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TEXTOS

Editorial

Impulsionado pelo interesse sobre o tema do XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano (Sal- vador, nov/2012): Mulheres de hoje - Figuras do feminino no discurso analítico, causa do trabalho intenso das Comissões e das novas contribuições de colegas da EBP e de outras Escolas da AMP, Ou- tras Palavras n. 3 chega rapidamente a seu destino,

o leitor. Em “O feminino no sinthoma”, Heloisa Caldas traz como exemplo da aspiração ao feminino de nossa época, a enxurrada de modificações corpo- rais, resposta frequente de sujeitos à promessa da ciência, aliada ao capitalismo, de realizar o sonho de gozarem cada vez mais e melhor. A partir de Lacan, ela lembra que por mais que tais ficções/ modificações do corpo possam atualmente variar,

persiste o Um primeiro, sinthoma, cicatriz correla- ta à experiência de gozo fundadora do corpo, dian- te do encontro com o feminino. Para a psicanálise,

o enigma do feminino jamais será decifrado: fren-

te à disparidade entre gozo feminino e saber, de nada adiantam a verdade da produção científica, a beleza das plásticas ou o bem higienista da saúde. Retomando a diferença proposta por Lacan entre pudor e vergonha, conclui que uma psicanálise “detém o sujeito no ponto ético de seu sinthoma como tratamento do gozo feminino”. O gozo feminino, agora em sua faceta de gozo extático, é tema da rubrica coordenada pela C. Científica:

“A face de Deus: suporte do gozo feminino”, comentário de Shula Eldar (ELP-Barcelona), é seguido de uma bibliografia sobre o tema. O Link resenhas reúne textos sobre Patu – a mulher abismada, de Ana Lúcia L. Holck, lançado em 2008: o prefácio ao livro de Ram Mandil e o bate-bola entre Antonio Teixeira e a autora. Musas, Medusas e Medeias focaliza um personagem que fez sucesso em 1976, e arrancava gritos das fãs que, excitadas, lhe atiravam calcinhas. Quem se lembra? E ainda o anúncio das Preparatórias para o XIX EBCF a serem realizadas na EBP-SC e na Delegação Paraná. Em Natal (16/03 às 19 h, Aliança Francesa), a conferência de Romildo do Rêgo Barros, A diferença feminina. Acrescento uma boa notícia: a editora de OP (taniaabreu.ta@gmail.com) comunica que receberá textos curtos (no máximo 1000 caracteres) sobre o tema do Encontro.

Foto: Chema Madoz
Foto: Chema Madoz

Elisa Monteiro (EBP-AMP)

receberá textos curtos (no máximo 1000 caracteres) sobre o tema do Encontro. Foto: Chema Madoz Elisa

OUTROS

TEXTOS

O feminino no sinthoma

Heloisa Caldas

Recentemente tive a oportunidade de fazer alguns comentá- rios sobre o feminino para um dos boletins de Papers. Abordei a distinção entre o corpo que existe e aquele do semblante mas- culino ou feminino, apoiando-me no que J.-A. Miller vem distin- guindo entre o ser e a existência. Extraio de lá alguns pontos para Outras palavras. Uma forma lacaniana de tratar o feminino é situá-lo além dos limites definidos pelo significante. O feminino os ultrapassa e não se define: garganta de Irma, umbigo do sonho, continente ne- gro, ato tresloucado de Medeia, furo no saber, gozo infinito. No avesso de todas as medidas, ele não se define, mas se manifesta fundamentalmente como gozo. O fato de não se submeter às leis não significa que não cause efeitos, embora em descontinuidade com o esperado. Com isso, o feminino provoca, desde sempre, o sonho humano de aperfeiçoar sistemas de domínio. Ainda assim,

por mais que se inventem leis e sintomas, o feminino insiste em seu caráter rebelde. Nesse sentido, a tendência atual a gozar mais e mais sinaliza uma aspiração ao feminino, uma vontade de sugar de sua fonte inesgotável. Atualmente as modificações corporais ganham destaque, impelidas pela ciência e pelo mercado. Com muita frequência, sem levar em conta o sujeito, sonha-se com um feminino que se defina pela imagem do corpo e possa ser colocado em um corpo, extirpado em outro. Se não levamos em conta a implicação do su- jeito com o corpo de gozo, podemos cair no engodo de que, ao passar das duas categorias sexuais clássicas às infinitas nuances do arco-íris, podemos viver mais e melhor a sexualidade. Para a psicanálise, no entanto, essa enxurrada de modificações corporais não elimina nem explicita o enig- ma do feminino. Ele resta conectado ao ponto traumático de fundação do sujeito em resposta à alteridade do corpo que se goza. Ponto em que o surgimento do sujeito se deu, quando essa experiência ocorreu sem que se tivesse saber algum. É uma experiência de ‘não saber’ marcada por um significante ocasional que

