Você está na página 1de 168

1

2 MARINA CASTAÑEDA

Psicoterapeuta de origem mexicana, Marina Castañeda é especialista em terapia familiar e em hipnose ericksoniana. Formada nos Estados Unidos da América (universidades de Harvard e de Stanford) e na França (Escola Normal Superior), ela apresenta há muito tempo um interesse particular no que diz respeito à questão da homossexualidade em geral e, no modo como ela é abordada aqui, na psicoterapia junto a esta população. Co-diretora do Instituto Milton H. Erickson de Cuernavaca, México, ela se dedica também ao ensino e à escrita.

3

COMPREENDER A HOMOSSEXUALIDADE

4 MARINA CASTAÑEDA COMPREENDER A HOMOSSEXUALIDADE Explicações. conselhos para os homossexuais. seus terapeutas . suas famílias.

5 A Patrícia .

6 O que não temos que decifrar. o que era claro antes de nós. n’est pas à nous] MARCEL PROUST . [Ce que nous n’avons pas eu à déchiffrer. que esclarecer pelo nosso esforço pessoal. à éclaircir par notre effort personnel. não nos pertence. ce qui était clair avant nous.

que possam nos oferecer relações mais íntimas e mais igualitárias ao mesmo tempo em que preservamos nossa liberdade individual. Mostra-nos modelos alternativos de casal. por terem participado diretamente desse grande movimento social. Hoje. antes de tudo. Tentarei nesse livro apresentar as pesquisas atuais sobre o assunto completando-as pela minha própria experiência. Representa também uma posição frente à vida e à sociedade. todas as religiões e profissões e todos os países.7 Prefácio A homossexualidade não se limita mais aos homossexuais. literário ou histórico — esses temas foram e continuarão a serem tratados em profundidade por especialistas nesses assuntos. condutas e formas de relação que vão além dos papéis tradicionais ditados pela sociedade. assim como as relações entre os sexos e a própria definição do amor. de comunicação e de sexualidade. veremos que as questões colocadas pela homossexualidade dizem respeito a todos nós. fazer parte da sociedade ao mesmo tempo em que se rejeita as suas normas mais essenciais? Se refletirmos sobre os grandes debates de nossa época que dizem respeito à integração e à marginalização. Os homossexuais são ainda. amizade e o sexo entre duas pessoas? Da mesma forma. todas as classes sociais. como se pensava outrora. aos direitos civis das minorias. à possibilidade de um pluralismo inclusivo. a homossexualidade diz respeito a todo mundo. não afetava outras pessoas. Os homossexuais ilustram traços. Tentei. felizmente. O que significa. como evolui a relação de casal. Revela-nos algumas características profundas das mulheres e dos homens quando se tornam independentes do outro sexo. quase por toda a parte. Como são os homens quando não têm mulheres com eles? Como são as mulheres quando vivem sem homens? Nos dois casos. Não pretendo apresentar um estudo sociológico. pessoal e clínica. Quais formas podem assumir o casal quando o casamento não é mais o único modelo possível? Podemos pensar outras escolhas para o amor. Mas a homossexualidade não é somente uma orientação sexual nem um modo de ser puramente íntimo. hoje. fazem parte da sociedade heterossexual: pertencem a todas as raças. uma tragédia pessoal que afligia alguns desafortunados mas que. Muitas pessoas procuram modelos alternativos para o casal. Não é mais. Ao mesmo tempo. Também não quis escrever um tratado sobre o Movimento de Liberação Guei. Isso já foi feito por pessoas muito mais gabaritadas do que eu. quando ela não é mais determinada pelas exigências da heterossexualidade? A homossexualidade atual nos oferece algumas respostas. uma minoria discriminada e marginalizada. Não há dúvidas que as instituições tradicionais do casamento e da família estão em crise. porque ela nos obriga a confrontar questões que se tornaram centrais para todos nós. todos nós nos perguntamos sobre a natureza da masculinidade e da feminilidade em nossa época. expor a dimensão psicológica da homossexualidade e de descrever a experiência subjetiva dos homossexuais. o leitor encontrará apenas poucas . Enfim. E muitos dentre nós exploraram formas diferentes de comunicação e de engajamento.

Estudarei a infância. Irei me debruçar igualmente sobre o papel central da amizade na vida homossexual. Assim. contudo. e são esses que eu tentei isolar. e o papel particular que ele desenvolve na sua família de origem. examinarei as diferentes definições e explicações da homossexualidade e a maneira pela qual se constrói a identidade homossexual do ponto de vista subjetivo e social. Portanto. Esse livro não é e não poderia ser o fruto de um esforço puramente pessoal. o leitor encontrará aqui exemplos e narrativas extraídas da experiência vivida das pessoas entrevistadas. mas todo mundo. de criadores e de militantes que lutaram contra a ignorância e o preconceito para libertar não somente os homossexuais. apresentarei algumas reflexões sobre o papel que a homossexualidade desenvolve na cultura e na sociedade contemporânea. enquanto a única criança a não se casar e não ter filhos. . mas antes um texto acessível e útil destinado aos homossexuais. examinarei as inúmeras manifestações da homofobia interiorizada que afeta em tantos níveis o funcionamento psicológico e social dos homossexuais e dá à sua experiência subjetiva uma tonalidade totalmente específica.8 referências à AIDS. Finalmente. Apóia-se sobre o trabalho de gerações de pesquisadores. não é a mesma coisa ser homossexual nos Estados Unidos. Finalmente. Analisarei as vicissitudes da clandestinidade (ou do “armário”. a adolescência e a idade adulta no homossexual. Em seguida. e sobre as perspectivas para o futuro. Tentei também transcender as fronteiras na medida do possível: seguramente. da identidade homossexual. Analisarei as interpretações atuais da bissexualidade e questionarei em que medida essa pode constituir uma orientação sexual propriamente dita. assim como numerosas recomendações práticas para os terapeutas e temas de reflexão para os próprios homossexuais. no final das contas. generalizáveis. as suas famílias e seus terapeutas. certos aspectos da subjetividade homossexual são. eu não pretendo apresentar um tratado para especialistas. Abordarei também as dinâmicas particulares do casal homossexual. e apresentarei estratégias para dele sair. Meu assunto é antes a Psicologia da Homossexualidade enquanto tal — um campo de conhecimentos que se desenvolveu graças justamente à evolução social e cultural dos últimos trinta anos. destacando as profundas diferenças que distinguem um do outro. sobre as vantagens e desvantagens de ser homossexual em nossa época. mas. no México ou na França. tanto masculino quanto feminino. segundo o termo consagrado) com suas vantagens e desvantagens. É a eles que eu dedico essa contribuição. apesar de seus efeitos indubitáveis sobre a homossexualidade contemporânea — mas o vírus não faz parte.

.......................................38 CAPÍTULO 3..................................................................................................................................51 A terceira idade.......................................28 Quem é homossexual?........................................................35 A dimensão subjetiva..............................................................................................................................................................................................................................................44 Teorias do desenvolvimento homossexual.................................................................................................................................41 Não uma..........................................................................................................................................................................................................................................................................................53 Exploração da história pessoal...................39 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL:..........................................................49 Identidade e comunidade...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................54 O luto da heterossexualidade.......................................................................................................26 As práticas.................................................................39 Gênero e orientação sexual..................................................................................................................................................................................................25 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS BIOLÓGICOS E SOCIAIS.............................................................37 Recomendações para o trabalho terapêutico............................42 A construção da homossexualidade....................................................46 Uma adolescência diferente para os homens e para as mulheres....................................................43 Os tempos da homossexualidade....................................................................................48 A reconstrução da história pessoal..............................54 CAPÍTULO 4...........................................................13 CAPÍTULO 2................13 UMA IDENTIDADE MUTANTE........................................................ mas muitas causas possíveis...............................................................27 A identidade homossexual.............................................................9 CAPÍTULO I..........................................................55 AS VICISSITUDES DO ARMÁRIO.............47 O luto da heterossexualidade...........................................................33 A teoria social da homossexualidade........................30 Será que estão percebendo?...52 Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico ..................................31 Uma questão de hormônios?.................................................................................................................................50 A descoberta tardia da homossexualidade.......................40 A teoria psicanalítica.....................................................................................................................52 Escolher sua própria homossexualidade..........................................................................................................................50 A adolescência bifásica dos homossexuais................39 Uma infância típica dos homossexuais?...........55 ....................................................25 Práticas...................51 Uma identidade feliz ou infeliz?...........................................................44 Os riscos da adolescência..........Sumário Prefácio...............................32 Em busca do gene perdido...................................7 Sumário..........................................................................................................................53 Exploração da orientação sexual nos adolescentes..36 A identidade guei......................................................................................................... desejos e sentimentos...................................................................29 Diferentes concepções da homossexualidade..........................................................................................................................................................26 Amor e desejo................................................................................36 Escolher a homossexualidade?.................................................

..........................................................................................................................79 “Não sou homossexual como os outros”................................................91 O isolamento social do casal homossexual........69 Ajudar melhor os seus pacientes homossexuais...................................................................................................56 O preço da clandestinidade...............................58 A comunicação na família..........................................................................................................................93 A dimensão do futuro...................................71 Recomendações gerais para o terapeuta que trabalha com homossexuais..........................................96 Inveja e ciúmes..............................................................................................................................85 O questionamento dos estereótipos........93 O ciclo vital..............66 Os terapeutas gueis devem revelar sua orientação?.........................................................10 Por que dizê-lo?.........................61 O preço da mentira....61 O tabu familiar............94 … E a diferença...........................................................................................................................................................................................................................................................94 A semelhança…....................................................................................82 Homens violentos.........................................................................................97 Mas o que eles têm em comum?...............................................................................................................................78 Outras manifestações da homofobia interiorizada..............................................................................................99 Mais ou menos saído do armário....................................................................................................................................................56 Dizer-se homossexual........................................................................................................................................................................................................99 .................90 Os estereótipos e a homofobia interiorizada.........................................74 Homofobia e confusão dos gêneros.....................................................................................................................................59 Como fazer?.................................65 Será que é preciso ser homossexual para trabalhar com homossexuais?.............................................................................................73 CAPÍTULO 5......83 Diferentes modos de ser homossexual.................90 O CASAL HOMOSSEXUAL EM GERAL.......................................................................80 A promiscuidade dos últimos decênios...........61 Deve-se contar isso a seus pais?............85 A homofobia no terapeuta...........................................63 A culpabilidade nos pais.64 O papel do homossexual na família....................................97 “Mas” e “menos” homossexual.......................84 A homofobia aprendida .......................................................75 Os homossexuais são sempre os outros...................................................................................................................................................76 A sensação de estar em desvantagem......................................................................87 CAPÍTULO 6..........................................................59 Sair do armário: um processo familiar........................................................................................................................................................................................................................................................................92 A família de eleição..................74 A homofobia nos heterossexuais...................................................................................................................................................................................................................................65 O outro armário: a orientação sexual do terapeuta.....................................................................................................................................................................................................................81 As “perversões” sexuais............................ mulheres delicadas.....................................76 A homofobia nos homossexuais....................................................................................70 Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico.............................90 O casal invisível.....................................................................................................................................57 Sair do armário nem sempre é possível nem desejável...........................90 Uma razão de ser diferente.........74 HOMOFOBIA INTERIORIZADA..................................................................................84 Estereótipos globalizados e locais...

................................................................................................124 A revolução sexual..113 Autonomia e intimidade....................................................136 .........112 Mãe e filha...................................................................................115 Uma sexualidade feminina menos “sexual”?.........................128 Em que consiste o casal masculino?...............................................124 O marketing do corpo...........110 A empatia e a superproteção............119 Lésbicas masculinas e femininas..........................124 O casal homossexual masculino.......................................................................................................118 A rotina sexual.................................................................................106 CAPÍTULO 7.................................................................................................................................................................107 A recusa da dominação masculina.............................................121 O desafio da lesbianidade..................................................................................................................................................................................109 Gênero e modalidades de relação..........................................................................................122 CAPÍTULO 8...................................................................................................................................................................................................107 A dimensão social e ideológica.....................122 Temas de reflexão para consolidar o casal lésbico...................................................114 O declínio da relação sexual............................................................................................................................................107 O casal homossexual feminino.................................................................................................................................................................105 Temas de reflexão para consolidar o casal homossexual....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................125 Homossexualidade “negra” e “branca”..............................................................................................................................................................................................................................................................108 A intensidade afetiva.....................................................................116 Fusão e sexualidade.........................11 Os pontos fortes da relação homossexual............................................................................108 A escolha da lesbianidade..............................................127 A sexualidade homossexual masculina...............................................................................104 A aceitação social do casal homossexual....................................................126 A comercialização da homossexualidade..............................................................................................116 Amor e sexualidade.................................................115 A dinâmica sexual do casal.......................120 Os papéis na vida cotidiana.......................................124 A nova homossexualidade...........104 Reinventar o casal............................................135 Sexualidade e amor...............................130 A comunicação entre homens......................................................133 Relação e multiparceria........119 Mais o que elas fazem na cama?.................................101 Sexo............................................................................................................................................................................................112 A tendência à fusão............................... amor e amizade.......................................................120 É preciso discordar................132 As decisões no casal...............................................126 A AIDS.................100 Uma outra modalidade de comunicação....................................................................................................................129 Características do casal masculino............................................................................................................117 As ligações fora do casal................................................................................130 A autonomia na relação.........................................................................................................................................................................................................................................103 Os riscos da inovação......................................................111 A identificação perfeita...........................................................102 A amizade entre homens e mulheres..............................................................134 O ciúme..............................................................................................

..........................................................................136 Uma grande variedade de casais................167 ...................................153 Conclusão..............................................................................................................................................................................140 O que a bissexualidade não é....................................................................................153 RECOMENDAÇÕES PARA O TERAPEUTA.....................................155 UMA NOVA HOMOSSEXUALIDADE.....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................140 A MIRAGEM DA BISEXUALIDADE.............12 As diferenças no casal..............................152 RECOMENDAÇÕES PARA O BISSEXUAL....................................................................................................................................................148 Diferentes tipos de bissexualidade.............................146 A bissexualidade nos homens........................................................................148 Limites da bissexualidade............................137 Modelos alternativos?................................................................................................................................................................................151 Bissexualidade e liberdade......138 CAPÍTULO 9.........................................................................................................................................................................................................................................................................155 Bibliografia..........................................................................................149 Problemas da identidade bissexual.........146 A bissexualidade nas mulheres..................................142 Interpretações tradicionais......................142 Uma orientação sexual variável......................144 A dimensão ideológica................................................................................163 ÍNDICE REMISSIVO..............................140 O conceito de bissexualidade.......................................................

enfim.13 CAPÍTULO I UMA IDENTIDADE MUTANTE Começamos com um paradoxo: homossexual nem sempre é homossexual. Suas atitudes. Pode-se facilmente concluir que são pessoas solitárias. se tornarem invisíveis e passarem por heterossexuais aos olhos da sociedade. mas sim de carência de aprendizagem. às vezes. sua orientação sexual. ele não cresceu em seu papel. assexuado na sua família. seus gestos. da amizade e da sociabilidade. O heterossexual sim. Ele pode parecer heterossexual no escritório. mas também sua heterossexualidade. tanto na vida social quanto na esfera íntima. o qual. mostram freqüentemente apenas um aspecto superficial deles mesmos. Em todas as suas relações sociais. o homossexual não se desloca no mundo com uma identidade constante. que exprime abertamente sua orientação e que é globalmente invariável. Muitos homossexuais tentam. na maior do tempo. sua realidade cotidiana: assim ouvem-se homossexuais que vivem há anos com alguém falarem como se estivessem sozinhos. e expressar sua orientação sexual somente na presença de alguns amigos. não é homossexual do mesmo modo que o heterossexual é heterossexual. mas sim que a sociedade os rejeita. deve reaprender todas as regras do amor. foi formado para um papel e um lugar no mundo heterossexual. nesse sentido. não se trata de uma falta de maturidade. . O homossexual. o heterossexual foi educado para sê-lo. Isso afeta inevitavelmente seu modo de ser no mundo. Acostumados a esconder uma parte essencial de seus desejos e de suas necessidades afetivas. profissionais e familiares. na literatura psicológica tradicional que os homossexuais são “pouco maduros” em suas relações sociais e de casal. e formar uma identidade relativamente estável. condutas e maneiras de falar que refletem não somente sua feminilidade. o problema não é que eles rejeitam a sociedade. de fato. Escondem. seu modo de entrar em relações com os outros mudam conforme as circunstâncias. Este não é o caso para o homossexual. não foi educado para ser homossexual. O homem heterossexual entra em relação com os homens e as mulheres de um certo modo. Ou então. a sua orientação sexual é sempre uma parte de sua identidade essencial. Falta-lhe todo o tipo de habilidades e de códigos sociais dos quais necessitará num mundo homossexual que será o seu. e até mesmo identificar. E esta impressão pode lhes causar dificuldades. Entretanto. podem parecer superficiais ou pouco interessados pelos outros. orientação sexual e papéis sociais tendem a convergir. Não é surpreendente o fato de que podemos ler. Nos dois casos. Além do mais. não se vê do lado de fora. Em contrapartida. A mulher heterossexual tem gestos. Contudo. de sua família e de seus amigos. durante longos períodos de sua vida. sexo biológico. Portanto. que freqüentemente só toma consciência de sua orientação no decorrer da adolescência ou da idade adulta. pode negar completamente sua homossexualidade e parecer exatamente o contrário: um Don Juan ou uma mulher fatal sempre à procura de novas conquistas. poderíamos dizer que o homossexual vive num universo interior muito diferente. portanto. Muitos deles têm dificuldade de expressar. desde a sua mais tenra infância. Suas relações com os outros e com ele próprio são muito diferentes. Quando descobrem. seus sentimentos. pouco sociáveis ou sinceras. A identidade homossexual não é dada. Constrói-se aos poucos e nem sempre se expressa da mesma maneira: muda de acordo com o contexto imediato e os momentos da vida.

espalhou-se a idéia de que o homossexual e o casal homossexual são “normais” e. nem para as autoridades. e não a semelhança. permanece. O fato de “normalizar” a homossexualidade reduziua. e não a das mulheres. Um terapeuta não deve tratar seus pacientes gueis como se fossem heterossexuais nem aplicar os mesmos critérios diagnósticos. e cada vez mais homossexuais “saem do armário”. muitas mulheres se afastaram diante de um fenômeno que elas percebiam como o resultado de uma promiscuidade tipicamente masculina. nem para as instituições. Desde as primeiras associações homófilas na Inglaterra do século XIX que não aceitavam as mulheres. a maior parte das pessoas está sempre presa a certos estereótipos — tanto novos quanto antigos. Mas ela também engendrou uma série de mal-entendidos. Foi apenas há aproximadamente 20 anos (na época da Liberação Guei) que as duas comunidades forjaram uma aliança em favor dos direitos civis dos homossexuais. uma personagem radicalmente desconhecida. Apesar da implicação da comunidade lésbica na luta contra a AIDS. Não se falava quase dela. Apesar de ele ser cada vez mais visível na cultura. a seus aspectos mais simples. Apesar dos grandes progressos do conhecimento e dos direitos civis. e tampouco um fenômeno equivalente. Portanto. O preço dessa marginalização está cada vez mais alto. que a experiência homossexual é profundamente diferente para os homens e para as mulheres. Enquanto a pesquisa e a organização social. tanto na vida pública quanto na vida privada. Embora compartilhem uma marginalização social similar. Esses mal-entendidos. até os setores mais radicais do feminismo atual.14 Desde a Revolução Homossexual e o Movimento de Liberação Guei dos anos 70 e 80. ameaçadora para outros. Mas essa convergência estratégica foi minada pela AIDS que dizimou a população masculina. irá se esforçar em detectar. poderíamos dizer. na verdade. que rejeitam qualquer cooperação com os homens gueis. produzem hoje seus frutos. problemas e recursos específicos. Um outro mal-entendido que tentaremos dissipar é a tendência. político e psicológico. para amalgamar a experiência das mulheres e dos homens homossexuais. sociológico. o indivíduo homossexual não é como o heterossexual. além das semelhanças. era fácil pô-la de lado. bastante generalizados. suas formas de vida e de casal são essencialmente diferentes. Novamente. Ao contrário. e o casal guei ou lésbico não é como o casal heterossexual: apresentam dinâmicas. Historicamente falando a relação entre a população homossexual masculina e a feminina sempre foi problemática. etapas. por parte de muitos heterossexuais. Não trazia muitos problemas para as famílias. de um ponto de vista histórico. portanto. Sem dúvida essa evolução foi positiva para os homossexuais e para suas famílias. cada vez mais presente na sociedade. e tendemos a percebê-los e julgá-los segundo os critérios sociais aplicados a estes últimos. as relações entre mulheres e homens homossexuais foram marcadas por uma certa desconfiança. A homossexualidade — em suas práticas e suas dinâmicas — não é uma cópia malfeita de um original que seria a heterossexualidade. existem nos países “desenvolvidos” uma atitude muito mais aberta e tolerante em relação à homossexualidade. Essa não é mais considerada um crime e nem uma doença. e era razoável pensar que ela não existia — em . contudo. Esse livro. Quando a homossexualidade era um fenômeno isolado e escondido. Em especial. e constitui por isso mesmo uma distorção. política e jurídica avançam rapidamente nas comunidades gueis e lésbicas dos países industrializados. o homossexual permanece uma figura misteriosa: risível para uns. Ora. esse livro procurará apontar precisamente as diferenças. essencialmente “iguais” aos heterossexuais. não tentará “inocentar” a homossexualidade nem demonstrar que é um modo de vida “normal” parecido com a heterossexualidade. portanto. explicitar e explicar suas particularidades: a diferença.

. os heterossexuais poderão conhecer melhor e desenvolver sua própria sexualidade na medida em que entenderem melhor a orientação homossexual. apareceu pela primeira vez a figura do homossexual cuja identidade essencial está definida pelo seu comportamento sexual. deve ter os mesmos direitos que a maioria. argumentando que qualquer classificação fundamentada sobre a sexualidade ou até mesmo o gênero deriva de um discurso social essencialmente repressivo. observaram que a identidade homossexual é um fenômeno relativamente recente. sociológicos e psicológicos. com toda a franqueza. um homem 1 Os três volumes desta obra de Foucault foram traduzidos pela Editora Graal. Vários autores. pode-se dizer que historicamente também a identidade homossexual constrói-se aos poucos: os processos sociais e individuais. ao nascimento de uma comunidade — e. sem por isso se considerar homossexuais. que podem ajudar os heterossexuais a renovar suas relações humanas. Ademais. especificamente homossexual nas grandes cidades. Esse desconhecimento. entre os quais Michel Foucault em sua Histoire de la Sexualité1. A homossexualidade nos obriga a requestionar nossos preconceitos que dizem respeito ao amor. às relações entre homens e mulheres. Esse programa foi modificado ao longo dos anos 90. não entre as pessoas honestas. Isso mudou na era moderna. Nossos pais e avós podiam dizer. Um grande número de pessoas tem práticas homoeróticas. o Movimento de Liberação Guei propôs a liberação não somente de uma população específica. ao adotar um modelo étnico da homossexualidade: nessa perspectiva. Hoje. Bissexualidade que é depois circunscrita e reprimida pela socialização heterossexual. A pergunta “o que define a homossexualidade?” nem sempre tem resposta certa. Rio de Janeiro. mas do homossexual em cada um de nós. os homossexuais estão cada vez mais visíveis nas famílias. porque seria uma prova de homossexualidade. portanto. Portanto. o Movimento Queer propôs a abolição de todas essas categorias. os homossexuais constituem uma comunidade. mas não pessoas homossexuais. são paralelos e se nutrem reciprocamente. Existem homens para quem o ato sexual em si não é importante — mas que recusariam veementemente beijar um homem na boca. Antes do século XIX. nos locais de trabalho e na sociedade em geral. não trazia problemas para a sociedade em geral. mas a sociedade em seu conjunto. por sua vez. que como toda a minoria oprimida. Estipulou a existência de uma bissexualidade natural e inerente a todos os seres humanos. libertandose assim de preconceitos e de estereótipos que os afetam igualmente. com a penalização da homossexualidade pelos Estados e sua patologização pelos médicos. Assim. Os homossexuais apresentam um novo tipo de casal. Em uma palavra. às vezes trágico para os homossexuais. se a homossexualidade se define em relação à heterossexualidade. Não é mais o caso. Nos anos 70 e 80. Os heterossexuais são obrigados a enfrentar os problemas que a homossexualidade pode lhes causar em todos os domínios: eles não podem mais se dar ao luxo de ignorá-la. e à natureza da amizade. libertar não somente os homossexuais. o inverso também é verdadeiro. Essa categorização deu lugar. portanto. Mais recentemente. Em certos países do Terceiro mundo. que eles nunca tinham conhecido homossexuais. outras se acreditam homossexuais sem nunca ter tido relações sexuais com alguém do seu próprio sexo. numa cultura —. A pergunta “quem é homossexual?” suscita sempre grandes debates. mantendo ao mesmo tempo uma identidade cultural própria. As associações gueis nos países desenvolvidos fixaram-se um objetivo muito mais restrito. Aqueles que tinham práticas homoeróticas não eram considerados nem por eles mesmos nem pela sociedade como seres à parte: não se concebia a existência de uma identidade fundamentalmente diferente. outras regras do jogo. havia práticas homoeróticas (mais ou menos toleradas em diferentes sociedades). O objetivo era.15 todo o caso.

vivendo há anos com alguém do mesmo sexo. mesmo que fisicamente ela implique um homem e uma mulher. são duas coisas muito diferentes. nem a lésbica uma “mulher de verdade”. Esses exemplos mostram que não tem relação estável entre homossexualidade. Nessa ótica só é homossexual aquele que é penetrado. e mulheres muito femininas. Mas. mas que foram longamente debatidas e continuam a ser problemáticas para a maioria das pessoas. Nessa perspectiva a homossexualidade era um problema de gênero: o homossexual não era um “homem de verdade”. não um homossexual. existem homens muito masculinos. em outras culturas pensa-se que a homossexualidade “masculiniza” o homem. de lapsos no desenvolvimento. considera-se que a homossexualidade “feminiza” o homem: ela o torna como as mulheres. Na realidade. dos hormônios. mesmo casados. Faltava-lhes algo. como veremos mais adiante. Em certas sociedades. Sabe-se atualmente que as coisas não são assim tão simples.16 que penetra um outro homem não se considera um homossexual: se desenvolver um papel ativo (seja com homens ou mulheres) significa que ele é um homem “de verdade” e. os homens devem manter relações com outros homens para lhes dar força e coragem. E como definir as pessoas que têm relações heterossexuais. Assim. o que acontece freqüentemente tanto nos hetero quanto nos homossexuais? A essas perguntas é preciso acrescentar outras que podem parecer mais simples até mesmo absurdas. masculinidade e feminilidade: as significações mudam de acordo com o contexto social e cultural. pela ausência de um modelo masculino com o qual se identificar. portanto. Isso reflete em parte um problema de definição: pelo menos na cultura popular ser homossexual significa ser “menos homem” ou “menos mulher”. Por exemplo. mas fantasias homoeróticas? Ou vice-versa? O que dizer das pessoas que. era fácil pensar (e muitos ainda pensam assim) que o homossexual era um homem efeminado. uma escola de pensamento psicanalítico afirmou que a homossexualidade se devia a uma série de falhas. certos povos das Ilhas do Pacífico acreditam que os meninos devem ingerir sêmen para tornarem-se homens. durante essa relação. não se conseguiu evidenciar diferenças sensíveis entre a infância ou a dinâmica familiar de homossexuais ou de heterossexuais: crianças que “tendiam” à homossexualidade não se tornaram homossexuais quando adultos. A pergunta se torna então: a homossexualidade se refere ao domínio físico ou afetivo? Às práticas ou ao pensamento? Ás reações fisiológicas ou às emoções? E o que acontece se os dois níveis não coincidem. o rebaixa. que são homossexuais. certamente. o que acontece quando uma lésbica tem uma relação com um homem? Ela ainda é lésbica? A identidade sexual é um atributo fixo das pessoas ou muda conforme a relação do momento? Se um homem homossexual e uma lésbica tem relação sexual. durante muito tempo. é um ato homo — ou heterossexual? E o que dizer se. E. Até mesmo no mundo ocidental. e que. e a lésbica uma mulher masculinizada — do ponto de visto da anatomia. Trata-se aqui de uma confusão muito presente entre gênero e sexualidade — que. a relação exata entre gênero e orientação sexual se tornou cada vez mais complexa. os dois alimentam fantasias homoeróticas? Certos teóricos diriam que se trata de uma relação essencialmente homossexual. e muitos homossexuais tiveram. em contrapartida. uma infância e uma vida familiar tediosamente “normais”. negam categoricamente serem homossexuais? Devemos concluir que elas estão mentindo ou que elas mentem para si mesmas? Para complicar as coisas. Por um lado. Por outro lado. Um homem que tem relações homoeróticas é sempre um homem? Uma mulher que tem relações sexuais com outra mulher é realmente uma mulher? Muitos heterossexuais diriam que não — mas a maioria dos homossexuais não hesitaria em afirmar o contrário. E . da personalidade ou mesmo da “alma”. no homem ela podia se explicar por uma relação deficiente com o pai. Antes.

sociais. Em outras palavras. Essa idéia. Nenhuma das teorias da homossexualidade existente até o momento — sejam elas de ordem psicanalítica ou hormonal — é suficiente para explicar porque certas pessoas são homossexuais e outras não. . mas várias. se todos nós somos bissexuais. que. um estado natural. deu também lugar a uma série de mal-entendidos. Contudo. Paralelamente. citado em Francis Mark Mondimore (1996). elas não estão presentes em todos os casos estudados. para muitos homossexuais e suas famílias a questão permanece crucial.17 os anos 80 e 90 viram surgir uma sensibilidade e um modo de vida que se poderia qualificar de andrógenos. E nenhum psicólogo ou psicanalista. culturais. nem como a orientação sexual pode mudar num dado momento. que agem conjuntamente: biológicas. devemos nos perguntar por que é tão importante conhecer as causas da homossexualidade. Psychopathia Sexualis. Descobriram. Pois se todos nós temos a possibilidade ou o potencial de ser hetero — ou homossexuais. permitindo enfrentar fenômenos que vão muito além das etiquetas que podemos lhes aplicar. Portanto. terá a idéia de procurar as causas históricas de sua heterossexualidade. Todas as citações no texto e nas notas de rodapé foram traduzidas em francês pela autora do original e traduzidas em português pelos autores da tradução. A Natural History of Homosexuality. os heterossexuais nunca se perguntam por que eles são heterossexuais. Desde a Revolução Sexual dos anos 70 falou-se muito da bissexualidade como sendo uma característica inata. detectadas em certos níveis hormonais pré-natais não são conclusivas: se elas parecem ter desenvolvido um papel em certos casos. a favor de uma dimensão genética da homossexualidade. como o veremos mais adiante) se tornou uma fórmula fácil. Uma pessoa sã não se pergunta por que ela está bem. Nesta ótica. familiais e pessoais. do ser humano. os estudiosos procuraram características hormonais ou genéticas próprias da homossexualidade. E não se descobriu ainda nenhum traço genético “homossexual” que seja comum às lésbicas e aos homossexuais de uma mesma família. o conceito da bissexualidade (que é extremamente complexo. mas nem sempre elas estão presentes. Outras. uma explicação válida para qualquer situação. 62. Os pesquisadores também descobriram algumas diferenças em nível hormonal e até mesmo cerebral entre homo — heterossexuais —. Baltimore. uma pessoa doente se interroga sem cessar sobre as causas de sua doença. existem indícios (nem muito precisos nem muito conclusivos). Não estamos mais na época na qual um eminente psiquiatra pôde escrever: “Podemos sempre suspeitar a homossexualidade nas mulheres que têm os cabelos curtos. No decorrer dos últimos anos. não o somos com certeza do mesmo modo. Tudo isso sugere que não existe uma só explicação. As diferenças que permitiam outrora falar de comportamentos ou de temperamentos propriamente masculinos ou femininos se apagaram. Não é de se estranhar o fato de que o próprio Freud tenha escrito: 2 Richard von Krafft-Ebbing. isso não explica porque somente algumas pessoas se tornam homossexuais. embora sedutora. existem fortes chances para que esse irmão seja também homossexual — essas chances diminuem se se tratar de gêmeos diferentes ou de um irmão que não seja gêmeo.” Os limites entre homossexualidade e heterossexualidade tornaram-se também cada vez mais obscuros. Essa questão se torna pertinente somente quando a orientação sexual é percebida como anormal. Isso significa que a própria pergunta apresenta um problema: ela carrega pressupostos sobre a homossexualidade que devem ser explicitados e examinados para saber se ela é ou não legítima nestes termos. ou como um déficit. nossa época viu uma proliferação de explicações relativamente simplistas da homossexualidade. mas não às mulheres. The Johns Hopkins University Press. por exemplo. a orientação sexual não é dada pela Biologia. se um homem homossexual tiver um irmão gêmeo idêntico. p. ao explorar a história de um paciente. Em um sentido. Entretanto. Afinal de contas. mas construída por meio da história social e pessoal. Algumas dentre elas são aplicáveis aos homens. se vestem de acordo com a moda masculina ou que cultuam os esportes ou os lazeres masculinos2.

Jayme Salomão. exílio ou de morte na maior parte da Europa. pensadores. em 1968. mas ainda não “normal”.18 ”O estudo desse aspecto nos mostrará até onde essa questão [se se tratava de um caso de homossexualismo congênito ou adquirido] é estéril e despropositada3. durante a Idade Média. Vol. 4 Sigmund Freud (1905). Para maiores detalhes da “Cronologia dos Direitos alcançados pelos Homossexuais”. o coito anal. não “contra-natura”). muito depois das outras práticas sexuais terem sido descriminalizadas. ver http://pt. Com comentários e notas de James Strachey. escritores e artistas renomados eram homossexuais. Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Na era moderna. Alguns teólogos consideravam também como sodomia o fato de um cristão ter relações com um judeu ou um mulçumano: estes últimos sendo vistos como animais. XVIII. a bestialidade e o coito-interrompido — em suma.org/wiki/Cronologia_dos_direitos_homossexuais#1990-1999 . 5 Mondimore. Direção da Edição Brasileira.wikipedia. os Estados substituíram a Igreja para regulamentar. As aberrações sexuais. Jayme Salomão. A psiquiatria nascente considerou a homossexualidade como um sintoma de “degenerescência” (algumas vezes agravada pela masturbação). Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. A homossexualidade masculina tornou-se punível de castração. Estima-se que dezenas de milhares de homossexuais e lésbicas foram presos na época de Hitler. foi apenas em 1994 que a Alemanha já unificada descriminalizou os relacionamentos sexuais entre homens retirando o Parágrafo 175. Com comentários e notas de James Strachey. Se ele via a homossexualidade como um déficit na maturação psicossexual ela não constituía para ele uma doença. qualquer contato sexual com eles dizia respeito à bestialidade. a felação.” Mesmo o vocabulário associado à homossexualidade é cheio de controvérsias. Freud teve o enorme mérito de rejeitar a teoria da degenerescência neste campo como em outros. 218. Direção da Edição Brasileira. Vol VII. julgar e penalizar o comportamento sexual. (…) (a) É preciso considerar que nos povos antigos. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. Como escreveu em Trois essais sur la théorie de la sexualité: “Vários fatores permitem ver que os invertidos não são degenerados nesse sentido legítimo da palavra: (1) Encontra-se a inversão em pessoas que não exibem nenhum outro desvio grave da norma. p. no mesmo plano das doenças tais como o alcoolismo ou a alienação mental — uma idéia ainda comum em nossos dias. a inversão era um fenômeno freqüente. Aliás. Eduardo Salomão. e personalidades tão eminentes quanto Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir deram seu apoio ao movimento em favor dos Direitos Civis para os homossexuais. Na verdade. (2) Do mesmo modo. suaviza as incumbências do parágrafo 175 que outorgava penas severas às práticas homoeróticas. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. Entretanto. quase que uma instituição dotada de importantes funções4. a Lei alemã contra a homossexualidade que permitiu essa perseguição foi extinta em 19695. apenas a Alemanha Ocidental. a palavra “sodomia” referia-se a toda uma série de práticas sexuais consideradas pecaminosas que incluíam a masturbação. [Nota dos tradutores] . É bom lembrar que. encontramola em pessoas cuja eficiência não está prejudicada e que inclusive se destacam por um desenvolvimento intelectual e uma cultura ética particularmente elevados. Foi no século XIX que apareceram os primeiros recursos para despenalizar as práticas homoeróticas — o que não impediu que Oscar Wilde tivesse sido condenado a dois anos de trabalhos forçados em 1895. todas as práticas sexuais que não tinham como objetivo a procriação. por causa de sua relação com Lord Alfred Douglas. em certos meios especialmente conservadores. As associações homofílicas da Inglaterra e da Alemanha procuraram redefinir a homossexualidade como um fenômeno “natural” (e. Eduardo Salomão. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. portanto. (Na verdade. Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina.” No decorrer do século XX o movimento homofílico encontrou importantes aliados entre os intelectuais. Em países como a França e a Inglaterra.) 3 Sigmund Freud (1920). no auge de sua cultura. esse movimento desenvolveu-se paralelamente às grandes campanhas contra o racismo e o anti-semitismo. muitos dentre eles morreram nos campos de concentração.

19 Até mais ou menos vinte anos atrás, a psiquiatria também violou os Direitos Civis dos homossexuais, ao lhes infligir (com ou sem seu consentimento) diversos tratamentos para os “curar”. O método mais aberrante, usado nos anos cinqüenta e sessenta, era baseado no condicionamento aversivo: mostrava-se ao homossexual imagens de homens nus, ao mesmo tempo em que se aplicava um choque elétrico toda vez que aparecia uma imagem suscetível de despertar seu desejo. Mas também se tentou a castração, histerectomia, a lobotomia, e diversas drogas6. Claro, os “tratamentos” desse tipo fracassaram, e não são mais praticados atualmente. Todas as pesquisas recentes mostram que é quase impossível mudar a orientação sexual, mesmo quando uma pessoa assim o quer. Ademais, as tentativas desse tipo podem ter conseqüências graves: o homossexual que procura “ser curado” e não consegue acaba por se sentir ainda mais doente e culpado do que antes. Como explicou a Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos no final de 1998, ao condenar formalmente qualquer terapia visando “curar” a homossexualidade, “a terapia reparadora pode trazer danos aos pacientes, provocando depressão, ansiedade e condutas autodestrutivas7.” O grande salto em favor da liberação homossexual deu-se a partir dos anos 60, essencialmente nos Estados Unidos e com o pano de fundo das manifestações contra a guerra do Vietnã. O catalisador foi um confronto de homossexuais com a polícia em Christopher Street em Greenwich Village, em Nova Iorque em junho de 1969. Foi a partir desse momento que começou a se difundir o uso do termo “guei” (que na Idade Média significava comediante, e no século XIX prostituto), ao invés de “homossexual”. A adoção deste termo representou um esforço para se afastar do modelo médico, e para constituir uma identidade baseada sobre o orgulho da diferença (a palavra “guei” em inglês significa “alegre”). Hoje muitos autores fazem uma distinção entre pessoas homossexuais e gueis: as primeiras têm condutas homossexuais, mas não se assumem como tais, enquanto as últimas assumem plena e orgulhosamente sua orientação. Em outros termos, se todos os gueis são homossexuais, todos os homossexuais não são gueis. A distinção é interessante, pois esclarece uma fase na construção da identidade homossexual, tanto no plano individual quanto no social. Portanto, ela tem importantes ressonâncias psicológicas, sociológicas e históricas. O debate sobre a homossexualidade permanece aberto. Não é de um interesse puramente teórico: a luta pelos Direitos Civis da população guei, as alianças que podem surgir entre essa e outras causas, a evolução da AIDS e outras questões sociais dependem da definição dada à homossexualidade. Muitos aspectos da vida pessoal estão também em jogo: como todos nós — homo ou heterossexuais — construímos nossa identidade sexual e social, como estabelecemos nossas relações amorosas e eróticas, como vivemos a amizade, como entendemos o mundo atual, tudo isso pode variar segundo a percepção que cada um de nós tem da homossexualidade. Essa percepção não deveria mais basear-se em preconceitos nem na experiência que cada um de nós pode ter, mas no conhecimento. Existe atualmente uma vasta literatura psicológica e sociológica sobre esse tema — o que não era o caso há apenas vinte anos atrás. Antes, o que se podia “saber“ sobre a homossexualidade derivava principalmente de romances ou de confissões pessoais relativamente escabrosas ou da teoria psicanalítica. E essa se baseava por sua vez em casos isolados, ou em pura especulação. O conhecimento da homossexualidade, como o da sexualidade em geral, foi revolucionado pelos estudos de Alfred Kinsey nos anos 40 e 50. Ao estudar as práticas
6

Ver John D’Emilio (1983). Sexual politics, sexual communities: The making of a homosexual minority in the United States, 1940-1970. Chicago: University of Chicago Press. 7 Decisão da American Psychiatric Association, relatada por Reuters em 15 de dezembro de 1998.

20 sexuais da população americana a partir de enquetes8 e de métodos estatísticos, ele inaugurou uma nova era nas pesquisas sobre a sexualidade. Pela primeira vez, conseguiu-se saber o que as pessoas faziam na vida real, graças a questionários precisos e não mais a interpretações ou a suposições. Como o próprio Kinsey observou na introdução à sua obra Sexual Behavior in the Human Male (1948), “antes de poder pensar cientificamente a qualquer um dos temas [associados à sexualidade], é necessário saber mais acerca do comportamento real das pessoas9.” Para estudar a homossexualidade, Kinsey desenvolveu a famosa escala que leva o seu nome. Essa contém sete categorias, indo de “exclusivamente heterossexual” até “exclusivamente homossexual” com cinco categorias intermediárias, para medir a experiência vivida dos sujeitos. Entre outras coisas, as pesquisas de Kinsey mostraram que, se há relativamente poucas pessoas nos dois extremos, há muitas, em contrapartida, nos valores intermediários. Kinsey estabeleceu que as condutas homossexuais não são de forma alguma limitadas às pessoas exclusivamente homossexuais, e que elas não podem ser consideradas “anormais”. Nessa lógica, não existe “homossexual” como tipo peculiar de pessoa, mas somente práticas homoeróticas que se encontram tanto nos heterossexuais quanto nos homossexuais. Graças à sua escala, Kinsey demonstrou que as práticas homoeróticas são, de fato, muito mais freqüentes do que se imaginava. Suas pesquisas revelaram que 37% dos homens americanos e 13% das mulheres tiveram tido pelo menos uma experiência homossexual chegando ao orgasmo. Esses números puseram fim à antiga concepção da homossexualidade segundo a qual apenas indivíduos perversos, doentes ou criminosos podiam ter relações eróticas com pessoas do mesmo sexo. Outros estudos americanos, mais recentes, chegam a números que vão de 6% da população até 17% das mulheres e 22% dos homens, para a porcentagem da população tendo tido relações homossexuais na idade adulta10. Por exemplo, uma enquête de 1994 sobre os costumes sexuais dos americanos estabeleceu que 7,1% dos homens estudados e 3,8% das mulheres tiveram pelo menos uma experiência homossexual desde a puberdade. Mas somente 2,7% dos homens e 1,3% das mulheres tiveram esses contatos no decorrer do ano anterior — isto é, em relações homossexuais relativamente atuais ou estáveis. Esses dados coincidem com o número de pessoas que se definem explicitamente homossexuais: 2,8% dos homens e 1,4% das mulheres11. São as porcentagens geralmente aceitas atualmente sobre a incidência da homossexualidade nos Estados Unidos. Mas os dados variam segundo o país: na França, por exemplo, somente 1,1% dos homens e 0,3% das mulheres tiveram relações sexuais com pessoas do mesmo sexo ao longo dos últimos doze meses12. E somente 4,1% dos homens e 2,6% das mulheres relatam pelo menos um contato sexual com alguém do mesmo sexo no decorrer de sua vida13. Os últimos três decênios viram proliferar esse tipo de estudos quantitativos, cada vez mais precisos. Os pesquisadores nesse assunto estudaram vastas amostras de homossexuais para saber como vivem e como evoluem seus casais, tanto nas suas relações cotidianas quanto nas diferentes etapas da vida. Existem atualmente livros sobre a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice dos homossexuais; sobre os casais que formam; sobre as suas condições socioeconômicas e sua saúde; sobre suas famílias de origem e até mesmo sobre suas preferências eleitorais. Os pesquisadores têm
8

Em português, a palavra 'enquete' geralmente se refere à pesquisa realizada pela mídia. Entretanto, em francês, a mesma palavra pode ser utilizada para descrever a pesquisa científica realizada a partir de questionários. [Nota dos tradutores] 9 Alfred Kinsey, Wardell Pomeroy e Clyde Martin (1948). Sexual behavior in the human male. Philadelphia: W. B. Saunders, p. 9. 10 Ver Edward O. Lauman, John H. Gagnon, Robert T. Michael e Stuart Michaels (1994). The social organization of sexuality: Sexual practices in the United States. Chicago: University of Chicago Press. E, Samule S. Janus e Cynthia L. Janus (1993) The Janus report on sexual behavior. New York: John Wiley and Sons. 11 Ver Lauman et al., op. cit. 12 Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993) Les comportements sexuels en France. Paris : La Documentation française, p. 138. 13 Ibid., p. 136.

21 igualmente transcrito e reunido milhares de relatos de vida, nos quais os homossexuais falam de sua experiência pessoal, familiar e social. Todo esse corpus de pesquisas nos oferece atualmente um conhecimento da homossexualidade ao mesmo tempo vasto, preciso e confiável. Uma parte dessas pesquisas confirmou uma idéia que nasceu inicialmente no século XIX, e que foi adotada por Freud e retomada por diversas associações médicas, psicológicas e psiquiátricas de nossa época, segundo a qual a homossexualidade não é uma patologia. Essa idéia foi inicialmente demonstrada por uma psicóloga americana Evelyn Hooker em 1958. Ela aplicou uma bateria de testes psicológicos em duas amostras de homens homossexuais e heterossexuais, e mandou os resultados para vários especialistas a fim de que avaliassem a saúde mental de cada indivíduo e depois o classificassem como homo ou heterossexual. Os resultados foram surpreendentes. Os especialistas se mostraram incapazes de diferenciar os homo dos heterossexuais, e não encontraram nenhuma patologia que pudesse indicar a homossexualidade. Ademais, o nível de saúde mental é quase idêntico nos dois grupos, com uma leve vantagem para os homossexuais. Hooker concluiu que, entre outras coisas, os homossexuais eram tão “normais” quanto os heterossexuais, e que a homossexualidade, portanto, não podia ser considerada uma categoria clínica. Foi graças a estudos desse tipo, chegando sempre à mesma conclusão, e aos esforços de um número crescente de psiquiatras e psicólogos homossexuais que a Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos riscou a homossexualidade de sua lista das patologias em 1973. Foi seguida pela Associação de Psicologia do mesmo país em 1974, e pela Organização Mundial de Saúde em 1992.14. Contudo, essas organizações reconheceram, em seus respectivos manuais de diagnóstico, que a pessoa que não aceita a sua homossexualidade pode sofrer de depressão, ansiedade e outros problemas psicológicos — mas que esses derivam de pressões familiares e sociais e de conotações negativas geralmente associadas à homossexualidade. A homossexualidade, portanto, não é mais considerada uma doença. Mas isso não quer dizer que os homossexuais não apresentam problemas psicológicos particulares. Vários estudos levantaram (pelo menos nos Estados Unidos) uma taxa de suicídio elevada entre os homossexuais, comparada com a da população heterossexual. Estimase que um terço dos adolescentes que se suicidam são jovens homossexuais. E de cada três adolescentes homossexuais, um relata ter tentado se autodestruir15. É importante destacar, contudo, que quase todas essas tentativas ocorreram entre a idade de dezesseis e vinte e um anos. Isso indica claramente que a adolescência é um período particularmente perigoso para os homossexuais: não é fácil admitir que somos diferentes nessa idade, sobretudo se essa diferença for condenada pela sociedade. Mas isso não significa que a homossexualidade seja patológica em si mesma: o problema reside na dificuldade de assumi-la frente a si mesmo e aos outros. Portanto, poderíamos dizer que a homossexualidade provoca, em certas condições, conflitos psicológicos — um pouco
14

No Brasil, em janeiro de 1985, tendo como base o parecer do Conselheiro Ivan de Araújo Moura Fé, sob o pleito requerido pelo Grupo Gay da Bahia que motivou a consulta do Ministério da Saúde do Brasil ao Conselho Federal de Medicina, esse deliberou que: “Enquanto estiver em vigor o CID-9, os casos cujo motivo do atendimento médico for a homossexualidade podem ser codificados na Categoria V 62: "Outras Circunstâncias Psicossociais"; 2) Quando o comportamento homossexual for condicionado patologicamente, o enquadramento diagnóstico deve ser feito pela condições posológicas básicas”. Anos mais tarde, e também por pressão de Associações GLBTT, o Conselho Federal de Psicologia, em 22 de março de 1999, lançou a resolução 01/99 que “estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual”, deliberando que, por exemplo, a partir do Artigo 3º “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”. [Nota dos tradutores] 15 P. Gibson (1989). Gay male and lesbian youth suicide. Em U.S. Department of Health and Human Services, Report of the Secretary’s Task Force on Youth Suicide. Washington, D.C., U.S. Government Printing Office.

