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O Memorial do

Convento,
de José Saramago
(1982)

Apontamentos
apontamentos
Linguagem e estilo
 Cada frase, ou discurso, ou o período, cria-se
dentro de mim mais como uma fala do que
como uma escrita. A possibilidade da
espontaneidade, a possibilidade do discurso em
linha recta, enfim, a direito, é muito maior do
que se eu me colocasse na posição de quem
escreve. No fundo, ao escrever estou colocado
na posição de quem fala.”
José Saramago, in Conversas, Mário Ventura, Publ. Dom Quixote, 1986
Linguagem e estilo
Uma das características mais notórias de José
Saramago é a utilização peculiar da pontuação.
 Principal marca: nas passagens do discurso
directo:
 eliminação do travessão e dos dois pontos;
 a substituição do ponto de interrogação e de outros sinais de
pontuação pela vírgula;
 sendo o início de cada fala apenas assinalado pela
maiúscula.
LER EM VOZ ALTA

 "Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez
Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e
uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a
luz e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que
perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o
quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não
pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não
posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E
agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho
lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre
tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é
razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso
obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto,
Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por
ACÇÃO - estrutura
 A obra está dividida em 25 capítulos,
apesar de estes não estarem numerados
ou titulados
Narrador (quanto à participação)
 Geralmente, é HETERODIEGÉTICO (surge na
terceira pessoa e não participa na acção)
 PORÉM, por vezes, assume o ponto de vista de
algumas personagens (assumindo a primeira
pessoa do singular e até do plural)
HOMODIEGÉTICO
 Isso acontece porque o narrador assume o
pensamento de algumas personagens
NARRADOR (focalização)
 Geralmente, o narrador assume uma
focalização omnisciente

 Tem uma perspectiva transcendente em


relação às personagens e move-se à
vontade no tempo, saltando facilmente
entre passado, presente e futuro.
Focalização omnisciente
 "Mas também não faltam lazeres, por isso, quando a comichão
aperta, Baltasar pousa a cabeça no regaço de Blimunda e ela
cata-lhe os bichos, que não é de espantar terem-nos os
apaixonados e os construtores de aeronaves, se tal palavra já
se diz nestas épocas, como se vai dizendo armistício em vez de
pazes. " [pág. 91]

 "Mas em Lisboa dirá o guarda-livros a el-rei, Saiba vossa


majestade que na inauguração do convento de Mafra se
gastaram, números redondos, duzentos mil cruzados, e el-rei
respondeu, Põe na conta, disse-o porque ainda estamos no
princípio da obra, um dia virá em que quereremos saber, Afinal,
quanto terá custado aquilo, e ninguém dará satisfação dos
dinheiros gastos, nem facturas, nem recibos, nem boletins de
registo de importação, sem falar de mortes e sacrifícios, que
esses são baratos. " [pág. 138]
Focalização interna

Outras vezes, o narrador assume


momentaneamente a perspectiva das personagens
que vivem a acção, conferindo mais vivacidade e
verosimilhança à narrativa.
EXEMPLO
 "Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as
mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma
serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando
e recurvando como se determinasse chegar a toda a parte ou oferecer o
espectáculo edificante a toda a cidade, aquele que ali vai é Simeão de
Oliveira e Sousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo Ofício
declarava ser qualificador, e sendo secular dizia missa, confessava e
pregava, e ao mesmo, tempo que isto fazia proclamava ser herege e judeu,
raro se viu confusão assim, (...) por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana
Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações,
mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu,
mas explicaram-me que era demoníaco, que sei que posso ser santa como
os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e
eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e
orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética,
temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as
heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito
anos de degredo no reino de Angola (...)

[págs. 52-53]
PERSONAGENS
D. JOÃO V

 D. João V representa o poder real absolutista que


condena uma nação a servir a sua religiosidade
fanática e a sua vaidade.

