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A Espano: quand o mundo fi portgués 3 Organizadores: Angelo Adriano Faria de Assis Joseph Abraham Levi Maria de Deus Beites Manso A Expansdo: quando 0 mundo foi portugués. Da conquista de Ceuta (1415) 4 atribuigéo da soberania de Timor-Leste (2002) The Expansion: when the World was portuguese. From the Capture of Ceuta (1415) to the Attribution of Sovereign- ty to East- 4 Angelo Adriano Faria de Assis~ Maria de Deus Bites Manso joseph Abraham Lev Este livro contou com o auxilio da FAPEMIG ~ Fundagio de Amparo a Pesquisa de Minas Gerais ste trabalho é financiado por Fundos FEDER através do Programa Operacional Fate- res de Competitividade— COMPETE e por Fundos Nacionais através da FCT - Fund io para a Cigncia ea Tecnologia no ambito do projecto PEst-OE/CJP/UI06S6/2013 =| ECT. 3 (24l|.2.| Braga, Portugal: NICPRI (Nacleo de Investigagdo em Ciencia Politica e Relagdes Inter nnacionais), 2014, ISBN: 978-989-98699-3-6, Vigosa, MG, Brazil: Centro de Cigncias Humanas, Letras ¢ Artes, Universidade Feral de Vigose, 2014, ISBN: 978-85-66482-05-8, Washington, DC, USA, 2014, ISBN-10: 0692227318, ISBN-13: 978-0-692-22731-2, 15artigos: 13 em portugues, I em espanol e 1 em ings. 1Sarticles 13 in Portuguese 1 in Spanish, and 1 in English, Resumo: Colectinea de quinze artigos — treze er portugues, um em esparhol ¢ um em inglés — a abranger os aspectos mais marcantes da Historia da Expansio portugue- sa, clos primérdios (1415) ao declinio e fim (2010). Entre os temas abordados ressaem: economia, histéria, politica ¢religio, Summary: Complation of fifteen articles—thirtoen in Portuguese, one in Spanish, and ‘one in Englsh—covering the most important aspects ofthe Portuguese Empire, from its genesis (1415) to its decline and ultimate end (2010). Among the most important topics are wort mentioning: economy, history, politics, and religion. 132 Amsco Adriano Faria de Assis Maria de Deus Betes Manso Joseph Abraham Lev “Me tome o Santo Oficio no cu”: injirias populares, criticas e vocabulos da praca piblica contra a Inquisigao portuguesa (séculos XVI-XVITI) Yilan de Mattos’ fez, 0 dito Anténio Ribeiro, hdbito penitencial de uma camisa, o qual meteu uns excrementos de bol para se fazer amarelo com uma faixa vermelha por cima em cruz; e depois de feta a representagio doo da santa f, que ves sa senhoria se tem relatado, entrou o dito em uma igre estando a gente junta, ¢ levando o hibit vestido dizia em altas vozes, uma vez que eva Fer- nao Dias, e outra fitho de George Henriques e asi ia nomeando os mais pre- sas que acui haviam saido, sem haver quem se atrevesse «atalhar semelhar- te desoforo. bel ‘Tudo faiam com grandes risadas, galhofese com repedidasalgazarras, Denincia contra Ant6nio Ribeiro. Inquisigo de Coimbra, processo 3585, Em um instigante livro sobre os primeiros anos da época Moderna, 0 rus- so Mikhail Bakhtin procurou estudar a linguagem e a cultura de Francois Rabelais sob o prisma da ideia de carnavalizagic. Neste caso, 0 carnaval pe sado por Bakhtin extrapola os limites das festividades populares que prececiem a Quaresma e associa-se ao que o autor chamou de realismo grotesco. Ou seja, tum “sistema de imagens da cultura cémica popular” no qual “o principio ‘material e corporal aparece sob a forma universal, festiva e ut6pica””. Para ampliar seu entendimento sobre o carnaval e a carnavalizagio da cultura po~ pular, Bakthin parte de algo proprio do mundo Moderno: a mistura do sagra- Doutor em Histria Moderna pela Universidade Federal Huminense e profesor da Univer dade Estadual Paulista “lio de Mesgita Filho”, campus Franca, Agacoro & Geise Pees Nunes pa leituraatena do orginal eas devas sugestes escrcedoras, Mikhail Bakhtin. 