Brian Fogarty - Portrait of Alexisbea, 2010

ocasional que Brian Fogarty - Portrait of Alexisbea, 2010 adquire, então, o estatuto de S1. A

adquire, então, o estatuto de S1. A partir dele, o sujeito tende a produzir saberes e ampliá-los, sem alcançar, no entanto, transformar o ‘não saber’ em saber tudo. Lacan chamou de sinthoma a essa matriz inaugural em coalescência ao real do gozo, que para a psicanálise aponta ao feminino. As ficções/modificações sobre o corpo podem variar, mas Um significante primeiro existe e persiste como cicatriz correlata à experiência de gozo fundadora do corpo. Trata-se de uma experiência original de mal-estar. Não se alcança escondê-lo, o que durante séculos se tentou, mas tampouco se consegue extirpá-lo.

A hipertrofia simbólica atual não favorece mais esconder o que não se sabe sobre o gozo. Ao contrário,

ela convida a superexposição do que se faz para gozar na tentativa vã de acabar com o mal-estar. Assim, da

vergonha de não se dominar o gozo, só resta a de não se gozar mais ainda. O sujeito é levado então, pela

ciência e pelo capitalismo, aos confins do que pode fazer, saber ou dizer em relação ao gozo na aposta de que um dia tudo será resolvido.

O feminino se esclarecerá? Para a psicanálise tal esclarecimento não virá jamais. Lacan mostrou isso apon-

tando à distinção entre a vergonha e o pudor. Ele propõe pensar o pudor como “amboceptivo das conjuntu- ras do ser”, ou seja, “duplamente conectado ao sujeito e ao Outro”. Como uma letra litoral, o pudor é signo do feminino, sua Bedeutung. Em outros termos: a pele fina que separa o saber do não saber, fonte de gozo. Ponto original do sexo, na medida em que a instituição de todo saber se dá diante do horror ao sexo como mistério, segundo a indicação lacaniana, o pudor convém como única virtude possível diante da não relação sexual. Ou seja, para a disparidade entre o gozo feminino e o saber não adianta a verdade da produção cien- tífica, a beleza das plásticas ou o bem higienista da saúde. O pudor não oculta tudo, como pretende fazer o recalque, tampouco devassa, causado por uma vontade de gozo. Ele detém o sujeito no ponto ético de seu sinthoma como tratamento do estranho gozo feminino.

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TEXTOS

MM&M

Musas, Medusas, Medeias – Wando

Situar a figura do recém-falecido Wando na série Musas, Medusas e Medeias é um modo de fazer ver a dimensão do fe- minino suscitada por essas figuras mitológicas sob um curioso enquadramento: a cena do homem cantando para mulheres. “Queria tocar para as moças”, disse Wando ao falar do início de sua carreira. Foi precisamente com a canção ‘Moça’ que, em 1976, alcançou sucesso nacional. A canção que lembra o

estilo dos trovadores, se destaca pelo verso: “eu sei que já não

é pura, teu passado é tão forte pode até machucar”. Quando

na mesma canção, pede que “jogue o teu sentimento todo em minhas mãos”, prenuncia o que será a sua marca – as calcinhas em suas mãos. A profusão de calcinhas em suas apresentações não é muito diferente da profusão de serpen- tes na cabeça da medusa. Ao mesmo tempo em que elas põem em cena a esfera sexual, também encobrem

o real da castração. Ser destinatário das calcinhas voadoras é também ser alvo da demanda de amor infinita das mulheres que o ouvem. De certo modo, as calcinhas encarnavam algo do ser de cada uma de suas aman- tes, os gritos por elas entoados são testemunha desse indizível.

