submetermos, de boa vontade, a sermos assim tratados paternalmente. Paulo diz, em Rm 5:3, que devemos nos gloriar nas tribulações; e Tiago diz aqui que devemos nos regozijar. “Nos gloriamos”, diz Paulo, “nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência”. O que vem logo em seguida parece ser contrário às palavras de Tiago; pois ele menciona a provação em terceiro lugar, como o efeito da paciência, que aqui é expressa primeiro, como se fosse a causa. Mas a solução é óbvia; a palavra ali tem um sentido ativo, mas aqui, passivo. A provação, ou prova, segundo afirma Tiago, produz a paciência; pois, se Deus não nos provasse, mas nos deixasse livres de dificuldades, não haveria a paciência – que não é outra coisa senão firmeza de espírito em suportar os males. Mas Paulo quer dizer que enquanto, suportando, vencemos os males, experimentamos o quanto é útil o auxílio de Deus nas necessidades; pois, então, a verdade de Deus é como que manifestada a nós na realidade. Por onde ocorre que nos atrevemos a nutrir maior esperança quanto ao futuro; pois a verdade de Deus, conhecida pela experiência, é crida mais plenamente por nós. Por isso, Paulo ensina que por meio de tal provação, ou seja, por tal experiência da graça divina, é produzida a esperança; não que a esperança só comece aí, mas que ela aumenta e é confirmada. Mas ambos querem dizer que a tribulação é o meio pelo qual a paciência é produzida. Além disso, os espíritos dos homens não são formados pela natureza de tal modo que a aflição em si produza a paciência neles. Mas Paulo e Pedro não consideram tanto a natureza dos homens quanto a providência de Deus através da qual ela vem, que os fiéis aprendam a paciência através das dificuldades; pois os infiéis são, por meio delas, provocados mais e mais à loucura, como prova o exemplo do Faraó.3 4. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita. Como a ousadia e a coragem geralmente aparecem em nós e logo falham, por isso ele pede a perseverança. “A verdadeira paciência”, diz, “é aquela que sofre até o fim”. Pois obra aqui significa o esforço, não apenas para vencer em uma única disputa, mas para perseverar por toda a vida. Sua perfeição também pode estar relacionada à sinceridade da alma – que os homens devem de boa vontade, e não fingidamente, se submeterem a Deus; mas, como é acrescentada a palavra obra, prefiro explicá-la no sentido da constância. Pois existem muitos, conforme dissemos, que a princípio mostram uma grandeza heróica, e logo depois se cansam e desfalecem. Portanto, ele manda àqueles que queriam ser perfeitos e completos4
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A palavra usada por Tiago é δοχίµιον, prova, o ato de testar; e, por Paulo, δοχιµὴ, o resultado do teste, a experiência. Tiago fala da provação, e Paulo da experiência obtida através dela.
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“Perfeitos, τέλειοι”, plenamente desenvolvidos, maduros; “completos, ὁλόχληζοι”, inteiros, não faltando nenhuma parte. O primeiro se refere à maturidade da graça; e o segundo à sua completude, não estando em falta nenhuma graça. Eles deviam ser como homens plenamente desenvolvidos; e não deformados ou mutilados, mas tendo todos os seus membros completos.

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que perseverassem até o fim. Mas, o que quer dizer com estas duas palavras, depois ele explica com respeito àqueles que não fracassam nem se cansam; pois os que, sendo vencidos quanto à paciência, se abatem, necessariamente se enfraquecerão aos poucos, e finalmente fracassarão por completo.

TIAGO 1:5-8
5. E, se algum de vós tem falta de sabe- 5. Porro si quis autem vestrum destituitur doria, peça-a a Deus, que a todos dá libe- sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus ralmente, e o não lança em rosto, e ser- simpliciter, nec exprobrat; et dabitur ei. lhe-á dada. 6. Peça-a, porém, com fé, em nada duvi- 6. Postulet autem in fide, nihil haesitans; dando; porque o que duvida é semelhan- nam qui haesitat similis est fluctui maris, te à onda do mar, que é levada pelo ven- qui a vento agitur et circumfertur. to, e lançada de uma para outra parte. 7. Não pense tal homem que receberá do 7. Non ergo existimet homo ille quod sit Senhor alguma coisa. quicquam accepturus a Domino. 8. O homem de coração dobre é incons- 8. Vir duplici animo, instabilis est in omnitante em todos os seus caminhos. bus viis suis.

5. Se algum de vós tem falta de sabedoria. Como a nossa razão, e todos os nossos sentimentos, são avessos ao pensamento de que podemos ser felizes em meio aos infortúnios, ele nos manda pedirmos ao Senhor que nos dê sabedoria. Pois sabedoria aqui eu limito ao assunto da passagem – como se tivesse dito: “Se esta doutrina é mais alta do que vossas mentes possam alcançar, pedi ao Senhor que vos ilumine pelo seu Espírito; pois, assim como somente esta consolação é suficiente para mitigar todas as amarguras dos infortúnios – que aquilo que é doloroso para a carne é salutar para nós; do mesmo modo, seremos necessariamente vencidos pela impaciência, a menos que sejamos sustentados por esta espécie de conforto”. Como sabemos que o Senhor não exige tanto de nós o que esteja acima da nossa força, mas que ele está pronto a nos ajudar, desde que peçamos; portanto, sempre que nos comanda alguma coisa, aprendamos a pedir dele o poder para cumpri-lo. Embora, nesta passagem, ser sábio seja submeter-se a Deus na resignação dos males, sob a devida convicção de que ele ordena todas as coisas de tal modo a promover a nossa salvação; por outro lado, a sentença pode ser aplicada em geral a todos os ramos do verdadeiro conhecimento. Mas, por que ele diz: Se algum de vós, como se todos eles não precisassem de sabedoria? A isto respondo que todos estão, por natureza, sem ela; mas que alguns são dotados com o espírito de sabedoria, enquanto outros estão sem. Como, então, nem todos tivessem feito progresso tal para se regozijarem na aflição, mas havia poucos a quem isto havia sido concedido; Tiago se referia a casos como estes; e ele lembrava àqueles que ainda não estavam plenamente convencidos de que, através da cruz, sua salvação fora promovida pelo Senhor, que eles deviam pedir para que fossem dotados de sabedoria. E, contudo, não há dúvida de que a necessidade nos lembra a todos de pedirmos a mesma coisa; pois aquele que tem feito o maior progresso ainda está muito

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longe do alvo. Mas, pedir o incremento da sabedoria é algo diferente de pedi-la pela primeira vez. Quando nos manda pedirmos ao Senhor, ele nos sugere que somente ele pode curar as nossas enfermidades e aliviar as nossas necessidades. Que a todos dá liberalmente. Por todos, ele se refere aos que pedem; pois aqueles que não buscam remédio para as suas necessidades, merecem consumir-se nelas. Contudo, esta declaração universal, pela qual todos nós somos convidados a pedir, sem exceção, é muito importante; por isso, nenhum homem deve privar-se de tão grande privilégio. Tem o mesmo propósito a promessa que vem logo em seguida; pois, assim como, por meio desta ordem, ele mostra qual é o dever de todos; do mesmo modo afirma que eles não fariam em vão o que ele comanda; conforme aquilo que é dito por Cristo: “Batei, e abrir-se-vos-á” (Mt 7:7; Lc 11:9). A palavra liberalmente, ou gratuitamente, denota prontidão em dar. Assim também Paulo, em Rm 12:8, requer simplicidade nos diáconos. E, em 2 Co 8 e 9, quando fala da caridade, ou amor, ele repete a mesma palavra diversas vezes. O sentido, então, é de que Deus está tão disposto e pronto a dar, que ele não rejeita ninguém, nem usa arrogantemente de evasivas para com eles, não sendo como os mesquinhos e sôfregos que, ou, com mão fechada, dão escassamente pouco; ou dão apenas uma parte do que estavam para dar; ou discutem por longo tempo consigo mesmos se devem dar ou não.5 E não lança em rosto. Isto é acrescentado para que ninguém temesse se achegar muitas vezes a Deus. Aqueles que são os mais liberais entre os homens, quando alguém pede para ser ajudado muitas vezes, mencionam seus atos formais de bondade, e assim se escusam quanto ao futuro. Por isso, temos vergonha de cansar um homem mortal, por mais generoso que possa ser, pedindo demasiadas vezes. Mas Tiago nos lembra de que não há nada semelhante a isto em Deus; pois ele sempre está pronto para acrescentar novas bênçãos às anteriores, sem fim ou limitação. 6. Peça-a, porém, com fé. Ele mostra aqui, primeiro, o modo correto de orar; pois, assim como não podemos orar sem a palavra, por assim dizer, mostrando o caminho, do mesmo modo devemos crer antes de orarmos; pois testificamos pela oração que esperamos alcançar de Deus a graça que ele tem prometido. Assim, todo aquele que não tem fé nas promessas ora dissimuladamente. Por onde também aprendemos o que é a verdadeira fé; pois Tiago, após ter nos mandado pedir com fé, acrescenta esta explicação: não vacilando, ou em nada duvidando. Então, a fé é aquilo que se apóia nas promessas de Deus, e nos torna seguros de alcançar o que pedimos. Por onde segue-se que ela está conectada à confiança e certeza quanto ao amor de Deus para conosco. O verbo
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O sentido literal de ἁπλῶς é simplesmente sem qualquer mistura; o substantivo ἁπλότης é usado no sentido de sinceridade, que não tem nenhuma mistura de fraude

ou hipocrisia (2 Co 1:12), e no sentido de liberalidade, ou disposição livre do que é sórdido ou parcimonioso, não tendo nenhuma mistura de mesquinhez (2 Co 8:2). Este último evidentemente é o sentido aqui, de modo que “liberalmente”, conforme a nossa versão, é a melhor palavra.

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διακρίνεσθαι, que ele usa, significa propriamente indagar de ambos os lados uma questão, à maneira de litigantes. Ele queria então que estivéssemos de tal modo convencidos do que Deus outrora prometeu, que não admitíssemos dúvida quanto a se seremos ouvidos ou não. Aquele que vacila, ou duvida. Por meio desta comparação ele expressa admiravelmente como Deus castiga a incredulidade daqueles que duvidam das suas promessas; pois, através da sua própria inquietação, eles se atormentam interiormente; pois nunca há calma para as nossas almas, a não ser que repousem na verdade de Deus. Finalmente, ele conclui que os tais são indignos de receber qualquer coisa de Deus. Esta é uma passagem notável, adequada para contestar aquele dogma ímpio que é reputado como um oráculo sob todo o Papado – ou seja, de que devemos orar duvidando, e com incerteza quanto ao nosso sucesso. Este princípio, então, defendemos, que nossas orações não são ouvidas pelo Senhor, exceto quando temos uma confiança de que alcançaremos. De fato, não pode ser de outro modo, senão que, pela fraqueza da nossa carne, devamos ser sacudidos por várias tentações, as quais são como meios empregados para abalar a nossa confiança; de modo que não há ninguém que não vacile e trema segundo o sentimento da sua carne; mas tentações desta natureza devem ser finalmente vencidas pela fé. É o mesmo caso de uma árvore que lançou raízes firmes; ela balança, de fato, pelo sopro do vento, mas não é desarraigada; pelo contrário, permanece firme em seu lugar. 8. O homem de coração dobre, ou, o homem de espírito dobre. Esta sentença pode ser lida por si mesma, uma vez que ele fala genericamente dos hipócritas. Contudo, parece-me antes ser a conclusão da doutrina precedente; e, assim, há um contraste implícito entre a simplicidade ou liberalidade de Deus, mencionada antes, e a dobreza de coração do homem; pois, assim como Deus nos dá com mão estendida, do mesmo modo nos convém abrir, em troca, o âmago do nosso coração. Então, ele diz que os incrédulos, que possuem recessos tortuosos, são inconstantes, porque nunca estão firmes ou fixos, mas a um momento incham com a confiança da carne, e em outro afundam nas profundezas do desespero.6

TIAGO 1:9-11
9. Mas glorie-se o irmão abatido na sua 9. Porro glorietur frater humilis in sublimaexaltação, te sua; 10. E o rico em seu abatimento; porque 10. Dives autem in humilitate sua, quia ele passará como a flor da erva. tanquam flos herbae prateteribit. 11. Porque sai o sol com ardor, e a erva 11. Nam sol exortus est cum aestu, et seca, e a sua flor cai, e a formosa apa- exarescit herba, et flos ejus cecidit, et de6

“De coração dobre”, ou homem com duas almas, δίψυχος, sem dúvida refere-se aqui ao homem que hesita entre a fé e a incredulidade – porque a fé é o assunto da passagem. Quando usada novamente, em Tg 4:8, significa uma hesitação entre Deus e o mundo.

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rência do seu aspecto perece; assim se cor aspectus ejus periit; sic et dives in suis murchará também o rico em seus cami- viis (vel, copiis) marcescet. nhos.

9. O irmão abatido. Assim como Paulo, exortando os servos a suportarem submissamente a sua sorte, apresenta diante deles esta consolação – de que eram livres de Deus, tendo sido libertados pela sua graça do cativeiro mais miserável de Satanás – e os lembra de que, embora livres, eram servos de Deus; do mesmo modo Tiago aqui manda que os abatidos se gloriem nisto, em que haviam sido adotados pelo Senhor como seus filhos; e os ricos, porque haviam sido abatidos à mesma condição, a vaidade do mundo tendo se tornado evidente para eles. Assim, a primeira coisa que deviam fazer era contentar-se com o seu estado abatido e humilde; e ele proíbe os ricos de serem orgulhosos. Visto como é incomparavelmente a maior dignidade ser introduzido na companhia dos anjos; não somente isto, mas ser feito associado de Cristo; aquele que estima devidamente este favor de Deus considerará todas as demais coisas como indignas. Então, nem a pobreza, nem o desprezo, nem a nudez, nem a fome, nem a sede, deixarão seu espírito tão ansioso que ele não se mantenha com esta consolação. “Como o Senhor me concedeu a coisa principal, convém que eu suporte pacientemente a perda das demais coisas, as quais são inferiores”. Vede, como um irmão abatido deve se gloriar na sua elevação ou exaltação; pois, se ele é aceito por Deus, tem consolação suficiente apenas na sua adoção, não se afligindo excessivamente por um estado de vida menos próspero. 10. E o rico em que seja abatido, ou, em seu abatimento. Ele mencionara o particular pelo geral; pois esta admoestação diz respeito a todos aqueles que se sobressaem em honra, ou em dignidade, ou em qualquer outra coisa exterior. Ele manda que se gloriem em seu abatimento ou insignificânica, a fim de reprimir a altivez daqueles que normalmente se incham com a prosperidade. Mas chama isto de abatimento, porque o reino de Deus manifestado deve nos levar a desprezar o mundo, uma vez que sabemos que todas as coisas que antes admirávamos grandemente, ou não são nada, ou são coisas muito pequenas. Pois Cristo, que não é mestre senão de bebês, refreia pela sua doutrina toda a altivez da carne. Então, para que a vã alegria do mundo não cative os ricos, eles devem se habituar a gloriar-se no abatimento da sua excelência carnal.7 Como a flor da erva. Se alguém dissesse que Tiago faz alusão às palavras de Isaías, eu não objetaria tanto; mas não posso admitir que ele cite o testemunho do Profeta, que fala não apenas acerca das coisas desta vida e do caráter passageiro do mundo, mas do homem todo, tanto corpo como alma (Is 40:6-8); mas aquilo de que se fala aqui é a pompa dos bens ou das riquezas. E o senti7

A opinião de Macknight e de alguns outros, de que a referência é ao abatimento a que os ricos estavam reduzidos pela perseguição, não concorda com a passagem, pois o Apóstolo fala a seguir acerca da brevidade da vida humana e da sua incerteza, e não da natureza passageira das riquezas – o que teria sido mais apropriado, se ele tivesse em vista confortar os ricos pela perda de propriedade. O estado cristão era de “abatimento” segundo a apreciação do mundo.

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do é de que o gloriar-se nas riquezas é absurdo e insensato, porque elas passam em um momento. Os filósofos ensinam a mesma coisa; mas a canção é entoada para surdos, enquanto os ouvidos não são abertos pelo Senhor, para que ouçam a verdade concernente à eternidade do reino celestial. Por isso ele menciona irmão – sugerindo que não há lugar para esta verdade, enquanto não somos admitidos na ordem dos filhos de Deus. Embora a leitura aceita seja ἐν ταῖς πορείαις, concordo com Erasmo, e leio a última palavra, πορίαις, sem o ditongo: “em suas riquezas”, ou, com suas riquezas; e eu prefiro este último.8

TIAGO 1:12-15
12. Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam. 12 Beatus vir qui suffert temptationem; quod quum probatus fuerit, accipiet coronam vitae, quam promisit Deus diligentibus ipsum.

13. Ninguém, sendo tentado, diga: De 13 Nemo quum tentatur dicat, a Deo tenDeus sou tentado; porque Deus não pode tor; Deus enim nec tentari malis potest, ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. nec quenquam tentat. 14. Mas cada um é tentado, quando atra- 14 Sed unusquisque tentatur, dum a sua ído e engodado pela sua própria concu- concupiscentia abstrahitur, et inescatur. piscência. 15. Depois, havendo a concupiscência 15 Postquam antum concupiscentia conconcebido, dá à luz o pecado; e o peca- ceperit, parit peccatum vero perfectum do, sendo consumado, gera a morte. generat mortem.

12. Bem-aventurado o homem. Após ter aplicado a consolação, ele moderou a tristeza daqueles que eram duramente tratados neste mundo, e novamente humilhou a arrogância dos grandes. Agora ele tira esta conclusão – de que são felizes aqueles que suportam magnanimamente as dificuldades e outras provas, elevando-se acima delas. A palavra tentação pode ser, de fato, entendida de outro modo – no sentido dos aguilhões das paixões que incomodam interiormente a alma; mas o que é recomendado aqui, conforme penso, é a firmeza de espírito em suportar as adversidades. Contudo, é um paradoxo que não sejam felizes aqueles a quem todas as coisas vêm de acordo com os seus desejos, e sim aqueles que não são vencidos pelos infortúnios. Porque, quando for provado. Ele dá uma razão para a sentença anterior; pois a coroa vem após a competição. Então, se for a nossa maior alegria sermos coroados no reino de Deus, segue-se que as lutas com que o Senhor nos prova são auxílios e socorros para a nossa felicidade. Assim, o argumento é a partir da finalidade, ou efeito; por onde concluímos que os fiéis são afligidos por tantos infortúnios com este propósito – para que a sua piedade e obediência possam se tornar manifestas, e para que assim eles sejam finalmente preparados para receberem a coroa da vida.
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O texto recebido é considerada a melhor leitura; a outra encontra-se em bem poucas cópias.

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Comentários de Calvino

Mas raciocinam absurdamente aqueles, que a partir daqui, inferem que, através da luta, merecemos a coroa; pois, como Deus a designou gratuitamente para nós, nossa luta apenas nos tornará aptos para recebê-la. Ele acrescenta que ela está prometida para aqueles que amam a Deus. Falando assim, não quer dizer que o amor do homem é a causa de ele alcançar a coroa (pois Deus se antecipa a nós pelo seu amor gratuito); mas apenas sugere que os eleitos, os quais o amam, são os únicos aprovados por Deus. Então, ele nos lembra que os vencedores de todas as tentações são aqueles que amam a Deus; e que, quando somos provados, não falhamos em coragem por qualquer outra causa, senão porque o amor do mundo prevalece em nós. 13. Ninguém, sendo tentado. Aqui, sem dúvida, ele fala de outro tipo de tentação. É abundantemente evidente que as tentações exteriores, até aqui mencionadas, são enviadas a nós por Deus. Deste modo, Deus tentou a Abraão (Gn 22:1), e diariamente nos tenta – ou seja, ele nos prova quanto ao que somos, pondo diante de nós uma oportunidade pela qual nossos corações possam se manifestar. Mas extrair o que está oculto em nossos corações é algo bem diferente de seduzir interiormente os nossos corações através de paixões perversas. Então, ele trata aqui de tentações interiores, as quais não são nada mais do que desejos desordenados que incitam ao pecado. Ele nega justamente que Deus seja o autor destas, porque elas decorrem da corrupção da nossa natureza. Este aviso é mui necessário, pois nada é mais comum entre os homens do que transferir para outro a culpa dos males que cometem; e, então, eles parecem especialmente se livrar quando atribuem isto ao próprio Deus. Imitamos constantemente este tipo de evasiva, transmitida a nós, de alguma forma, desde o primeiro homem. Por esta razão, Tiago nos convida a confessarmos a nossa própria culpa, e a não comprometermos Deus, como se ele nos compelisse a pecar. Mas toda a doutrina da Escritura parece ser inconsistente com esta passagem; pois ela nos ensina que os homens são cegados por Deus, são entregues a uma mente réproba, e abandonados às paixões vergonhosas e imundas. A isto eu respondo que Tiago fora induzido a negar que somos tentados por Deus provavelmente pela seguinte razão – porque os infiéis, a fim de criarem uma escusa, armavam-se com os testemunhos da Escritura. Mas há duas coisas a serem notadas aqui: quando a Escritura atribui a cegueira ou dureza de coração a Deus, ela não lhe designa o princípio desta cegueira, nem faz dele o autor do pecado, atribuindo-lhe a culpa; e é apenas nestas duas coisas que Tiago se detém. A Escritura afirma que os réprobos são entregues a paixões depravadas; mas será porque o Senhor deprava ou corrompe seus corações? De modo nenhum; pois os corações deles estão sujeitos a paixões depravadas porque já são corruptos e viciosos. Mas, como Deus cega ou endurece, não é ele o autor ou ministro do mal? Sim, mas deste modo ele castiga os pecados, e confere uma justa recompensa aos infiéis, que se recusaram a ser governados pelo seu Espírito (Rm 1:26). Por onde segue-se que a origem do pecado não está em

Epístolas Gerais – Tiago

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Deus, e nenhuma culpa pode ser imputada a ele, como se tivesse prazer nos males (Gn 6:6). O sentido é de que em vão se esquiva o homem que tenta lançar a culpa dos seus vícios em Deus – porque todo o mal não procede de outra fonte senão da ímpia paixão humana. E o fato na verdade é que não somos desencaminhados de outro modo senão porque todos têm a sua própria inclinação como seu guia e impulsor. Mas, que Deus não tenta a ninguém, ele prova através disto – porque ele não é tentado pelo mal.9 Pois é o diabo que nos persuade a pecar, e por esta razão – porque ele queima inteiramente de insana paixão pelo pecado. Mas Deus não deseja o que é mau; portanto, ele não é o autor da má ação em nós. 14. Quando engodado pela sua própria concupiscência. Como a inclinação e o incitamento ao pecado são interiores, em vão o pecador busca uma causa a partir de um impulso exterior. Ao mesmo tempo, estes dois efeitos da paixão devem ser notados – que ela nos seduz pelos seus engodos, e que ela nos atrai; cada um dos quais sendo suficiente para nos tornar culpados.10 15. Depois, havendo a concupiscência concebido. Primeiro, ele chama de paixão, não a que seja algum tipo de má afeição ou desejo, e sim a que é a fonte de todas as más afeições; por meio de que, conforme explica, é concebida uma prole má, que finalmente irrompe em pecados. Contudo, parece impróprio, e não de acordo com o uso da Escritura, restringir a palavra pecado a obras exteriores, como se na verdade a própria paixão não fosse um pecado, e como se os desejos corruptos, permanecendo encerrados e suprimidos no interior, não fossem tantos pecados. Mas, como o uso de uma palavra é diverso, não há nada de desarrazoado se for entendida aqui, como em muitos outros lugares, no sentido de pecado real. E os papistas ignorantemente se apegam a esta passagem, e procuram provar através dela que as paixões viciosas, sim, imundas, ímpias e mais abomináveis, não são pecados, desde que não haja assentimento; pois Tiago não explica quando o pecado começa a ser gerado – tornando-se pecado, e deste modo sendo imputado por Deus – mas quando o mesmo irrompe. Pois ele procede gradualmente, e mostra que a consumação do pecado é a morte eterna, e
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Literalmente, “não sujeito à tentação pelo mal”, ou seja, incapaz de ser tentado ou seduzido pelo mal, por coisas ímpias e pecaminosas. Ele é tão puro que não é influenciado por nenhuma propensão maligna – que ele não está sujeito a nenhuma sugestão maligna. Por onde segue-se que ele não tenta nem seduz o homem ao que é pecaminoso. Sendo ele mesmo inatacável pelo mal, não pode seduzir outros ao que é mau. Como Deus não pode ser tentado a fazer o que é pecaminoso, ele não pode tentar outros a pecar. As palavras podem ser traduzidas assim: “Nenhum homem, quando seduzido, diga: ‘Por Deus sou seduzido’; pois Deus não pode ser seduzido pelo mal, e ele mesmo não seduz a ninguém”.
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As palavras são bem surpreendentes: “Mas cada um é tentado (ou, seduzido) quando, pela sua própria paixão, é atraído (ou seja, do que é bom) e apanhado por uma isca (ou, engodo)”. Ele é, primeiro, afastado da linha do dever, e depois é apanhado por algo que é agradável e plausível, mas que, semelhante à isca, possui em si um anzol mortal.