4 cultura popular na Idade Média e no Renscimentarocontexto de Fr Rabelais, Brass; Séo Paulo: EdUnb; Huts, 1987.17, Escrito na década de 1940, o abjetiva do estdo de Bakhtin fora a obtencio do grau de doutor no Instituto de Literatura Mundial de GGork. Emboranio ths ating o abjeiva~ Bakhtin forarsprovado a obra é uma das mals importantes centribuigées para o entendimento da cultura popular na época do Renasimento, lnfluenciando pesqusidores de diversas areas, entre eles os hstoriadres Carlo Ginzburg e Petar Burke, 4 Expansio: quando o mundo foi portigués 1s do e do profano, Recorrendo a autores alemaes, discorre que karne ou karth (lugar santo”) representa a “comunidade paga, os deuses e seus servidores", além de val ou wal poder ser entendido como “morto” ou “assassinado”, E nesse sentido que “carnaval significaria ‘procissio dos deuses mertos” ou poderia ser “compreendida como a procissio dos deuses destronados"™*, Em ambas as situagGes, o sagrado, tal como discurso oficial, & destituido de sua importincia, descendo ao profano e imiscuindo-se, no discurso popu- lar, com 0 que ha de mais impertinente e grosseiro, Seria uma hierofania as avessas, Para Mircea Eliade, a hierofania acontece cuando um objeto profaro torna-se sagrado, continuando, “contudo, a ser ele mesmo, porque continua a participar do meio césmico envolvente™®, Nesse sentido, através do escirnio € do grotesco, o mundo popular conferia um novo sentido as palavras ¢ aos ritos sagrados, participando-Les de seu cotidiano no mais baixo e desquali cado dos atos e expresses. Era o plano material e corporal que tonalizava esta ressignificagio, Claro esté que, em Bakhtin, comunicagdo verbal, grosserias, juramentos, obscenidades e grosserias blasfematorias sio discutidos na qualidade de fend- menos lingut tram uma ambivaléncia: sdo positivas e negativas a um s6 tempo, pois rept icos. Entretanto, elas sio bastante complexas, porque concen- sentam tanto o fim quanto o recomego, ou, nos termos do linguista, cumprem a fungio de renovar 0 mundo. No caso dos discurso e agées discutidas neste artigo, somam-se a fungio catirtica®® - algo que alivia 0 sujeito no momento em que ele transforma a sta compreensio ¢ inconformidade em comunicagao verbal nem sempre consciente e, no mais das vezes, proveniente de sentimento reativos ¢ indistintos, tal como medo. Por outro lado, certas parddias e grosse- idem. p34: 2 Mircea Eliade sagrado profanoa essénca das religibes, Sd Paulo: Matins Fontes, 2001 p. 17-8, Considero “modelae” a dsingo entre sagradoe profino feta por Eliade, No entanc, «quando aplicamos estes dois modelos @ reconstrugo histrica devemes star atentos sua comt- nica recproc, pis nenhum dels exe em sino undo rel Asim eda nterprelaio de Laura de Mella Souza sores eligiosdade popular no Bras colonia. Lauta de Mello Sora. O| Diabo ea Tera de Sata Crux earia¢rlgosdad popular no Bras Coli Sto Paulo Companhia ds Lets, 186. 86150. Bm certo sentido, péximas aque desenolids por Bakhtin em oto artigo: Mikhal Balk tn, "Rabelais Giga: ate do discus clr poplar cmc’ Ins Quste de leratra ede esta teoria do romance, So Pal: UNESP uct, 1990p. 425538. 