DÍVIDA  

Os Primeiro  
5000 Anos 
 

David Graeber 
 
 

 

 

 

Capítulo Um 
DA EXPERIÊNCIA DA CONFUSÃO MORAL 
 
dívida 
­  substantivo  1  uma  soma  de dinheiro devido. 
2  o  estado  de  dever  dinheiro.  3  um 
sentimento  de  gratidão  por  um   favor  ou 
serviço. 
­ ​
Oxford English Dictionary 
 
Se  você  deve  ao  banco  cem  mil  dólares,  o 
banco  é  seu  dono.  Se  você  deve  ao  banco 
cem  milhões  de  dólares,  você  é  dono  do 
banco. 
­ Provérbio Americano 
 
Dois  anos  atrás,  por uma série de  estranhas coincidências, eu me encontrei participando de 
uma  festa  no  jardim  na  Abadia  de  Westminster.  Eu estava um pouco desconfortável. Não é 
que  os  outros  convidados  não  fossem   agradáveis  e  amigáveis,  e  o  Padre  Graeme,  que 
havia  organizado  a  festa,  não  era  nada  se  não  um  gracioso  e  charmoso  anfitrião.  Mas  eu 
me  sentia  mais do que um  pouco deslocado. Em um certo ponto, o Padre Graeme interveio, 
dizendo  que  havia  alguém  ao  lado  de uma fonte próxima com quem eu certamente gostaria 
de  me  encontrar.  Ela  acabou  por  ser  uma  jovem  elegante  e  bem­provida que, ele explicou, 
era  uma  advogada ­ "mas mais do tipo ativista. Ela trabalha para uma fundação que fornece 
apoio  legal  para grupos anti­pobreza em Londres. Vocês provavelmente terão muito sobre o 
que conversar". 
Conversamos.  Ela  me  contou  sobre  seu  trabalho. Eu lhe contei que estive envolvido 
por  muitos  anos  com  o  movimento  de  justiça  global ­ "movimento antiglobalização", como é 
normalmente   chamado  na  mídia.  Ela  estava  curiosa:  ela  havia,  claro,  lido  muito  sobre  
Seattle,  Genova,  o  gás  lacrimogêneo  e  batalhas  de  rua,  mas...  bem,  havíamos  realmente 
realizado qualquer coisa com tudo isso? 
­  Na  verdade  ­  disse  eu  ­  eu  acho  meio  que  impressionante   o  quanto   conseguimos 
realizar naqueles primeiros dois anos. 
­ Por exemplo? 
­ Bem, por exemplo, conseguimos quase completamente destruir o FMI. 
Ocorreu  que  ela  não  sabia  na  verdade  o  que  era  o  FMI,  então  eu  propus  que  o 
Fundo  Monetário  Internacional  basicamente  agia  como  os executores da dívida do mundo ­ 
"Você  poderia   dizer  o  equivalente  nas  altas  finanças  dos  caras  que  vêm  quebrar  suas 
pernas".  Eu  me  lancei  em  precedentes  históricos,  explicando  como,  durante  a   crise  do 
petróleo  dos  anos  70,  os  países  da  OPEC  acabaram  despejando  tanto  de  suas  riquezas 
recém­descobertas  nos  bancos  Ocidentais  que  os   bancos  não  conseguiam  decidir  onde 
investir  o  dinheiro;  como  o  Citibank  e  o  Chase,  portanto,  começaram  a  enviar  agentes  ao 

redor  do   mundo  tentando  convencer  ditadores  e  políticos  do   Terceiro  Mundo  a  fazer 
empréstimos  (na  época,  isso  foi  chamado  de  "go­go  banking");  como  eles começaram com 
taxas  de  juros  extremamente  baixas  que  quase   imediatamente  dispararam  para  mais  ou  
menos  20  por  cento  devido  a rígidas políticas monetárias dos EUA no começo dos anos 80; 
como,  durante  os  anos  80  e  90, isto  levou  à crise da dívida do Terceiro Mundo; como o FMI 
então  interveio  para  insistir  que,  a  fim  de  obter  refinanciamento,  os  países  pobres  seriam 
obrigados  a   abandonar  suportes  de  preços  sobre  itens  alimentícios  básicos,  ou  mesmo 
políticas  para  manter  reservas  estratégicas  de  comida,   e  abandonar  educação  e   saúde 
gratuitas;  como  tudo isso levou ao colapso de todos os suportes mais básicos para algumas 
das  pessoas  mais  pobres  e  mais vulneráveis na  terra. Eu falei  de pobreza, da pilhagem dos 
recursos  públicos,  do  colapso  de  sociedades,  violência  endêmica,  subnutrição, 
desesperança e vidas destruídas. 
­ Mas qual era a ​
sua ​
posição? ­ Perguntou a advogada. 
­ Sobre o FMI? Queríamos aboli­lo. 
­ Não, eu quero dizer, sobre a dívida do Terceiro Mundo. 
­  Ah,  queríamos  abolir  isso  também.  A  exigência  imediata  era  impedir  o   FMI  de 
impor  políticas  de  ajuste  estrutural,  que  estavam  causando  todo  o  dano  direto,  mas 
conseguimos  realizar  isso  surpreendentemente  rápido.   A  meta  de  mais  longo  prazo  era 
anistia  da  dívida.  Algo  nas  linhas  do  Jubileu  bíblico.  Até  onde estávamos preocupados  ­ eu 
lhe  disse  ­  trinta  anos  de  dinheiro  fluindo  dos  países  mais  pobres  para  os  mais  ricos  era  o 
bastante. 
­  Mas  ­  ela objetou, como se isso  fosse auto­evidente ­ eles emprestaram o dinheiro! 
Certamente uma pessoa tem que pagar suas dívidas. 
Foi  neste  ponto  que  eu  percebi  que  esta  seria  um  tipo  de  conversa  muito  diferente 
do que eu havia originalmente antecipado. 
Onde  começar?  Eu  poderia  ter  começado  explicando  como  esses  empréstimos 
haviam  originalmente  sido  tomados  por   ditadores  não  eleitos  que  colocaram  a  maior  parte 
deles  diretamente  em  suas  contas  em  bancos   na  Suíça,  e  pedir  que  ela  contemplasse  a 
justiça   de  insistir  que  os  credores  sejam  pagos,  não  pelo  ditador,  nem  mesmo  por  seus 
compadres,  mas  literalmente  tirando  comida  das  bocas  de  crianças  famintas.  Ou  que 
pensasse  sobre  quantos  desses países pobres já haviam, na verdade, pago o que tomaram 
emprestado  três  ou  quatro  vezes  agora,   mas  que,  através  do  milagre  do  juro  composto,  
ainda  não  tinham  feito  uma   redução  significativa  no   principal.  Eu  poderia  também observar 
que  havia  uma  diferença  entre  refinanciar  empréstimos  e  exigir  que,  a  fim  de  obter  um 
refinanciamento,  os  países  tenham  que  seguir  alguma  política  econômica  de  livre  mercado 
desenvolvida em Washington ou em Zurique, com a qual seus cidadãos nunca concordaram 
e  nunca  concordariam,  e  que   era um pouco desonesto insistir que, não importa quem tenha 
sido  eleito,  eles  não  têm  controle  sobre  as  políticas  de  seu  país  de  qualquer  maneira.  Ou 
que  as  políticas  econômicas  impostas   pelo  FMI  nem  mesmo  funcionam.  Mas  havia  um 
problema mais básico: a própria suposição de que dívidas ​
têm​
 que ser pagas. 
Na  verdade,  a  coisa notável sobre a frase "uma  pessoa tem que pagar suas dívidas" 
é  que  mesmo  de  acordo  com  a  teoria  econômica  padrão,  ela  não  é  verdadeira.  Um  credor 
deve  aceitar  um  certo  grau  de  risco.  Se  todos  os  empréstimos,  não  importa  o quão idiotas, 
ainda  fossem  recuperáveis  ­  se  não  houvesse  leis   de  falência,  por  exemplo  ­ os resultados 
seriam desastrosos. Que razão os credores teriam para não fazer um empréstimo estúpido? 

