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11 Frutos Do Brasil Aracati

11 Frutos Do Brasil Aracati

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Frutos do Brasil

Histórias de Mobilização Juvenil

neide duarte
p r e fá c i o : J o s é B e r n a r d o To r o

Frutos do Brasil
Histórias de Mobilização Juvenil

neide duarte

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AGRADECIMENTOS

Frutos do Brasil
Histórias de Mobilização Juvenil

Muito obrigado!
A todos os projetos que inscreveram suas histórias; Adriana de Carvalho; Alcides Almeida (TV Cultura SP); Alcino (marinheiro); Alexandre Silva (assessor parlamentar); Andrés Thompson; Antonio Carlos Martinelli; Ashoka Empreendedores Sociais; Assunção (pela hospedagem); Báu (motorista); Bernardo Toro; Carla Corrochano; Célia Schlithler; Celso (Talent); Claire Fallender; Clarice (Estúdio Silvia Ribeiro); Cláudio Vignatti (Deputado Federal); Couto (motorista); Cristina de Miranda Costa; Daniela de Melo; Dulce Critelli; Eduardo Santos; Eliana (cozinheira); Eliane Monteiro (agente de viagem); Emilia Dulce Florentino de Faria; Fernanda Papa; Fernando Moraes; Flávia Simões Nunes Yosida; Flávio Motonaga; Francisco Tancredi; Gilberto Bessa (TV Cultura do Pará); Gondim (TV Cultura do Pará); Ilana Cunha; Irineu Ferreira; Jefferson Sooma; Jéssica Martineli (TV Cultura do Pará); Jonah Wittkamper; José Antonio Moroni; Julio Ribeiro; Kato; Kodi; Lis Hirano Wittkamper; Lívia De Tommasi; Marcelo Cavalcanti; Marcílio Brandão; Marcos e toda equipe da Pousada Terra Viva; Marcos Cartum; Marcus Nakagawa; Maria da Conceição Amaral da Silva; Maria Emília Celestino; Maria Rosa Duarte de Oliveira; May Hampshire; Nicole (Estúdio Silvia Ribeiro); Nildo (capitão do barco); Nurimar Falci; Otaviano De Fiore; Patrícia M. Souza; Paulo Marcelo (Instituto Elo Amigo); Pedro (transporte); Pedro Dantas (Câmara dos Deputados); Péricles (motorista); Rabelo (TV Cultura do Pará); Reinaldo Bulgarelli; Renata Borges; Rodrigo Abel; Roseni Sena; Sesc-SP; Silvia Ribeiro; Tamine Maklouf Carvalho; Tatiana Holler;Tiana Lins;Valdir Souza (TV Cultura SP);Vinícius Gorgulho Braz e Willian Naked.

Texto (Autor): Neide Duarte Projeto Gráfico: Silvia Ribeiro e Nicole Boehringer Assistente de Design: Clarice Uba Editoração Eletrônica: Estúdio Silvia Ribeiro Coordenação Geral do Projeto: Antonio Lino Equipe do Projeto: Carla Cabrera, Denise Delfino, Juliana Pierotti, Luciana Martinelli e Paulo Gonçalves Decupagens e transcrições: Maria da Conceição Amaral da Silva, Maria Emília Celestino e Tatiana Holler Produção Gráfica: Celso Aparecido Costa e José Carlos Araujo Pré-impressão e impressão: Stilgraf Fotografias: Antonio Lino Ilustrações originais: Breno Tamura Preparação de texto: José Muniz Jr. Revisão de textos: Renato Potenza e Vivian Miwa Matsushita

Copyleft © 2006.Todo o conteúdo deste livro pode ser livremente utilizado sem finalidade comercial, desde que o crédito seja dado à Aracati - Agência de Mobilização Social

www.aracati.org.br este livro foi feito em papel reciclado

Um agradecimento especial para:
Antonio Lino Pinto, Fabiana Kuriki e João da Silva Prado..

Juventude: atores da construção de nossa história
Os desafios de romper o ciclo da pobreza, exclusão e desigualdade social são hoje temas que têm repercussão entre as mais diferentes gerações na sociedade. Alguns movimentos, visíveis ou invisíveis, apontam possibilidades de ação e mobilização de atores. Embora muitas vezes desconhecidas pelo público em geral, essas ações e mobilizações vêm construindo desenvolvimento, sentido de pertencimento e fortalecimento de identidades. Este livro vem ao encontro desse movimento, dando luz, cara, cor e imagem aos mais diversos processos sociais desencadeados pelas gerações mais jovens. São processos que reúnem diferentes movimentos na busca de alternativas e formas de expressão mais autônomas, formas de participação mais democráticas e orgânicas; demonstram o surgimento e o crescimento dos diferentes movimentos juvenis com agendas sociais das mais diversas, que fortalecem a identidade e o papel dos jovens na sociedade como provocadores, promotores e atores de processos de mudança, de si mesmos e dos organismos mais diversos da sociedade em geral. A mobilização dos jovens tem originado forças convergentes no país, que sugerem uma época mais madura, de abordagens mais progressistas e colaborativas de trabalho pelo desenvolvimento. Neste livro, visitamos essas forças que impulsionam o agir do jovem nos quatro cantos do país. As experiências relatadas demonstram que as ações com jovens não dependem apenas de processos formativos ou proibitivos, mas sobretudo de ações emancipatórias e legítimas de intervenção, onde a originalidade e a contemporaneidade fazem parte da essência do ser jovem. A juventude mobilizadora, neste livro, torna-se visível. Os jovens tornam-se atores da construção de nossa história, impulsionadores da luta contra a pobreza e a desigualdade social. E ensinam ao país que a juventude brasileira é, sim, atuante. Neste livro, visitaremos o que fazem os jovens do nosso Brasil.

Lis Hirano Wittkamper Assistente de programação da Fundação Kellogg na América Latina e Caribe

não têm segurança. Sendo desse jeito. talvez até folheando essas páginas e lendo sua própria história. O “Perfil da Juventude Brasileira”. no trabalho. um livro sobre jovens do Brasil. Os personagens principais são jovens. uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Cidadania. Veja só que paradoxo: os jovens não têm trabalho digno. eles podem estar em casa. A . os jovens já sabem que é melhor ficar em casa quando os carros passam em comboio. dormindo. todos eles de carne e osso. Alguns jovens vão de carro para a faculdade. O acesso à universidade pública não é fácil pra quem sempre estudou em escola pública. Outros nem na faculdade estão porque não podem pagar a mensalidade. não têm acesso à educação pública de qualidade. Enquanto eles ganham uma mixaria pelo que produzem. revelou que 92% dos jovens do país acham que sua vida vai melhorar nos próximos anos.. Cerca de 74% deles acham que há mais coisas boas do que ruins em ser jovem. Um dos países mais desiguais do planeta Terra. mas têm um jeito positivo de olhar para si mesmos e para a própria vida. a polícia corre pra Ceilândia. este também é um livro sobre injustiças. acontecem num país de verdade: o Brasil. Na cidade-satélite. de jovens reais. embora vivam na pele esse tipo de injustiça. mas o dinheiro da exportação não volta pra lá. Quando acontece algum crime mais sério em Brasília. O sisal sai de Conceição do Coité. Mas é interessante notar que.APRESENTAÇÃO s histórias deste livro são reais.. o atravessador fica com 85% do valor que é cobrado do consumidor. vendo tevê. com a sirene ligada.. Essas histórias reais. muitos jovens ainda estão otimistas. Nesse momento. Alguns dos nossos jovens personagens lá do semi-árido baiano trabalham com o sisal desde crianças.. Outros não têm dinheiro para tirar cópias de textos.

Margleuda. Na democracia devem coexistir pelo menos duas coisas: a dignidade e a participação. Projeto Juventude e Participação Social/MOC (BA) e Saúde e Alegria (PA). Um outro dado. o resultado da consulta foi surpreendente. um amplo programa de estudos e debates sobre os jovens brasileiros. Uma sem a outra não faz sentido. E mesmo sabendo da existência de diversas iniciativas juvenis país afora. Geledés (SP).br). Mas como os “bansolinos”. os jovens que matam ou morrem freqüentemente viram manchete de jornal. a rica diversidade de tipos e formas de participação juvenil existentes hoje no Brasil. Não dá pra querer um sem o outro. a taxa de mortalidade de jovens por homicídios no Brasil era a terceira maior do mundo. Essa quantidade. como lados da mesma moeda. Recebemos 132. Bansol (BA). o pessoal do Núcleo Cultural Força Ativa mobilizou os . Jaqueline E de todos os tipos: muitas iniciativas de grupos e organizações de jovens. Grupo Interagir (DF). associando a imagem da juventude aos problemas e não às soluções. a maioria pensa diferente. Este é também um livro sobre participação social. Mas… e os jovens que não se encaixam em nenhuma dessas categorias? Onde estão? Esses jovens estão numa fronteira: a fronteira invisível entre a infância e a vida adulta. Mas os adultos. entre agosto de 2003 e maio de 2004. lá em Salvador. Mas eles não participam daquele tipo de movimento estudantil mais conhecido. O que acontece é que os jovens não estão mais participando do mesmo jeito que os jovens daquela época participavam. costumam ver muito mais o lado negativo. Neide. escolhemos oito: Aliança com o Adolescente (PE. Mas é bom que se diga: não é só das injustiças vividas pelos jovens brasileiros que se trata aqui. Mas hoje o cenário é outro. Mas também alguns projetos de adultos: de ONGs.Outro dado importante: 84% dos jovens acreditam que a juventude pode mudar o mundo.org. que foi às ruas na época da ditadura. que gentilmente escreveu o prefácio deste livro. portanto. costuma dizer que “a participação é o modo de vida da democracia”. E aí alguns podem perguntar: pra que falar de participação num país em que uma parcela significativa dos jovens vive tantos problemas? Participação não seria um luxo perto de todas as outras necessidades. Na periferia de São Paulo. e as histórias deste livro estão aí para comprovar.Vivem hoje no país cerca de 34 milhões de jovens. permanência e sucesso dos negros no ensino superior. elas retratam. também são estudantes universitários. “As questões atinentes aos jovens com mais de 18 anos permanecem desconsideradas como foco de ação pública e social até meados dos anos 90. Acontece que nem todo mundo pensa assim.7%) aceitaria a volta da ditadura se isso resolvesse os problemas econômicos. Desses muitos brasileiros que têm entre 15 e 24 anos. Quase a metade dos desempregados do país (3. O preço que se paga por estar nessa fronteira é caro: o abandono. Esses são dados do censo do IBGE. Eles estão dentro da faculdade de administração de empresas levantando a bandeira da economia solidária. De todas as histórias que recebemos. O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) descobriu que mais da metade dos latino-americanos (54. de 2000. estão seguindo um caminho novo: eles lutam pelo acesso. Na verdade. fez uma consulta em todo o Brasil à procura de histórias de mobilização juvenil. Núcleo Cultural Força Ativa (SP). tão mais importantes e urgentes? Eis o ponto. nos intervalos comerciais. ainda que parcialmente.7 milhões) é jovem. ninguém vai fazer isso por elas. No período da ditadura. Mas não é verdade. escolas. da cidade de São Paulo. mais da metade (19 milhões) vive em famílias com renda de menos de um salário mínimo por mês. O problema é que se as pessoas não reivindicarem seus direitos. Juntas. E isso é óbvio. sempre seremos livres e iguais apenas nas páginas da Constituição. a ONG Aracati. os jovens que participavam estavam principalmente nas classes médias urbanas e se organizavam através do movimento estudantil. E muitos desses brasileiros têm entre 15 e 24 anos.” A conclusão é do Projeto Juventude. No outro extremo.Vamos ver o lado positivo: apesar de ser a minoria. Cerca de 17 milhões não estudam. Não faz sentido uma sociedade altamente participativa onde todos vivem em condições precárias. Os jovens que participam dos projetos da ONG Geledés. Fora das faculdades também tem muita coisa acontecendo. (Aliás. Sem pressão social. da UNESCO. Ficamos atrás apenas da Colômbia e de Porto Rico. brilham todos os dias nas telas de televisão. Quando os olhos do país se voltaram para a juventude. em São Paulo. Mas façamos como a juventude. ou uma ditadura em que todos vivem bem. O pessoal da Bansol está na universidade. Os tempos mudaram. Esperávamos receber uns 30 relatos. O Bernardo Toro. governos e empresas que incentivam a participação juvenil. a Aracati vem desenvolvendo projetos de incentivo à participação de jovens. é igual à de toda a população da Argentina. uma iniciativa do Instituto Cidadania que promoveu. Essas iniciativas não são necessariamente melhores do que as 124 que não foram publicadas. Muita gente tem saudade da geração de jovens dos anos 60 e 70 e costuma dizer que a juventude de hoje não é engajada e politizada como a de antigamente. Para encontrar alguns desses jovens. Grupo E-Jovem (Nacional). estereótipo da alienação e do consumismo. a situação já estava indo de mal a pior. Participação e desenvolvimento devem ser vistos. ainda tem gente disposta a arregaçar as mangas para melhorar a própria vida e a vida das outras pessoas. em vez de participar. em geral. para se ter uma idéia. Dá pra entender: a necessidade em geral fala mais alto e muita gente prefere ter dinheiro no bolso e comida na mesa. Muita gente ainda insiste em definir a juventude por negação: os jovens não são mais crianças e ainda não são adultos. Os jovens das propagandas.aracati. CE e BA). O site do projeto recebeu mais de 2 mil visitas em 30 dias. em vários estados. em parceria com a Fundação Kellogg. As oito histórias foram escolhidas como um grupo. comprova a gravidade da situação: em 2002. Desde 2002. um resumo de todos os 132 relatos recebidos está no site da Aracati: www.

O Rodolfo é gay. para coletar imagens e depoimentos. outros com política. de fato. Montaram também um telecentro com acesso à Internet. Por isso a escolha de um conjunto bem diverso de experiências. A idéia do encontro era promover um intercâmbio entre eles. Este é um livro de andanças. aconteceu um marco na produção deste livro: quatro jovens de cada um dos projetos se encontraram em Brasília. dos Bandeirantes. E. barco e avião. Diversas classes sociais. onde está trabalhando atualmente. no meio da floresta. do Coco. vários estão desistindo de vir para as capitais porque acreditam no desenvolvimento local de suas comunidades.“Eu realmente duvidava que um movimento juvenil unificado fosse possível pela complexidade de todas as juventudes. sabe lidar com as pessoas. admite Deco Ribeiro. Alguns com cultura. Jeitos diferentes de ser. Foram realizadas visitas a cada uma das iniciativas. “nós” gays. Os jovens da Rede Mocoronga de Comunicação Popular. Cada um trouxe suas bandeiras de luta e suas identidades: “nós” negros. fundador do Grupo E-Jovem. Mas em geral está sempre presente: o “nós” jovens. começaram as viagens. como o leitor preferir. A Vivi e o Josivaldo vieram da zona rural. Vários integrantes do grupo são do movimento hip-hop. seria difícil imaginar que é possível achar algo em comum. o material coletado durante essas visitas deu origem a um videodocumentário sobre mobilização juvenil no Brasil.. O mais certo é falar em juventudes brasileiras — assim. era importante que eles soubessem uns dos outros. Contando histórias de iniciativas do terceiro setor. prevaleceu o sentimento de que é possível construir a unidade na diversidade. orientações sexuais. Juventude urbana. a culinária. . Agora. Os textos também estão recheados de referências sobre a geografia. agricultura. pensar e agir. raças. outros com comunicação.. o clima. Os textos em geral estão recheados de depoimentos que Washington. Mas o interessante foi perceber que ainda há um outro “nós”. Como você vai perceber. Uns trabalham com economia. juventude da floresta. os jovens de lá podem se comunicar com os jovens gays e as jovens lésbicas que trocam idéias e informações por e-mail e pelo site do Grupo E-Jovem. Estrada de terra. Os integrantes do Interagir também estão envolvidos nessa discussão sobre políticas públicas. A seleção das histórias e as viagens para colher imagens e depoimentos aconteceram entre outubro de 2004 e fevereiro de 2005. da Gameleira. a fauna. ela conheceu bem o itinerário poeirento e esburacado que leva aos projetos sociais. Em alguns casos é mais forte. Os jovens de hoje receberam essa herança e estão indo adiante: estão desbravando a democracia. A Clara perdeu umas aulas na faculdade de administração por causa do encontro. Estrada do Algodão. em meio a tantas identidades diferentes. os jovens foram importantes para que a ditadura desse lugar à democracia. 29 anos são costurados pela sua poesia jornalística. a flora. “nós” da floresta. descobrindo novos e importantes caminhos de participação social. juventude negra. E estão num lugar privilegiado para isso: Brasília. Ou pelo seu jornalismo poético. em outros menos. No final. Neide Duarte sabe lidar como poucos com as imagens e as palavras. Entre 26 e 31 de março de 2005. A Fernandinha canta rap. Os jovens da Aliança estão abrindo seus próprios negócios e se envolvendo com projetos na área de cultura. criamos uma espécie de glossário. E nesse ponto. às vezes vem depois. política. O resultado foi considerado “excelente” por 80% dos participantes. Este livro nasceu para ser uma pequena comprovação dessa diversidade. porque não existe uma juventude brasileira. juventude rural. Neide dirigiu e apresentou o Programa “Caminhos e Parcerias” na TV Cultura. “nós” sertanejos. outros mexendo com educação. a história e a cultura dos lugares que visitamos. Eles estão se organizando em municípios do semi-árido baiano para garantir que haja políticas públicas para a juventude da zona rural. Além do livro. Antes que outras pessoas os conhecessem através do livro. no plural. mas esse encontro me fez ver que eu estava errado”. Neide deu bastante espaço para a fala literal dos próprios jovens. Fica aqui o convite: leia o livro e veja o filme. Mas acima de tudo. projeto da ONG Saúde e Alegria. A Carlinha veio de mais perto: ela mora em Brasília mesmo. estrada asfaltada. A Camila é negra. Ela deixou saudades em muitos dos lugares que visitamos. Antes de voltar à Rede Globo. E são muitos os caminhos. Escolhidas as oito histórias que seriam publicadas. Há algumas décadas. que às vezes vem antes.Tem gente fazendo projeto na área de saúde. acertamos em cheio ao escolher a jornalista-viajante Neide Duarte para escrever as histórias. estão fazendo programas de rádio em comunidades ribeirinhas do Pará. Ao final do livro.moradores do bairro e montou uma biblioteca comunitária. para que você possa saber um pouco mais sobre essas referências. Quem também não quer abandonar a terra onde nasceu são os jovens do Projeto Juventude e Participação Social. “nós” da periferia. A Raquel mora na floresta.

a fórmula é a mesma: mais participação juvenil. mas que agora começa a descruzar os braços para pagar essa dívida. Nem todos esses universitários tiveram alguma participação nos movimentos contra a ditadura. que deu origem ao primeiro e único governo popular. a participação juvenil existe sim. pai da Ana Nere. no seu livro Culturas da Rebeldia: a Juventude em Questão. num país de verdade. Aliás. Mas ainda que não apareça e que digam o contrário. No Ceará. 0. nem sempre são bem-vindos.Você já procurou saber o que os jovens estão aprontando de bom na sua cidade. esse mesmo estado foi palco do movimento da Cabanagem. e os projetos e programas governamentais ainda são insuficientes. Por outro lado. você vai conhecer alguns deles. Para evitar retrocessos e conseguir novos avanços. não usa mais agrotóxicos na plantação desde que a filha levou pra casa uma alternativa mais ecológica. 15% dos jovens brasileiros participam de algum grupo. A mãe da Élida já entende melhor porque a filha estudou tanto para entrar na faculdade. a assumir sua homossexualidade. na Bahia. tem um imenso patrimônio: milhões de jovens que ainda não perderam a esperança. Somando os que estão fazendo com os que querem fazer. Atualmente. Muitas vezes eles mexem com tradições. Um país que. além de se conhecer. 2% dos brasileiros entre 15 e 24 anos) desenvolvem algum tipo de ação benéfica para a sua comunidade.3% de toda a população daquela época. cultural ou esportivo. Em 1835. governos estaduais e o próprio governo federal começam a perceber a importância das políticas públicas para os jovens. Um país que durante muito tempo esqueceu sua juventude. segundo Paulo Sérgio do Carmo. Na verdade. que não acredita muito nesse papo de economia solidária. Porque geralmente o que acontece é que os brasileiros que não se enquadram naquele mito do povo pacífico e passivo acabam sendo condenados à invisibilidade. organizações e movimentos juvenis estão fazendo pressão e cobrando seus direitos. Muitas vezes são os primeiros de suas famílias a se envolver com projetos sociais. a concluir o ensino médio. E dentro do site do E-Jovem tem até uma coluna direcionada aos pais dos adolescentes gays e lésbicas que não sabem como lidar com a sexualidade de seus filhos e filhas. E quando os jovens começam a querer mudar o jeito como os adultos fazem as coisas. apesar de todos os problemas. eles aproveitaram a estada em Brasília para visitar o Congresso Nacional e conversar com políticos sobre o que o governo está fazendo pela juventude do país. estamos falando de uma turma de cerca de 7 milhões de pessoas. Apesar de estarem conquistando cada vez mais espaço. As resistências. Mas é preciso reconhecer que estão acontecendo avanços. jovens ribeirinhos estão fazendo programas de rádio e se organizando politicamente no Pará. A participação juvenil não costuma ser reconhecida e valorizada. E tem um garoto do Grupo E-Jovem que não fala com o pai há um ano. Na casa da Luiza. as ações políticas e sociais dos jovens de hoje não estão nas páginas dos jornais. o “Perfil da Juventude Brasileira”. Histórias reais. lembram até hoje do Conselheiro. Esses jovens são pioneiros. Agora ela percebe que lá também é lugar de negros. no começo não aceitava que mulher criasse peixe. começam dentro de casa. mas no dia-a-dia é diferente. Do mesmo modo. é porque alguns grupos. Um país cheio de injustiças e desigualdades. Mas aqueles que tiveram cumpriram um papel muito significativo. o Padre Cícero liderou o movimento milenarista em 1914. e aos poucos as famílias aprendem a acolher e valorizar as novidades que os jovens trazem pra casa. fica mais difícil. O Seu Antonio. Dentro de casa. de vez em quando rolam uns “conflitos ideológicos” com o pai. Conheça. o Ajuntamento de Pretos em 1815. Eles estão longe dos holofotes da mídia e da opinião pública. a terra da Cícera e suas bonecas. Esse espaço foi criado por uma mãe. E nada disso caiu do céu. mas o pai não aceita ter um filho gay. outra de nossas personagens. no seu bairro? Provavelmente você vai encontrar muitas histórias parecidas com as que estão escritas aqui neste livro. essas resistências vão se desfazendo. Já pensou se de Norte a Sul esses jovens fossem às ruas para construir um país melhor e mais justo? Não faria muita diferença? Pra se ter uma idéia. A história se repete. Segundo aquela mesma pesquisa do Instituto Cidadania que citamos anteriormente. As revoltas e lutas populares quase não aparecem nos livros de história. Os problemas que afetam a juventude são muitos. Ainda mais sendo adolescente. A família da Margleuda. a Revolução Praieira em 1847. O cenário ainda está longe do ideal. seja religioso. com costumes que vêm de gerações. terra do Germano e do pessoal da Aliança. A pesquisa também revelou que os personagens deste livro não estão sozinhos: cerca de 680 mil jovens (ou seja.Agência de Mobilização Social .E como jovens. Nas próximas páginas. com personagens reais. Os jovens de Monte Santo. um sem número de movimentos: a Conspiração dos Suassunas em 1801.. Eles moram na mesma casa. em 1968 o Brasil tinha mais ou menos 270 mil universitários. indígena e camponês do período imperial. Em Pernambuco. esse é um debate que está ganhando cada vez mais força: algumas prefeituras. Imagine então o que 680 mil podem fazer. Este livro pretende ser um facho de luz sobre essa juventude.Vá atrás. Antonio Lino Co-fundador da Aracati . em geral.Até porque pouca gente fica sabendo o que os jovens estão fazendo. não precisa imaginar o que os jovens podem fazer. E isso não costuma ser facilmente aceito. às vezes. Mas fora de casa.Vivemos numa sociedade adultocêntrica. os pais têm a oportunidade de conhecer melhor o que os filhos pensam e descobrir aos poucos que suas idéias e ações têm fundamento. uma das personagens deste livro. Falando assim parece muito simples e lógico. os jovens engajados desse país continuam na escuridão.. Se hoje a juventude vem ganhando espaço na agenda política do país. o interessante é ver que.

e definir um norte ético como fundamento para fazer da sociedade um espaço de humanização contínua. Se definimos governabilidade como a capacidade de uma sociedade de dar ordem a si própria. em cooperação com os outros. A governabilidade supõe um conjunto de novos entendimentos e aprendizados sociais: recuperar o valor da política.PREFÁCIO Os jovens e a governabilidade A liberdade não é possível a não ser na ordem. U m dos maiores desafios da América Latina é a governabilidade. criar e fortalecer as organizações como condição para exercer a cidadania (ser ator social). mas a única ordem que produz liberdade é a que eu mesmo construo. aprender a construir a autonomia pessoal e social. é fácil entender que este não é um problema de governantes. A política A possibilidade ou dificuldade que uma sociedade ou comunidade tem para avançar depende de sua própria capacidade para criar e sustentar . para a dignidade de todos. mas uma construção que se gera e se produz a partir da sociedade civil.

social e política. e saber fazer alianças e transações do tipo ganhar – ganhar. E se é a própria vida. ao trabalho. espiritual.A formação política consiste exatamente nisso: aprender a criar propósitos coletivos. o diretor Carl Sagan propõe a seguinte hipótese: talvez houve em outros planetas civilizações inteligentes como a nossa. a valorização e a ponderação da história pessoal e social de cada um. onde os jovens vivem e evoluem como cidadãos autônomos. e outros podem facilmente ignorar ou violar seus direitos. à política. tornar possível a universalização dos direitos humanos.Tais direitos são o norte ético das novas sociedades. série de TV sobre a conquista do espaço. como ser criança ou velho. a solidariedade. é a riqueza mais importante de uma sociedade. dão sentido às instituições. podem-se perceber a pertinência e a importância da atuação dos jovens. dos outros e do planeta. a ciência.Aprender a desenvolver essas três dimensões é o novo paradigma da educação emocional. a auto-estima e a auto-regulação. a compaixão. a formação para o conhecimento e para a observação interior. sem nenhuma organização. Quando uma pessoa pertence a muitas organizações de uma forma ativa. ao investimento. descrições e experiências apresentadas aqui nos ajudam a visualizar novos espaços de socialização e de aprendizagem. Uma pessoa sozinha. uma pessoa que em cooperação com outras pode modificar a ordem social em que vive. Como dizia Tocqueville. Sabemos que não é possível um projeto de jovens sem adultos. por isso. É preciso que pessoas se dediquem a construir e conseguir essas convergências de vontades e desejos por um propósito externo e de benefício coletivo. Ao ler o conjunto de histórias relatadas nesse livro. a associação e o saber associar-se compõem a ciência-mãe de uma sociedade. não é uma etapa da vida – é a própria vida. A autonomia é o resultado de três dimensões interiores: o autoconhecimento.interesses coletivos. é preciso saber se organizar ou pertencer a organizações que respondam a nossos objetivos e interesses. depende sim do número e do tipo de organizações às quais a pessoa esteja vinculada. a ceder e a receber cessões. de poder formular e implementar o próprio projeto de vida. capacidade de trabalhar para diminuir e evitar o sofrimento dos outros. São características de uma pessoa autônoma: o conhecimento. . um só interesse comum. todo o resto depende disso. do debate e da confrontação pacífica de interesses. A ética dos direitos humanos nos orienta sobre como usar a força do poder. A ética Em Cosmos. saber dar normas éticas a si mesmo. articulados no propósito coletivo. Sem esse referencial. entendida como a capacidade de orientar e decidir sobre a própria vida de acordo com um projeto ético. Ser jovem. A organização Ser cidadão significa ser ator social. organizados e com um projeto ético que fundamenta sua atuação presente e futura. O projeto mais importante da sociedade é a dignidade. a partir da multiplicidade de interesses de cada um de seus membros. Também o são: saber cuidar de si mesmo. mas que tiveram a desgraça de a ciência e a tecnologia terem chegado antes da ética e. isto é. através da conversa. se autodestruíram. isto é. As narrações. e que seu sucesso depende de que todos possam agir e ser como são. A importância da política. a combinar interesses para obter melhores conquistas e resultados. A ética. quando consegue construir.Aprender a argumentar e se deixar argumentar. não tem influência na sociedade. dos políticos e dos líderes provém dessa tarefa. suas idéias e ações repercutem em todo o âmbito dessas organizações. os jovens precisam viver como tais na sociedade a que pertencem. Uma sociedade ou uma comunidade (desde a família até o Estado) avança em direção aos seus objetivos quando pode criar uma convergência de objetivos. a tudo o que constitui uma sociedade. É sob essa perspectiva que convido o leitor a percorrer estas páginas. Para ser ator social. Os jovens e a governabilidade As novas (e antiqüíssimas) visões da sociedade demandam novas formas e espaços de formação e de vida para os jovens. A autonomia A formação política requer também a formação para a autonomia. José Bernardo Toro A. a tecnologia e o poder podem se virar contra nós e nos destruir. entendida como a arte de escolher o que convém à dignidade humana. capacidade de perseguir objetivos e metas que beneficiem a outros. O nível de influência de uma pessoa em uma sociedade não depende do dinheiro ou dos antepassados na família. Essas são também as características de uma organização e de um país autônomo. da ciência e da tecnologia.

SAÚDE E ALEGRIA_131 ALIANÇA COM O ADOLESCENTE_75 PROJETO JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO SOCIAL_113 GRUPO INTERAGIR_63 BANSOL_99 GELEDÉS_35 GRUPO E-JOVEM_23 NÚCLEO CULTURAL FORÇA ATIVA_47 .

22 GRUPO E-JOVEM .

quase vermelho. de noite. IMAGEM: três rapazes projetam sua sombra num telão na sala de aula. o céu. É sol de fim de tarde. Sempre fui tímido e o fato de ser como sou sempre foi motivo de chacota. No telão aparecem as palavras que escrevem no computador. fica difícil descrever como eles são.A natureza não tem uma regra específica. numa paisagem embaçada. irremediáveis. no centro) — Desde os nove. (O segundo. num instante etéreo em que a mensagem alcança seu destinatário. (O primeiro à direita) — Era como se tivesse uma casca em torno de mim. sem som humano que as confirme: como são nossos dias. mas não a minha verdadeira natureza. Palavras para serem ditas de costas. desde então. e de uma forma invisível atravessarem o ar. A sombra deforma o retrato. como vivemos a nossa humanidade. Com o tempo as coisas . as montanhas. só aumentava minha timidez. uma tatuagem. neste século. foi como se a Gestapo tivesse passado a morar comigo. a terra inteira até se formarem em algum outro lugar. dez anos de idade eu me sentia reprimido pelos colegas da minha classe. As pessoas viam a casca. também sem corpo. para olhares sem nitidez.24 25 E se eles soubessem? E-MAIL: As palavras escritas passam numa velocidade espantosa. uma cicatriz feita de letras. Uma letra passa perdida. como um desenho. Palavras para serem ditas por pessoas sem voz. a formação de uma palavra em construção passa. talvez por isso não façam sentido: intraduzíveis. Há cinco anos que eu contei para os meus pais. Palavras para serem escritas por pessoas sem corpo.

histórias de falsas namoradas. (Ele) — Meu pai simplesmente chegou pra mim e falou que não ia admitir que o filho dele virasse mulher. não vão me deixar continuar a faculdade e lá eu vou sofrer a maior repressão. se eu passava ao lado de um. um barzinho de muro alto e vidro fumê. fica. um pedacinho da orelha. Minha irmã descobriu e me ameaçou: se eu não contar para os meus pais.Tenho grandes chances de subir na carreira dentro da empresa em que trabalho. marco zero de Campinas. o adolescente gay vive eternamente um jogo de RPG. que você sente. Ele cria um personagem. baixa. SOM: vozerio no bar.26 27 só pioraram. quer dizer. é personalidade. invisíveis. não gostaria de ser prejudicado. riscos de luzes que passam sem deixar marcas. foi exatamente aqui e tem um valor político pra gente muito interessante. sentado ali. parte do cabelo. e se eu quisesse ficar dentro da casa dele eu nunca mais poderia usar o telefone. mas já faz um ano que meu pai não fala comigo. é o jeito como você vê o mundo. Se eu estou na mesa ele não senta. desfocados. A gente tá aqui na rua. manchada. até o espaço em que. a gente podia ter feito uma coisa pra isso passar.Aí. ela conta. (Ela) — Eu sempre tive desejo por mulher. você coloca esse personagem no lugar do seu verdadeiro eu. sendo gay só ali escondido.Tenho 19 anos. Maria Tudor. CENA: Bento Quirino está sentado numa cadeira bem no meio da praça. A palavra nunca dita. Deco conseguiu ser atendido e agora. que você vê. onde a cidade foi fundada. o marco zero da cidade. que alguém tinha colocado aquilo na minha cabeça e que eles podiam tirar com uma oração.” E-MAIL: Mesmo a palavra não dita revela a sua identidade. Ser gay é uma coisa muito por aí também. beija. por preconceito. Não dá pra você só ficar em silêncio sobre tudo que você faz enquanto gay. a nuca. eu fico quieto. quem quer ficar. cabelos claros. teria que viver a vida enjaulado.Você nasceu de olho castanho. quase apagada. IMAGEM: nuca de rapaz em primeiro plano. Na escola aprendi a me posicionar e não inventar mais. não tá num lugar. grita. acorda de olho castanho. Fosca. Não dá pra você omitir uma parte da sua vida. duas bandeiras com muitas cores. faço Arquitetura. risos. nuca. CENA: Na primeira mesa. Il Guarany. É branco. ficava com receio. eu sabia.’ Isso foi a minha mãe. ali. (O terceiro. espera o chope e o sanduíche. Carlos Gomes segura a batuta de maestro lá no fim da rua. no Sucão. Não quero que minha mãe e meu pai me vejam falando sobre isso.Você tem que criar uma coisa pra colocar naquele lugar. perfil. Salvador Rosa. num guetinho escondido. que você pensa enquanto gay. arrastada assim. IMAGEM: garota desfocada entre luzes. quem quer beijar. Então você acaba criando um personagem. em algum momento. velocidade . (Um outro ele) — Tenho 18 anos e comecei um estágio agora. embaçada. Porque você não é gay só na hora que você vai pra cama e tal. Entre óperas descansa a morte de Carlos Gomes – nesta praça. a sua mãe está toda orgulhosa do filho. Noite de luzes. à esquerda) — Estou no início de minha carreira. entre eles. um instante e o olho não tem certeza se viu. É teu estilo de vida. quase na passagem. Pelo pouco que a gente consegue ver. desde pequenininha eu era apaixonada pela vizinha do meu avô. mas não queria admitir para mim. Ser gay é uma coisa que você é 24 horas. Eu tenho medo de que. IMAGEM: costas. Meus superiores vivem fazendo piadinhas a respeito disso. finalmente. Faço faculdade e estágio na área. Uma mulher e outra mulher. mas não é do filho que ela está orgulhosa. as portas se fechem para mim. Sombras numa parede. Deco chama o garçom. Ele não se senta à mesa comigo. logo era apontado e discriminado na frente de todos.‘Se você tivesse contado desde pequeno. Aqui tem mesinha na rua. (Deco) — Aqui é o centro de Campinas. me disseram que isso era coisa demoníaca. entendeu? É uma característica sua. Onde os bares agora acendem suas luzes. Eles iam achar que era provocação. Fui sendo excluído pouco a pouco por todos no colégio. (Outro ele) — Há uma semana toquei no assunto e revelei que sou gay. como se estivesse atrás de uma vidraça opaca. Condor. Lo Schiavo. onde as luzes projetam sua sombra no oitavo andar do edifício. não sei qual seria a reação se eles soubessem que existe um. SOM: “Porque eu não quero aparecer? É um motivo pessoal. Borrados. é daquele filho-personagem que você criou. O meu pai disse que era pra eu pegar as minhas coisas e sumir de casa. um casal se beija. conversas. entra naquele personagem e vive aquele personagem. discriminado. por exemplo. o rapaz deve ter entre 18 e 20 anos.” CENA: Deco ainda insiste e chama o garçom. E aí você fica naquela:“será que ela vai gostar de mim quando descobrir que eu sou assim?” Então. o garçom não dá conta de atender todo mundo. Quando eles descobriram. o bar está cheio. não sabendo que eu era assim. você tem olho castanho a vida inteira. por ser gay. os que passam atrás são uma mancha. na calçada da praça Bento Quirino. SOM: “Quando eu era pequena sofria mais ainda. E quando eles souberem eu sei que vão querer me levar pra Bahia de volta.Você dorme de olho castanho. Eu continuo a viver na minha casa.