134 Angelo Adriano Fria de Asis- Maria de Deus Betes Manso loseph Abraham Let rias faziam parte de algo consciente ¢ deslegitimador do discurso oficial (nesse caso, a agdo do Santo Oficio) 0 que demonstra a indivisivel polissemia de oralidades, escritose priticas adotas contra (ou nio) 4 Inquisicio, O limiar desse plano era a praca publica, ou seja, 0 espaco piblico, pois era ali que se estabelecia a pluralidade dialogica de vozes culturais, Local onde se colocavam em conflito os discursos e onde se forjava a mistura e a circula- ridade de propostas culturais. Se por um lado podemos conhecer as ressignil cagies e desafios aos ritos, is instituigdes e aos aspectos mais caros do mundo erudito, por outro, percebe-se que foi através desse embate que tiversos acesso 4 cultura popular. Ou seja, fora através das dentincias que suas galhofas criticas contra a Inquisigao foram parar nos tribunais portuguese. Toda essa linguagem critica, grotesca e carnavalesca fora também um sis- tema de ambivaléncia. Enquanto 0 escérnio era utilzado para denunciar a trgica vida daqueles que eram processados ¢ condenados injustamente (pelo ‘menos, segundo seus crtérios) pelo Tribunal ou apenas como forma de galho- fa, 0 Santo Oficio respondia e refutava com édio ¢ sisudez. O proceso ¢ as representacoes de auto da fé eram suas armas mais eficazes. © embate funda- va-se entre o popular comico ¢ 0 religioso sério™', Ambos usavam da lingua- gem escrita e da linguagem ritual, mas © mundo popular carregava tons de oralidade™ e teatralidade, com fanfarronices que convergiam sempre em um implacivel e, por vezes, inesperado bordéo. Todavia, as criticas & Inquisigao também ocultavam diversos sentimentos. Um desses sentimentos de édio ¢ terror da cultura letrada em resposta a critica popular pode ser facilmente percebido em um poema escrito, provavelmente, pela pena de um membro ou partidario do Santo Oficio: Juudeu de mau proceder, que, se em teus versos discorro, logo pareces cachorro no ladrar e no morder, ‘Ainda espero verte arde, pois com tanta sem-razio ‘murmuras da Inquisigio: porém, éforgaem teu era, Mikhail Bakhtin, Cultura popular. Opt. 12. “paul Zumthor.stradugo poesia ora. elo Horizonte: Eltora UPMG, 2010, 4 Expansio: quando o mundo foi portigués bs se te tratam como perro que te vingues como co Dos rtos, esta maneira, te queinase de seus tratos; mau queixar-te dosratos, estando na ratocira, Tua alusio sorrateira mostrar engenho procura, earetérica seapura nesta alusio que formaste pois desta figura usaste antes de fazer figura Néscio, depois de judeu, quando o sambenito mamas, triste portugués te chamas, sendo.o mais astuto hebreu! Quem te vita posto em brew ou partido de uma bala! ninguém contigo se igual, pois faze, quando precito, sendo infame o sambenito, desse sambenito gala. Se viveste descortés com repetidatorpeza, mais lei da naturera do que nak de Moises, qucixates6 desta ver det, mas no de outro tato: aque eu sei que munca do rato te queixaras, asneirio, se assim como foste cio poderis tornar-te gato Apu. Anténio Serio de Castro. Rator da Ingusgao:poema inédito do judew portugues Prsficio de Camilo Castelo Branco, Port: Ernesto Charron, 1883. p. 80-2. Outro pocm mito Parecido com est, fl escrito para José Nunes Chaves quardo quisera “formar queixa cena a santa inguiscio, utllzando-se de seus poems, BNF-Lisboa, Cleydo Pombalina, Coe 68,1 98-100 136 Angelo Adriano Fria de Asis- Maria de Deus tes Manso loseph Abraham Lett © autor destas décimas resolveu responder da mesma forma versada um poema intitulado de Katos da Inquisigaa, de Antonio Serrao de Castro™. Tipi- camente populares, a poesia feita através de décimas de sete silabas era (e ainda é) frequentemente utilizada pela facilidade da memorizagao. Portanto, se 0 poema de Castro contra a Inquisicao (ou, no limite, sobre sua vida nos cArceres) adotava tais caracteristicas, 0s partiddrios do Santo Oficio nao fize- ram ouvidos moucos ou estavam tio distantes deste mundo, respondendo na ‘mesma linguagem. Nesse caso tinico, 0 discurso inquisitorial foi polissémico ¢ antenado com os modos populares de expressio. Talvez, tal poema-resposta possa nos ajudar a clarificar a propria importincia da poesia popular de me- morizagio ¢ quio cla foi importante no desafio da ordem - mesmo que nao tenha tido condigées para alterar nada, pois este nunca foi seu objetivo -, contrariando, aliés a interpretagio apressada de alguns investigadores. Afina, no existria resposta dos partidarios da Inquisigio se os Batos nao fossem ‘minimamente conhecidos. De todo modo, hé, no poema, quatro alusdes a animais: (4) cachorro (cio € perro), (3) rato, (2) asno (e néscio) e (1) gato, sendo que Antonio foi aleu- rnhado de um “cio” que poderia torna-se um “gato”. A ratoeira fora a propria Inquisi¢io que, diferente do poema original, abrigava os ratos, agora os presos do Tribunal. Ao mesmo tempo em que era “néscio” - ou seja estipido - fora também “o mais astuto hebreu”. O poema ¢ tio rico em antiteses como em 6dios (“espero vert arder”; “partido de uma bala”, etc), mas estabelece uma imagem peculiar: compara as crticas ao Santo Oficio (“mirmuros”) a0 ladrar e morder de um cachorro ~ sio estes, inclusive, 0s atributos, acrescentado aos, tratos dados, que o fizeram cachorro. Contudo, neste poema, “ladrar” ganhava a conotacio de praguejar sem motivo tanto quanto “morder” referia-se 8 feri- dae aos infortiinios causacos*. lie deste poema ede toda a crt feta contra o Santo Oficio, vr: lan de Mattos. Inguisigdo conestada:crticose critcas we Sarto Oficio portugues (1605-1681). Rio de Jani: Mauad-s, 2014 * No Vocabulario portugues & latina, de 1728, todas as conotacies do substantive “cio” so postvasc ligadas a fieldade © amizade, #4 ainda alguns adigios populares com “lads” ¢ “moder”. Sio ces "ahora ma no ladram cies “cio que no lara, grada nels "ladreme o co, no me morda’; “mal lads o io quando ladra de medo"; “o cio velho quando ldra dé comse- Iho"; € “cto que muito adra pouco merde”. Nenhuma das conotagies se aprima das intenges do autor deste poema, Porm, escrito na grafia “cam”, ganhava outro significado: “nome injario- 50 que tem “muitos deeitos” "a todos que no conhece, era a muito dele, monde, por ss, 4 Expansio: quando o mundo foi portigués sr E nesse sentido que as linguagens se apartam, pois, mesmo usando seme- Thante forma (poema), inquisidores e os criticos populares ocupam lugares distintos na sociedade. Em livro inspirador, Stua-t Schwartz apontou quio préximos estavam os sentimentos religiosos de tolerancia com as criticas a0 Tribunal’, As “proposigdes heréticas”, os questionamentos, as discordancias e até as crticas mais formais estavam, por vezes,além de aspectos desse mun- do, Alcangavam profundidade, ao colocarem em relagdo heterodoxia ¢ espiri- tualidade, mas, por outro lado, constituiam feroz contestagao & autoridade da Igreja e do Estado e, por isso mesmo, a Inquisigao. A teologia era uma questio de existéncia para estes homens ¢ mulheres da Epoca Moderna, sejam eles padres, integrantes da “gente mitida” que discutia tudo pelas ruas ou nebres™”. problema da salvagao — pela obra, graga ou mérito ~ os dogmas canénicos sobre a virgindade de Maria antes, durante