 Cumpridor dos seus deveres de marido e de rei, D. João


V assume apenas o papel gerativo de um filho e de
um convento, numa dimensão procriadora, da qual a
intimidade e o amor se encontram ausentes.
PERSONAGENS D. JOÃO V

 Amante dos prazeres humanos, a figura real é


construída através do olhar crítico do narrador,
de forma multifacetada:
 é o devoto fanático que submete um país inteiro ao
cumprimento de uma promessa pessoal (a construção do
convento, de modo a garantir a sucessão) e que assiste aos
autos-de-fé;
 é o marido que não evidencia qualquer sentimento
amoroso pela rainha, apresentando nesta relação uma
faceta quase animalesca, enfatizado pela utilização de
vocábulos que remetem para esta ideia (como a forma
verbal" emprenhou" e o adjectivo "cobridor");
PERSONAGENS D. JOÃO V

 é o megalómano que desvia as riquezas


nacionais para manter uma corte dominado pelo
luxo, pela corrupção e pelo excesso;

 é o rei vaidoso que se equipara o Deus nas suas


relações com as religiosas; é o curioso que se
interessa pelas invenções do padre Bartolomeu de
Gusmão;
PERSONAGENS D. JOÃO V

 é o esteta que convida Domenico Scarlatti a


permanecer em Portugal;

 é o homem que teme a morte e que antecipa a


sua imortalidade, através da sagração do
convento no dia do seu quadragésimo primeiro
aniversário.
PERSONAGENS
D. MARIA ANA JOSEFA

 A rainha representa a mulher que só através do


sonho se liberta da sua condição aristocrática
para assumir a sua feminilidade.
 D. Maria Ana é caracterizada como uma mulher
 passiva,
 insatisfeita,
 que vive um casamento baseado na aparência, na
sexualidade reprimida e num falso código ético, moral e
religioso.
PERSONAGENS D. MARIA ANA JOSEFA
 A transgressão onírica é a única expressão da rainha que
sucumbe, posteriormente, ao sentimento de culpa. A pecaminosa
atracção incestuosa que sente por D. Francisco, seu cunhado,
conduzem-na a uma busca constante de redenção através da
oração e da confissão. - COMPLEXO DE CULPA.
 A rainha vive num ambiente repressivo, cujas proibições regem a
sua existência e para a qual não há fuga possível, a não ser através
do sonho, onde pode explorar a sua sensualidade.
 Consciente da virilidade e da infidelidade do marido (abundam os
filhos bastardos), D. Maria Ana assume uma atitude de
passividade e de infelicidade perante a vida.
PERSONAGENS
BALTASAR SETE-SÓIS

 Baltasar Mateus é um dos membros do casal


protagonista da narrativa.
 Representa a crítica do narrador à
desumanidade da guerra, uma vez que
participa na Guerra da Sucessão (1704-1712) e,
depois de perder a mão esquerda, é excluído do
exército.
PERSONAGENS BALTASAR SETE-SÓIS

 Construído enquanto arquétipo da condição


humana, Baltasar Sete-Sóis é um homem
pragmático e simples, que assume o papel de
demiurgo na construção da passarola (ao
realizar o sonho de Bartolomeu de Gusmão).

 Participa na construção do convento e


partilha, através do silêncio, a vida de Blimunda
Sete-Luas. Sucumbe às mãos da Inquisição.
PERSONAGENS
BLIMUNDA SETE-LUAS

 Blimunda é o segundo membro do casal protagonista da


narrativa. Mulher sensual e inteligente, Blimunda vive
sem subterfúgios, sem regras que a condicionem e
escravizem.

 Dotada de poderes invulgares, como a mãe, escolhe


Baltasar para partilhar a sua vida, numa existência de
amor pleno, de liberdade, sem compromissos e sem
culpa.
PERSONAGENS BLIMUNDA SETE-LUAS

 Blimunda representa o transcendente e a inquietação


constante do ser humano em relação à morte, ao
amor, ao pecado e à existência de Deus.
 O seu dom particular (ecovisão) transfigura esta
personagem, aproximando-a da espiritualidade da
música de Scarlatti e do sonho de Bartolomeu de
Gusmão.
 Ao visualizar a essência dos que a rodeiam, Blimunda
transgride os códigos existentes e percepciona a
hipocrisia e a mentira.
PERSONAGENS
FREI BARTOLOMEU LOURENÇO DE GUSMÃO