A minha avó é testemunha-de-jeová há mais de 20 anos e eu contei que sou gay para todo mundo da minha casa. menos pra ela. Estou namorando. Em São Paulo.. todo mundo meio que falando no assunto. basicamente. Retroprojetor.Aí eles falaram:“Não. era pecado. mas ninguém chegava pra ela e dizia. perto de você. eu cuidava das crianças da igreja. ela estava lendo um livro que eu dei pra minha mãe: Meu filho é gay. Então. de casa em casa. Então. (Deco) — O principal motivo para os jovens procurarem o site é o isolamento. porque as meninas não estão dando oportunidade. E foi um período até que eu sentava. Sou bissexual.. Ele sai no fim de semana pra ir ao shopping. que tem outras pessoas passando o que você passa.. você volta pra gente”. Aí aos 14 anos comecei a gostar de uma mulher. Alguns podem se revelar. palestras. Na escola. O adolescente se sente isolado em casa. Eu fui criado lendo o pequeno livro. Porque se você tem alguém. aí se inscreve numa lista de discussão e aí você começa a ver que tem milhares de pessoas em todo o Brasil. você tem ruas inteiras gays. ele vai pra casa. O adolescente gay de 14 anos no interior de qualquer estado. E os amigos dele são os amigos da escola. que eu era assim e não tinha como. Algumas meninas. e tentando namorar com homem. (Um novo ele) — Como as pessoas foram chegando? Ah. os professores nunca falam nisso. eu quero ver o meu neto feliz. Aí conversei com ela e tal e falei: “Vó. Eu também me afastei. Sala de aula. você vai pra Maringá no Paraná. e agora?”. eu falava e pregava.. E os colegas fazendo piadinha também. entendeu? Você não vai mais para o inferno sozinho”. vi que o perfil das pessoas batia comigo e fiquei. você vai para Altamira. era horrível. com medo. CENA: Praça Bento Quirino. fiquei com um cara e tal e sempre naquela luta sozinha. por exemplo. é isso a vida dele. como vai agir. mas ela está feliz porque eu já não vou sozinho. (Outro ele) — Esse negócio de igreja é complicado. ele acaba achando o site e acaba descobrindo que ser gay não é viver sozinho. Um dia eu cheguei em casa. a vida dele é o quê? Ele vai pra escola. e agora? E ela sentadinha na cama dela lendo. “Meu filho é gay. aí vi o site do E-jovem. eu ia no campo e tudo. Eu me sentia péssima. na escola. Então eu sofri sozinha dos 14 aos 18 anos. Aí eu entrei na lista. Eles me disseram que eu estava em pecado e que se eu falasse que eu ia deixar essa vida de pecado eles me manteriam na igreja. uma coisa assim. pela Internet. nós temos esperança.Tá dando o maior rolo. aí você vê que não está sozinha. Tinha sempre gente feliz. longe.. você tem uma praça no centro da cidade que os gays freqüentam.. era péssimo. É com soropositivo. um amigo meu me trouxe para o E-jovem. aqui em Campinas. Eu tinha a esperança de ter nojo. a gente ia para outros estados para evangelizar e tal. Computador. Eu me sentia muito culpada. É uma coisa maior complicada. né? Ela já estava suspeitando. agora é vermelho. assim. Eu vou cozinhar um mocotó no casamento de vocês. Minha mãe supercrente. Então. Aí eu pensei. das Testemunhas de Jeová. ela ouvia algumas conversas.. eu cantava na igreja. falando do namorado. Sol de fim de tarde. Eu falei que não. falar tudo o que passa pela minha cabeça. Geralmente a gente fica medindo o que vai falar.. Esse ano pra mim foi o ano de liberdade mesmo. eu pude conviver com pessoas com as quais eu não preciso me preocupar com isso. em casa ele não pode falar. Ultimamente sou mais pro lado dos meninos mesmo. assim. vocês vão para o inferno juntos. outros não. só tem uma conclusão. eu tenho um namorado”.Aí aos 18 anos comecei a me afastar da igreja. alguns rapazes. bem mais velho do que eu. mas aí eu gostei absurdamente. não tem como esconder.28 29 CENA: Interior. porque tinha cultos. quando muito. — Porque. Aí eu fui excluída da igreja. (Outra ela) — No meu caso foi bem complicado. num canto branco da sala. E aí. Mas por quê? Às vezes até ouve piadinha do pai ou da mãe... no Pará. (Ela) — Tenho 17 anos.. falando sobre homossexualismo:“vão para o inferno”. aquele amarelo. Minha mãe ficou péssima. E nesse grupo.Agora. ele se sente isolado. sabe.Tive namorado. Mas aquilo para mim era absurdo. Quando falam é na aula de biologia ou algo assim. porque eu cresci na igreja. Deco e outros gays numa mesa no bar Sucão. acredito que todo mundo que tem dificuldades de encontrar pessoas para discutir esses assuntos acaba procurando na Internet. dos amigos gays. E aí ele se fecha ainda mais. Eu posso viver naturalmente. Como é ser gay em Altamira? A gente tem um rapaz no E-jovem . Sofá largo e laranja. novidades. Que bom que você gosta de alguém. né? Porque você não pode ser você dentro de uma igreja. em Passo Fundo no Rio Grande do Sul. fiquei com ela. (Ele) — Eu estava há muito tempo em dúvida. e se eles soubessem de mim?”. Deco fala à vontade. E ela me falou o seguinte: “Ah. na família. olhava no espelho e falava pra mim mesmo: “se assuma. porque eu saí da igreja. Contei pra uma pessoa que fez o favor de contar para a igreja inteira. Então a gente te exclui da igreja pra você pensar e quando você voltar ao normal. E a Internet acaba sendo a janela para o mundo gay. Ela continua achando que eu vou para o inferno por ser gay. se aceite”.Aí eu conheci uma menina. que bom que você está namorando.. tipo cantando lá na frente e pensando: “nossa. que ser gay é muito mais legal do que ele pensa. Chão preto de borracha. Eu pensava: “Minha avó vai morrer se eu falar pra ela” . Daí você chega até o site. Ela falou: “Eu achei esse livro no quarto da sua mãe”. tudo quanto é canto.

Claro. Então o único contato é pela Internet. Eles procuraram corrigir a minha homossexualidade.” . É uma vitória. 20. Nessa hora em que a cidade é azul e mostra seus prédios numa linha que recorta o céu. “Eu gostaria de poder dizer pra minha mãe: ‘olha mãe. ou o André meu neto. O jovem se mata porque o mundo o rejeita.. sem retrato. O Brasil tem aproximadamente 1056 suicídios de jovens gays por ano. Eu ia me sentir bem mais verdadeira se isso acontecesse. Nos três dias de carnaval. sabe? Não poder dar um beijo. Se todo mundo fizesse isso. Ele escreve para a gente: “Você olha assim para alguém. porque cada pequena coisa que uma pessoa faz no seu próprio universo começa a mudar o mundo. “Tenho 23 anos. pensando em me matar. é gay. Porque ninguém nunca vai ter coragem de se aproximar e se revelar. para os meus primos etc. Eu vejo isso na minha família. O jovem se mata porque a escola o rejeita. Então. nove gays se mataram. Ela sabe como o filho dela é. ou aquela menina que ela acompanhou todos os passos e tal é lésbica.” CENA: Uma menina olha pela janela. “A gente tem esse exemplo de jovens que contam na escola ou que contam para a família. mas você nunca vai saber se ele é ou se não é. que você acha que é gay. assim. de Zorra Total. Não tem bar gay. eu acho que a gente criar essa referência para as pessoas que estão próximas a nós é o principal. por que o jovem se mata? Porque a família o rejeita. Sem voz. 25 anos. Mas são três suicídios por dia. eu convivo com ele’. ou de algum outro programa de humor. a sociedade acaba matando esse jovem. porque os pais não sabem. como vidros de um navio. os gays são todos promíscuos’ para a minha mãe. IMAGEM: a luz vermelha do sol de fim de tarde projeta a sombra de um rapaz na parede da sala de aula. Você vê. mas se por algum acaso eu vier a namorar uma menina. e olha de volta para ele mesmo. 15. um adolescente gay se mata porque é gay. tentei o suicídio há sete meses porque eu não via futuro para mim. não tem boate gay.Tem namorado. de 15 a 24 anos. (Deco) — A gente recebia uns e-mails de jovens dizendo:“Eu estava sozinho.. na janela entreaberta. de repente o gay não é mais aquela coisa abstrata. Não tem como você ser feliz se escondendo. viu crescer. Se você quiser mudar o mundo. passam a ter uma referência para gay. e mudam alguma coisinha na vida dessas pessoas e isso se multiplica. para os meus irmãos. e que aquela criança que ela criou..Você percebe que essas pessoas que estão em volta de você. Responde às nossas perguntas por escrito. como se fosse uma doença. outros 12 gays se mataram. por cima”.Uma vez eu levei uma menina lá e eu falei pra minha mãe que era minha amiga. Ele escreve no computador. por exemplo: eu contei em casa para o meu pai. Meus pais sabem que sou gay há cinco anos. 18. a gente teria o mundo que a gente quer. Bater um papo legal e ela aceitar. achei o site e mudei de idéia”. E para os amigos da faculdade também. por fim. isso dá uma média de três suicídios por dia. Então. Eu acho superchato a gente sentar no sofá e não poder dar as mãos. eu o conheço. para a minha mãe. minha família percebeu que a situação era mais séria do que eles pensavam. só depois de eu ter sobrevivido à tentativa de suicídio.” CENA: Deco olha pra esse lado de Campinas. O gay é o André meu filho. ela vai falar assim:‘Não. não tem nada gay”. CENA: Campinas atrás de grandes janelas.30 31 que mora em Altamira. Porque no momento não estou namorando ninguém. Então a gente começou a se perguntar por que isso acontece. é assim. se alguém fala assim:‘Ah. alguns prédios: “adoro olhar o centro de Campinas. e que não tinham uma outra referência para gay a não ser o que viam na mídia em programas humorísticos. Eu recebo vários e-mails como esse. assim. assim’.A cada oito horas. entendeu? Então. Eu acho que eu gostaria muito que acontecesse.. eles não se mostraram compreensivos. Poucas nuvens. Depois de eu ter revelado a minha homossexualidade. na cidade. poder levar ela lá em casa e falar assim:‘essa aqui é a minha namorada’. muito pelo contrário. você muda a sua casa primeiro. uma pessoa que deixa de se matar porque encontrou um site. enquanto sua imagem se duplica. em ângulo oblíquo. nos quatro dias de vestibular da Unicamp. toda mãe conhece o filho há 10. o meu filho é gay e não é promíscuo. entendeu? São mais de mil por ano. enquanto a maioria do povo estava curtindo.

o Grupo E-jovem realiza encontros reais. suja ou que deva ser secreta – a maioria dos garotos gays tem orgulho em ser o que é e adoraria que os pais soubessem. falecida em 2005. só conversar. sobre temas fundamentais na vida de todos nós: amor. no café-da-manhã. Guarulhos. a Dra. me ajudou em muitas coisas. No chope de fim de tarde entre os amigos do trabalho.A causa gay é a gente não precisar ficar lembrando a toda hora que a gente é gay. “Queremos mostrar aos pais e à sociedade que isso que estamos fazendo não é uma coisa errada. religião. Para contatos diretos com a coluna o e-mail é: afagho@e-jovem. Santos. Palavras para serem ditas com calma numa manhã de sol e céu claro.e-jovem. enquanto a mãe passa o café pelo coador. como iremos querer que a sociedade os aceite?“ . antropóloga clínica.com é um site dirigido ao público homossexual jovem. mais de 2. ainda. no elevador. Cerca de 76% dos usuários do site têm menos de 21 anos. quadrinhos. uma coluna para pais e mães que não sabem o que fazer quando descobrem ter um filho ou uma filha homossexual. escrever depoimentos ou ainda fazer uma reportagem. Estão cadastrados no site. Ana Maria Ribeiro. E se os próprios pais não aceitarem e respeitarem os filhos. O nome da coluna é “Afagho”. o Programa Escola Jovem. O retorno que a gente tem é muito positivo. Foi fundado por Deco Ribeiro em 2001. Os usuários são também aqueles que alimentam o site. como vídeos. 30% têm menos de 16 anos. O site é composto por dicas de baladas. sem correr o risco de ter pornografia no site. Nessa lista. quando o pai volta do trabalho. é jornalista e trabalha como editor e webmaster do site. normalmente os jovens escrevem pra gente dizendo coisas assim:‘Nossa. na padaria. Palavras para serem ditas no ônibus. atualmente. Campinas. por Porto Alegre. com a família. artigos. O site também disponibiliza uma lista de discussão por e-mail. que ainda é o objetivo dele: passar informação pra quem não tem informação e se sente isolado. sexo.Você tem que trabalhar num mundo que tem gays. eu percebo que a nossa causa é uma causa justa. heterossexuais. no táxi. E quando ficam nítidas. o que costuma ser comum na maioria dos sites dirigidos para homossexuais. entendeu? Você não pode pensar em mudar a sociedade. azul. O objetivo do E-jovem é ser um site de troca de informações. Nela. Quando eu começo a ver heteros participando de movimentos gays. Rio de Janeiro. São cerca de cem jovens atuando na linha de frente da militância. São Paulo. charges animadas. escrever uma coluna. peças de teatro de temática gay e. Origens e Propostas O www. Cruz Alta. “Eu acho que o site conseguiu cumprir aquilo que era o objetivo dele.com” tem. lésbicas. Foram criadas unidades regionais do Grupo E-jovem em várias cidades. os jovens se cadastram e conversam entre si. criando um mundinho só de gays. entre os amigos da escola. todos estão vivendo juntos”. pais e mães de E-jovens respondem dúvidas sobre como esses pais podem compreender melhor os seus filhos. na cabeleireira. Palavras para serem lidas numa noite. estão prontas as palavras. Além dos encontros virtuais. (Deco) — Eu acho que quando a gente agrega pessoas que não estão diretamente envolvidas na causa. No E-jovem quem se inscreve na lista não pode trocar fotos.com. Curitiba. bissexuais. E como os filhos podem também compreender melhor os seus pais. Eu mostrei pro meu pai e pra minha mãe. A idéia central é estimular o protagonismo juvenil. continua Deco. que pretende levar a discussão da homossexualidade para dentro das escolas públicas e particulares de ensino fundamental e médio. Palavras para serem ditas ainda de pijama. Palavras para serem ditas numa noite qualquer. São mais de 35 mil acessos mensais. O site “www. reportagens. distribuídos. na lavanderia. como essa. a causa ganha mais força. fiz trabalho de escola com ele. se tivessem certeza que teriam apoio. foi criada pela mãe do Deco. em que Campinas passa assim. achando que é o único gay do mundo. na sala de aula. no escritório.e-jovem. na fila do cinema. lésbicas e bissexuais cadastrados no E-jovem passaram a se encontrar e conversar sobre o que cada um poderia fazer pela causa gay. pela janela do ônibus. ainda. diz Deco Ribeiro.900 jovens de todo o Brasil e alguns de Portugal e do Japão. atualmente. Me ajudou a tomar coragem pra contar para minha família que sou gay”. foi demais o site. Jovens gays. família. O Grupo E-jovem é um dos únicos grupos gays do Brasil a colocar em estatuto que aceita heterossexuais como representantes do projeto. No site há espaço tanto para o jovem que apenas quer receber informações quanto para aquele que quer participar de discussões. num contínuo movimento de reconstrução. Deco tem 33 anos.32 33 E-MAIL: Começam a se formar letra por letra. fazer cobertura de eventos etc. Eles criam e desenvolvem projetos que podem atingir centenas de outros adolescentes. trabalhando numa sociedade fictícia só de gays. Belo Horizonte e Brasília. no açougue. Palavras para serem ditas no almoço de domingo. escola.

34 GELEDÉS .

como eles o são.. e por Diego. Alexandra e Daniele de Jesus esperam por Élida e Adriano. de África herdadas. Não. Não. cá pra nós que não somos negros. teus pensamentos de agora. O próprio senhor e seus filhos eram. sem autorização. Tinir de ferros... O provo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. entre orgulhos de cabelo mole ter nascido. “O Navio Negreiro”. sem ordem. loucos nesse turbilhão. seus filhos e aparentados mais diretos ocupava tão exaustivamente as funções do lar de tipo romano que não deixava espaço para outras formas dignas de acasalamento. nós que não desatam. nesta sintaxe: amém. como tanto sabe de cor. Nenhuma hipótese havia nesse ambiente para que os negros e mestiços tivessem qualquer chance de se estruturar familiarmente. Quanto aos outros. . bege-escuro. o obediente ao seu feitor? Então não era assim que as coisas se davam? Que mal houve nestes rumos? Nesta Grécia em perfeição. Cláudio Adão. o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. neste latim que nos abençoa. duros. Pois então não éreis vós o negro. soltos de todo jugo.37 Sou só eu na minha sala A os pés da Santa Cruz. o que tinham a nos dizer.. onde ecoa a voz desgovernada.” E sendo eu o branco. .sores negrosquan tosdos jov ens negrosque entramnas... Em sangue a se banhar... São Paulo: Companhia das Letras.. nesta Roma das cidades. o pálido que ostentas estrelado. pátio da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. não me pesam teus cabelos. livres na escritura. marrom mais claro. de fato. caracóis encarniçados. será dito agora e documentado nesta via que segue. Não. nos pensamentos de falar. assim. em pálido assombro retumbante: existem professores negros na Universidade? Existem alunos negros na Universidade? E continuam aquelas vozes.. bege-oliva. 1995.. que logo chegarão. reprodutores soltos ali para emprenharem a quem pudessem. a família patriarcal do senhor de engenho.. o submetido.. Era um sonho dantesco. “A juventude negranão te mrefer ência deprof essor es negrospou case scolastêm profes sores negrosen aunivers idad evoc enãoen contra profes. que não vai chegar e que se viesse nos diria.. não me pesam tuas cores. Darcy Ribeiro. Horrendos a dançar. estalar do açoite. “Onegroche gaasent irmedo imag inandoq uepos sasof rerprec oncei totud oques erefer eao negrono Br asilnã oébem acei to Euso u negraso upob reeeun ãoposs onega rques ou negramin h amã eé negramin haav ó é negrar..” Pátio da Cruz. azul-marinho.. neste ano da graça de 2005. não me pesam tuas palavras. de Castro Alves. marrom. Legiões de homens negros como a noite.

quando perguntados sobre a ascendência racial só de brancos. um na Anhembi Morumbi e um em São Bernardo do Campo. vai lavar carro. nada revelador sobre nenhum dos nossos personagens. Élida Miranda. um em Guaratinguetá. 21 anos. através do Projeto Juventude. se tiver dez alunos negros é muito. impossível de entender. Segundo o Censo do IBGE (2000). outro em Presidente Prudente. que criamos esse mundo? Em astrolábios. Adriano Rodrigues dos Santos. como a PUC. ou seja. segundo ano de Comunicação Multimeios. Desse número. assim. essa porcentagem é de 19%. 21 anos. Ele foi pensado por Geledés. eu acho que no curso inteiro. todos estudantes da PUC. O número de ascendência negra subiu para 75%. brancos. nada particular. Então ela sai do ensino médio direto para a Universidade. escurecidos. Aliás. obscura. . 45. Os professores diziam o seguinte:“Olha. Era para os negros que os professores diziam essas coisas. e perceber que a maioria dos alunos. depois da Nigéria. 42% dos jovens brasileiros chegam só até o ensino fundamental. A juventude burguesa foi preparada. vai varrer rua. para seguir a carreira acadêmica. né? Em que quem freqüenta o ensino público tenha condições de ingressar nas universidades. entre os brancos. ou particulares de qualidade. O que temos de cada um são apenas os seus discursos. qual a juventude que entra na USP? De onde saiu essa juventude? Quantos por cento dos jovens negros que entram nas universidades particulares conseguem se formar? Pouquíssimos. falando língua estranha de toda corte. por exemplo. pouquíssimos. nenhuma cozinha. E a juventude pobre? E a juventude negra. a porcentagem que era de 45% cai para 21%. de toda Europa? Conheciam os mares? Os nomes das estrelas? Os mapas dos continentes? Então não fomos nós. além de mim. realizou uma pesquisa nacional. naquele ambiente de lousa e cadeiras. Segundo a pesquisa. Daniele Cristina de Jesus. tem uma outra menina negra e isso foi para mim uma grande surpresa. onde é que fica nessa história? O Instituto Cidadania. segundo ano de Turismo. eu lembro que na sala de aula. A pesquisa mostrou um outro retrato: entre os jovens que se dizem brancos.3% dos jovens brasileiros são negros e pardos. desde o berço. segundo ano de Letras. (Élida) — Passa muito pela escola também. até a morte. Ele foi pensado também para que os 20 jovens negros voltem às suas comunidades e trabalhem o protagonismo juvenil. Por exemplo: – apenas 6% da população jovem brasileira tem acesso à Universidade. encolhidos. é difícil você tentar se colocar e ter uma posição. nenhuma sala. tudo o que se disse foi ali. E saímos à procura de uma sala de aula que estivesse vazia e. Porque se você for fazer uma análise hoje. desenhos na lousa de alguma aula inexplicável. mares e estrelas nomeados? Então não fomos nós. tem uma na sala ao lado. 24 anos. na Faculdade de Direito. entendeu?”. E quando a gente fala em permanência.. (Élida) — A gente luta é pela igualdade de condições.38 39 Vós não sois aqueles que chegaram. os cereais em aguardente? Então não fomos nós a fartar os gansos com comida. Acompanhando essa conversa. faz duas faculdades: segundo ano de Pedagogia e terceiro ano de Direito. dois na Metodista. a partir do pequeno percentual de negros que freqüentam as universidades. na África. aquela população que ficava no fundão. 18 anos. – 10% dos jovens brancos chegam à Universidade. a gente fala em recursos acadêmicos. linhos e aventais? Então não fomos nós a transformar a uva em vinho. conforme segue: Cláudio Adão. (Cláudio) — A gente faz parte de um projeto que visa a inserção de 20 jovens negros nas universidades públicas. aquela população que tinha uma baixa autoestima. segundo ano de Administração de Empresas. (Élida) — A maior parte do grupo entrou na PUC São Paulo. brancos. Eu estudo administração e na minha sala. outros dois jovens entraram na Unesp. Esse projeto leva o nome de Afro-ascendentes. por um modelo educacional que de fato seja igualitário. Por isso é que se costuma dizer que o Brasil é o segundo maior país de população negra do mundo. para que nos dessem em troca o próprio fígado. 90% dos alunos são totalmente diferentes de você. bússolas e sextantes. 24 anos. Alexandra de Campos. uma evasão escolar enorme. vai ajudar sua mãe passar roupa. É que todos os 20 tinham atuações em suas comunidades. – 3% dos jovens negros chegam à Universidade. a criar louças e cristais.. “Perfil da Juventude Brasileira”. 30% dos negros não conseguem concluir o ensino fundamental. onde melhor se ouvisse e entendesse tudo o que tinham a dizer os cinco meninos do projeto Afro-ascendentes. em todo o período escolar. em oito anos de estudo. atrás de outros espaços menos barulhentos. para quem não é da turma. Como é que eu vou acompanhar o curso. 45% são brancos. São duas na minha sala. era de como iríamos nos manter aqui dentro. os professores sempre diziam assim para a população negra. quando ingressamos na Universidade. você não quer estudar? Vai pra fora.A nossa maior preocupação. Nenhum quarto. estimulada a vida inteira. sendo que o meu amigo branco consegue comprar todos os 50 livros em um semestre e eu não consigo comprar nenhum livro? (Daniele) — É complicado também você entrar em uma faculdade. que acrescenta dados importantes ao Censo 2000 do IBGE. em rara iguaria? Então não fomos nós a acorrentar os homens e a corromper as mulheres de escuras peles e cabelos de espinho? Então não fomos nós a reconhecer nos homens o boi trabalhador ou o cavalo reprodutor? E nas mulheres a dócil vaca de grandes tetas para nossos filhos? Então não fomos nós a ver nas meninas escurinhas o prazer libidinoso para o branco de pança cheia de açúcar e de arrotos? Então não fomos nós a forçá-los ao nosso carinho? Então não fomos nós a desvendar-lhes o destino? E foi então que saímos do Pátio da Cruz. – 3% dos jovens indígenas chegam à Universidade.

uma das nossas idéias – isso é uma bandeira de luta – é que nós.9 salários mínimos. E esse papel crítico passa pela educação. de ingressar na Universidade. é o estresse que o negro sofre na sala de aula. E não é para a primeira dificuldade que vamos abaixar a cabeça. (Alexandra) — Em sala de aula tem uma diferença. “Ah. Secretaria Especial de Direitos Humanos e Instituto Ayrton Senna. porque eu trouxe ela pra dentro dessa realidade. porque a minha mãe é negra. Segundo pesquisa. Os brancos querem estar sempre na frente. de perspectivas de vida. juventude negra. Embora não se perceba assim. A esperança de vida ao nascer é menor entre as crianças negras. 68 jovens negros morrem por homicídio. E é assim. (Élida) — É o estresse de sala de aula. Eu falei assim:“se você é morena. Um dos meninos do nosso grupo que entrou na Unesp de Guaratinguetá foi fazer a matrícula e lá na faculdade já gritaram. Porque afinal de contas saímos da periferia. É assim. (Élida) — Nós somos a primeira geração do nosso núcleo familiar a ingressar na Universidade. Eles tratam os alunos brancos de um modo e o lado negro de outro. os negros morrem mais cedo que os brancos. Mas aí um dia ela falou assim: “a minha filha está na faculdade. seguir a carreira acadêmica.Vai trabalhar de balconista. Continue com as condições e nas condições de subalterna. entendeu? Não é todo mundo que tem essa chance que a gente está tendo. King Kong. Aconteceram. de cada 100 mil habitantes. Mas. eu ficaria com a vaga.. (Fonte: O mapa da violência IV: Os jovens do Brasil.55% são negros. ela diz. então eu sou o quê?”.Vai fazer qualquer outra coisa da vida. sim.40 41 (Daniele) — Eu tenho uma prima que tem uma tonalidade de pele um pouco mais escura que a minha e se você falar pra ela que ela é negra. mas você encontra muitos negros na faxina. Por exemplo. e entre os indigentes 69. loira e tem cabelo liso. xerox é difícil. falta da minha mãe compreender o que é a faculdade. Porque ela não admite. nós nos consideramos jovens privilegiados. quem fica com a vaga é ela. E nós não queremos nos formar de qualquer jeito. A gente é referência para a nossa comunidade. ela te mata. Então é muito mais fácil ela falar que é morena para ser aceita pela sociedade. Nós queremos sim é O Atlas Racial Brasileiro mostra que entre as pessoas pobres. Racismo e Saúde. A mortalidade infantil entre os negros é maior do que entre os brancos. com meu cabelo cacheado. segundo o IBGE. alguns fatos trágicos por parte dos “amigos” brancos da faculdade. tanto que a minha mãe. ela briga. quando eu comecei a aceitar que existia essa falta na minha família. O trabalho infantil é maior entre as crianças negras. (Cláudio) — E mesmo com todas as dificuldades. Eu sou negra. Então todo mundo achava que eu era louca. tem um tanto de papel destinado a revelar fotografias. estou numa entrevista de emprego com uma pessoa que é branca. por se sentirem superiores. porque a cor da minha pele está mais perto da tonalidade branca. E ele vem passando por um processo de discriminação tão forte que começou a mexer com o psicológico dele. Eles têm uma diferença de tratamento. E aí. se for eu e a Alexandra. bem alto. Eles querem estar sempre na frente. Mesmo que eu tenha mais experiência profissional que ela.7 salários mínimos. porque a gente não é referência só para a nossa família. A pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira” revela também que os jovens negros são mais atingidos pelo desemprego (34%) do que os jovens brancos (28%). assim. olha. hoje. Entre os brancos. entre os jovens. Que eu era louca porque eu vivia estudando. A autora conclui que o racismo é fator determinante no modo de viver. faz o curso de alfabetização de adultos aqui na PUC e agora ela consegue compreender o que é a Universidade. mas a gente percebe. aconteceria. E eu disse: “não. mas tenho uma tonalidade de pele mais clara que a dela. o rendimento médio mensal da população negra brasileira é de 1. Tese de doutorado em Saúde Pública. de longe. A educação ainda é o caminho. Mas a gente tem que ter a nossa correria. do que falar que é negra e sofrer todo o preconceito.Você encontra uma pequena parcela de negros na academia. eu comecei a trabalhar com ela essa história. . As mortes por causas externas atingem 32% dos homens negros e 16% dos homens brancos — praticamente a metade. Condução é difícil. como servente. Em São Paulo. Nós queremos partir para o mestrado. entende? Então assim. disputando a vaga. isso gera uma discussão quando a gente se encontra. Porque.. Nós temos um projeto acadêmico maior. 2004) Quanto aos salários. da população branca é de 3. você é branca”. Muita gente fala pra mim: “mas você é clara. eu não quero isso pra mim”.84% são negros. estimula isso. realizado pela UNESCO. nem parece negra”. eu Daniele. 64. assumir um papel crítico dentro da sociedade. esse número se reduz para 39. ficava de madrugada estudando. sim. na minha família. sabe? É condição subalterna. sou morena”.5 salários mínimos e a população branca de 4. Fonte: Maria Inês Barbosa. mesmo que ela tivesse mais experiência do que eu. não. Minha mãe não entendia nada. ser sempre os primeiros. no laboratório de fotografia. ninguém esperava na minha família. assim.A gente tem que se formar. ela encerrou o ensino médio já está bom. saiamos da condição subalterna.. a minha avó é negra. mas o que é a faculdade?”. Nós queremos romper com essa cultura da subalternidade. o doutorado. eu não sou negra. (Élida) — Quando a gente fala de sonhos. essa proporção é de 39% para os homens brancos. fazem rapidamente o que têm de fazer e já correm para querer aprender mais do que os outros. Nós queremos. ao invés de falar assim: “espera os outros alunos”. diferença de 74% entre as raças. a mesma coisa. na segurança. adoecer e morrer. 1998. a população negra tem um rendimento médio de 2. Aí eu ingressei na Universidade. A gente é referência para o povo negro. Quando eu saí do ensino médio e ingressei na Universidade. sabe? De falar “não. na certa. eu não posso negar que eu sou negra. A condição subalterna de onde nossas famílias vieram.Tem uns alunos brancos que. E o professor. 63% dos homens negros morrem antes dos 49 anos. (Daniele) — Por exemplo. USP: São Paulo..9 salário mínimo. Outra pesquisa mostra que. vai trabalhar no shopping. os outros alunos.

Senadores.Teve ações afirmativas dos imigrantes. Bodes sábios. jogaram a gente para os guetos. Agora. para que as pessoas conheçam Luís Gama. Por que em lugar dos negros. como Castro Alves e outros. os brancos. de maçante e mau estilo. não digo sanar. porque eles. Então. do trabalho nas lavouras. Compram negros e comendas. sabe? Isso mexeu fortemente com o estímulo dele e com a própria vontade de querer cursar a faculdade. ele não pode crescer mesmo. Porém eu que não me abalo Vou tangendo o meu badalo Com repique impertinente Pondo a trote muita gente Se negro sou. vê os outdoors e não se reconhece. Só pela arte do Vieira. desta arenga receosos. sou pobre e agora ainda vou fazer barraco. mas pelo menos amenizar.. A nação malê não era apenas a mais culta entre quantas forneceram mercadoria humana para o tráfico repugnante. O que a gente quer é equilíbrio. Porque tudo é bodarrada! (Cláudio) — Que ninguém tenha a ilusão de que as ações afirmativas vão resolver o problema da desigualdade racial.) eu bem sei que sou qual Grilo. Bispos. Que no século das luzes. hão de chamar-me Tarelo. Logo derrotados pelos soldados. Bahia de Todos os Santos. ainda hoje a ascendência malê é escondida. a biografia. tudo que pertence ao negro é marginalizado. quando a família dele ia visitá-lo. Ele liga a televisão e não se reconhece. a literatura mais importante para o movimento negro. Eles começavam a dizer: “olha os negros. Nos ensinaram que ser negro no Brasil não presta. Quem sou eu? (. Fazem grossa pepineira. (. que apóiam e defendem os negros. as cotas. descobriu-se que os jovens negros se distribuem de maneira mais ou menos igualitária pelas regiões do Brasil. E com jeito e proteções. foram feitas ações afirmativas. Folgue e brinque a bodaria. preferiram trazer os europeus para trabalhar nas . você está sempre em minoria. Onde vivem os jovens negros: Região Norte e Centro-Oeste – 50% Sudeste – 45% Nordeste – 42% Sul – 17% lavouras? Jogaram a gente nas margens da periferia. Cesse pois a matinada. levantaram-se os escravos.. O mais culto dos malês era o alufá Licutã. E. E porque é que ninguém discutiu? Houve no Brasil um processo de embranquecimento. fizeram coisas horrorosas. Eu faço Letras. Uma das referências negras que nós temos na nossa literatura é Machado de Assis. Ele foi abolicionista e republicano. No começo do século passado. O que isto pode? Bodes há de toda casta Pois que a espécie é muito vasta Luís Gama Há cinzentos. não é? Mas tem outros escritores que são abolicionistas. mas ele próprio negava ser negro. “agora vocês se viram”. dentro da sala de aula. Cardeais. que viviam aqui. E aí importaram mão-de-obra da Europa. com exceção da região Sul. (Adriano) — Eu sempre.. Gentis-homens. dentro do meu curso. Muitos negros não conhecem. Mas. dominaram e ocuparam a cidade por quatro dias. imagine sem elas.. E a gente está lutando para que isso seja colocado em debate.) Pois se todos tem rabicho. Na pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira”. mas sim porque eu tinha medo da resposta que os outros alunos podiam me dar.Tudo que toca ao negro. Os birbantes mais lapuzes.”. para mim.) Sei que é louco e que é pateta Quem se mete a ser poeta. Bodes negros.. Belas damas emproadas. Eles não podiam entrar num bar.. importantes E também alguns tratantes. Foi vendido como escravo pelo próprio pai.42 43 Por exemplo. Bodes ricos. numa lanchonete. não porque eu fosse tímida. Frades. Como é que ele vai crescer numa sociedade que não o respeita? Ninguém dá valor pra ele. Jorge Amado. E com tretas e com furtos Vão subindo a passos curtos. É complicado. elas vêm mesmo para sanar toda essa história. tudo berra. sendo não só os mais caros. recém-saído da escravidão. (Alexandra) — Um dia. Ele comandou a revolta dos negros escravos durante quatro dias e a cidade da Bahia o teve como seu governante quando a nação malê acendeu a aurora da liberdade. haja alegria. A gente quer equilíbrio na pirâmide social. Rio de Janeiro: Record.. negro. quando já as razões do medo foram esquecidas. se impõem. mulheres e crianças.A gente quer representatividade tanto na elite quanto na classe média. homens. estou entrando no projeto de iniciação científica. Claro que ele sente medo. as religiões africanas. A repressão foi tamanha que ainda hoje a palavra malê continua como que maldita. ou sou bode Pouco importa. Mongibelo. você acaba se retraindo. Nobres. entendeu? A capoeira é marginalizada. onde a gente vai estudar Luís Gama. Ele anda pelas ruas. Ricas Damas e Marquesas. Orgulhosos fidalgotes.. também os mais disputados... E realmente eu percebi que eu tinha medo de falar o que eu pensava. No dia em que acabou a escravidão. quando os imigrantes vieram pra cá. Baios. E a história dele. Aqui. o samba é marginalizado. Têm brasões. Ele foi um poeta negro que viveu em São Paulo no século 19. e que os homens poderosos. Bode. republicanos. Deputados. Pretendo me tornar um especialista em Luís Gama. porque era chacota total na cidade. Para que tanto capricho? Haja paz. há rajados. sendo que os negros eram capacitados para o trabalho. vem de Luís Gama. bodes pobres. a gente ficou assim ao léu. nesta boa terra. (. o que é que eles vão pensar? Eu sou negra. bodes brancos. Num dia eu fiquei muito brava numa discussão de grupo e depois fiquei pensando: “ai. onde a grande imigração européia do começo do século passado praticamente excluiu o negro. não tem como. sem deixar nenhum. um professor virou pra mim e falou que por eu ser negra eu me isolava dos outros alunos e eu tinha medo de falar. olha lá os macacos”. Fanfarrões imperiais.. (Cláudio) — É por causa disso que o negro não se auto-afirma. para a nossa cultura. não – das Kalendas. silenciada. procurei me afirmar para o lado negro. Ele abre a revista e não se reconhece. desde o início.. 1996 . a produção literária dele são deixadas de lado. pampas e malhados. A gente tem na nossa literatura representantes que muitas vezes são esquecidos. entendeu? É por causa disso que o negro não se valoriza. Marram todos. senhor de engenho. em verdade os escravos provindos dessa nação alcançavam os preços mais altos. marginalizaram nossa cultura. sejamos todos francos. a ordem dos senhores foi matar todos os membros da nação malê. Repimpados principotes. Uns plebeus e outros nobres.. Galgam altas posições. Condes e Duquesas.. tanto é que hoje eles estão bem representados em todas as classes sociais. que era branco. De nobreza empantufadas. era chacota total. Vereadores. amenizar porque com as cotas demoraria 50 anos para a gente alcançar a eqüidade. quanto tempo para serem aceitas? Tudo o que se refere ao negro no Brasil não é bem aceito.

Mulheres que você não vê. Uma sociedade em que as mulheres detêm o poder político da tribo. cinema etc. assumimos um compromisso: quando a gente estiver formado.. Diversidade – projeto patrocinado pela Unilever. a gente quer manter essas pessoas pensantes e atuantes nas suas comunidades. facilitar estágios em empresas parceiras e propiciar condições para o desenvolvimento integral de talentos. Então. já dentro do mercado de trabalho. atual- mente. de quem não se pronuncia o nome. desenvolvida em parceria com a Fundação BankBoston. e tem o compromisso de absorver esses jovens no programa de trainee quando estiverem no quarto ano da faculdade. E a gente ralou muito para poder entrar nas faculdades. Ficamos seis meses fazendo cursinho. de início. (Élida) — Basicamente o ideal do Projeto Afro-ascendente era este: acesso e permanência dos jovens negros nas universidades públicas ou particulares de qualidade. entre eles alguns direcionados para a juventude. tentando nos manter da melhor forma possível. vamos dar condições para que outro jovem negro possa freqüentar a faculdade. e aí. mas a empresa encerrou o patrocínio antes da conclusão do projeto. tipo. A empresa paga para os jovens desde o cursinho até o término da faculdade. No início contou com a parceria do Instituto Xerox do Brasil. Hoje. E estamos aí. Elas são originárias da Nigéria. mas no começo do século passado. por causa da nossa formação no ensino público. Só a Alexandra conseguiu 100% da bolsa. um ano após estarmos formados. Aqui na PUC nós temos bolsa de 50% doação e 50% restituído.. nós estaríamos proporcionando a outro jovem negro a mesma condição que nos foi proporcionada por uma empresa. muitas coisas que caíam nas provas que a gente não tinha a menor noção. a gente procura manter a unidade do grupo.” (Solimar Carneiro. transporte. Então. Inclusive porque o Instituto Xerox encerrou o projeto nesse momento. inclusive. que o patrocinador financiaria atividades culturais. o Geledés está tentando batalhar outros financiadores. Geração XXI – ação afirmativa pioneira no Brasil. (Cláudio) — O projeto. atendem 54 jovens afro-descendentes. na verdade você tem uma discussão acirrada na sociedade brasileira. teatro. (Cláudio) — E mesmo com a falta do patrocinador. inclusive as mensalidades das faculdades particulares. alimentação. o sistema de cotas já existe no Brasil: para os brancos. mas aí o financiador disse que em nenhum momento ele se comprometera a pagar a faculdade. . Mas a gente teve professores muito empenhados e. assim como quaisquer outros jovens negros trabalhadores. mas até agora. E tem algumas. paga 70% da faculdade para sete alunos. (Élida) — Também xerox. que há 16 anos tem como missão combater o racismo e o sexismo. porque são eles que estão na faculdade. elas existiram aqui no Brasil também. Não é porque o patrocinador saiu que a gente vai perder a causa. Kolynos. no atendimento a 21 jovens negros/as com seus estudos custeados da 8a série à conclusão da Universidade. O projeto foi financiado pelo Instituto Xerox do Brasil. assim.A organização trabalha com inúmeros projetos. O que a gente está discutindo é: vamos distribuir esse sistema de cotas. O que a gente vem discutindo é: já existe um sistema de cotas no Brasil desde o seu nascimento. Os brancos têm 100% de cotas. E. (Daniele) — A gente começou a ver. acompanhá-los durante a graduação. para que a partir daí eles possam fazer uma intervenção qualificada dentro das suas comunidades. O Geledés é uma organização criada e dirigida por mulheres negras. nós estamos dentro das universidades caminhando com recursos próprios. Quando a gente pensou em um nome para a organização. também dizia que nós teríamos computadores. no programa de alguns vestibulares. tudo isso estava previsto no projeto. que têm todas as dificuldades de permanência na Universidade.A empresa patrocinadora. Próxima Parada Universidade – projeto que oferece o cursinho preparatório para a faculdade.45 Origens e Propostas “Geledés é uma sociedade secreta feminina africana. E foi assim que nos chegaram as Geledés. não que a gente não venha fazendo isso desde 1978. que usam máscara. em projetos diferenciados. de mulheres negras africanas. né? Todos os 20 conseguiram passar em boas faculdades públicas ou particulares. todo mundo se dedicou e tivemos 100% de aprovação. (Solimar) — Quanto à questão das cotas. (Daniele) — Quando nós ingressamos no projeto.As Geledés são consideradas meio bruxas. presidente da Geledés) Projeto Afro-ascendente – ação afirmativa que pretende inserir 20 jovens afrodescendentes em Universidades. Somos os jovens negros. a gente quis recuperar alguma tradição. muito profunda.

46 47 NÚCLEO CULTURAL FORÇA ATIVA .

