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ASPECTUALIZAÇÃO DO ATOR DA ENUNCIAÇÃO NO DISCURSO DE DIVULGAÇÃO RELIGIOSA

RAMOS-SILVA, Sueli Maria
PG – DL/ Universidade de São Paulo – CNPq
sueliramos@usp.br

Resumo: Este trabalho tem como fundamentação teórica a Semiótica Greimasiana de linha francesa
e a Análise do Discurso (AD) francesa. Tomamos para nosso estudo, de modo amplo, a divulgação
religiosa, a fim de identificarmos o éthos característico desse discurso. O objetivo específico deste
trabalho é depreender mecanismos de construção do sentido do gênero compêndio, presente no
campo religioso instrucional católico. A fim de determinamos como os textos que materializam a
divulgação religiosa alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa,
estabelecemos como recorte textual a análise do capítulo terceiro: “A vida de oração”, extraído do
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. A escolha da problemática aqui proposta justifica-se
também pelo fato de que os conceitos ora escolhidos como determinantes dessa análise: a noção de
afeto, aspecto, ritmo e presença, encontrarem-se longe de estar completamente definidos dentro da
teoria semiótica. Assim, com apoio nos estudos sobre presença de Fontanille e Zilberberg (2001) e
dos desenvolvimentos efetuados por Discini (2005a, 2005b), buscamos articular a noção de estilo à
aspectualização do ator da enunciação, a fim de procurarmos estabelecer com mais profundidade as
diretrizes dos mecanismos de construção do sentido que constroem os enunciados caracterizados
pelo discurso de divulgação religiosa.
Palavras-Chave: divulgação religiosa; aspectualização do ator da enunciação; ritmo; presença.

0. Introdução
Este trabalho tem como fundamentação teórica a semiótica greimasiana de linha
francesa; a Análise do Discurso (AD) francesa, incorporada à semiótica por meio dos
trabalhos de Maingueneau e os desenvolvimentos recentes da semiótica tensiva.
Ao considerar o projeto de reformulação do modelo semiótico, realizado por Greimas
e Fontanille, com a associação dos aprimoramentos epistemológicos e técnicos introduzidos
ao modelo por Zilberberg, buscamos realizar, inicialmente, uma breve incursão no que diz
respeito à análise da categoria tensiva. Assim, com apoio nos estudos sobre presença de
Fontanille e Zilberberg (2001, p. 123-151) e dos desenvolvimentos efetuados por Discini
(2005a, 2005b) e Fiorin (1989), buscamos articular a noção de estilo à aspectualização do
ator da enunciação. Em linguística, tradicionalmente, o aspecto aparece ligado à categoria
temporal, definido como “um ponto de vista sobre o processo” (BERTRAND, 2003, p. 415).

Determinaremos como os textos que materializam a divulgação religiosa alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa. ao imprimir um ritmo aos seus discursos. na medida em que o texto. pensa-se na aspectualização do ator. Deste modo. buscamos o estabelecimento do modo de presença compatível ao sistema de restrições da totalidade discursiva do discurso de divulgação religiosa. 28). portanto. podemos delinear o modo de presença característico dos enunciados pertencentes ao espaço discursivo de divulgação religiosa. mas o observador que apreende o mundo segundo um ritmo. 2 . mediante as noções teóricas esboçadas. observaremos o sujeito da percepção. devemos remeter ao conceito de presença. Ao tratar o modo pelo qual se dá o investimento temático e figurativo dos textos em análise. Ainda para entender o éthos. ao tomar o actante observador como sujeito cognitivo. Remetermos assim à percepção mais ou menos acelerada de um modo de presença na percepção de um mundo discursivizado. ao ser controlada pelas noções de tempo e de andamento. busca reproduzir o imaginário social. Ao pressupormos o simulacro de um sujeito enunciador que estaria operando a escolha de valores. qualquer que seja o seu gênero discursivo. O observador. Conceberemos um sujeito que apresenta um mundo segundo um ritmo e que. a que se relacionam a tonicidade ou atonia das percepções. contribui para a fundamentação do éthos: o ritmo dos textos determinado por meio da percepção de um corpo que percebe e sente. A percepção. desde as etapas mais profundas que as já consideradas do modelo gerativo. como o espaço é dado pelo olhar do sujeito que constrói esse espaço. sujeito da cognição. no momento da discursivização. deveremos levar em conta o éthos e a ideologia subjacentes. como sujeito da percepção. p. Dessa forma. segundo Greimas e Courtés (1986. como a “disposição. uma instância profunda e pressuposta às demais etapas do modelo gerativo. Dessa forma. e. o observador não apenas como o sujeito cognitivo que se emparelha ao narrador do nível discursivo. corresponde a uma percepção mais ou menos acelerada. de um dispositivo de categorias aspectuais mediante as quais se revela a presença implícita de um actante observador”. A tensividade fórica será examinada como uma espécie de proto-sintaxe responsável pelas modulações tensivas e fóricas.Consideraremos a aspectualização. estabeleceremos com mais profundidade as diretrizes dos mecanismos de construção do sentido que constroem os enunciados enfeixados pelo discurso de divulgação religiosa. dado como efeito de sentido. mas falamos de um aquém do percurso gerativo. está nessa articulação do tempo visto como andamento. Com base nesses pressupostos. ao que remetemos à noção de éthos. aspecto. A escolha da problemática aqui proposta justifica-se também pelo fato de que os conceitos ora escolhidos como determinantes dessa análise: a noção de afeto. A noção de ritmo será relacionada à noção do observador correlacionado por Discini (2005d) aos processos discursivos de antropomorfização do sujeito enunciador.

