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TRAGÉDIA NA SEITA DO DAIME

Jorge Mourão

O ex-guerrilheiro Alex Polari vem denegrindo a imagem de Jambo Veloso de


Freitas, morto durante um ritual do daime, no Céu de Mapiá. Protesto contra a
sentença de desequilibrado mental por ele imposta ao meu irmão Jambo, na
edição da Folha de S. Paulo de 26 de setembro de 1994.
Torna-se importante o esclarecimento publico de que Jambo morreu não de forma
"constrangedora", mas sim de maneira muito estranha. Antes do seu suposto
suicídio, ele foi submetido a um ritual denominado "trabalho de cura", no qual a
vitima é obrigada a tomar uma dose mais forte do chá, tendo sua mente invadida
por valores e conceitos da seita. Se a pessoa estiver fora dos moldes ideais, vai
se sentir culpada e será estigmatizada par uma comunidade extremamente
repressora em movimentos e pensamentos. Houve momentos em Mauá em que
queriam amarrar meu irmão!
O corpo foi enterrado em algum recanto desconhecido da Floresta Amazônica,
sem atestado de óbito nem autorização da família. Assim, a versão sobre a morte
se torna suspeita, ainda mais vinda de fanáticos cujo único interesse é livrar sua
seita de quaisquer responsabilidades, mesmo que para isso tenham que caluniar
meu irmão. Jambo não teve direto de defesa e nem o direito à vida.
É muito fácil se isentar de responsabilidades culpando os mortos, ou
diagnosticando perfis psicológicos. Por que todos os dissidentes que vão contra a
seita são doentes mentais?
Segundo Polari, Jambo era ligado em drogas e sofreu uma piora. Trata-se de uma
grande hipocrisia, pois Polari esqueceu de dizer que a maconha e consumida na
comunidade e introduzida nos rituais, sendo chamada de "erva-de-santa-maria".
Além disso, de acordo com Jambo, a cocaína e de fácil acesso na Amazônia.
O próprio chá de ayahuasca e uma droga tão poderosa quanto o LSD. Quando
combinados, os três alcalóides que compõem o chá provocam um alto grau de
dependência psicológica. A tetrahidroharmina e um separador de personalidade
que provoca esquizofrenia.
Por tudo isso, venho a público defender a honra e a dignidade de meu irmão. E
dizer, como bem sabia quem o conheceu pessoalmente, que ele não era doente
mental, mas um jovem normal. Como todos os outros de sua idade. E essa
verdade, para a infelicidade de Polari, torna tudo bem mais perigoso para sua
seita: e uma evidência de que qualquer um pode ser vítima.
JORGE MOURÃO

TRAGÉDIA

NA SEITA DO DAIME

Imago

Titulo original:
Tragédia
na Seita do Daime
Capa:
OVIDIO VIELLA
ClP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Mourão, Jorge.
Tragédia na Seita do Daime/Jorge Mourão.
Rio de Janeiro: Imago Ed.1995.
1. Santo Daime. 2. Alucinógenos e experiências religiosas. 3. Seitas - Brasil. I.
Titulo.
COO 299.8 COU 2998
Reservados todos os direitos.
Nenhuma parte desta obra podem ser reproduzida par foto copia, microfilme,
processo foto mecânico ou eletrônico sem permissão expressa da Editora. 1995
IMAGO EDITORA LTOA.
Rua Santos Rodrigues, 201-A - Estácio 20250-430 - Rio de Janeiro - RJ Tel.:'(021)
293-1092
Impressa no Brasil
Ao Jambo, que, corajoso,
perdeu a vida mas não entregou a alma

A Ivanete, que perdeu um filho


mas continua mãe valente
AGRADEDMENTOS

Em primeiríssimo lugar, a meu primeiro filho, Koki Aymara, e à sua mãe, Teresa,
sem os quais seria praticamente impossível redigir este difícil relato.
A Joel Macedo, cuja amizade e excelência em jornalismo têm sido de vital
importância.
Ao Dr. Helio Rocha, pela paciência em sua difícil posição. Aos doutores Eduardo e
Célio pela atenção.
Ao amigo e jornalista Rubinho Gomes, pela sua eloqüente indignação.
Ao Joca, por juntar forças.
"Nossos mortos não pedem vingança só justiça
de algum jeito eles sempre retornam.
Vocês que perambulam pelos mares e pelo oceano prestem atenção a tudo que
de sua entranha aflore: algum sinal, víscera, qualquer indício estranho talvez uma
mão crispada, roxa segurando um bouquet de flores encharcadas.”
(Alex Polari, in Camarim do Prisioneiro, Ed. Global, 1980).
SUMÁRIO
Iniciação ......................................................................... 13
Fuga ................................................................................ 29
Tragédia ......................................................................... 35
Representação ................................................................ 55
Reação ........................................................................... 63
Novas Forças ................................................................. 69
Continuação .................................................................... 105
Notas .............................................................................. 109
Dados Biográficos .......................................................... 113
INICIAÇÃO

Seitas proliferam no fim do milênio, com variados graus de presunção e


proselitismo. Todas vendem um tipo de encantamento maquiado como
ensinamento.
Os verdadeiros mestres ensinam, acompanham e depois soltam os discípulos
para a sua jornada pessoal e intransferível.
Os fariseus desinformam, desestruturam e fabricam zumbis com cérebros lavados
por choque de doutrinação e, no caso do daime, alcalóides potentíssimos. A
revelação - mentem - só poderia ocorrer no âmbito da seita. E é preciso beijar a
mão do "padrinho", codinome para o ditador de almas.
Daime é um dos nomes dados, no Brasil, à ayahuasca, substancia psicoativa
conhecida ha milênios. Ela já era usada pelos Incas. Um seleto grupo, em seletas
ocasiões, ingeria a substância e atingia estados de percepção alterada, sondando
novas regiões de conhecimento, que eram devidamente decodificadas.
Por volta dos anos 30, Raimundo Irineu Serra, seringueiro do Amazonas,
experimentou a beberagem e teve visões. Organizou um culto local. Um de seus
seguidores, Sebastião Mota, mais ambicioso, não só se desligou do núcleo
original como iniciou o expansionismo da seita. Quando o ex-(?)-terrorista Alex
Polari, que purgou uns 10 anos de cadeia por seus métodos violentos de tentativa
de tomada do poder político, o encontrou, celebrou-se a união do missionarismo
semi-ingênuo com o fanatismo xiita de know-how guerrilheiro. Neste

Relato. o chamaremos de gurulheiro - o guerrilheiro que não deu certo e virou


"guru".
No daime, Polari encontrou 'um grupo organizado, já fardado, encharcado pela
ingestão excessiva do alcalóide, acreditando que bebe Deus e tendo como missão
convencer os outros disso - não poderia haver melhor massa de manobra para o
delírio paranóico de mudar o mundo segundo o evangelho de sua patologia
satânica.
"Satanás não e nosso inimigo!", proclama Sebastião Mota, num dos livros de Alex
Polari.
A comercialização da "divindade engarrafada", atualmente já em escala
internacional, verdadeiro estelionato espiritual, é fonte de muita renda.
O uso de uma droga alucinógena "legalizada" por poderoso lobby é um forte
atrativo, sobretudo para os jovens. Outro apelo forte e o da "cura". Praticam
curandeirismo descaradamente. Dizem que o daime é o curador universal. Cura
tudo, só não cura sentença”.
Muitos jovens são atraídos. Meu filho foi um deles. Tudo indica que foi
"sentenciado".
Este livro é pela memória de Jambo, que os fanáticos não respeitaram em vida e
denigrem após sua morte. Para eles, "memória é a guarda pretoriana da razão”. 3
Para nós, a memôria é a alma da história.
Este é um relato difícil, doloroso e necessário.
Se os daimistas tivessem apresentado considerações mais adequadas sobre a
tragédia que se abateu sobre Jambo, meu filho de criação, a historia seria outra.
Infelizmente, do alto da arrogância dos que se julgam ungidos por Deus,
desprezaram as mais comezinhas atitudes de solidariedade humana e partiram
para a injuria, calúnia e difamação, vilipendiando a memôria de quem não pode se
defender. Não o consideraram em vida e, covardes, o maltratam mesmo depois de
morto.

Após a revolta, o nojo e a raiva que tais demonstrações de baixeza me


provocaram, tive uma "miração": devia haver algo de muito grave atrás das
inverdades proferidas. A pecha de "louco" é um recurso usado e abusado por
qualquer sistema ou regime totalitário contra seus dissidentes, sobretudo para os
que ameaçam o status quo com suas criticas. Advogados consultados apontaram
fortes indícios de que a versão daimista é suspeita. Apesar da compreensível
resistência da mãe, para quem nada que eu fizesse alteraria a dor da perda;
resolvi partir para a apuração da história, empreitada extremamente difícil devido
às distâncias envolvidas, ao corporativismo e a má fé da seita do daime, ao alto
custo e à ineficiência dos processos jurídicos, à pouca disponibilidade de tempo
entre os afazeres profissionais e, sobretudo, ao sofrimento incessante de ver o
que a agressividade dos fanáticos, além da própria perda, fazia com a mãe.
Um exército de aproximadamente 10.000 zumbis seguem, a maioria iludida em
sua boa fé, lideres manipuladores que se apossaram de uma doutrina rústica,
desenvolvida nos meandros da Amazônia por gente da floresta, e a utilizam como
instrumento de manipulação das necessidades do sagrado inerentes ao ser
humano., Eles contam com o apoio ingênuo de personalidades da telinha
encantada, e irresponsável de autoridades governamentais.
Conheci Jambo em junho de 1978, logo após ter me encantado com Ivanete, sua
mãe, num relance de um show no Museu de Arte Moderna do Rio, seguido de
uma dança na Gafieira Elite. Estava casado na época, mas a paixão foi inevitável.
Lembro-me bem da primeira vez que o vi, magrinho e serelepe, brincando com
Bruce, no jardim da casa que suas mães dividiam em Santa Teresa. Os dois,
então com quase sete anos, eram praticamente irmãos de criação, uma vez que
Ivanete e Regina, madrinha de batismo de Jambo , eram companheiras de estrada
de muito tempo.
Seguiram-se vários meses de relação irregular, durante os quais a paixão foi posta
à prova. Foi extremamente difícil me separar de Teresa, mãe de Koki Aymara,
meu primeiro e dileto filho. Havia, e ainda há, muito amor, carinho e cumplicidade
exercidos nos dois hemisférios de nossas caminhadas. Ivanete, por seu lado, teve
que testar se valia à pena se comprometer, uma vez que desde que se separara
do pai do Jambo, logo após o nascimento deste, tal não acontecera.Jambo
raramente via o pai.
Após um período morando juntos no Rio, decidimos nos mudar para Porto Seguro,
na Bahia, onde Ivanete era proprietária de um terreno no Arraial d'Ajuda.
Seguiram-se tempos de aventura, descobrimento e movimento. Abrimos um
restaurante, construímos uma cabana, abrimos outro por temporada, compramos
um terreno em Trancoso, uma mata também em Trancoso, mais um restaurante e,
muito amor depois, nasce Kamala Aymara, já no Rio de Janeiro, devido à gravidez
difícil de Ivanete e à precariedade de recursos da região de Porto Seguro.
Jambo acompanhava todas estas mudanças com disposição e humor.
Encontrava-se com Bruce e Koki sempre que a coincidência de latitudes
acontecia. Ajudava a mãe a cuidar de Kamala e da loja que inventamos em Santa
Teresa. Eu entre a Bahia e o Rio, era feliz e ocupado.
Mas a permanência nunca foi o meu forte, nem o de Ivanete. Comércio é uma
atividade embrutecedora para certas cabeças. Contas de compras, contas de
vendas, contas de estoques, muita conta e poucos contos. 0 hoje mago Paulinho
Coelho, em visita com a sua Cristina, achou que essa minha experiência geraria
farto material literário ... Mas para mim já era tempo de me mexer. Felizmente, a
tropa topava tudo.
Um período em Copacabana, Jambo integrado em escola pública, apesar dos
receios iniciais de Ivanete quanto ao
ambiente. Outro em Teresópolis, aonde Kamala ia saltitante para

sua escola na mesma rua em que morávamos e Jambo se encontrava amiúde


com Bruce, também morando na serra. Foi dos períodos mais felizes de nossas
vidas. Era altamente gratificante, depois dos mais de 1.000 quilômetros da BR-101
que separam Porto Segura do Rio, subir a serra e encontrar a família tranqüila,
saudável e gostosa como a água da fonte que nos matava a sede com qualidade
incomparável.
Uma querela com o proprietário da casa que alugávamos, que ora queria vendê-
la, ora queria aumentar a aluguel, e a necessidade de acompanhar mais de perto
as propriedades da Bahia, mercê da valorização que acompanhou a moda de
Porto Seguro, nos faz voltar mais uma vez de mala e cuia para lá em fins de 1989.
Jambo está fazendo 17 anos, Kamala fez 7. Dessa vez, nos instalamos em
Trancoso, onde construímos uma casa no terreno adquirido em 1980. As férias
foram boas, mas a início do ano letivo se aproximava e nem em Trancoso nem na
Ajuda havia escola para o Jambo. Decidimos que o melhor era a família se instalar
na Ajuda, mais perto de Porto Seguro, onde havia segundo grau. Eu ficaria
tomando conta da casa em Trancoso.
A região de Porto Segura é encantadora. Não foi por acaso que os portugueses
primeiro chegaram lá. Houve causa.O magnetismo do local, entre ventos e
calmarias, falou mais alto. Depois de séculos esquecido, o que de muitas
maneiras foi benéfico, notadamente em relação a conservação da atmosfera
única, começou a ser redescoberto na década de 70 por viajantes alternativos.
Seu poder de atração continua até hoje a exercer fascínio sobre pessoas de todo
a Brasil e de todo o mundo. Nos anos 80 vira moda e uma nova leva chega ao
local. Empresários entediados com a vida em cidades grandes, interioranos com
sede de vista para o mar, aventureiros no bom e no pior sentido se deslocaram
para o paraíso. Diferentemente da primeira leva dos redescobridores, que
ansiavam por uma vida alternativa, contemplativa, investindo em pe-

quenos empreendimentos para sobrevivência, a segunda onda veio cheia de fome


atrás dos ovos de ouro.0 resultado, que não é novidade, foi o da inchação sem
infra-estrutura.Só recentemente, começa-se a pensar seriamente em educação e
saúde. Cultura? Só as festas populares nos dias dos santos.
Jambo tirava de letra a escola publica de Porto Seguro, o que lhe proporcionava
imensos períodos de lazer. Muita praia, alguma pescaria e demasiado ócio. Não
existe até hoje nem um centro cultural ou mesmo esportivo, esta lacuna será
preenchida em breve. Esta em processo de aprovação na prefeitura de Porto
Seguro o Centro Cultural Jambo Veloso de Freitas, parte integrante do projeto
Instâncias do Icatu. 0 lugar é ideal para adultos já formados ou para crianças, que
dispôem de grandes espaços para brincar sem as ameaças da cidade grande.
Mas para um adolescente descobrindo a vida, não apresenta nenhuma
perspectiva. "Aqui não se tem nada para fazer", reclamava ele. "Nem uma mesa
de pingue-pongue... só baseado e cocaína..." Após ter saciado a curiosidade,
normal em sua idade, estava saturado da mesmice local. Foi então que propôs ir
para Mauá, onde estavam morando Bruce e Regina.
Começam aqui as mentiras dos fanáticos do daime.
Jambo, viciado em cocaína, com graves problemas mentais derivados do vício,
teria sido levado por sua mãe para se curar na seita.
Completamente falso. Jambo, após ter contato com cocaína, com maconha, como
muitos adolescentes e adultos, mas também com a mesmice advinda da ingestão
desses aditivos, sem qualquer perspectiva interessante que satisfizesse sua
inteligência, decidiu, por vontade própria, mudar literalmente de ares, trocando o
mar pela montanha, o já conhecido pelo novo. Seguiu para Mauá, onde morava
sua madrinha e seu irmão de criação, em busca de outra atmosfera que
preenchesse vazio que sentia no paradisíaco deserto cultural que é o Arraial. E
não foi para se curar de nada, por duas simples e definitivas razões: não estava
doente, muito menos com problemas mentais, como podem atestar inúmeros
moradores dos dois povoados em que viveu antes de Mauá e onde até hoje é
lembrado com carinho e saudade. Nunca havíamos ouvido falar da absurda
pretensão dos daimistas de fazer "sessões de cura", sem estar minimamente
preparados para tal, como reconheceu tardiamente o Dr. Carlos Renault, médico
psiquiatra do Banco do Brasil e membro da seita ha 13 anos, em carta ao padrinho
Alfredo, datada de 5 de julho de 1992:
"Eu acredito que, como Igreja, ainda não estamos capacitados a dar a pessoas
que tenham esse tipo de problema a assistência devida e o controle necessário
para que possam ter êxito em suas crises e modificar um destino cruel. 0 preparo
humano que se precisa para tanto requer uma especialização que, no momento,
nós não possuímos [Seria preciso] uma estrutura especial: 1) pessoal clínico
capacitado, supervisionado, com conhecimento do daime e da psicologia humana;
2) local apropriado para a internação, de modo que possam ser medicados se
necessário e constantemente vigiados; 3) contato e combinações claras e oficiais
com os familiares. Falo, é claro, de uma clínica ou segmento de uma comunidade
preparada para isso...Acredito que nós não temos ainda a estrutura e a
capacidade específica para assumir esta ajuda. As conseqüências desastrosas e
repetitivas que temos vivido nos dão essa prova".