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que o pecado surge a partir de desejos depravados, e que estes desejos ou afeições depravadas têm sua raíz na paixão. Por onde segue-se que os homens colhem fruto em perdição eterna, e fruto que têm granjeado para si. Portanto, por pecado consumado, entendo, não algum ato de pecado perpetrado, mas o curso completo do pecado. Pois, embora a morte seja merecida por qualquer pecado que seja, é dito que ela é a recompensa de uma vida ímpia e perversa. Por onde é refutado o desvario daqueles que concluem, a partir destas palavras, que o pecado não é mortal enquanto não irrompe, como dizem, em um ato exterior. E também não é disto que Tiago trata; mas o seu objetivo era apenas este – ensinar que está em nós a raíz da nossa própria destruição.

TIAGO 1:16-18
16. Não erreis, meus amados irmãos. 17. Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. 16. Ne erretis, fratres mei dilecti: 17. Omnis donatio bona et omne donum perfectum desursum est, descendens a Patre luminum; apud quem non est transmutatio, aut conversionis obumbratio.

18. Segundo a sua vontade, ele nos ge- 18. Is sua voluntate genuit nos veritatis, ut rou pela palavra da verdade, para que essemus primitiae quaedam suaram creafôssemos como primícias das suas criatu- turarum. ras.

16. Não erreis. Este é um argumento a partir do que é contrário; pois, como Deus é o autor de todo o bem, é absurdo supor que ele seja o autor do mal. Fazer o bem é o que propriamente lhe pertence, e está de acordo com a sua natureza; e dele vêm todas as coisas boas para nós. Então, qualquer mal que ele faça não estará de acordo com a sua natureza. Mas, como às vezes acontece que aquele que se sai bem durante toda a vida, falhe, por outro lado, em algumas coisas, ele trata desta dúvida negando que Deus seja mutável como os homens. Mas, se Deus é em todas as coisas e sempre o mesmo, segue-se que fazer o bem é a sua obra perpétua. Este raciocínio é bem diferente do de Platão, que defendia que nenhuma calamidade é enviada aos homens por Deus, porque ele é bom; pois, embora seja justo que os crimes dos homens sejam castigados por Deus, não é certo, com respeito a ele, considerar entre os males aquele castigo que ele justamente inflige. De fato, Platão era ignorante; mas Tiago, deixando a Deus o seu direito e ofício de castigar, apenas remove dele a culpa. Esta passagem nos ensina que devemos ser tocados pelas inúmeras bênçãos de Deus, que diariamente recebemos da sua mão, de tal modo que não pensemos em nada além da sua glória; e que devemos aborrecer qualquer coisa que venha à nossa mente, ou seja sugerida por outros, que não seja compatível com o seu louvor. Deus é chamado de Pai das luzes, como possuindo toda a excelência e a mais alta dignidade. E, quando acrescenta em seguida que nele não há sombra de

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variação, ele continua a metáfora; para que não meçamos o esplendor de Deus pela irradiação do sol que se mostra a nós.11 18. Segundo a sua vontade. Ele apresenta agora uma prova especial da bondade de Deus que havia mencionado – a saber, que ele nos regenerou para a vida eterna. Este benefício inestimável todos os fiéis sentem em si. Então, a bondade de Deus, quando conhecida pela experiência, deve remover deles toda a opinião contrária a seu respeito. Quando diz que Deus, segundo a sua vontade, ou espontaneamente, nos gerou, ele sugere que ele não fora induzido por outra razão – uma vez que a vontade e o conselho de Deus são freqüentemente definidos em oposição aos méritos humanos. Que coisa grandiosa, de fato, teria sido dizer que Deus não fora constrangido a fazer isto? Mas ele assinala algo mais – que Deus, segundo a sua boa vontade, nos gerou, e deste modo foi uma causa para si. Por onde segue-se que é natural para Deus fazer o bem. Mas esta passagem nos ensina que, assim como a nossa eleição antes da fundação do mundo foi gratuita, do mesmo modo somos iluminados exclusivamente pela graça de Deus quanto ao conhecimento da verdade, de modo que o nosso chamado corresponde à nossa eleição. A Escritura revela que fomos adotados gratuitamente por Deus antes de nascermos. Mas Tiago expressa aqui algo mais – que obtemos o direito de adoção porque Deus também nos chama gratuitamente (Ef 1:4, 5). Ademais, por aqui aprendemos que é o ofício peculiar de Deus regenerar-nos espiritualmente; pois o fato de que o mesmo às vezes seja atribuído aos ministros do evangelho não significa outra coisa senão isto – que Deus age através deles; e, de fato, isto acontece através deles, mas, não obstante, somente ele faz a obra. A palavra gerou significa que nos tornamos novo homem, de modo que nos despimos de nossa natureza anterior quando somos eficazmente chamados por Deus. Ele acrescenta como Deus nos gera – a saber, pela palavra da verdade – para que saibamos que não podemos entrar no reino de Deus por qualquer outra porta.
Este verso deve ser entendido em conexão com o que vem antes. Quando menciona “toda boa dádiva”, isto se opõe ao mal de que ele diz que Deus não é o autor. Vede Mt 7:11. E “todo dom perfeito”, conforme significa δώρηµα, faz referência à correção do mal que surge do próprio homem. E ele chama de dom perfeito porque não tem nenhuma mistura de mal – o que nega completamente que Deus seja o seu autor. Então, a última parte do verso traz uma correspondência com o primeiro. Ele chama Deus de “Pai das luzes”. Luz, na linguagem da Escritura, significa especialmente duas coisas, a luz da verdade – o conhecimento divino – e a santidade. Deus é o pai, o genitor, a origem, a fonte destas luzes. Por isso, dele desce toda a boa, útil e necessária dádiva, para livrar os homens do mal, da ignorância e do engano, e todo o dom perfeito, para libertar os homens das paixões malignas, e para torná-los santos e felizes. E, para mostrar que Deus é sempre o mesmo, ele acrescenta: “em que não há mudança nem sombra (ou matiz, do mais ligeiro aspecto) de variação” – ou seja, quem nunca muda em seus tratos com o homem, e não mostra sintomas de qualquer mudança, sendo o autor e conferidor de todo o bem, e autor de nenhum mal, ou seja, de nenhum pecado.
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Comentários de Calvino

Para que fôssemos como primícias das suas criaturas. A palavra τινὰ, “alguns”, tem o sentido de semelhança – como se ele tivesse dito que, de certa maneira, somos as primícias. Mas isto não deve ser restrito a alguns dos fiéis, mas diz respeito a todos em comum. Pois, assim como o homem se distingue entre todas as criaturas, do mesmo modo o Senhor elege alguns dentre toda a massa e os separa como uma oferta santa para si.12 Não é a uma nobreza comum que Deus exalta seus filhos. Então, justamente se diz que são excelentes como primícias, quando a imagem de Deus é renovada neles.

TIAGO 1:19-21
19. Portanto, meus amados irmãos, todo 19. Itaque, fratres mei dilecti, sit omnis o homem seja pronto para ouvir, tardio homo celer ad audiendum, tardus autem para falar, tardio para se irar. ad loquendum, tardus ad iram: 20. Porque a ira do homem não opera a 20. Ira enim hominus justitiam Dei non justiça de Deus. operatur. 21. Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas. 21. Quapropter deposita omni inmunditie, et redundantia malitiae, cum mansuetudine suscipite insitum sermonem qui potest servare animas vestras.

19. Todo o homem. Fosse esta uma senteça geral, a inferência seria forçada; mas como, logo em seguida, acrescenta uma sentença a respeito da palavra da verdade que é apropriada para o último verso, não tenho dúvida de que ele acomoda esta exortação particularmente ao assunto em questão. Então, tendo apresentado diante de nós a bondade de Deus, ele mostra como nos convém estarmos preparados para receber a graça que ele demonstra para conosco. E esta doutrina é muito útil, pois a geração espiritual não é obra de um momento. Como alguns vestígios do velho homem ainda residem em nós, devemos necessariamente ser renovados durante toda a vida, até que a carne seja abolida; pois, seja a nossa perversidade, ou arrogância, ou preguiça, são um grande impedimento para Deus aperfeiçoar a sua obra em nós. Por isso, quando Tiago quer que sejamos prontos para ouvir, ele recomenda a prontidão – como se tivesse dito: “Quando Deus tão livre e generosamente se vos apresenta, vós também deveis vos tornar ensináveis, para que vossa indolência não o faça desistir de falar”. Mas, porquanto não ouvimos tranquilamente Deus falando conosco, quando parecemos ser muito sábios a nós mesmos, mas pela nossa pressa o interrompemos quando se dirige a nós, o Apóstolo pede que fiquemos em silêncio, sejamos tardios em falar. E, sem dúvida, ninguém pode ser um verdadeiro discípulo de Deus, a não ser que o ouça em silêncio. Contudo, ele não requer o silêncio da escola pitagórica, como se não fosse correto indagar sempre que
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Primícias sendo uma parte e garantia da colheita futura, para retermos a metáfora precisamos considerar “criaturas” aqui como incluindo todos os salvos nas eras futuras. Por isso, deve ser preferida a opinião daqueles que consideram os primeiros conversos, que eram judeus, como as primícias.

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desejamos aprender o que é preciso saber; mas ele quer apenas que corrijamos e refreemos a nossa precipitação, para que, como normalmente acontece, não interrompamos oportunamente a Deus, e para que, enquanto ele abre a sua boca santa, possamos abrir para ele nossos corações e nossos ouvidos, e não impedi-lo de falar. Tardio para se irar. Penso que a ira também é condenada com respeito à atenção que Deus pede que lhe seja dada, como se, criando um tumulto, ela perturbasse e o impedisse – pois Deus não pode ser ouvido exceto quando o espírito está tranquilo e sereno. Por isso, ele acrescenta que, enquanto a ira tem o controle, não há lugar para a justiça de Deus. Em suma, a não ser que o calor da contenda seja banido, nunca observaremos para com Deus aquele silêncio tranquilo do qual ele acaba de falar. 21. Por isso, rejeitando. Ele conclui dizendo como a palavra da vida deve ser recebida. E, de fato, primeiro sugere que ela não pode ser devidamente recebida, a menos que seja implantada, ou lance raízes em nós. Pois a expressão: recebei a palavra enxertada, deve ser explicada assim: “recebei-a, para que seja realmente implantada”. Pois ele faz alusão à semente muitas vezes semeada e lançada, e não recebida nos recessos úmidos da terra; ou, a plantas que, sendo lançadas no solo, ou colocadas sobre madeira morta, logo secam. Então, ele pede que ela seja um enxerto vivo, através do que a palavra se torna unida ao nosso coração. Ao mesmo tempo, mostra a maneira e o modo desta recepção – a saber, com mansidão. Por esta palavra, ele se refere à humildade e prontidão de um espírito disposto a aprender, tal como Isaías descreve quando diz: “Em quem repousa o meu Espírito, senão nos mansos e humildes?” (Is 57:15). Por onde isso está longe de ser proveitoso na escola de Deus, porque dificilmente um em cem renuncia à obstinação do seu próprio espírito, e submete-se gentilmente a Deus; mas quase todos são convencidos e refratários. Mas, se queremos ser a plantação viva de Deus, devemos submeter nossos corações orgulhosos e sermos humildes, e nos esforçarmos para ser como cordeiros, permitindo-nos ser governados e guiados pelo nosso Pastor. Mas, assim como os homens nunca são tão tratáveis assim, para terem um coração tranquilo e manso, a não ser que sejam purificados das afeições depravadas; do mesmo modo ele nos manda rejeitarmos toda a imundícia e superfluidade de malícia. E, como Tiago tomou emprestada uma comparação a partir da agricultura, era necessário que ele observasse esta ordem, começando por arrancar as ervas nocivas. E, como se dirigiu a todos, a partir disto podemos concluir que estes são os males inatos da nossa natureza, e que eles se apegam a todos nós; sim, como se dirige aos fiéis, ele explica que nunca estamos totalmente purificados deles nesta vida, mas que estão continuamente espocando, e por isso ele requer que se tome constante cuidado por erradicálos. Como a palavra de Deus é algo especialmente santo; para estarmos aptos a recebê-la, devemos nos despir das coisas imundas pelas quais temos sido contaminados. Sob a palavra κακία, ele inclui a hipocrisia e obstinação, bem como os desejos ou paixões ilícitas. Não satisfeito em especificar a sede da impiedade como

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estando na alma humana, ele nos ensina que tão abundante é a impiedade que habita aí, que ela transborda, ou cresce como que em um montão; e, sem dúvida, todo aquele que se examinar bem descobrirá que há dentro de si um imenso caos de males.13 A qual pode salvar. É um sublime elogio à verdade celestial, que por meio dela alcancemos uma salvação segura; e isto é acrescentado para que aprendamos a buscar, e a amar, e a magnificar a palavra como um tesouro incomparável. Então, é um aguilhão afiado para açoitar a nossa ociosidade, quando ele diz que a palavra que costumamos ouvir tão negligentemente é o meio da nossa salvação, ainda que, com este propósito, o poder de salvar não seja atribuído à palavra – como se a salvação fosse transmitida através do som externo da palavra, ou como se o ofício de salvar fosse retirado de Deus e transferido para outra parte; pois Tiago fala da palavra que, pela fé, penetra nos corações dos homens, e apenas sugere que Deus, o autor da salvação, comunica-a pelo seu Evangelho.

TIAGO 1:22-27
22. E sede cumpridores da palavra, e não 22. Estote factores sermones, et non audisomente ouvintes, enganando-vos com tores solum, fallentes vos ipsos. falsos discursos. 23. Porque, se alguém é ouvinte da pala- 23. Nam si quis auditor est sermones, et vra, e não cumpridor, é semelhante ao non factor, hic similis est homini considehomem que contempla ao espelho o seu ranti faciem nativitatis suae in speculo. rosto natural; 24. Porque se contempla a si mesmo, e 24. Consideravit enim seipsum, et abiit, et vai-se, e logo se esquece de como era. protinus oblitus est qualis sit. 25. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bemaventurado no seu feito. 25. Qui vero intuitus fuerit in legem perfectam, quae est libertatis, et permanserit, hic non auditor obliviosus, sed factor operis, beatus in opere suo erit.

26. Se alguém entre vós cuida ser religio- 26. Si quis videtur religiosus esse inter so, e não refreia a sua língua, antes en- vos, nec refraenat linguam suam, sed degana o seu coração, a religião desse é cipits cor suum, hujus inanus est religio. vã. O que torna esta passagem insatisfatória é o sentido dado a περισσεία, traduzida por alguns como “superfluidade”, e por outros como “redundância”. O verbo περισσεύω não significa apenas abundar, mas também ser um resíduo, permanecer, restar. Vede Mt 14:20, Lc 9:17. E seu derivado, περίσσευµα, é usado no sentido de restante ou remanescente – Mc 8:8; e esta mesma palavra é usada na Septuaginta em lugar de ‫ יתר‬, que significa resíduo, remanescente, ou o que resta, Ez 6:8. Tenha ela este significado aqui, e o sentido não apenas será claro, mas muito surpreendente. Tiago estava se dirigindo àqueles que eram cristãos; e os exortava a lançarem fora toda a impureza e vestígio de impiedade – ou mal, como significa mais apropriadamente a palavra κακία. Vede At 8:22; 1 Pe 2:16.
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27. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfäos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.

27. Religio pura et impolluta coram Deo et Patre, haec est, Visitare pupillos et viduas in afflictione ipsorum, inmaculatum servare se a mundo.

22. Sede cumpridores da palavra. O cumpridor aqui não é o mesmo que em Rm 2:13, o qual satisfez a lei de Deus e a cumpriu em todos os aspectos; mas o cumpridor é aquele que abraça de coração a palavra de Deus e testifica, através da sua vida, que ele realmente crê – de acordo com as palavras de Cristo: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lc 11:28); pois ele mostra pelos frutos o que é aquele enxerto anteriormente citado. Devemos ainda observar que é incluída por Tiago a fé com todas as suas obras – sim, a fé especialmente, pois ela é a maior obra que Deus requer de nós. A importância de tudo isto é que devemos nos esforçar para que a palavra do Senhor lance raízes em nós, para que em seguida possa frutificar.14 23. É semelhante ao homem. A doutrina celestial é de fato um espelho, no qual Deus se apresenta à nossa vista; mas para que sejamos transformados à sua imagem, como Paulo diz em 2 Co 3:18. Mas aqui ele fala do vislumbre exterior dos olhos, não da meditação vivida e eficaz que penetra no coração. É uma comparação surpreendente, pela qual sugere, em poucas palavras, que uma doutrina meramente ouvida, e não recebida interiormente no coração, de nada serve, porque logo desaparece. 25. A lei perfeita da liberdade. Após ter falado acerca da especulação vazia, ele passa agora àquela intuição penetrante que nos transforma à imagem de Deus. E, como tinha de lidar com os judeus, ele emprega a palavra lei – familiarmente conhecida deles – como incluindo toda a verdade de Deus. Mas, por que ele a chama de lei perfeita, e lei da liberdade, os intérpretes não têm sido capazes de entender; pois não perceberam que aqui há um contraste – o que pode ser deduzido a partir de outras passagens da Escritura. Enquanto a lei é pregada pela voz exterior do homem, e não gravada pelo dedo e Espírito de Deus no coração, ela é apenas letra morta, e, por assim dizer, algo sem vida. Então, não é de se surpreender que a lei seja considerada imperfeita, e que seja a lei da servidão; pois, como Paulo ensina em Gl 4:24, separada de Cristo, ela gera para a condenação; e, como o mesmo nos mostra em Rm 8:13, ela não pode fazer nada além de nos encher de desconfiança e temor. Mas o Espírito de regeneração, que a grava em nosso interior, traz também a graça da adoção. Então, isto é o mesmo que se Tiago tivesse dito: “Que o ensino da lei não vos leve mais em cativeiro, mas, pelo contrário, traga-vos à liberdade; que não seja mais apenas um pedagogo, mas vos traga à perfeição; ela deve ser recebida por vós com sincera afeição, a fim de que possais levar uma vida santa e piedosa”. Além disso, com é uma bênção do Antigo Testamento que a lei de Deus deveria nos corrigir, tal como se revelado por Jr 31:33 e outras passagens, segue-se
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Calvino não toma nota da última sentença: “enganando-vos a vós mesmos”. O particípio significa enganar através de falso raciocínio; pode ser traduzido, juntamente com Doddridge, por: “enganando-vos sofisticamente”.

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que isto não pode ser alcançado enquanto não nos achegamos a Cristo. E, sem dúvida, somente ele é o fim e a perfeição da lei; e Tiago acrescenta liberdade, como um associado inseparável, porque o Espírito de Cristo nunca regenera apenas, sem que também se torne um testemunho e uma garantia da nossa adoção divina, libertando nossos corações do temor e tremor. E persevera. Isto é perseverar firmemente no conhecimento de Deus; e, quando acrescenta: este tal será bem-aventurado no seu feito, ou obra, ele quer dizer que a bem-aventurança deve ser encontrada no fazer, não em um frio ouvir.15 26. Cuida ser religioso. Agora ele censura, até mesmo naqueles que se orgulhavam de que fossem praticantes da lei, um vício sob o qual os hipócritas normalmente laboram; ou seja, o desregramento da língua na difamação. Antes ele tratara do dever de refrear a língua, mas com um propósito diferente; pois ali ele ordenara o silêncio diante de Deus, para que estivéssemos mais em condições de aprender. Agora, ele fala de outra coisa – que os fiéis não deviam empregar sua língua em maledicência. De fato, era necessário que este vício fosse condenado, quando o assunto era a observância da lei; pois aqueles que deixam os vícios mais grosseiros estão especialmente sujeitos a esta enfermidade. Aquele que não é nem adúltero, nem ladrão, nem beberrão, mas, pelo contrário, parece brilhante com certa amostra exterior de santidade, se estragará defamando os outros – e isto sob o pretexto de zelo, mas na verdade pela paixão da calúnia. O objetivo aqui, então, era distinguir entre os verdadeiros adoradores de Deus e os hipócritas, que estão tão cheios de orgulho farisaico, que buscam louvor através dos defeitos de outros. Se alguém, diz ele, cuida ser religioso, ou seja, que tem uma aparência de santidade, e ao mesmo tempo se gaba falando mal dos outros, por aqui fica evidente que ele não serve verdadeiramente a Deus. Pois, dizendo que a sua religião é vã, ele não apenas sugere que outras virtudes são desfiguradas pela mácula da maledicência, mas que a conclusão é de que o zelo aparente pela religião não é sincero. Antes engana o seu coração. Não aprovo a versão de Erasmo: “Mas permite que seu coração erre”, pois ele indica a fonte dessa arrogância em que estão viciados os hipócritas, através da qual, estando cegados por um amor imoderado de si mesmos, eles acreditam ser bem melhores do que realmente são; e daqui, sem dúvida, vem a doença da calúnia, porque o alforge, como diz Esopo em seu Apólogo, pendurado por detrás, não é visto. Justamente, então, Tiago, querendo remover o efeito, ou seja, a paixão da maledicência, acrescentou a causa – a saber, que os hipócritas se gabem imoderadamente. Pois eles estariam prontos para perdoar se, por sua vez, reconhecessem precisar de perdão. Por isso as bajulações pelas quais se enganam a si mesmos quanto aos seus próprios vícios os tornam censores tão sobranceiros dos outros.

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Isto pode ser traduzido assim: “O mesmo será abençoado em (ou, por) fazê-lo” – isto é, o feito. A prática mesma da lei da liberdade, que o evangelho prescreve, torna o homem bem-aventurado ou feliz.

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27. A religião pura. Como passa por aquelas coisas que são da maior importância em religião, ele não define genericamente o que é a religião, mas lembra-nos de que a religião sem as coisas que menciona não é nada; como quando alguém dado ao vinho e à glutonaria se orgulha de ser temperado, e outro objeta, e diz que o homem temperado é aquele que não se indulta em excesso de vinho ou comida; seu objetivo não é expressar tudo o que é a temperança, e sim referir-se apenas a uma coisa, adequada para o assunto em questão. Pois em vão são religiosos aqueles de quem ele fala, uma vez que são na sua maior parte fingidores levianos. Tiago então nos ensina que a religião não deve ser estimada pela pompa das cerimônias; mas que existem deveres importantes aos quais os servos de Deus devem atender. Visitar nas tribulações é estender uma mão de ajuda para aliviar aqueles que estão em aflição. E, como existem muitos outros a quem o Senhor nos manda socorrer, ao mencionar os órfãos e as viúvas, ele declara uma parte pelo todo. Então, não há dúvida de que, sob algo particular, ele nos recomenda todos os atos de amor – como se tivesse dito: “Que aquele que deseja ser considerado religioso prove ser tal por meio da auto-negação e pela misericórdia e benevolência para com o seu próximo”. E ele diz: diante de Deus, para sugerir que na verdade parece ser diferente para os homens, que são enganados por máscaras exteriores; mas que devemos buscar o que o agrada. Por Deus e Pai, devemos entender Deus, que é um pai.

TIAGO 2:1-4
1. Meus irmãos, não tenhais a fé de nos- 1. Fratres mei, ne in acceptionabus persoso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, narum fidem habeatis Domini Jesu Christi em acepção de pessoas. ex opinione, (vel, gloriae.) 2. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, 3. E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, 2. Si enim ingressus fuerit in coetum vestrum vir aureos anulos gestans, veste indudus spliendida; ingressus autem fuerit et pauper in sordida veste; 3. Et respexeritis in cum qui vestem fert splendidam, et ei dixeritis, Tu sede hic honeste, et pauperi dixeritis, Tu sta illic, vel, Sede hic sub scabello pedum meorum;

4. Porventura não fizestes distinção entre 4. An non dijudicati eestis in vobisipsis, et vós mesmos, e não vos fizestes juízes de facti judices malarum cogitationum? maus pensamentos?