­  Bem,  eu  sei  que  soa  como  senso  comum  ­  eu  disse  ­  mas  a  coisa   engraçada  é 
que,   economicamente,  não  é  assim  que   os  empréstimos  deveriam  funcionar,   na  verdade. 
Instituições  financeiras  deveriam  ser  maneiras  de  dirigir  recursos  em  direção  a 
investimentos  lucrativos.  Se   um  banco  tivesse  garantia  de  receber  seu  dinheiro  de  volta, 
mais  juros,  não  importa  o  que  ele  fizesse,  todo  o  sistema  deixaria  de  funcionar.  Digamos 
que  eu  entrasse  na  agência  mais  próxima  do  Royal  Bank  of  Scotland  e  dissesse 'Sabe, eu 
acabei  de  receber  uma  dica muito boa sobre  cavalos. Cê acha que consegue me emprestar 
uns  dois   milhões  de  libras?'  Obviamente  eles  simplesmente  ririam  de   mim.  Mas  isso  é 
apenas  porque  eles  sabem  que  se   meu  cavalo  não  chegasse  em  primeiro,  não  haveria 
qualquer  maneira  para  eles  conseguirem  o  dinheiro  de  volta.  Mas,  imagine  que  houvesse 
alguma  lei  que  dissesse  que  eles   teriam  garantia  de   conseguir  seu  dinheiro  de  volta,  não 
importa  o  que  acontecesse,  mesmo  que  isso  significasse,  sei  lá,  vender  minha  filha  à 
escravidão  ou  retirar  meus  órgãos  ou  algo  do  tipo. Bem, nesse caso, por que não? Por  que 
se  preocupar  em  esperar   entrar  alguém  que  tenha  um  plano  viável  para  abrir  uma 
lavanderia  ou  algo  assim?  Basicamente,  essa  é  a  situação  que  o  FMI   criou  em  um  nível 
global  ­  que  é  como  você  pode  ter  todos  esses bancos  dispostos a desembolsar bilhões de 
dólares para um bando de óbvios bandidos em primeiro lugar. 
Eu  não  cheguei  tão  longe  assim,  porque  mais  ou  menos  nesse  ponto  um  financista 
bêbado  apareceu,  tendo  notado  que estávamos falando sobre dinheiro, e começou  a contar 
estórias  engraçadas  sobre  risco   moral  ­  que,  de  alguma  forma, em pouco tempo  haviam se 
metamorfoseado  em  um  relato  longo  e  não  particularmente  cativante  de  uma  de  suas 
conquistas sexuais. Eu me afastei. 
Ainda  assim, durante  vários dias  depois, aquela frase continuou ressoando na minha 
cabeça. 
"Certamente uma pessoa tem que pagar suas dívidas." 
A  razão  pela  qual  ela  é  tão  poderosa  é  que  não  é,  na  verdade,  uma  afirmação  
econômica:  é  uma  afirmação  moral.  Afinal,  pagar  suas  dívidas  não  é  tudo  sobre  o  que  a 
moralidade   deveria  ser?  Dar  às  pessoas  o  que  lhes  é  devido.  Aceitar  suas 
responsabilidades.  Cumprir  suas  obrigações  para  com  os  outros,  assim  como  se  esperaria 
que  eles  cumprissem  suas  obrigações  para  consigo.  O  que  poderia  ser  um  exemplo  mais 
óbvio  de  esquivar­se  às  suas   responsabilidades  do  que  renegar  uma  promessa,  ou  se 
recursar a pagar uma dívida? 
Era  essa  própria  auto  evidência,  eu  percebi,  que  tornava  a  frase tão insidiosa. Esse 
era  o  tipo  de  linha  que  poderia  fazer  coisas  terríveis  parecerem  totalmente  brandas  e 
banais.  Isso  pode soas forte, mas é difícil não se sentir de maneira forte sobre tais questões 
uma  vez  que  você  testemunhou  os  efeitos.  Eu  vi.  Por  quase   dois anos, eu havia vivido nos 
planaltos  de  Madagascar.  Pouco  depois  que  cheguei,  houve  um  surto  de  malária.  Foi  um 
surto  particularmente  virulento  porque  a  malária  havia  sido  eliminada  no  planalto  de 
Madagascar  muitos  anos  antes,   de  modo  que,  após  algumas  gerações,  a  maioria  das 
pessoas  havia  perdido   sua  imunidade.  O  problema  era   que  custava  dinheiro  manter  o 
programa  de  erradicação  do  mosquito,  uma  vez  que  tinham  que  haver  testes  periódicos 
para  ter certeza de que os mosquitos  não estavam começando a se reproduzir novamente e 
campanhas  de  pulverização  se  se  descobrisse   que  estavam.  Não  muito  dinheiro.  Mas 
devido  a  programas  de  austeridade  impostos  pelo  FMI,  o  governo  teve  que  cortar  o 
programa  de  monitoramento.  Dez  mil pessoas morreram. Eu encontrei jovens mães em luto 
por  filhos  mortos.  Pode­se  pensar  que  seria  difícil  construir  um  argumento  de  que  a  perda 

de  dez  mil  vidas  humanas  realmente  é  justificada  a  fim  de  garantir  que o Citibank não teria 
que  assumir  as  perdas  de  um  empréstimo  irresponsável  que  não  era   particularmente  
importante  para  seu  balancete  de  qualquer  firma.  Mas  eis  aqui  uma  mulher  perfeitamente 
decente  ­  uma   que  trabalha  para  uma  organização  de  caridade,  não  menos  ­  que  tomava 
como  auto­evidente  que  era.  Afinal,  eles  deviam  o  dinheiro,  e  certamente  uma  pessoa  tem 
que pagar suas dívidas. 
 

I I I I I  
 
Durante  as  semanas  seguintes,  essa  frase  continuou  voltando  a  mim.  Por  que  dívida?  O 
que  torna  o  conceito  tão  estranhamente  poderoso?  O  endividamento  do  consumidor  é  a 
força  vital  da nossa economia. Todos os estados­nação modernos são construídos em cima 
de  gastos  deficitários.  A  dívida  veio  a   se  tornar  a  questão  central  da  política  internacional.  
Mas ninguém parece saber exatamente o que ela é, ou como pensar sobre ela. 
O  próprio  fato  de  que  não  sabemos  o  que  é  dívida,  a  própria  flexibilidade  do 
conceito,  é  a  base  de  seu  poder.  Se  a  história  demonstra  qualquer  coisa,  é  que  não  há 
nenhuma  maneira  melhor  de  se  justificar  relações  fundadas  em  violência,  de  fazer  tais 
relações  parecerem  morais,  do  que  as  reformulando  na  linguagem  da  dívida  ­  acima  de 
tudo,  porque  isso  imediatamente  faz  parecer  que  é  a  vítima   que  está  fazendo  algo   errado. 
Mafiosos  entendem  isso.  Assim  como  o  fazem  os  comandantes  de   exércitos 
conquistadores.  Por  milhares  de  anos,  homens  violentos  foram  capazes  de  dizer  a  suas 
vítimas  que  essas  vítimas  lhes  devem  algo.  Se  nada  mais,  elas  "lhes  devem  suas  vidas" 
(uma frase reveladora) porque não foram mortas. 
Hoje  em   dia,  por  exemplo,  a  agressão  militar  é  definida  como  um  crime  contra  a 
humanidade  e  cortes  internacionais,  quando  são  exercitadas,  normalmente  exigem  que  os  
agressores   paguem  uma  compensação.  A  Alemanha  teve  que  pagar  reparações  maciças 
após  a  Primeira  Guerra  Mundial  e  o  Iraque  ainda  está  pagando  ao  Kuwait  pela  invasão  de 
Saddam  Hussein   em  1990.  Ainda  assim,  a  dívida  do  Terceiro  Mundo,  a  dívida  de  países 
como  Madagascar,  Bolívia   e  Filipinas,   parece  funcionar  precisamente  ao  contrário.  Nações 
devedoras  do  Terceiro  Mundo  são  quase  exclusivamente  países  que,  em  algum  momento, 
foram  atacados  e  conquistados  por  países  europeus ­ frequentemente os mesmos países  a 
quem  eles   agora  devem  dinheiro.  Em  1895,  por  exemplo,  a  França  invadiu  Madagascar, 
debandou  o  governo  da  então  Rainha  Ranavalona  III  e  declarou  o  país  uma  colônia 
francesa.  Uma  das  primeiras  coisas  que  o  General  Gallieni  fez  após  a  "pacificação",  como 
eles  gostam  de  chamar,  foi  impor  pesados  impostos  sobre  a  população  malgaxe,  em parte 
para  que  pudessem  reembolsar  os  custos  de  terem  sido  invadidos,  mas  também,  uma  vez 
que  as  colônias  francesas  deveriam   ser  fiscalmente  autossustentáveis,  para  pagar  os 
custos  da  construção  das  ferrovias,  estradas,   pontes, plantações, e assim por diante, que o 
regime  francês  desejava   construir.  Os   contribuintes  malgaxes  nunca  foram  consultados 
sobre  se  desejavam  estas  ferrovias,  estradas,  pontes  e  plantações,  ou  tampouco  lhes  foi 
1
permitido  muita  voz  sobre  onde  e  como  seriam construídas.  Pelo contrário: durante o meio 
1

 Com os resultados previsíveis  de que elas  não foram realmente construídas para  tornar mais fácil para 
o  povo  malgaxe   se  locomover  em  seu  próprio  país,  mas  principalmente  para  levar  produtos  das 
plantações  para  os  portos,  a   fim  de  ganhar  divisas   internacionais  para  pagar  pela  construção  das 
estradas e ferrovias, para começo de conversa.  