 O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão


representa as novas ideias que causavam
estranheza na inculta sociedade portuguesa.
 Estrangeirado, Bartolomeu de Gusmão tornou-
se um alvo apetecido do chacota da corte e da
Inquisição, apesar da protecção real.
 Homem curioso e grande orador sacro (a sua
fama aproxima-o do padre António Vieira).
PERSONAGENS BARTOLOMEU DE GUSMÃO
 Bartolomeu de Gusmão evidenciou, ao longo da obra, uma
profunda crise de fé, a que as leituras diversificadas e a postura
"antidogmática" não serão alheios, numa busca incessante do
saber.
 A sua personagem risível - era conhecido por "Voador" - torna-o
elemento catalisador do voo do passarola, conjuntamente com
Baltasar e Blimunda.
 A tríade corporiza o sonho e o empenho tornados realidade, a
par da desgraça, também ela, partilhada (loucura e morte, em
Toledo, de Bartolomeu de Gusmão, morte de Baltasar Sete-Sóis no
auto-de-fé e solidão de Blimunda).
PERSONAGENS
DOMENICO SCARLATTI

 Scarlatti representa a arte que,


 aliada ao sonho,
 permite a cura de Blimunda e possibilita
a conclusão e o voo da passarola.
PERSONAGENS
O POVO
PERSONAGENS O POVO

 O verdadeiro protagonista de Memorial do Convento é o povo


trabalhador. Espoliado, rude, violento, o povo atravessa toda a
narrativa, numa construção de figuras que, embora corporizadas
por Baltasar e Blimunda, tipificam a massa colectiva e anónima
que construiu, de facto, o convento.

 A crítica e o olhar mordaz do narrador enfatizam a escravidão a


que foram sujeitos quarenta mil portugueses, para alimentar o
sonho de um rei megalómano ao qual se atribui a edificação do
Convento de Mafra.
PERSONAGENS O POVO

 A necessidade de individualizar personagens


que representam a força motriz que erigiu o
palácio-convento, sob um regime opressivo, é
a verdadeira elegia de Saramago para todos
aqueles que, embora ficcionais, traduzem a
essência de ser português:
 GRANDES FEITOS, COM GRANDE ESFORÇO
E CAPACIDADE DE SOFRIMENTO
Espaço
O espaço físico

 São dois os espaços físicos nos quais se


desenrola a acção: Lisboa e Mafra.

 Lisboa, enquanto macroespaço, integra outros


espaços:
 TERREIRO DO PAÇO,
 ROSSIO
 E SÃO SEBASTIÃO DA PEDREIRA
Espaço físico

 Terreiro do Paço
Local onde Baltasar trabalha num açougue, após a sua chegada a
Lisboa. É onde decorre a procissão do Corpo de Deus.
 Rossio
Este espaço aparece no início da obra como o local onde decorrem o
auto-de-fé e a procissão da Quaresma ou dos penitentes.
 S. Sebastião da Pedreira
Trata-se de um espaço relacionado com a passarola do padre
Bartolomeu de Gusmão, ligada, assim, ao carácter mítico da
máquina voadora. No época, S. Sebastião da Pedreira era um
espaço rural, onde existiam várias quintas que integravam
palacetes.
Espaço físico Mafra

 Mafra é o segundo macroespaço. Até à construção do convento, a


vida de Mafra decorria na vila velha e no antigo castelo, próximo
da igreja de Sto. André.

 A Vela foi o local escolhido para a construção do convento, que deu


lugar à vila nova, à volta do edifício. Nas imediações da obra, surge
a "Ilha da Madeira", onde começaram por se alojar dez mil
trabalhadores, ascendendo, mais tarde, a quarenta mil.

 Além de Mafra, são ainda referidos espaços como Pêro Pinheiro,


a serra do Barregudo, Monte Junto e Torres Vedras.
O espaço social
 O espaço social
o espaço social é construído, na obra, através do relato de
determinados momentos (ou episódios) e do percurso
de personagens que tipificam um determinado grupo
social, caracterizando-o.