A homossexualidade. Esses últimos sustentaram. em certos países. filosóficos. aqueles que hoje estão com mais de trinta anos tiveram uma juventude mais difícil. J. Pode-se legitimamente se perguntar por que a imensa maioria dos estudos sobre a homossexualidade se refere quase exclusivamente aos homens. Uma explicação possível é que os homossexuais criados antes da liberação guei sofreram muito mais com as pressões familiares e sociais. A homossexualidade foi discutida nas Nações Unidas pela primeira vez na Conferência sobre a mulher em Pequim em 1995. a uma sexualidade independente dos homens e da procriação). pelo menos nos países industrializados. na verdade. Em Addictive Behaviors. No que concerne ao alcoolismo nos homossexuais. ou pertencer a uma religião minoritária. quase todos os textos que mencionam a sodomia ou a homossexualidade — sejam eles literários. a antropologia. em 16 D. Não esqueçamos o fato de que a palavra escrita foi desde sempre (e continua a sê-la. não teriam nenhum controle sobre sua sexualidade. quase todas as discussões sérias sobre os Direitos Civis.22 como pode ser difícil ser negro ou judeu. o que não seria o caso se o alcoolismo fosse de algum modo inerente à homossexualidade. Isso quer dizer que os jovens homossexuais bebem menos do que os homossexuais mais velhos. . constatamos a enorme importância do contexto social quando analisamos comportamentos problemáticos entre a população homossexual. tornou-se um objeto de estudo para a medicina. os representantes dos países islâmicos e católicos conservadores adotaram a posição oposta. Se. em algum momento. claro. Atualmente. pelo debate sobre a homossexualidade. a sociologia. Em primeiro lugar. chega-se a conclusões parecidas. que ainda no início do século passado era uma questão puramente moral e judicial. McKirnan e P. Essa discussão — finalmente vencida pelos conservadores — demonstrou muito claramente o papel que a homossexualidade pode ter no debate político e social de nossa época. 14. 545. Portanto. os médicos e. a sexologia. existem nos Estados Unidos e na Europa. o Estado. Alcohol and drug use among homosexual men and women: epidemiology and population characteristics. de juízes ou de médicos: ela é um tema de reflexão para cada um de nós. que era ridículo perder tempo para discutir um caso que só podia interessar a uma ínfima minoria de mulheres. Atualmente. a história. as delegadas do mundo industrializado defenderam a livre escolha das mulheres quanto à sua orientação sexual. Há várias explicações possíveis. Sem o direito ao lesbianismo (isto é. ela adquiriu igualmente uma significação política — e não somente para os homossexuais. L. as mulheres. há uma incidência mais elevada de alcoolismo entre a população homossexual em geral. Antes do século XVIII. Durante um debate caloroso que durou até quatro horas da manhã. associações gueis em quase todas as grandes cidades. entre outros. As delegadas dos Estados Unidos e da União Européia retrucaram que a possibilidade de exercer livremente a sua orientação sexual era crucial para todos os Direitos da mulher. e portanto sobre seu próprio corpo. Mas o debate se estendeu aos poucos para incluir os filósofos. os cientistas. históricos ou científicos —. É interessante ver também como o campo semântico da homossexualidade (e a sexualidade em geral) deslocou-se no decorrer da era moderna. Hoje. a psicanálise. a psicologia e. a liberdade individual. a tolerância ou o pluralismo passam. durante muito tempo os únicos lugares onde os homossexuais podiam se encontrar eram os bares — o que não é mais o caso hoje. a sexualidade era examinada e julgada quase exclusivamente pela Igreja. Novamente. Peterson (1989). foram escritos por homens. estudos recentes mostram que os homossexuais com menos de trinta anos apresentam taxas semelhantes à dos heterossexuais de sua idade16. enfim. Essa não é mais apenas uma questão de teólogos ou de padres. Além do mais. desde a Idade Média passando pelo Renascimento até a era moderna. de fato.

durante todo o século XIX e uma boa parte do século XX (quando começa o estudo científico da homossexualidade). supôs-se que a lésbica era apenas uma mulher “masculina”. até hoje. mas desprovidos de sexualidade. essas amizades não eram percebidas como carnais — e elas talvez não o fossem. é porque em boa parte se considerava que a sexualidade em seu conjunto era uma questão masculina. e portanto sobre o lesbianidade enquanto categoria que vale por si mesma — e não mais como um pobre substituto do prazer “verdadeiro”. portanto. muitas mulheres pensavam elas mesmas serem incapazes de uma sexualidade própria. não havia necessidade de proibi-la. a dar a prioridade aos homens e à dinâmica do casal masculino. se as práticas sexuais entre os homens sempre foi mais condenada do que para as mulheres. Claro. As lésbicas constituem a população menos afetada pela AIDS: com efeito. enquanto a sociedade tinha aceitado a possibilidade de relações sexuais entre mulheres. em detrimento da mulher e da relação lésbica. Aliás. Portanto. Antes dos estudos de sexólogos como Master & Johnson nos anos 60. Não hesitou. a . como mostram sua correspondência e seus diários íntimos. diz-se. Isso ajudou a iniciar um imenso campo de pesquisas sobre a sexualidade especificamente feminina. argüindo que não podia haver relações entre duas mulheres e que. Por quê? Até uma época recente (com certeza até a época de Freud). a sociedade em seu conjunto repudiou o feminismo durante longos anos. portanto. a crise da AIDS levou muitos pesquisadores. o feminismo (que promoveu tantas pesquisas sobre a mulher em psicologia. mesmo apaixonadas. de um lesbianismo relativamente camuflado. publicados há pouco tempo) recusou. ao considerar que partia de uma rejeição do homem e. em assinar uma Lei punindo duramente as práticas sexuais entre homens. Em quarto lugar. No final das contas. apesar dessa distância bastante marcada. assinar um decreto de Lei contra as práticas sexuais entre mulheres. a sexualidade permanecia uma prerrogativa do homem. pensava-se que o orgasmo na mulher era exclusivamente vaginal — e que. muitas pessoas vêem ainda a lesbianidade como algo que fazem as mulheres quando não têm mais alternativas ou quando ainda não encontraram um homem de “verdade” que pudesse lhes ensinar a sexualidade “adulta”. claro. ao mundo eclesiástico e. Isto explica o porquê as autoras feministas heterossexuais tenham escrito pouco sobre a homossexualidade. pois ninguém imaginava que essas pudessem ser sexuais. são eles que tiveram acesso à esfera pública e política. e ainda. Em segundo lugar. Enfim. Historicamente. isto é. Portanto. Ninguém se surpreendia com relações amorosas entre mulheres. em sociologia e em história) guardou suas distâncias com o lesbianismo por muito tempo. consideraram (talvez com razão) que sua causa seria desqualificada se fosse identificada com o lesbianismo. a amizade entre mulheres foi vista como uma forma de relação normal entre seres frágeis e inocentes possuindo uma grande sensibilidade. e portanto de um prazer sexual feminino sem penetração. E sempre. dependia da penetração. quase todas as proibições eclesiásticas e as Leis penais contra a homossexualidade tiveram como objeto os homens. à educação. independente dos homens. Em terceiro lugar.23 muitas sociedades) o domínio exclusivo dos homens. A necessidade imperiosa de entender melhor os comportamentos e a psicologia do homossexual masculino com finalidades epidemiológicas relegou ao segundo plano os estudos sobre o lesbianismo. em contrapartida. Foi apenas muito recentemente que se reconheceu a realidade do orgasmo clitoriano. era impensável que as mulheres tivessem uma sexualidade própria. Mesmo a Rainha Victória da Inglaterra (uma mulher extremamente apaixonada. portanto. era esperado. Na verdade. Algumas figuras centrais do feminismo moderado. E durante uma boa parte do século XX. em matéria de homossexualidade.

É a razão pela qual muitas referências desse livro são tiradas da bibliografia americana — com certeza uma limitação. centros de pesquisa e de ensino e listas de especialistas para que as pessoas homossexuais possam ter acesso a profissionais competentes e sem preconceitos. Em parte por causa da AIDS. incluir uma análise de gênero. até mesmo nos países industrializados. Pelo menos nos Estados Unidos existe hoje uma vasta bibliografia sobre a mulher e a relação lésbica. . Esse desequilíbrio começou a se atenuar. Qualquer discurso ou estudo relacionado com a homossexualidade deve. Isto se explica. Nesse ínterim. cultural e social. Exatamente como as crianças. suas famílias e seus terapeutas a entender melhor a sua vida cotidiana e a sua psicologia. Tudo isso explica porque existe uma enorme desproporção entre as pesquisas sobre a homossexualidade masculina e feminina. portanto. e fazer as distinções necessárias entre a homossexualidade masculina e feminina. Mas é preciso dizer também que todos os textos estariam longe de ser pertinentes ou aplicáveis a todos os países. Pois a homossexualidade é vivida e percebida de maneira radicalmente diferente na Ásia. e eles têm o direito de serem reconhecidos em sua diferença. A dinâmica do casal é também muito diferente de acordo com o sexo. em parte. na América Latina… As estruturas e as relações familiares. contudo. na Europa. os homossexuais apresentam toda uma série de traços e dinâmicas específicas que merecem toda a atenção. Saem cada vez mais da clandestinidade e estão mais presentes na vida familiar. os conceitos de masculinidade e feminilidade. portanto. pelo fato de que muitos livros escritos em inglês não são traduzidos. os homossexuais tornam-se cada vez mais visíveis em nossas sociedades. ajudando as pessoas homossexuais. Esse esforço no conhecimento deverá ser feito paralelamente à luta pelos Direitos Civis dos homossexuais. e cabe aos psicólogos. O empenho político dos militantes gueis deverá ser acompanhado de um vasto trabalho de pesquisa e de divulgação. os homossexuais deveriam poder consultar profissionais que conheçam a fundo seus problemas e suas necessidades. mas a qual espero que encoraje os psicólogos e os sociólogos de outros países a se questionar de forma semelhante e avançar as pesquisas em suas próprias sociedades. psicólogos ou psicanalistas que conhecem bem o assunto. É muito importante que os próprios homossexuais. a homossexualidade continuará a ser muito mais estudada nos Estados Unidos do que em outra parte: esse país foi o lugar de nascimento da liberação guei. do direito e da psicologia. Infelizmente. cada vez mais os homossexuais têm procurado uma ajuda psicoterapêutica ao invés de sofrerem em silêncio. Esse corpus de observações e de pesquisas revelou. Igualmente. se informem sobre este vasto campo de conhecimento. entre outras coisas. nos campos da medicina. O passo seguinte será o de ampliar as redes de apoio. e continua o centro desse tipo de estudos. Os homossexuais diferem dos heterossexuais em muitos pontos. ao longo dos últimos anos. que a experiência e a significação da homossexualidade variam consideravelmente entre homens e mulheres. há poucos psiquiatras.24 natureza da relação física entre duas mulheres torna mais difícil a transmissão do vírus por via sexual. em parte graças à evolução cultural de nossa época. Resta muito a fazer. Como qualquer população específica. sociólogos e pensadores de cada país levar mais adiante as observações e as pesquisas nesse domínio. e até mesmo as definições de homossexualidade variam imensamente. Espero que esse livro contribua para a tarefa. o conhecimento e o respeito daqueles que trabalham com eles. não são necessariamente exportáveis. suas famílias e seus terapeutas. as mulheres ou as pessoas da terceira idade. os adolescentes. Os estudos sobre a homossexualidade.

ou não. Existe neles uma certa lealdade em relação à sua coletividade. Em contrapartida. se assumem (segundo o país) como membros de uma minoria. antes. A identidade minoritária implica. o judeu foi judeu e o armênio. nem aprendizagem anteriores.” . nem experiência.25 CAPÍTULO 2 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS BIOLÓGICOS E SOCIAIS “Será que eu sou homossexual?” É uma pergunta que se faz quase sempre com angústia. motivo de orgulho. viverá em seu lugar de origem. Perguntava-me: "como eles fazem para se reconhecer entre eles"?” Tinha certeza que devia haver signos ou palavras. até mesmo. ou não. não foi o caso para os homossexuais. Ao contrário: abra-se diante dela um futuro isolado e marginalizado que trará provavelmente conflitos com a família e a sociedade. provavelmente eles conhecem o custo desta identidade — mas também seus benefícios. Assumir-se homossexual não parece uma volta ao lar. os homossexuais que estão hoje com mais de trinta anos provavelmente viveram desse modo a descoberta de sua homossexualidade. O negro sempre foi negro. Conforme a resposta. não existem benefícios visíveis. Descobre que ele entra subitamente em um país desconhecido. e fez parte de uma comunidade negra. E é uma pergunta que não tem equivalente no mundo da heterossexualidade. ou pontos de cassação específicos. em um sentido de comunidade. Quando uma pessoa se reconhece como homossexual. ou não. armênio. um árabe. Então. A vida daquele que responde afirmativamente a esta pergunta não será mais a mesma. Manterá boas relações com sua família. na maior parte do tempo. Uma lésbica de quarenta e três anos lembra-se: “quando eu tinha dezesseis anos. é freqüentemente. E depois demorei a aprender como funcionava o mundo homossexual. como códigos. sem mapa nem indicações. Podem se sentir marginalizados. Além do mais. desconhece as regras e não fala a língua. mal compreendidos ou até mesmo excluídos da sociedade em seu conjunto — mas eles se integram igualmente em uma coletividade e adquirem um sentimento de pertencimento. procurava encontrar indícios em livros ou filmes como se eu estivesse aprendendo uma língua estrangeira. no qual ele precisará viver. Até agora. e quais são as regras desse jogo. uma pessoa se casará e terá filhos. o homossexual que se assume como tal não tem nem modelos. quais eram as regras para paquerar e iniciar relações. Quando uma pessoa descobre ou aceita nela mesma uma identidade minoritária. a identidade homossexual não corresponde com nenhuma experiência anterior. Eles têm um passado familiar e social que lhes ensinou o que significa pertencer a uma minoria. um negro. porque fazem parte dela desde sempre. Ela tem enormes implicações em todos os domínios da vida. ela o faz geralmente no espírito de pertencimento: quando um judeu. para eles poderem se encontrar. procurava desesperadamente conhecer pessoas como eu. mas. um exílio. e para sempre. Mesmo se isso não é mais tão verdadeiro quanto no passado.

independentemente do sexo do parceiro. onde o próprio ato sexual da masculinidade é penetrar. e em que momento? Ela surge geralmente durante a adolescência. o que define a orientação sexual é a natureza da prática sexual. o desejo. independentemente da prática. As práticas No que diz respeito às práticas. Outros jovens de ambos os sexos. Examinaremos sucessivamente estes diferentes elementos da homossexualidade. La sexualité en France. Finalmente. há adultos que nunca duvidaram de sua orientação sexual. Eis a razão pela qual as pesquisas contemporâneas fazem uma distinção entre as práticas. é difícil definir precisamente quais são ou não as características da homossexualidade. Mas não é uma pergunta simples. até o dia em que se encontram numa relação homossexual que lhes parece literalmente inexplicável. pouco importa as suas 17 Maryse Jaspard (1997). pensou-se durante muito tempo que a sodomia (quer dizer. 99 . só é homossexual o homem que se parece com uma mulher (seja porque ele se deixa penetrar. somente o homem que se deixa penetrar é homossexual. desejos e sentimentos Como se chega a se fazer esta pergunta. a identidade ou a autodefinição guei. Nos países latinos. Por exemplo. pouco importa que ele seja praticado com um homem ou com uma mulher. Muitos meninos adolescentes têm condutas homoeróticas sem nunca se perguntarem se são homossexuais. Mas os homossexuais nem sempre a praticam. portanto. nos Estados Unidos e na Europa.26 Práticas. o ato característico da feminilidade é o de ser penetrado. É o que acontece na América Latina. Paris : Éditions La Découverte. é o ato da penetração que conta. O primeiro termo se refere ao parceiro que pode ser um homem ou uma mulher. p. Nessa perspectiva. esse tipo de distinção não tem importância em outras regiões do mundo. e não é considerado como tal. o homem penetrado é logicamente homossexual. e não o sexo do parceiro. Se. enquanto aquele que penetra permanece heterossexual. e onde o sexo da outra pessoa é secundário. o coito anal) era o ato homossexual por excelência. o homossexual é um homem feminino por definição. na França 30% dos homens e 24% das mulheres dizem ter praticado pelo menos uma vez o coito anal e 15% dos homens e 13% das mulheres praticam-no regularmente17 . Em contrapartida. qualquer homem que se deixa sodomizar se iguala (ou se rebaixa) automaticamente ao estatuto da mulher. é o sexo biológico da outra pessoa que conta. sodomizar um outro homem não é uma prática homossexual — mas beijá-lo na boca. não têm essas condutas mas se fazem constantemente a pergunta. Assim. eles fazem uma distinção entre o objeto sexual e a finalidade sexual. por exemplo. O segundo se refere à atividade sexual que se pratica. Contudo. nesse sistema. Qualquer pessoa que tem relações eróticas com alguém do mesmo sexo é considerada homossexual. É por causa dessa variedade de critérios que alguns sociólogos distinguem dois modos de definição da homossexualidade. As coisas ainda ficam mais complicadas: para muitos homens. Além do mais. assim. finalmente. aquele que o sodomiza não se vê. um homem que sodomiza um outro homem não se considera necessariamente homossexual. em contrapartida. E. Partindo de uma diferença estabelecida por Freud em Trois essais sur la théorie de la sexualité. Em contrapartida. o amor e. seja porque forma uma ligação afetiva). além disso. e às vezes na idade adulta. sim. Nessa abordagem. ela é bastante freqüente nos heterossexuais.

E essa não é tão evidente para as mulheres quanto para os homens. até mesmo inconcebível. foi a ocasião que faltou? Poderíamos também nos perguntar se essa história não é simplesmente fictícia. por incapacidade em reconhecê-los. os membros de um time de futebol podem se olhar e se tocar de um modo que seria totalmente proibido. que nunca mais tive dúvida. Assim. Do mesmo modo. ou se surgiram nela de repente. um modo inconsciente de contornar uma verdade dolorosa… Em uma palavra. Uma pessoa pode se sentir fortemente atraída por uma outra. ou não. entretanto. uma mulher que. é com quem se tem relação. e não o que se faz18. Gay liberation and coming out in Mexico. e Annick Prieur (1998) Mema’s house.” E depois. nem sempre temos consciência de nossos desejos ou de nossos sentimentos. O que importa. n˚2. portanto. se se tem relações com pessoas do sexo oposto. É mais fácil para os homens reconhecer que seu 18 Ver Tomás Almaguer (1991) Chicano men: A cartography of homossexual identity and behavior. ela tivesse uma predisposição em relação à homossexualidade que nunca se manifestara. E essa atração pode tomar muitas formas. iniciou sua primeira relação lésbica aos quarenta e três anos: “A primeira vez que dormimos juntas. uma intimidade muito maior que aquela que elas têm com os seus maridos. em outras situações. já que não tem em todo o lugar a mesma significação. Por exemplo. mas muitas pessoas (sobretudo mulheres) descobrem apenas no momento de sua primeira relação homossexual que elas sempre tiveram esse desejo – mas não o sabiam. soube que sempre desejara isso. vol. sem ter consciência disso. ainda que estranhamente. é a presença ou não da atração sexual. University of Chicago Press.] Gay and lesbian youth. Joseph Carrier (1989). Mas como podemos saber se há. até o momento em que a pessoa indicada apareceu? Ou ainda. e que parece ser decisivo para a maioria das pessoas. com o amor. às vezes. Mexico city: On transvestites. a excitação especificamente genital.27 práticas sexuais. tão autêntico. isso me pareceu tão natural. New York. elas mencionarão alguma circunstância exterior como o fato de serem vizinhas ou amigas de colégio… duas pessoas do mesmo sexo podem dividir tudo e se tornarem indispensáveis uma para a outra. um enigma profundo. Pode surgir entre duas mulheres uma ligação afetiva intensa. Poderíamos nos perguntar se essa mulher sempre tivera desejos homossexuais sem se dar conta deles. Haworth Press. Em primeiro lugar. queens and machos. que as levam a se ver ou a se falar todos os dias. Foi somente na primeira vez que eu pensei: “Então. se é bissexual. atração sexual? Um componente da atração sexual é. Será que é possível desejar ou amar alguém sem percebê-lo? Isso parece incrível. nem sempre estamos conscientes de nossos sentimentos. Mas se lhes perguntar por que elas se procuram tão freqüentemente. É ela que marca a diferença entre a amizade e o amor erótico — pelo menos em teoria. após dois casamentos. sem nunca suspeitar (e muito menos assumir) que sua relação parece. como em certos esportes. ele é mais difuso e assimila-se às vezes à outras emoções. nas mulheres. Mas nunca tinha pensado nisso. como o amor e o desejo. claro. era isso que eu estava procurando. aparentemente simples. que as práticas não são por elas mesmas. esconde. e se se as tem com ambos os sexos. Chicago. Examinemos agora outros critérios.” Essa descrição. sua natureza sexual pode se esconder sob outros nomes. Em Gilbert Herdt [ed. O elemento que falta. . Ouvimos uma delas. Amor e desejo Vemos. não sabemos necessariamente em que momento apareceram. o contato físico entre homens pode ser “justificar” em certos contextos permitidos. se é heterossexual. Em Differences. 3. nos quais o desejo é geralmente mais localizado nos órgãos genitais. um critério de homossexualidade. Ou talvez. Esses trazem também numerosos problemas.

que a percepção que podemos ter de nossos próprios sentimentos ou desejos não é necessariamente confiável. o amor homossexual. Por causa da passividade e do pudor que lhes foram inculcados desde sempre. O amor pode se manifestar como dependência. na verdade. Jayme Salomão. Freud escreveu. ou adúltero. em uma outra. Vol. que compreende a consciência e a aceitação de todos os elementos já descritos. ciúme ou até mesmo como irritação ou ódio. que seja comum a todos os homossexuais. as mulheres podem confundi-lo com outras coisas. sem se dar conta disso. Ou melhor. XVIII. 19 Sigmund Freud (1920). enganar-se a si mesmos tão completamente no julgamento deles. todos esses elementos não se manifestam ao mesmo tempo. sua atração física por uma outra mulher. é o que acontece geralmente com as atrações proibidas. portanto. até uma relação amorosa e um estilo de vida abertamente homossexuais. sobretudo se esse for proibido. sem perceber uma excitação genital. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Pareceria que as informações recebidas por nossa consciência acerca de nossa vida erótica são especialmente passíveis de serem incompletas. pode haver práticas homoeróticas sem sentimentos. havendose dado conta desses momentos. incestuoso. como o desejo homossexual. de passagem. de práticas e de consciência. nem os desejos bastam para julgar se se é homossexual ou não. ou sinta a necessidade de tocá-la. Pode até mesmo não ter nenhuma consciência da natureza de seus sentimentos que aparecerão sob outras formas. talvez devêssemos falar de diferentes fases ou graus na homossexualidade. às vezes nem mesmo possuir a mais pálida suspeita de sua existência. É perfeitamente possível que uma pessoa ame uma outra até mesmo durante muito tempo. ou práticas sem desejo. nem as práticas. nem os sentimentos. Não há uma seqüência nem uma progressão no tempo. Na realidade. uma convergência de desejos. pensamentos obsessivos. a ordem pode ser invertida. É só quando todos os elementos se conjuminam. Com comentários e notas de James Strachey. Eis a razão pela qual os psicólogos falam da negação ou da repressão dos sentimentos proibidos: por exemplo. A identidade implica. meu espanto de que os seres humanos possam atravessar tão grandes e importantes momentos de sua vida erótica sem notá-los muito. que culminam em uma definição e uma aceitação de si como homossexual. Além do mais. ou desejo sem práticas… A identidade homossexual Em todos esses casos. Direção da Edição Brasileira. que podemos falar de uma identidade homossexual: só “se torna” realmente homossexual quando se atinge essa congruência interna. . Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. indo desde experiências ou desejos isolados (tais quais as vivem muitas pessoas). Eduardo Salomão. depois o desejo. é possível que uma pessoa esteja apaixonada por uma outra. em um de seus textos mais importantes sobre a homossexualidade: “Não posso desprezar a oportunidade de expressar. Assim. mas geralmente em épocas diferentes da vida. Portanto. ou então. muitas mulheres acham difícil identificar em si mesmas o desejo sexual.” Parece. E não aparecem na mesma ordem: em uma pessoa podem surgir primeiramente as práticas. cheias de lacunas ou falsificadas19. (…) Tem-se de admitir que os poetas estão certos em gostar de retratar pessoas que estão enamoradas sem sabê-lo ou incertas se amam. ou sentimentos sem desejo. falta alguma coisa. ou que pensam que odeiam quando na realidade amam.28 desejo de contato físico é de ordem sexual. É muito mais provável que elas confundirão com ternura ou até mesmo com um sentimento materno. Esse algo é a identidade homossexual. de sentimentos. Ora. portanto. depois o amor. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira.

Mas essa pergunta foi. No campo da homossexualidade. Quando se trata de homossexualidade. A identidade guei constrói-se aos poucos. Ela não é suficiente para estabelecer um fato objetivo. tudo o que uma pessoa pode dizer sobre ela mesma é suspeito. crucial para certas instituições como o Estado. as escolas. Certas pessoas necessitam de muitos anos para terem certeza de sua orientação sexual. antes de tudo. Não é por acaso que o tratamento do alcoolismo exige. por exemplo. é essencialmente diferente e isso tem implicações muito diversas. as companhias de seguros. há muitas razões econômicas e políticas para procurar sinais verificáveis da homossexualidade. E há muito dinheiro investido nesse tipo de pesquisa. Logo. que a ciência tenha tentado. fazer uma enquête sobre esse assunto. o discurso científico colocou uma outra questão. Tudo isso significa que a pergunta “será que eu sou homossexual?” não terá necessariamente resposta clara nem imediata. por exemplo. e tudo que se pode dizer sobre ela também o é21. Não é absurdo imaginar que as companhias de seguros poderiam 20 21 Nessa perspectiva. qual é o valor daquilo que se pode observar de fora? O importante. é o resultado de um longo percurso. há muito tempo. não há nenhuma dúvida que o conceito de homossexualidade tem também uma dimensão ideológica. o “quem o diz” é crucial. com toda a certeza. o exército — e claro. o termo “guei” refere-se justamente à essa coerência e a essa aceitação da homossexualidade20. identificar signos externos ou “objetivos” da homossexualidade. atualmente. um homossexual que vive no segredo não é guei. O fato de uma pessoa se dizer homossexual ou ser chamada assim pelos outros. Nessa perspectiva. o status quo médico e psiquiátrico. a homossexualidade não é um estado. é saber como uma pessoa se define a si própria. O mundo da subjetividade é difícil de ser compreendido e de ser expresso. como em todos aqueles que são condenados pela sociedade. para os pais de eventuais homossexuais. Não é surpreendente. porque sua vida pública e sua vida privada não coincidem. De fato. É por isso que podemos dizer. se existem — por exemplo. A evolução psicológica tem seus próprios ritmos que variam conforme o indivíduo. e continua sendo.29 Hoje. a quem iremos interrogar? Àqueles que se dizem homossexuais mesmo que não tenham tido experiências reais? Àqueles que têm praticas homossexuais. que o próprio indivíduo se reconheça como tal — que assuma sua “identidade” de alcoólatra. independentemente do que ela mesma venha a dizer sobre isso? A questão pode parecer secundária: no fim das contas. Hoje. a pergunta “será que eu sou homossexual?” diz respeito somente à experiência interna de uma pessoa. No fim das contas. Mas isso não acontece de um dia para o outro. outras a conhecem desde o início de sua vida erótica. que seria: “quem é homossexual?”. É por isso que as perguntas “quem o diz?” e “Por quê?” são de uma importância fundamental. mas um processo. Os especialistas em alcoolismo. mas essa suscita também dificuldades enormes. um “gene da homossexualidade”. Em uma outra época era importante detectar os judeus por signos externos — com as conseqüências que já conhecemos. sabem perfeitamente que existe uma diferença enorme entre se reconhecer como alcoólatra e o fato de ser descrito como tal por outro. mas ela é de uma importância fundamental. Quem é homossexual? Disso decorrem as dificuldades metodológicas de qualquer pesquisa sobre a homossexualidade. que as pessoas não nascem homossexuais. sobretudo nos Estados Unidos. sobretudo no que diz respeito ao continente obscuro da sexualidade. será que é possível saber objetivamente se uma pessoa é homossexual. . Se se quer. Acontece muitas vezes que uma esposa considere seu marido alcoólatra enquanto ele acha que bebe pouco ou “socialmente”. mesmo que não as considerem como tais? Àqueles que têm fantasias homossexuais? Àqueles que vivem atualmente uma relação homossexual? Ou somente àqueles que apresentam todos esses elementos ao mesmo tempo? Quem pode dizer com certeza que uma pessoa é homossexual? A pergunta pode parecer simplista. portanto.

esses signos “objetivos” podem ser de um grande interesse para os homossexuais que tentam esconder sua orientação. Paris. mas não punido. tem enormes implicações econômicas. que dominou amplamente no decorrer desse século. Portanto. portanto. médicas e psicológicas. desde que se começou o estudo científico da sexualidade. 22 Colin Spencer (1998). mas que ainda vêem esta orientação sexual como patológica. identificam-se os homossexuais por critérios “objetivos” como sua aparência ou suas condutas. congênita e natural. simplesmente porque foi desenvolvida por médicos e pesquisadores científicos. Nessa ótica. ele pode ser submetido a tratamento. políticas. Nasce-se homossexual e assim se permanece. e não pela sua autodefinição. . mas com certeza não um crime.30 recusar. Mas ninguém escolhe a homossexualidade. simplesmente. O homossexual como vítima do destino teve uma longa história nas margens da cultura moderna. A resposta depende da concepção que se tem da homossexualidade — e houve muitas. Condenado ou ao vício. Nesses casos. p. arrepende-se de não ser normal para poder se integrar à sociedade. Nessas sociedades. Diferentes concepções da homossexualidade A pergunta “quem é homossexual?”. e ainda é válida para muitas pessoas que aceitam os homossexuais. jurídicas. Examinaremos agora a significação e as implicações de cada um desses dois pontos de vista. não é a autodefinição. Essa imagem do homossexual. argumentando que essa deriva de uma “condição preexistente”. antes. Não é por acaso que se encontra nessa abordagem termos como “doença”. podemos distinguir historicamente duas grandes concepções da homossexualidade. ela é adquirida e se desenvolve no indivíduo segundo seu contexto familiar e social. o que está em jogo. e ainda predomina na cultura popular. Todo o homossexual se perguntou. 442. A idéia de que se nasce homossexual foi adotada por numerosos profissionais da saúde há um século. a homossexualidade é biológica. Histoire de l’homosexualité. a homossexualidade. Na perspectiva essencialista. Finalmente. Além do mais. na verdade. condição objetiva — que seria. na perspectiva social. independentemente da pessoa agir como tal ou não conforme as circunstâncias da vida. Mesmo nos países mais liberais. não devemos esquecer que existem ainda muitos lugares onde a homossexualidade é severamente punida: é ilegal na maioria dos países islâmicos. vítima da biologia que não pode modificar sua natureza porque nasceu assim. Na abordagem essencialista. de custear a AIDS. ele merece nossa compreensão e nossa simpatia — enquanto ele não tenta propagar sua patologia. Le Pré au Clercs. a homossexualidade é um traço biológico que aparece em todas as sociedades e em todas as épocas. na segunda metade do século passado. Em termos gerais. aparece sempre nas trevas. com certeza. em um futuro próximo. os antigos países comunistas e as antigas colônias britânicas22. num momento ou outro de sua vida: “será que estão percebendo?”. predominou no cinema e na literatura até uma época recente. “predisposição” e “cura”. mas. podemos ainda observar que os meninos “efeminados” ou as meninas “masculinizadas” são algumas vezes estigmatizadas pelos seus amigos ou suas famílias e até mesmo submetidos a tratamentos médicos ou psiquiátricos. O homossexual não é responsável por sua orientação. ou à solidão. Historicamente ela apareceu no contexto do modelo médico. O homossexual é considerado doente. a homossexualidade é uma condição ou uma patologia congênita. sinais considerados como indicadores da homossexualidade.

142. a postura essencialista foi o primeiro argumento erguido a favor dos Direitos Civis dos homossexuais. e conforme quem fala dela. p. A única coisa que conseguiram provar foi que não existe uma morfologia típica dos homossexuais (nem das lésbicas). esses estereótipos não afetam apenas os homossexuais: prejudicam também os heterossexuais que não respeitam as aparências e os papéis ditados pela sociedade. Assim. 23 Magnus Hirschfeld (1914). em muitos países. Die homosexualität des Mannes und des Weibes. ou ainda anomalias na dentição. assim como existem numerosas modificações análogas nos reinos animal e vegetal23. ela não é “contra-natura”. 24 Magnus Hirschfeld ([1922-1923]. hipotrofiados ou deformados. laringe. desde os meados do século passado. A homossexualidade é uma parte essencial da pessoa. p. Rosario [ed]. op. Mas a idéia permaneceu. Assim. da Igreja e da ciência. em particular nos Estados Unidos. . representa uma parte da ordem natural. 136. Steakley (1997). Isso constitui uma visão não mais médica. como qualquer debate sobre a homossexualidade tem um fundo ideológico que muda conforme o contexto. 1986). têm os mesmos direitos que qualquer outra pessoa. como um pênis pontudo nos “pederastas ativos24”). Manfred Herzer. sobretudo na cultura popular. mais uma vez. Louis Marcus. como ela o foi durante tanto tempo aos olhos do Estado. hormonal ou genética. os homossexuais. que os negros têm pênis enormes). uma variação sexual.” Portanto. Não se pode “curar” nem mudar a homossexualidade. não se encontrou nem uma forma “objetiva” nem mensurável de diferenciar fisicamente um homossexual de um heterossexual. Verlag Rosa Winkel. Na verdade. A única coisa que falta. ou a lésbica uma mulher masculinizada. Como escreveu Magnus Hirschfeld. Routledge. nos pés e no crescimento dos cabelos… Mas os cientistas nunca puderam verificar esse tipo de hipóteses. Essa perspectiva biológica foi retomada nesses últimos anos pelo movimento guei. Os clichês. os pesquisadores tentaram provar que os homossexuais têm órgãos genitais anormais (ou hipertrofiados. ou então. apesar de constituírem uma população específica. não atenta à ordem natural. Citado em Steakley. Em Vernon A. Ainda hoje. um médico alemão que lutou para a despenalização da homossexualidade: “a homossexualidade não é nem uma doença nem uma degenerescência… outrossim. são tão comuns hoje no imaginário social quanto há cinqüenta anos. de ordem anatômica. Se a homossexualidade é um fenômeno biológico. p. em diferentes épocas. exatamente como alguns mitos associados a outras minorias (por exemplo. os homens e as mulheres em certas profissões são automaticamente suspeitos de serem homossexuais. Será que estão percebendo? A perspectiva essencialista sempre se baseou no postulado de traços biológicos específicos e detectáveis — na existência de signos objetivos da homossexualidade. por diversos movimentos homófilos. ela é natural — como o fato de ser canhoto ou de pertencer a um certo grupo sangüíneo. Geschichte einer homosexuellen Bewegung 1897-1922. segundo os quais o homossexual é um homem efeminado. o argumento essencialista pode ser usado tanto a favor dos homossexuais quanto contra eles. Von einst bis jetzt. Per scientiam ad justitiam : Magnus Hirschfeld and the sexual politics of innate homosexuality. precisamente porque se trata de um fenômeno biológico tão natural quanto inevitável. é encontrá-los. e não se deve tentar fazê-lo. Citado em James D. mas étnica da “naturalidade” da homossexualidade. 25 Idem. Berlin. A homossexualidade não se “percebe”. os homens com cabelos compridos. uma morfologia corporal específica (uma distribuição de gordura feminina nos homossexuais masculinos ou um ânus em forma de funil nos “pederastas passivos25”). Science and homosexualities. 162-163. Até agora. Portanto. Berlin. Ora.cit. exatamente como qualquer outro traço biológico. Isso ilustra. New York..31 A postura essencialista também foi adotada.

com ou sem o consentimento das pessoas: bastava ajustar seus níveis de hormônios. apresentava ainda outras vantagens: em particular. segundo a qual toda a sexualidade é um caso de hormônios. mas ter “pulsões femininas” que lhe fazem desejar outros homens (visto que o próprio da mulher é desejar o homem). também muito difundida. Em uma extrapolação um pouco extravagante da teoria hormonal. Carlston. assim como certas condutas e certos traços de personalidade. op. Essa idéia sedutora por sua simplicidade. tentou curar a homossexualidade substituindo os testículos dos homossexuais por testículos de heterossexuais28 . nem as condutas e nem os prazeres sexuais. Mas esses não podem por si mesmos. Em Rosario. p. muito. numerosos cientistas procuraram combinações anormais de hormônios masculinos e femininos nos homossexuais.60-61. . ou ainda que formam parte de um suposto “terceiro sexo” que nem é masculino nem feminino. Uma outra vantagem da teoria hormonal é que. Cientistas também sugeriram que um homossexual pode apresentar um corpo normal. 147. cit. e do hormônio feminino na última26. postulou-se também que os homossexuais sofrem de um “hermafroditismo psíquico”. Female homosexuality and the American medical community. nem as fantasias. (Teve muitas variações sobre esse tema. na cultura popular: a homossexualidade é um caso de hormônios. 154. 149. op. 28 Steakley. cit. enraizou-se. Em Medical Record. pp. era lógico pensar que os homens homossexuais tinham um excesso de hormônios femininos e as lésbicas um excesso de hormônios masculinos. produzir nem o desejo. Clifford Wright: A pulsão sexual. Citado em Stephanie H. p. ela também.. Assim. Em Rosario. p. op. claro. senão totalmente. Citado em Erin G. 201. 27 Clifford Wright (1939). quando se descobriu (para a consternação de muitas pessoas) que os homens e as mulheres produzem hormônios dos dois tipos — ao mesmo tempo masculinos e femininos. enfim. Doravante podia se curá-la. podia servir para provar a homossexualidade em uma pessoa independentemente de sua própria opinião. Em Medical Record. Como o explicou um eminente endocrinologista americano. 399-402. provavelmente. Nessa perspectiva. Logo surgiu a idéia de uma bissexualidade hormonal. dos hormônios sexuais e da atração hormonal.. Kenen. Essa pesquisa acentuou-se depois de 1927. A atração sexual comum entre um macho normal e uma fêmea normal é provavelmente provocado pela predominância do hormônio masculino no primeiro. The sex offender’s endocrines. é a cabeça. Todas essas formulações se revelaram como sendo pura especulação. na qual é a proporção de hormônios masculinos e femininos que determinaria a orientação sexual. um médico vienense Eugen Steinach. 26 Clifford Wright (1935).) Essa teoria. Assim. o mesmo Clifford Wright escreveu em 1939: “(…) os exames hormonais da urina são importantes para descartar [a hipótese de] a homossexualidade em um indivíduo normal. Desde o início deste século. que nunca foi demonstrada de modo convincente. quando esse foi detido por uma ato indecente ou outra razão importante27”. oferecia um tratamento da homossexualidade. O elemento psicológico desenvolve um papel central na sexualidade como dizem os sexólogos. Who counts when you’re counting homosexuals? Hormones and homosexuality in mid-twentieth century America. Essa abordagem inscreve-se em uma outra idéia. Endocrine aspects of homosexuality: A preliminary report. o órgão sexual mais importante no ser humano. 187. uma das influências mais poderosas da vida… depende. pp. cit.32 Uma questão de hormônios? Uma outra variação sobre o tema da homossexualidade de origem biológica é o fator hormonal..

há fortes probabilidades para que isso derive de uma herança genética comum. todos os gêmeos verdadeiros de todos os homens gueis seriam gueis — isso não é nem um pouco o caso. Pattattucci (1993). Se dois gêmeos “univitelinos”. Pillard. se um homem é homossexual e tem um gêmeo idêntico. não se estabeleceu nenhuma concordância genética para o lesbianidade. longe disso. Segundo um estudo de 199130 comparando cinqüenta e seis pares de gêmeos “verdadeiros” (monozigóticos) com cinqüenta e quatro pares de gêmeos “falsos” (dizigóticos) e cinqüenta e sete pares de irmãos adotivos. mas não controlou se existia também em seus irmãos heterossexuais. E se tiver um irmão adotivo (com os mesmos pais. p. de fato. 31 Garland E. como o destaca um crítico do estudo. Assim. A genetic study of male sexual orientation. Além disso. que o fracasso dessas teorias não significa que não se possa encontrar um dia um componente biológico da homossexualidade. o fato de que irmãos ou irmãs tenham a mesma orientação sexual não provam a existência de um traço genético comum. The search for a genetic influence on sexual orientation. existe 52% de chances para que esse gêmeo seja também homossexual. é possível que a homossexualidade masculina seja essencialmente diferente da feminina — mas até agora. p. se tiver um “falso” gêmeo. Portanto.33 Em busca do gene perdido É importante destacar. independentemente de suas famílias. Em contrapartida. que foram criados por pais diferentes em lugares diferentes são ambos homossexuais. J. Se a homossexualidade fosse um traço inteiramente genético. mas não os mesmos genes). um heterossexual só tem 4% de chances de ter um irmão homossexual31. The politics of genetic determinism. mas não se achou ainda uma correlação entre os homens gueis e suas irmãs lésbicas29. Também é importante notar que. eles também cresceram juntos no seio da mesma família. é possível que todos os irmãos a tenham tido. Stelle Hu. muito elevada. o pesquisador americano Dean Hamer encontrou em 1993 uma correlação entre uma certa característica genética no cromossomo X e a homossexualidade masculina32. Em Rosario. Victoria L. 1991. e não somente os homossexuais. e não de seu meio ambiente. Contudo. 10891096. Eis a razão pela qual a prova mais conclusiva para procurar traços genéticos comuns reside no estudo dos gêmeos. então. 233-237. Em Rosario. Existem também problemas de interpretação ou de metodologia nos estudos recentes que procuraram traços genéticos ou anatômicos próprios aos indivíduos homossexuais. a concordância cai para 11%. entretanto. Em Archives of General Psychiatry. Pillard. afinal. Demonstrou-se. 48. Claro. A correlação entre gêmeos está. A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Pesquisas recentes sugerem que a homossexualidade pode. Manguson. 321-327. Hamer cometeu vários erros metodológicos que fazem duvidar de suas conclusões: por exemplo. portanto. De fato. Claro. 261. Hamer escolheu homens que se autodenominaram homossexuais. no decorrer dos últimos quinze anos apareceram vários estudos sobre possíveis aspectos genéticos da homossexualidade. ter elementos genéticos importantes. apenas a metade desenvolve a mesma orientação sexual. Allen. Por exemplo: se na metade dos casos o gêmeo idêntico de um homossexual é também homossexual. que os homossexuais têm muito mais chances de ter um irmão homossexual do que os heterossexuais. até agora. L.251-252. encontrou a característica genética em pares de irmãos homossexuais. na outra metade não é o caso. Contudo. o que 29 30 Richard C. e parece indicar que existe um componente genético na homossexualidade. Entre irmãos que têm genes idênticos. Nan Hu. por exemplo. e Ângela M. e isto bastaria para explicar algumas semelhanças. Michael Bailey e Richard C. . isso também não foi provado. existe 22% de chances. no caso de irmãs gêmeas. 32 Dean Hamer. As lésbicas também tendem a ter mais irmãs lésbicas. a interpretação é essencial neste tipo de estudo. Em Science.

atualmente. para identificar. “The seductive power of science in the making of deviant subjectivity”. 10341037. Mas a idéia que existam características biológicas próprias da criminalidade (ou da homossexualidade) ainda está muito difundida. Em suma. É preciso também se lembrar do papel que desenvolveram na história as pesquisas genéticas desse tipo.284. foram considerados heterossexuais. poderíamos dizer. classificar e. mesmo se ela puder explicar ou predizer traços como a cor dos olhos ou o tipo sanguíneo. no século XIX. 1991. que tinham contraído o vírus por outros meios (por transfusão de sangue. 35 Jennifer Terry. a pesquisa de uma diferença física entre homo e heterossexuais revelou-se ilusória. erradicar pessoas e condutas “indesejáveis”. para encontrar explicações genéticas da conduta tenham tido como objeto a criminalidade. em uma descrição simplista e sensacionalista. ou que morreram por outras razões. por demasiadas vezes. Novamente. Não é por acaso que os primeiros esforços. ou ainda problemas de ordem neurológica. Mas o próprio LeVay. “A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men”. se possível. Além disso. que teve muita repercussão em sua época. familiares e psicológicos têm um peso certamente igual. falta um critério claro e validado para distinguir as duas populações. condutas. a qualquer componente físico encontrado até agora. De fato. e às quais populações elas foram aplicadas. Aqueles que tinham sido contaminados durante um encontro sexual com um outro homem foram classificados como homossexuais. LeVay não pôde estudar os tecidos correspondentes nas lésbicas. É muito importante lembrar-se que esse tipo de pesquisa foi utilizado. é possível que o próprio vírus tenha afetado a neuroanatomia dos sujeitos. Simon LeVay. 253. autodefinição33? Em um outro estudo. Os fatores sociais. expressou reservas tanto no que diz respeito aos métodos quanto às conclusões de seu estudo. Por exemplo. devemos abordar com muito cuidado 33 34 Allen. novas questões e abriram outras possibilidades de investigação. o psiquiatra italiano Cesare Lombroso (1836-1909) dedicou sua vida aos atributos físicos que supostamente existem nos delinqüentes. As pesquisas em genética foram popularizadas de um modo extremamente simplista. procurando neles malformações do crânio ou do esqueleto. A biologia não é suficiente para explicar nem para predizer a homossexualidade. senão superior. levantaram. a imprensa americana anunciou a descoberta de um “cérebro guei”. não podem se aplicar a um fenômeno tão multidimensional quanto a orientação sexual. em Rosario. p. Da mesma maneira. Portanto. como LeVay o fez ele mesmo. p. encontrou em homens supostamente homossexuais e heterossexuais uma diferença no volume de uma parte do hipotálamo (órgão que governa certos aspectos da sexualidade). em Science. o pesquisador americano Simon LeVay. Não existe nenhum meio de distinguir fisicamente um “matador em série” (serial killer) do vizinho ao lado. assim como outros pesquisadores. . que seus trabalhos não trouxeram conclusões definitivas. Enfim. Portanto. Mais uma vez. é preciso interpretar todos esses estudos com muita prudência. por exemplo). Quando publicou suas conclusões em 199134.254-259. ao invés disso. ela se nutre de uma grande quantidade de investigações que procuram as causas genéticas de todos os tipos de traços e de condutas. enquanto se trata de uma ciência muito complexa. A ciência moderna refutou completamente esta teoria. Os outros. a maioria desses sujeitos (todos os homossexuais e alguns heterossexuais) tinham morrido de AIDS.34 torna difícil saber exatamente o que estava sendo medido pelo estudo: desejos. que. em uma simplificação bastante arriscada35.

a homossexualidade é um fenômeno histórico. postularam que a noção de uma sexualidade “natural” entre homens e mulheres não tem nada natural. como acontece em muitos casos? Concluindo. e só aparecem em certos contextos. claro. o conceito de homossexualidade aparece somente na era moderna e no mundo ocidental. Mas é importante (seja ela verdadeira ou falsa) porque faz parte de nosso imaginário social. dividida em dois grupos distintos: os heterossexuais. e que a sociedade é. E é muito mais reconfortante aprisionar a homossexualidade em um gene do que pensar em um potencial homossexual em todos os seres humanos. como se pode cair na heterossexualidade. de fato. É somente a partir do século XIX que indivíduos se 36 Poderíamos. “normais”. o processo de construção de uma identidade homossexual é longo e difícil. Para autores como Michel Foucault. depois de anos de estudos universitários: “é porque eu nasci inteligente”. mas aos fatores sociais. se sempre houve práticas homoeróticas. a descoberta de “genes da homossexualidade” seria extremamente reconfortante para os heterossexuais homofóbicos do mundo inteiro. New York. alguns autores. talvez deva estar relacionado com a ideologia da vitimização que conheceu uma grande evolução nesse país. Como vimos. Existem outras camadas que também devemos considerar. muitos homossexuais pensam isso. como veremos no capítulo sobre a bissexualidade. os pais. e que a homossexualidade é um atributo essencial e permanente da pessoa. mas para os próprios homossexuais. Nessas perspectivas. Ela não constitui apenas um fato. independentemente de sua exatidão científica. e explicá-la pela biologia. só diz respeito a uma camada na arqueologia da homossexualidade. Incluir a homossexualidade nesse esquema. Confirmaria a idéia de que os homossexuais são essencialmente diferentes deles. a teoria essencialista da homossexualidade tem implicações muito importantes. Penguin Books U. tanto no plano pessoal quanto no social. Atualmente. simplifica e limita demais um fenômeno que é provavelmente muito mais complicado.35 qualquer estudo que postule a existência de uma homossexualidade biologicamente dada36. nem de longe. A teoria essencialista não é. Essas não se referem mais ao corpo. o fato de dizer: “eu nasci assim. e não posso fazer nada”. que inclui uma crença profunda na herança genética. Enfim. só prolonga essa ideologia fatalista e reducionista. os traumatismos… em uma contínua influência do passado sobre o presente. Ver também Jonathan Ned Katz (1995). Nessa perspectiva. mas uma idéia que tem sua base ideológica como outra qualquer. “anormais”.S. não somente para a sociedade em geral. e depois os homossexuais. a única maneira de explicar a homossexualidade. nem automático. a teoria essencialista não saberia explicar por que tantas pessoas mudam de orientação sexual no decorrer de sua vida. as pessoas são amplamente determinadas por forças que ficam além de seu controle: os genes. generalizou-se muito além de seus méritos científicos. De fato. Mas. De um certo modo. É como se disséssemos. O fato de que esse posicionamento tenha sido adotado por muitos homossexuais nos Estados Unidos. De fato. dizer a mesma coisa da heterossexualidade. A teoria social da homossexualidade Isso nos leva para a teoria social da homossexualidade. verdadeira ou não. . nem universal. Se se nasce heterossexual. a idéia de que se nasce homossexual. Tornou-se uma crença implícita. no fim das contas que se nasceu assim desvaloriza o trabalho que isso implica. no decorrer dos últimos anos. O primeiro autor que questionou a “naturalidade” da heterossexualidade foi o próprio Freud. familiares e psicológicos que podem afetar a orientação sexual. Por outro lado. como se pode “tornar-se” homossexual aos quarenta anos? E se se é “naturalmente” homossexual. e com certeza essa idéia não lhes é benéfica. dizer.A. The invention of heterosexuality.

o que conta na identidade. é uma experiência total que engloba todos os aspectos da vida. modos. Engaja toda a pessoa. Surge assim uma homossexualidade que não é mais dada pela Biologia. a cultura ocidental reconheceu aos poucos e. Nessa perspectiva. em toda a profundidade de seu ser: traduz-se por sentimentos. o único mundo que nós realmente habitávamos) a homossexualidade não é somente uma questão de condutas. Como escreveu Foucault: “o sodomita era um relapso. tanto pessoal quanto social. Paris. enfim. durante a infância e a adolescência. mas também uma identidade social: não um indivíduo. modos de pensar e de ver o mundo. maneiras de pensar e de viver — em uma palavra. Nessa perspectiva. mas por uma série de gostos. mas uma comunidade. Entramos aqui em uma linguagem que é radicalmente diferente do discurso científico. as fantasias. a orientação sexual propriamente dita. É neste sentido que uma pessoa pode se considerar homossexual sem nunca ter tido relações homoeróticas. Foi assim que se desenvolveu uma identidade guei que se traduz não somente por uma orientação sexual. a homossexualidade não é somente o que se faz na cama. agora é uma espécie37”. E. e não tem uma forma única. nem signos exteriores. mas construída. O homossexual não obedece cegamente à sua biologia. Aqui. e o amor — toda essa base psíquica da sexualidade humana que nunca provavelmente será explicável pela ciência. e pela imagem e consciência que se tem de si mesmo como homem ou como mulher. um estilo de vida. por uma cultura — que hoje são perfeitamente identificáveis no mundo ocidental. diria Proust. existe também nele uma liberdade de ação e uma busca afetiva. assumiu a existência de uma homossexualidade que não é uma simples referência pessoal. Mesmo em um único indivíduo. A dimensão subjetiva Desse ponto de vista. e são identificados pela sociedade. E é também que nesse sentido não se nasce homossexual: tornase. Veremos como acontece essa evolução pessoal no capítulo seguinte. uma sensibilidade e uma comunidade que está cada vez mais consciente dela mesma. como veremos no capítulo seguinte. mas que se constrói e se expressa por meio de um discurso. Do mesmo modo que o indivíduo reconhece e assume pouco a pouco a sua orientação. 59. o que entra em jogo não é a anatomia nem os hormônios. claro por sonhos: há pessoas que “descobriram” sua orientação durante um sonho. É por isso que a orientação sexual é tão difícil de definir e de estudar.36 identificam. gostos. p. mas muda segundo a sociedade e o indivíduo. como seres essencialmente diferentes por conta de suas práticas sexuais. Nesse universo subjetivo (que é. Gallimard. que postula uma homossexualidade “cultivada” de alguma forma. é o fator subjetivo: não as práticas nem os genes. Ela é moldada aos poucos pelas relações e pelos papéis na família. Histoire de la sexualité. É determinada pelo contexto histórico. reflexos e atitudes. Tomo I. a homossexualidade não é dada. mas coisas tão intangíveis quanto o desejo. . o homossexual. é extremamente sedutora para a nossa sociedade que dá tanta importância para a 37 Michell Foucault (1976). mas o desejo e a aceitação desse desejo — em uma palavra. os critérios podem variar segundo a época de sua vida ou depois de um acontecimento imprevisto. nem explicações biológicas que valham: o que conta é a autodefinição de cada indivíduo segundo os critérios que correspondem à sua história. mas também pelo desenvolvimento pessoal. não há nem provas objetivas. Nesse nível. Escolher a homossexualidade? Essa abordagem.