Passa a avenida Jacu-Pêssego inteirinha. Passam templos enormes em nome de Jesus. Passa uma ponte redonda.48 49 Para mudar essa paisagem assa a estação Tatuapé. Mais eucaliptos. Passa a estação Artur Alvim.800. Ponto de ônibus: três mulheres e duas crianças. Passa um cabeleireiro. Caixas d’água esverdeadas pelo limo.Venha olhar nossa linha branca”. Passa a estação Corinthians-Itaquera. Aí o metrô acabou. Passa uma casa de costas para a rua. Ambulantes vendem doces na calçada. Passa a estação Carrão. porque os blocos de concreto desabaram. Uma Belina branca passa. Passa uma Kombi 76 e está à venda: R$6. Nova fábrica de blocos. Passa uma casa com menininha de vestido rosa no portão. no muro da metalúrgica Vulcão. Passa uma ponte comprida e alta. Passa a estação Patriarca. Vizinho. Passa uma casa de perfil. . vidro e metal. Eucaliptos no canteiro central. Açougue: cartão de crédito e tickets. Mulher e moça passam de Havaianas. Passa a Mata Atlântica. P E ainda não chegou. Passa o Cérebro Cabeleireiro. Passa um portão verde. Uma araucária. Passa a Drogaria Lucy. Já passou. eu vi. Passa a estação Vila Matilde. Passa o bilhar dos irmãos Pereira. Passa uma janela vermelha. Janelas e portas têm cor que não se explica. Passa a panificadora Brasil Chic. Passa uma janela branca. Passam muros com nomes imensos de candidatos a vereador. Um descampado enorme. aproveite você também. Passa um Opala marrom. Passa uma Kombi azul e branca. Passa uma porta branca. Passa uma banca de jornal fechada. Passa uma fábrica de blocos. As outras casas todas que passam são cor de reboque. Encostado na casa dela tem um bar azul de madeira. Passa a loja das Casas Bahia:“quinta-feira especial com mesa e cadeiras. um bar com música ao vivo. Passa uma porta azul. Passa mais um pouco de Mata Atlântica. Passa o muro que anuncia bem grande: show de Reinaldo. o príncipe do pagode. Passa um motel abandonado e cor-de-rosa. Passa uma bandeira do Brasil pela metade. Passam lajes com elementos vazados.

50 51 Vizinho um bar com forró e sinuca. Depois. ativista do Força Ativa) Entrevista panorâmica. a bombordo.. a sul. de marginais. nem tem blusa turquesa. Eu não gosto dela não. De perto nem é gordinha. mas diz (em letras de ferro?. né? E o grupo Força Ativa trabalha para alterar essa realidade. Se eu pudesse. 23 anos. prédios de quatro andares. né? E aí você tem isso potencializado aqui na Cidade Tiradentes: bairro pobre. de serem todos bandidos.. prédios de quatro andares prédios de quatro andares. prédios de quatro andares. Outro salão de cabeleireiro passa. a noroeste. Vizinho um bar só com pinga e cerveja. quase de costas para quem chega. a sudeste. Essas coisas que colocam um estigma na pessoa pelo local onde ela mora. o busto de Tiradentes que olha para o outro lado. de chumbo?): “é pena. para as casas que se esparramam na planície. um bar que está à venda. a norte. E é tão grande e tão longe das vistas que só um esforço dos olhos faz a gente enxergar a figura de mulher que vem pela paisagem. nem tem saia tão comprida. de cobre?. Passa mais uma fábrica de blocos. Vizinho um bar com Videokê. violento. Assim começa a Cidade Tiradentes. Mas é o que a gente tem e a gente se organiza para lutar e modificar essa paisagem. prédios de quatro andares. Uma mulher gordinha de saia comprida e blusa turquesa vem com duas sacolas pesadas pelo caminho de terra. eu trabalho para alterar essa realidade. né? De violentos. (Cléber) — Esse rótulo que a sociedade coloca para a gente. Isso é uma mentira da sociedade. prédios de quatro andares.. 23 anos . O que você acha dessa paisagem? — É feia. Cléber. prédios de quatro andares. Morro descampado. a boreste. o capim alto desbarranca na paisagem. entre capins. quase em camadas. prédios de quatro andares.. Num muro pequeno. Então juntam essas coisas e daí nasce uma carga pejorativa gigante que ultrapassa fronteiras. Aqui somos pessoas de bem que se organizam e resistem sim. (Cléber Ferreira. pouca estrutura. Vizinho. se eu pudesse não. poderíamos fazer do Brasil uma grande nação”. No primeiro plano. a mais que leste. concentração muito grande de negros. Enfim uma praça. morador de Cidade de Tiradentes há 13 anos. porque se todos quisessem.

Ainda era a Rússia. Cores iluminadas pelo sol de fim de tarde.52 53 Espaço comercial da Cidade Tiradentes: uma porta de garagem ao lado da outra – bar do Paraíba. Nesse cenário. em vez de painéis ou o cenário de um teatro.Todo mundo gostava de rap. AO M ST. quando ouviu Góes cantar um rap. o Força Ativa não proíbe a entrada de brancos.Você tem que ter e aí é um paradoxo. o sistema de produção em série. aí eu me apaixonei pela discussão e falei: não dá pra ir embora. mas não representa nada. de futebol e as meninas. nas intervenções. BEM-AVENTURADAS AS COMUNIDADES ZAPATISTAS. M O RT E AOS T E Ó R I COS D E M O DA . Não tem. Noooossa. FO I . O azul é tão azul que em alguns pedaços o muro se confunde com o céu. durante a revolução. (Cléber) — Eu lembro que a música falou de comunismo e falou contra o McDonald’s. quase apanhei das meninas.. um pouco enevoada. 29 anos. Aí que me despertou pra essa questão e eu comecei a pensar diferente e hoje às vezes sou eu quem faz a janta na minha casa. Quando terminou a música. nas falas das pessoas do grupo. as meninas. eles estavam discutindo a implantação do taylorismo na Rússia. pensar em uma atuação política. O socialismo é isso. Daí as meninas:“Como assim? Por que você não faz a janta?”. Se não divide. puts.Tito canta um rap: EST U P RA RA M A B O N DA D E N AS C E N D O N OSSA G E RA Ç Ã O. M E M A N I F ESTO. Primeiro você tem que ter acesso à cultura.Alguma alegria. A praça mais bonita do bairro.Agora. porque é coisa de mulher. No nosso dia-a-dia. você tem que ter uma vida tranqüila pra você pensar em livros. né?.. Cléber lembra que se encantou com os ideais do grupo. A I N DA N OS R ESTA U M A A LT E R N AT I VA . Na última porta. cada um aperta um parafuso. nós temos o entendimento que não é o Força Ativa que vai fazer a revolução que a gente tanto sonha.Tem brinquedos e gritos de alegria de criança. P R E F I R O S E R S O L I D Á R I O. AOS P R E TOS E P R E TAS R EVO LU C I O N Á R I OS. S O C I A L I ZO P E L A V I DA . AG R ESS I VA M E N T E . Mas é contribuir Washington. na nossa opinião e na minha. é dividir. algumas pinturas dão pistas do que acontece ali: as barbas de Marx. R E AC I O N Á R I OS. uma marcenaria. AOS V E R DA D E I R OS M I L I TA N T ES D E ES Q U E R DA . “A estratégia do Força Ativa é o socialismo. estudante de Letras na PUC e ativista do Força Ativa) A história do Força Ativa está ligada à história do rap. Daí eu achei interessante e fui ver o que tinham pra dizer. R E A L I STA . tenho que ir embora. 29 anos pra isso. tem um muro. É uma transformação socialista. condições de pensar. você tem que ter as suas condições objetivas resolvidas. E a gente luta por isso. Falei:“Ah. P OST U RA R EVO LU C I O N Á R I A L E TA L M E N T E . uma foice e um martelo.. você não tem outra saída a não ser dividir. Grafite colorido no muro. .. VA L E U FO R Ç A AT I VA . preciso pegar minhas irmãs que elas têm que fazer a janta. E o muro a terminação do céu. Q U E V E N H A A BA I XO O C É U. nossa. Era um grupo de estudos.. acesso a livros. Para você pensar em participação política você tem que ter. Atrás do palco. o que infelizmente acontece em alguns outros grupos do Movimento Negro. tudo dividido. porque você tem que ter o lazer. V Í T I M AS F L AG E L A DAS D E U M M U N D O T Ã O A M A R G O CO M O F E L . a gente – e até com base no que estudamos e pregamos – vê uma única alternativa a esse mundo burguês: é a revolução socialista.. É um palco no meio de uma praça. Como se o céu fosse a continuação do muro. alguma coisa impressionista. Contribuir quando você dá livros ao invés de outras coisas. A sede do Força Ativa que criou ali a Biblioteca Comunitária Solano Trindade. S O C I A L I ZO P E L A V I DA . Dia de encontro. eu lembro que um dia eu falei. um pouco infantil.”.” (Washington Góes. no mínimo. Espetinho do Amaral. RA D I CA L . ele falou: a gente pensa que comer no McDonald’s representa alguma coisa. A outra coisa é a questão racial. pela divisão dos bens aí.

Aí tem um espaço de dar camisinha. tem Fuga das Galinhas. né? Eles tinham visto Emanuelle. quero camisinha”. né? Não esquenta. sexo. frisador.. (Roberta) — Aqui no CTA começou a vir crianças de 6. diziam que transavam e depois de alguns meses nunca tinham nem beijado. “Pra dar pra minha mãe. Eles vinham e falavam abertamente:“Se eu não pegar a camisinha. Então a gente discutia sexualidade. grafitados no muro. O menino pode ter 8. poderia atuar nessa área?”. E aí o menino não pode mais participar da orientação. Por acaso esta praça está no setor dos bancários.. é aqui o point do momento. de bate-papo. o que a gente ia discutir. A gente fechava temas com eles. 9 anos de idade.. tirar dúvida. filas de formigas que passam. eu quero orientação. as meninas têm um problema maior: os pais não liberam autorização para a menina pegar camisinha. A gente perguntava:“Pra que você quer camisinha?”. acabaram confessando que nunca nem tinha beijado ninguém. que os pais não liberam. (Roberta) — O Força Ativa já vinha fazendo um trabalho de prevenção de DST/Aids nas escolas municipais aqui na Cidade Tiradentes. Aids. de letras. DST. 13. Roberta. 23 anos. mas eu sou Tito: Trabalho. Sou educador na Febem do Tatuapé. a gente é criança ainda”. E falavam:“eu quero camisinha. Uma pena. mecânico geral. prevenção. dos gráficos. (Tito) — Porque eles já vêm com uma visão de sexualidade de casa. da escola e até mesmo da rua e sexo. Ali. montava um cronograma e ia desenvolvendo. Então estou investindo na área social e é difícil pra caramba. A Cidade Tiradentes é tão grande e tão parecida nas suas esquinas. ativista do Força Ativa. torneiro. Sempre era pornô. do hospital onde trabalha como assistente social. chegavam aqui: “Tem Emanuelle?”. a menina pode ter 12. dos metalúrgicos. E a grande diferença aqui é o prédio pequeno do CTA onde Tito trabalha. aí o que acontece? Uma incidência enorme de gravidez na adolescência. Roberta Pereira da Silva. Lembra. enquanto organização juvenil. O mais novo tinha cinco anos. disseram:“Não. mas aumentado na Cidade Tiradentes. sexo. Meu sobrenome escravocrata é Silva de Souza. os adultos pedirem: “quero 30”. que são iguais aos ferroviários. No CTA tem pé de goiaba. Então nós pensamos:“como é que a gente. Solano Trindade e outros personagens. “Não. tinha pais também que vinham juntos na orientação e vinham para também assistir a orientação sexual. Aí a gente começou a discutir com eles por que eles queriam tanto camisinha e essa coisa da sexualidade vulgarizada na televisão. ou então de categorias profissionais: setor dos bancários. com oficinas. A gente fazia parcerias com as diretoras. Inteligência. sou contador. dos ferroviários. tem uns pré-adolescentes que já estão na atividade. eu quero camisinha”. nos seus prédios exatamente iguais. No CTA é cota negociada: a pessoa é quem diz o quanto de preservativo ela quer. 8 anos por conta da escola que tem ali. agente de prevenção do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids) da Prefeitura e mais um do Força Ativa.. dos bons. terreno descampado que sobe em pequena elevação até a parede lateral da Biblioteca Solano Trindade.” Alguns falavam: “Eu transo. a gente já trabalhava e aí fizemos uma parceria para que a gente atuasse dentro do CTA. então elas vinham. Quando o CTA veio pra cá. 9 anos que os pais liberam. que são iguais aos bancários. A gente tá sempre tentando conversar com os pais. porque ela é que sabe da vida sexual dela. eu quero 30”. ficavam brincando no jardim.. Mas o lance mesmo é bater um papo. As crianças vinham e entendiam que o CTA era um espaço de lazer. Esse trabalho começou de um dado que a gente pegou na Secretaria Municipal de Saúde. que tipo de filme eles queriam ver. se tem questões a serem tratadas referentes a prevenção. Eu falava:“Ah.. vai até em saquinho de gelinho”.. retificador. pegavam. o setor 65 etc. veio de Itaquera.. tem autorização assinada a gente libera”. que é mais um ato simbólico. Terra. esse sexo pro meu filho. então tem que ter algo melhor. mas é difícil. se não todos. outras vezes de números: o setor G. mas quem percorre a Cidade Tiradentes e é apresentado aos seus setores percebe que os gráficos são iguais aos metalúrgicos. Agora. 23 anos e Tito.. Então eles viam os adolescentes. às vezes. mas a média era 8. escola municipal.54 55 — Meu nome próprio é germânico:Wagner. (Tito) — O trabalho é de conversa. Quando chegaram aqui. preconceito sexual. Roberta. que se cogitou a idéia de ter um serviço de prevenção. que costuma ser diferenciada por setores. As profissões ficam assim diferenciadas umas das outras apenas pela nomeação. eles vêm pensando em sexo. Eles levam o nome.Também sou vendedor. Isso com os meninos. viu? Mas eu não agüento essas profissões tão difíceis de você lidar. mas saquinho de gelinho não vai te prevenir. eles também chegavam:“ah. que passou na TV Bandeirantes e eles assistiam em casa. Tenho 27 anos. aquele pai que chegou aqui e tirou o menino da oficina de sexualidade e falou:“Fica ensinando essas porcaria. estão: Marx. de limão. eu preciso de camisinha”. a gente nem beija na boca. do telecentro e porque moram muitas crianças aqui. E vinham falando: “eu quero camisinha. Elas vinham.” Depois de muitas segundas-feiras a maioria.. 27 anos . para encontrar Tito e juntos falarem sobre o trabalho do Força Ativa na questão da sexualidade. (Roberta) — Agora.”. Teoria e Objetividade. O último momento é liberar a camisinha. de que a Aids tinha diminuído em São Paulo. capim alto.. 7.

o difícil é você conseguir permanecer nela com todo histórico educacional que a gente tem durante toda a nossa vida. Sábado vai ter uma atividade que é ler. (Homem) — No sábado eu não vou fazer nada. E aí o exemplo que eu falo é o da PUC. C H EGA D E L E R B EST E I RA . M E R G U L H E N A H I ST Ó R I A .. (Homem. A universidade é classista. para mim. T E L EV I S Ã O É U M A D R O GA . ES CO N D E A N OSSA H I ST Ó R I A . é um exemplo de educadora de verdade. Eu tive o privilégio de ter uma professora. com seus mais de 4 mil livros. Fernandinha. E hoje ela não está preparada para receber esse leque de pessoas que estão entrando agora. as reuniões são abertas.. claro. então isso pra mim é que é educação.. 27 anos.A biblioteca funciona como se fosse pública. azul-clarinho. E ela não consegue dialogar com os novos personagens que estão chegando. S Ã O TA N TOS Q U E FA L A M M E R DA . estudante de História na PUC. Acho que é pela necessidade de mostrar aquilo que não é mostrado. a ter um entendimento crítico das coisas. VA M OS L E R M A I S L I V R OS E M OST RA R A V E R DA D E I RA H I ST Ó R I A . magra. Então.” (Fernanda. pode-se ler no murinho que dá para a rua: nem pátria.56 57 Fernandinha. sem custo nenhum para quem quer ler um livro. O H . a gente discute várias coisas. uma das mediadoras de leitura. ela tem o molde e você tem que se inserir dentro desse molde. “Eu quero que as pessoas se conheçam na própria história. que leiam um livro e se reconheçam naquilo que estão lendo. . puxando conversa) — Eu peguei outro dia o livro do Darcy Ribeiro. de nada. A mãe compra um algodão doce. é isso que a gente está tentando. se você quiser aparecer. (Fernandinha) — Então a devolução fica para o dia 17. senão eu venho. que despertou em mim a vontade até de fazer faculdade de História.. Acho que é com esse objetivo que geralmente as pessoas estão em movimentos sociais. E I CA RA . nem explorador. elas entram nas áreas de humanas. As duas vão contentes. 23 anos Lá vem o homem do algodão doce. preta como a ônix. para a menina. 23 anos. só se eu pegar uns carretos por aí.. S E L I GA N AS PAT R I C I N H AS Q U E A PA R EC E M N A M A L H A Ç Ã O. porque ela possibilitou a gente refletir. Porque a gente não veio com uma referência de luta.. escrever e contextualizar. P R EST E AT E N Ç Ã O N O Q U E VO U T E FA L A R AG O RA . O caminhão de gás passa com seu som de música clássica e toma conta do ambiente da biblioteca. C H EGA D E BA BAQ U I C E . alta. ativista do Força Ativa) Daqui de dentro da biblioteca. foi a dona Edi. E OS G RU P O D E RA P Q U E EST Ã O S U R G I N D O AG O RA . Posso trazer meus filhos também? (Fernandinha) — Pode. P R O CU R E S E I N FO R M A R. as atividades na biblioteca. né? Sobre a comunidade. Fernandinha. se você quiser participar. N Ã O S E JA U M M EST R E DA B U R R I C E . nem patrão. ESS E E N J Ô O É U M TO R M E N TO P R O CU R E L E R U M L I V R O. ela é destinada para uma classe social. M E U I R M Ã O. Ela. P O I S É A M Á Q U I N A D O T E M P O. Cruza com a mãe e a menina no caminho de terra em frente à biblioteca.. mas o difícil não é você entrar na academia. Lembra? Por que vocês ficam aqui no domingo o dia inteiro? O que é? (Fernandinha) — Ah. nem explorado.. como uma pérola rara. Foi com você. que tenham conhecimento de um fato histórico e se reconheçam naquele fato histórico. atende o pessoal da comunidade que vem retirar livros. (Homem) — Mas sem lucro? (Fernandinha) — Sem lucro. canta um rap: E I . S Ó T E M CO I SA P RA B OY E V E R OS P R E TO P E D I N D O ES M O L A . Então. cabelo inteiro de trancinhas. de povo. no ensino fundamental. ESS E T I P O D E CO I SA P RA VO C Ê É I N FO R M A Ç Ã O. onde uma grande parcela de jovens está entrando por uma perspectiva de bolsa.

Foi legal que isso aconteceu depois que eu já estava nesse caminho da militância. Se fosse antes. do alto de um prédio. David.58 59 Quarto de David. Sala da casa de David. Eu estava aí na balada. foi um grande herói e está aqui na minha sala fazendo parte do meu dia-a-dia. curtindo. O verdadeiro culpado é o sistema capitalista. teu pai cara. E talvez se eu não tivesse conhecido o pessoal do Força. no fliperama. Eu tenho muitos amigos que optaram pelo lado da criminalidade e eu mantenho uma relação ainda estreita com alguns deles.. Linhas retas ou curvas. que ajudaram demais. Na hora que você quiser a gente dá uma passada lá”.” . eu sou ativista do Grupo Cultural Força Ativa e estou aí junto com o pessoal tentando melhorar a periferia de São Paulo e quem sabe do mundo. eu poderia estar talvez num outro caminho!”. depois de entrar no Força Ativa. você tem que ir lá. E foi legal que foi. Ainda fui requisitado outras duas vezes: “pô.Antes de entrar no Força Ativa..” (David Brehmer. Che Guevara para mim. alienada da minha vida. com moldura de gesso.Quando eu comecei a participar foi uma vitória. eu estou dando uma oficina para outros jovens.Através do Força Ativa eu pude entender que essa pessoa que assassinou o meu pai não é o verdadeiro culpado. David esquenta o café.. (David) — Esses foram caras assim.. é legal você participar das atividades do Força Ativa. dessas para se ver de longe. Mas aí o pensamento veio na família. ativista do Força Ativa.. deixaram muitas coisas boas por aí que a gente está aproveitando e a leitura que eu sigo é a leitura marxista. sem indicação de onde vão parar. com o seu pensamento: “Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista! Nela os proletários nada tem a perder a não ser os seus grilhões. foi fulano que matou seu pai. foi uma época. por onde entra um risco de sol. Eu fui pichador. Um sofá. tão de perto. camiseta da seleção da Argentina. estava aí com os amigos na rua. Estava cabulando aula. contribuíram muito. perdem o todo e ficam só as partes. Um cachorro late bem perto. até encontrar o Força Ativa. tem bastante lembrança aí daquele tempo. Na parede alguns retratos: Che Guevara e um pôster de Marx. (David) — Eu perdi meu pai há alguns anos e isso mexeu muito comigo. Uma divisória de meia parede separa a sala da cozinha. Essas pichações. Paredes brancas. atrás de capas de revistas blackpower americanas.. insistentemente. pichações enormes. estava enfim. David. pessoalmente. Ele foi vítima de um latrocínio aqui na Cidade Tiradentes. minhas irmãs. Ele está lá agora. e eu já tinha um entendimento maior. “O meu nome é David. do metrô. olha pela janela. cabelos de longas tranças. Uma foice. algumas plantas.”. Proletários de todos os países. Porta vermelha. está sentado na cama. Nas paredes. eu pensava: “caramba...Vistas assim. nós fomos pichadores e isso aí se refletiu no meu quarto. eu acho que essas amizades teriam virado uma parceria mais perigosa. 25 anos . eu conheci uma pessoa que me falou:“David. roubaram e depois mataram meu pai. um pôster dos Racionais. da avenida. eu era um rapaz comum aí. Têm um mundo a ganhar.. A arma está aqui. estava participando de coisas talvez sem nenhuma importância para a minha vida futura. na minha mãe. o meu irmão também.A minha sorte é que nessa época tinha alguns amigos que já estavam na área da militância e estavam sempre ali comigo: “vamos lá David. tenho certeza que eu não teria pensado duas vezes em me vingar.. 25 anos. um martelo. vamos dizer assim. Isso me criou um espírito de vingança. uni-vos”. aí no mundão. Eu preferi não saber quem era. do guarda-roupa. educador social na Febem) Letras vermelhas indecifráveis somem atrás da cômoda.

Entre as ações. outro bar e ainda outro. em São Paulo. voltam pra casa. Hoje nós temos três comissões. a mais importante é a participação nos movimentos sociais: o movimento da infância e da juventude. menos que garoa. P O L I T I ZA Ç Ã O. Foi criado em 1995 e atua na vida política do bairro de Cidade Tiradentes.. São duas comissões (captação de recursos. tanto nas atividades nossas quanto nas atividades externas. 27 anos. Origens e Propostas O Força Ativa é uma organização juvenil que tem por proposta promover a conscientização política da comunidade local. “Todos fazem tudo. hoje com um acervo de mais de 4 mil livros. antes da noite. Uma neblina desceu sobre São Paulo. em sua maioria pretos. ativista e mediadora de leitura do Força Ativa: V I AJ E N A I D É I A . Era uma igreja. “A gente não abre mão dessa coisa de estudo. AQ U I N Ã O T E M S E R I N GA . cantado por Fernandinha.. ainda tem sonho e pudim. tudo é executado por deliberações da assembléia. 29 anos. estudante de História na PUC. E M N OSSA BAT I DA . Os participantes são jovens. e a luta contra o machismo. Uma névoa. para incentivar a leitura entre os moradores do bairro. todos da periferia. Criou o projeto “Vamos ler um livro” e fundou a Biblioteca Solano Trindade. oficinas e imprensa e comunicação) e a executiva. . As mulheres voltam do trabalho. cada integrante do Força Ativa tem que estar dentro de uma comissão. A cama branca de ferro já está sendo guardada. a luta dos semteto. Era um bar. Uma esquina. onde se dedicam ao aprendizado do pensamento marxista.” (Fernanda.” (Washington Góes. Regina fashion hair. ativista do Força Ativa) Quase todos os integrantes do grupo cantam rap. não tem uma divisão assim. Passa a padaria redonda. as atividades. Mais um dia e ninguém comprou. Passam os salões de beleza. um orelhão. Seus temas: a consciência racial e a luta contra o racismo. estudante de Letras na PUC e ativista do Força Ativa) O Força Ativa realiza oficinas com a comunidade sobre questões raciais. na loja de móveis usados. Então cada um. 23 anos.60 61 A noite está quase. nas reuniões consegue organizar um lanche etc. Como o grupo não é autônomo. tem divisão de tarefas. de gênero. O bar do Chico passa. menos que chuva. Uma luz amarela passa. Passa um bar ao som de um forró. Existe uma participação equilibrada entre homens e mulheres. O Força Ativa é organizado em forma de comissões. até como forma de sobrevivência e ocupação do espaço. ou através do grupo. hoje teve picadinho. ESSA É A SA Í DA .A gente faz um cronograma das atividades do seminário anual e aí em cada reunião. dá 10% do seu salário para o grupo. a luta do MST. sexualidade e auto-estima. a igualdade entre homens e mulheres. cada um fica responsável por ir a algum lugar em algumas atividades. Dentro de cada comissão. Este é um deles. As mães. FO R Ç A AT I VA T E A L E RTA . Então é assim que a gente mantém a biblioteca. fazer determinadas coisas. Cada pessoa que está trabalhando por influência do grupo. através dos informes. cada integrante do grupo dá uma contribuição mensal de 10 reais. A Cidade Tiradentes pouco se vê. a igualdade de direitos e oportunidades. depois de pegar os filhos na escola. não tem ajuda financeira de nenhum lugar. A maioria é de estudantes. A G E N T E CO M PA RT I L H A : I N FO R M A Ç Ã O. Desenho de mulher em escova definitiva. Uma casa azul comprida passa. Realizam também grupos de estudo.

62 63 GRUPO INTERAGIR .

Talvez não seja uma foice. aqui. Aqui você não consegue fazer concentração de pessoas. E que inteira fosse bela. cada arco. bambeando num pau dormente. cada rampa. não consegue. cabe inteirinho o presidente Juscelino. Você não tem multidão. num mármore que se estende.Tem a Praça Vermelha. Belamente triângulos e curvas. cada porta. mesmo com 120 mil pessoas. Maiores que as medidas dos braços. também. neste planalto. não para os homens. sei lá. P . ou numa figurinha de chiclete. quase grande igual. que as medidas dos passos. Sobre a forma pensou a cidade. feito estátua.64 65 Brasília é a Terra. menos que a Lua rimeiro o arquiteto pensou a forma. no papel. A foice se equilibra no martelo e lá. — Eu vi uma vez no Guiness. enquanto dirige seu carro.A praça dos Três Poderes é uma das maiores do mundo. Sobre a cidade pensou os homens que habitariam a cidade. Belamente monumental. Na praça dos Três Poderes. como o horizonte no cerrado.. Belamente longa. feita milimetricamente.. a acenar pra nós. por mais gente que tenha. o eixo monumental é a maior pista do mundo em largura: cabem 61 fuscas de uma pista a outra. formado em Ciência da Computação. 22 anos. Belamente cimento armado. assim. Você não consegue concentrar gente aqui. nos explica que cidade é esta. dentro da foice. mas uma lua de quarto. comprido. Avenidas monumentais. na largura. eu acho. mas para que a humanidade coubesse inteira. você vai lá e encontra espaços vazios o quanto você quiser. Ceilândia é assim. Mateus.

ainda que estivesse todo mundo desgastado. algumas curvas. alguma chuva. de fazer um fórum. minha vida não precisa ser sempre esse caminho que eu vou seguir reto e Luísa. formada em Engenharia Florestal. onde é dirigido o Brasil. E a resposta que a gente dá é: queremos ser ponte. no final de 2000. falando um pro outro: “eu te amo”. Erika. que não é convidativa. Manhã.66 67 O Memorial JK aparece inteiro numa curva dos óculos “Matrix” de Mateus. a proposta era fazer um portal na Internet com a idéia de divulgar informações para os jovens que quisessem fazer alguma coisa pela sua comunidade.Você sabe que está todo mundo ali com o sangue e a lágrima. Não tem a história das outras cidades. Clóvis. Então eu cheguei. de ser muito brother mesmo. a gente quer. jovem. e daí. do Centro. já estavam lá. não na linha assistencial. sabe? De você sair ali do seu quarto. você vê um monte de coisas. eu também sou engenheiro. 24 anos. Aí eu pensei em fazer um projeto com os jovens dentro do Centro de Voluntários. Carol. só que a gente percebeu que queria fazer outras coisas também. Luzes na pista e na cidade.” (Marcelo. Mateus olha pra ela pelo espelho retrovisor. Clóvis. como a praça dos Três Poderes. a sua vida muda. eu posso fazer coisas. muitas vezes com o Clóvis. engenheiro) “Porque geralmente está todo mundo tentando proteger a gente. Começou com um site. então a gente precisa gerar informação. A gente sabe da diferença que a gente tem com relação a grande parcela da juventude brasileira – diz Clóvis. castanhos-claros. Os meninos de Brasília vão chegando. visto assim. sabe? Se você tem certeza do que você quer. – Mas a gente está aqui sim. Uma turbina de avião. Uma grande reta. E tem um monte de pessoas que já fazem trabalhos na comunidade e não se conhecem. Varanda da casa de Renata. do corpo de outro avião. e a cabeça do avião fica lá. Cabelos lisos.. quando chegamos. Para o lado direito é a Asa Sul e para a esquerda a Asa Norte. querendo sair do grupo. 25 anos.. não ficar só na Internet. Quando entrei no Interagir. Clóvis. a integração de todo mundo. Luísa. então vamos começar a estimular encontros entre essas pessoas. ver que você pode sair daquilo ali e esse é o problema. bicho.. “Acho que todo mundo. sabe? Você vê pessoas que passaram 12 meses ralando. piercing na língua. Doze jovens em volta de uma grande mesa nos contam o que é. cara? Eu sei que antes de estar com o Interagir era uma coisa. como eu briguei muitas vezes com o Henrique. setor residencial. todo mundo está aí na Universidade ou em vias de entrar na faculdade. que têm uma igreja. bacharel em Direito e estudante de Ciência Política. juntei uma galera e assim começou o Interagir. — E aqui é o centro da cidade.’. pela janela. estudante de Antropologia) (Mateus) — No final do terceiro fórum. que em 2001 foi chamado de Fórum de Jovens Voluntários. pô.. cara. fui bem acolhido e comecei a trabalhar na equipe Antes do passeio monumental. Mateus. só pombos. O corpo de um avião. não tem ninguém. A gente começou a fazer o site. digamos assim. não sei o quê. eu comecei a ver: nossa. sabe? Você ter 34 pessoas se abraçando. 24 anos. porque quando você vê que pode sair daquilo ali. (só nas palavras carregadas de letras “a” ou letras “ó” o piercing fica visível no seu brilho). Quando vi na TV um negócio sobre o Centro de Voluntários do Distrito Federal. de uma classe social favorecida. fora o conteúdo mesmo. é quem começa a conversa: — Então. começou de uma inquietação. E aí você se lasca. mas aqui é o corpo do avião. Marcelo vem com os cabelos molhados. A gente queria fazer coisas mais na linha de desenvolvimento. têm um lugar e as pessoas sentam nos banquinhos e conversam. 20 anos. Lilian vem de bicicleta. em 1999. mas todo mundo sacava a interação do grupo mesmo. engenheiro) “Você é responsável até por não escolher algumas coisas. A gente é cutucado. — É um grupo constituído de um grupo social específico. Se lasca muito no bom sentido. Noite passada. Para mim o melhor momento sempre é quando vejo uma pessoa dizer:‘eu posso’. você não consegue mais voltar. Duas asas sobre o chão.Asa Norte. sabe? Tipo: ‘ah. As pessoas não se juntam em praça.” (Pablo. Assim é que chegamos a Brasília. No banco de trás. brigando. Henrique. Carlinha. Aí percebemos duas coisas: tem um monte de gente querendo fazer trabalho na comunidade e não sabe como começar. — Brasília não tem praça. De avião para avião.. 22 anos. é claro. “Existe um marco. outras vezes com a Erika e com a Mariana. até os ombros. nos olhamos. por ser omisso. Você é responsável por ser omisso. Assim é que enxergamos a cidade.. agora eu descobri o mundo. na casa de Renata.” (Lilian. sabe? Tipo assim. depois de estar com o Interagir é outra coisa completamente diferente. que são as duas asas do avião. pensa a cidade que é Brasília. Quando você passa a fazer parte do Interagir você começa a perceber a possibilidade que você tem de fazer uma coisa mais. Mohana e Pablo chegaram depois. se é que essa cidade tem um centro. então tudo é possível. estressado. e não representantes. chorando.Aqui não tem e aí você tem uma praça enorme. Lá eu vi que tinha gente fazendo coisas legais com os jovens. quais os objetivos do grupo Interagir. O Marcelo falou assim:‘pô. e aí a gente começou a pensar em ações que podiam ser desenvolvidas dentro do Distrito Federal.. cara. É um grande desafio. Erika. Então é um marco. E foi aí que a gente teve a idéia. então vamos continuar com nosso site. a vida antes do Interagir e a vida depois do Interagir. eu pensei:“quero fazer alguma coisa como voluntário”. mas eu não preciso ficar esperando ninguém fazer as coisas por mim. a gente se emocionava muito depois desses encontros. Eu não preciso ficar só reclamando do governo. eu sou engenheiro’. mas no final todo mundo deitado no chão. Carla e Carol .

Tem a ambição de tentar englobar tudo. até começarem os quarteirões planejados de Ceilândia. sem gastar rios de dinheiro”. todo gente boa. para as pessoas. o seu Zé ali está triste e eu vou ficar de boa”. a gente tenta facilitar. minha vida é o que eu vejo.. resolvi ajudar. no meu caso. Essa é uma necessidade que já está há algum tempo e é o nosso desafio agora. estamos na estrada. ele também. mas que coisa é essa? Ela se consolida em algumas ações que existiram. no próximo ano. indo com Mateus e Erika para Ceilândia. 22 anos. Não tem como eu olhar para o lado e falar: “poxa. mas acho que a pergunta que ainda está por ser respondida é: o que a gente faz e pra quê? Que “pra quê” é esse. Tudo isso é uma coisa só. se eu quiser mudar minha vida. que são essas relações de confiança. isso e aquilo outro. acreditando que a gente quer mudar essa realidade. esses encontros. uma das cidades-satélite de Brasília. e ele “ô”. em nenhum momento a gente conseguiu parar pra pensar o que a gente quer.” (Henrique. a melhor coisa que o Interagir me deu foi isso: sou responsável pela minha vida. quando se fala em proporcionar espaços. são também a nossa vida. “Vestibular Gratuito. a juventude do partido político tem essa ambição de ficar representando tudo. já que a gente diz que quer mudar o mundo. Para mim. E minha vida hoje é eu saber que minha vida não se resume só ao meu cotidiano.” Sabe? O velhinho não tem nada. A gente tenta criar esses espaços.. não tem como separar. estudante de Psicologia) (Clóvis) — A gente trabalha com jovens porque a gente acredita no jovem hoje. fora dessa varanda. Existem pessoas que cuidam de mim. Não tem como. Lá vamos encontrar o pessoal do grupo Atitude. mas é solidário com os outros. à minha família. . é um encontrar. (Henrique) —Tem um cara no sinal do sudoeste que é o seu Zé. Por exemplo. “Pô”. com quem os jovens do Interagir já fizeram algumas parcerias. “o carinha não estava conseguindo distribuir tudo. esse estímulo de vários sentimentos. sabe? Tudo bem é um hoje.Todo mundo que passa: “ô seu Zé”. propostas de vida mesmo. faz parte da minha vida. eu posso. é que a gente tenta gerar essas soluções.” (Renata. o quanto é importante esse espaço aqui para a formação de cada um. não estar com as pessoas com as quais eu convivo. essas oficinas e vários projetos que a gente faz. Mas esse espaço gera reflexo fora daqui? Acabaram as avenidas monumentais. estudante de Sociologia) (Erika) — A gente nunca conseguiu. E essas soluções estão muito no nível de gerar uma expressão. a gente não conseguiu até agora definir o que vai ser nos próximos meses. Não tem como minha vida não estar no país onde moro.. tem projetos. ele me disse. não se angustia por não ter essa representatividade enorme. tem oficina. faça Geografia. Será que cada um de nós serve para alguma coisa. “Empréstimo para aposentados”. 22 anos (Clóvis) — A gente está fazendo alguma coisa. que é o capital social. um momento de inspiração para a construção da proposta conceitual do Terceiro Fórum. que a gente aprendeu no decorrer dessa estrada. Eu acho que desde manhã a gente está percebendo isso. aí um dia ele estava distribuindo panfleto. Henrique. Longa estrada de outdoors. E é muito isso. que é esse estímulo de democracia. tem fórum. que o jovem possa descobrir seu caminho. a nossa missão é articular e promover outras iniciativas que não necessariamente do nosso grupo. qual é o nosso planejamento. Acho que a gente não tem essa ambição. pessoas que eu posso cuidar e eu faço parte disso. Então é nessa linha. como outras organizações. justamente para permitir um olhar no horizonte. Ele simplesmente só pede dinheiro. tem articulação de políticas públicas.68 69 pronto. que é um velhinho. quando se fala de um encontro de pessoas. não porque a gente acredita que o jovem tem um potencial para o futuro. mas qual a relevância do Interagir para o mundo? Qual é o impacto que geram essas ações para esse planeta. que quer isso e aquilo. Não. Houve um momento de luz. nesse querer transformar um espaço onde tem uma desigualdade social que atinge a cada um de nós. vai ser sempre assim. se a gente consegue conviver com tanta desigualdade assim? Acreditando que a gente serve. na fala de cada um. “Acho que a gente não tem ambição. (Clóvis) — Eu acho que a pergunta que ainda está para ser respondida é: e o quê mais? Fora dessa sala aqui. são ações pequenas. seja ele qual for. de tentar engolir tudo. quando se fala de olhar para aquilo como geração de capital social. são simples.. Eu sei que agora. 20 anos. essas possibilidades.

