Governança, Agência e Autonomia: Temas 
Anarquistas na Obra de Elinor Ostrom 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Kevin Carson 
 
 

 

 

 

 
 
 

Centro por uma Sociedade Sem Estado, Nº 16 (2ª Metade de 2013) 
 

INTRODUÇÃO 
 
Este  artigo  é  proposto  como  um  em  uma  série,  a  ser  lido  em  conjunto  com  meu  anterior 
1
sobre  James  C.  Scott ​
,  sobre  pensadores  anarquistas  e  descentralistas  cuja  afeição  pela 
particularidade  de  instituições  locais  e  de  escala  humana  ultrapassa  quaisquer  rótulos 
ideológicos doutrinários. 
 
A  Governança  de  Recursos  de  Reserva  Comum.  Ostrom  começa  observando  o 
problema  do  esgotamento  de  recursos  naturais,  o  que  ela  chama  de  "recursos  de  reserva 
comum"  ­  e  então  passa  a  examinar  três  teorias  principais  largamente  complementares 
("conceitos  intimamente  relacionados")  que  tentam  explicar  "os  muitos  problemas  que   as 
pessoas  enfrentam  quando  tentam  alcançar  benefícios  coletivos":  a  "tragédia  dos  comuns" 
2
de Hardin, o dilema do prisioneiro, e a "lógica da ação coletiva" de Olson.  
 
Infelizmente,  estes  modelos   (ou  este  modelo)  se  ossificou  em  um  dogma,  servindo  mais 
frequentemente  como  um  substituto  para  o  pensamento  do  que  como  um ponto de partida. 
Mais  do  que  vinte  anos  após  a  obra  seminal  de  Ostrom,  ainda  é  comum  afirmar  como  um 
truísmo  ­  suportado apenas por uma alusão passageira a Hardin ou ao  dilema do prisioneiro 
­  que  os  usuários  reais  de  recursos  inevitavelmente  os  esgotarão  na  ausência  de 
governança  por  parte  de  uma  autoridade  superior  ou   outra.  Ostrom  cita  uma  afirmação 
jovial,  em  um  artigo  sobre  áreas  de  pesca  na  ​
The  Economist​
:  "deixados  à  própria sorte, os 
pescadores  vão  explorar  excessivamente  os  estoques  ....  [P]ara  evitar  o  desastre,  os  
3
gestores devem ter hegemonia efetiva sobre eles" ​

 
Esta  última  citação  exemplifica  perfeitamente  a  abordagem  comum  em  relação  à 
governança  de  recursos  de  reserva  comum  assumida  por  defensores  tanto  da 
regulamentação  estatal  quanto  da  privatização  corporativa.  O  próprio  Garrett  Hardin, 
  Kevin   Carson,  ​
Legibility  &  Control:  Themes  in  the   Work  of  James C.  Scott.  ​
Center  for  a Stateless 
Society  Paper  No.   12  (Winter/Spring  2011)  <​
http://c4ss.org/wp­content/uploads/2011/05/James­Scott. 
pdf​
>. 
2
  Elinor  Ostrom,  ​
Governing  the  Commons:  The  Evolution  of  Institutions   for  Collective  Action 
(Cambridge University Press, 1990), pp. 1­7. 
3
 ​
Ibid.​
, p 8. 
1

revisitando  mais  tarde  seu  artigo  sobre a tragédia dos comuns, argumentou  que o problema 
de  esgotamento  de  recursos   teria  que   ser  abordado  ou  por  "um  sistema  empresarial 
privado"  (isto  é,  propriedade  por  parte  de  firmas  empresariais  com  fins  lucrativos)  ou  pelo 
4
"socialismo"  (isto   é,  propriedade  e  regulamentação  por  parte  do  estado) ​
.  (A  suposição  de 
que  a  "empresa  privada"  e  o  "socialismo"  ambos  exigem  hierarquias  administrativas  de um 
tipo  ou  de  outro  e  são  incompatíveis  com  instituições  horizontais  e  auto  organizadas,  diz 
muito sobre os valores internalizados do estrato intelectual.) 
 
Ostrom  passa a considerar o desempenho insatisfatório tanto  do Estado quanto do mercado
5
 na resolução do problema. 
 
Dever­se­ia  notar  imediatamente  que  a  justaposição  entre  "propriedade  comum"  e 
"propriedade  privada"  apresentada  pelos  libertários  capitalistas  do  mainstream  é 
simplesmente  tola.  Nos  casos  em  que  parcelar  um  recurso  comum  pelos  indivíduos  é, pela 
natureza  do  caso,  impossível,  Ostrom  diz,   é­se  duramente  pressionado  para  entender 
exatamente  o  que  se  quer  dizer  com  "privado".  Campos  abertos  ou  pastagens  comuns 
podem  ser  divididas em lotes  separados e distribuídas aos indivíduos; mas áreas de pesca?
6
  Recursos  de  reserva  comum,  pela  natureza  das  coisas,  devem  ser   possuídos  e 
governados  por  algum  tipo  de  instituição  coletiva,  quer  se  trate  do  Estado,  de  uma  
corporação ou de uma associação horizontal auto organizada dos próprios usuários. 
 
A  propriedade  por  parte  de uma corporação com fins lucrativos não é mais "privada" do que 
(ou,  se  você  preferir,  tão  "coletivista"  quanto)  a administração de bens comuns por parte de 
seus  usuários.  Na  lei  corporativa,  a   propriedade  de  uma  firma  é  detida,  e  sua  gerência 
empregada,  por  uma  pessoa  unitária  criada  sob  os  termos  da  licença  corporativa. Nenhum 
acionista  individual  ou  grupo  de  acionistas  têm  qualquer  direito  de  propriedade  sobre  os 
ativos da firma ou autoridade sobre sua gerência. 
 
Ambas  as  abordagens   convencionais  de  "privatização"  e  "regulamentação  estatal" 
equivalem,  quando  todas  as  ficções  legais  são  tiradas  fora,  a  substituir  o  julgamento  dos 
usuários  pelo  de  gestores  trabalhando  para  alguma  autoridade  central  absenteísta  (talvez 
apenas  em  teoria,  trabalhado,   na verdade, por seus próprios interesses). Então poderíamos 
esperar  que  isso  resultasse  nos  mesmos  problemas  de  conhecimento  e  incentivo  que 
sempre  resultam  de  externalizar  custos  e  benefícios,   quando  a  propriedade  e  o  controle 
estão divorciados do conhecimento direto da situação. 
 
Por  outro  lado,  poderíamos  esperar  que   colocar  o  controle  diretamente nas mãos daqueles 
com  o  conhecimento  local  Hayekiano  de  uma  situação  resulte  em  resultados  bem 
preferíveis  a  qualquer  uma  das  duas   outras  abordagens  baseadas  em  verticalidade  e 
controle absenteísta. 
 
 ​
Ibid.​
, p. 9. 
  Ostrom  consistentemente   usa  o termo "mercado" no  sentido  de  "nexo  monetário" ou  "setor com  fins  
lucrativos",  em  vez  de  um  regime  jurídico   geral  de  contrato  voluntário  e   direitos  executáveis  de  
propriedade. Salvo disposição em contrário, estarei usando o termo no sentido dela. 
6
 ​
Ibid.​
, p. 19.  
4
5

E as descobertas de Ostrom confirmam essa expectativa. 
 
Em  vez  de  partir  da  suposição  de  que   os  usuários  de  recursos  comuns  estão 
desamparados  sem  uma  autoridade  externa  intervindo  para  protegê­los  de  si  mesmos,  ela 
assume  que  "a  capacidade  dos indivíduos de se  desenredarem de vários tipos de situações 
de  dilema  ​
varia  de   situação  para  situação"  e  então  adota  a  abordagem  empírica  de 
pesquisar   "os  esforços  tanto  bem  quanto  malsucedidos  de  se  escapar  de  resultados 
7
trágicos" ​

 
Aos  dois  modelos   ortodoxos  de  propriedade  estatal  e  corporativa,  Ostrom  justapõe  a 
administração  de   bens  comuns  por  um  contrato  vinculante  entre   os próprios usuários "para 
se comprometerem a uma estratégia cooperativa que eles mesmos realizarão". 
 
Claro  que  há  maneiras  em  que  eles  poderiam  dar  errado;  proprietários  de  animais  "podem 
superestimar  ou  subestimar  a  capacidade  de  carga  da  campina"  ou  seu  sistema  de 
monitoramento  pode  quebrar.  Mas  mesmo  assim,  estes  potenciais  pontos  de  falha  sem 
dúvida  existem  de  forma  mais  forte  no  caso  da  governança  absenteísta  por  parte  de  
instituições  centrais. O sistema de monitoramento é baseado nos próprios usuários, que são 
vizinhos  e  que,  enquanto  usuários,  têm  um  forte  incentivo  a  impedir  a   deserção  por  parte 
dos  outros,  observando  uns  aos  outros  diretamente  ­  consideravelmente  mais  efetivo,   se 
pensaria,  do  que  o  regime  de  inspeção  típico  de  uma  autoridade  reguladora  estatal (minha 
mãe,  que  trabalhou  em  uma  fábrica  de  processamento   de aves e entrava em contato diário 
com  os  inspetores  do  USDA,  poderia  ter  lhe  dito  isso).  E  seus  cálculos  de  capacidade  de 
carga  e  produção  sustentável,  embora  falíveis,   pelo  menos  "não  são   dependentes  da 
exatidão  das  informações  obtidas  por  um  distante  oficial  do  governo  [ou  escritório  central 
8
corporativo, eu poderia adicionar] em relação às suas estratégias" ​

 
A  pesquisa  empírica  de  Ostrom  lança  luz,  não  tanto  sobre   se  tal  governança  horizontal  de 
bens  comuns  por  parte  dos  próprios  usuários  funciona  ­  obviamente  às  vezes  funciona  ­ 
mas sobre quais regras de governança em particular produzem resultados ótimos. 
 
Realmente,  é  lógico  que  a  governança  cooperativa  de  recursos  comuns,  todas  as  outras 
coisas   sendo  iguais,  será  mais  eficaz  na  formulação  e   aplicação  das  regras  do  que  a  
governança  tanto  por  uma  agência  governamental  quanto  por  uma  corporação,  "Já  que  os 
indivíduos  envolvidos  ganham  uma  grande  parte  de seu retorno econômico dos RRCs, eles 
são  fortemente  motivados a tentar resolver os problemas comuns para melhorar sua própria 
9
produtividade ao longo do tempo" ​

 
Então  o  que  resta,  no  decurso  da  investigação  de  Ostrom,  é  "identificar  os  princípios  de 
design  subjacentes  das  instituições   usadas  por  aqueles  que  administraram  com  sucesso 
10
seus  próprios  RRCs  ao  longo  de  extensos  períodos  de  tempo..." ​
.  Quais  medidas,  em 
particular,  eles tomaram para resolver  os reais problemas apresentados pelas "tentações de 
 ​
Ibid.​
, p. 14.  
 ​
Ibid.​
, pp. 15­18.  
9
 ​
Ibid.​
, p. 26.  
10
 ​
Ibid.​
, p. 27.  
7
8

11

se  aproveitar,  se  esquivar  ou  de  outro  modo  agir  de  forma  oportunista" ​
?  A  parte   do  meio 
de seu livro é, apropriadamente, devotada a um levantamento das 
 
configurações  de   campo   nas quais (1) os apropriadores desenvolveram, aplicaram e 
monitoraram  suas  próprias  regras  para  controlar  o  uso  de  seus  RRCs  e  (2)  os 
sistemas  de  recursos,  assim como  as instituições, sobreviveram  por longos períodos 
de  tempo.  O   conjunto  mais  jovem  de  instituições  a  ser  analisado...  já  tem  mais  de 
100  anos  de   idade.  A  história  do  sistema  mais  antigo a ser examinado excede 1000 
12
anos.  
 
As  regras  para  se  governar  recursos   de  reserva  comum,  nos  exemplos  que  Ostrom 
examinou,  funcionavam  em  situações  em  que  a  teoria  dos  jogos  teria  predito  que  os  
incentivos para  desertar eram fortes e as consequências negativas da deserção eram fracas 
(como em sistemas de governança comum para água de irrigação nas Filipinas Espanholas, 
onde  o  monitoramento   era  relativamente  fraco  e  as  multas  eram  baixas,  comparadas   aos 
benefícios  da  deserção,  e  roubar  água  numa  seca  poderia  ter  salvado  a  colheita  de  uma 
13
estação inteira) ​

 
E  longe  de  refletir  "um  anacrônico  remanescente  do  passado",  os  sistemas  de  governança 
para  recursos   de  reserva  comum  tipicamente  refletem  um  raciocínio  empírico  rigoroso  a 
partir da experiência histórica. No caso da terra pastoral comunal de montanha, 
 
durante  pelo  menos  cinco  séculos,  esses  aldeões  suíços  foram  intimamente 
familiarizados  com  as  vantagens  e   desvantagens  de  ambos  os  sistemas  de  posse, 
pessoal   e  comunitário,  e  combinaram  cuidadosamente  determinados  tipos de posse 
14
de terra com determinados tipos de uso da terra.  
 
Baseada  em  seu  levantamento,  Ostrom  destilou  esta  lista  de   princípios  de  design  de 
comuns a partir da experiência de instituições bem­sucedidas de governança: 
 
1. Limites  claramente  definidos.  Indivíduos  ou  famílias  que  têm direitos a retirar 
unidades  de  recurso  do  RRC  devem  ser claramente definidos, assim como o 
devem os limites do próprio RRC. 
 
2. Congruência  entre   regras  de  apropriação  e  provisão  e  condições  locais. 
Regras  de   apropriação  que  restringem  o  tempo,  o  local,  a  tecnologia  e/ou  a 
quantidade   de  unidades  de  recurso  estão relacionadas às condições locais e 
às regras de provisão que exigem trabalho, material e/ou dinheiro. 
 
3. Arranjos  de  escolha  coletiva.  A  maioria  dos  indivíduos  afetados  pelas regras 
operacionais podem participar na modificação das regras operacionais. 
 