muitos homossexuais tenham falado de “opção” ou de “preferência” sexual. de alguma forma. (Existem também heterossexuais que gostariam de poder “se tornar” homossexuais. praticamente não mudaram desde a época de Kinsey. A identidade guei A idéia de cultivar a homossexualidade está no coração da identidade guei contemporânea. provavelmente. não garante nada. mesmo quando os homossexuais se submetem voluntariamente a tratamentos médicos ou psicológicos. sem nunca conseguir apagar o desejo físico e a necessidade afetiva de uma pessoa de mesmo sexo biológico. pelo menos nas sociedades liberais. etc. Do mesmo modo. Isso sugere que há na orientação sexual algo de irredutível que é independente do contexto histórico e social. Mas a orientação sexual não é algo que se possa escolher livremente — mesmo que. Hoje. religiosa e até mesmo racial) é cada vez mais difundida. de divórcio.37 subjetividade. . de fertilidade. os judeus. Isto indica. Todas a minorias sofreram as conseqüências da classificação “objetiva”. Contudo. sabe-se que as possibilidades de mudar de orientação sexual são praticamente nulas. e outras minorias acabassem por recusar serem classificados segundo critérios impostos pela maioria. Em todos os domínios da vida. Talvez. como as taxas de casamento. que a predisposição não é suficiente. Há poucas coisas tão fortemente ancoradas na vida do que a orientação sexual. acentua demais os fatores subjetivos e a idéia de uma identidade escolhida ou construída. Vimos os horrores que podem advir de qualquer categorização “científica” das pessoas segundo sua ascendência genética. então. evidentemente não é um acaso. Apesar das vastas transformações sociais. demográficas e culturais que ocorreram no Ocidente desde a Segunda Guerra Mundial. a idéia (ou a ilusão) de que cada um tem o direito de escolher a sua etiqueta (pessoal. não há nenhuma dúvida de que muitos homossexuais cessariam de sê-lo. parece que certas aptidões musicais são hereditárias — mas todos aqueles que nascem com elas não se tornam necessariamente músicos (e muito menos ainda bons músicos). contudo. as pessoas rejeitam cada vez mais qualquer etiqueta que lhe seja imposta pelos outros. É de fato. para poder prescindir dos homens — como se isso pudesse resolver todos os seus problemas!) Mas. o fato de escolher dia-a-dia um estilo de vida. durante um certo tempo. As taxas de mais de aproximadamente 4% para os homens e 2% para as mulheres tendo relações e condutas exclusivamente homossexuais. os números da homossexualidade permaneceram mais ou menos iguais. Se fosse possível. Era inevitável que os homossexuais. e não significa muita coisa. mais digno e mais justo que as pessoas se identifiquem elas mesmas segundo os seus próprios critérios. Ouvi mulheres dizerem que teriam preferido ser lésbicas. o mais prudente seria pensar que um dia será encontrado um componente genético ou biológico na homossexualidade. A concepção social da homossexualidade. bem como os negros. profissional. devemos levar em consideração um fato inegável. Muitas pessoas tentaram durante anos ou decênios inteiros negar ou extirpar a sua homossexualidade. racial ou religiosa. ou segundo as suas condutas sexuais. que esse não seria suficiente para explicá-la. A proporção de homossexuais na população é surpreendentemente constante através de diferentes épocas e diferentes países. Isso. se não for conscientemente desenvolvida e cultivada. há cinqüenta anos. Entre outras coisas. Implica. esse mesmo meio século viu flutuações enormes em todos os outros indicadores sociológicos. sabendo. Essa resistência à mudança nos revela que há na homossexualidade algo mais poderoso do que uma simples preferência.

o que seria de qualquer modo ilusório. mas torná-la sua. Implica também um certo orgulho. de fato. É preciso lhe perguntar por que. O objetivo não é o conhecimento. mas a apropriação da homossexualidade para si. desde quando. teria sido lésbica”. Por exemplo. seja ou fosse homossexual. Essa pesquisa serve também para tornar explícitas as crenças. Recomendações para o trabalho terapêutico Quando se trabalha a identidade homossexual é muito importante pesquisar as razões que cada pessoa fornece a respeito de sua orientação. como ela sabe… destacamos novamente o fato de que não se trata de descobrir a verdade. mas inventar sua própria homossexualidade. ou fantasias. mas nunca assumiu”. tanto em geral quanto no seu caso em particular. Sejam essas apreciações verdadeiras ou falsas. Nunca. não adotar. os medos e as dúvidas. até poder viver sua orientação com plenitude e dignidade. de enfrentar a discriminação social ao invés de sofrê-la passivamente. podem ser verdadeiras ou falsas. Para viver assim a homossexualidade. cada pessoa deve desenvolver uma identidade guei passando por todas as etapas. tornar explícitos os preconceitos e explorar as fantasias. é freqüente os homossexuais pensarem que um de seus pais. ao invés de ser tolerados ou de provocar pena. O objetivo é ajudar a pessoa a desenvolver sua própria explicação e a história singular de sua homossexualidade em uma abordagem que não é científica. o “gay pride”.38 de viver publicamente o que antes era escondido. Em uma palavra. a primeira experiência sexual e a primeira relação amorosa. é evidente que elas têm uma enorme incidência sobre o modo pelo qual uma pessoa pensa e vive sua homossexualidade. preconceitos. . Ou ainda: “Se minha mãe tivesse vivido em outra época. Isso não importa: não se trata de procurar causas reais. desde a primeira tomada de consciência. O objetivo não é entrar na homossexualidade como em um país estrangeiro. sempre se deve ir além do fato de uma pessoa se dizer homossexual. Ouvi coisas assim: “Eu acho que no fundo meu pai era homossexual. as fantasias e os desejos que a pessoa pode ter a respeito da homossexualidade. os homossexuais haviam assumido sua orientação com orgulho. mas construir uma narrativa pessoal. Esse processo permite também ao terapeuta corrigir os erros e preencher as lacunas no conhecimento. levaria muito tempo e não serviria para muita coisa. Permite igualmente abordar aos poucos os grandes temas da responsabilidade e da culpabilidade que examinaremos mais profundamente no capítulo 4. nunca haviam exigido ser respeitados. que é algo totalmente novo na história. mas propriamente narrativa. Essas podem se basear em conhecimentos. na verdade.

uma situação bastante freqüente. de fato. depois dos 20 anos aproximadamente. Stephanie Sanders and June Reinisch [eds] (1990). são chamados de meninos “efeminados”. e lhes infligem. Gênero e orientação sexual Mais muito antes da orientação e da identidade sexuais poderem se desenvolver há. Como escreve o psiquiatra americano Richard Isay: “Todos os homossexuais que eu vi contam que eles se sentiam “diferentes” de seus pares a partir dos 3 ou 4 anos de idade.” 38 Na concepção atual. mas não identidade. Vernon A. que ela é de um sexo e não de outro. New York. Há meninos que desde a mais tenra idade se sentem mais identificados com as meninas. . A primeira aparece geralmente durante a infância. 283. Aos três anos.39 CAPÍTULO 3 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS FAMILIARES E INDIVIDUAIS Vimos que a sexualidade tem muitos níveis. primeiramente. Mas muitos homossexuais contam que se identificaram muito cedo com o sexo oposto39. atitudes e gostos que são geralmente associados ao sexo oposto. é importante fazer uma distinção entre a orientação sexual (o sexo para o qual sentimos amor e desejo) e a identidade sexual (o fato de assumir plenamente esta orientação). The search for a genetic influence on sexual orientation. e não há nenhuma dúvida que ela abarca elementos psicológicos. Em David McWhirter. Homosexuality/Heterosexuality: Concepts of sexual orientation. antes de chegar aos níveis mais pessoais da experiência familiar e individual. que vão desde o biológico até o social. biológicas e anatômicas do masculino (macho) e feminino (fêmea). 231-232. Routledge. é certo que ela tem aspectos sociais e culturais. e que preferem brincar com elas de boneca ao invés de futebol com seus colegas. a segunda não pode tomar forma antes da adolescência (pois não temos a consciência de si necessária antes dessa etapa). e “gênero” para designar os papeis masculino e feminino que a sociedade atribui (e impõe) a cada sexo. em si mesma. portanto. 39 Richard C. no mais tardar. um signo precursor de homossexualidade. a consciência do gênero38: a criança sabe. todo tipo de gozação e agressões. [ed. como nos tornamos homossexual? Em primeiro lugar. Logo. e só pode se desenvolver plenamente na idade adulta — isto é. O primeiro é natural. Oxford University Press. Esses meninos podem desenvolver condutas. Pillard. mais chorões. p. é. Descrevem essa sensação como o fato de terem sido mais sensíveis. Isso pode parecer evidente — mas as coisas nem sempre acontecem desse modo. de terem se sentido mais facilmente magoados. tanto familiares quanto individuais. mesmo que ainda não tenham sido encontrados. No nível psicológico. e que isso implica uma série de condutas. Psychoanalytic theory and the therapy of gay men. freqüentemente. usa-se o termo “sexo” para designar as características inatas. Têm uma aparência e condutas que não são as de seus colegas — e esses os identificam como diferentes. Essas diferenças fazem com que estas crianças se sintam “estranhos” em relação a seus pares e freqüentemente à sua família40. Pode haver orientação sexual. É possível que a homossexualidade tenha componentes biológicos. 40 Richard Isay. de terem tido interesses estéticos e de terem sido menos agressivos do que os outros meninos de sua idade. New York. desde os dois anos. o segundo á aprendido. e aprende a se comportar como tal. a criança identifica-se seja como um menino. Essa confusão de gênero não é. seja como uma menina.] (1997) Science and homosexualities. p. Em Rosario.

Ademais. mais uma vez. não é bem visto o fato dos meninos brincarem de boneca ou terem aula de dança. Em American Journal of Psychiatry. e. como brincar de boneca. enquanto o menino efeminado sofre o desprezo das suas. ao serem adultos. enquanto a menina-macho ganha em poder e em prestígio pela sua assimilação com o sexo “forte”. As meninas podem usar vestido ou calças. . e eu só posso usar calças. Gender identity in childhood and later sexual orientation. quase todos os meninos do segundo grupo revelaram ser quase exclusivamente ou exclusivamente heterossexuais (0 ou 1 na escala Kinsey). Em nossa sociedade. Como o disse sucintamente um menino de 7 anos: “Realmente não é justo. Portanto. essa confusão de gênero durante a infância não parece se aplicar às mulheres: até o momento. é preciso amenizar estas conclusões. as meninas podem tanto jogar futebol quanto brincar de boneca. a fim de compará-lo com o primeiro. Uma infância típica dos homossexuais? Uma equipe de pesquisadores americanos acompanhou a evolução psicossexual de dois grupos de meninos durante aproximadamente quinze anos. É importante notar. apresentam atitudes ou condutas efeminadas — e isso com certeza não é o caso para todos os homossexuais. de fato. Enfim. A equipe também acompanhou um grupo de cinqüenta e seis meninos considerados “normais”. o menino efeminado se inferioriza por conta de sua semelhança com o sexo “frágil”. Em contrapartida. Ao fim de quinze anos. Pelo menos atualmente. que pode haver na homossexualidade uma certa confusão de gêneros. e isso reforça em si um sentimento de diferença.” 41 Richard Green. Em segundo lugar. 339-341. ou até mesmo uma causa. Há também um outro elemento para ser levado em consideração. no final das contas. Elas podem ter aulas de dança. Contudo. mais da metade se tornou heterossexual. quase a metade dos meninos efeminados tinham se tornado quase exclusivamente ou exclusivamente homossexuais (5 ou 6 na escala Kinsey) 41. a partir da idade de 7 anos em média. Mas será que podemos dizer que essa confusão é uma característica. a menina pode brincar com meninas e meninos. uma vasta proporção de homossexuais que têm uma aparência e condutas totalmente “masculinas”. 142. a tese do homossexual efeminado se aplicaria somente a alguns homens: aqueles que. portanto. que as meninas são em geral mais livres de adotarem condutas dos dois gêneros. poderíamos dizer que houve uma certa confusão de gênero nos homossexuais que Isay descreve. ao passo que o menino é aceito somente pelas meninas — o que só pode reforçar. o menino efeminado é muito mais alvo de chacota do que a “menina-macho”.40 Em nossa sociedade. da homossexualidade? Será que é verdade que os homossexuais são apenas homens efeminados? Vejamos o estado atual das pesquisas nesse campo. pelo menos em certos casos. se quase a metade dos meninos efeminados se tornaram homossexuais. Ele sofre provavelmente mais durante sua infância e sua adolescência: de fato. Ela adquire freqüentemente uma posição de autoridade e de predominância em relação às suas amizades. mas também de karatê. essas condutas e atitudes são consideradas mais “femininas”. nenhum estudo mostrou que as “meninasmachos” têm mais chances de se tornarem lésbicas. Existe. Em contrapartida. Parece assim que os meninos efeminados têm mais chances de se tornarem homossexuais. sendo aceita dos dois lados. poderíamos dizer. 1985. preferir a companhia das meninas e se vestir como elas. Em primeiro lugar. O primeiro grupo tinha quarenta e quatro meninos cujos pais os tinham levado para consulta porque apresentavam condutas “femininas”. sua confusão e seu sentimento de ser “estranho”.

as coisas não se passam assim. de uma suspensão do desenvolvimento psicossexual normal. a homossexualidade deriva de um complexo de Édipo mal resolvido. Jayme Salomão. Com comentários e notas de James Strachey. para Freud. e o pai a se afastar dele. Isso significa que Freud não acredita em um só tipo de homossexualidade nem em uma causa única. veríamos como um atributo provavelmente inato (o fato de ter. De fato. por razões estritamente culturais. acabasse por se identificar mais com as meninas? Se isso fosse verdade. . o pai tende a se distanciar justamente porque seu menino não tem as condutas ou o temperamento masculino que ele teria desejado. É possível que o fato de encorajar esses papéis nas crianças — estimulando os meninos a serem “masculinos” e as meninas a serem “femininas” — justamente para que eles não se tornem homossexuais. a de seu pai e de seus irmãos. nem todos os homossexuais não entram nesse esquema. Vol VII. Essas atitudes afetarão provavelmente o desenvolvimento psicossexual da criança. muito mais complexa. E o menino se guarda em seu desejo em relação a mãe. Talvez houvesse menos homossexualidade se os papéis masculino e feminino fossem menos rígidos e divididos para as crianças e os adolescentes. deseja (inconscientemente) matar este a fim de ter a sua mãe só para si. Nessa ótica. Mas seu medo de ser punido (castrado) é tal que acaba por renunciar à mãe e orienta seu desejo em direção a outras mulheres. portanto. seu 42 Sigmund Freud (1905). Segundo o fundador da psicanálise. Seus pais também o tratam de um modo especial: a mãe tende a superprotegê-lo. O menino efeminado é estigmatizado desde a sua pequena infância como um ser à parte: seus colegas gozam dele e o rejeitam. como a ausência de objetos heterossexuais42). sensível) se transforma. o homossexual não teria tido modelo masculino com o qual se identificar. Em primeiro lugar. O menino. certos teóricos da homossexualidade pensam que esse distanciamento ocorre justamente porque a criança é “diferente” desde o princípio. desenvolvam neles tendências homossexuais. será que não poderiam contribuir para a sua eventual homossexualidade? Não seria natural que um menino que só pode brincar com as meninas e que é excluído das atividades de seus colegas. Eduardo Salomão. os “hermafroditas psicossexuais” (que podem ter relações indistintamente com os dois sexos). Segundo essa. No esquema que acabamos de descrever. em um fator influente sobre a orientação sexual. E isso não por causa de uma homossexualidade inata. todas as crianças passam por uma fase na qual estão apaixonados pela figura parental do sexo oposto. Curiosamente. Direção da Edição Brasileira. Mas. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. como esse desejo é impossível de se realizar (por causa do tabu do incesto e de seu medo do pai). A teoria psicanalítica A teoria originalmente postulada por Freud é. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Mas. porque teria tido um pai distante e uma mãe superprotetora. claro. e os “ocasionais” (que estabelecem relações com pessoas de seu sexo por razões circunstanciais. inclusive. mas por causa da classificação (e da divisão) social dos gêneros. o menino efeminado é com efeito isolado e afastado da companhia masculina e. e. essa abordagem “cultural” (e provavelmente parcial) da homossexualidade masculina parece com uma das explicações psicanalíticas da homossexualidade. ele acaba por renunciar a todas as mulheres e se retrai na homossexualidade. por exemplo.41 Esse fenômeno social e cultural tem implicações interessantes. um temperamento mais tímido. ele distingue três tipos de homossexuais ou de “invertidos”: os “absolutos” (que podem somente entrar em relação com pessoas de seu sexo). Em alguns casos. apaixonado pela sua mãe e com ciúmes de seu pai.

a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos [. “Não existem homossexuais sãos43”. uma relação próxima com sua mãe. do narcisismo que faz que uma pessoa procure objetos sexuais idênticos a ela. todos os indivíduos são heterossexuais44. E não significa também que não se possa encontrar alguma em um 43 Edmund Bergler (1956). Contudo. Jayme Salomão. 9. e outros não. 44 I. (1997).” Não uma. M. mas muitas causas possíveis Parece. Drellich. outros autores retomaram as idéias formuladas por Freud para reunir uma teoria patológica da homossexualidade. Baltimore. 46 Sigmund Freud (1920). Vol VXII. A experiência clínica e a reflexão teórica mostraram desde então que nenhum desses fatores (por mais convincentes que possam parecer) aparece sistematicamente em todos os homossexuais. New York. por exemplo. falando. as teorias psicanalíticas da homossexualidade tiveram uma influência enorme. Dain. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. se revelaram praticamente inúteis para compreender ou explicar o lesbianidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. […] A heterossexualidade é a norma biológica e. Rifkin. B. H. Como escreveu em 1915. Science and Homosexualities. Homosexuality: A Psychoanalytic Study of Male Homosexuals.. 77. e outros não. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud.] A psicanálise possui uma base comum com a biologia. A Natural History of Homosexuality. Citado em Pillard. Direção da Edição Brasileira. de um pai distante e castrador. Bieber (1962). Eduardo Salomão. ao pressupor uma bissexualidade original nos seres humanos (tal como nos animais46). Jayme Salomão. 45 Sigmund Freud (1905). permitiram o aparecimento de uma concepção da homossexualidade que predominou na cultura ocidental durante mais de meio século. baseado no fim das contas sob uma atração química45”. Dince. Vernon A. Citado em Francis Mark Mondimore (1996). que foi considerado durante muito tempo um especialista no assunto: “A homossexualidade adulta é um estado psicopatológico. H. Irving Bieber. H. P. R. Alguns homossexuais tiveram condutas ou atitudes próprias de um outro gênero. A. o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher constitui também um problema e não algo muito natural. Bieber. H. W. “Em um sentido psicanalítico. que não há infância “típica” dos homossexuais. Homosexuality: Disease or Way of Life?. New York. p. Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina.42 pensamento é muito sofisticado para se fechar em uma teoria absoluta. e outros não. Poderíamos também citar um outro psicanalista americano. como o notaram em várias ocasiões as críticas feministas à psicanálise. Wilbur e T. e ele formula diferentes abordagens. Vol VII. Como escreveu sucintamente um psicanalista eminente em 1956. . Com comentários e notas de James Strachey. portanto. Basic Books. Grand. [ed. Isso significa que não parece ter explicação que seja válida em todos os casos. de uma fixação do menino em sua mãe e de uma identificação posterior com ela (escolhendo. New York. Direção da Edição Brasileira. M. The Johns Hopkins University Press. Além do mais. Hill and Wang. Routledge.. Ele acrescenta: “Em todos nós. portanto objetos sexuais masculinos).” Esta visão é diametralmente oposta à opinião de Freud que nunca pensou que a heterossexualidade fosse “natural”. Alguns tiveram pais distantes. Grundlach. G. Depois de sua morte em 1939. Richard C. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. Mas é importante sublinhar aqui que uma grande parte desta concepção tem muito pouco — ou nada — a ver com a visão original de Freud. C. e muitos outros não. Em Rosario.] (1997). p. […] se não houver interferências. e de um medo em relação às pessoas do sexo oposto. B. G. Eduardo Salomão. em diversos textos Freud desenvolveu outras teorias parciais. Assim. Com comentários e notas de James Strachey. The search for a genetic influence on sexual orientation. ou experiências traumatizantes com pessoas do sexo oposto. Um esclarecimento importante: isso não significa que não exista causas psicológicas da homossexualidade. no decorrer da vida. postulando que esta é uma doença mental tão grave que afeta inevitavelmente todos os campos da personalidade e do funcionamento mental. Kremer.

não é mais necessário procurar uma causa patógena única. percebe-se que a relação entre homens e mulheres é infinitamente complexa. ter uma causa. um processo no qual a pessoa aceita sua homossexualidade para ela mesma. Contudo. As mulheres. e depois põem em prática. cada indivíduo constrói sua orientação sexual: não há uma causa nem uma forma única da homossexualidade. não tem um objetivo único nem uma forma típica. a solidão. historicamente. Essa seqüência é mais freqüente entre os homens que são muitas vezes “iniciados” na homossexualidade por meio das práticas sexuais que lhes são mais ou menos impostas durante sua infância ou sua adolescência. e depois uma consciência da homossexualidade. tendem a “se iniciarem” por meio da subjetividade e dos sentimentos. portanto. e faz isso seguindo uma seqüência mais ou menos previsível. é que estas causas eventuais não são generalizáveis — isto é. No final dessa evolução (sobre a qual retornaremos). uma afetividade. uma sexualidade e uma identidade homossexuais que vão desde a vida íntima até a esfera social. e que acontece poucas vezes na vida). até aceitar sua orientação sexual. na maioria das vezes) depender de outras coisas como o amor. A relação sexual entre um homem e uma mulher pode ter como finalidade a procriação — mas pode (com certeza. deve. quis-se que a homossexualidade tivesse uma única causa. e do contexto social e cultural. todavia. Se pensarmos na infinidade de formas que podem assumir as relações entre homens e mulheres. ao tomar consciência de seu desejo. e uma única teoria. A construção da homossexualidade Nesta perspectiva. uma única forma. Aqui também geralmente há duas fases: em primeiro lugar o homossexual se assume frente a si mesmo. e que pode ser dificilmente entendida por meio de uma única teoria. . inscreve-se. a possibilidade teórica de uma grande variedade de causas e de modalidades. ou simplesmente o prazer. a partir do momento em que paramos de ver a homossexualidade como uma doença. a pessoa conhece primeiramente os sentimentos e o desejo. não são universais. e na maneira como variam segundo os lugares e as épocas históricas. Em resumo. mas da psicologia pessoal.43 dado indivíduo: cada um poderá descobrir. que não dependem mais de uma evolução patológica determinada. qualquer doença tem uma explicação e uma evolução. parece difícil imaginar uma teoria única da heterossexualidade. a pessoa integra aos poucos as dimensões externas e internas. nem uma razão de ser universal. depois. Se a homossexualidade for uma patologia. Nesse modelo alternativo. a pesquisa de uma causa da homossexualidade. Parece ter. de desejos e de pensamentos. em contrapartida. o poder. Na medicina. e depois frente à sociedade. mil causas. há primeiramente uma integração de práticas. Na primeira. O que queremos sublinhar aqui. em sua história pessoal. poderíamos dizer que a homossexualidade se desenvolve a partir de experiências objetivas: há primeiramente práticas sexuais. há uma experiência. um ou vários fatores descritos por Freud e seus seguidores. dois tipos de evolução. Está cada vez mais claro. Nos dois casos. de sentimentos. que ela tem mil formas. Por outro lado. E também não há uma causa da heterossexualidade. grosso modo. cada um constrói sua homossexualidade. Mas. então. e depois frente à sociedade quando ele se revela como tal. da família. no modelo médico. Abra-se. Se colocarmos de lado a procriação (que não é a única razão para se ter uma relação sexual. Nessa segunda evolução (que evidentemente pode acontecer entre os homens também).

Morin. As lésbicas tomam consciência de seus desejos aos 14 anos. a enorme diferença entre o desenvolvimento psicossexual dos homossexuais e dos heterossexuais. tem uma primeira experiência sexual aos 17 ou 18 anos e uma primeira relação amorosa em torno dos 18 — em um processo que dura em média seis anos —. Developmental stages of the coming out process. 47 J.44 Os tempos da homossexualidade Quanto tempo dura o processo? De acordo com um estudo americano realizado há vinte anos. de fato. Em contrapartida. e acabam por desenvolver uma identidade guei positiva em torno dos 28 anos. . F. A construção da identidade guei dura. e cada uma delas prepara. se se considerar que um heterossexual começa (por exemplo) a sentir desejos sexuais aos 12 anos. nem da mesma forma. portanto. I. A Guide to Psychotherapy with Gay and Lesbian Clients. evidentemente. Em Journal of Homosexuality. Uma outra diferença se deve ao fato de que. task force on the status of lesbian and gay male psychologists. de alguma forma. Raramente é o caso para os homossexuais. e assim por diante.. e Eli Coleman. passando assim ao lado da experiência tão necessária dos amores da adolescência. S. em média. Apresentarei o essencial desses modelos. D. 219-235. tem um custo afetivo muito elevado. vê-se. Isso implica um longo período de confusão e de incerteza que. Gonsiorek [ed] (1985). Riddle. APA Monitor. sua primeira relação de casal em torno dos 23 e só adquirem uma identidade lésbica positiva em torno dos 30 anos47. a seqüência nas relações amorosas progridem em complexidade e em profundidade. até os amores da juventude. a seguinte. American Psychological Association. D. os homens homossexuais tomam consciência de seus desejos homoeróticos em torno dos 13 anos de idade em média. Kooden. muito diferentes para as duas populações. Rogers. 48 Ver sobretudo Vivienne Cass (1979). Isso significa que as etapas do desenvolvimento heterossexual não se sucedem necessariamente na mesma ordem. Em John C. Strassburger (1979). Harrington Park Press. nem consumir seus sentimentos. Homosexual identity formation: A theoretical model. Sand e F. que é muito diferente entre os heterossexuais e os homossexuais. Os anos que muitos homossexuais passam se perguntando e explorando sua sexualidade poderiam explicar seu isolamento e sua imaturidade em certos campos. sua primeira relação de casal em torno dos 22. B. 31-43. sua primeira experiência em torno dos 20. M. Inc. têm sua primeira experiência homossexual em torno dos 15. dividir. imediatamente. engajados na difícil tarefa de compreender a sua identidade sexual. Removing the stigma: Final report. desde as paqueras da adolescência. Em inúmeros casos passaram uma boa parte de sua juventude em conflitos internos ou em relações problemáticas. Teorias do desenvolvimento homossexual Eis a razão pela qual os teóricos da homossexualidade procuraram modelos alternativos para entender o desenvolvimento da identidade homossexual 48. aproximadamente quinze anos. Os tempos da vida são. Uma primeira etapa no desenvolvimento da identidade homossexual ocorre durante a adolescência. Um menino pode estar apaixonado por um outro sem nunca expressar. depois até a coabitação ou até o casamento e a paternidade. 4. acrescentando-lhes alguns elementos que me parecem indispensáveis na tarefa de constituir uma identidade homossexual saudável. New York. p. entre os homossexuais. Uma pessoa pode viver sua primeira paixão homoerótica aos 50 anos sem ter tido a experiência que lhe permitiria situá-la e entendê-la. E. Duas mulheres podem começar a coabitar depois de algumas semanas sem ter passado pelas etapas anteriores que as teriam preparado para um tal compromisso. As etapas da vida sucedem-se de uma maneira mais ou menos previsível. na vida dos heterossexuais. mas que permanece revelador.

se sente diferente — e de um modo que ele sabe que é visto como ilícito. Se expressa menos e mostra menos de si mesmo do que o jovem heterossexual. Primeiramente. Não lhe faltam nem as oportunidades nem os exemplos para seguir. nem o contexto social. que sua sexualidade está tomando uma direção que não tem nada a ver com os livros que lê. Vai às festas e toma consciência que não sente as mesmas coisas e não têm as mesmas reações que seus amigos. aprender a dominar e canalizar suas pulsões sexuais e entrar em relação com o sexo oposto. é possível que o jovem homossexual se apaixone por alguém de seu sexo e que sofra pela primeira vez uma das situações mais difíceis para um homossexual: gostar de um heterossexual. Sabe que não é como os outros. Começa a se sentir só e incompreendido. e se dar conta que sua obsessão não parece ser compartilhada. por conta dos comentários e das chacotas que ouve em relação aos homossexuais (essas falas aliás são freqüentes: 97% dos estudantes do ensino fundamental e/ou médio americanos contam que ouvem regularmente comentários homofóbicos49). Assim. Emery e Martin. Damien (1987). por meio de seus sonhos e fantasias eróticas. Assim. descobre aos poucos que seus desejos sexuais não se parecem com aqueles de seus colegas. o adolescente identifica-se cada vez menos com seus colegas e cessa de pertencer verdadeiramente ao grupo. Hetrick. A. Em Journal of Homosexuality. É por conta de toda essa dinâmica que a adolescência é uma etapa particularmente difícil para os homossexuais. A escola. Quando o adolescente começa a descobrir estes contrastes. 80% dos adolescentes homossexuais contam que vivem em um “isolamento social extremo 50”. que domina a relação e que pode rompê-la a qualquer momento. que não é nem fácil nem automático para os jovens heterossexuais. Há poucas coisas tão dolorosas. que não compartilha. as músicas que escuta. A vergonha infiltra-se aos poucos em sua mente. Pode observar. . 1993. Sabe também que não pode dividir nada de tudo isso. por exemplo. E afasta-se progressivamente de sua família. é facilitado pela sociedade. as atividades extraescolares. dá-se conta de que seus desejos e sentimentos não são permitidos. Enquanto o jovem homossexual se desdobra em atenções para com o outro e sofre em silêncio por causa de sua indiferença. Isola-se aos poucos. nem os(as) amigos(as) com quem dividir esta etapa crucial. levam o adolescente a desenvolver as capacidades e a acumular as experiências requeridas para seu futuro enquanto heterossexual. retira-se das atividades sociais com seus pares e habitua-se a esconder seus sentimentos. Nas aulas de educação física aprende a desviar o olhar dos corpos ao seu redor. Durante esta fase. sente-se mais atraído pelos atores de seu sexo. frustrantes e humilhantes do que desejar alguém que não tem os mesmos sentimentos. durante este período deve-se teoricamente estabelecer uma identidade sexual estável. Esse desenvolvimento. muito cedo. afetando inevitavelmente sua auto-estima e sua relação com o mundo. e começar a assimilar as regras das relações sociais e amorosas. essa fase (que vai geralmente dos 12 aos 20 anos) é uma etapa de transição entre a infância e a idade adulta.45 Teoricamente. a qual correspondem certas tarefas do desenvolvimento. Tudo é diferente para o jovem homossexual. No cinema. o interesse intenso de seus pares pelo sexo oposto. contudo. várias coisas se produzem que podem determinar o curso de toda a sua vida. talvez até mesmo excluído da sociedade. Em primeiro lugar. os filmes que vê. Ou pode descobrir. 49 50 Making schools safe for gay and lesbian youth: Report of the Massachusetts Governor’s Comission on gay and lesbian youth. Pode pensar constantemente no seu melhor amigo. as festas e a cultura em geral. Developmental issues and their resolution for gay and lesbian adolescents. Com isso. A adolescência serve para aprender várias coisas que são indispensáveis para a vida adulta. desenvolver uma identidade social independente da família por meio da pertença a um grupo de pares.

reações impulsivas. de dúvidas. por uma pessoa do sexo oposto. Essa tomada de consciência de sua homossexualidade não é simples. e menos ainda quando a cultura de seu meio não lhes oferece o vocabulário necessário e quando a sociedade censura a expressão de certos desejos e sentimentos. Na verdade. é atravessada por sentimentos contraditórios. pior. Como escreveu Oscar Wilde. que deve conter seu desejo. portanto. uma personagem ridícula. É também possível que o jovem homossexual adote condutas e atitudes heterossexuais exageradas. se as tivesse tido. impregnada de confusão. calar seus sentimentos e esconder seu ciúme no dia em que o outro se apaixona. (geralmente pensa-se que os homossexuais adultos procuram seduzir os adolescentes. nos Estados Unidos. A homossexualidade pode se tornar para ele uma obsessão. com todos os perigos que isso implica. essas pessoas são mais velhas do que ele e serão já conhecidas como homossexuais. Durante essa fase de negação. Esse tipo de atitude é mais comum do que se imagina. para mostrar aos outros (e se convencer a si mesmo) de que ele é “normal”. para aprender “como se faz”. na maioria das vezes. É possível que procure de modo compulsivo contatos sexuais com pessoas do mesmo sexo. para ter uma noção do que é e sair. o jovem homossexual pode se engajar em relações heterossexuais superficiais e irrefletidas. nomear o que sente. Essas experiências pouco satisfatórias servirão. momentos de êxtase seguidos de confusão e de vergonha. . um eterno dilema para ser resolvido ou o tema principal da existência. Essa primeira etapa na construção da identidade homossexual é. que um entre cada cinco pessoas vivendo com HIV foi infectada durante a sua adolescência51. Em uma segunda etapa. Na cultura popular. promiscuidade. O jovem homossexual é particularmente vulnerável ao uso abusivo dessas 51 Dados dos Centros de Controle de Doenças Infecciosas. A verbalização nunca é um ponto forte entre os jovens.) Essa fase de exploração pode ser muito caótica. e a compartilhá-la. enfim. seja para negar a sua homossexualidade. Freqüentemente. e ela é ainda mais complicada pela dificuldade que todos os adolescentes têm para entender e expressar claramente seus sentimentos. ele não seria homossexual. talvez. muitos homossexuais. com todos os riscos que isto implica para a sua saúde física e psicológica. Começa a explorar essa idéia. de solidão e. por sua vez. homens e mulheres. muitas vezes. Os primeiros contatos sociais e sexuais com outros homossexuais acontecem freqüentemente em um contexto que encoraja o consumo de drogas e de álcool. E mesmo quando há reciprocidade na amizade. e faz parte da construção da identidade homossexual. e esquecemos que. o jovem homossexual consegue. fizeram um esforço para ter experiências heterossexuais — seja para experimentá-la. Os riscos da adolescência Essa fase de exploração durante a adolescência e a juventude está associada a certos riscos. de vergonha. da incerteza. a homossexualidade é o amor que não ousa dizer o seu nome: é imensamente difícil verbalizar e compartilhar sentimentos proibidos. para confirmar que ele não sente nada em relação ao sexo oposto. relações curtas e instáveis. enfim. entre outras. são os jovens que procuram desesperadamente serem iniciados à homossexualidade pelos adultos. acredita-se que os homossexuais têm horror do sexo oposto. por exemplo.46 para esse último aquele não é nada além do que um amigo. o homossexual é alguém que não teve relações com o sexo oposto. Ou ainda.) Ou o jovem homossexual pode iniciar relações com qualquer desconhecido. esta não basta para o jovem homossexual. muito freqüentemente. começa a reconhecer a possibilidade de que seus desejos. 1995. (Estima-se. fantasias e sentimentos sejam homossexuais. desejos incontroláveis. com um confidente.

sendo considerada um sinal de homossexualidade qualquer demonstração de ternura entre rapazes. É possível que muitos problemas observados entre os adolescentes (alcoolismo. por outro lado.47 substâncias. não é fácil ser adolescente. Joyce Hunter et al. se apaixonar.C. e até mesmo 52 53 GLTTB – gueis. respectivamente53. tocar nos órgãos genitais são atividades comuns entre os rapazes e não são consideradas sinais de homossexualidade. 83% das adolescentes lésbicas consomem álcool regularmente. Portanto. Center for Clinical and Behavior Studies. e. Elas podem se abraçar e se beijar abertamente. p. De fato inúmeros estudos mostram que a taxa de suicídios é extremamente elevada entre os adolescentes homossexuais. Os jovens não têm mais tão claramente presentes os modelos. Nos Estados Unidos. Em Gerald Unks (ed. Pelo menos nas sociedades industrializadas não há mais consenso a respeito das condutas esperadas por parte dos homens e das mulheres. se ligar ou se escrever de modo compulsivo quando estão distantes. Nos Estados Unidos. por um lado. e Gary Remafedi (1995). Risk factors for attempted suicide in gay and bisexual youth. Gibson (1989). 54 P. Nova Iorque. H. depressão) comportam um elemento de confusão a respeito de sua orientação sexual. The Gay Teen. Alyson Publications. os números são de 68% e de 44%. Breaking the silence. estima-se que. atualmente. Government Printing Office. Mas essa etapa é sempre e ainda mais difícil para o adolescente homossexual. Existem riscos importantes de depressão durante esta fase. se tocar e até mesmo se masturbar reciprocamente. Uma adolescência diferente para os homens e para as mulheres É importante notar aqui uma diferença essencial entre homens e mulheres. travestis. Duas moças podem passar o tempo inteiro juntas. fazem parte de sua iniciação à masculinidade. Os jogos sexuais são muito freqüentes entre os rapazes: olhar.S. Routledge. Embora essa evolução social em direção a uma maior flexibilidade nos papéis seja positiva em muitos aspectos. 13. Gay male and lesbian youth suicide. ela também torna mais difícil a passagem pela adolescência (tanto para os heterossexuais quanto para os homossexuais). Ao contrário. claro. Mas elas. Nota dos tradutores. U. É igualmente proibido se acariciar com carinho ou se beijar na boca.). é muito freqüente que desenvolvam ligações afetivas próximas do amor. é indispensável que os professores e os profissionais da saúde mental estejam conscientes dessas dificuldades. Ver também Andi O’Conor (1995). Washington. considerando a intensidade emocional. os jovens homossexuais (de ambos os sexos) representam um terço de todos os suicídios juvenis (enquanto os homossexuais constituem no máximo 5 ou 6% da população). Durante sua adolescência. e com certeza não é um sinal de homossexualidade. é permitido se olhar. Não se deve esquecer que. O álcool e as drogas podem se transformar em hábitos devidos. Um em cada três homossexuais tentou se suicidar pelo menos uma vez54. dormir juntas. a confusão e a angústia que sente.V. Irei propor ao fim desse capítulo algumas idéias em relação a isso.S. Gary Remafedi (1991). Portanto. e 56% outras drogas. Department of Health and Human Services. . lésbicas. em certos países — mas é proibido expressar sentimentos e. Report of the Secretary’s Task Force on Youth Suicide. para os rapazes. Em Pediatrics. pois ele sabe que sua sexualidade é radicalmente diferente da de suas amizades. à convivência aos bares e casas noturnas GLTTB52. Boston.. comparar. Em U. à evasão que oferecem. Death by Denial: Studies of gay and lesbian youth suicide. e seus pares. (1992) Projeto de pesquisa inédita da Columbia University. o que se aproximaria perigosamente da homossexualidade. É exatamente o contrário para as moças. ou os papéis masculino e feminino que seus pais conheceram. condutas delinqüentes.I. D. transexuais e bissexuais. e que saibam abordá-las. uso abusivo de drogas. consideram essa ligação normal: o fato de serem melhores amigas não tem nada de estranho.

Mas a maioria dos homossexuais passa por um luto da heterossexualidade. e. portanto. 1992. os casais homossexuais masculinos apresentam. O luto da heterossexualidade É. é um processo extremamente lento e doloroso. passamos pela negação (“não é verdade. os homens tendem muito mais ao contato sexual. se tudo der certo. Com efeito. Claro. e. de fato. Assim. e as mulheres a relação afetiva. a aceitação (“eu fiz o melhor que pude. não acontecerá e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado. a depressão (“nunca serei feliz”). a aceitação. uma lésbica pode viver sua homossexualidade sem problemas durante muito tempo e. qualquer contato sexual (isto é. a barganha (“farei tudo para evitar isso”). a negação (“talvez não seja verdade”). a raiva (“por que eu?”). Em contrapartida. a cultura e a sociedade em geral. Esse luto compreende todas as fases descritas por Elizabeth Kübler-Ross em On death and dying55. enquanto os casais femininos apresentam problemas no campo da sexualidade. entre esses dois extremos. muitas vezes anônimo. enfim. em ambos os casos há uma cisão entre o sexual e o afetivo. todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar uma família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais. Claro. É uma das razões pelas quais os homens (tanto hetero quanto homossexuais) procuram muito mais a relação sexual. não estou acreditando”). das crianças que poderiam ter tido. [Nota dos tradutores]: Uma versão em português existe deste livro e entitula-se Sobre a morte e o morrer. e não há mais nada a fazer”). O esforço para contornar o proibido e afastar a homossexualidade a qualquer preço tem esse custo (entre outros). portanto. Na pessoa que toma consciência de sua homossexualidade. provavelmente. geralmente. Mas isso implica também um luto da identidade heterossexual que lhe foi inculcada desde sempre. a depressão (“minha vida não tem mais sentido”). Martins Fontes. Darse conta que isso. genital) entre elas é rigorosamente proibido. e o homossexual deve então reexaminar e aceitar em novos termos sua orientação sexual. mesmo que não seja totalmente consciente. muitas vezes. a raiva (“como podem ter feito isso comigo”). por meio de todo um processo de exploração que o jovem homossexual começa a se identificar como tal. o luto compreende necessariamente uma série de reações que são normais quando nós sofremos uma grande perda afetiva. E entre a população homossexual. como em qualquer perda há um trabalho de luto a ser feito. nunca tem fim — e talvez seja a diferença mais importante entre os homossexuais felizes e aqueles que nunca terminam de fazer o luto do casamento. há muitos homossexuais para os quais estas coisas não são importantes. a barganha mágica (“talvez eu pudesse fazer alguma coisa para evitar”). . On death and dying. encontramos. New York. e que não têm nenhum arrependimento em relação à vida heterossexual — aparentemente. enfim.48 fazerem declarações de amor. em etapas. e desemboca em uma aceitação da homossexualidade — mas essa aceitação é raramente inteira ou definitiva. a escola. Segundo esse livro. Um certo arrependimento surge novamente nos momentos importantes da vida. por 55 Elizabeth Kübler-Ross (1969). E. Quanto tempo dura esse processo? Para certas pessoas. uma falta de intimidade. a culpabilidade (“deveria ter agido de outra forma”). Essa diferença crucial entre a adolescência dos homens e das mulheres tem conseqüências importantes para a sua vida amorosa e erótica posterior. como veremos mais adiante. Assim. enquanto as mulheres têm tendência para se apaixonarem. Esse luto desenvolve-se. Macmillan Publishing Company. e da aceitação familiar e social que nunca terão. São Paulo. Trata-se de uma perda importante.

49 volta dos 40 ou 50 anos, sentir um arrependimento intenso em relação às crianças que poderia ter tido caso fosse heterossexual. (Esse luto das crianças pode também acontecer, claro, entre os homens.) Pode haver uma recrudescência do luto toda vez que um amigo ou um irmão se casa, ou no nascimento dos sobrinhos, ou na morte dos pais. Mesmo os acontecimentos mais felizes da vida (como os aniversários, o reveillon, as férias, os sucessos profissionais) podem ter um fundo de melancolia, porque o homossexual não pode compartilhá-los com sua família. Ainda que seja profundamente feliz em sua vida pessoal, às vezes, ele se sentirá, triste durante as celebrações mais felizes — e, muitas vezes, sem saber por quê. Portanto, é importante tomar consciência desse luto que pode durar indefinidamente ou ressurgir sob formas diferentes. Isso mudará, provavelmente, à medida que os direitos civis dessa população se estenderem: se os homossexuais pudessem se casar e adotar crianças, se gozassem de todos os direitos que são atualmente reservados aos heterossexuais, a sensação de perda, evidentemente, não seria a mesma. Enquanto isso é muito importante que cada homossexual assuma e entenda esse luto, como uma parte de sua identidade e de sua história. A reconstrução da história pessoal Um outro aspecto importante dessa fase é a reconstrução da história pessoal. É esperado que os adolescentes que descobrem neles mesmos desejos, fantasias ou sentimentos homossexuais, podem se perguntar de onde eles vêm. E ainda que não exista explicação definitiva da homossexualidade, é salutar se perguntar. De fato, a noção de identidade (que implica, no fim das contas, um conhecimento de si) exige que se pergunte a si mesmo, por que e desde quando se é homossexual — mesmo que seja impossível determiná-lo com precisão. O que conta, não é a verdade, mas a revisão da história pessoal. Esse reexame do passado é particularmente difícil para os homossexuais, porque devem procurar origens, explicações e conexões onde os heterossexuais não pensariam em se deter sobre isso. Esses últimos não têm nenhuma pergunta a se fazer a respeito de sua orientação sexual que lhes pareça natural e dada desde sempre. Ao contrário, para os homossexuais, os jogos da infância, a escola, as relações familiares, o primeiro amor, podem ter tido significações muito diferentes. O que um sente como amizade pode se tornar um sofrimento amoroso sem o que o outro perceba. Uma simples partida de futebol, talvez venha a se tornar o marco do dia em que tomaram consciência de sua diferença. Uma reunião de família da qual se sentiram excluídos, pode representar uma lembrança triste, e não alegre. E o primeiro amor tem para os homossexuais um valor significativo, pois foi, para muitos deles, a primeira revelação de sua orientação sexual. É capital identificar essas etapas, fazer as conexões e estabelecer a cronologia nesta busca de si mesmo. Assim, surge uma reconstrução da história pessoal, uma arqueologia do desejo que é muito diferente da dos heterossexuais — e que é um elemento indispensável na formação de uma identidade guei plenamente assumida. Todo mundo precisa contar para si mesmo sua própria vida, que lhe dá um sentido e uma coerência interna. Isso é particularmente importante no caso das minorias, para as quais o passado é a própria liga da comunidade. Como o entenderam muito bem todas as minorias perseguidas: para ter uma identidade é preciso ter uma história.