A gente viu que eles tinham essa percepção de trabalho de cunho social. o mesmo gosto estético que se vê na paisagem da periferia de São Paulo. sabe? Eu lembro um dia. “Aí a gente olhou para o Mateus e falou: ‘Ih! Que playboy!’. Os valores e a concepção de mundo que a gente tem são muito diferentes. um grupo de jovens moradores da Ceilândia que trabalham com políticas públicas. A gente é privado de vários serviços públicos e ainda tem uma política de segurança inadequada. o pé no chão que eu tenho no Interagir e a cabeça nas outras coisas que estão lá é de um tipo. que faz com que a gente perca muita coisa e caia nessa coisa fácil e rasa de dizer que a pessoa é de um jeito ou de outro. o pessoal aqui vai dizer:‘Tá se misturando com bodinho. de quem tem um monte de coisa garantida. de Recife. Então o que é que a gente diz pra eles? Que existe outra saída. Nossa história é marcada por a gente cruzar a Ceilândia a pé. mas os caras contam de uma forma que você não consegue fazer outra coisa senão rir. muros. aí sim. enfim. para a nossa comunidade aqui isso não tem valor. pelo menos quase todos os jovens aqui da Ceilândia conhecem a gente. tem grana. a cabeça nas nuvens lá. Brasília esquece de olhar para Ceilândia. Ceilândia vive de olho em Brasília. A postura que eles têm. da forma de falar. não tem nada. mas o contato com o Atitude me dá muito um outro olhar que não tem como eu ter esse olhar em Brasília. que para a gente estavam envoltas nesse clima de uma cidade como Brasília. aqui não tem nenhum teatro. falta o ar. Ceilândia é assim. menos que a Lua. pô!. de qualquer outra grande cidade brasileira. Brasília tem uma certa atmosfera. 26 anos. A gente andava de dez a 15 quilômetros para fazer o trabalho. quem não tem grana ou não está engajado no tráfico não tem valor nenhum. Casas.. De um modo geral. acho que o Interagir me dá muito o pé no chão. estudante de Ciência da Educação. Ruas de Ceilândia.Alguém passou e deu um pixo nas paredes. E eu fico vendo que isso é muito. E outra coisa também: eles estiveram com a gente dando idéias. um largo.A gente ia nas escolas de ensino médio falar sobre DST/Aids. é bem complicado. né? Eu estou num trabalho. A gente está buscando um valor para isso. Na parede. enquanto conta a história do seu encontro com Mateus e com o Grupo Interagir. sabe? São as coisas reais. há um ano e meio. É um estereótipo. através das escolas. fica o escritório do Atitude. acho que ele é muito mais pessoal. de repente os caras até se afastam de mim. Agora o que a gente está fazendo aqui é investimento a médio e longo prazo. diminuir essas barreiras. não é só a distância geográfica. Aí quando a gente começou a se relacionar mais com as pessoas do Interagir. a escola é inadequada. eu era peão de obra e trabalhava de bico de ajudante de mecânico. protegido por uma grade na porta. Quem fala é Sérgio. mete a porrada na gente. Raramente uma menina vê valor num cara que trabalha para mudar a cidade. Eu acho que foi um aprendizado muito grande. Ceilândia seria uma delas. achou interessante. um cercadinho mesmo. conseguiu ter contato com muita gente. assim. com casas comerciais.70 71 Brasília é a Terra. de quem tem um futuro e a gente está no caos. foi muito importante para a gente. Dá uma raiva. Então tenho o pé no chão. A proporção seria de cruzar uma W3 a outra W3. tinham roupas novas. assim. você precisa conhecer a realidade que está aqui a dez. não só nessa questão de ter o primeiro contato e diminuir os preconceitos que a gente tinha. que para a gente tem muitos mitos. No primeiro andar. a polícia chega aqui e em vez de proteger.. A gente conseguiu um amadurecimento no nosso grupo. continuavam a ter outras necessidades e a gente tinha que respeitar isso. Asa Sul para Asa Norte. Aí se eu começo a andar com o Mateus. a gente não está existindo! Antes de conhecer o pessoal do Interagir. por exemplo. Sérgio é o anfitrião e nos mostra Ceilândia. mas também de conseguir fazer alguns trabalhos junto com o pessoal do Interagir. pra minha família isso tem muito mais valor. sem nem conhecer. Aqui. de estar mais próximo. um mapa com os quarteirões da Ceilândia. enfim. tinham carro. a saúde é inadequada. as coisas tristes. sei lá. um garoto que tem tudo e tudo o mais. Ceilândia gira em torno de Brasília. assim. ele carregava o estereótipo da imagem dele. sabe? Quando eles fizeram o primeiro Fórum a gente participou. de gente que a gente nem conhece. no tráfico de drogas nas comunidades. De qualquer forma. Quanto à arquitetura. Hoje a gente tem um problema muito grande com a questão do tráfico. Se a Terra tivesse em torno dela umas dez luas. cidade-satélite e Brasília. porque sempre existiu uma barreira muito grande entre Ceilândia. fã do hip-hop e um dos diretores do grupo: — Quando comecei no Grupo Atitude. o imaginário do jovem dessa comunidade seja muito mexido. E foi muito importante pra gente chegar próximo dessas pessoas. né? Tá andando com playboy’. Isso é coisa de homem? Tá ganhando grana? Não? Então não vale de nada. e os caras contam umas coisas. de pessoas que querem contribuir com a nossa sociedade. muitas fantasias. 20 jovens. é um desafio para a gente conseguir trabalhar com esses jovens. as pessoas não têm roupas novas. não as básicas. são muito piadistas. cabelo liso. que é um olho muito importante. mas não estavam completamente satisfeitos com a vida. E nem sempre é possível. nascido e criado na Ceilândia. dos caras matando. Garoto branco. de pensar questões sobre saúde. Aquilo é uma ilha. A gente tem que começar a repensar esses valores. agregar um valor para a comunidade. oficinas. Em Ceilândia. — O Interagir foi um grupo que a gente conheceu há alguns anos atrás. mas eu acho que . O tráfico tem seduzido muito esses jovens. quando eu encontro o pessoal do Atitude é outro tipo. Isso gera uma angústia e uma frustação de que. é coisa de homem.. muito engraçados.. E eu acho que é isso que a gente tem que começar a mudar: essa mentalidade daqui. só atrasa a gente pra caramba. Por exemplo. ajudando de alguma forma o nosso trabalho para construir uma política pública de lazer e de cultura. Então. só porque mora em Brasília. sacou? Dos pais reclamando. onde se esbanja oxigênio. da periferia de Salvador. cara. 15 quilômetros da sua casa. Isso faz com que a mentalidade. porque isso não ajuda em nada. então a gente conseguiu.. Eles tinham comida. A maioria das pessoas da nossa realidade come uma vez por dia. a gente sentou no chinês que tem ali e esses caras. Então. Para as meninas daqui. existe outra escolha e a escolha que a gente está mostrando pra eles é: existe a arte. mas aqui eu tenho um olho também. tinham uma visão de mundo bacana e a gente conseguia ter um diálogo e a gente conseguia. deixar a cidade melhor. a forma de lidar com as questões que eles têm trabalhado é uma referência para a gente. só que são as coisas embaçadas. mesmo. nesse estereótipo do menino de classe média. é uma contribuição pra gente muito valiosa.. assim. a gente não conhecia pessoas que moravam em Brasília e tinha um preconceito muito grande do playboy. falar com um público muito grande de jovens. um pôster e a lembrança de um rap: Apocalipse 16. nenhum lazer. foram presos movimentando 100 mil reais por semana. também me dá a capacidade de sonhar. foi fantástico. Grandes quadras. uma parceria muito valiosa. às vezes. assim. Pela janela. E as pessoas não acreditavam que a gente chegava lá a pé e não ganhava nada. Brasília gira em torno de si mesma. a gente percebeu que eles tinham outras necessidades. (Mateus) — Esse contato do Interagir com o Atitude não é só um contato institucional.

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é muito bom nesse sentido de eu poder ter essa possibilidade de ter esse olhar. E você vê que são pessoas articuladas, pessoas inteligentes, são pessoas que tem uma plena potencialidade. O Sérgio dá um show ali, sacou? O Sérgio consegue te falar em cinco minutos o que eles fazem na prática, o que eles estão mudando aqui, o que para a gente do Interagir, às vezes, é muito mais complicado. E eu acho que a gente tem coisas muito parecidas, cara, que é o lance da postura, de se colocar no mundo. Quando a gente fala de valores, quando eles falam dessa necessidade de ter o lance da identidade e das necessidades, é só um tipo de necessidade. As necessidades que se tem de ter um cinema, de ter um teatro aqui, talvez sejam as mesmas necessidades que a gente tem lá de, tendo o teatro, freqüentá-lo, saber o que fazer com o teatro. Então é só o tipo de coisa que muda, mas a afirmação da identidade, a possibilidade da pessoa ter uma percepção mais afiada do mundo, pô, acho que essa linha é muito parecida. (Sérgio) — Pois é, igual, assim, a gente fala que é muito legal isso, porque quando a gente vê o jovem que está aqui em estado de alienação, de não perceber a realidade, a gente tem que enxergar de um plano muito parecido, sabe? De ver como um modo de consumo, mesmo que ele não possa consumir nada. Está tudo interligado, porque o que eu passo aqui, em Ceilândia, tem influência lá, em Brasília, e o que eles fazem lá tem influência aqui.Aí, toda vez, olha só que coisa triste, quando acontece um problema sério em Brasília, de alguém ser morto, ou espancamento de alguém, aqui tem um toque de recolher imposto pela polícia. É um toque de recolher que não é dito, porque é inconstitucional, mas você vê os caras da polícia, a partir das dez horas da noite, começar a passar em comboio, com a sirene ligada.Você acha que fica alguém na rua? Quem é doido de ficar na rua? Assim, eu falo assim, se acontece alguma coisa grave lá, o reflexo aqui é imediato, entende? A gente está ligado. Brasília e Ceilândia. Ceilândia e Brasília. Estamos de novo na estrada, de volta para Brasília, onde Mateus nos mostrará a Praça dos Três Poderes, o Memorial JK, o Palácio da Alvorada, a Esplanada dos Ministérios, toda a arquitetura. Naquele ponto exato e monumental, onde essa história começou.

Origens e Propostas
O Grupo Interagir foi criado em 2000, em Brasília, e o seu principal objetivo é fomentar e articular o protagonismo juvenil. O Interagir nasceu com a inquietação de um jovem, Clóvis, que desde a sua formação no Movimento Escoteiro sentia que precisava realizar mais por sua comunidade. A partir daí vieram os outros jovens, vários deles com alguma experiência em trabalhos sociais (escotismo, movimento estudantil, movimento religioso). Em maio de 2000 o Interagir criou o Portal do Protagonismo Juvenil, www.protagonismojuvenil.org.br, que ganhou o prêmio “Jovens Voluntários” e que é referência no que diz respeito ao protagonismo juvenil no Brasil. O Interagir já realizou quatro Fóruns de Protagonismo Juvenil em Brasília, buscando a mobilização e a integração das juventudes. O principal objetivo é divulgar o conceito de protagonismo juvenil, discutindo problemas sociais, incentivando os jovens a utilizarem melhor seu potencial transformador e promovendo a interação entre eles. Para o Interagir, o protagonismo juvenil sustenta-se em três pilares: Iniciativa, Liberdade e Compromisso. Para o grupo, a pessoa protagonista é aquela que busca liberdade para escolher a área de interesse e a forma de ação e de intervenção, tem iniciativa para a realização de suas escolhas e estabelece compromisso com os resultados e com a avaliação dos impactos gerados ou obtidos. O protagonista, com isso, cria oportunidades para transformar palavras em atitudes, comprometendo-se com o presente e com o futuro que almeja. É uma conquista de autonomia que permite a percepção da juventude não somente como problema, mas sim como parte da solução para questões sociais, pelo livre exercício da educação para a vida e para a cidadania. O grupo realizou vários projetos envolvendo jovens em discussões sobre políticas públicas. Um desses projetos abordava a política em si: “Voto, Logo Opino”, projeto que se tornou referência no Distrito Federal, pois auxiliou

na análise e avaliação, pelos próprios jovens, dos programas de governo que iriam afetar diretamente a juventude. (Clóvis) — Então, ia ser eleição pra governador e a gente tentou recortar os programas de governo, dos candidatos, focados na juventude. Foi a maior pauleira pra conseguir reunir essas propostas, alguns não tinham proposta nenhuma para a juventude. Aí fizemos mil recortes e, enfim, conseguimos reunir todo o material, aí a gente criou uma metodologia para que os jovens analisassem esses programas de governo. Durou um dia inteiro o encontro, no final os jovens opinaram e construíram propostas também. Meio Ambiente e Juventude – O Grupo Interagir foi escolhido pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) para ser a instituição responsável pelo projeto Geo Juvenil no Brasil. Será uma articulação nacional entre jovens e organizações sociais visando criar alternativas para questões ambientais no país. Acompanhando o processo de criação da Comissão Especial de Políticas Públicas para a Juventude da Câmara dos Deputados, o Interagir participou da Semana Nacional de Políticas Públicas para a Juventude e da Conferência Nacional de Juventude, integrando, inclusive, a comissão executiva das conferências locais do Distrito Federal. Em 2004, criou o boletim informativo “Falando em Política”. (Renata) — A idéia é compartilhar informações, difundir informações de coisas que estão rolando no Brasil, de percepções que a gente tem sobre as políticas públicas, sobre esse foco. Esse boletim é eletrônico, está na Internet, e a gente tem o apoio da Fundação Friedrich Ebert. E sempre com um sonho, sei lá, como pode se chamar, a idéia de ter em Brasília um observatório de juventude, em âmbito federal, um observatório de jovens sobre as questões da juventude. De sua criação até hoje, o Grupo Interagir já sensibilizou pelo menos 4 mil jovens do Distrito Federal e cerca de 10 mil jovens do restante do país para a necessidade da transformação social.

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BANSOL

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É uma cidade negra, mas é também uma cidade portuguesa.... os filólogos e historiadores perdem tempo discutindo se esta cidade se chama cidade de Salvador ou cidade de São Salvador... o povo continua chamando sua cidade pelo doce nome de Bahia. Esta é a cidade da Bahia. Assim a trata o povo de suas ruas desde a sua fundação a primeiro de novembro de 1549. A economia e a solidariedade
Jorge Amado, Bahia de todos os santos: guia de ruas e de mistérios. Rio de Janeiro: Editora Record, 1945.
— A casa de Jorge Amado fica aqui, no Rio Vermelho, Zélia ainda vive aí. O Rio Vermelho é um bairro tradicional da boemia. É um bairro onde moram muitos artistas. Um garotinho se aproxima da janela do carro e oferece para Luíza bonecas Barbie, numa caixa. — Obrigada. Aquele vai, outro vem. Este vende chaveiros. — Obrigada. — Aqui é o que? — A Rótula do Abacaxi. — Por quê? — Porque o trânsito aqui é um abacaxi. É um terror e essa avenida que vai reto vai para o largo das Sete Portas, o largo Dois Leões e Barroquinha, que é pertinho do Pelourinho. Barroquinha é Baixa dos Sapateiros, sobe a ladeira está no Pelourinho. Tem muito nome estranho assim em Salvador, rua da Poeira, Ladeira da Preguiça, Ladeira dos Aflitos... aí aqui a gente vai subir para o Cabula. E aí já estamos no caminho da Engomadeira. Comércio fraco pelas ruas, um manequim de calça jeans e top, na falta de vitrine que o proteja, se exibe apoiado na porta da loja com seu olhar vidrado, para os que passam na rua. Ao lado uma quitanda, na frente da quitanda um carrinho de mão, todo fechado, de alumínio, anuncia seu produto: munguzá.

— A gente está chegando no fim de linha da Engomadeira. É onde os ônibus param. Chama fim de linha, não sei se chama assim lá no sul — diz Luíza enquanto dirige seu carro. — Será que eles vão abrir? Eu costumava estacionar num terreiro de candomblé que tem aqui... Pela calçada, crianças pequenas correm, outras riem, outras acenam pra nós. Passamos pela mãe delas que lhes ensina: “olhe, são os turista...”. O terreiro de candomblé está fechado, então Luíza estaciona na rua sem saída da Engomadeira, onde funciona a Cooperativa Popular de Pães – COOFE. Para chegar aqui, Luíza, 24 anos, não saiu apenas da casa confortável, onde mora na Pituba, e tomou o rumo da Engomadeira. Para chegar a essa cooperativa, o caminho foi bem mais longo. Tudo começou na Faculdade de Administração da Universidade Federal da Bahia, lá no vale do Canela, pertinho do bairro da Graça. — O meu pai é professor aqui nessa faculdade de Administração e no dia que eu

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fiz a minha inscrição no vestibular, que eu fui mostrar para o meu pai, ele falou assim: “Tsc, que burrice você fez.Você devia ter feito Economia”. Mas mesmo assim eu entrei em Administração. Nos primeiros semestres da faculdade eu só entrava, assistia aula e saía. Mas eu sabia que em alguma hora eu ia ter que me envolver em alguma coisa da faculdade. Até que soube das reuniões do Bansol, comecei a participar e me identifiquei com a causa. Hoje em dia é realmente o que eu pretendo continuar a fazer. Já terminei a faculdade e estou fazendo mestrado em Administração e continuo estudando Economia Solidária. — E o seu pai o que achou disso? — Meu pai, como muitas pessoas, não acredita na Economia Solidária como uma alternativa ao capitalismo. Ele acha que não vai ser nunca a Economia Solidária que vai mudar o modo de produção. E então, assim, a gente tem alguns conflitos ideológicos... Subimos as escadas da Faculdade de Administração, de um lado uma parede vermelha, do outro um painel de Bel Borba, o artista plástico baiano que distribui seus mosaicos pelas ruas de Salvador.

A universidade da vida popular ocupa por vezes as salas eruditas da Universidade Federal da Bahia. Um dos espetáculos mais fascinantes que vi nos últimos tempos foram as aulas de língua iorubá... nos bancos universitários sentava-se o povo dos candomblés: mães e pais de santo, ogãs, obás, feitas de múltiplas casas de santo... aquela língua conservada a duras penas pelo povo negro, transformada quase pelo tempo em língua ritual dos cultos afro-baianos, voltava ao saber do povo através da Universidade.
Jorge Amado, op. cit.

certo’”. A gente entra na faculdade com aquela coisa, você é muito formatado, entendeu? Realmente, o que é que eu pensava? Eu queria ser um executivo, porque na verdade eu não tinha a dimensão do que era realmente ser um executivo. Então era aquela imagem da televisão, o cara que deu certo, a pessoa que não vai morrer de fome. Eu não tinha a idéia dos valores do executivo. Eu tinha a imagem do executivo que a mídia me vendia, entendeu? Aí quando você entra na Faculdade de Administração, você descobre que os valores que você entrou pra buscar na faculdade não são aqueles que são da sua natureza. Vicente beija Diogo, que beija Clara, que beija Cléber, que beija Iara, que beija Vagner, que beija Luís, que beija Esdras, que beija Luíza, que beija Ana Paula, que beija Ludmila, que beija Vicente, onde o círculo se fecha. É o beijo coletivo do Bansol. Assim costumam começar e terminar essas reuniões. (Vicente) — Porque eu tenho um carinho muito grande pelo início do projeto Bansol. Tinha estudantes, professores e pela primeira vez na minha vida eu vi todo mundo sentar numa roda e construir um projeto coletivo, sabe? Admiro muito os professores que se permitiram isso. Foi uma das fases mais lindas, eu pensava:“Caramba, isso é Economia Solidária, é possível a gente colocar em prática aquilo que a gente tanto estudou”. (Ludmila) — O professor Genauto França tinha acabado de voltar do doutorado em Paris, com uma tese fresquinha sobre Economia Solidária, a Suzana Moura já estava desenvolvendo a pesquisa do desenvolvimento local, que aí enveredou para a vertente da Economia Solidária, mais Débora Nunes, professora de uma universidade

particular e ainda o professor Niltinho (Nilton Vasconcelos Jr.), que sugeriu a inclusão do pessoal da incubadora tecnológica da Universidade Estadual da Bahia. Junto com esses professores e técnicos estávamos nós, os estudantes.

Salvador, 20 de julho de 2001

Ata de Fundação do Bansol
Nossa primeira reunião foi um sucesso. Mais de dez pessoas compareceram e falaram. Manifestaram seu interesse, empolgação e compromisso com a idéia do Bansol.

(Vicente) — Quando o professor Genauto apareceu, trazendo essa reflexão mais profunda sobre o universo das organizações das empresas, os conflitos entre capital e trabalho e trazendo essa proposta de economia solidária, eu senti pela primeira vez que era possível unir duas coisas aparentemente opostas: economia e solidariedade, empresa e autogestão. Então foi aquilo: “meu Deus, será que isso é verdade?”. Porque a primeira impressão que se tem é que isso é uma loucura, que não faz sentido você juntar essas duas dimensões. E aí você descobre que faz sentido e isso pra mim foi libertador.

(Maiana) — O Bansol foi uma luz no fim do túnel. Eu ficava um pouco desesperada:“poxa, eu vou sair da faculdade, eu vou pra onde depois?”. Eu não quero trabalhar numa empresa e sei lá, ter uma vidinha assim que não faz sentido, que não muda, que não altera. (Vicente) — Quando chega na faculdade você tem um curso que infelizmente não é um curso de Administração, é um curso de administração de empresas capitalistas de mercado. (Esdras) — Porque realmente esse curso de Administração aqui da Federal da Bahia é um curso muito elitista, né? E o trabalho do Bansol não se encaixa no perfil da faculdade, então quando a gente vai apresentar o nosso trabalho em outras instituições, organizações, as pessoas olham para a cara da gente assim e perguntam:“Vocês são de Administração da UFBA?”. Ninguém acredita, é impressionante isso. (Cléber) — No Bansol nós colocamos o foco no ser humano e não na questão do capital. E nós estamos numa escola de gestão que tem valores tradicionais: a busca incessante pelo lucro, a competição, tratar as pessoas como recursos (na verdade são os recursos humanos, não são pessoas), então você aprende a contabilizar tudo isso. Maximizar e minimizar até as motivações e aspirações das pessoas. E com o Bansol a gente foi na contracorrente de tudo isso.

Salvador, 12 de julho 2002 Ata Hoje subvertendo a ordem dos acontecimentos do dia, vou começar a ata pelo final, pois temos uma notícia MARAVILHOSA! O Bansol fez o seu primeiro financiamento!!! A COOFE é a nossa primeira investida!!! E que o fundo se multiplique!!! Parabéns pra gente, para a COOFE e ITCP!!! Bom, mas me recompondo e dando um tempo para vocês fazerem o mesmo, caso alguém tenha caído da cadeira comemorando...

(Cléber) — Eu entrei na faculdade para ser um executivo. Eu ficava brincando com a galera: “Parece que estou vendo, na capa da revista Exame, ‘o preto que deu

Vicente

Luíza, 24 anos

Cléber

Assim. Carro de mão. fóruns. Bel Borba passou por aqui. a maioria compra pelo preço mais acessível. ao fazer o empréstimo para a Cooperativa.A gente volta muito fortalecida desses encontros. de acordo com as regras que estabelecemos no estatuto. se cada cooperado recebesse 200 reais. — E aponta pra Nei. eles vendiam muito pouco.. só a CPMF e a inflação. no muro imenso. na articulação política. com touca de padeiro na cabeça. hoje. nos apresentando Nei. ó. Naquele sol ardente de quase metade do dia. ninguém sai. com a experiência da COOFE e de outros empreendimentos. ou seja. passados dois anos do empréstimo. boa parte do montante para quitar dívidas e o que aconteceu? Eles saldaram essas dívidas e sobrou uma parte para tocarem a produção. mortalidade infantil e desemprego. um carro com pessoas na janela. ( Janice) — O pessoal do Bansol veio aqui conhecer o nosso trabalho. foi quando o Bansol tinha ganhado um prêmio e acreditaram na gente e resolveram investir na nossa cooperativa. Eu acho que se não fossem esses encontros. o Bansol também receberia 200 reais. um menino espera do lado de fora. um homenzinho no topo de uma escada. (Iraci) — Na época que os meninos do Bansol apareceram. sobre Economia Solidária. a gente conseguiu se equilibrar e oferecer mais produtos. onde fica a padaria da COOFE. a gente estava querendo um carro e conseguimos. entrega o saquinho de pães pela janela da casa e aproveita pra pôr em prática uma regra do bom comerciante: “Obrigado. Na época a gente tinha muitas dívidas e estava a ponto de fechar a cooperativa. criada por 27 pessoas da comunidade. antes a gente não fazia a rosca doce. — Esse é o único homem da COOFE — diz Luíza.104 105 Luíza estacionou seu carro em frente à COOFE e agora ninguém entra. Saímos da Engomadeira. Para isso. 10 mil reais. Bel Borba passou por aqui. quando eles podem. a COOFE fez uma cooperativa de pães e no processo eles descobriram que pão é o que menos dá dinheiro em uma padaria. E é isso que nos dá força para poder dominar os conflitos. vamos abrir a cooperativa para mais 22 pessoas da comunidade. colocam cerejas em roscas doces para irem ao forno. né? Nós fazíamos pão e panetone e foi num momento que a gente estava com muita dificuldade por causa do aumento do preço da farinha de trigo. Por exemplo.. Muito pouca gente tem carro por aqui. O grande objetivo é gerar trabalho e renda com a Economia Solidária.Tem cerca de 30 mil habitantes e uma taxa altíssima de desnutrição. teria que trabalhar em diversas frentes. A renda familiar é de um salário mínimo e meio. Então era assim. mas não foi o suficiente. — E quem leva o carro? (Iraci) — Olha o piloto aqui. no consumo. Maria da Conceição. O bairro da Engomadeira é um dos mais pobres de Salvador. um balão. E o que aconteceu? A COOFE não conseguia na verdade gerar um excedente que permitisse que a gente retirasse a nossa parte de cooperado. Janice. eles pagam. a Bansol nunca deixou de acompanhar o trabalho da COOFE. (Esdras) — Na visita que a gente fez à COOFE a gente viu que eles precisavam pagar contas de consumo e comprar matéria-prima. nós resolvemos fazer o empréstimo para a COOFE. sempre percebendo as necessidades de cada etapa. encostado no batente da porta. agora nos últimos tempos a questão tem sido a comercialização. sem rumo certo por Salvador. volte sempre”. a gente não teria sobrevivido até agora. ( Janice) — Agora nós vamos aumentar os postos de trabalho. Porque muitas vezes esses empreendimentos estavam trabalhando com produtos dissociados da realidade da comunidade. assim. pão muitas vezes dá até prejuízo. até hoje. Foi aí que percebemos que a questão das finanças era muito limitante e que se a gente quisesse realmente fomentar a Economia Solidária. a gente viu que muitas vezes a gente estava só adiando um problema que poderia voltar a acontecer lá na frente. no processo educativo. na produção. Emprestamos 2. Mas agora. O pãozinho aqui custa dez centavos. o Bansol também receberia a sua parte. em volta de uma mesa. o que dá lucro são os utensílios que eles vendem nas padarias. Na avenida do Contorno. E tudo que a gente vive é um processo. (Cléber) — Emprestamos os recursos para a COOFE. Nei entra em cena. (Iara) — O empréstimo tinha uma taxa que nós denominamos taxa de retribuição solidária. né? Para oferecer os pães no final da tarde pelas ruas da comunidade. — Ô Nei. a gente se fortalece para o grupo. o Bansol recebeu de volta a metade do montante emprestado. um tocador de sax. piranhas com dentes afiados. eu tô sempre aqui. (Vicente) — Aí a gente pensou:“será que o crédito é a melhor forma da gente apoiar esses projetos?”. Então quando nós ganhamos o prêmio da Fenead (Federação Nacional dos Estudantes de Administração) e recebemos a primeira parte. Num ponto de ônibus. Então. os cooperados também precisavam retirar algum dinheiro para se manter. cada vez que houvesse o excedente a ser distribuído entre os cooperados. depois do empréstimo do Bansol. Além disso.Vem sabendo que a gente tem que lutar para descobrir os caminhos para resolver cada problema. em todo o Brasil. os integrantes da Bansol fizeram uma pesquisa de mercado sobre o potencial de compra da comunidade e as possibilidades de distribuir os produtos da cooperativa nas padarias do bairro. nas padarias comuns o preço é 15 centavos. ( Janice) — Toda a comunidade compra da gente. O bairro já tinha muitas padarias.457 reais. Nos últimos três anos. não podemos desistir. um homem corre na parede.Temos esses 22 postos por causa de um projeto da Petrobras onde fomos incluídos. o Bansol. se tornava um dos cooperados. porque eles produziam muito pouco. No nosso empréstimo não existia juros. O bairro surgiu de uma ocupação num terreno acidentado. naquela rua sem saída. apenas sete tocam o projeto. No começo a necessidade era a estruturação. morcegos no muro. Então ficou assim. nas finanças. ( Janice) — A gente cresce como pessoa. a Bansol costuma estimular as pessoas das cooperativas para participar de encontros. por exemplo.Vânia e Jô. de onde se avista a Baía de Todos os Santos. As mulheres Iraci. Debaixo de um viaduto. A Cooperativa existe desde 99. um . feiras.

A gente entrou em contato com o Fórum de Combate à Violência. Pensar em quem você está beneficiando com a sua compra. Numa enchente que teve aqui em 1996/97.Aí você começa a ter uma outra postura diante dessas notícias e diante da sociedade que a gente está construindo. acena para sair na foto.106 107 helicóptero. o principal foco é o consumo. você tinha uma ou duas pessoas que costumavam passar fome. vamos dizer assim. tudo orgânico. eu moro ali. o Bansol trouxe para a minha vida a preocupação com o consumo ético e solidário. para pelo menos fazer alguma coisa. dá pra ver os prédios e as casas antigas da Graça. E aí o pessoal (Esdras) — A gente acredita que para promover o desenvolvimento. de distribuição através da escolha do que comprar.” Sabe. no grande centro urbano. chocam-se. no pátio da Faculdade de Administração. a gente está com um projeto lá de fazer um mapeamento. vocês estão sendo visados”. em cima de outra laje. uma horta comunitária. onde fica a Faculdade. em cima de outra laje. E nesse mapeamento a gente descobriu que. entregando coentro orgânico. uma laje em cima de uma casa. (Ludmila) — A gente teve que parar porque teve um grupo de extermínio por lá. Que a gente pode modificar as relações de consumo. gaivotas sem fim.. se investir em produção se as próprias pessoas que moram lá não têm condições de consumir. do vale do Canela. fechamos questão que não dá para desenvolver um trabalho comunitário que não consegue ter uma continuidade. feitos em mosaicos. Eles tinham . das faculdades. porque as pessoas não tinham uma rede de ligações e aí o tráfico entrou e tomou conta. não sai na mídia. um dos meninos que era amigo do pessoal da cooperativa foi morto. (Vicente) — Daqui de baixo. Ela fica próxima. Seguimos Vicente até o Gol branco. Encontrará uma arte essencialmente política. O conservador e o revolucionário coexistem no espírito da cidade. numa arte de rua. próxima de bairros nobres. eu descobri aqui no Bansol que compra é poder. E o que se descobriu é que. boné e roupa suja de graxa. porque estava ficando muito perigoso. eu estou tentando aos poucos transformar isso em mim. Paramos num terreno vazio entre muros.. “Não.A indústria americana? A exploração da mão-de-obra de países pobres? Ou um grupo de pessoas da sua comunidade? (Vicente) — Tem um projeto que a gente apoiava que visava à implementação da COOPAVV Cooperativa Popular de Alimentação de Vila Verde. perto de Itapoã. por exemplo. morreu mais um”. Isso aqui é o cartão-postal de Salvador. acabar com a pobreza. cit. por inteiro. ligada ao cotidiano. uma arte a serviço do povo. senão a gente ia só ver na televisão e pensar: “Ah. Uma velha gameleira entorta seu tronco. uma horta comunitária e um ligava pra gente dizendo: “Ó. a horta está até funcionando. Então a gente crê e define o consumo como um ato político. Jorge Amado. (Clara) — Em termos de revolução pessoal. É periferia da periferia. eu quero uma água de coco. onde o índice de violência é alto. de cada dez casas. Retratos do cotidiano do século 20. É uma comunidade interessante. no seu retrato de casas empilhadas. Convive todo mundo ali. do trajeto do Carnaval. Eu vou levar vocês até o Alto das Pombas.” “E uma Coca-Cola?” “Também não. estão até com delivery. assim. Aos 24 anos. É um lugar para onde foram pessoas de vários pontos de Salvador. para de lá enxergar o Alto das Pombas. Um mecânico do outro lado da rua. restaurante comunitário. e atrás dos prédios tem o Calabar e o Alto das Pombas. Isso aqui. A gente conseguiu montar com eles um prato de quentinha no valor de um real. culturas diferenciadas e botou tudo nesse lugar que é o alto de uma colina. não entre aqui de carro. a prefeitura pegou famílias de diferentes lugares. não vai querer uma cerveja?”. são quase palpáveis no seu contraste. Bel Borba passou por aqui. (Luíza) — Hoje nós nos afastamos do projeto por conta da violência.violência”. numa comunidade periférica. dentre o total de moradores da comunidade. um banco comunitário. é essa orla aqui de Ondina. desde os tempos longínquos de Gregório de Matos até os dias de hoje. o índice de tráfico de drogas é alto. . Ele abre o porta-malas e guarda sua mochila pesada de estudante. para que eles atendessem a comunidade. não venha. No muro azul alguém escreveu com letras miúdas. E o que aconteceu? Ficou altamente vulnerável. Subimos pelo Calabar. Não adianta. apenas poucas pessoas tinham condições de comprar aquela quentinha. mas o índice de fome também é muito alto. pra não chamar muita atenção: “chega d. do Carnaval Baiano. (Cléber) — Vila Verde é um lugar de disputa de tráfico de drogas e. fundem-se por vezes. em cima de outra casa. op. assim. Inclusive foi a própria líder comunitária que pediu pra gente dar um tempo. um avião e gaivotas. terminou Administração e se prepara para o mestrado. eu estava com um pessoal num barzinho e o pessoal: “E aí Clarinha. Uma das maiores dificuldades da comunidade era a fome e era uma cooperativa de produção de alimentos. Fim de semana. porque a gente sabe que quem define a parada hoje é o consumo. do que vestir.

o questionário a ser feito. que beija Adriana. na comunidade. o encontro termina da mesma forma. Jorge Amado. que começam a chegar. já chega com um projeto pronto. Mariana beija Mosar que beija Josimar que beija Vanessa. Rua do Cabeça. que beija Claudenice. nós fomos os sujeitos. E assim. op. que escorre das igrejas dos santos negros. cit. que beija Vicente. Aqui no Alto das Pombas o critério que a gente está querendo adotar para a escolha do crédito é o vizinho. que beija Paulo. eles produziam e a comunidade consumia. Ladeira do Tabuão. Crianças brincam de correr. A gente foi descobrindo isso. enfim. para descobrir o potencial da comunidade. Porque já mudou a nossa mentalidade. O Salão Modelito com a placa despencando passa. vai receber o crédito. E aí nós vamos passar a discutir quem. Oxóssi. Não nasceu de repente.. com uma linha de microcrédito. como o Banco Palmas. É uma beleza que escorre como óleo do casario e das pedras negras de certas ruas. as pessoas desempregadas. aguardando os fregueses do Alto das Pombas. vão se acendendo. os nomes como poemas: Rua dos Quinze Mistérios. esculpidos em madeira e ferro. porque ninguém conhece melhor a pessoa do que o vizinho dela. Agora a gente vê quantas costureiras tem. . — Aqui é a estrada do Calabar.. porque aqui na nossa comunidade ninguém passa fome. nós fizemos oficinas de capacitação e foram os jovens da comunidade que fizeram esse trabalho. A comunidade é objeto. a infra-estrutura. marceneiro. Passa um comércio pobre de barraquinhas pelas calçadas. No largo do Pelourinho eles eram castigados e das janelas dos sobradões imensos as frágeis iaiás espiavam os corpos nus cortados à chibata. E quando a gente elaborou. porque agora a gente conhece o nosso bairro. — A gente vai passar agora no restaurante da Dadá. Representando o Bansol vieram Esdras e Vicente. Porque quando eles chegaram a gente achava que ia ser a mesma coisa. vizinho sabe de tudo isso. não precisa fazer essas perguntas sobre fome. que beija Mariana. vizinha. (Esdras) — Uma coisa muito importante nesse projeto é que a gente conseguiu incluir a comunidade em todo o processo. a gente foi descobrindo a profissão delas.. todo o comércio local. por isso fizemos o mapeamento do consumo local. a barraca de doces.108 109 É uma beleza antiga. Para a gente o resultado já aconteceu. a gente sabe que tem 200 baianas de acarajé. como se diz.A gente vai fortalecer o pastel do seu Luís. E numa casa aqui no alto. A Universidade. diz Vicente. a gente já tem outra consciência hoje. que beija Elisângela. é um caso de objeto-sujeito. E agora no decorrer do processo. de onde se avistam os prédios de Ondina ao longe. mas na comunidade se consome o dobro de acarajés que elas produzem e quem sabe não seria uma das linhas de crédito financiar uma outra tabuleira de acarajé? Lá no Palmas a gente viu uma empresa de produtos de limpeza. o Salão Toque de Beleza também. (Mariana) — O conhecimento que a gente adquiriu dentro desse processo eu acho que é maior do que qualquer outro projeto de você palpar mesmo. Numa porta aberta se lê. junto com eles. o primeiro restaurante da Dadá foi aqui. não é? Se é brigão. que consumir aqui vai fazer o dinheiro rodar aqui mesmo e que todo mundo da comunidade vai ganhar com isso. mas a nossa idéia é atingir também outras metas. Então hoje a gente está consciente e procuramos conscientizar as outras pessoas que elas tem que consumir dentro do próprio bairro. não”. (Mariana) — Eu acho que o mapeamento veio para mudar a gente. o saneamento básico. E dentro do Rodrigo e Mosar Mariana e Rodrigo Incluir Sim. que comanda a varíola. que beija Esdras. Um homem passa levando um carrinho de mão e alguém grita: “Oh Damasceno!”. sólida e envolvente a dessa cidade. que beija Viviane. quando chega na comunidade. normalmente se contrata um instituto de pesquisa para fazer um retrato da comunidade. Quem vai avaliar se a pessoa deve ter direito ao crédito é o vizinho. o dia perdendo a cor. eles descobriram que muita gente da comunidade passa fome e eles nem imaginavam. como o que está em baixo é igual ao que está em cima. em Fortaleza. Largo das Sete Portas. bem grande: “use o banheiro”. que a gente tem o poder de consumo. Ele interrompe a caminhada pra conversar com o amigo... a barraquinha de doce aí vizinha e. Por exemplo. a bravia Yansã e o tétrico Omolu. a barraca de pastel do seu Luiz. (Paulo) — A agência de crédito será a base. Xangô. É. e a gente entrando na casa da pessoa pra fazer a pesquisa viu realmente o que elas passam.. mulheres conversam em cadeiras na calçada. em casa. Exu amedontrador. foi construída lentamente e está amassada no sangue dos escravos. se dá calote. Mirante dos Aflitos. e isso gerava renda para seis jovens. o desemprego que assola as famílias. Ogum. ela tem que fazer essa rede. (Adriana) — Nós estamos perto das pessoas.A gente tem que ver também o poder de consumo que a gente tem. aqui no Alto das Pombas. a luz elétrica tomando conta da paisagem. nos encontramos com o pessoal da comunidade que participa do projeto Incluir Sim. no Alto das Pombas. E naquela luz azulada das lâmpadas fluorescentes. Por exemplo. Passa uma mulher com uma trouxa de roupas equilibrada na cabeça. mas ao mesmo tempo distantes da intimidade delas. porque é a gente que faz as ações. ruas estreitas.. a gente que construiu esse projeto de inclusão social dentro da perspectiva da Economia Solidária. a violência. a alimentação. os jovens disseram:“Não. E vamos saindo do Calabar. (Mosar) — A gente pensa em criar um banco. como lá embaixo na Faculdade de Administração. pintor.

Então vamos ser realistas e dar essa oportunidade a outros estudantes.. Essa iniciativa é viável? É a organização que queremos.110 111 Origens e Propostas A Bansol nasceu em 2001 como uma idéia conjunta dos alunos da Faculdade de Administração da Universidade Federal da Bahia e professores da mesma universidade. além de professores do ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares) da Uneb (Universidade do Estado da Bahia). pesquisa e extensão na Escola de Administração da UFBA. que siga a mesma lógica e. precisamos nos sustentar. para viabilizar atividades produtivas de iniciativa popular. em que se aprende à medida que nos comprometemos com uma idéia que aos poucos se concretiza. E a gente vai continuar na causa em outros espaços. Queremos uma organização que não vise o lucro. Primeiro foi “banco solidário”. (Cléber) — Porque o medo da gente foi o seguinte: precisar começar a usar o Bansol para atender as nossas conveniências. E daí nasceu um manifesto. A Bansol passou a ser uma associação acadêmica que desenvolve atividades curriculares de ensino. que passavam por alguma crise. a princípio. Esse projeto era... Uma instituição cuja preocupação central seja a manutenção do fundo de empréstimo e que mesmo que vise a sua ampliação. o faça através de outras iniciativas que . fazendo uso privado do espaço público. ajudando o Bansol o quanto for possível. Assim nasceu a Bansol. ele se desliga da Bansol. mas sim. A idéia era criar um projeto para participar do prêmio Fenead (Federação Nacional dos Estudantes de Administração).. Eles ganharam o prêmio (20 mil reais) e passaram a fazer empréstimos a cooperativas já existentes. Isso significa que. Ficamos com medo de nos tornarmos mais uma coisa qualquer que está dentro da universidade pública. por conseqüência. Em seguida a gente passou para “finanças solidárias”. É o que entendemos como uma instituição que forneça crédito barato. depois do empréstimo da COOFE: será que dinheiro é o principal? E a gente concluiu que não. até que a gente chegou naquela questão.” A visão definida pelo grupo prevê tornar o Bansol uma associação sustentável reconhecida e integrada a uma rede de Economia Solidária. Na verdade pensamos o seguinte: nós. e o Bansol tem que se renovar. aquela coisa do desapego.. foi aí que a gente resolveu deixar de ser um banco solidário. MANIFESTO POR UMA INICIATIVA VERDADEIRAMENTE SOLIDÁRIA não seja a aplicação de juros de mercado. Não é justo. assim que o aluno conclui a faculdade. Como se faz uma organização assim? É uma iniciativa em construção. Para isso precisamos de todos. (Luíza) — A Bansol teve três denominações..A Universidade tem um compromisso social que não é este. como profissionais. um concurso de projetos sociais. e da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UNIFACS. finanças solidárias e passar a ser uma associação de fomento à economia solidária. “Queremos uma proposta diferente. apoiar iniciativas solidárias. reproduza injustas relações. ou taxas próximas às que ali se praticam. e a gente logo viu que não ia poder ser porque ia ter problemas com o Banco Central. não uma organização que sirva de ponte para o sistema financeiro já instituído. construir um banco solidário que fornecesse crédito barato para empreendimentos solidários. é a que nos interessa construir.