À primeira vista, esta repreensão parece ser dura e desarrazoada; pois é um dos deveres da cortesia, que não deve ser negligenciado, honrar aqueles que são nobres no mundo. Ademais, se o respeito às pessoas fosse mau, os servos deveriam se libertar de toda a sujeição – pois a liberdade e a servidão são consideradas por Paulo como condições de vida. O mesmo se deve pensar

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Comentários de Calvino

acerca dos magistrados. Mas a solução destas questões não é difícil, se o que Tiago escreve não for isolado. Pois ele não desaprova simplesmente a honra prestada aos ricos, mas que isso não deveria ser feito de modo a desprezar ou censurar os pobres; e isto se torna ainda mais claro, quando passa a falar acerca da regra do amor. Portanto, lembremo-nos de que o respeito às pessoas condenado aqui é aquele pelo qual os ricos são exaltados de tal modo que é feita injustiça aos pobres – o que também ele mostra claramente pelo contexto; e, certamente, é ambiciosa, e cheia de vaidade, a honra demonstrada pelos ricos em desprezo aos pobres. E também não há dúvida de que a ambição reina, e a vaidade também, quando somente as máscaras deste mundo estão em alta estima. Devemos nos lembrar desta verdade, de que deve ser considerado entre os herdeiros do reino de Deus aquele que despreza os réprobos e honra os que temem a Deus (Sl 15:4). Aqui, então, é condenado o vício contrário – a saber, quando, apenas por respeito às riquezas, alguém honra os ímpios e, como foi dito, desonra os bons. Se, então, lêsseis assim: “Peca aquele que respeita o rico”, a sentença seria absurda; mas se, como segue: “Peca aquele que honra apenas o rico e despreza o pobre, e o trata com desrespeito”, esta seria uma doutrina verdadeira e piedosa. 1. Não tenhais a fé, etc. em acepção de pessoas. Ele quer dizer que o respeito às pessoas é inconsistente com a fé de Cristo, de modo que não podem estar unidos, e isto com razão; pois, através da fé, somos unidos em um só corpo, no qual Cristo tem a primazia. Portanto, quando as pompas do mundo se tornam tão proeminentes que encobrem o que Cristo é, fica evidente que a fé tem pouco vigor. Ao traduzir τὢς δόξης como “por consideração” (ex opinione), segui Erasmo; embora o intérprete antigo não possa ser acusado por tê-lo traduzido como “glória”, pois a palavra significa as duas coisas; e pode ser convenientemente aplicada a Cristo – e isto de acordo com o propósito da passagem. Pois, tão grande é o esplendor de Cristo, que facilmente extingue todas as glórias do mundo – se de fato ela irradia aos nossos olhos. Por onde segue-se que Cristo é pouco estimado por nós, quando a admiração da glória mundana se nos apega. Mas a outra exposição também é mui apropriada, pois, quando a consideração ou o valor das riquezas ou das honras fascina os nossos olhos, a verdade, que deveria prevalescer, é suprimida. Assenta-te convenientemente significa assentar-se com honra. 4. Porventura não fizestes distinção em vós mesmos? ou, não estais condenados em vós mesmos? Isto pode ser lido tanto afirmativa como interrogativamente, mas o sentido seria o mesmo, pois ele enfatiza a falta por meio disto – que eles tinham prazer e se indultavam em tão grande impiedade. Se for lido interrogativamente, o sentido é: “Vossa própria consciência não vos acusa, de modo que não precisais de outro juiz?” Se for preferida a afirmativa, isto é o

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mesmo que se ele tivesse dito: “Este mal também acontece, que não pensais que tendes pecado, nem sabeis que vossos pensamentos sejam tão ímpios”.16

TIAGO 2:5-7
5. Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? 5. Audite, fratres mei dilecti, nonne Deus elegit pauperes mundi hujus divites in fide et heredes regni quod promisit iis qui diligunt eum?

6. Mas vós desonrastes o pobre. Porven- 6. Vos autem contemptui habiustis paupetura não vos oprimem os ricos, e não vos rem: nonne divites tyrnnidem in vos exerarrastam aos tribunais? cent et iidem trahunt vos ad tribunalia? 7. Porventura não blasfemam eles o bom 7. Et iidem contumelia afficiunt bonum nome que sobre vós foi invocado? nomen quod invocatum est super vos?

5. Ouvi, meus amados irmãos. Agora ele prova, por meio de dois argumentos, que eles agiam de modo ridículo, quando, por amor aos ricos, desprezavam os pobres. O primeiro é que é inconveniente e vergonhoso abater aqueles a quem Deus exalta, e tratar injuriosamente aqueles a quem ele honra. Como Deus honra aos pobres, então todo aquele que os repudia inverte a ordem de Deus. O outro argumento é tomado a partir da experiência comum; pois, como os ricos são em grande parte opressivos para com os bons e inocentes, é mui desarrazoado prestar tal recompensa pelos males que causam, para que sejam mais aprovados por nós do que os pobres – os quais nos ajudam mais do que prejudicam. Agora veremos como ele procede com estes dois pontos. Não escolheu Deus aos pobres deste mundo? De fato, não exclusivamente, mas ele quis começar com eles, a fim de abater o orgulho dos ricos. É isto o que Paulo também diz – que Deus escolheu, não muitos nobres, nem muitos poderosos do mundo, mas os que são fracos, a fim de envergonhar aqueles que são fortes (1 Co 1:25). Em suma, embora Deus derrame a sua graça sobre os ricos em comum com os pobres, sua vontade é preferir estes àqueles, a fim de que os poderosos aprendessem a não se gabarem, e para que os ignóbeis

Isto é normalmente admitido como uma sentença interrogativa: “E não fazeis diferença entre (ou, em) vós, e vos tornais juízes, tendo maus pensamentos?” – literalmente, “juízes de maus pensamentos”, este sendo, como dizem, o caso genitivo de posse. Ou, as palavras podem ser traduzidas como: “e vos tornais juízes de maus (ou, falsos) raciocínios?”, ou, como Beza traduz a sentença, “e vos tornais juízes, raciocinando falsamente” – concluindo que o homem rico fosse bom e o pobre, mau. É dito, por Beza e outros, que διακρίνοµαι nunca significa ser julgado ou condenado, mas distinguir, discriminar, fazer diferença, e também contender e duvidar. A diferença feita aqui era o respeito às pessoas que fora demonstrado – e eles faziam esta diferença em si mesmos, em suas próprias mentes, através de pensamentos falsos ou perversos, ou raciocínios que entretiam. Mas parece que estas preferências eram demonstradas, não aos membros da Igreja, e sim a estranhos que por acaso pudessem vir às suas assembléias.

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Comentários de Calvino

e obscuros atribuíssem o que são à misericórdia de Deus, e para que ambos fossem educados à mansidão e humildade. Ricos na fé não são os que abundam em grandeza de fé, e sim aqueles que Deus enriqueceu com os diversos dons do seu Espírito, os quais recebemos pela fé. Pois, sem dúvida, como o Senhor trata generosamente a todos, cada um se torna participante dos seus dons segundo a medida da sua fé. Se, então, estamos vazios ou necessitados, isto prova a deficiência da nossa fé; pois, se tão somente alargarmos o regaço da fé, Deus estará sempre pronto a enchê-lo. Ele afirma que um reino está prometido aos que amam a Deus; não que a promessa dependa do amor; mas ele nos lembra de que somos chamados por Deus para a esperança da vida eterna, sobre esta condição e com esta finalidade – para que o amemos. Nesse caso, o fim, e não o começo, é assinalado aqui. 6. Porventura os ricos. Ele parece instigá-los à vingança ao apresentar o domínio injusto dos ricos, para que aqueles que eram tratados injustamente retribuíssem de igual para igual; e, por outro lado, somos mandados em toda a parte a fazer o bem àqueles que nos injuriam. Mas o objetivo de Tiago era outro; pois ele apenas queria mostrar que estavam sem razão ou juízo aqueles que, por ambição, honravam os seus executores, e ao mesmo tempo prejudicavam os seus próprios amigos – ao menos, aqueles dos quais nunca sofreram nenhum mal. Pois, por isso, mostrava-se ainda mais plenamente a vaidade deles – que não fossem induzidos por nenhum ato de bondade; eles apenas admiravam os ricos porque eram ricos; não somente isto, mas bajulavam servilmente aqueles que descobriam, para sua própria perda, serem injustos e cruéis. Existem, de fato, alguns ricos que são justos, e mansos, e detestam toda a injustiça; mas poucos homens assim serão encontrados. Tiago, então, menciona o que ocorre com a maioria, e o que a experiência diária prova como verdadeiro. Pois, como os homens geralmente exercem o seu poder fazendo o que é errado, por aqui se mostra que, quanto mais poder alguém tenha, pior ele é, e tanto mais injusto para com o seu próximo. Tanto mais cuidadosos então devem ser os ricos, para que não contraiam nada desse contágio que em toda a parte prevalece entre aqueles de seu próprio nível. 7. Digno, ou bom nome. Não tenho dúvida de que ele se refere aqui ao nome de Deus e de Cristo. E diz: por, ou sobre vós foi invocado, não em oração, como a Escritura às vezes tende a falar, mas por confissão – assim como é dito que o nome de um pai, em Gn 48:16, é invocado sobre a sua descendência, e, em Is 4:1, o nome de um marido é invocado sobre a esposa. Então, isto é o mesmo que se ele tivesse dito: “O bom nome em que vos gloriais, ou pelo qual considerais uma honra serdes chamados; mas, se eles orgulhosamente caluniam a glória de Deus, quão indignos são de serem honrados pelos cristãos!”

Epístolas Gerais – Tiago

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TIAGO 2:8-11
8. Todavia, se cumprirdes, conforme a 8. Si legem quidem regiam perfectis juxta Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo scripturum, Diliges proximum tuum sicut te como a ti mesmo, bem fazeis. ipsum, bene facitis. (Lv 19:18, Mt 22:39, Mc 12:31, Rm 13:9, Gl 5:14.) 9. Mas, se fazeis acepção de pessoas, 9. Sin personam respicitis, peccatum cometeis pecado, e sois redargüidos pela committis, et redarguimini a lege veluti lei como transgressores. transgressores. (Lv 19:15, Dt 1:17, 19.) 10. Porque qualquer que guardar toda a 10. Quisquis enim totam legem servaverit, lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se offenderit autem in uno, factus est omnium culpado de todos. reus. 11. Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei. 11. Nam qui dixit, Ne moecheris, dixit etiam, Ne occidas. Quod si non fueris moechatus, occideris tamen, factus es transgressor legis.

Agora segue-se uma declaração mais evidente; pois ele assinala expressamente a causa da última repreensão – pois eles eram servilmente atenciosos para com os ricos, não por amor, mas, pelo contrário, por um vão desejo de alcançar o seu favor. E isto é uma antecipação, pela qual, por outro lado, ele prevenia uma desculpa; pois eles poderiam ter objetado e dito que não devia ser acusado aquele que humildemente se submete aos indignos. De fato, Tiago admite que isto é verdade, mas mostra que era falsamente pretendido por eles, porque mostravam esta submissão de homenagem, não por amor ao seu próximo, mas por acepção de pessoas. Na primeira cláusula, então, ele reconhece como justos e louváveis os deveres do amor que cumprimos para com o nosso próximo. Na segunda, nega que o respeito ambicioso às pessoas deva ser considerado como desta natureza, pois difere muito do que a lei prescreve. E o ponto crítico desta resposta gira em torno das palavras “próximo” e “acepção de pessoas” – como se ele tivesse dito: “Se pretendeis que existe algum tipo de amor no que fazeis, isto pode ser facilmente contestado; pois Deus nos manda amarmos o nosso próximo, e não fazermos acepção de pessoas”. Ademais, esta palavra, “próximo”, inclui toda a humanidade; então, aquele que diz que muito poucos, segundo a sua própria fantasia, devem ser honrados, e outros ignorados, não guarda a lei de Deus, mas se sujeita aos desejos depravados do seu coração. Deus expressamente nos recomenda os estranhos e inimigos, e todos, até os mais desprezíveis. A esta doutrina, a acepção de pessoas é totalmente contrária. Por isso, Tiago corretamente afirma que a acepção de pessoas é inconsistente com o amor. 8. Se cumprirdes a lei real. A lei aqui entendo simplesmente como regra de vida; e cumprir, ou realizá-la, é guardá-la com verdadeira integridade de coração – e, como dizem, circularmente (rotunde); e ele põe essa forma de guarda em oposição a uma observância parcial dela. É dito, na verdade, que ela é uma lei real, tal como é o caminho, ou estrada real – ou seja, plana, direta e uniforme – o que, por implicação, está em oposição a trilhas e curvas sinuosas.

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Comentários de Calvino

Contudo, é feita alusão, conforme penso, à obediência servil que eles prestavam aos ricos, quando podiam, servindo com sinceridade ao seu próximo, ser não apenas homens livres, mas viver como reis. Quando, em segundo lugar, ele diz que aqueles que faziam acepção de pessoas eram redargüidos, ou reprovados pela lei, a lei é tomada de acordo com o seu sentido próprio. Pois, como somos ordenados por mandamento de Deus a abraçar a todos os mortais, todo aquele que, com algumas exceções, rejeita a todos os demais, quebra o vínculo de Deus, e inverte também a sua ordem, e é, por conseguinte, justamente chamado de transgressor da lei. 10. Porque qualquer que guardar toda a lei. Ele só quer dizer que Deus não será honrado com exceções, nem nos permitirá cortar da sua lei o que é menos agradável a nós. À primeira vista, esta sentença parece difícil para alguns – como se o apóstolo aprovasse o paradoxo dos estóicos, que torna todos os pecados iguais; e como se ele afirmasse que aquele que peca em uma só coisa devesse ser castigado igualmente com aquele cuja vida inteira foi pecaminosa e perversa. Mas é evidente, a partir do contexto, que nada disso se passava pela sua mente. Pois devemos sempre observar a razão pela qual alguma coisa é dita. Ele nega que o nosso próximo seja amado quando apenas alguns deles são, por ambição, escolhidos, e o restante negligenciado. Isto ele prova porque não é obediência a Deus, quando não é prestada uniformemente de acordo com o seu mandamento. Então, assim como a regra de Deus é clara e completa, ou perfeita, do mesmo modo devemos considerar a inteireza, a fim de que nenhum de nós separe presunçosamente o que ele uniu. Que haja, portanto, uma uniformidade, se desejamos obedecer corretamente a Deus. Assim como, por exemplo, se um juíz punisse dez roubos, mas deixasse um homem sem castigo, ele trairia a obliqüidade da sua mente, pois assim se mostraria mais indignado contra homens do que contra crimes – porque o que condena em um ele absolve em outro. Então agora entendemos o propósito de Tiago – ou seja, que, se separamos da lei de Deus o que é menos agradável a nós, ainda que em outras partes sejamos obedientes, tornamo-nos culpados de tudo, porque em algo particular violamos toda a lei. E, embora ele acomode o que é dito ao tema em questão, isto é tomado a partir de um princípio geral – que Deus nos prescreveu uma regra de vida, a qual não nos é lícito mutilar. Pois isto não é dito acerca de uma parte da lei: “Este é o caminho, andai por ele”; nem a lei promete uma recompensa, exceto à obediência total. Insensatos, então, são os escolásticos, que julgam que a justiça parcial, tal como a chamam, seja meritória; pois esta passagem, e muitas outras, claramente mostram que não existe justiça senão em uma obediência perfeita à lei. 11. Porque aquele que disse, ou que tem dito. Esta é uma prova do verso anterior – porque o Legislador deve ser mais considerado do que cada preceito particular isoladamente. A justiça de Deus, como um corpo indivisível, está contida na lei. Então, todo aquele que transgride um só artigo da Lei destrói, até onde pode, a justiça de Deus. Além disso, assim como em uma parte, do mesmo modo em cada parte, a vontade de Deus é provar a nossa obediência. Por isso,

Epístolas Gerais – Tiago

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um transgressor da lei é todo aquele que peca quanto a qualquer um dos seus mandamentos, segundo este dito: “Maldito aquele que não cumpre todas as coisas” (Dt 27:26). Vemos ainda que transgressor da lei, e culpado de todos, significam a mesma coisa, de acordo com Tiago.

TIAGO 2:12-13
12. Assim falai, e assim procedei, como 12. Sic loquimini, et sic facite, ut per legem devendo ser julgados pela lei da liberda- libertatis judicandi. de. 13. Porque o juízo será sem misericórdia 13. Judicium enim sine misericordia ei qui sobre aquele que não fez misericórdia; e non praestiterit misericordiam; et gloriatur a misericórdia triunfa do juízo. misericordia adversus judicium.

12. Assim falai. Alguns dão esta explicação – de que, como se gabavam demasiadamente, eles são convocados ao justo tribunal; pois os homens se absolvem de acordo com os seus próprios conceitos porque se afastam do julgamento da lei divina. Então ele os lembra de que todos os feitos e obras alí serão levados em conta, porque Deus julgará o mundo de acordo com a sua lei. Como, porém, tal declaração poderia tê-los afetado de terror imoderado, para corrigir ou mitigar o que poderiam ter considerado severo, ele acrescenta: a lei da liberdade. Pois sabemos o que Paulo diz: “Todos aqueles que estão debaixo das obras da lei estão debaixo da maldição” (Gl 3:10). Por onde o julgamento da lei em si mesmo é condenação à morte eterna; mas ele quer dizer, através da palavra liberdade, que estamos livres do rigor da lei. Este sentido não é completamente inadequado, ainda que, se alguém examinar mais precisamente o que vem logo em seguida, verá que Tiago queria dizer outra coisa; o sentido é como se ele tivesse dito: “A não ser que desejais sofrer o rigor da lei, deveis ser menos rígidos para com o vosso próximo; pois a lei da liberdade é idêntica à misericórdia de Deus, que nos livra da maldição da lei”. E, assim, este verso deve ser lido com o que segue, onde ele fala do dever de suportar as fraquezas. E, sem dúvida, toda a passagem soa melhor assim: “Como nenhum de nós pode permanecer de pé diante de Deus, a não ser que sejamos salvos e livres do rigor estrito da lei, assim devemos agir, para que, por demasiada severidade, não excluamos a indulgência ou misericórdia de Deus, da qual todos nós precisamos até o fim”. 13. Porque o juízo será. Esta é uma aplicação do último verso ao tema em questão, que confirma totalmente a segunda explicação que citei; pois ele mostra que, como permanecemos de pé somente pela misericórdia de Deus, devemos demonstrar isto àqueles que o próprio Senhor nos recomenda. De fato, é uma recomendação singular de bondade e benevolência, que Deus prometa ser misericordioso para conosco, se assim formos para com nossos irmãos; não que nossa misericórdia, por maior que possa ser, demonstrada aos homens, mereça a misericórdia de Deus; e sim que Deus deseja que aqueles que ele adotou, assim como ele é para com eles um Pai bondoso e indulgente, tragam e demonstrem a sua imagem na terra, de acordo com as palavras de Cris-

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Comentários de Calvino

to: “Sede vós misericordiosos, assim como vosso Pai que está nos céus é misericordioso” (Mt 5:7). Por outro lado, devemos notar que ele não poderia denunciar nada mais severo ou mais terrível sobre eles do que o juízo de Deus. Por onde segue-se que são todos miseráveis e perdidos aqueles que não fogem para o asilo do perdão. E a misericórdia triunfa. Como se tivesse dito: “Somente a misericórdia de Deus é o que nos livra do terror e tremor do juízo”, ele toma regozijar-se ou gloriar-se no sentido de ser vitorioso ou triunfante – pois o juízo de condenação está suspenso sobre todo o mundo, e nada além da misericórdia pode trazer alívio. Dura e forçada é a explicação daqueles que consideram a misericórdia expressa aqui no sentido da pessoa, pois não se pode dizer propriamente que os homens se regozijam ou se gloriam contra o juízo de Deus; mas a própria misericórdia de certo modo triunfa, e reina sozinha, quando a severidade do juízo diminui; ainda que eu não negue que por esta causa surja a confiança em regozijar-se – ou seja, quando os fiéis sabem que a ira de Deus de certo modo se sujeita à misericórdia, de modo que, sendo livrados pela última, não são sobrepujados pela primeira.

TIAGO 2:14-17
14. Meus irmãos, que aproveita se al- 14. Quid prodest, fratres mei, si fidem diguém disser que tem fé, e não tiver as cataliquis se habere, opera autem non obras? Porventura a fé pode salvá-lo? habeat? nunquid potest fides salvum facere ipsum? 15. E, se o irmão ou a irmã estiverem 15. Quod si frater aut soror nudi fuerint, et nus, e tiverem falta de mantimento quoti- egentes quotidiano victu, diano, 16. E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? 16. Dicat autem aliquis vestrum illis, Abite cum pace, calescite et saturamini; non tamen dederitis quae sunt necessaria corpori, quae utilitas?

17. Assim também a fé, se não tiver as 17. Sic et fides, si opera non habuerit, obras, é morta em si mesma. mortua est per se.

14. Que aproveita. Ele passa a recomendar a misericórdia. E, como havia ameaçado que Deus seria um Juíz severo para conosco, e ao mesmo tempo mui terrível, a não ser que sejamos benignos e misericordiosos para com o nosso próximo; e como, por outro lado, os hipócritas objetavam e diziam que a fé, na qual consiste a salvação dos homens, é suficiente para nós; ele condena agora esta vã jactância. A suma, então, do que se diz, é que a fé sem o amor de nada aproveita, e que, por isso, está completamente morta. Mas aqui surge uma questão: Pode a fé ser separada do amor? De fato, é verdade que a exposição desta passagem tem produzido aquela distinção comum dos sofistas, entre a fé informe e fé formada; mas Tiago não sabia nada a respeito de tal coisa, pois está claro, a partir das primeiras palavras, que ele fala

Epístolas Gerais – Tiago

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da falsa confissão de fé; pois ele não começa assim: “Se alguém tem fé”, e sim: “Se alguém diz que tem fé” – por meio de que certamente sugere que os hipócritas se vangloriam do nome oco da fé, a qual na verdade não lhes pertence. O que ele chama então de fé é uma concessão, como dizem os retóricos; pois, quando discutimos um ponto, não faz mal – mais ainda, às vezes é aconselhável – conceder a um adversário o que ele pede, pois, tão logo a coisa em si seja conhecida, o que é concedido pode ser facilmente retirado dele. Tiago, então, como estava satisfeito com que este fosse um falso pretexto com o qual os hipócritas se encobriam, não estava disposto a levantar disputa sobre uma palavra ou expressão. Contudo, lembremo-nos de que ele não fala segundo a impressão da sua mente quando faz menção à fé, mas que, pelo contrário, disputa contra aqueles que faziam uma falsa pretensão quanto à fé, da qual estavam totalmente destituídos. Porventura a fé pode salvá-lo? Isto é o mesmo que se ele tivesse dito que não alcançamos a salvação por um mero e frígido conhecimento de Deus, o qual todos confessam ser mui verdadeiro; pois a salvação vem a nós através da fé por esta razão – porque ela nos une a Deus. E isto não ocorre de nenhum outro modo senão por estarmos unidos ao corpo de Cristo, de modo que, vivendo pelo seu Espírito, também somos governados por ele. Não existe nada disto na imagem morta da fé. Então, não é de se surpreender que Tiago negue que a salvação esteja unida a ela.17 15. Se o irmão, ou, pois, se o irmão. Ele toma um exemplo a partir do que está relacionado com o seu assunto; pois vinha exortando-os ao exercício dos deveres do amor. Se alguém, pelo contrário, se jactasse de que estava satisfeito com a fé sem as obras, ele compara esta fé obscura com as palavras de alguém que manda um homem faminto saciar-se sem lhe fornecer o alimento de que este está destituído. Então, assim como aquele que despede um homem pobre com palavras, e não lhe oferece ajuda, trata-o com escárnio, do mesmo modo aqueles que inventam para si uma fé sem obras, e sem nenhum dos deveres da religião, brinca com Deus.18 17. É morta em si mesma. Ele afirma que a fé é morta em si mesma, ou seja, quando destituída de boas obras. Por onde concluímos que, na verdade, isto não é fé, pois, quando morta, não retém devidamente o nome. Os sofistas apelam para esta expressão e dizem que algum tipo de fé existe em si mesma; mas esta objeção frívola e capciosa é facilmente refutada; pois é suficientemente evidente que o Apóstolo raciocina a partir do que é impossível – assim
Quando ele diz: “Porventura a fé pode salvá-lo?”, seu sentido é: “Porventura a fé que ele diz ter pode salvá-lo?” – a fé que está morta e não produz obras; pois essa é claramente a fé pretendida aqui, tal como se mostra pelo que se segue. Para tornar o sentido mais evidente, Macknight traduz a sentença assim: “Porventura esta fé pode salvá-lo?” – ou seja, a fé que não tem obras.
18 17

Isto é aduzido como uma ilustração – assim como as palavras de um homem ao nú: “Veste-te”, quando ele nada faz, não produz nenhum bem, é totalmente inútil; do mesmo modo é aquela fé que não produz obras – estando como que morta, não pode salvar.