 ​
Ibid.​
, p. 29.  
 ​
Ibid.​
, p. 58.  
13
 ​
Ibid.​
, p. 59.  
14
 ​
Ibid.​
, p. 63.  
11
12

4. Monitoramento. Monitores, que ativamente auditam  as condições do RRC e o 
comportamento  dos  apropriadores,  são  responsáveis  perante  os 
apropriadores ou são os apropriadores. 
 
5. Sanções  graduadas.  Os  apropriadores   que  violam  as  regras  operacionais 
estão  suscetíveis  serem  aferidos  sanções  graduadas  (que  dependem  da 
seriedade  e   do  contexto  do   delito)  por  outros  apropriadores,  por  oficiais 
responsáveis perante estes apropriadores ou por ambos. 
 
6. Mecanismos  de  resolução  de  conflitos.  Apropriadores  e  seus oficiais tem um 
acesso  rápido  a  arenas  locais  de  baixo  custo  para  resolver  conflitos  entre 
apropriadores ou entre apropriadores e oficiais. 
 
7. Reconhecimento  mínimo  de  direitos  de  se  organizar.   Os  direitos   dos 
apropriadores  de  desenvolver  suas  próprias  instituições  não  são  desafiados 
por autoridades governamentais externas. 
 
Para RRCs que são parte de sistemas maiores: 
 
8. Empresas  aninhadas.  A  apropriação,  fornecimento,  acompanhamento, 
execução,  resolução  de  conflitos  e  atividades  de  governança  são 
15
organizadas em várias camadas de empresas aninhadas.  
 
Aqui  estão  alguns pensamentos que me ocorreram enquanto eu lia os  princípios de comuns 
de  Ostrom.  Historicamente,  muitos  regimes   de  governança de bens  comuns falharam como 
resultado  da  interferência  externa,  por  parte  do  estado  e  de   elites  agrárias,  com  o  espírito 
do Nº7. Isso foi verdadeiro tanto da "reforma" de Stolypin quanto da coletivização forçada de  
Stalin,  que  passaram   ambos   grosseiramente   por  cima  dos  direitos   internos  de 
auto­governança  da  ​
Mir​
.  Além  disso,  a   política  fundiária  de   Stolypin,  em  sua  substância, 
violava  o  No.  1,  permitindo  que  famílias  individuais  retirassem  partes alíquotas de  terra dos 
campos  comuns  da  aldeia  como  um  ​
close  (em  termos   ingleses)  sem  o  consentimento  da 
Mir  como  um   todo.  Ao  fazê­lo, violava o entendimento o social básico da natureza do direito 
de propriedade embutido no sistema desde sua fundação. 
 
Para  colocar  em  termos  compreensíveis pelo tipo de libertário de direita que  instintivamente 
torce  pela  palavra  "privado"  e  vaia  "comum",  imagine  se uma legislatura  passasse por cima 
de  uma  licença  corporativa  e  deixasse  os  acionistas  individuais  invadissem  fábricas  com 
retroescavadeiras  e carregassem alguma parcela alíquota do maquinário ­ sob os termos da  
licença,  detido  unicamente  pela  corporação  enquanto  pessoa  única  ­  das  linhas  de 
montagem.  É  isso  que  as  políticas  de  Stolypin  fizeram  ao  planejamento  de  uso  de  terra 
pelas ​
Mir​
 para aquelas terras que permaneciam dentro de campos abertos. 
 

15

 ​
Ibid.​
, p. 90.  

O  Nº3,  o  direito  daqueles  afetados  pelas  regras  de  ter  voz  no  desenvolvimento  delas  é  ­ 
teorias  normativas  de  democracia  participativa  à  parte  ­  um  pré­requisito  para   uma 
instituição eficientemente funcional. Como Ostrom diz: 
 
instituições   de  RRC  que  utilizam  este  princípio  são  mais  capazes  de  adaptar  suas 
regras   às  circunstâncias  locais,  porque  os   indivíduos   que interagem diretamente um 
com  o  outro  e  com  o mundo físico podem modificar  as regras  ao longo do tempo, de 
16
forma a melhor adequá­las às características específicas de seu ambiente.  
 
A  separação  entre  o  poder  de  tomada  de  decisão  e  tanto  o  conhecimento  situacional 
distribuído  quanto  a  experiência  das  consequências  é  a  chave  para  todos os problemas de 
conhecimento  e  incentivo  de   instituições  autoritárias   hierárquicas,  sejam  elas  governos  ou 
corporações.  A  autoridade  de  cima  para  baixo  é   um  mecanismo  para  expropriar  os 
benefícios  do  trabalho  dos  outros  para  si  mesmo  e  externalizar  custos  e  inconveniências 
para baixo. 
 
Dados  os  problemas  óbvios  de  conhecimento  e  incentivo  resultantes  da  separação  entre 
autoridade  e  competência,  por  que  a  hierarquia  é  sempre  adotada  em  primeiro  lugar?  A 
resposta  encontra­se  em  limpar  nossas  mentes  de  suposições  inconscientes  de  que  o 
desenho  institucional é algo que "nós" ou "a sociedade" faz a  fim de maximizar alguma vaga 
ideia  do  "bem  comum".  A  hierarquia  existe   porque  aqueles   que  dirigem  as   instituições 
dominantes  do  estado  e  da   corporação  tem  um  conflito  fundamental  de  interesses  com  
aqueles  que  possuem o conhecimento situacional, de tal forma que os primeiros não podem 
confiar  que  os  últimos  usem  seu  próprio  bom  senso.  A  gerente  de  uma  instituição 
hierárquica,  como  o  proprietário  de  uma   plantação  de  escravos,  não   pode  confiar  em  seus 
subordinados  para  usar  seu  próprio  bom  senso,  com  receio  de  que  ela  descubra  sua 
garganta  cortada  no  meio  da  noite.  E  os  subordinados  sabem  muito  bem  que,  se  eles 
usarem  seu   conhecimento  situacional  para  maximizar  a  eficiência,  quaisquer  ganhos  de 
produtividade  serão  desapropriados  pela  administração  sob  a  forma  de  reduções,  
acelerações e bônus de gestão. 
 
A  maioria  dos  trabalhos  de  produção  envolvem  uma  boa  quantidade  de  conhecimento 
oculto  ou  distribuído  e  dependem  da  iniciativa  dos  trabalhadores  em  improvisar,  aplicar  as 
habilidades  de  novas  maneiras,  em  face de eventos que são ou totalmente imprevisíveis ou 
não  podem  ser  plenamente  previstos.  Hierarquias  rígidas  e  regras  de  trabalho  rígidas  só 
funcionam  em  um  ambiente  previsível.  Quando  o  ambiente  é  imprevisível,  a  chave  para  o  
sucesso  reside  em  capacitação  e  autonomia  para  aqueles   em  contato  direto  com  a 
situação. 
 
O  problema   com  relações  de  autoridade  em   uma  hierarquia  é  que,  dado  o  conflito  de 
interesses  criado  pela  presença  do  poder,  aqueles  com  autoridade  não  podem  permitir 
discrição  àqueles  em   contato  direto  com  a  situação.  A   estupidez  sistemática  resulta,  por 
necessidade,  de uma situação em que uma hierarquia burocrática deve desenvolver alguma 
métrica  para  avaliar   as  habilidades  ou  a  qualidade  do   trabalho  de  uma  força  de  trabalho 

16

 ​
Ibid.​
, p. 93.  

sobre  cujo   trabalho   real  eles  não  sabem  nada,  e  cujos  interesses  materiais  militam  contra 
remediar  a  ignorância  da  gestão.  Quando  a  gerência   não  sabe  (nas  palavras  de  Paul 
Goodman)  "o  que  um  bom  serviço  no  trabalho  é",  eles  são  forçados  a  confiar  em  métricas 
arbitrárias. 
 
Regras  de   trabalho   weberianas  são  necessárias  porque  os  que  estão  no  topo   da  pirâmide 
não  podem  se  dar  ao  luxo  de  permitir  àqueles  na  parte  inferior  a  discrição  de  usar  seu  
próprio  bom  senso.  Já  que  a  subordinada  tem  um conflito fundamental de interesses com o 
superior  e  não  internaliza  os  benefícios  da  aplicação  de  sua  inteligência,  ela  não  pode  ser 
confiável  para  usar  sua  inteligência  em  benefício  da  organização.  Em  tal  relação  de  soma 
zero, qualquer poder discricionário pode ser abusado. 
 
Por  outro  lado,  os  subordinados  não  podem  se  dar  ao  luxo  de  contribuir  com  o 
conhecimento  necessário  para  projetar  um   processo  de  trabalho  eficiente.  A  analogia  de 
R.A.   Wilson  da  pessoa  em  posição  de  autoridade  confrontando  o  subordinado  como  um 
"assaltante" é boa. A parte com a reivindicação residual em qualquer instituição econômica ­ 
como  uma  empresa  comercial  ­  utilizará  os  poderes  associados  com  a  propriedade  para 
obter uma parcela desproporcional do excedente.  
 
Aqueles  que  carecem  de  participação  acionária  terão  um  incentivo  correspondente  a  não 
investir  o  seu  conhecimento  e  habilidades  no  desempenho  da  empresa.  Assim,  a 
abordagem  mais  racional  para  a  maximização  da  produtividade  é  atribuir  a  reivindicação 
residual  ou  direitos  de  propriedade  às  partes  interessadas,  de  acordo  com  a  sua 
17
contribuição para a produtividade.  
 
Isso  quase  nunca  acontece,  porque  é  do  interesse próprio percebido da gestão se envolver 
em  auto  negociação,  mesmo  à  custa  da  produtividade  geral  da  empresa.  Assim,  os 
trabalhadores  em  vez  disso,  acumulam  conhecimento  e  minimizam  sua  legibilidade  (nos 
termos  de  James  Scott)   para  a  gestão,  e  minimizam  a  chance  de  que  o  aumento  da 
produtividade  resultante  de  seu  conhecimento   oculto  seja   usado  contra  eles  ou 
expropriados.  Por  isso,  as  hierarquias  são  uma  maneira  muito  ineficiente  de  organizar  a 
atividade,  do  ponto  de  vista  do  aproveitamento  de  todas  as  capacidades  e  conhecimentos 
dos trabalhadores. 
 
Mas  quando  dada  uma  escolha  entre  eficiência e controle ­ entre um bolo maior e uma fatia 
maior  de  um  bolo  menor  ­  a  gestão  geralmente  prefere  maximizar  o  tamanho  da  sua  fatia 
em  vez  do  tamanho  do  bolo. A hierarquia  é uma forma de organizar a atividade humana, de 
modo  a  facilitar  a  extração  de  rendas  dela,  mesmo   à  custa  de  uma   severa   degradação  da 
eficiência. 
 
Sistemas  de  monitoramento,  No.  4,  são mais bem  projetados quando "atores mais afetados 
pela  trapaça  [são  colocados]  em  contato  direto  um  com   o  outro".  Por  exemplo,  em  um 
sistema  de  rotação  de  irrigação  o  ator  cujo  turno  é  o  atual  é  impedido  de  aumentar  a  seu 
turno  além  de  seu  fim  programado  pela  presença  dos  atores  cujo  turno  é  o  próximo, 
17

  Sanford   J.  Grossman   e  Oliver  D.  Hart, “The Costs and  Benefits  of  Ownership:  A Theory  of  Vertical 
and Lateral Integration”, ​
Journal of Political Economy ​
94:4 (1986), pp. 716­717. 

18

esperando  ansiosamente   para  assumir.   A  prática  da  vovó  de  deixar  uma  criança  cortar  o 
bolo  ao  meio  e  outro  escolher  primeiro  é  o  exemplo  clássico  desse  princípio.  Em  muitos 
casos,  o   monitoramento  da  utilização  dos  outros  de  um  bem  comum  é  "um  subproduto 
natural  do  uso  dos  bens  comuns".  E   o  monitoramento  bem­sucedido  é  encorajado  pelas 
sanções  e  recompensas  informais,  por  vezes  tão  simples  quanto  a  aprovação  ou 
19
desaprovação social de seus vizinhos.  
 
O  custo  de  supervisão  da  linha  de  frente  é,  geralmente,  cerca  de  um  quarto  do  custo  nas 
cooperativas  de  compensado  de  madeira  do  noroeste  do  Pacífico  do  que  em  operações 
20
capitalistas convencionais, por causa do auto monitoramento dos empregados.  
 
Sob  sanções  graduadas,  as  multas  modestas  realmente  servem  como  um  regime  de 
construção  de  confiança  mútua.   Usuários  que  entram  em  um  sistema  de  governança  
desconfiados  de  que  seus  vizinhos  violarão  as  regras  e,  assim,  tendo  um  incentivo  para 
desertar  eles  mesmos,  irão,  ao  serem  detectados  e  pagarem uma penalidade modesta, ser 
reassegurados  de  que  a  execução  é  crível,  a  conformidade  é  generalizada  e  eles  podem 
esperar se beneficiar em vez de serem aproveitados através da participação no sistema. 
 
Haverá  sempre  uma  pequena  minoria,  é  claro,  que  são  imunes  a tais sanções morais. Mas 
a  maioria  com  quem  essas  sanções  de  fato  funcionam  vai   reduzir  o  custo   de  monitorar 
aqueles que precisam de vigilância mais estrita. 
 
Ostrom  considera  também   as  condições  ideais  para  superar  os  custos  de  transação  de 
melhorar  de  forma  incremental  um  sistema  de   governança  de  RRC.  Ela  começa  com  a 
suposição  de  que os apropriadores estão  "em um local remoto sob um regime político que é 
basicamente  indiferente   ao  que  acontece  em  relação  aos  RRCs  deste  tipo",  e,  portanto, 
pouco  provável  que  interferira,  seja  para  promover  seja  para  impedir  decisões  de 
governança  locais.  Sob  tais  condições,  "a  probabilidade  dos  apropriadores   do  RRC 
adotarem  uma  série  de  mudanças  incrementais  em  regras  operacionais para  a melhoria do 
bem­estar  comum  estará  positivamente  relacionada  com  as  seguintes  características 
internas": 
 
1. A  maioria  dos  apropriadores  compartilha  de  um  julgamento  comum  de  que 
serão prejudicados se não adotarem uma regra alternativa. 
 