caracterizar o discurso de divulgação religiosa sob a designação de discursocomentário. ant. ao caracterizar-se como um texto de interpretação do relato bíblico. entendemos como discurso fundador. em oposição ao privilégio concedido à narratividade oriunda de Propp. de acordo com Zilberberg (1990). publicar.] 1. Em virtude das interpretações suscitadas pela Bíblia. a própria concepção de divulgação: Divulgar [Do lat. largar. aspecto. propagar.. “se entendemos por isso enunciados cuja finalidade é menos especulativa do 3 . Caracteriza-o por apresentar uma propriedade doutrinária específica. religioso dever Tomemos. na maioria das vezes. 267). 29) se utiliza da nomenclatura de “discurso devoto” para se referir a esse tipo de texto.] (FERREIRA. somada à presença cada vez mais constante do discurso religioso em todos os tipos de mídias atuais. os discursos de divulgação religiosa caracterizam-se pela sua constituição como um fazer interpretativo sobre um discurso primeiro. pode ser definido como um discurso segundo “produzido a partir de um primeiro discurso. Discurso religioso de divulgação religiosa (1) S1  S2 Ov “graça divina”    agente fiel poder. A semiótica tem apresentado um relativo desinteresse com relação a essas categorias. vulgarizar.Tornar público ou notório.] 2. diante da escassez de trabalhos que já teriam versado sobre esse tema.: devulgar. Esse discurso. referente a textos específicos do domínio religioso.: v. A própria concepção de ritmo apresenta. propagar-se. considerada como discurso fundador do discurso de divulgação religiosa podemos.ritmo e presença. uma presença tênue na reflexão semiótica. inicialmente. de acordo com Orlandi (2003). relegadas a um segundo plano. 2004) Tomamos de Ramos-Silva (2007) a designação discurso de “divulgação religiosa”. modo etc. [Var. e que se apresenta como equivalente do ponto de vista do sentido” (PANIER. [. difundir-se. Aliada a essa problemática teórica. Tornar-se público ou conhecido. não encontrando reservas no arsenal mesmo das categorias como tempo. encontrarem-se longe de estar completamente definidos dentro da teoria semiótica. divulgare. difundir. que. Conjug. de acordo com as afirmações de Panier (1986). Segundo a autora.. p. Maingueneau (2005. p. vem se acrescentar a justificativa de análise do corpus religioso ora delimitado aos propósitos desse estudo. I. 1986.