50 Identidade e comunidade A identidade constrói-se também se conhecendo os seus semelhantes, e nessa etapa de exploração é essencial conhecer outros homossexuais. Assim, aprende-se que não se está só, que há inúmeras maneiras de viver a homossexualidade, e que existem muitos parceiros possíveis. Entende-se também que se pertence a uma comunidade, e isso é indispensável quando se faz o luto da identidade heterossexual. Finalmente, o fato de compartilhar com outros suas primeiras experiências homossexuais é o primeiro passo em um longo trabalho de saída do armário, que analisaremos em detalhes no capítulo seguinte. Após a fase de exploração, o jovem homossexual tenta, geralmente, estabelecer uma relação de casal. Como todas as primeiras relações, essa se caracteriza por sentimentos confusos, sonhos de amor eterno, séries intermináveis de mal-entendidos, uma enorme dependência e muita idealização. Mas as coisas são ainda mais complicadas para os homossexuais. Como não há modelos de casais gueis na cultura, nem regras do jogo predeterminadas, muitas pessoas (sobretudo se antes tiveram relações heterossexuais) entram em sua primeira relação homossexual com expectativas e ilusões totalmente afastadas da realidade. Podem pensar, por exemplo, que o fato de estar com alguém do mesmo sexo fará desaparecer, como num passe de mágica, as dificuldades encontradas nas relações anteriores; ou que isso permitirá resolver todos os problemas e satisfazer todas as necessidades. Se as duas pessoas são principiantes, é provável que vivam a relação totalmente desnorteadas, interrogando-se constantemente sobre as regras do jogo: é “normal” fazer isso ou sentir isso? Nossos problemas são típicos dos casais homossexuais ou comuns a toda relação amorosa? Em certos casos, se essa primeira relação for muito dolorosa ou difícil, as pessoas renunciarão para sempre a homossexualidade, considerando que os problemas que levaram à separação são inerentes a essa. Por todas essas razões, a primeira relação homossexual apresenta muitos riscos e dificuldades e, geralmente, dura pouco tempo. (A maioria das primeiras relações heterossexuais é igualmente efêmera; mas isso não leva os jovens heterossexuais a renunciar a sua orientação sexual e nem a se dizer que a heterossexualidade é fadada ao fracasso.) Positiva ou não, a primeira relação fará avançar a construção da identidade homossexual. Após a confusão, a dúvida e as ilusões, a pessoa que inicia, enfim, uma relação homossexual na prática chega a uma melhor compreensão de seus desejos e de suas necessidades, e (sobretudo se a experiência sexual foi positiva) e sabe que ele voltará a tê-la. Abre-se assim a possibilidade de um futuro homossexual na realidade, e não mais, apenas, na imaginação. A homossexualidade proibida torna-se realizável — e isso já implica uma certa aceitação. A imagem de si começa a mudar, e descobre-se em si mesmo sentimentos e sensações desconhecidas até então. A vida social com outros homossexuais desenvolve-se. Pela primeira vez, há experiências reais e compartilhadas que podem ser elaboradas como tais. Em uma palavra, a nova identidade começa a tomar forma. A descoberta tardia da homossexualidade Essa fase de exploração e a primeira relação homossexual não acontecem necessariamente durante a adolescência. Uma pessoa pode descobrir em si mesma desejos homossexuais, ou se apaixonar por alguém do mesmo sexo a qualquer momento da vida. Uma mulher pode viver a sua primeira relação homossexual com 40 ou 50 anos após décadas de casamento (o que é mais raro entre os homens). Quando isso acontece, a pessoa pode se sentir totalmente desorientada e até mesmo apavorada com o que está

51 lhe acontecendo. Como o descreve uma mulher casada, mãe de duas crianças que aos 40 anos se apaixonou por uma outra mulher (também heterossexual até então): Passei dois meses em uma angústia apavorante. Perguntava-me: “Mas o que está acontecendo comigo? O que eu tenho?” E eu não tinha ninguém com quem falar disso. Não podia falar disso nem com ela nem com mais ninguém. Eu pensava: “Estou ficando louca”. Era uma sensação muito enlouquecedora. “Será que eu sou lésbica?” E era uma interrogação cheia de angústia, sentia que um enorme problema ia cair sob minhas costas. Além do mais, era tão forte, nunca tinha sentido algo tão forte mesmo com os homens que eu tinha amado. Eu pensava: “O que está acontecendo comigo? É terrível. O que eu vou fazer?”. Uma pessoa nessa situação pode perder o controle de si mesma e adotar de repente condutas irrefletidas, irresponsáveis, até mesmo perigosas; pode iniciar uma relação com alguém que não conhece bem, deixar seu casamento ou seu trabalho de modo intempestivo. Seu tormento e suas condutas “irracionais” levariam a muitos profissionais da saúde a diagnosticar uma crise psicótica devida a emergência de desejos homossexuais longamente reprimidos. Mas, sem chegar a falar de doença mental, talvez seja mais útil pensar em termos de “segunda adolescência”. A adolescência bifásica dos homossexuais De fato, vários autores observaram que muitos homossexuais passam por duas adolescências (ou uma adolescência “bifásica56”). Em primeiro lugar atravessam uma adolescência cronológica entre 12 e 20 anos. Mas como já observamos, não aprendem nessa fase o que eles precisariam para uma vida homossexual. Portanto, tangenciam tarefas indispensáveis para seu futuro, como a formação da identidade e a exploração do amor e da sexualidade. Essas tarefas ficam a dever: essas pessoas deverão realizar posteriormente a exploração e a consolidação de sua identidade sexual. Então, quando vivem sua primeira relação homossexual, mesmo que sejam anos ou décadas mais tarde, entram, enfim, na adolescência psicológica (e não mais cronológica), e começam a explorar sua verdadeira identidade sexual, amorosa e social. Trata-se, freqüentemente, de uma etapa de grande felicidade: a pessoa se sente liberta, e descobre uma intensidade afetiva e erótica que ela jamais acreditou ser possível. Em certos momentos sente que está vivendo uma segunda juventude, cheia de vigor e de espontaneidade. Mas ao lado dessa explosão de alegria reaparecem todas as dificuldades da adolescência: a falta de confiança em si, a impulsividade, a incerteza, a irresponsabilidade — sempre alarmantes no adulto. Essa etapa apresenta, de fato, grandes riscos; mas não devemos concluir que a pessoa está perdendo a razão (mesmo ainda que ela acredite nisso). Devemos nos lembrar que se trata de uma fase, e que a pessoa reencontrará seu estatuto de adulto quando tiver acabado de transitar por essa segunda adolescência. Então, se tudo correr bem, aceitará e consolidará aos poucos sua nova identidade homossexual. Uma identidade feliz ou infeliz? É evidente que o processo de construção da identidade guei depende, em grande parte, do contexto social e cultural. Não é praticável em todo o lugar; isso há apenas trinta anos ainda não era possível, mesmo nas sociedades mais “avançadas”. E nos países onde a homossexualidade se vive ainda nos “bas-fonds”, nas ruas e nos parques obscuros ou nas boates sórdidas e impessoais, ilegais e muitas vezes perigosas, onde os homossexuais vivem no medo e na vergonha porque a sociedade não lhes permite outra
56

Alan K. Malyon. Psychotherapeutic implications of internalized homophobia in gay men. Em Gonsiorek, p. 59-69.

pertenceram a um grupo ou a uma comunidade de seus semelhantes. e um nível de bemestar mais elevado entre os homossexuais na terceira idade. em 1973. e tornam-se aos poucos esses seres infelizes. Pode compartilhar sua vida com seu parceiro e um pequeno círculos de amigos. uma grande variedade de estilos de vida e de relação de casal no mundo da homossexualidade. No aspecto público. Escolher sua própria homossexualidade Aqui se oferece toda uma gama de possibilidades. e não o modo de viver e de assumir essa sexualidade57. ou então optar pela vida social dos bares e das discotecas ou da comunidade GLBT. uma pessoa pode decidir o tipo de relações que terá: pode escolher construir uma relação de casal estável. escondendo sua orientação até mesmo para a sua própria família. Veremos que há. monogâmico ou não. os pesquisadores nesse campo encontraram menos autocrítica e problemas psicossomáticos. Em contrapartida. deprimido ou angustiado. de fato. Pode reproduzir os papéis ou os estereótipos do casamento heterossexual ou inventar novas modalidades de relação. New York. ou Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders.] Gay midlife and maturity. Na vida íntima. Talvez não se possa escolher sua orientação sexual. De fato. Harrington Park Press.52 coisa. mas com certeza pode-se decidir o modo como vivê-la. na medida em que se deram conta de sua orientação relativamente cedo. confirmam que a orientação sexual em si não prediz o nível de bem-estar psicológico nas diferenças etapas da vida. pode-se também viver sua sexualidade de um modo profundamente infeliz — o que acontece também algumas vezes. os homossexuais se forjam uma patologia. A terceira idade As pesquisas sobre o envelhecimento dos homossexuais. Justamente porque não há modelos nem regras do jogo pré-estabelecidos que os homossexuais têm uma liberdade menos encontrada nos heterossexuais. mesmo limitadas em razão do interesse muito recente para o tema. claro. nesse último caso. Em contrapartida. Mas. tiveram numerosos amigos e rejeitaram os estereótipos tradicionais concernentes à homossexualidade58. Além do mais. ninguém dirá que um indivíduo é infeliz porque é heterossexual. como veremos mais adiante. . do mesmo modo que se pode se construir uma identidade homossexual feliz. 58 John Alan Lee (1991) [ed. Guardou apenas a categoria de uma homossexualidade mal-assumida. Isso abre possibilidades dificilmente concebíveis no 57 American Psychiatric Association eliminou a homossexualidade de seu Código International de Doenças (CID). isto é. no mundo heterossexual. ou ainda ter múltiplas relações passageiras. o homossexual pode decidir viver na clandestinidade (no famoso “armário”). o processo de aceitação não poderia prosperar. Já me aconteceu ouvir psiquiatras e psicanalistas dizerem que um paciente é neurótico ou alcoólatra. muitos dentre eles afastaram-se de suas famílias de origem. Então. e geralmente não têm crianças. Em especial. ao invés de se forjar uma identidade guei. muitas pessoas consideram que os problemas psicológicos dos homossexuais estão diretamente ligados à sua orientação sexual. Essa visão das coisas é até mesmo difundida entre os profissionais da saúde mental que chegam a deformar seus critérios diagnósticos por causa de um profundo desconhecimento da homossexualidade. parece claro que os homossexuais envelhecem melhor na medida em que aceitaram e viveram abertamente sua orientação. vivida na vergonha ou na culpabilidade. ou ainda. ou arriscar-se a se identificar abertamente como tal. amargos e invejosos que povoam os textos tradicionais da psiquiatria e da psicanálise. que tem problemas de casal porque é homossexual — como se a orientação sexual fosse em si mesma uma causa de patologia.

Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico Exploração da orientação sexual nos adolescentes É muito comum os adolescentes terem dúvidas sobre sua orientação sexual. É primordial destacar que a sexualidade é complexa e que compreende em todos nós muitas facetas. além da biologia. é importante lhes explicar que a identidade sexual está composta de muitas camadas. Ademais. e depois deixá-la. E. veremos também os problemas que elas podem acarretar. pensar e amar. Assim. é claro que. Estamos muito longe das posições revolucionárias do movimento de liberação guei dos anos 70. nada é urgente. nesse campo nada é irreversível. a felicidade. a criatividade. É preciso que os adolescentes saibam que podem transitar pela homossexualidade e depois deixá-la — coisa freqüente em inúmeros países. Portanto. podemos decidir o que nós vamos fazer com estas fantasias. por mais perversas que possam parecer. E que a adolescência é feita justamente para explorar e desenvolver sua sexualidade. tomando o cuidado para não adquirir obrigações permanentes. inclusive. tornaram-se tão conformistas e convencionais quanto todo mundo. Nos capítulos seguintes. os homossexuais são obrigados. Além disso. Uma dessas facetas é provavelmente a imaginação que. da sociedade. a sociedade atual não dá muito espaço para a excentricidade e o nãoconformismo. como mensagens provenientes de terras inexploradas. muitas atitudes e condutas que eram características da cultura GLBT foram adotadas pela cultura majoritária: poderíamos interpretar nesse sentido a androgenia que predomina atualmente na moda e na publicidade. Evidentemente. Além do mais. porque não tem nada irreversível e irremediável neste campo. escolher nossas condutas. podem se angustiar ao extremo. Não se torna homossexual do dia para a noite. examinaremos algumas opções que existem atualmente para os homossexuais e. a realização de si e. a trabalhar e viver em sociedade. como vimos nesses dois capítulos. são como janelas que nos revelam partes desconhecidas de nossa vida profunda. Mas. Mesmo as populações mais marginalizadas acabam adotando o modelo consumista de uma realização pessoal baseada nas possessões materiais. claro. Portanto. As fantasias. assiste-se à “yuppificação” de muitos homossexuais nos Estados Unidos: longe de serem originais ou contestadores. mas podemos. da história familiar e pessoal. Se eles descobrem desejos homossexuais. longe de limitar a sexualidade. mesmo as práticas não bastam para isso. O mundo globalizado do ano 2000 dita maneiras de pensar. O contrário pode também acontecer: pode-se explorar a heterossexualidade. claro. há na homossexualidade um enorme espaço para a liberdade. Além do mais. essa liberdade tem também seus limites: afinal de contas. é nesses limites que os homossexuais de hoje podem inventar novas maneiras de viver. ou adotar um estilo de vida convencional. Ninguém pode controlar seu inconsciente. com certeza. como todo mundo. onde as relações homossexuais eram “normais” entre os estudantes dos internatos.53 mundo heterossexual. nos devolvem uma imagem renovada de nós mesmos. O desejo não faz o homossexual. Os adolescentes devem entender também que os desejos homossexuais são normais e até mesmo comuns na sua idade. a Inglaterra na era moderna. só pode enriquecê-la. justamente. de sentir e de viver que influenciam os homossexuais tanto quanto os heterossexuais. .

levando o terapeuta a diagnosticar um transtorno da personalidade (como o narcisismo). O luto da heterossexualidade Em qualquer fase da vida. É também útil. mas de uma lacuna na aprendizagem à qual se pode remediar. um dia. que. a aprovação social deverão ser reformulados de outro modo. . ajudar o paciente a se constituir novas redes de apoio (como veremos no capítulo seguinte). O que está perdido deverá ser elaborado e eventualmente substituído aos poucos: a família. mas uma adolescência e juventude cheias de solidão.54 Exploração da história pessoal Para entender um homossexual. Além do mais. Muito freqüentemente. do modo como elas os via antes. É importante explorar a fundo esses sentimentos e nunca os minimizar. Um homossexual pode parecer pouco maduro em suas relações interpessoais e limitado em sua comunicação. Não é verdade. O terapeuta deve explorar todas as fantasias e os medos que estão associados a essas perdas sem nunca os minimizar nem os trivializar. a emergência de desejos homossexuais e a formação de uma identidade homossexual implicam a perda da identidade heterossexual. O terapeuta poderá até mesmo atribuir esse transtorno à carências ou traumatismos presentes desde a infância — quando. bloquearam seu desenvolvimento psicossexual. por mais assumidos que sejam. a pessoa ignora se poderá. fosse mais útil procurar a origem do problema na adolescência ou na juventude. sofreram de maneira intermitente um luto da heterossexualidade. É importante explicar ao paciente que não se trata de uma patologia. A aceitação da homossexualidade nunca é fácil. por não ter examinado em profundidade sua história individual e interpessoal. no fim das contas. na medida do possível. Quase todos os homossexuais. é indispensável ver de que maneira ele elabora sua história — como descobriu e assumiu (ou não) sua orientação sexual. Muitos terapeutas “liberais” tenderão a consolar seus pacientes nesta situação. lhes assegurando que poderão ser tão felizes quanto qualquer um quando tiverem assumido sua orientação. não satisfará mais as expectativas de sua família e da sociedade. provavelmente. os homossexuais não aprenderam as regras do jogo social e amoroso. Mas a teoria psicanalítica leva muitos terapeutas a procurarem a origem das coisas nos primeiros anos da vida. e não sabe se poderá contar com a aceitação e o amor de seus amigos e de seus parentes. a uma boa parte de seu passado e também de seu futuro. Sua vida não seguirá mais o curso previsto. É fácil esquecer que um homossexual pode ter tido uma infância perfeitamente “normal”. O terapeuta deve ajudá-lo a reconstruir todo o processo para que ele possa consolidar sua identidade e também identificar eventuais lacunas em seu desenvolvimento. o casamento. e é importante as elaborar enquanto tais. ter uma relação estável e duradoura como teria sido o casamento (pelo menos em teoria). e a produzir novas expectativas e projetos de vida alternativos. de vergonha e de inibição. Trata-se aqui de uma perda importante: a pessoa deve renunciar. e não terá o apoio da sociedade que é tão importante para manter uma relação de casal. talvez. não passaram pelas etapas que se seguem automaticamente entre os heterossexuais. São perdas reais. compreende sempre uma parte de confusão e de dor.

55 CAPÍTULO 4 AS VICISSITUDES DO ARMÁRIO Os homossexuais se perguntam muitas vezes entre si se “saíram do armário” (do inglês. no qual se tem conversações secretas. Sempre haverá pessoas ou situações novas. mais ou menos deliberada. eles continuarão. um íntimo em oposição ao social. por parte da sociedade faz com que o homossexual permaneça fechado na clandestinidade sob muitos pontos de vista. representa o privado em oposição ao público. Muitos adolescentes. é indispensável que os homossexuais e seus terapeutas pensem de modo profundo e contínuo sobre a realidade e as implicações da pergunta: “você está dentro. e pode-se viver publicamente sua homossexualidade sem nunca dizer uma palavra sobre isso. ou um lugar para guardar objetos preciosos. Nenhum homossexual. pode-se “dizer” que se é homossexual de muitas maneiras. você não é homossexual”. O termo em inglês closet (do latim clausum. E isto não é uma questão de honestidade e nem de integridade: é simplesmente porque a sociedade pressupõe. É uma pergunta freqüente. Essa cegueira. e “dentro” com seus pais. o que significa viver abertamente a homossexualidade? Afinal de contas. viveram a experiência muito desagradável de terem sido perseguidos por pessoas do sexo oposto que queriam lhes provar a qualquer preço que eles não eram homossexuais de verdade. sem convidar. E. Assim. Talvez só haja uma coisa certa em relação à clandestinidade: é que ela não tem fim. como se ela fosse heterossexual — mas solteira. ou “fora” em relação à família e os amigos. privado. os pais convidarão sua filha lésbica no jantar de Natal. nas quais ele será considerado como heterossexual até provem o contrário. denotou um lugar fechado. mas também para esconder o que a sociedade se recusa a ver. Por outro lado. particípio presente do verbo claudere que significa “fechar”) teve muitas outras significações antes de se referir à homossexualidade clandestina. Conheço homossexuais aos quais uns terapeutas asseguraram que não eram homossexuais — e até mesmo que não era possível em seu caso. out of the closet) ou se ficaram “dentro”. Mesmo quando o homossexual se identifica explicitamente como tal. o que está escondido . ou fora?”. a tratá-la como se não fosse nada disso. pode dizer que ele saiu definitiva e totalmente do armário. Portanto. mais ou menos consciente. E muitos homossexuais. Assim. homens e mulheres. que todo mundo é heterossexual. mesmo que não o deseje. mas “dentro” no trabalho. mesmo quando seus amigos e família sabem perfeitamente que uma pessoa é homossexual. se vivem sua homossexualidade abertamente ou na clandestinidade. automaticamente. escutam de seus professores ou confidentes: “mas não. Mas é demasiada simples para refletir a grande variedade de respostas possíveis: pode-se estar “fora” com seus amigos e vizinhos. mesmo que saibam da relação há muito tempo. em muitos casos. nem mesmo mencionar sua companheira de vários anos. Os colegas de trabalho organizarão a festa do fim de ano sem incluir o parceiro de seu colega. o famoso armário não serve apenas para se esconder. Assim. Portanto. pois importante. também. Isso acontece exatamente como se os heterossexuais tivessem o direito de decidir quem é homossexual e quem não o é — independentemente daquilo que os homossexuais dizem a respeito deles mesmos. isto é. ela nos revela muito sobre a pessoa e seu modo de viver. nem sempre se crê nele. mesmo que tenha perfeitamente assumido a sua homossexualidade.

enquanto a sua própria família a desconhece. poderíamos dizer que a AIDS arrancou do armário toda uma geração de homossexuais. éditions du Seuil. Dito isso. Como derivação desses sentidos. na verdade. o pessoal é político. mas também. mas esses permanecem sempre ligados de uma certa maneira: como diziam as feministas. . Le rose et le noir. Os homossexuais podem escolher entre muitas opções nestes diferentes níveis. Podemos supor que uma grande proporção das vítimas da epidemia — em particular aquelas que se aproximaram de sua família — teve que revelar sua homossexualidade voluntariamente ou não. ao fato de assumir plenamente sua homossexualidade. Então. (1996). a vida privada (inclusive a sexualidade) sempre tem implicações públicas.56 em oposição ao que está descoberto. se nomeiem e se descrevam? Historicamente. mas de uma importância capital. Uma grande quantidade de obras literárias testemunham o sofrimento que isso pôde implicar. Por que dizê-lo? Por que sair do armário? Em primeiro lugar. A importância dessa saída obrigatória do armário não poderia ser superestimada. encontra-se freqüentemente homossexuais cujos vizinhos e colegas conhecem a sua orientação sexual. 355. Há. Nas sociedades conservadoras (onde a família desempenha ainda um papel central). Paris. e não sentem a necessidade de falar interminavelmente de sua orientação sexual. a resposta dada pelo movimento de liberação guei sempre foi esta: é para não sermos mais identificados. provocadora ou simplesmente adolescente? Essas perguntas contêm. e deu o nascimento a uma comunidade inteira. muitos homossexuais de agora foram forçados a isso — pela AIDS. Em um certo sentido. p. a maioria dos homossexuais não são obrigados a saírem do armário. em muitos casos. a expressão to come out of closet (sair do armário. Dizer-se homossexual De fato. Pela primeira vez. ser ou não ser. Muitos heterossexuais se perguntam por que seus amigos homossexuais dão tanto valor à sua orientação sexual. já que eles têm o bom senso e a discrição de guardar sua vida íntima para eles mesmos. Como diz Frédéric Martel: “A homossexualidade era uma aventura individual. às vezes reduzida à to come out) refere-se. os heterossexuais têm relações e problemas de casal. de anunciar e explicar a todos a sua orientação. é mais freqüente que os homossexuais “saiam” na esfera íntima e se escondam na esfera pública. de uma maneira que possa parecer obsessiva. sem fazer alarde? No final das contas. uma diferença muito grande entre assumir sua orientação sexual em um nível íntimo (com sua família e seus amigos) e fazê-lo no nível social (com seus vizinhos e colegas por exemplo). por que os homossexuais têm necessidade de se identificar como tais. evidentemente. tornou público um modo de vida que antes era invisível. o íntimo não pode estar separado do social. por que é importante que os homossexuais se identifiquem. nomeados e descritos pelos 59 Frédéric Martel. Nos países industrializados. a AIDS deu uma história coletiva aos homossexuais59”. atualmente. Muitas vezes. é difícil eles entenderem porque os homossexuais sentem a necessidade de se declararem abertamente: por que eles não podem fazer tudo que eles querem. tanto na esfera pública quanto na privada. a aceitação que muitos homossexuais encontram junto a seus próximos. todos os elementos de um debate que é central para a identidade homossexual. mas têm a escolha: e trata-se aí de uma decisão que é não somente difícil.

quiçá utópico. juntar-se à comunidade guei tem também uma significação política. e orgulhoso de o ser”. o fato de usar as mesmas palavras desarma a homofobia: se alguém me diz “veado”. os homossexuais que vivem abertamente a sua orientação sabem que seus amigos e colegas heterossexuais os vêem. pelo simples fato de viver em uma sociedade heterossexual. Se se procura um apartamento ou um novo trabalho. torna-se automático com o passar do tempo: para usar uma metáfora automobilística. Mas. e um heterossexual lhe dizer. não. nunca tolerariam esse termo dito por um branco). Dizer-se homossexual. identificar-se publicamente enquanto homossexual é uma faca de dois gumes: a recusa da clandestinidade só desemboca. há várias razões de ordem política para sair do armário. (A apropriação das armas do inimigo é uma estratégia que foi usada por muitos movimentos minoritários em nosso tempo. que às vezes interpretaram como paranóia. assim como para muitas pessoas. com certos amigos são sinceros e podem ser eles mesmos. entretanto são imediatamente reduzidos a essa etiqueta. inclusive o dos negros nos Estados Unidos. antes de tudo. Não é à toa que muitos psicanalistas e psiquiatras notaram uma suscetibilidade particular nos homossexuais. é juntar-se a uma comunidade e recuperar uma identidade própria e não mais imposta: classificar-se. e com outros não. se se cultua relações profissionais. Tanto a integridade pessoal quanto a luta pelos seus direitos civis exigem que os gueis se nomeiem e se descrevam em seus próprios termos. Paradoxalmente. “o escritor guei”. Assim. Há nos homossexuais. Os militantes gueis americanos insistem na importância de aumentar a visibilidade da homossexualidade. Um outro motivo para sair do armário é o desejo de se integrar à comunidade guei. etiquetam-se. é ao mesmo tempo para conhecer outros homossexuais e fazer parte de uma coletividade. para não ser mais classificado. “minha vizinha lésbica”. portanto. pois muitos deles foram rejeitados. como se a homossexualidade fosse seu atributo mais essencial. ou se afastaram de sua família. Não é a mesma coisa um homossexual se dizer “veado”. Isso pode chegar até a adoção do vocabulário pejorativo usado pela sociedade homofóbica.57 outros. são abertos e. uma necessidade de pertença maior. respondo “sim. em outras. Então. Basta lembrar que. em uma nova etiqueta. Alternar a sinceridade e a dissimulação implicam uma vigilância contínua e um gasto de energia psíquica muito grande — mesmo que a pessoa se assuma perfeitamente. em sua perspectiva. Então. se entre eles é aceitável se chamarem de “nigger” [preto]. é melhor respeitar as aparências. Em nossa sociedade. tem um lado ingênuo. como homossexuais: tornam-se “meu amigo veado”. eleitoral. e fazemos isso sem esforço — mas isso não significa que o câmbio não seja gasto. aprendemos a trocar de marcha toda vez que for necessário. em muitos casos. quando um homossexual começa a assumir publicamente sua orientação e freqüentar lugares ou grupos gueis. Essa estratégia. Muitas vezes acontece que os homossexuais observam com uma . claro. O preço da clandestinidade O fato de se passar de uma modalidade para outra. Nessa concepção. É também utópico pensar que se pode sair definitivamente do armário: sempre haverá situações nas quais será preciso fingir ser heterossexual. os homossexuais nunca poderão assegurar seus direitos civis se não fizerem conhecer publicamente seu peso numérico e. os homossexuais que saem do armário são devolvidos para a sua homossexualidade: de fato. Muitos homossexuais descrevem sua vida cotidiana como limitada em compartimentos: em certas situações.

Gay midlife and maturity. éd. suas relações. New York. de fato. dizem eles. Do mesmo modo. e somatização. Observou-se que os homossexuais que assumem publicamente sua orientação. as garantias civis e os recursos jurídicos que nos países industrializados protegem os homossexuais da discriminação não existem aí. Ademais. observa continuamente seus gestos. é muito elevado. às vezes sente-se culpado de mentir ou. cultural e profissional. consideram que não se pode assumir plenamente a sua homossexualidade se esta for dissimulada. os seus sentimentos — em uma palavra. e onde a família continua a desenvolver um papel central na vida das pessoas. suas reações. para a sua família são muito menos expostos à depressão. tanto física quanto mental. Em John Alan Lee. portanto. o único recurso é a família — e não se pode arriscar perder esse apoio essencial. mesmo que o ideal fosse que cada um pudesse viver sua orientação sexual abertamente. a sua posição na sociedade. Em alguns casos tenderá a se isolar cada vez mais (ou se esconder em relações sociais superficiais) e negar sua relação de casal se tiver uma. social. na medida em que saem da clandestinidade. . ansiedade. Isso não afeta somente suas relações pessoais. suas palavras. de não dizer a verdade sobre si mesmo. de seu contexto familiar. 7-31. não devemos esquecer que nos países industrializados um indivíduo é protegido por toda uma série de instituições como INPS. o que ele ganha em segurança. O homossexual que vive na clandestinidade sempre se pergunta se os outros se dão conta disso. Não se pode responder a isto de modo abstrato. A questão de sair ou não da clandestinidade. pelo menos. Podem pelo menos serem eles mesmos e falarem espontaneamente. sobretudo. mas também suas relações sociais e profissionais. Sair do armário nem sempre é possível nem desejável Teoricamente. é preciso levar em consideração a situação real de cada indivíduo. Por quê? O fato de esconder sistematicamente sua vida afetiva pode ter conseqüências nefastas em todos os campos e não somente na esfera privada. Também. Mas. cada um deve avaliar os custos e os benefícios reais de sua decisão. Exatamente como o heterossexual só se torna verdadeiramente um adulto aos olhos de sua família e da sociedade quando funda um casal e uma família. Ademais. o homossexual só se torna um adulto quando sai da clandestinidade. ele perde em espontaneidade e sinceridade: pode parecer superficial e rígido. Inc. acessar a maturidade a não ser assumindo-se enquanto tal. por exemplo.. sua autoestima e sua capacidade de relação com o outro são bem mais desenvolvidas60. Uma pessoa que sai do armário nesses países arrisca a perder a sua família. Em especial. portanto.58 atenção diferenciada as reações do outro em relação a eles. quando se fica doente ou se perde o seu emprego. eles têm razão — mas sair do armário nem sempre é possível nem mesmo desejável nos países onde a homossexualidade é estigmatizada. o seu trabalho e até mesmo a sua residência. Por todas essas razões os autores americanos que tratam da homossexualidade pensam geralmente que é melhor viver abertamente do que viver na clandestinidade. gay lifestyles. Nos países do terceiro mundo. O preço da clandestinidade (seja ela parcial ou total). and adjustment to aging: A study of later-life gay men and lesbians. sem esconder as suas atividades. p. E um homossexual não pode. Stigma. sobretudo. entendese facilmente que muitos homossexuais preferem a companhia de seus semelhantes. que os homossexuais estão com melhor saúde. Essa dependerá. sua vida afetiva inteira. mesmo que não tenham muita coisa em comum fora a sua orientação sexual. Além do mais. que não existe necessariamente em países menos desenvolvidos. 60 Ver Marcy Adelman (1991). então. não tem a mesma significação nem as mesmas implicações em todos os lugares. Inúmeros estudos mostraram. Harrington Park Press. para a família.

a mãe o suplicará para nunca falar ao pai. Nesse campo. resolver as dificuldades de um modo autoritário? Prefere ela silenciar os assuntos delicados? É fechada ou aceita facilmente pessoas e idéias novas? E. as regras de comunicação no seio da família sejam explícitas. podem deixar prever como a notícia será recebida. pois “seria um golpe fatal para eles”. de se vestirem como mulheres — seja mais freqüente entre as classes populares. (Não há também variações na taxa de homossexualidade segundo a classe social. de convidá-los para reuniões de família. Ou então. sejam implícitas. para os homens. rejeitaram seu filho. ou que ela pare de consultá-lo sobre assuntos que dizem respeito a todos. que carrega todas as expectativas. que a família de um homossexual “esqueça” de informá-lo a respeito de acontecimentos importantes. ilusões e projetos de seus pais. sem dúvida. É também mais fácil sair do armário quando se é um filho caçula e que se tem irmãos e irmãs casados que já asseguraram a descendência e estabeleceram. enfim. de algum modo. e esse filho em particular? Como a família enfrenta os problemas? Tende ela a negociar e procurar soluções. As pessoas ricas e educadas não parecem mais tolerantes do que as pobres. sobretudo nos países do terceiro mundo). Em contrapartida. em contrapartida. apesar de parecer que a travestilidade — o fato. pois “isso o mataria”.59 A comunicação na família Em geral. entretanto. cada vez mais afastado das questões familiares. de fato. Sair do armário: um processo familiar Os homossexuais tentam muitas vezes adivinhar como vão reagir seus pais por meio de seus comentários acerca da homossexualidade em geral. é mais fácil sair do armário em uma família onde as coisas são ditas abertamente. é provável que o homossexual será envolvido num jogo complicado de omissões e de meiasverdades: os seus irmãos lhe pedirão. o homossexual será envolvido em um sistema de mentiras ainda mais doloroso e complicado e um conflito de lealdades difícil de resolver. Em uma sociedade conservadora. Mas a situação mais difícil é. ou ao contrário. e que representa para eles a única possibilidade de ter netos. Conheci pais extremamente liberais nesse sentido que. As atitudes explícitas sobre a homossexualidade não indicam muita coisa quando se trata de seu próprio filho. Acho que isso não serve para muita coisa: esses comentários (positivos ou negativos) não permitem necessariamente predizer qual será a sua atitude ao saberem que seu filho é homossexual. Será possível falar disso? Os pais escutam seus filhos em geral. Acontece. se os membros da família não têm o costume de compartilhar sua vida afetiva. conservadores. a “normalidade” da família. As coisas são mais simples se o filho homossexual já deixou o lar e se for independente do ponto de vista econômico: isso lhe possibilita uma certa autonomia. e vice-versa. tudo é mais complicado para um filho mais velho. quem toma as decisões? A meu ver. Em contrapartida. muito freqüentemente. essas considerações que refletem o estilo de comunicação na . para não falar nada a seus pais. E isso não é necessariamente uma questão de nível sociocultural: a aceitação da homossexualidade não parece conhecer barreiras de classe. que o aceitaram imediatamente. é perfeitamente possível que a família rejeite totalmente a homossexualidade e que chegue até mesmo a deserdar um filho homossexual. por exemplo. e outros. O contexto social e cultural é também um fator determinante. como em muitos outros. a do filho único. longe de escapar à dissimulação. onde se pode falar da vida privada e dos sentimentos. Então. mas ele será.

ou muito estudioso. É importante analisar essa versão oficial antes de sair do armário para procurar a melhor forma de apresentar as coisas à família — e para prever a sua reação. Assim. não é um processo individual. A idéia de adotar uma identidade guei (como pode fazê-lo um americano branco. . ao sair do armário. 61 Lourdes Rodríguez citada em Alisa Valdés (1998). E guardarão a esperança de que se trata apenas de uma fase passageira. mas não em espanhol61”. nem como. Assim. Poderíamos dizer que ninguém sai sozinho do armário. Mas esse processo é totalmente incompreensível para a sua família e sua comunidade de origem. É de fato provável que os pais manterão essa história oficial. de fato. somente se o homossexual se casa e tem filhos. aprende a viver a sua homossexualidade segundo critérios “liberais”. É também possível que não saibam nem um pouco como reagir. Os homossexuais esquecem às vezes que. ou tem uma namorada escondida. Coming out in Spanish. a vergonha e o medo antes de se abrir com seu pais. ou ligado à sua família. por sua vez. ficar orgulhoso disso pode ser literalmente inconcebível para uma família de origem hispânica. Assim como o homossexual teve de lutar longamente com a dúvida. dos amigos. o homossexual que sai da clandestinidade. além do mais. a homossexualidade é permitida na medida em que não é explicitamente declarada. Além dos valores culturais da sociedade. por exemplo. toda a sua família. ou está esperando um homem que a queira. em outras. Cada sociedade tem também suas regras do jogo no que concerne à autonomia dos filhos: em certos países. em certas sociedades. mesmo que seu filho lhes conte que é homossexual. Nesse país. esses são livres para fazerem o que quiserem depois de ter saída da casa dos pais. nem para quem. familiar. É preciso também levar em conta os valores culturais locais e não tentar modificar as regras do jogo. nunca o faz sozinho: leva com ele. A experiência dos gueis latino-americanos nos Estados Unidos é particularmente interessante no que diz respeito a isso. casados ou não. às vezes. e em outras ainda se ele respeita as aparências. a família não sabe muito o que dizer. ou então esconder a coisa. confrontam a sua família exatamente com o mesmo dilema que acabam de atravessar: assim como eles. o que farão em relação ao resto da família. mas. de fato. saem do armário e assimilam-se à cultura guei americana de uma maneira que lhes pareça natural nesse contexto. esses deverão decidir. dos vizinhos e da sociedade em geral. tem uma namorada em uma outra cidade. e em outras permanece submisso à autoridade parental independentemente de onde vivem. Muitas famílias aceitarão tacitamente a homossexualidade de um filho se sua história oficial for preservada e se elas puderem continuar contando a seus amigos e vizinhos que seu filho. e. dizendo que saímos do armário em inglês. mas não se pode esperar de uma família ou de uma identidade que reajam segundo um sistema de valores que não é o seu. não se pode esperar que uma família árabe. Como diz uma psicóloga lésbica latino-americana que vive em Boston: “a gente brinca. A moça vive com uma roommate (colega de quarto) para dividir os custos. de classe média e urbano). Portanto. 23 de julho. nem mesmo se deve falar disso. cada família tem a sua própria história oficial sobre o filho que não é casado: ou ele é muito tímido. ou ainda não encontrou a mulher que lhe convém. japonesa ou mexicana tenha uma atitude liberal como a família americana no que diz respeito à homossexualidade.60 família são os indicadores mais confiáveis para adivinhar como essa reagirá frente à homossexualidade de uma criança. Pode-se ou não concordar com essas regras e decidir se se vai ou não respeitá-las. Em The Boston Globe.

61 Como fazer? É por todas essas razões que é importante planejar em detalhes como, onde e quando se vai anunciar à sua família que se é homossexual. Os especialistas recomendam fazê-lo progressivamente, passando das relações sociais às relações íntimas e do mais fácil ao mais difícil. Assim, é melhor falar primeiramente, com um amigo o qual se imagina que não terá muitos problemas com isso; depois, a um primo, um tio, uma tia, depois a um irmão e uma irmã, enfim, aos pais. Isso é preferível por várias razões. Em primeiro lugar, é melhor, no início, evitar confrontos que não serviriam para nada e que poderiam exacerbar o medo ou as dúvidas. Depois, é indispensável instalar uma rede de apoio sobre a qual se poderá contar, no caso de haver problemas: quando se aventura em terreno perigoso é melhor ter aliados desde o começo. Em terceiro lugar, o fato de sair progressivamente do armário permite reconhecer o terreno, ensaiar várias vezes a cena, e prever as reações que se encontrará. Nunca se deve precipitar: é preciso planejar a coisa estrategicamente, por etapas, e escolher o melhor momento para cada passo. Deve-se contar isso a seus pais? Eis aqui uma decisão difícil, que quase todos os homossexuais devem enfrentar em um momento ou em outro de sua vida. Afinal de contas, é provável que os pais recebam a notícia com tristeza ou cólera. No melhor dos casos, refletirão sobre isso e, após algum tempo (que pode se estender de várias semanas até vários anos), acabarão por se resignar com a idéia. É provavelmente exigir demais dos pais lhes pedir para aceitar plenamente a homossexualidade, isto é, como uma opção tão desejável como a heterossexualidade; e é preciso evitar expectativas pouco realistas. A finalidade na maioria dos casos, não é uma franca aceitação da homossexualidade, mas uma relativa continuidade na vida cotidiana: que as relações familiares não se vejam demasiadamente perturbadas, que o filho ainda faça parte da família, e que os pais possam um dia aceitar sua relação de casal como as de seus outros filhos. Segundo a fórmula memorável de Jean-Louis Bory, a melhor coisa que um homossexual pode querer, talvez seja, simplesmente, o direito à “indiferença62”. O tabu familiar Muitas famílias farão de tudo para abafar o caso, comportando-se exatamente como se o filho não tivesse dito nada. Ninguém falará disso. Ninguém lhe fará perguntas, e será como se o parceiro do filho não existisse: nunca será mencionado nem convidado para as reuniões. Como o descreve uma lésbica que declarou sua homossexualidade para a sua família há alguns anos: “é como se eu não tivesse uma vida de casal, enquanto nós vivemos juntas há anos. Eles me perguntam o que farei durante as férias, ou ainda o que eu fiz durante o fim de semana, mas sempre no singular. Convidam-me sozinha para as festas de aniversário, até mesmo a minha. E depois, perguntam-me, de vez em quando, se eu não encontrei um rapaz que me agrade.” Esse tipo de reação magoa profundamente o homossexual, pois invalida totalmente uma parte central de sua vida: sua relação de casal. Mas não é apenas o parceiro que é anulado: trata-se de uma negação pura e simples dos sentimentos, das necessidades afetivas, e da vida cotidiana e social do filho ou da filha homossexual. Essa atitude é,
62

Cf. Martel, p. 119.

62 contudo, bastante comum, e é preciso ver nela uma negação maciça de uma verdade inaceitável. Então, o homossexual entra em um novo dilema. Pode seguir o fluxo, respeitar o silêncio imposto e nunca mais levantar a lebre. Nesse caso, o assunto da homossexualidade tornar-se-á tabu, com toda uma constelação de temas associados: será proibido ao homossexual falar de sua relação de casal, de suas amizades, suas atividades sociais e até mesmo de seus projetos futuros. Mas esse silêncio não é neutro; ao contrário, muitas vezes é carregado de insinuações ou críticas implícitas que falam da homossexualidade, mas indiretamente. Por exemplo, se o filho desenvolve atividades, idéias, valores ou gostos diferentes dos de sua família, será por causa “dessas pessoas que você freqüenta”. Se fracassar em algum projeto, será por causa “desse estilo de vida que você leva”. Se tiver dificuldades de qualquer ordem, sua homossexualidade será implicitamente a culpada. É evidente que essas atitudes não invalidam somente a experiência afetiva, social e profissional do filho homossexual: serve também para infantilizá-lo. O homossexual não é considerado um adulto que possa ter gostos, valores, projetos, modos de viver ou de pensar próprios: não tem opinião independente, mas está à mercê de “influências” mais ou menos nefastas. (Os heterossexuais reconhecerão facilmente este discurso, que escutam quando têm a infelicidade de se casar com alguém que não é aceito pela sua família). Em uma palavra, o filho homossexual é tratado como se fosse apenas uma criança. O fato de permanecer solteiro só reforça essa percepção: aos olhos de sua família o filho homossexual nunca atinge a maioridade. Dada essa dinâmica, é fácil entender porque tantos estudiosos notaram uma certa “imaturidade” no homossexual em suas relações familiares. Isso pode ser verdadeiro, claro; mas cada lado tem uma parte de responsabilidade. Se muitos homossexuais não atingem certas etapas do desenvolvimento, é também verdadeiro que suas famílias os tratem muitas vezes como crianças. Tudo isso deriva de uma homossexualidade conhecida, mas não reconhecida, da qual se sabe que existe sem nunca dela falar. O tabu familiar implica em muito mais do que em um simples silêncio. Como qualquer tabu, engloba uma série de interditos e elimina do mapa afetivo, continentes inteiros da experiência pessoal. Muitos homossexuais que sofrem dessa invalidação perpétua sem nada poder fazer a respeito acabam por se afastar de sua família: não percebem de sua parte nenhum interesse, nenhuma compreensão, e finalmente muito pouco amor. Alguns deles resolvem lutar contra o tabu, exigindo de sua família que ela respeite sua orientação — ou que, pelo menos, aceite falar dela. Esse caminho pode levar a uma série de reclamações e ao ressentimento dos dois lados, até que alguém ceda — mais provavelmente o filho do que os pais. No final das contas, esses últimos não têm que se esforçar para perpetuar o silêncio: só têm que continuar a se calar. É muito mais arriscado e difícil tomar a iniciativa de romper o silêncio do que permanecer nele confortavelmente instalado. Ademais, é fácil para os pais dizer que na sua idade não podem mais mudar seu modo de pensar — como se as pessoas de idade fossem incapazes de assimilar idéias ou experiências novas. O filho que tenta transgredir o tabu estará, portanto, sempre em uma posição de fraqueza e deverá se perguntar, após algumas tentativas, se vale à pena insistir nisso. Se o homossexual permanece muito ligado à sua família, acha insuportável a falta de aceitação e continuará a procurar, interminavelmente, uma aprovação que talvez nunca a terá. Poderá até mesmo, nesse caso, tornar-se um filho modelo em outros campos, esforçando-se de qualquer modo para ser atento e generoso com sua família. O estereótipo do homossexual como um “mau filho” não corresponde necessariamente à

63 realidade, mas antes, ao grande melodrama da homossexualidade tal qual é vivido por muitas famílias. O filho insistirá em procurar a aprovação familiar, sobretudo se sempre teve medo de ser rejeitado por seus pais — o que é freqüentemente o caso para os meninos “efeminados” com pais distantes ou que o desprezam. Mas, mesmo em geral, se teve pais pouco afetuosos ou reprovadores que não lhe deram o amor incondicional tão necessário às crianças, sempre procurará sua aceitação. O problema, nesse caso, não é a homossexualidade, que só é um pretexto a mais para criticar o filho; o verdadeiro problema é a relação entre os pais e seu filho, e falta de autonomia desse último. Nesse tipo de situação, é indispensável que o homossexual inicie uma psicoterapia para que ele possa, enfim, se separar de seus pais, afetivamente falando, e consolidar uma identidade e uma auto-estima próprias. O tabu familiar é uma reação bastante comum diante da homossexualidade de uma criança. Mas podem existir outras mais extremas. Ainda acontece, em muitos países, que o filho homossexual seja deserdado e banido da família para sempre. Se for adolescente, seus pais podem ameaçar, punir, ou submetê-lo a um tratamento psiquiátrico, ou mudá-lo de escola e até mesmo de cidade para afastá-lo das “más companhias”. Isso significa que o jovem homossexual que se abre para os seus pais corre riscos reais; nem sempre é uma boa idéia, mesmo que sinta a necessidade disso. Em certos casos, o fato de se declarar homossexual, longe de ser um ato libertador, pode ser uma forma de autopunição — uma maneira inconsciente de se fazer rejeitar mais uma vez. Eis a razão pela qual é essencial examinar a fundo suas razões, suas expectativas e seus objetivos antes de tomar uma decisão a esse respeito. O preço da mentira Diante desses riscos, muitos homossexuais escolhem nunca se abrirem para seus pais. As conseqüências podem ir do cômico até o trágico. Certos homossexuais fazem de conta que vivem sós enquanto vivem em casal há anos: tem dois números de telefone e o parceiro sai quando os pais vêm visitar seu filho. Certos homossexuais inventam-se relações heterossexuais, aparecem regularmente com uma mulher a tira-colo, e se criam uma reputação de grandes sedutores. Há também, claro, muitos homossexuais que se casam e têm filhos para manter o mito de sua heterossexualidade frente aos outros e a eles. Em todos esses casos, os homossexuais se condenam a uma vida de falsificação, a um sistema de mentiras que será cada vez mais difícil de se sustentar. Aqueles que não se casam e levam uma vida “heterossexual” acharam que a fachada se torna cada vez mais frágil com a idade: é fácil para uma pessoa jovem, homem ou mulher, levar uma vida social de solteiro. Isso se torna cada vez mais difícil em torno dos quarenta anos e, quando se chega aos cinqüenta, isso parece totalmente anormal aos olhos da sociedade. É fácil evitar as perguntas ou os boatos quando se é jovem; mas depois dos quarenta, quando todos os outros já casaram e tiveram filhos, o mito da heterossexualidade tornase mais difícil de se manter. A mentira tende a se complicar com o tempo e não a se simplificar. No que concerne aos homossexuais que se casam, é evidente que eles se expõem a muitas infelicidades. Inúmeros homossexuais fazem isso não para dissimular sua verdadeira orientação, mas para mudá-la: esperando que o casamento os “cure” de seus desejos inaceitáveis. Mas isso quase nunca acontece, e acabam caindo em uma assexualidade mais ou menos frustrada, ou acabam procurando aventuras clandestinas

Se o fato de continuar na clandestinidade vai o engajar em uma rede de mentiras indefinida. Podem ver. Os riscos reais e o custo da mentira são os dois critérios mais importantes para serem considerados quando um homossexual se pergunta se deve ou não falar com sua família. talvez. na medida do possível. Mas valorizar demais . que as pessoas pensem isso. isso não é tão difícil: bastará convidar o parceiro de vez em quando. A culpabilidade nos pais O que acontece em uma família quando um dos filhos anuncia que é homossexual? Evoca-se freqüentemente o sentimento de culpabilidade que os pais podem sentir. existir reações mais positivas. é importante. Claro. Compreenderão igualmente que não são responsáveis pela orientação sexual de seus filhos. é uma cena clássica na grande tragédia da homossexualidade — mas tem. Mesmo nesses países. Podem ler obras recentes sobre a homossexualidade e observar que esta não é mais considerada uma doença. Após um tempo de reflexão. é possível que o risco não compense. Geralmente pensa-se na primeira pergunta. talvez valesse à pena correr o risco. mas não necessariamente a culpabilidade. Nos Estados Unidos. geralmente é pela culpa dos outros que perderam seu filho ou sua filha.64 com todos os riscos que isso implica. A sensação de perda é real. Só por essa razão já seria melhor viver fora do armário do que permanecer fechado nele. Em meios relativamente liberais. de qualquer modo. contudo. que se esvai em lágrimas: “mas o que eu fiz?”. representam perfeitamente diante de amigos. muito pouco a ver com a realidade. ou pelo menos se referir a ele como uma presença real na vida de seu filho. E encontram-se envolvidos. em extensão e em profundidade. sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. e decidem aceita-la. Longe de se criticar. Aliás. e deriva em grande parte da visão melodramática da homossexualidade que predomina na cultura popular. graças a um número crescente de celebridades gueis. Essa visão menos carregada de culpabilidade e de preconceitos poderá os levar a concluir que a melhor coisa para se fazer. é muito mais comum que os pais acusem as “más companhias” de terem corrompido seu filho. Quando o homossexual pergunta a si mesmo se deve ou não sair do armário. A maioria dos homossexuais. a homossexualidade é hoje mais aceitável. Mas se o homossexual não precisar mentir demais porque vive longe de sua família ou que sua opinião lhe é indiferente. nem uma coisa vergonhosa. o fato de esconder indefinidamente sua orientação sexual também tem um preço muito elevado. perguntar sobre ele. médicos e padres. os pais não se sentem realmente responsáveis pela orientação sexual de seus filhos — mas temem. deve avaliar o que isso lhe custará em fazê-lo ou não. parece-me. É importante se lembrar que a mentira não é estática: tem tendência em aumentar. claro. e acaba por invadir todos os campos da vida e se infiltrar em todas as relações pessoais. Na verdade. que existem muitos homossexuais felizes e prósperos. Em outros países ele é menos e talvez nunca o seja. e lhes explicar que a homossexualidade não é “culpa” de ninguém. um terapeuta que trabalha com pais de homossexuais deve explorar com eles esse tema. a liberação guei teve tanta influência que todo esse cenário é perfeitamente possível. Essa idéia é muito exagerada. A imagem da mãe horrorizada que se lamenta. em uma rede de mentiras. Então. sobretudo. acho eu. ou um crime. Ora. que os homossexuais saibam que existem outras maneiras de viver e de assumir a homossexualidade. é amar seu filho ou sua filha e tentar facilitar-lhe as coisas. os pais se dão conta que não vão poder mudar a orientação sexual de seu filho. só querem um mínimo de cortesia para se sentir aceitos pelas suas famílias. Pode também. No fundo. e não na segunda.

nunca se tornará esposo nem pai. O papel do homossexual na família O homossexual declarado ocupa um lugar muito específico em sua família de origem. e não são mais livres ou disponíveis do que seus irmãos e irmãs casados. O fato de ser . é indispensável que o filho entenda o luto de seus pais. É natural que eles passem por uma etapa de luto semelhante à do filho quando esse tomou consciência de sua homossexualidade. ou que os ajude economicamente: “Já que você é solteiro e não tem obrigações”. na medida do possível. em muitas famílias. não esqueçamos que o discurso da culpabilidade. Os outros membros da família esperam dele que venham os ver. Então. É o caso da tradicional “solteirona”. claro. portanto. não são solteiros. deve. se não ceder. na verdade. e de seus sobrinhos quando precisam. Em geral. que deve estar pronta para cuidar de seus pais em sua velhice. E esse processo compreenderá. de culpabilidade… até eles chegarem. é real para os dois lados. Parece-me que a relação entre os pais e seus filhos homossexuais seria menos sofrida se eles pudessem dividir esse luto. Mas essa situação ainda é mais difícil para os homossexuais justamente porque. se tudo acontecer bem. de ira. é sempre uma forma de manipulação. como decidir qual a atitude eles irão adotar em relação a seu filho. mas devem renunciar. Em contrapartida. permanecerá para sempre um filho. Tudo isso pode causar sérios problemas para o homossexual em sua relação com sua família. dúvidas e confusão durante muito tempo. Não é que esteja perdendo seu filho. da mesma forma. examinar a sua própria orientação. que vê seus pais se mortificarem por causa dele — o que. no fim das contas. Esse fenômeno será exacerbado se o homossexual viver em um país do terceiro mundo onde os filhos só se tornam realmente independentes no momento de seu casamento. e que lhes dê o tempo de aceitar uma realidade que lhe causou. Mas. para ele também. Isso. de onde vier. à aceitação. não serve para ninguém. em todo o caso. que pode inibir sua capacidade de autonomia e seu desenvolvimento pessoal. O outro armário: a orientação sexual do terapeuta O profissional da saúde mental que trabalha com homossexuais. os filhos solteiros têm que permanecer ao lado de seus pais e sempre estarem à disposição da família. Por outro lado. em muitos casos. ele se sente obrigado a ceder e. se sente culpado. problemas. pelas expectativas dessa. de depressão. é essencial examinar com os pais os seus sentimentos de perda. a toda uma série de projetos e ilusões aos quais se apegaram e cultivaram durante longos anos. Têm na maioria das vezes. De algum modo. Isso pode também aumentar a culpabilidade sentida pelo filho. é uma tarefa importante para o terapeuta. não se limita aos homossexuais.65 uma suposta culpabilidade pode desviar a atenção de problemas mais imediatos (e importantes). Sua relação de casal pode ser seriamente afetada pela sua ligação com sua família de origem. Promover esse diálogo. com seu parceiro. em algum momento. Por outro lado. que no fim das contas. relações de casal e uma vida social importante. e. o filho homossexual é o único que não se casa. elementos de negação. mesmo que seus pais os considerem como tais. e claro. Isso significa que nunca perderá seu estatuto de filho. tentará recuperar o amor ou a aprovação de seus pais tornando-se um “filho modelo” em outros campos. O estatuto exato do homossexual freqüentemente é objeto de conflitos e malentendidos. eternamente disponível. Como observamos acima. claro. toda essa situação mantém o homossexual em um papel familiar mais ou menos infantil. subitamente. não acederá ao estatuto de adulto em que isso implicaria. qualquer que seja.