e depois do parto e a eficacia dos santos, ou mesmo questées que envolviam a ideia de pecado na fornicagao com varias pessoas, era assunto da maior importincia para tedlogps catdlicos € protestantes em igrejas e universidades e que fascinava os populares em suas conversas cotidianas. A populagio opinava e discutia quase sempre com cons- ciéncia de que corria em heresia ao fazé-lo®™. Entretanto, a crticas “populares” contra a Inquisigdo, no mais das vezes, apresentayam-se apenas como expressoes de sentimentos indistintos, devidos dietamentefngiam os poetas cu lingua morda e caninainjuetavaosvarbes mals ustres [lA estes e outros vicios do cio se acrescenta que €impudentemente lascivo, porque public mentee sem vergonha satsfx seus desonestosaptites [sexu]. [em vrs lugares nas Escria= ras, os ifs os desprezadores da pars de Deus, os perseguidos dos justs e outros maletres So chamados de cies”. Por im, “chamamos cies aos heregse cies 20 udeus”. Raphael Butea, Vocabusiroportugus latino (1713, Rio de Janeiro: VER), 8 [CD-ROMI.p. 115 2 sare Schwartz Cada un a sua le lernciareligios salvasio no mundo atlanta ibe. ‘io Paulo: Companhia das Letras, 009, , 148-150, * Lucien Febvre. O problema da increduldade no sculo XVI-a relight de Rabdais. So Paulo Compania das Letras, 2008p. 182-185 ™ Nese sentido, emboraguatdem diferengstericasprofundas em sus anlises, os exemplos de Menoschio, no mundo italiano, de Pedro de Rates Heneguim, na América, jé amplamente «studados pla historiografia,sio modelaresdess situa, Carlo Ginzburg. 0 quejo vos vermes © cotidano e a ids de um moleiro perseguido pela Inquiso, Sto Paulo: Companhia das Lets, 2004; Pio Freie Gomes, Um herege vai a paras: cosmologa de um excolono corde nado pela Inglscdo (1680-174), So Paul: Companhia das Letras, 1997; Adriana Romelto. J vison na corte ded. Jodo V evolta emilenrismo nas Minas Geras elo Horizonte: Eitora ‘PMG, 200 138 Angelo Adriano Fria de Asis- Maria de Deus Betes Manso loseph Abraham Let a0 medo das perseguigdes, ou mesmo do olhar pragmético de alguns indivi- duos. Em critica & obra de Schwartz, Giuseppe Marcocci chega argumentar que: © ponto fraco do livro encontra-se exatamente na reivindicasio de auke- rnomia desta cultura popular tolerante ou, mais propriamente, na falta de ‘uma explicagio sobre a sua relagio com as posigies mais claboradas de bbumaristas, clérigos(franciscanos, principalmente) e homens letrados em eral, que apoiaram a tolenca religiosa ¢ rejitaram a autoridade da Igre- ia. Esses homens e mulheres comuns apresentavam uma concepgio essenci almente prética e material da existéncia deste mundo, o que, dificilmente, os tornaria forjadores de uma tolerancia avant la lettre, Nesse sentido, continua: “ew nao tenho certeza de que as atitudes ¢ sentimentos daqueles homens prefi- guravam o nosso mundo: eles provavelmente seriam estrangeiros na sociedade contemporanea ocidental, assim como feram no mundo em que viveram”™, Porém, perceber que tais proposigdes e criticas tinham origem em uma concepeio de mundo pritica e material néo significa constatar, igualmente, que nao havia um tipo essencialmente popular dessas mesmas proposes ¢ criticas, Embora também discorde quanto & construgio do conceito popular de tolerancia, sobretado quando Schwartz afirma derradeiramente que “o caminho da crenga de cada um parece ter sido determinado mais por decis6 € conviegdes individuais do que por caracteristicas sociais’™". Na visio de mundo destes e A mais sofisticada galhofada, produzindo injirias tipicamente populares que se imisculam em criticas e “vocabulos da praga piblica”?