74 75 ALIANÇA COM O ADOLESCENTE .

que leva a gente até a nossa unidade de criação de tilápias. tenho 19 anos. algodão só no nome. nessa geografia.76 77 Os novos semeadores strada do Algodão. mas não é suficiente para resolver a questão da seca por estas paragens. Aqui é onde todas as famílias do sítio Pereira dos Barbosa tiram as suas rendas. as árvores estão raras e ralas. Estamos chegando na região da bacia do médio Jaguaribe. rareando aqui e ali. Milhares de pessoas morrem de fome. no governo do presidente Juscelino Kubitschek. Ao longe já se vêem as rochas de Quixadá. Hoje. (Margleuda) — Eu sou Margleuda. ela precisa do oco das árvores para fazer seu ninho e com tanto pasto seco por aí. como as plantas da caatinga. nem de fome. seja a piranha. mas o imperador mandou uma equipe estudar o local onde poderia ser feita uma barragem. E a história como “a seca do Ceará”. porque o açude de Orós tem muito peixe. nos lugares onde os rios são secos e as nuvens no céu não são sinal de chuva. imensas no seu mistério. Moro no sítio Pereira dos Barbosa. Jandaia por aqui não se vê mais. A coroa está inteira no Museu de Petrópolis. de doenças. Foi aí que D. essa palmeira de folhas plissadas. no Rio de Janeiro. o açude vingou. A seca é imensa e atinge principalmente o Ceará. a que nunca falta na nossa mesa. ou outros peixes. nos tempos em que José de Alencar escreveu Iracema. onde cantava a jandaia. Hoje. até que em 1956. o açude de Orós ainda é um oásis num deserto. 1877. uma abertura na serra. é onde nasci. nem de sede”. Assim surgiu o boqueirão dos Orós. entrou para . aqui é o meu lugar. um grande rio. Essa beleza é o açude de Orós. desde que não morra mais nenhum cearense. de sede. Depois virão as montanhas de Quixeramobim. Até que a praga do bicudo veio e acabou com a plantação. na estrada. Não se venderam os brilhantes. E aqui é a nossa canoa. A carnaúba ainda se vê.Assim chamada em lembrança aos tempos de riqueza do Ceará com o algodão. Estamos entrando no semi-árido do Ceará. conhecido como o mais seco do mundo. Lá em cima fica a minha casa. a República se instalou e de presidente para presidente a construção do açude de Orós foi se adiando. Pedro II disse: “Venda-se o último brilhante da minha coroa. O Império acabou.

E é Margleuda quem fala. mas aí Deus é maravilhoso. Tem nome a confecção? — Tem sim. Margleuda e Jaqueline levam a ração para os peixes. nós já estamos quase com os pés no chão. não tem como eu fazer uma faculdade. vamos comprar mais canoas. o museu da Meirismar – com a história do açude e utensílios da tribo dos Icós e dos Quixelôs. enquanto rema: — A princípio não sabíamos se ia dar certo.”. meu peito não cabe de tanta felicidade.. E a canoa? ( Jaqueline) — Já compramos com o dinheiro do nosso cultivo. Param o barco ali. O Instituto daqui a dois anos vai ser só o nosso parceiro. Assim. nas festas. Margleuda e Jaqueline Dentro do açude. Margleuda terminou o segundo grau no ano passado. No primeiro cultivo teve uma mortandade enorme de peixes e foi.. uma jaçanã pousa no cercado. No alto de uma colina. Com 22 mil habitantes. eu não vou ter com que cobrir esse dinheiro”. 17 anos . é CCBL: Cícera Confecções de Bonecas e Lembrancinhas. Nós criamos nossa própria identidade. porque assim não vai ser uma coisa só nossa. um barco passa ao longe. onde o açude tem dez metros de profundidade. esse tipo de coisa. coletes. Foi a Aliança com o Adolescente.78 79 Margleuda e Jaqueline remam. A minha mãe é agente de saúde. Sorrisos. complementar e específico. na casa de barro onde moram. mais gaiolas. “olha lá a menina do peixe. porque o açude de Orós estava seco. assim. junto com um trabalho de formação que dura 13 meses e é dividido em três etapas: básico.. ainda eu penso. debates e a comunidade já está ajudando em peso.” Na beira do açude de Orós. mas futuramente com essa renda aqui dos peixes eu sonho fazer faculdade de fisioterapia. uma comunidade distante daqui. (Cícera) — Eu recebi 591 reais da Aliança. No começo não tivemos muito apoio das nossas famílias.. Isso de ganhar credibilidade dentro da comunidade acho que era o desafio maior. aí eu comecei realmente a vender em dezembro.. comércio pouco e muitas ladeiras que ajudam na visão do açude. a casa do cantor Fagner. tem a máquina que já era minha. né? Quase que já dupliquei o financiamento. e de canoa nos levam até o tanque rede. e em pé na canoa alimentam as tilápias. As meninas (são cinco nesse projeto atualmente) receberam um empréstimo para comprar todo o material necessário: gaiolas. ainda eu imagino. numa casa sem reboco. No caminho conhecemos seus avós. os tapuias que viviam por aqui. Assim que viram as costas. que Margleuda costuma atravessar a nado. mas a vontade era tanta. uma riqueza como o açude de Orós. redes. Meu financiamento saiu em setembro. Daqui a dois anos começamos a pagar o Instituto e se Deus quiser vamos nos tornar independentes. Então é muito gratificante você não precisar ter de sair da sua cidade atrás de uma renda. na esperança de que sobre algum peixe pro seu bico. “Fale alto. Foi então que começamos a nos dedicar de corpo e alma. ninguém nunca viu mulher criando peixe. porque dentro de poucos minutos estava a comunidade em peso ajudando a gente a salvar os peixes. a gente passa na rua. meu pai trabalha na agricultura e na pesca. (Margleuda) — Nós agora somos referência na comunidade.. ração. “Não vou fazer uma faculdade porque infelizmente a renda é pouca.. Saímos do açude e subimos o caminho até a casa de Margleuda onde a mãe dela nos serviu um suco delicioso de manga com goiaba. no meio do açude. aí quando a gente decidiu criar peixe em tanque rede foi pra ir criar em Santarém... ainda mais adolescente. que financiou o projeto. Estamos fazendo palestras. — Então a minha vontade — continua Margleuda — era criar alternativas sustentáveis na minha comunidade. tanta. alevinos. caixas e tô sempre me aperfeiçoando. através do Instituto Elo Amigo. acenos. faz bonecas. Minha mãe ficou com medo quando recebi o financiamento da Aliança para tocar o meu negócio das bonecas. Quando me chamam de menina do peixe me sinto orgulhosa. Cícera. Cícera. em 15 dias o açude Orós encheu e pudemos fazer o trabalho aqui mesmo. É o meio de transporte de quem vive nessas comunidades nas margens do açude.. já tenho bastante material pra trabalhar. Orós é também a padaria Esmeralda. a responsabilidade era enorme. surpreendente. se você tem um potencial. que a gente não olhava a dificuldade por conta da distância. E eu fico fazendo as bonecas. (mãe) — Eu só falava assim: “Cícera não pegue esse dinheiro. minha avó é mouca”. O barco vai no rumo da cidade de Orós. onde criam os peixes para vender. diz Margleuda. menina magrinha de 17 anos.

Quando vai chover faz aquela barra bonita no nascente. Eu tenho muita vontade de crescer. duvidava. muita dificuldade. Eu acho corajoso quem enfrenta a agricultura. Lá do fundo do quintal. Eu vejo toda a geração da nossa família aqui no sítio. Os índices de Desenvolvimento Humano deixam a cidade de Jucás no limite entre a linha da pobreza e a da miséria.580. porque quando não tem nuvem. mas é só passagem de nevoeiro. agora em vez de comprar essas florzinhas miúdas pra enfeitar as bonecas. não podia perder. Na sexta-feira tinha apresentação de teatro na praça de Orós. do arroz brotando. não é?”. Jornalismo. eu era bordadeira. (mãe) — O dinheiro pra devolver ela já está guardando.. O terreno com degraus.. num sítio chamado Angicos. Sábado e domingo oficinas na Aliança. ainda com gosto de árvore e paisagem. Eu gosto de morar no campo. De vez em quando. eu tenho orgulho. dona Rosa. azulzinho. generosa na sua sombra ventilosa. Cícera terminou o colegial e pretende fazer. o adubo da terra. Então abri mão do emprego e não me arrependi. No começo não queria. eles se sentem responsáveis pela vida das suas comunidades. marca a casa de taipa onde vivem seu Antonio. para as serventias da casa. a filha Ana Nere e mais três irmãs. grandes quadrados verdinhos. também está pronto.139. agoa e com oito ou dez dias a gente vira e já tá o estrume feito. Aqui no nosso município nem uma secretaria de agricultura não tem. o adubo é orgânico que a gente usa. grandes pastos ressecados com árvores redondas e solitárias para dar abrigo ao gado. O que eu percebo é que os adolescentes do Elo Amigo não são acomodados. não quero trabalhar para os outros. não. de anunciação. avós. sou eu quem faz as florzinhas. vegetação branca e cinza da caatinga. acompanhando o leito do rio Jaguaribe. porque não tem investimento por parte dos governos.416. escuras. trovejando. família de Ana Nere . Meu objetivo é trabalhar com comunicação. Aí Ana começou a trabalhar no projeto Aliança com o Adolescente e através de Ana eu descobri a agricultura ecológica. Na paisagem do caminho. meus pais. o pai de Cícera vem com um caldeirão cheinho de serigüela. Cinquenta e seis porcento de todos os pobres do Ceará vivem na zona rural. chapéus. O céu é de nuvens grandes. Eu abandonei um emprego para estar na Aliança. É muito lindo.A gente gosta quando fica esse nevoeiro. Quando me falta e eu preciso comprar na cidade pago cem. Daqui a pouco vem o vento. de tanto calor. tirada do pé. tenho muito orgulho. bisavós. aqui na minha plantação. né? E ficava em reunião direto na Aliança. os frutos na mais perfeita circunferência. vamos na direção de Jucás. essa menina é importante demais”. quando sobra e eu quero vender pra ganhar um dinheirinho extra. — O tempo tá todo bonito assim. (pai) — Antigamente eu trabalhava com veneno. todos passando muito sofrimento. frutinha madura. Tomamos nosso rumo: volteamos o açude de Orós e. E aí o que aconteceu? Eu estudava à tarde. Uma mangueira imensa carregada de fartura e admiração. pega o bagaço bota numa roça de banana dessas daí. — É. A cidade de Jucás tem um PIB per capita de R$ 1. Das minhas quatro filhas nenhuma trabalhou na agricultura. eu quero administrar o meu próprio negócio. porque quando a gente não conhece uma coisa a gente se escusa de abraçar. né? Eu sempre falo pra ela:“Cícera. não — diz seu Antonio. Eu planto o arroz. aí minhas colegas da fábrica só me chamavam de importante: “só vive de reunião. estão quase no ponto de virar cuia.80 81 Fiz um curso de biscuit. a cidade de Fortaleza R$ 4. Foi a partir da minha vontade. eu como atriz não podia perder. casinhas de pau-a-pique. não é chuva. tirar a minha miniconfecção daqui de dentro do meu quarto e ter um espaço para eu poder mostrar mais a fundo o meu trabalho e dar oportunidade para outras pessoas de aprenderem aquilo que eu aprendi na Aliança. de um dia ter a minha confecção. não dá nem pra andar por aí. até 120 reais pelo mesmo saco. de forma alguma. (Ana Nere) — O Instituto Elo Amigo conseguiu mudar completamente minha vida e isso também porque eu quis. E eu quero continuar morando no campo. não é? E eu sou o tipo de pessoa que sou mais aquela parte que eu vejo. pra quando chegar o dia de devolver já está tudo lá. também não podia perder. Eu fui vítima de embriaguez com veneno. fazer faculdade de Letras. (Ana Nere) — De início entrei no projeto por uma questão mais de poder ajudar meu pai. mas ela só dá pra gente viver. É aqui o nosso destino. para a plantação do arroz. — Tá com nove mês que não chove por aqui. (pai) — Ela tá certa. Fonte: IBGE. você pega o seu dinheirinho e vai ajuntando. Só falta a chuva chegar pra molhar a terra. de tanto sol.00. A árvore do coité está carregada. Eu dou muito valor à agricultura. carrega as nuvens e fica azulzinho. alguma coisa assim. mas não quero ser agricultora. vem o atravessador e compra de mim por 20 reais o saco. Eu não quero isso pra mim. aí chegou a Aliança. faço os vestidos. um dia. Obra da natureza.00. Eu trabalhava numa fábrica. Hoje eu sou um referencial muito grande dentro da minha comunidade. não dá pra conseguir alguma coisa na vida. relampejando. ao contrário de muitos eu não tenho vergonha. aí a barra começa a subir e começa a desfiar a chuva.00 e a cidade de São Paulo R$ 13. a gente acha mais bonito do que o céu azul. sou educadora júnior de outros projetos dentro do Instituto e ajudo a formar jovens na construção de projetos sociais. Mas depois fui aceitando e hoje na minha plantação não tem nada de uréia. na mais tenra idade. faculdade de administração. nasci e me criei dentro dela.

M. ogia. Ela conserva todos os livros desde a quinta série. o fator interferente mais grave reside nas irregularidades climáticas. os currais políticos. István Major. na reunião dos “molequinho buchudo” lá do sítio. E quando a minha amiga Solange falou que ela não quer ser só mais uma na multidão. No dia seguinte. Porque quando você trabalha com adolescentes e cada um consegue descobrir o seu valor.82 83 .Tudo muito organizado e bem cuidado. Outra coisa que você não pode fazer é pegar no rabinho do burrego quando ele nasce. Talvez não tenha alcançado o sítio de seu Antonio. A. Paulo Freire e tudo sobre política que cair nas suas mãos. e Rodrigo Castro. Eles não são só mais um na multidão.) entre as chuvas habituais de final e de começo de ano. 2004.. a mais alta temperatura média anual. entendeu? Pra você ver que nada é impossível na vida.eu quer . você se sente muito pequeno no mundo. Quarto de Aderlúcia. se você pegar. Nos despedimos da família. apresentam muitas características extremas: a mais alta radiação solar. 2003. carregando a espingarda.. pilhas de livros em cima de dois banquinhos. Uma pequena boiada passa apressada. mobilizando moradores e jovens para atividades ambientais e esportivas. um de seus músicos preferidos e vai falando. as caatingas semi-áridas. enquanto ele canta. acostumados que estão com essa iguaria nos seus pratos. Observações sobre as secas no Ceará. se intercalam trágicos anos de secas prolongadas. A cidade de Quixelô não é muito diferente de Jucás. Ela participa do projeto Adolescentes Solidários da Aliança com o Adolescente. Aderlúcia tem 21 anos. um ela enjeita. Açude ao fundo. Fonte: IBGE. Duas cabras e dois cabritos vêm correndo pela estrada fugindo da chuva. — Vai desculpando aí. — Quando ele fala assim “as ilusões estão todas perdidas. aí ela não quer mais o filho. mora com o pai e três irmãos no sítio dos Barroso. põe pra tocar um CD de Cazuza. contanto que tenha vontade mesmo. na beira de um dos lados do açude de Orós.. na estação seca. Um homem passa na sua bicicleta. Nacional. pois também está. Os domínios de natureza no Brasil. Vamos para o sítio dos Barroso. na frente da casa. vem para nos oferecer a água refrescante do coco verde. um carneirinho marrom de dois meses de idade vai atrás. para que você não ameace o poder. Seu Antonio vem do quintal com seis cocos na mão. A chuva espantou caça e caçador. periódicas que assolam o espaço social dos sertões secos (. aquilo de “ou você faz ou morre”. em termos de desenvolvimento humano. Aziz Ab’ Sáber. de maio a janeiro. vacas deitadas na paisagem. A voz de Cazuza sai forte pela janela do quarto de Aderlúcia: o uma prá viver . toda ali. Para o cotidiano do sertanejo e sobrevivência de sua família. — ainda diz seu Antonio. no sentido da cidade de Iguatu. Onde Aderlúcia vai. Typ. onde estamos hospedados. atrás de trabalho ou estudo nas cidades grandes. Mas ela não aceitou.. — Aí assim. Vamos tomar nosso rumo outra vez. que “entrava” também os meninos buchudos. A carne macia da fruta já tem outros donos: os gatos da casa já estão de olho. além dos livros que gosta de ler agora: Rubem Alves. qualquer coisa. A natureza semi-árida desta área resulta principalmente da predominância de massas de ar estáveis empurradas para sudeste pelos ventos alísios. a gente ver o sertão reverdecer. “É” todos os meninos que estão aqui. — As ovelhas às vezes dá cria de dois. . Luís Gonzaga Sales Jr. o que a gente vive politicamente na microrregião é mais ou menos isso.. a chuva pouca foi suficiente. Na falta de estantes. Aves da caatinga. então quando ela não tem leite suficiente. para nos dias seguintes. os meus sonhos foram todos vendidos”. a gente começou de adolescente. Ideol viver ogia. Não existe a política pública. enquanto acena pra nossa despedida. eles são o diferencial na multidão. entre irmãos e primos ou na comunidade. todos os meninos da nossa região.. você coloca nessas pessoas uma valorização humana. de Macedo. o quadro político daqui é muito difícil. você vai conquistando o seu espaço. O que pode significar a saída dos moradores. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha. a mãe sente que o cheiro é diferente do dela. encadeiam e arrastam todos os vapores aquosos e deixam o Ceará na mais límpida e serena calmaria. — É burreguinho enjeitado. aí chega assim.. Foi uma aguada passageira que caiu em Iguatu. . É uma líder natural. Enquanto fala de política. eles são aqueles que dão o brilho. onde é líder comunitária. Censo 2002. De qualquer forma. pasto seco. Nosso destino agora é Quixelô. seja na família. existe a politicagem partidária. São Paulo: Ateliê Editorial. o céu amanhece ameaçador e uma chuva grossa cai. os ventos regulares se elevam e em sua marcha de 100 a 120 km por hora. Nas últimas eleições. Aderlúcia foi convidada por políticos do PSDB da sua região para ser candidata a vereadora.. Tanto Quixelô quanto Orós registraram uma queda no crescimento da população. Voltamos pela mesma estrada.Tudo que você quiser fazer você pode conseguir.. 1878. porque se você for analisar. as mais baixas taxas de umidade relativa.. eu dou leite pra ele na mamadeira — diz Aderlúcia. não é só ela que é desse jeito. faz faculdade de Educação Física. Assim as pessoas tentam sempre diminuir você.e ma prá Ideol u quero u . Diz que não tem nenhum partido e que no futuro pretende criar um. quando comparadas a outras formações naturais brasileiras. isto é. na linha entre a pobreza e a miséria..

entre a natureza toda verde. só indo pra São Paulo.. . de nome Angicos.84 85 Do lado de fora. tchuc. Nós passamos direto. (mãe) — Essa menina mudou demais. Mas e na hora de vender? (mãe) — Tem uns que eu não vendo. Meu Ma racatu verdadeiro. vão vir 50 gaiolas. No terreiro. os bichinho que são mais novinho.. lava roupas. Gigante Negro e Caipirão ciscam no terreiro. lutando com eles e a gente olha tá tudo lindinho ali conversando.. nem pro Rio. conversava um pouco comigo. a ONG parceira da Aliança com o Adolescente na formação de jovens agentes de desenvolvimento local. com outros jovens da comunidade. de chapéu. igual quando a gente tá com os filhos da gente. — Pode-se dizer que eu sou uma microempresária. A mãe de Rubeane vai buscá-los. não quero ir pra São Paulo. 17 anos Rubeane e sua mãe nossas mãos conseguir um projeto produtivo para este lado do Ceará. se alimentando e a gente se sente feliz. ande. Rubeane e o pai enfileiram as cadeiras para a nossa chegada. — Eu gosto de dizer que eu sou empresária — diz Rubeane. não. vixe. La Belle Rouge. Sete horas da manhã. que pode ser um passo para a microrregião do médio Jaguaribe.. Às vezes tem gente que compra e já quer que eu entregue morta. já perto das águas do açude. Eu pretendo continuar meus projetos por aqui. naquela água cheia de nuvens e de céu. o pai e a mãe nos esperam na sala.. Zona da Mata. O cuidado que a gente tem com os filho da gente é o cuidado com a criação também. No momento em que a massa de ar tropical atlântica (incluindo a atuação dos ventos alísios) tem baixa condição de penetrar de leste para oeste.Vamos para Pernambuco. outras três. sede do Serta. tchuc. eu falo: “Não belisca!”. da lu ta da paz. não é? É do jeito dos filho da gente. uma fila de desempregados espera uma senha para tentar conseguir um trabalho. no largo do açude. mas me dói demais (. A estrada do algodão nos trouxe. São tudo graúda assim por conta da ração. corre atrás. de jeito nenhum. É a Nação Sementeira que passa cantando o Maracatu pelo Campo da Sementeira. vem. Dia claro. era “bença pai” e mais nada. Glória do Goitá. cit. como todo mundo.. seis cabras olham fixamente para a janela... h eran ç aracatu é guer rei ro. ande bichinha. porque trabalho em três eixos. quando a noite começa a vingar. eu respondo:“ah. uma mulher. pelo menos.. Eu me considero uma empresária. eles voltam ligeiros quando percebem que é hora do almoço. um bica o outro. de tão limpo. gu Meu M errei ro ad os me us a ncestrais. Agora eu não quero nem sair daqui.. de onde sai aquele som e aquela luz tênue das casas do sertão. no Campo da Sementeira. e criação de galinhas em sociedade com a mãe. antigamente ela falava pouco. Na praça de Iguatu. é um projeto piloto.. A força do Maracatu. Está em Rubeane. É uma responsabilidade muito grande para todos nós adolescentes. brilhoso. Me dá uma alegria. (mãe) — Eu fico conversando com eles. não tenho vontade nem de visitar. Mas não gosto quando eles “fica” brigando.. Estamos saindo do Ceará.. vem comer.. são bonitinho demais . Rubeane é a única adolescente da Aliança que desenvolve três projetos: criação de peixes. em Pernambuco. o outro vem e belisca o outro. vamos para Quixelô mais uma vez. nem a mata ficando cinza emaranhada nas suas folhas. 17 anos. criação de abelhas em sociedade com o pai. durante o inverno.“mata uma pra nós ‘comer’”. Duas casas prá arriba. né? Venha. mas com o pai. Rubeane. Antigos engenhos apontam suas chaminés. a estrada do algodão nos levará.) Tá tudo cismado hoje. (mãe) — São tudo francesa. agora num outro sítio.. região da Zona da Mata. Pernambuco.. ande. a gente tem um projeto de piscicultura.. estudando. vem. fico aqui sentada no terreiro olhando eles comer. estudante do segundo grau. Todo o grupo do Maracatu é formado por alguns desses jovens. Aziz Ab’ Sáber. Chão de cimento queimado. Agora a paisagem são coqueiros. Às vezes meus filhos “fala”. vem Rosinha. umas têm dois meses. Nesta região da Zona da Mata chove. galinhas exuberantes exibem o seu vigor. desde que entrou na Aliança.. Depois que eu coloco a ração. (Rubeane) — Antes eu pensava assim: estudar pra quê? Quando a gente termina não tem o que fazer mesmo. op. quando eu vejo que eles tão com o papinho já cheio é só aí que eu vou pra casa. aí tenho de matar. mas vai custar muito pra comer”. beneficia apenas a Zona da Mata. Carnaúba não se vê mais. seis vezes mais do que costuma chover no sertão.

são assim pequenas frases que alguém canta e o resto do pessoal responde. 1960. Aí eu fiz várias oficinas de percussão. ela não tinha controle. que trazem a pior música possível. um caboclo. ma . Dicionário do Folclore Brasileiro.. Rio de Janeiro: MEC/INL. 18 anos) — A partir da formação que a gente teve aqui no Serta. No início nenhum jovem queria saber de ter um caboclo pintado na camisa. lê. sou caboclinho do s tam b or es e ag ogôs Cantam os meninos do grupo de teatro do Serta. mas precisaria fazer mais. decidimos retratar a arte e a cultura através de pinturas manuais em camisas. .. já se coroou. nagô. Então a gente tem feito esse trabalho. Abecê do folclore.. nos tempos da escravidão. sou caboclinho lê. eu e Gerusa. Designam-se eles pelo nome de iorubá. de espaço de organização. Câmara Cascudo. 1954. vice-presidente do Serta —. Maracatu é chamado de nação. a nossa rain ha se coroou. que temia porque sabia que ali. lê. também vocábulo do idioma desses negros. faz uns dois. porque essa que toca nas rádios FM é uma ditadura. aclamados na escravidão e nos exílios dos engenhos de açúcar. São Paulo: Ricordi. os africanos do grupo iorubá ou nagô são originários do sul da Nigéria. de arte e cultura. Perdida a tradição sagrada. a n ou. não é? (Adriano. Maracatu: visível vestígio dos séquitos negros que acompanham os reis de congos. que foi dada a origem a esse maracatu. . há muito... (Marilândia. a gente identificou que a nossa cultura estava morrendo. n já se cor 87 oou. já ossa r ainha e coro Já s . Chão da Terra. pelos franceses. de resistência popular. E o canto é chamado de entoada.. agora já tem jovem que chega pra gente e pede:“eu quero um maracatu. para denominá-los. Esses ritmos são herança dos escravos. Na gô. o grupo convergiu para o carnaval. de uma região que se chamou Costa dos Escravos.86 Nagô.. Desde que eu entrei aqui no Serta.. conservando elementos distintos de qualquer outro cordão da espécie (em Pernambuco).. coco de roda. e nagô. agô.. Rossini Tavares de Lima. para se contrapor a essa influência nefasta das rádios FM. . aí pintou a oportunidade e agora sou eu que estou levando aí a galera pra tocar. naquele espaço. já sabem olhar a partir de uma perspectiva de cultura popular. que é a Nação Sementeira. por haver se tornado importante centro de tráfico. . — Estava conversando agora com Marilândia e Gerusa que pintaram um mural belíssimo pro palanque dos maracatus — diz Inalda Batista. por ser usado. A gente espera que os jovens tenham acesso democraticamente a outros tipos de música. Então a gente. A nossa região é muito rica em maracatu. 22 anos) — O batuque é pra dar mais um ritmo à nação. para a coroação nas igrejas e posterior batuque no adro. e tenho a certeza de que quando os meninos vão ao encontro daquele desfile de maracatu. elas são jovens formadas pelo projeto. três anos. porque assim era chamada a língua que falavam e o reino a que pertenciam. tas v erdes de Santa Cruz caboclinho das m sou atas v erdes d o pau-brasil. homenageando Nossa Senhora do Rosário. Já não olham para o maracatu com o olhar preconceituoso da casa grande.”. lê das Lê. só uma reprodução de uma música de três tons. e os adolescentes não viam isso como uma riqueza.

cabras. A cana gerava altas rendas para Portugal. Estamos em Glória do Goitá. a casa grande. ele visa o social geral daqui do Engenho de São João Novo. Verdes campos. para descobrir a história dos engenhos de Pernambuco. A sombra do nosso carro passa estendida pelo canavial.. se penduram pelos cantos mais escuros. estradinha estreita de terra. Frente a ela só a camada parasitária de armadores e comerciantes exportadores de açúcar e importadores de escravos – que era também quem financiava os senhores de engenho – guardava certa precedência. é ele quem dá essa inspiração. Engenho de São João Novo. Mulheres. era assim: “vou buscar o dia. que caem sobre o altar. como um túmulo: 22/12/1921. morador do Engenho) — Esses buracos. O menino Manassés.. não é? (Manassés. pesquisas na Internet. dentro do seu domínio. Vou buscar o dia. uma mulher e sua filha vão de sombrinha aberta para aliviar o sol. O senhor de engenho tinha uma autoridade que a própria nobreza jamais tivera no reino. nos deram uma contribuição de 700 reais e a partir daí começamos a fazer as entrevistas com os moradores do Engenho. esses buracos tapados? (seu Arlindo. era só o trabalho de evangelização. O piso do andar de cima está destruído. Os morcegos voam pelos corredores da igreja. Diante dele se curvavam. Quem fala é Edna. 23 anos Manassés. (avô) — Dizer a missa. sobrou uma cômoda de gavetas enormes e vazias e um nome de mulher. vou buscar o dia. que é outra catatumba aqui embaixo. não. não é? E fazia às vezes músicas de entrada. em livros. vou buscar o dia. pra conversar com Jesus. a restauração da história. de onde se avista a moenda. Buscar o dia significa a gente se acordar antes do dia amanhecer e a gente ver as coisas da maravilha de Deus. (Edna) — A gente fez um encontro microterritorial no município e nesse encontro foi feita uma visão de futuro. Maria Cavalcanti Xavier.A gente não sabe realmente se a pessoa enterrada se está nessa catatumba aqui na parede.. se estendia à sociedade inteira. exuberantes jaqueiras. a caminho da comunidade da Gameleira. assim como todas as portas e o teto.”. A gente visa a conservação das águas. é o pessoal que vê a igreja destruída e se aproveita pra cavar. a chaminé. Até hoje aqui se planta cana. né? Pra ver se encontra alguma jóia de valor. Na Gameleira. op. dessas de prontidão no antigo engenho de açúcar. casinhas de pau-a-pique. O senhor de engenho era um empresário nativo. Nosso projeto foi aprovado pelo Serta. que eu sou leigo. Tinham privilégios. Uma coruja branca fez um ninho no campanário e agora perde suas penas. O poder do senhor de engenho. 19 anos. onde Edna (20 anos) e Estelina (20 anos) desenvolveram um projeto para a construção de cisternas... integrados todos num sistema único que regia a ordem econômica. abraçado no avô) — Então.. município de Pombos. política. ou se está nessa do chão..88 89 Era uma igrejinha pequena. agora apenas para fazer o álcool. O açúcar perdeu o espaço. de tanto ver o avô ir lá na igreja do engenho. 19 anos E essas marcas. Só o sino ainda está inteiro e os meninos brincam com sua reverberação. assim. que mora na casa vizinha e é a coordenadora do projeto Cisternas. a paisagem é feita de pequenos roçados de mandioca. Darcy Ribeiro. como o mulungu. dizer a missa. Um jegue vai pela estrada. fizemos o projeto e Edna. submissos. com José e com Maria. Porque o projeto não visa só a restauração da igreja. religiosa e moral. A gente juntou um grupo aqui da comunidade. honrarias da Coroa. escrito na parede. Ele vivia na casa grande construída para durar e passar a seus herdeiros. puxava muito terço. homens e crianças estão reunidos em volta da cisterna comunitária feita no quintal de dona Terezinha. 20 anos . o clero e a administração reinol. quando de madrugada faço minha petição pra rezar o ofício santo da Virgem da Conceição. coqueirais.. onde definimos as prioridades e dentre elas estavam as cisternas. Na sacristia. Uma alameda inteira de palmeiras imperiais. Árvores de flores vermelhas. cit. bibliotecas.

então a gente vai ao vereador e pede pra ele mandar.90 91 enviamos para o Serta. pelo menos uma vez por mês.A gente que mora no campo sofre muito preconceito da gente da cidade. a gente não pode tomar uma água dessa. do telhado. cheio de jacas. levo lá pra dentro pra coar. que grudou feito cola: (Dona Terezinha) — Se não tirar. mancha a pele quando apanhar o sol – ela diz. de lonjura boa. choveu a gente aparou lá num balde e tá tomando até que chegue a carrada. a gente tira a quantidade da gente e deixa a quantidade da cisterna. através de um vereador. Que a gente ia muito longe pegar água. cada pessoa tem seu papel. como a gente também.Achava que tudo tinha que ser feito pelos políticos. E tá vazia a cisterna? (Dona Terezinha) — Tá. na casa da vizinha. Comemos a jaca debaixo da mangueira. não tem? Só pode ter. E quem abastece de água. Ele coloca água todo mês. que tanto vai servir à dona da casa. eu não me reconhecia como uma pessoa capaz de desenvolver ações em prol da comunidade. não é? (Edna) — Até eu entrar no Serta. na casa de barro onde vive. Dona Josefa tem. uma calha feita especialmente para aparar a água da chuva. A cidade sobrevive da zona rural. vereador? (Edna) — É porque aqui os carros-pipa são controlados pelos vereadores. vê que é totalmente diferente. não é assim? E ali o que é que tem? Melda de rato. tem micobe nas telha. Quer dizer. Edna e Dona Josefa . De algum quintal do povoado da Gameleira o pessoal da comunidade vem trazendo um carrinho de mão. Aí quando a gente chega no Serta. Mas vocês não fizeram a calha para pegar a água da chuva? (Dona Terezinha) — É porque a gente ainda não tem o dinheiro pra comprar a bica. quando não chove? (Edna) — É a prefeitura. enquanto nos oferece o óleo de cima da pia.500 reais para a construção de três cisternas. quando não dá pra colocar de 15 em 15 dias. E por que põe cloro? (Dona Josefa) — Mor dos micobe. de onde vêm os alimentos. Tem de deixar dar duas chuvada pra amparar depois. (Dona Josefa) — A gente tem que deixar dar duas chuvada pra pegar a água. a cidade não sobreviveria. eles falam que quem mora no sítio é matuto. Germano ajuda a descascar e vai nos oferecendo aquela doçura. A coisa melhor do mundo foi que inventaram esse projeto pra nós todos. (Dona Josefa) — Quando tem pouquinho assim. Eu já estou com duas semanas tomando água da chuva. e agora vamos ter a água aqui pertinho. é jeca e a gente vai crescendo. mais de uma hora de caminhada. né? Desde a semana passada que a gente pediu e não chegou ainda. Como assim. não é? Tem que deixar a quantidade dela. mas a partir de quando entrei no Serta eu comecei a resgatar minhas raízes e ver que cada pessoa é importante no processo de desenvolvimento. pra ela não rachar. barata. (Dona Terezinha) — É porque demora pra chegar. sentindo e acreditando que a gente é menos do que o povo da cidade. Depois. E agora vocês estão pegando água aonde? (Dona Josefa) — Chuva.Aí pego essa água. na boca e nas mãos. boto um bocadinho de cloro e só aí a gente pode tomar a água. Eles aprovaram e nos deram um financiamento de 1. dona Terezinha nos ensina a passar óleo de cozinha. para tirar o líquido da jaca. a gente deixa pra cisterna. que ia ser usado no almoço. que foram feitas em forma de mutirão. Se não existisse a zona rural. Sabe por quê? A água vai escorrer das telha.

de pequenas flores amarelas que se criam em cachos. É o pau-brasil reencontrado. uma alegria. vamos até a casa do presidente da Câmara de Feira Nova. No resto da Câmara. Palmas.. eu trouxe um pé de pau-brasil pra você”. no éta ade certei s camp ra. várias cobras se enroscam. Essas garrafadas “cura” problema de coluna. (Nequinho) — É a coral. Mordida de cobra eu curo assim: boto um crucifixo na sua mão. na paisagem que o olhar já acostumou a reconhecer. que estimulou a adoção do nome Brasil ao nosso país. . vinhemos con da pes Na terra faze ória. Aqui é veneno puro. amarelas. Aí quando as meninas chegaram pra participar do nosso orçamento. extraído do lenho e antigamente usado para tingir tecidos e fabricar tinta de escrever. essa árvore que tá aí fora. (Ketma) — No primeiro encontro. eles conseguiram entender a gente e a partir de então nosso diálogo ficou mais fácil. . não é? Nequinho é dono de um bar que fica atrás do pau-brasil. 2002. eu mesmo que pego. grêmios estudantis... saud mos d rtão e da mata e todos o . a oposição rejeita e a situação aprova. faço um sino de Salomão. que sa mos o sonho be fazer sua hist . roçado de mandioca. de início. escorpião. Era meu aniversário e ela disse “meu filho. na sua mão com esse dente de cobra. azuis.92 93 Vamos voltando pelas estradas dos sítios de Glória do Goitá. do agrest os a vo ap tar um rosa. ira. são todas aqui da região. tenho 21 anos. a caninana e a mariscadeira. Ficamos com medo assim de estar se colocando. Joel Gonzaga. Feira Nova. de sete pernas. não tenho nada pra lhe dar. vem lá. dentro de garrafas cheias de pinga. O armazém faz anúncio do café que vende: “café Santa Clara. qualquer cobra pode lhe atacar. Nequinho é um curandeiro. Mulheres em cadeiras na calçada. casco de burro. Nova Odessa: Plantarum. por parte de outros vereadores. dança e balança na sua sombra brasileira. que mata sete vezes. teve alguma resistência.Tudo parece normal. realid las de flores. pra não ser mal interpretado. ele faz rezas e dá bençãos. Árvores brasileiras. mangueiras. eu encarei com muita simplicidade. de chãos e p os da e teatro. ( Joel) — O que era costume é: o prefeito manda o orçamento. mas a gente conseguiu se colocar. rtejo é aq uele senhor? Eu aq Quem em lá. A sua exploração intensa gerou muita riqueza ao reino e caracterizou um período econômico de nossa história. os vereadores discutem. que é o que tem maior saída. enfeitadas com desenhos no frontão. pessoas de grupos jovens. Na prateleira. qualquer inseto pode lhe morder. É uma organização da sociedade civil que trabalha com lideranças comunitárias. é sua? (Nequinho) — Foi mãe quem deu. marimbondo. Plantei e hoje tem um grande futuro no meu terreno. quem v — Eu sou Ketma Santos. e. minha mãe”. meu vinhe . se Pedim s lados. Ali. rainha. lacrau. Até que uma árvore. a madeira atualmente é empregada somente para confecção de arcos de violino. Faz isso uma vez só e fica curado pro resto da vida. Outrora foi muito utilizada na construção civil e naval e trabalhos de torno. Seu principal valor residia na produção de um princípio colorante denominado brasileína. presidentes de associações. Ruas de paralelepípedo. salamanta. — Ó Nequinho. além da cachaça. corde-rosa. Seu Nequinho Boa ta amos a t odos da casa rde. q uem vem lá. Junto com Ketma. pau-brasil. Eu disse:“muito obrigado. em fartura de beleza. te. de sindicatos. de gente ssa licenç cabra a. povo querido. Casas pequenas. Chão da Terr Semente dos m a. jararaca. autônomos. depois de eu lhe rezar. só que a coisa foi mudando e desde 1990 eu passei a participar do orçamento participativo do Estado. Que co ui vou pe rguntar. Harri Lorenzi. que nada lhe acontece. não sei se Joel notou nossa dificuldade. A loja Lili Modas exibe seus vestidos. tá entendendo? E pronto. moro em Feira Nova e coordeno o Fórum do Orçamento Público. sete flor dos sete pios. Nós somos uma organização que não tem vínculo nenhum com a gestão e trabalhamos para que o orçamento público venha a ser democratizado. religiosamente puro”.. canta o grupo d eninos do Serta. trinta anos atrás.