gritos por elas entoados são testemunha desse indizível. Luiz Felipe Monteiro Participante da EBP-Ba Atividade

Luiz Felipe Monteiro Participante da EBP-Ba

indizível. Luiz Felipe Monteiro Participante da EBP-Ba Atividade preparatória para o XIX Encontro Brasi - leiro

Atividade preparatória para o XIX Encontro Brasi- leiro do Campo Freudiano

Delegação Paraná

Atividade Preparatória para o XIX Encontro Brasileiro do CF Psicanálise Século XXI: Psicanálise conexão cinema contemporâneo Filme: “A pele que habito”. Questões sobre o feminino. Participação: Teresa Pavone, Maria Otília Holtz e Nohemí Brown Data: 29 de março Horário: 19h Local: Sede da Delegação Paraná: Rua Tibagi 294, conj. 1106, Centro, Curitiba, PR. Tel: 3324-6432

Atividade Preparatória para o XIX Encontro Brasileiro do CF Noites da Escola Una Mesa: Clínica da posição feminina Participação: Gilberto Rudeck da Fonseca e Fátima Fonseca Ramos Data: 31 de maio Horário: 19h Local: Sede da Delegação Paraná: Rua Tibagi 294, conj. 1106, Centro, Curitiba, PR. Tel: 3324-6432

Atividade Preparatória para o XIX Encontro Brasileiro do CF Noites da Escola Una Participação: Zelma Abdala Galesi e Cesar Skaf

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Data: 30 de agosto Horário: 19h Local: Sede da Delegação Paraná: Rua Tibagi 294, conj. 1106, Centro, Curitiba, PR. Tel: 3324-6432

Delegação Maranhão - “O feminino no séc. XXI”

Responsável: Thaïs Moraes Correia - tel. 9114-5833 Datas: 16 / 30 de março Horário: quinzenalmente às sextas- feiras, às 18:30 h. Atividade aberta Local: DG/MA - Rua Perdizes s/n sala 205, Ed. Pólo Empresarial Console. Renascença II - São Luís, Mara- nhão.

Essa atividade nos leva a pensar sobre o feminino no terceiro milênio, quando o mundo e os homens se feminizam e as mulheres parecem estar se masculinizando em várias áreas. Parece haver uma distância de anos-luz entre as mulheres que Freud analisou e as de nossos dias. Hoje a mulher compete com o homem no mercado de trabalho, e constrói junto com eles (ou sem eles), modelos familiares inteiramente inusitados que seguem a configuração hipermoderna da era globalizada. Interrogamos se suas fantasias, sintomas e desejos mudaram tanto quanto a sua vida cotidiana. Se a revolução sexual trouxe alguma luz ao gozo femini- no, se essa revolução foi a virada da “inveja do pênis” para passar a ser invejada pelos homens por seu gozo suplementar.

Delegação do Rio Grande do Norte

do pênis” para passar a ser invejada pelos homens por seu gozo suplementar. Delegação do Rio

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Místicas O Êxtase de Santa Teresa , Gian Lorenzo Bernini (1598-1680). Pode ser vista na

Místicas

Pode ser vista na capela Cornaro, na igreja Santa Maria della Vitória, Roma. “A face de Deus: suporte do gozo feminino” 1 Shula Eldar ELP-Barcelona Quando Lacan afirmava isto, queria dizer que acreditava em Deus? Acreditava no gozo da mulher: saber para além da palavra, gozo-a- -mais que nos encaminha à existência, abertura ao infinito.

A experiência mística abre a uma estranha liberdade: a mansão do

feminino. Começa quando algo totalmente real sacode os corpos. Inco- mensurável dor vazia, dizem. São geralmente mulheres as que se encon- tram com Isso e, se rechaçam ao começo ultrapassar essa borda, que é o muro da estrutura, se se opõem, se fazem a isso obstáculo, chega um ponto no qual se produz uma mutação e consentem em desejar esse abismo onde sentem uma presença que chamam Deus: beatitude, plenitude, que não é nem êxtase nem ”

arrebatamento mas “um bem em segundo grau, que não é causado por um objeto a minúsculo

segundo grau, que não é causado por um objeto a minúsculo 2 . Vez por outra

2 .