2. A  maioria  dos  apropriadores  será  afetada  de  maneiras  similares  palas 
mudanças propostas de regras. 
 
3. A  maioria  dos  apropriadores  valoriza  altamente a continuação das atividades 
deste RRC... 
 

 Ostrom, ​
Governing the Commons​
, p. 95. 
 ​
Ibid.​
, p. 96.  
20
  Edward  S.  Greenberg,  “Producer  Cooperatives  and  Democratic  Theory”  in  Jackall and  Levin,  eds., 
Worker Cooperatives in America ​
(University of California Press, 1986), p. 193. 
18
19

4. Os  apropriadores  encaram  custos   relativamente   baixos  de  informação, 
transformação e execução. 
 
5. A  maioria  dos  apropriadores  compartilha  de  normas  generalizadas  de 
reciprocidade e confiança que podem ser usadas como capital social inicial. 
 

21

6. O grupo que se apropria do RRC é relativamente pequeno e estável.  
 
Em  outras  palavras,  as  mesmas  condições  sob  as  quais  a  lista  anterior  de  oito 
pré­requisitos  para  uma  governança  bem­sucedida  de  RRCs  de  Ostrom  provavelmente 
serão encontradas, em primeiro lugar. 
 
Como  veremos  na  próxima  seção,  estados  exacerbaram  os  problemas  inflando 
artificialmente  a extensão das condições de fundo ­  por exemplo, áreas grandes e anônimas  
de  mercado  com  negócios  pontuais,  atomização  social,  etc.  ­  em   que  não  existem  os 
pré­requisitos de Ostrom para a auto­governança bem­sucedida. 
 
A  existência  de  um  estado  intervencionista  pode  dificultar  a  formação  de  regimes  locais de 
governança  de  RRC de uma outra maneira, mesmo quando as intenções são boas.  Quando 
os  locais  em  uma  área  sem  regimes  de  governança  de  RRC  já  em  vigor  estão  cientes  de 
um  governo  central  com  um  interesse  em  regular  os  RRCs,  a  tentação  de  "esperar  e  ver" 
será  grandemente  aumentada, na esperança de se aproveitar de uma política regulatória do 
22
governo central.  
 
E,  claro,  a  dificuldade  enfrentada  pelos  oficiais  de  um  governo  central  em  obter 
conhecimento  suficiente  das  condições  locais  para  formular  regras  de  governança  tão 
efetivas   quanto  aquelas  projetadas  pelos  apropriadores  locais  em  contato   direto  com  as 
condições  locais  e  a  constante  tentação   de  se  desenvolver  políticas  uniformes  para  todas 
23
as jurisdições impedirão a boa governança.  
 
Centralização,  Atomização  e  Sustentabilidade.  Ostrom,  pesquisando  o   valor  das 
instituições auto organizadas de governança, escreve: 
 
...seremos  tanto  mais  pobres  se  as  instituições  auto  organizadas  não  forem   uma 
porção  substancial  do  portfólio  institucional  do  século  XXI.   Muitas  instituições 
nativas,  desenvolvidas  para  governar  e  gerenciar  recursos de reserva comum locais 
tem  se  provado  capazes  de  possibilitar  que  os  indivíduos  façam  uso  intensivo 
daqueles  recursos  no  longo  prazo   ­  séculos  ou  mesmo  milênios  ­  sem  destruir  a 
delicada  base  de  recursos  da  qual  os  indivíduos  e   sua  futura  progênie  dependem 
para sua subsistência... 
 
Sob  bandeiras  associadas  com  a  conservação  do  meio­ambiente  para  gerações 
futuras, 
doadores 
internacionais,  
governos 
nacionais, 
organizações 
 Ostrom, ​
Governing the Commons​
, p. 211.  
 ​
Ibid.​
, p. 213. 
23
 ​
Ibid.​
, pp. 213­214. 
21
22

não­governamentais  internacionais,  caridades  nacionais  e  outros  têm,  em  muitos  
casos,  involuntariamente  destruído  o  próprio  capital  social  ­  os  relacionamentos, 
normas,  conhecimentos   e  compreensões  compartilhados  ­  que   têm  sido  usadas 
pelos usuários de recursos para sustentar  a produtividade do capital natural ao longo 
dos tempos. 
 
Estas  instituições  estão  mais  em  perigo  quando  oficiais  do  governo  central 
24
presumem que eles não existem (ou não são efetivos).  
 
Infelizmente,  o  quadro  ideológico  convencional  para  o  entendimento  de  instituições   de 
governança  presume  que  o  estado  natural  das  coisas,  ausente  regras  introduzidas  a  partir  
de  cima,  é  uma  guerra  Hobbesiana  de  todos  contra  todos;  a   questão  apropriada, segue­se 
deste  ponto   de  partida,  é  quais  políticas  os  governos  deveriam  formular  para  impor  ordem 
ao caos da interação voluntária. 
 
Essa  mentalidade  representa  séculos  de  hábitos  arraigados de pensamento, resultantes de 
uma  mudança  de  organizações  sociais  primariamente  (para  a  terminologia  de  James  Scott 
em  ​
Seeing  Like  a  State​
)  "legíveis"  ou   transparentes  para  as  pessoas  das  comunidades 
locais  organizadas  horizontalmente  e  opacas  para  o  estado  para  organizações  sociais  que 
25
são primariamente "legíveis" para o estado a partir de cima.  
 
O  tipo  anterior  de  arquitetura,  como  descrito  por   Pyotr  Kropotkin,  era  o  que  predominava 
nas  cidades  livres  em  rede  da  baixa  idade  média  na  Europa.  O  padrão  primário  de 
organização  social  era   horizontal  (guildas,  etc.),  com  as  funções   de  certificação  de 
qualidade  e  de  reputação  visando  principalmente  deixar  a  confiabilidade  dos  indivíduos 
transparente uns para os outros. Para o estado, tais formações locais eram opacas. 
 
Com  o  surgimento  do  estado  absolutista,  o  foco  primário  se  tornou  deixar  a  sociedade 
transparente  (ou  "legível")  a  partir  de  cima.  Coisas  como  a  adoção  sistemática  de 
sobrenomes  de  família  que  persistiam  de  uma  geração  para  a  outra  (e  a  sequência,  no 
século  XX,  de  Números  de  Seguro  Social  e  outros  números  de  identificação do cidadão),  o 
mapeamento   sistemático  de  endereços  urbanos  para  serviços  postais  ou  de  emergência, 
etc.,  foram  todos  para  o  propósito  de  torna  a  sociedade  legível para o estado. Como nós, o 
estado quer manter o controle de onde suas coisas estão ­ e adivinhe o que somos nós? 
 
Antes  desta  transformação,  por  exemplo,  os  sobrenomes  existiam  principalmente  para  a 
conveniência  das  pessoas  em  comunidades  locais,  de  modo  que  pudessem  se  diferenciar 
umas  das  outras.  Os  sobrenomes  eram  adotados  em  uma  base  ad  hoc  para 
esclarecimento,  quando   havia  algum  perigo  de   confusão, e raramente continuavam de uma 
geração  para  a  outra.  Se  houvesse  múltiplos  Joãos   em  uma  vila,  eles  poderiam  ser 
distinguidos  em  qualquer  momento  em  particular   por  ofício  ("João  Moleiro"),  localização 
("João  do  Monte"),  patronímico  ("João  filho  de  Ricardo"),  etc.  Em  contraste,  em  todos  
24

  Ostrom,  "Neither  Market  Nor  State:  Governance  of  Common­Pool  Resources  in  the  Twenty­first 
Century", Palestra  apresentada em 2 de Junho de 1994 no International Food Policy  Research Institute, 
Washington, D.C., p. 2. 
25
 James Scott, ​
Seeing Like a State ​
(New Haven and London: Yale University Press, 1998). 

10 

lugares  onde  houve  sobrenomes  familiares  com  continuidade  transgeracional,  eles  foram 
impostos  por  estados  centralizados  como uma maneira de catalogar e localizar a população 
26
­ tornando­a legível para o estado, na terminologia de Scott.  
 
Durante  a  ascensão  do  Estado  moderno,  as  instituições  horizontais  das  cidades  livres 
foram,   na  melhor  das  hipóteses,  apenas  toleradas  ­  e  geralmente  nem  isso.  Kropotkin 
escreveu: 
 
Durante  os  três  séculos  seguintes,  os Estados, tanto na Europa quanto nestas ilhas, 
eliminaram  todas   as  instituições   nas  quais  a  tendência  da  ajuda  mútua  encontrara 
expressão.  As  comunidades  aldeãs  foram  privadas  de  suas assembleias populares, 
de  seus  tribunais  e  de  sua  administração  independente;  suas  terras  foram 
confiscadas.  As  guildas  foram espoliadas de suas posses e liberdades e submetidas 
ao  controle,   ao capricho e ao suborno dos funcionários do Estado... Ensinava­se nas 
universidades  e  do  púlpito  que   as  instituições  com as quais antigamente os homens 
expressavam  suas necessidades de ajuda mútua não eram toleráveis em um Estado 
adequadamente  organizado;   que  apenas  o  Estado  poderia  representar  os  laços  de 
união  entre  seus  súditos;  que  o  federalismo  e  o  “particularismo”  eram  inimigos   do 
progresso  e  que  o  Estado  era  o  único  iniciador   apropriado  de  novos 
desenvolvimentos.  Por  volta  do  final  do  século  passado,  os  reis  da  Europa,  o 
parlamento  nestas   ilhas  e  a  Convenção  revolucionária  da  França,  embora 
estivessem  em  guerra  entre  si,  concordaram  em  afirmar  que  nenhum  tipo  de 
associação  independente  entre  cidadãos  deve  existir  dentro  do  Estado...  “Nada  de 
Estado  dentro  do  Estado!  ”  Só  o  Estado...  deve  cuidar  de  questões  de  interesse 
geral,  enquanto  os  súditos  deviam  representar  agregados  frouxos  de   indivíduos, 
sem  vínculos  particulares e obrigados a apelar ao governo toda vez que sentissem a 
pressão de uma necessidade comum... 
 
A  absorção  de  todas  as  funções  sociais  pelo   Estado  favoreceu   necessariamente  o 
desenvolvimento  de  um  individualismo  desenfreado  e  tacanho.  À  medida  que  as 
obrigações  para  com  o  Estado   cresceram  em  número,  os   cidadãos  iam  sendo 
27
evidentemente aliviados das obrigações de uns para com os outros.  
 
Da  mesma  forma,  a  preempção  e  absorção  ­  ou  supressão  ­  de  todas  as  funções 
regulatórias  por  parte  do  estado  favoreceu  o  desenvolvimento  de  uma  mentalidade  pela 
qual  os fornecedores de bens e serviços foram dispensados de suas obrigações de fornecer  
certificações  confiáveis  da  qualidade  de  seus  produtos  para  os  consumidores  e 
consumidores  foram  dispensados  de  suas  obrigações  de  controle  da  sua  qualidade  e  da 
reputação  dos  vendedores.  Era  trabalho  do  estado  cuidar  desse  negócio  para  nós,  e  nós 
não precisamos preocupar nossas cabeças com isso. 
 
Para  realizar  uma   mudança  de  volta  para  a  transparência  horizontal,  será  necessário 
superar  um  poderoso  hábito  cultural  residual,  entre  o  público  em  geral,  de  pensar  em  tais 
 ​
Ibid.​
, pp. 64­73.  
 Pyotr  Kropotkin, ​
Mutual Aid: A Factor  of Evolution  (New York:  Doubleday, Page & Company, 1909), 
pp. 226­227 
26
27

11 

coisas   através  dos  olhos  da  mente  do  estado:  ou seja, se "nós" não tivermos alguma forma 
de  verificar  o  cumprimento  de  uma  regulamentação  atual  ou  outra,  alguma  empresa,  em 
algum  lugar,  pode  ser   capaz  de  se  safar  de  uma  coisa  ou  outra.  Temos  que  superar 
seiscentos  anos,  mais  ou  menos,  de  hábitos  quase  inatos  de  pensamento,  nos  quais  o 
estado  é  o  guardião  que  tudo  vê  da  sociedade,  nos  protegendo  da  possibilidade  de  que 
alguém, em algum lugar, poderia fazer algo errado, se "as autoridades" não o impedissem. 
 
No  lugar  desse  hábito  de  pensamento,  devemos  pensar,  em  vez  disso,  em  nós  mesmos 
criando  mecanismos  com  base  em  rede,  para  nos   tornarmos   tão  transparentes  quanto 
possível  entre  nós,  enquanto  fornecedores   de  bens  e serviços  para evitar que as empresas 
se  safem  com  mau  comportamento,  nos  informando  uns  aos  outros  para  evitar  que 
vendamos  mercadorias  com  defeito  uns  aos  outros,  para  nos  proteger  de  fraudes,  etc.  O 
estado  tentou  cooptar  a  retórica  da  horizontalidade  (por  exemplo,  "Nós  somos  o governo"). 
Mas,  na  verdade,  a  criação  de  tais  mecanismos  ­  longe  de  nos   tornar transparentes para o 
estado  regulatório  ­  pode  exigir  medidas  ativas  para  nos  tornar  opacos  para  o  estado  (por  
exemplo,  criptografia,  darknets,  etc.)  para  a  proteção  contra  as  tentativas  de  suprimir  tal 
auto­organização local contra os interesses dos atores corporativos. 
 
Precisamos  perder  o  hábito centenário de pensar sobre a "sociedade" como um mecanismo 
de  eixo­e­raios  e  de  ver  o  mundo  vicariamente  a  partir  da  perspectiva  imaginada do eixo e, 
em  vez  disso,  pensar  sobre  ela  como  uma  rede  horizontal  e  visualizar  as coisas a partir  da 
perspectiva  dos  nós  individuais  que  ocupamos.  Precisamos perder o hábito de pensamento 
através  do  qual  a  transparência  a  partir  de  cima  sequer  veio   a  ser  percebida  como  uma 
questão  em   primeiro  lugar.  Porque  as  pessoas  que  estão  vendo  as  coisas  "de  cima",  na 
realidade, não nos representam ou têm qualquer coisa em comum conosco. 
 
Tal  mudança  de  perspectiva  exigirá,  em   particular,  superar   a  hostilidade  de  liberais  
convencionais  que  têm  o  hábito  de  reagir  visceral  e  negativamente,  e  por  princípio,  a 
qualquer  coisa  que  não  esteja  sendo  feita  por  "profissionais  qualificados"  ou  pelas 
"autoridades apropriadas". 
 