. quem v Casa da Dona Josefa . com os valores... sou de Glória do Goitá. tenho 19 anos. gestores. é um monte de códigos. Boa ta amos a t odos da casa rde. também tem as galinhas e serve pra elas tomarem água. Hoje nós temos na Câmara nove vereadores. povo querido. a gente estudava. quem v — Eu sou Germano de Barros. sou agente de desenvolvimento local e moro na cidade de Lagoa de Itaenga. que você luta com uma multidão de jovens que também acreditam naquilo que você carrega. q uem vem lá.. Preocupação com a vida. q uem vem lá. e esquece a questão do conhecimento..94 95 (Ketma) — E não é fácil entender o orçamento. e com. É um centro de formação tanto de agricultores quanto de jovens. três são analfabetos.. mas eu acho que uma preocupação muito sublime é com a vida. tenho 22 anos. quem v Boa ta amos a t odos da casa rde. com o ambiente. parece que foi feito para o povo não entender. de gente ssa licenç cabra a. uma oportunidade de emprego. com a vida do próximo. — Eu sou Viviane. Então isso aqui serve pra gente mostrar para o agricultor como ele pode aproveitar as energias externas. Protagonismo juvenil é você lutar por aquilo em que você acredita e através disso você não beneficiar só a si próprio. deveres e lutar para se inserir no contexto da construção de políticas públicas para. com a questão da cidadania. vinhemos con da pes ória. meu vinhe . saud Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. a gente chama de propriedade modelo. estudava. dispostas em círculo. ( Joel) — Infelizmente a população do nosso município vota de acordo com suas necessidades. O Campo da Sementeira é como se fosse uma fonte de inspiração. saud mos d sertão e da mata. Quando o cata-vento gira. (Germano) — Isso aqui é um lago onde tem criação de peixe. Boa ta amos a t odos da casa rde. a juventude. do agr os a vo ap tar um rosa. em sua forma mais simples. É a questão de lutar pelos direitos. q uem vem lá. povo querido. Se você escrever uma palavra e mandar eles lerem. te. e todos o Pedim este. É você lutar por tudo isso e saber que não luta sozinho. Não é a linguagem do povo. rodam e como um monjolo fazem a água circular e oxigenar o lago. que sa be fazer sua hist Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. o Campo da Sementeira. Gostaria de responder à primeira pergunta que me causou muito entusiasmo. povo querido. Essa propriedade. saud Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. meu . sou agente de desenvolvimento local da primeira turma e hoje sou um dos educadores do Serta. uma saúde de qualidade. Esse público vem pra cá para aprender essas tecnologias e depois levar para a sua comunidade. meu . vem lá. faz a água escorrer dentro das garrafas pet cortadas ao meio que. eles não lêem. vem lá. s lados. vem lá. O vento também é uma energia a ser aproveitada. mas beneficiar a vida de uma forma mais plena: uma educação de qualidade. professores. aí eles vão votando em quem dá mais. faço parte da equipe de mobilização social.As nossas preocupações são diversas. que é em relação à preocupação do jovem da Zona da Mata aqui de Pernambuco.

para ser parceira no projeto e executora das ações na região. As relações são muito estáveis. nos municípios de Ilhéus. por educação. em Pernambuco. por meio da mobilização de suas próprias forças. mudar e mudar para melhor.” (Inalda Neves Batista. numa multiplicação sem fim.A relação pedagógica que eles estabelecem não é de autoritarismo. Mais da metade dos adolescentes formados está inserida em atividades econômicas. Desse modo. juntas. eles são pessoas muito presentes. K Kellogg Foundation. É um conceito da Física Nuclear. porque o jovem rural é um jovem que vive numa família. o Instituto Aliança. construída e planejada para atividades de pesquisa.. o Serta conquistou o segundo lugar do Prêmio Itaú Unicef – Muitos lugares para Apreender. o projeto Aliança com o Adolescente. na Bahia. Assim. e sim apoiá-los a produzir novas e crescentes riquezas. coordenador executivo do Instituto Elo Amigo. Comunicação e Mobilização Social e de Inclusão Digital. formou. com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Territorial e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).. e Baixo Sul. além de apoiar financeiramente a Aliança. “O que a gente quer mostrar. Os 70 mil reais do prêmio foram utilizados para financiar projetos de jovens na região da Bacia do Goitá. E não fazemos isso sozinhos. . não uma identidade separada do resto do país. tem uma área de 3 mil metros quadrados. A partir do momento que começar a haver essa reação em cadeia. adolescentes solidários e central de referência em serviços. o que a gente quer construir com esses jovens é uma identidade brasileira. mas eles são pessoas muito atentas ao que se diz e ao que se pede a eles. O Instituto Ayrton Senna e a W. coordenador de projetos do Instituto Elo Amigo) Serta O Serta foi fundado em 1989. então nós também tivemos que nos educar e estamos nos educando junto com os jovens. Desde 1992 passou a desenvolver. primeiro eles esperam pra saber como está a situação. vice-presidente do Serta) Em 2003. de fazer valer os seus direitos. Nós aprendemos muito com os outros projetos. Uruçuca e Itacaré. projetos maravilhosos que a gente teve a oportunidade de conhecer no nosso Brasil.96 97 Origens e Propostas “A proposta da Aliança sempre foi contribuir para instalar nessas localidades uma dinâmica de desenvolvimento sustentável. no Ceará. em 2000. o Serta passou a atuar na Bacia do Goitá com a formação de adolescentes protagonistas. os jovens de Jucás. mas toda uma formação. fazemos com a ajuda dos jovens e de outros parceiros. em Pernambuco. antes de tudo. Um conceito que a gente utiliza é a Paidéia. para formar a sociedade que a gente desejaria ver no futuro. por um grupo de agricultores. mesmo que seja de pais separados. “Às vezes eu penso que se nós trabalhássemos esse mesmo projeto com jovens das camadas populares de Recife.” (Márcia Campos. que são os jovens nordestinos. Eles esperam. Uma massa crítica. não é? Então. uma vez que seria impossível trabalhar com os 43 mil jovens da região. O sentido de autoridade eles aprendem com muita definição dentro de casa. destacando-se entre 1. técnicos e educadores que atuavam junto aos produtores familiares. além de uma propriedade agrícola modelo. entre suas ações. não só em técnicas de produção ou de questões sociais. Uma vontade de mudar. são aliados estratégicos do Projeto nas microrregiões do Médio Jaguaribe e da Bacia do Goitá. mas quando eles se afirmam. o trabalho é feito pelo Elo Amigo. Outro conceito é trabalhar uma massa crítica de jovens. mediante reuniões com os vários segmentos e setores que formam aquela comunidade. Outra coisa: na equipe do Instituto Elo Amigo. com as outras regiões. sediada no local. não são muito ‘atirados’. A sede do Serta. Em junho de 2003 as ações do Projeto na microrregião no Baixo Sul da Bahia foram concluídas. Agora.” ( José Eleudson de Queiroz. em Pernambuco pelo Serta e no Baixo Sul pelo Ides. É bonito ver esses meninos se reconhecerem como os jovens de Quixelô. no Ceará. a Proposta Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (Peads). o Campo da Sementeira. mas se o clima é de ocupação de espaço. Eles começam agora a trazer no discurso deles essa identidade brasileira. do Rio ou de São Paulo.” (Gilvan David de Souza. com 05 hectares e 90 ecotecnologias integradas sob a ótica e os princípios da permacultura. Instituto Elo Amigo “O que a gente tenta passar para os jovens e para a comunidade de maneira geral é uma formação realmente contextualizada e uma formação intensa. somos todos da mesma comunidade desses jovens. diretora do Instituto Aliança) O Projeto Aliança. A Fundação Odebrecht e o BNDES atuam como entidades financiadoras. formação e campo experimental. os jovens brasileiros. políticas ou sociais em suas microrregiões. Eles são pessoas muito discretas. O Instituto desenvolve também programas nas áreas de Direito e Cidadania. que era a idéia dos gregos de educação integral dos seus cidadãos. que vem contribuindo com a produção de conhecimentos e de valores no desenvolvimento das comunidades. em Glória do Goitá. mediante conquista de novos parceiros. Então o nosso ideal não é fazer prevalecer um projeto. Ceará) O Instituto Elo Amigo foi criado em 2001 e entre outros projetos coordena. propiciando a instalação de uma dinâmica de desenvolvimento local. E eu digo que o êxito é muito pela educação do jovem rural. mais de 2 mil adolescentes para atuar como agentes de transformação. tem 500 anos de opressão nesse Brasil. O projeto Aliança com o Adolescente iniciou sua etapa piloto em três microrregiões do Nordeste: Médio Jaguaribe. mas que são. Então eles acrescentam demais à nossa relação pedagógica. os jovens de Orós. iniciou a disseminação deste projeto no litoral sul da Bahia. uma nova visão. As relações sociais são muito bem definidas. nós vamos chegar num processo irreversível. A convite da Aliança com o Adolescente. Em cada microrregião foi identificada uma ONG.834 projetos concorrentes que desenvolvem ações complementares à escola em todo o Brasil. de novos valores e de uma nova cidadania. mediante itinerários educativos com duração média de dois anos. O povo da zona rural é um povo muito ciente dos seus direitos. uma identidade apenas nordestina. talvez não tivéssemos êxito. Um sentido das pessoas acreditarem que elas podem. O objetivo final do Projeto Aliança não é realizar ações compensatórias ou pontuais nos lugares em que atua. no Ceará. se afirmam com muita qualidade. As crianças e os jovens aprendem a ter muito respeito com as relações humanas que se estabelecem e a valorizar muito as palavras do educador. mudar para algo que a própria comunidade reconheça como melhoria de qualidade de vida. que tem uma estruturação de continuidade. uma base realmente humanista. no sentido de que esses jovens vão estar formando outros e outros. o jovem escolhe a área de atuação: agroecologia familiar. o Instituto Aliança acredita ser possível que o Litoral Sul possa reviver as histórias imortalizadas nos livros de Jorge Amado a partir de novos tempos. Bacia do Goitá. de 1999 até junho de 2004. uma nova dinâmica dentro de uma determinada comunidade. mas uma nova postura. Com a conclusão do ciclo de cinco anos (1999-2004) nas microrregiões do Médio Jaguaribe e Bacia do Goitá.Ao entrar no Instituto.

112 PROJETO JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO SOCIAL 113 .

Em cada mandacaru um novo gesto arrebatado em um drama indecifrável. uma de vestido branco. Não há mais céu sem seus braços retorcidos. Casinhas de desenho de criança. ouricuris. É maior que a caatinga. a pindaíba. a catingueira. a macambira. . a quixabeira. longamente azul. Um mulungu com flores vermelhas. esperam o ônibus debaixo de um juazeiro murmurante de folhagens. sou brasileiro D eixamos para trás a Estrada do Coco. como nós. aumenta na grandeza. Uma árvore descabelada passa.114 115 Sou sertanejo. Em Feira de Santana. Um restaurante: Bode Assado. o gravatá. A caatinga se apresenta. O sertão que começa. outra de vestido com losangos coloridos. Duas mulheres. O mandacaru agora é constante na paisagem. desprezamos a Estrada do Feijão e tomamos rumo pela Estrada do Sisal. viagem para o semi-árido da Bahia. uma outra bem magrinha também. se exibem as palmeiras: coqueiros. A sombra do nosso carro vai atravessando os campos baianos. Grandes nuvens redondas e inofensivas seguem. onde. o canudo-de-pito. o xiquexique. O céu. Entre campos e caatingas. vistosas. nessa tarde nordestina. O semi-árido é maior que o sertão.

Passam a Rádio Sisal. Cláudio. Marta. Genivaldo. Jamile. um distrito de Coité.A flor anuncia a morte da planta. retorcidas... Todos. Com a nossa velocidade. Duas casinhas retas passam. (Melquisedeque) — Salgadália é conhecida como a região do “sinzal”. ( Jucélia) — As nossas sinceras felicitações. depois tem que ir para o campo para secar e aí tem outro processo na batedeira. ASA. onde você está sujeito a perder um braço. de tão retas. que dá essa força e estamos lutando aí. acho que aqui nenhum sabe o preço de um quilo de sisal quando vai para o exterior. A gente levantou a questão do êxodo rural e quando a gente sai da zona rural pra vir para a sede ou para outra cidade maior. . O sisal dourado secando no campo. na nossa presença. não tem segurança. Como se fosse uma resposta da vida. Alderir. recatadas. (Melquisedeque) — E estão exportando o nosso “sinzal”. Jucilene. a mão. Assim somos recebidos na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Coité. cada vez mais. ( Jailson) — O maior perigo é na hora do desfibramento. A lua está de quarto. pra depois ele ser comercializado. Agora a gente vem debatendo sempre a questão do trabalho infantil no “sinzal”. Melquisedeque. que já perderam o braço. e ao mesmo tempo uma reunião de jovens. Eliana. Betânia. Jailson. como você viu ali no quadro. Gal. a algaroba. Somos nós. Daiane. Joêmia. erguidas em hastes para o céu. pelo apreço e reconhecimento a nós destinado. um quadro pintado a óleo mostra a plantação do sisal. No borrado a nossa sombra se define. mas é também um sinal de resistência no meio de terra tão seca. em cima do homem que vai à caça com a espingarda nas costas. Numa das paredes.. Hoje tem um programa. 12 anos. Ana Paula. São cerca de 600 tipos diferentes de árvores e a maior densidade populacional de espécies animais encontrada em regiões semiáridas da Terra.. fruto da gente.116 117 Arlete. Que sejam bem-vindos a nossa região sinzaleira. Hoje é o “sinzal” que traz renda pra gente.. Gledson. Um marco para a nossa história vocês nos concedem. Zé Carlos. Gerusa. exporta pra outros países. Clécia.. em varais que se estendem no terreiro. quem acaba ganhando são os grandes empresários que compra o “sinzal” aqui nas batedeiras e revende. até ficar claro que somos nós passando ali. em cima das cercas de palha. depois que ele sai da batedeira ninguém sabe. da mão-de-obra da gente. porque não tem uma única proteção para você que vai desfibrar. o sisal ainda pequeno brotando nos campos e chegamos ao nosso destino: Salgadália. Sérias. que a gente faz com tanto carinho. aí a gente vê na televisão que tal cidade está Caatinga quer dizer mata branca na língua tupi. Como se fosse um sertanejo também. Graciane. feito com facão. a caatinga nordestina tem uma fauna e flora riquíssimas. um dia. região “sinzaleira”. Um trabalho perigoso. Esta é a última beleza da planta do sisal. pra tirar as crianças desse trabalho.Aqui em Salgadália. Estamos em terra do sisal. ( Jailson) — A nossa principal preocupação hoje é a falta de emprego. (Melquisedeque) — A gente cortava palha com dez. Maria Luiza. Rute. Em nome do Coletivo do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Coité eu vos saúdo. Paulo. 2003. E continuamos caminho. pelos jovens que fazem parte do Coletivo Municipal de Jovens. recentemente um rapaz de 16 anos perdeu a mão. para cortar folhas pontiagudas e duríssimas. A máquina moendo a planta. A sala escura de lâmpadas de pouca potência tem bancos compridos como os de uma igreja. Vanilda. Já é noite. no distrito de Salgadália. a cena é só um borrão. É uma planta que veio do México. sombreando os campos de sisal com suas flores compridas. das suas conquistas. Articulação no Semi-árido brasileiro. trabalharam no corte da palha do sisal. o município. É uma reunião de trabalhadores rurais. Apesar da ausência de verde no período da estiagem. Conceição do Coité. com tanto trabalho. em cima das árvores secas. quando crianças ou adolescentes. que nos sustenta. Ailton. através do sindicato. com tanto sacrifício. Um vaqueiro montado num cavalo passa. resistentes. Jucélia. (Marilúcia) — Existe também a máquina que transforma o “sinzal” na fibra e já mutilou várias pessoas. Mônica. no terreiro das casas. Aqui um quilo de sisal é um real. Marilúcia. a Pousada do Sisal. Ficamos gratos por sermos vistos como referência.Ai de nós se não fosse o “sinzal”. fazem relatos dos seus quereres. O mandacaru outra vez. que.

afinal. — O nível de pobreza aqui da região é. (Maria Luzia do Carmo) — Uma coisa que nós da juventude pensamos em fazer é conseguir cursos para que as pessoas possam se aperfeiçoar no trabalho do sisal. em média.A gente tem que debater a noção de trabalho e renda. Não adianta sair daqui. Fonte: IBGE. Salgadália vai ter progresso principalmente no sisal. vai se interessar mais pelo sisal.118 119 crescendo. o que a gente sabe fazer para as outras comunidades. porque eu não quero sair daqui. trabalhadores rurais. A nossa luta é justamente essa: pra que a gente jamais precise dizer “olha eu. Então há um processo de exploração de renda que é por aí que a gente consegue entender os índices do PNUD. vou sair daqui porque a minha terra não oferece condições para eu viver”. mas o debate é sobre como vamos aproveitar a matéria-prima do sisal para outros usos. do nosso cotidiano.” (Clodoaldo da Paixão. ao final de todo o processo de produção. que tem um papel muito importante junto a esses jovens. Fonte: MEC. É só a população que cresce. futuro da região sisaleira da Bahia? Avaliação Peti – Bahia” In: de Feira de Santana (BA): Movimento de Organização Comunitária (MOC). ou continuam a ser. 10% da população. 22. (Maria Luzia do Carmo) — A gente se reúne todo mês nas oficinas do PJPS (Projeto Juventude e Participação Social) com os jovens coordenadores dos outros 22 . a mostrar o nosso produto. Relatório da Situação da Infância e Adolescência Brasileiras. 2003. não acha emprego e aí não tem mais como voltar pra casa. de família. Eu sou jovem.8 milhão em situação de extrema pobreza. sendo 1. em termos de escola. imagina se ficasse aqui. São 534 mil reais que não ficam aqui. (Betânia) — Salgadália é tudo o que a gente tem. pra se habituar em outro ambiente. Unicef. do IBGE.9 milhões de jovens entre 15 e 24 anos vivem no campo. Fonte: Unicef. e não de emprego. nossa vida. Os jovens de Salgadália querem a emancipação política. uma renda de 534 mil reais. de 74% — continua Clodoaldo — e então. não a cidade.. Atualmente 5. (Mônica) — Salgadália é meu distrito amado. quando foi realizada a pesquisa nacional por amostra de domicílios.Agora pense na produção total.A renda vai ficar aqui e o jovem vai ter emprego. querem deixar de ser um distrito de Conceição do Coité. todos eles foram. Adolescente da área rural tem quase quatro vezes mais possibilidade de ser analfabeto do que da área urbana. só se aproveita 5%. para que a gente mesmo comece a fazer coisas. preciso de trabalho.A gente tenta se manter aqui porque é nossa realidade. comece a vender. Quanto ao sisal. O salário dos professores é quase a metade dos professores das áreas urbanas. João Francisco Souza e Adriana Lenira Souza. “A possibilidade de emprego está ligada à existência de entidades. vão pra Conceição do Coité. para encher mais ainda os bolsos dos grandes empresários. 650 mil vindos da área rural estavam residindo nas cidades. de estudo. É só a população rural que vai pra cidade. que agora buscam novas conquistas. pensar em emprego é pensar em 5. mas como uma questão de gestão e tudo mais. de cada cem quilos de fibra verde do sisal. coordenador técnico e pedagógico do Programa de Políticas Públicas – MOC) As famílias da região sisaleira da Bahia compõem os 5 milhões de brasileiros que declararam ao IBGE não ter nenhuma renda no ano de 2002. a questão a ser discutida não é como vamos produzir mais sisal. não como forma de estar na mão-de-obra. empresas que gerem trabalho. alimentação de animais etc. por isso que eu quero melhorar. não está crescendo. Censo 2000. apenas 9% dos professores do campo são formados em universidades. o trabalhador consegue tirar o salário mínimo. tiveram o apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. No semi-árido. então a nossa sede de emancipação política é porque se essa renda ficar aqui. Nessa luta.8% dos adolescentes do campo estão fora da escola. Hoje. “Crianças e adolescentes. por isso é que você tem uma alta concentração de renda e um alto nível de empobrecimento.. (Maria Luzia do Carmo) — O sisal aqui em Salgadália tem uma renda muito grande. está só inchando. o que fica para o grande empresário é algo em torno de 85% do valor que o sisal obteve até chegar no consumidor. Já existem estudos de como aproveitar o resto do sisal para argamassa. Na região da gente. então. bebida. tudo está aqui. No semi-árido.

Esses jovens de Salgadália. e durante alguns dias.. um dos lugares por onde passou o Conselheiro. Saímos da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e fomos caminhando pela rua escura: casinhas pequenas. Se as comunidades rurais estiverem bem. afirmam testemunhas existentes. É Cláudia de Jesus. alevantando imagens. então o certão virará praia e a praia virará certão. Tudo parado pelo caminho.. a matadeira. pelo nosso trabalho. Era assombroso. vem muito turista pra cá. onde as árvores não se alteram com o vento. Estrada do Sisal volteada pelo desenho duro da caatinga. plantas jovens. Bom Conselho.Ao lado um canhão. Da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Monte Santo.Vende pipoca? Não. fazia-se autoridade única. (Maria Luzia do Carmo) — Essa praça pra gente é tudo.. vêm aqui até a praça de Salgadália para se reunir com amigos. 1898 – São Paulo: Abril Cultural. eu digo que de qualquer forma o jardim da praça aqui da sede de Salgadália também é uma forma de beneficiamento. Jeremoabo. Uma oratória bárbara e arrepiadora (. decidiram trabalhar com alguns projetos bem objetivos. com desenhos no frontão.. A gente percebe o quanto é bom a juventude estar se organizando. com capelas espalhadas pela estrada. ... passou na Globo.. 1979. cruzes e bandeiras do Divino. se avista o caminho de três quilômetros na Serra da Santa Cruz por onde passou o Conselheiro. Aqui em Monte Santo foi gravado O Pagador de Promessas e Deus e o Diabo na Terra do Sol. embelezando a estátua que se adivinha: Antonio Conselheiro. Encaminharam um projeto à Câmara dos Vereadores de Conceição do Coité. Prenunciavam-nos anos sucessivos de desgraças:‘.) que os fiéis abandonassem todos os haveres. era solene e impressionadora. Terra do sertão. Paralisavam-se as ocupações normais. Monte Santo.. até então um depósito de lixo.120 121 municípios envolvidos no projeto.. a luz azulada da televisão. acarajé. eles vêm mais no intuito de pagar promessa e tá subindo o Morro da Santa Cruz. no fim de semana. que “fulora” aqui na seca. tudo quanto os maculasse com um leve traço da vaidade. . árvores antigas e lá no fundo um carrinho de mão com uma luz acesa. em toda esta área não há.. Foram atendidos. A gente já trabalhava. da guerra de Canudos. Os Sertões . Euclides da Cunha. quase uma via-crúcis. Estamos chegando em Monte Santo. (Marilúcia) — Falando em beneficiamento à população rural. aos domingos e todos os dias. em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão. o muro branco do cemitério. assim. Mesmo as pessoas que moram na zona rural. homem grande. Pelas janelas. isso me enche os olhos. toda bonita. ele ali subia e pregava. mas esse projeto veio aprimorar assim.’ (os dizeres desta profecia estavam escritos em pequenos cadernos encontrados em Canudos).. Hoje. eclipsando as autoridades locais. Salgadália não tinha divertição e agora. ainda mais. de camisolão comprido. Manhã azul-clara de calor. de cada região. você vai às duas da tarde e tá um movimento enorme o dia inteiro até o final da noite. Fomos até a praça reconstruída.. nós temos a praça. a praça foi reconstruída e hoje é o grande orgulho desses jovens. Na frente. carrega uma cruz na mão. o penitente errante e humilde monopolizava o mando. seguido pela multidão contrita.. pendurada no espelho retrovisor. quem nos apresenta a história de seu município. Ela é uma das coordenadoras do Coletivo Municipal de Jovens e faz parte da coordenação sub-regional. em silêncio. uma cidade ou povoado onde Antonio Conselheiro não tenha aparecido. (Clécia) — Uma questão também de preocupação nossa é conseguir a melhora da qualidade de vida do pessoal que mora na zona rural. Monte Santo. inflexível.. a sua entrada nos povoados. a comunidade urbana também vai estar bem.. — Antonio Conselheiro foi e continua sendo um mártir que defendia o povo daquela época e continua na história de Monte Santo e vai ficar aqui pra sempre — continua Cláudia. depois de um seminário que realizaram (“Jovens Camponeses”). Pelo vidro do carro só o que balança é a fita azul clarinha de Nosso Senhor do Bonfim. O primeiro deles foi a restauração da praça da cidade. (Cláudia) — O nosso é um município muito religioso.. dia de domingo. já se organizava enquanto juventude dentro do sindicato. até mesmo para namorar. de mandacaru na praça. e não a manchassem nunca com o sacrilégio de um sorriso. cabeludo. Lá estavam bancos. Que abdicassem as venturas mais fugazes e fizessem da vida um purgatório duro. (Melquisedeque) — Eu posso dizer que essa praça significa tudo pra mim. O Juízo Final aproximava-se. Inhambupe.. talvez. É uma coisa que nós conseguimos pela vontade do jovem. 20 anos. Alagoinhas.. foi assim bem legal. no caminho das igrejinhas construído pelo Antonio Conselheiro e seus seguidores. E a gente percebe a dificuldade de cada município. Todas as fortunas estavam a pique da catástrofe iminente e fora temeridade inútil conservá-las.

.. a geléia do umbu.74... Uruguai. sou e er. eu tenho direitos. om as própr ias mãos. Aí a gente insistiu junto à Secretaria de Jovens e fizemos um levantamento e chegamos a um número de 45% de jovens na nossa região que não têm identidade. a lição de esperança dos ensinamentos do Conselheiro sobre a possibilidade de criar uma ordem social nova. da Nicarágua. então aquele dono coloca só o que ele quer. Paraguai.. A Eu mérica L sou oper atina. Argen melho de tant ae a b do eu ém sou stou à espera de um mun mágo . tin o sofrer Tam enezuel ia. na tradição oral das populações sertanejas.. também. os jovens não têm aonde tirar.47% das crianças e adolescentes do semi-árido não possuem rede geral de esgoto ou fossa asséptica em suas casas. chilen o. mas acabam perdendo por não ter documentos de identidade.. o re Eu em faço o suor e tr onhos ansformo meus s o Eu . não dá oportunidade nenhuma para a comunidade. cit. cheio d enc brasi leiro vo v . .. de estar organizando uma rádio comunitária e tem também a questão da geração de emprego e renda. sem venezianas. sem fazendeiros. Censo 2000. agora está demorando uns seis meses. palmas de licuri penduradas como enfeites. tenh progresso c uador. já tem pessoas do grupo que fizeram o curso prático e já sabem produzir desde o doce. op. Fonte: IBGE.. idadão bia.66% das crianças e adolescentes do semi-árido vivem em famílias onde a renda per capita é menor que 1 salário mínimo. ário n tenh alid a grande cidade. Falta de incentivo dos pais. tá lá na zona rural e pensa assim:“eu moro na zona rural não preciso dessa história de documento”. sem vidraças. . Am érica e um dia verei o meu po mérica Latina .122 123 A memória de Canudos perpetuou-se. que recolheram os poucos sobreviventes do morticínio e deles ouviram e guardaram os episódios heróicos de resistência e de luta. Todos os jovens cantaram uma letra que dizia assim: abastecimento de água adequado. E aí o que acontece? Quando eu tirei a minha demorou uns 90 dias. Co olív V r. Pelas paredes brancas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. . Essas são as nossas perspectivas.2% da população infanto-juvenil do semi-árido não tem acesso a Entramos com Cláudia na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. atores cuspindo fogo. eu so a. América Latina Eu ade.Tem um dono. América Latina.38. às vezes acaba indo até em outro município. (Heraldo) — Tem uma coisa que a gente tinha gosto: era criar a rádio comunitária para estar divulgando os trabalhos sociais que existem aqui em Monte Santo. A Janelas de madeira. . A primeira questão que aqui mais alto se alevanta é a questão da identidade. Peru. nem autoridades. E sobretudo. Eq o vo Eu ntad so uc lôm Na u da B e. onde nos esperavam os outros jovens do Coletivo Municipal... (Cláudia) — Dentro do coletivo mesmo tem alguns projetos que os jovens poderiam participar.42. Lá dentro nos aguardavam uma cena de Santo Antonio. dançarinas e uma música. A gente vai trabalhar já este ano com o beneficiamento do umbu. três meses. A cidade é grande e tem uma única rádio que é voltada apenas ao poder mesmo. Darcy Ribeiro. o suco e a polpa.

O prédio da Apaeb – Associação dos Pequenos Agricultores de Araci tem. onde participaram os jovens da zona rural e da zona urbana do município de Tucano. de acordo com dados do MEC/Inep. para fazer direito. Estrada do Sisal até Barrocas. -vin ua. o poeta. Robervaldo. desmedidos. jovens ocupando seu espaço. meu irmão aa. (Ludimila) — Bem-vindos. Como nas outras localidades. Edson. homens de chapéu de feltro. dias melhores.. faço parte do grupo gestor do Peti. Somos de associações comunitárias. Natanael. que é uma coisa que eu amo. que é um projeto nosso. ou a vingança de um oponente: Bahia. Passa cruz grande na estrada.65. a pichação de um torcedor descrente. Lourival. Dailson. dança no meio do fogo. Mireide. com suas folhas miúdas. Pelas ruas mulheres varrem as folhas da calçada. sej em-vind . Andréa. então a gente tem que ser isso mesmo e não ter medo de dizer “eu sou sertanejo. um bar. nós temos a atuação de jovens em Conselhos municipais de educação. ou seja.A nossa idéia é a criação do camarão. nós queremos jovens na Câmara dos Vereadores. grêmio estudantil. É Ludimila um dia de festa. Alto o céu. igreja. só não tem coragem de expor o que está sentindo. nos ajudando assim a aceitar o que é nosso. Nelson. Damião. buscando água. indo seja Ô. Davi. Plantação de palmas. a gente já tinha participado de outros movimentos sociais e também religiosos aqui na nossa cidade. a sa é sua. nosso objetivo maior eu acho que é esse. meu irm de e bem-vindo. onde a gente pôde observar que as experiências trabalhadas aqui com os jovens deixou a gente muito esperançoso. . Jailson. Um Opala branco passa com massa plástica na lataria e um colchão amarrado no teto. passaram a noite para poder participar desse encontro. Patrícia. além de cozinha grande. Censo 2000. Porque a gente sabe que mesmo no campo.. funcionárias públicas da limpeza. saúde. Agora vamos apresentar um teatro feito só por mulheres. Eu já faço parte do Conselho da Criança e do Adolescente. teatro. Rosenilda. Edmilson. pode ch Cidadania. . Saber que a gente não está lutando sozinho. (Dailson) — E também buscar o nosso lugar dentro de todos os Conselhos que existem.1% dos estudantes rurais encontram-se em situação de defasagem idade/série. Gilmara.Agora somos nós que agradecemos. lele. passa. Não só ficar representando outros e sim mostrar nossa identidade. até a prefeitura. Ludimila. das comunidades mais distantes de Araci. Segunda Divisão. perspectivas de trabalho e renda. como dizia Euclides da Cunha. para estar dando aos jovens da zona rural a possibilidade de um trabalho e renda.Araci. Gilma. Be do s . Daiane. dois dormitórios coletivos onde jovens. a necessidade do jovem ter uma qualificação é de fundamental importância. seus galhos esticados. Junior. po eja a b bemsa é s . Esta é a nossa casa e vamos falar um pouco sobre as nossas experiências. que vão mostrar como é a nossa cultura e como a gente é aqui em Araci. Adauto.124 125 A nossa perspectiva pra esse ano é ter jovens trabalhando em sua própria comunidade e sem pensar em querer sair da sua terra. Cláudia. muitas mesinhas. Também temos os poços artesianos. le. o fogo balança dentro delas. Um caminhão carregado da fibra dourada do sisal atravessa à nossa frente e deixa poeira no nosso destino. Iolanda. Mata espetada da caatinga. quem sabe. com muito orgulho”.A gente não chegou aqui à toa. por isso a questão do camarão. (Davi) – No ano de 2004. que a vida no campo tinha condições de ser melhor para o jovem. Fonte: IBGE. ar. Planos. metade preta.. É de pessoas assim que a gente precisa para crescer mais e mais.A baraúna.A gente tem pessoas que lutam com a gente. (Gilmara) — E é bom porque a gente fica sabendo que tem pessoas de fora que se importam com aquilo que a gente tem buscado na região. Para que a gente não tenha que estar partindo para outras cidades e que a gente aprenda a conviver com a seca. Luzia. Fica aqui o nosso reconhecimento por tanto agrado. Passa homem com seu burro. As coisas que a gente precisa para crescer mais.56% dos universitários do país são jovens do campo. Temos também o nosso projeto de reciclagem e nós damos o nome de “Agente do Meio Ambiente”. E conseguimos também o curso de políticas públicas e gerenciamento de propriedade. (Ludimila) — Como conquista. mas eu acho que a nossa expectativa é que este livro possa levantar ainda mais o nosso coletivo e possa trazer mais e mais os jovens das comunidades. São mais de 30 jovens.Apenas 1. Passam dois com cão e espingarda. com fita de gorgorão. soo.. Marcílio. c ca a a ão ntra eg . Lucineide. r.. A festa terminou com um grande almoço: baião de dois. porque a nossa região é semi-árida.. fora daqui. de lá Teofilândia e Araci. Elielson. (Ludimila) — Todo mundo tem uma expectativazinha aqui guardada. para ir para as grandes cidades. Cinco tigelas de barro no chão. Na parede do bar. Traçar um plano de viagem: de Monte Santo para Araci. le. jovens lutando por uma política. um forte”. sindicatos de trabalhadores rurais. porque nos poços perfurados aqui em Araci a água é salgada. Márcio. altos os mandacarus com seus braços estendidos. m-v eja ô. nós jovens fizemos uma viagem de intercâmbio pela região sisaleira. a gente promoveu o 10 Congresso Municipal de Jovens. não é uma coisa mais de tentar acabar com a seca e sim aprender a conviver com a seca.. Juarez. a água não dá para o consumo humano. para que ele no futuro tenha orgulho de dizer que é sertanejo. E como encaminhamento desse congresso. movimento de mulheres trabalhadoras rurais. a gente priorizou um cursinho prévestibular. galinha e frutas. mostrar a identidade para o jovem e a cara do jovem. principalmente das comunidades mais carentes que precisam de mais renda para os jovens. Um grupo de jovens com a cara pintada metade branca. Ludimila está no centro de um galpão. alimentação. (Ludimila) — Nós queremos ver na nossa cidade. Logo após. em parceria com o MOC e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Eu pretendo fazer vestibular o ano que vem. o nosso sonho é. “sertanejo. uma carroça vai. é antes de tudo. mas precisamos de uma política pública para viabilizar esse projeto. Uma bicicleta vem. Josi. Josemar. no Conselho da Criança e do Adolescente e também no Fórum de . apresentações de dança. Numa esquina. merenda. o que está ao nosso alcance.a o o. Bruno. associações de pequenos agricultores (Apaeb) e também de jovens comunicadores e comunicação juvenil. Verônica. viemos de todos esses movimentos e hoje somos o Coletivo de Jovens de Araci e queremos lutar por dias melhores na nossa região sisaleira.

mamona. Saímos junto com todos os jovens do grupo. azul. você já passou por lá. Outra coisa que falta nas escolas é a educação sexual. Quênia e Sudão. Em dez municípios do nordeste brasileiro. Na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Quixabeira. locutoras da rádio. Pé de Serra) — A nossa maior preocupação é inserir a juventude na sociedade. Saímos da sede do Sindicato. (Fábio) — Diante de toda essa problemática que o município vive. que vocês levem pra São Paulo a lembrança de nós. dessa pobreza. É uma minoria que está mobilizada.Até a questão dos recursos. não sei se todo mundo reparou na mesa. nossa alegria. onde Edisônia e Fernanda. atrás do vidro. Aqui tem cocada de licuri. Quixabeira) As taxas de mortalidade infantil nos municípios do semi-árido brasileiro são maiores que as dos países subsaarianos. com força. para a área da agricultura só destinavam 40 mil reais. como o céu daquela hora. coordenadora PJPS–Quixabeira) — Naquela mesa ali. para que a prefeitura comprasse os produtos e distribuísse nas escolas. feijão. sendo que a nossa região é principalmente rural. Os jovens de Capim Grosso estudaram a lei orgânica do município. milho. eles têm um trabalho com apicultura. fizemos as nossas questões e todas foram incluídas. quem faz a nossa apresentação. Edisônia chama a nossa atenção: (Edisônia. têm também um trabalho com piscicultura. exportam mel. orientação. não já? Naquela mesa ali estão produtos da nossa terra. nós temos solo. depois de Tanquinho. para que a gente pudesse entender como é linda a cidade onde vivem. Capim Grosso) — Essas leis orgânicas do município não são elaboradas pelo pessoal do município. que Edisônia nos entregou uma cesta. ( Janilde.A gente queria que o prefeito reparasse na questão dos estudantes que saem de Capim Grosso para Jacobina. mas por uma empresa em Salvador. licor de licuri. A nossa arrecadação é insuficiente. A gente quer deixar para todos os ouvintes da Quixabeira FM a visita da ONG Aracati. 18 anos. tem cocada de licuri. fizeram várias emendas e encaminharam para a Câmara de Vereadores. Foi nessa hora. Fernanda e Edisônia o “Em nome de todo o PJPS de Quixabeira. Cultivamos aqui mandioca. falta educação. é tudo muito precário. que os jovens de Pé de Serra nos mostram o quadro que trouxeram com a pintura do Pé de Serra e da Serra do Bugio. uma honra muito grande. ao surgir o projeto PJPS. Pro vale do rio Jacuípe. que são biscoitos da goma da mandioca. Então.” “Gente. era necessário que nós jovens tomássemos uma atitude. dentro da cabine. essa taxa é maior do que os índices do Congo. .. os jovens dessa associação são nossos parceiros. “A nossa cidade de Quixabeira fica a 300 quilômetros de Salvador. Capim Grosso. abóbora. em nome de todo o vale do Jacuípe. na merenda.Trouxeram uma maquete também. já exportaram para a Itália.126 127 A nossa ida agora é menos pro sertão e mais para a aguada. Será que a juventude não pode ajudar a juventude? A maioria dos jovens não pensa muito em se organizar. a arrecadação per capita no município é de 60 centavos. melancia. A gente sugeriu que o prefeito desse um auxílio no transporte para aqueles jovens. daqui da Bahia. nós reunimos os jovens do município e estamos começando a trabalhar. nosso muito obrigado. criar alternativas para que os jovens sobrevivam aqui e sobrevivam bem. E também a questão da agricultura familiar. depois de Riachão do Jacuípe. nossa satisfação de receber vocês aqui. diversão. envolvida num papel celofane. O avião sai às cinco da tarde. então eles precisavam de uma bolsa de custos porque o transporte fica muito caro. dobramos a esquina para conhecer a rádio comunitária Quixabeira FM. beiju de tapioca. o nosso rumo é Quixabeira. só falta a chuva.” É Edisônia. de sol pleno. biscoito voador e carequinha. eles que são de São Paulo. azul. e nos explicam que o município fica entre as duas serras. estão visitando o nosso PJPS. mostrar à juventude o quanto é necessária a sua participação nas políticas públicas. tem uma variedade de coisas ali que a gente quer apresentar pra vocês como experiência de geração de trabalho e renda do nosso município. A população de Quixabeira é de 9460 habitantes. no papel que eles têm dentro da sociedade. nossas cidades são rurais e quem faz a lei orgânica parece que ignora isso. Na nossa pressa. que faz para toda a região.” (Fábio. o município depende das receitas estaduais e federais. depois que estudamos toda a lei orgânica. Pé de Serra. Eles não pensam na importância. biscoito carequinha. tem biscoito voador. (Patrícia. eles não passam nem perto do que nós vivemos. para fazer faculdade. a gente está recebendo uma visita. E é ali. eles não conhecem a nossa realidade. Fonte: Ministério da Saúde. na calçada. estão mais curtindo festa. É como a gente percebe a pobreza que se alastra e a gente está tentando aprender a conviver melhor com essas situações. O projeto Conviver é a Associação dos Pequenos Produtores de Jabuticaba. É quase hora do almoço e precisamos voltar para Salvador. mas lutar sempre” – Projeto Juventude e Participação Social. Projeto Juventude e Participação Social. nos apresentam no estúdio. rapadura. saudações a nossa presença e algumas frases: “o importante na vida não é vencer todos os dias. O índice de meninas grávidas é muito alto. a gente quer deixar com vocês lembranças de produtos da nossa terra. painéis com fotos de eventos realizados.. nós estamos participando ao vivo do programa Integração Total. a gente começa a tocar os outros jovens. 6632 na zona urbana e 3128 na zona rural. Só temos tempo de agradecer. coordenador do PJPS. E a gente deixa assim ao vivo os nossos agradecimentos. Por exemplo. mas com garra.

a juventude se firma como sujeito político próprio. que falam a mesma linguagem. dialoga de um lugar de juventude e para que os jovens. Irará.” Assim fomos recebidos em Conceição do Coité. que se mobilizem e se articulem em torno de viabilizá-las. a partir de uma identidade política própria. . São Domingos. de imediato. Então acho que essa é a grande novidade do trabalho. Cada cidade tem o seu Coletivo Municipal de Jovens. os jovens se organizem e comecem a se inserir nos processos sociais locais. mobilizem os próprios jovens. Quijingue. O MOC percebia a juventude como historicamente preterida das decisões políticas. Conceição do Coité. Cansanção. Araci. a satisfação do Coletivo Regional de Jovens. que discutam alternativas. Quixabeira.” (Clodoaldo Paixão. mais de 600 jovens. olhando no sentido estratégico. Riachão do Jacuípe. na formação dos grupos. que reúne de 20 a 30 jovens. em cada um são quatro coordenadores municipais. E no futuro. em toda região. eles próprios. Esses quatro são os que têm acesso às capacitações. e são eles que vão repassar as vivências que tiveram aos jovens da sua comunidade. maioria absoluta. Conscientes da nossa fortuna. Valente. Ichu. na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Coité. Pé de Serra. Projeto Juventude e Participação Social (PJPS). A única testemunha é o sorveteiro que passa gritando. possuem as mesmas demandas. Estavam todos os coordenadores dos 18 municípios da Região do Sisal e do Vale do Jacuípe. Serrinha. onde se realizou o encontro com os jovens do PJPS. dando toda a autonomia para que os jovens encontrassem as suas demandas. Nós somos jovens de: Queimadas. a entidade que coordena e acompanha toda a experiência dos grupos de jovens. “A expectativa da gente nesse trabalho com a juventude na região do semi-árido é que. sem paternalismos. não cabe num livro. liderados pelo MOC (Movimento de Organização Comunitária). Nova Fátima. ao vale do Jacuípe. seguimos nosso rumo. Santa Luz. O projeto alcança. com uma visão política mais ampliada. Pela estrada. palmeiras de licuris enchiam nossos olhos. Capim Grosso. 20 centavos!”. que quando dialoga com as entidades. sendo assim. Monte Santo. (Clodoaldo) — O que a gente fez na realidade foi reunir essa experiência tentando trabalhar na dimensão de um olhar de juventude. Nordestina. Então ninguém melhor do que eles para mobilizar a si próprios. dependendo do município. que insere a juventude enquanto segmento social estratégico. Araci. Conceição do Coité. 15 centavos! Picolé. é futuramente ter uma renovação de lideranças. Candeal. têm os mesmos sonhos. MOC) O MOC ajudou na organização. Tucano. por percorrer esses caminhos semi-áridos da Bahia e conhecer todas essas pessoas em Quixabeira. no silêncio daquela hora que o sol espanta: “Geladinho. pela vinda de vocês. ao todo. já que eles são hoje. Retirolândia. Salgadália e Monte Santo. O que significa que eles conheçam sua realidade. envolvidos no projeto.128 129 E é nessa hora que dizemos adeus a Quixabeira. Bahia. São 22 coletivos de jovens. Antonio Cardoso. de volta pra São Paulo. Origens e Propostas Estava escrito na lousa: “Sejam bem-vindos. coordenador técnico e pedagógico do Programa de Políticas Públicas. Onde a juventude visse ela própria.