 Ao nível da construção do espaço social, destacam-se


os seguintes momentos:
 PROCISSÃO DA QUARESMA
 AUTOS-DE-FÉ
 A TOURADA
 PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS
 O TRABALHO NO CONVENTO
O espaço social Procissão da Quaresma
 Procissão da Quaresma
 excessos praticados durante o Entrudo (satisfação dos
prazeres carnais) e brincadeiras carnavalescas - as
pessoas comiam e bebiam demasiado, davam "umbigadas
pelas esquinas", atiravam água à cara umas das outras,
batiam nas mais desprevenidas, tocavam gaitas, espojavam-
se nas ruas.

 penitência física e mortificação da alma após os


desregramentos durante o Entrudo (é tempo de "mortificar a
alma para que o corpo finja arrepender-se”)
O espaço social Procissão da Quaresma
 descrição da procissão (os penitentes à cabeça, atrás dos frades,
o bispo, as imagens nos andares, as confrarias e as irmandades)

 manifestações de fé que tocavam a histeria (as pessoas


arrastam-se pelo chão, arranham-se, puxam os cabelos,
esbofeteiam-se) enquanto o bispo faz sinais da cruz e um acólito
balança o incensório; os penitentes recorrem à autoflagelação

 o narrador afirma que, apesar da tentativa de purificação através do


incenso, Lisboa permanecia uma cidade suja, caótica e as suas
gentes eram dominadas pela hipocrisia de uma alma que,
ironicamente, este define como "perfumada“.
O espaço social Autos-de-fé
O espaço social Autos-de-fé
 Autos-de-fé (Rossio) Neste relato, são de salientar os
seguintes aspectos:

 o Rossio está novamente cheio de assistência; a


população está duplamente em festa, porque é
domingo e porque vai assistir a um auto-de-fé
(passaram dois anos após o último evento deste tipo)

 o narrador revela a sua dificuldade em perceber se o


povo gosta mais de autos-de-fé ou de touradas,
evidenciando com esta afirmação a sua ironia crítica
perante um povo que revela um gosto sanguinário e
procura nas emoções fortes uma forma de
preencher o vazio da sua existência
O espaço social Autos-de-fé
 a assistência feminina, à janela, exibe as suas toilettes,
preocupa-se com pormenores fúteis relativos à sua
aparência (a segurança dos sinaizinhos no rosto, a borbulha
encoberta), e aproveita a ocasião para se entregar a jogos
de sedução com os pretendentes que se passeiam em
baixo

 a proximidade da morte dos condenados constitui o


motivo do ambiente de festa; esta constatação suscita,
mais uma vez, a crítica do narrador - na realidade, o facto de
as pessoas saberem que alguns dos sentenciados iriam, em
breve, arder nas fogueiras não as inibia de se refrescarem
com água, limonada e talhadas de melancia e de se
consolarem com tremoços, pinhões, tâmaras e queijadas;
O espaço social Autos-de-fé
 sai a procissão - à frente os dominicanos; depois, os inquisidores

 distinção entre os vários sentenciados (através do gorro e


sambenito), assim como o crucifixo de costas voltadas, para as
mulheres que irão arder na fogueira;

 menção dos nomes de alguns dos condenados (inclusivamente,o


de Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda)

 início da relação entre Baltasar e Blimunda

 punição dos condenados pelo Santo Ofício - o povo dança em


frente das fogueiras
O espaço social
Tourada
O espaço social Tourada

Tourada (Terreiro do Paço)


 o espectáculo começa e o narrador enfatiza a forma como os touros são
torturados, exibindo o sangue, as feridas, as "tripas“ ao público que, em
exaltação, se liberta de inibições ("os homens em delírio apalpam as
mulheres delirantes, e elas esfregam-se por eles sem disfarce”
O espaço social Tourada

 dois toiros saem do curro e investem contra bonecos de


barro colocados na praça; de um saem coelhos que
acabam por ser mortos pelos capinhas, de outro,
pombas que acabam por ser apanhadas pela multidão