Sem dúvida, liberais convencionais, com seu sistema de pensamento originando­se, como o 
fez,  como  a  ideologia  dos  gerentes  e  engenheiros  que  administravam   as  corporações, 
agências  governamentais  e  outras  organizações  gigantescas  do   final  do  século  XIX  e 
começo  do  XX,  desempenharam  o  mesmo  papel  para  o  nexo  corporativo­estatal  que  os 
politiques​
 desempenharam para os estados absolutos do começo da idade moderna. 
 
Em  seu  antigo   programa  na  MSNBC,  Keith  Olbermann  rotineiramente  zombava  das 
exortações  à  caridade  e  à  autoajuda,  buscando  imagens de caipiras do século XIX fazendo 
arrecadações  de  celeiro,  por   falta  de   qualquer  outra  comparação  suficiente,  para  deixar 
claro  o  quão   retrógrado  e  ridículo   esse  tipo  de  coisa  realmente  era.  No  mundo  de 
Olbermann,  claro,  tais ideias  vêm unicamente de conservadores. A única escolha ideológica 
é  entre  o  liberalismo  gerencialista  puro  e   simples  e  a  Direita.  No  mundo  de  Olbermann,  a  
Esquerda  descentralista  de  Ivan  Illich,  Paul  Goodman  e  Colin  Ward  ­  "a  'Esquerda 
regressiva' de anarquistas,  utópicos e visionários, que tende a se manifestar apenas quando 

12 

os  genes  dominantes  como  Lenin ou Harold Wilson estão fora fazendo alguma outra coisa", 
como um dos editores da ​
Radical Technology ​
coloca ­ sequer existe. 
 
Ajudar  seu  vizinho  diretamente  ou  participar  em  uma  sociedade  fraternal  ou  mutual  auto 
organizada   é  aceitável,  em  sua  própria  maneira,  claro  ­  se  nada  mais  estiver  disponível. 
Mas  carrega  a   mancha  inescapável  não   apenas  do  excêntrico,  mas  do  provinciano  e  do 
reles  ­  muito  parecido  com  a   estigmatização  do  pão  caseiro  e  dos  vegetais  caseiros  na  
propaganda  corporativa no começo do século XX, falando nisso. Pessoas que ajudam umas 
às  outras  ou   se  organizam  voluntariamente  para  compartilhar  riscos  e  custos  devem  ser 
louvadas  ­   com  apenas  o  menor  indício  de  condescendência  ­  por  heroicamente  fazer  o 
melhor  que  podem  em  uma era de serviços sociais implacavelmente reduzidos. Mas que as 
pessoas  sejam  forçadas  a  recorrer  a  tais  expedientes,  em  vez  de  encontrar  todas  as  suas 
necessidades  de  rede  de  segurança  social  através   de  uma  única  sessão  de  compras  no 
escritório  do  Ministério  de  Serviços  Centrais   em  uma  construção  monumental  gigantesca 
com  uma  estátua  de  uma  vitória  alada no saguão,  a la ​
Brazil​
, é uma acusação grave contra 
qualquer  sociedade  civilizada.  A  sociedade  progressista  é  uma  de  cidadãos  confortáveis  e 
bem­alimentados,  administrados  de  forma  competente  por  autoridades  apropriadamente 
credenciadas,  vagueando  contentemente  como  formigas  às  sombras  de  construções  de 
quilômetros  de  altura  que  parecem  que  foram  projetadas  por  Albert  Speer.  E  esse  tipo  de 
utopia  de  H.  G.  Wells  simplesmente  não  tem espaço para atavismos como arrecadação em 
celeiros ou uma associação em benefício dos enfermos. 
 
Não  apenas  Ostrom  desafia  as  suposições  autoritárias  da  visão  recebida,  como  o  foco  de 
seu  trabalho  é  quase  inteiramente  nos  fatores  que  fomentam  a   legibilidade  horizontal  na 
formação de redes de confiança. 
 
...refoca  a  análise,  saindo  de  uma  suposição  que  os   indivíduos   estão 
irremediavelmente  presos   em  uma  situação  da  qual  não  conseguem  se 
arrancar  sem  uma  autoridade  externa  que  decida  o  que  deveria  ser  feito  e 
imponha  essa  decisão  aos  participantes.  Perguntar  o  que  "o"  governo 
deveria  fazer  assume  que  atores  externos  sempre  apresentarão  decisões 
sábias  e   as  implementarão  efetiva  e  razoavelmente.  A  perspectiva  deste 
capítulo  leva  o  analista a inquirir como indivíduos que encaram problemas de 
comuns  podem  obter   a  confiança  de  que  os  outros  são  confiáveis  e  de  que 
um cooperador  não será um idiota que contribui enquanto outros continuam a 
28
se aproveitar.  
 
Deveríamos  estar  perguntando  como  diferentes  instituições  auxiliam  ou 
enfraquecem   as  normas  de reciprocidade, em vez de simplesmente presumir 
que  uma autoridade central é necessária para impor as regras relacionadas à  
29
cooperação aos participantes...  
 
Ela lista uma séria de fatores que facilitam a criação de uma garantia de bens comuns: 
 
28
29

 Ostrom, “Building Trust to Solve Commons Dilemmas,” pp. 12­13. 
 ​
Ibid.​
, p. 25.  

13 

Quando  a  estrutura  de  uma  situação   incluir  interações  repetidas,  o  nível  de 
cooperação  alcançado  provavelmente   aumentará  naqueles  contextos  em  que  os 
seguintes atributos ocorrerem; 
 
4. Informação sobre ações passadas são colocadas à disposição; 
 
5. Interações repetidas ocorrem entre o mesmo conjunto de participantes; 
 
6. Os  participantes  conseguem  sinalizar  uns  aos  outros  enviando  informações 
pré­estruturadas; 
 
7. São  adotadas e  aplicadas prescrições que, quando seguidas, de fato levam a 
resultados maiores; 
 
8. Os  participantes  são  capazes  de  se  envolverem  em  comunicação  plena 
(através  da  escrita  ou  de "salas de bate­papo" sem conhecerem a identidade 
dos outros envolvidos); 
 
9. Os  participantes  são  capazes  e  se  envolverem  com  outros  conhecidos 
(através  de  discussões  face­a­face  ou  de  outros  mecanismos);  Além  da 
comunicação,  os  participantes  podem  sancionar  (ou   recompensar)  uns  aos 
outros pelas ações passadas que tomaram; e 
 
10. Os  participantes  podem  projetar  suas  próprias  regras  em  relação  aos  níveis 
de  cooperação  e  às   sanções  que  devem  ser  atribuídas  àqueles  que  não  
30
seguirem as regras acordadas.  
 
A  comunicação  é  central  para  o  modelo  de  Ostrom  para  a  formulação  de  sistemas  viáveis 
de governança. A "teoria pura" por trás do jogo do Dilema do Prisioneiro, ela escreve, 
 
é  sobre  indivíduos  que  não  conhecem  um  ao  outro,  não  compartilham  uma  história 
comum  e  não  podem  se  comunicar   um  com  o  outro.  Neste   modelo,  a  teoria  dos 
jogos  prevê  que  os  indivíduos  usando  conjuntamente um bem comum irão consumir 
excessivamente, levando à "Tragédia dos Comuns" de Hardin (1968). 
 
....  Quando  um  conjunto  de   sujeitos  anônimos  toma  decisões,  sem  comunicação, 
sobre  a  apropriação  de   um  recurso  de  reserva  comum,  uma   única  vez  ou  repetida 
de  maneira  finita,  em  um  ambiente  de  laboratório  em  embasado  na  teoria 
bioeconômica  de  Gordon  (1954),  eles  se  comportam  largamente  como  a  teoria  dos 
jogos  prevê....  Eles  consomem  em   excesso....  Isto,  contudo,  não  é  o fim da história. 
Fazendo  uma   simples  mudança   no  desenho  de  um  experimento  de  laboratório, 
permitindo  que  os  participantes  se  envolvam  comunicação  face­a­face  (conversa 
fiada),  lhes  possibilita  reduzir  o  consumo  excessivo  substancialmente....  Quando 
dados  a  chance  de  se  comunicar,  a  maioria  dos  sujeitos  primeiro  tenta  descobrir 

30

 ​
Ibid.​
, p. 22.  

14 

qual  é  a  melhor  estratégia  conjunta.  Os  sujeitos  que   são mais bem­sucedidos usam 
a  comunicação   para  ajudar  a  construir  uma  identidade  de  grupo  e  um 
comprometimento  de  seguir   a  estratégia  acordada  entre   eles...  O  comportamento 
muda  dramaticamente  e  os  sujeitos  aumentam  grandemente  seus  retornos 
conjuntos... 
 
....  Mais  ainda,  quando  dados  uma   oportunidade  de  desenvolver  suas  próprias 
regras  de sancionamento, aqueles que adotam suas próprias regras tendem a seguir 
estas  regras  rigorosamente,  alcançam  retornos  conjuntos  maiores  e  o  uso  da 
punição  cai  a  quase  zero  (Ostrom  et  al.  1992).  Em  paralelo  a  descobertas  em 
laboratório,  pesquisadores  de  campo  registraram  um  grande  número  de  cenários 
empíricos   em  que  aqueles  diretamente  envolvidos  em  um  comum  desenvolveram,  
adotaram  e  monitoraram  eles  mesmos  as  regras  que  ao  longo  do   tempo  levaram  a  
31
instituições robustas de recursos de reserva comum....  
 
É  interessante  que  não   apenas  os  resultados  patológicos  no  jogo  do  Dilema  do  Prisioneiro 
dependem  de  impedir  a  comunicação  horizontal,  mas  os  resultados   do  Experimento  de 
Milgram  dependeram  de  isolar  totalmente  cada  sujeito  em  face  à   autoridade  ­ 
essencialmente  a  estratégia  de  "individualização"   que  Foucault  descreveu  em  ​
Vigiar  e 
Punir​
.  O  comportamento   pró­social  e  cooperativo  depende  das  pessoas  estarem  em 
situações  contínuas  com  canais   de  comunicação  horizontais,  nos  quais  elas  sabem  que 
estarão  lidando  umas  com  as  outras  no  futuro  e  têm  um  incentivo  para  não  cagar  onde  
comem. 
 
Em  outro  lugar,  as   normas  compartilhadas  figuram  proeminentemente  na  lista  de   Ostrom 
dos  atributos  de  comunidade  que  são  relevantes  para  sistemas  locais  sustentáveis  de 
regras para se governar recursos comuns: 
 
os  valores  de  comportamento  geralmente  aceitos  na  comunidade;  o  nível  de 
entendimento  comum  que  os  participantes  em  potencial  compartilham...  sobre  a 
estrutura  de  tipos  particulares  de  arenas  de  ação;  a  medida da homogeneidade nas 
preferências  daqueles  que  vivem  em  uma  comunidade;  o  tamanho  e  a  composição 
da  comunidade  relevante;   e  a  medida  de  desigualdade  de  ativos  básicos  entre 
32
aqueles afetados.  
 
Normas  culturais  locais  compartilhadas  e  modelos  cognitivos  para  se  interpretar  o 
33
comportamento  dos  outros  são  importantes  para  um  sistema  sustentável  de  regras.  
Quando  os  participantes  compartilham  normas  culturais  contra  a  deserção,  eles 
provavelmente  se  comportarão  de  maneira  mais  cooperativa  do  que  a  teoria  dos  jogos, 
34
baseada em considerações puramente maximizadoras de utilidade, prediria.  
31

 Elinor  Ostrom.  "Building  Trust to Solve  Commons  Dilemmas: Taking Small Steps to  Test an Evolving 
Theory  of  Collective Action",  Workshop  em  Teoria  Política  e Análise Política. Indiana University.  Center  
for the Study of Institutional Diversity (Arizona State University, 2008), pp. 2­3. 
32
  Ostrom,  ​
Understanding  Institutional  Diversity  (Princeton  and  Oxford:  Princeton  University  Press, 
2005), pp. 26­27. 
33
 ​
Ibid.​
, pp. 106­108. 
34
 ​
Ibid.​
, p. 122. 

15 

 
Claro,  os  indivíduos  começam  com  mais  inclinação  inata  à  cooperação  do  que a teoria dos 
jogos  prediria.  Ostrom  ecoa  a  abordagem  cooperativa  de  Kropotkin  à psicologia evolutiva a 
respeito disso: 
 
A  evolução  humana  ocorreu  majoritariamente  durante  a  longa  era  do  Pleistoceno, 
que  durou  por  volta  de  3   milhões  de  anos  até  cerca  de  10.000  anos  atrás.  Durante 
esta  era,  os  humanos  andavam  pela  terra  em  pequenos  bandos  de 
caçadores­coletores  que  eram  dependentes  uns  dos  outros  para  proteção  mútua, 
compartilhamento  de  comida  e  provisão  para  os  jovens.  A  sobrevivência  era 
dependente  não  apenas  de  buscar  agressivamente  retornos  individuais,  mas 
também  de  resolver  muitos   problemas  cotidianos  de  ação  coletiva.  Aqueles  de 
nossos  ancestrais  que  resolviam  estes  problemas  mais  efetivamente  e  aprendiam 
como  reconhecer  quem  era  traiçoeiro  e  quem  era  um  reciprocador  confiável  tinha 
uma   vantagem  seletiva  sobre  aqueles  que  não  o  faziam....  Os  humanos  adquiriram 
habilidades  bem  afiadas  de  reconhecimento  facial  e  fortes   capacidades  de  detectar 
trapaça.  Pesquisas  fornecem  evidência  de que os humanos mantêm contas internas 
35
aproximadas ­ tanto de boa­vontade... quanto de ameaças...  
 
Além  de  tudo  isso,  o   comportamento  também  evolui  em  um  padrão  Lamarckiano,  com 
estratégias  bem­sucedidas  rapidamente  se  popularizando  e  sendo  propagadas 
36
culturalmente.  
 