Muitos terapeutas. Portanto. constitui uma postura falaciosa. nem sobre os preconceitos que os homossexuais encontram no dia-a-dia. de serem considerados como “normais” — e são precisamente aqueles que não aceitam totalmente sua orientação sexual. —. Mas isso não se aplica apenas às populações doentes: as pessoas de idade devem poder consultar profissionais que conhecem os . porque não é necessário dar ao terapeuta homossexual lições sobre o meio guei. os psicanalistas. freqüentemente. Por um lado. e se se é heterossexual. mas os teóricos da homossexualidade continuam a se questionar. fazem com que se sintam “normais”. na sua vasta maioria. os homossexuais preferem que seu terapeuta seja homossexual. Por definição. e considerar o homossexual como “normal”. nós a reduzimos e a simplificamos. Assim. Por outro lado. os psiquiatras. a população homossexual têm os mesmos direitos que qualquer população específica.66 heterossexual. “são pessoas totalmente normais”). exceto se tiver uma fé cega em sua própria sabedoria. porque se é heterossexual. sua ignorância e. mesmo que a intenção seja boa. mas que são sempre presentes. As pesquisas a esse respeito nos Estados Unidos revelam que. muitos homossexuais gostariam. O objetivo terapêutico. Seguir o fluxo e se apropriar da idéia de que os homossexuais são “como qualquer um” podem até mesmo levá-los a pensar que eles devam estar muito mal — porque no fundo não se sentem “como todo mundo”. Se o terapeuta é heterossexual. acima de tudo. é problemático — mas o fato de ser homossexual também. Quando dissemos que uma relação entre duas mulheres parece com um casamento. os alcoólatras têm o direito de se tratar com pessoas que conhecem a fundo sua problemática. nem sobre as práticas sexuais gueis. Entre outras. frente a essa população. mas que assumam e apreciem sua diferença. etc. Será que é preciso ser homossexual para trabalhar com homossexuais? Os profissionais da Saúde Mental — os psicólogos. Isso não é verdade. Claro. ninguém tem uma atitude neutra em relação à homossexualidade: se se é homossexual. Por quê? Em primeiro lugar. estejamos ou não contentes com isso. mas até mesmo aqueles que parecem positivos (por exemplo. muitas vezes querem dizer que não têm preconceitos negativos. sobretudo se forem jovens. contém toda uma série de pressuposições. a “normalidade”. Insistir sobre o fato que eles são iguais invalida a consciência deles mesmos. portanto. que é heterossexual. dirão que não têm nenhum preconceito em relação à homossexualidade. se for homossexual. tirando-lhe os atributos específicos que examinaremos no capítulo 7. A identidade homossexual tem traços específicos que podemos achar bons ou ruins. na sociedade atual é a heterossexualidade. é assimilá-lo a modelos heterossexuais que não lhe são necessariamente aplicáveis. que trabalham com homossexuais deveriam eles próprios ser homossexuais? Isso pode parecer uma questão retórica. portanto. não é. um elemento de eficiência: ninguém gosta de gastar tempo em sua consulta para explicar ao terapeuta coisas que ele deveria saber. deverá decidir se deve ou não comunicar sua orientação e sua experiência pessoal a seus pacientes. portanto. Nesse sentido. Há. Quando as pessoas afirmam que não têm preconceitos. implicam muitas vezes uma visão normativa da maneira que se deve conduzir uma pessoa ou um casal “normal” — isto é. ser-lhe-á necessário enfrentar seus preconceitos e. mas diferentes. vale a pena examiná-la de perto. Dizer: “Eu vejo o homossexual exatamente como qualquer um”. os homossexuais não são “como qualquer um”. se é afetado pelo assunto porque se é homossexual.

) E os homossexuais conhecem perfeitamente os preconceitos que podem ter um psiquiatra. de sexo e de amizade. serão atentos a cada reação do terapeuta. neste caso. Isso ainda é mais verdadeiro quando se trata de populações minoritárias que foram. Ora. como suas famílias reagiram.67 problemas (e os recursos) específicos da terceira idade. uma certa reticência em falar de suas práticas sexuais. se o fato de ser negro for um tema importante na vida da pessoa. insegurança. Nenhum desses elementos contribui para uma boa relação terapêutica. uma parte central de sua vida. “inocentar-se” o máximo possível. Em segundo lugar. se o seu judaísmo fosse um problema ou um tema central para a pessoa que consulta. tenderá a considerá-lo heterossexual até que prove o contrário. Eu gostava da minha terapeuta. de sua experiência enquanto homossexuais: quando e como se deram conta disso. pois. Não se o seu judaísmo nunca foi um problema para ele ou deixa-o totalmente indiferente. quando o homossexual diz que está apaixonado. que é a desqualificação do amor entre os homossexuais: o que eles estão vivendo não é amor. de fato. para a grande maioria dos homossexuais sua orientação é. sintam vergonha. um psicanalista ou um psicólogo heterossexual. E ninguém duvida que é preciso levar as crianças em psicólogos ou psiquiatras que sejam especializados na infância. Mas um dia. ou simplesmente desconfiança. Podemos observar aqui um fenômeno bastante comum. ou perseguição. dos detalhes de sua vida de casal. como foi sua primeira relação. é que vocês são boas amigas e que às vezes têm relações sexuais. A questão que se coloca. Portanto. o que eu estou entendendo. mas porque esses temas continuam a ser atuais e importantes até mesmo para aqueles que assumem plenamente sua orientação sexual. mais ou menos satisfatória. Assim. ou não valorizam seus sentimentos. o terapeuta entende dependência ou exageração neurótica. entre eles. Sim. seria preferível que um terapeuta que trabalha com negros seja ele mesmo negro. Terão. como é a sua relação de casal. Um problema freqüente dos homossexuais em tratamento com heterossexuais. simplesmente porque é sabido que há muitos poucos terapeutas gueis. ou de seus próprios medos.’ Eu fiquei em estado de choque. e estava em psicoterapia há quase dois anos. ela me falou. Do mesmo modo. é esta: será que é preferível que um terapeuta que trabalha com judeus seja ele mesmo judeu? E a resposta seria: sim. algumas vezes. era muito aberta e eu pensava que ela não tinha problema com a homossexualidade. a respeito de minha amiga: ‘Bem. ou dúvidas a respeito da homossexualidade. ódio. discriminação. objetos de preconceitos. É possível que. claro. tentarão constantemente adivinhar a opinião que ele tem deles. se a homossexualidade for para o indivíduo que consulta uma parte essencial de sua identidade pessoal. é que esses não compreendem. São temas recorrentes nas reuniões sociais dos gueis. Uma lésbica conta: “Eu tinha uma relação de casal há muitos anos. . de repente me dei conta que ela não tinha entendido nada durante os dois anos anteriores”. Portanto. Não é à toa que os homossexuais falam tanto. no estado atual das coisas. historicamente. e não é porque os homossexuais são mais obcecados do que qualquer outro. é difícil para um homossexual ter uma confiança plena em um terapeuta heterossexual (mesmo que não conheça com certeza sua orientação sexual. mas uma combinação mais ou menos superficial. é preferível que o terapeuta que trabalha com homossexuais seja homossexual? Sim. no qual a única ligação autêntica é aquela que existe entre um homem e uma mulher: o que podem sentir duas pessoas do mesmo sexo é apenas um pálido reflexo do verdadeiro amor. e procurarão. em uma busca da aceitação mais uma vez. como saíram do armário. Talvez pudéssemos falar de uma pretensão ao monopólio do amor por parte dos heterossexuais.

Mas pensava que era uma preferência. e resolvi.” Essa mulher foi depois em tratamento com uma psicanalista heterossexual mais aberta. é que esses têm intenções de conversão mais ou menos conscientes — isto é. a de mudar a orientação sexual de seu paciente. chegamos a um acordo: eu era lésbica por natureza. a respeito da homossexualidade”. nem explicitado. mas nunca mais falei com ela desses assuntos. podem ter grandes conseqüências para o homossexual que está em tratamento com um heterossexual. penso que é preferível no estado atual das coisas. por enquanto. de modo muito produtivo. Como descreve a lésbica citada acima: “Minha psicóloga não pensava que eu fosse realmente homossexual. Vemos que esses “erros de leitura” e esses preconceitos teóricos acrescentados a uma certa ignorância bem intencionada. a partir desse dia. mas como uma parte de mim mesmo. É provável. mas aparece antes como uma série de convicções sobre a homossexualidade em geral ou sobre a pessoa em particular. É evidente que nada disso deveria acontecer em uma psicoterapia bem manejada. Passamos horas a fio a debater sobre isso. alguém que sofre de uma desordem mental grave. mas em uma simples falta de conhecimentos. minha família e a sociedade. nem da minha homossexualidade. e. não tinha nenhum problema com a homossexualidade. Podemos pensar que isso mudará aos poucos. uma pessoa doente não deve tratar outros doentes: exatamente como . O principal para mim era viver melhor. Trabalhamos outras cosias. Mas muitos homossexuais contam que tiveram esse tipo de dificuldade. por definição. que o problema não resida na heterossexualidade dos terapeutas. o ensino sobre a homossexualidade é insuficiente e pouco útil em um contexto de tratamento. mas. para de falar das coisas que lhes são de fato importantes. o paciente perde confiança e espontaneidade. o fetichismo ou a pedofilia. E depois eu acho que um terapeuta homossexual teria entendido melhor os problemas que tive com minha identidade. A primeira deriva de uma visão patológica da homossexualidade e afirma que o terapeuta homossexual é. muito freqüentemente. é de modo muito breve e no quadro da psicopatologia ou das perversões sexuais. Isso não é necessariamente verbalizado. terapia de casal e de família. ela me disse que. enfim. em casos extremos podem até mesmo chegar a duvidar deles. Ela conta: “Era muito liberal. na maioria dos países. e ela finalmente concordou em abandonar essa questão das causas. Na maioria dos países (com a notável exceção dos Estados Unidos. em paralelo com os temas como o travestismo. Eu me senti muito mal. depois de dois anos de terapia. que se podia escolher sua orientação. aprende-se muito pouco sobre a homossexualidade nos institutos de formação em psicanálise. contudo.68 Um outro problema bastante freqüente. começa a calar seus sentimentos reais e. eu não seria lésbica. Em conclusão. que os terapeutas que trabalham com homossexuais sejam da mesma orientação sexual. Aos poucos. Eu tentava lhe explicar que não a vivia nem um pouco como uma escolha. etc. Um dia. Essa opinião (com certeza para ser debatida) vai ao encontro de duas grandes tradições da psicoterapia. Ora. se pelo menos tivesse recebido um tratamento apropriado durante a minha adolescência. graças aos esforços incansáveis de um grupo de psicanalistas e de psicólogos que trabalham nisso há vinte anos). totalmente incompreendida. E. qualquer que seja a orientação sexual do terapeuta. mas eu podia escolher meu modo de vivê-la. Era também muito importante para ela procurar as causas de minha homossexualidade — coisa que não me interessava em especial. se o tema é abordado mais profundamente. embora menos aparente para os homossexuais em terapia com heterossexuais. não mais lhe falar nem de minha relação de casal.

não é necessário que um médico sofra. só é preciso que seja íntegro e honesto para fazer bem o seu trabalho. Como dizia há alguns anos uma psicanalista mexicana. e agir em decorrência disso — assim como a honestidade. Esse tipo de atitude não é mais. poderá dificilmente levar seus pacientes a ter uma aceitação positiva de sua orientação sexual. Por definição. a problemática de seus pacientes. claro. mas a integridade e a honestidade são indispensáveis em uma boa relação terapêutica. Ele deve também conhecer. um psicólogo não precisa ser “idoso” para trabalhar com a terceira idade. nessa lógica que muitos institutos de formação em psicanálise continuam a recusar a admissão aos candidatos homossexuais. nem ter filhos para trabalhar com mães de família. A experiência pessoal. que deva comunicar a seus pacientes . é que não é necessário que um terapeuta conheça em sua própria pessoa. de uma úlcera para poder tratar um paciente com úlcera. Poderíamos contestar que talvez isso não seja necessário… mas desejável em certos campos. portanto. qualquer candidato admitido à formação é uma pessoa essencialmente sã”. ter desenvolvido nele próprio uma certa coerência interna. em sua própria pessoa. Não é mais a norma em todos os países. que se diz e que se faz — poder dizer aquilo que se pensa e aquilo que se sente. Esse ponto de vista deriva em grande parte do modelo médico. assim. são atributos essenciais em qualquer terapeuta. como o da homossexualidade. o terapeuta homossexual deve se assumir plenamente. nem ser divorciado para tratar de divorciados. nem em todos os institutos. na qual ela. não seja mais tão aplicável. Um psiquiatra ou um psicólogo pode ter todos os defeitos próprios do gênero humano. membro da Associação Internacional de Psicanálise: “Não pode haver psicanalista homossexual — isso não existe. Deparam-se também com uma série de dificuldades que merecem reflexão. claro. é indispensável para compensar as lacunas no conhecimento. Isso não significa. Vamos torcer para que os psicólogos. Os terapeutas gueis devem revelar sua orientação? Isso não significa que os terapeutas homossexuais não tenham problemas para tratar os homossexuais. Nessa ótica. A questão não é tanto o fato de que a população homossexual apresenta traços ou problemas específicos (embora isso seja em parte verdadeiro). viver na clandestinidade? Pessoalmente. tão comum atualmente — pelo menos explicitamente. É. aquele que trabalha com homossexuais não deve ser homossexual. não será mais necessário eles serem homossexuais para ajudar essa população específica. acima de tudo. talvez. Mas a evolução neste campo é muito lenta. Por exemplo. Para ajudar seus pacientes homossexuais. E essa relação está no cerne de qualquer tratamento psicológico. Essa idéia se estendeu no campo da saúde mental. ou tenha sofrido. que se sente. Não que um terapeuta deva encarnar a sabedoria. a American Psychiatry Association resolveu em 1991 não mais discriminar os candidatos à admissão levando-se em conta a sua orientação sexual. que examinaremos a seguir: um terapeuta homossexual pode. o custo e os benefícios da identidade homossexual e. qualquer que seja sua orientação sexual ou sua abordagem teórica. mas que até o momento muito pouco desse assunto foi estudado e ensinado. é desejável que um terapeuta guei se revele como tal? Essa pergunta contém uma outra. Se em sua vida pessoal ainda tem medo ou vergonha. ou deve. Uma outra tradição muito generalizada nas profissões da saúde mental.69 o terapeuta que trabalha com psicóticos não deve ser ele próprio psicótico. penso que não. no qual ele é perfeitamente lógico: de fato. A coincidência entre aquilo que se pensa. psiquiatras e psicanalistas sejam um dia melhor preparados. Em primeiro lugar.

estão perdendo uma chance de ajudar melhor seus pacientes homossexuais. e talvez pensem que ele esteja em uma situação delicada para tratar ao mesmo tempo os pacientes homossexuais (porque ele o é) e os heterossexuais (porque ele não o é). Isso implica em alguns problemas. Pode ter dificuldades se freqüenta lugares ou participe de reuniões nas quais corre o risco de encontrar pacientes. plenamente assumida e respeitosa de alguém que conhece sua condição. Esse dilema. Em segundo lugar. ainda não foram resolvidas de uma maneira satisfatória pelos especialistas no assunto. provocador. onde podem. portanto. existe também nas comunidades maiores. que o terapeuta homossexual saiu do armário. Mas pode. se estiver em tratamento com um terapeuta guei. Esses tenderão a considerá-lo neurótico. contudo. mas também para seus pacientes: ninguém gosta de socializar-se com o seu terapeuta e de se sentir observado por ele. tão necessária em outras situações. voltamos para a nossa questão inicial: é desejável que um terapeuta homossexual se revele como tal? A resposta rápida é que não poderá evitá-lo. ou serão um dia seus pacientes. são. muito mais raras no meio heterossexual. surgir problemas que não foram previstos pelos seus mestres. a qualquer momento. Será preciso também que o terapeuta tome muito cuidado com suas relações sociais. Essas dificuldades. o homossexual que procura uma ajuda psicológica necessita de um interlocutor que ele perceba como válido. resolver esse dilema segundo seus próprios critérios e segundo as circunstâncias. importante nas sociedades onde a população guei é muito reduzida. existem alguns que recusam revelar sua orientação sexual a seus pacientes — e isso provavelmente em nome da neutralidade terapêutica que lhes foi inculcada ao longo de sua formação. é essencial para os homossexuais vencer a vergonha: e o paciente sabe. Primeiramente. O dilema então se coloca desse modo: o terapeuta pode evitar a vida social guei (e sofrer o isolamento que isso implica). é que lhes faltaram interlocutores dos quais eles respeitem a opinião. o terapeuta guei que está fora do armário será visto com uma certa desconfiança por seus colegas e pelas associações profissionais. mesmo que a história ou as circunstâncias pessoais sejam diferentes. É crucial que esses pacientes saibam que aí existe uma experiência comum. manter relações estritamente profissionais. venceu as dificuldades da clandestinidade. Contudo. Acho que os terapeutas que dissimulam sua orientação para manter a neutralidade. O terapeuta pode ter um papel reparador extremamente importante ao lhes oferecer a escuta. e que os entendam com empatia e compreensão. dificilmente poderá manter escondida sua verdadeira identidade. mas se ele se respeita. que esse passou também pelas dúvidas e medos da adolescência.70 sua vida privada. Cada terapeuta deve. claro. Isso não representa apenas um problema para o terapeuta. Ajudar melhor os seus pacientes homossexuais Supondo. que o escute e que lhe fale em seus próprios termos — e ele tem direito a isso. ou então correr o risco de expor sua vida privada a pessoas com quem ele deve. portanto. dada a sua vastidão de opções de socialização. darem de cara com pessoas que foram. ou agressivo se ele for “abertamente” guei. Terapeutas gueis em cidades como Nova Iorque e São Francisco escreveram a respeito desse problema que suas relações sociais (ou sexuais) lhes colocam no interior de sua própria comunidade. e viveu as vicissitudes do casal homossexual. Um dos principais problemas dos homossexuais. Isso lhe facilitará a tarefa . O terapeuta guei que trata de homossexuais será conhecido e recomendado como tal. Em primeiro lugar. aqui também.

O fato de viver publicamente sua orientação traz. de sedução — elementos que afetarão a relação e o trabalho terapêutico. de disputa. Developmental issues and their resolution for gay and lesbian adolescents. p. O terapeuta que trabalha com essa população deve. extremamente elevada. Todo ano aparecem novas teorias e explicações da homossexualidade que. Os psicanalistas que conhecem bem os riscos da transferência. Hetrick e A. e enumerou três tipos: o isolamento social (os jovens homossexuais sentem que não podem falar com ninguém). portanto. 25-43. contudo. Na medida em que o terapeuta é percebido como uma pessoa equilibrada e positiva (mesmo que na verdade não o seja). . e de uma certa forma como uma figura de autoridade. claro. Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico O trabalho com o adolescente homossexual Um estudo dirigido pelo Institute for the Protection of Lesbian and Gay Youth (Instituto para a Proteção das Jovens Lésbicas e Gueis) na cidade de Nova Iorque concluiu em 1987. Finalmente. D. Finalmente. parece-me que o terapeuta que trabalha com homossexuais deve examinar cuidadosamente todos os seus preconceitos. Inc. Em Journal of homosexuality. o terapeuta guei tem a obrigação de se manter informado no vasto campo das pesquisas sobre a homossexualidade — tarefa difícil porque se trata de um campo relativamente novo. Em especial. ele corre o risco de se tornar um objeto de conquista para seus próprios pacientes. Martin (1987). pode muito facilmente tornar-se para seus pacientes um objeto de admiração. Brunner/Mazel. 155. O terapeuta deve também se manter continuamente atualizado sobre as tendências sociais e culturais que dizem respeito aos homossexuais e a legislação sobre o assunto que evoluem muito rapidamente em inúmeros países.. O segundo problema mais comum é o medo de ser rejeitado pelos pais. Infelizmente. e cognitivo (eles têm pouco acesso a uma informação confiável sobre a homossexualidade e lhes faltam modelos63). À parte os problemas profissionais já mencionados. Caso ele seja homossexual. verdadeiras ou falsas. 14 (1/2). New York. suas pressuposições. certos riscos para o terapeuta. existe entre os homossexuais uma tal necessidade de modelos positivos. Psychotherapy with lesbian clients.71 para falar de sua própria experiência. a AIDS no caso dos homens). Todo ano sabe-se mais sobre o ciclo vital dos homossexuais e sobre os problemas específicos que os afetam (inclusive. que o terapeuta guei pode se ver preso em dinâmicas de sedução muito mais delicadas do que aquelas que se apresentam habitualmente com os heterossexuais. de condutas autodestrutivas que vão. e suas verdadeiras intenções em relação a seus pacientes. que o principal problema para essa população é o isolamento. desde o abuso de álcool ou de outras drogas até as tentativas de suicídio. e porque poucas obras especializadas são traduzidas. claro. Falco (1991). sempre deve verificar se não há problema de alcoolismo ou toxicomania. Citado em Kristine L. 63 E. e. sem sentir a necessidade de se “desculpabilizar” ou de se justificar. S. deverá também se manter informado sobre as pesquisas atuais e os fenômenos sociais e culturais que afetam essa população. O terceiro é a incidência. são mais bem equipados para enfrentar esse tipo de situação — mas ela é ainda mais complicada quando se trata de um paciente homossexual e de um terapeuta de um mesmo sexo. emocional (sentem-se afetivamente separados de sua família e de seu contexto social). merecem um exame aprofundado. ficar particularmente atento a esses riscos.

Esses exercícios servem para combater a sensação de fragmentação que muitos homossexuais têm. Explicar que todos nós representamos vários papéis nas diferentes situações de nossas vidas. como se veste. No campo da homossexualidade é perfeitamente possível se apresentar e se conduzir enquanto homossexual em certas situações. muitos deles dizem: “Sinto-me dividido. como vive? Se o paciente se tornar um homossexual feliz. mas que isso não nos impede de sermos. e em outras não — e de fazê-lo bem. como será ele em dois. que tipos de relações tem. da escola ou do trabalho. Com efeito. dez anos…? – Se o jovem homossexual resolver não sair do armário. no trabalho uma outra. no fundo. é preciso integrar outros temas e projetos de vida além . mesmo que nesse momento aí sua orientação sexual seja pouco clara ou problemática. e o adolescente pode continuar funcionando e trabalhando nos outros campos. dez anos… E caso continue a se esconder. é muito importante colocar a homossexualidade em perspectiva: explicar que a orientação sexual não é tudo. cinco. e que ela não deveria afetar as outras vertentes da vida. – Visualizar um futuro ideal enquanto homossexual. é indispensável promover a integração e construir uma identidade coerente. sem nunca esquecer contudo que permanecemos sempre a mesma pessoa.72 Exercícios para ajudar o jovem homossexual a sair do armário O terapeuta pode ajudar o jovem homossexual a: – Imaginar uma grande variedade de conseqüências possíveis caso ele saia do armário. na casa dos meus pais devo ser uma pessoa. dez anos? Exercícios para promover uma identidade guei positiva – Identificar os estereótipos: explorar com o paciente tudo aquilo que ele sabe sobre a homossexualidade. – Visualizar em detalhes os diferentes papéis que podem ser necessários nos contextos da família. cinco. da homossexualidade (mesmo que o paciente o deseje). Finalmente. como o jovem homossexual imagina a sua situação familiar em dois. ou sempre. Qual imagem tem o paciente do homossexual feliz? Qual aparência ele tem. nas sessões terapêuticas. O desenvolvimento pessoal tem muitas facetas. desde a sua infância. O que poderia acontecer de pior? E de melhor? E de mais provável? É útil projetar todas essas opções no futuro: em dois. ajudá-lo a imaginar as implicações e as ramificações da mentira: quais formas ela irá tomar no futuro. Isso quer dizer também que. Nesse campo. por que não? Será que ele pensa que relações entre pessoas do mesmo sexo podem ser equilibradas e duráveis? Por que sim. e ainda uma outra com os meus amigos…”. Será que ele pensa que um homossexual pode ser equilibrado e feliz? Por que sim. planificar o processo passo a passo. a mesma pessoa com uma identidade equilibrada e constante. como em qualquer trabalho terapêutico. por que não? E o que ele gostaria de pensar sobre isso? – Começar a desenvolver o conceito de papel em oposição ao de identidade. e o que ele deverá fazer para mantê-la? E o que significaria dizer a verdade? Quais são as verdades mais importantes que o jovem homossexual gostaria de revelar sobre ele mesmo? Qual imagem ele procura projetar? Por quê? – Explorar maneiras ou modos de limitar as conseqüências da saída do armário. entre amigos ou com o parceiro. não é bom falar somente. cinco. puxado para os dois lados. – Construir uma rede de apoios: ajudar o rapaz ou a moça a detectar e a se aproximar dos amigos ou parentes que poderiam apoiá-lo ou apoiá-la em caso de problemas com seu pai ou sua mãe. fazendo repetições detalhadas.

Recomendações gerais homossexuais para o terapeuta que trabalha com É muito importante: – Tomar consciência dos preconceitos e dos estereótipos geralmente associados à homossexualidade (quer se concorde ou não com eles). de “consertar” a relação do paciente com o sexo oposto. O objetivo é mais o de ajudar a pessoa a aceitar a sua orientação sexual e de ter uma vida satisfatória na homossexualidade. Os estudos a respeito indicam que isso não somente é impossível. Em terceiro lugar. – Nunca tentar modificar a orientação sexual do paciente. e examiná-los de uma maneira crítica. e as terapeutas do sexo feminino. continuar a cultivar os outros aspectos da vida. em contrapartida. mas é falaciosa. talvez seja louvável. mas a qualquer esforço. – Nunca se permitir uma tentativa de sedução. até agora nenhuma das inúmeras teorias nesse campo foi provada. manter intacta a estrutura do cotidiano. sobretudo quando se é de sexo oposto. na medida do possível. mesmo que este o deseje. Nesse contexto. Em primeiro lugar. Em segundo lugar. em certos casos. A homossexualidade não deriva de uma hipotética rejeição ou de um medo do sexo oposto que precisa ser revertido. . ninguém se pergunta por que as pessoas são heterossexuais. tentam provar aos homossexuais masculinos que não há nada a temer na mulher… A intenção aqui.73 dessa questão. o fato de procurar causas implica que a homossexualidade é uma patologia que precisa ser explicada. consciente ou não para “encantar” o paciente. e. mas que qualquer tentativa nesse sentido pode ser extremamente perigosa. Até mesmo a American Psychiatry Association recentemente se posicionou contra aquilo que se chama de “terapias de reversão da homossexualidade”. procurar razões pode desviar a atenção das tarefas a cumprir na vida atual. É importante não se fixar na obsessão da pessoa em luta com sua identidade sexual. sedução não se refere somente ao plano sexual. – Não cair na armadilha de procurar as causas da homossexualidade. ou servir como pretexto para não mudar seu modo de pensar. Alguns terapeutas homens caem na armadilha de querer demonstrar às lésbicas que os homens não são maldosos.

Em contrapartida. longe de sempre serem condenadas. a homossexualidade deve respeitar os gêneros para ser admitida. se existe uma definição única da homossexualidade. portanto. A palavra “homofobia” significa medo ou rejeição da homossexualidade. mas não o é. como o vimos. para o homem que se deixa penetrar: como ele se rebaixou ao papel da mulher. ao longo do ciclo vital. A homofobia interiorizada não tem fim: ela ressurge. Mesmo na pornografia. é ser penetrado — quer dizer. Constitui mais um fenômeno cultural que está longe de ser universal. Em outras palavras. não é a lesbianidade que é reprovada. Constitui provavelmente a diferença subjetiva mais importante entre homossexuais e heterossexuais. outras definições da homofobia. em outras sociedades. assim recebendo virilidade e sabedoria. ou somente aos homens que se deixam penetrar. em contrapartida. e que reveste diferentes formas e significações segundo o contexto. Homofobia e confusão dos gêneros Poderíamos.74 CAPÍTULO 5 HOMOFOBIA INTERIORIZADA A maioria dos homossexuais na sociedade atual. também não há da homofobia. em muitas sociedades. colore todas as suas relações interpessoais assim como o seu projeto de vida e sua visão de mundo. trata-se portanto de um fenômeno social e cultural. portanto. Nas sociedades pré-modernas. como na Grécia antiga. Assim. Assim. Sua significação muda conforme a época e o lugar. Do mesmo modo. o problema não é que um homem penetre um outro: o problema. nem universal… nem inevitável. Complica a percepção que o homossexual tem de si mesmo e dos outros. em certos países. e desprezado como tal. que um homem possa se assemelhar à “uma mulher”. o homem que penetra um outro homem não é considerado um homossexual — e. como na América Latina atual. ou somente aos homens que se vestem como mulheres. existem outras regras do jogo e. é visto como um homossexual. Portanto. Isso não é o caso. mesmo que se aceitem como tais. por sua vez. em certos países a homofobia aplica-se somente aos homens. e não às lésbicas. Esse medo pode parecer instintivo. Mas esse fato cultural tinha também suas regras do jogo. carregam em si um conflito existencial permanente. mas também ligados à confusão dos gêneros. as relações sexuais entre mulheres são perfeitamente toleradas enquanto essas são “femininas”: nos filmes pornográficos vê-se mulheres de uma . portanto não havia rejeição da homossexualidade como tal. Assim. E até mesmo hoje. aprimorar nossa definição. não é objeto de homofobia. mas as relações homoeróticas como tais eram amplamente praticadas e admitidas. as pessoas não eram classificadas segundo suas condutas sexuais. se havia crítica. Lembramo-nos que as relações homoeróticas. foram amplamente aceitas e até mesmo admiradas em certas sociedades. portanto. A homofobia não é nem instintiva. devia. assumir o papel ativo digno de um homem maduro. não devia de modo algum permanecer passivo na vida adulta. e dizer que a homofobia não é somente o medo ou a rejeição ligados à relação sexual homoerótica. nem natural. era somente dirigida ao homem que transgredia certas regras. O jovem adolescente que se deixava penetrar por um homem mais velho. como o medo do fogo. mas o fato de que uma mulher possa se comportar “como um homem”. sobre diferentes formas.

Assim. Portanto. uma mulher. mais do que do primeiro. Ouve-se freqüentemente heterossexuais dizerem – após terem conhecido um homossexual – coisas do tipo: “É curioso. mesmo masculina. não se limita de modo algum aos heterossexuais. portanto. Mas sexo e gênero não são a mesma coisa. faz-lhes sentir que seus valores morais e seus costumes sexuais são naturais e até mesmo superiores. tanto individual quanto coletiva. é indispensável que homossexuais e heterossexuais entendam que a homossexualidade nada tem a ver com o sexo biológico. esse parece totalmente masculino. em contrapartida. eu achava que eram todos efeminados. adota-a sem mesmo se dar conta disso. ou uma mulher deixar de ser mulher. desde sempre. A noção de gênero. tanto nas brincadeiras e fofocas quanto nos filmes. bastante geral entre esses dois conceitos. Sejam ou não felizes em suas relações amorosas. que um homem possa deixar de ser homem. e que constituem a identidade e o papel masculino ou feminino. A homofobia está em todo o lugar na cultura. Portanto. pelo menos eles têm a satisfação de se sentirem “normais”. Os homossexuais são igualmente expostos a estas preconceitos. permanece sempre mulher. com os atributos físicos correspondentes. como tantas outras idéias que acabam por fazer parte de sua educação.75 feminilidade exagerada. automáticas e. raízes muito profundas na cultura humana. o medo da homossexualidade recobre um outro que é muito mais arcaico e universal: o medo da confusão dos gêneros. A homofobia nos heterossexuais A homofobia preenche várias funções importantes nos heterossexuais. como se vê. mas nunca lésbicas de aparência masculina — que são. é importante fazer uma distinção entre a rejeição da homossexualidade e aquela da confusão dos gêneros que é mais arcaica. entretanto. que geralmente aparecem como personagens risíveis nas comédias de massa. E uma mulher que gosta de mulheres pode ser percebida como “masculina” — mas sempre será mulher. instintivas. também freqüentes no mundo real. E nos filmes para homossexuais. etc. gerando reações imediatas. compreende toda uma série de atitudes. Todas essas idéias e todos esses preconceitos constituem o que chamamos hoje de homofobia. Muitos preconceitos derivam desse último elemento. e condutas que se aprende desde a infância. sentimentos. e isso desde a sua mais tenra idade (e muito antes de ter consciência de sua orientação sexual). idéias. Então. O sexo se refere a certas características biológicas: nasce-se macho ou fêmea. Essa. mas sempre permanece homem. A homofobia tem. desfrutem ou não de sua vida sexual. Esse medo. e observamos que uma parte desse modo depende justamente da confusão. tem. provavelmente. Isso é particularmente importante para os homossexuais que sofrem freqüentemente em sua auto-estima justamente porque se consideram menos homens ou menos mulheres. e que ela não o afeta de modo algum. os protagonistas são sempre homens mostrando a mais robusta virilidade — mas nunca “queens” nem homens efeminados. parece uma mulher de verdade!” Portanto. Um homem pode ser masculino ou não. nos livros. permite a eles se sentirem orgulhosos de sua masculinidade ou feminilidade. o que acontece quando uma pessoa é exposta.” Ou então. a uma certa idéia? Acaba por interiorizá-la: torna-a sua. um homem que se deixa penetrar por um outro homem pode ser considerado (e ele mesmo se considerar) como menos masculino — mas nem por isso deixará de ser homem. como função primordial a de “normalizar” a . aparentemente. referindose a uma lésbica: “Mas ela é muito bonita. Legitima sua própria orientação sexual. a homofobia torna-se “natural”: torna-se um valor implícito e inconsciente. Ora. ora.

que os homossexuais desconfiem de seus próprios desejos ou sentimentos: esses podem lhes parecer perversos. mas do exterior. a homofobia “salva” o heterossexual da homossexualidade. ela toma formas indiretas que eu tentarei descrever agora. as emoções. evidentemente. embora. Pode parecer estranho o fato de que um homossexual possa ter preconceitos ou sentir uma certa rejeição da homossexualidade.76 heterossexualidade. mas sempre será presente de um modo ou de outro — pelo menos na sociedade atual. são depositados nas minorias como os homossexuais. outrossim. É assim que funciona a homofobia no plano social: os homossexuais. tenhamos todos (ou melhor. Essa banalização serve para despojar a homossexualidade de seu caráter radicalmente estranho e diferente. os negros. é heterossexual. sujos ou até mesmo perigosos. pelo qual a sociedade atribui certos traços que não aceita nela mesma à uma pessoa ou a um grupo de pessoas. e um dilema. claro. porque temos todos) tendências nesse sentido. mas é um fenômeno muito generalizado. como impulsos que não lhes pertencem — que não vêm do interior. Tudo isso pode. talvez. não existisse em outra situação. investimos os outros com as tendências ou desejos homossexuais que não podemos ou não queremos ver em nós mesmos: a projeção homofóbica faz com que os homossexuais sejam sempre os outros. organizada e militante. é percebido como um tipo de pastiche gracioso do “verdadeiro casal” que. ao invés de reconhecê-los em nós. desse movimento. os judeus. sobretudo se forem muito visíveis. Freqüentemente acontece. Os homossexuais são sempre os outros Mas ela também tem uma outra função essencial: permite ao heterossexual negar em si próprio qualquer desejo homoerótico. ou os pensamentos que não podemos aceitar em nós mesmos porque são incompatíveis com nossos valores morais ou nossa auto-imagem. Esse mecanismo explica também o fenômeno coletivo do bode expiatório. Isso em parte explica que nos Estados Unidos a liberação guei acompanha-se de uma homofobia cada vez mais explícita. O fato para uma pessoa de rejeitar . Com a repetição de estereótipos e simplificações. é precisamente o fato de que quanto mais os homossexuais tornam-se visíveis. A homofobia não se expressa necessariamente de uma forma direta (o que torna difícil a sua identificação). Suas formas e manifestações podem mudar no decorrer do ciclo vital. Portanto. e de lhe dar um verniz de superioridade moral que. etc. de ter em mente um filme tão divertido e inofensivo quanto A gaiola das loucas. Um paradoxo. por exemplo. sobretudo se for de idade (o que traz ainda outros preconceitos). mais eles se tornam um alvo de maior identificação para a projeção homofóbica. caricatura-a e a transforma em uma paródia da sexualidade “natural” e do amor “verdadeiro”. Isso explica porque a liberação guei é sistematicamente acompanhada de uma reação em sentido contrário. podem até mesmo lhes parecer estranhos. Por exemplo. A homofobia nos homossexuais A homofobia desenvolve um papel muito diferente nos homossexuais. servem de bodes expiatórios para a sociedade heterossexual majoritária. A projeção é um mecanismo de defesa inconsciente pelo qual atribuímos a outras pessoas os traços. Lançados para fora. Isso nada tem de surpreendente: é o que acontece com todos os desejos que são proibidos pela sociedade. O casal homossexual. A homofobia serve também para banalizar a homossexualidade. ter conseqüências muito graves. colocamo-los no exterior. Em casos extremos. Assim. É reconfortante quando se pensa na homossexualidade.

serem incapazes de expressarem seu amor para uma pessoa do mesmo sexo — mesmo que vivam com ela. sua família) critiquem ou ignorem seu parceiro. mas não é realmente meu parceiro”. e que se tornam habitualmente irritáveis. Qualquer que seja a forma que ela adota segundo a estrutura da personalidade e o contexto social de cada um. por exemplo. com o tempo. o que eles fazem com a cólera que sentem. todos os desejos. tendem antes à depressão. sempre benevolentes. Todas as emoções. Uma pessoa que questiona ou que reprime desde sempre aquilo que surge nela espontaneamente. sua vida sexual. às vezes. e sua repressão habitual de seus mais profundos sentimentos. essa cólera pode se manifestar por meio de condutas autodestrutivas — que infelizmente são bastante freqüentes no meio homossexual. pode chegar a desconfiar de todos os seus desejos e sentimentos. de vários anos. e eles mesmos podem relegar sua relação de casal para um plano muito secundário. impacientes. existem homossexuais para os quais é muito difícil ficarem bravos: sempre gentis. Existem também homossexuais que expressam essa cólera sem causa identificável. Uma vozinha me disse que não era uma boa idéia. Essa rejeição das emoções. mas a de saber o que fazem com a cólera que normalmente deveriam sentir.77 sistematicamente seus próprios desejos ou sentimentos acabará. Assim. Pode lhes parecer normal que outros (por exemplo. as fantasias e as necessidades que são sistematicamente reprimidas podem se tornar uma substância tóxica no funcionamento mental e físico se não forem devidamente detectadas e trabalhadas. Uma emoção que é freqüentemente reprimida é a cólera. e até mesmo a sua saúde física. ao fazer projetos de futuro sem levá-la em conta. as etiquetas e as desvalorizações relativamente constantes e conscientes às quais são expostos no cotidiano. e não somente ao amor e à sexualidade. (Não esqueçamos que a cólera negada ou reprimida e voltada para si próprio pode se transformar em depressão que é. mas eu não dei bola. interpretada como um tipo de cólera contra si mesmo. Não esqueçamos de que os homossexuais são objetos de agressões contínuas. devemos sempre procurar a presença mais ou menos reprimida de uma cólera longamente acumulada. é que eles tendem a reprimir ou a deslocar essa cólera. as piadas. É importante tomar consciência dela e canalizá-la corretamente. Quer o admitam ou não. . A pergunta que se coloca não é a de saber se tudo isso os afeta ou não — pois é evidente que sim —. em parte. não conseguem esquecer as gozações.) Ou então. Em minha experiência terapêutica. às vezes. porque são diferentes? A resposta.” Poderíamos nos perguntar quantas condutas autodestrutivas nos homossexuais não derivariam. provocando problemas importantes para as relações sociais e a intimidade. dos desejos e das necessidades em si mesmo podem se generalizar e se estender à vida afetiva inteira. Os homossexuais que sofrem de um grau elevado de homofobia interiorizada podem. dessa desconfiança para com a sua própria intuição. ou tenham uma relação com ela. freqüentemente eu ouvi homossexuais dizerem coisas assim: “Eu sabia que eu não devia fazer isso. afetando suas relações com os outros e com ela mesma. contra eles mesmos. Não é raro encontrar nos homossexuais (sobretudo masculinos) uma profunda ambivalência no que concerne o casal: sua atitude implícita poderia se resumir: “Tenho um amigo. ou intolerantes. Esse processo pode chegar à repressão habitual de certas emoções. Do mesmo modo.

eles duvidarem deles mesmos. é de uma importância capital — embora isso talvez valha mais para as lésbicas do que para os homossexuais masculinos. Em segundo lugar. os homossexuais têm uma melhor relação com sua mãe.78 A sensação de estar em desvantagem Um outro problema que pode derivar da homofobia interiorizada é uma imagem de si desvalorizada: muitos homossexuais consideram-se de uma certa forma limitados. o fato de que os membros de uma minoria marginalizada achem. Uma delas. em geral. a visão da homossexualidade como um fracasso. etc. de suas capacidades ou de suas ambições: tendem a ser menos seguros de si do que os heterossexuais. pois interiorizaram certos estereótipos associados à homossexualidade. Mas afeta de outra forma as lésbicas. portanto. e isso só pode limitar seu desenvolvimento social e profissional. muitos homossexuais cresceram e viveram em um certo isolamento afetivo e social. de fato. por razões complexas que não examinaremos aqui. os heterossexuais tendem a compor suas relações sociais em torno de certos pontos comuns como o casamento. Apesar de tudo isso. no fim das contas. É possível também que uma certa sensibilidade feminista tenha um papel nisso: muitas lésbicas não têm nenhuma vontade de manter relações sociais com os homens. além dessa distinção entre homens e mulheres. a uma realidade objetiva. Assim. na sociedade atual. e não é necessariamente consciente. as escolas. Mas é muito comum e pode assumir inúmeras formas. É interessante notar que esses. muitos campos afetivos e sociais que não são partilhados. que geralmente são os homens. é provável que os homossexuais. existe uma certa distância social real que poderíamos qualificar de inevitável por conta das diferenças objetivas entre o ciclo vital das duas populações. têm dificuldades para fazerem amizades com os homens. enquanto as lésbicas. muitas vezes. portanto. estejam em uma posição de fraqueza relativa em certas áreas da vida profissional e social. muitos homossexuais nunca aprenderam certas competências sociais que são próprias da cultura heterossexual. o resultado final é que as lésbicas tendem a ter menos contato com as pessoas do sexo oposto do que os homossexuais masculinos. Esse fato não afeta tanto os gueis. Contudo. Em geral. e isso reflete também as diferenças reais entre os estilos de vida homossexual e heterossexual. as crianças. são mais bem colocados na hierarquia social. Em particular. — assuntos que não afetam do mesmo modo os homossexuais. Portanto. a facilidade em estabelecer contato com pessoas do sexo oposto. em parte. que geralmente não são casadas e têm poucas relações sociais com os homens. podem estar ainda mais marginalizadas do que os homens frente ao mundo do trabalho e do poder. Essa sensação difusa de estar em desvantagem é raramente verbalizada como tal. em . que continuam a ser homens. Há. mantém boas relações com as mulheres. tanto no plano pessoal quanto no plano social ou até mesmo profissional. muitas vezes. Mas. Começamos por uma idéia que certamente chocará muitos leitores: há um “quê” de verdade nessa sensação de desvantagem. uma limitação ou um defeito pode ressoar neles de muitas formas. É uma conseqüência natural da marginalização. como dissemos no capítulo 3. é muito importante ter boas relações com os detentores do poder. Não é surpreendente. portanto. e. Vemos. difícil estabelecer contato com a maioria. A sensação de desvantagem que eles podem sentir corresponde. geralmente. Essa diferença provavelmente tem raízes psicológicas e sociais. Não é difícil encontrar homossexuais que não chegam tão longe em seus estudos ou em sua profissão quanto o deveriam. Ora. do que as lésbicas com seu pai. às vezes. Em primeiro lugar. a homofobia interiorizada agrava as coisas. as relações de família.