®, individuos, a mais fina teologia misturava- © Giuseppe Marcoccl. ‘Review of ll can be saved religious tolerance and salvation i the Iberian atlantic world (Stuart Schwara)’. E-urnalof Portuguese History online. vol .1, an 2010 p 76-78 Disponirel em: _itp/wesciclogpearmctesplscilaphptscript-si_atexspid-S16 '132201cID01000098ing-pt&nem-js0>,acesado cm 10 janciro 2013, Original em Inglés. Tia- ddugdo nossa, dem, Start Schwarz Cada un nasa I. Op. cp 146, °: hal Bakhtin, Cultura popular... Op cit. 125-169. 4 Expansio: quando o mundo foi portigués be © que chamaremos de “popular”, pois, sio as criticas mais cruas, com vocébulos até mesmo vulgares que provavelmente embaragaram alguns inqui- sidores em sua perspectiva formalista e oficial, “Palavras malsoantes” que toavam como em um escérnio, misturando-s aos elementos do corpo e enca- bulando a ordem constituida. Essas palavras e atos podem nos parecer bem rasteiros e de mau gosto. E talvez o fossem, caso tomemos a dtica da ordem. No universo popular, 0s limites sio por demais ténues e nada fixos. Ultrajados pelas experiéncias e desventuras de vida, alguns individuos passaram a ressig- nificar a vida pela galhofa, pelo impulso violento e pela hipértole. Seria tudo considerado uma grande imprudéncia prépria da rusticidade, como algumas vezes qualificaram os inquisidores. Por fim, 0 riso, a violéncia, 0 baixo ventre, 0s insultos foram seu mote que, paradoxalmente, ao expressarem protesto contra a ordem inquisitorial, contribuiam de sobrernaneira para a legitimagao desta mesma ordem. Suas crticas foram radicais por nao estabelecerem pard- metro ou objetivo de qualquer transformagéo, mas que mestravam a mais pritica, concreta e incrivel visio de mundo. Em outubro de 1691, Manuel de Gouveia Azevedo, um capitio de orde- nanga ctistfe-rovo, afirmou sem rodeios que 0 comissirio Joao Pires “era muito grande asno”, tomando logo a espingarda em maos ¢ “tratando-o mui- tas veves de pedago de asnc e outros nemes afrontosos". 0 comissério, que neste momento executava 0 sequestro de bens, advertiu para que nao “zom- basse com cousas da Inquisicdo e [Ihe] desse a dita espingarda”. Afinal, era crime previsto no Regimento de 1640 0 impedimento do ministério do Santo Oficio além da injria e agressio a qualquer um de seus agentes ou quem estivesse em servico dele. Porém, a reagio de Manuel ante as interdigdes reg rmentais foi “ri, zambar e escarnecer do que se Ihe dizia”. No dia seguinte, a pendenga prosseguiu. Em plena praca publica, junto ao agougue, fot indagado pelo barbeiro Bernardo Feijé do estado do abade comissério ¢ a quantas anda- va 0 caso da espingarda, Desaforadamente, Manoel respondeu “que a espin- garda era sua” e ndo a daria a ninguém, ao que o barbeiro avisou: sempre a corda rompe para o lado mais fraco. Manuel de Azevedo nao se deu por ven- cido. Afirmou que era filho de Anténio de Azevedo, homem com tantas hon- ras como o malfadado abade. E completou seu desaforo: se preciso fosse, 140 Angelo Adriano Fria de Asis- Maria de Deus etes Manso loseph Abraham Lett “mandaria um corno para o abade e [serviria] cornos para todos” que se 0 comissirio quisesse “fazer 0 seu oficio’, dria, por isso, “como se calar com oficio”. © assunto foi encerrado, nao sem muitas alteragbes quanto A disputa a0 que cabia jurisdicio da milicia e do Santo Oficio, com o provérbio ibérico: “con el-rei y com la inguisicion chitéri™™, Esta maxima fora sempre lembrada