Os  indivíduos  também  estão  mais propensos a se  comportar  cooperativamente e a formular 
um  conjunto  sustentável  de  regras  de  governança,  se  estiverem  engajados  em  um 
relacionamento  contínuo  no  qual  a  deserção  no  presente  tem  consequências  no  futuro  e  a  
confiança  aumenta  com  a  interação  continuada,  em  vez  de  em   uma  troca  pontual  com 
pessoas  que  não  se  verão  novamente.  Os  resultados  dos  jogos  do   Dilema  do  Prisioneiro 
variam  bastante,  dependendo  de  "se  os  participantes  estão  engajados  em  um  encontro 
37
pontual ou ao longo de uma sequência indefinidamente longa de partidas" ​

 
A  questão  não  é   simplesmente  se  estados  não  ​
necessários  para  se  criar  sistemas   de 
governança  cooperativa.  O  modelo  de  capitalismo   corporativo  promovido  pelos  estados 
modernos,  sem  dúvidas,   fomenta  níveis  de  centralização,  atomização  e  anonimidade   que 
minam  diretamente  as  condições  necessárias  para  sistemas  estáveis  de  regras  de 
governança  local  e,  em  vez  disso,  são  conducentes  a  adoção  individual   de  estratégias 
egoístas racionais, às custas de outras mais cooperativas. 
 
Como  William  Gillis  coloca,   "Os  estados  criam  ambientes  da  teoria  dos  jogos  em  torno  de 
38
suas periferias que suprimem a cooperação e recompensam estratégias anti­sociais" ​

 
 ​
Ibid.​
, p. 125. 
 ​
Ibid.​
, pp. 126­127. 
37
 ​
Ibid.​
, p. 53.  
38
  William  Gillis,  “The  Retreat  of  the  Immediate”,   Center   for  a  Stateless  Society,  November  17, 2013 
<​
http://c4ss.org/content/22627​
>. 
35
36

16 

O  capital  social  incorporado  nos  sistemas  auto organizados de governança levam gerações 
de  experiência  vivida  para  se   construir  e  pode  ser  rapidamente  dissipado  quando  políticas 
estatais lhe são destrutivas. 
 
Os  aspectos  cognitivos  compartilhados  do  capital  social  ajudam  a  explicar  duas  de 
suas  características  incomuns  que  diferem  daquelas  do  capital  físico.  Primeiro,  o 
capital  social  não  se  desgasta quanto mais é usado. Ele pode, na verdade, melhorar 
com  o  uso,   contanto  que  os  participantes  continuem  a  manter  os  compromissos 
anteriores.  Usar  o  capital  social  para  um  propósito  inicial cria entendimento mútuo e 
maneiras  de  se  relacionar  que  podem  frequentemente  ser  usadas  para  realizar 
atividades  conjuntas  inteiramente  diferentes  a custos iniciais muito mais baixos. Não 
é  que  as  curvas  de   aprendizado  para  novas  atividades  desapareçam  inteiramente. 
Em  vez  disso,  uma  das  secções  mais  íngremes  de  uma  curva  de  aprendizagem  ­ 
aprender  a  assumir  compromissos  e  a  confiar  um  no   outro  em  uma  empreitada 
conjunta  ­  já  foi  superada.  Um  grupo  que  aprendeu  a  trabalhar  junto  de  maneira 
efetiva  em   uma  tarefa  pode assumir outras tarefas similares a um custo, em tempo  e 
esforço,  que  é  bem  menor  do  que   reunir  um  grupo  inteiramente   novo  que  tem  que 
aprender  tudo  desde  o princípio. A  fungibilidade do capital social, claro, está limitada 
a atividade largamente similares. Nenhuma ferramenta é útil para todas  as tarefas. O 
capital  social  que  está  bem  adaptado  a  um  amplo  conjunto  de  atividades  conjuntas  
pode  não  ser  facilmente  moldado  a  atividades  que  requerem  padrões  vastamente 
diferentes  de  expectativas,  autoridade  e  distribuição  de  recompensas  e  custos   do 
que aqueles usados nas atividades iniciais. 
 
Segundo,  se não utilizado,  o capital social  deteriora a  uma taxa relativamente rápida.  
Indivíduos  que  não  exercitam  suas  próprias  habilidades  podem  perder  capital 
humano  relativamente  rápido.  Quando  diversos indivíduos têm todos que se lembrar 
da  mesma  rotina,  da  mesma  maneira,  contudo,  a  probabilidade  de  que  pelo  menos 
um  deles  se  esqueça  de  algum   aspecto  aumenta  rapidamente  ao  longo   do  tempo. 
Além  disso,  conforme  o  tempo  passa,  alguns  indivíduos  deixam  e  outros  entram  no 
grupo  social.  Se  os  recém­chegados  não  forem   introduzidos   a  um  padrão 
estabelecido  de  interação  conforme  eles  entram  (através  de  formação  profissional, 
iniciação  ou  qualquer  uma  da  miríade  de  outras  maneiras  em  que  o  capital  social  é 
passado  de  uma  geração  para   a  próxima),  o  capital  social  pode  se  dissipar  através 
da  não  utilização.  E  aí  ninguém  está  bem  certo de como uma atividade conjunta em 
particular  costumava  ser  feita.  Ou  o  grupo  tem  que  pagar  alguns  dos  custos iniciais 
mais  uma  vez  ou  renunciar  às  vantagens  conjuntas   que  haviam  alcançado  em  um 
39
momento anterior.  
 
Autoridade,  Legibilidade  e  Alto  Modernismo  Autoritário:  Folheando  James  Scott.  De 
acordo  com  Ostrom,  a  maior parte da literatura é "omissa" sobre questões que envolvem os 
fatores  que  influenciam  a   adoção  de  regras  de  governança  de  recursos  de  reserva comum 
por  parte  dos  apropriadores,  "uma  vez que se faz a presunção, nesta literatura, de que criar 

39

 Ostrom, “Neither Market Nor State,” p. 21. 

17 

políticas  é  o  que   oficiais  do  governo,  e  não  aqueles  que  são  diretamente  afetados  pelos 
40
problemas, fazem" ​

 
Infelizmente  ­  da  perspectiva  dos  oficiais  do  governo,  em  todo  caso  ­  os  tipos  de  políticas 
criadas  por  oficiais  do   governo,  em  vez  daqueles  diretamente  afetados  pelos  problemas, 
quase  sempre  resultam  em estupidez, irracionalidade e suboptimalidade. Na verdade, isto é 
verdadeiro  sobre  todas  as  situações ­ incluindo decisões por parte da gerência corporativa ­ 
em  que  regras  embasadas  em autoridade se sobrepõem o julgamento daqueles em contato 
direto com uma situação. 
 
Ostrom  cita  uma  ampla  gama  de  estudo  que  mostram  que  "agências  governamentais 
nacionais  têm  sido  notavelmente  malsucedidas  em  seus  esforços  de  projetar   conjuntos 
efetivos   e  uniformes  de  regras  para  regular  importantes  recursos  de  reserva  comum  ao 
longo  de  um   amplo  domínio",  incluindo  políticas  governamentais  de  nacionalização  de 
41
florestas,  áreas  de  pesca,  etc.,  anteriormente  governadas  pelos  grupos  usuários  locais.  
Muitos  países  em  desenvolvimento  recentemente  independentes  nacionalizaram  recursos 
terrestres  e  hídricos  no  período  a   partir  da  década  de  1950  até  os  anos  1970,   com 
resultados decepcionantes. 
 
Os  arranjos  institucionais  que  os  usuários de recursos locais haviam concebido para 
limitar  a  entrada  e  o  uso  perderam  seu  estatuto jurídico. Os governos nacionais que 
assumiram  estas  novas  e  difíceis  tarefas  careciam  de  fundos  e  pessoal  adequados 
para  monitorar  o  uso  de  recursos   efetivamente.   Eles  frequentemente  se  voltaram 
para  firmas  privadas  de  silvicultura  para  obter  receitas  a  partir  destes  recursos. 
Governos   nestes  países  queriam  converter  recursos  de  reserva  comum  em  um 
regime  de  jure   de  propriedade  governamental,  mas  suas  ações  frequentemente  
resultaram  em  regimes  de  facto  de  acesso   livre.... Os incentivos de um bem comum 
de  acesso  livre  foram  acentuados,  uma  vez  que  os  usuários  locais  haviam  sido 
especificamente  informados  de  que  não receberiam os benefícios de  longo prazo de 
42
seus próprios custosos esforços de manejo.  
 
Conforme  a  preocupação  com  a  proteção  dos  recursos  naturais  escalou  durante  os 
anos  1960,  todos  os  países  em  desenvolvimento  nacionalizaram  todos  os  recursos 
terrestres  e  hídricos  que  ainda  não  haviam  sido  registrados  como  propriedade 
privada.  Os  arranjos  institucionais  que  os  usuários  de  recursos  locais  haviam 
concebido  para  limitar  a  entrada  e  o  uso  perderam  seu  estatuto   jurídico,  mas   os 
governos nacionais careciam de recursos monetários e pessoal para monitorar o uso 
destes recursos efetivamente. Assim, recursos  que haviam estado sob um regime de 
facto  de  propriedade  comum  aplicado  pelos  usuários  locais  foram  convertidos  a  um 
regime  de  jure   de  propriedade  governamental,  mas  se  reverteram  a  um  regime  de 
facto  de  acesso   livre.  Quando  recursos  que  eram  anteriormente  controlados  por 
participantes  locais  foram  nacionalizados,  o  controle  estatal   usualmente  provou  ser 
menos  efetivo  e eficiente do que o controle por parte  daqueles diretamente afetados, 
 Ostrom, ​
Understanding Institutional Diversity​
, p. 220. 
 ​
Ibid.​
, p. 221 
42
 ​
Ibid.​
, pp. 221­222. 
40
41

18 

se  não  desastroso  em  suas  consequências...  Os  efeitos  prejudiciais  de  se 
nacionalizar  florestas  que  haviam  sido  anteriormente  governados  por  grupos 
usuários  locais  têm  sido  bem  documentados  na  Tailândia...,  Nepal...  e  Índia... 
Resultados  similares  ocorreram  em  relação  a  áreas de pesca costeiras tomadas por 
agências  estaduais  ou  nacionais do controle local por parte dos próprios pescadores 
43
costeiros...  
 
Duas  coisas  são  dignas  de  nota  aqui.  Primeiro,  relações  de   autoridade  criam  problemas 
tanto  de  conhecimento  quanto  de  incentivo  que  resultam  da  internalização   deficiente.  O 
principal  efeito  da  autoridade  é  dissociar  o  poder  de  tomada  de  decisão  tanto  do  
conhecimento  situacional  quanto  da experiência das consequências da decisão. Isto  parece 
lógico,  uma  vez  que  o  poder  é,  por  definição,  a  capacidade  de  sobrepor  o  julgamento  de 
outros,  deslocar  os  custos  para  outros  e  se  apropriar  dos  benefícios  para  si  mesmo. Privar 
os  usuários  dos  comuns dos benefícios de um manejo sábio de recursos  de reserva comum 
destrói seu incentivo para monitorar eficientemente e fazer cumprir a utilização. 
 
Isto  nos  leva  ao  segundo  ponto  digno  de   nota:  políticas adotas por aqueles com autoridade 
frequentemente  refletem  um  relacionamento  de  soma  zero  entre  seus  interesses  e  os 
daqueles  sobre  quem  eles  exercem  autoridade,  na   qual  o  efeito  prático  de   uma  política  ­  a  
despeito  de  seu  enquadramento  e  legitimação  ideológica  em  termos  de  "eficiência", 
"conservação"   ou  algum  outro  tipo  de  consideração  de   "bem­estar  geral"   ­  é   promover 
diretamente  os  interesses  das  autoridades  e  de  seus  aliados  às  custas  dos  governados.  A 
referência  a  relacionamentos  colusivos  entre   autoridades  regulamentadoras  e  firmas 
privadas de silvicultura na citação acima é um exemplo clássico disso. 
 
Ostrom  prossegue  citando  descobertas  de  que  "sistemas  de  irrigação  governamentais  em  
larga  escala  não  tendem  a  ter   um  desempenho  no  mesmo  nível  que  sistemas  de   pequena 
escala  gerido  por  fazendeiros",  e  "em  termos de intensidade de cultivo e produção agrícola, 
sistemas  de  irrigação  construídos  de  maneira  rudimentar  usando  barro,  pedra,  madeira  e 
gravetos  têm  um  desempenho  significativamente  superior  a  sistemas  construídos  com 
44
concreto moderno e estruturas de captação de ferro operados por agências nacionais" ​

 
O  conhecimento  situacional  dos   participantes  é  a  chave  para  se  governar  sistemas  
adaptativos  complexos.  E,  uma  vez  que  o  número   total  de  componentes   possíveis  de  uma 
política  é  grande  demais  para  um  tomador  de  decisão  considerar  todas  as   suas 
combinações  possíveis,   a  abordagem  mais  bem­sucedida  à  tomada  de  decisão  é,  muitas 
vezes,  selecionar  a  partir  de  uma   série  de  possíveis  combinações  com  base  na  intuição  e 
no  desempenho  passado  ­  combinados  com  a  capacidade  daqueles  em  contato  com  a 
situação  de  retocar   e  ajustar  rapidamente  em  face  do  retorno  imediato.  Ostrom  usa  o 
exemplo do projeto de aeronaves. 
 
Por  tempo   demais,  cientistas  sociais  visualizaram  a  física  de  sistemas  estáticos   e 
simples  como   o  modelo  de  ciência  que  deveríamos  tentar  emular.  Aqueles  que 
43

 Elinor  Ostrom e Charlotte Hess. “Private and  Common Property Rights", Workshop em Teoria Política  
e Análise Política, Indiana University W07­25 11/29/07, pp. 7­8. 
44
 Ostrom, ​
Understanding Institutional Diversity​
, p. 222. 

19 

querem  emular  a  ciência  de  sistemas  estáticos  e  simples  estão  grosseiramente 
desatualizados  quando  se  trata  de  entender  a  ciência  contemporânea  e 
particularmente  a  engenharia   contemporânea.  Os  engenheiros  responsáveis  pelos 
projetos  de  aviões  e  pontes  ­  e,  agora,  computadores   ­  têm  há  muito  lidado  com 
sistemas  dinâmicos  complexos.  O  Boeing  777,  por  exemplo,  tem  150.000 
subsistemas  distintos  que  são  compostos,  em  alguns  casos,  de  componentes 
altamente complexos. 
 