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Comentários de Calvino

como Paulo chama um anjo de anátema, se tentasse subverter o evangelho (Gl 1:8).

TIAGO 2:18-19
18. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. 18. Quin dicat quispam, Tu fidem habes, et ego opera habeo; ostende mihi fidem tuam sine operibus (alias, ex operibus) tuis, et ego tibi ex operibus meis ostendam fidem meam.

19. Tu crês que há um só Deus; fazes 19. Tu credis quod Deus unus est, bene bem. Também os demônios o crêem, e facis; et daemones credunt, ac contremisestremecem. cunt.

18. Mas dirá alguém. Erasmo introduz aqui duas pessoas como interlocutores, das quais uma se gloria da fé sem as obras, e a outra das obras sem a fé; e ele acredita que ambas finalmente são refutadas pelo Apóstolo. Mas esta visão parece-me forçada demais. Ele acha estranho que isto devesse ser dito por Tiago: Tu tens a fé – o qual não admite nenhuma fé sem obras. Mas nisto ele está muito enganado, porque não percebe uma ironia nestas palavras. Então, ἀλλὰ entendo no sentido de “não, mas antes”; e τὶς no sentido de “alguém” – pois o propósito de Tiago era expor o orgulho insensato daqueles que imaginavam que tinham fé, quando, pela sua vida, mostravam que eram incrédulos; pois ele sugere que seria fácil para todos os fiéis que levavam uma vida santa despojar os hipócritas dessa jactância com que estavam inchados.19 Mostra-me. Embora a leitura mais aceita seja: “pelas obras”, a Antiga Latina é mais apropriada, e a leitura também se encontra em algumas cópias gregas. Portanto, não hesitei em adotá-la. Então, ele manda mostrar a fé sem as obras, e assim raciocina a partir do que é impossível, para provar o que não existe. Portanto, ele fala ironicamente. Mas, se alguém prefere a outra leitura, ela redunda na mesma coisa: “Mostra-me pelas obras a tua fé” – pois, como ela não é algo inativo, necessariamente deverá ser provada por meio das obras. O sentido então é: “A menos que a tua fé produza frutos, eu nego que tenhas qualquer fé”.20
Eu traduziria o verso assim: “Mas alguém pode dizer: Tu tens fé, eu também tenho obras; mostra-me a tua fé que é sem obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”. É o mesmo que se ele tivesse dito: “Tu tens apenas a fé, eu tenho também as obras em acréscimo à minha fé; agora, prove-me que tu tens a verdadeira fé sem ter obras conectadas a ela (o que era impossível, por isso é chamado de ‘homem vão’, ou cabeça-oca, em Tg 2:20), e eu provarei a minha fé pelos seus frutos, a saber, as boas obras”. Griesbach e outros consideram χωρὶς como a verdadeira leitura, favorecida pela maioria dos manuscritos, e encontrada na Siríaca e na Vulgata.
20 19

Este verso é uma chave para o sentido de Tiago; a fé deve ser provada por meio das obras; então, a fé propriamente justifica e salva, e as obras provam a sua autenticidade. Quando ele diz que o homem é justificado pelas obras, o sentido, de acordo com este verso, é de que o homem é provado pelas suas obras que está justificado, sua fé

Epístolas Gerais – Tiago

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Mas, pode-se questionar se a justiça de vida exterior é uma evidência segura da fé. Pois Tiago diz: “Eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”. A isto eu respondo que os incrédulos às vezes se sobressaem em virtudes especiosas, e levam uma vida honrosa, livre de todo o crime; e, por isso, obras aparentemente excelentes podem existir à parte da fé. E, na verdade, Tiago também não defende que todo aquele que parece bom possua fé. Ele quer dizer apenas isto – que a fé, sem a evidência das boas obras, é pretendida em vão, porque sempre nasce fruto da raiz viva de uma boa árvore. 19. Tu crês que há um só Deus. A partir desta única sentença, torna-se evidente que toda a disputa não é sobre fé, e sim sobre o conhecimento comum de Deus – que não pode conectar os homens a Deus mais do que a vista do sol pode levá-los ao céu; mas é certo que, pela fé, chegamos perto de Deus. Além disso, seria ridículo se alguém dissesse que os demônios têm fé; e Tiago prefere-os a eles do que aos hipócritas, neste aspecto. O diabo estremece, diz ele, à menção do nome de Deus, porque, quando reconhece o seu próprio juíz, enche-se de temor dele. Então, aquele que despreza um Deus reconhecido é muito pior. Fazes bem é dito com o fim de extenuar – como se ele tivesse dito: “É, certamente, algo magnífico ficar abaixo dos demônios!”21

TIAGO 2:20-26
20. Mas, ó homem vão, queres tu saber 20 Vis autem scire, O homo inanis! quod que a fé sem as obras é morta? fides absque operibus mortua sit? 21. Porventura o nosso pai Abraão não 21. Abraham pater noster, nonne ex opefoi justificado pelas obras, quando ofere- ribus justificatus est, quum filium suum ceu sobre o altar o seu filho Isaque? Isaac super altare?

sendo, por meio disso, revelada como uma fé viva, e não uma fé morta. Podemos bem nos surpreender, assim como Doddridge, de que alguém, tendo em vista toda esta passagem, pense que haja alguma contrariedade, no que é dito aqui, com o ensino de Paulo. A doutrina de Paulo, de que o homem é justificado pela fé, e não pelas obras – ou seja, por uma fé viva, que opera através do amor – é perfeitamente consistente com o que diz Tiago – ou seja, que o homem não é justificado por uma fé morta, e sim por aquela fé que prova o seu poder vivo produzindo boas obras, ou prestando obediência a Deus. A suma do que Tiago diz é que uma fé morta não pode salvar, e sim uma fé viva, e que uma fé viva é uma fé operante – uma doutrina ensinada por Paulo, assim como por Tiago.
21

O propósito de se aludir à fé dos demônios parece ter sido este – mostrar que, embora um homem bom possa crer e tremer, se não obedece a Deus e não faz boas obras, ele não tem verdadeira evidência da fé. A fé obediente é a que salva, e não apenas a que nos faz estremecer. A relação com o verso precedente parece ser a seguinte: no primeiro verso, o ostentador da mera fé é desafiado a provar que a sua fé é verdadeira e, portanto, salvífica; o desafiador provaria pelas suas obras. Então, neste verso, é aplicado um teste – é mencionado o primeiro artigo de fé: “Seja que creias nisto, contudo esta fé não te salvará – os demônios têm esta fé e, ao invés de serem salvos, eles estremecem”.

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Comentários de Calvino

22. Bem vês que a fé cooperou com as 22. Vides quod fides cooperata fuerit ejus suas obras, e que pelas obras a fé foi operibus, et ex operibus fides perfecta aperfeiçoada. fuerit? 23. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus. 23. Atque implenta fuit scriptura, quae dicit, Credidit Abraham Deo, et imputatum illi fuit in justitiam, et Amicus Deo vacatus est?

24. Vedes então que o homem é justifica- 24. Videtis igitur quod ex operibus justifido pelas obras, e não somente pela fé. catur homo, et non ex fide solum. 25. E de igual modo Raabe, a meretriz, 25. Similiter et Rahab meretrix, nonne ex não foi também justificada pelas obras, operibus justificata est, quum excepit nunquando recolheu os emissários, e os tios, et alia via ejecit? despediu por outro caminho? 26. Porque, assim como o corpo sem o 26. Quemadmodum enim corpus sine aespírito está morto, assim também a fé nima mortuum est, ita et fides sine operisem obras é morta. bus mortua est.

20. Mas, queres tu saber. Devemos entender o estado da questão, pois a disputa aqui não é a respeito da causa da justificação, mas apenas de que aproveita uma confissão de fé sem as obras, e que opinião devemos formar acerca disto. Absurdamente, então, agem aqueles que se esforçam por provar, através desta passagem, que o homem é justificado pelas obras; porque Tiago não queria dizer nada disso, pois as provas que ele acrescenta se referem a esta declaração – de que não existe fé, ou apenas uma fé morta, sem as obras. Ninguém jamais entenderá o que é dito, nem avaliará sabiamente as palavras, exceto aquele que mantiver em vista o propósito do escritor. 21. Não foi Abraão. Os sofistas se apegam à palavra justificado, e então bradam, como se fossem vitoriosos, que a justificação é parcialmente através das obras. Mas devemos procurar uma interpretação correta, de acordo com a intenção geral de toda a passagem. Já temos dito que Tiago não fala aqui da causa da justificação, ou da maneira como os homens alcançam a justiça – e isto está claro a todos; mas que o seu objetivo era apenas mostrar que as boas obras sempre estão conectadas à fé; e, portanto, como declara que Abraão fora justificado pelas obras, ele está falando a respeito da prova que ele dera da sua justificação. Quando, portanto, os sofistas colocam Tiago contra Paulo, eles se perdem pelo sentido ambíguo de um termo. Quando Paulo diz que somos justificados pela fé, ele não significa outra coisa senão que, pela fé, somos reputados por justos diante de Deus. Mas Tiago tem em vista algo completamente diferente – a saber, mostrar que aquele que confessa ter fé deve provar a realidade da sua fé por meio das suas obras. Sem dúvida, Tiago não pretendia nos ensinar aqui o fundamento sobre o qual a nossa esperança de salvação deve se apoiar; e é nisto somente que Paulo se detém.22

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É justamente observado por Scott que existe a mesma dificuldade em reconciliar Tiago consigo mesmo, assim como com Paulo. E esta dificuldade desaparece de uma

Epístolas Gerais – Tiago

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Então, para que não caiamos nesse falso raciocínio que tem enganado os sofistas, devemos notar o duplo sentido da palavra justificado. Paulo se refere, por meio dela, à imputação gratuita da justiça diante do tribunal de Deus; e Tiago, à manifestação da justiça através da conduta – e isso diante dos homens, conforme podemos deduzir a partir das palavras precedentes: “Mostra-me a tua fé etc.”. Neste verso, admitimos plenamente que o homem é justificado pelas obras – como quando alguém diz que o homem é enriquecido pela compra de um grande e valioso baú, porque suas riquezas, anteriormente ocultas, encerradas no baú, foram deste modo reveladas. 22. Pelas obras a fé foi aperfeiçoada.23 Através disto ele mostra novamente que a questão aqui não é a respeito da causa da nossa salvação, mas se as obras acompanham necessariamente a fé; pois, neste sentido, é dito que ela foi aperfeiçoada pelas obras, porque não foi inativa. Diz-se que ela foi aperfeiçoada pelas obras, não porque recebesse delas a sua própria perfeição, e sim porque deste modo provou ser verdadeira. Pois a distinção fútil que os sofistas fazem a partir destas palavras, entre fé informe e formada, não precisa de uma refutação elaborada; pois a fé de Abrão foi formada e, portanto, aperfeiçoada antes de sacrificar seu filho. E esta obra não foi como que a obra final, ou conclusiva. Depois seguiram-se coisas pelas quais Abraão provou o incremento da sua fé. Por isso, isto não foi o aperfeiçoamento da sua fé, e ela também não obteve a sua forma pela primeira vez nessa ocasião. Tiago então não entendia outra coisa, senão que a integridade da sua fé se revelou nessa ocasião porque produziu aquele fruto notável de obediência. 23. E cumpriu-se a Escritura. Aqueles que procuram provar, a partir desta passagem de Tiago, que as obras de Abraão foram imputadas para justiça, necessariamente confessarão que a Escritura é pervertida por ele; porque, por mais que se retorçam de todos os lados, nunca poderão tornar o efeito em sua própria causa. A passagem é citada de Moisés (Gn 15:6). A imputação da justiça que Moisés menciona precedeu mais de trinta anos à obra pela qual eles querem que Abraão tenha sido justificado. Como a fé fora imputada a Abraão quinze anos antes do nascimento de Isaque, certamente isto não poderia ter sido realizado através do ato de sacrificá-lo. Considero que estão fortemente atados
vez, quando temos em vista toda a passagem, e não nos confinamos a expressões isoladas. A sentença anterior é dificilmente inteligível na nossa versão ou na de Calvino. “Vês tu como a fé operou (cooperou, por Calvino) com as suas obras?” O verbo é συνεργέω, que significa propriamente operar junto, cooperar; e significa também, como efeito da cooperação, ajudar, auxiliar. “Vês tu como a fé ajudou-o em suas obras?” Schleusner fornece esta paráfrase: “Tu vês que Abraão foi ajudado pela sua fé a tornar suas obras notórias”. A versão de Beza é: “Tu vês que a fé foi o assistente (administer) das suas obras”. Alguns dão a idéia de combinar a cooperar: “Tu vês que a fé cooperou com as suas obras” – ou seja, na justificação. É dito que, se esta combinação fosse pretendida, deveria ter sido dito que as obras cooperaram com a sua fé, uma vez que a fé, de acordo com o testemunho da Escritura e a natureza das coisas, é a coisa principal e primária, e uma vez que não pode haver boas obras sem fé. Mas a primeira explicação é a mais coerente com as palavras e com a intenção da passagem.
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Comentários de Calvino

por um nó indissolúvel aqueles que imaginam que a justiça fora imputada a Abraão diante de Deus porque ele sacrificou seu filho Isaque, o qual ainda não era nascido quando o Espírito Santo declarou que Abraão fora justificado. Por onde necessariamente segue-se que algo posterior é indicado aqui. Por quê, então, Tiago diz que ela foi aperfeiçoada? A saber, porque ele pretendia mostrar que tipo de fé era aquela que justificara Abraão – ou seja, que ela não era inativa ou evanescente, mas tornara-o obediente a Deus, conforme também encontramos em Hb 11:8. A conclusão, que é acrescentada logo em seguida, como depende disso, não tem outro significado. O homem não é justificado pela fé somente – ou seja, por um mero e vazio conhecimento de Deus; ele é justificado pelas obras – ou seja, sua justiça é conhecida e provada através dos seus frutos. 25. E de igual modo Raabe, não foi também. Parece estranho que ele relacionasse aqueles que eram tão diferentes. Por que não escolheu antes alguém dentre um número tão grande de ilustres patriarcas, e o uniu a Abraão? Por que preferiu uma meretriz a todos os demais? Ele propositalmente uniu duas pessoas tão diferentes no seu caráter, a fim de mostrar mais claramente que ninguém, seja qual for a sua condição, nação ou classe social, jamais foi reputado por justo sem as boas obras. Ele havia citado o patriarca, de longe o mais eminente de todos; agora inclui, sob a pessoa de uma meretriz, todos aqueles que, sendo estrangeiros, foram unidos à Igreja. Então, todo aquele que procura ser reputado por justo, ainda que possa estar até entre os mais inferiores, deve mostrar que é tal por meio de boas obras. Tiago, segundo a sua maneira de falar, declara que Raabe foi justificada pelas obras; e os sofistas concluem, por causa disto, que alcançamos a justiça pelos méritos das obras. Mas negamos que a disputa aqui seja concernente ao modo de alcançar a justiça. De fato, admitimos que as boas obras são necessárias para a justiça – apenas removemos delas o poder de conferir a justiça, porque elas não podem permanecer diante do tribunal de Deus.24

TIAGO 3:1-5
1. Meus irmãos, muitos de vós não sejam 1. Nolite plures magistri fieri, fratres mei; mestres, sabendo que receberemos mais scientes quod majus judicium sumpturi duro juízo. sumus. 2. Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo. 2. In multis enim labimur omnes: si quis in sermone non labitur, hic perfectus est vir, ut qui posssit fraeno moderari totum etiam corpus.

3. Ora, nós pomos freio nas bocas dos 3. Ecce equis fraena in ora injicimus, ut
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O último verso passou despercebido: “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras (ou, não tendo obras) é morta”. O sentido não é de que as obras são para a fé o que o espírto é para o corpo, pois isto faria das obras a vida da fé – o contrário da realidade; mas o sentido é de que a fé, não tendo obras, é como uma carcassa morta, sem vida.

Epístolas Gerais – Tiago

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cavalos, para que nos obedeçam; e con- obediant nobis; et totum illorum corpus seguimos dirigir todo o seu corpo. circumagimus: 4. Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa. 4. Ecce etiam naves, cum tantae sint, et a saevis ventis pulsentur, circumagnuntur a minimo gubernaculo, quocunque affectus dirigentis voluerit:

5. Assim também a língua é um pequeno 5. Ita et lingua pusillum membrum est, et membro, e gloria-se de grandes coisas. magna jactat.

1. Muitos não sejam mestres. A interpretação comum e quase universal desta passagem é que o Apóstolo desencoraja o desejo pelo ofício do ensino, e por esta razão – porque é perigoso, e expõe o indivíduo a um juízo mais pesado, caso ele transgrida; e pensam que ele disse: Muitos não sejam mestres, porque devia haver alguns. Mas entendo que mestres não são os que cumpriam um dever público na Igreja, e sim aqueles que tomavam sobre si o direito de julgar os outros – pois tais repreensores deveriam ser considerados como mestres da moral. E é um modo de falar usual entre os gregos, bem como latinos – que fossem chamados de mestres aqueles que arrogantemente censurassem aos outros. E que ele os proibisse de serem muitos, foi pela seguinte razão – porque havia muitos em toda a parte que confiavam em si mesmos; pois é, por assim dizer, uma enfermidade inata aos homens procurar obter reputação acusando aos outros. E, neste aspecto, um duplo vício prevalece – ainda que poucos se sobressaiam em sabedoria, todos se intrometem indiscriminadamente no ofício de mestres; e assim poucos são influenciados por um sentimento justo, pois a hipocrisia e a ambição os estimulam, e não um cuidado pela salvação de seus irmãos. Pois deve-se observar que Tiago não desencoraja aquelas admoestações fraternais, que o Espírito frequentemente e tanto nos recomenda, mas aquele desejo imoderado de condenar, que procede da ambição e do orgulho, quando alguém se exalta contra o seu próximo, difama, critica, corrói e procura malevolamente aquilo que ele possa desviar para um propósito sinistro – pois isto é normalmente feito quando censores impertinentes desta natureza se vangloriam insolentemente na obra de expor os vícios dos outros. Deste ultraje e aborrecimento Tiago nos manda voltar; e ele acrescenta uma razão – porque aqueles que deste modo são severos para com os outros sofrerão um castigo mais pesado; pois impõe uma lei dura sobre si aquele que prova as palavras e feitos dos outros de acordo com a regra do extremo rigor; e também não merece perdão aquele que não quer perdoar ninguém. Esta verdade deve ser cuidadosamente observada – de que aqueles que são rígidos demais para com seus irmãos provocam contra si mesmos a severidade de Deus. 2. Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Isto pode-se admitir como tendo sido dito por concessão – como se tivesse dito: “Seja que encontrastes o que seja culpável em teus irmãos, pois ninguém está livre de pecados; mas pensas que és perfeito, tu que usas de uma língua difamadora e virulenta?” Mas a mim parece que Tiago nos exorta, por meio deste argumento, à mansidão, visto

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Comentários de Calvino

como também estamos nós mesmos cercados de muitas fraquezas; pois age injustamente aquele que nega aos outros o perdão de que ele mesmo precisa. Assim também Paulo diz, quando manda que os que caíram sejam repreendidos amavelmente, e com espírito de mansidão; pois acrescenta logo em seguida: “olhando por ti mesmo, para que também não sejas tentado” (Gl 6:1). Pois não há nada que sirva melhor para moderar o rigor extremo do que o conhecimento da nossa própria fraqueza. Se alguém não tropeça em palavra. Após ter dito que não há ninguém que não peque em muitas coisas, agora ele mostra que a fraqueza da maledicência é mais odiosa do que outros pecados; pois, dizendo que aquele que não peca com a sua língua é perfeito, ele sugere que o comedimento da língua é uma grande virtude, e uma das maiores virtudes. Por isso agem mui perversamente aqueles que examinam curiosamente cada falta, até as menores, e por outro lado se indultam tão grosseiramente. Então, aqui ele trata indiretamente da hipocrisia dos censores, porque, ao se examinarem, eles omitiam o mais importante, e que era de grande importância – a saber, a sua maledicência; pois aqueles que reprovavam a outros pretendiam um zelo de santidade perfeita, mas deviam ter começado com a língua, se quisessem ser perfeitos. Como não faziam caso de refrear a língua, mas, pelo contrário, mordiam e despedaçavam os outros, eles exibiam apenas uma santidade fictícia. Por onde fica evidente que eles eram os mais repreensíveis de todos, porque negligenciavam uma virtude primária. Este contexto torna o sentido do Apóstolo claro para nós. 3. Nós pomos freio nas bocas dos cavalos. Por meio destas duas comparações ele prova que grande parte da verdadeira perfeição está na língua, e que ela exerce domínio, como acabara de dizer, sobre toda a vida. Ele compara a língua, primeiro, a um freio, e depois ao leme de um barco. Embora o cavalo seja um animal violento, ele é submetido à vontade do seu cavaleiro porque lhe é posto o freio; não menos a língua pode servir para governar o homem. Assim também com respeito ao leme de um barco, que guia uma grande embarcação e supera a impetuosidade dos ventos. Embora a língua seja um membro pequeno, ela é de grande valia para regular a vida do homem. E gloria-se de grandes coisas. O verbo µεγαλαυχεῖν significa gloriar-se, ou ostentar. Mas, nesta passagem, Tiago não intentava tanto reprovar a ostentação quanto mostrar que a língua é executora de grandes coisas – pois nesta última cláusula ele aplica as comparações anteriores ao seu assunto; e a vanglória não é conveniente para o freio e o leme. Então, ele quer dizer que a língua é dotada de grande poder. Verti o que Erasmo traduziu como impetuosidade por inclinação do piloto ou guia – pois ὁρµὴ significa desejo. De fato, admito que entre os gregos designa aquelas paixões que não são subservientes à razão. Mas aqui Tiago simplesmente fala da vontade do piloto.

Epístolas Gerais – Tiago

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TIAGO 3:5-6
5. Vede quäo grande bosque um peque- 5. Ecce exiguus ignis quantam sylvam no fogo incendeia. incendit. 6. A língua também é um fogo; como mundo de iniqüidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno. 6. Et lingua ignis est, et mundus iniquitatis: sic inquam lingua constituta est in membris nostris, inquinans totum corpus, inflammans rotam nativitatis, et inflammatur a gehenna.

Agora ele explica os males que procedem da negligência no comedimento da língua, para que saibamos que a língua pode causar muito bem ou muito mal – que, se for modesta e bem regulada, ela se torna um freio para a vida inteira; mas que, se for petulante e violenta, como um fogo ela destrói todas as coisas. Ele a representa como um pequeno fogo, para sugerir que esta pequenez da língua não será um impedimento para que seu poder não se estenda a toda a parte, causando dano. Acrescentando que ela é um mundo de iniquidade, é o mesmo que se a tivesse chamado de mar ou abismo. E apropriadamente ele relaciona a pequenez da língua com a vastidão do mundo; de acordo com este significado, uma porção delgada de carne contém em si todo o mundo de iniquidade. Assim também a língua. Ele explica o que queria dizer pelo termo mundo – a saber, porque o contágio da língua se espalha por toda a parte da vida; ou antes, ele mostra o que entendia pela metáfora do fogo – a saber, que a língua contamina todo o homem. Contudo, logo em seguida volta para o fogo, e diz que todo o curso da natureza é inflamado pela língua. E compara a vida humana a um curso, ou roda; e γένεσις, assim como antes, ele toma no sentido de natureza (Tg 1:23). O sentido é que, quando outros vícios são corrigidos pela idade ou pela sucessão do tempo, ou quando ao menos nesse caso não possuem todo o homem, o vício da língua se espalha e prevalece sobre cada parte da vida; a menos que alguém prefira tomar inflamando como significando um impulso violento – pois chamamos de abrasamento aquilo que é acompanhado de violência. E assim Horácio fala acerca das rodas – pois ele chama as carruagens em batalha de abrasadoras, por conta da sua rapidez. O sentido então seria de que a língua é como cavalos indomados – pois, assim como estes puxam violentamente as carruagens, do mesmo modo a língua incita o homem abruptamente pelo seu próprio desregramento.25

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O “curso da natureza”, ou compasso da natureza – ou seja, tudo o que está incluído na natureza – significa evidentemente o mesmo que “todo o corpo” na cláusula precedente. Não existe nenhum sentido, compatível com a passagem, no que alguns têm sugerido: “todo o curso da vida” – pois, que idéia é transmitida, quando dizemos que a língua inflama ou põe em chamas todo o curso da vida? Mas há um sentido inteligível, quando se diz que a língua põe em chamas todo o mecanismo da nossa natureza, cada faculdade que pertence ao homem.