por pessoas mais ajuizadas enquanto criticos do Tribunal se langavam em injtirias. Martim Monteiro e Paim ouvira de um estudante coimbtdo, em leno calor de suas criticas contra a suspensio do alvaré que proibia o contfisco de bens, que ficasse atento, pois “com ebrei e com la Santa Inquisicio, chitén”! A resposta foi no tom dos populares: “que no tinha de ver com os inquisidores’, alcunhados de “nabos ou absboras”, afinal nao era judeu nem sodomita”®, Se o bom senso expresso no provérbio recomendava o siléncio (chitén) em matéria de Inquisigao, os xingamentes aos ‘ministros e servidores do Tribunal foram constantes. Um religioso da ordem de So Bento, Anténio das Chagas, pelos idos de 1756, “rompera [na compa- nia de varias pessoas] com grande célera ¢ com altas vozes em palavras injv- riosas contra o abade de Bitaraes, Simao de Castro Passos, comissério do San- to Oficio”. As injurias proferidas eram “ladrio, cornudo, bébado e finissimo judeu”, causando “grande escindalo nas pessoas ali presentes” e em “outras que concorreram ao desentoado das suas vozes’, dando a entender que “pre- sumia mal das habilitagées do Santo Oficio””*. O escandalo, ou seja, a ofensa que se tornava publica, foi um agravante particularmente preocupante e bas- ‘Adela de serie corno & muito comum no excimio popular, Porém, sua priica est esend- almenteligada a0 matrimsnio mas espesficacarente, a “marido de mulher adultes", como descreve Raphael Bluteau (Op. city. 552). Um hersem ffaco perante sua mulher também era Aigno de receber cornos,eérma Daniel Fabre. Exist, na peninsula ibéica,sangessimbdicas «que constitua uma espéce de castigo pilico, Uma dels fl, inclusive, retratada a famosa abea Ineréria a Celestina de 1494. 0 aoude fo um “passeio de ano” no qual casals em desarmontas (adaltévio, a mulher mandando mais que o homem, ec.) desilavam sob o escrnio popular peas ras, montados em burros. © homem levava,frsuentemente, sobre @eabesa cornos. Danil Fabre. Familias privado contra o costume’ In: Phlippe Aries & Georges Duby (Dir). Mitria a vida privadacca renascenga ao século das izes, ol. 3. io Palo: Compania ds Lets, 2002. Pp. SS0-£52, Peter Burke. Cultura popular na Kade Moderna, Sio Paulo: Companhia das Letras, 189, Nese sentido, sem muito se mportar que se trstava de um abade, Manuel de Gauvsia Azevedo associou “comos” a exposiio pica ea galhofa com sentido apenas em si mesma, ‘DGA/TT-Lisboa, Iugusgade Cobra, proceso 48, ®.DGAIT- Lisboa, guido de Coimbra processo 9507 ®-267 ™*DGA/TI-Lshoa, gusto de Lishow,Caderno do Promotor n° 313. 186. Agradego imen samente a Maria Leda Resende por ter me fengueado este indice antes de seu langanento, possibiltando o achado deste caso. Jnia Furtado & Maria Leénia Chaves de Resende. Travesias Ingustoriis: cas Minas Gerais aos circeres do Santo Ofcio no Império Adinticn Portugués. Belo Horizonte: Fino Trago Fitor, 2013, em, 2 pnd. éatinio Borges Coelho ngusg de de Evora. Op. cit vol. p. 292. 150 Angelo Adriano Fria de Asis- Maria de Deus ites Manso loseph Abraham Lett tudo no santo tribunal, cujas palavras foram estranhadas das circunstircias € se prove que o dito dilato ¢ solto da lingua e maldizante", devendo “ser cas gado com todo rigor por se achar culpa legalmente privada”™". Em algumas sentencas, lia-se que “o réu delinguiu gravemente arriscando com semelhantes invengdes ¢ falsidades o inédito e verdade do prooecimento do Santo Oficio e seus mandados” tom fora sempre o mesmo: invengbes,falsidaces, maldi- zentes palavras contra um tribunal