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O drama de Urias

Sou fascinado com as tragédias bíblicas. Sedução, vingança, amizade, heroísmo e


traição permeiam muitas narrativas do Antigo Testamento. A história do soldado Urias,
marido da famosa Betseba, me chama a atenção. Infelizmente, na maioria dos relatos,
Urias consta como um personagem coadjuvante. Mas, ele é importante, pois sua vida foi
tragicamente descartada em uma trama bem complexa. Urias foi assassinado para que o
rei Davi livrasse a cara em um adultério estúpido. A história desse homicídio deve ser
considerada uma das mais sórdidas conspirações já escritas na literatura.
A narrativa é bem conhecida. Em uma tarde qualquer, Davi passeava pela murada do
palácio quando seus olhos contemplaram uma belíssima mulher tomando banho. A pele
morena, os cabelos negros, os seios bem delineados, somaram-se ao lusco-fusco para
criar um clima sedutor. E Davi não resistiu. Ordenou que lhe trouxessem a mulher para
uma noite de delícias. Alguém com um mínimo de bom senso deve ter alertado: “Esta
não, ela tem marido”. Mas Urias estava longe; dava para enganá-lo sem grande
problemas. No campo de batalha, ele nunca suspeitaria da Majestade. Seduzido Davi
estava e seduzido continuou.
Mesmo sabendo que poderia dar errado, o romance se consumou e aconteceu o pior:
Betseba engravidou. Procurando encobrir o malfeito, Davi mandou trazer Urias para um
sabático. A gravidez ainda precoce talvez ficasse eclipsada diante da libido vertiginosa
de um soldado. Davi imaginou que Urias perderia as contas do número de relações
sexuais e dos meses que faltavam até o nascimento da criança. Mas Urias recusou a
oferta do rei; não dava para cogitar o prazer enquanto a Arca do Concerto, a honra de
Israel e a dignidade do reinado dependessem dos inimigos.
Encurralado, o rei armou um plano sórdido - sordidez, geralmente, nasce de mentes
encurraladas. Davi devolveu Urias para front. O general recebeu ordens específicas para
recuar no ardor da batalha. O objetivo era claro, expor Urias; deixá-lo vulnerável,
indefeso. Aconteceu como previsto. A lança do inimigo o abateu. Morto o soldado
Urias, o rei podia casar-se, assumir o filho e tocar os negócios da corte sem ser
incriminado.
Imagino o desespero de Urias quando as tropas recuavam. Ele deve ter se desesperado:
“Por quê? Por quê?”. Penso também no comandante que gritou a ordem de voltar atrás.
Para defender o cargo, para mostrar lealdade militar, para não quebrar a hierarquia, ele
sacrificava o amigo. Muitas vezes senti a dor de Urias. Eu também fui incentivado a
marchar para me ver sem amigos. Mobilizado por companheiros de ideais, também dei
a cara a bater para depois ficar sozinho. Dói, insisto, notar que os golpes se
multiplicaram e não ter com quem dividir o sofrimento.
É ruim olhar ao redor e ver os amigos de costas. Urias recebeu o baque e agonizou sem
entender nada. Estou certo que sua maior dor não veio da arma inimiga, mas de não
compreender a razão de seus companheiros agirem daquela maneira. Urias não
conseguia atinar: havia interesses mais elevados; sua vida precisava ser gasta para
preservar a reputação do rei.
Contudo, mesmo que alguém lhe contasse o que acontecia nos bastidores, não aliviaria
o sofrimento. Não é fácil perceber que antigas lealdades têm que ser jogadas fora em
nome de projetos institucionais. Pobre Urias, sua morte trágica revelou a bestialidade do
rei, o servilismo dos soldados e a banalidade da vida. Não era para ser assim, mas foi.
Depois, Deus cobrou de Davi, mas isso é outra história..
Ricardo Gondim
ESCRITURA EM FOCO

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