p. O fazer interpretativo exercido pela narrativa de comentário deve ser considerado como efeito de sentido produzido por esse discurso. Os discursos de divulgação religiosa operacionalizam duas categorias de perfórmance: a) fazer comunicativo ou persuasivo . ou seja. religioso dever O discurso religioso de divulgação. O sujeito. b) fazer interpretativo . por meio da proposição de um dever-fazer ao destinatário. PANIER. uma em que o /crer/ sobredetermina um /dever-fazer/ e outra em que ele sobredetermina um /poder fazer/” (GREIMAS.que prática: ensinar aos fiéis quais são os comportamentos que eles devem adotar para viver cristãmente em uma sociedade determinada” (MAINGUENEAU. Desse modo. um sistema de modalidades deônticas com a instalação de prescrições (dever-fazer) e de interdições (dever não fazer). COURTÉS. o sujeito adquire um crer dever fazer (engajamento) e um crer poder fazer (competência). ou melhor. portanto. 1986. “dever-saber” e. pautado pela construção de simulacros apresenta. ao aceitar ser deonticamente modalizado por esse discurso. apresenta um julgamento ético sobre os enunciados deônticos. p. apresenta ao homem um programa de ação por meio da execução de um fazer persuasivo. Esse discurso. tendo sido persuadido e aderido ao objeto modal “saber”. servindo como mediador entre um destinador divino superior e aqueles destinatários a quem ele busca atingir. 143). Temos assim. queira aprender os fundamentos bíblicos em conformidade com a ideologia que o fundamenta. 268). (2) S1  S2 Ov “graça divina”    agente fiel poder. 29).o “comentário interpreta a narrativa que toma por objeto” (Cf. 2005. 4 . Após o julgamento ético efetuado.o comentário opera com a transmissão de um saber que se pretende como a verdade (fazer-saber). o discurso de divulgação religiosa constitui-se por meio de um procedimento parafrástico de função essencialmente citativa que. uma função de reescritura e interpretação do relato bíblico. p. na enunciação dos diversos gêneros de divulgação religiosa. deonticamente modalizado. Apóia-se em uma manipulação enunciativa para que o leitor (actante coletivo). constrói-se por meio de um texto instrucional e propagador da doutrina das Sagradas Escrituras. 1986. Esse julgamento se refere às estruturas modais éticas que sobredeterminam os enunciados deônticos. ao operacionalizar a dimensão cognitiva. “Compreende-se que haveria duas estruturas modais éticas.

própria aos discursos de divulgação religiosa de caráter instrucional. que é o “saber das coisas de Deus”. constrói o simulacro da cena de doação de saber. nos discursos de divulgação religiosa. ou seja. onipotente e onisciente. Dessa forma. assim como o estilo. Para isso. para fundar uma práxis semiótica da divulgação da fé religiosa. organizada ao redor da instância do aqui. próprio aos discursos de divulgação. devido à ausência de quaisquer elementos modais que possam levantar incerteza (não crer ser). tendo como preocupação encadear injunções e ensinamentos. uma proxêmica da ordem da estabilidade com a definição hierárquica de lugares enunciativos do arquidestinador (Deus). portanto. Teremos. um tom de “orientação” determinado por uma voz que define o estabelecimento de dois lugares enunciativos: o mestre (aquele que sabe e deve transmitir o conhecimento) e o discípulo (aquele que deve aprender). e que. A lentidão. a apresentar marcas de desaceleração. direta ou indiretamente. O representante de Deus. dado como objeto desejável e possível. Desse modo. a fim de que o destinatário (fiel) estabeleça o “alto” como categoria para que assim seja possível retomar o seu encontro com Deus.Definimos. pode ser associado. corresponde à preocupação com a previsibilidade apresentada por esses discursos. o andamento tende em princípio. A voz de Deus se coloca como a voz do enunciador primeiro. de tal modo que não se admitem questionamentos. portanto. Essa expansão se verifica pela explicitação do enredamento do 5 . alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa. portanto. O enunciado divulgador constrói. do mestre (destinador mediador e. a que se pressupõe o “fazer-saber”. há no discurso de divulgação religiosa. podemos concluir que os textos que materializam a divulgação religiosa. Vemos emergir. Nesse discurso. ao lembrar os atributos divinos. Os discursos do espaço discursivo de divulgação religiosa pertencem a uma esfera de circulação do sentido. ao se apropriar da palavra divina. o faz sem autonomia alguma. portanto. uma espacialização característica dos discursos de divulgação religiosa. uma espacialização determinada pela direção superativa no eixo da verticalidade. Contrariamente ao discurso fundador. o efeito de sentido de paroxismo autoritário chega ao limite. os textos do espaço discursivo considerado se agrupam segundo elementos extensos. a dimensão da doação de um objeto de valor cognitivo. O caráter de ensinamento. portanto. divulgador da palavra Divina absoluta) e do discípulo (destinatário e receptor do saber religioso). configura-se por meio da modalidade epistêmica da certeza (crer-ser). por meio da ilusão de reversibilidade. cujo enunciado. um sujeito determinado segundo a expansão. à lentidão e desaceleração características. pautado por um do sujeito determinado segundo a concentração. A irreversibilidade de posições enunciativas é definidora dessa tipologia de discursos.