justo e correto, no qual tais maguinagdes aproximavam-se a heresias. A Inquisigao perseguin seus criticos, processou-os € quase sempre criou uma correlagio entre o ato de crticar e a defesa de here- ses ou de heresias. Estes processos - embora infimos se comparados com qualquer outro delito do Tribunal ~ serviam como um aparato coercitivo que tinha a fungio de coibir as vozes que dissonavam da integridade do ministério inquisitorial. Inibiram, de fato, algumas pessoas, mas no contiveram todos ~ como pudemos comprovar. Porém, se esses processos contra os criticos obje- tivavam construir uma imagem zelosa do Santo Oficio, foi através dos rituas, entre eles o auto da fé, que a Inquisigdo produziu sua representagdo mais efi- Faziam parte do rol de criticas a0 Santo Oficio, simples oposigées verbais cu escritas contra a Inquisigao, seus membros ou procedimentos, impedindo seu reto ministério; acusaglo, desacato (insultos ou cakinias) ou qualquer violéncia praticada contra 0s membros do Tribunal ou contra sua autoridade, jurisdigdo ou privilégio; apoio aos acusados ou processados (Fautores de here- ges), através da promogao de fugas ou aviso de futuras prisdes e permissio ou facilitagdo de comunicagoes (sobretudo, nos cérceres);fingit-se de membro do Tribunal, difamando-c; e, por fim, proferir palavras malsoantes. Contudo, dificmente os individuos eram processados exclusivamente por um delito desse tipo. Quase sempre, as criticas somavam-se a outras heresias tidas por ‘mais graves, ficando camuflda no meio do processo. Um delito di rastreado. [A maior parte das crticas se imiscufa (conforme faziam crer os inquis. dores) com alguma heresia mais grave, multiplicando pelas dezenas esses casos. Pelo que os processos permitem perceber, a grande maioria dos proces- I de ser *" DGA/TT-Lsboa, hyuisgt de Coimbra process 580 "Dilto” & um dos termos usados para qualia o acusado,delatado, S2.)GA/TT-Lsbos,lnguisg de Coimbra proceso 1376 4 Expansio: quando o mundo foi portigués 151 sados sabiam ler ~ nao ha como dizer muito sobre a formacio, excetuando-se quando eram clérigos, havendo, neste caso, referéncias deste tipo. Por outro lado, mesmo encontrando alguma unidade aqui e ali, os criticos nem sempre compunham um grupo coeso. [As criticas populares, objetos deste artigo, tinham ambiges menos cir~ cunstanciais e mais difusas, Suas falas relativizavam a ortodoxia catélica e, rmuitas vezes, colocavam em xeque os meios de agéo ¢ funcionamento da In- quisicao, sem, contudo, procurar sua extingio. Alguns estavam, de fato, con- Vietos dos interesses pouco cristios dos inquisidores, avidos pelo dinheiro cristio-rovo, bem como na desumanidade do seu processo. Foi, antes de tudo, a experiéncia cotidiana que os fizeram chegar tao longe, custando-Ihes degre- do, penas pecuniarias e agoites. Nunca a fogueira para estes crimes. © que € certo € que taiseriticas foram populares, acreditamos. Os senti ‘mentos indistintos que as forjaram, seja devido ao medo das perseguicbes, seja pela ago pragmatica de alguns homens e mulheres ou pela agdo da simples galhofa, apresentaram uma concepgio essencialmente prética e material da existéncia deste mundo, Fora a mais fina teologia misturada ao mais sofistica- do grotesco que produziu criticas essencialmente populares produzidas no espago “praca piiblica”. Por fim, “popular” foram as criticas do baixo ventre, com vocabulos vulgares ¢, por vezes, agressdes fisicas que provavelmente cra- baragaram alguns inquisidores em sua perspectiva formalista¢ oficial