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Quando diz que ela é inflamada pelo inferno, é o mesmo que se ele tivesse dito que o ultraje da língua é a chama do fogo infernal.26 Pois, assim como os poetas pagãos imaginavam que os ímpios são atormentados pelas tochas das Fúrias, do mesmo modo é verdade que Satanás, pelos abanos da tentação, incita o fogo de todos os males no mundo; mas Tiago quer dizer que o fogo, enviado por Satanás, é mais facilmente apanhado pela língua, de modo que ela queima imediatamente – em suma, que ela é um material apropriado para receber, ou alimentar, ou aumentar o fogo do inferno.

TIAGO 3:7-12
7. Porque toda a natureza, tanto de bes- 7. Omnis enim natura ferarum et volucrum tas feras como de aves, tanto de répteis et serpentium et marinorum, a natura hucomo de animais do mar, se amansa e foi mana domatur et dimota est: domada pela natureza humana; 8. Mas nenhum homem pode domar a 8. Linguam vero nullus hominum domare língua. É um mal que não se pode refre- potest, incoercibile malum, plena veneno mortifero. ar; está cheia de peçonha mortal. 9. Com ela bendizemos a Deus e Pai, e 9. Per ipsam benedicimus Deum et com ela amaldiçoamos os homens, feitos Patrem; et per ipsam execramur homines à semelhança de Deus. ad similitudinem ejus factos. 10. De uma mesma boca procede bênção 10. Ex eodem ore procedit benedictio et e maldição. Meus irmãos, não convém maledictio. Non onvenit, fratres mei, haec que isto se faça assim. ita fieri. 11. Porventura deita alguma fonte de um 11. An fons ex codem foramine ejicit dulce mesmo manancial água doce e água a- et amarum? margosa? 12. Meus irmãos, pode também a figueira 12. Non potest, fratres mei, ficus oleas produzir azeitonas, ou a videira figos? proferre; aut vitis ficus; sic nullus fons salAssim tampouco pode uma fonte dar á- sam et dulcem gignere aquam. gua salgada e doce.

7. Porque toda a natureza de bestas feras. Esta é uma confirmação da última cláusula; pois, que Satanás governe mais eficazmente através da língua ele prova por meio disto – que ela não pode ser trazida de modo algum à devida ordem; e enfatiza isto por meio de comparações. Pois afirma que não existe nenhum animal tão selvagem ou feroz que não seja domesticado pela habilidade humana – quer sejam peixes, que de certo modo habitam em outro mundo; quer aves, que são tão ligeiras e móveis; e quer serpentes, que são tão inimigas do homem, às vezes são domesticadas. Como, então, a língua não pode ser refreada, deve haver algum fogo secreto do inferno oculto nela. O que ele diz acerca de feras selvagens, de serpentes, e de outros animais, não deve ser entendido com respeito a todos eles; basta que a habilidade humana subjugue e domestique alguns dos mais ferozes deles, e também que serpentes às vezes sejam domesticadas. Ele se refere ao tempo presente e
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“Uma má língua é o orgão do diabo”.—Estius.

Epístolas Gerais – Tiago

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passado – o presente diz respeito ao poder e capacidade, e o passado, ao uso ou experiência. Por onde justamente conclui que a língua está cheia de veneno mortal. Embora todas estas coisas mui apropriadamente se refiram, em primeiro lugar, ao tema desta passagem – que reivindicam um mando excessivo sobre outros aqueles que laboram sob um vício pior – contudo, pode-se entender que uma doutrina universal é ensinada aqui – que, se desejamos formar corretamente a nossa vida, devemos nos esforçar especialmente por refrear a língua, pois nenhuma parte do homem causa maior dano. 9. Com ela, ou, por meio dela, bendizemos a Deus. É um exemplo claro do seu veneno mortal – que ela possa, deste modo, por uma leviandade monstruosa, transformar-se; pois, quando pretende bendizer a Deus, imediatamente o amaldiçoa na sua própria imagem – ou seja, amaldiçoando os homens. Pois, como Deus deve ser bendito em todas as suas obras, ele deve ser tanto mais especialmente quanto aos homens, em quem a sua imagem e glória resplandecem peculiarmente. Então, é uma hipocrisia insuportável, quando o homem emprega a mesma língua para bendizer a Deus e amaldiçoar os homens. Nesse caso, não pode haver nenhuma invocação a Deus, e o seu louvor necessariamente cessará, quando a maledicência prevalecer; pois é uma ímpia profanação do nome de Deus, que a língua seja virulenta para com os nossos irmãos e pretenda louvá-lo. Portanto, para que possa louvar devidamente a Deus, a visão da maledicência quanto ao nosso próximo deve ser especialmente corrigida. Esta verdade particular também se deve ter em mente – de que censores rigorosos revelam a sua própria virulência, quando subitamente vomitam contra os seus irmãos qualquer maldição que possam imaginar, após terem oferecido, em doces melodias, louvores a Deus. Se alguém objetasse e dissesse que a imagem de Deus na natureza humana foi apagada pelo pecado de Adão, de fato, temos de confessar que ela foi miseravelmente deformada, mas de tal modo que ainda se mostram alguns dos seus contornos. A justiça e a retidão, e a liberdade de escolher o que é bom, foram perdidas; mas muitos dons excelentes, pelos quais nos sobressaímos aos animais irracionais, ainda permanecem. Então, aquele que verdadeiramente adora e honra a Deus terá receio de falar caluniosamente acerca do homem. 11. Porventura alguma fonte. Ele aduz estas comparações a fim de mostrar que uma língua amaldiçoadora é algo monstruoso, contrário a toda a natureza, e subverte a ordem estabelecida por Deus em toda a parte. Pois Deus ordenou as coisas contrárias de tal modo que os seres inanimados deveriam nos impedir de uma mistura caótica, tal como certamente se encontra em uma língua dupla.27

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Há uma leitura diferente no final de Tg 3:12, adotada por Griesbach, embora rejeitada por Mill e outros: οὕτως οὔτε ἁλυχὸν γλυχὺ ποιὢσαι ὕδωρ, “Assim também água salgada não pode produzir doce”. Esta leitura é favorecida pela Siríaca e pela Vulgata, embora as palavras sejam um pouco diferentes.

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TIAGO 3:13-18
13. Quem dentre vós é sábio e entendi- 13. Quis sapiens et intelligens inter vos? do? Mostre pelo seu bom trato as suas ostendat ex honesta conversatione opera obras em mansidão de sabedoria. sua in mansuetudine sapientiae. 14. Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. 14. Si vero aemulationem amaraem habetis, et contentionem in corde vestro, ne gloriemini, et mentiamini adversus veritatem.

15. Essa não é a sabedoria que vem do 15. Non est haec sapientia de sursum alto, mas é terrena, animal e diabólica. veniens, sed terrestris, animalis, daemonica. 16. Porque onde há inveja e espírito fac- 16. Ubi enim aemulatio et contentio, ibi cioso aí há perturbação e toda a obra perturbatio et omne pravum opus. perversa. 17. Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. 17. Quae autem e sursum est sapientia, primum pura est, deinde pacata, aequa, comis, plena misericordiae et bonorum operum, sine disquisitione, sine simulatione.

18. Ora, o fruto da justiça semeia-se na 18. Fructus autem justitiae in pace semipaz, para os que exercitam a paz. natur facientibus pacem.

13. Quem é sábio. Como a paixão da calúnia surge principalmente pelo orgulho, e como o falso conceito de sabedoria na maioria das vezes gera orgulho, por isso ele fala aqui a respeito da sabedoria. É comum que os hipócritas exaltem e se destaquem incriminando todos os outros, como acontecia antigamente com muitos filósofos, que buscavam glória para si por um cáustico abuso de todas as outras ordens. Tal arrogância com que os homens difamadores se incham e pela qual são cegados, Tiago contém negando que a presunção de sabedoria, de que os homens se gabam, tenha em si algo de divino; mas, pelo contrário, ele declara que ela procede do maligno. O sentido então é de que censores arrogantes, que muito se indultam, e ao mesmo tempo não poupam ninguém, parecem ser muito sábios a si mesmos, mas estão muito enganados; pois o Senhor ensina seu povo de modo mui diferente – ou seja, a serem mansos, e corteses para com os outros. Então, somente são sábios à vista de Deus aqueles que unem esta mansidão a um modo de viver honesto – pois aqueles que são severos e inexoráveis, ainda que possam se sobressair a outros em muitas virtudes, não seguem o caminho reto da sabedoria.28
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“Quem é sábio e inteligente entre vós? mostre por uma boa conduta as suas obras em mansidão de sabedoria”. A ordem aqui é de acordo com o que é comum na Escritura: a sabedoria – o efeito – primeiro, depois o conhecimento – a causa, ou o que a precede. No que se segue a ordem é invertida; o conhecimento distingue entre obras boas e más, e as boas devem ser exibidas com aquela mansidão que a sabedoria prescreve.

Epístolas Gerais – Tiago

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14. Mas, se tendes amarga inveja. Ele assinala os frutos que procedem daquela austeridade extrema que é contrária à mansidão; pois o rigor imoderado necessariamente gera emulações perniciosas, que logo irrompem em contendas. De fato, é um modo inapropriado de falar, situar as contendas no coração; mas isto não afeta o significado, pois o objetivo era demonstrar que a má disposição do coração é a fonte destes males. Ele chamou a inveja, ou emulação, de amarga, porque ela não prevalece, senão quando as mentes são de tal modo infectadas com o veneno da malignidade que tornam todas as coisas em amargura.29 Para que então possamos realmente nos gloriar de que somos filhos de Deus, ele nos manda agirmos tranquila e mansamente em relação aos nossos irmãos; de outro modo, declara que estamos mentindo, ao assumir o nome de cristãos. Mas não é sem razão que ele acrescentou a companhia da inveja – a saber, o sentimento faccioso, ou contenda; pois as disputas e rixas sempre surgem a partir da malignidade e inveja. 15. Essa não é a sabedoria que vem do alto. Como os hipócritas cedem com dificuldade, ele conteve prontamente a arrogância deles, negando que fosse da verdadeira sabedoria que estivessem inchados, enquanto fossem extremamente rabugentos em descobrir os vícios de outros. Concedendo-lhes, porém, o termo sabedoria, ele mostra por meio das palavras que aplica ao seu verdadeiro caráter, e diz que ela é terrena, animal, diabólica ou demoníaca, enquanto a verdadeira sabedoria deve ser celestial, espiritual, divina – estas três coisas sendo diretamente contrárias às três precedentes. Pois Tiago tem por certo que não somos sábios, senão quando somos iluminados do alto por Deus, através do seu Espírito. Então, por mais que a mente humana possa se engrandecer, toda a sua agudez será vaidade; e não somente isto, mas, estando finalmente envolvida nos ardis de Satanás, ela se tornará completamente delirante.30 Sensual, ou animal, está em oposição ao que é espiritual – como em 1 Co 2:14, onde Paulo afirma que o homem sensual ou animal não recebe as coisas de Deus. E o orgulho do homem não poderia ter sido humilhado mais eficazmente, do que quando assim é condenada toda a sabedoria que ele tenha de si mesmo, sem o Espírito de Deus; não somente isto, mas quando de si é feita
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Uma ordem semelhante quanto às palavras encontra-se aqui, assim como no verso anterior – a amarga inveja é ocasionada pela discórdia da contenda. Pode haver inveja sem contenda, mas é a contenda que geralmente a torna amarga.
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Scott considera que esta sabedoria foi chamada de “terrena” porque buscava distinções terrenas, e era de origem terrena – “animal”, ou antes “natural”, tal como a palavra é traduzida em 1 Co 2:14, porque era resultado de princípios pelos quais os homens naturais são impulsionados, como a inveja e ambição; e “demoníaca” porque veio primeiro do diabo, e constituía a imagem do seu orgulho, ambição, malignidade e mentira. A palavra “animal” tem levado alguns a supor que a referência seja à sensualidade, a gratificação das paixões carnais; mas não há nada na passagem que favoreça esta visão. As únicas coisas mencionadas são a inveja e um espírito contencioso – coisas que pertencem ao homem natural.

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Comentários de Calvino

uma transição para o diabo. Pois isto é o mesmo que se ele tivesse dito que os homens, seguindo o seu próprio sentido, ou mentes, ou sentimentos, logo se tornaram presa das ilusões de Satanás. 16. Porque onde há inveja. É um argumento a partir do que é contrário; pois a inveja, pela qual os hipócritas são influenciados, produz efeitos contrários à sabedoria. Pois a sabedoria exige um estado de espírito que seja tranquilo e sereno, mas a inveja o perturba, de modo que, em si mesmo, se torna de certo modo tumultuoso, e se excita imoderadamente contra os outros. Alguns traduzem ἀκαταστασία por inconstância – e às vezes significa isto; mas, como também significa sedição e tumulto, perturbação parece ser mais apropriado para esta passagem. Pois Tiago pretendia expressar algo mais do que leviandade – a saber, que o maligno e caluniador faz tudo confusa e temerariamente, como se estivesse fora de si; e por isso ele acrescenta: toda a obra perversa. 17. Mas a sabedoria que do alto vem. Agora ele menciona os efeitos da sabedoria celestial, os quais são totalmente contrários aos efeitos anteriores. Ele diz primeiro que ela é pura – por cujo termo exclui a hipocrisia e ambição.31 Em segundo lugar, ele a chama de pacífica, para sugerir que não é contenciosa. Em terceiro lugar, ele a chama de moderada, ou humana, para que saibamos que ela está muito longe daquela austeridade imoderada que não tolera nada em nossos irmãos. Ele também a chama de gentil, ou tratável – querendo dizer com isto que ela difere muito do orgulho e da malignidade. Por último, ele diz que ela é cheia de misericórdia, etc., enquanto a hipocrisia é desumana e inexorável. Por bons frutos, ele se refere em geral a todos aqueles deveres que homens benevolentes desempenham para com os seus irmãos – como se tivesse dito que ela é cheia de benevolência. Por onde segue-se que mentem aqueles que se gloriam em sua cruel austeridade. Mas, embora tivesse condenado suficientemente a hipocrisia quando disse que a sabedoria é pura, ou sincera; ele torna isto mais claro, repetindo a mesma coisa no final. Por aqui somos lembrados de que somos desmedidamente rabugentos e austeros por nenhuma outra razão senão por isto – porque nos poupamos demais, e somos coniventes com os nossos próprios vícios. Mas o que ele diz: sem parcialidade (sine dijudicatione), parece estranho; pois o Espírito de Deus não remove a diferença entre o bem e o mal; nem nos torna insensíveis a ponto de ficarmos tão sem juízo que louvamos o vício, e o consideramos como virtude. A isto eu respondo que Tiago aqui se refere, por discernimento ou parcialidade, àquela inquirição superescrupulosa e excessivamente preocupada, tal como é geralmente mantida pelos hipócritas, que com demasi-

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“Pura”, ἁγνή, deve ser entendida de acordo com o que o contexto contém. Significa o que é livre de mancha ou contaminação – o tipo de mancha deve ser desvendado a partir da passagem. A sabedoria do alto é contrastada com a sabedoria de baixo – esta última tem inveja e contenda; a primeira é “pura”, estando livre de inveja, e é “pacífica”.

Epístolas Gerais – Tiago

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ada minúcia examinam os ditos e feitos de seus irmãos, e lhes dão a pior interpretação.32 18. Ora, o fruto da justiça. Isto admite dois significados – o fruto semeado pelos pacíficos, que depois eles colhem; ou, embora tolerem com mansidão muitas coisas em seu próximo, não cessam de semear a justiça. Contudo, esta é uma antecipção de uma objeção – pois aqueles que são arrebatados à maledicência pela paixão da calúnia sempre têm esta escusa: “O quê! podemos então remover o mal pela nossa cortesia?” Por isso Tiago diz que aqueles que são sábios segundo a vontade de Deus, são tão bondosos, mansos e misericordiosos que não encobrem os vícios, nem os favorecem; mas, pelo contrário, de tal modo que se esforçam por corrigi-los, e contudo de um modo pacífico – ou seja, com moderação, de modo que a união é preservada. E, deste modo, ele testifica que aquilo que até aqui havia dito não tende em nenhum grau a acabar com calmas repreensões; mas que aqueles que querem ser médicos para curar vícios não devem ser executores. Por isso ele acrescenta: para os que exercitam a paz – o que deve ser explicado assim: aqueles que buscam a paz, não obstante são cuidadosos em semear a justiça; e também não são indolentes ou negligentes em promover e encorajar as boas obras; mas moderam o seu zelo com o condimento da paz, enquanto os hipócritas lançam todas as coisas em confusão por uma violência cega e furiosa.

A palavra ἀδιύκριτος encontra-se apenas aqui, e tem sido diversamente traduzida, porque o verbo do qual ela se origina possui vários significados – discernir, fazer diferença, julgar, examinar, contender ou litigar, e duvidar. É traduzida pela Vulgata como “não julgando” – não-censurador; por Beza, como “sem contender” – incontroversa; por Erasmo, como “não fazendo diferença” – imparcial; e por Hammond, como “não duvidando”, ou seja, quanto à fé. “Não-censurador”, ou “imparcial”, parece a tradução mais apropriada – não dado à temeridade em julgar os outros, ou não fazendo a acepção de pessoas anteriormente condenada em Tg 2:1. Então, segue-se “sem hipocrisia” – não dizendo uma coisa e querendo dizer outra.
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Parece haver um completo contraste entre os dois tipos de sabedoria. A sabedoria do alto não é invejosa, mas pura; não é contenciosa, mas pacífica; não cria confusão, mas é paciente e conciliadora; e, ao invés de produzir “toda a obra perversa”, é cheia de misericórdia e benevolência, e dos frutos da benevolência, não sendo censuradora ou parcial no juízo, e não sendo hipócrita, ou agindo desonestamente. Por meio desta comparação, vemos quais eram algumas das coisas incluídas em “toda a obra perversa” – elas eram o inverso da misericórdia ou benevolência, e seus frutos, a saber, a mania de censurar ou parcialidade, e a dissimilação. E, contudo, aqueles que exibiam todas estas coisas perversas pensavam que tinham sabedoria! – e até se gloriavam nisto!

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Comentários de Calvino

TIAGO 4:1-3
1. De onde vêm as guerras e pelejas en- 1. Unde bella et pugnae inter vos? nonne tre vós? Porventura não vêm disto, a sa- hinc, ex voluptatibus vestris, quae militant ber, dos vossos deleites, que nos vossos in membris vestris. membros guerreiam? 2. Cobiçais, e nada tendes; matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar; combateis e guerreais, e nada tendes, porque não pedis. 2. Concupiscitis et non habetis; invidetis et aemulamini, et non potestis obtinere; pugnatis et belligeramini, non habetis, propterea quod non petitis;

3. Pedis, e não recebeis, porque pedis 3. Petitis, et non accipitis, quia male petimal, para o gastardes em vossos delei- tis, ut in voluptates vestras insumatis. tes.

1. De onde vêm as guerras. Como havia falado de paz, e os havia lembrado de que os vícios devem ser exterminados de modo a preservar a paz, agora ele passa às disputas deles, pelas quais criavam confusão entre si mesmos; e mostra que estas surgiam a partir de seus desejos e paixões invejosas, ao invés de um zelo pelo que era justo e correto – pois, se cada um observasse a moderação, eles não teriam perturbado e aborrecido uns aos outros. Eles tinham seus ardentes conflitos, porque deixavam suas paixões prevalecerem descontroladas. Por onde se mostra que teria havido maior paz entre eles, se cada um se abstivesse de prejudicar os outros; mas os vícios que prevaleciam entre eles eram tantos serventes armados para incitar disputas. Ele chama nossas faculdades de membros. Emprega paixões como designando todos os desejos ou propensões sensuais e ilícitas que não podem ser satisfeitas sem causar dano a outros. 2. Cobiçais, ou desejais, e nada tendes. Ele parece sugerir que a alma do homem é insaciável, quando este indulta paixões perversas; e isto é realmente assim, pois quem permite que suas propensões pecaminosas governem descontroladas, não conhecerá fim para a sua concupiscência. Ainda que o mundo lhe fosse dado, desejaria que outros mundos fossem criados para ele. Assim ocorre que os homens procuram tormentos que excedem a crueldade de todos os executores. Pois aquele dito de Horácio é verdadeiro: “Os tiranos da Sicília não encontraram tormento maior do que a inveja”.33 Algumas cópias trazem φονεύετε, “matais”; mas não tenho dúvida de que deveríamos ler φθονεῖτε, “invejais”, conforme traduzi; pois o verbo matar não se encaixa de modo nenhum com o contexto.34

33 34

Invidia Siculi non invenere tyranni Majus tormentum. — EPIST. Lib. I. 2:58.

Não existe nenhum manuscrito ou versão em favor de φθονεῖτε. Quando se diz: “matais”, o sentido é de que eles faziam isto quanto ao ódio ou inveja que nutriam, pois o ódio é a raíz do homicídio, e geralmente surge da inveja. O que evidentemente levou Calvino e outros a conjecturar um erro aqui tem sido a dificuldade que surge da ordem das palavras: “Matais e invejais”; mas esta ordem é totalmente consoante com o estilo da Escritura, onde muitas vezes o mal ou bem maior é mencionado primeiro, e

Epístolas Gerais – Tiago

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Combateis. Ele não se refere àquelas guerras e combates em que os homens se envolvem com espadas desembainhadas, mas às disputas violentas que prevaleciam entre eles. Eles não derivavam nenhum benefício de contendas desta natureza, pois ele afirma que recebiam o castigo da sua própria impiedade. Deus, de fato, a quem não reconheciam como autor de bênçãos, justamente os desapontava. Pois, quando contendiam de formas tão ilícitas, eles buscavam se enriquecer mais pelo favor de Satanás do que pelo favor de Deus. Um por meio de fraude, outro por violência, outro por calúnias, e todos por algum mal ou arte ímpia, se esforçavam por obter a felicidade. Então eles procuravam ser felizes, mas não através de Deus. Portanto, não era de se surpreender que estivessem frustrados em seus esforços, visto como nenhum sucesso se pode esperar senão através das bênçãos de Deus somente. 3. Pedis e não recebeis. Ele vai além – ainda que buscassem, eram merecidamente rejeitados, porque queriam fazer de Deus ministro das suas próprias paixões. Pois eles não colocavam limites para os seus desejos, como ele havia mandado, mas davam permissão irrestrita a si mesmos, pedindo aquelas coisas das quais o homem, consciente do que é reto, deveria especialmente se envergonhar. Plínio em certo lugar ridiculariza esta impudência – de que os homens abusem tão perversamente dos ouvidos de Deus. Ainda menos tolerável é tal coisa em cristãos, que tiveram a regra da oração dada a eles pelo seu Mestre celestial. E, sem dúvida, parece não haver em nós nenhuma reverência a Deus, nenhum temor a ele – em suma, nenhuma consideração por ele – quando ousamos lhe pedir o que até mesmo a nossa própria consciência não aprova. Tiago queria resumidamente dizer isto – que nossos desejos devem ser refreados, e o modo de refreá-los é sujeitando-os à vontade de Deus. E ele também nos ensina que aquilo que desejamos com moderação devemos buscar do próprio Deus – o que, se for feito, seremos preservados de disputas perversas, da fraude e da violência, e de cometer qualquer dano aos outros.

depois o que precede ou leva a ele. É a mesma coisa aqui, como se a copulativa e fosse traduzida causativamente: “matais porque invejais”. Inveja é homicídio à vista de Deus. A linguagem de toda a passagem é altamente metafórica. Ele chama suas disputas de “guerras e combates”, pois todo o teor da passagem é contrário à suposição de que ele se refira a guerras reais. Ele adota um termo militar quanto às paixões interiores ou desejos ambiciosos, porque elas “faziam guerra” em seus membros – a expedição para suas disputas era preparada no interior, reunindo tropas em seus corações. Então, o caráter desta guerra é mais claramente definido por: “Desejais; não, cobiçais; matais, ou cometeis homicídio, pois ‘invejais’; quando não podeis alcançar vossos objetivos, ‘fazeis guerra e combate’, ou seja, contendeis e disputais”. A avareza e a ambição eram os dois males prevalecentes, mas especialmente a avareza; e a avareza também com o propósito de gratificar as paixões e propensões da sua natureza pecaminosa – tal como se mostra a partir do verso três.

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Comentários de Calvino

TIAGO 4:4-6
4. Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. 4. Adulteri et adulterae, an nescitis quod amicitia mundi inimictia Dei est? qui ergo voluerit amicus esse mundi, inimicus Dei constituitur.