e que entendemos como cenas enunciativas complementares. O catecismo configura-se como um instrumento autorizado para a realização da catequese. Não 6 . p. vivendo num mundo dispersivo e de mensagens múltiplas. ao se caracterizar como síntese da versão típica. dos Santos Padres. da Liturgia e do Magistério da Igreja. O compêndio divulgador apresenta como temática a exposição. O compêndio. 10). O fiel tem de ser orientado e ensinado: é necessário que se privilegie o contínuo. que o discurso religioso de divulgação. Análise de gênero de divulgação religiosa: Compêndio do Catecismo da Igreja Católica O objetivo deste capítulo é depreender mecanismos de construção do sentido de um gênero de divulgação religiosa. o catecismo para adultos da Igreja Católica. Por meio dessa lentidão é que se espera encontrar a imagem do sujeito determinada nos textos que materializam a divulgação religiosa. com o estabelecimento de fronteiras traçadas para o fiel. O compêndio caracteriza-se como uma versão sintética do conteúdo do Catecismo da Igreja Católica: Edição Típica Vaticana (doravante catecismo de Roma). 2005.preenchimento de lacunas semânticas. O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (doravante compêndio divulgador) confirma o gênero catecismo ao se oferecer como um manual que realiza a exposição completa e integral da doutrina católica acerca da fé e dos costumes. Desse modo. constitui-se como um mecanismo de divulgação para que o Catecismo da Igreja Católica: Edição Típica Vaticana seja mais conhecido e aprofundado. para que a previsibilidade sustente com segurança o fiel. de todos os elementos essenciais em matéria de fé e moral da Igreja Católica. de forma concisa. nos permite compreender a instituição de um pacto fiduciário diferenciado no que corresponde à socialização do conhecimento que se refere a esses dois discursos. II. de maneira distinta ao discurso religioso fundador. a Verdade confiada por Deus à Igreja do seu Filho” (BENTO XVI. tanto de jovens. Podemos concluir. quanto de adultos. tem por função divulgar e disseminar os elementos da fé católica e. As fontes principais de que o gênero catequético se utiliza são: a palavra da Sagrada Escritura. portanto. institui a veridicção e a fidúcia segundo o proselitismo. designado Compêndio. dessa forma. deseja conhecer o Caminho da Vida. seu público-alvo é formado por: “cada pessoa que. A descrição dos mecanismos de construção do sentido nos enunciados enfeixados pelo discurso religioso e pelo discurso de divulgação.

d) “A oração cristã”. porque aquele que reza combate contra si mesmo. antes e depois das refeições. mas pressupõe sempre uma resposta decidida de nossa parte. o ambiente e sobretudo contra o Tentador. porque se vive como se reza. como recurso ao nível missivo “onde os valores remissivos e emissivos articulam-se sintática e ritmicamente gerando as matrizes das descontinuidades e das continuidades que estruturam os discursos verbais e não-verbais”. O Combate da Oração 572. os Mandamentos. converter. o Pai-nosso. 7 . liturgia das Horas. 14). que faz de tudo para o distrair da oração. ou seja. Por que a oração é um combate? A oração é um dom da graça. c) “A vida em Cristo”. 17). Reza-se como se vive. 2005. Quais momentos são mais indicados para a oração? Todos os momentos são indicados para a oração. O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. Eucaristia dominical. Assim como o catecismo de Roma. p. p. 2697-2698 2720 “É preciso lembrar-se de Deus com mais freqüência do que se respira” (São Gregório Nazianzeno). 2725 (BENTO XVI. santo Rosário. b) “A celebração do mistério cristão”. mas a Igreja propõe aos fiéis ritmos destinados a alimentar a oração contínua: orações da manhã e da noite. 2005. III. Cada parte corresponde a cada um dos quatro dos pilares da fé católica: o Credo.171. tal como postula Tatit (1997. p. grifos nossos) A caracterização de uma instância de “tensividade fórica” será configurada. festas do ano litúrgico. 170. Essa articulação do conteúdo em quatro partes retoma a antiga ordem tradicional seguida pelo gênero catequético introduzida pelo Catecismo de São Pio V. Estas são as quatro partes referidas: a) “A profissão de fé”. o compêndio divulgador também se estrutura em quatro partes.esqueçamos que estes “elementos essenciais” serão considerados efeito de sentido e serão analisados como um modo próprio de argumentar de uma enunciação que quer fazer-crer e fazer-fazer. Análise de uma unidade “Capítulo Terceiro: A vida de oração” Recortamos os seguintes trechos para análise: Capítulo terceiro A vida de oração 567. “em correspondência com as leis fundamentais da vida em Cristo” (BENTO XVI. os Sacramentos.