Os  engenheiros  de  projeto   de  sistemas  complexos  há  muito  perderam  a  esperança 
de  sequer  fazer  análises  completas  de  todas  as  combinações  de  subsistemas  sob 
todas  as  combinações  de  condições  ambientais  externas.  Obviamente,  eles 
investem  pesadamente  em  testar  diversos  elementos  de  projeto  sob uma variedade 
de  condições.  Testar  projetos  construindo  modelos,  usando  tuneis  de  vento  e 
simulações  de  computador,  aumenta  a  probabilidade  de  que  os   engenheiros 
consigam  produzir  uma  combinação  viável  de  elementos  de  projetos  que   sejam 
robustos  sob  muitas  condições.  Eles  também   investem  em   sistemas  de  apoio  
complexos  que   permitem  que  estes  sistemas  projetados  alcancem  um  alto  grau  de 
robustez ­ o que significa a capacidade de manter algumas características desejadas 
do  sistema  sob  mudanças  nas  condições.  Todos  esses  sistemas  robustos  são,  
contudo,  frágeis  a  uma  variedade  de   pequenas  perturbações...  Perturbações 
pequenas  e   raras  podem  causar  uma  cascata  desastrosa  de  falha   em  qualquer 
sistema projetado altamente complexo. 
 
Em  vez  de  assumir  que  conceber  regras  que  se  aproximam  da  optimalidade,  ou 
mesmo  melhorem  o  desempenho,  seja  uma  tarefa  analítica  relativamente  simples 
que  pode  ser  realizada  por  analistas  distantes  e  objetivos,  precisamos  entender  o 
processo  de  elaboração  de  políticas  como  envolvendo  um   esforço  para  mexer  com 
uma   grande  número  de  partes  componentes...  Aqueles  que  mexem  com  quaisquer 
ferramentas  ­  inclusive  regras  ­  estão  tentando  encontrar   combinações  que 
funcionem  juntas  mais  efetivamente  do  que  outras  combinações.   Mudanças  de 
políticas  são  experimentos  embasados  em  expectativas  mais  ou  menos  informadas 
sobre  resultados  potenciais....  Quando  quer  que   os  indivíduos  decidam  adicionar 
uma  regra,  mudar  uma  regra  ou  adotar  um  conjunto  de  regras   proposto por alguma 
outra  pessoa,  eles  estão  conduzindo  um  experimento  de  políticas.  Mais   ainda,  a 
complexidade  do  mundo   biofísico  e  socioeconômico,  em  constante   mutação, 
combinada  com  a   complexidade  dos  sistemas  de  regras  significam  que  qualquer 
45
mudança de regras proposta encara uma probabilidade não­trivial de erro.  
 
Ostrom  então  descreve  uma  abordagem  viável  para  a formulação de regras de governança 
para recursos de reserva comum, baseada na analogia da engenharia: 
 
Oficiais  e/ou  os  próprios  apropriadores  podem  tentar  melhorar  o  desempenho 
mudando  uma  ou  mais  regras  em  um  processo  adaptativo.  Os  participantes 
adaptam  as   regras,  normas  e  estratégias  de  seus  pais  e  anciões,  assim  como 

45

 ​
Ibid.​
, pp. 242­243. 

20 

aquelas  que  são  vistas  como  altamente  bem­sucedidas  em  uma  cultura  em 
particular.  Eles  aprendem  sobre   sistemas  de  vizinhança  que  funcionam  melhor  do 
que  o  seu  e  tentam  discernir  quais  regras  estão  ajudando  seus  vizinhos  a  se  sair 
melhor.  Agentes  humanos  tentam  usar  a  razão  e  a  persuasão  em  seus  esforços  
para  conceber  regras  melhores,   mas  o  processo  de  escolha  a  partir  de  uma  vasta 
gama  de  regras  que  eles  poderiam  usar  sempre  envolve  experimentação. Sistemas 
auto   organizados  de  governança  de  recursos  usam  muitos  tipos  de  regras  de 
decisão   para  fazer  escolhas  coletivas,  indo  do  adiamento  ao  julgamento  de  uma 
46
pessoa ou ancião, ao uso do voto da maioria e à invocação de unanimidade.  
 
E  ela  lista  variáveis  que  aumentam  a  probabilidade  de  os  apropriadores  melhorarem  as 
regras de governança com sucesso em face da experiência: 
 
Atributos do Recurso 
 
[R1]. Melhoria  viável:  As  condições  do  recurso  não  são  estão  em um ponto de 
deterioração  tal  que  seja  inútil  organizar   ou  tão  subutilizado  que  pouca 
vantagem resulte da organização. 
 
[R2]. Indicadores:  Indicadores  confiáveis  e  válidos  da  condição   do  sistema  de 
recursos estão frequentemente disponíveis a um custo relativamente baixo. 
 
[R3]. Previsibilidade: O fluxo de unidades de recurso é relativamente previsível. 
 
[R4]. Extensão  espacial:  O  sistema  de  recursos  é   suficientemente  pequeno, 
dada  a  tecnologia  de  transporte  e  comunicação  em  uso,  que  os 
apropriadores  podem  desenvolver  conhecimento   acurado  dos  limites 
externos e dos microambientes internos. 
 
Atributos dos Apropriadores 
 
[A1]. Saliência:   Os  apropriadores  dependem  do  sistema de recursos para uma 
porção  majoritária  de   seu sustento ou para a realização de valores sociais  ou 
religiosos importantes. 
 
[A2]. Entendimento  comum:  Os  apropriadores  têm uma imagem compartilhada 
de  como  o  sistema  de  recursos  opera  (atributos  R1,  2,  3  e  4  acima)  e  como 
suas ações afetam uns aos outros e ao sistema de recursos. 
 
[A3]. Baixa  taxa  de  abatimento:  Os  apropriadores  usam  uma  taxa  de 
abatimento   suficientemente  baixa  em  relação  aos  benefícios futuros a serem 
alcança a partir do recurso. 
 

46

 ​
Ibid.​
, p. 244. 

21 

[A4]. Confiança  e reciprocidade: Os apropriadores confiam uns nos outros para 
cumprir promessas e se relacionam uns com os outros com reciprocidade. 
 
[A5]. Autonomia:  Os  apropriadores  são  capazes   de  determinar  as  regras  de 
acesso e de colheita sem que autoridades externas lhes anulem. 
 
[A6]. Experiência  organizacional  anterior  e  liderança  local:  Os  apropriadores 
aprenderam  pelo  menos  habilidade   mínimas  de  organização  e  liderança 
através  da  participação  em  outras  associações  locais  ou  aprendendo  sobre 
47
as maneiras em que grupos vizinhos têm se organizado.  
 
Claro,  estes  são  todos  atributos  facilitados  pelo  terceiro  princípio  de  Ostrom  para  a 
governança  de  recursos  de  reserva  comum  em  ​
Governing  the  Commons​
:   "arranjos  de 
escolha coletiva". 
 
O  terceiro  princípio  é  que  a  maioria  dos  indivíduos  afetados  por   um  regime  de 
recursos  estão  autorizados  a  participar  na  produção  e  modificação  de  suas  regras. 
Regimes  de  recursos  que  usam  este  princípio  são  mais  capazes  tanto  de  adequar 
as  regras  às   circunstâncias  locais  quanto  de  conceber  regras  que  sejam 
consideradas justas pelos  participantes. Conforme os  ambientes mudam ao longo do 
tempo,  ser  capaz  de  criar  as   regras  locais  é  particularmente  importante,  já  que 
oficiais  localizados  muito  longe  não  sabem  da  mudança.  Quando  uma  elite  local  é 
empoderada  no  nível  de  escolha  coletiva,  políticas  que  beneficiam  primariamente  a 
elas podem ser esperadas... 
 
Em  um  estudo  de  quarenta   e  oito  sistemas  de  irrigação  na  Índia,  Bardhan  (2000) 
descobriu   que  a  qualidade  da  manutenção  de  canais  de  irrigação  é 
significantemente  menor  naqueles  sistemas  em  que  os  fazendeiros  percebem  que 
as  regras  foram  feitas   por  uma  elite  local.  Por  outro   lado,  aqueles  fazendeiros  (dos 
480  entrevistados)  que  responderam  que  as  regras  para  seu  sistema  foram  criadas 
pela  maioria  dos  fazendeiros,  em  vez de pela elite ou pelo governo, têm uma atitude 
mais  positiva  sobre  as  regras  de  alocação  de  água  e  sobre  a  adesão  às  regras  por 
parte  dos  outros  fazendeiros.  Além  disso,  em  todas   as  vilas  em  que  uma  agência 
governamental  decide  como  a  água  deve   ser  alocada  e  distribuída,  violações 
frequentes  das  regras  são  reportadas  e  os  fazendeiros   tendem  a  contribuir  menos 
para  o  fundo  local  da  vila.  Consistente  com  isto  é  a  descoberta  de  Ray  e  Williams 
(1999)  de  que  a  perda  de  peso morto de fazendeiros a  montante roubando água em  
sistemas  de  irrigação  de  propriedade  governamental  em  Maharashtra,   Índia,  se 
aproxima  de  um  quarto  das  receitas  que  poderiam  ser  obtidas  em  um  regime 
eficiente de alocação e precificação de água. 
 
Knox  e  Meinzen­Dick  (2001,  22)  notam  que  os  direitos  de  propriedade   "tem  uma 
probabilidade  significativamente   maior  de  atender  aos  interesses  e  necessidade  da 
população  local  quando  não  são  impostos  a  partir  do  exterior,  mas,  antes,  são  

47

 ​
Ibid.​
, pp. 244­245. 

22 

embasados  nos  direitos  existentes  e  refletem  os  valores  e  normas  locais".  Como 
eles  apontam,  estas  regras  tomam  tempo  e  esforço  para  desenvolver,  testar, 
modificar  e então experimentar novamente. Usuários que estiveram engajados neste 
processo  por  algum  tempo  entendem  as  regras  que  eles  criaram,  concordam  sobre 
por  que  estão  usando  uma  regra  em  vez  da  outra  e  tendem  a  seguir  suas  próprias 
regras   em  uma  medida  maior  do  que  aquelas que lhes são impostas. Sekher (2000) 
conduziu um estudo de vilas em Orissa, Índia, que variavam em relação à medida da 
participação  dos  aldeões  locais  na  criação  das  regras  relacionadas  a  florestas 
próximas  que  eles  usavam.  Ele  descobriu  que  quanto  "mais  ampla  a representação 
da  comunidade  na  organização,  melhor  são  suas  chances  de  assegurar  a 
cooperação  local  e  confirmação  das  regras  para  a  gestão  e   preservação  do 
recurso"... 
 
Em  um  estudo  comparativo  de  sistemas  de  irrigação  projetados  e  governados  por 
fazendeiros  (FMIS,  "farmer­designed  and  governed  irrigation  systems"),  em 
contraste  com  aqueles  projetados  e  operados  por  engenheiros  sem  o  envolvimento 
dos  fazendeiros  na  criação  de  regras  para  governas  esses  sistemas,  Shukla  (2002, 
83),  ele  próprio  um  engenheiro  hídrico,  é  relativamente  crítico  de  "planejamento  e 
projeto  irrealistas,  desenvolvimento  incompleto,   um  programa  de  manutenção 
inadequado  e  não  sistemático,  operação  deficitária  e  falta  de  participação  dos 
usuários"  que  caracterizam  muitos  desses   sistemas  no  Nepal.  Com  base  em 
pesquisa  anterior  de  Pant  and  Lohani  (1983),  Yoder  (1994),  Lam  (1998),  and 
Pradhan  (1989),  Shukla  identifica   o  seguinte  como  pontos  fortes  dos  sistemas 
projetados  por  fazendeiros:  "(1)  Suas  deficiências  técnicas  são  compensadas  por 
insumos  de  gerenciamento; (2) são de baixo custo e embasados em recursos locais; 
(3)  organizações  de  irrigação  efetivas  existem  na  maioria  dos  FMIS;  (4)  a  maioria 
dos  FMIS  tem regras e papeis bem definidos para a alocação e distribuição de água,  
mobilização  de  recursos  e  resolução  de  conflitos;  e  (5)  os  líderes  desses  sistemas  
48
respondem aos usuários...  
 
Inversamente,  eles  são  minados  por  políticas  estatais  que promovam ­ como consideramos 
na seção anterior ­ centralização, atomização social e anonimidade. 
 
Ostrom  argumenta  que  os  regimes  de  políticas  de   governos  centrais  são  relevantes 
principalmente  na medida em que  eles facilitam ou obstruem  os esforços locais primários de 
formular  regras  de  governança.  A  melhor  abordagem  do  governo  central  é  simplesmente 
fornecer  informação  e uma atmosfera de apoio sem interferência ativa. Ela apresenta, como 
um caso ideal, o U.S. Geological Survey: 
 
Deixe­me  usar  o  exemplo  do  importante  papel  que  o  U.S.  Geological   Survey 
desempenhou  no  desenvolvimento  de  instituições  locais  mais  efetivas  de  águas 
subterrâneas   em  algumas  partes  dos  Estados  Unidos.  O  que  é  importante  enfatizar 
é  que  o  Geological Survey não constrói obras de engenharia nem faz qualquer coisa 
além  de  obter  e  disseminar  informação  precisa  sobre  estruturas  hidrológicas  e 

48

 ​
Ibid.​
, pp. 263­265. 

23 

geológicas  dentro  dos  Estados  Unidos.  Quando  um  conjunto  local  de  usuários  de 
água  quer  obter  melhores  informações sobre uma bacia local de água subterrâneas, 
eles  podem  fazer  um  contrato  com  o  Geological  Survey  para  conduzir  um  estudo 
intensivo  na  área.   Os  produtores  de  água  pagariam  uma  porção  do  custo  de  tal 
pesquisa.  O  Geological  Survey  pagaria  a  outra  porção.  A  informação  contida  em tal 
pesquisa  é,  então,  informação  pública  disponível  para  todas as partes interessadas. 
O  Geological  Survey  emprega  um  pessoal  altamente  profissional  que  conta  com  as 
técnicas  científicas  mais  recentes  para determinar a estrutura e condição das bacias 
de  águas  subterrâneas.  Produtores   locais  de  água  obtêm  a  melhor  informação 
disponível  de  uma  agência  que  não  está  tentando  empurrar  nenhum  projeto  futuro  
49
em particular que a agência esteja interessada em conduzir.  
 