século  seguinte,  o  exército  e  a  polícia  franceses   chacinaram  um  bom  número de malgaxes 
que  contestaram  de  maneira  muito  forte   o  arranjo  (para   cima  de  meio   milhão,  de  acordo 
com  alguns  relatórios,  durante  uma  revolta  em  1947).  Não  é  como  se  Madagascar  tivesse 
jamais  causado  qualquer  dano  comparável  à  França.  Apesar  disso,  desde  o  começo,  o 
povo  malgaxe  foi  informado  que  devia  dinheiro  à  França,  e  até  hoje   se  considera  que  o 
povo  malgaxe  deve  dinheiro  à  França,  e  o  resto  do  mundo  aceita  a  justiça  desse  arranjo.  
Quando  a  "comunidade  internacional"  de  fato  percebe  uma  questão  moral,  usualmente   é 
quando sentem que o governo malgaxe está sendo lento em pagar suas dívidas. 
Mas  o  débito não é apenas a justiça do vencedor; também pode ser uma maneira de 
punir  vencedores  que  não  deveriam   ter  ganho.  O  exemplo  mais  espetacular  disso  é  a  
história  da   República  do  Haiti  ­  o  primeiro  país  pobres  a  ser  colocado  em  escravidão 
permanente  por  dívida.  O  Haiti  era  uma  nação  fundada  por  ex­escravos  de plantações que 
tiveram  a  temeridade   não  apenas de se levantar em rebelião, entre grandes declarações de 
direitos  e  liberdades  universais,  mas  de  derrotar  os  exércitos   de  Napoleão  enviados  para 
devolvê­los  à  escravidão.  A  França  imediatamente  insistiu   que  a  nova  república  lhe  devia 
150  milhões  de  francos  em  danos  pelas  plantações   expropriadas,  bem  como  pelas 
despesas  de  armamento  das  expedições  militares  que  falharam,  e  todas  as  outras nações, 
incluindo  os  Estados  Unidos,  concordaram   em  impor   um  embargo  ao  país  até  que  fosse 
pago.  A  soma  era  intencionalmente  impossível   (equivalente  a   cerca  de  18  bilhões  de 
dólares)  e  o  embargo  resultante garantiu que o nome "Haiti" fosse um sinônimo para dívida, 
2
pobreza e miséria humana desde então  
Às  vezes,  no  entanto,  a  dívida  parece  significar  o  exato  oposto.  A  partir  da  década 
de  1980,  os  Estados  Unidos,  insistiam  em  termos  estritos   no  pagamento  da  dívida  do 
Terceiro  Mundo,  adquiriram  eles próprios dívidas que facilmente diminuíam aquelas de todo 
o  Terceiro  Mundo  combinado  ­  impulsionadas  principalmente  por  gastos  militares.  A  dívida 
externa  dos   EUA,  no  entanto,  assume  a  forma  de  títulos  do  Tesouro  detidos  por 
investidores  institucionais  em  países  (Alemanha,  Japão,  Coréia  do  Sul,  Taiwan,  Tailândia, 
os  Estados  do  Golfo)  que  são,  na  maior  parte  dos  casos,  efetivamente  protetorados 
militares  dos  EUA,  a   maioria  cobertos  de  bases  dos  EUA  cheias  de armas e  equipamentos 
pagos  com  esse  mesmo  gasto  deficitário.  Isso  tem  mudado   um  pouco  agora  que  a  China 
entrou  no  jogo  (a  China  é  um  caso  especial,  por  razões  que  serão  explicadas  mais  tarde), 
mas  não  muito  ­  mesmo  a  China acha que o fato de que ela detém tantos títulos do tesouro 
dos EUA a deixa, em algum grau, em dívida com os interesses dos EUA, e não o contrário. 
Então,  qual  é  o  status  de  todo este dinheiro continuamente sendo canalizado para o 
tesouro  dos   EUA?  São  empréstimos?  Ou  são  tributo?  No  passado,  normalmente  se referia 
a  potências  militares  que  mantinham  centenas  de  bases  militares  fora  de  seu  próprio 
território  de  origem  como  "impérios",   e  impérios  regularmente  exigiam  tributos  de  povos 
subjugados.  O  governo  dos  EUA,  claro,  insiste  que  não   é  um  império  ­  mas  se  poderia 
facilmente  fazer  o   argumento  de  que  a   única   razão  pela  qual  ele  insiste  em  tratar  esses 
pagamentos  como   "empréstimos"  e  não  como  "tributos"  é  precisamente  negar  a  realidade 
do que está acontecendo. 

2

 Os Estados  Unidos, por  exemplo,  só reconheceram  a República do  Haiti  em  1860. A França manteve 
obstinadamente   a  exigência  e  a  República  do  Haiti  foi  finalmente  forçada  a  pagar  o  equivalente  a 
US$21  bilhões  entre  1925  e 1946,  tempo  durante  a maior  parte do  qual eles estiveram  sob  ocupação 
militar dos EUA. 

Ora,   é  verdade  que,  por  toda  a  história,  certos  tipos  de  dívida,  e  certos  tipos  de 
devedores,   sempre foram tratados de maneira diferente de outros. Na década de 1720, uma  
das  coisas  que  mais escandalizava o público britânico,  quando as condições nas  prisões de 
devedores  eram  expostas  na  imprensa  popular,  era  o  fato  de  que  estas  prisões  eram 
regularmente  divididas  em duas  seções. Detentos aristocratas,  que muitas vezes pensavam 
em  uma  breve   estadia  em  Fleet  ou  Marshalsea  como  algo  de  uma  declaração  de  moda, 
eram  servidos  vinho  e  comida  no  local  por  funcionários  uniformizados  e  estavam 
autorizados  a  receber  visitas  regulares  de  prostitutas.  No  "lado  comum",  devedores 
empobrecidos  eram  algemados juntos em celas minúsculas, "cobertos de sujeira e vermes", 
3
como  um  repórter   colocou, "e sofriam  até morrer, sem piedade, de fome e febre carcerária"

De  certa  maneira,  você pode ver os atuais arranjos econômicos mundiais como uma 
versão  muito  maior  da  mesma  coisa:  os  EUA  neste  caso   sendo  o  devedor  de  Cadillac, 
Madagascar  o  indigente  morrendo  de  fome  na  cela  ao  lado  ­  enquanto  os  servos  do 
devedor  de  Cadillac  lhe  repreendem  sobre como seus problemas são  devidos a sua própria 
irresponsabilidade. 
E  há  algo  mais  fundamental  acontecendo  aqui,  uma  questão  filosófica  até,  que 
poderíamos  fazer  bem  em  contemplar.  Qual  é   a  diferença  entre  um  gangster  sacar  uma 
arma  e   lhe  exigir  que  lhe  dê  mil  dólares  de   "dinheiro  de  proteção"  e  o  mesmo  gangster 
sacar  uma  arma  e  lhe  exigir  que  lhe  forneça  um  "empréstimo"  de  mil  dólares?  Na  maioria 
dos  aspectos,  obviamente,  nada.  Mas  de  certas  maneiras,  há  ​
sim  uma diferença. Como no  
caso  da  dívida  dos  EUA  com  a  Coréia  ou  com  o  Japão,  se  o  equilíbrio  de  poder  mudasse 
em  qualquer  ponto,  se  a  América   perdesse  sua  supremacia  militar, se o gangster perdesse 
seus  capangas,  esse   "empréstimo"   poderia  começar  a  ser  tratado  muito  diferentemente. 
Poderia   se  tornar  uma  genuína  obrigação.  Mas  o  elemento  crucial  ainda  pareceria  ser  a 
arma. 
Há  uma  antiga  brincadeira  do  vaudeville  que  faz  o  mesmo  ponto  de  forma  ainda 
mais elegante ­ aqui como melhorada por Steve Wright: 
 
Eu  estava  descendo  a  rua  com  um  amigo  outro  dia  e  um  cara  com  uma  arma   salta  
de um beco e diz "mãos ao alto". 
Conforme  eu  pegava  minha  carteira,  eu  pensei  "não  deveria  ser  uma  perda 
total".  Então  eu  tirei  algum  dinheiro,  virei  para   meu  amigo  e  disse  "Hey,  Fred,  aqui 
estão os cinquenta contos que te devo". 
O  ladrão  ficou  tão  ofendido  que  ele  tirou  mil  dólares  de  seu próprio dinheiro, 
forçou Fred a me emprestar sob a mira da arma e depois pegou de volta. 
 
Na  análise  final,  o  homem  com  a  arma  não  tem  que  fazer  nada  que  ele  não  queira  fazer. 
Mas  a  fim  de  ser  capaz  de  operar efetivamente mesmo um regime baseado em  violência, é 
necessário  se  estabelecer  algum  tipo  de  conjunto  de  regras.  As  regras  podem  ser 
completamente  arbitrárias.  De  certa  forma,  nem  mesmo  importa  quais  elas  são.  Ou,  pelo 
menos,  não   importa  a   princípio.  O  problema  é, no momento que se começa a  enquadrar as 

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  Hallam  1866  V:  269­70.  Uma  vez  que  o  governo  não  sentiu  que  fosse  apropriado  pagar  pela 
manutenção   dos   incautos,   se  esperava  que  os  prisioneiros  arcassem  com   o  custo  completo   de  seu 
próprio aprisionamento. Se não pudessem, simplesmente morriam de fome. 