 A ironia do narrador é ainda traduzida pela


constatação de que, em Lisboa, as pessoas não
estranham o cheiro a carne queimada,
acrescentando ainda numa perspectiva crítica, que a
morte dos judeus é positiva, pois os seus bens são
deixados à Coroa.
O espaço social
Procissão do Corpo de Deus

 preparação da procissão:
 descrição dos "preparos da festa” feita pelo
narrador, que assume o olhar do povo (as colunas, as
figuras, os medalhões, as ruas toldadas, os mastros
enfeitados com seda e ouro, as janelas ornamentadas
com cortinas e sanefas de damasco e franjas de ouro),
que se sente maravilhado com a riqueza da decoração
(uma reflexão do narrador leva-o a concluir que não se
verificam muitos roubos durante a cerimónia, pois o
povo teme os pretos que se encontram armados à
porta das lojas e os quadrilheiros, que procederiam à
prisão dos infractores)
O espaço social
Procissão do Corpo de Deus

 preparação da procissão:
 referência do narrador às damas que aparecem
às janelas, exibindo penteados, rivalizando
com as vizinhas e gritando motes

 à noite, passam pessoas que tocam e


dançam, improvisa-se uma tourada

 de madrugada, reúnem-se aqueles que irão


formar as alas da procissão, devidamente
fardados
O espaço social
Procissão do Corpo de Deus

 realização da procissão:
 o evento começa logo de manhã cedo.
DESCRIÇÃO DO APARATO:
 à frente, as bandeiras dos ofícios da Casa dos Vinte e
Quatro, em primeiro lugar a dos carpinteiros em honra a
S. José; atrás, a imagem de S. Jorge, os tambores, os
trombeteiros, as irmandades, o estandarte do
Santíssimo Sacramento, as comunidades (de S.
Francisco, capuchinhos, carmelitas, dominicanos, entre
outros) e o rei, atrás, segurando uma vara dourada,
Cristo crucificado e cantores de hinos sacros
O espaço social
Procissão do Corpo de Deus

 CRÍTICA DO NARRADOR:
 crítica do narrador às crenças e
interditos religiosos;

 visão oficial da procissão como forma de


purificação das almas, que tentam
libertar-se dos pecados cometidos
O espaço social
Procissão do Corpo de Deus

 CRÍTICA DO NARRADOR:
 Censura ao luxo da igreja e à luxúria do
Rei

 histeria colectiva das pessoas que se


batem a si próprias e aos outros como
manifestação da sua condição de
pecadores
EM SÍNTESE
 As procissões e os autos-de-fé caracterizam Lisboa como um espaço
caótico, dominado por rituais religiosos cujo efeito exorcizante esconjura
um mal momentâneo que motiva a exaltação absurda que envolve os
habitantes.

 A desmistificação dos dogmas e a crítica irónica do narrador ao


clero subjazem ao ideário marxista que condena a religião enquanto "ópio
do povo", isto é, condena-se a visão redutora do mundo apresentada
pela Igreja, que condiciona os comportamentos, manipula os sentimentos e
conduz os fiéis a atitudes estereotipadas.

 A violência das touradas ou dos autos-de-fé apraz ao povo que,


obscuro e ignorante, se diverte sensualmente com as imagens de morte,
esquecendo a miséria em que vive.
O TRABALHO NO CONVENTO
 Mafra simboliza o espaço da servidão
desumana a que D. João V sujeitou todos os
seus súbditos para alimentar a sua vaidade.

 Vivendo em condições deploráveis, os cerca


de quarenta mil portugueses foram
obrigados, à força de armas, o abandonar as
suas casas e a erigir o convento para cumprir a
promessa do seu rei e aumentar a sua glória.
Espaço psicológico
 o espaço psicológico é constituído pelo conjunto
de elementos que traduz a interioridade das
personagens. Nesta obra, o espaço psicológico
é constituído fundamentalmente através de dois
processos: os sonhos das personagens, que
funcionam como forma de caracterização das
mesmas ou que, num processo que lhes
confere densidade humana, traduzem relações
com as suas vivências; e os seus
pensamentos.
TEMPO
TEMPO O tempo diegético (tempo da história)

Trata-se do tempo em que decorre a acção.