Mesmo que não sintam mais essa vergonha no presente continuam freqüentemente a ser particularmente susceptíveis. 1933. pois “se eu fracassar. Em casos extremos. Às vezes. podem se sentirem excluídos. Paradoxalmente. por outro lado. podem ter dificuldade para expressá-los. debochados. essa sensação difusa de inferioridade ou de insuficiência pode provocar um esforço continuo para compensar o “defeito” da homossexualidade em outras áreas da vida. a distribuição dos papéis em seu casal. a esconder ou minimizar seus desejos. tenebrosos e desconfiados… senti durante anos que essa conduta era engendrada por nossa civilização. . Poderíamos nos aventurar a dizer que todo o homossexual. “Female homosexuality and the American medical community. Todos são excessivamente suspeitosos. ofendidos ou desprezados. portanto. Será para ele. Essa supercompensação pode levá-lo a se tornar demasiadamente perfeccionista e exigente com ele mesmo: ele pode sentir que não está “à altura” em inúmeros campos. “Homoeroticism and paranoia”. 957=974. E mesmo que ele tenha atribuído outras causas a esses sentimentos. Quando certos psiquiatras e psicanalistas falavam (e alguns ainda falam) de tendências paranóicas nos homossexuais. não sobreviveriam. eles têm uma certa dificuldade em afirmar ou defender as suas. Em American Journal of Psychiatry. 13. então. se por acaso venham a se separar de seu parceiro atual. A mesma dinâmica de supercompensação pode levar o homossexual a tentar sempre se mostrar no seu melhor ângulo possível. mesmo que não o sejam. 188. Essa desvalorização de si.79 diferentes níveis. Mas essa pode também ser interpretada como uma manifestação da homofobia interiorizada — e é importante trabalhá-la nestes termos. Rosario (ed). Carlston. ou menos apto para a felicidade. estou convencido que isso é apenas parcialmente verdadeiro. segundo o critério da sociedade heterossexual. Brill. Uma outra manifestação importante da homofobia interiorizada é uma certa disposição para a vergonha. 1997. Acostumados. essa falta de limites podem. Citado em Erin G. em outro caso. etc. mesmo que isso não seja o caso. Muitos homossexuais são. Routledge. New York. Em Vernon A. provavelmente eles se referiam em parte a essa extrema susceptibilidade64. O homossexual pode (inconscientemente) tentar provar que é “aceitável” apesar de tudo. Outras manifestações da homofobia interiorizada Uma outra manifestação dessa insegurança de base é uma relativa fraqueza nos limites interpessoais. “demasiados bons”: sempre atentos aos desejos ou às necessidades dos outros. Muitos homossexuais tiveram vergonha de sua orientação sexual em algum momento de sua vida. devemos considerar a homofobia interiorizada como um componente possível.” A. ou: “Não quero”. Muitos homossexuais acabam assim imitando condutas ou atitudes heterossexuais em seu estilo de vida. tentará constantemente provar que pode satisfazer as demandas da maioria. e apresentar um grau elevado de susceptibilidade em suas relações interpessoais. servir para manter relações que. eles se sentirão observados e julgados pelos outros. de fato. difícil mostrar (ou até mesmo reconhecer) seus limites. Como qualquer minoria discriminada. as pessoas pensarão que é por causa de minha homossexualidade”. A maioria desses traços se deve a fixações sádico-anais e a regressões. É assim que muitos homossexuais mantém relações de casal pouco satisfatórias: falta nelas os limites que estão no cerne de qualquer relação profícua e que permitem as pessoas dizerem: “Eu não concordo”. sentiu-se ser menos: menos homem ou menos mulher. eles podem acreditar que não encontrarão mais ninguém que possa os amar. antes de concluir que existe uma patologia tão grave quanto a paranóia. 64 Por exemplo: “Eu nunca conheci [um homossexual] que não apresentasse traços paranóides. em um dado momento. Contudo. A. Ademais. menos dotado para a vida social ou profissional. Science and homosexualities. na qual os homossexuais são tratados como párias. p.

há um questionamento dos estereótipos ou das idéias normativas sobre como “deveriam” ser um homossexual. uma mulher. Essa atitude pode representar uma maneira muito salutar de se distanciar de certas idéias pré-concebidas. até hoje). vale se perguntar qual é a origem dessa concepção da promiscuidade homossexual tão generalizada em nossa sociedade. do casal aberto. “porque os homossexuais são desse jeito” ou porque “o meio é podre”. É o que os psicólogos chamam de “dissonâncias cognitivas”. Onde os heterossexuais foram rebeldes. os heterossexuais dessa geração casaram-se e tiveram filhos. nos homossexuais foram percebidos como um atributo essencial. Durante os anos 70. Depois veio a liberação guei que coincidiu com a revolução sexual e se tornou um elemento central dela. E essa situação tende a provocar uma ansiedade e uma incerteza crônicas. um homossexual é fiel. pois eles são. que muitos homossexuais acreditam nele. no fim das contas. Mas os homossexuais (que não foram nem mais nem menos frívolos do que os heterossexuais) foram julgados à parte. os homossexuais adquiriram uma nova série de etiquetas muito menos engraçadas e. Poderíamos também nos perguntar se o ciúme. dos casais a três (ménages à trois) e outros jogos sexuais. é mais uma manifestação da homofobia interiorizada. é a idéia que muitos homossexuais têm sobre a homossexualidade nos outros. um homem. Mais ela coloca também um dilema. para desenvolver uma identidade que seja plenamente integrada. gaiatos e boêmios. incapazes de controlar seus desejos ou de manter uma relação amorosa durável. e. e de rejeitar os estereótipos. em certos meios. o homossexual era visto como um doente que. em parte. Enquanto todos esses divertimentos sexuais foram considerados como uma fase passageira na evolução dos costumes ou como um passatempo juvenil para a geração do pós-guerra. tão comum nos casais homossexuais. que consistem em ter duas convicções contraditórias ao mesmo tempo. Aliás. além do mais. . Eternamente frustrado e solitário. É importante explicitar os conflitos subjacentes e resolvê-los. procurava continuamente novas vítimas para satisfazer seus desejos incontroláveis. não deriva. confusos. Freqüentemente escuta-se os homossexuais falarem da “maioria dos homossexuais” como se eles mesmos não o fossem. degenerados. Essa imagem dominou a cultura popular até os anos 70 (e. Essa ambivalência que faz com que “Eu sou um deles. impulsivos. enquanto os homossexuais permaneceram… homossexuais. tal qual um vampiro. mesmo que não se identifiquem com ele. evidentemente. mas não como os outros” é mais um reflexo da homofobia interiorizada. ele representava um perigo para a sociedade por causa de seu gosto pela promiscuidade predadora. mas não sou um deles”. dessa mesma homofobia interiorizada. É uma atitude que merece ser analisada.80 “Não sou homossexual como os outros” Um outro fenômeno interessante que deriva da homofobia interiorizada. Muitas vezes. Essa dicotomia. O estereótipo da promiscuidade homossexual é tão comum. esse equívoco que consiste em dizer: “Eu sou um deles. ou uma mulher diz: “Eu não sou uma mulher típica. contestadores.” Em todos esses casos. mas considera que seu parceiro não o é. Antes da liberação guei dos anos 70. Em uma palavra. permanentes: frívolos. homossexuais e heterossexuais se dedicaram à experimentação do amor livre. assim como quando um homem diz: “Eu não sou como os outros homens”. tão homossexuais quanto os outros.

de acordo com um sistema tradicional de caráter religioso. Identificada no início como uma doença homossexual. Poderíamos desenvolver uma análise feminista. homo — ou heterossexuais. A teoria segundo a qual as pessoas se tornam homossexuais por falta de opções heterossexuais. assegurando uma opção heterossexual contínua — e que existe também uma prostituição masculina. Portanto. e quando não há família para manter o homem em casa. os “moralistas”. as mulheres podem agora dizer não às atividades que não querem. Pouco importava que a AIDS fosse também tão perigosa para os heterossexuais. tinham em média 1 ou 2 encontros sexuais por dia antes do flagelo da AIDS. a sexualidade homossexual nos mostra o que é a sexualidade masculina quando não há mulher para “domesticá-la” e lhe dar um conteúdo afetivo. do qual as conquistas sexuais em série são uma forma exacerbada. a masturbação. e dizer que a promiscuidade é uma questão de homens: nessa ótica. pois não têm mulheres nem crianças dependentes. É também possível que os homens possam ter com outros homens condutas sexuais que as mulheres não admitem. um equivalente em português seria “os donos da verdade” ou. Em muitos países. às vezes. isto é. a variedade. claro. adotando um ponto de vista histórico. eles seriam particularmente expostos ao consumismo desenfreado. mas. Em outros termos. a autoestima e o poder diante dos seus pares dependeriam de sua capacidade de conquista. e que podem se manifestar por vários tipos de condutas perigosas. talvez. Nessa visão. Então. em muitas sociedades. A promiscuidade dos últimos decênios Isso não significa. como explicar isso? Várias interpretações são possíveis. social ou/e político. Poderíamos também falar de uma hipotética necessidade no homem de acumular continuamente conquistas sexuais. sem manter o caráter irônico. em grandes cidades como Nova Iorque ou São Francisco. com outros homens opções sexuais que não estão normalmente a seu dispor66. À parte qualquer consideração moral. talvez seja válida nas prisões ou nos seminários. às vezes. poder-se-ia dizer que a promiscuidade generalizada é típica de certas épocas: nessa 65 "Bien-pensant(e)” é uma expressão francesa usada de forma irônica ou pejorativa para designar quem pensa "comme il faut" [como se deve].81 E depois chegou a tragédia da AIDS. poderíamos também aludir às tendências autodestrutivas que se observa. Estima-se que os membros de certas comunidades gueis importantes. que os homossexuais sejam particularmente castos. ou que atingisse muito mais a população heterossexual em inúmeros países: a etiqueta permaneceu e foi sobreposta aos estereótipos que já existiam.[Nota dos tradutores] 66 Isso não constitui. não na sociedade em seu conjunto. nas minorias estigmatizadas e marginalizadas. e talvez. Portanto. Do mesmo modo. claro. É também provável que os homossexuais se sintam mais livres do que os heterossexuais. Basta lembrar que a prostituição existe até mesmo nas sociedades mais “fechadas”. que são pagas justamente para esse tipo de serviços). os homens encontram. a liberação sexual nunca chegou às mulheres. e estas cresceram em meio a uma moral sexual tradicional. não tendo que se preocupar com uma gravidez. foi percebida pela sociedade bien-pensante65 como um castigo divino ou biológico da promiscuidade e da imoralidade dos homossexuais. difícil de acreditar. uma explicação da homossexualidade masculina. outras formas de estimulação sexual não são atividades aceitáveis para as mulheres (exceto para as prostitutas. E nas sociedades mais liberais. Os números medindo os contactos sexuais entre homens homossexuais são. nem com um eventual casamento forçado. Poderíamos fazer uma análise sócioeconômica e notar que os homossexuais do mundo industrializado usufruem rendas mais elevadas do que a média. o sexo oral e anal. Assim. com certeza. a freqüência e a liberdade relativas da relação sexual homoerótica poderiam contribuir para explicar a promiscuidade nos homens homossexuais. . o que não seria o caso se os homens preferissem sempre ter relações sexuais com as mulheres. Ou então.

disseminou-se na cultura. a história. a biologia. No caso dos homossexuais. . Assim. o importante é que nenhuma prática sexual é em si mesma mais ou menos “repugnante” do que outra. de uma dessas fases históricas de libertinagem67. Essa generalização. a instabilidade. e como tal. geralmente relacionado com a homossexualidade masculina. a frivolidade existem tanto nos homossexuais quanto nos heterossexuais.82 ótica. não podemos deixar de lado o sentimento de rejeição. a partir dos anos 70. “como todos os outros homossexuais”. graças à sua relativa liberdade. simplesmente. até mesmo de repulsão. em contrapartida. e que não gostam de ser caracterizados como tais. — para poder explicar um fenômeno tão complexo. com certeza. que se tornou famoso por causa do couro e das correntes que lhes são associados no imaginário social. ou mesmo de casal: freqüentemente um dos dois parceiros considera-se “atípico” e. Mas não sou capaz de tirar uma conclusão única disso. entre esses últimos. assim como as modalidades das relações sexuais homoeróticas. ninguém pensa em dizer que isso se deve à sua orientação sexual. Mas o estereótipo permanece intacto. entretanto. a idéia de uma promiscuidade inerente à homossexualidade não leva em conta o fato de que muitos homossexuais não são promíscuos. os estereótipos. à homofobia. pelo menos monogâmicas. acha que o outro é. quanto os outros. segundo uma crença bastante difundida. precisaria ser muito inocente para dizer. Mas o sadomasoquismo. tributável à persistência dos estereótipos que acabamos de descrever e. faz parte da homofobia interiorizada. As “perversões” sexuais Além das condutas sexuais cotidianas dos homossexuais e das lésbicas. Mas seja lá o que for. é importante fazer uma distinção entre o que os homossexuais fazem na cama e o que as pessoas imaginam. Mas. é a primeira explicação que vem à mente. a sexualidade homossexual não é nem mais nem menos estética do que a dos heterossexuais e. portanto. e serve para manter toda uma constelação de estereótipos associados à homossexualidade. Em primeiro lugar. são homossexuais… mas não como os outros. É o caso do sadomasoquismo. certas “perversões” sexuais são freqüentemente consideradas como características ou até mesmo exclusivas da homossexualidade. as lésbicas usariam consolos para terem relações sexuais e os homossexuais praticariam sempre a penetração anal. existem outros estereótipos que derivam da homofobia. Como o veremos mais adiante. no fundo. Mas pode-se negar que existe na cultura uma rejeição generalizada em relação à sexualidade homossexual. A promiscuidade. Eles conhecem tão bem. Falando dos estereótipos. que muitos heterossexuais sentem em relação às práticas sexuais dos homossexuais. Além disso. existe também nas relações heterossexuais. ao mesmo tempo. 67 Examinaremos mais adiante a sexualidade coletiva e a promiscuidade nos estabelecimentos especializados. Então. não há nada que os homossexuais possam fazer na cama que não possa ser feito também pelos heterossexuais. Precisaria ser especialista em várias áreas — a psicologia. etc. os homossexuais só aproveitaram. mas esses não correspondem à sua realidade vivida. e que as lésbicas em geral mantém relações senão estáveis. Por exemplo. esses estereótipos não correspondem sempre à realidade. não somente nos heterossexuais. Esse tipo de ambivalência pode exacerbar uma crise de identidade. mas também nos homossexuais. a sociologia. É por isso que muitos homossexuais dizem que não são “típicos”. a análise ideológica. que a promiscuidade homossexual existe porque os homossexuais são assim. Em contrapartida.

[Nota dos tradutores] 69 Entrevista com o Dr. mulheres delicadas Um outro estereótipo que tem. quase animal. clichês que matam — e os mais perigosos são. Existem. nos homens ela é agressiva. como mostra claramente o uso das palavras “veado”68 ou “pederasta” para se referir aos homossexuais. contudo. A relação erótica entre mulheres é delicada e suave. ser relacionadas (pelo menos em parte) com o uso abusivo de drogas e de álcool que permite justamente atividades sexuais que de outro modo seriam pouco suportadas69. provavelmente. de fato. . senão fossem tão perigosas. aqueles que têm a ver com a sexualidade. de natureza heterossexual — e envolve quase sempre homens. portanto. não há equivalente em português. em francês quer dizer "veado". Essas duas representações exageradas da homossexualidade são estereótipos que ajudam os heterossexuais a “catalogar” a homossexualidade segundo critérios simplistas e. Inúmeros estudos mostraram que essa envolve. já que pederasta não é um atributo de uma orientação sexual específica. uma parte de verdade é o da violência nas relações sexuais entre homens. homens que abusam sexualmente de meninas. Paris. Por quê? Sem dúvida a sexualidade masculina é percebida como mais ameaçadora. A maioria dos casos de pedofilia é. mas não devemos esquecer que ela não constitui apenas um modo de pensar. Homens violentos. até mesmo. ou ainda de outra coisa. essa categoria de práticas sexuais é freqüentemente associada à homossexualidade. por razões ideológicas. 24 de novembro de 1998. Reencontra-se aqui a idéia de que a “verdadeira” sexualidade reside nos homens: as mulheres não teriam sexualidade independente do homem. caricaturais. “pede” que. como uma desordem sexual dizendo mais respeito aos heterossexuais do que aos homossexuais — isto é. De fato. e muito menos de meninos. Seria preciso se perguntar. Essas condutas deveriam. e deixá-las de lado. na maioria das vezes. o público se mostra geralmente mais incomodado ou indignado por dois homens que se beijam do que por duas mulheres. e a feminina. até mesmo impossíveis. mas esses clichês contribuíram muito para o ódio e a violência contra os homossexuais. A homofobia assume muitas formas.83 O mesmo se aplica para a pedofilia. diversas drogas são utilizadas em certos meios gueis para estimular a energia sexual. Em particular. é muito comum que essas práticas aconteçam sobre a influência de certas drogas ou do álcool — sem os quais elas seriam muito dolorosas. e sim uma prática sexual entre um homem adulto e um infante do sexo masculino. uma versão “light” do verdadeiro sexo. Os médicos relatam muitos casos de lesões anais nos homossexuais masculinos. a inserção de todo o tipo de objetos no ânus pode ser não somente dolorosa. É também uma fonte de violência. muito mais para ser relacionada com o gênero do que com a orientação sexual. freqüentemente é “porque eles gostam disso”. sejam meninos — são raríssimos. distender os esfíncteres e atenuar a dor. de uma certa subcultura guei que se desenvolveu no decorrer dos anos 80 e 90. Por exemplo. No caso. 68 Aqui a autora utiliza a abreviação da palavra pederasta. mas ainda muito perigosa. mas. A pedofilia aparece. Victor Simon. bate ou mata um homossexual. Os casos de mulheres abusando de menores — sejam meninas. portanto. contudo. Portanto. No cinema. antes. portanto. Isto é. às vezes é para que ela conheça “o verdadeiro sexo”. mais “passiva” e. se esse tipo de prática decorre realmente da homossexualidade em si. Um outro fato interessante é que as relações eróticas entre mulheres são muito menos chocantes para os heterossexuais do que as entre homens. é possível que a violência sexual entre homens derive não da homossexualidade enquanto tal. inofensiva. Contudo. por exemplo. portanto. Quando um bando de jovens ameaça. Poderíamos dizer simplesmente que elas não correspondem à realidade. da sexualidade masculina. Quando um homem estupra uma lésbica.

encontraremos uma proporção desmedida de homossexuais fanáticos por ópera. Poderíamos agora nos perguntar como os homossexuais integram esses modelos e estereótipos. as lésbicas. Não duvido que esse estilo. encontraremos homossexuais excessivamente sofisticadas e femininas. os homossexuais assimilam formas socializadas para expressarem sua orientação sexual. Contudo. Se se considerar típico o fato dos homossexuais adorarem ópera. tendem a se parecer muito — e é estranho. seu corpo musculoso por conta de suas idas cotidianas à academia. ao contrário. aprendem a interpretar os papéis que as sociedades lhes impõem e espera deles. Exatamente como os jovens heterossexuais assimilam as condutas. Mas desde os anos 80 apareceu uma tipologia radicalmente diferente. então. ele apresenta uma virilidade acentuada. Hoje o homossexual não tem mais nada de efeminado. como qualquer linguagem. que elas são homens que não deram certo. os homens que assumiam sua homossexualidade eram afetados e. Por exemplo. Assimilam imagens da homossexualidade que atualmente fazem parte de uma cultura globalizada compreendendo certas modas e uma linguagem corporal específica. o importante. e toda uma série de gestos e de gostos imediatamente identificáveis quase em todo o lugar. quando o fazem. passará de moda. por sua vez. é que os homossexuais aprendam a serem homossexuais de uma certa forma — e que essa forma mude justamente porque é aprendida e não inata. até certo ponto. Estereótipos globalizados e locais Assim como os heterossexuais aprendem um modo particular de serem heterossexuais de acordo com o seu contexto cultural. Ao contrário. de falar. os homossexuais adotarão gestos e maneiras efeminados. Mas. ou com uma série de códigos partilhados entre homossexuais no mundo ocidental. esse “estilo guei” nem sempre foi o mesmo. efeminados. e é muito interessante ver como evoluiu durante os últimos vinte anos. Antes. dos gestos e dos papéis que são considerados “típicos” da homossexualidade. se a sociedade local considerar que os homossexuais são efeminados. de se mover e de se expressar. E podemos supor que essa linguagem é aprendida. mesmo que vivam em países diferentes. Não há dúvida que os homossexuais. seu bigode. interiorizam estereótipos. Do mesmo modo. as atitudes e a linguagem corporal própria dos papéis heterossexuais. nessa sociedade. tanto quanto os heterossexuais. nem todos os gueis adotam o estilo guei — longe disso. de se mover. Não é surpreendente que exista no mundo globalizado atual um estilo guei perfeitamente definido que compreende uma maneira de se vestir. Mas aprendem também os estereótipos em vigor em seus próprios países. tenderam a apresentar condutas e atitudes masculinas. Mas o que eles aprendem exatamente? Em primeiríssimo lugar. Mas.84 Diferentes modos de ser homossexual Examinamos algumas das manifestações da homofobia interiorizada. O homem heterossexual francês tem uma linguagem corporal muito diferente da do homem americano. mas um homossexual francês se parece muito na sua maneira de se vestir. . Evidentemente. se a cultura local pensa que as lésbicas são mulheres altamente refinadas e sensíveis. se pensarmos na enorme diversidade de culturas no mundo e nas numerosas formas que a masculinidade assume em diversos países. Podemos deduzir disso que existe algo que parece com uma linguagem. com seus cabelos curtos. Se se pensar. com um guei americano. e sua jaqueta de couro preto. os homossexuais apropriam-se aos poucos das condutas.

Então. os homossexuais devem aprender a se desprenderem dos papéis e dos estereótipos que a sociedade lhes impôs. sociais. enquanto que nos países industrializados eles se misturam muito mais na população geral. interiorizam e interpretam os papéis e as condutas que a sociedade espera deles. Da mesma forma. dos dramas do ciúme. Em uma palavra. Aprendem também (mais ou menos.85 Eis. aliás. um homem rico que gosta de arte e que tem um estilo de vida refinado é apenas um homem culto. e é provável que poucos homossexuais possam conseguir isso sozinhos. etc. e não individuais. nem inconstantes. assim como os heterossexuais se afastaram dos modelos tradicionais da masculinidade. Essa análise se estende também às classes sociais. o homossexual dinamarquês se parece com qualquer dinamarquês. conforme o país) que os homossexuais são inconstantes. instáveis. Os homossexuais não são “naturalmente” instáveis. Aliás. Em uma palavra. e as formas da homossexualidade têm. O questionamento dos estereótipos Desde os anos 60. os homossexuais repensaram todos os estereótipos anteriores da homossexualidade. nos países do terceiro mundo. além de suas conotações locais. Mas tal tarefa é absolutamente necessária para desenvolver uma identidade homossexual positiva. é uma das razões pelas quais a travestilidade (a forma mais extrema do homem efeminado) é muito mais comum nas classes populares do que nas médias ou elevadas. uma dimensão socioeconômica. exatamente como os heterossexuais aprendem a interpretar os papéis de amante. mas um pobre que gosta de arte e que cultua um refinamento “fora de contexto” é. A categorização da homossexualidade segundo a qual são os heterossexuais que “decidem” quem é homossexual e quem não o é (ver o Capítulo 4). nem ciumentos. Quanto mais se sobe na escala socioeconômica. isto é. A homofobia aprendida Mas os homossexuais. onde quer que estejam. Assim. Assim. esposo e pai. homossexual. menos a homossexualidade é visível. e não naturais. nas sociedades “machistas”. graças ao feminismo. no México isso já é menos verdadeiro. nos países onde os papéis masculino e feminino são mais diferentes e estereotipados — isto é. e assimilam as regras do jogo do casamento feliz e da família unida. e todos os estereótipos derivados da homofobia. da promiscuidade. É difícil entender que esses papéis e condutas são aprendidos e não inatos. mais “diferentes”. tem provavelmente um componente de classe social. do casal infiel. e é indispensável que . Os homossexuais tendem a serem mais visíveis. não aprendem apenas a linguagem corporal ou os modos que a sociedade lhes impõem. agora elas sabem que podem aspirar a papéis diferentes daqueles que lhes são ditados pelos homens. que elas não são de modo algum condenadas pela natureza a serem esposas e mães submissas. imitados. em uma certa visão das coisas. os homossexuais aprendem o jogo da conquista sexual. da feminilidade e do casal. a individuação em qualquer campo que seja. ela se camufla melhor. E as mulheres aprenderam. É assim que os hippies mostraram que os cabelos curtos não são nem “naturais” nem inevitáveis para os homens. nem hipersexuados. implicará sempre um questionamento dos estereótipos. impulsivos. provavelmente. (É preciso se lembrar igualmente que a travestilidade é freqüentemente associada à prostituição e que essa aparece mais nos pobres). A criação de uma identidade própria. Desprender-se dos estereótipos interiorizados é uma tarefa difícil. de fato. a razão pela qual os homossexuais são mais estereotipados ou mais reconhecíveis como tais.

A homossexualidade tornar-se-á uma característica entre outras. Muitos homossexuais preferem hoje o estilo masculino e zombam da imagem clássica do homossexual efeminado. enquanto critério para classificar os indivíduos. não é preciso ser mais. para ser um homossexual verdadeiramente “assumido”. mas academias. então. enquanto esse objetivo (provavelmente utópico) não for atingido. Com efeito. Em número crescente. mas sim menos “homossexual”. antes de qualquer coisa. mas também implica uma solidão maior. Aos poucos. e entram em relações estáveis. menos . certamente. exatamente como o fato de ser judeu ou negro não é mais a definição central imposta aos membros dessas populações. Muitos homossexuais já o fazem. para quem a sua orientação não é mais problema. e desenvolver uma maneira de viver sua orientação sexual livremente — tanto em sua vida pessoal quanto em suas relações de casal e em sua posição em relação à sociedade. a sua importância e torna-se. Perde-se aí um certo sentido da comunidade que é um apoio importante para muitos homossexuais. que a moda da androgenia dos anos 90 representa um esforço para se libertar dos papéis e das aparências tradicionais da masculinidade e da feminilidade para criar um estilo de vida mais livre. a medida que os estereótipos tradicionais desaparecerem. Deixa de ser o fator principal na imagem que se tem de si mesmo. elas são homossexuais. Leva a uma individuação e a uma estabilidade afetivas maiores. Cada vez mais. Houve. um enorme progresso neste sentido durante os anos 90. Mas desprender-se dos estereótipos sempre teve um custo. os casais estáveis que deixam de freqüentar a “cena” vivem relativamente isolados dos outros homossexuais. um elemento da vida entre tantos outros. e a sociedade atual oferece poucas soluções de substituição. algo desse tipo já está acontecendo em inúmeros países. cada indivíduo terá que dar conta esse questionamento. Acho que todo o homossexual deve analisar os estereótipos que o governam. aos poucos. essa opção apresenta ao mesmo tempo vantagens e desvantagens. deixam de freqüentar os bares. É possível que um dia os homossexuais possam viver mais abertamente. sem ter que ir a lugares especializados para se conhecer e se reunirem entre si. Esse trabalho iconoclasta evidentemente não se limita aos homossexuais. menos interessado pelo mundo guei. Na verdade. parece haver uma evolução natural neste sentido. os homossexuais podem se encontrar em lugares que não são bares ou discotecas. Aliás. torna-se paradoxalmente “menos” homossexual: menos obcecado. Depois de uma pessoa ter aceitado bem a sua homossexualidade. Não mais se dirá das pessoas que. E (em grande parte por causa da AIDS) exploram cada vez mais alternativas para a promiscuidade e procuram formar casais estáveis. nesse sentido. Claro. e podemos esperar que um dia as terríveis barreiras entre homo e heterossexuais venham a cair. os heterossexuais também repensam todos os modelos recebidos. tomam suas distâncias em relação à cena guei. Da mesma forma. Isso nos leva a um paradoxo: em um sentido. os preconceitos e os estereótipos estão cedendo. Mas. A homossexualidade desaparecerá. Poderíamos dizer.86 eles possam ver essas etiquetas com um olhar crítico. para se libertarem delas. essa perde. como o fato de ter os olhos azuis ou de gostar de futebol. O homossexual maduro. elas rejeitam implicitamente o clichê da lésbica como homem que não deu certo. Afastam-se assim dos estereótipos anteriores. as diferenças sociais entre homo — e heterossexuais tenderão a diminuir também. espaços culturais ou de lazer. tanto no nível individual quanto no social. desprender-se daqueles que não lhe convém. É a única solução verdadeira para a homofobia interiorizada. Nessa perspectiva. enfim. quando as lésbicas deixam de se vestir e de se comportar como homens.

mas sem se dar conta de seus preconceitos e ainda menos de sua falta de conhecimento. ele deixa de ver todo mundo em função da sexualidade. como os heterossexuais adultos. a partir de seu ar efeminado e seu tom de voz. ou seja alcoólatra. já que se trata de um problema sem solução. A homofobia no terapeuta Enfim. Talvez ele tente. Para o terapeuta homofóbico. Ouvi muitos terapeutas expressarem-se sobre esse assunto não somente com a maior ignorância. pretender poder detectar um homossexual a léguas de distância. antes. aos poucos. Neste sentido. que é inseguro e parece incapaz de levar a cabo seus projetos de vida. e nas sociedades. com traços esquizóides e paranóicos.87 dispostos a socializar com desconhecidos apenas porque são da mesma orientação sexual. ele poderá considerar que esse paciente sofre de uma depressão superposta a uma personalidade limítrofe (boderline). desenvolver nesse paciente as áreas de sua vida livres de conflito. Mas o terapeuta homofóbico não se caracteriza apenas por seus preconceitos e sua ignorância. transexualismo e travestilidade. a fazer como se ela fosse heterossexual. Essa abordagem é totalmente contra-indicada. seria uma perda de tempo. é que é totalmente possível que nenhum dos dois perceba essa homofobia. O objetivo terapêutico será. sempre será uma conseqüência da homossexualidade. analisamos o problema da homofobia no terapeuta. o assunto de sua homossexualidade. ajudar a pessoa a viver a sua vida sem ser demasiadamente afetada pela homossexualidade — em uma palavra. os homossexuais conhecem problemas psicológicos específicos. O estranho. tanto de seu ponto de vista quanto do de seu paciente. deixando de lado sua homossexualidade e. certificar que a homossexualidade tem causas hormonais. nas partes que não apresentam problema. centralizando o trabalho terapêutico nas partes “saudáveis” de sua personalidade — isto quer dizer. Sob o véu da neutralidade e de um saber supostamente especializado. a homossexualidade tende a desaparecer nos indivíduos. de nada serve trabalhar a homossexualidade enquanto tal.). E essa será para ele o problema central. só pode exacerbar a sensação de compartilhamento ou de fragmentação que já evocamos. . recusou dizendo: “Eu já sei tudo que eu quero saber sobre isso”. (Se isso parece exagerado. até mesmo sem abordar. e provavelmente será o caso para os leitores desse livro. que estabelece relações curtas e instáveis. então. convidado para assistir um curso sobre a homossexualidade. O fato de isolar a homossexualidade das outras áreas da vida e tentar desenvolver essas como se aquela não existisse. se um terapeuta tradicional recebe um paciente homossexual deprimido que tem dificuldades em identificar e expressar seus sentimentos. Como o vimos. o diagnóstico principal sempre será a homossexualidade: que um paciente seja deprimido. Por exemplo. que atingiram a maturidade. Escutei terapeutas confundirem homossexualidade. tenha uma personalidade paranóide. lembramos que muitos homossexuais passam anos em psicoterapia sem aprofundar. a diferença reside em sua interpretação. A diferença mais importante entre um terapeuta homofóbico e um outro que não o é reside na sua interpretação da psicopatologia e nos seus critérios diagnósticos. Conheço um médico que. Nessa ótica tradicional. ter como certo que qualquer homossexual masculino teve um pai distante. e que um dia será curável como tantas outras doenças. o terapeuta pode pensar e dizer quase qualquer coisa no campo da homossexualidade sem nunca ser questionado.

sobre seu estilo de vida. – O terapeuta deve trabalhar o tema da cólera com o paciente: ela é bem dirigida e expressa? Ajudá-lo a explicitar contra quem ele sente cólera. mas. explorar o processo de construção dessa identidade no paciente. e como? – Você acha que as pessoas podem adivinhar que você é homossexual? Se sim (ou se não). sua homossexualidade é muito importante para eles? O que eles sabem. Em uma palavra. ao contrário. se realmente você é homossexual? Se sim. ou por que não? . trata-se de construir uma nova imagem de si que inclui a homossexualidade de uma maneira aceitável para cada indivíduo. seus irmãos e irmãs. Segundo você. tanto homossexuais quanto heterossexuais? Por quê? – Quando você encontra novas pessoas. um amigo de infância. e não para a sua família ou para a sociedade. mas somente em situações sem risco e com interlocutores apropriados. individualmente ou em terapia – Imagine o que dizem a respeito de você os heterossexuais próximos a você: colegas de classe ou de trabalho. etc. O objetivo em uma tal terapia não será o de separar o paciente de sua homossexualidade. mas a um custo elevado. ao contrário. em que momentos de sua vida? – Imagine uma conversação durante a qual sua mãe comunica à sua amiga que você é homossexual. ao contrário. ajudá-lo a integrar essa em uma identidade completa e não mais fragmentada.88 Um terapeuta sensível às particularidades da identidade homossexual nunca deixará de lado a homossexualidade: procurará. por quê? – Você preferiria ser heterossexual? Se sim. e o ajudará a tomar consciência de sua homofobia interiorizada. desde seus primeiros desejos. no que concerne a sua homossexualidade: será que ele encontrou o apoio ou a compreensão que estava esperando por parte da sua família e dos seus amigos? Será que ele brigou algumas vezes com eles a respeito disso? Por que sim. Examinará a imagem que esse paciente tem de si mesmo e a que ele mostra aos outros. por quê? – Você já se perguntou. sobre sua relação de casal. Essa abordagem é radicalmente diferente da psicoterapia tradicional: o objetivo não é o de viver feliz apesar da homossexualidade. alguma vez. mas. e experiências até a explicação e a concepção que ele tem disso atualmente. e lhe perguntará até que ponto ele realmente tentou manter uma relação estável. Como ela irá dizer isso? Como ela irá explicar sua homossexualidade? Faça o mesmo exercício com o seu pai. graças à homossexualidade. seu patrão. (Imaginar o que dizem os seus próximos a respeito de si mesmo é um exercício projetivo que visa revelar o que se pensa na verdade a respeito de sua homossexualidade.). ao invés de ter se afastado toda a vez que os problemas surgiram. Explorará com o paciente suas expectativas e seus preconceitos no que concerne à relação de casal. Exercício para detectar e trabalhar a homofobia interiorizada. que impressão você tenta lhes passar? Você tenta esconder ou. o que eles dizem. revelar a sua orientação sexual. de fato. ou se não. Irá levá-lo a entender como aprendeu a negar ou a esconder seus desejos e seus sentimentos — por razões legítimas. que não sabem que você é homossexual. sobre sua personalidade e seus gostos? O que você gostaria que eles dissessem? – Será que você fala muito ou muito pouco da sua vida pessoal com seus conhecidos. Tentará desenvolver no paciente uma forma de comunicação mais pessoal e íntima.

Se disser que trabalha com eles como se fossem heterossexuais. suas mãos. mas que nada ainda foi provado de forma definitiva. dos filmes que viu. A que conclusão essas experiências te levaram a respeito da homossexualidade e de você mesmo? – Imagine que você esteja vivendo em uma sociedade na qual é preferível ser homossexual. curiosidade. Como você interpreta isso agora? – Se você nunca teve desejos nem experiências homossexuais. Há. a causa da homossexualidade. Exercícios para ajudar o terapeuta e a família do homossexual a detectar a sua própria homofobia – Examine cuidadosamente suas reações ao corpo e à linguagem corporal do homossexual: o que você sente ao ver seu rosto. O que eles provocam em você: repulsão.89 Para detectar a homofobia no terapeuta – Pergunte ao terapeuta se ele trabalhou com muitos homossexuais. – Pergunte ao terapeuta qual é. Se ele disser que sabe. troque de terapeuta. não uma explicação única). Lembre-se de tudo que você sentiu e pensou. provavelmente. Se ele responder em termos de psicopatologia. saia correndo. as pessoas de idade. etc. É vergonhoso ser heterossexual. ternura. medo. Se ele disser que ele pode “curar” a homossexualidade (ou ao contrário. cólera. que a homossexualidade não é “curável”). escolha outro terapeuta. e se achou neles traços comuns. dos boatos que você ouviu. sua boca. segundo ele. atração? – Lembre-se de experiências ou de desejos homossexuais que você pode ter tido. pergunte a você por que. uma combinação de fatores. Será que foi porque você é “normal”? Porque você nunca teve a oportunidade? O que você teria sentido. assim mesmo. Faça uma lista dos homossexuais que você conheceu. associações e fantasias. os alcoólatras e outras populações ditas com necessidades especiais. exatamente como as crianças. É importante se lembrar que o homossexual tem o direito de ser tratado por alguém que conheça a fundo a sua problemática. As pessoas unem-se heterossexualmente apenas para se reproduzir. e o fato de mostrar isso em sociedade é um sinal de depravação. já é uma resposta mais aceitável — mas que revela. piedade. certo desconhecimento do assunto. é porque ele não conhece as pesquisas atuais. pensado e feito se a ocasião tivesse aparecido? – Pergunte-se como você sabe o que você sabe a respeito da homossexualidade. (A melhor resposta é que existem muitas causas possíveis — ver os capítulos 2 e 3 —. Como você se sentiria em tal sociedade? . – Se o terapeuta disser que trabalha com os homossexuais exatamente como se eles fossem “normais”. seu modo de se vestir e de se mover? Tome consciência do conjunto de suas reações.

a divisão forçada entre os papéis masculino e feminino. nem duráveis. É em parte por isso que esse casal tem tanta dificuldade para se legitimar aos olhos da sociedade — e é também isso que lhe dá uma intensidade e uma margem de liberdade pouco freqüente no casal heterossexual. Não existem os fundamentos jurídicos nem econômicos do casamento. contra a qual o feminismo tanto lutou. O casal homossexual é também mais livre porque não está preso às expectativas e aos estereótipos que enquadram o casamento heterossexual. Os estereótipos e a homofobia interiorizada O estereótipo que mais afeta o casal homossexual deriva da homofobia interiorizada. com certeza. separam-se aliás com demasiada facilidade. é “sabido” que as relações homossexuais são predestinadas ao fracasso: elas não podem ser nem estáveis. No que consiste essa liberdade? Quando duas pessoas se unem somente por razões afetivas. examinarei alguns elementos comuns aos casais homossexuais masculinos e femininos: depois analisarei os dois tipos de casa de um modo mais detalhado nos capítulos seguintes. não no mesmo grau. mas por um conjunto de representações e estereótipos. mais ou menos comunicáveis. De fato. como geralmente se supõe. “porque . nem mesmo felizes. não existe no casal homossexual — ou. Às vezes. Não tem nenhum objetivo dinástico. Não é porque os homossexuais são instáveis ou pouco maduros. Seu principal fundamento e sua razão de ser são de ordem afetiva. como o casal heterossexual. é influenciado por fantasias. não é apenas formado por duas pessoas. Também não procura legitimar nem regularizar as relações sexuais. sua relação é de certa forma mais autêntica. nem para as aparências. Podem sempre se separar: e é isso. Portanto. a principal explicação da instabilidade no casal homossexual. Por exemplo. é porque suas relações são livres de qualquer pressão social. Neste capítulo. pelo menos. Duas pessoas homossexuais que se comprometem a viver junto e a formar um casal estável o fazem unicamente porque se amam – ou se dão bem. Uma razão de ser diferente A razão de ser e a significação do casal homossexual são muito diferentes das do casal heterossexual. desejos e necessidades que são mais ou menos conscientes. o casal do mesmo sexo não é também totalmente livre: como o casal heterossexual. apresenta também um certo número de diferenças que tentarei agora descrever. no sentido tradicional de dar uma descendência ou de consolidar alianças econômicas ou políticas. é uma relação que não é reconhecida pela sociedade ou pelo Estado. de fato.90 CAPÍTULO 6 O CASAL HOMOSSEXUAL EM GERAL O casal homossexual partilha muitas características do casal heterossexual. Mas. Não tem como objetivo o de fundar uma família nem de formalizar uma união amorosa aos olhos da sociedade. O fato de que a função central do casal homossexual seja de ordem afetiva explica ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza. não tem nenhuma das funções tradicionais associadas ao casamento heterossexual. E. sem se esforçar como o faria um casal heterossexual para resolver seus problemas. nem por causa de pressões familiares. Ninguém os obriga a ficar junto: não precisam manter a relação para as crianças. Contudo.

masculinos ou femininos. Antes. a falta de engajamento e um individualismo são fenômenos sociais que hoje ameaçam todos os casais. Quantas disputas de ordem econômica ou jurídica (em torno das despesas. Mas não se deve esquecer que nesse momento a metade dos casamentos nos Estados Unidos acaba em divórcio. a uma certa distância. resolvidas. as pesquisas realizadas nos países industrializados revelam que há muito mais casais homossexuais estáveis e de longa duração do que se pensava. eram menos visíveis. O que significa para um casal a impossibilidade de se mostrar publicamente? Para se ter uma idéia disso. do casal. Harrington Park Press. Ainda podem prejudicar muito. por conta dessa recusa em imaginar um futuro junto? É preciso fazer aqui uma distinção: os casais homossexuais têm problemas reais que podem os desestabilizar. nem de suas atividades comuns. portanto. nem expressarem sua união conjugal de nenhuma forma. deve agora ser atualizada e qualificada. Essa visão. como dificuldades de comunicação. sobretudo quando os próprios homossexuais os interiorizaram. já que ele é convencido de que as relações gueis são sempre efêmeras. a aparecer nas pesquisas70. Ou então. uma explicação falaciosa. nem de seus projetos de futuro. A idéia que a instabilidade do casal homossexual deriva da homossexualidade é. e portanto. Entretanto. . é freqüentemente mais fácil para um homossexual abaixar a guarda do que fazer o esforço necessário. O casal invisível O problema real mais importante nos casais homossexuais. talvez seja o de sua invisibilidade: vivem à margem das normas sociais. Em certos casos. Aos poucos se acostumariam a uma certa discrição. basta imaginar o que seria para duas pessoas casadas saírem. não podemos negar a importância psicológica destes estereótipos. Como eles se manifestam na prática? Podem se traduzir por dúvidas ou por um certo fatalismo quanto à viabilidade do casal: quando dificuldades aparecem. porque lhe parecerá lógico que seu parceiro não seja convidado. de sua relação. ou tinham menos conseqüências sociais. Em segundo lugar. sem poder se apresentar nem se expressar enquanto casal porque a sociedade não reconhece sua relação de casal. sem poderem se tocar. negociadas. e nem mesmo aceita a sua existência. Em primeiro lugar. negligenciará a relação e achará natural ir sozinho às reuniões familiares ou sociais. A infidelidade. que talvez refletisse uma certa realidade no passado. Ciúme. O problema. duvidando no fundo que a relação possa ser duradoura. nem se olharem com ternura. instabilidade. mas acontece a eles também de sabotarem suas relações porque não acreditam nelas. New York. imaturidade. irem ao restaurante ou ao cinema. assim como o terço dos casamentos na França. dos testamentos) não derivam dessa dificuldade em conceber uma relação de longo prazo? Quantas coisas não são ditas. claro. é que não se os via porque eles viviam na clandestinidade. da propriedade. Não poderiam falar de sua vida cotidiana. hoje em dia tendem a se mostrar muito mais. Gay midlife and maturity. mesmo que atualmente sejam obsoletos. nem se deram a mão. nem. certos problemas que se pensava característicos do casal homossexual são também comuns nas relações heterossexuais. visitarem suas famílias ou vizinhos. rejeitará a idéia de um engajamento em longo prazo. aprenderiam a 70 John Alan Lee (1991). promiscuidade: eis alguns dos clichês que são aplicados ao casal homossexual de uma forma ainda bastante comum.91 os homossexuais são assim”. Ou pode atribuir à homossexualidade problemas que não tem nada a ver com ela.

Se os homossexuais tendem a procurar a companhia de outros homossexuais. Aonde os heterossexuais podem contar com um conjunto de suportes afetivos. O universo dos pais. pareceriam rígidos. os homossexuais vivem uma série de carências. e que podem ser desde uma cafeteira até um carro. A invisibilidade na qual tantas minorias vivem é a condição habitual do casal homossexual e o distingue. dos filhos. pouco afetuosos. De um ponto de vista jurídico. Para começar.92 vigiarem seus gestos. como todo mundo. se não substituir. estranhamento inibidos. econômicos e práticos. Economicamente falando. Claro. Vistos de fora. a maioria dos homossexuais estão mais ou menos distantes de suas famílias de origem. Quando um homem e uma mulher se casam. constituindo aos poucos aquilo que chamamos de uma família de eleição — isto é. pelo menos servir de paliativo para a ausência da família. que lhe oferece algo para se ocupar e para ter do que falar. que foi casada durante vinte anos antes de se engajar em uma relação homossexual: “Uma desvantagem da relação lésbica é o fator externo. o fato de ter que lutar constantemente contra um ambiente hostil: é preciso se perguntar sempre que importância lhe dar. dos irmãos. cada qual poderá contar não somente com sua própria família. O isolamento social do casal homossexual Uma outra dificuldade real com que o casal homossexual se defronta é o isolamento. familiar e social que sempre será um apoio – ou pelo menos uma presença. É desagradável. uma rede de amigos que possa. obtêm automaticamente um conjunto de garantias legais que vão desde o INSS e os direitos de propriedade e de herança até vantagens fiscais importantes. ao se casar os dois obtém o apoio de ambas as famílias — talvez não ilimitado. e como fazer. é também verdade que os pais precisam de seus filhos para alimentar a sua relação de casal. Doravante. não é para organizar orgias. o jovem casal recebe presentes que o ajudarão a mobiliar a sua casa e a começar a vida a dois. Eis a razão pela qual é indispensável que o casal homossexual cultive uma vida social. O casal deve se bastar a si mesmo. Mas os casais heterossexuais conseguem substituir de uma certa forma sua família de origem ao fundar seu próprio núcleo familiar com seus próprios filhos. entre outras. no sistema familiar. De um ponto de vista emocional. Como o diz uma mulher de quarenta e quatro anos. É o ciclo natural da vida. suas palavras e seus olhares. que constitui a contracena de qualquer casamento desaparece. E se for verdade que as crianças dependem de seus pais. . é também o caso para muitos heterossexuais: à medida que as pessoas crescem. tornam-se cada vez mais independentes de seus pais e de seus irmãos e irmãs. isso vos tira uma mobilidade externa que os casais heterossexuais têm muito naturalmente”. Ao oficializar sua união. mas simplesmente que os filhos têm essa função. adquirem imediatamente toda uma série de apoio e de certidões que o ajudaram a existir enquanto casal. É simplesmente a fim de poder falar de sua vida em termos normais. Essa dimensão perde-se na relação homossexual. mas também com a de seu (sua) parceiro(a). continuam vivendo em um ambiente familiar que catalisa e revitaliza o casal. Isso não quer dizer que as pessoas têm filhos para preservar seu casamento. como muitos heterossexuais o supõem. o casal heterossexual entra em um mundo afetivo. mas ainda assim estará disponível em caso de necessidade. Isso se entende facilmente se examinarmos o que talvez seja o símbolo mais consagrado da relação heterossexual: o casamento.

muitos heterossexuais parecem pensar que os homossexuais pulam de uma festa à outra. os amigos. não é surpreendente que a amizade desenvolva um papel central no mundo homossexual: os homossexuais dividem seu tempo livre com os amigos e não com a família. Foram obrigados a criar e desenvolver redes de apoio no cerne da comunidade guei. nem vantagens fiscais. é inevitável. as escolas. pela maioria dos homossexuais. a compra de uma casa. A amizade não é somente importante na vida dos homossexuais: muitas vezes é indispensável. em muitos casos será preciso escondê-la ou disfarçá-la. E. A cada passo. etc. nem empréstimos. mas. O ciclo vital Uma outra diferença importante entre os casais homossexuais e heterossexuais é que para estes últimos a vida se divide. E de um ponto de vista emocional. naturalmente. Como o disse uma psicanalista: “Os homossexuais são muito gregários. e que passam seu tempo a se reunir com seus amigos. Não receberão nem presentes. ninguém pensa em criticar os heterossexuais por passar uma boa parte de seu tempo livre com suas famílias. em uma série de etapas dadas tanto pela biologia quanto pela sociedade. Todas essas etapas servem para pontuar a vida: dão uma ordem e um ritmo ao ciclo vital no plano pessoal. procuram-se continuamente e sempre querem se reunir. e criam. a lua-de-mel. porque ninguém mais o queria fazer. depois. não se poderia esquecer o fato de que essa atividade social intensa equivale a passar o tempo com a família. como se fosse um tipo de clube social. Aos poucos. em um ciclo vital que se desenvolve quase automaticamente. a terceira idade. em uma evolução também natural. E cada acontecimento-referência reflete a inserção social do casal: é celebrado como um fato maior que não concerne apenas a dois indivíduos. Pois os acontecimentos importantes na vida de um casal heterossexual são também atos públicos. Muitos deles procuraram a ajuda de sua família e encontraram apenas críticas e rejeições. Vem. E se esta situação dramática representa um extremo. uma família. e depois a morte. e não receberão a visita das duas famílias para conhecer a casa. nem INSS. tomarão consciência de todas essas coisas que fazem falta. depois esses crescem e vão embora. Não terão nem noivado nem festividades de casamento. e desenvolvam na medida do possível famílias de eleição. familiar e social. E a cada etapa. por sua vez. esse fenômeno pode dar uma impressão de frivolidade ou de imaturidade: de fato. procurarão ou inventar-se-ão substitutos. Dois jovens se casam. existem redes de apoio para o casal: a família. nem lua-de-mel. A família de eleição Portanto. Eis a razão pela qual é essencial que os casais homossexuais cultivam amizades. longe de festejar publicamente sua união. E. isso é um exagero. mas à sociedade como um todo. fundam um lar e tem filhos. o casamento. no fim das contas. é natural. Cada fase é inaugurada com um acontecimento maior tal qual os noivados. ainda que não o fosse. Além do mais. cada acontecimento-referência tem regras pré-estabelecidas: todo mundo sabe o que significa . esse isolamento é partilhado. as leis e a cultura em geral encorajam a continuidade no ciclo vital do casal. freqüentemente a despeito da oposição das duas famílias.” Evidentemente. há uma ratificação do caráter social da relação. como o descobriram tragicamente os doentes de AIDS.93 Nada de tudo isso acontece quando duas pessoas do mesmo sexo decidem de viver junto. o nascimento das crianças. Visto de fora. Devem partir do zero. e de se tratar entre eles. embora de uma forma atenuada.

é apenas instalado no presente e nas vicissitudes da vida cotidiana. Em um casal heterossexual. mas. mas simplesmente: “por quanto nos sintamos bem juntos”. qualquer relação que está ancorada só na vida cotidiana é necessariamente frágil. Em primeiro lugar. da sociedade em seu conjunto. não é apenas uma questão de direitos civis. e receberão. A luta dos homossexuais em certos países para obter o direito de se casar. pelo qual as duas pessoas aprendem a se entender em torno de um projeto em comum. nem ratificação social. o casal homossexual não tem projeção em direção ao futuro: é um órfão da temporalidade. paciência e perseverança — elementos que o casal heterossexual aprende e pratica todos os dias (mais ou menos) graças aos filhos. Esse processo. Não é o caso para o casal homossexual. Podem não estar de acordo. no ciclo vital. quando o casal deixa de se divertir por uma razão ou outra. um casal que não tem a visão do futuro dada pelo casamento e pelos filhos deve inventá-la de uma outra forma. e até mesmo sentir. Nas relações homossexuais. desde o início. de ter ou de adotar filhos e toda uma série de garantias jurídicas e sociais. mas também de um tempo que lhes pertença: um lugar. nem apoios. o que é preciso dizer. têm interesse em pensar no futuro. portanto. A dimensão do futuro Pois todos os casais têm necessidade de um projeto de vida. é preciso outra coisa. nem manual de utilização. Ora. o casal é obrigado a se aliar. Essa situação. quando a euforia inicial começa a declinar. mas também um futuro partilhado. para o qual não existem acontecimentosreferência. tende a se dissolver. de uma projeção em direção ao futuro que une as duas pessoas além do momento presente. por falta de engajamento tende a se dissolver. serve para sedimentar sua relação através dos anos. O único equivalente viável (a não ser que se adote filhos) é um projeto em comum de longo prazo. De modo figurado. O fato de se divertir junto não é suficiente. Não somente não se parecem do ponto de vista física. sociedade em comum. que não é muito freqüente nem talvez recomendável para os casais heterossexuais por causa dos conflitos familiares que dela pode resultar. mas também tem maneiras divergentes de pensar. Poderíamos dizer que as relações precisam não somente de um espaço. É também um esforço para entrar no projeto de vida. freqüentemente os casais homossexuais estáveis formarem projetos de trabalho. é o que faz amadurecer um casal. A semelhança… Além dessas diferenças no ciclo vital. um manual de utilização completo. e como se comportar nelas. a relação também. há o fato inegável da semelhança. Os casais homossexuais. de sentir e de falar. Os homens e as mulheres têm modos específicos de se . É assim que vemos. Quando a lua-de-mel está próxima ao fim. a relação homossexual apresenta também uma estrutura e dinâmicas específicas. as duas pessoas são visivelmente diferentes uma da outra. Portanto.94 uma festa de noivados ou um casamento. sabe-se como é preciso reagir. não é uma má opção para os casais homossexuais. Isso é quase automático na relação heterossexual. Por isso a idéia. além de tudo uma socialização distinta desde o início. poderíamos dizer que o casal que começa a vida a dois recebe. no final das contas. Em muitos casos. pois o cuidado dos filhos o exige. Em contrapartida. cada vez mais comum no mundo industrializado de inventar equivalentes para isso. O contrato não diz “até que a morte nos separe”. Qualquer projeto em comum necessita diálogo.

É o que mostraram os inúmeros estudos psicológicos que tentaram encontrar uma diferença na saúde mental ou na estrutura da personalidade dos homossexuais… e que nunca conseguiram isso. da maneira com a qual sua família expressava o amor ou a agressão. Em razão de tudo isso. enquanto ela é forte. nós não temos a mesma anatomia? Mas as coisas não se passam assim na realidade. aos gostos. um acaba as frases do outro ou fala no seu lugar. Dito isso. os homens e as mulheres sabem de antemão (ou aprendem) que devem fazer um certo esforço para se compreender mutuamente. que a relação seja fadado ao fracasso — nem em um caso nem em outro. Há uma tal identificação. Mas os problemas podem também surgir no campo sexual. em especial deve estar muito atento às pressuposições e à “telepatia!”. competente e independente longe de sua presença. dependente e submissa quando está com o seu marido. uma mulher pode se mostrar infantil. Esse erotismo depende do contato físico que teve com seus pais. Será que se trata então de uma patologia pessoal. como os mostraram vários autores71. necessidades ou desejos. Ballantine Books. de ver o mundo. Nos casais do mesmo sexo. Existe uma tendência natural em supor que ele terá os mesmos gostos. seus irmãos e suas irmãs. a outra é tão parecida. You just don’t understand. o conhece melhor do que a si mesmo. O casal heterossexual deve fazer um esforço para se aproximar e o casal homossexual deve fazer um esforço para se diferenciar. por exemplo. Então. Por exemplo. mesmo quando não estão de acordo. e não apenas a da patologia pessoal. em particular. como ela pode sê-lo quando examinemos o funcionamento do casal heterossexual. às vezes. e de formar relações. Como o descreve uma lésbica: “Às vezes. viram aí as conseqüências naturais de um narcisismo suposto dos homossexuais e de sua eterna imaturidade. . Cada indivíduo tem um erotismo próprio que se desenvolveu nele desde sua infância. New York. Mas enquanto os homossexuais seriam incapazes de individuações em todas as áreas da vida. no final das contas. É simplesmente uma dinâmica à qual é preciso ter cuidado. e narcisistas em suas relações interpessoais — o que não é o caso. Observa-se no casal freqüentemente uma certa ausência de diferenciação: Um “sabe” o que o outro pensa. A distinção é importante. como foi dito no capítulo 1. Aprendem a respeitar suas diferenças e serem pacientes. Se eu sou uma mulher e durmo com outra mulher é fácil eu supor que essa terá a mesma sensibilidade erótica do que eu.95 expressar. ou de uma dinâmica de casal? Mesmo que a resposta não seja evidente. No casal homossexual o outro é parecido desde o início — e é fácil pensar que ele vê as coisas da mesma forma. essa indiferenciação reflete uma dinâmica de casal mais do que uma psicopatologia individual. está claro que é preciso levar em consideração as duas hipóteses. uma tal comunicação. Por que ela não pensa igual? Por que ela não sente as coisas do mesmo modo? Por que ela não me entende?” Essa ausência de diferenciação freqüentemente foi interpretada como um fenômeno patológico: alguns autores na psicanálise. Isso não significa. Deborah Tannen (1990). Isso pode dar margem à expectativas telepáticas pouco realistas e a uma certa recusa da diferença. Isso se aplica à comunicação. daquilo que ele pôde observar na relação entre seus pais e de suas próprias experiências 71 Ver. adivinha o que vai dizer e. à maneira de pensar e de sentir das duas pessoas. que às vezes nos irritamos quando ela não tem a mesma reação. contudo. não nos demos conta daquilo que se exige. não há nenhuma dúvida de que a indiferenciação é um dos riscos mais importantes da relação homossexual — exatamente como o seu contrário (a falta de comunicação) é uma das dificuldades mais freqüentes no casal heterossexual.