coisas   em  termos  de  dívida,  as  pessoas  inevitavelmente  começarão  a  perguntar  quem 
realmente deve a quem. 
Discussões  sobre  dívidas  vêm acontecendo há pelo menos cinco mil anos. Na maior 
parte  da  história  humana  ­  pelo   menos,  da  história  de  estados  e  impérios  ­  a  maioria  dos 
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seres  humanos  tem  sido  informada  de  que  são  devedores.   Historiadores  e, 
particularmente,  historiadores  das  ideias,  têm  sido  estranhamente  relutantes em considerar 
as  consequências  humanas;  especialmente  uma  vez  que  esta  situação  ­  mais  do  que 
qualquer  outra  ­  causou  ultraje   e  ressentimento  contínuos.  Diga  às  pessoas   que  elas  são  
inferiores,  é   pouco  provável  que  elas  fiquem  satisfeitas,  mas  isto,  surpreendentemente, 
raramente  levou  à  revolta  armada.  Diga  às  pessoas  que  elas  são  potenciais  iguais  que 
falharam  e  que,  portanto,   mesmo  o  que  elas  têm   elas  não  merecem,  que  não  é 
legitimamente  delas, e você tem muito mais probabilidade de inspirar raiva. Certamente isso  
é  o  que  a  história  pareceria  nos  ensinar.  Por  milhares  de   anos,  a   luta  entre  ricos  e  pobres 
tomou  grandemente  a  forma de conflitos entre credores e devedores ­ de argumentos sobre 
os  certos  e   errados  do   pagamento  de  juros,  escravidão  por  dívida,  anistia,  reintegração  de 
posse,  restituição,  o  sequestro  de  ovelhas,  o  confisco  de vinhedos e a venda dos filhos dos 
devedores  para  a  escravidão.  Pela mesma razão, pelos últimos cinco mil anos, com notável 
regularidade,   as  insurreições  populares  começaram  da  mesma  maneira:  com  a  destruição 
ritual  de  registros  de  dívida  ­  tábulas,  papiros,  livros  contábeis,  qualquer  que   fosse  a forma 
que  pudessem  ter  tomado  em  qualquer  determinado  tempo  e  lugar.  (Depois  disso,  os 
rebeldes  normalmente  vão  atrás  dos  registros  de  propriedade  sobre  a  terra  e  dos  autos 
fiscais.)  Como  o  grande  classicista  Moses   Finley  frequentemente  gostava  de  dizer,  no 
mundo  antigo,  todos  os  movimentos  revolucionários  tinham  um  único  programa:  "Cancele 
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as dívidas e redistribua a terra" ​

Nossa   tendência  a  negligenciar  isso  é   tão  mais  peculiar  quando  você  considera 
quanto  de  nossa  linguagem  moral   e  religiosa  contemporânea  originalmente  emergiu  de 
forma  direta  desses  mesmos  conflitos.  Termos  como  "reckoning"  ("acerto  de  contas")  ou 
"redemption"  ("redenção")  são  apenas  os  exemplos  mais  óbvios,  uma  vez  que  foram  
tomados  diretamente  da  linguagem   financeira  antiga.  Em  um sentido mais amplo, o mesmo 
pode  ser  dito  de  "guilt"  ("culpa"),  "freedom"  ("liberdade"),  "forgiveness"   ("perdão")  e  mesmo  
"sin"  ("pecado").  Discussões  sobre  quem  realmente  deve  o  que  a  quem  desempenharam 
um papel central em moldar nosso vocabulário básico de certo e errado. 
O  fato  de  que  tanto  dessa  linguagem  tomou  forma  em  discussões  sobre  dívida 
deixou  o  conceito estranhamente incoerente. Afinal, para discutir com o  rei, tem­se que usar 
a linguagem do rei, quer as premissas iniciais façam sentido ou não. 
Se  se  olha  para  a história da dívida, então, o que se descobre,  antes de tudo, é uma 
profunda  confusão  moral.  Sua  manifestação  mais  óbvia  é  que  em  quase  todos  os   lugares, 
se  descobre  que a maioria dos seres humanos mantém simultaneamente que (1) devolver  o 
dinheiro  que  se  emprestou  é  uma  simples  questão  de  moralidade  e  (2)  qualquer um com o 
hábito de emprestar dinheiro é mau. 
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  Se  considerarmos  as responsabilidades fiscais como  sendo  dívidas, é  a  esmagadora  maioria  ­  e,  se 
nada  mais,  os  dois   estão  intimamente  relacionados,  uma  vez  que,  ao  longo   do  curso  da  história,  a 
necessidade de  reunir dinheiro para o  pagamento  de impostos sempre  foi a razão  mais frequente para 
se endividar. 
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  Finley  1960:63;  1963:24;  1974:80;  1981:106;  1983:108.  E  estas  são  apenas   as  que  eu  consegui 
rastrear.  O  que  ele  diz sobre Grécia e Roma pareceria se igualmente válido sobre o Japão, a Índia  ou a 
China.  

É  verdade  que  opiniões  sobre  este  último  ponto  de  fato  mudam   para  lá  e  para  cá. 
Uma  possibilidade  extrema  poderia   ser  a  situação  que  o  antropólogo  francês  Jean­Claude 
Galey  encontrou  em  uma  região  oriental  do Himalaia onde, até  tão recentemente  quanto os 
anos  1970,  as  castas  de  baixo  escalão  ­ referia­se a elas como "os vencidos", uma vez que 
se pensava que eram descendentes de uma população outrora conquistada pela atual casta 
senhora  das  terras,  muito  séculos  antes   ­  viviam  em  uma  situação  de  dependência  por 
dívida  permanente.  Sem   terra  e  sem  dinheiro,  eram  obrigadas  a  solicitar  empréstimos  dos 
senhorios   simplesmente  para  encontrar  uma  maneira  de  comer ­ não através dinheiro, uma 
vez  que  as  somas  eram  insignificantes,  mas  porque  se  esperava   que  devedores  pobres 
pagassem  os  juros  na  forma  de  trabalho,  o  que  significava  que  pelo  menos  se  fornecia 
comida  a  eles  enquanto  eles  limpavam  as  dependências  de  seus  credores  e  retelhavam 
suas  cabanas.  Para  os  "vencidos"  ­  como  para  a  maioria  das  pessoas  no  mundo,  na 
verdade  ­  as  despesas  de  vida  mais  significantes  eram  casamentos  e  funerais.  Estas 
exigiam   uma  boa  quantia   de  dinheiro,  que   sempre  tinha  que  ser  tomado  emprestado.  Em 
tais  casos,  era  uma  prática  comum,  explica  Galey,  que  os  agiotas  da  alta  casta  exigissem 
uma  das  filhas  do  mutuário  como   seguro.  Frequentemente,  quando  um homem pobre tinha 
que  tomar  dinheiro  emprestado  para  o  casamento  de  sua  filha,   o  seguro  seria  a  própria 
noiva.  Seria  esperado  dela  que  se  reportasse  ao  lar  do  emprestador  após  sua  noite  de 
núpcias,  passasse  alguns  meses  ali   como  sua  concubina  e  então,  uma  vez que ele ficasse 
entediado,  fosse  enviada  para  algum  campo  madeireiro  nas  proximidades,  onde  ela  teria 
que  passar  os  próximos  um  ou  dois  anos  como   prostituta,  trabalhando  para  pagar  a  dívida 
de  seu  pai. Uma  vez que fosse quitada, ela  retornaria a seu marido e começaria sua vida de 
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casada.  
Isto  parece  chocante,  ultrajante  mesmo,  mas  Galey  não reporta nenhum sentimento 
generalizado  de  injustiça.  Todo  mundo  parecia   sentir  que  isso  era  simplesmente a maneira 
que  as  coisas  funcionavam.  Tampouco  havia  muita  preocupação   expressa  entre  os 
brâmanes  locais,  que  eram  os  árbitros  supremos em questões de moralidade ­ embora isso  
dificilmente  seja surpreendente, uma vez que os agiotas mais proeminentes frequentemente 
eram os próprios brâmanes. 
Mesmo  aqui,  claro,  é  difícil  saber  o  que  as  pessoas   estavam  dizendo  a  portas 
fechadas.   Se  um  grupo  de  rebeldes  Maoístas  repentinamente  tomasse   controle  da  área 
(alguns  de  fato  operam  nesta  parte  rural  da  Índia)  e  arrebanhasse  os  usurários  locais  para 
julgamento, poderíamos ouvir todos os tipos de opiniões expressas. 
Ainda  assim,  o  que  Galey  descreve  representa,  como  eu  digo,  um  extremo  de 
possibilidade:  um  em   que  os  próprios  usurários  são  as  autoridades  morais  supremas. 
Compare  isto  com,  digamos,  a  França  medieval,  onde  o  status  de  agiotas  estava 
seriamente   em  questão.  A  Igreja   Católica  sempre  havia  proibido   a  prática  de  emprestar 
dinheiro  a  juros,  mas  as  regras  frequentemente   caíam  em  desuso,  fazendo  com  que  a 
hierarquia  da  Igreja  autorizasse  campanhas  de  pregação,  mandando  frades  mendicantes 
viajarem  de  cidade  em  cidade  alertando   os  usurários  que,  a  menos  que se arrependessem 
e  fizessem  uma  restituição  completa  de  todo  juro extraído de suas vítimas, eles certamente 
iriam para o Inferno. 
Estes  sermões,  muitos  dos  quais  sobreviveram,  estão  cheios  de  histórias  de  terror 
sobre  o  julgamento  de  Deus  sobre  agiotas  impenitentes:  estórias  de  homens ricos afligidos 

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 Galey 1983. 

pela  loucura  e  por  terríveis  doenças,  assombrados  por  pesadelos  de  leito  de  morte  sobre 
serpentes  ou  demônios  que  em  breve  dilacerariam  ou  comeriam  sua  carne.   No  século  XII, 
quando  tais  campanhas  atingiram  seu  auge,  sanções  mais  diretas  começaram  a  ser 
empregadas.   O  papado  emitiu  instruções  às  paróquias  locais  de  que  todos  os  usurários 
conhecidos  deveriam  ser  excomungados;  não  se  deveria  deixá­los  receber  sacramentos  e, 
sob  nenhuma  condição,  seus  corpos  poderiam   ser  enterrados  em  terreno  sagrado.  Um 
cardeal  francês,  Jacques  de  Vitry,  escrevendo  por  volta  de  1210,  registrou  a   estória   de um 
agiota  particularmente  influente  cujos  amigos  tentaram  pressionar  o  padre  de  sua paróquia 
a negligenciar as regras e autorizá­lo a ser enterrado no adro da igreja local: 
 
Uma  vez que os amigos do usurário morto foram muito insistes, o padre  cedeu à sua 
pressão  e  disse,  "Coloquemos  seu  corpo  em  um  burro  e  vejamos o desejo de Deus 
e  o  que  Ele  fará  com  o  corpo.  Para  onde  quer  que  o  burro  o  leve,  seja  uma  igreja, 
um  cemitério  ou  outro   lugar,  lá  eu  o  enterrarei".  O  corpo  foi  colocado  sobre  o  burro 
que,   sem  desviar  nem  para  a  direita  nem  para  a  esquerda,  o  levou  direto  para  fora 
da  cidade  para  o  local  onde  ladrões  eram  colocados  na  forca,  e  com  um  salto 
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cordial, mandou o cadáver voando para dentro do esterco sob a forca.  
 