130 SAÚDE E ALEGRIA 131 .

Está tão quente que mal conseguimos falar ou nos mexer. Não querem nenhuma parecença. aquelas que lembram pinceladas no céu e indicam mudança de tempo. Navegaremos a vida inteira e não alcançaremos a outra margem. já não é tão funda. . Nuvens redondas passam pequenas. ali. pela imensidão azul do Tapajós. Estamos todos deitados. cobertos por uma fina e quase transparente cortina. que escolhemos nosso norte. vejo Alcino. estão acima de nós. onde terra. Entendo então que a terra. nunca acabará. mexedor de montanhas. Rio na Amazônia é como o mar: acompanha a curva do mundo. enfrentador de oceanos. Já conformada em aceitar nosso destino de navegar para sempre. azul. passar abraçado com uma âncora. Nildo. cada um na sua rede. Só o sol orienta nossa visão desconhecida de principiantes. Vereda Tropical. na direção do sol poente. carregador de continentes. Querem ser sozinhos no próprio destino. Mais abaixo ainda. nesta altura do rio.132 133 A gente não sabe se eles sabem que a gente existe.Tudo é água. abaixo de nós. nesta floresta D aqui da janela do avião. outro. de jeito manso. com olhar de tucunaré de mercado. O rio é parente do tempo. acolhendo o céu todo no seu lume. no meio da geografia da recriação do mundo. cordilheiras. além da nossa. Nós já não vamos tão sozinhos. Um barquinho e dois pescadores vão sozinhos pela imensidão do Amazonas. é que está a nossa atenção. onde mal e mal se adivinha o encontro das águas desses rios: Amazonas e Tapajós. rio e floresta dão a mesma impressão. na direção do nosso rumo. briguento. um dos marinheiros. aqui. E quando dois rios de orgulho grande se encontram. Ali. estamos descendo. um não aceita a água do outro. companheiro. o capitão do nosso barco. O rio não tem fim. barrento. Santarém. Um. um socó voa ao longe. Sete horas de viagem e encontramos apenas uma única embarcação. as nuvens cirrus. Navegamos para oeste. num estado entre o desmaio e a lucidez. Foi nesse lugar. corrige a rota alguns graus para sudoeste.

. no começo é difícil. o tacacá. quieto. pra contar essa história para o Brasil. todo mundo quer ir lá pegar o microfone e falar.. por causa da reunião e também a gente vai poupar energia para poder ter a reunião. ainda frescas. que nos proteja da correnteza do rio e do vento muito forte. 17 anos. já esperava por nós com a mesa posta: surubim frito. quando pessoas diferentes vêm aqui a gente procura saber qual é o motivo..’” Essa é dona Juca. No escuro é o som que serve de guia. Os jovens. Uma mulher e três crianças. cada um toma o rumo de casa. aqui não moram outras pessoas a não ser nós mesmos. e alcança toda a comunidade de 66 famílias. “Nós somos nativos daqui. Franciana. não sabia nem falar meu nome. na frente da sede da rádio Raio de Sol. Esses rios da Amazônia podem ser muito perigosos quando o barco está atracado perto da praia.. um projeto criado pela ONG Saúde e Alegria. Fim do forró.. uma das locutoras da Raio de Sol.. arecatu. igualmente nós. os artistas. o tarobá. farinha e a beleza das estrelas. as professoras. que trabalham na coordenação da rede Mocoronga de Comunicação Popular. — A gente queria dar uma notícia muito legal para a comunidade: o trabalho da rede Mocoronga foi selecionado como uma das oito experiências de mobilização juvenil num concurso feito por esse pessoal aqui de São Paulo — continua Fabinho. ela falava: ‘arecatu curumim. comunidade de Muratuba. Porque antes eu não tinha. daqui a pouquinho. comanda a dança com apitos regulares marcando o tempo. No meio da mata. olhando pra mim. que deixa a água dourada e brilhosa. meninos e meninas da comunidade. sabe. Quando perguntavam meu nome eu me enrolava toda e não falava nada. A escuridão é densa quando descemos a escadaria e atravessamos a praia para jantar e dormir em nosso barco. a lua branca crescendo no céu e uma bacia de alumínio com um restinho de água. mulheres. esquecida ali no terreiro. e que são jovens que estão fazendo isso. Domingo vai ser dia de festa aqui em Muratuba. é quem fala agora e se diz presente: — Ser jovem aqui na comunidade. . a tapioca. Na cheia do rio a água deve chegar quase lá em cima. Uma a uma as pessoas da comunidade se apresentam. uma tira fininha e comprida: é uma escadaria enorme. na manhã seguinte. — Boa noite! — respondem homens. a gente não tem conhecimento. num passeio matinal: as marcas pequenas das patinhas do maçarico estão por toda parte. o trapiche todo a descoberto. Marquinhos. Hoje não teremos o programa Educando para o Futuro. em pares. floresta. sentados em cadeiras escolares no terreiro. falar pra todo mundo. Chico Malta e Lela. Sob a luz do sol poente. sem vara. apenas com uma linha de pesca. depois que essa rádio chegou aqui eu desenvolvi um pouco. nascida Maria de Jesus Santos Silva. uma da matriarcas da comunidade. para convidar todos os comunitários para uma reunião. 19 anos e Raquel. diz Fabinho. tentam pegar um peixe. Um dos seus filhos. na frente da rádio. Eliana. não sabia nem o que falar... Passamos a noite num abrigo. a gente não sabe como são os jovens dos outros lugares. Começa um forró.. Eu me lembro da minha avó quando chamava a gente e queria que a gente fosse depressa.. na margem esquerda do Tapajós.. Rivaldo. prima de Rivaldo. O dia já terminou e a luz do gerador não vai durar muito tempo... Nós somos descendentes dos tupinambás. feijão. 19 anos. de 24 anos. dançam na escuridão. arroz. Ela é parente de quase toda a gente que está por aqui nesta noite. ao longo dos rios Tapajós e Arapiuns. Clareia o dia na luz ainda pálida da manhã.. depois que a rádio chegou. no céu de pouca lua. Antes eu nem conseguia olhar para o pessoal. toda noite. onde fica a comunidade de Muratuba. Agora é Franciana. antes eu sei lá.. Raquel. tchau. É só um ensaio. teremos apenas os candeeiros. uma fita cassete tocada num rádio de pilha. num barco pequeno. Viemos até aqui pelas mãos de Fabinho. sai forte pelas duas cornetas de alto-falantes. para outros lugares que precisam saber que tem coisas tão legais acontecendo aqui na Amazônia. — A gente está muito feliz porque vocês também fazem parte da construção dessa história e hoje a gente está vindo aqui para trazer o pessoal que veio documentar tudo isso. Estamos saindo do ar e esperando todos vocês aqui na frente da rádio. ali no terreiro em frente à rádio.. assim. antes que as ondas do rio apaguem os passos da sua vidinha de ave do rio Tapajós. ficava vermelha quando enxergava um monte de gente na minha frente. É uma comunidade muito respeitosa. com a equipe do Saúde e Alegria e mais uma equipe de São Paulo. a locutora da rádio. mas eu penso que eles estão trabalhando assim. fazendo os programas. Pela areia da praia. muito boa noite. Olá ouvintes. 17 anos A voz de Raquel. um menino toma banho na beira do rio. da ONG Aracati. amarrados na copa da seringueira. serenoso. a cozinheira. apresentando pra todo mundo estar ouvindo ali. Nós fazemos o beijú. retornamos. temos uma rotina: saímos até encontrar um igarapé.. nessa hora em que o silêncio é de prata e a água é de ouro. acho que eles estão querendo conhecer a gente e a gente quer conhecer eles também. estamos mais uma vez nos estúdios da Rádio Raio de Sol. Boa noite. quem fala: — Quando chegou essa rádio comunitária eu acho que eu mudei muito. os que são jovens e os que já não são jovens.. mas que também dará a sua ajuda na hora difícil em que a escuridão encurta a paisagem do mundo. assim.. montanha escarpada.134 135 Chegar é poder dizer para si mesmo: terra à vista. Coordenador do projeto de implantação de rádios e jornais comunitários em 31 comunidades ribeirinhas do oeste do Pará. um sinal de quem acordou mais cedo e já passou por aqui. em Muratuba... tchau. a perna tremia..A gente tem uma tradição muito enorme. Praia de areia branca. mas depois com o tempo. que trabalha desde 1987 na Amazônia. é Fabinho quem nos apresenta à comunidade de Muratuba: — Boa noite. E eu me sinto muito satisfeita de ter alguma coisa pra falar para as pessoas que estão me ouvindo. quando acabar. chegar lá e pegar o microfone. Assim. que estão chegando em nossa comunidade.

no lago. como tratar a água para beber. Quem quer contar a história da Cobra Grande? (Rosekelly. Naquela noite ela estava assobiando perto da minha casa. diretor da rádio Mocoronga e responsável pela instalação das rádios comunitárias ribeirinhas —. já sangradas no seu tronco. Maria Lúcia e Graciana. o problema são as letras.. (Rosekelly) — E se ela sair. (Edmar. É assim que acontecem os programas da rádio..1.. Está entrando no ar a sua rádio Raio de Sol. por causa de tanta exploração das matas. poucas casas (de palha ou de pau-apique) em grandes terreiros. como é a educação da nossa comunidade. dos bichos. técnico da rádio) — Tem uma ilha logo ali. — É uma longa história que nossos avós. é uma música muito preconceituosa.Valmir e a mãe trabalham pra transformar a mandioca em farinha e no caldo do tucupi. O brega é um ritmo muito legal. cara.. nem mexem a cabeça. uma opinião. do vento. como o hip-hop na periferia de São Paulo. Por uma porta de palha. entreaberta..136 137 Chegamos em Muratuba. estirados no chão. que dizem que tem uma Cobra Grande debaixo dela. eu já estou com 24 anos — diz Rivaldo. 15 anos. marcando o tempo. mas eu enxerguei passar. Milton Dona Juca Estamos de volta e a gente gostaria de mandar um grande abraço para as professoras Rosinete.Agora eu não sei mais o jeito dela. com a Banda da Lourinha. hoje em dia não se vê mais. a FM de Muratuba. 19 anos. — Então.. Então nós estamos estimulando eles a ouvir os antigos ritmos da comunidade: o carimbó. É a seringueira que. do lixo.A rádio comunitária tem que ser uma alternativa para as rádios comerciais. Marco Antonio Mota. — Eu apresento mais programas relacionados com educação e saúde. essas lendas e até hoje tem pessoas que acreditam e essas histórias nunca vão acabar. locutora da rádio) — E se ela sair de lá tudo aquilo vira água. o Marquinhos. o Chico Malta e todos que estão na escuta do nosso programa. a gente fala também sobre educação. a desfeiteira. o meu finado avô então falou: “É a Curupira assobiando e protegendo a mata”. repórter da rádio) — Dizem que tem uma Cobra Grande aí nesse lado. ela que escreve e pede a música ‘Chuveiro’. Na casa de farinha. Mas o que ele tem pra dizer não tem nada a ver com futebol. a Cobra Grande.. 80. o forró que é produzido na comunidade.. É a Curupira. Mais adiante uma fileira de árvores. como se prevenir de doenças. — Antigamente a gente via a Curupira por aqui. eu tento repassar para os ouvintes assim. a Mapinguarí. aqui a juventude escuta o brega.. os homossexuais. alguém deitado numa rede balança. dão uma idéia. — A gente tira o leite delas e vai vender na cidade. O sol já está a um palmo do horizonte. ainda hoje. do meu avô. das sementes que caem pra gerar novas árvores. Essas histórias precisam ser relatadas e relembradas.. Estamos mais uma vez aqui para apresentar o programa Juventude e Ação. vai devorar quem mora em Muratuba. vou . Os mais idosos diziam que a ilha andava de um lado pra outro. Silêncio. uma emissora filiada ao sistema Mocoronga de Comunicação Popular. Passamos pela casa de seu Milton. dos pais.As pessoas que moram aqui também participam. o Boto. desculpe.. nossos pais contam. Vocês estão na companhia de Roseana e de Raquel. (Franciana. 18 anos. o funk no Rio de Janeiro.. na técnica de som Edmar. uma coisa muito depreciativa sobre as mulheres. que nos chama a atenção por um detalhe: o escudo do Vasco desenhado na parede. A mandioca escorre fina pela peneira em cima do girau.Vai comer todos nós. um dos repórteres da rádio — e essas histórias já vieram dos pais. A primeira carta que nós vamos atender é da nossa ouvinte Adriana. a Lela. é de alguma serventia para essas comunidades da Amazônia... para o Fabinho. quase nem vale a pena — diz dona Juca. a apresentadora Raquel nos explica como são os programas. Sons só de gente. Enquanto a Banda da Lourinha canta “Chuveiro” no estúdio da rádio..Três cachorros magros. quando foi um tempo a ilha parou e diz que é uma Cobra Grande que entrou debaixo dela e mora lá até hoje. dão entrevista. Mas é muito pouco o que eles pagam. na direção geral Rita dos Anjos.. A Curupira era do tamanho desse menino aqui (aponta um garoto de uns seis anos de idade). fiuuuu. aqui na região o brega é a música que todo mundo escuta — diz Marquinho. era assim uma coisa invisível. O senhor já viu a Curupira? — Vi com a idade de 13 anos. só abrem um olho pra espiar quem passa. Vamos andando pela comunidade. em desenho de geometria.

.. porque a gente era muito indisciplinado e com certeza isso nos ajudou no desenvolvimento das nossas boas qualidades. de perto um boizinho feito de mangas pequenas. Por aqui o rio é muito quieto. O. No prédio de madeira onde funciona a rádio.. da pesca. mas falta ainda.. dos técnicos.A gente tira a mandioca... — É pouca coisa que acontece aqui — diz Graciana. mas mundial.. desse lado do rio... apesar de que aqui a gente encontra fruta. — Algumas casas têm a televisão. não só daqui. alguma coisa assim parecida. divertidas com a brincadeira. debaixo de uma mangueira. nenhum armazém.. torra a farinha.. peixe. no rio. estamos de volta agora com o repórter Rivaldo. Na linha do horizonte. com esse trabalho a maioria das pessoas sobrevive — diz Jander. não tem telefone nem posto de saúde. e na minha criatividade também. como já temos a rádio comunitária... Estamos atrás das locutoras da rádio.. essa farinha pra vender e dar algum retorno para o nosso grupo de jovens — diz Valmir. E faz falta porque tem um jornal. das seringueiras. mesmo a gente sente um pouco.Todos trabalham juntos no roçado de mandioca. Não são todas as famílias que vivem uma vida boa aqui. mas não funcionam.138 139 entrar no ar agora. bom dia Rosiane. E quando você vê o jornal local você se reconhece no noticiário? — Na verdade acho que não vieram ainda fazer uma reportagem dessa área aqui. talvez porque eles pensem que não existe esse lugar aqui. né? Porque a gente não sabe se eles sabem que a gente existe aqui nessa floresta — completa Maria Lúcia. das galinhas que ciscam. álcool para a nossa copiadora. assim aquele dinheirinho que ele arrecada já vai pra pensar em comprar o café.. tudo isso a gente visou ao fazer esse roçado. fulano de tal matou outra pessoa naquela comunidade lá. a experiência que eu tive foi principalmente no meu desenvolvimento.. olha pra frente só é água. lá em casa nossa bateria pifou e a televisão está desligada há mais de três meses. Logo uma família inteira de boizinhos faz fila na janela.. veado. só quando acontece alguma coisa assim rápida de urgência. As crianças correm para a beira do morro pra assistir a sua passagem. Fale um pouco da sua experiência com o projeto dos esportes coletivos e do game Superação. estou aqui no estúdio da rádio Raio de Sol e vou conversar com a jovem Rosekelly. né? O único trabalho da gente aqui é o da mandioca.. Dinheiro quase não circula por aqui.... — A gente olha pra trás só é floresta. Não tem nenhuma loja. passando perto das casas. (Rivaldo) — No mato a gente gosta. quase ninguém passa. um barco grande passa carregado de madeira. pra cá. Às vezes a gente precisa comprar um caderno. no caso comprar alguns CDs. algum microfone. De longe um bichinho de brinquedo. Nós corremos também. — diz Rivaldo. . o açúcar. verduras. — Qualquer barco que passa barulhando eles correm ver o que é que está acontecendo no rio... Em Muratuba não existe luz elétrica. desse Tapajós todo aqui pra passar lá para as pessoas conhecerem. (Rosekelly) — Bom dia Rivaldo e um bom dia todo especial aos ouvintes da rádio Raio de Sol. estão na frente da escola. da caça. rindo. papai e mamãe gostam de assistir os noticiários. das mangueiras. a maioria das pessoas caça o tatu. assim. de descendentes dos tupinambás. catitu.... Televisão tem algumas.. dos repórteres. Um menino passa correndo e deixa uma coisa na janela. ou algum papel para o nosso jornal.K. Bom. paca. nenhum bar. ao largo. Eles vão com enxadas. As professoras Graciana e Maria Lúcia não vão. ao som de risinhos abafados e olhinhos apertados. a gente teve a visão de fazer um benefício.. Vamos atravessando os terreiros. 21 anos. pela janela.. jabuti e as pessoas às vezes pegam um pouquinho a mais e dá um pouco de vender. aí passa meses. tira a farinha.. algumas crianças nos espiam e depois se escondem. dos cachorros que dormem.. Do resto do Brasil e até mesmo do resto do mundo. — continua Rivaldo. 16 anos... — Mas todos nós trabalhamos na roça. As pessoas vivem da roça da mandioca. lenços e chapéus na cabeça pra aliviar o sol. bom dia Rivaldo. (Rivaldo) –– Bom dia Raquel.... — O nosso pensamento. a caça. Pegamos uma estradinha estreita e vamos seguindo. facões. quando a gente pensou em fazer o roçado. nosso trabalho aqui é roçado. da coleta de produtos da floresta. caídas de uma mangueira. o problema é que a bateria quando descarrega.. de também plantar a mandioca e fazer a farinha e vender para conseguir algum recurso. aí a gente se sente sozinho do resto do Brasil. local.

Rosekelly. Os instrumentos da bandinha são muito simples: uma lata de óleo. e aí a gente brincava nas aulas de rádio. Franciana.. primeiramente a nossa terra.140 141 Raquel. Atrás das palmeiras. entre as mais altas mangueiras. só que é um barquinho pequeno. 21 anos Raquel. de televisão. riem e cada um segue seu caminho. se for grave a única opção é Santarém. 17 anos . Cleber. nele são sete horas de viagem pra ir e sete pra voltar. na nossa comunidade. cantam a música do Circo Mocorongo. tiraram. Palco da comunidade. também com um bebê no colo. com muito vento. Valmir encontra uma mandioca do tamanho e formato adequado e com uma faca esculpe. na mandioca. Num terreiro largo de mangueiras. um microfone. por muito tempo. não dá pra arriscar atravessar o rio.. (Rivaldo) — As dificuldades que a gente tem aqui é em relação à educação e à saúde. Conversam. As crianças da bandinha de lata. — Eles pensam assim: se a gente resgatar os costumes dos nossos antepassados a gente vai ter muito mais direitos. vem com um irmãozinho bebê no colo e encontra no caminho outro menino do mesmo tamanho dela. a gente consegue passar um rádio e chamar uma ambulância. de entrevistas — continua Valmir. Edmar. tiraram itaúba. Anabel. mais umas duas horas e meia pra voltar. Nós temos de decidir se queremos ser índios ou não — diz a professora Graciana.. Jander. graças a Deus. de uns seis anos de idade... se for muito grave. não chegou aqui.. Vocês têm um barco da comunidade pra ir a Santarém? — Temos. — Antes de chegar a rádio comunitária a gente fazia isso na escola juntamente com os professores. Maria Lidine. o Mocorongo tem uma turm Circ a que é d O e rachar Saúde e Alegr nha do A turmi ia a turminha você vai gos E ss tar . dos pés de cupuaçu.. e nem faz só microfones. Quem poderia tirar a terra de vocês? — É porque a gente já lutou muito. o peixe-boi em extinção. dos nossos antepassados. — A soja até agora. o tatu. o boto. mas do outro lado do rio a gente já ouviu falar que é de um lado e de outro da estrada. cedro. Quando eu era jovem tinha duas madeireiras aqui atrás que vinham derrubando nossas árvores. ensaiadas pelo compositor Chico Malta... pelo menos do nosso conhecimento.. mogno. é porque a gente não tem um posto de qualidade assim.. Rafael. no grande galpão está acontecendo uma reunião: as pessoas da comunidade e um pessoal de fora. A ambulância demora umas duas horas e meia de viagem pelo rio. quando alguém fica doente. — Ah sempre vem esse pessoal de fora. Frente da rádio Raio de Sol. que não esculpe só na mandioca. cantor da Amazônia. a gente tinha uma tevê que era uma caixa de papelão e um rádio também de papelão. de uma entidade chamada Consciência Indígena. da Consciência Indígena. uma Valmir. Edvandro. Ele faz com perfeição esculturas em madeira. uma menina. porque a gente fica pensando que alguém pode vir e tomar a nossa terra e se nós nos assumirmos como índios a terra será nossa pra sempre. Roseana.. tiraram e nunca replantaram — diz a professora Maria Lúcia. cinco horas. porque a gente está resgatando a nossa cultura indígena. fazia o microfone. todos estão na roça limpando o terreno. tudo soja e falaram pra gente que os moradores saíram pra dar lugar pra soja. E se o tempo estiver ruim.

Deixamos nossos contatos para quando o telefone chegar por aqui e fomos para o abrigo passar a noite.. Lá do rio Amazonas o Antonio Oliveira e do rio Arapiuns o Antonio Ferreira. e o Dico Tapajós. E estamos sem luz a bordo: a bateria pifou.. Marcela Beltrão. sete cachorros se engalfinhavam. a força poderosa do milagre da vida. Ali. O dia seguinte foi de festa. outros meninos exibiam para a platéia a sua obra de arte: num papelão. No mapa da comunidade. de Piquiatuba. que certamente o pessoal da rádio vai tocar várias vezes durante a programação. de frente para a paisagem do rio.. naquele desassossego de anunciar que a dor pode ser maior. Já durante a tarde. seis... Boa tarde a toda comunidade de Muratuba. Esse CD faz parte de um trabalho da rádio da Rede Mocoronga de Comunicação. Dona Juca não gostou nada da cena. comemos manga. o seu Hipólito.. as árvores.142 143 tampa de lata e um cabo de vassoura. casado com a dona Juca e pai de nove filhos. e quatro tubos de bambu amarrados. Todo mundo caiu na gargalhada. que serve de baqueta. Então a gente tem o prazer de trazer aqui pra rádio Raio de Sol. dança. nervoso. aqui na presença de. onde a gente traz a notícia especial: o lançamento do CD dele. É um prazer falar aqui no microfone mais ouvido do beiradão do Tapajós. a comunidade inteira feita de sementes. mostrava que não estava pra peixe. a planta de Muratuba. na rádio Raio de Sol. E precisamos encontrar logo o abrigo.. tomamos suco. os cachorros da comunidade. em primeira mão. de Muratuba. comemos mungunzá.. Lela. alguns numa luta de amor. o céu estava caprichoso. O capitão não encontra o abrigo. o desenho da escadaria. comunicadora do Saúde e Alegria. o rio. paulistana com três anos de rio Tapajós.. Foi com o programa caça-talentos que a gente acabou fazendo uma primeira seleção e escolhemos dois compositores do Tapajós: o seu Hipólito. do Saúde e Alegria.. Correu atrás de todos eles. cantoria. por sua vez. a voz de ouro de Muratuba. O rio. acumulando nuvens em desenhos de fazer o medo. teve jogos. ilumina o próprio rosto com uma lanterna e diz: “Estamos aqui diretamente do rio Tapajós. ali. Estamos navegando há algumas horas. no meio da roda das pessoas da comunidade. agora eu gostaria que a Lela entregasse para o seu Hipólito os CDs com a gravação das músicas dele. a rádio. 60 anos. À noite fomos embora de Muratuba. Enquanto os meninos da bandinha cantavam. Bom. as vermelhas das palmeiras. porque senão vamos passar um perrengue. Seu Hipólito . As sementes escuras da seringueira. juntamente com as 31 comunidades de valorização dos talentos comunitários. todos. antes da tempestade. tocados com uma sandália de borracha na boca do bambu.”. que foram continuar o romance atrás da vista do pessoal. batendo violento no barco. cantadas por ele mesmo. 25 anos. o CD. nem aonde vamos. um bambu com três garrafas penduradas por um barbante. sem saber onde estamos.

nosso barco parecia ter sobrevivido a um naufrágio. Nessa época a equipe era quase toda de gente de São Paulo. na ilusão de que ainda dormiríamos naquela noite. estamos passando por isso. enfim para a comunicação popular. a caminho de Suruacá. Quando o dia amanheceu. então quando aparece alguém de fora e pergunta alguma coisa a gente tem vergonha de falar quem a gente é. — O Amazonas é mais perigoso ainda. paulista ou mineiro. aqui. gos ruac grandes ami ui em Aq Sejam bem -vin á. precisar de uma emergência. Comecei no projeto tocando numa bandinha de lata. mas sempre eles buscaram a expressão das pessoas.144 145 Encontramos o abrigo. cercada pela floresta. uma enseada. acho que é isso que todo jovem precisa.. no rio Amazonas. E assim começou o espetáculo dos raios. imagine o barquinho do pessoal de Muratuba! Se alguém. sem sair do lugar. — A impressão que vem na cabeça hoje é de muita festa. nós ficávamos todos no trapiche esperando por eles. igual luz estroboscópica. não dá pra ver nada. a mesma montanha escarpada. numa noite assim. 26 anos. em vez de uma só. a Eliana preparou o café-da-manhã e logo estávamos navegando de novo. nem parecia que tinha atravessado um temporal. o barco balança de um lado. não existe o estranho. Fabinho. um de cada lado. Ele nasceu na comunidade de Carariacá. coordenador geral da Rede Mocoronga de Comunicação. mostrar o nosso talento. No alto da escadaria. dona Martinha e duas outras senhoras do Grupo de Mulheres nos recebem com um canto especial de boas-vindas. estava muito tranqüilo. nos ligando à terra.. A força do vento fazia girar nosso barco e assim.. — Vai pro fundo. uma barra de cereais e um café frio que sobrara do jantar. redonda. como nós. A comunidade parava para aquele evento. apaga e acende. que passara a noite no andar de baixo. a mesma praia de areia branca. num barco de dois andares com cozinha.. não tinha ninguém do Pará ou do Amazonas.. todos vie dos. gos ocês mos grandes ami Av saud ar. Fábio Pena. O que acontece se a gente pega uma tempestade dessas no meio do rio? — pergunto para Alcino. nosso Su indos. E a equipe do Saúde e Alegria chegava na comunidade com muita alegria. ora a praia. Corremos para levantar as redes. sapinhos minúsculos cantam nas pequenas lagoas que se formaram na praia por causa da chuva. numa seqüência interminável de claridade. O vento também. E vai reforçando as amarras. Se nós. E nos cobrimos com toalhas de banho. depois fui me encaminhando para a rádio e para o jornal. balança do outro e vira. e àquela hora parecia um lugar encantador.Alcino faz duas amarrações no barco.A gente convive num ambiente. Dividimos biscoitos. dois banheiros e capacidade para 40 pessoas. Aquela solidariedade de quem sente que está afundando. comecei a viajar para outros lugares. Já era bem de madrugada quando os raios e trovões se acalmaram. Suruacá é muito parecida com Muratuba. na minha comunidade. com as cordas estendidas.A única diferença é que. fincados na areia da praia do abrigo. . num ritmo frenético. igual saia de havaiana. ora a floresta. São dois paus. palhaços. Eu tive a oportunidade. que já estavam encharcadas. e era um menino de dez anos quando a equipe do Saúde e Alegria passou por lá. na comunidade. ora o rio. numa comunidade dessas. onde todo mundo se conhece. Os marinheiros deram um jeito em tudo. porque o barco é todo aberto nas laterais. com circo. das nossas terras ou do estrangeiro. Dona Martinha e amigas ... participar de eventos sobre juventude pelo Brasil afora e hoje me vejo na situação de coordenar o trabalho do qual eu participei quando era criança. A paisagem que nos acolheu era uma espécie de enseada. franjas de plástico. É assim que elas recebem todo estranho. quando a chuva começar. sentados em um banco. onde ficaremos livres da correnteza do Tapajós. O vento vem com força de tufão. Sejam bem-v . não tem barco que atravesse o Tapajós pra socorrer. De longe. criavam situações para a gente poder se expressar. a cada hora víamos uma cena iluminada pelos relâmpagos. como de costume. tem onda de todo tamanho. é uma ponta do rio.. a mesma escada comprida.A gente esperava muito tempo pra que aquilo acontecesse. que seguram os grandes plásticos que nos protegerão – a nós e a nossas redes. Como esse rio é perigoso. despreza o plástico que nos protege e o reduz a tiras. seja qual for a realidade dele.

. — Tem vez que ela fica muito chiando. picada de cobra. nas comunidades. quando tem. onde dão sombra as seringueiras. Essa foi a representante da Associação do Grupo de Mulheres. queremos montar uma lojinha nossa mesmo. o mingau de cará.. um de dois. de babaçu. cortes profundos. isso tá acabando com a nossa Amazônia. . mas tem vez que sai bem. Aliene levou os filhos pra pesar. E a buriti. — Eu ouço o “Bom dia. paca.146 147 Suruacá é uma comunidade maior do que Muratuba. mas eu gosto de vir olhar aqui do lado de fora — diz dona Mercedes.. nós ficamos aqui. Como é o nome deles? — Esse aqui é o Adison Odilei e este o Alex Odivan. E como é feito o manejo da matéria-prima para não prejudicar o meio ambiente? — Nós tiramos a palha com cuidado para não quebrar aquelas palmeiras que estão brotando e também já estamos fazendo novos plantios da palmeira do tucumã. . quase o dobro da média nacional. Mais perto do prédio da rádio. mas a mais agressiva aqui na região é essa mesmo.. 15. Suruacá” todos os dias e o programa religioso das tardes. debaixo de uma mangueira. só encaminhando pra Santarém. das festas religiosas. pra sentar na rua e apreciar o programa da rádio comunitária. Quem vai atrás? — O pai deles. A vizinha de dona Mercedes. tem uma vendinha e até um Posto de Saúde. essa é a sua rádio Japiim. Quando o assunto é mais sério. Estão bem. as palmeiras de tucumã. ou um cinema.. quando o caso é um corte que precisa de pontos. Suruacá. Os índices de desnutrição nessas comunidades da Amazônia atingem quase 10% de todas as crianças até dois anos de idade. onde funciona a rádio. outro de quatro anos. como se fosse uma televisão. auxiliar de enfermagem do Posto de Saúde. bacabá. E quando não tem carne o que comem? — Faz qualquer coisa. — Quando começa o tempo das chuvas é que aumenta o número de picada de cobra — diz Henrique.. A maioria delas morre em função da diarréia ou de outra doença infecciosa. tem quatro parteiras. Esses dados são de uma pesquisa feita em 2002 pelo próprio projeto Saúde e Alegria. açaí. mas um pouco magrinhos. são mais de 40 espécies por aqui. Pelo caminho do posto de Saúde até o Telecentro. e a mortalidade infantil é bastante alta. com um bebê no colo. verificar a pressão arterial.. Em Suruacá o serviço médico funciona assim: no caso de parto... aqui em Suruacá. está sentada na cadeira. que chamam surucucu de fogo. Suruacá parece um vilarejo: a rua larga de terra com casas de palha.. Qual caça? — De tatu. dona Adair. uma emissora ligada ao Sistema Mocoronga de Comunicação. vamos ouvindo a programação. Boa tarde. tá tendo uma doença na Amazônia que é o plantio de soja. para apresentar nossos artesanatos para os visitantes que chegarem aqui. todas as tardes para ouvir os programas. com seu jeito de rainha… A rádio Japiim de Suruacá está no ar.. — A alimentação deles é a carne e o peixe. fraturas. — A que mais morde é a jararaca.. tem o Henrique.. . cercadas pelos terreiros... são de crianças de até um ano de idade.. aqui tem um telefone público. algumas mulheres trouxeram as cadeiras de dentro de casa.. distantes uma das outras.. este é o programa Desperta Amazônia. Que carne? — De caça do mato.A gente escuta bem de dentro de casa.. . sentadas na frente de casa.7% das mortes..

mas não alcançam os cupins no seu vôo. Você vai ficar sabendo um pouco sobre o conjunto das Andirás. né? Suruacá é um lugar privilegiado. as sandálias de borracha ficam todas lá embaixo. Daqui de cima do Telecentro. na frente da escada. E o prédio do Telecentro. os cupins estão voando por toda a comunidade. com o programa Raízes da Terra. os meninos correm atrás do invisível e batem palmas no ar. igual teia de aranha. Hoje vamos falar sobre a nossa cultura. mas a gente vai acabar trazendo essas pessoas aqui pra dentro e assim como o técnico teve paciência de me ensinar. políticos e empresários.. os cantos. Eu cheguei para o técnico e pedi:“eu quero aprender”. as galinhas saltam pelos terreiros para abocanhar a comida que vem pelo ar. Quando a gente está trabalhando com a comunidade a gente começa a se entender como uma grande teia e cada um tem uma responsabilidade muito grande. vamos destruir a teia inteira. 19. o pessoal da comunidade só entra descalço.. hoje a gente pode saber notícias do mundo todo — diz Richardson. vamos criar uma rádio que tenha a cara da nossa comunidade. é uma beleza.. dia de quarta. sábado e domingo. Esse prédio é um orgulho pra comunidade. E você também fica sempre aqui? — Sempre não. Na parte de cima. não tinha acesso. porque fica na frente da rádio. não conseguia mexer no mouse. eu estou maravilhado com a aprendizagem que estou tendo.A minha mão parecia um metal.. como todo mundo aqui no Suruacá. mas quando eu posso eu venho aqui pra casa dela. Marquinho ia passando um microfone com um fio enorme. 26 anos . Antes que a rádio entrasse no ar... eu senti uma emoção. mas a gente acaba se encontrando com o outro. onde fica a rádio. É a rádio Japiim de Suruacá. dois andares. sua própria vida. cada um tem seu trabalho. mas são só duas horas por dia. que é uma das componentes da dança da Jacutinga. os franguinhos também saltam. eu também vou ter paciência para ensinar quem quiser aprender. Até formar uma teia.. sabe. porque se um de nós soltar a ponta.. que aos poucos foi enredando todo o grupo de mais de 30 pessoas.. financiador.. a minha casa fica lá mais pra frente. Marquinho fez uma oficina com os jovens da comunidade envolvidos com o projeto da rádio comunitária. enquanto navega na Internet.. além de telefone. onde ficam os computadores. — Sabe o que é legal nessa teia? É como se fosse a vida da gente. Marquinho continua: — Uma coisa que é importante observar é que nós não precisamos ficar copiando o que as FMs comerciais fazem.. 19 anos. eu nunca tinha visto um computador. todo em madeira. principalmente em termos de aprendizagem. Eu não sabia fazer nada.. eu vou mexer num computador. Enquanto cada um fazia uma avaliação do trabalho da rádio no último ano.148 149 Ao lado dela está dona Maria Aldeíde. — Pra gente a Internet significou muita coisa. varanda em toda volta do segundo andar. eu fiquei assim. Já que a gente não é preso a patrocinador. tem agora computador e Internet. cada um segura sua própria ponta. — diz Marquinho. as danças.. — Antes do computador a gente só tinha televisão. — Internet pra nós foi um sonho — diz Jardeson. no computador ao lado de Richardson —. e televisão aqui só funciona quando tem energia. a dança da Jacutinga e uma superentrevista com a dona Palmira. Fabinho. Tem muita gente aqui em Suruacá que continua com medo do computador. muitas coisas que antes a gente não sabia. O ar está mais úmido depois da tempestade.