A  coisa  interessante  é  que  esta  função  ­  fornecer  uma  reserva  comum  de   informação  ­  é 
aproximadamente  tão  próximo  quanto  qualquer  função  governamental  pode  chegar  da 
não­coercitiva  "administração  das  coisas".  Ao  se   considerar  como  a mesma função poderia 
ser  fornecida  por  instituições  completamente   fora  do  framework   estatal,  modelos  de 
rede/crowdsource, como a astronomia amadora, podem ser relevantes. 
 
Em  todo  caso,   as vantagens de conhecimento concreto que Ostrom lista para a governança 
local  por  parte  dos  usuários  de  recursos  de  reserva  comum  são  coisas  que  tanto  Friedrich 
Hayek quanto James Scott reconheceriam: 
 
Conhecimento  local.  Os  apropriadores  que  viveram e se apropriaram de um sistema 
de  recursos   ao  longo  de  um  longo  período  de  tempo  desenvolveram  modelos 
mentais  relativamente  precisos  de  como  o  sistema  biofísico  em  si  opera,  uma  vez 
que  o  próprio  sucesso  de  seus  esforços  de  apropriação  depende  de  tal 
conhecimento.  Eles  também  conhecem  bem  os  outros  que  vivem  na  área  e  quais 
normas de comportamento são consideradas apropriadas. 
 
Inclusão  de  participantes  confiáveis.  Os  apropriadores  conseguem  conceber  regras 
que  aumentar  a   probabilidade   de  que  os  outros  serão  confiáveis  e  usarão  da 
reciprocidade.  Isto  diminui  o  custo  de  depender   inteiramente  de  sanções  formais  e 
de pagar por guarda extensiva. 
 
Confiança  no  conhecimento   desagregado.  O  retorno  sobre  como   o  sistema  de 
recursos  responde  a  mudanças  nas  ações  dos  apropriadores  é  fornecido  de  uma 
maneira  desagregada.  Pescadores  estão  bastante  cientes,  por  exemplo,  se  o 
tamanho  e  distribuição  de  espécies  de  sua  pesca   estão  mudando  ao  longo  do 
tempo.  Irrigadores  aprendem  se  um  sistema  de  rotação  em  particular  permite que a 
maioria  dos  fazendeiros  cultivem  as  culturas  que  eles  mais  preferem  ao  examinar  a 
produtividade resultante de campos específicos. 
 

49

 ​
Ibid.​
, pp. 278­279. 

24 

Regras  mais  bem  adaptadas.  Dado  o  acima   exposto,  os  apropriadores  estão  mais 
propensos  a  criar  regras  ao  longo  do  tempo que estão melhor adaptadas a  cada um 
dos recursos de reserva comum locais do que qualquer sistema geral de regras. 
 
Custos  de  execução  menores.  Uma  vez  que  os  apropriadores  locais  têm  que  arcar 
com  o  custo  de  monitoramento,  eles  estão  aptos  a  criar  regras  que  tornem  as 
infrações  altamente  óbvias,  de  modo  que  os  custos   de  monitoramento  sejam 
menores.  Além  disso,  ao  criarem  regras  que  parecem  legítimas,  a  conformação   às 
regras tenderá a ser maior. 
 
Sistemas  autônomos  paralelos.  A  probabilidade  de  falha  ao   longo  de  uma  grande 
região  é  grandemente  reduzida  pelo  estabelecimento  de  sistemas  paralelos   de 
50
criação, interpretação e execução de regras.  
 
Além  das  questões   cognitivas,  uma  razão  pela  qual  os  sistemas  impostos  a  partir  de  fora 
por  autoridades  centrais  são  tão  propensos   a  falhas  é  que  eles  são  percebidos  como 
ilegítimos. Como Ostrom nota: 
 
Se  os  indivíduos  voluntariamente  participam  de  uma  situação,  eles  devem 
compartilhar  algum  senso  geral  de  que  a  maioria  das  regras  que  governam  a 
situação  é  apropriada.  De  outra  forma,  o  custo  de  execução  dentro  de  atividades 
voluntárias  se  torna  alto  o   suficiente  para  que  seja  difícil,  se não  impossível, manter 
51
a previsibilidade em uma atividade voluntária contínua.  
 
As  pessoas  são  instintivamente  alienadas  por  sistemas  de  regras  nos  quais  elas se sintam 
impotentes,  e  questionam  a  legitimidade  de  regras  impostas   por  uma  autoridade   sobre 
quem elas não têm qualquer controle. 
 
a  pesquisa  psicológica  fornece  evidência  de  que  a  motivação  intrínseca  positiva  é 
aumentada  quando  os  indivíduos  sentem  que  sua  própria  autodeterminação  ou 
autoestima  é  reforçada...  Isto  leva  à  possibilidade  de  que  a  motivação  intrínseca 
possa  ser  "eviccionada"  em  situações  em  que  os  indivíduos não se percebam como 
52
tendo autocontrole suficiente sobre as ações que tomam.  
 
Ostrom  prossegue  citando  uma  série  de experimentos que fornecem "forte evidência para a 
evicção  da  reciprocidade  através  da  imposição de sanções externas", citando os resultados 
de uma de que: 
 
1. Intervenções  externas  ​
eviccionam  a  motivação  intrínseca  se  os  indivíduos 
afetados  as  percebem  como  sendo  ​
controladoras.​
  Nesse  caso,  tanto  a 
autodeterminação  quanto  a  autoestima  sofrem,  e  os  indivíduos  reagem 
reduzindo sua motivação intrínseca pela atividade controlada. 
 
 ​
Ibid.​
, pp. 281­282. 
 ​
Ibid.​
, p. 21.  
52
 ​
Ibid.​
, p. 112. 
50
51

25 

2. Intervenções  externas  ​
inserem  motivação  intrínseca  se  os   indivíduos  
interessados  a  percebem  como  ​
solidárias​
.  Nesse  caso,  a  autoestima  é 
fomentada,  e  os  indivíduos  sentem que lhes é  dada mais liberdade para agir, 
53
o que amplia a autodeterminação.  
 
Isto  está  intimamente  associado  à  tendência  de  regras  externas  impostas  de "'eviccionar' o 
comportamento  cooperativo  endógeno".  Em  um  experimento,  jogadores   de  um  dilema  do 
prisioneiro  sobre  quem  incentivos  externos  à  cooperação  foram   impostos  foram  menos 
cooperativos  após  os  incentivos   terem  sido  retirados  do  que  o  foram  os  jogadores  em  um 
grupo  de  controle  que  jogaram  o  jogo  regular  sem   incentivos  para  a  cooperação  e 
54
desenvolveram espontaneamente suas próprias estratégias.  
 
uma   norma  social,  especialmente  em  um  cenário  onde  há  comunicação  entre  as 
partes,  pode  funcionar  tão  bem  ou  quase  tão  bem  em  gerar  comportamento 
cooperativo  quanto  um conjunto de regras e um sistema de  monitoramento e sanção 
externamente  impostos.  Além  disso,  as  normas  parecem  ter  um  certo  poder  de 
permanência  ao  encorajar  um  crescimento   do  desejo  por  comportamento 
cooperativo  ao  longo  do  tempo,  ao  passo  que  a  cooperação  que  existe 
primariamente  devido  a  regras   externamente  impostas  e  executadas  pode  
55
desaparecer muito rapidamente.  
 
Desenvolvimento  e   Política  de  Infraestrutura  do  Terceiro  Mundo  e  a  Dimensão  de 
Classe  Ausente.  É  difícil  saber  quanto  do  argumento  de  ​
Institutional  Incentives  and 
56
Sustainable  Development   atribuir  a  Ostrom,  dado  que  é  co­escrito  com  outras  duas 
pessoas.  Mas  considerando  que  seu  nome  aparece  primeiro  na  assinatura,  e  é  um 
desenvolvimento  direto  de  sua abordagem em ​
Governing the Commons​
, creio que é seguro 
tratá­lo como se falasse largamente com sua voz. 
 
Ostrom  é  ótima  em  sua  análise  da  política  de  desenvolvimento  do Terceiro  Mundo ­ e mais 
especificamente  dos   projetos  de  infraestrutura  ­  ao   tratar  a  maneira  como  as  agências 
multilaterais  de  desenvolvimento  e  os  governos  nacionais  tendem  a  adotar  a  abordagem 
"alto­modernista  autoritária"  de  James  Scott,   e  ignorar  o  conhecimento  local,  distribuído. 
Especialistas   ocidentais   em  desenvolvimento,  em  sua  maior  parte,  viam  as  infraestruturas 
sociais  locais  em  países  do  Terceiro  Mundo  como   atávicas  e  as  conflacionavam  com 
tribalismo, corrupção, nepotismo, desigualdade e autoritarismo. 
 
Quando  quantias  massivas  de  capital  físico   foram  introduzidas  por  países doadores 
nos  países  da  África,  Ásia  e  América  Latina,  que   haviam  passado  por  longos  
períodos  de  colonização,  pouca  atenção  foi  dada  à  massiva  destruição   de  capital 
social  que  havia  ocorrido  sob   a  colonização.  Comunidades  tribais  na  Índia,  por 
 ​
Ibid.​
, pp. 112­113. 
 ​
Ibid.​
, p. 130. 
55
 ​
Ibid.​
, p. 130. 
56
  Elinor  Ostrom,  Larry  Schroeder  e  Susan  Wynne.  ​
Institutional  Incentives  and  Sustainable  
Development:  Infrastructure Policies in Perspective (Boulder,  San  Francisco,  Oxford: Westview Press, 
1993). 
53
54

26 

exemplo,  haviam  se  organizado  por  séculos  para  obter  sua  comida,  forragem, 
ferramentas  e  materiais  de  construção de uma maneira sustentável a partir de  áreas 
florestais  que  elas  governavam  e  geriam  como  propriedade  comum.  O  governo 
britânico  não  reconheceu  a  propriedade  da  comunidade  e,  na   verdade,   aprovou  
legislação  durante  a  década  de  1860  para  criar um departamento florestal e exercer 
poder  de  monopólio  sobre  territórios  cada  vez  maiores....  Por  volta  da  época  da 
independência,  o  governo   da  Índia  exercia  controle  total sobre mais de 40 por cento 
do  total  de  área  de  floresta  da  Índia.  Semelhante  despojamento  da  legitimidade  de 
instituições locais ocorreu por toda a África, Ásia e América Latina. 
 
Na  medida  em  que  se  deu   atenção  ao  capital  social  inicial  das  pessoas  que  viviam 
nessas  áreas,  se  assumiu  que  os  padrões  anteriores  de  relacionamentos  eram  
"primitivos"  e  não  valiam  a  pena  salvar.  Muitos  oficiais  coloniais  e  pós­coloniais 
sentiam  que  as  instituições  anteriores  tinham  que  ser  destruídas  antes  que  o 
desenvolvimento  pudesse  realmente  ocorrer.  A  diversidade  de  diferentes  meios  de 
vida  foi  vista   como  um  obstáculo  a  ser  substituído  pelas  instituições  modernas  
57
centralizadas que poderiam energizar a atividade econômica a partir da capital.  
 
Em  vez  disso,  ...os  doadores  dos   blocos  Oriental  e  Ocidental  procederam  ou, como 
era  o  caso  das  antigas  potências  imperiais,  continuaram  a  apoiar  a  destruição  da 
infraestrutura  institucional  indígena  em   países  subdesenvolvidos  e  a   substituição 
desta  infraestrutura  social  por  arranjos  institucionais  que  eram  familiares  aos 
doadores.  Eles  encontraram  cúmplices  dispostos  nos  novos  líderes  nacionais  dos 
países  subdesenvolvidos  que  tinham  esperança  de  suprimir  qualquer  atividade 
organizacional  fora  de  seu  controle,  a  fim  de  impedir  a  emergência  de concorrentes 
políticos viáveis... 
 
A  única  característica  institucional   dos  países  subdesenvolvidos  que  todos  os 
doadores  acharam  potencialmente   útil  como  fundação  para  o  desenvolvimento 
foram  os  governos  nacionais  altamente   centralizados,  que  eram  primariamente  o 
legado  do  período  colonial.  Os   governos  nacionais  eram  vistos  como  os 
instrumentos  através  dos  quais  a  mudança  e  o  desenvolvimento  econômico  seriam 
alcançados.  Eles  eram  considerados  tão  cruciais,  na  verdade,  que  esforços  de 
desenvolvimento  foram  especialmente  formados,  na  maior  parte  do  último  meio 
século,  para  reforçar  a  capacidade  e   a  autoridade  destes  governos  nacionais  às 
custas  de  agências  públicas  subnacionais  e  instituições  do  setor  privado.  Na  fase 
mais  recente  de  "ajuste  estrutural",  esta  tendência  de  reforçar  instituições nacionais 
foi  acelerada.  Grandes  reformas  políticas  foram  concebidas  por   pequenos  times 
compostos  quase  exclusivamente  de  representante  de  ministérios  de  finanças  e 
bancos  centrais,  trabalhando  com  consultores envolvidos pelo Banco Mundial  e pelo 
58
FMI.  
 
Ostrom  apresenta  consideráveis evidência de estudos de caso para mostrar que os projetos 
de  infraestrutura  empreendidos   em  tal  atmosfera   de  desprezo  pelo  conhecimento  local 
57
58

 Ostrom, “Neither Market nor State,” pp. 21­22. 
 Ostrom et al, ​
Institutional Incentives and Sustainable Development​
, pp. 6­7 

27 

tendem  a  ter  resultados  menos  que  ótimos ­ uma descoberta que não deveria ser nenhuma 
surpresa para leitores de seu amplo conjunto de obras. 
 
Ostrom  está  bastante  certa   em  assumir  que  "Indivíduos  de  quem  se  espera  que  invistam 
recursos...  na  sustentação  da  infraestrutura  rural,  devem  perceber  que  os  benefícios  que 
59
obtém...  excedem  os  custos  dos  recursos  que   devotam  a  este  esforço" ​
.  E  ela  aborda 
problemas  de  ​
rent­seeking​
,  nos  quais  projetos  são  promovidos  pelos  interesses  que obtém 
mais do que investem. 
 