Examinando  a  literatura  mundial,  é  quase  impossível  encontra  uma  única  representação 
simpática  de  um  agiota  ­  ou,  em  todo  caso,  de  um  agiota  profissional,  o  que  significa,  por 
definição,  um  que   cobre  juros.  Eu  não  estou  certo  que  exista  outra  profissão  (carrascos?) 
com  uma imagem tão consistentemente ruim. É especialmente notável quando se considera 
que,  ao contrário de carrascos, os usurários  muitas vezes estão entre as pessoas mais ricas 
e  poderosas  em  suas  comunidades.  Ainda assim, o próprio nome "usurário" evoca imagens 
de  agiotas,  dinheiro  manchado  de   sangue,  libras  de  carne, a venda de almas e, atrás delas 
todas,  o  Diabo,  muitas  vezes  representado  como  ele  mesmo  uma  espécie  de  usurário,  um 
contador  maligno  com  seus  livros  e  canhotos,  ou,  alternativamente,  como  a  figura 
ameaçadora  logo  atrás  do  usurário,  ganhando  tempo  até  que  ele  possa   reaver  a  alma  de 
um vilão que, pela sua própria ocupação, claramente fez um pacto com o Inferno. 
Historicamente,  houve  apenas  duas  maneiras  efetivas  de  um  emprestador tentar se 
esquivar  do  opróbrio:   ou  desviar  a  responsabilidade  para  alguma  terceira  parte,  ou  insistir 
que  o  mutuário  é  ainda  pior.  Na  Europa  medieval,  por  exemplo,   os  senhores  muitas  vezes 
assumiram  a  primeira  abordagem,  empregando  judeus  como  substitutos.  Muitos  falariam 
mesmo  de  "nossos"  judeus  ­  isto  é,  judeus  sob  sua  proteção  pessoal  ­  embora  na  prática 
isso  normalmente  significasse  que  eles  primeiro  negariam  aos  judeus,  em  seus  territórios, 
quaisquer  meios  de  se  ganhar  a  vida,  exceto  através  da   usura  (garantindo que eles seriam 
amplamente  detestados),  e  então  periodicamente  se  voltariam  contra  eles,  alegando  que 
eram  criaturas  detestáveis  e tomariam o dinheiro para si mesmos. A segunda abordagem é, 
claro,  mais  comum.  Mas  ela  normalmente  leva à conclusão de que ambas as partes em um 
empréstimo  são  igualmente  culpadas;  todo  o  arranjo  é  um  negócio  ensebado  e,  muito 
provavelmente, ambos serão condenados. 
Outras  tradições  religiosas  têm  perspectivas  diferentes.   Nos  códigos  legais  Hindus 
medievais,  não   apenas  os  empréstimos  com  juros  eram  permissíveis  (a  principal 
estipulação  era  que  os  juros  nunca  deveriam  exceder  o   principal),  mas  frequentemente  se 

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 Jacques de Vitry, in Le Goff 1990:64.  

enfatizava  que  um  devedor  que  não  pagasse  renasceria  como  um   escravo  no  lar  de  seu 
credor   ­  ou,  em  códigos  posteriores,  renasceria  como   seu  cavalo   ou  seu  boi.  A  mesma 
atitude  tolerante  em  relação  a  emprestadores,  e  alertas  de  vingança  cármica  contra 
mutuários,  reaparecem  em  muitas  vertentes  do  Budismo.  Mesmo  assim,  no   momento  em 
que  se  pensava  que  os  usurários  tinham   ido  longe  demais,  exatamente  o  mesmo  tipo  de 
estórias  encontradas  na  Europa   começariam  a   aparecer.  Um  autor  japonês  medieval 
reconta  uma  ­  ele  insiste  que  é  uma  estória  verdadeira  ­  sobre  o  terrível  destino  de 
Hiromushime,  a   esposa  de  um  abastado  governador  distrital  em  cerca   de  776  D.C.  Uma 
mulher excepcionalmente gananciosa, 
 
ela  colocaria  água  no  vinho  de  arroz  para  que  vendesse  e   tivesse  um  lucro enorme 
sobre  esse  saquê   diluído.  No   dia  em  que  ela  emprestava  algo  para  alguém,  ela 
usava  um  copo  dosador  pequeno,  mas  no  dia  da  coleta  ela  usava  um  grande. 
Quando  emprestava  arroz,  sua  balança  registrava  pequenas  porções,  mas  quando 
ela  recebia  pagamento  era  em   grandes  quantidades.  Os  juros  que  ela  recolhia 
forçosamente  eram  tremendos  ­  frequentemente  tanto  quanto  dez  ou  mesmo  cem 
vezes  a  quantidade  do  empréstimo  original.  Ela  era   rígida  em   recolher  débitos,  não 
demostrando   qualquer  misericórdia  que  fosse.  Por  isso,  muitas  pessoas  foram 
jogadas em um estado de ansiedade; elas abandonavam seus lares para fugir dela e 
8
começavam a vagar em outras províncias.  
 
Após  ela  ter  morrido,  por  sete  dias,  monges  rezaram  sobre  seu  caixão  selado.  No  sétimo, 
seu corpo misteriosamente ganhou vida: 
 
Aqueles  que  vieram  olhar  para  ela  encontraram  um   fedor  indescritível.  Da  cintura 
para  cima  ela  já  se  tornara  um   boi  com  chifres  de  quatro  polegadas,  salientes  em 
sua  testa.  Suas  duas  mãos   haviam  se  tornado  os  cascos  de  um  boi,  suas  unhas 
agora  estavam  rachadas  de  maneiras  que  lembravam o peito do pé de  um casco de 
boi.  Da  cintura  para  baixo,  contudo,  seu  corpo  era   o  de  uma  humana.   Ela  não 
gostava  de  arroz  e  preferia  comer  grama.  Sua  maneira  de   comer  era  ruminação. 
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Nua, ela deitaria em seu próprio excremento.  
 
Curiosos  descendiam.  Culpada   e  envergonhada,  a  família  fez  tentativas  desesperadas  de 
comprar  perdão,  cancelando  todas  dívidas  a  eles  devidas  por  qualquer  um,  doando  muito 
de  sua  riqueza  para  estabelecimentos  religiosos.  Finalmente,  misericordiosamente,  o 
monstro morreu. 
O  autor,  ele  próprio  um  monge,  sentiu  que  a  estória  representava  um  caso claro de 
reencarnação  prematura  ­  a  mulher  estava  sendo  punida  pela  lei  do  carma  por  suas 
violações  do  "que  é  tanto  razoável  quanto  direito".  Seu  problema  era  que  as   escrituras 
budistas,  na  medida  em  que  elas  explicitamente  ponderavam  sobre   a  questão,  não 
forneciam  um  precedente.  Normalmente,  eram   os  devedores  que  deveriam  renascer  como 
bois,  não  credores.  Como  resultado,  quando  chegou  a  hora  de  explicar  a  moral  da  estória, 
sua exposição ficou decididamente confusa: 
8

  Kyokai,  Record   of  Miraculous  Events  in  Japan   (c.  822  AD),  Tale  26,  citado  in  LaFleur  1986:36. 
Também Nakamura 1996:257­59∙ 
9
 Ibid: J6  

10 

 
É  como  um  sutra  diz:  "Quando  não  pagamos  as  coisas  que  emprestamos,  nosso 
pagamento  se  torna  aquele  de   renascer  como  um  cavalo  ou  boi".  "O  devedor  é 
como  um  escravo,  o  credor  é  como  um  mestre".  Ou, novamente: "um devedor é um 
faisão  e  seu  credor  um  falcão".  Se  você  está  em  uma situação de  ter concedido um 
empréstimo,  não  coloque  pressão  desarrazoada  sobre  seu  devedor por pagamento. 
Se  você  o  fizer,  renascerá  como  um  cavalo   ou  um  boi  e  será  colocado  a  trabalhar 
para  aquele  que  estava  em  dívida  com  você,  e  então  você  pagará  muitas  vezes 
10
mais.  
 
Então, qual vai ser? Eles não podem ambos acabar como animais nos celeiros um do outro. 
Todas  as  grandes  tradições  religiosas  parecem  se  bater  contra  este  dilema  de uma 
forma  ou  outra.  Por  um  lado,  na  medida  em  que  todas  as  relações  humanas  envolvem 
débito,  elas  estão  todas  moralmente  comprometidas.  Ambas  as  partes  já  são 
provavelmente  culpadas  de  algo  simplesmente  por entrar na relação; no mínimo correm um 
risco  significante  de  se  tornarem  culpadas  se  o  pagamento  for  atrasado.   Por  outro  lado,  
quando  dizemos  que  alguém  age  como  se  "não  devesse  nada  a  ninguém",  dificilmente 
estamos  descrevendo  a  pessoa  como  um  protótipo  de  virtude.  No  mundo  secular,  a 
moralidade   consiste  grandemente  de  cumprir  nossas  obrigações  para  com  os  outros  e 
temos  uma  tendência  teimosa  a  imaginar  estas  obrigações  como  dívidas.  Monges,  talvez, 
possam  evitar  o  dilema  se  desligando  do  mundo  secular  inteiramente,  mas  o  resto  de  nós 
parece condenado a viver em um universo que não faz muito sentido. 
 