No fim de 1990, após passar o natal com a família, Jambo parte para Mauá.
Queria passar o reveillon em solo novo. Regina e Bruce pertenciam à seita. Nada
mais natural que Jambo passasse a freqüentá-la e experimentasse o daime. Em
sua primeira experiência, passou mal. Seria is to um sinal de problemas mentais?
"Senti os pés feito chumbo e pouquíssima percepção do meu corpo da cintura
para cima. Procurei um lugar para sentar, com medo de cair. Uma espécie de
estalo no ouvido esquerdo como quando eu ando de avião... Zonzo, com vontade
de vomitar, estômago embrulhado... Eu me sentia péssimo... Fui andando meio
sem rumo. Cólicas vontade de cagar. Pior que isso: a sensação de que eu já podia
ter cagado e todo mundo me olhava divertido. Completamente desorientado ... Fui
ao mato e nada de sair. Senti-me próximo à exaustão e uma bad trip de ácido."
Está é a descrição da primeira viagem, não do Jambo, mas de Alex Polari, um dos
atuais lideres da seita. 4 Seria isto um sinal de problemas mentais?
Depois de algum tempo, Jambo mudou-se da casa da Regina, que não morava na
comunidade por ter algumas divergências, para dentro do Céu da Montanha,
nome que os daimistas dão à extensa área que ocupam. Parecia bem integrado.
Nas notícias que nos mandava, falava que estava trabalhando na marcenaria -
sempre foi muito hábil com as mãos - e que estava até guardando um dinheirinho.
Fui visitá-lo em agosto de 1991 com Koki, recém-chegado de uma estada nos
Estados Unidos. Jambo pareceu-me um pouco ausente, olhar de paisagem,
dizendo que estava tudo bem, não precisava de nada. Relatei o fato a Ivanete,
acrescentando que
a impressão geral que me deram todos os daimistas com que eu tivera contato era
a de que pareciam zumbis, com aquele olhar perdido. 0 mesmo olhar eu já
observara no pessoal da cientologia, do Rajneesh, do hare krishna.
É um olhar vazio, perdido, abobalhado. Os adeptos acreditam que estão
iluminados, plenos de divindade. A impressão que passam para nós, simples
mortais, é que estão vazios de vida. Dead-face, expressão usada por um cientista
que estudou os efeitos do abuso da ayahuasca, descreve perfeitamente o efeito
de "aniquilamento da pessoa", recurso usado pelas seitas para submeterem
neófitos ao seu domínio.

Técnicas da Seita

O estilo e a mise-en-scene variam, mas os artifícios são basicamente os mesmos.


Nos primeiros contatos, um dos lideres da seita assume o que Jose Maria
Baamonde chama de paternalismo benevolente. Um "padrinho" em quem se pode
confiar. Ao se abrir com esse iniciador, o iniciante já o coloca em posição superior.
É 0 primeiro passo para a dominação. Com base em confidêndcias provocadas
pela confiança nele depositada, o iniciador fica capacitado para superdimensionar
os conflitos existentes e garantir que "lá" ele é compreendido, não é o primeiro a
quem acontece isso, etc. A comunidade recebe o neófito com um "bombardeio de
amor" que completa a conquista emocional. É designado então um veterano para
o ficar vigiando em qualquer circunstância. Na verdade é uma tutela que se
estabelece, e o tutor, além de vigia, é o canal permanente do doutrinamento, com
respostas simplistas pré-formuladas. Injetam-lhe na mente que existe a seita de
um lado, o resto do mundo do outro. 0 bem está "dentro", 0 mal está "fora". A
informação que recebe é toda direcionada nesse sentido.

É escalado para cumprir serviços para a comunidade, o que parece razoável, mas
que na verdade e uma forma de controlar suas atividades. Uma vez escalado
qualquer objeção é encarada como sinal de desajuste com o ambiente "perfeito".
Insistências são doenças. Dissidências, loucura.
Toda seita tem uma ritualística de indução à dissociação temporal-espacial, o que
provoca confusão e embotamento da percepção e de análise. 0 que varia são os
artifícios usados: relaxamento, recitação de mantras, meditação, ritmos
monocórdios, drogas. Após determinado tempo, as capacidades de distinção,
discernimento e critério da pessoa ficam profundamente abaladas.
Persegue-se o atrofiamento da identidade por mudança de nomes, utilização de
uniformes, ênfase no geral sobre o individual. Utilizam-se códigos a que só os
iniciados têm acesso. Instituem-se prêmios para as atitudes de acordo com o
regimento e castigos para os que ousarem duvidar. Instigam-se ideais heróicos,
feitos extraordinários que, evidentemente, só serão atingidos com a ajuda da seita.
Encoraja-se a renuncia do "passado não iluminado": estudos, amigos, família,
bens materiais (de preferência doando-os para a seita . ). Manipula-se a
sexualidade, estimulando-se a promiscuidade (como os Meninos de Deus e
Rajneesh), ou impondo "abstinência" que geralmente só são validas para os
discípulos, não para os mestres.
Uma ênfase especial é dada ao sentimento de que os membros do "clube" são
eleitos especiais. E ai de quem, uma vez admitido, abre dissidência. É
sistematicamente denegrido e ameaçado de terríveis castigos.
Ou seja, as pessoas têm uma "profunda liberdade de sentir e uma total submissão
no agir”. 6
Mas naquela época eu ainda não tinha motivos para me aprofundar em
investigações. Jambo parecia firme em sua escolha de permanecer na
comunidade. Até então, eu não
havia tido notícia de nenhuma impropriedade deles, a não ser as esquisitices
notórias, tanto que não os classificava ainda como seita. Militante de uma geração
de lutas libertarias, não me sentia tentado a exercer nenhuma forma de repressão
à escolha de um rapaz esperto, com mais de 18 anos, ou de quem quer que
achasse que se encharcar de uma substância psicoativa era seu caminho neste
planeta. A minha posição há muito era a do respeito pela escolha do modo de vida
de qualquer pessoa maior de idade, desde que essa liberdade não constranja a de
outrem. As drogas são experiências que se pode ter ou não. Não são nem
apropriadas e muito menos remédio para todo mundo. Mas também não conheço
nenhum principio geral adequado para limitar o acesso a elas. Eu já tinha tido
bastante experiência no assunto, em quatro continentes, para ter certeza disto.
A maconha e a cocaína conheci na adolescência, nas ruas
da zona suI do Rio. Cheguei a levar a erva para a Argentina em 1964, quando do
primeiro pinote para fora da ditadura que se instalava no Brasil. No segundo, em
1967, já na Europa, fui apresentado ao haxixe. Em maio de 68, durante a
revolução estudantil na França, a Sorbonne - sede do operacional do movimento -
estava também ocupada pelo aroma característico da cannabis.
Após a traição ao movimento político, tomamos o rumo das Índias à procura de
temperos espirituais e especiarias alteradoras da consciência. No que toca à
religiosidade, tive contato com o ashram do Maharishi Mahesh Yogi - guru dos
Beatles e de tantos outros - e com um mestre muito especial. Mustaram Baba (em
sanscrito, AqueIe que não se preocupa mais) chegava pelas 4 horas das tardes de
Rishikesh nas areias da margem do Ganges, envolvido apenas em uma manta, e
aguardava quem se dispusesse a participar da reunião informal. Um discípulo seu
distribuía pedacinhos de banana e amendoim, e servia de interprete para
eventuais perguntas, que eram raras; permanente era a agradável e forte vibração

da presença de Baba, realçada pela suave música que outro discípulo executava
numa cítara. Poucas vezes na vida senti tão profunda, simples e legitima a
presença de Deus.
Com relação às drogas, o oriente em geral e a Índia em particular foram uma
grande escola prática. Encontrava-se de tudo a preços ridículos, até a cocaína
puríssima do laboratório Merck. 0 uso que se fazia, como sempre, dependia da
formação de cada um. Encontrei muitas pessoas com as suas consciências
ampliadas na procura de novas formas de vida. Encontrei também execráveis
junkies fantasmagorizados pelas suas viagens de morte.
A procura da qualidade das substâncias fez com que algum de nós se envolvesse
na distribuição. 7
Ainda em 1991 levei sua mãe e sua irmã para passarem o natal com de. 0 pessoal
da seita "estranhou" muito que eu não fIcasse, apesar das insistências. Estavam
loucos para que eu me enturmasse na onda deles. Só que a minha estrada falou e
fala mais alto...

É importante notar que, embora eu não estivesse minimamente Interessado em


fazer experiências com a ayahuasca - nome original da bebida - com a seita, não
me opunha a que não somente Jambo, mas sua mãe e minha filha participassem
eventualmente dos festejos. Não havia nenhum preconceito quanto aos daimistas.
Achava-os um bando de babaquaras perdidos no fim do milênio, que tinham se
juntado para compartilhar suas viagens químicas, até então, aparentemente
inócuas.
O ano de 1992 prometia ser de alegria. Entre nossa idas e vindas fomos
premiados com a noticia de que mais uma vez nosso amor tinha sido abençoado
com precioso fruto. Ravi Aymara, assim como Kamala, tinha sido gerado na
atmosfera fértil, do Arraial d'Ajuda. Espontâneo e bem-vindo, era preciso cercá-lo
de todos os cuidados. Ivanete, veterana de gravidez difícil, completava 42 anos, o
que aumentava os riscos. Em
maio descemos ao Rio para os check-ups de praxe. E claro que Jambo veio nos
visitar na casa de Sonia, amiga das antigas de Ivanete e Regina, sempre disposta
e hospitaleira. E foi no dia das mães que ele nos comunicou sua insatisfação com
o ambiente em Mauá.
Reclamou especificamente das condições de trabalho. A sujeira, o excesso de
serragem, o barulho e o cheiro forte da cola o estavam incomodando na
marcenaria. Perguntei-lhe se tinha conversado sobre isso com o Mota, o
responsável. Disse-me que este não havia levado em conta suas observações
porque era o único a fazê-las. ...
Para mim era um caso claro de impregnação. Já fazia um ano e meio que o
Jambo tomava daime com freqüência. Imagino que depois de múltiplas viagens,
com os canais de percepção alterados quantitativa e qualitativamente, não deve
ser nada agradável passar horas ouvindo barulho de serra, respirando serragem e
cola de madeira. Alem disso, Jambo decidira falar português o mais corretamente
possível. Por causa disso era objeto de sarcasmo por parte dos "iluminados".
Achava que sua experiência em Mauá estava esgotada. Queria ir para o Mapiá.
Argumentei que se ele já não estava satisfeito em Mauá, que fica próximo aos
recursos do Rio e de São Paulo, o que esperava de Mapiá, nos confins da
Amazônia, isolado de tudo, sem comunicação com o mundo exterior - a não ser as
controladas pela seita. Inútil. Jambo, com sua arrogância inata, contra-
argumentava que lá é que estava a doutrina original, lá estavam os caboclos da
floresta, alguns dos quais já tinha conhecido quando passaram por Mauá; lá,
enfim, é que estava o original - em Mauá era uma copia. 0 que era incontestável.
Quanto ao isolamento absoluto num lugar desconhecido, tranquilizou-nos ao nos
informar que Regina, sua madrinha, estava lá e que havia um meio de
comunicação com uma cidade chamada Boca do Acre, próxima a Vila do Mapiá.
Em seguida nos explicou detalhadamente o caminho que percorreria para chegar
a sua Meca.
"Ninguém vem ate aqui com as próprias pernas, é o poder que chama as
pessoas.”
Do Rio pegaria um ônibus para Porto Velho, capital de Rondônia, uns dois dias de
viagem; de lá outro para Rio Branco, mais um dia ou uma noite; mais um para a tal
Boca do Acre, já no estado do Amazonas; de lá mais dois ou três dias de canoa,
dependendo das águas. Uma verdadeira maratona, para a qual ele se mostrava
inteiramente preparado, consciente da responsabilidade do que fazia e do que
necessitava para chegar lá. Veterano de muitas viagens, sabia restringir a
bagagem. Para comer, só pão integral e queijo mas este, gostaria que fosse
provolone, um gosto que herdou de sua mãe ... Roupas, as que tinha em Mauá
eram o suficiente. Lá já tinha até um cantil. Só precisaria uma bolsa com divisões.
Diante de tamanha firmeza, só nos restava ajudá-lo a chegar a seu objetivo. Ficou
combinado que ele voltaria a Mauá, arrumaria suas coisas, se despediria do
pessoal, enquanto nós aqui no Rio nos organizaríamos também em relação a mais
esta novidade.
A partir dos exames de Ivanete, consegui convence-Ia a ficar com Kamala no Rio
até o parto. As aulas que se danassem. A prioridade absoluta era a gravidez. Para
isso, precisava instala-Ias com o máximo de conforto possível, o que incluía
aluguel de apartamento, telefone etc. Nada muito fácil nos tempos que correm,
ainda mais eu tendo que correr de volta para a Bahia. Mas eu confiava que o
tempo necessário para tais providencias se harmonizaria com os movimentos do
Jambo. Havia muito que nós nos deslocávamos em circunstâncias imprevistas.
Para o acompanhamento medico cantávamos com a incomparável supervisão do
dr. Clemente Mourão, meu saudoso pai.