Vez por outra oferecem seus testemunhos, por esse lado se assemelham ao mártir. Seus escritos brotam de lá, da nadificação do eu, de um para além dos objetos. Poesia, diários, cartas, “Essas jaculações místicas, ”

não é lororota nem só falação

Elas revelam a invenção de outra possibilidade de vida, uma nova realidade que não está ligada à falta, e implicam um consentimento ao real que convém abordar sem prejulgar, nem tampouco apoiar-se na facili- dade das categorias clínicas às quais essa experiência transcende e transborda. Essa possibilidade de vida que se expande até o infinito é para elas, “a vida perfeita”5: um espaço topoló- gico diferente, um lugar onde repercute a ex-sistência do Outro.

3, “escritos que surgem da abundância do coração” numa língua nova.4

Referências

1 - LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda, cap. V: ‘Deus e o Gozo d’A/ Mulher’. RJ: Jorge Zahar Editor, 1985, 2a edição, p. 103.

2 - Ibid, p. 104.

3 - Ibid, p. 103.

4 - MILLOT, Catherine. La vie parfaite. Paris: Gallimard, 2006, p. 70.

5 – Ibid.

Mais sobre o assunto

* Frei Beto diz no prefácio de O livro da vida. Santa Teresa d’Avila, Penguin-Companhia das letras, 2010:

“Feminista avant la lettre, essa monja carmelita do século XVI, ao revolucionar a espiritualidade cristã, inco-

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modou as autoridades eclesiásticas de seu tempo, a ponto de o núncio papal na Espanha, dom Felipe Sega, denunciá-la, em 1578, como ‘mulher inquieta, errante, desobediente e contumaz’”.

* Leia trecho retirado do capítulo ‘Bernini — o criador de milagres’ do livro O poder da arte, de Simon Schama, no blog da Companhia das Letras http://www.blogdacompanhia.com.br/2010/09/a-santa-teresa- -de-bernini/

* « Não há místicas como as de antigamente » leia Graciela Musachi em « O buraco da vasilha » www.

pagina12.com.ar/diario/psicologia/9-116060-2008-12-04.html

* « Não se preocupem do que querem os homens, façam o que Deus pede, ele deve ser seu único senhor. Ai reside a liberdade » Lou-Andreas Salomé.

Bibliografia

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RESENHAS

RESENHAS

Mulher abismada, mulher em abismo

PREFÁCIO

Ram Mandil / outubro 2008

É como Patu que Ana Lucia Lutterbach Holck, ao compor este livro, nos

oferece a leitura

Isso sem abrir mão de produzir uma obra em si mesma erótica, que convoca à aproximação e à criação de uma zona de intimidade com o que

de uma experiência singular da posição feminina .

o que de uma experiência singular da posição feminina . - 6 - Ana Lúcia Lutterbach

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Ana Lúcia Lutterbach Holck: Patu A mulher abismada, Rio de Janeiro, Subversos, 2008.

insiste em “não se escrever”.

A autora nos alerta que sua escrita não provém do lugar de escritora, mas do lugar de psicanalista, de uma psicanalista que zela pela dimensão da escrita e da leitura, indissociáveis do seu ofício de tratar o real.

O leitor poderá constatar que a erótica do livro também está presente no modo como ele está feito. Os

fios que o compõem não são necessariamente de mesma cor ou textura. A concisão dos textos tem mais a ver com os nós de uma tessitura do que com os fragmentos de uma narrativa . Esta concisão faz ressaltar os

intervalos que separam um texto de outro, indicando que o ofício de tecer inclui o vazio. A descontinuidade aqui não é um defeito, mas um efeito, próprio de uma erótica das “peças avulsas” que, no entanto, formam um desenho bastante singular. Tudo parece derivar de um axioma que Ana Lucia coloca no pórtico de seus escritos: A mulher não existe, um enunciado provocativo e ao mesmo tempo uma bússola que Jacques Lacan constrói como orientação para a abordagem do real quando este se apresenta em suas diferentes versões femininas. É sempre bom relembrar: isso também diz respeito aos que se colocam do outro lado da tábua da sexuação.