I I I I I  
 
A  estória  de  Hiromushime  é  uma ilustração perfeita do impulso para se jogar a acusação de 
volta  ao  acusador   ­  assim  como   na  estória  sobre  o  usurário  morto  e  o  burro,  a  ênfase  em 
excremento,  animais  e  humilhação  é  claramente  entendida  como  justiça  poética,  o  credor 
forçado  a  experimentar  os  mesmos  sentimentos  de  desgraça  e  degradação  que  os  
devedores  sempre  são  feitos  sentir.  É  tudo uma maneira mais vívida, mais visceral de fazer 
a mesma pergunta: "Quem realmente deve o que para quem?". 
É  também  uma  ilustração  perfeito  de  como,  no  momento  em  que  se  faz  a  pergunta 
"Quem  realmente  deve  o  que  para  quem?",  se  começou  a  adotar  a  linguagem   do  credor. 
Assim  como  se  não  pagamos  nossas  dívidas,  "nosso  pagamento  se  torna  aqueles  de 
renascer  como  um  cavalo  ou  um  boi";  então  se  você  for  um  credor  desarrazoado,  você 
também  "pagará".  Mesmo  a  justiça  cármica  pode  ser  assim  reduzida  à  linguagem  de  uma 
transação de negócios. 
Aqui  chegamos  à  questão  central  deste  livro:  O  que,  precisamente,  significa  dizer 
que  nosso  senso  de  moralidade  e  justiça  é  reduzido   à  linguagem  de  uma  transação   de 
negócios?  O  que  significa  quando   reduzimos  obrigações  morais  a  dívidas?   O  que  muda 
quando  uma  vira  a  outra?  E   como  falamos  sobre  elas  quando  nossa  linguagem  foi  tão 
moldada  pelo  mercado?  Em  um  nível,  a  diferença  entre  uma  obrigação  e  uma  dívida  é 
simples  e  óbvia.  Uma  dívida  é  a  obrigação  de  pagar  uma  certa   soma  de  dinheiro.  Como 
10

 Ibid: J7  

11 

resultado,  uma  dívida,  ao  contrário  de  qualquer  outra  forma  de  obrigação,  pode  ser 
quantificada  precisamente.  Isto  permite  que  as   dívidas  se  tornem  simples,  frias  e 
impessoais  ­  o  que,  por  sua  vez,  permite­lhes  ser  transferíveis.  Se  alguém  deve  um  favor, 
ou  sua  vida,  a  outro  ser  humano  ­  isso  é  devido  àquela  pessoa  especificamente.  Mas  se 
alguém  deve  quarenta  mil  dólares  à  12 por cento de juros, não importa realmente quem é o 
credor;  nem  tampouco  qualquer   das  duas  partes  tem  que pensar muito sobre o que a outra 
parte  precisa,  quer,  é  capaz  de  fazer  ­  como  elas  certamente  teriam  se  o   que fosse devido 
fosse  um  favor,  ou  respeito,  ou  gratidão.  Não  é  necessário  calcular  os  efeitos  humanos; 
precisa­se  apenas  calcular  principal,  saldos,  multas  e  taxas  de juros. Se você acabar tendo 
que  abandonar   sua  casa  e  vagar  por  outras  províncias,  se  sua  filha  acabar   num  campo de 
mineração  trabalhando  como  prostituta,  bem,  isso  é  lamentável,  mas  incidental  para  o 
credor. Dinheiro é dinheiro, e negócio é negócio. 
A  partir  desta  perspectiva,  o  fator   crucial,  e  um  tópico  que  será   explorado  em 
profundidade  nestas  páginas,  é  a  capacidade  do  dinheiro  de  transformar  a  moralidade  em 
uma   questão  de  aritmética  impessoal  ­  e,  ao  fazê­lo,  justificar  coisas  que,  de  outra  forma, 
pareceriam  ultrajantes  ou  obscenas.  O  fator  da  violência,  que  eu  estive  enfatizando  até 
agora,   pode  parecer  secundário.  A  diferença  entre  uma  "dívida"  e  uma  mera  obrigação  
moral  não  é  a  presença  ou  ausência  de  homens  com  armas   que  podem  executar  essa 
obrigação  confiscando  as  posses   do  devedor  ou  ameaçando  quebrar  suas  pernas.  É 
simplesmente  que  um  credor  tem  os  meios  de  especificar,  numericamente,  exatamente 
quanto o devedor deve. 
Contudo,  quando  se  olha  um  pouco  mais  de  perto,  se  descobre  que  esses  dois 
elementos  ­  a  violência  e  a  quantificação  ­  estão  intimamente ligados. Na verdade, é quase 
impossível  encontrar  um   sem  o  outro.  Usurários   franceses  tinham  amigos  e  executores 
poderosos,   capazes  de  ameaçar  até  mesmo  autoridades  da  Igreja.  De  que  outra  maneira 
eles  teriam  recolhido  dívidas   que  eram  tecnicamente   ilegais?  Hiromushime  era 
absolutamente  intransigente com seus devedores ­ "não demostrando qualquer misericórdia 
que  fosse"  ­  mas,  aí,  seu  marido  era  o  governador.  Ela  não  tinha  que  demonstrar 
misericórdia.  Aqueles  de  nós  que  não  têm  homens  armados  atrás  de  si  não  podem  se  dar 
ao luxo de ser tão exigentes. 
A  forma  em  que  a  violência,  ou  a  ameaça  de  violência,  transforma  as  relações 
humanas  em  matemática  aparecerá  repetidamente  ao  longo  do  curso  deste  livro.  Ela  é   a 
fonte  suprema  da  confusão  moral  que  parece  flutuar  em  torno  de  tudo  que  envolve  o tema 
da  dívida.  Os  dilemas  resultantes  parecem  ser  tão  antigos  quanto  a  própria  civilização. 
Podemos  observar  o  processo  nos  mais  antigos  registros  da  antiga  Mesopotâmia;  ela 
encontra  sua  primeira  expressão  filosófica  nos  Vedas,  reaparece  em infindáveis formas por 
toda   a  história  registrada  e  ainda  se  encontra  por  baixo  do  tecido  essencial  de  nossas 
instituições   hoje  ­  estado  e  mercado,  nossas  mais  básicas  concepções  da  natureza  da 
liberdade,  moralidade,  socialidade  ­  todas  as  quais   foram  moldadas   por  uma  história  de 
guerra,  conquista  e  escravidão  de   maneiras  que  nós  não  somos  mais  capazes  sequer  de 
perceber por que não conseguimos mais imaginar as coisas de qualquer outra maneira. 
 

I I I I I  
 

12 

Há  razões  óbvias  pelas  quais  este  é  um  momento  particularmente  importante  para 
reexaminar  a  história  da  dívida.  Setembro  de  2008  viu  o   começo  de  uma  crise  financeira 
que  quase  levou,  aos  berros,  a  economia  do  mundo  inteiro  a  parar.  De  muitas  maneiras  a 
economia   mundial  de  fato  parou:  navios   pararam  de  se  mover  através  dos  oceanos  e 
milhares  foram  colocados  em  doca  seca.  Guindastes  de construção foram desmontados, já 
que  nenhuma  construção  mais  estava  sendo  levantada.  Os  bancos  em  grande  parte 
deixaram  de  fazer  empréstimos.  Na  sequência  disso,  houve  não  só  raiva  e  perplexidade 
públicas,  mas   o  início  de  uma  verdadeira  conversa  pública  sobre   a  natureza  da  dívida,  do  
dinheiro,  das  instituições  financeiras  que  vieram  a  deter  o  destino  das  nações   em  suas 
garras. 
Mas isso foi apenas um momento. A conversa acabou nunca ocorrendo. 
A  razão  pela  qual  as  pessoas  estavam  prontas  para   tal  conversa  foi  que  a  estória 
que  havia  sido  contada   a  todo  mundo  durante  a  última  década  mais  ou  menos  havia 
simplesmente  se  revelado  ser  uma  mentira  colossal.  Não  há  realmente  nenhuma  maneira 
mais  agradável  de  dizer  isso.   Por  anos,  todo  mundo   havia  ouvido  sobre  toda  uma  série  de  
inovações  financeiras  novas  e  ultrassofisticadas:  derivativos  de  crédito  e  de  mercadorias, 
derivativos  de  obrigações  hipotecárias  garantidas,  títulos  híbridos,  trocas  de  dívida  e assim 
por  diante.  Estes  novos  mercados  de  derivativos  eram  tão  incrivelmente  sofisticados  que  ­ 
de  acordo  com  uma  estória  persistente  ­  uma  proeminente  casa  de  investimentos teve que 
empregar  astrofísicos  para  rodar  programas  de  troca  tão  complexos  que  mesmo  os 
financistas  não  conseguiram  começar  a  entendê­los.  A  mensagem  era  transparente:  deixe 
estas  coisas  com  os  profissionais.  Você  não  tem  chances  de  conseguir  pensar  sobre  isso. 
Mesmo  se   você  não  gosta muito de capitalistas financeiros (e poucos pareciam inclinados a 
argumentar  que  havia  muito  a  se  gostar  sobre  eles),  eles não eram nada além de  capazes, 
na  verdade,  tão  sobrenaturalmente  capazes   que  a  supervisão  democrática  dos  mercados 
financeiros  era  simplesmente  inconcebível.  (Mesmo  muitos  acadêmicos  caíram  nessa.  Eu 
me  lembro  bem  de  ir  a  conferências  em  2006  e  2007  onde  os  teóricos  sociais  da  moda 
apresentaram  artigos  argumentando  que  estas  novas   formas  de  titularização,  ligadas  a 
novas  tecnologias  de  informação,  anunciavam  uma  transformação  iminente  na  própria 
natureza  do  tempo,  da  possibilidade  ­  da  própria  realidade. Eu lembro de pensar: "Otários!" 
E assim o foram.) 
Então,  quando  os  destroços  tinham  parado  de  quicar,  descobriu­se  que  muitos,  se 
não  a  maioria  deles  não  tinha  sido  nada  mais  do  que  golpes  muito  elaborados.  Eles 
consistiam  de   operações  como  vender  a  famílias  pobres hipotecas criadas de tal maneira a 
tornar  a  eventual  falência  inevitável;   fazendo  apostas  sobre  quanto   tempo  demoraria  para 
os  detentores  falirem;  empacotando  a  hipoteca  e  a  aposta  juntas  e  as  vendendo  para 
investidores  institucionais  (que  representam,  talvez,  as  contas  de  aposentadoria  dos 
titulares  de  hipotecas)  alegando  que  daria  dinheiro,  não  importa  o  que  acontecesse,  e 
permitindo  que  os  ditos  investidores   passassem  tais  pacotes  para  frente  como  se  fossem 
dinheiro;  entregando  a   responsabilidade  de  pagar  a  aposta  para  um  conglomerado  de 
seguros  gigante  que,  se  afundasse  sob  o  peso  de  sua  dívida  resultante  (o  que  certamente 
aconteceria),  teria  que  ser  resgatado  pelos  contribuintes  (da  maneira   como  tais 
11
conglomerados  foram  de  fato  resgatados).   Em  outras  palavras,  parece  muito  como  uma 
11