5. Ou cuidais vós que em vão diz a Escri- 5. An putatis quod frustra dicat scriptura? tura: O Espírito que em nós habita tem An ad invidiam concupiscit spiritus qui ciúmes? habitat in nobis? 6. Antes, ele dá maior graça. 6. Quin majorem dat gratiam: —

4. Adúlteros. Eu relaciono este verso com os versos precedentes; pois ele os chama de adúlteros, conforme penso, metaforicamente, pois se corrompiam com as vaidades deste mundo, e se alienavam de Deus – como se tivesse dito que eles haviam se tornado degenerados, ou bastardos. Sabemos quão frequentemente, na Santa Escritura, é mencionado o matrimônio que Deus contrai conosco. Ele queria, então, que fôssemos como uma virgem casta, como diz Paulo (2 Co 11:2). Esta castidade é violada e corrompida por todas as afeições impuras pelo mundo. Tiago, então, não sem razão compara o amor do mundo com o adultério. Então, aqueles que entendem suas palavras literalmente, não observam suficientemente o contexto – pois ele ainda continua a falar contra as paixões dos homens, que afastam de Deus aqueles que estão envolvidos com o mundo, tal como segue: A amizade do mundo. Ele chama de amizade do mundo quando os homens se rendem às corrupções do mundo, e se tornam escravos delas. Pois tal e tão grande é o desacordo entre o mundo e Deus, que, quanto mais alguém se inclina para o mundo, tanto mais ele se aliena de Deus. Por onde a Escritura nos manda muitas vezes renunciarmos ao mundo, se quisermos servir a Deus. 5. Ou cuidais vós. Ele parece aduzir a partir da Escritura a próxima sentença. Por isso os intérpretes se cansam tanto, porque nada parecido, ao menos nada exatamente parecido, é encontrado na Escritura. Mas nada impede que seja feita referência ao que já foi dito – ou seja, que a amizade do mundo é adversa a Deus. Além disso, tem-se dito corretamente que esta é uma verdade que ocorre em toda a parte da Escritura. E que ele tenha omitido o pronome, que teria tornado a sentença mais clara, não deve ser motivo de surpresa, pois, como está evidente, em toda a parte ele é bastante conciso. O Espírito, ou, porventura o Espírito? Alguns pensam que isto se refira à alma do homem, e por isso lêem a sentença afirmativamente, e de acordo com este significado – que o espírito do homem, como é maligno, está tão infectado de inveja que sempre possui uma mistura dela. Contudo, pensam melhor aqueles que consideram que isto se refere ao Espírito de Deus – pois é ele que é dado para habitar em nós.35 Então entendo o Espírito como sendo o de Deus, e leio
Existem fardos de interpretações, diz Erasmo, sobre esta passagem. A que é fornecida por Calvino, e adotada por Whitby, Doddridge, Scholefield, e outros, é a mais sa35

Epístolas Gerais – Tiago

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a sentença como uma pergunta; pois o seu objetivo era provar que, porque invejavam, eles não eram governados pelo Espírito de Deus – porque ele ensina os fiéis de modo diferente; e isto ele confirma no verso seguinte, acrescentando que: ele dá maior graça. Pois é um argumento que surge a partir do que é contrário. A inveja é prova ou sinal de malignidade; mas o Espírito de Deus se mostra generoso pela afluência de suas bênçãos. Não existe então nada de mais repugnante à sua natureza do que a inveja. Em suma, Tiago nega que o Espírito de Deus governe onde prevaleçam as paixões depravadas, as quais incitam à contenda mútua; porque é peculiarmente o ofício do Espírito enriquecer os homens cada vez mais, constantemente, com novos dons. Não me deterei para refutar outras explicações. Alguns dão este significado – de que o Espírito cobiça contra a inveja; o que é áspero e forçado demais. Então eles dizem que Deus dá maior graça para vencer e subjugar a paixão. Mas o sentido que forneci é mais apropriado e simples – que ele nos restaura, pela sua bondade, do poder da emulação maligna. A partícula continuativa δὲ deve ser entendida adversativamente, no sentido de ἀλλὰ ou ἀλλά γε; por isso a traduzi por quin, mas.

TIAGO 4:7-10
7. Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao 7. Subjecti igitur estote Deo; Resistite diadiabo, e ele fugirá de vós. bolo, et fugiet a vobis; 8. Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a 8. Appropinquate Deo, et appropinquabit vós. Alimpai as mãos, pecadores; e, vós vobis; mundate manus, peccatores; purifide duplo ânimo, purificai os corações. cate corda duplici animo; 9. Senti as vossas misérias, e lamentai e 9. Affligimini, lugete et plorate; risus vester chorai; converta-se o vosso riso em pran- in luctum vertatur et gaudium in moto, e o vosso gozo em tristeza. erorem. 10. Humilhai-vos perante o Senhor, e ele 10. Humiliamini coram Deo, et eriget vos. vos exaltará.

7. Sujeitai-vos. A submissão que ele recomenda é a da humildade; pois não nos exorta genericamente a obedecer a Deus, mas requer a submissão; pois o Espírito de Deus repousa sobre os humildes e mansos (Is 57:15). Por esta
tisfatória, e a única que nos permite ver um sentido nas palavras: “maior graça”, no verso seguinte. O Espírito habita no povo de Deus, e ele habita ai para dar mais e crescente graça, de acordo com o teor de Is 57:15, onde é dito que Deus “habita com aquele que é de espírito contrito e humilde”, e com este propósito – “vivificar o espírito do humilde”, etc. 5, 6. “Pensais que a escritura fala assim em vão? Porventura o Espírito que habita em nós tem ciúmes? Não somente isto, mas ele dá maior (ou crescente) graça; por isso diz, Deus está em ordem contra os insolentes, mas dá graça aos humildes”. Os humildes são aqueles que são feitos tais pela graça; mas Deus promete dar-lhes maior graça, para aperfeiçoar o que ele havia começado.

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Comentários de Calvino

causa, ele usa a partícula ilativa. Pois, como havia declarado que o Espírito de Deus é generoso em aumentar os seus dons, por isso ele conclui que devemos pôr de lado a inveja, e nos submetermos a Deus. Muitas cópias introduziram aqui a seguinte sentença: “Portanto diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes”. Mas em outras não é encontrada. Erasmo suspeita de que a princípio era uma nota na margem, e depois se introduziu sorrateiramente no texto. Pode ter sido assim, embora não seja inapropriada para a passagem. Pois o que pensam alguns – que é estranho que o que somente se encontra em Pedro deva ser citado como Escritura – pode ser facilmente descartado. Mas prefiro conjecturar que esta sentença, a qual está de acordo com a doutrina comum da Escritura, tornara-se então um tipo de dito proverbial comum entre os judeus. E, de fato, não é nada mais do que aquilo que se encontra em Sl 18:27, “Porque tu, ó Senhor, livrarás o humilde, e abaterás os olhos altivos”, e sentenças similares são encontradas em muitas outras passagens.36 Resisti ao diabo. Ele mostra qual é a disputa em que devemos nos envolver – como diz Paulo, que a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas nos estimula a um combate espiritual. Então, após ter nos ensinado a mansidão para com os homens, e a submissão para com Deus, ele apresenta diante de nós Satanás como nosso inimigo, a quem nos cabe combater. Contudo, a promessa que acrescenta, a respeito da fuga de Satanás, parece ser refutada pela experiência diária; pois é certo que, quanto mais ativamente alguém resista, mais furiosamente ele é incitado. Pois Satanás, de certo modo, age galhofeiramente, quando não é repelido com determinação; mas contra aqueles que realmente lhe resistem, ele emprega toda a força que possui. E ainda, ele nunca se cansa de lutar, mas, quando vencido em uma batalha, imediatamente se envolve em outra. A isto eu respondo que a fuga deve ser entendida aqui no sentido de pôr para correr, ou desbaratar. E, sem dúvida, embora repita seus ataques constantemente, ele sempre vai embora derrotado. 8. Chegai-vos a Deus. Ele novamente nos lembra de que o auxílio de Deus não nos faltará, desde que demos lugar a ele. Pois, quando nos manda chegarmos a Deus, para que saibamos que ele está perto de nós, ele sugere que estamos destituídos da sua graça porque nos retiramos dele. Mas, como Deus está do nosso lado, não há motivo para temer a queda. Mas, se alguém conclui a partir desta passagem que a primeira parte da obra pertence a nós, e que depois a graça de Deus fluirá, o Apóstolo não queria dizer tal coisa; pois, embora devamos fazer isto, não decorre de imediato que possamos. E o Espírito de Deus, exortando-nos ao nosso dever, não rebaixa nada de si mesmo, ou do seu poder, mas a própria coisa que nos manda fazer, ele mesmo cumpre em nós.

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A passagem se encontra em todos os manuscritos e versões; não há, portanto, nenhuma base para pensar que seja uma interpolação. E é tomada literalmente de Pv 3:34, de acordo com a Septuaginta – embora a primeira cláusula difira do hebraico em palavras, é substancialmente idêntica. “Desprezar os desprezadores” e “resistir (ou, estar em ordem contra) os orgulhosos”, ou insolentes, significam a mesma coisa.

Epístolas Gerais – Tiago

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Em suma, Tiago não queria dizer outra coisa nesta passagem, senão que Deus nunca falta para nós, exceto quando nos alienamos dele. Ele é como alguém que leva o faminto até uma mesa e o sedento até uma fonte. Há esta diferença – que nossos passos devem ser guiados e sustentados pelo Senhor, pois nossos pés nos traem. Mas o que sofismam alguns, e dizem – que a graça é secundária para a nossa preparação, e é como que uma criada à espera, é simplesmente frívolo; pois sabemos que não é algo novo que ele acrescenta agora a graças anteriores, e assim enriquece cada vez mais aqueles a quem já tem concedido muito. Alimpai as vossas mãos. Aqui ele se dirige a todos os que estavam alienados de Deus, e não se refere a dois tipos de homens, mas chama os mesmos de pecadores e de duplo ânimo. E também não entende todo o tipo de pecadores, mas os perversos e de vida corrupta. É dito em Jo 9:3: “Deus não ouve a pecadores”, no mesmo sentido em que uma mulher é chamada de pecadora por Lucas (Lc 7:39). É dito pelo mesmo e pelos outros evangelistas: “Ele bebe e come com pecadores”. Portanto, ele não golpeia a todos indiscriminadamente com o tipo de arrependimento mencionado aqui, mas aqueles que são perversos e corruptos no coração, e cuja vida é abjeta e hedionda, ou ao menos perversa – é destes que ele requer uma pureza de coração e limpeza exterior. Por aqui aprendemos qual é o verdadeiro caráter do arrependimento. Não é apenas uma correção de vida, mas seu princípio é a purificação do coração. Também é necessário, por outro lado, que os frutos do arrependimento interior apareçam no esplendor de nossas obras.37 9. Lamentai e chorai. Cristo denuncia o pranto sobre aqueles que riem, como uma maldição (Lc 6:25); e Tiago, no que vem logo a seguir, aludindo às mesmas palavras, ameaça os ricos com o pranto. Mas aqui ele fala daquele pranto ou tristeza salutar que nos leva ao arrependimento. Ele se dirige àqueles que,
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No verso sete ele ainda parece continuar os termos militares: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós”. Deve-se especialmente observar que a primeira coisa é estar sob a bandeira e proteção de Deus, e depois podemos com sucesso resistir ao diabo – sem Deus, não temos nenhum poder para resisti-lo. A ordem no verso seguinte, o oito, é digna de nota, como um exemplo daquilo que é muito comum na Escritura. A coisa principal é declarada primeiro – chegar-se a Deus – e depois as coisas que são anteriormente necessárias: limpar suas mãos e purificar seus corações – provavelmente uma alusão à prática entre os sacerdotes da lei, de lavarem-se antes de se envolverem no serviço do templo. Eles deviam lavar suas mãos como se tivessem se contaminado com sangue, assim como o crime de homicídio lhes foraimputado em Tg 4:2; e deviam purificar seus corações das cobiças e desejos ambiciosos que haviam nutrido. A não ser que tais coisas fossem feitas, eles não poderiam se chegar a Deus. E ainda, chegar-se a Deus era necessário antes que pudessem se sujeitar à sua autoridade, de modo que há uma relação entre este verso e o anterior – o objetivo final, declarado primeiro, era a submissão a Deus, e estar sob a sua proteção; e tudo o que segue era necessário para esse fim. A orgem regular seria: Purificai vossos corações, alimpai vossas mãos, chegai-vos a Deus, e sujeitai-vos a ele. Mas este modo de declaração, voltando para trás ao invés de ir adiante, será encontrado em todas as partes da Escritura. Vede sobre este assunto no Prefácio ao terceiro volume dos Comentários de Calvino sobre Jeremias.

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Comentários de Calvino

estando inebriados em suas mentes, não percebiam o juízo de Deus. Assim, acontecia que eles se gabavam de seus vícios. Para que pudesse sacudir deles este torpor mortal, ele os admoesta a aprenderem a chorar, para que, sendo tocados pela tristeza de consciência, pudessem deixar de se gabar e exultar à beira da destruição. Então, riso deve ser entendido como significando a adulação com que os infiéis se enganam, enquanto se enfatuam pela doçura dos seus pecados e se esquecem do juízo de Deus. 10. Humilhai-vos, ou sede humilhados. A conclusão do que veio antes é que a graça de Deus está pronta então para nos exaltar quando ele perceber que os nossos espíritos orgulhosos estão postos de lado. Nós emulamos e invejamos porque desejamos ser eminentes. Esta é uma atitude completamente irracional, pois é a obra peculiar de Deus exaltar os abatidos, e especialmente aqueles que voluntariamente se humilham. Todo aquele, então, que busca uma elevação segura, seja abatido sob o senso da sua própria fraqueza, e pense humildemente sobre si mesmo. Agostinho observa apropriadamente em certo lugar: Assim como uma árvore deve lançar raízes profundas para baixo, para que possa crescer para cima, do mesmo modo todo aquele que não tem sua alma profundamente fixada na humildade, exalta-se para sua própria ruína.

TIAGO 4:11-12
11. Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão, e julga a seu irmão, fala mal da lei, e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz. 11. Ne detrahatis invicem, fratres; qui detrahit fratri, aut judicat fratrem suum, detrahit legi, et judicat legem; si autem judicas legem, non es factor legis sed judex.

12. Há só um legislador que pode salvar 12. Unus est legislator, qui potest servare e destruir. Tu, porém, quem és, que jul- et perdere: tu, quis es qui judicas alterum? gas a outrem?

11. Não faleis mal, ou, não difameis. Vemos quanto trabalho Tiago tem para corrigir a avidez pela difamação. Pois a hipocrisia sempre é presunçosa, e somos por natureza hipócritas, apaixonadamente nos exaltamos caluniando os outros. Existe também outra doença inata à natureza humana – que cada um queira que todos vivam de acordo com a sua própria vontade ou capricho. Esta presunção Tiago condena convenientemente nesta passagem – ou seja, porque ousamos impor sobre nossos irmãos nossa regra de vida. Ele então emprega falar mal como incluindo todas as calúnias e obras suspeitas que derivam de um juízo maligno e pervertido. O mal da difamação assume uma ampla variedade, mas aqui ele se refere propriamente àquele tipo de difamação que eu mencionei, ou seja, quando desdenhosamente determinamos a respeito dos feitos e ditos de outros – como se a nossa própria morosidade fosse a lei; quando confiantemente condenamos tudo o que não nos agrada. Que tal presunção é aqui reprovada fica evidente a partir da razão que é imediatamente acrescentada: Quem fala mal, ou difama seu irmão, fala mal, ou difama a lei. Ele sugere que muita coisa é tomada da lei quando alguém reivindica autoridade sobre seus irmãos. Falar mal, então, contra a lei é oposto àquela reverência com a qual convém que a consideremos.

Epístolas Gerais – Tiago

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Paulo lida praticamente com o mesmo argumento em Rm 14, embora em uma ocasião diferente. Pois, quando a superstição na escolha das carnes possuía alguém, o que consideravam ilícito para si mesmos, eles condenavam também em outros. Ele então os lembrou de que existe apenas um Senhor, de acordo com a vontade do qual todos devem ficar de pé ou cair, e em cujo tribunal todos devemos comparecer. Por onde ele conclui que aquele que julga a seus irmãos de acordo com sua própria visão das coisas assume para si o que pertence peculiarmente a Deus. Mas Tiago reprova aqui aqueles que, sob o pretexto de santidade, condenavam a seus irmãos, e por isso colocavam sua própria morosidade no lugar da lei da divina. Ele, contudo, emprega o mesmo raciocínio que Paulo – ou seja, que agimos presunçosamente quando assumimos autoridade sobre nossos irmãos, enquanto a lei de Deus subordina todos nós a si mesma sem exceção. Aprendamos então que não devemos julgar, exceto de acordo com a lei de Deus. Não és observador da lei, mas juíz. Esta sentença deveria ser explicada assim: “Quando reivindicas para ti mesmo um poder de censurar acima da lei de Deus, tu isentas a ti mesmo do dever de obedecer à lei”. Então, aquele que julga temerariamente a seu irmão, sacode o jugo de Deus, pois não se submete à regra comum de vida. Então, este é um argumento a partir do que é contrário; porque a observância da lei é completamente diferente desta arrogância, quando os homens atribuem à sua própria vaidade o poder e autoridade da lei. Por onde segue-se que então somente guardamos a lei quando dependemos totalmente do seu ensino, e não distinguimos de outra maneira o bem e o mal; pois todos os feitos e palavras dos homens devem ser regulados por ela. Se alguém objetasse e dissesse que, mesmo assim, os santos serão juízes do mundo (1 Co 6:2), a resposta é óbvia – que esta honra não lhes pertence segundo o seu direito próprio, e sim porque são membros de Cristo; e que agora eles julgam segundo a lei, de modo que não devem ser considerados juízes apenas porque concordam obedientemente que Deus seja seu próprio juíz e julgue a todos. Com respeito a Deus, ele não deve ser considerado observador da lei, porque sua justiça é anterior à lei; pois a lei flui da justiça eterna e infinita de Deus, como um rio da sua fonte. 12. Há só um legislador.38 Agora ele relaciona o poder de salvar e destruir com o ofício de um legislador, sugerindo que toda a majestade de Deus é forçosamente assumida por aqueles que reivindicam para si mesmos o direito de fazer a lei; e isto é o que é feito por aqueles que impõem como lei sobre outros o seu próprio comando ou vontade. E lembremo-nos de que o assunto aqui não é o governo civil, no qual os editos e leis dos magistrados têm lugar, mas o governo espiritual da alma, no qual a palavra de Deus somente deve exercer domínio. Existe então um só Deus, que tem as consciências sujeitas por direito às suas próprias leis, assim como só ele tem em sua mão o poder de salvar e destruir.
Griesbach acrescenta καὶ κριτής, “e juíz”, uma leitura favorecida por muitos manuscritos e versões; e, sem dúvida, isto torna a passagem mais completa, especialmente quando aquilo que segue pertence mais ao juíz do que ao legislador – isto é, salvar ou destruir.
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Comentários de Calvino

Por aqui se mostra o que se deve pensar acerca dos preceitos humanos, que lançam o laço da obrigação sobre as consciências. Alguns, de fato, querem que mostremos modéstia, quando chamamos o Papa de anticristo, que exerce tirania sobre as almas dos homens, fazendo-se um legislador igual a Deus. Mas aprendemos a partir desta passagem algo mais – a saber, que são membros do Anticristo aqueles que voluntariamente se submetem para que sejam assim enganados, e que assim renunciam a Cristo, quando se unem a um homem que não apenas é mortal, mas também se exalta contra ele. Digo que é uma obediência prevaricadora, prestada ao diabo, quando permitimos que qualquer outro que não o próprio Deus seja legislador para governar nossas almas. Quem és tu. Alguns pensam que aqui eles são admoestados a se tornarem repreensores de seus próprios vícios, a fim de que começassem a se examinar a si mesmos; e que, descobrindo que não eram mais puros do que os outros, pudessem deixar de ser tão severos. Penso que a sua própria condição é simplesmente sugerida aos homens, de modo que possam pensar o quanto estão abaixo daquela dignidade que assumiram – como Paulo também diz: “Quem és tu que julgas a outrem?” (Rm 14:4).

TIAGO 4:13-17
13. Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou 13. Age nunc, qui dicitis, Hodie et cras amanhã, iremos a tal cidade, e lá passa- eamus in civitatem, et transigamus illic remos um ano, e contrataremos, e ganha- annum unum, et mercemur et lucremur; remos; 14. Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. 14. Qui nescitis quid cras futurum sit; quae enim est vita nostra? vapor est scilicet ad exiguum tempus apparens, deinde evanescens:

15. Em lugar do que devíeis dizer: Se o 15. Quum dicere debeatis, Si Dominus Senhor quiser, e se vivermos, faremos voluerit, et vixerimus, faciemus hoc vel isto ou aquilo. illud. 16. Mas agora vos gloriais em vossas 16. Nunc autem gloriamini in superbiis presunções; toda a glória tal como esta é vestris; omnia gloriatio talis, mala est. maligna. 17. Aquele, pois, que sabe fazer o bem e 17. Qui ergo novit facere bonum, nec facit, não o faz, comete pecado. peccati reus est.

13. Eia agora. Ele condena aqui outro tipo de presunção – que muitos, que deveriam ter dependido da providência de Deus, confiantemente determinavam o que fariam, e ordenavam seus planos para um longo período de tempo, como se tivessem muitos anos à sua própria disposição, embora não estivessem certos nem de um só momento. Salomão também ridiculariza severamente este tipo de vanglória louca, quando diz que “o homem faz as preparações no seu coração, mas o Senhor dá a resposta da língua” (Pv 16:1). E é algo muito insano nos incumbirmos de executar o que não podemos pronunciar com a nossa língua. Tiago não reprova a forma de expressão, mas antes a arrogância de

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espírito, que os homens se esqueçam de sua própria fraqueza, e falem assim presunçosamente; pois mesmo os fiéis, que pensam humildemente sobre si mesmos, e reconhecem que seus passos são guiados pela vontade de Deus, contudo às vezes podem dizer, sem nenhuma cláusula modificadora, que farão isto ou aquilo. De fato, é correto e próprio, quando prometemos algo quanto ao tempo futuro, acostumarmo-nos a palavras tais como estas: “Se Deus se agradar”, “se o Senhor permitir”. Mas não se deve nutrir nenhum escrúpulo, como se fosse pecado omiti-las; pois lemos em toda a parte nas Escrituras que os santos servos de Deus falavam incondicionalmente de coisas futuras, quando, por outro lado, tinham como um princípio firme em suas mentes, que não poderiam fazer nada sem a permissão de Deus. Então, quanto à prática de dizer: “Se o Senhor quiser ou permitir”, deve ser cuidadosamente observada por todos os fiéis. Mas Tiago despertava a estupidez daqueles que desprezavam a providência de Deus, e reivindicavam para si um ano inteiro, embora não tivessem um único momento em seu próprio poder – o lucro que estava distante eles prometiam a si, embora não tivessem nenhuma posse do que estava diante de seus pés. 14. Porque, que é a vossa vida? Ele poderia ter reprimido esta liberdade insensata de determinar coisas futuras por muitas outras razões – pois sabemos como o Senhor frustra diariamente aqueles homens presunçosos que prometem as grandes coisas que farão. Mas ele estava satisfeito com este único argumento – quem te prometeu a vida amanhã? Podes, um homem moribundo, fazer o que tão confiantemente resolves fazer? Pois aquele que se lembra da brevidade de sua vida, terá a sua audácia facilmente refreada, de modo a não estender demasiadamente suas resoluções. Não somente isto, mas por nenhuma outra razão os infiéis se indultam tanto, senão porque se esquecem de que são homens. Pela comparação do vapor, ele mostra notavelmente que os propósitos que estão fundados apenas na vida presente são totalmente evanescentes. 15. Se o Senhor quiser. Uma dupla condição é formulada: “Se vivermos tanto tempo” e “se o Senhor quiser” – porque muitas coisas podem se interpor para frustrar o que podemos ter determinado, pois estamos cegos quanto a todos os eventos futuros.39 Por vontade ele quer dizer não a que é expressa na lei, mas o conselho de Deus pelo qual ele governa todas as coisas. 16. Mas agora regozijais, ou, vos gloriais. Podemos aprender a partir destas palavras que Tiago condenava algo mais do que uma fala passageira. Regozijais, ou, vos gloriais, diz ele, em vossas vanglórias. Embora privassem a Deus de seu governo, eles ainda se gabavam – não que abertamente se colocassem como superiores a Deus, embora estivessem especialmente inchados de confiança em si mesmos; mas suas mentes estavam tão inebriadas de vaidade que desprezavam a Deus. E, como avisos desta natureza são geralmente recebi39

As palavras podem ser traduzidas assim: “Se o Senhor quiser, tanto viveremos como faremos isto ou aquilo”. De modo que viver e fazer são ambos dependentes da vontade de Deus.