A partir daí, Ana Lucia nos apresenta três “eróticas lacanianas” que derivam deste axioma: a erótica do

amor cortês, e sua criação de uma poética sui generis ao redor da figura da Dama; a erótica do espaço trági- co, através da figura paradigmática de Antígona, e a erótica do não-todo, pensada a partir do arrebatamento da personagem de Lol V. Stein, de Marguerite Duras. Os contornos desta erótica fica ainda mais evidentes no momento que a autora convoca Anna Karenina, de Tolstoi, para estabelecer um contraste com a personagem de Duras. Nada disso se sustentaria se não se levasse em conta os diferentes modos de acesso ao gozo próprios à condição feminina. A autora, neste momento, assume a pergunta freudiana “o que quer uma mulher?” e recolhe das elaborações lacanianas os elementos que permitem colocar esta questão num bom caminho. Um caminho que inclui, necessariamente, a consideração da angústia, do “mundo encantado da fantasia” e do que Ana Lucia chama de “espaço sexual”. Aqui fica evidente a necessidade de se lançar mão de suportes topológicos que permitem abordar a subversão lógica produzida pelo gozo enigmático de uma mulher. Duas escansões neste percurso nos fazem lembrar que o cinema – esta arte contemporânea da psicanáli- se – também participa das considerações sobre o feminino. As reflexões de Ana Lucia sobre os filmes “Tudo sobre minha mãe”, de Almodóvar, e “As Horas”, na versão de Hareano, nos mostra a inquietação permanente da autora em relação aos temas tratados neste livro e o modo especial como ela extrai destas obras novas perspectivas para as suas elaborações.

É chegado o momento, no livro, de esclarecer ao leitor o surgimento de Patu.

Um momento delicado, de passagem do privado para o público daquilo que foi outra passagem, a de sua condição de analisante para o lugar de analista. Aqui Ana Lucia assume uma perspectiva ousada da orienta- ção lacaniana: o testemunho da experiência de uma análise que levou à produção de uma analista, poderá interessar não apenas à comunidade restrita dos analistas, mas também ao grande público. Uma posição calculada, que toma a sério a invenção lacaniana do dispositivo do passe e o aprofundamento de sua expe-

riência a partir de Jacques-Alain Miller, buscando colocar o saber que se extrai de uma análise à disposição da civilização.

É aqui que Ana Lucia nos apresenta o mapa de sua navegação, um mapa singular, que só se desenha in-

teiramente após o final da viagem. Seus pontos de ancoragem têm a natureza de uma grafia: da “biografia”,

a grafia de “um saber pré-escrito”, passando pela “biografagem”, a grafia ficcional daquilo que não neces-

sariamente estava lá, até desembocar no “biografema”, em que grafia e vida encontram um novo modo de enlace. É deste trajeto que a autora forja um nome, Patu, capaz de nomear a satisfação que estava em jogo nessa navegação, um nome associado a um novo lugar de enunciação produzido a partir do que se deposita

desta experiência. O verso de Pessoa, “navegar é preciso, viver não é preciso”, adquire, nesse testemunho da autora, uma nova significação: de um lado a constatação de que a vida só é possível de ser vivida quando se inventa um modo de navegá-la; de outro, a demonstração de que a experiência de uma análise é capaz de permitir a um sujeito forjar os instrumentos que lhe são imprescindíveis para esta viagem.

É de posse desses instrumentos que Ana Lucia conclui este livro, agora num campo de batalha. A psica-

nálise não deve ignorar seu aspecto de utilidade pública e a autora nos faz um relato dos efeitos do encontro de psicanalistas com uma comunidade marcada pela violência na cidade do Rio de Janeiro. Desse encontro,

a constatação de que a psicanálise também pode ser uma arma a serviço de Eros, permitindo a “invenção de novos laços sociais” lá onde tudo parecia estar condenado à reprodução do mesmo. Ao leitor, o convite para o embarque neste livro.

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Resenha

Marcus André Vieira

Patu é a escritura fonética brasileira do pastout de Lacan. Não é uma tradução que, fundada no sentido,

seria nãotodo. Esse quase neologismo de Ana Lúcia vem bem a calhar, porém, quando se trata, como em seu livro, de fisgar o real do nãotodo sem, contudo, fazê-lo consistir demasiadamente. Afinal, o nãotodo lacania- no marca o lugar do sem lugar, sem corpo, mas ainda assim habitado pelo singular.