FUGA

Dia 21 de maio, par volta das sete horas da manhã, jambo nos liga aflitíssimo de
Resende. Tivera de fugir da comunidade de Mauá porque não queriam deixá-lo
sair! Tinha ligado para a Bahia, para onde pensava que tínhamos voltado
(felizmente tinha convencido Ivanete a ficar no Rio), e lá tinham dado nosso novo
telefone. Estava nervoso, mas aliviado por nos saber no Rio. Pegou o primeiro
ônibus.
Ao comunicar aos daimistas que estava de partida, a reação foi radical. Seguindo
o catecismo tradicional das seitas, disseram que ele não estava capacitado a
deixar a seita (imaginem, ele tinha estado dias antes com a família no Rio), que
estava desequilibrado mentalmente. Falaram até em amarrá-lo. Como evidencias
dessa sentença, apontavam mania de limpeza, reclamações contra o barulho da
marcenaria e insistência em falar português correto. Foi quando eu soube que o
código de comunicação estabelecido (um dos artifícios clássicos das seitas) era o
de falar caboclês, macaqueando a concordância peculiar praticada na Amazônia,
que tem sua propriedade, como toda manifestação microcultural, em seu lugar de
origem.
O contrabando cultural não passa por cima de convenções, fronteiras ou leis. Ele
atropela a legitimidade e a dignidade. Ao deslocar o culto do daime da Amazônia
para Mauá e alhures, a seita esta praticando a mesma violência que os jesuítas
inauguraram nestas plagas, ao criar o pecado abaixo do equador. Com a
agravante de usar uma hóstia alcalóide de muito maior poder químico-sacramental
e que, como a outra, era ingestão física do instrumento de dominação, o que da o
tom. A partir dessa comunhão, sua musica interior e seu bailado exterior tem que
vibrar naquele diapasão, não pode desafinar. Enquanto isso, sua cabeça dança.
" ... desde que ele voltou do Rio (parece que foi encontrar você) começamos a
observar uns comportamentos esquisitos. Ele estava sem expressão: não sorria,
falava pouco e muito obsessivo com limpeza ... Ate que, quarta-feira, eu, a Patrícia
(responsável pela cura) e o Zequinha fomos conversar com ele, pais ele insistia
que não ia mais esperar o Alex e queria viajar de imediato ... Usamos nosso amor
e as técnicas que conhecemos para lidar com essas perturbações ... Queria tomar
daime. Nós dissemos que não era bom pra ele nesse momento e que ele
precisava se tratar. Em seguida, depois de muita conversa com o Mota e o Marcos
(o Zequinha chegou a puxar-lhe a orelha para ver se acordava a sua consciência),
ele mudou um pouco o modo de se expressar e disse que não ia viajar, conforme
queríamos, que ficaria comigo e que se submeteria ao nosso tratamento.
Pensamos em procurar um psiquiatra que avaliasse o caso e nos orientasse. Ai
ele pediu para ir visitar suas amigas, que precisava conversar com elas.
Ingenuamente eu concordei e pedi que ele voltasse com o Thiago, meu filho, que
estava trabalhando na horta na casa das meninas. Ai soubemos que ele nem foi lá
e sumiu. Fugiu não sei para onde. O Mota foi de moto até Mauá e não o viu."
(Carta de Sonia Maria Palhares, mulher de Alex Polari - 21/05/92)
De novo em ação, a catequese das seitas. Primeiro, responsabiliza o encontro
com a mãe pelos "comportamentos esquisitos", na tentativa de estabelecer
discórdia familiar. A manifestação de insatisfação com a sujeira e o ambiente é
tachada de esquisitice grave a ponto de precisar de uma "cura". Quem são eles -
Sonias, Motas, Zequinhas -, que gabarito, que capacidade profissional tem para
diagnosticar "perturbações" e promover "curas"? A cura praticada por eles,
segundo testemunho de quem já passou por uma, nada mais é que uma
impregnação aguda de ayahuasca, maconha e doutrinamento - uma sessão
concentrada de lavagem cerebral. A intimidação, outra arma de fanáticos, começa
por "puxar-lhe a orelha para ver se acordava a sua consciência". Se achavam que
ele precisava de um psiquiatra, por que a família não foi comunicada? O mais
estranho é que, nessa carta, a daimista diz que começou a notar tudo isto "desde
que ele voltou do Rio"...
A inconsistência desta argumentação e flagrante. Trata-se de uma nítida tentativa
de se esquivar de suas responsabilidades. Se Jambo sofreu alguma "perturbação
mental", foi depois que começou a ingerir ayahuasca na freqüência permitida pela
direção da seita. Neste caso, a família deveria ter sido comunicada. Ou será que
ela só notou depois que ele anunciou que ia viajar, sair da comunidade
impregnada de falsificações, onde ele era uma mão-de-obra apreciada e barata?
Como tempero de crueldade, a técnica "prêmio-castigo": depois de viciar o rapaz
no alcalóide, lhe negam a acesso a droga. E mais: se ele fugiu, e porque estava
preso ou pelo

menos constrangido em seus movimentos. Mas não perturbado, tanto que iludiu
facilmente a vigilância dos iluminados.
Ao ouvir o relato de Jambo, minha reação imediata, primária, foi a mesma de
qualquer pai indignado com maus-tratos ao filho. Queria pegar um carro, subir a
serra e questionar pessoalmente o bando de zumbis que ousava tentar impedir o
sagrado direito de ir e vir. Gostaria imensamente de puxarIhes as orelhas para
despertá-los. Queria ver se eles falariam em me amarrar.
Foi o próprio Jambo, perito em conciliação, que me fez ver a impropriedade do
gesto e me acalmou. "Não vale a pena alimentar sentimentos negativos", disse.
Ele mesmo já não estava mais preocupado com isto. Queria começar nova etapa
no Mapiá, o mais cedo possível. Tudo o que queria era o mínimo de ajuda para
chegar lá e que entrássemos em contato com a seita para que ela acertasse um
dinheiro devido pelo seu trabalho e devolvesse seus pertences, que, obviamente,
nas circunstâncias de sua partida, tinham sido deixados para trás.
Assim foi feito. Poucos dias depois, ele parte, com dinheiro suficiente para chegar,
se manter um tempo e comprar, em Boca do Acre, uma quantidade razoável de
feijão, farinha e arroz para apresentar a comunidade. Viajava leve, com pouca
roupa. Logo que recebêssemos o que tinha ficado em Mauá, mandaríamos para
ele. Só ficava faltando um jeito de mandar dinheiro. Logo que chegasse, me
telefonaria dando notícias.
"Nunca deixe ninguém fazer a sua cabeça", foram minhas ultimas palavras na
despedida. Os seus olhos brilharam com aquela expressão especialmente sua,
mistura de doce e sapeca. Sorriu, e se foi.
Nunca mais o vi.
TRAGÉDIA

Dias depois, Jambo, me liga de Boca do Acre dizendo que tudo correra conforme
o planejado, tinha encontrado um pessoal de Mauá e estava embarcando em
breve para a ultima etapa da viagem de canoa, rio Purus abaixo. Deu o numero da
conta 1635-7 da agenda 3223 do Banco do Brasil, cujo titular era Gilberto Vieira,
que prestava esse serviço para varias pessoas. Detalhou que mandássemos
sempre uma quantia terminada em 700 para saber que era destinada a ele.
Plenamente lúcido, organizado, preparado para uma nova vida.
Nunca mais o ouvi.
Permaneci no Rio ainda um bom tempo para completar os preparativos para a
chegada do bebê. Em meados de junho, subo para a Bahia. Poucos dias depois
de chegar, recebo de noite recado no Arraial de que "um amigo de Ivanete tinha
ligado e pedido para eu entrar em contato com ela, mas que não era nada grave
não" ...
Corri para o telefone. Como não era grave? A gravidez era de risco. Por que ela
não ligara? Que amigo era esse que não se identificara? Uma voz masculina
atende, pergunto por Ivanete, o sujeito tem o desplante de perguntar quem eu era.
Ordeno-Ihe que me passe imediatamente para minha mulher, que atende se
desfazendo em lágrimas, balbuciando "ele se foi ... ele se foi ..." "Ele quem?"
pergunto, atordoado. " O Jambo morreu!", mal consegue articular. O orelhão da
Broadway local e a própria rua desaparecem, não vejo mais nada, esta tudo
escuro, sinto-me desfalecer. "Estou chegando", é só o que consigo gaguejar, e me
apoio na parede para não cair. Alguns segundos para me refazer e ligo de novo.
Dessa vez, ela atende. "Quem esta ai?". É o Mota o tal do responsável pela
marcenaria onde Jambo trabalhava. Digo-lhe para se livrar dele. Não me
responsabilizaria por meus atos se encontrasse o fanático que explorava sua mão-
de-obra e queria amarrá-lo para mantê-lo sob seu controle.

"Depois que ele disse mesmo que ia para o Mapiá senti que estava tornado por
uma obsessão de ir para 0 Mapiá e pronto. Falamos até de amarrá-lo mas ele
insistia que estava bem. Num relance ele fugiu."
(Sonia Palhares, in carta para Ivanete _ 23/06/92)

"De que maneira eu poderia explicar a quase obsessão com que, dia após dia, eu
ia espreitando uma brecha, um pretexto para poder chegar...”9

Cheguei a pegar o carro, mas felizmente me dei conta de que dirigir mais de mil
quilômetros no estado em que eu, estava era loucura., Na manhã seguinte peguei
o primeiro vôo, num daqueles ridículos Bandeirantes que parecem de brinquedo
com seus bancos plásticos. Já viajei de avião por boa parte do planeta. Nunca tive
medo. Sempre achei que se a coisa caísse seria tão rápido, que não daria tempo
nem para ter dor. Mas desta vez, ao passar por uns bolsões de ar na altura do
Espírito Santo, entre os corcoveios do aviãozinho, gelei. Eu não podia deixar de
chegar! '
. Adentro o apartamento, noto Biga, amiga de fé, na cozinha e um barbudo na
sala. Passo direto para o quarto, ansioso. Se
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existe o vale de lagrimas,. eu estava diante dele. Abraço-a e ficamos por longos
minutos afogados na dor.
Mas é preciso reagir. Kamala estava em casa de amigos .
Volto á sala para despachar que quem eu julgo ser o tal do Mota e sou
surpreendido pela presença de Gilson, marido da Regina, madrinha do Jambo. Na
aflição da chegada não o tinha reconhecido. Tratei-o como amigo da família. Mal
sabia como esse tabaréu rude não o merecia. Logo depois ele se vai. Foi então
que Ivanete me contou como tinha recebido a noticia.
Dia 23 de junho, Ivanete recebe telefonema de Suzana Cabral, secretaria do
CEFLURIS, a firma a sob a fachada da qual a seita opera, dizendo que vai visitá-
la. Ivanete imagina que é para dar conta das coisas do Jambo. Não foi. No dia
seguinte, quem liga é o tal do Mota, que aparece acompanhado de uma mulher
denominada "Baixinha" e de outro sujeito. Bruscamente Mota anuncia a
"passagem" de Jambo. O sofrimento da mãe é tratado - pasmem os leitores - com
uma improvisada sessão de "comunicação com o além", em que Mota,
"recebendo" o espírito de Jambo, reclama de muito calor. Ivanete desmaia. Mota
fica de guardião, os outros se vão. E quando é feito o telefonema para o Arraial.
Ivanete me diz que mesmo depois de advertido que eu não queria encontrá-lo, o
sujeito insistiu em me esperar. Na manhã seguinte, telefona três vezes para Boca
do Acre - duas para 453-5583 e uma para 453-5552 - e anuncia
despudoradamente que o calor que incorporara na véspera era c da fogueira onde
Jambo morrera! Só então parte.
Eu respeito todas as religiões e não descarto a possibilidade de comunicação com
outras dimensões. Mas ha de se convir que, nas circunstancias, fica impossível
dar credito a essa pantomima armada por um fanático. Ainda bem que eu não o
encontrei...
Mas, agora, toda a prioridade era tratar da vida que não podia sucumbir ante a
morbidez dos fanáticos. A gravidez de
Ivanete, que já era de risco, exigia todo o cuidado. Kamala Aymara - flor de vida,
luz de amor - foi absolutamente forte nesses dias difíceis. Superando o enorme
sofrimento de perder o seu Zambo, como ela gostava de o chamar, não arredou o
pé da cama da mãe, que por seu lado concentrava toda a energia que lhe restava
para não perder nosso bichinho. As amigas, Biga, Siena, Soninha e Maria Irmã, se
revezavam na inestimável tarefa de manter aceso o fiapo de luz que mantinha
Ivanete viva.
No inicio de julho, duas semanas antes do previsto, Ravi Aymara faz sua estréia
no planeta, perfeito, tranqüilo e querido. Ivanete tinha conseguido. Doravante, o
serzinho iluminado iria Ihe provar dia apos dia que a vida, apesar de todas as
travas, continuava. E clamava por atenção.
Em pouco mais de quinze dias, tínhamos passado pelas duas maiores emoções a
que o ser humano esta exposto em seu percurso. Uma morte e um nascimento.
Ousei pensar que a morte de Jambo podia significar o nascimento de uma luz nas
trevas do fanatismo.
No dia seguinte ao nascimento de Ravi nos é comunicado que Alex Polari estava
no Rio e tinha uma carta da Regina, madrinha de Jambo, para Ivanete. Logo que
as prioridades em relação ao nascimento o permitiram, me dirigi a rua Joaquim
Campos Porto, no Horto, onde um vistoso 333 indicava uma mansão-fortaleza de
vários andares. Como em toda fortaleza, demora-se a entrar'. O meu tempo é
pouco, a prioridade é a mesma. Demorou bastante para a empregada que
atendeu o interfone anunciar para o vigia, que checou com Alex e depois desceu
para abrir a porta. Finalmente, adentro, para ser instado a tomar um elevador
mínimo, que me leva ao andar de Alex, que me entrega a correspondência e diz
que quer falar comigo. Eu também, só que a hora não e essa. Alex me diz que
posso entrar em contato com ele pelo w
telefone da mansão, que pertence a Cecil, um dos mecenas da seita, e é ponto de
contato.
A correspondência incluía, alem da carta da Regina, uma do próprio Alex e uma
fita com um hino que Sonia "recebera durante 0 trabalho de São João para 0
Jambo".
"Coragem, irmã, e muito triste mas ele não estava suportando os tormentos que
ele trazia, um carma muito pesado.
Deus vê tudo e sabe do sofrimento humano, tenho fé que ele vai ser ajudado... Foi
tudo muito rápido pois o tempo voa, ele chegou mas não quis ficar aonde o Alex
tinha falado para ele, estava muito difícil conversar com ele. Ele estava duro
comigo, nem queria muito papo... Estava difícil porque ele não se colocava e nem
pedia ajuda, dizia que estava numa boa... E aqui a historia e muito seria, os
trabalhos e o povo do daime... Deus tenha piedade dele, porque essa vida ele não
estava suportando.. mas estamos rezando muito por ele e por nos, pois nesses
finais de tempo muita coisa ainda vai se ver'.
No dia da passagem dele - 21/06/92 - [eu tirei uma runa Jogo adivinhatório druida]
de conforto para os que já foram, pedindo uma clareza e saiu a seguinte runa:

Kano n° 14- Abertura/ Fogo/ Archote


Esta é uma runa da abertura, da claridade renovada, da expulsão das trevas que
estiveram amortalhando parte de sua vida. Você agora e livre para

receber, para conhecer a alegria do dar sem restrição.


Kano é a runa para o alvorecer de atividade para a seriedade e intenção clara e a
clara concentração de todos aqueles fatores que são essenciais ao inicio do
trabalho. A proteção que Kano oferece é esta: quanto mais luz você tiver melhor
poderá ver o que é trivial e obsoleto em seu condicionamento.
Nos relacionamentos, agora pode haver uma abertura mutua, você talvez funcione
como o desencadeador o
,
cronometrista, graças a sua percepção de que a luz do entendimento esta
novamente disponível para ambos. Reconheça que se por um lado você é limitado
e dependente, por outro existe no centro perfeito, onde se mesclam e irradiam as
forças harmoniosas e benéficas do Universo. Você é este centro.
Em termos mais simples, se esteve operando em meio as trevas. Agora ha luz
suficiente para ver que o paciente na mesa de cirurgia é você próprio.
Da uma esperança porque Deus vê tudo e a gente nem ao menos pode julgar
esse ato, pois o Fogo é o elemento purificador que transforma e limpa..."

"Espero que tudo esteja bem contigo nesse momento difícil. Que Deus esteja te
dando muito conforto e serenidade. E que esse neném nasça com muita luz para
afirmar novamente a vida e resgatar o carma de toda essa história.
Todos nós lá em Mauá fizemos os trabalhos do festival com o coração firmado no
Jambo e emitindo o que de melhor podíamos para ele. E ficamos muito ligados em
você também.
Agora é hora de chegar noticias, informações, detalhes. Depois da dor e da
emoção inicial, e preciso novamente ter muita calma e entrega nos desígnios de
Deus. Para enfrentar as inevitáveis questões concretas, sem deixar que a mente
se envolva morbidamente com nada..."