 Simon Johnson,  o economista  chefe  do  FMI na  época,  colocou  de forma concisa num artigo recente 
na  ​
The  Atlantic​
:  "Reguladores,  legisladores  e  acadêmicos  quase  todos  assumiram  que  os 
administradores  destes  bancos  sabiam  o  que   estavam  fazendo.   Em  retrospecto,  eles   não  sabiam. A 

13 

versão  excepcionalmente  elaborada  do  que  os  bancos  estavam  fazendo  quando 
emprestavam  dinheiro  aos  ditadores  da  Bolívia  e  do  Gabão,  no  final  dos  anos  70:  fazer 
empréstimos  completamente  irresponsáveis  com  o  pleno  conhecimento   de  que,  uma  vez 
que  se  tornasse  conhecido  que  o  fizeram,  políticos  e  burocratas  se  esforçariam  para 
garantir  que  eles  ainda  seriam  reembolsados  de  qualquer  maneira,  não  importa  quantas 
vidas humanas tivessem que ser devastadas e destruídas a fim de fazê­lo. 
A  diferença,  no  entanto,  era  que  desta  vez  os  banqueiros  o  estavam  fazendo  em 
uma   escala  inconcebível:  a  quantia  total  de  dívida  em  que  eles  haviam  incorrido  era  maior 
do  que  os  Produtos  Internos  Brutos  de  todos  os  países  do  mundo  ­  e  deixou  o  mundo  em 
parafuso e quase destruiu o próprio sistema. 
Exércitos  e  a  polícia  se  prepararam  para   combater  as  rebeliões  e  tumultos,  mas 
nenhuma  se  materializou.  Mas  tampouco  o  fizeram  quaisquer  mudanças  significativas  em 
como  o  sistema  é  administrado.  Na  época,  todo  mundo  assumiu  que,  com  as  próprias 
instituições   definidoras  do   capitalismo  (Lehman  Brothers,  Citibank,  General  Motors) 
desmoronando,  e  todas  as  alegações  de  sabedoria  superior  reveladas  serem  falsas,  nós 
pelos  menos  recomeçaríamos  uma  conversação  mais  ampla  sobre  a  natureza  da  dívida  e 
das instituições de crédito. E não apenas uma conversação. 
Parecia  que  a  maioria  dos  americanos  estava aberta a soluções radicais. Pesquisas 
mostraram  que  uma  maioria  esmagadora   sentia  que  os  bancos  não  deveriam  ser 
resgatados,  ​
quaisquer  que  fossem  as  consequências  econômicas​
,  mas  que  cidadãos 
comuns  presos  a  hipotecas  ruins  deveriam  ser  socorridos.  Nos  Estados  Unidos  isto  é 
bastante  extraordinário.  Desde  os  tempos  coloniais,  os  americanos  tem  sido  a  população 
menos  simpática  a  devedores.  De  certa  forma  isso  é  estranho,  uma  vez  que  a  América  foi 
fundada  em  grande  parte  por  devedores  em  fuga,  mas  é  um  país  em  que  a  ideia  de que  a 
moralidade  é  questão  de  se  pagar  suas  dívidas  é mais profunda do que em  qualquer outro. 
Os  Estados  Unidos  foram um dos últimos países no mundo a adotar leis de falência: apesar 
do  fato  de,  em  1787,  a  Constituição  ter  especificamente  encarregado  o  novo  governo  de 
12
criar  uma,  todas  as  tentativas  foram  rejeitadas  com  "bases  morais"  até  1898.   A  mudança 
foi  histórica.  Por  esta  mesma  razão,  talvez,  os  responsáveis  por  moderar  o   debate  nos 
meios  de  comunicação  e  nas   legislaturas  decidiram  que  aquele  não  era  o  momento.  O 
governo  dos  Estados   Unidos  efetivamente  colocou  um  Band­Aid  de  três  trilhões de  dólares 
sobre  o  problema  e  não   mudou  nada.  Os  banqueiros  foram  resgatados;  devedores  de 

divisão  de  Produtos  Financeiros  da  AIG,  por  exemplo,  fazia  US  $  2,5  bilhões  em  lucros  antes  dos 
impostos  em  2005,  em grande  parte pela  venda de seguros de títulos complexos e mal compreendidos 
abaixo  do preço. Frequentemente  descrita como  'pegar moedas  na frente de um rolo­compressor', esta 
estratégia  é  lucrativa em anos comuns  e catastrófica  nos  ruins. Até  último outono,  a AIG tinha seguros  
em  aberto de  mais de  US  $  400  bilhões  em  títulos. Até  hoje,  o governo dos EUA, em um esforço para 
resgatar  a  companhia,  comprometeu   cerca  de US$180 bilhões  em  investimentos  e empréstimos  para 
cobrir   as  perdas  que  a  sofisticada  modelagem  de  risco  da  AIG  havia  dito  que  eram  virtualmente 
impossíveis".  (Johnson 2010) Johnson, é claro, passa  por  cima  de  a  possibilidade  de que  a AIG sabia 
perfeitamente  bem o  que acabou por acontecer, mas simplesmente  não se importava, pois  eles sabiam 
que o rolo compressor iria achatar outra pessoa. 
12
  Em   comparação,  a  Inglaterra  já  tinha  uma  lei  nacional de  falência  em  1571. Uma  tentativa  de criar 
uma  lei  federal  de  falências nos EUA  em  1800  naufragou; houve uma em vigor  brevemente entre 1867 
e  1878, com o  objetivo de aliviar endividados veteranos da Guerra Civil, mas acabou  por ser abolida por 
razões  morais  (vide  Mann 2002 para uma boa história  recente). A  reforma  da falência  na América tem 
mais  probabilidade  de tornar os termos  mais duros do que  o contrário, como com as reformas de 2005, 
que o Congresso aprovou, por apelos industriais, logo antes da grande quebra de crédito. 