Em geral. Uma poderá amar o sexo oral. Além do mais. Isso não é o caso na relação homossexual. Tudo isso pode estimular ciúmes e ressentimentos que afetam necessariamente a comunicação e a solidariedade no casal. Nós somos duas mulheres. e até mesmo seu modo particular de expressar o desejo e o prazer sexuais. afinal de contas. sempre há uma que é mais atraente ou sedutora. culturais e sociais. mais ou menos consciente. o casal heterossexual funciona na complementaridade mais do que na rivalidade. Isso dá espaço para uma divisão do trabalho que é bastante difundida no mundo atual segundo a qual. nada podemos supor nesse domínio. por exemplo. Poderíamos pensar que há uma certa rivalidade em todas as relações amorosas. nem o mais sexy. não existe uma sensualidade feminina ou masculina que seja genérica ou generalizável. um homem e uma mulher não vão pensar em se comparar no domínio físico: não se perguntarão qual é o mais bonito. vê-se com bastante freqüência casais homossexuais formados por duas pessoas muito diferentes do ponto de vista social. seu ritmo. Portanto. mais rica ou reconhecida. Da mesma forma. é “normal” que o homem tenha mais sucesso e ganhe mais dinheiro (problemas surgem somente quando a mulher ganha mais ou tem uma posição superior. e aqui também. nem o mais musculoso. as duas pessoas em questão não são as únicas a se compararem: seus amigos e pais pensarão (e dirão): “Essa é mais bonita do que a outra”. A diferença de idade entre os dois membros de um casal homossexual conta muito mais do que no mundo heterossexual. Ora. Uma mulher poderá desejar a penetração vaginal. … E a diferença Uma dinâmica comum mas pouco estudada no casal homossexual é a da rivalidade. mas não idênticos. É “normal” que o homem seja talentoso para certas coisas e a mulher para outras. Que um homem tenha quinze anos a mais do que sua mulher não chega a ser um grande problema precisamente porque não há . de duas pessoas. Da mesma foram. Cada corpo tem sua sensibilidade. por sua vez. ou “Ele é o mais efeminado”. e a outra não. e a outra não. que são ou parecem ser “naturais”. Cada corpo tem sua própria arqueologia do desejo e da sexualidade. Como o expressa uma lésbica de quarenta e dois anos: “Acho que há uma competição bastante importante. as duas pessoas devem se dar a permissão de explicitar suas diferenças. Também não tenderão a se medir em relação ao gênero — qual dos dois é mais masculino ou feminino — pois essas diferenças são dadas pela biologia. Portanto. e sempre a gente se pergunta quem é a mais magra ou a mais bonita. Na relação homossexual. no campo do trabalho. mas isso não é necessariamente o caso.” Por outro lado. que pode ser mais ou menos visível. mais forte ou sã. há em geral no casal heterossexual um acordo implícito sobre qual dos dois é mais forte ou mais competente em tal ou tal domínio da vida. na qual a similaridade biológica torna possível todo o tipo de comparações. Tal mulher poderá quase ter um orgasmo quando for acariciada nos seios e outra não sentirá nada. é bom ser próximos. Portanto. nesse caso. A semelhança favorece à competição. ou “Parece que é ele quem ganha mais dinheiro”. promover inveja e rivalidade. certos homens desejam ser penetrados analmente e outros não.96 anteriores no campo sexual. pode existir uma certa rivalidade. nem o que está mais bem vestido.) Existem entre os homens e as mulheres uma série de diferenças biológicas. consciente ou não. Isso implica sempre uma certa assimetria que pode. nem o mais musculoso. econômico e profissional. o homem trata dos aspectos práticos da vida em casal e a mulher dos seus aspectos pessoais e afetivos. Por exemplo.

parece existir um acordo tácito acerca de quem é “mais” e quem é “menos” homossexual. uma coisa é quando outros homens olham meu parceiro e tentam seduzi-lo — o que pode muito naturalmente me tornar ciumento. é que uma das duas pessoas se identifica como homossexual “desde sempre”. esse pode surgir em qualquer relação humana — mas aqui há um elemento complicador que geralmente não é reconhecido como tal: a inveja. supor que aonde encontramos ciúmes em uma relação homossexual. nem conflitos de poder. Em muitos casos. De acordo o meio social e cultural. Em termos simplistas. não derivam. não somente ciúmes.97 comparação entre eles. enquanto a outra está vivendo sua primeira relação homoerótica. pode ajudar a neutralizar os efeitos negativos da rivalidade. e a segunda em outros. Podemos. “Mas” e “menos” homossexual Às vezes acontece na relação homossexual que um dos dois considere que o outro é o “verdadeiro” homossexual. Ora. Os beijos. A divisão do trabalho na relação. porque não se tem o costume de pensar nesses termos e é extremamente humilhante reconhecer que não se é apenas ciumento. Muitos homens consideram que o ato sexual em si não os tornam homossexuais — mas os sentimentos amorosos sim. Entretanto. é inevitável que uma seja mais forte em certos domínios. pode haver outros critérios de definição. encontraremos também inveja. O ciúme é muito menos perigoso quando se consegue detectar e assumir seu componente de simples inveja — e trabalhá-lo enquanto tal. aquele que sente e expressa . eles existem. é muito mais são admitir que um dos dois maneja melhor o cortador de grama. aplicável tanto aos casais masculinos quanto femininos. Pode também ter aí outras explicações. mas inveja. mas. É difícil reconhecer esse tipo de dinâmica quando se está envolvido. Claro. classificação que pode parecer absurda à primeira vista. a ternura são “coisas de mulheres” que marcam um limite entre homossexualidade e heterossexualidade. No casal masculino. a comparação é inevitável. e é melhor assumir esta realidade do que tentar aparar as arestas. isso provocará em mim. se é igualmente reconhecido que o outro maneja melhor o computador. diferenciadas conforme o gênero. de frustração ou até mesmo de ódio. pode haver uma distinção segundo os papéis sexuais: o homem ativo é “menos” homossexual. uma outra coisa é quando eu me pergunto por que é ele que as pessoas estão olhando e não a mim. bem explicitada e negociada. No casal formado por duas pessoas do mesmo sexo. se ele tiver quinze anos a mais do que seu parceiro masculino. de insegurança. portanto. Inveja e ciúmes Um outro problema freqüente dos casais homossexuais é o do ciúmes. ou simplesmente é mais jovem. entre dois amantes. as carícias. Mas essa geralmente não é assumida. de fato. Aliás. de uma rivalidade escondida? É indispensável para o sucesso do casal que suas duas partes possam reconhecer suas forças e suas fraquezas respectivas. como freqüentemente têm tendência a fazê-lo. Mas. mas também invejoso. muitas vezes se pensa que não deveria haver rivalidade. enquanto o passivo é mais — porque o fato de ser penetrado o assimila ao sexo feminino e torna-o um “verdadeiro” homossexual. Uma primeira. Então. é importante fazer e explicitar a distinção. nem desigualdade. Várias explicações são possíveis. No casal guei. Quantos problemas dos casais homossexuais não se devem a esta tendência para a comparação? Quantos sentimentos de inferioridade ou de superioridade.

Na versão feminina. essa distinção entre “mais” e “menos” homossexual mina a relação. É nesse momento que aparecem frases do tipo: “Se eu não tivesse te conhecido. à homossexualidade. sobretudo se for sua primeira relação dessa natureza. enquanto o outro. poderá até mesmo se dizer que. São então certos estereótipos que determinam qual é a “mais” ou “menos” homossexual no casal. enquanto aquela que é mais “feminina” se vê como “menos” homossexual. que recebe afeição mas não a retribui. Quaisquer que sejam os critérios. Esses critérios derivam ou de certos estereótipos de gênero. Essa diferença será traduzida menos por práticas sexuais diferentes do que pela aparência física: roupas. se ela é homossexual é por causa de sua parceira. e acusará o parceiro “mais” homossexual pelos problemas que poderão surgir na relação. há nos homens vários critérios possíveis para estabelecer o que constitua ou não uma relação homossexual. condenando-o. não se sentirá responsável por ela. mas porque se é iniciado. Portanto. e portanto a projetará na outra. ou das práticas sexuais de cada um. existem outros critérios: uma das duas parceiras pode ser mais “masculina” e se sentir “mais” homossexual. o outro. Mas em todos os casos. de uma certa concepção das causas da homossexualidade. É natural que tenha em cada casal uma pessoa mais velha. o chantageia. Uma de suas conseqüências é precisamente a idéia segundo a qual há sempre em um casal uma pessoa “mais” homossexual que perverte aquela que o é “menos”. por interesse. compra seus favores. a divisão dos papéis sexuais não é tão freqüente na relação lésbica.” Esse raciocínio se nutre. em sua versão masculina. Essa distribuição da homossexualidade pode minar seriamente a relação. eu estaria tranqüilamente casada. que o violenta. é ela”. Do mesmo modo. um pode desenvolver um papel “masculino” e. ou que aceita melhor a sua orientação. pois implica também em uma distribuição desigual e injusta da responsabilidade. ou mesmo pelas suas próprias dificuldades na vida. de fato. Tenderá a acusar a “verdadeira” homossexual pelos problemas que aparecem na relação. engajamento . É como se o “menos” homossexual não conseguisse integrar realmente o casal: sempre está de passagem. mais “feminino” é evidentemente “mais” homossexual. se achar “menos” homossexual. desenvolve-se da seguinte forma: um jovem adolescente cai nas mãos de um homossexual mais velho do que ele. linguagem corporal. fará menos esforços para cultivar a relação. não o é. por outra pessoa. É ela que adotará o papel de “verdadeira” homossexual. A outra. a moça mais nova é encantada com uma mulher mais velha que se aproveita de sua inocência ou de sua solidão para desviá-la de seu destino original. não sou eu. e levaria uma vida normal. e atitudes tipicamente “masculinas” ou “femininas”. portanto. certas lésbicas gostam de ser penetradas (com a mão ou um objeto). Essa distinção é menos perceptível nas mulheres. assim. além do mais. Contudo. A história clássica. Em primeiro lugar. teria filhos. ou enquanto espera encontrar uma mulher. E mesmo que os dois homens reconheçam o caráter homossexual de sua relação. ou induzido.98 amor é homossexual. Muitas pessoas pensam. ou que tenha mais experiência homossexual. ou do grau de homofobia interiorizada. acontece que um acha isso natural enquanto o outro considera que é uma coisa passageira que ele faz por necessidade. É isso que às vezes permite dizer coisas assim: “A lésbica. já que a penetração desenvolve um papel menos central. Tenderá à se engajar menos. encontraremos sempre na pessoa “menos” homossexual homofobia interiorizada e projeção: uma das duas pessoas achará mais difícil aceitar sua homossexualidade. e outras não — mas nem por isso elas se consideram “mais” ou “menos” homossexuais. em todas as relações onde encontramos essa “distribuição” desigual da homossexualidade. que não se torna homossexual por si mesmo. Claro. E é geralmente ele acabará com ela. Essa visão tragicômica de uma homossexualidade que seria transmitida como uma doença infecciosa é ainda bastante difundida tanto nos homossexuais quanto nos heterossexuais.

Por exemplo: de um lado. reúnem um grande número de pessoas que não têm absolutamente nada em comum fora a sua orientação sexual. no final das contas. sobretudo os bares. Um dia. que eu tive meu maior amor. claro. quando e como o casal se encontra. efêmeras. como Swann: “Dizer que perdi anos de minha vida. não pode haver apenas um homossexual em uma relação homossexual: quaisquer que sejam os critérios. meus pais e meus irmãos – com. E se toda a relação clandestina é difícil. e a quem se confia. geralmente. O problema. que não era o meu tipo!” Infelizmente. enquanto o outro a dissimula. que quis morrer. ela é muito mais quando esta clandestinidade não é partilhada. que conhece poucos homossexuais. não teria vergonha de nossa relação. não levei mais minha parceira. Ao invés de serem aliadas. Alguém jovem. Aquela que deve obedecer a todas essas disposições chega às vezes a se interrogar: “Se você me amasse de verdade. Então. mas deve deixar seu parceiro . Pois. Muitos homossexuais têm em sua juventude relações desse tipo. no final. com quem mantêm relações.99 e do trabalho no casal. a família está sabendo e do outro não. contudo. os amigos e os colegas de um conhecem a relação. Ela pode parecer objetiva. já que haverá sempre uma pessoa que aceitará melhor a sua homossexualidade. a pessoa que se assume melhor pode legitimamente se sentir excluída. Mas o que eles têm em comum? Um problema análogo surge quando duas pessoas estabelecem uma relação somente porque elas têm a mesma orientação sexual. e aos poucos deixei de participar das atividades da família. sempre serão dois. para gritar. exceto nas grandes cidades européias ou americanas. O Tempo todo. Uma jovem lésbica conta: “Eu sempre levava minha parceira nas festas familiares nas quais a apresentava como uma colega de escola. faz-se qualquer coisa para preservá-la.” Por sua vez. as duas pessoas encontram-se em uma situação antagônica que tenderá a separá-las. ou se cansar da clandestinidade que lhe é imposta em nome das aparências. é tão difícil encontrar homossexuais no contexto da sociedade heterossexual que muitas pessoas freqüentam lugares gueis especializados. isto é. a pessoa que está ainda “no armário” procura se esconder ou disfarçar a relação frente à sua família e à sociedade. superficiais e. freqüentemente se sente também não compreendida e dividida.” A pessoa que tenta dissimular a relação e encontrar um equilíbrio entre sua família e o seu parceiro. sem nunca revelar a verdadeira natureza de sua relação. falar dele ou o incluir nas atividades familiares ou sociais. aposta-se toda a sua paixão e toda a sua esperança. Isso dá margem à relações superficiais e. para uma mulher que não me agradava. contudo é preciso ver aí uma manifestação da homofobia interiorizada. pode muito facilmente se apaixonar por uma pessoa com a qual ele não tem nada em comum. é que a maioria desses lugares. Nesse tipo de situação. um dos dois membros de um casal homossexual é mais aberto do que o outro no que concerne à sua homossexualidade. É obrigada a visitar a sua família ou passar as férias com ela. suas respectivas esposas. ela precisa inventar novas artimanhas para apresentar o seu parceiro. Em geral. as regras do jogo são estabelecidas por aquela que deve manter o segredo: é ela que decide onde. minha mãe me pegou de lado e me disse que essas reuniões eram somente para a família. muito dolorosas. Mais ou menos saído do armário Muito freqüentemente.

longe de suas famílias de origem. Nesses casos. ela se sentirá duplamente sozinha e presa em um dilema sem solução. antes. era preciso que eu amputasse partes de mim mesma para que a relação funcionasse bem. Entre outros. e muito menos ainda por obrigação. E isso representa um potencial de amadurecimento e de desenvolvimento pessoal (por exemplo. eu era muito valorizada. Ela se sente culpada por isso. esse tem uma estrutura. e essa não pode ser mudada por decreto. há muito mais espaço para si. A tendência natural é a de se dizer: “Não faz meu tipo”. A forte concentração de homossexuais em cidades como São Francisco ou Nova Iorque. Todos esses problemas são mais ou menos inerentes à relação homossexual e exigem uma atenção constante. Nem todos os homossexuais podem sair da clandestinidade. não aplicáveis à relação homossexual. econômicas e sociais limitam sua liberdade de movimento e suas possibilidades de estudar. oferecem uma liberdade individual. Muitos heterossexuais (sobretudo as mulheres) devem renunciar a um certo desabrochar ao se casarem: as imposições afetivas. uma comunicação e uma solidariedade muito particulares. muito menos ao mesmo tempo. sem entender que essas dinâmicas tendem à se repetir caso não sejam devidamente entendidas e resolvidas. Sem dúvida é isso que explica a sensação de ser “muito mais eles mesmos” descrita pelos homossexuais quando comparam a sua experiência atual com as relações heterossexuais que tiveram antes. ou ainda: “Essa relação não está funcionando”. que foi casada durante 20 anos: “Na relação homossexual. e a concordância nem sempre é possível. se deve sem dúvida. Ora. de trabalhar. Assim. Havia um acordo implícito entre o meu marido e eu. Se seu parceiro a repreende por isso. uma grande diferença entre seus casais e os dos heterossexuais reside no seu acesso ao tempo livre. é indispensável que cada um respeite a situação familiar e social do outro. isso nem sempre é possível. é o fato de não estarmos acostumados a considerar a especificidade da relação homossexual. Nem todo mundo pode se encontrar na mesma etapa da vida. Em minhas relações heterossexuais. repito. Por conta deles. Os pontos fortes da relação homossexual Em contrapartida. Cada pessoa tem sua própria história. O que complica as coisas. sem dúvida. Não deve existir imposições nessa área. transpor nela as dinâmicas do modelo heterossexual. ao afluxo de jovens que querem viver livremente sua orientação. Os homossexuais são muito mais disponíveis. tentamos. em cidades grandes onde terão menos problemas. . mas não me viam como a pessoa que eu sou de verdade. muitos casais se separam. Muitos homossexuais (e seus terapeutas) baseiam-se em “receitas” próprias do casal heterossexual. razões de ser e dinâmicas muito diferentes. Esse tipo de mobilidade é muito mais fácil nos países industrializados.100 para fazê-lo. ou de manter atividades fora da família. Claro. para as mulheres). nem ter o mesmo grau de autonomia em relação à sua família ou à sociedade. nem assumir do mesmo modo sua homossexualidade. A solução adotada por muitos casais é simplesmente a de se instalar longe de suas famílias. em parte. mas não quer perder a aceitação de sua família. onde os jovens deixam o lar familiar relativamente cedo e podem se deslocar com maior facilidade. o casal homossexual dispõe de recursos importantes que são pouco encontrados no casal heterossexual. Como conta uma lésbica de 50 anos. acadêmico ou profissional) que é mais frágil na relação heterossexual (sobretudo. às vezes sem se darem conta de que se trata de dinâmicas de relação e não de defeitos pessoais.

inúmeras barreiras que inibem seriamente a comunicação entre os dois sexos. tem muito a ver com o estilo de comunicação mais aberto. a relação sexual é do mesmo modo satisfatória. Eis.” Uma outra modalidade de comunicação Muitos homossexuais encontram em suas relações de casal uma franqueza e uma camaradagem que são raras nas relações heterossexuais. pode dar lugar a uma dependência e a um . Muitas vezes acontece que dois amantes homossexuais sejam também os melhores amigos entre si — o que tem vantagens e desvantagens. Por definição. A relação entre os homens e as mulheres — amorosa. porque eles são mais livres.101 Agora. Em especial. de poder ser si mesmo. existe toda uma série de regras que governam as relações entre os dois sexos. vizinhos ou amigos. ganhava uma relação sexual. Muitos casais heterossexuais. Durante a minha adolescência. profissional ou familiar — é sujeitada a modelos de comunicação que limitam extremamente as possibilidades de uma amizade ou de uma intimidade real. mas não a mulher. eu preferia brincar com os meninos. eu ficava o tempo todo com eles. suas atividades e sua companhia me pareciam muito mais interessantes. Como explica uma lésbica de quarenta e quatro anos. o filho se dirige para seu pai segundo certas normas que regem onde. e que sua mulher deve ouvi-lo atentamente e de maneira respeitosa. e como ele pode falar com ele. aprendemos a nos dirigir a muitas pessoas de acordo com normas que refletem relações de parentesco. Aliás. e a hierarquia que existe em cada caso. a relação mudava. Com as mulheres. sobretudo se estiverem juntos há muito tempo. Então. igualitários e solidários. erótica. De início. Desde a infância. mas. Mas eu escolhi tê-las com as mulheres muito cedo. É muito mais fácil viver com uma mulher. por razões afetivas.” Essa sensação de liberdade. enquanto eles continuavam saindo com os seus amigos. e outras ainda com os seus professores. e além disso eu posso ter o resto: posso ter sexo e amizade. Mas um problema sempre voltava: assim que eu começava a sair com um rapaz. eu me sentia mais próxima dos homens. fazem com que as relações entre homens e mulheres sejam freqüentemente rígidas e superficiais. o grau de intimidade. desde a minha infância. os jogos da sedução e do poder. são prisioneiros de estereótipos desse tipo — mesmo. Por um lado. e as mulheres outras mulheres. quando. homossexuais ou heterossexuais mantêm uma comunicação contínua — mesmo quando eles não se dirigem a palavra. sem querê-lo. Não é por acaso que os homens têm geralmente outros homens como melhores amigos. que ele pode interromper sua mulher. assim como diferenças psicológicas importantes. Via-me relegada ao estatuto de namorada. que foi heterossexual em sua juventude: “Eu posso sentir prazer tanto em uma relação sexual com um homem quanto com uma mulher. que é ele quem decide de que assunto se pode discutir. mas ele segue outras regras com sua mãe. De repente. amigável. Assim. As mulheres não deixam você em casa quando saem para se divertir com as amigas. O casal homossexual é muito mais livre: não está preso ao modelo de comunicação homem-mulher que limita tanto a intimidade no casal heterossexual. então. não havia mais amizade. Essas regras implícitas estipulam que o homem deve ser ouvido quando fala de si mesmo. eu consegui retomar atividades e interesses que eu tinha abandonado durante muito tempo. muitas vezes. qualquer interação entre duas pessoas é uma forma de comunicação. por outro lado. O que isso significa? Todos os casais. e a respeito do quê. mas perdia a amizade e a camaradagem. essa amizade intensa cria laços mais íntimos. mas não deve ser interrompido. e segue regras que são próprias à sua relação específica.

Introduction. Claro. As duas pessoas se bastam uma a outra. As lésbicas usufruem.) (1988). tenham entre eles contatos sexuais esporádicos72. nem de engajamento. os heterossexuais fazem distinções muito nítidas entre esposos. como em todas as relações humanas. Em outras palavras. Muito cedo. entre as mulheres que. Tanto as mulheres quanto os homens têm. Assim. comporta também riscos importantes. Nesse contexto de pós-liberação guei. de aprofundar uma amizade.” Sexo. ou de passar um bom momento entre amigos. Como diz um homossexual: “Não gostaria de me responsabilizar por uma mulher que dependesse de mim. a relação erótica tem um sentido muito diferente daquele que existe entre os homens e as mulheres. na maioria das vezes. ocupam uma posição de fragilidade no casal heterossexual. Nisso elas são muito mais libertas do que as heterossexuais. . de uma liberdade sexual que as mulheres nunca haviam conhecido antes. O casal homossexual se distingue também pela equidade e a reciprocidade na relação. amor e amizade não são nem um pouco claros no mundo homossexual — o que permite uma grande criatividade. elas descobrem uma igualdade. Isso é evidente. hoje. Mas os homens também percebem e apreciam essa diferença entre as relações homossexuais e heterossexuais. relações sexuais com os seus amigos (ou os parceiros de seus amigos). que se amam como irmãos. mas de diferenças mais “reais” como a idade. Nada disso acontece com os homossexuais. Harrington Park Press. entre os homens. É quase sempre impossível ter uma relação de igualdade com uma mulher. New York. Essa categoria da amizade erótica (ou do sexo amigável) se generalizou. que não conheciam. às vezes. sobretudo a masculina: é “normal” que dois melhores amigos. tanto físicos quanto psicológicos. Quando elas constituem uma relação amorosa com uma outra mulher. amor e amizade O papel central da amizade no mundo homossexual pode também trazer problemas. As coisas não se deram assim tão bem para as mulheres. porque podem ter relações 72 Ver John De Cecco (ed. Até mesmo se falou de um sumiço do tabu do incesto na cultura guei. sobretudo. e satisfazem a maioria de suas necessidades afetivas na relação de casal. os limites entre sexo. para quem a sexualidade não está necessariamente ligada a uma intimidade emocional. como no casal heterossexual. As desigualdades de poder não provêm do gênero. Ela tem um sentido lúdico e uma dimensão de camaradagem que não tem paralelo nas relações heterossexuais. Claro. A relação sexual pode ser um modo de se conhecer. aprendem as regras que governam cada tipo de relação e se acostumam a distinguir os sentimentos que correspondem a cada uma dela. sem as imposições da heterossexualidade. em muitos casos. inclusive aqueles que eles consideram como a sua “família”. O movimento de liberação guei abriu para eles um conjunto de modalidades sexuais e afetivas que parecem coincidir com os seus desejos e suas necessidades. A liberdade de explorar modalidades diferentes de relação.102 isolamento excessivos. In: Gay relationships. sempre há assimetrias no poder. ou o nível social. Não é necessariamente um sinal de amor. um respeito e uma reciprocidade. amantes. mas também muitos desentendimentos. amigos e família. Mas não são dadas pelos papéis masculinos e femininos. e agora estou acostumado com uma transparência e uma franqueza que eu não teria se eu fosse heterossexual. sobretudo. o temperamento. pode dar lugar a uma grande confusão. Em particular. eles não mantém (geralmente) relações sexuais com seus amigos nem com sua família. nem de intimidade.

deixando aparecer continentes até então desconhecidos. Isso pode parecer estranho. Ocorre. Os parâmetros da relação heterossexual raramente permitiram uma aproximação amigável. que são tão freqüentes entre as lésbicas. da liberação guei e do feminismo. A amizade entre homens e mulheres Um fenômeno interessante no universo guei. freqüentemente. As definições tradicionais do sexo. sobretudo entre os homens. em particular. como veremos no próximo capítulo. odeiam ou têm medo das mulheres. A possibilidade de escolher o seu parceiro e seu estilo de vida é tão nova que as mulheres ainda não desenvolveram regras de jogo viáveis. sentem e manifestam em relação a elas uma afeição e uma consideração que se nota raramente entre os heterossexuais. Assim. mas porque os homens têm muito mais experiência nesse campo. é a amizade entre homens e mulheres. A homossexualidade contemporânea. enquanto. Os limites entre essas diferentes modalidades não são tão claros em comparação há apenas vinte anos atrás. em parte. as paixões intensas e as rupturas abruptas.103 eróticas inteiramente livres de qualquer obrigação jurídica ou emocional. na maioria das vezes. às vezes. A partir do momento em que . supostamente. oriunda da revolução sexual. Em particular. Penso que isso acontece sobretudo quando as mulheres tentam adotar atitudes “masculinas” que são mais próximas da conquista e da possessão do que de uma autêntica intimidade. os amigos tornam-se ocasionalmente amantes. tornam-se ciumentas sem razão. sob o signo da sedução. Os homossexuais. Acredito que esses problemas surgem. ela tem uma dimensão sexual. o casal aberto. homens ou mulheres. e que é raro entre os heterossexuais. elas se acham apaixonadas quando não o estão de verdade. É fácil atribuir os dramas. os jogos eróticos em grupo. Quando um casal heterossexual se separa. ou que as mulheres não tenham ainda aprendido. Mas essa liberdade parece provocar muitos problemas. está mudando esses modelos rígidos. desenvolvem muitas vezes ligações profundas e devotadas com as mulheres. embora com melhores resultados para os homens. coisas que não são problemas para os homens. em muitos casos. as duas pessoas. a amizade substituiu a família em muitos casos. em geral. A amizade entre os dois sexos sempre foi difícil. o ciúmes. não têm mais nada para se dizerem. a dissociar a sexualidade do amor — mas o novo sistema não parece funcionar tão bem para elas. porque as mulheres não têm ainda o costume da liberdade afetiva e sexual da qual elas experimentam entre elas. da possessão e do poder. Não é à toa que os casais homossexuais femininos se assemelham mais ao modelo do casamento heterossexual do que os masculinos. e tentam se impor esquemas tradicionais que não têm nada a ver com elas. e sem temer gravidez e nem doenças sexualmente transmissíveis. o contato entre homens e mulheres se desenvolve. qualquer que seja a sua orientação. do amor e da amizade mudaram muito desde a liberação guei. Os homossexuais. As relações sexuais entre amigos. e. Na mesma lógica. permaneçam amigos — fato menos habitual no mundo heterossexual. A liberdade sexual parece ter um custo muito elevado para as mulheres — não porque elas são menos maduras ou “razoáveis” do que os homens. como os homens. É possível que ela seja ainda muito nova. enquanto os homossexuais fazem a transição mais facilmente entre as duas modalidades de relação. que examantes homossexuais. A homossexualidade contemporânea modificou o mapa das relações humanas. a uma falta de maturidade psicológica. e isso produz uma certa confusão dos sentimentos e das condutas. tendem a provocar conflitos quando acontecem entre lésbicas.

mudou muito ao longo dos últimos trinta anos. se é que alguma vez o teve. novas possibilidades de aproximação. sem dar importância ao caso até o momento em que seu parceiro o repreende amargamente — mas o mal está feito. que nunca tinha sido vista na história. da lealdade. Ele não tem mais um formato único. No universo guei. mas também confusão. mas também perigos reais. Muitos casais se separam precisamente por conta desse tipo de equívoco. e o preço a pagar é muito elevado. da amizade. sabotadas por amigos ou ex-amantes que não respeitam a intimidade do casal. Em uma perspectiva tradicional. do amor. e as mulheres mais masculinas — abrindo. É preciso fazer um trabalho contínuo para negociar e renegociar os papéis e os costumes que estruturam tão naturalmente o casal heterossexual. O que conta. o apagamento das definições. que os papéis estão mudando: graças à enorme evolução social dos últimos decênios. O fato de que uma amizade possa se erotizar não contribui para a estabilidade dos casais nem dos sentimentos. E isso acaba por tornar as relações precárias. essa falta de clareza dá lugar a atitudes equívocas ou a condutas inapropriadas. entre os dois sexos. assim. todas as significações tradicionais do masculino. Observamos muita flexibilidade. E são os homossexuais que são os mais bem colocados para explorar e cultivar as novas formas de relação que surgiram daí. Ou ainda. Ou então. do feminino. porque o homossexual não está preso à dinâmica da conquista. são transformadas. a contracepção. A comunicação e a afeição que observamos entre os homens e as mulheres na cultura guei são apenas uma pequena amostra do que seria uma relação mais autêntica “de pessoa para pessoa”. e depois se arrependem de não terem deixado as coisas como estavam. As relações são. o feminismo e a liberação guei. uma das duas pessoas dorme com outra. Mas isso não é fácil. eles mesmos. às vezes. Os antibióticos. muitos homens homossexuais e heterossexuais ainda são misóginos — mas é seu machismo que está em causa e não a sua orientação sexual. Muitas vezes ouvi homossexuais dizerem: “Eu não sei se eu o amo como amigo ou como amante. um entendimento muito diferente torna-se possível. e a descoberta de novas formas de relação entre os seres humanos. Claro.” Às vezes. É possível que os homossexuais que se aproximam das mulheres tenham. Os homossexuais estão atualmente na vanguarda de uma imensa transformação da sexualidade humana. Reinventar o casal O casal homossexual. Os riscos da inovação Toda essa fluidez apresenta também grandes riscos. toleram pouco a frustração e têm pouca consideração pelos outros. Como diz um homem guei de quarenta e cinco anos: “A grande força do casal guei reside no fato de que se está sempre reinventando o casal. acabaram por trazer uma liberdade sexual total. Na relação homossexual. no fundo. nada é dado. criatividade.104 não há mais jogos de poder e de sedução. os homens podem se permitir serem mais femininos. Tem-se uma enorme liberdade para redefinir o tempo . mas eu não tenho certeza dos meus sentimentos. e isso o obriga a fazer um esforço sempre renovado para comunicar e se entender. uma sensibilidade mais “feminina”. Cada casal deve inventar suas próprias regras do jogo. inovação. Mas isso prova. que não correspondem a uma realidade afetiva. a revolução sexual. Mas é preciso se lembrar que esses tipos de conduta têm uma dimensão social e histórica importante. é a dissolução dos papéis. poderíamos dizer que os homossexuais controlam mal seus impulsos. mas também muita incerteza. talvez ainda mais do que o heterossexual. de fato. eu me divirto bastante com ele. dois amigos iniciam uma relação sexual porque se dão bem.

tão rica e variada começou a se perder. A questão aqui não é de saber se esse modelo ainda está válido — embora esteja em franca decadência a mais ou menos vinte anos. Atualmente. adotada igualmente por muitos heterossexuais em nosso tempo. A aceitação social do casal homossexual Observa-se hoje uma aceitação recente do casal homossexual na sociedade heterossexual. Os heterossexuais adotam cada vez mais esse modelo. Nesse esquema. às reuniões de amigos. nada está certo. mas antes uma série de relações que correspondem às diversas etapas do ciclo vital. ou as definições consagradas do amor e da amizade. então. não é necessariamente a homossexualidade em si. é que a estrutura e as regras do casamento heterossexual não correspondem às dinâmicas e às necessidades concretas do casal homossexual. a busca de novas modalidades afetivas e sexuais são os vários pontos fortes que distinguem e enriquecem os casais homossexuais. os casais que adotam os velhos esquemas dos papéis masculino e feminino. amores e engajamentos diferentes durante a juventude. se o casal homossexual for estável e monogâmico. Essa idéia reflete fenômenos sociais reais: a esperança de vida cada vez mais longa. Disso resulta uma grande variedade de formas de relação. a solidariedade. a idade adulta e a velhice. O problema. às reuniões do pessoal do trabalho. mais dificuldade ele sentirá. e pode desenvolvê-las na medida em que se desprende das normas antigas. se é livre para se entender e se mostrar como realmente se é de verdade.105 todo quem se é. ou até mesmo aquele do casal heterossexual tradicional. não se trata mais de ter uma relação importante e monogâmica na vida (como no casamento tradicional). Isso parece um pouco com a situação dos negros americanos em uma certa época: quanto mais eles adotavam os modos de pensar e de falar da sociedade branca. somente um tipo de casal homossexual tornou-se aceitável — aquele que imita o casal heterossexual. Mas o que os heterossexuais aceitam cada vez mais. Não é mais surpresa que um casal guei ou lésbico assista aos casamentos. e empreenderam um vasto trabalho para reencontrar a especificidade de sua identidade e de sua cultura. é muito provável que quanto mais o casal homossexual tente imitar o modelo heterossexual. mais eram aceitáveis por ela. do casal e da família expõe-se a muitos desentendimentos e a muitas decepções. e para conhecer o outro como ele é de verdade”. Não há dúvida de que a tolerância e o respeito para com os homossexuais progrediram muito. Aliás. Mas o preço a pagar era elevado: a identidade cultural negra. Têm-se assim. em resumo. A amizade. Finalmente. Por exemplo. cada vez mais os homossexuais praticam o que poderíamos chamar de “monogamia consecutiva”. se sua sexualidade for discreta. a disponibilidade generalizada da contracepção. sem nunca se entediar. nos anos noventa. Existe um processo de assimilação indubitavelmente positivo. será tolerado pela sociedade heterossexual. Estão dispostos a tolerar indivíduos e casais homossexuais desde que se assemelhem ao modelo heterossexual. Infelizmente. o desenvolvimento pessoal. sobretudo nos países . Não existe contrato. muitos jovens negros recusaram continuar no caminho da assimilação. mas que limita de uma certa forma o enorme potencial de exploração e de inovação que acabamos de descrever. Há uma interrogação constante e um não conformismo que faz com que nunca nos deixemos acomodar. Essa aceitação progressiva é muito benéfica. a liberdade. tanto para os heterossexuais quanto para os homossexuais. Se a relação for antiga. O casal homossexual tem muitas qualidades próprias. Acontece alguma coisa parecida hoje com os homossexuais. e a evolução dos costumes. se o casal homossexual for bem-comportado.

o que acontece quando se mistura sexo e amizade? Como você faz a distinção entre o amor entre amigos. para cada um de vocês. você o faria? Por que sim. dez anos… — Em que vocês são parecidos. uma relação homossexual em nossa época. enquanto casal? — Elaborar projetos comuns para seis meses. Segundo sua própria experiência. caracterizadas por uma flexibilidade maior. têm o privilégio de poderem explorar e desenvolver novas modalidades. e no quê são diferentes? — Em que campos existe rivalidade entre vocês? — Em que campos existe inveja? — Um de vocês é “mais” homossexual do que o outro? Por quê? — Um de vocês está mais fora do armário? Como isso afeta a relação? — Exprimir e comparar suas expectativas em relação ao que é ou deveria ser. tanto heterossexuais quanto homossexuais. dois anos. sua família de eleição? E para os dois. o amor entre amantes? — Se vocês fossem um casal heterossexual quem seria o homem e quem a mulher? Por quê? — Se vocês fossem um casal heterossexual. — Exercícios contra o equívoco nos sentimentos: examinar suas definições da amizade. Temas de reflexão para consolidar o casal homossexual — Quando você está em um contexto heterossexual. como seria o seu casamento? Em que seria diferente de seu estilo de vida atual? — Se os homossexuais pudessem se casar. da fidelidade e da lealdade. por que não? . da família. mas sim apontar que a evolução social e cultural permite uma grande variedade de casais. do amor e do erotismo. o amor entre irmãos. em particular. Não tenho a intenção de defender aqui qualquer tipo de relação que seja.106 industrializados. Esses. um entendimento mais recíproco e melhores chances de alcançar a felicidade. Os homossexuais. o que você faz para dissimular (ou revelar) sua relação de casal? — Qual é. em contrapartida. mas o fazem de uma forma terrivelmente dolorosa: por meio de uma série de divórcios. podem se permitir relações sucessivas sem magoar ninguém. para um ano.

tem a sua origem nas transformações sociais. e somente nos países industrializados. eventualmente. Todas essas concepções que refletem evidentemente mudanças sociais e econômicas reais. Depois. 73 Para uma história detalhada do Movimento Lésbico e das idéias que lhe embasam. é importante situá-lo em seu contexto social e ideológico. a idéia de que duas mulheres podem sobreviver do ponto de vista material e emocional sem o apoio de um homem. Paris. O casal lésbico depende de uma liberdade de escolha e de uma autonomia em relação aos homens que a maioria das mulheres atingiram apenas recentemente. éditions Odile Jacob. da revolução sexual e da liberação guei. decidir morar junto. Les relations amoureuses entre les femmes. Não há formato de casal masculino ou feminino que seja universal ou permanente — e ainda menos para o casal lésbico. nem da liberação guei. econômicas e jurídicas que revolucionaram a condição das mulheres durante a era moderna. ver Marie-Jo Bonnet (1995).107 CAPÍTULO 7 O casal homossexual feminino A dimensão social e ideológica Antes de examinar a dinâmica interna do casal lésbico. que elas possam encontrar ali outras lésbicas com quem poderão ter uma relação sexual e. Atualmente. a idéia de uma afetividade e de uma sexualidade feminina independente dos homens: nem a identidade. não era verdadeiramente pensável nem possível para a maioria das mulheres. embora elas não estejam sempre dispostas a reconhecer sua herança. Mas depende igualmente da ideologia que enquadrou (e em parte guiou) essas transformações. nem a maturidade. o movimento lésbico não poderia estar separado do movimento das mulheres. o que. nem o desejo. ainda que não sejam sempre conscientes ou visíveis. Mas. Enfim. a idéia de que a mulher não precisa se casar nem ter filhos para se realizar plenamente. O casal lésbico. nem a felicidade. E essa dimensão ideológica tem implicações psicológicas muito importantes. mesmo que não tenham nenhuma consciência disso. há apenas cinqüenta anos. A história da homossexualidade nos ensina que o casal homossexual mudou muito ao longo do tempo. Não se pode examinar a dinâmica da relação entre mulheres independentemente dessa ideologia. nem da revolução sexual dos anos 70. O casal lésbico tal qual o conhecemos hoje no Ocidente torna-se possível somente a partir do momento em que duas mulheres podem decidir não se casarem. o fato de que elas possam ir a um café gerenciado por mulheres. por causa das transformações radicais no estatuto e na condição da mulher no decorrer desse século. viverem juntas e ganharem sua vida independentemente dos homens. É aí que se encontram as bases ideológicas da identidade lésbica contemporânea. . nem o prazer sexual da mulher dependem do homem. Até mesmo as jovens lésbicas do ano 2000 são frutos do feminismo. constituem o fundo ideológico da identidade e do casal lésbicos contemporâneos73. Em primeiro lugar. portanto. tudo isso era literalmente inconcebível antes das grandes transformações que ocorreram a um quarto de século antes mesmos delas nascerem.

na maior parte do tempo. quando eles pensam na lesbianidade. homossexuais masculino e feminino). essa idéia assume a forma de um velho clichê: o da lésbica que tem medo do homem. De fato. Com efeito. mulheres que escolherem serem independentes dos homens — tanto do ponto de vista sexual quanto afetivo. econômico: o casal lésbico é.108 A recusa da dominação masculina O casal lésbico contemporâneo fundamenta-se em um fato que não poderia ser superestimado: duas mulheres que vivem juntas são. elas ganham em média 70% daquilo que ganham 74 Para uma análise feminista de a revolução sexual lésbica ver Sheila Jeffreys (1995) The lesbian heresy. nas esferas privadas e pública. esperando encontrar um homem. Ora a identidade lésbica não decorre de uma conduta de fuga. São eles que estabelecem as regras do jogo. dentre os três tipos de casais (heterossexual. econômico e social. o que eles acham realmente incompreensível. Ao recusar a via fácil do casamento de conveniência. ainda. se pelo menos fizessem um pequeno esforço…). homens ou mulheres. aquele que tem o nível de vida menos elevado. No caso da homossexualidade. Isso tem um preço incontestável. a relação amorosa entre duas mulheres é essencialmente infantil e pouco digna de atenção. muitas vezes é isso que traz problemas aos heterossexuais. como elas podem renunciar ao casamento e aos filhos? É por causa dessa recusa em se submeter às regras do jogo da sociedade heterossexual que a relação lésbica é profundamente subversiva 74. Afinal de contas. não há nada surpreendente no fato de que a lesbianidade seja tão freqüentemente desvalorizada ou minimizada: para muitos autores clássicos da psicologia e da psicanálise. elas escolhem se afirmar responsáveis por seu destino e lutar contra os preconceitos ainda muito disseminados. Em geral. assim ascendendo à sexualidade verdadeira. que estão na base da sociedade tal qual a conhecemos. mas de uma série de escolhas. Portanto. é um passatempo inofensivo e divertido ao qual as mulheres se dedicam. ao menos implicitamente. É fácil dizer. é que elas possam viver sem os homens (enquanto elas poderiam muito bem encontrá-los. a identidade lésbica não é somente uma orientação sexual. mesmo nos países industrializados são os homens que governam e que decidem quase tudo. que elas não têm mais nem necessidade nem vontade de tomar parte dele. além disso. E. No melhor dos casos. nem mesmo elas se apaixonarem uma pela outra. . Ao tornar os homens supérfluos ela remete em questão todo o sistema de poder e as relações entre os sexos. em uma dessas misturas fáceis de ideologia e de psicologia baratas que são utilizadas para desqualificar as minorias. Isso é freqüentemente confundido com um ódio em relação aos homens. mas também uma recusa das regras do jogo estabelecidas pelos homens. Em primeiro lugar. um pouco como os cachorros raivosos têm medo da água. assumem uma posição política e também existencial. A ascensão profissional de uma mulher depende. Atualmente. as mulheres ganham menos do que os homens: nos Estados Unidos. Eles não acham tão surpreendentes duas mulheres terem relações sexuais. toda a ideologia feminista vem abaixo se se considerar que ela só reflete ressentimento contra os homens e que ela é assunto de mulheres “malcomidas”. Quando duas mulheres se libertam desse sistema e dizem. Spinifex. por definição. mas difícil fazer. de um homem. O fato de duas representantes do “sexo frágil” poderem se libertar totalmente dos homens é radicalmente novo e continua impensável para muitas pessoas. A escolha da lesbianidade E são escolhas difíceis.

Essa visão das mulheres. Trata-se de uma ocupação muito comum. o êxtase. que às vezes eu tenho necessidade de me retrair em minhas amizades masculinas. Tudo é tão intenso para elas. brigas. Ademais. tratam-se de duas mulheres que trabalham. e que esse fato. p. o ódio. Como diz uma moça que tem relações homossexuais e heterossexuais: “Às vezes eu preciso me distanciar um pouco de minha amigas lésbicas. 200. de fato. A maior parte do tempo. simplesmente aprenderam por necessidade a fazer muitas coisas que sempre foram consideradas masculinas. Isso já indica que o velho estereótipo de uma mulher dominante e de uma outra submissa no casal feminino é obsoleto: a lésbica de hoje não se deixará dominar nem por uma mulher e nem por um homem. nem que elas queiram imitar os homens. Quando os heterossexuais afirmam que as lésbicas são “masculinas” muitas vezes é isso que eles querem dizer. podemos ter conversações normais sobre qualquer coisa. Uma imagem mais precisa do casal lésbico contemporâneo começa a se desprender: muito freqüentemente. a cólera — se desenvolvem de um modo que pode parecer desmedido. 75 No Brasil. E já podemos supor que. o desejo. Todas as emoções — o amor. E se houver trabalhos pesados para fazer. se comparado com o casal heterossexual. contudo. The lesbian erotic dance. enquanto técnica de produção. Se não há um homem que as ajude a racionalizar. é apenas uma redução simplista de um fenômeno muito mais complexo. por exemplo. irão se expressar com mais liberdade do que um casal heterossexual. que são auto-suficientes. a idéia de bricolage está associada ao artesanato. que vão desde o bricolage75 até as finanças da casa passando pela mecânica. geralmente desenvolvida nos finais de semana. . o ciúme. muitas vezes. essas duas mulheres. aproximadamente 80%. Em um casal constituído por duas mulheres. exercendo freqüentemente profissões liberais. e para. e que se sentem orgulhosas disso. a sua intensidade afetiva. mulheres competentes e autônomas. como acontece quando não é uma única pessoa que toma todas as decisões sozinha. em todo o caso nos países industrializados. e na França. [Nota dos tradutores] 76 JoAnn Loulan (1990). É mais fácil com eles. elas são completamente dominadas pelas suas emoções. San Francisco. com seus dramas e suas discussões. Mas não é que elas sejam masculinas por natureza. sem entrar em análises profundas da relação. na França ela diz respeito a toda e qualquer pequena reforma ou atividade na residência que vão desde consertar a pia a colocar uma estante na parede. elas o fazem. A intensidade afetiva O traço mais marcante do casal lésbico é.” Esse lado dramático do casal lésbico integra-se perfeitamente em um velho estereótipo sobre as mulheres em geral: quando juntas. revelam fatalmente sua natureza “histérica” e “irracional”. Haverá. Todavia. sobre trivialidades. estudaram mais do que as heterossexuais: uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que dois terços delas tinham feito estudos universitários76. Spinsters Book Company. A isso é preciso acrescentar as dificuldades práticas que duas mulheres que vivem sem a companhia masculina podem encontrar em uma sociedade feita prioritariamente pelos.109 os homens para o mesmo trabalho. até mesmo irracional. os homens. irá produzir faíscas. As lésbicas de hoje superam geralmente essas dificuldades da vida cotidiana desenvolvendo capacidades tradicionalmente “masculinas”. às vezes. a diferença de rendas em relação aos outros casais tornase considerável. Tudo isso só pode ter efeitos positivos sobre seu amor próprio e seu grau de bem-estar geral. tal casal é caracterizado por uma relativa igualdade entre os pares. É importante notar também que a imensa maioria das lésbicas trabalha e é independente do ponto de vista econômico: são. Existem ainda muitas áreas aonde os homens circulam mais facilmente do que as mulheres.

enquanto as mulheres tendem a ter problemas com a individuação77. de “objetividade”). em contrapartida. Isso se vê desde a infância: os especialistas nesta área observaram que as meninas brincam. no casal lésbico. mas elas falam delas muito mais do que os homens quando elas têm a chance para tal.110 O que acontece entre as mulheres. é que eles são expressos. boneca78… As mulheres procuram preservar a relação. 23. As mulheres têm também uma grande capacidade para a empatia. e têm uma grande capacidade para a individuação. a competição e a neutralidade afetiva (que eles chamam. Funcionam bem em grupo. p. até mesmo à fusão com o objeto amado. não é o fato de que os sentimentos sejam desmedidos. Isso explica porque os dois sexos vivem de modo tão divergente todas as suas relações ulteriores. Harvard University Press. mais do que o poder: em uma discussão. Os meninos. Vêem freqüentemente suas relações interpessoais em termos de poder: o mais forte ganha. enquanto a identidade […] feminina é ameaçada pela separação. a faculdade de se colocar no lugar do outro: é a famosa “sensibilidade feminina”. nem na sociedade em seu conjunto. Inúmeros psicólogos e lingüistas estabeleceram que as mulheres e os homens têm modos muito diferentes de formar. que faz com que a mulher se identifique tão facilmente com alguém que sofre. Cambridge. Mass. o mais fraco perde. de jogos onde não há nem vencedor nem perdedor: amarelinha. valorizam a autonomia. à comunicação afetiva e à cooperação. de compreender e de conduzir suas relações interpessoais. Tendem a formar relações verticais mais do que horizontais e a se definir a partir das diferenças em relação aos outros. pp. em um contexto de contraste e de separação. Os homens. E é o que acontece. Eles têm também um sentido muito nítido dos limites e de seu espaço pessoal. os homens tendem a ter dificuldades com as relações. In a different voice. e tendem a formar elos horizontais (baseados na semelhança e igualdade). Nas mulheres. Gilligan explica que a formação da identidade do gênero (que se finaliza aos três anos) é muito diferente nos meninos e nas meninas. reconhecendo-se nela. casinha. em contrapartida.. Nos dois casos. Assim. pular corda. a identidade […] masculina é ameaçada pela intimidade. a relação primária durante este período implica a mãe. Mas as meninas. nas relações interpessoais. Não é o fato de que as mulheres tenham um “excesso” de emoções. Sex differences in the games children play. Retomando outros trabalhos sobre a infância (e em especial as teorias de Margaret Mahler). isto é. sua identidade masculina se desenvolve. Segundo Gilligan: “Como a masculinidade é definida por meio da separação enquanto a feminilidade é definida por meio da união. precisamente. Em seu clássico livro In a different voice. já que é ela que cuida das crianças. . por exemplo. 8 Ver Janet Lever (1976). freqüentemente. as mulheres dão uma grande prioridade à intimidade. é mais importante para elas continuar falando do que ter razão. na maior parte do tempo. enquanto não o são geralmente no casal heterossexual. enquanto os homens preferem guardar um pouco de distância. portanto. estudou como e por que os dois sexos são tão diferentes nessa área. mais do que verticais (baseados na diferença e hierarquia). e eles se tornam moços contra sua mãe. devem se distinguir dela.” Isso significa que. As mulheres se sentem 77 78 Carol Gilligan (1982). desenvolvem sua identidade feminina em um contexto de identificação e afinidades: tornam-se moças com sua mãe. 478-487. a psicóloga americana Carol Gilligan. In Social problems. Gênero e modalidades de relação Mas não é apenas uma questão de liberdade de expressão. e particularmente no casal lésbico. os limites interpessoais são mais vagos (ou simplesmente menos importantes): tendem mais à identificação.

cedem o lugar para a outra. Elas podem adotar atitudes quase maternais uma em relação a outra. quando duas mulheres se apaixonam. na verdade é seu primeiro treino para a maternidade. Quando brinca de boneca. elas falam muito mais do que os homens. Isso faz parte da socialização das mulheres desde a sua infância: enquanto os meninos podem berrar até obterem o que eles querem. enquanto os homens temem mais a fusão e a dependência que sentem como uma perda de identidade. ou então as deixam de lado. que lhes faz falta tão freqüentemente em suas relações com os homens. New York. as mulheres continuam esmiuçando. de sentir seus sofrimentos e suas preocupações. mas falam pouco de suas próprias inquietações. e John Gray (1992) Men are from mars. tanto nos homens quanto nas mulheres. elas aprendem a detectar e a satisfazer as necessidades afetivas dos outros. Deborah Tannen (1990) You just don’t understand. procuram adivinhar e satisfazer suas necessidades afetivas. nos ajuda a entender a intensidade da qual estávamos falando mais acima. Então. para explicar diversos problemas que podem surgir na relação heterossexual. womem are from venus. elas tentam se reaproximar para consertar a relação. escutam com atenção e empatia. Assim. subordinando suas próprias necessidades ou desejos àqueles de sua parceira. ao cuidar de seus irmãozinhos e irmãzinhas. Onde o diálogo seria interrompido em um casal heterossexual. . em nossa sociedade. a cuidar dos outros. sob diferentes formas79. Um outro traço característico das mulheres. quando elas se casam e têm filhos. Mas o que as lésbicas fazem de toda essa aprendizagem? Em uma palavra. Em particular. ainda mais se formar um casal. porque o homem se cansaria disso. Essa não é necessariamente inata: ensina-se às meninas desde a sua mais tenra idade. às vezes.111 ameaçadas pela separação. quando estão entre elas. se acreditarmos nas pesquisas. Ballantine Books. New York. freqüentemente não as vê nelas próprias. e. elas fazem com sua parceira exatamente o que teriam feito com sua família: cuidam dela. por exemplo. as mulheres não estão muito acostumadas a expressar claramente suas próprias necessidades ou desejos. Harper Collins. Onde um homem tomaria distância para acalmar os espíritos. de tudo o que elas sentem: delas mesmas. embora sejam. Mais tarde. 79 Ver. Mas pode igualmente nos servir para entender certas dinâmicas da relação homossexual. As mulheres têm necessidade dessa comunicação afetiva constante. Essa tendência tem um preço terrivelmente elevado para a relação. é sua disposição particular para a empatia. Sempre dispostas a reconhecê-las na pessoa amada. Eis a razão pela qual se observa. como o veremos um pouco mais adiante. em caso de briga. um tipo de superproteção recíproca nos casais lésbicos em que as duas mulheres se tratam com afabilidade como se fossem crianças delicadas. na verdade. que elas vivem como um abandono. elas fazem exatamente isso: em muitos casos. da natureza de sua relação. já têm o costume de pensar nos outros. adultas perfeitamente competentes. de se identificar com eles. se preocupam com ela. e. as meninas devem esperar com bons modos a vez delas. São aptidões que as ajudarão a cumprir as tarefas difíceis do casamento e da maternidade. de casinha. A empatia e a superproteção Mas essa comunicação constante não serve apenas para manter uma proximidade afetiva. e de todos os problemas que podem aí aparecer. farão de tudo para restabelecer a comunicação e a conexão afetiva. Essa teoria foi retomada por inúmeros autores. Além do mais.