( Alex, carta a Ivanete-08/07/92)


“Por que tu duvidaste que existe esse poder?”.
É no verde da esperança que nos vamos vencer. !
Vencer essa batalha
com o sofrimento que for e O tempo do apuro
que São João anunciou."
O tom fatalista das cartas e inquietante. Tudo e atribuído ao "carma". E típico do
raciocínio redutor das seitas. Tudo de errado que acontece e por causa do carma,
de impropriedades praticadas em outras encarnações, o que já inclui o interlocutor
na doutrina, na aceitação dos dogmas da seita. Se não houver extrema atenção,
corre-se o risco de se replicar nos termos deles, o que facilita a doutrinação. Note-
se que esta não e interrompida nem numa hora de extrema dor, para não "deixar
que a mente se envolva morbidamente com nada" ou seja, evitar
questionamentos.
Outra coisa que chama a atenção, tanto na carta da Regina quanto no hino da
Sonia, é a menção da "purificação pelo fogo" e o "tempo de apuro". Teria Jambo
sido "apurado" porque "duvidou que existe esse poder"? Por que não podia se
locomover livremente, tendo que ficar onde "Alex tinha falado para ele"? Uma vez
que não tinham conseguido prendê-lo em Mauá, queriam cercá-lo no Mapiá7
Durante todo o mês tentei entrar em contato com Alex ...
Nunca estava... Deixava recados com o motorista de Cecil, que atendia o telefone.
Nunca houve retorno. Procurei outros meios de apurar a historia. Descobri que um
amigo meu era também amigo de um dos lideres da seita no Rio, um sujeito
chamado Tadeu. Foi combinado um encontro na casa do amigo em comum.
Dia 3 de agosto de 1992, ao cair da noite, chego com meu filho mais velho ao
apartamento da lagoa Rodrigo de Freitas. Tadeu chega mais tarde.
Pergunto sobre a situação politico-geografica do tal do Mapiá. Tadeu me responde
que é uma vila que fica no município de Pauini, cuja sede é Terruaro. Mas a
cidade mais próxima é Boca do Acre, em outro município, que fica a seis horas de
viagem de Rio Branco. Como vila, não tem policia, muito menos juiz.
-Tem cemitério? Tem.
-O Jambo esta lá? Não ...
- Por que?
Tadeu não me deu nenhuma explicação convincente.
Chegou a mencionar a norma católica que faz restrição ao usa de campo santo
para suicidas. Replico que "a norma católica" também não admite ingestão de
sacramentos químicos, alteradores da mente. Diz que estava lá no dia, mas não
sabe ao certo o que aconteceu porque "sua sensibilidade estava muito aguçada..."
lmaginem se estivesse.invisível... Em seguida, começa a tecer considerações
doutrinárias sobre o daime, que eu imediatamente dispenso. Diz que tudo lá no
Mapiá e muito difícil. O trabalho físico é muito intenso, O trabalho domestico e
puxado. Que Jambo fazia corpo mole. Que era indolente. Que enrolava na hora de
rachar lenha. Que tinha problemas de adaptação. Que saiu da primeira casa e foi
para outra. Que era rebelde.
Esta claro que Jambo não se enquadrava no modelo ideal de Zumbi ao gosto da
seita. Mesmo tendo passado um ano e meio tomando a droga, ainda conservava
suficiente personalidade para exercer seu livre-arbítrio. E isso, para os fanáticos, é
idolatria.
"A angustia no trabalho com o daime e que, as vezes, sentimos que ele não se
importa muito com certas representações psíquicas que fazemos de nós mesmos
e colocamos num altar, chamadas personalidade, caráter, hábitos.
Para o daime, esse tributo e esse culto que prestamos a nós mesmos é
idolatria.”
Tadeu confirmou que Alex, ao encontrar-se com Jambo na Boca do Acre, não
gostara de o ver por aquelas paragens e designou o lugar para ele ficar.
Imagino a decepção de Jambo , que ia para o Mapiá para se livrar de um trabalho
compulsório que incluía poluição, ser cerceado pelo líder da seita, a quem ele
ainda tinha
respeito?, tanto que ainda considerou esperá-lo em Mauá para comunicar sua
decisão de partir, só não o fazendo quando a segundo escalão ameaçou-o de
cárcere privado,
"Um dos pressupostos teóricos que vou tentar provar com a pesquisa que estou
fazendo sabre surtos psicóticos e suicídios em seitas religiosas que utilizam a
ayahuasca em seus rituais e que a ponto nuclear esta na relação mestre-discípulo
e na relação do discípulo com o grupo, no campo da transferência, A ayahuasca
não pode ser responsabilizada, porque esta apenas amplia a capacidade de
sentir. O mestre tem que estar presente como referencia afetiva e protetora, Se
este descuida de sua função, sentimentos de desamparo e rejeição podem
emergir com uma força inadministrável, e então há riscos,"
(Dr° Ilze Andrade Camargo, psicóloga e membro da União do Vegetal _ carta a
Alicia Castilla - 14/04/95)
Tadeu revela que, na véspera de sua morte,Jambo pedira o endereço da mãe
para a Regina, pois queria escrever-Ihe uma carta, quando chegou, trouxe uma de
Ivanete para Regina. O que teria contado nesta carta? As desilusões? Vontade de
voltar? Não saberemos, nunca recebemos a dita carta, Teria sido censurada pela
direção da seita? A própria carta da Regina para Ivanete veio aberta, "via Alex".
Entenda-se. Não foi Alex quem a trouxe do Amazonas, pois havia partido antes
tanto que cruzou com o Jambo em Boca do Acre. Uma mensageira a trouxe
diretamente para o Alex. Só depois foi liberada para a destinatária. Indago a
Tadeu sabre este procedimento.

Acho que era para a Alex decidir se entregava ou falava pessoalmente...

Nem a correspondência pessoal respeitam.


Tadeu deixa escapar ainda que, na véspera da morte de Jambo , ele pedira ao
Alfredo (filho de Sebastião Mota e líder supremo da seita no Mapiá) para mudar de
novo de casa. Teria sido atendido? Ou julgado muito rebelde?
"Para mim, foi uma derrota pessoal", admite Tadeu. Par que? Haverá algum
sentimento de culpa embutido nesta confissão?
Ao ser questionado sabre a ausência de um atestado de óbito, ele se mostra
surpreso com a minha exigência. Sou forçado a pedir que nosso amigo em
comum, que é advogado, explique a ilustre figura a necessidade legal de tal
documento.
"Todos que morrem na Amazônia são enterrados assim... " E mais adiante:
"Estranhamos que vocês não aparecessem por lá ... " Informo-o sucintamente da
prioridade da vida nascente, alem da evidente (a não ser para ele) impropriedade
de tal visita.
Informo ao sujeito que, independentemente dos hábitos amazônicos da seita, a
família esta interessada nos restos mortais de Jambo . E de esperar que eles
providenciem a traslado para algum lugar onde exista um Instituto Medico Legal,
como manda a lei. Tadeu tenta me dissuadir de todas as formas, Apela para as
dificuldades, para a custo financeiro e emocional, para as chuvas amazônicas,
para a "vontade do Jambo, que quis assim", ao ponto de nosso amigo ter de
interferir com uma chamado ao bom senso e um apelo a boa vontade da seita, no
sentido de que a mesma, como grupo organizado, sensibilizado pela tragédia,
facilitasse o acesso da família, trasladando o corpo para um lugar civilizado, uma
vez que era óbvio (a não ser para ele) a impropriedade do convite que me fizera
para "ir lá" (no Mapiá). Tadeu finalmente acedeu em ligar para Boca do Acre para
que tomassem as providendas.

Duas de suas frases me martelam a cabeça até hoje:


- Bater, a gente não bate, mas amarar, a gente amara.
- A gente enterra e depois reza pra alma...
Esperei ate o inicio da primavera algum comunicado da seita. Nada. Total falta de
consideração. Talvez se achassem muito acima do comum dos mortais para terem
que se incomodar com satisfações pessoais. Decido questioná-los publicamente,
Dia 21 de setembro, exatamente três meses depois da tragédia, O Globo publica
matéria do repórter Paulo Roberto Matta sob o titulo Pedida investigação de
suicídio em seita. Nela, manifesto o interesse de que a Policia Federal investigue a
morte de Jambo, levanto a hipótese de indução ao suicídio, crime previsto no
Código Penal, chamo atenção para a auto-incriminação da seita quando me
escrevem que Jambo fugiu o, que pressupõe ameaça de cárcere privado, e para a
ausência de atestado 'de óbito.
Na apuração da matéria, o repórter obtém de Marcos Grade Imperial, um dos
responsáveis pela seita no Rio, a declaração caluniosa de que Jambo "era viciado
em cocaína" acrescida da injuria de que "tinha problemas mentais". '
A vida rola em espirais. Esse daimista era filho de Carlos Imperial, na época
recentemente falecido, com quem eu desenvolvera uma amizade de qualidade a
partir de um projeto comum para fIlmar uma versão de Romeu e Julieta em Porto
Seguro. Em vez de duelos de espadas, capoeira; no lugar das danças de época,
lambada. Romeu, surfista decepcionado, se transforma em alpinista e sobe o
monte Pascoal atrás das tranças de Julieta. Carlos morreu antes que pudéssemos
realizar o fIlme. Foi uma grande perda. Por trás da imagem de cafajestão e doidão
- puro marketing, uma de suas especialidades; não bebia, não fumava e muito
menos cheirava sua bebida era diet-coke - encontrava-se uma das pessoas de
mais fino trato que tive a oportunidade de conhecer. Um

gentleman, como já o chamava Julinho Bressane há muito tempo. Talvez por isso
suas conquistas femininas fossem alem da sua própria fama. Lembro-me da
angustia do filho com a suspeita publica de um possível erro medico. E agora esse
mesmo filho errava criminosamente em relação ao meu.
No dia 30/10/92, Alex Polari comparece ao programa Jô Soares Onze e Meia para
fazer propaganda de um livro seu. Jô parecia encantado. É normal que as
pessoas ainda se deixem levar pelo glamour das fracassadas experiências
terroristas. É indubitável que houve coragem envolvida. Mas quando o guerrilheiro
- guerrilheiro que não deu certo e virou guru - proclama num programa dessa
importância que o daime "não é alucinógeno e sim enteogeno", merece um
questionamento mais profundo.
Como já vimos, é típico das seitas usarem códigos para beneficio próprio, ainda
que para isso tenham que maquiar a realidade. Assim, para os adeptos, o daime
não é uma droga, porque este termo já esta demasiadamente contaminado pela
carga pejorativa que o leva a ser empregado como sinônimo de algo que não
presta". Já enteogeno e derivado de entheos, palavra do grego antigo que
significa "deus dentro" e era utilizado para descrever o estado em que alguém se
encontra quando inspirado ou possuído por um deus que entrou em seu corpo.l A
pretensão, para não dizer embuste, clamam para mais questões. 0 sujeito vai a
um programa de enorme audiência e profere, diante de um dos entrevistadores
mais inteligentes da historia da televisão brasileira, que sua seita usa uma - com
perdão da palavra - droga, que após ingerida instala Deus no corpo do usuário e
que isto não e uma alucinação ... Isto é coisa de premio Nobel de Teologia. Talvez
por isso já tenha ficado impressionado.
Mas eu não fiquei. E entrei em contato com a produção do programa para expor
as outras faces do daime que o publico deve saber.

Varias outras personalidades televisivas se deixaram envolver pelo charme de


tomar um alucinógeno, embrenhados na Amazônia e guiados pelo guerrilheiro.
Minha querida Lucélia Santos, adorável turbininha que se envolve
apaixonadamente em tudo o que faz, entrou de cabeça, corpo e membros na
experiência. De novo, a espiral da história. Anos antes, Jambo tinha estado
comigo em sua casa. Levei-o junto com Koki e Kamala para fazermos uma
matéria informal - como merecia a graça da baixinha - para A Folha de Trancoso,
que eu edito. Estávamos encerrando uma extenuante campanha pró-Gabeira e foi
muito bom termos as crianças juntas - 0 filho de Lucélia, 0 Pedrinho, apesar de
engessado, participava de tudo - naquele intervalo das frenéticas atividades
verdes.
Lucélia, ao saber da morte de Jambo , reagiu, emocionada:
"É uma tragédia!" Ela já tinha se afastado da seita e mantém até hoje uma postura
digna em relação ao assunto.
Já Maitê Proença fez lobby federal para o feudo dos daimistas, para "ajudar os
povos da mata, especificamente a Reserva Extrativista de Mapiá-Inauini, no
Amazonas. 'Nossa intenção é dar oportunidade para os quase 7 mil habitantes
dessa comunidade de 570 mil hectares se auto-sustentarem, através da borracha
e castanha e outros produtos que a mata oferece"', declara a revista Manchete,
onde aparece, com a menção A mãe do ano, grávida, na capa.
"Com essa meta, Maitê conseguiu do presidente Collor e seus ministros, numa
audiência particular, a promessa de ajudar esse povo, aliada a medidas concretas
que já estão em andamento." Ela declara na matéria que "há um ano freqüenta os
rituais do santo daime, cerimônia religiosa da Amazônia, na qual um chá de
plantas da• região provoca 'mirações' ou 'visões' que, dizem os adeptos,
funcionam como revelações sobre a relação do homem com o cosmo .
"Tudo com o daime é inesperado. Você chega com uma expectativa e geralmente
se frustra", diz Maitê Proença, ha um ano freqüentadora de seus rituais e, sem
receio algum, no sexto mês de gravidez, consumidora da beberagem. Só o futuro
dirá, portanto, por quais mudanças passará, assim como sua colega de profissão
Camila Amado". 13
Ney Matogrosso, Duardo Dusek, Carlos Augusto Strazzer, Perfeito Fortuna,
Camila Amado, Ciro Barcelos, a deputada Lucia Arruda e alguns mais foram
habilmente utilizados pelos daimistas para seu marketing. Pode-se imaginar o
impacto na opinião publica destes exemplos.
Vicente Pereira, autor teatral, manifesta na mesma matéria uma opinião mais
lúcida:
"Amo o daime. Para mim ele foi uma grande escola. Mas na escola se aprende,
não se mora. Reconheço que a religião é arrebatadora, e entendo que certas
pessoas fiquem extremamente envolvidas".
No dia 02/12/92 mandei o seguinte fax para a produção do programa Jô Soares
Onze e Meia:
Dia 24 de novembro, meu enteado Jambo Veloso de Freitas faria 20 anos se não
tivesse desaparecido de forma trágica há cinco meses no Mapiá, Amazonas,
envolvido com a seita do daime.
Somente ontem tive acesso ao videotape de seu •programa de 30 de outubro,
quando foi entrevistado o guerrilheiro Alex Polari.
Moro em Trancoso, paraíso do suI da Bahia que freqüento ha 13 anos, e edito A
Folha de Trancoso, tablóide mensal impresso no Rio, minha cidade natal, onde
fico de 10 a 15 dias por mês.
Tendo sabido da tal entrevista por terceiros, uma vez que contrariamente aos
meus hábitos não vi seu programa.

naquele dia, imagine a minha ansiedade. Tentativas de contato com sua produção
resultaram infrutíferas, devido ao congestionamento da linha e as dificuldades de
comunicação externa no 'paraíso', que são grandes, pois como Adão e Eva,
estamos na era pré-Graham Bell, havendo somente um posta telefônico em
Trancoso.
Só me foi possível ver o tape porque, fortuitamente, ele foi utilizado por alunos da
PUC em trabalho para o curso de jornalismo que meu filho ali faz.
Você pode aquilatar as enormes dificuldades para apurar o ocorrido no meio da
mata amazônica, onde a seita tem um feudo, ao que parece acima das leis
brasileiras, pois acharam estranha e descabidade da minha exigência de ao
menos um atestado de óbito, uma vez que a noticia trágica nos foi transmitida de
modo sucinto, fantasioso e cruel. Anexo artigos publicados n'O Globo e n'A Folha
de Trancoso. Sou estudioso da questão de drogas, tendo dois livros publicados
sobre o assunto - Maconha em Debate, Ed. Brasiliense - 1985, esgotado, e
Brazilian Connection, Archivos lmpossibles Editorial - 1990, que estou Ihe
enviando amanha por seedex.
Além da perda irreparável de Jambo, considero atentatória a segurança de parte
significativa da população jovem a ingestão
de uma substancia que 'altera a percepção e a consciência', como admite o
próprio Alex Polari - que tem medo da palavra alucinógena -, promovida e
divulgada amplamente por uma seita que não tem capacidade nem credencial
para lidar com as conseqüências.
Jô o problema é grave. Outras mortes já aconteceram. Espero ter oportunidade de
rebater a propaganda nefasta promovida por fariseus que se alastram por todo o
território nacional e ate no exterior - eles "importam" doentes terminais do
hemisfério norte para curá-los com o tal do daime -, marketeada pelo glamour das
estrelas globais envolvidas, aproveitando a moda do misticismo de bolso e de
'auto-ajuda"'.
No dia seguinte, 3 dezembro as 12h20 recebo o seguinte fax:
"Favor enviar novamente fax sobre santo daime Leitura ilegível (sic)
Simone
Prod.Jô Onze e Meia
Assim foi feito. Não retornaram mais. Será que ha daimistas na produção do Jô?