Com base nesses pressupostos e nas definições de Tatit (1997) nos será possível homologar a noção de tempo com o andamento (aceleração/desaceleração). ou seja. 1996. vista como um arranjo particular do plano da expressão. A noção de ritmo. portanto. De maneira inversa.64). p. A escolha de valores pertencentes à dimensão da extensidade contribui para os efeitos de sentido de desaceleração e restituição da duração. 2004. portanto. SAUSSURE. antes mesmo da operacionalização de configurações modais. A reflexão sobre o ritmo proposta por Zilberberg é oriunda da proposição de Saussure sobre silabação. 26). e do modelo hjelmsleviano que lhe deu continuidade. A noção de ritmo será posta em dependência do andamento como medida de velocidade. observado tanto no plano do conteúdo. a implosão relacionada ao fechamento e a explosão relacionada à abertura (Cf. 1999). associada tanto ao plano do conteúdo quanto ao plano da expressão. será possível entrever um sujeito operando a escolha de valores de continuidade (euforia) ou descontinuidade (disforia). mediante a consecução de implosões e de explosões na cadeia fônica. Teremos. p.Ao relacionar a função (fazer missivo) com seus dois funtivos (fazer remissivo e emissivo) podemos. 386). quanto no plano de expressão dos enunciados recortados para análise. Tatit (1997. p. às modulações de velocidade na percepção que o sujeito tem do mundo discursivizado. Tomaremos a noção de ritmo na perspectiva de uma semiótica tensiva. uma lei de sucessão reconhecida como uma percepção mais ou menos acelerada. Contrariamente a uma acepção de ritmo puramente estética. de acordo com Zilberberg (Cf. quer entre os próprios sujeitos. a escolha de valores intensos revela a tendência do texto para a aceleração e a concentração. 53-64) entre os dois funtivos (expressão e conteúdo) que contraem a função semiótica e das considerações sobre ritmo propostas por Greimas e Courtés (1986). portanto. o anti-programa. TATIT. p. o que corresponde. pouco abordada no âmbito semiótico. 1990. tal como propõe Valéry (1988). Pietroforte (2004). actanciais ou temático-figurativas (Cf. apresenta seus desenvolvimentos efetuados por meio dos trabalhos de Zilberberg. 8 . obter a seguinte correlação: ao fazer remissivo temos como correspondente a parada. com apoio em Greimas e Courtés (1986. 1997. 2006). Partiremos do princípio de homologia proposto por Hjelmslev (1975. quer seja da relação entre o sujeito e o objeto. como manifestação de uma periodicidade. a partir de determinadas predominâncias tensivas ou missivas. Valéry (1988) e Zilberberg (1979. 2001). optamos pela noção de ritmo vista como uma forma significante. ao fazer emissivo (continuativo) relacionamos a parada da parada. Dessa forma. Entenderemos o ritmo. ao se valer das concepções de Valéry em seus Cahiers.