É uma das apostas sustentadas por este livro. Ou seja, levar o leitor a colocar de si através do tecido que compõe os textos para extrair daí um saber particular sobre o patu. Ana Lúcia faz uma mostração mais que

uma demonstração. Por isso, este delicado opúsculo constitui um lugar de cruzamento onde se reúnem várias vias de acesso à dimensão do real na análise. A encadernação é às vezes frágil, pois o conjunto é hete- róclito. Um tema, no entanto, se anuncia desde a primeira frase e se repete a cada esquina de nosso trajeto:

a mulher não existe. Ana Lúcia se mostra tocada há muito pela questão do feminino e somos convidados a percorrer os cami- nhos que ela tomou para abordá-lo. Encontramos as figuras da mãe em Pedro Almodovar, as mulheres de Virginia Woolf, a Lol de Lacan e de Margueritte Duras, Antígona e também Ana Karenina de Tolstoi. A galeria destes personagens, sempre tomados com precisão e elegância, é colocada em tensão com trabalhos mais conceituais que constituem todo um percurso teórico em boa parte empreendido na universidade, ao lon- go da redação da tese de doutorado da autora. No fio da orientação lacaniana, sua tese se desdobra numa investigação sobre a possibilidade de uma erótica do feminino em Lacan, que parte da Grécia com Foucault e J. C. Milner, toca a castração freudiana e atravessa o seminário sobre a Ética de cabo a rabo. Esse extenso percurso é retomado concisamente, algumas vezes é difícil acompanhar, mas sempre ensina e quase sempre nos toca. Neste conjunto, dois textos fazem exceção: um dos primeiros testemunhos do passe, pois Ana Lucia é AE da EBP, a primeira nomeada pelo cartel do passe no Brasil. Trata-se da aposta de transmitir além de nossa comunidade o que é este procedimento. Como diz Ram Mandil, ex-presidente da EBP, no prefácio: trata-se

de “colocar o saber que se extrai de uma análise à disposição da civilização (

uma posição calculada que

leva a sério a invenção lacaniana do dispositivo do passe a partir de J.-A. Miller”. Descobre-se uma rigorosa coerência entre os textos e a trajetória de uma via em que a feminilidade se de-

lineia como um buraco negro que atravessa diversas metamorfoses: de objeto fálico do pai ao objeto sádico dos homens até encontrar, em uma escritura sintomática, outra saída.

A conclusão é a segunda exceção textual, que Ana Lúcia chama “passo à cidade”. A Escola é interrogada

quanto ao lugar a tomar diante da violência do cotidiano no Rio e isso a partir da experiência de certo núme- ro de analistas na maior favela da cidade, iniciada por Ana Lúcia e por mim mesmo faz alguns anos.

« Mulher abismo-mulher abismada », o jogo de palavras no título esboça o espaço onde se desenrola e se

jogam estas apostas sustentadas pela autora. O essencial, do meu ponto de vista, foi encontrar-me, ao longo

dos textos, neste espaço e descobri-lo como o do lugar de uma enunciação muito própria, a de Ana Lúcia, onde ecoam algumas das inúmeras vozes do nãotodo.

Bate bola

Antônio Teixeira e Ana Lúcia Lutterbach Holck. Por ocasião do lançamento de Patu – A mulher abismada

),

- -holck-parte-i/ ), Linhas de Investigação Bibliografia Filmografia Expediente Salvador, 04 de abril
- -holck-parte-i/ ), Linhas de Investigação Bibliografia Filmografia Expediente Salvador, 04 de abril de 2012
- -holck-parte-i/ ), Linhas de Investigação Bibliografia Filmografia Expediente Salvador, 04 de abril de 2012
), Linhas de Investigação Bibliografia Filmografia Expediente Salvador, 04 de abril de 2012 Tânia Abreu

Expediente

Salvador, 04 de abril de 2012

Tânia Abreu (Editora) Email: contato@boletimoutraspalavras.com.br

Elisa Monteiro (revisora) Bruno Senna (Layout e editoração)

Monteiro (revisora) Bruno Senna (Layout e editoração) Editora Comissão Científica Ajusta Foco e Resenhas

Editora Comissão Científica Ajusta Foco e Resenhas Marcela Antelo

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