Era preciso tomar providendas jurídicas, o que é sinônimo de demoras e gastos. A


seita tem todo o tempo deste mundo (e aparentemente de outros) e uma caixa
bem fornida pelas contribuições de adeptos, simpatizantes e outras fontes. A
família, não. A minha agenda apertada entre Porto Seguro e Rio também não
facilitava as coisas. E o próprio caso era complicado, envolvia três estados da
federação. Rio de Janeiro, onde sofreu as primeiras ameaças; Amazonas, onde
morreu; e a Bahia, onde vive a família. O custo de ações, oficiais de justiça,
honorários, telefonemas interurbanos e outras despesas e impossivel de ser
coberto por uma renda modesta. Soube que os daimistas após a reportagem d'O
Globo, procuraram, assustados, O dr. Nélio Machado, figura notória na mídia por
ser também o advogado do também doutor Castor de Andrade.
Eu escolhi o dr. Daniel Cunha, jovem, de boa cepa (conheci antes sua irmã,
Márcia, também advogada, que já me dera amostra da competência da família),
independente e disposto a vestir a camisa da causa. Juntos discutimos a
estratégia a ser seguida para o combate. Daniel elaborou extensa representação
ao procurador-geral da Republica, dr. Aristides Junqueira, o homem que tinha
enfrentado Collor e que a nosso ver teria pulso para esses outros farsantes. A
papelada deu entrada as 17h10 do dia 14/12/92. Nela estão descritos com
detalhes os fatos ocorridos, começando pela maneira inusitada que os daimistas
utilizaram para dar a noticia a mãe, a influencia da seita na mídia pela notoriedade

das pessoas que lhe fazem apologia e o menor destaque dado as que apontam os
perigos no consumo da beberagem e fazem criticas ao culto. Entre as quais dta 0
dr. Nelson Massini, medico-Iegista e chefe do Departamento de Medicina Legal da
Unicamp, que chefiou uma expedição a Amazônia de uma equipe que também
contava com o farmacologista dr. Samir Arbax e o cinegrafista Valter Pinto,
empenhada em realizar um trabalho cientifico multidisciplinar sobre a seita
(reportagem publicada no Jornal do Brasil em 16/10/88 sob o titulo Expedição ao
Santo Daime). Massini declara:

"Estou muito preocupado com a evolução da seita e suas conseqüências, alem de


pretender examinar a fundo o que é a chacrona, a erva com a qual eles fazem o
chá... Apesar da pouca idade, todos têm a aparência cansada. e desgastada,
principalmente as mulheres, que são muito magras e tem pele envelhecida... Eles
tomam este chá o dia inteiro e, por seus efeitos alucinógenos, acabam tendo
visões que consideram divinas... No fundo, a seita não tem nenhum conteúdo
filosófico, pois eles só falam do chá",
Ele encontrou dez crianças com lábios leporinos, uma anomalia genética, numa
comunidade de 80 pessoas.
"E uma incidência muito alta num grupo de 80 pessoas."
Ele observa a necessidade de um estudo profundo do fenômeno por um
geneticista. Sobre duvidas quanto ao faturamento da seita: "A impressão que
tenho é de que corre muito dinheiro por lá".
As preocupações do dr. Massini podem ser igualadas as de outros especialistas.

"O chá do daime (ayahuasca) é preparado a partir do cipó de jagube,


cujo nome cientifico e Banisteriopsis caapi e da folha rainha, o nome vulgar da
Psychotria viridis - naturais da região amazônica. Macerados, a folha e o cipó são
misturados com água e depois levados para ferver durante 2 a 3 horas. Ingerido
frio, o chá provoca alucinações que podem durar até 5 horas. 'Ele pode viciar tanto
quanto a heroína e a cocaína', diz Honório da Costa Monteiro Neto, pesquisador
de fitomorfologia do jardim Botânico do Rio de Janeiro. É um absurdo o daime ser
liberado para consumo. O cipó possui um grupo de alcalóides de alto grau
alucinógeno - a harmina, a harmalina e a deltahidroharmina. Esta ultima é capaz
de produzir mais danos ao cérebro do que o LSD. A ayahuasca provoca ainda
irritação no fígado e na mucosa gástrica. Quem bebe muito deste chá corre o risco
de sofrer de uma gastrite crônica'.
Para Renato Jacu, professor de farmacognosia da Universidade Federal do Rio de
janeiro, os danos a saúde provocados pelo daime são perigosos. Após a fase de
alucinação, a harmina, um dos alcalóides do cipó, age de forma inversa, causando
uma profunda depressão,,,.14
Outro aspecto, o ecológico, igualmente afetado pela ação da seita, e objeto de
matérias jornalísticas.
A seita foi beneficiada pelo decreto nO 98.051, que criou a Floresta Nacional
Mapiá-Inauini no estado do Amazonas, assinado pelo presidente Jose Sarney no
dia 16/08/89. São oito áreas reservadas para o desenvolvimento extrativista por'
comunidades agrícolas em 311 mil hectares. Coube aos daimistas 48 mil hectares.
A direção da seita esta em negociações com o Banco Interamericano de
Desenvolvimento para conseguir 7 milhões de dólares.15
Poucos meses depois, já em 1990, a mesmo jornal publica matéria sob o titulo
Ibama diz que Santo Daime derruba a mata, que reproduzimos integralmente.

"RIO BRANCO - '0 desmatamento existe, o Céu do Mapiá esta dentro de uma
floresta nacional e a comunidade do santo daime, que se propôs a desenvolver
trabalhos extrativistas, esta fugindo de seu objetivo original.' A declaração é do
delegado regional do Ibama no Acre, Antonio Ihuaraqui Pacaio, que inspecionou a
área no suI do estado do Amazonas, onde esta assentada a comunidade dos
adeptos da seita do santo daime, que utiliza o alucinógeno também conhecido
como ayahuasca.
A ordem de fazer a vistoria partiu da presidente nacional do Ibama, Tânia Munhoz,
depois da denuncia feita pela revista alemã Der Spiegel em matéria publicada pelo
correspondente no Brasil, o austríaco Hans-Peter Martin, que denunciou ter
recebido ameaças dos daimistas. No sobrevôo que fez sobre a área, o delegado
do Ibama no Acre diz ter constatado que os daimistas já desmataram 120 hectares
de floresta, derrubando e queimando ate castanheiras e seringueiras. Na matéria
publicada na revista alemã, o jornalista Hans-Peter Martin, que em agosto passou
três dias visitando a comunidade, escreveu que o projeto do Mapiá é a mais
ousada mentira ecológica dos trópicos, apesar de ser 'um dos projetos mais
prestigiados da proteção ambiental brasileira'.
Na vistoria realizada, o delegado do Ibama, Antonio Pacaio, informou ter
constatado também outra grave distorção dos objetivos a que se propuseram os
adeptos do santo daime: muitas cabeças de gado, pastando em torno da sede da
comunidade, onde foi construído o templo da seita e 50 casas para seus adeptos.
'Realmente, a criação de gado não tem nada a ver com o extrativismo', disse o
delegado do Ibama, adiantando que, no relatório que fará a direção geral do
instituto, vai sugerir que o convenio seja revisto.
Ainda no governo do presidente Jose Sarney,o Ibama assinou convenio com a
comunidade do santo daime do Céu do Mapiá no valor de 5 milhões de dólares, a
serem financiados pelo Banco de Desenvolvimento Internacional (Bid).
Segundo a matéria do jornalista da revista Der Spiegel, 0 Bid iria ainda investir 230
mil dólares na construção de uma fabrica de castanha-do-pará, que seria
inaugurada pessoalmente pelo presidente Fernando Collor."
Fica evidenciado nas matérias o poderoso lobby dos daimistas em duas
presidências da Republica. Se "só" conseguiram 5 milhões de dólares e não os 7
pretendidos, em compensação tiveram sua área inicial aumentada de 48 mil para
521 mil hectares. O valor absoluto de 5 milhões de dólares é óbvio. Para se ter
uma idéia do valor relativo da quantia, registre-se que quatro anos depois o Banco
Mundial (Bird), através do Programa-Piloto para Conservar a Floresta Tropical
Brasileira, doou ao Brasil 7,5 milhões de dólares para preservar a Floresta
Amazônica e a Mata Atlântica [o grifo é meu].
Esse programa foi criado em 1992 pelo Grupo dos Sete, que reúne as sete naçoes
mais ricas do planeta: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Grã-bretanha, França,
Canadá e ltália. O dinheiro é para ser distribuído a organizações não
governamentais, grupos comunitários e prefeituras que tenham projeto de
preservação.
O quadro acima delineado demonstra que o interesse principal da Requerente,
que é a apuração das circunstancias em que se deu a morte de seu filho Jambo
Veloso de Freitas, não é circunscrito a seu drama familiar. A sociedade necessita
de pesquisa isenta e imparcial das atividades dessa seita, em face de sua
evolução e expansão.
Outras mortes suspeitas reforçam essa necessidade:
O suicídio de Sophie, que se matou na França depois de longa temporada com a
seita em Mauá.
a suicidio, em 1985, de um jovem adotado pela comunidade do Mapiá. Esse fato
me foi relatado em conversa telefônica por volta das três horas da tarde no dia
19/09/92 por André Lazaro, porta-voz da seita e um dos difamadores de Jambo.

No domingo 13/12/92, um dia antes de ser entregue a representação endereçada


ao procurador-geral da justiça, O Dia publica reportagem exclusiva de Joel
Macedo. A matéria, com chamada de capa jovem carioca morre na fogueira do
santo daime ocupando uma pagina inteira, anundava a providencia jurídica e fazia,
pela primeira vez, um relato extensivo da tragédia. O repórter aponta a suspeita de
indução ao suicídio. A seguir, um dos destaques da matéria:
A fixação da seita do daime no fogo, realizando em junho 0 festival da fogueira
como ápice do calendário religioso, tem origem nos druidas, habitantes primitivos
da Europa, que costumavam saltar sobre as fogueiras durante as celebrações
místicas. Com a chegada do cristianismo, sem conseguir par um fim aquele ritual
pagão, a Igreja Católica incorporou a pratica, sincretizando o costume com a data
festiva dos chamados santos juninos.
Na Bíblia, cerca de mil anos antes de Cristo, Moises mencionava como costume
de alguns povos oferecer vidas humanas aos deuses através do sacrifico do fogo:
'Ate seus filhos e filhas queimaram no fogo a seus deuses'
(Deuteronômio 13,31)."
A reação daimista, como era de esperar, veio logo. No dia seguinte, 0 mesmo
jornal publica, sob o titulo Versão sobre morte no Daime causa estranheza,
declarações do cantor Ney Matogrosso, que, "apesar de afastado da seita,
estranhou a versão apresentada pela família" e declarou:
"Eu nunca ouvi falar em festival da fogueira.
Ninguém induz um cidadão a se suicidar",
A titulo de informação ao gracioso canário, recomendo que leia no primeiro livro
doutrinário de seu guru Alex Polari, na pagina 39, o seguinte trecho:
"Almoçamos na enorme cozinha do seu Wilson. Varias pessoas, vindas de fora,
para o festival da fogueira, que abrange Santo Antonio, São João e São Pedro,
espécie de população itinerante".
No dia 15, mais uma defesa, ainda n'O Dia. André Lazaro, viciado ha 10 anos no
daime, compreensivelmente assustado com a possibilidade de sua droga ser
criminalizada, apela para a crueldade, típica dos fanáticos:
"Não passa de especulação. A família quer uma desculpa para aplacar a dor da
morte de uma criança mal amada.

Tal inconsistência só pode partir de uma cabeça abestalhada por excesso de


alcalóide. Se a criança era tão mal-amada assim, que dor a família teria que
aplacar? E a outra morte em 1985, como ele explica? O rapaz era mal-amado
também? Pela seita, que o "adotara"?
Não tendo como se defender por vias legitimas, os fanáticos, ameaçados em sua
armação, só podiam apelar para a maldade. O caso mais triste foi o de Gilson -
marido de Regina, ex-madrinha de Jambo que, após a sua opção entre a
consideração com o afilhado e a fidelidade aos dogmas da seita, perdera, a meu
ver, o direito a distinção - , que teve a falta de hombridade (será que ele sabe o
que e isso?) de telefonar para a mãe, ainda em estado de choque, e xingar o filho
morto. Eu o sabia bruto, ignorante e rude como todo tabaréu. Mas não
desconfiava que era um covarde sem caráter.
A representação - processo nQ 08120001236/92-46 foi distribuída ao dr. Álvaro
Augusto Ribeiro da Costa. Foram instaurados dois inquéritos. Um sobre o meio
ambiente e o outro criminal. O inquérito criminal foi distribuído ao dr. Cláudio
Lemos Fonteles, que declinou da competência para o Ministério Publico Estadual
do Amazonas, através de ofício subscrito pelo dr. Aristides Junqueira.
Em 08/03/93 foi reiterado o pedido de abertura de inquérito civil para apurar se 0
daime causa dependência. Tal inquérito foi aberto sob 0 nQ 08100000590/93-72,
sob a responsabilidade do dr. Rodrigo Janot Monteiro de Barros, procurador da
Republica e coordenador de Defesa do Meio Ambiente e dos Direitos do
Consumidor.
Todos esses trâmites eram custosos, cansativos e desgastantes, sobretudo para
Ivanete, a quem eu era obrigado a manter a par dos' acontecimentos, por
exigência dela, que, com sua habitual valentia, "não queria ser poupada de
nenhuma informação", e por ser ela que tinha que assinar toda a papelada

Mas a animalidade do tal do Gilson, mais doida porque era considerado amigo da
família, foi a gota d'agua. Era demais para ela ter que reviver a todo o momento a
história. Era preciso parar, em nome da principal interessada.
O Dr. Daniel Cunha foi comunicado de nossa decisão. Ele tinha ultrapassado a
mera competência profissional e se envolvido politicamente na questão. Possuía
instrumento jurídico a sua disposição para continuar com as ações, que já não
eram somente de interesse particular, mas publico. A seita, no mínimo, era
questão de saúde publica, de saneamento básico (não era a toa que as exigências
de higiene de Jambo foram tão brutalmente reprimidas). Mas a ética e a
sensibilidade falaram mais alto. Foi praticada uma retirada estratégica.