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Comentários de Calvino

dos com desprezo pelos infiéis – não somente isto, mas esta resposta é dada de imediato: “é conhecido de nós o que nos é oferecido, por isso não há necessidade de tal aviso”, ele alega contra eles este conhecimento em que se gloriavam, e declara que pecavam ainda mais gravemente, porque não pecavam por ignorância, mas por desprezo.

TIAGO 5:1-6
1. Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e 1. Agedum nunc divites, plorate, ululantes pranteai, por vossas misérias, que sobre super miseriis vestris quae advenient vovós hão de vir. bis. 2. As vossas riquezas estão apodrecidas, 2. Divitiae vestrae putrefactae sunt, vestie as vossas vestes estão comidas de menta vestra a tineis excesa sunt. traça. 3. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. 4. Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. 3. Aurum et argentum vestrum aerugine corruptum est; et aerugo eorum in testimonium vobis erit, et exedet carnes vestras sicut ignis: thesaurum congessistis in extremis diebus. 4. Ecce merces operariorum, qui messuerunt regiones vestras, quae fraude aversa est a vobis, clamat; et clamores eorum qui messuerunt, in aures Domini Sabaoth introierunt.

5. Deliciosamente vivestes sobre a terra, 5. In deliciis vixistis super terram; lacivistis, e vos deleitastes; cevastes os vossos enutristis corda vestra, sicut in die mactacorações, como num dia de matança. tionis. 6. Condenastes e matastes o justo; ele 6. Condemnastis et occidistis justum, et não vos resistiu. non resistit vobis.

1. Eia, pois, agora. Estão equivocados, conforme penso, aqueles que consideram que Tiago aqui exorta os ricos ao arrependimento. Isto me parece ser uma simples denúncia do juízo de Deus, pela qual pretendia aterrorizá-los sem darlhes nenhuma esperança de perdão – pois tudo o que ele diz tende apenas ao desespero. Portanto, ele não se dirige a eles a fim de convidá-los ao arrependimento, mas, pelo contrário, tem em consideração os fiéis, para que estes, ouvindo sobre a miséria dos ricos, não invejassem a sua fortuna; e também para que, sabendo que Deus seria vingador das injustiças que sofriam, eles pudessem suportá-las com um espírito manso e resignado.40

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Muitos comentaristas, como Grocio, Doddridge, Macknight e Scott, consideram que o Apóstolo se refere, no começo deste capítulo, não a cristãos professos, mas a judeus incrédulos. Não se diz nada que possa levar a tal opinião; e, se os dois capítulos anteriores foram dirigidos (conforme admitido por todos) àqueles que professavam a fé, não há razão para que este não tenha sido dirigido a eles – os pecados aqui condenados não são piores do que aqueles condenados antes. De fato, vemos, pelas Epístolas de Pedro, e pela de Judas, que, naquele tempo, havia homens que profes-

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Mas ele não fala dos ricos indiscriminadamente, e sim daqueles que, estando imersos em prazeres e inchados de orgulho, não pensavam em nada além do mundo, e que, como abismos inesgotáveis, devoravam tudo; pois estes, pela sua tirania, oprimiam os outros, tal como se evidencia a partir de toda a passagem. Chorai e pranteai, ou, lamentai chorando. O arrependimento tem de fato o seu choro, mas, estando misturado com a consolação, não passa para o pranto. Então, Tiago sugere que o peso da vingança de Deus será tão terrível e severo sobre os ricos, que eles serão constrangidos a irromper em pranto – como se lhes tivesse dito, em poucas palavras: “Ai de vós!” Mas este é um modo profético de falar – os infiéis terem o castigo que os espera apresentado diante de si, e serem representados como já o sofrendo. Como, então, agora eles se gabavam, e prometiam a si mesmos que a prosperidade em que se consideravam felizes seria perpétua, ele declarou que as misérias mais terríveis estavam quase presentes. 2. As vossas riquezas. O sentido pode ser duplo: que ele ridiculariza a louca confiança deles, porque as riquezas em que colocavam sua felicidade eram totalmente passageiras – sim, que elas podiam ser reduzidas a nada por um único golpe de Deus; ou que ele condena como avareza insaciável deles, porque amontoavam bens apenas para isto – para que estes perecessem sem qualquer proveito. Este último sentido é o mais apropriado. De fato, é verdade que são insanos aqueles ricos que se gloriam em coisas tão passageiras como vestes, ouro, prata e coisas semelhantes, uma vez que isto não é nada mais do que tornar a glória deles sujeita à traça e à ferrugem; e bem conhecido é aquele dito: “O que é mal adquirido logo é perdido”, porquanto a maldição de Deus consome tudo, pois não é justo que os incrédulos ou os seus herdeiros desfrutem de riquezas que arrebataram, por assim dizer, com violência da mão de Deus. Mas, como Tiago enumera os vícios pelos quais os ricos traziam sobre si mesmos a calamidade que ele menciona, o contexto exige, conforme penso, que afirmemos que aquilo que ele condena aqui é a avidez extrema dos ricos, ao reterem tudo de que pudessem lançar mão, para que apodrecesse inutilmente em seus baús. Pois assim era que aquilo que Deus havia criado para uso dos homens, eles destruíam, como se fossem inimigos da humanidade.41

savam a religião que não eram nem um pouco melhores (se não piores) do que muitos que professam a religião em nosso tempo. Além disso, não era incomum, em discursos a cristãos, dirigir-se aos incrédulos. De fato, Paulo diz expressamente: “Que tenho de julgar os que estão de fora?” Que naquele tempo havia homens ricos que professavam o evangelho, é evidente a partir de Tg 1:10. Aqui se faz referência a três tipos de riquezas – riquezas de grãos, que apodreciam; de vestes, que eram comidas pela traça; e de metais preciosos, dinheiro e jóias, etc., que enferrujavam.
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Comentários de Calvino

Mas deve-se observar que os vícios que ele menciona aqui não pertencem a todos os ricos, pois alguns deles se indultam na luxúria, outros gastam muito em exibição e aparência, e outros são mesquinhos, e vivem miseravelmente em sua própria imundície. Saibamos, então, que ele reprova aqui alguns vícios em alguns, e outros vícios em outros. Contudo, são genericamente condenados todos aqueles que acumulam riquezas injustamente, ou que insensatamente abusam delas. Mas o que Tiago diz agora não é apropriado apenas para os ricos de tenacidade extrema (como Êuclio, de Plauto), mas também para aqueles que se deleitam em pompa e luxúria, e no entanto preferem mais ajuntar riquezas do que empregá-las para fins necessários. Pois tal é a malignidade de alguns, que invejam dos outros o sol e o ar comuns. 3. Testemunho contra vós. Ele confirma a explicação que já dei. Pois Deus não designou o ouro para a ferrugem, nem as vestes para as traças; mas, pelo contrário, ele os projetou como auxílios e socorros à vida humana. Portanto, até mesmo gastar sem proveito é um testemunho de desumanidade. O enferrujamento do ouro e da prata serão, por assim dizer, a ocasião de a ira de Deus se inflamar, de modo que, como fogo, os consumirá. Entesourastes. Estas palavras também podem admitir duas explicações: que os ricos, enquanto vivem, nunca estão satisfeitos, mas se esgotam ajuntando o que possa ser suficiente até o fim do mundo; ou, que eles amontoam a ira e a maldição de Deus para o último dia – e eu adoto esta segunda visão.42 4. Eis que o jornal. Agora ele condena a crueldade – a companheira invariável da avareza. Mas ele se refere apenas a um tipo que, acima de todos os outros, deve ser justamente considerado odioso. Pois, se um homem justo e bondoso, como diz Salomão em Pv 12:10, tem consideração pela vida do seu animal, é uma barbaridade monstruosa quando o homem não sente nenhuma compaixão por aquele cujo suor empregou em benefício próprio. Por esta causa o Senhor proibiu estritamente, na lei, que o salário do trabalhador dormisse conosco (Dt 24:15). Além disso, Tiago não se refere aos trabalhadores em geral, mas, por ênfase, menciona lavradores e ceifeiros. Pois o que pode ser mais abjeto do que serem afligidos pela necessidade aqueles que nos fornecem o pão pelo seu trabalho? E, contudo, esta coisa monstruosa é comum; pois existem muitos de uma disposição tão tirânica que pensam que o resto da humanidade vive apenas para o seu exclusivo benefício. Mas ele diz que este salário clama, pois tudo o que os homens retêm, quer por fraude ou violência, daquilo que pertence a outro, clama por vingança como
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Por “últimos dias” são normalmente referidos os dias do evangelho. O dia do juízo é muitas vezes chamado por João, em seu Evangelho, de “último dia”, e o mesmo parece ser chamado aqui de “últimos dias”. A referência feita por alguns à destruição de Jerusalém não tem na passagem nada em seu favor. “Entesourar”, ou armazenar um depósito, faz uma evidente referência ao dia do juízo, tal como Paulo faz uso da mesma expressão em Rm 2:5 – ele apenas lhe acrescenta “ira”, a qual também é acrescentada aqui pela Vulgata. Todo o verso é cominatório, e nesta sentença os ricos são lembrados do resultado, o resultado final da sua conduta. O caráter do depósito deve ser percebido a partir da parte precedente do verso. Ao entesourar riquezas desonestas, eles estavam entesourando ira para si mesmos.

Epístolas Gerais – Tiago

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que em alta voz. Devemos notar o que ele acrescenta – que os clamores dos pobres chegam aos ouvidos de Deus – para que saibamos que a injustiça feita a eles não ficará impune. Portanto, aqueles que são oprimidos pelos injustos devem suportar resignadamente seus males, porque terão Deus como seu defendor. E aqueles que têm o poder de fazer o mal devem se abster da injustiça, para que não provoquem contra si mesmos a Deus, que é o protetor e benfeitor dos pobres. E por esta razão ele também chama Deus de Senhor de Sabaoth, ou dos exércitos – sugerindo, através disto, o seu poder e força, pelos quais torna o seu juízo mais temível. 5. Deliciosamente. Ele passa agora a outro vício – a saber, a luxúria e as gratificações pecaminosas; pois aqueles que abundam em riqueza raramente se mantêm dentro dos limites da moderação, mas abusam da sua abundância através de extremas indulgências. Existem, de fato, alguns homens ricos, conforme eu disse, que definham em meio à sua abundância. Pois não era sem razão que os poetas conceberam Tântalo faminto próximo a uma mesa bem guarnecida. Sempre houve tantalianos no mundo. Mas Tiago, conforme foi dito, não fala de todos os ricos. Basta que vejamos este vício comumente prevalecendo entre os ricos – que sejam demasiadamente dados a luxúrias, a pompas e a superfluidades. E, embora o Senhor permita que vivam livremente do que possuem, a profusão deve ser evitada e a frugalidade, praticada. Pois não era em vão que o Senhor, pelos seus profetas, reprovava severamente aqueles que dormiam em leitos de marfim, que usavam unguentos preciosos, que se deleitavam em seus banquetes com o som da harpa, que eram como vacas gordas em ricas pastagens. Pois todas estas coisas foram ditas com este fim – para que saibamos que a moderação deve ser observada, e que a extravagância é desagradável a Deus. Cevastes os vossos corações. Ele quer dizer que eles se indultavam, não apenas até satisfazer a natureza, mas até onde a sua cupidez os levasse. Ele acrescenta uma comparação: como num dia de matança, porque estavam habituados em seus sacrifícios solenes a comer mais livremente do que de acordo com os seus hábitos diários. Então, ele diz que os ricos se banqueteavam todos os dias da sua vida porque se imergiam em perpétuas indulgências. 6. Condenastes. Aqui se segue outro tipo de desumanidade – que os ricos pelo seu poder oprimissem e destruíssem os pobres e fracos. Ele diz, por uma metáfora, que os justos eram condenados e mortos; pois, quando não os matam pela sua própria mão, ou os condenam como juízes, eles ainda empregavam a autoridade que tinham para cometer injustiça, corrompiam os juízos e inventavam diversos artifícios para destruir os inocentes – ou seja, na verdade para condená-los e matá-los.43
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Muitos têm considerado que aquilo a que se refere aqui seja a condenação de nosso Salvador pela nação judaica, especialmente porque ele é cha-mado de ὁ δίκαιος, “o justo”. Isto é verdade, mas o cristão também é chamado assim, em 1 Pe 4:18. Tiago mui frequentemente individualiza o fiel, usando o singular em lugar do plural. Todo o contexto prova que ele fala aqui dos fiéis pobres que sofriam injustiça dos ricos, professando a mesma fé. Ademais, a morte de Cristo não é atribuída aos ricos, mas aos anciãos e principais dos sacerdotes.

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Comentários de Calvino

Acrescentando que o justo não lhes resistiu, ele sugere que a audácia dos ricos fora maior; porque aqueles que eles oprimiam estavam sem qualquer proteção. Contudo, ele os faz lembrar de que mais pronta e imediata seria a vingança de Deus, quando os pobres não têm nenhuma proteção dos homens. Mas, embora o justo não resistisse, porque devia ter sofrido pacientemente as injustiças, ainda penso que a fraqueza deles ao mesmo tempo é referida – ou seja, ele não resistiu, porque estava desprotegido e sem qualquer ajuda dos homens.

TIAGO 5:7-9
7. Sede pois, irmãos, pacientes até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando-o com paciência, até que receba a chuva temporã e seródia. 7. Patienter ergo agite, fratres, usque in adventum Domini. Ecce agricola expectat pretiosum fructum terrae, patienter se gerens erga eum, donec recipiat pluvium matutinam et vespertinam.

8. Sede vós também pacientes, fortalecei 8. Patienter ergo agite et vos; confirmate os vossos corações; porque já a vinda do corda vestra, quonim adventus Domini Senhor está próxima. propinquus est. 9. Irmãos, não vos queixeis uns contra os 9. Ne ingemiscatis alii in alios, fratres, ne outros, para que näo sejais condenados. condemnemeni: ecce judex stat pro foriEis que o juiz está à porta. bus.

7. Sede pois, pacientes. A partir desta inferência, é evidente que aquilo que até aqui se tem dito contra os ricos refere-se à consolação daqueles que pareciam por um momento estar expostos às suas injustiças com impunidade. Pois, após ter mencionado as causas daquelas calamidades que estavam suspensas sobre os ricos, e tendo declarado esta entre outras – que eles orgulhosa e cruelmente governavam sobre os pobres – imediatamente acrescenta que nós, que somos injustamente oprimidos, temos esta razão para sermos pacientes – porque Deus se tornaria o juíz. Pois isto é o que quer dizer quando afirma: até a vinda do Senhor – ou seja, que a confusão de coisas que agora é vista no mundo não será perpétua, porque o Senhor, na sua vinda, reduzirá as coisas à ordem, e que, portanto, nossas mentes devem entreter boa esperança; pois não é sem razão que a restauração de todas as coisas nos é prometida naquele dia. E, embora o dia do Senhor seja, em toda a parte da Escritura, chamado de manifestação do seu juízo e graça, quando ele socorre seu povo e castiga os infiéis, ainda prefiro considerar a expressão aqui como se referindo ao nosso livramento final.

Os dois primeiros verbos, sendo aoristos, podem ser traduzidos no tempo presente, especialmente quando o último verbo está nesse tempo. Pois, no próprio verso seguinte, o sétimo, o aoristo é assim utilizado. Podemos então dar esta versão: 6. “Condenais, matais o justo; ele não se põe em ordem contra vós”. Provavelmetne o aoristo é usado porque expressa o que era feito habitualmente, ou um ato continuado, assim como, frequentemente, o tempo futuro em hebraico. O verso precedente, o quinto, onde todos os verbos são aoristos, seriam melhor traduzidos do mesmo modo: “Viveis em prazer”, etc.

Epístolas Gerais – Tiago

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Eis que o lavrador. Paulo refere-se brevemente à mesma comparação, em 2 Tm 2:6, quando diz que o lavrador deve trabalhar antes de colher o fruto; mas Tiago expressa mais plenamente a idéia, pois menciona a paciência diária do lavrador que, após ter depositado a semente na terra, confiantemente, ou ao menos pacientemente, aguarda até que chegue o tempo da colheita; e também não se atormenta porque a terra não produza imediatamente um fruto suculento. Por onde ele conclui que não devemos ficar imoderamente ansiosos, se agora devemos trabalhar e semear, até que a colheita, por assim dizer, chegue – a saber, o dia do Senhor. O precioso fruto. Ele chama de precioso, porque é o sustento da vida e o meio de mantê-la. E Tiago sugere que, visto como o lavrador suporta que sua vida, tão preciosa a ele, permaneça por muito tempo depositada no seio da terra, e tranqüilamente suspende o seu desejo de colher o fruto, não devemos ficar demasiadamente inquietos ou impacientes, mas aguardar resignadamente o dia da nossa redenção. Não é necessário explicar particularmente as outras partes da comparação. A chuva temporã e seródia. Pelas duas palavras, temporã e seródia, são assinaladas duas estações – a primeira vem logo após a semeadura, e a outra, quando a espiga está madura. Assim também falaram os profetas, quando pretendiam anunciar o tempo da chuva (Dt 28:12; Jl 2:23; Os 6:3). E ele mencionou ambas as épocas, a fim de mais plenamente mostrar que os lavradores não ficam desanimados com o lento avanço do tempo, mas toleram a demora. 8. Fortalecei os vossos corações. Para que ninguém objetasse e dissesse que o tempo de livramento era dilatado por muito tempo, ele impede esta objeção e diz que o Senhor estava próximo, ou (o que é a mesma coisa) que sua vinda estava próxima. Ao mesmo tempo, manda que corrijamos a brandura do coração, que nos enfraquece, de modo a não perseverarmos na esperança. E, sem dúvida, o tempo parece longo, porque somos tenros e delicados demais. Devemos, então, juntar forças para que nos robusteçamos, e isto não pode ser melhor obtido do que pela esperança, e, por assim dizer, por uma visão perceptiva da aproximação iminente de nosso Senhor. 9. Não vos queixeis, ou não gemais. Como as queixas de muitos eram ouvidas – de que eram mais severamente tratados do que outros – esta passagem é explicada por alguns de tal modo como se Tiago mandasse cada um ficar contente com a sua própria sorte, não invenjando os outros, nem se queixando, se a condição de outros era mais tolerável. Mas eu tenho outra visão; pois, após ter falado da infelicidade daqueles que angustiam os homens mansos e bons pela sua tirania, agora ele exorta os fiéis a serem justos uns para com os outros, e a estarem prontos a ignorar as ofensas. Que este é o verdadeiro significado, pode-se deduzir a partir da razão que é acrescentada: Não vos queixeis uns contra os outros, para que não sejais condenados. Podemos, de fato, nos queixar, quando algum mal nos atormenta; mas ele se refere a uma queixa acusadora, quando alguém protesta com o Senhor contra outro. E ele declara que assim seriam todos condenados, porque não há um que não ofenda a seus irmãos, e lhes dê ocasião de se queixar. Ora, se todos reclamassem, todos

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Comentários de Calvino

teriam se acusado a si mesmos, pois ninguém era tão inocente que não causasse algum dano a outros. Deus será o juíz comum de todos. Qual será então o caso, senão que todo aquele que busca trazer juízo sobre os outros, deve admitir o mesmo contra si – e assim serão entregues à mesma ruína. Que ninguém, então, peça vingança contra outros, a não ser que queira trazê-la sobre a sua própria cabeça. E, para que não fossem precipitados em fazer reclamações desta natureza, ele declara que o juíz estava às portas. Pois, como a nossa propensão é profanar o nome de Deus, nas menores ofensas apelamos para o seu juízo. Nenhuma outra coisa é um freio mais apropriado para conter a nossa temeridade do que considerar que nossas imprecações não se desvanecem no ar, porque o juízo de Deus está próximo.

TIAGO 5:10-11
10. Meus irmãos, tomai por exemplo de 10. Exemplum accipite afflictionis, fratres aflição e paciência os profetas que fala- mei, et tolerentiae, prophetas, qui loquuti ram em nome do Senhor. sunt in nomine Domini. 11. Eis que temos por bem-aventurados os que sofreram. Ouvistes qual foi a paciência de Jó, e vistes o fim que o Senhor lhe deu; porque o Senhor é muito misericordioso e piedoso. 11. Ecce beatos esse ducimus eos qui sustinent: patientiam Job audistis, et finem Domini vidistis, quod multum sit misericors et commiserans.

10. Meus irmãos, tomai os profetas. O conforto que ele traz não é aquele de acordo com o provérbio comum – que os miseráveis esperam por companheiros iguais nas dificuldades. Que apresentasse diante deles companheiros, em cujo número era desejável ser classificado, e ter a mesma condição com eles, não era miséria alguma. Pois, assim como necessariamente sentiremos extrema tristeza, quando nos ocorre algum mal que os filhos de Deus nunca experimentaram, do mesmo modo é uma consolação singular quando sabemos que não sofremos nada de diferente deles; não somente isto, mas quando sabemos que temos de suportar o mesmo jugo com eles. Quando Jó ouviu de seus amigos: “Vira-te para os santos, podes encontrar alguém que te assemelhe?” (Jó 5:1), era a voz de Satanás, porque este queria levá-lo ao desespero. Quando, por outro lado, o Espírito, pela boca de Tiago, propõe despertar-nos para uma boa esperança, ele nos mostra todos os santos precedentes, os quais, por assim dizer, estendem a sua mão para nós, e, pelo seu exemplo, nos encorajam a sofrer e a vencer as aflições. A vida dos homens é, de fato, indiscriminadamente sujeita a dificuldades e adversidades; mas Tiago não apresenta qualquer classe de homens como exemplos – pois de nada valeria perecer com a multidão – mas escolheu os profetas, com os quais uma associação é bem-aventurada. Nada nos abate e nos desanima tanto como o sentimento de miséria; portanto, é uma verdadeira consolação saber que as coisas comumente consideradas males são auxílios e socorros para a nossa salvação. Isto é, de fato, algo que está longe de ser compreendido pela carne; contudo, os fiéis devem estar convencidos disto – de que

Epístolas Gerais – Tiago

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são felizes quando, através de várias dificuldades, são provados pelo Senhor. Para nos convencer disto, Tiago nos lembra para que consideremos o fim ou o propósito das aflições sofridas pelos profetas; pois, enquanto nossos próprios males, estamos sem discernimento, sendo influenciados pela tristeza, aflição, ou algum outro sentimento imoderado, quando não vemos nada sob um céu nebuloso e em meio a tempestades, e sendo atirados de lá para cá como que por um temporal; por isso é necessário que lancemos nossos olhos para uma outra parte, onde o céu de certo modo esteja sereno e brilhante. Quando as aflições dos santos são relatadas a nós, não há um que admita que eles foram miseráveis, mas, pelo contrário, que foram felizes. Então, Tiago fez um favor para nós, pois estabeleceu diante de nós um padrão, para que aprendamos a olhar para o mesmo sempre que sejamos tentados à impaciência ou ao desespero; e ele toma este princípio por certo – que os profetas foram bem-aventurados em suas aflições, pois as suportaram corajosamente. Visto como foi assim, conclui que o mesmo juízo deveria ser formado a nosso respeito, quando afligidos. E diz: os profetas que falaram em nome do Senhor, por meio de que sugere que foram aceitos e aprovados por Deus. Se, então, lhes tivesse sido útil que estivessem livres de misérias, sem dúvida Deus os teria mantido livres. Mas foi o contrário. Por onde segue-se que as aflições são salutares para os fiéis. Por isso, ele manda que sejam tomados como exemplo de aflição sofredora. Mas a paciência também deve ser acrescentada, a qual é uma verdadeira evidência da nossa obediência. Por isso uniu ambas. 11. A paciência de Jó. Tendo falado genericamente dos profetas, agora ele se refere a um exemplo notável acima dos demais; pois ninguém, até onde podemos aprender pelas histórias, jamais foi submetido a dificuldades tão duras e diversas como Jó; e, contudo, ele saiu de abismo tão profundo. Todo aquele, então, que imitar a sua paciência, sem duvida descobrirá que a mão de Deus, que finalmente o livrou, é a mesma. Sabemos com que finalidade sua história foi escrita. Deus não permitiu que seu servo Jó afundasse, porque este pacientemente suportou suas aflições. Então, ele não desapontará a paciência de ninguém. Se, porém, for questionado: Por que o Apóstolo recomenda tanto a paciência de Jó, quando este mostrou tantos sinais de impaciência, sendo arrebatado por um espírito precipitado? A isto eu respondo que, embora às vezes falhasse devido à fraqueza da carne, ou murmurasse dentro de si, contudo ele sempre se sujeitou a Deus, e sempre esteve disposto a ser refreado e governado por ele. Embora, então, sua paciência fosse um tanto deficiente, ela é merecidamente recomendada. O fim que o Senhor. Por estas palavras ele sugere que as aflições devem sempre ser estimadas pelo seu fim. Pois, a princípio, Deus parece estar mui distante, e Satanás ao mesmo tempo se revela na confusão; a carne nos sugere que estamos abandonados por Deus, e perdidos. Devemos, então, estender a nossa visão mais além, pois perto de nós e à nossa volta não se mostra nenhuma luz. Além disso, ele chamou de o fim do Senhor, porque é a sua obra dar um resultado próspero às adversidades. Se cumprimos o nosso dever em suportar

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Comentários de Calvino

os males obedientemente, de modo algum ele deixará de cumprir a sua parte. A esperança nos direciona apenas para o fim; Deus se mostrará então mui misericordioso, por mais rígido e severo que possa parecer enquanto nos aflige.44

TIAGO 5:12-13
12. Mas, sobretudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo céu, nem pela terra, nem façais qualquer outro juramento; mas que a vossa palavra seja sim, sim, e não, não; para que não caiais em condenação. 12. Ante omnia vero, fratres mei, Ne juretis, neque per coelum, neque per terram, neque aliud quodvis jusjurandum; sit autem vestrum. Est, est; Non, non: ne in judicium (vel, simulationem) incidatis.