permanecerá conjunto com tais valores. que corresponde à presença de velocidades maiores ou menores na percepção que o sujeito tem do mundo feito discurso. prescreve uma série de comportamentos regrados e recorrentes. experiências conjuntivas pautadas pela extensão. na medida em que uma relação de conjunção ou disjunção somente é experienciada por um actante sujeito. Com essa noção obtêm-se a caracterização distinta dos comportamentos humanos. O gênero compêndio. O PN estabelecido pelo destinador-manipulador. sem a experiência do percurso e sem duração que apresente uma continuidade possível. “repetições semelhantes”) (Cf. A experiência do sujeito vai se alongando à medida que o andamento decresce. duração e apreensão do percurso.A experiência do espaço é regida pelo tempo. tendo essas concepções em mente e. ao apresentar a doutrina católica com a exposição da prática da oração apresentada em seu enunciado. ao agir conforme as prescrições estabelecidas. para que o sujeito permaneça conjunto com tais valores corresponde ao fazer emissivo. “intervalos”. c) unificação do homem e da natureza (“tempo”.realizaremos a análise dos funtivos do andamento que perpassam o discurso do catecismo considerado. p. que também poderíamos denominar continuativo. o que pode remeter à práxis semiótica apreendida em suas duas dimensões: a intensidade (sensível) e a extensidade (inteligível). Constrói-se a imagem de um sujeito que. 361-370). ao tomarmos como base as definições de Zilberberg (1992) em Présence de Wölfflin. que devem ser realizados pelo sujeito para que ele possa se manter em conjunção com o objeto-valor “graça divina”. individuais e coletivos. pautadas pela transição imediata. ou experiências construídas por mediação do instante. A noção de ritmo é de interesse a ampla porção das atividades humanas. Assim. o andamento se coloca como medida de velocidade. sendo esta regida pela velocidade. responsável pelas experiências conjuntivas pautadas pela extensão. duração e apreensão do percurso de busca do Ov “graça divina” empreendido pelo sujeito 9 . O sujeito. b) ritmo nas coisas e nos acontecimentos. já conjunto com o Ov “dom da graça divina”. As temáticas do combate. Desse modo. BENVENISTE. no que diz respeito a: a) durações e sucessões que regulam esses comportamentos humanos. 2005. receberá o Om “poder ter o poder e força para resistir aos assaltos da tentação”. por nele privilegiarmos a dominância da temporalidade emissiva (parada da parada). o catecismo apresenta uma percepção orientada pelo pólo do sagrado. caso a conjuntividade estabeleça alguma duração. Essa é uma maneira de compreender as relações juntivas. Ao se constituir por meio da modalidade do dever-ser e dever agir de acordo com o modo de vida. cuja receita é dada no próprio enunciado. Teremos assim. da defesa da vida Divina e da Santa Igreja se verificam nesse enunciado e figurativizam-se no “Combate da Oração”.

que o sujeito siga seu curso de restabelecimento da cisão original. ao se sentir o “senhor de seu próprio tempo”. Ao tomarmos como base que as escolhas dos valores tensivos. Esse momento. Assim. delinear a noção do observador que apresenta um mundo segundo um ritmo e que. Como o rito não pode ter como pressuposto a categoria surpresa.(progresso da vida espiritual). ao imprimir um ritmo aos seus discursos. com apoio na noção de ritmo. configura-se nesse discurso a opção pela parada da parada que visa segurar o tempo e fazer com que ele não se mova tão rápido. responsável pela ruptura da relação contratual entre destinador e destinatário e pela interrupção do fluxo fórico. depreendemos os mecanismos de construção de sentido do texto “A vida de oração”. O anti-programa. para evitar a fratura da identidade entre sujeito e objeto e. à parada. CONCLUSÃO Propomos. Desse modo. O domínio da religião não deseja que o objeto seja partido. o destinador-manipulador tenta assegurar a diretividade da direção estabelecida pelo âmbito contratual da fé. constitui a presença de práticas para que o sujeito. que poderia ocasionar a cisão do próprio sujeito e dos laços que o ligam ao sistema de valores considerado. realizados pela instância pressuposta do sujeito da enunciação desde as etapas mais profundas do modelo. para isso o crer faz uso do nível emissivo. A (discursiva) e B (tensiva) associar as noções de éthos ao conceito de presença da semiótica tensiva e dessa forma. conseqüentemente. constituem-se como atividades desaceleradas e dessemantizadas. por meio da conexão entre duas “semióticas”. As atividades míticas ou religiosas. pressupõem também a escolha de modulações de velocidade. extraído do 10 . nos transportamos ao domínio do andamento. tenha as suas expectativas cumpridas. IV. desacelerado diante do mundo. corresponde ao fazer remissivo. o enunciador procede ao estabelecimento do prolongamento da relação conjuntiva ao que nos remete a uma experiência conjuntiva pautada pelo andamento desacelerado. realizado de modo implícito pelo antidestinador (si mesmo. o ambiente e o Tentador). Temos ao longo do texto a presença do destinador-manipulador tentando fazer com que o sujeito não pare. ao qual remetemos ao conceito de surpresa. e para isso faz uso de modulações de velocidade. contribui para a fundamentação do éthos: o ritmo dos textos de divulgação religiosa. devido a sua função pragmática. Toda ruptura pressupõe como coeficiente tensivo a alta velocidade. a fratura do sistema de valores representado pela ideologia religiosa católica. A fim de determinamos como os textos que materializam a divulgação religiosa alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa.

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