No segundo semestre de 1994, sou procurado pela mãe de uma menor em poder
do daime.
Dia 26 de setembro, a Folha de S. Paulo publica reportagem de Roni Lima sob o
titulo Mãe acusa santo daime de lavagem cerebral, historiando 0 acontecido. Nela,
Alex Polari insiste nas ofensas a Jambo e se gaba do apoio internacional com que
a seita conta em seu "trabalho espiritual de fundo caritativo". É espantosa a
caridade do fanático em relação à memória de Jambo, que é tachado mais uma
vez de "desequilibrado mental" e "ligado em drogas".
Elaboro um dossiê com a caso de Jambo e a remeto para a CONFEN.
No dia 18 de dezembro, o Jornal do Brasil noticia o resultado do dossiê enviado:
Confen pode proibir bebida do santo daime é a titulo da matéria de Marcelo
Moreira, que salienta que a noticia de que o Conselho Federal de Entorpecentes
reabriu a processo do daime "caiu como uma bomba entre os líderes das
doutrinas que também usam ayahuasca em suas cerimônias". Há 22 grupos
religiosos catalogados pelo CONFEN que também usam a bebida. "Na colônia do
Alto Santo, a mais antiga, a porta-voz Tuninho Alves anunciou que os
representantes das outras doutrinas farão um encontro, para decidir como
interpelar os seguidores do Cefluris, doutrina à qual pertence Alex Polari. 'Eles
perderam o controIe sobre o daime e agiram de maneira irresponsável', acusa.
Com relação à morte de Jambo, Alex Polari diz que o rapaz
chegou à comunidade querendo se curar do vício da cocaína e não conseguiu.”
É o caso de se perguntar ao gurulheiro quem dava cocaína para ele, uma vez que
todas as testemunhas são unânimes em relatar que Jambo não usou cocaína
durante o ano e meio que morou com a seita. 0 que ele tomou foi muito daime.
Já Marcos Imperial, deslumbrado, diz ao repórter que o daime está divulgando a
cultura dos povos da floresta no mundo. Não ocorre ao proselitista que, talvez, o
resto do mundo não precise da cultura dos povos da floresta, da mesma forma
que os povos da floresta não precisam da cultura do resto do mundo. Típica
viagem de fanático expansionista. "Os estrangeiros estão cantando em
português", baba Marcos. Alias, há bastante tempo esse sujeito tem delirios
megalomaníacos evidentemente derivados da ingestão da droga divina. Não
respeita ninguém. "Chegara um dia em que o próprio papa conhecera o daime",
imagina ele.17
Foi nomeado relator do processo o médico psiquiatra José Costa Sobrinho,
coordenador de Saúde Mental do Distrito Federal e conselheiro do CONFEN.
Entre as várias denúncias, deve apurar também a da exportação da beberagem
para EUA, Europa e Japão, o que contraria frontalmente a carta de compromissos
auto-reguladores constantes na Carta de Príncipios das Entidades Usuárias da
Ayahuasca, documento que integra a ultima deliberação do CONFEN sobre a
matéria.
Fez-se necessário um relato sistematizado da tragédia de Jambo . As informações
sobre os desmandos da seita do daime, embora abundantes, seguiam o mesmo
destino das vitimas dos fanáticos: se fragmentavam e não constituíam memória
dentro do bombardeio diário de informações a que estamos submetidos nestes
tempos que correm.
Ricardo Boechat, um dos jornalistas mais bem informados do país, publica, com
exclusividade, em sua coluna, nota sobre a livro que "0 jornalista Jorge Mourão
está escrevendo sobre a seita". 8
Foi o bastante para a secretária de plantão da seita, Suzana Cabral, enviar
delirante circular por fax para as redações dos jornais, em que entre outras
bobagens dizia que " ... 0 sr. Jorge
Mourão pode escrever o que quiser, só não pode é faltar com a verdade ... " Fico
muito lisonjeado pela permissão que tão iluminada pessoa me concedeu. Só acho
estranho O fato de que o tal fax viesse com O cabeçalho da Editora Record from
Regui Murray, tel./fax. 580-04911, rua Argentina, 171. Após o texto, Suzana
Cefluris assina e da outro número de telefone. Será que o sr. Sergio Machado
sabe que sua editora está sendo usada para marketing da seita? Ou será, por
pura sincronia, mais uma incursão no artigo do Código Penal que leva o mesmo
número do endereço?
O sobressalto de Suzana e Cia. é mais uma vez compreensível. Swann, a coluna
de Boechat, pauta jornais no Brasil todo. 0 "suzanafax", visivelmente
inconsistente, ajudou muito na suíte das notícias sobre as irregularidades da seita.
Desorientados, anunciam que vão pedir a apreensão do livro, esquecendo que,
muito embora sua seita utilize métodos totalitários próprios dos tempos da ditadura
- que ela parece caricaturar com os que caem em suas garras -, a censura previa
foi abolida faz tempo.
Finalmente, seis meses depois de ter sido entregue o dossiê do caso Jambo, o
hesitante CONFEN recomenda a interdição do usa do daime para menores.19 Os
daimistas costumam dar a bebida até a bebes na mamadeira.
"A interdição aprovada funciona como uma sugestão as entidades usuárias da
ayahuasca", esclarece o presidente do Conselho, Matias Flach.
"E se as seitas que usam o chá não respeitarem a decisão do Confen"? - pergunta
o repórter.
"Neste caso, teremos que estudar outras medidas”.Então tá. Fica combinado
assim... Para nós, uma pequena vitória. Para eles, uma grande derrota. A guerra
continua.

DEPOIMENTOS
APURAÇÕES
INVESTIGAÇÕES
MIRAÇÕES
ETC

Trata-se de uma viagem por informações adicionais.

CONFEN

O Conselho Federal de Entorpecentes, órgão federal subordinado ao Ministério da


Justiça, estabelece as diretrizes políticas a respeito de drogas. A sua estrutura é
frágil. Não tem poder de policia. Ele só "determina". Para se ter uma idéia, não é o
responsável pela aplicação dos recursos do Fundo Nacional de Combate as
Drogas, 20 recipiente de possíveis contribuições de outros países, inteiramente
inócuo. E é no mínimo indulgente em relação ao daime.
Já houve até suspeita de tráfico dentro do CONFEN. 21 Em setembro de 1987,
depois de dois anos de estudo, liberou o usa da beberagem nas comunidades
religiosas. Antonio Carlos Moraes era o presidente em exercício. 22
Em dezembro de 1988, o Estado de São Paulo publica matéria sob o título:
Conselho pode proibir o chá de santo daime. O então presidente Laércio Pelegrino
declara que pode proibir. "A liberação até hoje não importa."
Isaac Karniol, professor-adjunto de Psiquiatria na Unicamp, acrescenta: "É
alucinógeno e tem efeitos semelhantes ao LSD".23
Em julho de 1991 novo questionamento. Domingos Guimarães da Silva Sá diz que
o chá não representa risco de vida.

Ele justificou sua visão sobre a ayahuasca afirmando que algumas drogas como o
álcool e o chá desempenham importante papel em rituais religiosos. "A Igreja
Católica utiliza o vinho na comunhão. Isso não significa incentivo ao alcoolismo."
Nem os padres dão vinho para as crianças.
Em janeiro de 1993 um escândalo: o Jornal do Brasil publica que o ministro da
Justiça Maurício Correa preparou um plano para flagrar o presidente e os
integrantes do CONFEN, suspeitos de tráfico de cocaína. Uma ex-funcionária do
Ministério da Justiça, Cândida Rosilda, teria procurado a polícia de Brasília para
revelar que a presidente do CONFEN, Ester Kosovski, faria parte de um esquema
destinado a acobertar narcotraficantes. Ester tinha sido indicada para o cargo pelo
ex-presidente Fernando Collor.21
Dais dias depois, Cândida Rosilda nega para a mesmo jornal que tivesse feito
denúncia a polícia civil sobre a conduta da presidente do órgão, Ester Kosovski.
Cândida admitiu que se afastou do órgão por divergência sobre a descriminação
do uso de drogas. A ex-conselheira afirmou não ter concordado com a posição de
integrantes do CONFEN, que defendiam a liberação do daime. "Está provado que
este chá é um alucinógeno.”24
Em dezembro de 1994 o Jornal do Brasil praticamente republica o mesmo título da
matéria do Estado de São Paulo de quatro anos atrás: Confen pode proibir bebida
do santo daime.25
A partir dos dossiês sobre os casos Jambo e da menor em poder da seita
enviados ao CONFEN, o presidente Luis Matias Flach pediu a reabertura do
processo para incluir a bebida na lista de drogas proibidas pelo órgão.
Somente seis meses depois o Conselho chega a uma "conclusão": o uso do daime
e interditado a menores, mas como reconhece o conselheiro José Costa Sobrinho:
"o Confen não tem poder para proibir efetivamente. Trata-se de enfatizar a
dubiedade entre a interdição, meramente burocrática e a sua efetização a bebida
para menores”.19

"A primeira vez foi uma experiência desastrosa. Eu tomei demais, e ela pode ser
fatal em caso de overdose. Nunca consegui uma droga que agisse tão rápido.
Uma dose como aquela teria sido facilmente fatal. Minha sorte e que eu tinha
levado umas cápsulas de Nembutal. Tomei cinco, e melhorei. Se não tivesse
tornado Nembutal teria morrido."
William Burroughs, escritor, autor do clássico Naked Lunch, entre outros veteranos
na experimentação de todo tipo de droga - Estado de São Paulo, 29/04/95.
"As seitas religiosas oferecem lotes na floresta com a condição de os fieis
realizarem o desmatamento para garantir posse das terras. E proibido derrubar
castanheiras, então os donos as queimam e elas desabam por si próprias."
Franz Krajcberg, artista plástico, filósofo e guerreiro ecológico - Jornal do Brasil,
12/05/95.
"O alucinógeno pode causar problemas se a pessoa tiver predisposição à psicose,
paranóia ou esquizofrenia."

Mauro Weintraub, psiquiatra e psicofarmacologista - Estado de São Paulo,


11/12/88.
"Descobri por que ando tão conturbado atualmente. Não volto nunca mais."

"Apos a fase de alucinação, a harmina, um dos alcalóides do cipó, age de forma


inversa, causando profunda depressão."

Renato Jacu, professor de Farmacognosia da UFRJ - Veja, 31/08/88.

"No mundo dos índios a bebida está ligada a um contexto que visa conceitos
morais, enquanto os daimistas estão apenas se drogando. Os efeitos do daime
são semelhantes aos do LSD."
Fernando de Carvalho, professor de Farmacologia da Santa Casa de São Paulo
Manchete, 20/04/91.

"O daime e um engodo, eles dão até para crianças."

Raul Gazzola, ator, in Cara a Cara, programa de Marilia Gabriela - TV


Bandeirantes,30/05/93.

"Sim, os laboratórios afirmavam que a dimetiltriptamina, o alcalóide da folha, tinha


praticamente a mesma estrutura molecular da serotonina, um neurotransmissor
cerebral cuja inibição potencializa a ação da harmina (alcalóide do cipó) e
transforma profundamente todo o nosso sistema de percepção e os nossos
códigos de compreensão. E daí? O que nos impede de ver a presença da
engenharia divina em tudo isso? Nas plantas, no alcalóide, na consciência e em
mim mesmo? Se esses elementos facilitam a nossa ligação com o Divino, por que
temê-los e considerá-los componentes de uma droga?"
Alex Polari, gurulheiro - Guia da Floresta, p.43.

Resposta: Porque fanáticos de uma seita não têm controle sobre os efeitos de tal
droga.

"Isso pode acontecer em qualquer religião.


Na Inquisição, muitas pessoas foram queimadas na fogueira e o Cristianismo não
pode ser responsabilizado por isso."
Philippe Bandeira de Mello, analista - Ano Zero, outubro de 1993.

Resposta: o cristianismo não pode ser responsabilizado, mas os fanáticos sim.


Assim como no daime.

Transcrevemos excerto de petição de Medida Cautelar Satisfativa de Guarda,


Educação e Regulamentação sobre Menor que esteja sob o poder do daime, por
ser pioneira e importante vitória, tendendo a criar jurisprudência no setor. Como a
causa corre em segredo de justiça, omitimos qualquer detalhe que possa
identificar os interessados. A identificação dos advogados também é omitida.
XXXXXXX, brasileiro, solteiro, domiciliado nesta cidade, residente na XXXXXXX,
vem, representado por seus advogados, conforme anexo instrumento de mandato,
propor, com base no art. 888, VII, MEDIDA CAUTELAR SATISFATIVA DE
GUARDA, EDUCAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO DE VISITAS, SOBRE A MENOR
XXXXXXX, em face de XXXXXXX, brasileira, solteira, XXXXXXX, podendo às
vezes ser encontrada na XXXXXXX, passando a expor os seguintes fatos e
fundamentos jurídicos:

I – BREVE HISTÓRICO DOS FATOS

1) Em XX de XX de 19XX, nasceu XXXXXXX, contando hoje com a idade de


XXXXXXX anos incompletos.
2) A menor foi fruto de relacionamento entre o Autor e a Ré, que então
formavam união estável, que durou cerca de XXXXXXX anos.

3) Apos a desfazimento da união entre o Autor e a Ré, a menor passou a


residir com a mãe, que morava com os avós maternos da menor.

4) Por nunca ter exercido sua profissão, passou par diversos empregos até
que, recentemente, exercia trabalho de XXXXXXX junto a XXXXXXX,
estabelecimento esse firmado no XXXXXXX.

5) Ocorre que desde o princípio do ano de 1994 a Ré passou a ter um


comportamento diferente do aé então apresentado.

6) Descuidando-se cada vez mais da criação da menina, passou a freqüentar


uma seita conhecida par "santo daime".

7) Após sua aceitação no "santo daime", começou a não dar mais a


importância devida a educação e aos cuidados básicos com a filha (DOC 2 e 3).

8) Passou a levar a filha nos rituais da seita, dando-lhe para ingerir o "chá de
santo daime", beberagem alucinógena e depressiva.

9) Não satisfeita, mudou-se de "igreja", indo participar das sessões em


XXXXXXX, praticamente abandonando a filha no XXXXXXX.

10) Com essa grave situação, os avós maternos da menor não puderam
concordar. Vendo a futuro que aguardava a neta, romperam relacionamento com a
filha, dando conhecimento ao Autor do que acontecia (DOC 2).

11) Diante de ter a Ré abandonado a filha, que só sobreviveu diante de


excelente tratamento dispensado pelos avós maternos, exercendo o Autor o pátrio
poder, passou a ter a filha sob sua guarda desde o princípio do ano.

12) Incontáveis os prejuízos que adviriam a menor se continuasse sob a guarda


da Ré, ou se sua visitação fosse permitida longe do lar dos avós maternos.

II – CHÁ DE SANTO DAIME

1. Conforme pesquisa, a seita do santo daime gira em torno da ingestão de


um chá, feito de dais vegetais, de efeito alucinógeno, proveniente dos Andes, e
que teria sido difundido em toda a área amazônica (DOC 4).
2. Um dos vegetais e o cipó BANISTERIOPSIS CAAPI, que possui alcalóides
de alto grau alucinógeno. Estes alcalóides afetam diretamente a cérebro, podendo
produzir danos neurológicos (DOC 5)
3. o outro vegetal, o PSYCHOTRIA VIRIDIS, e conhecido por ser irritante tanto
do trato gástrico como do fígado (DOC 5).
4. Seu uso combinado, apos o ferimento dos dois vegetais, forma um
componente altamente alucinógeno, para alguns mais forte que a LSD (DOC 6),
tendo como reação posterior uma profunda depressão (DOC 5).

5. Alias, diversos casos de suicídio sac relatados, ligando-se a uso do chá de


santo daime com a depressão e a morte (DOCs 7, 9 e 1o).

6. Mutações genéticas também foram observadas por cientistas da UNICAMP,


anomalias comuns a outras drogas (DOC 8).

7. Porem, talvez por razoes políticas e interesses financeiros (DOCs 11 e


12),o chá não mais e considerado entorpecente desde meados de 1992, embora
uma de suas substâncias ativas (DMT) seja considerada pela Convenção
Internacional de Viena como entorpecente (DOC 13),o que gera protestos de
juristas, que desejam sua inclusão imediata entre as drogas ilícitas (DOC 13).

III – DOS FATOS

1. Ao adentrar a seita "santo daime" a Re extrapolou o direito constitucional de


inviolabilidade de crença, assegurado no inciso VI, do art. 5°.

2. Ao induzir sua filha, uma criança com apenas XXXXXXX anos, a ingerir
substancia nociva a sua saúde física e psíquica, além de ter demonstrado que não
está em condições de dar à menor cuidados adequados, a Ré não estava
exercendo direito seu, mas sim lesando direito indisponível de sua filha, a higidez
física e mental.