13. Está alguém entre vós aflito? Ore. 13. Afflgitur quis inter vos? oret: hilari est Está alguém contente? Cante louvores. animo? psallat.

12. Mas, sobretudo. Tem sido um vício comum em quase todas as épocas jurar leviana e irrefletidamente. Pois tão ruim é a nossa natureza que não consideramos que crime atroz é profanar o nome de Deus. Pois, embora o Senhor estritamente nos mande reverenciarmos o seu nome, os homens inventam vários subterfúgios, e pensam que podem jurar com impunidade. Eles imaginam, então, que não existe nenhum mal, desde que não mencionem abertamente o nome de Deus; e esta é uma antiga interpretação. Por isso os judeus, quando juravam pelo céu ou pela terra, pensavam que não profanavam o nome de Deus porque não o mencionassem. Mas, enquanto os homens procuram ser engenhosos em dissimular com Deus, enganam-se com as evasivas mais frívolas. Fora uma vã desculpa desta natureza que Cristo condenou em Mt 5:34. Tiago, subscrevendo agora ao decreto de seu mestre, manda-nos abstermos destas forma indireta de juramento, pois todo aquele que jura em vão e em ocasiões frívolas, profana o nome de Deus, seja qual for a forma que dê às suas palavras. Então, o sentido é de que não é mais legítimo jurar pelo céu ou pela terra do que abertamente pelo nome de Deus. A razão é mencionada por Cristo – porque a glória de Deus está inscrita em toda a parte, e em toda a parte resplandece. Não somente isto, mas os homens não tomam as palavras céu e terra, em seus juramentos, em outro sentido e com outro propósito senão como se citassem o próprio Deus – pois assim falando, apenas designam o Criador pelas suas obras. Mas ele diz: sobretudo, porque a profanação do nome de Deus não é uma ofensa leve. Os anabatistas, fundamentando-se sobre esta passagem, condenam todos os juramentos, mas apenas mostram a sua ignorância. Pois Tiago não fala dos juramentos em geral, nem Cristo, na passagem a que me referi;
“O fim do Senhor” parece ser uma expressão singular; mas τέλος – propriamente, fim – significa também resultado, desfecho, término, conclusão. É genitivo de causa eficiente, “o fim (ou resultado) dado pelo Senhor”. Vede Jó 42:12. De acordo com Griesbach, existem três manuscritos que trazem ἒλεος, “misericórdia” – o que seria bastante apropriado: “e vistes a misericórdia do Senhor, porque o Senhor é mui cheio de piedade, e compassivo”. Mas a autoridade não é suficiente.
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mas ambos condenam aquela evasiva que havia sido inventada – quando os homens tomam a liberdade de jurar sem expressar o nome de Deus – o que era uma liberdade repugnante à proibição da lei. E é isto o que as palavras claramente significam: Nem pelo céu, nem pela terra. Pois, se a questão fosse quanto aos juramentos em si, com que propósito estas formas foram mencionadas? Então, torna-se evidente que, tanto por Cristo como por Tiago, é reprovada a astúcia pueril daqueles que ensinavam que podiam jurar com impunidade, desde que adotassem alguma expressão indireta. Para que possamos, então, entender o sentido de Tiago, devemos entender primeiro o preceito da lei: “Não tomarás o nome de Deus em vão”. Por onde se torna claro que existe um uso correto e legítimo do nome de Deus. Ora, Tiago condena aqueles que, de fato, não se atreviam a profanar de modo direto o nome de Deus, mas se esforçavam por evadir-se à profanação que a lei condena por meio de circunlocuções. Mas que seja o vosso sim, sim. Ele apresenta o melhor remédio para corrigir o vício que condena – ou seja, que eles deviam habitualmente se limitar à verdade e fidelidade em todos os seus ditos. Pois de onde vem o ímpio hábito de jurar, senão porque tal é a falsidade dos homens que somente as suas palavras não são cridas? Pois, se observassem a fidelidade, como deveriam, em suas palavras, não haveria necessidade de tantos juramentos supérfluos. Como, então, a perfídia ou leviandade dos homens é a fonte da qual se deriva o vício dos juramentos, a fim de remover o vício, Tiago ensina-nos que a fonte deve ser removida; pois o modo correto de curar é começando com a causa da doença. Algumas cópias trazem: “Seja a vossa palavra (ou discurso) sim, sim; não, não”. Contudo, a verdadeira leitura, e a comumente recebida, é a que forneci; e o que ele quer dizer eu já expliquei – isto é, que devemos dizer a verdade, e ser fiéis em nossas palavras. Com o mesmo propósito é o que Paulo diz em 2 Co 1:18 – que ele não era em sua pregação sim e não, mas seguia a mesma direção desde o começo. Para que não caiais em condenação. Existe uma leitura diferente, devido à afinidade das palavras ὑπὸ κρίσιν e ὑπόκρισιν.45 Se lerdes: “em juízo” ou condenação, o sentido será claramente de que tomar o nome de Deus em vão não ficará impune. Mas não é inadequado dizer: “em hipocrisia”, porque, quando a simplicidade, conforme já foi dito, prevalece entre nós, a ocasião para juramentos supérfluos é cortada. Se, então, a fidelidade se mostra em tudo o que dizemos, a dissimulação, que nos leva a jurar temerariamente, será removida. 13. Está alguém entre vós aflito? Ele quer dizer que não há tempo em que Deus não nos convide a si. Pois as aflições devem nos estimular à oração; a prosperidade nos fornece ocasião para louvarmos a Deus. Mas tal é a perversidade dos homens que não podem se regozijar sem se esquecer de Deus, e que, quando afligidos, são abatidos e levados ao desespero. Devemos, então,
Para εἰς ὑπόκρισιν existem diversos manuscritos, mas para ὑπὸ κρίσιν existem não apenas diversos manuscritos, mas as versões mais antigas – a Siríaca e a Vulgata; assim também Griesbach toma esta última como a leitura verdadeira.
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Comentários de Calvino

nos manter dentro dos devidos limites, de modo que a alegria, que normalmente nos faz esquecer de Deus, possa nos induzir a anunciar a bondade de Deus; e que a nossa tristeza possa nos ensinar a orar. Pois ele pôs o cantar de salmos em oposição à alegria profana e desenfreada; e assim expressam sua alegria aqueles que pela prosperidade são levados, tal como deveriam, a Deus.

TIAGO 5:14-15
14. Está alguém entre vós doente? Cha- 14. Infirmatur quis inter vos? Advocet me os presbíteros da igreja, e orem sobre presbyteros ecclesiae, et orent super eum, ele, ungindo-o com azeite em nome do unguentes oleo in nomine Domini: Senhor. 15. E a oração da fé salvará o doente, e o 15. Et oratio fidei servabit aegrotum, et Senhor o levantará; e, se houver cometi- excitabit eum Dominus; et si peccata addo pecados, ser-lhe-ão perdoados. miserit, remittentur illi.

14. Está alguém entre vós doente? Como o dom da cura ainda perdurava, ele direciona os doentes a recorrerem a esse remédio. De fato, é certo que nem todos eram curados; mas o Senhor concedia este favor quantas vezes e até onde sabia ser oportuno; e também não é provável que o óleo fosse aplicado indiscriminadamente, mas somente quando houvesse alguma esperança de restauração. Pois, juntamente com o poder, também fora dada discrição aos ministros, para que não profanassem o símbolo pelo abuso. O propósito de Tiago não era outro senão recomendar a graça de Deus de que os fiéis podiam então desfrutar, para que o seu benefício não fosse perdido por desprezo ou negligência. Com este propósito, ele ordenou que os presbíteros fossem buscados, mas o uso da unção deveria ser confinado ao poder do Espírito Santo. Os papistas se jactam muitíssimo desta passagem, quando procuram passar a sua extrema unção. Mas quão diferente é a corrupção deles da antiga ordenança mencionada por Tiago. No momento, não me ocuparei de demonstrar. Que os leitores aprendam isto pelas minhas Institutas. Apenas direi isto – que esta passagem é ímpia e ignorantemente pervertida quando a extrema unção é estabelecida através dela, e é chamada de sacramento a ser perpetuamente observado na Igreja. De fato, admito que foi usada como um sacramento pelos discípulos de Cristo (pois não posso concordar com aqueles que pensam que fosse remédio); mas, como a realidade deste sinal perdurou apenas por um período de tempo na Igreja, o símbolo também deveria existir apenas por um tempo. E está bem evidente que nada é mais absurdo do que chamar de sacramento aquilo que é nulo e não nos apresenta realmente o que significa. Que o dom de cura foi temporário, todos são obrigados a admitir, e os eventos provam claramente; nesse caso, o seu sinal não deveria ser considerado perpétuo. Por onde segue-se que aqueles que atualmente põem a unção entre os sacramentos não são os verdadeiros seguidores, e sim macaqueadores dos Apóstolos, a não ser que restaurem o efeito produzido por ela – o qual Deus retirou do mundo há mais de mil e quatrocentos anos. Por isso não temos nenhuma disputa quanto a se a unção fora antes um sacramento; mas se ela foi

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dada para existir perpetuamente. Este último negamos, porque é evidente que a coisa significada há muito cessou. Os presbíteros, ou anciãos, da igreja. Incluo aqui genericamente todos os que presidiam sobre a Igreja, pois não somente os pastores eram chamados de presbíteros ou anciãos, mas também aqueles que eram eleitos dentre o povo para serem como que censores para garantir a disciplina. Pois toda a igreja possuía, por assim dizer, o seu próprio senado, escolhido dentre homens de influência e integridade comprovada. Mas como era costumeiro escolher especialmente aqueles que eram dotados de dons mais do que ordinários, ele os mandou buscar os anciãos, como sendo aqueles em quem o poder e a graça do Espírito Santo mais particularmente se revelava. Orem sobre ele. Este costume de orar sobre alguém tinha a finalidade de mostrar que eles estavam como que diante de Deus; pois, quando chegamos como que à própria cena, expressamos orações com maior sentimento; e não apenas Eliseu e Paulo, mas o próprio Cristo, estimularam o fervor na oração e recomendaram a graça de Deus assim orando pelas pessoas (2 Rs 4:32; At 20:10; Jo 11:41). 15. A oração da fé salvará. Mas deve-se observar que ele relaciona a promessa com a oração para que não fosse feita sem fé. Pois aquele que duvida, como alguém que não invoca corretamente a Deus, é indigno de obter qualquer coisa, conforme vimos em Tg 1:5-8. Todo aquele então que realmente procura ser ouvido deve estar plenamente persuadido de que não ora em vão. Como Tiago apresenta diante de nós este dom especial, para o qual o ritual externo era apenas um acréscimo, por aqui aprendemos que o óleo não poderia ser usado corretamente sem fé. Mas, visto como se torna evidente que os papistas não têm nenhuma certeza quanto à sua unção, pois é manifesto que eles não têm o dom, é evidente que a unção deles é espúria. E, se houver cometido pecados. Isto não é acrescentado apenas por ênfase – como se tivesse dito que Deus daria algo mais ao doente além da cura do corpo – mas porque as doenças eram muitas vezes infligidas por conta de pecados; e, falando da sua remissão, ele sugere que a causa do mal seria removida. E, de fato, sabemos que Davi, quando afligido com a doença e, procurando alívio, empenhara-se totalmente em buscar o perdão dos seus pecados. Por que razão fez isto, senão porque, embora reconhecesse o efeito das suas faltas em seu castigo, considerasse que não houvesse outro remédio, a não ser que o Senhor deixasse de lhe imputar os seus pecados? Os profetas estão cheios desta doutrina – de que os homens são socorridos de seus males quando são libertados da culpa das suas iniqüidades. Saibamos então que este é o único remédio apropriado para nossas doenças e outras calamidades – quando atentamente nos examinamos, sendo solícitos em nos reconciliar com Deus, e obter o perdão de nossos pecados.

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Comentários de Calvino

TIAGO 5:16-18
16. Confessai as vossas culpas uns aos 16. Confitemini invicem peccata vestra, et outros, e orai uns pelos outros, para que orate invicem alii pro aliis, ut salvemini: sareis. A oração feita por um justo pode multum valet precatio justi efficax. muito em seus efeitos. 17. Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra. 17. Elias homo erat passionibus similiter obnoxius ut nos; et precatione precatus est, ne plueret; et non pluit super terram annos tres et sex menses.

18. E orou outra vez, e o céu deu chuva, 18. Et rursum oravit, et coelum dedit pluvie a terra produziu o seu fruto. am, et terra protulit fructum suum.

16. Confessai as vossas culpas uns aos outros. Em algumas cópias é apresentada a partícula ilativa, e também não é inapropriada, pois, mesmo quando não expressa, deve ser subentendida. Ele havia dito que os pecados seriam perdoados aos doentes sobre os quais os anciãos orassem; agora, lembra-os de quão útil é revelar nossos pecados aos nossos irmãos – isto é, para que possamos obter o perdão dos mesmos pela sua intercessão.46 Sei que esta passagem é explicada por muitos como se referindo à reconciliação de ofensas; pois aqueles que querem voltar em favor devem necessariamente conhecer primeiro as suas próprias faltas e confessá-las. Pois de onde vem que os ódios lancem raízes, sim, e aumentem e se tornem irreconciliáveis, senão porque cada um defenda perniciosamente a sua própria causa. Por isso muitos pensam que Tiago aponta aqui o meio da reconciliação fraternal – a saber, pelo reconhecimento mútuo dos pecados. Mas, conforme se disse, seu objetivo era diferente; pois relaciona a oração mútua com a confissão mútua, por meio de que sugere que a confissão serve a este fim – que possamos ser ajudados quanto a Deus pelas orações de nossos irmãos; pois aqueles que conhecem as nossas necessidades são estimulados a orar para nos auxiliar, mas aqueles a quem nossas doenças são desconhecidas são mais tardios em nos trazer auxílio.
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O ilativo οὖν, embora se encontre em alguns manuscritos, não é introduzido no texto por Griesbach, não havendo evidência suficiente em seu favor. E também não há uma razão suficiente para a relação mencionada por Calvino. Os dois casos parecem ser diferentes. Os anciãos da igreja, no caso anterior, deveriam ser chamados, os quais orariam e ungiriam o doente – e é dito que a oração da fé (ou seja, da fé miraculosa) salvaria o doente, e que seus pecados lhe seriam perdoados. Este era claramente um caso de cura miraculosa. Mas aquilo de que se fala neste verso parece ser bem diferente. Somente a oração é mencionada, não pelos anciãos, mas por um justo; não salvando, como no caso anterior, mas sendo muito útil. Parece provável então que os pecados do doente miraculosamente curado eram mais especificamente contra Deus; e que os pecados que eles deviam confessar uns aos outros eram contra os irmãos, também visitados com juízo e cujo remédio era a confissão mútua, e oração mútua; mas o sucesso neste caso não era tão seguro ou tão certo como no primeiro – apenas somos informados de que uma oração sincera é muito útil. Então, para encorajar esta oração sincera e fervorosa, o caso de Elias é aduzido; mas não tinha nada que ver com cura miraculosa.

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Maravilhosa, de fato, é a loucura ou a insinceridade dos papistas, que se esforçam por fundamentar a sua confissão murmurada sobre esta passagem. Pois seria fácil inferir, a partir das palavras de Tiago, que somente os sacerdotes deveriam confessar. Pois, visto como uma confissão mútua ou, para dizer mais claramente, recíproca é exigida aqui, ninguém mais é ordenado a confessar os seus próprios pecados, senão aqueles que, por sua vez, estão aptos para ouvir a confissão de outros; mas isto os sacerdotes reivindicam para si mesmos somente. Então, a confissão é exigida somente deles. Mas, visto como as puerilidades não merecem refutação, que a verdadeira e genuína explicação já dada seja considerada suficiente por nós. Pois as palavras significam claramente que a confissão não é exigida com outro fim, senão para que aqueles que conheçam os nossos males possam ser mais solícitos em nos trazer auxílio. Pode muito. Para que ninguém pense que isto é feito sem fruto – ou seja, quando outros oram por nós – ele menciona expressamente o benefício e o efeito da oração. Mas ele nomeia especificamente a oração de um reto ou justo; porque Deus não ouve aos infiéis, nem é aberto o acesso a Deus, senão através de uma boa consciência; não que as nossas orações estejam fundamentadas em nossa própria dignidade, e sim porque o coração deve ser purificado pela fé antes de podermos nos apresentar diante de Deus. Então, Tiago testifica que o justo ou fiel ora beneficamente por nós, e não sem fruto. Mas o que ele quer dizer, ao acrescentar efetiva ou eficaz? Pois isto parece supérfluo, já que, se a oração pode muito, sem dúvida é eficaz. O intérprete antigo traduziu como “assídua”, mas isto é forçado demais. Pois Tiago usa o particípio grego, ἐνεργούµεναι, que significa “operante”. E a sentença pode ser explicada assim: “pode muito, porque é eficaz”.47 Como é um argumento tirado deste princípio – que Deus não permitirá que as orações dos fiéis sejam nulas ou inúteis – por isso, não injustamente ele conclui que ela pode muito. Mas eu preferiria confinar isto ao presente caso: nossas orações podem ser apropriadamente consideradas ἐνεργούµεναι, operantes, quando vem ao nosso encontro alguma necessidade que incite em nós uma oração sincera. Oramos diariamente por toda a Igreja, para que Deus perdoe os seus pecados; mas, nesse caso, nossa oração só é realmente sincera quando nos apresentamos para socorrer aqueles que estão em dificuldade. Mas tal eficácia não pode estar nas orações de nossos irmãos, a não ser que saibam que estamos em dificuldades. Por isso a razão dada não é genérica, mas deve-se referi-la especialmente à sentença anterior.

Isto dificilmente pode ser admitido. A palavra expressa que tipo de oração pode muito. Ademais, poder muito, e ser efetiva, são duas coisas distintas. A palavra como verbo e como particípio geralmente tinha um sentido ativo. Schleusner apresenta apenas um caso em que ela tem um sentido passivo: 2 Co 1:6 – à qual pode-se acrescentar 2 Co 4:12. Se tomada passivamente, pode ser traduzida como: “operada”, isto é, pelo Espírito – de acordo com Macknight. Mas tem sido mais comumente entendida como ativa, e no sentido do adjetivo verbal ἐνεργὴς – energizante, poderosa, ardente, fervorosa.

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Comentários de Calvino

17. Elias era homem. Existem inúmeros casos na Escritura do que pretendia provar; mas ele escolheu um que é notável acima de todos os demais, pois foi algo formidável que Deus fizesse o céu de certo modo sujeitar-se às orações de Elias, obedecendo aos seus desejos. Elias manteve o céu fechado pelas suas orações durante três anos e meio; e abriu-o novamente, de modo que derramou abundância de chuva. Por onde se revelou o poder maravilhoso da oração. Bem conhecida é esta notável história, e encontra-se em 1 Rs 17 e 18. E, embora ali não se diga expressamente que Elias orou pedindo seca, podese facilmente deduzir isto, e que a chuva também fora dada em resposta às suas orações. Mas devemos observar a aplicação do exemplo. Tiago não diz que se deve pedir seca ao Senhor porque Elias a obteve; pois podemos, por zelo irrefletido, imitar presunçosa e insensatamente o Profeta. Devemos então observar a regra da oração, de modo que ela seja pela fé. Portanto, ele assim acomoda este exemplo – que, se Elias foi ouvido, do mesmo modo também seremos ouvidos quando orarmos corretamente. Pois, assim como a ordem para a oração é comum, e assim como a promessa é comum, segue-se que o efeito também será comum. Para que ninguém objetasse e dissesse que estamos mui longe da dignidade de Elias, ele o coloca em nosso próprio nível, dizendo que era homem mortal e sujeito às mesmas paixões que nós. Pois tiramos menos proveito dos exemplos dos santos porque os imaginamos terem sido semideuses ou heróis, que tinham uma comunicação peculiar com Deus; de modo que, pelo fato de terem sido ouvidos não recebemos nenhuma confiança. A fim de remover esta superstição profana e pagã, Tiago nos lembra de que os santos devem ser considerados como tendo a fraqueza da carne; de modo que aprendamos a atribuir o que alcançaram do Senhor, não aos seus méritos, e sim à eficácia da oração. Por aqui se mostra quão pueris são os papistas, os quais ensinam os homens a correrem para a proteção dos santos, porque estes foram ouvidos pelo Senhor. Pois assim raciocinam: “Porque ele alcançou o que pediu enquanto viveu no mundo, agora, depois da morte, será o nosso melhor benfeitor”. Este tipo de requinte sutil era completamente desconhecido ao Espírito Santo. Pois Tiago argumenta que, pelo contrário, assim como as orações deles puderam muito, também devemos, de modo semelhante, orar hoje de acordo com o exemplo deles, e que não faremos isto em vão.

TIAGO 5:19-20
19. Irmãos, se algum dentre vós se tem 19. Fratres mei, si quis inter vos erraverit a desviado da verdade, e alguém o conver- veritate, et converterit quispiam eum; ter, 20. Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados. 20. Cognoscat quod qui converterit peccatorem ab errore viae suae, servabit animam a morte, et multitudinem operiet peccatorum.

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20. Saiba. Estou em dúvida se isto deveria antes ter sido escrito γιvώσκετε, “sabeis”. Em ambos os casos, porém, o sentido é o mesmo. Pois Tiago recomenda-nos a correção de nossos irmãos a partir do efeito produzido, para que mais assiduamente atentemos para este dever. Nada é melhor ou mais desejável do que livrar uma alma da morte eterna; e isto é o que faz aquele que restaura um irmão errante ao caminho reto; portanto, uma obra tão excelente não deve de modo algum ser negligenciada. Dar comida aos famintos, e bebida aos sedentos – sabemos o quanto Cristo valoriza tais atos; mas a salvação da alma é considerada por ele muito mais preciosa do que a vida do corpo. Devemos, portanto, ter cuidado para que, pela nossa indolência, não pereçam as almas cuja salvação de certo modo Deus põe em nossas mãos. Não que possamos conferir a salvação a elas; mas Deus, pelo nosso ministério, livra e salva aqueles que parecem, de outro modo, estar próximos da destruição. Algumas cópias trazem sua alma, o que não provoca nenhuma mudança no sentido. Contudo, prefiro a outra leitura, pois tem mais força. E cobrirá uma multidão de pecados. Ele faz mais uma alusão a um dito de Salomão do que uma citação (Pv 10:12). Salomão afirma que o amor cobre pecados, assim como o ódio os proclama. Pois aqueles que odeiam ardem com o desejo da difamação mútua; mas aqueles que amam estão dispostos ao exercício da indulgência mútua. O amor, então, sepulta pecados quanto aos homens. Tiago ensina aqui algo mais elevado – ou seja, que os pecados são apagados diante de Deus; como se tivesse dito que Salomão declarou isto como o fruto do amor – que o mesmo cobre pecados. Mas não existe nenhum modo melhor ou mais excelente de cobri-los do que quando são completamente abolidos diante de Deus. E isto é feito quando o pecador é trazido, pela nossa admoestação, ao caminho reto; devemos então atentar especialmente e ainda mais cuidadosamente para este dever. FIM DO COMENTÁRIO À EPÍSTOLA DE TIAGO

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