Mas  ela  considera  o  ​
rent­seeking  sobretudo  no  nível  micro,  em  vez de tratar o ​
rent­seeking 
como  embutido  na  macroestrutura  do  sistema  e  central  para  suas  metas.  Mesmo  a  única 
vez  que  ela  menciona  especificamente  o  ​
rent­seeking  no  caso  de projetos de infraestrutura 
que  geram  "benefícios  desproporcionais"  para  "certos  grupos  de  potenciais  usuários,  tais 
60
como  grandes  proprietários  de  terras" ​
,  ela  o  trata  como  apenas  um  desvio  a  ser  
consertado através rearranjos técnicos na estrutura de incentivos. 
 
A  omissão  flagrante  em  tudo  isto,  o elefante na sala de estar  que ela  falha em mencionar, é 
o  conflito  de  classes  e  o  papel  dos  estados  na  promoção  dos  interesses  das  classes 
econômicas que os controlam. 
 
As  sociedades modernas de fato adotam, como Ivan Illich apontou em ​
Tools for Conviviality,​
 
formas  particulares   de  tecnologia  e  organização  além  do  ponto  de  contra­produtividade  ou 
retornos  decrescentes.  Mas  elas  apenas  o  fazem  porque  o   estado   coercitivo,  ao  criar 
externalidades, desloca os custos e fardos da adoção para uma classe de pessoas diferente 
daquelas  que  recebem  os  benefícios.  Uma  vez  que   o  custo  total  da  adoção  de  uma 
tecnologia  não aparece na  contabilidade de seus adotantes, sua decisão de quanto adotá­la 
não  está  embasada  em  um  balanço  social  completo  dos  custos  e  benefícios.  O  preço  de 
mercado  da  adoção  da  tecnologia,  que  informa  o  adotante  dos  custos  e  benefícios  totais e 
lhe permite fazer uma decisão racional, está corrompido. 
 
Ostrom  adota  a  métrica  do  Banco  Mundial  para  "sustentabilidade"  de  projetos  de  
infraestrutura:  "se  a  taxa  de  retorno  foi  igual  a,  ou maior que, o atual custo de oportunidade 
do  capital  investido   em  cada  projeto  ou  não".  O  projeto,  em  outras  palavras,  paga  no  que 
61
seu  resultado  adiciona   ao  PIB.   Isto  ignora  a  questão  central  ­  como  Lenin  formulou  ­  de 
"Kto­kogo?" Quem paga pelos insumos, e quem se beneficia dos resultados? 
 
A  questão  não  é   simplesmente  que  as  agências   centralizadas  de  desenvolvimento,  por 
causa  de  problemas  de  conhecimento  resultantes  de  seu  centralismo,  cometam  erros  ao 
buscar  alguma  meta  desinteressada  de  "desenvolvimento".  A  questão  é também que o tipo 
de  desenvolvimento que elas estão buscando reflete uma coalizão particular de interesses e 
sua  percepção  do  mundo.  Estes  interesses,  e  suas  percepções,  são  aqueles  comumente 
associados com os termos "desenvolvimento orientado a exportações" e "neoliberalismo". 
 
 ​
Ibid.​
, p. 9. 
 ​
Ibid.​
, p. 96.  
61
 ​
Ibid.​
, pp. 14­16.  
59
60

28 

O  papel  funcional  mais  amplo  do  Banco  Mundial,  do  FMI  e  dos projetos  nacionais de ajuda 
internacional  desde  a  Segunda  Guerra  Mundial  foram  bem resumidos por Kwame Nkrumah 
em  ​
Neo­Colonialism​
:  ajuda  internacional,  sob  o  neocolonialismo,  é  o  que,  sob  o  
colonialismo, costumava se chamado simplesmente de "investimento externo de capital". 
 
No  caso  específico  da  infraestrutura  rural  do  Terceiro  Mundo,  o  modelo  dominante  de 
desenvolvimento  rural  se  concentra  em   produção  em  larga  escala  orientada  à  exportação 
de  culturas  comerciais  em  grandes  extensões  de  terra  ­ frequentemente situadas em terras 
roubadas  de  camponeses   expulsos  com  a  ajuda  dos  governos  coloniais  ou  pós­coloniais  ­ 
mantidas por oligarcas proprietários nativos. 
 
Assim,  em  um  sentido,  a  atenção  de  que  Ostrom  devota  a  aproveitadores  no   projeto  de 
sistemas  locais  de  infraestrutura  é  enganadora:  o  aproveitamento,  ou  o  ​
rent­seeking  é  o 
propósito  primário  da   grande  maioria  dos  projetos  de  infraestrutura  rural  em  larga  escala 
como  sistemas  de  irrigação.  Seu  propósito é fornecer  insumos subsidiados  a um modelo de 
produção  agrícola  fortemente  dependente  de  tais  insumos  subsidiados,  de  terra  roubada 
mantida por elites agrárias locais. 
 
Ela  discute  "equidade"  no  financiamento  de  infraestrutura   no  contexto  de   duas  abordagens 
rivais:  1)  beneficiários  pagam  em  proporção  ao  custo  marginal  de  fornecer  a   porção  de 
produção  que  consomem;  e  2)   beneficiários  pagam  em  proporção  a  sua  capacidade  de 
62
pagar.   Mas,  da  perspectiva  dos  poderosos  interesses econômicos servidos pelos grandes 
projetos  de  infraestrutura,  ambas  as  abordagens  violariam  todo  o  propósito:  externalizar 
seus custos operacionais para alguma outra pessoa. 
 
Dando  ainda  mais  um  passo  atrás,  o  capitalismo,  por  definição,  depende  do  deslocamento 
iníquo  de  benefícios  e  custos  para  diferentes  partes.  O  capitalismo  foi  definido  por mais de 
um crítico radical como a socialização do custo e do risco e a privatização do lucro. 
 
Infelizmente,  Ostrom (e/ou  uma ou ambas de suas coautoras) descartam tais considerações 
como  "teorias  da  conspiração".  "Às  vezes,  a  crítica   presume  motivação  conspiratória,  com 
agências  doadoras  caracterizadas  como  fronts  para  uma  nova  forma  de  imperialismo 
63
consciente" ​

 
Mas  qualquer  um  que   tenha  observado  os  projetos  de  infraestrutura  em  operação 
fica  impressionado  com  o  número  de  indivíduos  extremamente  trabalhadores  e 
altamente  motivados,  tanto  nos  governos  hóspedes  quanto  nas  agências  doadoras, 
cuja  meta  principal  é  claramente  melhorar   o  bem­estar  daqueles  que  vivem  nos  
países  que  recebem  ajuda   externa.  Ainda  assim,  avaliações  realistas  dos  muitos 
projetos  concebidos  pelo  pessoal   doador  e  do  governo  hospedeiro  repetidamente 
revelam  resultados  não  intencionais  negativos.  Avaliações  mostram  que  os projetos 
aumentaram  ou  reforçaram  a  supercentralização  dos  governos   dos  países 
recebedores,   foram  mal  projetados  (dadas  as  circunstâncias  locais)  e  geraram 
encargos  de dívida inapropriadamente grandes para os países recebedores. Como  é 
62
63

 ​
Ibid.​
, pp. 113­115. 
 ​
Ibid.​
, p. 156. 

29 

possível  que  pessoas  altamente  motivadas  e  trabalhadoras  que  sinceramente 
querem  melhorar   as  condições  nestes  países  recebedores  estejam  repetidamente 
envolvidas  no  projeto e  na implementação de  projetos que não alcançam esta meta?
64
 
 
Ostrom  aponta  para  diversos  fatores  estruturais  bastante  plausíveis,  alguns  deles  que 
fariam  leitores  do  trabalho  de   James  Scott  sorrir  e  acenar.   O  mandato  do  Congresso  dos 
EUA  para  se  gastar  uma  determinada  parcela  da  ajuda  externa  em  compras  de 
equipamentos  de  fabricação  americana  cria,  em  certa  medida, um viés estrutural a favor de 
65
projetos  que  envolvam  equipamentos  pesados.   Os  incentivos  fiscais  que  todas  as 
agências  governamentais  enfrentam,  de  gastar  toda  a  verba  desse  ano até o final do ano a 
fim   de  assegurar  os  mesmos  níveis  de  financiamento  no  ano  seguinte,  cria  um  viés  em 
direção a um número menor de projetos caros do que pode ser processado rapidamente por 
66
um  pessoal  limitado.   E  a  necessidade  do  que  Scott  chamaria  de  "legibilidade"  resulta, 
dada  a  pressão  política  para  reduzir  os  níveis  embaraçosos  de   desvio  de  verbas  por  parte 
de  oficiais  locais  nos  países  recebedores,  em  um  foco  em  projetos  de  larga  escala  por 
67
motivos de redução de custos de monitoramento.  
 
O  problema   é  que  Ostrom  postula  todos  estes  fatores  inteiramente  válidos  e   plausíveis 
como uma alternativa a "teorias da conspiração". Não se tem que visualizar os sabichões de 
políticas  do  Banco  Mundial  literalmente  enrolando  seus bigodes como Snidely Whiplash, ou 
dizendo,  com  o  Lúcifer  de   Milton,  "Serás  meu  bem,  ó  mal!",  a  fim  de  vê­los  como  ativa  e 
entusiasticamente  servindo   aos  interesses  do  capital  corporativo  global.  Promover 
sinceramente  alguma  visão  do  "bem­estar  geral",  como  eles  o  veem,  é   perfeitamente 
compatível  com  ter internalizado uma ideologia na qual o atual sistema é  natural e  inevitável 
e a única alternativa factível para organizar a sociedade humana. 
 
E  as  instituições  neoliberais  que  coordenam  a ajuda externa são guiadas por uma ideologia 
na  qual  o  modelo  mais  eficiente  de  desenvolvimento  ­  de  fato,  o  único  concebível  pelas 
pessoas  bem  pensantes  ­  é  a  indústria  capital­intensiva  de  larga  escala  e  a  agricultura  de 
larga escala mecanizada, intensiva em químicos e orientada à exportação. 
 
Somos  Todos  Humanos  Aqui.  Em  toda  sua  obra,  Ostrom  nunca  perdeu  de  vista  uma 
verdade  central:  instituições  coletivas, quer elas sejam chamadas de governos, corporações 
ou  comuns,  são  todas  fabricadas  a  partir  da  mesma  madeira  torta  humana.  Defensores  da 
atividade  governamental  e  críticos/céticos  do  anarquismo,  muito  frequentemente, 
simplesmente  assumem  um  nível  de  onisciência  por  parte  do  estado  que  é  negado  ao 
estado,  ou  afastam   com  um  abanar  de  mãos  o  problema  real  de  detectar  e  punir  as  
infrações.   Por  exemplo,  aqueles  que  são  céticos  quanto  ao  anarquismo  fazem  a 
supostamente  reveladora  pergunta  de  como  uma  sociedade  sem  estado  impediria  algo  
como  o  vazamento  de  óleo  da  Deepwater Horizons ­ sem parar para considerar se a EPA e 
suas regulamentações em nossa atual sociedade estatista conseguiram impedi­lo. 
 ​
Ibid.​
, pp. 156­157. 
 ​
Ibid.​
, p. 157. 
66
 ​
Ibid.​
, p. 157. 
67
 ​
Ibid.​
, p. 159. 
64
65

30 

 
Dar  um  nome  oficial  a  uma  coletividade  não  faz  nada  para  alterar  o  fato  de  que  é  só  um 
bando  de  seres humanos fazendo coisas juntos. E eles não deixam de ser falíveis, limitados 
em  perspectiva  e  influenciados  pelo  auto­interesse  apenas  porque  eles  têm  títulos  oficiais  
ou alegam estar trabalhando em nome do público ou dos acionistas. 
 
Obviamente,  eu  não  sei se estes apropriadores  atingiram soluções ótimas para seus 
problemas.  Eu  duvido  seriamente disso. Eles resolveram seus problemas da mesma 
maneira  que  a  maioria  dos  indivíduos  resolve  problemas  difíceis   e  complexos:  tão 
bem   quanto  foram  capazes,  dados  os  problemas  envolvidos,  a  informações  que 
tinham,  as   ferramentas  com  que  tiveram  que  trabalhar,  os  custos  de  várias   opções 
68
conhecidas e os recursos à mão.  
 
Usuários  de  recursos  são  explicitamente  pensados  [na  literatura  mainstream  de 
políticas  de  conservação]  como  agentes  racionais  que  pilham   os  recursos  locais  de 
modo  a  maximizar  os  seus  próprios  benefícios  de  curto  prazo.  Oficiais  do  governo 
são  implicitamente  descritos,  por  outro  lado,  como  buscando  o  interesse  público 
mais  geral,  tendo  a  informação  relevante à mão e a capacidade de projetas políticas 
ótimas... 
 
Não  se  deveria,   contudo,  presumir  que  todos  os   oficiais  do  governo  são  "santos" 
enquanto  se  assume  que  todos  os  usuários  de  recursos  são  "pecadores".  Nem 
deveríamos  presumir  que  os   oficiais  têm  todo  o  conhecimento  relevante  para  gerir 
sistemas  dinâmicos  complexos,  ao  passo  que  os  apropriadores  locais  são 
ignorantes.   A  base  de  conhecimento  dos  oficiais  do  governo  pode  não  ser,  na 
realidade,  melhor  do  que  aquela  dos  apropriadores  que  têm  usado  um  recurso  em 
particular  por  anos  e  conhecem  suas  características  em  detalhe  considerável.  Mas 
quando  a  base  de  conhecimento  é   similar,  não  existe  nenhuma  garantia  de  que   os 
oficiais  do  governo  (ou  os  pesquisadores  que   lhes  aconselham)  usarão  a 
69
informações disponível para tomar decisões eficientes e/ou sustentáveis.  
 
 
BIBLIOGRAPHY 
 
Kevin  Carson.  ​
Legibility  & Control: Themes in the Work of James C. Scott​
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Stateless 
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12 
(Winter/Spring 
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68
69

 Ostrom, ​
Governing the Commons​
, p. 56. 
 Ostrom, ​
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, p. 238. 

31 

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32 

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