3. Diversos são os fatores que confirmam a impossibilidade de a Ré voltar a


exercer a guarda sabre a filha, ou até mesmo exercer a visitação fora do controle
do Autor ao dos avós.

4. O primeiro fator é o emocionante relato feito pelos avós maternos da menor


XXXXXXX (DOC 2). Confirmam que a neta ingeriu o "chá" alucinógeno, relatando
também a falta de cuidados oferecidos pela mãe, e os planos de levar a pequena
para um lugar em que nada poderá lhe ser oferecido, no mesmo nível a que está
acostumada (educação, vestuário, moradia, alimentação etc.).

5. Para agravar a situação, na declaração, o depoimento de que a Ré e seu


companheiro não possuem qualquer tipo de renda, sobrevivendo graças à "igreja"
(DOC 2).

6. O segundo fator é o relatório pedagógico-educacional que relata bem a


situação difícil por que passa a menor. Até o envolvimento da Ré com o "chá", a
menor tinha um ótimo aproveitamento escolar. Após, passou a ter alterações
comportamentais, diante da grave situação por que está passando. O humor
inconstante referido pela Orientadora já não seria resultado da toxicidade do
"chá"? (DOC 3).

7. O Autor, por outra lado, tem trabalho definido, e sempre teve sua filha sob
seus cuidados diretos durante longos períodos, como fins de ano e férias da
escolinha.

8. Tem a Autor todas as condições de cuidar da filha, podendo também contar


com o auxílio de sua mãe e dos avós maternos.

9. Autor não pode concordar que sua filha vá morar em local totalmente sem
recursos, não tendo condições para estudar. É de se lembrar que o Autor já
providenciou a matrícula da filha em escola de ensino privado de XXXXXXX.

10. Quanto às visitações, se fossem feitas em local diferente da residência dos


avós maternos, a criança igualmente sofreria riscos em sua integridade física e
psíquica. Isto porque a Ré acredita que a menor deve tomar o "chá", já que o
alucinógeno teria a característica de ser purificador e um liame com um universo
superior.

MEDO NAS CIDADES DO SUL DE MINAS

População considera os daimistas misteriosos e nocivos

À espera do apocalipse e de dólares do exterior, o santo daime, uma provável


futura organização não-governamental (ONG), está assustando cidades do sul de
Minas. E uma seita misteriosa e nociva, acreditam moradores de cidades como
Caxambu e Baependi, próximas da divisa com São Paulo. Um perigo que se
alastra pela região. O delegado Luiz Fernando Alves, de Caxambu (37o
quilômetros de Belo Horizonte), diz que há plantação de maconha em áreas dos
daimistas.
"Meus homens viram a plantação", afirma Alves. "Ali estranhos não entram. O
lugar e protegido por motociclistas armados com escopetas." Os daimistas acham
isso tudo um absurdo. Na mesma Caxambu, o advogado nao-militante Fábio
Antierio diz que o santo daime não tem nada de misterioso, cura pessoas e
preserva o meio ambiente. Fábio foi o fundador da doutrina no sul mineiro. Agora
esta preparando o "Projeto Final dos Tempos": no ano 2ooo haverá uma mudança
de ciclo. O mundo, exaurido, só será habitável por quem se preparar para
sobreviver com legumes e frutas.
Um fato incontestável e que os seguidores do santo daime no sul de Minas têm
comprado muita terra. Há duas igrejas distintas, ali. Uma, no Bico do Papagaio, na
região do Matutu, município de Aiuruoca, com 1.5oo alqueires. Outra, na chamada
região do Gamarra, município de Baependi, em área de extensão não revelada.
As duas igrejas se expandiram montanha acima, por lados diferentes. “Já nos
encontramos lá no alto da montanha", diz Fábio, líder da igreja do Gamarra. Elas
estão em áreas de proteção ambiental. Para preservá-las, os daimistas querem
receber recursos, como uma ONG.
Fábio fundou sua primeira igreja em Baependi, cidade vizinha de Caxambu.
Ficava na Toca do Urubu, lugar retirado do centro. Durou dois anos: Baependi
praticamente o expulsou.
A causa foi um rapaz da cidade, Jorge Tadeu, 25 anos. Sua mãe, Vera Basílio
Araújo, diz que Jorge era um rapaz normal, até ser levado para as cerimônias:
"Diziam que o chá (usado nas cerimônias, tido como alucinógeno) cura as
impurezas do espírito e leva as pessoas a prosperidade. O Jorge ia nos fins de
semana. Passava quase 24 horas tomando o chá e dançando. Voltava drogado e
fora do mundo. A gente falava com ele, ele não atendia".
A família lutou muito para livrá-lo, diz a mãe. "Acabamos com o templo." Mas o
rapaz não se recuperou: "Dorme de manhã e a noite fica acordado, tem visões". O
promotor Sergio Barbosa de Campos encaminhou-o para um exame de sanidade
mental: "A conclusão foi de que o rapaz tinha fortes problemas emocionais,
decorrentes do usa do chá".
Fábio, o fundador, mudou a igreja para a zona rural de Baependi, onde está o
Gamarra. Diz que Jorge tinha problemas com drogas quando entrou para a seita.
Jorge está se tratando com um psiquiatra: "Ele foi ao fundo do poço, mas está
melhorando", diz sua mãe.
Em Caxambu, o delegado Luiz Fernando Alves afirma que um "rapaz minerador,
que andava pelo Matutu", denunciou a existência de plantação de maconha em
área do santo daime. O minerador, diz Alves, "deu de cara com um homem de
moto armado com escopeta", que guardava o lugar. Mais tarde, o delegado
mandou alguns policiais disfarçados para a área. "Os seguranças de moto e
armados os fizeram voltar", diz. "Mas eles viram a plantação de maconha."

FUNDADOR UM TELEPATA

“Chá só não dá jeito na morte”


Ex-advogado da Cesp, hoje construtor e comerciante em Caxambu, Fabio
Antierio, 40 anos, três filhos, fundou o santo daime no sul de Minas ha quatro
anos. Seu relato:
"O daime (o chá) muda a maneira de se ver o mundo. Ele te dá uma outra
percepção sobre uma mesma coisa. Através dos anos, o homem foi perdendo
atributos. Tinha o poder da telepatia, de se autocurar, da previsão do tempo. De
falar com os animais. Perdeu tudo. O daime desbloqueia esses atributos. Em mim
desbloqueou a telepatia”.
Como o padrinho Sebastião (líder nacional da doutrina) diz, o daime cura qualquer
coisa, menos a sentença. Se a pessoa está sentenciada a morrer, o máximo que
pode conseguir e um perdão espiritual. O daime da visões mesmo. E uma visão
interna. Você esta pensando em uma coisa. O daime dá detalhes e um poder
maior de entender.
Nós compramos terra, mas é para preservar. É um grupo de pessoas: cada um
comprou uma fazenda, a gente juntou tudo. A cerimônia que realizamos é um
bailado. A gente começa para fazer um hinário, que são os cânticos existentes. A
gente torna o santo daime rezando o terço. Depois, toma de trinta em trinta hinos.
A força vai, vai, depois vai diminuindo. A gente toma outra vez. A dura<;ao
depende do trabalho. O do padrinho Sebastião é o maior, 156 hinos. Chega a
durar dez horas.
Eu dou a dose (do chá) conforme a pessoa. Criança, pouquinho. Um adulto
grande, dou mais. O primeiro daime dou mais ou menos assim. O segundo já e
tudo intuitivo. Overdose? Isso não existe. O daime nunca matou ninguém.
Também não causa dependência. Eu tenho um filho de cinco anos. A primeira
coisa que eu dei para ele foi o daime.”27

IRMÃOS EM SOFRIMENTO

Xamãs brasileiros fazem experiências na Alemanha com "Chá Sagrado" - culto


inofensivo ou ritual perigoso?
À luz de vela, Padrinho Paulo olha seus convidados profundamente nos olhos;
varinhas de incenso ardem sobre a mesa. Depois, o pequeno brasileiro, em seu
fantasioso uniforme azul, serve a cada um dos presentes uma xícara cheia de um
líquido grosso, amargo e sussurra: "Eu Ihes dou o Santo Daime".
Perto de cem figuras pálidas, entre 25 e 50 anos de idade, aguardavam
ansiosamente este momento 500 marcos pagou cada um para vivenciar, numa
mansão antiga em Stuttgart, aquilo que um folheto de propaganda prometia: um
final de semana com "currículo xamânico” e, como clímax, o "ritual da Ayahuasca"
latino-americano - a degustação do "chá sagrado".
É verdade que, depois da primeira xícara, alguns têm que vomitar, mas, no mais
tardar depois do segundo copo de "Santo Daime", a maioria cai em transe.
Gemendo, rindo ou chorando, as convivas do chá rolam no assoalho.
( ... )
A cerimônia importada do Brasil encontra, desde a início do ano, enorme interesse
junto aos freaks das grandes cidades, pertencentes ao cenário da "Dança em
Transe" grupos em que se dança excessivamente, de olhos vendados. Através de
Paris, o feitiço encontrou, no início de fevereiro, seu caminho a Stuttgart, Berlim e,
na semana passada, a Suíça.
( ... )
Pessoas da confiança do mestre ministram, também, em Ibiza, Miami e Amsterdã,
cursos de "Soul Hunting" (caça de almas). "Energizing Training" ou outros cursos
obscuros denominados "Foguistas do Coração". Especialmente procurada é a
bebida de infusão - promete êxtase e enche de dinheiro o caixa do xamã.
( ... )
O jornalista de Stuttgart Werner Jourdan, 38, se achou num estado bastante
desolador, depois de deparar-se com o "chá psicoativo de plantas". Seu passeio
ao prazer esotérico de fim de semana terminou como viagem de horror.

"No primeiro dia me apareceram, com os olhos fechados, imagens maravilhosas -


ornamentos ricos, aura, prata, pedras preciosas. Eu passei a ter a sensação de
voar." No dia seguinte, todavia, de viu como outros místicos inebriados "choravam
profusamente, gritavam, gemiam ou se encontravam acabados, deitados no chão".
Padrinho Paulo os designava "irmãos e irmãs em sofrimento". Ele os tratava com
"estalar de dedos".
Ai, repentinamente, a via respiratória de Jourdan começou a ficar bloqueada: "Eu
passei a sentir falta de ar. Meu peito parecia paralisado. Eu buscava ar, passei a
ter a sensação de morrer".
Ainda uma semana mais tarde de sofria de alucinações, as cabeças de amigos
pareciam não se encontrar sabre seus pescoços, mas aparentavam bizarramente
deslocadas. Sua suspeita: "Eles me deram uma droga". o "chá curativo de cipós",
que as organizadores proclamavam como remédio para corpo e espírito - e até
como medicamento para AIDS - atuou sobre ele "como LSD".
( ... )
"Isso pode provocar reações psíquicas, até mesmo ataques de pânico, sobretudo
no caso de experimentação desavisada", alerta a farmacólogo berlinense Helmut
Loper.
( ... )
E que o bebedor de chá, Jourdan, mandou uma prova de urina para um
laboratório de Stuttgart e na semana passada ele recebeu a resultado. A análise
constatou elevados teores de anfetaminas - possivelmente um indicia de que as
xamãs contaminaram seu estranho preparado com entorpecente sintético.
Os próximos rituais de Santo Daime, que a autodenominado "Professor Transe"
planeja para abril, deverão ser possivelmente cancelados, pois, agora, é a
Ministério Público de Stuttgart que, por iniciativa de Jourdan, se ocupa da festinha
do chá.28

MÉDICO AMERICANO
RESSALTA BOM USO DO CHÁ NA UDV

Charles Stephen Grob


Sr. Editor

Li recentemente, com grande preocupação, artigo intitulado "Irmãos em


sofrimento", publicado na edição de 10/94 de Der Spiegel, descrevendo as
experiências assustadoras do jornalista Werner Jourdan, que se encontrou em
profunda aflição, após o consumo de mistura de plantas alucinógenas da
Amazônia brasileira.
O sr.Jourdan relata que pagou 500 marcos para participar de uma série de
experiências organizadas em Stuttgart por um empresário nova-iorquino. Com
referência as propagandas, que prometiam uma experiência extasiante e livre de
efeitos colaterais negativos, o sr. Jourdan relata ter passado por alucinações
terríveis e persistentes, assim como grave aflição respiratória.
o sr. Jourdan sustenta que a mistura de plantas alucinógenas experimentada e
chamada de Ayahuasca e tem uma longa historia de utilização no contexto ritual
pelos habitantes indígenas da Amazônia. Tem sido usada também como
sacramento psicoativo por diversas igrejas sincretistas no Brasil, desde as
décadas passadas.
Em 1987, seu uso foi legalizado, dentro de locais religiosos, depois de cuidadosa
investigação, estabelecendo seus efeitos benéficos. Em junho e julho de 1993, eu
dirigi um estudo de Pesquisa Biomédica Multinacional sobre Ayahuasca, na
Amazônia brasileira. Nossa pesquisa foi feita com os integrantes de uma
instituição religiosa chamada União do Vegetal (UDV).
Em resumo, nossas descobertas foram de que, quando a Ayahuasca é bebida em
locais estruturados, onde e dada cuidadosa atenção aos participantes, bem como
fornecida adequada proteção durante e depois das sessões, ocorrem efeitos
médico-psicológicos especialmente positivos.
A UDV mantém deliberadamente reduzido número de membros e desencoraja
com veemência o proselitismo, observando também com grande preocupação a
apropriação de seus sacramentos, em usos irresponsáveis e arriscados na
Europa.
O sr. Jourdan relata também que foram identificadas altas concentrações de
anfetamina em sua urina, em análise laboratorial, após a experiência em Stuttgart.
Se, de fato, essa mistura de supostas plantas da Amazônia foi adulterada com
outras drogas, há sérios riscos de perigosos efeitos colaterais. Se a análise
laboratorial da anfetamina for precisa - e se a mistura de plantas incluir as plantas
usadas para preparar a Ayahuasca - , então pode existir potencialmente uma
interação letal.
A planta básica da Ayahuasca, o Banisteriopsis caapi, contém alcalóides Hannala,
que possuem potente efeito MAOI (Atividade Inibidora de Monoamina Oxidase)
que, combinado com anfetamina, causa graves reações de hipertensão, que
podem ameaçar a vida de indivíduos vulneráveis.

As atividades descritas no artigo de Der Spiegel devem ser observadas com sérias
preocupações - não apenas pelos supostos organizadores dessas sessões de
Ayahuasca, comprometidos com um comportamento altamente irresponsável e
perigoso, mas pelo risco de que suas ações tragam atenção indesejada ao uso
salutar da Ayahuasca na América do Sul.
A mistura das plantas misteriosas da Amazônia demonstrou indução a efeitos
benéficos poderosos, quando usada em contexto resguardado. Tem sido de
grande valor aos membros da UDV no Brasil. Tem potencialmente muito a ensinar
aos pesquisadores-médicos da Europa e da América do Norte.
É imperativo, portanto, distinguir as atividades bizarras, recentemente ocorridas na
Alemanha, do papel tradicional que a Ayahuasca tem tido na bacia amazônica,
como agente de cura e indutor da experiência religiosa.29

Os desmandos praticados por daimistas no Brasil e no exterior causam


preocupações também entre outros grupos que usam a substância, mas não
aprovam os métodos fanáticos. Em abril de 1994, o presidente da União do
Vegetal, Edison Saraiva Neves, envia a seguinte carta ao comando do CEFLURIS:

CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL


Sede Geral – Brasília / DF
Aos srs.
Dirigentes das Entidades Signatárias da

CARTA DE PRINCÍPIOS DA AYAHUASCA 09.11.94


Carta Circular nº 26/94

Encaminhamos a V.Sª a carta e os documentos em anexo, cumprindo


procedimento de auto-regulação estabelecido por ocasião da assinatura da Carta
de Princípios das Entidades Usuárias da Ayahuasca.
Sendo o que se apresenta para o momento, aguardamos providências e nos
colocamos a disposição para esclarecimentos adicionais que se façam
necessários. Com votos de Luz, Paz e Amor.