fazer pra cá uma cozinha e o quarto fica pra lá — continua seu Vitalino. escavado na terra. A casa é uma obra de engenharia. Dona Martinha nos leva até a casa de um de seus filhos. . Em seguida vão todos para o computador analisar. Quanto tempo dura uma casa de palha? — Oito anos. Seu Vitalino O Circo Mocorongo. — diz Lela. n ca tem m e le istérios a as edo de dia .As janelas são de palha de babaçu..150 151 Algumas crianças se aproximam. olham pra gente querendo fazer amizade. As meninas e os meninos saem todos para o terreiro. um lavrador com mais de 70 anos. atrás dos ângulos desejados. utar. as mulheres da comunidade cantam. construindo sozinho uma casa nova.. vão sendo amarradas umas às outras com uma espécie de corda feita da palha. As paredes de palha. no andar de cima. fugir. não quero saber de ninguém parado em pé fazendo a foto. Toda a comunidade está reunida na parte de baixo do Telecentro. — Cada um vai ter 30 segundos. vai cantando uma música sua que diz assim: Na selva amaz a ôni nd matas virgens. — Isso daqui vai ser a sala. Saci. As crianças na frente. inteiras trançadas. cortar essas pernas e pés que aparecem no alto da foto? (…) Essa daqui tá muito boa. na luz da lamparina. à n s águas d m os rios. Os palhaços se apresentam. O Circo Mocorongo vai começar. a bandinha de lata. mas a noite ainda não acabou. sentar no chão. cheias de risos. têm alguma coisa pra contar: — Vem ver um jacarezinho. No caminho de volta encontramos seu Vitalino de Deus.. No final toda a trupe dança e canta: O grupo se dispersa. José Edvaldo. O circo está com a lotação completa. era tudo de palha. chegando perto. na . Careca e Chico Malta vão fazer uma espécie de sarau. as fotos que tiraram. também. olhar. Num tanque. nem de pau-a-pique. oite á pira imit uru e ando A assobios. o Careca. arquitetura e artesanato. No telecentro as oficinas continuam. — Olha. E com quem o senhor aprendeu a fazer casa de palha? — Com os antigo. ao lado de uma pensativa tartaruga. Nós vamos atrás. depois é só trocar “as” palha.. Lela dá uma aula prática de fotografia. — Aqui vocês não sentem falta de abaixar mais assim... Lá. um jacarezinho cresce. l nhar. procurar um ângulo. antigamente não tinha esse negócio de telha de barro. Chico Malta. vocês viram que tem um triângulo aqui? Anoiteceu. para dar mais espessura. — gritam e saem correndo pelos terreiros. dona Martinha. Enquanto as pessoas vão se acomodando em bancos no terreiro. junto com Lela. C ta P rera nhan n t ati í. sentadas no chão. Tem que abaixar. com Chico Malta. oita a u tá. B e acomp gá.Vão reunir as crianças e naquela noite de céu sombrio vão contar histórias e fazer o medo.. também trançadas. em volta do Telecentro.. não dá. Ja M é H n Chico Malta s.. mas com outro desenho. A casa é de quê? — De babaçu.

atravessar os terreiros e chegar valentemente na casa da Assunção. Até onde a vista alcança.Tudo a gente tem de enfrentar nessa vida. E vendo aqueles campos. Foi aí que dona Martinha falou: — Aranha caranguejeira. Depois das sábias palavras de dona Martinha. Careca que tinha saído dali sem que ninguém notasse. da floresta imensa.152 153 – Teve uma vez que o Marquinho tava dormindo numa rede. Santarém-Cuiabá. das palmeiras. Era o barracão do Posto de Saúde e assim atrás ficava o cemitério. Ainda não são seis horas. na margem esquerda do Tapajós. cansei de repetir em pensamento o que era preocupação da professora de Muratuba: “Tudo isso um dia será soja. 12 pessoas da comunidade que acenavam pra nós. mas caiu como uma luva para os nossos sentimentos. só nos resta enfrentar a noite. E enquanto pudemos ver aquela paisagem. — diz Chico Malta — Aí eu só lembrei de rezar.. estão ficando douradas. numa comunidade lá no rio Arapiuns. onde antes era floresta. foram plantados mais de 3. rasgada.”. Mas ainda existem bosques de seringueira espalhados pela cidade. como as nuvens. limpa da floresta. que estavam ali.As crianças gritaram. mas antes de pegar a estrada principal. a paisagem foi passando aberta. na direção de Alter do Chão. tudo isso um dia será soja. tudo isso um dia será soja.. que estão voando pela cidade. Não tem preço a acolhida quando a gente é o estranho e não tem onde dormir. As folhas das copas das mangueiras. onde vamos passar a noite. Resolvemos dormir em Suruacá. Uma boceja. agora devastados. continuavam a nos dar adeus. teto sem forro para entrar a fresca. Quando entramos no barco. voltou assobiando na noite. aqueles pequenos pontinhos coloridos. Duas menininhas acabam de acordar e andam ali pela beira. agente de saúde. por causa da escuridão.Assim que chegamos.500 quilômetros quadrados de seringueiras. e outros dois rapazes da comunidade vêm nos ajudar com as malas. a cidade planejada por Henry Ford para fornecer látex à linha de produção da Ford. O conselho era para os netos dela. Alter do Chão . De lá. a antiga aldeia dos índios Borari. se fingindo de Curupira.Assunção acendeu uma vela no chão para iluminar o cômodo até que pendurássemos as nossas redes e adormecêssemos. Chico Malta uma do boto. Acordamos com o som da rádio Japiim que entrou no ar. crianças. pra ver o nosso movimento de ir embora. preparados para a plantação. outra se espreguiça. fomos de carro até Belterra. As histórias vão se sucedendo: Careca contou uma da Curupira. tudo isso um dia será soja. Curupira. O nosso rumo é Santarém. Amanhece.. na beira da praia. no meio do rio imenso. enquanto o carro percorria todo aquele caminho. tudo existe. De Suruacá. empurrada lá pro fundo. onde hoje as crianças correm para pegar as saúvas.. Casa de chão de terra batida. já eram umas dez. mas a gente não pode ter medo de nada. entramos em estreitas estradas de terra. tudo isso um dia será soja. O sol está nascendo dentro do rio Tapajós. atravessamos para a margem direita.. vestido de roupa brilhosa. paredes de taipa que não chegam até o teto. Djalma. nós gritamos também. tudo isso um dia. traumatizados com a noite anterior. Uma praga acabou com tudo.. dona Martinha outra do boto e nessa hora em que o boto virou gente. Em 1928.

que começou a trabalhar na prefeitura de Santarém para atuar na área rural. onde avaliam e planejam estratégias de ação. para avançar na sua participação sociopolítica e comunitária. extrativistas. “O Saúde e Alegria começou com meu irmão Eugênio. buscamos promover a formação de novas lideranças antenadas com a luta das populações ribeirinhas por melhores condições de vida e pela proteção da Amazônia. ribeirinhos. porque são eles que detêm o maior conhecimento sobre a Amazônia. em programas de saúde. monitores de saúde. Todo trabalho é distribuído através de três veículos: Jornal Mocorongo: cada sucursal tem um kit de editoração. eles não têm dinheiro para comprar as coisas. lideranças. o fluxo inverso permite que a população ribeirinha tenha acesso às realidades de outros lugares.154 155 Origens e Propostas A história da Rede Mocoronga de Comunicação Popular começou como parte das estratégias de educação e mobilização social do Projeto Saúde e Alegria. geração de renda. articulando políticas públicas onde estes estejam incluídos de forma adequada e protagonista. Nesse contexto. com o Saúde e Alegria a gente buscava dar poder para essas populações tradicionais de seringueiros. Através desses trabalhos. E era preciso que a população tivesse um apoio em outras áreas: acesso garantido à escola. produtores rurais. o fortalecimento da identidade cultural do ‘jovem da floresta’. desenvol- vendo outras ações que sejam importantes para eles. jovens e crianças. fazer o remédio caseiro. Os programas da Rede Mocoronga procuram envolver não só os jovens. eles não têm moeda. As produções são veiculadas nas rádios e jornais intercomunitários e difundidas para outras regiões. melhoria na área de produção de alimentos. organização comunitária. microfones –. Todo trabalho é definido pelos próprios repórteres que fazem matérias ao vivo ou pré-gravadas e montam a grade de programação conforme a identidade de cada local. O trabalho visa. A sobrevivência deles depende desses conhecimentos. não têm geladeira. Inclusão Digital: por enquanto implantada em duas comunidades. A Rede passou a promover a comunicação entre as comunidades e iniciou um amplo processo de difusão da voz. participação e mobilização. em Santarém – e 22 sucursais rurais. entre as comunidades envolvidas no projeto.” (Caetano Scanavino. mas todos os grupos e faixas etárias. cultura e comunicação. parteiras tradicionais. uma máquina de datilografia e um mimeógrafo. realidade. desnutrição –. opções culturais. São jovens trabalhadores rurais. ONG que atua na Amazônia desde 1987. vídeo e jornais comunitários. . o lúdico e a comunicação são os principais instrumentos de educação. esse movimento busca contribuir para a formação da cidadania da juventude ribeirinha. Eles têm que viver a partir do que a natureza dá. educativas e de renda. mesa. de modo geral. desafios mais amplos foram sendo incorporados. outros não. os jovens passaram a se colocar nas comunidades na condição de agentes multiplicadores. Isso criou uma rede intercomunitária de permanente circulação de informações e conhecimentos. inserindo as novas gerações no processo de desenvolvimento das comunidades. sobretudo. cada locutor é um agente multiplicador. Recentemente. Através dela. os jovens viram crescer as próprias possibilidades e potencialidades. criando espaços de participação comunitária. têm que sair de manhã para pescar o almoço. Foi aí que ele saiu da prefeitura e criou a ONG Saúde e Alegria. Amazonas e Arapiuns (organização de base comunitária que representa as comunidades da área de atuação do Saúde e Alegria). Então.” (Fábio Pena. Com o início das oficinas de capacitação. A arte. sair à tarde para caçar o jantar… Então é uma população que tem um patrimônio cultural fantástico e vive um quadro de exclusão tremendo. além da valorização e do reconhecimento dos jovens ribeirinhos como segmento estratégico para a região. Cada repórter. A Rede funciona a partir de uma central – o escritório do Saúde e Alegria. compostas pelos grupos de jovens repórteres de cada localidade. Ali não existe farmácia. Rádio Mocoronga: as sucursais funcionam nos moldes de rádios comunitárias a partir de um kit de áudio – amplificador. cotidiano e da cultura regional da população. sendo que hoje. índios. médico. Também organiza o fluxo intercomunitário dos programas de comunicação popular e qualifica os materiais produzidos pelas comunidades. professores. Entre os 12 membros eleitos para a nova diretoria do Conselho Intercomunitário dos Rios Tapajós. mas acabavam ficando graves por falta de intervenção efetiva em tempo hábil. Aí ele viu que os problemas de saúde eram também problemas de educação. CD player. Ao mesmo tempo. pescadores. Foram organizadas nas comunidades oficinas de comunicação onde os jovens eram capacitados como repórteres rurais e aprendiam a produzir programas de rádio. alguns estudantes. coordenador da Rede Mocoronga) Os atores envolvidos nessa história são cerca de 450 jovens entre 14 e 25 anos que formam grupos em cada uma das 31 comunidades ribeirinhas. e veiculam o material produzido por meio de cornetas espalhadas pela comunidade. mulheres. cinco são jovens que participam da Rede Mocoronga. os participantes dos grupos de jovens da Rede Mocoronga criaram a Teia Cabocla de Lideranças Juvenis. coordenador do Saúde e Alegria) “Atualmente os objetivos da Rede Mocoronga vão além da promoção da comunicação comunitária pelos próprios jovens. em telecentros culturais com computadores e acesso à Internet. educação. apoiar as ações protagonizadas pelos grupos de jovens que foram criados através do trabalho de comunicação. tape-deck. Ele percebeu que os problemas de saúde eram de origem básica – diarréia.

Pág. Foi um grande poeta romântico e .156 SAIBA MAIS 157 Grupo E-Jovem Gestapo – Foi a polícia política da Alemanha nazista. 26. Prestou relevantes serviços à população por ocasião da epidemia de febre amarela. Bento Quirino dos Santos – Comerciante abastado da cidade de Campinas. SP. Pág. RPG – Sigla de Role Playing Game. Pág. sem o casco. Castro Alves – Antonio Frederico de Castro Alves. 26. na Bahia. Homossexualismo – Afinidade. 29. 25. Descreve o horror a que eram submetidos os africanos na travessia do Oceano Atlântico e clama pelo fim do tráfico negreiro. no final do século 19. Geledés “O Navio Negreiro” – Um dos mais importantes poemas abolicionistas da literatura brasileira. criada por Adolf Hitler. 28. Pág. inspirada no romance homônimo de José de Alencar. 27. Carlos Gomes – Maestro e compositor brasileiro. Pág. Sucão – Lanchonete no Centro de Campinas. escrito em 1868 pelo poeta Castro Alves. Mocotó – Pata de bovino. Pág. homossexualidade. Pág. 27. 37. Pág. Essa polícia funcionava sem tribunal. atração e/ou comportamento sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. É um jogo de aventura e interpretações de papéis. nasceu em 1847 na cidade de Curralinho. decidindo sumariamente as punições que deviam ser aplicadas. autor da mundialmente consagrada ópera O Guarani.

residência oficial do Presidente da República. Em 21 de abril de 1792. O lema de seu governo era: “50 anos em cinco”. 58. além do olhar crítico sobre a sociedade do Rio de Janeiro do século 19. e suas músicas abordam temas como violência. Cidades-satélites – Localizadas ao redor de Brasília. 69. Pág. Estereótipo – Imagem padronizada que reflete uma opinião simplificada a respeito de uma situação. 52. amedronte ou o faça muito feliz. teve muitos amores. Pág. atendendo às necessidades dos mais diversos segmentos da sociedade civil. Tem como objetivo mobilizar pessoas e recursos para encontrar soluções criativas para os problemas da comunidade. uma melhor distribuição das terras mediante modificação no regime de sua posse e uso. Pág. 43. O povo brasileiro é um livro indispensável para quem procura entender a formação da nossa história e do nosso caráter. nos quais encontra-se conectado por cabos em um imenso sistema de computadores do futuro. Pág. Pág. 39. Pág. mascate e dentista prático. 42. formando uma complexa periferia. Políticas Públicas – Conjunto de ações econômicas. 71. É um dos idealizadores do Comunismo. pessoa. em São Paulo. Estresse – Conjunto de reações orgânicas e psíquicas de adaptação que o organismo emite quando é exposto a qualquer estímulo que o incite. mas o maior de todos eles foi a liberdade. Palácio da Alvorada – Primeiro edifício inaugurado em Brasília. Capital Social – Diz respeito aos níveis de organização. sendo seu nome a sigla para rhythm and poetry (ritmo e poesia). reunidos a cada dois anos para discutir e deliberar sobre importantes questões no âmbito de seu mandato. Pág. Karl Marx – Economista. Seus contos são verdadeiras obras-primas de contenção e rigor construtivo. drogas e marginalidade. Pág. teatrólogo. nasceu em 1818 e morreu em 1883. a Ciência e a Cultura) – Organização que conta com mais de 191 Estados-Membros. Esplanada dos Ministérios – Região localizada no Eixo Principal de Brasília onde estão situados os edifícios de todos os ministérios do Governo Federal. bem vestidos e que ostentam sua posição social. em Brasília. Surgiu em 1990. Pág. Foi um grande “retratista” do Brasil e dos brasileiros. 65. A trama desenvolve-se a partir da mistura entre elementos do real e do ilusório. Solano Trindade – Poeta. 53. Pág. 71. Pág. foi enforcado e teve seu corpo esquartejado e exposto em praça pública. Darcy Ribeiro – Antropólogo. Pág. Nasceu no dia 24 de julho de 1908. sociais e ambientais implementadas pelo governo. 52. a capital brasileira. conhecido por Che Guevara ou El Che. Machado de Assis – Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro e viveu na segunda metade do século 19 e início do séc. apresenta as regiões denominadas Asa Sul e Norte. no meio situa-se a classe média e no topo da pirâmide estão as chamadas elites. Socialismo – Denominação genérica de um conjunto de teorias socioeconômicas. bem como dos órgãos das esferas governamentais federal. Pág. Ficou conhecido por ser um guerrilheiro revolucionário e por ter participado da Revolução Cubana e do governo de Fidel Castro em Cuba. uma grande sensação literária. Centro de Voluntários – Parte integrante do Programa de Voluntários da Comunidade Solidária. principalmente na década de 1970. classe ou grupo social. que abrigam as super quadras residenciais e setores de comércio e serviços. Pág. Pág. 66. Asa Sul e Asa Norte – O projeto da cidade de Brasília tem a forma de um avião. nasceu na Argentina em 14 de maio em 1928. ideologias e práticas políticas que postulam a abolição das desigualdades econômicas entre as classes sociais. Pág. foi tropeiro. . Pág. irrite. Capitalismo – Sistema econômico que tem por base o lucro e a propriedade privada dos meios de produção. 69. Matrix – Filme norte-americano de ficção que conta a história de um jovem programador de computador que é atormentado por estranhos pesadelos. ou a completa abolição do conceito de classes. doutrina política que prega a formação de uma sociedade sem classes. professor. Pág. 68. sua preocupação maior está na reflexão sobre a existência humana. Ações afirmativas – Propostas que pretendem estimular o protagonismo da população negra. Pág. Legislativo e Judiciário.158 159 abolicionista. para atender demandas específicas de grupos sociais. Pág. Representa a união dos poderes Executivo. 52. Núcleo Cultural Força Ativa Tiradentes – Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Minas Gerais em 1746. Dono de um texto impecável e de um humor refinado. foi ministro de Educação. foi quem deixou presença mais forte. filósofo e socialista alemão. 70. Pág. Pág. Racionais MC’s – Um dos mais importantes grupos de rap e hip-hop do Brasil. Rap – Gênero musical surgido no início da década de 1970 nos Estados Unidos. em conjunto ou não com a sociedade civil. Pág. até hoje. 37. Latrocínio – Assassinato com objetivo de roubo. Teve origem na oposição ao modelo de reforma agrária imposto pelo regime militar. nas suas contradições essenciais. 66. no sentido de pensar e executar ações pertinentes à desconstrução do racismo e do preconceito. Pág. 65. Reconhecido nacional e internacionalmente como um dos maiores escritores brasileiros. Criou a Universidade de Brasília. 41. Pág. Che Guevara – Ernesto Guevara de la Serna. Playboy – Denominação popular que se dá aos jovens de classe alta e média-alta. pessoas excluídas e marginalizadas). MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) – Movimento político-social brasileiro que busca a reforma agrária. 37. foi construída e fundada Brasília. de conexão horizontal e de regulamentação democrática de uma sociedade. acontecimento. Grupo Interagir Praça dos três poderes – Praça idealizada pelo urbanista Lúcio Costa e localizada no início do Eixo Monumental. Foi líder da Inconfidência Mineira e primeiro mártir da Independência do Brasil. IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – É o principal provedor de dados e informações sobre o país. Um de seus últimos livros – Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) narrado a partir do ponto de vista de um defunto. ministro-chefe da Casa Civil e senador. 58. ligados à coletividade negra brasileira. Juscelino Kubitschek – Presidente do Brasil de 1956 a 1961. com igualdade social e econômica para todos. estadual e municipal. 52. raça. por isso. tornando-se conhecido pela habilidade com que arrancava e colocava novos dentes feitos por ele mesmo. 42. 20 (1839-1908). Pág. em Recife. sendo chamado “o poeta dos escravos”. 41. a fim de atender aos princípios da justiça social e ao aumento de produtividade. Pirâmide social – Esquema de representação das classes sociais cujo formato se assemelha ao de uma pirâmide. política. pintor. 59. circundam o Plano Piloto. De todos os escritores negros. 59. 50. Pág. ensaísta e romancista. literária e científica. Tem na base as classes mais pobres (trabalhadores. Pág. ator e folclorista. nasceu em Montes Claros em 26 outubro de 1922 e faleceu em 17 de fevereiro de 1997. Pág. 72. UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação. Pág. Desenvolveu vasta atividade educacional. 72. Segundo Jorge Amado. é um dos clássicos da literatura brasileira e constitui. No seu governo.

abastecido com água da chuva ou dos caminhões pipa das prefeituras. 83. com diferentes denominações e peculiaridades. 101. onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Perdida a tradição religiosa. Jandaia – Ave pequena muito parecida com o periquito. são árvores cultuadas pelos orixás-voduns. que no tempo das secas é aproveitada na alimentação do gado. Pág. Tilápias – Peixes comestíveis de água doce. moradoras das casas grandes. Gregório de Matos – Poeta nascido na Bahia em 1633. após esgotar toda a sua energia na produção de frutos e brotos. pois dá ótima sombra e alimento ao gado faminto. Pág. por suas grandes reservas de água. A floração acontece uma única vez e. Dá nome a uma cidade na Bahia e a outra no Ceará ( Juazeiro do Norte).As inflorescências são imensas. 109. Serigüela – Fruta típica do Nordeste brasileiro. 115. PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) – Organização que tem como objetivo principal o combate à pobreza e à miséria no mundo. ato de livrar-se do poder. José de Alencar – Autor de Iracema. Delivery – Entregas em domicílio. Pág. 119. 89. ó quão dessemelhante. em Macunaíma (1928). Pág. 106.. Iracema – Obra de José de Alencar. a planta mãe morre. junto com o dendezeiro. em geral integrantes de uma determinada categoria profissional. conhecido no mundo todo e falecido em 2001. 103. Pág. Êxodo Rural – Movimento de abandono do campo por seus habitantes. Pág. Pág. 77. Pág. a pitangueira e a gameleira. . Sisal – Planta produtora de fibra. com pequena orquestra de percussão que antigamente acompanhava os séqüitos negros dos reis de congos. Gameleira – Árvore grande. Multiplica-se na vegetação da caatinga. Pág. 83. cera. CE. Matuto – Aquele que vive no mato. traz para esse livro a presença de José Alencar. Munguzá – Comida típica nordestina. e diz assim: “Triste Bahia. da beleza e da pobreza. Pág. 78. Pág. Cisternas – Espécie de poço. Foi membro da Academia Brasileira de Letras por 40 anos e vendeu mais de 20 milhões de livros. Faz o ninho no oco da carnaúba. Pág. Candomblé – Religião Afro-brasileira praticada em grande parte do Brasil. seja pela dedicatória da 1a edição (“A José de Alencar/pai-de-vivos que brilha no vasto campo/do céu” ). 107. a jandaia está em extinção. Pág. Pág. 77. 85. No Candomblé. mas permanece no canto da jandaia.Tem inúmeras utilidades: alimento. na época da escravidão. O livro começa assim: “Verdes mares bravios de minha terra natal.. exerce atribuições de fiscalização externa.Tem funções legislativas. 119.160 161 Protagonismo Juvenil – É a atuação consciente e criativa do jovem na busca de soluções para desafios dos ambientes em que vive e convive. 89. Pág. Há um vínculo forte entre esse começo e o fim do livro. provenientes da África e recentemente introduzidos no Brasil. 77. roceiro. atingem mais de dois metros de altura.Viveu na segunda metade do século 19 e é um dos maiores escritores brasileiros. escrita em 1944. Pág. Pág. 116. principalmente para dar lugar ao gado. uma favela de 30 mil habitantes na periferia de Fortaleza. 115. leite de coco. 101. Juazeiro – Árvore de cinco a dez metros de altura que aparece na caatinga e no polígono da seca. que aborda o tema das ruas. Pág. contaminados pela memória de Iracema: “No fundo do mato-virgem nasceu” não a virgem dos lábios de mel. 106. surge “E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Maracatu – Grupo carnavalesco pernambucano.. Monjolo – Engenho primitivo. no qual se inscreve a memória do nascimento do Ceará . 119. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói”. Não há a figura do patrão e todos os empregados participam das decisões administrativas em igualdade de condições. Sindicato – Associação fundada para a defesa de interesses comuns a seus participantes. conta a lenda da índia Iracema que se apaixona por um guerreiro branco. 115. Mulungu – Árvore nativa do Brasil. em busca de emprego e melhores condições de vida. a mangueira. Pág. Pág. Aliança com o Adolescente Carnaúba – Tipo de palmeira com inúmeras finalidades de aproveitamento. Nasceu em Recife em 1921 e faleceu em 1997. que. o grupo convergiu para o Carnaval. 94. que para o povo é suspeita. Pág. 118. Pág. Pág. dos mistérios e da gente da cidade de São Salvador. 83. feito de concreto. 78. PETI (Programa para Prevenção e Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil) – Programa de transferência direta de renda do Governo Federal para famílias de crianças e adolescentes envolvidos no trabalho precoce. 120. Pág. movido por água. 101.”. Mouca – Termo regional utilizado para indicar surdez. Pág. endêmica do Nordeste. fundado sobre a língua e a cultura brasileiras. Iaiás – Nome dado às filhas dos senhores de engenho. Câmara dos vereadores – Órgão municipal formado por vereadores eleitos.. feita a base de milho. Um de seus poemas foi musicado por Caetano Veloso nos anos 70. Pág. seguem para os centros urbanos. Pág. Pág. a cajazeira. 73. Pág. tendo sido responsável pela construção de um projeto literário de raízes nacionais. Rubem Alves – Escritor mineiro nascido em 1933. os supersticiosos não atravessam sua sombra. 117. Cazuza – Cantor e compositor carioca. 101. Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) – Conjunto de indicadores que medem a qualidade de vida e o progresso humano em âmbito mundial. Pág 77. Paulo Freire – Um dos grandes educadores contemporâneos. Bahia de todos os Santos – Obra de Jorge Amado. o lenho e principalmente a cera. Pág. açúcar e canela. 108. Banco Palmas – Banco criado por moradores do Conjunto Palmeira. financeira e orçamentária. a jaqueira. Pág. Pág. Mandacaru – Planta arborescente. 91. Autogestão – Forma de gerência em que todos os indivíduos atuam como colaboradores de si mesmos. Pág. frutos. Pág. Pág. Com a derrubada da carnaúba nativa. Seu objetivo é fomentar pequenos negócios e estimular a comunidade a consumir o que ela mesma produz. Alevinos – Filhotes de peixes. Conhecido como canjica em São Paulo. Autor de vários livros e artigos. conhecido como “Boca do Inferno” por sua ironia e pela crítica aos costumes e à política da época. no lugar da jandaia. 81. quando Iracema morre. mas “Macunaíma. É uma benção para o sertanejo. muito apreciada por sua floração vermelho-vivo. Pág. respeitado mundialmente. Pág. 80. falecido em 1990. vítima de Aids. Projeto Juventude e Participação Social/MOC Ouricuri – Palmeira também conhecida como licuri e coqueiro-cabeçudo. Utilizam-se suas folhas. Emancipação – Libertação. chegando até o litoral do Nordeste.”. Bansol Jorge Amado – Grande escritor baiano da cidade de Itabuna. 78. Já ao final. herói de nossa gente” (início). seja pelo início e pelo final. óleo para sabão e artesanato. Mário de Andrade.

Henry Ford – Empresário. Pág. Igarapé – Canal estreito de água que só dá passagem a canoas ou pequenos barcos. Fulora – Como se fala no sertão. 139. ribeiro. Pág. Fazia sermões e discursos em praça pública. Atribui-se a ele o ato de curar doenças e salvar vidas. clarão. os revoltosos contestavam o regime republicano recém-adotado e os desmandos dos coronéis locais. “baile ordinário. liderado por Antonio Conselheiro. 120. Faz seu ninho no chão. atraindo uma multidão de miseráveis sertanejos que. feito de suco de mandioca fresca. Isso incomodou as autoridades e deu origem à Guerra de Canudos. Surubim – Peixe de água doce. 121. sua carne é muito apreciada em algumas regiões do Brasil. vive em praias arenosas de rios e lagos. O forró é uma festa que foi transformada em gênero musical. com enormes unhas viradas para trás. Indicam mudança de tempo. Pág. também conhecido por arrasta-pé. Forró – Segundo o folclorista Câmara Cascudo. o equivalente a uma montanha dez vezes mais alta que o Pão de Açúcar. sempre com a preocupação de desvendar a terra e o homem do Brasil. com muitos requebrados em face de uma personagem invisível. Candeeiro – Utensílio em que se coloca azeite. 133. feito de feijão e arroz. O forrobodó. o que significa que vêm de formações geológicas mais antigas do que as águas barrentas do rio Amazonas. 121. Pág. sem etiqueta”. Pág. com longas folhas. é um de seus poucos afluentes de águas escuras. Lume – O mesmo que luz. 135. habita e protege as matas. assim. Possui vários usos industriais. a popular sanfona de oito baixos. sociólogo e engenheiro. Pág. 137. Além de Os Sertões. em alguns trechos. Pág. e pés de burro. São nuvens altas e delicadas que lembram pinceladas no céu. Brasil. Pág. Pág. riozinho. obra-prima que retrata a Guerra de Canudos. 135. coberto por pêlos densos. Catitu – Mamífero não ruminante que apresenta uma faixa de pêlos brancos no pescoço. Rio Tapajós – Afluente da margem direita do rio Amazonas cuja nascente se encontra no Estado do Mato Grosso. 121. 146. quadrilha. Pág. Pág. da mesma família do bagre. Tem os calcanhares voltados para diante e os dedos dos pés para trás. 121. escreveu relatos de viagens que realizou pelo interior do país (entre outras.162 163 Acarajé – Comida típica baiana com camarões e muita pimenta. dono da companhia Ford. Ele não tem um leito definido: nos períodos de cheia. Estariam. que o tornam invulnerável a balas. rojão. em lugar de floresce. Pág. Seu ninho tem a forma de um cesto. Carrega para o Oceano Atlântico 800 milhões de toneladas de terra por ano. 133. Pág. Pág. ribeirão. com 7. Socó – Ave de água. .200 quilômetros. querosene ou gás inflamável para iluminação. bate-chinela ou fobó. semelhante a um grande macaco. com manchas amareladas. e deságua no Oceano Atlântico. aquecido até tomar a consistência e a cor do mel de cana. Tucupi – Molho tradicional da culinária do Norte brasileiro. realizada em festas de família ou populares. que de repente param de tocar. Pág. Pág. 135. jornalista. Juízo Final – De acordo com algumas denominações cristãs. Euclides da Cunha – Escritor. Pág. Rio Amazonas – Rio sul-americano que nasce na cordilheira dos Andes. penadas. 134. 133. 136. no Peru. 139. 137. Baião de Dois – Prato típico da culinária nordestina. sempre foi movido por vários tipos de música nordestina (baião. 121. 152. Saúde e Alegria Cirrus – Tipo de nuvem formada por cristais de gelo. Os Sertões – Livro-reportagem escrito por Euclides da Cunha. Pág. 135. encontradas na região amazônica. xote) e animado pela “pé de bode”. Pág. 136. 133. Pág. Carimbó – Dança regional maranhense que se assemelha à capoeira baiana. Paca – Nome comum de um roedor de cor escura. os batalhões do exército acabaram por destruir o povoado e dizimar a população. 125. desceu os rios Amazonas e Purus). Euclides da Cunha foi enviado ao sertão da Bahia como repórter do jornal O Estado de São Paulo. Pág. povoado do alto sertão da Bahia. Antonio Conselheiro – Personagem da História brasileira. Mapinguarí – Animal lendário. Rio Arapiuns – Um dos braços do rio Tapajós. sonhavam criar uma nova forma de vida em comum. no Brasil central e no Nordeste. Maçarico – Pequena ave de água. “divertimento pagodeiro”. 133. Nela. no Pará. livres dos comandos dos coronéis e do governo. Pág. É o mais longo rio do mundo. líder na indústria automobilística nos Estados Unidos. Desfeiteira – Brincadeira de salão típica do Amazonas. em que. cozidos juntos numa mesma panela. ou seja. 121. Suas águas são verdeazuladas. 121. segundo a superstição popular. Pág. Pág. Nessa guerra. o Juízo Final será o acontecimento derradeiro do fim deste mundo. os pares são obrigados a passar diante dos músicos. Babaçu – Nome de várias espécies da família das palmeiras. coco. riacho. Pág. o nome forró deriva de forrobodó. xaxado. contando a história da Guerra de Canudos. após sucessivas derrotas. do tamanho de uma garça. Possui variadas formas. 137. Nosso Senhor do Bonfim – Santo de grande devoção do povo baiano. Curupira – Ente fabuloso do folclore brasileiro que. Guerra de Canudos – Movimento político-religioso brasileiro que durou de 1896 a 1897. Pág. Pág. 137. Pág. o julgamento de Deus que premiará os justos e condenará os pecadores. Pág. líder espiritual e político do povo de Canudos. no Rio de Janeiro. pendurado nas árvores próximas a rios e lagos. as margens do rio se alargam em até cem quilômetros de extensão. junto com ele.

Neide apresentou e dirigiu o Programa Caminhos e Parcerias. Participou. e. Foi Presidente do Conselho Diretivo do Centro Colombiano de Responsabilidade Empresarial e da Confederação Colombiana de ONGs. o Prêmio Ethos e o Grande Prêmio Barbosa Lima Sobrinho. Física e Matemática. da Reforma Educativa de Minas Gerais e do Chile. desde os anos 80. entre eles o Líbero Badaró. Depois de trabalhar três anos como repórter do jornal Folha de S. em São Paulo. Desde os anos 70. Esse seu trabalho com o “Caminhos” foi amplamente reconhecido: o programa ganhou 11 prêmios jornalísticos no Brasil e no exterior.164 QUEM SOMOS 165 A autora Neide Duarte é jornalista. o BID. Entre 1998 e 2005. É Mestre em Investigação e Tecnologias Educativas e Decano da Faculdade de Educação da Universidade Javeriana em Bogotá. o Banco Mundial e alguns governos. Globo Repórter e Fantástico. . Neide ingressou na Rede Globo. o Vladimir Herzog.Paulo. Estudou Filosofia. na TV Cultura. onde está atualmente. Neide viajou pelo Brasil para contar a história de projetos sociais. O prefácio José Bernardo Toro é colombiano. Toro vem formando especialistas em planejamento em toda a América Latina. onde ficou 16 anos fazendo matérias para o Jornal Nacional. no governo do Presidente Frei. vem prestando consultoria para o UNICEF. por exemplo. Antes de voltar como repórter especial para a Globo. o Mídia da Paz. formada pela Faculdade de Comunicações e Artes da Fundação Armando Álvares Penteado.

sala 4 Canela – Salvador – BA – CEP 40110-100 TEL: 71 3263-7369 bansol@ufba. que envolveu mais de 300 jovens em escolas de ensino médio da cidade de Santos e foi reconhecida pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) como uma das quatro melhores práticas de voluntariado juvenil da América Latina e Caribe em 2002. A América Latina entrou na programação da Fundação Kellogg no início da década de 1940.América Latina e Caribe.ufba. entre outras regiões. a Fundação Kellogg é hoje uma das maiores financiadoras privadas do mundo.br Bansol Av. atrás do frescor trazido pelo vento. O aracati é uma brisa que se forma no litoral e passa todos os dias.saudeealegria. 315 – apt. Centro Comercial – Alphaville CEP 06454-000 – Barueri/SP – Brasil wkkfbr@wkkf. Peru e Equador.org.geledes.org. assim como a brisa que refresca o interior do Nordeste.br – www. Desde então.com Geledés Rua Santa Isabel.aracati. a Aracati vem desenvolvendo projetos de comunicação (como este livro) e de educação. no Caribe).org. 153.br Saúde e Alegria Travessa Dom Amando. s/n. Bloco A. 1084.br – www.institutoalianca. 55 Campinas – SP – CEP 13025-000 TEL: 19 9136-1950 grupo@e-jovem.br – www. nº 61.br Núcleo Cultural Força Ativa Rua Jardim Tamoio.protagonismojuvenil.org. governos locais e sociedade civil (empresas.com. Em suma. Nordeste do Brasil e região andina da Bolívia.br – www.bansol.org. Escola de Administração.br Aliança com o Adolescente Rua Frederico Simões. sala 1327 Brasília – DF – CEP 70713-000 TEL: 61 3036-9675 portal@protagonismojuvenil. 211 apt.moc. em especial os jovens.br Rua Mourato Coelho.org. Reitor Miguel Calmon. Mas a inspiração para o nome da organização vem do Nordeste. mais de 2 mil projetos receberam apoio na maioria dos países latino-americanos e em alguns países do Caribe. 460 – Pinheiros CEP 05417-001 – São Paulo/SP – Brasil Tel: 11 30311133 – Fax: 11 38198593 contato@aracati.org.br Projeto Juventude e Participação Social / MOC Rua Pontal.org. conj. é capaz de tirar as pessoas. Um aracati que é capaz de gerar movimentos de participação.org. comunidade em geral).org. através da aplicação prática de conhecimentos e recursos para melhorar a qualidade de vida desta e das futuras gerações. 44B São Paulo – SP – CEP 08255-010 TEL: 11 65158223 – 94024447 nucleoforcativa@ig.wkkf-lac. térreo. 697 Santarém – PA – CEP 68005-420 TEL: 93 3523 1083/3522 2161 – FAX: 93 3522-5144 psa@saudeealegria. Sua missão é ajudar as pessoas a ajudarem a si mesmas. A crença na capacidade dos brasileiros de construir juntos um país melhor para todos fez surgir um outro aracati. 137 – 4º andar – Vila Buarque São Paulo – SP – CEP 01221-000 TEL: 11 3333-3444 geledes@geledes. geralmente nos fins de tarde. A Fundação Kellogg Criada nos Estados Unidos pelo pioneiro da indústria de cereais Will Keith Kellogg.br www.br Escritório Regional da América Latina e Caribe Alameda Rio Negro.e-jovem. com o objetivo de influenciar políticas públicas direcionadas à juventude e quebrar o ciclo de reprodução da pobreza. um aracati de mobilização social. comércio. aproximadamente.org. de suas casas.166 CONTATOS 167 A Aracati A Aracati é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de participação juvenil no Brasil.org . Torre Norte. Um aracati que. Quando o aracati passa as pessoas saem de suas casas e encontram-se nas ruas. por cidades e vilas de clima muito quente e seco no interior do Ceará. como a Gincana da Cidadania.Atualmente. Cruzeiro Feira de Santana/BA – CEP 44017-170 TEL: 75 3221-1393 – FAX: 75 3221-1604 moc@moc.org.org – www. A sede da Aracati fica em São Paulo. Sul da África.br – www. sala 1312 Caminho das Árvores – Salvador – BA – CEP 41820-774 TEL: 71 2107-7400 – FAX: 71 2107-7424 ia@institutoalianca. Desde 2001.geocities. 31. Grupo E-Jovem Rua Coronel Quirino. As áreas onde há projetos apoiados pela Fundação Kellogg são: Sul do México e América Central (incluindo Haiti e República Dominicana. A estratégia de trabalho é financiar conjuntos de projetos que envolvam ONGs. com doações nos Estados Unidos. Edifício Brasília Shopping.br – www. o orçamento anual da instituição para a região é de 24 milhões de dólares.com/athens/cyprus/3465/ Grupo Interagir SCN Quadra 5.br – www.com – www.

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