 O tempo da história é constituído por algumas datas


fundamentais.
 A acção inicia-se em 1711. D. João V ainda não fizera
vinte e dois anos e D. Maria Ana Josefa chegara há
mais de dois anos da Áustria.
 O fluir do tempo, mais do que através da recorrência a
marcos cronológicos específicos, é sugerido pelas
transformações sofridas pelas personagens e por
alguns espaços e objectos ao longo da obra.
TEMPO O tempo diegético (tempo da história)

O tempo histórico
 Logo no início do romance, podemos
inferir que a acção tem início no ano de
1711, através da seguinte referência do
narrador:

 "(. ..) S. Francisco andava pelo mundo,


precisamente há quinhentos anos, em
mil duzentos e onze (. . .)"
TEMPO O tempo diegético (tempo da história)

 Referências cronológicas
 As referências cronológicas mais importantes são as seguintes:

 Em 1716, tem lugar a bênção da primeira pedra do Convento de


Mafra
 em 1717, Baltasar e Blimunda regressam a Lisboa para trabalhar
na passarola do padre Bartolomeu de Gusmão
 em 1719, celebra-se o casamento de D. José com Mariana Vitória
e de Maria Bárbara com o príncipe D. Fernando (VI de Espanha)
 em 1730, mais propriamente no dia 22 de Outubro, o dia do
quadragésimo primeiro aniversário do rei, realiza-se a sagração
do Convento de Mafra
 a acção termina em 1739, no momento em que Blimunda vê
Baltasar a ser queimado em Lisboa, num auto-de-fé.
TEMPO O tempo diegético (tempo da história)

 Muitas vezes, a passagem do tempo é anunciada por situações precisas "Para


D. Maria Ana é que lhe vem chegando o tempo. A barriga não aguenta crescer mais
por muito que a pele estique (.. .)" ou por referências temporais que se integram
em marcações referenciais – por exemplo:

 "(…) tendo partido daqui há vinte meses (…)" p. 72


 "Meses inteiros se passaram desde então, o ano é já outro" p. 77
 "Entretanto, nasceu o infante D. Pedro (...)" p. 88
 "Bartolomeu Lourenço foi à quinta de S. Sebastião da Pedreira, três anos inteiros
haviam passado desde que partira (. .)” p. 117
 "(...) é certo que há seis anos que vivem como marido e mulher (…)" p. 130
 "(...) se não ficou dito já, sempre são seis anos de casos acontecidos (…) " p. 134
 "(…) e já vão onze anos passados (...)" p. 162
 "(...) passaram catorze anos (…)“ p. 214
 "Desde que na vila de Mafra, já lá vão oito anos, foi lançada a primeira pedra da
basílica (…)" p. 231
TEMPO O tempo do discurso

 O tempo do discurso é revelado através


da forma como o narrador relata os
acontecimentos. Este pode apresentá-
los de forma linear, optar por
retroceder no tempo em relação ao
momento da narrativa em que se
encontra ou antecipar situações.
TEMPO O tempo do discurso

As analepses (recuos no tempo)


 As analepses explicam, geralmente,
acontecimentos anteriores, contribuindo
para a coesão da narrativa.

 É de assinalar, anteriormente ao ano do início


da acção (1711 ), a analepse que explica, em
parte, a construção do convento como
consequência do desejo expresso, em
1624, pelos franciscanos, de possuírem um
convento em Mafra.
TEMPO O tempo do discurso
As prolepses (acções futuras)
 A antecipação de alguns acontecimentos serve os
seguintes objectivos:
 . a crítica social - é o  . a visão globalizante de tempos
caso das prolepses que distintos por parte do narrador (o
dão a conhecer as tempo da história e, num tempo futuro, o
mortes do sobrinho de do momento da escrita) - cabem aqui as
Baltasar e do infante D.
Pedro, de modo a referências aos cravos (outrora, nas
estabelecer o contraste pontas das varas dos capelães; muito
entre os dois funerais, mais tarde, símbolos da revolução do 25
ou a morte de Álvaro de Abril), a associação entre os
Diogo, que viria a cair possíveis voos da passarola e o facto
de uma parede, durante de os homens terem ido à Lua, no
a construção do século XX, a alusão ao tipo de
convento, assim como a diversões que se vivia no século XVII e
informação sobre os ao cinema, entre outras
bastardos que o rei
iria gerar, filhos das
freiras que seduzia