14 

13

pequena  escala  ­  com  algumas  míseras  exceções ­ não o foram.  Ao contrário, no meio  da 
maior  recessão  econômica  desde  os  anos  30,  já  estamos  começando  a  ver  uma  reação 
contra  eles  ­   guiada   por  corporações  financeiras  que  agora  se  voltaram  para  o  mesmo 
governo  que  lhes  socorreu  para  que  aplique toda a força da lei contra cidadãos comuns em 
dificuldades  financeiras.  "Não  é  um  crime  dever  dinheiro",  reporta  a  ​
StarTribune  de 
Minneapolis­St.  Paul,  "Mas  as  pessoas  estão  sendo  rotineiramente  jogadas  na  cadeia  por 
falharem  em  pagar  dívidas".  Em  Minnesota,  "o  uso  de   mandados  de  prisão  contra 
devedores  subiu  em  60%  ao  longo  dos  últimos  quatro  anos,  com 845 casos em 2009... Em 
Illinois  e  no sudoeste de Indiana, alguns juízes prendem devedores pela falta de pagamento 
de  dívidas  de  ordem  judicial.  Em  casos  extremos,  as  pessoas  ficam  na  cadeia  até  que 
levantem  um  pagamento  mínimo.  Em  janeiro  [de  2010],  um  juiz  sentenciou  um  homem  de 
Kenney,  Ill.  'a  encarceramento  indefinido'  até  que  ele  apresentasse  US$300  com  relação  a 
14
uma dívida com depósito de madeira" ​

Em  outras  palavras,  estamos  nos  movendo  em  direção  a  uma  restauração  de  algo 
muito  parecido  com  prisões  de  devedores.  Enquanto  isso,  a  conversa  estacou,  a  raiva 
popular  contra  os  resgates se pulverizou em incoerência, e parece que estamos tropeçando 
inexoravelmente   em  direção  à  próxima  grande  catástrofe  financeira,  a  única  verdadeira 
questão sendo apenas quanto tempo vai demorar. 
Atingimos  o   ponto  em   que  o  próprio  FMI,  agora  tentando  se  reposicionar  como  a 
consciência  do  capitalismo  global,  começou  a  emitir  alertas  de  que  se  continuarmos  no 
curso  atual,  provavelmente  nenhum  resgate  virá  da  próxima  vez.  O  público  simplesmente 
não  vai  tolerar  isso  e,  como resultado, tudo realmente se desmanchará. "FMI Alerta que um 
15
Segundo  Resgate  Iria  'Ameaçar  a  Democracia'"  se  lê  em  uma  manchete   recente.   (Claro, 
por  "democracia"  eles  querem  dizer  "capitalismo".)  Certamente  significa  alguma  coisa  que 
mesmo  aqueles  que  sentem  que  são  responsáveis  por   manter  o  atual  funcionamento  do  
sistema  econômico  global,  que  apenas  alguns  anos  atrás  agiam  como  se  eles  pudessem 
simplesmente  assumir  que  o  sistema  atual  estaria  aqui  para  sempre,  agora  estão  vendo  o 
apocalipse em todos os lugares. 
 

I I I I I  
 
Neste  caso,  o  FMI  tem  um  ponto.  Temos  toda  razão  para  acreditar que, de fato, estamos à 
beira de mudanças históricas. 
Admitidamente,  o  impulso  comum   é  imaginar  tudo  em  torno  de  nós  como 
absolutamente  novo.  Em  nenhum  lugar   isso  é  tão  verdadeiro  quanto  com  o  dinheiro. 
Quantas  vezes  nos  disseram  que  o  advento   do  dinheiro  virtual,  a  desmaterialização  do 
dinheiro  vivo  em plástico e de dólares em bips de informação eletrônica nos trouxeram a um  
13

  O  fundo  de  socorro  hipotecário  criado  após o resgate, por exemplo,  só  tem prestado  auxílio a  uma 
pequena   porcentagem  dos  requerentes,  e  não  houve  nenhum  movimento  em  direção  à  liberalização  
das leis de falência que tinham, na  verdade, sido tornadas  muito mais severas, sob pressão da  indústria 
financeira, em 2005, apenas dois anos antes do colapso. 
14
 "In  Jail for  Being  in  Debt,"  Chris  Serres &  Glenin  Howatt,  Minneapolis­St. Paul Star  Tribune,  June  9, 
2010, ​
www.startribune.com/local/95692619.html 
15
  "IMF  warns  second   bailout  would  'threaten  democracy."'  Angela  Jameson   e  Elizabeth  Judge, 
business.timesonline.co.uk/tol!business/economics/article6928147.ece#cid=OTC­RSS&attr=n85799​

acessado em November 25, 2009 

15 

mundo  financeiro  sem  precedentes?  A  suposição  de  que  estávamos  em  território  tão 
desconhecido,   claro,  foi  uma  das  coisas   que  tornou   tão  fácil  para  tipos  como  o  Goldman 
Sachs  e  a  AIG  convencerem  as  pessoas  de  que  ninguém  tinha  possibilidade  de  entender 
seus  novos  e  deslumbrantes  instrumentos  financeiros.  No  momento  em  que  se  conjura  as 
questões em uma escala histórica ampla, no entanto, a primeira coisa que se aprende é que 
não  há  nada  de  novo  sobre  o  dinheiro  virtual.  Na  verdade,  esta  era  a  forma  original  do 
dinheiro.  Sistemas  de  crédito,  guias,  até  mesmo  contas  de  despesas,  tudo  existia  muito 
antes  do  dinheiro  vivo.  Estas  coisas  são  tão  antigas  quanto  a  própria  civilização.  Verdade, 
também  descobrimos  que a história tende a avançar e recuar  entre períodos dominados por 
lingotes   ­  em  que  se  assume  que  ouro  e prata ​
são dinheiro ­ e períodos em se assume que 
o  dinheiro  é  uma  abstração,  uma  unidade  virtual  de  conta.  Mas  historicamente,  o  dinheiro 
creditício  vem  primeiro  e  o  que  estamos  testemunhando  hoje  é  um  retorno  de  suposições 
que  teriam  sido  consideradas  o  óbvio  senso   comum,  digamos,  na Idade Média ­ ou mesmo 
na antiga Mesopotâmia. 
Mas  história  de  fato  fornece  dicas  fascinantes  do  que  poderíamos  esperar.  Por 
exemplo:  no  passado,  eras  de  dinheiro  creditício  virtual  quase  invariavelmente   envolvem  a 
criação  de   instituições  projetadas  para  impedir  que  tudo  dê  errado   ­  impedir  que  os 
emprestadores  se  juntem  com  burocratas  e  políticos  para  espremer o suco de todo mundo, 
como  eles  parecem  estar  fazendo  agora.  Elas   são  acompanhadas  pela  criação  de 
instituições  projetadas para proteger os devedores. A nova era de dinheiro creditício em que  
estamos  parece  ter  começado  precisamente  ao  contrário.  Ela  começou  com  a  criação  de 
instituições   globais  como  o  FMI  projetadas  para  proteger,  não  os   devedores,  mas  os 
credores.  Ao  mesmo  tempo,  no  tipo  de  escala  histórica  sobre  a  que  estamos  falando  aqui, 
uma década ou duas não são nada. Temos muito pouca ideia do que esperar. 
 

I I I I I  
 
Este livro é uma história da dívida, então, mas também usa essa história como uma maneira 
de  fazer  perguntas  fundamentais  sobre  com  o  que  os   seres  humanos  e  a  sociedade 
humana se parecem ou poderiam se parecer ­ o que  nós realmente devemos um ao outro, o 
que  sequer  significa  fazer  essa  pergunta.  Como  resultado,  o  livro  começa  tentando   furar 
uma  série  de  mitos  ­  não  apenas  o  Mito  do  Escambo,  de  que  se ocupa o primeiro capítulo, 
mas  também  mitos  rivais  sobre   dívidas  primordiais  para  com  os  deuses,  ou  para  com  o 
estado  ­  que,  de  uma  forma  ou  de  outra,  formam  a  base  de  nossas  suposições  de  senso 
comum  sobre  a  natureza  da  economia  e  da  sociedade.  Nessa  visão  de  senso  comum,  o  
Estado  e  o  Mercado  se  elevam  acima  de  todo  o  resto  como  princípios  diametralmente 
opostos.  A  realidade  histórica  revela,  contudo,  que  eles  nasceram  juntos  e  sempre 
estiveram   entrelaçados.   A  coisa   que  todas  essas  ideias  equivocadas  têm  em  comum, 
descobriremos,  é  que  elas  tendem  a  reduzir   todas  as  relações  humanas   à  troca,  como  se 
nossos  laços  com  a  sociedade,  mesmo  com  o  próprio  cosmos,  pudessem  ser  imaginados 
nos  mesmos termos que uma transação de negócios. Isto leva a uma outra questão: Se não 
a  troca,  então  o  que?  No  capítulo  cinco,  eu  começarei   a  responder  à  questão  recorrendo 
aos  frutos  da  antropologia  para  descrever  uma  visão  da  base  moral  da  vida  econômica;  
então retornarei à  questão das origens do dinheiro para demonstrar como o próprio princípio 
de  troca  emergiu  em  grande  parte  como  um  efeito  da  violência  ­   que  as  reais  origens  do 
16 

dinheiro devem ser encontradas em  crime e  recompensa, guerra e escravidão, honra, dívida 
e  redenção.  Isso,  por  sua  vez,  abre  o  caminho  para  começar,  com  o  capítulo  oito,  uma 
história  de   verdade   dos  últimos  cinco  mil   anos  de  dívida  e  crédito,  com  suas  grandes  
alternações  entre  eras  de  dinheiro  virtual  e  físico.  Muitas  das  descobertas  aqui  são 
profundamente  inesperadas:   desde  as  origens  das  concepções  modernas  de  direitos  e 
liberdades  na  antiga  lei   de  escravos,   às  origens  do  capital  de  investimento  no  Budismo 
chinês  medieval,  ao  fato  de  que  muitos  dos  argumentos  mais  famosos  de  Adam  Smith 
parecem  ter  sido  plagiados  de  obras  de  teóricos  de  livre   mercado  da Pérsia medieval (uma 
estória  que,   incidentalmente,  tem  implicações  interessante  para  se  entender  o  atual  apelo  
do  Islã  político).  Tudo  isso  prepara  o  cenário  para  uma   nova  abordagem  dos  últimos   cinco 
mil  anos,  dominados  por  impérios  capitalistas,  e  nos  permite  pelo  menos  começar  a 
perguntar o que poderia realmente estar em jogo nos dias atuais. 
Por  muito  tempo,  o  consenso  intelectual  tem  sido  de  que  não  podemos  mais  fazer 
Grandes Perguntas. Cada vez mais, está parecendo não temos outra escolha. 
 
 

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