EDISON SARAIV A NEVES


Presidente

CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL


Sede Geral – Brasília / DF
Ilmº Sr.
ALFREDO MOTA
Carta nº 31/94
Dirigente do Cefluris
09.11.94

Tendo em vista as acontecimentos descritos na documentação em anexo -


reportagem publicada na revista alemã Der Spiegel e carta à mesma revista,
escrita pelo médico norte-americano Charles Grob, com respectivas traduções -,
vimos, por meio desta, solicitar providências quanto ao procedimento do sr. Paulo
Roberto, tendo em vista a preservação de uma conquista que nos e comum: o usa
legal do chá em contexto religioso.
Os acontecimentos relatados - comercialização da Ayahuasca, prática de
curandeirismo, publicidade indevida e uso não-ritualístico do chá ferem
frontalmente as compromissos firmados na Carta de Princípios das Entidades
Usuárias da Ayahuasca.
E mais: pelos efeitos psicossociais negativos que geram - e basta ler o que diz a
reportagem de Der Spiegel, a mais influente revista da Europa nos expõem a
riscos, capazes de comprometer todo a esforço ate aqui empreendido para tomar
legal a usa religioso do chá.
Um exemplo: a revista levanta suspeitas de que o chá contém anfetamina, já que,
segundo afirma, foi encontrada essa substância na urina de um dos participantes
da sessão pública de distribuição da Ayahuasca. Como sabemos que o chá não
contém essa substância, a referida pessoa já a havia ingerido antes ou o fez
imediatamente depois de beber o chá. Em qualquer das hipóteses, expôs-se a
riscos graves por absoluta desinformação, o que, mais uma vez, comprova a
necessidade de observar as recomendações de nossa Carta de Princípios por
parte dos dirigentes religiosos.

Ao pedir providências corretivas, a União do Vegetal segue recomendação feita


pelo então conselheiro do Confen, a jurista Domingos Bernardo de Sá, quando da
aprovação da Carta de Princípios: que nos mesmos, hoasqueiros, nos auto-
regulemos nas eventuais infrações, evitando assim que a Poder Público o faça,
com conseqüências danosas aos nossos interesses institucionais. Essa prática
deve tornar-se comum entre nos, em beneficio de nossos interesses comuns.
Informamos a V.Sª que, conforme acertado com o sr. André Lazaro, representante
do Cefluris na Conferência de Lérida, Espanha, cópia deste documento e seus
anexos estará sendo remetida a cada uma das entidades signatárias da Carta de
Princípios, de modo que se inteirem de assunto que a todas diz respeito.
Sendo o que se apresenta para o momento, nos colocamos a disposição para
esclarecimentos adicionais que se façam necessários e renovamos nosso votos
de Luz, Paz e Amor. Fraternalmente.

EDISON SARAIV A NEVES


Presidente

Os daimistas dizem que não são proselitistas. Não é o que mostram os dois
panfletos de propaganda que reproduzimos, um deles chamariz internacional para
gringos enfastiados e de preferência ricos

"A nova era não e somente um desabrochar gradual de consciência entre


meditações com fundo musical de harpas e sintetizadores. Ela coincide com a
transmutação de milênios e é um nascer doloroso como são todos grandes
processos de ciclos cósmicos e cármicos.
Nossa doutrina e a recuperação da ciência de nossos antecessores Incas e da
tradição xamânica dos índios da floresta amazônica. É o caminho do auto
conhecimento e da busca da perfeição. O santo daime é um atalho seguro que
abre nossas mentes para o nosso universo interno e externo, presentes no mesmo
eu.
A dez anos do fim do milênio, nós precisamos deste atalho. E nós estamos
desenvolvendo um 'trabalho' em nossa comunidade e centro de curas que nós
chamamos O Divino Jogo da Vida. Isto quer dizer: integrar e formar a preparação
e a experiência de vida comunitária para estar apto a atingir auto-suficiência na
floresta com um alto nível de consciência e autoconhecimento, de maneira que a
dificuldade em implantar a vida divina seja como um 'jogo espiritual' cujas regras e
objetivos sejam desenvolvidos e confirmados durante o processo de
transformação interna do indivíduo e transformação externa da comunidade.
O que nos da uma chance de vitória e uma vida comunal que é organizada e em
harmonia com princípios espirituais muito claros. Esta é uma prospecção profunda
da mente, cura, caridade e o cultivo de nossa comida, integrando-nos na natureza,
e em nosso caso com a floresta."

Alex Polari

Começando em junho de 1990, o Céu da Montanha receberá visitação de grupos


e indivíduos durante nossos feriados espirituais e trabalhos com santo daime,
como também providenciaremos programas em integração holística.
o programa que nós estamos abrindo e o de uma experiência comunal
acompanhada que e uma introdução para o Divino logo da Vida. Durante o
período de nosso festival nós praticamos nossos rituais com hinos, "feitios",
meditação, sessões de cura, desenvolvimento de canalização, e trabalho com
terra. Isto é feito com o suporte de nossos instrutores e monitores, assim como
com o uso de técnicas de suporte para melhor integrar nossas experiências
individuais e de grupo com a comunidade, na procura de um objetivo único que é
a transformação da consciência e da difusão deste novo conhecimento e valores
espirituais da nova era.

Acho que os textos, tanto na sua forma quanto no seu conteúdo, dispensam
comentários ...

Para encerrar este capítulo, um caso fantástico de irresponsabilidade profissional


e idolatria.
Luis Petry e um editor de "assuntos esotéricos" do programa Fantástico. Em meio
à batalha de esclarecimento da tragédia que ocorreu com Jambo, entreguei-lhe
uma cópia da representação encaminhada ao dr. Aristides Junqueira (cf. p. 41).
Imaginem minha surpresa quando soube que essa documentação tinha ido parar
nas mãos do gurulheiro Alex Polari, que parece que acumula a função de ídolo do
editor... Não é fantástico?
"Meu corpo na sepultura
Desprezado no relento
Alguém fala em meu nome
Alguma vez em pensamento?"

(Raimundo lrineu Serra, fundador da


doutrina do daime, in Pisei na terra fria,
Hino 129 do hinário o Cruzeiro)

CONTINUAÇÃO

A pergunta continua. O que aconteceu com Jambo?


A versão oficial da seita é a de que ele teria se enrolado numa rede embebida em
querosene e se jogado numa fogueira. O mínimo que podemos estranhar e que
ninguém tenha visto. Qualquer infante sabe que numa floresta, sem luz eletrica,
uma fogueira se destaca como pólo de atração.
Uma testemunha do acontecido relatou que estava cozinhando com uma amiga
perto da casa de Neide, daimista escalada para vigiar Jambo, no Mapiá, sempre
de acordo com a cartilha das seitas (ver Técnicas das seitas, p. 16). Foram
envolvidas por um cheiro de queimado tão forte que se sentiram mal. De repente,
surge um garoto dizendo que Jambo queimou numa fogueira.
O que mais chocou essa adepta foi a pressa com que os daimistas se livraram do
corpo. Abriram um buraco no chão, ali mesmo. Quando ela tentou protestar,
Daniel de tal, da cúpula da seita, lhe ordenou em termos severos que não
interferisse, que eram ordens do "padrinho Alfredo". A "madrinha Rita", viúva de
Sebastião Mota, estava chegando de helicóptero, com toda a pompa e
circunstância, para participar do festival da fogueira, e era preciso esconder o
corpo.
Jambo foi tratado pelos fanáticos depois de morto da mesma maneira que quando
vivo: uma presença incômoda.
A autora do relato ficou tão chocada com esse comportamento que, apesar de
adepta, nunca mais foi ao Mapiá, onde passava temporadas regulares.

Wilfred Bion, psicanalista inglês, constatou a existência de alguma coisa que ele
chamou de "mentalidade grupal". Essa mentalidade grupal estabelece-se sempre
que o grupo se reúne. O surpreendente é que ela não se subordina ao estado
mental de nenhum membro do grupo. Pelo contrário, mostra-se soberana, e é ela
que subordina os membros do grupo. A mentalidade grupal apresenta-se como
alguma coisa viva, pensante, desejante, dotada de uma ideologia própria, um
complexo de corpos e valores. Possui uma inteligência, um conjunto de intenções,
um sistema de astúcias e maquinações. Parece uma espécie de "espírito coletivo"
que paira sobre todas as cabeças, encaminhando-as para esta ou aquela direção.
Tamanho e o seu poder de influência, que Bion chega a considerar os membros
do grupo como um lugar de materialização desse espírito, de manifestação dessa
vontade, de expressão dessa ideologia. Imersos na mentalidade grupal, os
indivíduos parecem hipnotizados por forças exteriores a eles, seduzidos por
mágicas diabólicas. Seus pensamentos, seus sentimentos, até seus
comportamentos, a rigor, não mais lhes pertencem.
Tudo está controlado pela mentalidade grupal. Quando, por esta ou aquela razão,
predominam na mentalidade grupal as forças negativas do ódio ou da agressão,
quando entre coletividade e indivíduo se estabelece a divergência, os membros do
grupo se retraem, perdem seu viço, seu entusiasmo, sua inteligência, sua
criatividade, sua inspiração. Aqueles membros sobre os quais se abate a
divergência serão os mais duramente atingidos. Sentem-se então empobrecidos,
vazios, fúteis, sem perspectivas. Em circunstâncias críticas, antes que se possa
influir, podem se abater sobre alguns membros do grupo as mais variadas
doenças e os mais variados tipos de acidentes. 30

Parece certo que Jambo acabou numa fogueira.

Como foi parar ai, ninguém sabe dizer. Não quero crer que tenha sido queimado
após ser morto, como alguns suspeitam. Mas foi no mínima um assassinato
cultural. A pressão do grupo deve ter sido muito forte. O rebelde chega
estigmatizado e é encurralado. "O daime é um labirinto". 25
Fugindo da contrafação de Mauá, subiu ao "Céu do Mapiá." e desceu aos
infernos, completamente perdido no labirinto dos amigos de satanás,
"questionando o sentido de tantas suscetibilidades, dissensões e emoções
presentes no meio espiritual quase da mesma forma ou pior do que no meio
mundano." 31
Qual era o sentido da procura? Como sair? Voltar? Admitir a derrota? Nem isso
podia fazer. As canoas são controladas, e não permitiriam a um rebelde ocupar
espaço em meio ao festival. Em pouco tempo, viu tudo. A confiança que tinha
depositado naquelas pessoas não existia. Viu que além de não ter podido contar
com o Mota, com a Sonia e com o Zequinha em Mauá, não pode contar com Alex
em lugar nenhum (decepção do encontro em Boca do Acre, quando este "não
gostou de ver Jambo ali"). No Mapiá, nem Regina, ex-madrinha, nem Tadeu, nem
Alfredo. Estavam todos muito envolvidos "num momento de grande sensibilidade",
considerados pelo festival da fogueira. O individuo Jambo não tinha a menor
importância.

“O daime cura tudo, menos sentença.”32 E Jambo tinha sido sentenciado, como
muitos dissidentes em regimes totalitários, a loucura.
Tinha que cumprir o que o grupo induzia.
No Mapiá, cercado de mata e hostilidade por todos os lados, sentiu apagar a
chama da vida. Apesar do fogo, ninguém viu.
A figura jurídica de assassinato cultural não existe no código penal. Mas a de
induzimento ao suicídio, sim.
Que as labaredas que o queimaram sirvam para iluminar as consciências dos
envolvidos nesta tragédia
NOTAS

Convencionamos chamar de livro I O Livro das Mirações e de livro II o Guia ela


Floresta, ambos de Alex Polari.

1) Livro II – 137.
2) Livro I – 38.
3) Livro I – 89.
4) Livro I – 43.
5) Livro I – 103.
6) Livro I – 103.
7) cf. Brazilian Connection by Mourão, Archivos lmpossibles Ed. 1990.
8) Livro I – 23.
9) Livro I – 24.
10) Livro I – 99.
11) Guiado pela Lua, Edward McRae. – 16.
12) O bebê de Maitê, Manchete – 11/08/90.
13) O daime encontra seu céu, O Globo – 05/11/90.
14) Os perigos do chá, Veja - 31/08/88.
15) Área extrativista preserva comunidade do santo daime, JB - 18/08/89.
16) Bird dará 7,5 milhões para florestas brasileiras, O Globo – 01/11/94.
17) Bebida vem de cipó e de folha da Amazônia, JB – 15/10/90.
18) O Globo – 22/04/95.
19) Confen limita o uso do daime para adultos, Correios Brasiliense – 03/06/95.
20) Correa amplia combate aos entorpecentes, JB – 11/03/93.
21) Polícia apura tráfico de cocaína no confen, JB - 15/01/93.
22) Veja – 31/08/88.
23) Estado de São Paulo – 11/12/88.
24) Cândida afirma que criticou chá, JB – 17/01/93.
25) JB – 18/12/94.
26) JB – 03/06/95.
27) Jornal da Tarde – 04/05/95.
28) Der Spiegel – out./94.
29) Der Spiegel.
30) Assassinato cultural, Eduardo Mascarenhas, em defesa de Glauber Rocha,
outro que foi tachado de louco.
31) Livro I – 103.
32) Livro II – 103.
33) Livro I – 38.

DADOS BIOGRÁFICOS

Nascido no Rio de Janeiro, em 1945. Cursos de Administração Pública (EBAP) e


Direito (Cândido Mendes) incompletos. Funda em 1965, com Walmir Ayala e
Álvaro Guimarães o "Teatro de Câmara", grupo dedicado a encenação de temas
populares e de vanguarda. Experiência em 1966 por invasão do teatro por forças
da repressão vigente. Extenso período on the road: Europa, Ásia, África, Estados
Unidos. De passagem pelo país em 1971, funda "Presença" com Rubinho Gomes,
Joel Macedo, Torquto Neto e Antônio Henrique Nietzche, pioneiro da imprensa
alternativa. De volta ao Brasil, funda o "LOFT - Galeria Alternativa", em 1975 na
Lapa, laboratório de criação e espaço multimídia dedicado a produção e
lançamentos de trabalhos independentes e sede dos "Archivos Impossibles by
Mourão". Participação especial em filmes como "A Lira do Delírio" de Walter Lima
r. "Rio Babilônia" de Neville d'Almeida. Registro em filme da microcultura local
(bas-fond, travestis). Premiado com "Costumes da Casa" Melhor Filme do I
Festival de Super-8 do Rio de Janeiro (1982). Em 1980 descobre o Brasil de
Trancoso, Arraial d'Ajuda e Porto Seguro, onde edita desde 1990 "A Folha de
Trancoso". Co-editor, com Fausto Wolff da ''Tribuna Socialista", órgao do grupo de
comunicação do PDT (1982-1983). Editor do “Jornal de Campanha" do Partido
Verde (1986). Publica "Maconha em Debate", Ed. Brasiliense em 1985 e
"Brazillian Connection", Archivos Impossibles Ed./Massao Ono em 1990.

Fui obrigado a escrever este livro pela necessidade de justiça.


Os fanáticos da seita do daime, tentam se eximir de suas responsabilidades na
morte de meu filho Jambo, denegrindo-o. É uma tática velha e nojenta. Os xiitas
de todo planeta, bolcheviques ou não a adotam faz tempo. Os que não rezam pelo
catecismo deles são loucos. Não há espaço para a dissidência, o questionamento.
É preciso eliminá-los. Direta ou indiretamente.
O que estes nem outros jamais conseguirão, por mais repulsivos que sejam seus
métodos, e calar a voz da legítima indignação.
Jorge Mourão

Koki Aymar

Jambo Veloso de Freitas


Desaparecido em 21/06/92
em meio ao festival da fogueira
da seita do daime na vila do Mapiá, Amazonas.

Abriram um buraco no chão.Quando ela tentou protestar, “Daniel de tal” lhe


ordenou em termos severos que não interferisse, e que eram ordens do “padrinho
Alfredo”. A “madrinha Rita”, viúva de Sebastião Mota, estava chegando de
helicóptero para participar do festival da fogueira e era preciso se livrar do corpo.

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