De repente. a dar mais do que receber.” É uma experiência tão inédita e tão maravilhosa que uma mulher pode. Elas se sentem compreendidas e adoradas como nunca foram. como. sair com amigos. excluída ou totalmente abandonada. as uniões súbitas. os projetos de vida instantâneos que vemos às vezes surgir entre duas mulheres que mal se conhecem. Esse entendimento profundo. sobretudo aquelas que estão acostumadas.” Isso não surpreende: essa comunicação é. As duas mulheres se sentem obrigadas à se contar tudo. Elas vão juntas à toda parte e passam todo o seu tempo livre juntas. de fato. recebem de uma outra pessoa o que sempre foi exigido delas pela sua família. convencidas que não deve existir segredos entre duas pessoas que se amam. Mas ela apresenta também riscos em longo prazo na relação que dura por mais de dois ou três anos. apenas quinze dias depois após o início da relação. por exemplo. estar disposta a sacrificar tudo para prolongá-la. Por isso. a amá-las. sem nunca suspeitar disso. mais do que o fazem os casais heterossexuais ou homossexuais masculinos. ela chega com uma mala. sobretudo. A segunda vez ela desembarca com um caminhão de mudança. Se uma delas faz alguma coisa sem a outra. Não poderia haver melhor receita para a desilusão: quando a outra mulher não está disponível. essa pode muito naturalmente se sentir incompreendida. essa identificação sem limites acaba por desenvolver no interior do casal lésbico uma forte tendência à fusão. para muitas mulheres. A tendência à fusão Mas. Podem levar a decisões impulsivas. Os perigos dessa identificação imediata são evidentes. A palavra chave. seu modo de falar e de se vestir. sua linguagem corporal. no início. dividir tudo. é tão fácil e tão reconfortante que se finda por se acostumar a ele — e a esperar por ele. naturalmente. Sua companheira sempre está disposta a escutá-las. a comunicação parece total. Toda essa empatia e essa atenção constituem uma experiência amorosa extraordinária para as mulheres. Aos poucos elas abandonam os amigos. os interesses e os passatempos que tinham antes de se conhecer. essa identificação completa explicam por que tantas mulheres que se apaixonam por uma outra mulher estão dispostas a cometer loucuras. Muito mais do que em outros casais. adaptando-se uma à outra em uma intimidade e um isolamento recentes. a cuidar delas. O diálogo e o entendimento tão intensos provocam uma relação simbiôntica que coloca em perigo a autonomia e até mesmo a identidade de cada indivíduo. podem ser muito destrutivas.” Esse entendimento profundo. dividem freqüentemente roupas ou acessórios. as duas pessoas caem em um mimetismo inconsciente que engloba sua aparência física. que recentemente teve sua primeira relação homossexual: “Eu não sabia que se pudesse ser tão próxima de uma outra pessoa. As conseqüências dessa simbiose galopante são múltiplas e. Eu me dei conta que eu sempre quis exatamente isso. que guardam geralmente amigos e atividades fora de sua relação. quase telepático. aquilo com a qual elas estavam sonhando desde sempre. Nunca havia falado tanto em toda a minha vida: no final de uma semana eu me sentia com ela como se eu a conhecesse desde sempre. desentendimentos surpreendentes e decepções terríveis. Como exprime uma mulher de quarenta e quatro anos. pelos homens e pela sociedade em geral. desde sempre. Uma piada muito apreciada no meio lésbico americano expressa o fato da seguinte forma: “A primeira vez que uma mulher vem na sua casa. .112 A identificação perfeita Mas. além do mais. que eu encontro sistematicamente nas mulheres que descrevem sua primeira relação homossexual é “a escuta”: “Eu nunca tinha me sentido escutada dessa forma. em casos extremos. ou não lê o pensamento de sua companheira.

Mas como ela é difícil de se . sobretudo antigamente. em um ciclo extremamente rígido e doloroso. pode causar a ruptura. Com efeito. então. só pensa nela mesma. que faz com que as duas mulheres (e muitas vezes uma mais do que a outra) se sintam observadas. ciúme. senão da mesma idade. Às vezes uma adota atitudes maternais e a outra desenvolve o papel da criança (travessa. punitivas ou indiferentes). “Se pelo menos cuidasse um pouco da limpeza da casa”. ou se lembram que é preciso por um casaco antes de sair. a mulher-criança forçara a situação.113 ela se sente culpada e preocupada com aquela que ficou sozinha em casa. quando às vezes havia uma diferença de idade importante no casal. até suscitar a reação desejada — ou acabará abandonando a luta. aprisionadas. a mulher-mãe pode insistir para “reformar” sua parceira. Instaura-se então um tipo de vigilância permanente e recíproca. terá condutas cada vez mais infantis. estremecidas. há chances para que ela o conserve. que são maduras em todas as outras áreas da vida se comportam como crianças quando estão juntas. ou tem problemas com sua verdadeira mãe que nunca foram resolvidos. Tudo isso leva. parecem incapazes de decidir o que for sem consultar sua parceira. Isso se via. interações muito nocivas e até mesmo perigosas podem aparecer — exatamente como isso pode acontecer em um casal heterossexual. Adotam voz infantil para se falar. raiva e ódio etc. O ciúme que observamos tão freqüentemente no casal lésbico. “Se pelo menos parasse de beber”. não me ama mais. que então se rebela. na verdade. Se a outra mulher gosta de seu papel maternal. pelo menos da mesma geração. claro. qualquer tentativa de ter amigos ou atividades próprias é vivida pela outra como uma traição e um abandono. não há necessidade de uma diferença de idade para reproduzir a relação mãe-filha. a uma dependência cada vez maior: não esqueçamos que simbiose reproduz a ligação com a mãe. De fato. Se essa dinâmica. muitas vezes a escutamos dizer coisas do gênero: “Se pelo menos ela começasse a trabalhar”. inocente…) que deve ser sempre chamada à atenção. não é raro ver que as duas mulheres (ou uma dentre elas).” Por seu lado. o sentimento de posse e a necessidade de controlar os movimentos da outra não correspondem (como se podia pensar) a uma imitação de mau gosto da dominação masculina. freqüentemente com muito medo. mãefilha não for detectada e corrigida. Mas se uma delas não está de acordo. Isso pode provocar uma luta de vontades contínua na qual a mãe tenta controlar a filha. com toda a frustração e a raiva que isso pode implicar. No casal lésbico. Essa pode tomar a forma de condutas ou atitudes maternais de um lado e infantis do outro. Historicamente. se um dos dois tem ainda contas para acertar com os seus pais. nunca é disponível para mim. mas antes essa simbiose invasora que impede a autonomia. Contudo. essa diferença tem tendência a desaparecer: atualmente as mulheres que formam casais são. sente em relação à sua mãe: amor. violentadas em sua intimidade. mesmo que ela mude de parceira. o risco é que a mulher em questão projete na sua companheira todas as emoções que. não terá problemas: as duas estarão de acordo em relação as regras do jogo. tentando fazer com que ela mude seus costumes ou se cuide por ela mesma. e portanto tem um caráter profundamente regressivo. os papéis sendo distribuídos de modo definitivo: se uma mulher adota o papel da criança. dependência. Mas como no caso. Assim é que ouviremos comentários do tipo: “Nunca presta atenção em mim. em geral. com algumas exceções. a outra mulher não é a sua mãe e não tem as reações esperadas (sejam elas amorosas. impulsiva. Mãe e filha É evidente que a ligação amorosa entre duas mulheres contém elementos da relação primária entre mãe e filha.

retomar as atividades que se deixou de lado por causa da relação amorosa. No casal lésbico. Depois. separações e reconciliações abruptas e. sem. é necessária à sobrevivência da relação. querer lhe fazer a pergunta por medo de magoá-la. as diferenças entre os sexos permitem um pouco de distância quando esta for necessária. menos ainda. suspeitas. Mesmo nos casais que estão há muito tempo juntos. Nas relações heterossexuais. contudo. e quando não se tem o costume de expressar as suas necessidades afetivas. de tomar um pouco de ar fresco. por causa da tendência à fusão que faz com que elas não se deixem em paz. Mas isso é muito difícil depois de tal proximidade — sobretudo se não se quer magoar a outra. discutir sobre isso. passávamos dias inteiros na cama. ou de ser magoada… É nesse momento então que se torna absolutamente necessário para as duas mulheres tomarem um pouco de distância e reencontrarem sua vida individual — em uma palavra. relações fora do casal. claro. que pode durar desde alguns meses até dois ou três anos. muitas vezes.114 perceber quando estamos envolvidos. No início. raiva. quando as duas pessoas sentem a necessidade ou a vontade. chega ao seu fim. em todos os casais. Esse tipo de problema não se limita ao início da relação. como um abandono. e a mulher se adapta a isso porque é “normal” que o homem se volte novamente para o mundo. No casal heterossexual. e agora parece que ela se entedia comigo… parece que ela gostaria mais de estar em outro lugar. Assim. e com os mesmos perigos. Se isso não acontecer. claro. porque é proibido se separar e porque a autonomia é vista como traição. e decidem aos poucos voltar para uma vida mais “normal”: rever os amigos.” Podem então surgir dúvidas. se as duas mulheres não encontram um equilíbrio entre a autonomia e a intimidade. em muitos casos. É o que acontece quando “a lua-de-mel” inicial. freqüentemente é o homem que sente essa necessidade de reatar com a vida profissional e social que tinha antes. Mas é particularmente perniciosa quando se trata de duas mulheres. que muitas vezes permanecerão sem serem expressas. sobretudo durante certas fases dessa. é possível que as duas mulheres simplesmente cheguem à conclusão de que são incompatíveis e decidam se separar. Em toda a relação de casal. Mesmo que as duas sintam essa necessidade ao mesmo tempo. sérios problemas podem aparecer. elas se reaproximam novamente em um movimento cíclico que poderíamos chamar de “respiração natural do casal”. acontece um momento em que as duas pessoas (ou uma dentre elas) se cansam da intensidade afetiva e sexual da primeira fase. ressentimentos. existe uma alternância de aproximação e distanciamento: os momentos de grande intimidade estão seguidos por uma retirada temporária na qual cada um reencontra seu espaço. o casal começa a se sufocar: as duas mulheres se sentem invadidas e começam a se irritar por qualquer motivo — mas não entendem o que lhes acontece e podem. Cada mulher se perguntará se a outra sente a mesma coisa. quando uma das duas mulheres começa a emergir da “lua-demel” a outra vive isso. Muitas vezes o casal se separa nessa fase que segue a lua-de-mel e durante a qual as duas pessoas deveriam recuperar uma certa autonomia e retomar uma vida normal. freqüentemente elas têm muito medo disso: “Talvez a gente não se ame mais. Na verdade. . Nessa luta frustrada para escapar da sufocação veremos. Essa alternância acontece continuamente. observaremos um ciclo exacerbado de afastamento e de reaproximação: períodos de grande proximidade seguidos por fases de distanciamento. Autonomia e intimidade Essa dinâmica pode também estar presente em um casal heterossexual.

26% não têm orgasmos e 23% não têm nenhum prazer na relação sexual. p. Lesbian Psychologies: Explorations and challenges.cit. Gina Kolata (1994) Sex in América. éditions la Découverte. Illinois. 87 Journal of the American Medical Association. University of Illinois Press. Se em um futuro próximo a pesquisa confirmar essas diferenças entre a sexualidade masculina e feminina. p. John H. que eles se masturbam muito mais85. uma recente pesquisa nos Estados Unidos revela que um terço das mulheres não têm vontade de terem relações sexuais. cessam as relações sexuais depois de alguns anos. Será que essa sexualidade espaçada corresponde ao desejo real das mulheres quando não há homens para influenciá-las. Esse tem a taxa de separação mais elevada e a duração mais curta (cinco ano em média80) de todos os tipos de casais. 10 February 1999. Spinsters/Aunt Lutte. ou então será que há algo particular no casal lésbico? Uma sexualidade feminina menos “sexual”? Existem cada vez mais indicações sobre o fato de que as mulheres geralmente são menos interessadas em sexo do que os homens. 54% dos homens americanos respondem: “Todos os dias. somente 19% das mulheres trazem a mesma resposta. 84 À pergunta “Com que freqüência você pensa em sexo?”. Mas interrogados sobre sua experiência subjetiva. San Francisco. Homens e mulheres apresentam o mesmo grau de excitação fisiológica.. e numerosos autores assinalaram que a causa mais freqüente disso é o declínio da relação sexual. 80 81 Ver Partners task force for lesbian and gay couples. New York. JoAnn Loulan. 157 82 Maryse Jaspard (1997) La sexualité en France. praticamente. cit. entre o segundo e o terceiro ano esse número cai para cinco vezes por mês. As pesquisas revelam que a freqüência das relações sexuais femininas é muito inferior àquela das relações heterossexuais ou homossexuais masculinas. Isso quer dizer que muitos casais lésbicos.115 até mesmo de separação. O declínio da relação sexual Essas dificuldades no domínio da autonomia explicam em grande parte os dois problemas mais importantes no casal lésbico.105. assinala uma redução de 75% na atividade sexual depois de três anos de relação 81. 86 Em uma experiência muito interessante conduzida por Julia Heiman. Ver Mayse Jaspard. uma psicóloga americana que estudou muito o casal lésbico. e que eles são mais conscientes de seu nível de excitação fisiológica86. In Boston Lesbian Psychologies Collective. 156. 99-101. p. 85 A pesquisa ACSF (Analyse des comportements sexuels en France) relata que duas vezes mais homens do que mulheres se masturbam. Os números são muito diferentes para os homens. e é muito interessante se perguntar por quê. dentre os quais somente 14% não têm vontade de ter relações sexuais. Michael. Paris. É três vezes mais do que o número equivalente entre os casais heterossexuais82. JoAnn Loulan. Warner Books. p. Além do mais. Se as mulheres em uma relação homossexual têm relações sexuais mais de dez vezes por mês em média durante o primeiro ano. Edward Laumann. . op. a partir do quarto ano têm relações sexuais duas ou três vezes por mês — e em uma proporção importante dos casos. 1995. todos os homens que se excitaram estão consciente disso e o dizem. op. poderemos entender melhor o que acontece na relação lésbica — que nos dá uma preciosa idéia daquilo que desejam e fazem as mulheres independentemente dos homens. e depois por novas reconciliações… esse movimento de pêndulo pode provocar um certo gasto na relação. ou várias vezes por dia”. A relação lésbica é a menos sexual de todas. 537-544. enquanto apenas a metade das mulheres tomaram consciência de seu próprio estado fisiológico. p. 281. Margaret Nichols (1987) Lesbian sexuality: Issues and developing theory. In Partners National Survey of Gay and Lesbian Couples. Ganon. os números continuam a abaixar depois83. Sabe-se que os homens têm mais pensamentos e fantasias sexuais84.. 93. e dentre os quais 8% não encontram nenhum prazer nelas87. 83 Ver JoAnn Loulan (1987) Lesbian passion: loving ourselves and each other. apresenta-se a homens e mulheres vídeos de sexo explícito e se mede seu grau de excitação sexual a partir de suas reações fisiológicas. Robert T.

em suas relações homossexuais posteriores. Depois. Em todo o caso. Essa distinção entre a ligação sexual e afetiva é bem menos influente para as mulheres. muito mais do que para os homens. isso elimina de uma só vez uns dez dias por mês. quando o casal é constituído por duas mulheres. mas o que acontece se não houver homem. aprendem a esperar que o homem dê o primeiro passo: mesmo atualmente. p. ou para negar sua homossexualidade. provavelmente por causa de uma concepção da sexualidade que lhes é inculcada desde a infância: as meninas aprendem que só se pode fazer amor com alguém quando se é apaixonado por esta pessoa. citada em Maryse Jaspard. Cada uma espera para ver se a outra está com vontade ou não. dificuldades para gozarem dela plenamente.116 A dinâmica sexual do casal Mais é preciso igualmente levar em consideração uma série de características da relação lésbica enquanto tal para explicar o declínio da união sexual. ou para tomarem iniciativa em questões sexuais. muitas mulheres tendem a se apaixonarem assim que vivem uma relação sexual satisfatória: a 88 89 Ver Margaret Nichols. mesmo que não sejam “nem um pouco apaixonados” por ela. muitas dessas mulheres se acostumaram a terem relações sexuais sem prazer. e isso se constata em muitos casais lésbicos. Se atualmente elas estão em relações homossexuais. Esse sistema funciona mais ou menos bem quando há um homem para fazer isso em seu lugar. Essa identificação do amor com a sexualidade tem conseqüências importantes para todas as mulheres. Pesquisa ACSF. Em primeiro lugar. Não se deve esquecer também o papel da homofobia interiorizada. além disso. não é muito bem visto que uma mulher “persiga” um homem. as mulheres não são acostumadas a tomarem a iniciativa. naturalmente. Lembremos-nos que a sexualidade feminina passa por toda uma socialização que começa muito antes da puberdade. mas sobretudo para as lésbicas. Ensina-se às meninas a calarem os seus desejos e a subordiná-los aos dos meninos. ou então a intimidade assume a forma da conversação contínua da qual já falamos. Um outro fator muito importante na sexualidade das lésbicas. Esses podem iniciar mais facilmente uma relação sexual e se satisfazer com ela sem estarem apaixonados. existem fatores puramente fisiológicos: muitas mulheres não têm vontade de terem relações sexuais durante ou nos dias que precedem suas menstruações. E. sem querer insistir demais. Algumas das idéias que seguem são tiradas dessa excelente análise da sexualidade lésbica. um terço delas foram casadas88. é preciso ter assumido sua homossexualidade e aceito a sua parte de responsabilidade na relação antes de poder se doar realmente e expressar o seu desejo sem inibição. Desde sua infância aprendem a não aborrecerem os outros (e sobretudo os homens) com suas próprias necessidades. é que 90% delas tiveram antes relações com homens. . ou que tome a iniciativa caso queira dormir com ele. 94. Em primeiro lugar. Amor e sexualidade O amor e a sexualidade estão muito intimamente ligados para as mulheres. é sem dúvida porque essas relações não foram inteiramente satisfatórias: muitas dessas mulheres talvez tivessem relações sexuais com homens por obrigação. Até um certo ponto. no campo do amor e da sexualidade. assim. ou a reprimirem seu verdadeiro desejo: distanciadas de sua sexualidade terão. É muito mais fácil manter uma relação sexual “proibida” se for o outro que toma a iniciativa. uma pesquisa recente na França revela que os homens têm relações sexuais com a sua parceira mais de uma vez por semana89. por interesse. como na relação lésbica? Normalmente as mulheres não desenvolvem um papel ativo na sedução.

além disso. seria necessário explicar porque existem tantos casais lésbicos que vão bem. Ora. O que acontece na simbiose vai além da semelhança: o problema é o desaparecimento dos limites interpessoais. O êxtase inicial no qual as duas se fundem em uma única pessoa é apagado pelo temor de se perder completamente. Isso não ajuda a resolver os problemas nem a manter a relação sexual. Há. muito rapidamente. Eis a razão pela qual os terapeutas de casal vêem freqüentemente relações heterossexuais em que tudo está indo mal. e não somente relações passageiras que poderiam eventualmente revitalizá-lo. sedutora. iniciará para isso uma relação com uma terceira pessoa. Se o fator principal fosse o tabu do incesto. duas mulheres que tiveram uma discussão param de ter relações sexuais — às vezes durante semanas. que também têm relações sexuais com pessoas semelhantes e que apresentam as taxas sexuais mais elevadas de todas as populações. O que descrevem as mulheres envolvidas nessa situação é uma sensação de sufocamento. E. o motivo mais freqüente de ruptura dos casais lésbicos é justamente a ligação de uma das duas parceiras com uma outra mulher. acredito que essa interpretação. em parte. desconhecido. com quem reencontrará o entendimento maravilhoso do início. a pessoa concluirá disso que ela não ama mais a sua parceira e romperá a relação. durante muitos anos. Mas isso não quer dizer que elas sejam realmente feitas para se entender. Os indivíduos se sentem em perigo diante da perda de sua identidade enquanto tais. Em geral. sem dúvida. pesaria muito mais desde o início da relação — o que não é o caso. a infidelidade e a inconstância não . De fato. Vários elementos estão em jogo. deve ser relativizada. Mas. a identificação se transforma em uma dependência total. Fusão e sexualidade Mas a razão principal do declínio da relação sexual no casal lésbico parece ser a tendência à fusão. uma mulher que está aborrecida não tem vontade de ter relação sexual. até mesmo de pânico: a intimidade com a outra se torna literalmente insuportável. Assim. com relações sexuais freqüentes e satisfatórias. mas grandes paixões: serão ligações sérias que colocarão o casal em perigo. Naturalmente. cara aos psicanalistas. Acho que a tendência à fusão ultrapassa esses fatores. há um tipo de reação em cadeia que faz com que elas levem a relação muito a sério. e muitos casais fracassarão simplesmente porque se uniram demasiadamente rápido.117 intimidade física parece desencadear nelas fantasias de amor de um modo quase instantâneo. exceto a relação sexual que se mantém praticamente intacta. o tabu do incesto: não se tem relação sexual com a mãe. Em casos extremos essa necessidade imperiosa de recuperar a autonomia se traduzirá por cólera. ódio ou repulsão. Enfim. embora contribuam com ela também em uma certa medida. Em um casal lésbico. A mulher que sente tudo isso só tem um desejo: separar-se da outra. Quando duas mulheres se encontram e têm relações sexuais. novo. enquanto os homens parecem achar mais fácil manter as coisas separadas. Um outro elemento que pode parecer lógico. é o fato de que é preciso um certo contraste entre duas pessoas para que elas possam ter relações sexuais: aquele que se parece conosco é menos excitante do que aquilo que nos parece diferente. é que a relação sexual é muito vulnerável aos problemas que podem aparecer em outros campos. os problemas de ordem afetiva invadem muito mais a relação sexual. essa confusão entre amor e sexualidade faz com que as mulheres não tenham pequenas aventuras fora do casal como os homens. não é necessariamente verdadeira: não parece se aplicar aos homens gueis. No caso mais freqüente. Uma segunda conseqüência dessa identificação entre amor e sexualidade. claro. Essa idéia.

no 1. a sexualidade da mulher torna-se o último refúgio de sua individualidade.118 são habituais entre as mulheres. Em muitos casos. o território reservado onde ninguém pode entrar. No final de alguns anos. tudo se torna comum. um esforço desesperado para romper a simbiose. antes. Dividem roupas. Como acontece. às vezes nas relações heterossexuais. Lindenbaum. desencadeando assim um ciclo de decepção ou de confrontação. Vivem uma relação de casal estável e sólida. Geralmente é dessa maneira que se acabam as relações lésbicas: uma das duas mulheres se apaixona por outra pessoa. fazem-se massagens. É preciso antes ver aí um esforço desesperado para escapar da fusão. devemos logo explorar a dinâmica da fusão na relação: muitas vezes. por exemplo. seus lazeres. constitui. Eis porque. um modo inconsciente de se distanciar. Com o tempo. a ligação fora do casal. As ligações desse tipo são. A ligação fora do casal é. dormem juntas… a relação sexual genital não lhes fazem muita falta. Mas a tendência à fusão afeta igualmente os casais que duram além dessa fase inicial. e isso pode provocar rupturas abruptas ou até mesmo violentas. graças a uma comunicação constante e a um engajamento afetivo profundo. . Então. maquiagem. evidentemente. voltam à superfície todos os ressentimentos e todas as diferenças que foram por tanto tempo submersos no conforto da simbiose. de fato. O que aconteceu? Vários autores falam de um “sacrifício da sexualidade” no casal lésbico90. em muitos casos. Essa situação extrema desemboca geralmente na ruptura e nos ajuda a compreender porque certos casais lésbicos se separam depois de apenas alguns meses: a lua de mel se transforma em um drama de ressentimento e de ciúmes. A enorme 90 Ver. portanto. como irmãs. 11. as duas mulheres guardam a distância necessária para continuar juntas renunciando à união sexual. torna-se evidente que algo estava faltando na relação — e as duas mulheres descobrem. Aprendem a resolver com muita eficácia os problemas da vida cotidiana. As ligações fora do casal O grande perigo suscitado por esse declínio é. “The shattering of an illusion: The problem of competition in lesbian relationships”. quando isso acontece. em suas relações íntimas. facilitadas pela confusão dos sentimentos e a falta de limites das quais tratamos no capítulo anterior: no mundo homossexual. A relação sexual seria sacrificada em favor dos outros aspectos da relação: fusionadas em todos os outros aspectos da vida. exceto na da sexualidade. seus amigos. já que as mulheres procuram a semelhança. In Feminist Studies. A simbiose flui em todas as áreas. Então. Joyce P. não se queixam disso. a nova ligação não representa um novo amor e não reflete uma infidelidade profunda da pessoa implicada. Spring 1985. se amam mais do que nunca e usufruem uma harmonia incomum — mas a relação sexual desapareceu. A sua relação sofre daquilo que as lésbicas americanas chamam (de modo jocoso) “a morte da cama” (bed death). É nesse nível que as duas mulheres mantém a separação indispensável a qualquer relação amorosa. seus gostos. sempre as vemos juntas. dão-se as mãos. leituras… seus amigos os confundem ao telefone. ou a vontade… esse tipo de relação pode durar anos ou decênios a fio — ou até que uma das duas mulheres se apaixone por uma outra. e elas justificam essa ausência de paixão dizendo que elas não têm o tempo. com uma intimidade física cheia de ternura: beijam-se. não é nem um pouco raro que amigos se tornem amantes. opiniões. As diferenças entre elas apagam-se aos poucos e elas se dão cada vez melhor. as duas mulheres se parecem cada vez mais. tarde demais que era a relação sexual. muito mais que as diferenças. aliás. Vivem.

Pensam mais no sexo. cit. revistas) em sua vida sexual91. por sua vez.. cit. 266. A relação sexual entre mulheres não é. JoAnn Loulan. que quase todas as lésbicas praticam muito freqüentemente. Os homossexuais têm um repertório sexual mais vasto. Esse velho estereótipo. mais ou menos cinqüenta por cento das lésbicas dizem que elas “sempre” têm orgasmos (enquanto somente trinta por cento das heterossexuais dizem isso92). e Robert Michael et al. Essa relativa falta de variedade explica também. e utilizam mais freqüentemente materiais eróticos ou pornográficos (objetos. livros. se masturbam mais.. cit. 93 JoAnn Loulan. Vemos assim 91 92 Ver Marise Jaspar. p.. op. e os formados por dois homens em especial. e uma mulher “feminina” que desenvolve o papel “passivo”. Isso pode corresponder ao grau de homofobia interiorizada: aquela que assume melhor sua homossexualidade será freqüentemente aquela que toma mais a iniciativa. Em uma pesquisa de Loulan entre quase seiscentas mulheres. o declínio da relação sexual no casal lésbico. em parte. mais do que as femininas. op. As práticas sexuais mais comuns são. Mais o que elas fazem na cama? Em primeiro lugar. p. cit. existe antes alternância de atividades sem atribuição de papéis: uma mulher estimula a outra a ter o orgasmo e depois é acariciada por ela. na maioria das vezes. vídeos. têm preferências e atividades muito mais limitadas. como em todos os casais.119 importância da amizade favorece também a inclusão de outras pessoas na relação lésbica. Muitas pessoas pensam que existem na relação sexual lésbica uma mulher “masculina” que toma a iniciativa e o papel “ativo”. que não haja uma certa divisão do trabalho: em muitos casais lésbicos (como em todos os casais). Em geral. uma mulher tenderá mais do que a outra a começar a relação sexual. A rotina sexual E também há o hábito. fazem mais coisas para renovar sua relação erótica. e aquilo que mostram os filmes pornográficos. a penetração vaginal com a mão. tendem mais a experimentar diferentes posições ou atividades. está muito longe da verdade. Na relação sexual lésbica. Quando elas praticam a penetração é geralmente com a mão e não com objetos: segundo uma pesquisa americana. e não praticavam a penetração. 124. cit. Gostam da penetração vaginal e anal. 262. p. perto de 90% das lésbicas praticam a penetração vaginal. alguns casais desenvolvem modalidades para chegaram juntas ao orgasmo. desejos e práticas sexuais mais variadas do que as mulheres. portanto. suas condutas sexuais eram praticamente as mesmas: as lésbicas masculinas não tomavam a iniciativa. um sucedâneo do coito heterossexual com penetração com “consolos”. mais do que as mulheres. contudo. As mulheres. mas também do sexo oral e dos jogos sexuais. Essa ausência de papéis masculino e feminino na cama. mais do que no casal heterossexual que é mais protegido pela vida familiar. op. mas somente um terço dentre elas utilizam consolos. op.. elas não fazem o que muita gente acha. perto de 50% se identificaram como “andróginas”. já que incluem nele atividades de grupo e práticas particulares das quais falaremos no próximo capítulo. . os homens têm fantasias. não significa. a estimulação buco-genital (cunnilingus). Mas os outros casais. Contudo. No que concerne o prazer sexual. bem como a estimulação clitoridiana com os dedos e fricção das regiões genitais (tribadismo). copiado de certos clichês sobre a homossexualidade masculina ou sobre a heterossexualidade. Robert Michael. e são mais inibidas para propor ou experimentar coisas novas. op. perto de 20% como mais “femininas” e 15% como mais “masculinas93”.

também. onde seria muito difícil distinguir lésbicas masculinas das femininas. as lésbicas adotam condutas cada vez mais masculinas como a paquera. no casal lésbico. O fato de se apropriar certos atributos masculinos não quer dizer que se gostaria de ser um homem — exatamente como a grande maioria dos homossexuais masculinos que assumem aparências femininas não têm nem um pouco vontade de serem mulheres. Antes. no qual os homens trabalhavam. Durante muito tempo. Além disso. na maioria das vezes. apareceram no repertório sexual lésbico novas práticas que antes eram reservadas. que compreendia uma divisão do trabalho em atividades masculinas e femininas. vem se desintegrando há mais ou menos vinte anos. é preciso sempre procurar mais longe do que uma hipotética divisão em papéis masculino e feminino. dúvida que a sexualidade das lésbicas está em plena transformação. mulheres que teriam preferido serem homens. Não são unicamente os papéis que mudaram: é também a sua interpretação. na maioria dos casos. É interessante notar que as condutas sexuais dos homossexuais também estão mudando — exatamente como a dos heterossexuais. confundiu-se homossexualidade e transexualismo. formou-se uma espécie de território neutro. todas essas categorias estão mudando. o que teria sido impensável há apenas alguns anos. era um erro compreensível. Atualmente. está transformando a sexualidade no mundo inteiro. que as sapatões não querem ser homens e não se vêem como tais: identificamse plenamente como mulheres. as relações de uma noite… Qualquer que seja nosso julgamento moral ou político concernente a essa evolução dos costumes. Atualmente. e podia-se muito bem distinguir quem era quem no casal. A pesquisa atual mostra. as categorias tradicionais se apagam. as mulheres têm mais parceiros e atitudes que se aproximam aos poucos das dos homens. mudanças na vida cotidiana — como também no casal heterossexual. por muito tempo predominou no mundo ocidental. para compreender a relação sexual lésbica. ou por duas mulheres. Os papéis na vida cotidiana Constata-se também. era evidente para todo mundo que as lésbicas masculinas eram homens que não deram certo. Os papéis sociais. eficiência ou simplesmente . ao vender vídeos e acessórios cada vez mais variados. e no qual as mulheres assumiam o lar e as relações familiares. as lésbicas masculinas saiam com lésbicas femininas. Assim. cuidavam do dinheiro e das tarefas pesadas ou mecânicas. sem a menor. os dois membros do casal trabalham e dividem as tarefas segundo os critérios de tempo. Atualmente. ela demonstra. visto os papéis adotados pelos homossexuais. exatamente como no mundo heterossexual. estão mudando: em certos meios. Os termos “butch” (sapatão) e “femme” (mulher) usados nos Estados Unidos para significar lésbicas “masculina” e “feminina” não têm mais a significação que tinham há apenas dez anos. A isso é preciso acrescentar o papel crescente de uma indústria do sexo e da pornografia que. no qual uma pessoa tem vontade de mudar seu sexo anatômico.120 que. mais ou menos andrógino. vemos cada vez mais casais formados por duas sapatões. aos homossexuais masculinos e aos heterossexuais — por exemplo. Lésbicas masculinas e femininas Aliás. Uma das transformações mais notáveis dos últimos vinte anos é que os costumes sexuais das mulheres se parecem cada vez mais com os dos homens: graças aos contraceptivos e à revolução sexual. Na fórmula clássica que. O antigo modelo heterossexual. o sadomasoquismo e a penetração anal. contudo. assim como as explicações a elas ligadas.

mas sempre conciliadoras. Sobretudo. ao invés de discordar. que a divisão do trabalho seja inteiramente livre: os papéis que adotamos em nossas relações de casal são. homossexuais ou heterossexuais. deixa-se adivinhar. Se à dificuldade de ficar brava e de colocar limites acrescentam-se a tendência à fusão. egoístas. . Permite às duas pessoas escolherem suas funções no casal por gosto ou por facilidade.121 por preferência. mas são bem piores quando se trata de duas mulheres. consertar. pacientes e tolerantes. É preciso discordar Todos os problemas que podem surgir na relação serão agravados por um traço que encontramos em muitas mulheres. não é absolutamente necessária na relação homossexual. A comunicação é suplantada aos poucos pela projeção. é tão forte que elas preferem se calar a expressar seu desacordo para não perturbar a paz conjugal. muitas mulheres têm uma imagem idealizada da relação de casal — sobretudo se a outra pessoa for também uma mulher. quando as mulheres ficam bravas. os hábitos da casa — e modificá-los caso seja necessário. No código tradicional da feminilidade. de tempos em tempos. imagina-se sem dificuldade os problemas que podem surgir nas relações lésbicas. vantagens e inconvenientes. que não tem nada a ver com a sua verdadeira causa. aparecendo dias ou semanas mais tarde. é a renegociação e a alternância. O fato de que não existem papéis pré-determinados apresenta. freqüentemente de uma maneira inapropriada. 94 Ver Harriet G. Sua função não é enfrentar. desde a sua infância. (Isso não significa. Como em todas as relações. sobretudo quando essa concerne a uma pessoa amada ou apresenta o risco de perturbar uma relação próxima. flexíveis. A chave para não cair em uma divisão de trabalho rigorosa e sufocante. a reprimir a cólera.) Mas essa flexibilidade apresenta também um enorme potencial de conflito já que nada está dado de antemão. Seu desejo de harmonia é tão profundo que não é necessário se ater aos detalhes desagradáveis. e não mais por obrigação. ao mesmo tempo. aqueles que aprendemos em nossas famílias de origem. Harper Collins. É útil. muitas vezes. rever as funções. fruto de um ressentimento longamente guardado no silêncio. elas se sentem freqüentemente culpadas. as mulheres não devem ser “agressivas”. New York. mantém-se uma paz confortável e reconfortante. Além disso. sem conflitos. Então. Um outro perigo. mas artificial. contrariamente aos homens. é que as pessoas se acostumam com certas funções sem realmente falar delas e se encontram presas em um sistema cada vez mais rígido. os papéis. mas antes. ou então a respeito de outra coisa. encontrar um terreno de entendimento. ou ainda de uma maneira desproporcional. Lerner (1989) The dance of anger. ao invés de escutar. De fato. Então. mas essa não está mais fundada em papéis masculino e feminino. elas devem salvaguardar as relações humanas. inúmeros autores94 assinalaram que as mulheres aprendem. imaginase. é sempre uma das duas mulheres que cozinha. É a dificuldade em expressar e gerir a cólera. a necessidade de agradar e a busca da intimidade — que são próprias das mulheres em suas relações amorosas —. elas mantêm uma certa divisão das tarefas. a comunicação começa a se destruir ela mesma: as duas mulheres se dão tão bem que param de expressar tudo aquilo que poderia afetar a sua relação. Quando isso acontece. Ou então. a empatia. Sua concepção do entendimento perfeito. paradoxalmente. se mostram bravas. Tudo isso pode provocar conflitos sérios no casal heterossexual. ou que conserta o carro. apaziguar. Ao invés de falar. cruéis. por muito tempo típica do casamento heterossexual. tentam esconder ou minimizar isso. ou ela está deslocada. ou que faz as compras… essa rotina obrigatória. Essa evolução se refletiu muito mais no casal lésbico já que as duas mulheres trabalham. A cólera se desloca sobre uma outra pessoa. claro.

não é sem razão se. quem decide sua decoração e sua utilização. O desafio da lesbianidade É difícil ser uma mulher como um todo. Então. personalidades muito ricas e interessantes. No interior do casal. difícil de atingir. Marca a diferença. oferece uma relação particularmente profunda. quando ultrapassaram as dificuldades da adolescência e da juventude tornam-se mulheres seguras de si. É útil desenhar um mapa da habitação. independentes e competentes: na verdade. e uma relação sexual viva e satisfatória? A resposta mais concisa que eu posso dar a esta pergunta é a individuação. os limites. mas tornam-se verdadeiras aliadas na vida. fazer as mudanças necessárias para a sua sobrevivência ir adiante. que ela possa decorar à sua própria maneira e onde ela possa fazer o que ela quer. Bem canalizada. Na maturidade elas apresentam. salvaguardar os limites entre as pessoas. Como esposas. permite ao casal rever o que não funciona. Aliás. a individualidade. o que deve vir a seguir é o desenvolvimento de uma identidade autônoma. e as lésbicas estão na vanguarda dessa luta. para que mantenha uma comunicação verdadeiramente plena. O que é preciso fazer para melhorar suas chances? O que é preciso fazer para que o casal lésbico dure mais tempo. de um modo construtivo. e ver a quem pertence cada cômodo — quer dizer. Tendo aparado todas as arestas. isto é. quando o casal lésbico funciona bem. mas sua relação perdeu sua vitalidade. uma população feminina amplamente independente dos homens e da maternidade. e de se forjar uma identidade fora dos papéis tradicionais da mulher. o objetivo não é parar de discordar. não mais tendo a família como referência. Após terem conquistado a igualdade jurídica e política. elas também deixam de serem indivíduos como um todo. Nessa situação. A luta para a individuação é nesse momento o grande desafio das mulheres.122 Eis porque é preciso ficar bravo de vez em quando. Temas de reflexão para consolidar o casal lésbico — Promover espaços físicos individuais. elas se dão maravilhosamente bem. como irmãs ou filhas. igualitária e solidária. como mães. nenhuma das duas mulheres tem um espaço verdadeiramente dela. Essa população é obrigada à se definir de outra forma. em muitos casos. porque constituem. mas com certeza não impossível. elas são obrigadas a isso. porque obriga os casais a negociar e resolver seus problemas. e. mas de bem discordar. as duas mulheres não são apenas melhores amigas e amantes. as lésbicas que não têm mais relações sexuais nunca ficam bravas. A lesbianidade de hoje não é mais o triste destino das mulheres que não conseguem se encaixar (caso alguma vez já tenha sido): é uma escolha de vida que apela para todos os recursos das mulheres enquanto seres humanos na sua completude. ao renunciarem às suas diferenças. como amantes. abrindo novas possibilidades. As duas mulheres se amam. pela primeira vez na história. ela não destrói as relações: preserva-as. mas. Quando a cólera é expressa de uma maneira apropriada. e uma igualdade econômica crescente em relação aos homens. Como dizem os terapeutas de casal. cada mulher respeita a personalidade de sua parceira e ajuda-a a desenvolver todo o potencial de sua individualidade. Da mesma forma. A cólera é indispensável em todas as relações humanas. além de tudo. as mulheres sempre correm o risco de serem absorvidas por aqueles que dependem delas. para que possa amadurecer. Freqüentemente. Designar (ou criar) espaços individuais e comuns. Eis porque tantas lésbicas. em muitos casos. isso significa o respeito e o desenvolvimento da diferença. .

Gostar de cozinhar é uma coisa. — Pode-se também promover a autonomia das finanças. por costume. falar menos. O meio termo nem sempre é a melhor solução. no casal lésbico é preciso restringi-la. por exemplo. — Desenvolver um novo estilo de resolução de conflitos: ao invés de procurar soluções de compromisso. e o que deixamos de fazer desde que estamos juntas. acessórios. mais uma vez. os horários. Muitos casais reúnem todos os seus fundos para enfrentar as despesas conjugais. é essencial que o terapeuta devolva constantemente às duas mulheres o reflexo de sua diferença. mas confunde. é ser obrigado a cozinhar todos os dias durantes anos. tentar a alternância. o que facilita as coisas. É muito importante parar de dividir tudo. é melhor ir uma vez ao restaurante chinês e uma outra vez ao italiano. Se muitas vezes é preciso promover a comunicação no casal heterossexual. em que faremos alguma coisa separadamente: ver amigos. uma noite. para amenizar a tendência à fusão. Rever também porque cada uma faz o que faz: por gosto. é útil que cada uma possa pôr de lado uma parte de seus rendimentos para gastá-la como melhor lhe convier. Se possível. . Mudar as rotinas. as fronteiras entre as pessoas. os vídeos pornográficos. etc. — Mudar os papéis: reconsiderar periodicamente quem faz o quê no casal. portanto. É útil se perguntar o que faríamos de nosso tempo se não estivéssemos juntas. maquiagem. e uma outra. as maneiras de ter relação sexual. Designar pelo menos um período por semana. jóias. muito diferente. Temos tendência a se contar tudo. etc. a variedade é essencial. — No quadro terapêutico. ao invés de tentar sempre amenizá-la. porque é o que ela fazia antes em suas relações heterossexuais? — No domínio sexual. para verificar que cada uma está satisfeita com sua função. Muitas vezes. mas é preciso recriar um espaço onde é permitido guardar coisas para si. Tentar outras formas de estimulação. inclusive os acessórios sexuais. — É indispensável parar de dividir roupas. os lugares. encorajando-as para cultivá-la. — Mudar o estilo de comunicação: em uma palavra. o tempo livre é sistematicamente partilhado. É importante retomar algumas dessas atividades independentemente uma da outra na medida do possível. Por exemplo: se você adora a comida chinesa e sua amiga a comida italiana. é melhor não ir ao restaurante francês que ambas gostam mais ou menos.123 — Promover tempos individuais. porque é mais feminina ou masculina. o que fazíamos nesse tempo antes de se conhecer. ir ao cinema… — Promover atividades individuais.

mais do que antes. as pessoas ou as relações se desgastam. as lésbicas não adotaram um novo ideal feminino: nem a magreza. e continuará a existir. as práticas sexuais que não apenas o coito – muitas modalidades diferentes que entraram nos costumes. nem a maquiagem. Os homossexuais. adotaram um novo look sem reserva. quando as coisas. Assim. A revolução sexual A revolução sexual dos anos 60 e 70 transformou o sentido da sexualidade. o bronzeamento artificial.. e os homens bronzeados e musculosos como se fossem todos os dias para a praia. Não há nenhuma dúvida de que essas idéias contribuíram para transformar as pessoas em objetos de consumo sexual e que elas se acrescentaram à multiparceria e à busca do prazer preconizados pela revolução sexual para constituir uma nova sexualidade senão mais livre.. Essa transformação da sexualidade coincidiu com a evolução de uma sociedade de consumo que preconiza a gratificação imediata de todos os desejos. é preciso substituí-las. O marketing do corpo Os anos 80 e 90 viram igualmente a evolução de uma certa concepção do corpo: apareceram novos tipos físicos. a homossexualidade masculina foi marcada pela revolução sexual e a liberação guei. e o direito ao prazer uma prerrogativa universal. Segundo esta visão. o prazer é o objetivo principal da existência. variações sobre esse tema. a multiparceria. independente da procriação e de qualquer ligação afetiva ou legal entre indivíduos. pelo menos mais fácil.124 CAPÍTULO 8 O casal homossexual masculino Como a lesbianidade contemporânea. Esse culto da masculinidade e da juventude – que tem uma longa história desde os Gregos – torna-se. Curiosamente. com uma escolha infinita de objetos para consumir. mas em seu caso acrescenta-se um outro fator: a AIDS. um pouco desumanizados: as mulheres deviam ser de uma magreza anoréxica. como se os homossexuais tentassem se desfazer de uma vez por todas de sua clássica imagem de homens efeminados – embora exista sempre. a jaqueta de couro. um elemento central do imaginário e da vida social e sexual dos homossexuais.). Ela exalta também a novidade e a variedade: o novo é mais excitante e. Esses fenômenos transformaram a homossexualidade masculina em três níveis: fizeram aparecer uma identidade pessoal. o bigode. uma dinâmica de casal e uma comunidade que não existiam antes. desenvolveu-se uma indústria do sexo que se aproveitou disso para inventar e para vender novas formas de estimulação . Concomitantemente a essas transformações. os cabelos curtos. as botas. O prazer tornou-se um objetivo em si. O ideal homoerótico incorpora também uma eterna juventude: no mundo guei é proibido envelhecer. O ideal masculino guei é de uma virilidade exagerada.. Não se pode entender a relação homossexual masculina sem examinar este contexto social e ideológico. em uma certa medida. abriu-se a possibilidade de uma grande variedade de parceiros e de práticas sexuais.. nem as roupas em moda. Os encontros ocasionais. em contrapartida. A ideologia feminista talvez as protegeu do assalto publicitário (embora não as tenha impedido de seguir as modas masculinas. cultuando a sessão cotidiana de academia.

contribuíram para derrubar as barreiras entre o “perverso” e o “normal”. o privado e o público. de fato. Mais livres do que os heterossexuais. Os homossexuais. mais à vontade do que as lésbicas. as saunas. De fato. [Nota dos tradutores] . enquanto seus predecessores faziam isso mais ou menos discretamente. inclusive na multiparceria. e entraram. Tornou possível viver publicamente uma orientação que sempre tinha sido clandestina. O problema é que os homossexuais começaram a freqüentá-las abertamente. completamente separadas do casamento e da família. Algumas dessas parafilias. consumir drogas. eles também. Os estabelecimentos gueis centrados no sexo só retomaram as mesmas atividades e as mesmas regras do jogo. Eram. Os "banhos públicos"95. o direito ao prazer sob todas as suas formas.125 sexual. sua freqüência se popularizou. e permitiam aos homens satisfazerem seus desejos sem se preocuparem demais com as conseqüências. comer. as relações sexuais eram livres de qualquer obrigação afetiva ou jurídica. assistir a espetáculos ou jogos sexuais. práticas e acessórios até então reservados aos amantes do voyeurismo. as revistas. a pedofilia. proclamaram suas aventuras. em alguns casos. do fetichismo. os homossexuais da liberação guei só praticaram abertamente o que muitos homens (hetero e homossexuais). praticar o sexo com várias pessoas ao mesmo tempo. E. sempre salvaguardando o casamento e a família e mantendo uma distinção entre relações conjugais e aventuras sexuais. e assim por diante. mas essas novas modalidades só retomavam costumes sexuais que tinham sido amplamente desenvolvidos e cultivados nas casas de prostituição da era moderna. a preços baixos. como o veremos. Os estabelecimentos especializados. os darkrooms da liberação guei foram apenas variações sobre o tema das casas de prostituição: eram lugares centrados no prazer. obter material pornográfico. A nova homossexualidade A liberação guei fez da homossexualidade não mais um destino infeliz. lançaram-se na exploração de novas formas de estimulação e de satisfação sexuais. onde se podia beber. Após uma longa história de perseguição. nos dois casos. Isso pareceu muito novo porque acontecia entre homens. 95 Os "banhos públicos" são estabelecimentos públicos ou privados onde as pessoas podem tomar banhos e duchas. lavar suas roupas. Como nas casas de prostituição. antes de tudo. nos costumes. tudo era permitido – e talvez fosse esperado que eles quisessem se aproveitar disso plenamente. Insensivelmente. mas um estilo de vida livremente escolhido. no calor da descoberta. Os homens homossexuais que atingiam a idade adulta nos anos 70 foram a população mais bem colocada para aproveitar essas transformações. assim como acessórios de todos os tipos. ter múltiplos parceiros (inclusive menores de idade). aos poucos eliminaram essa demarcação para inserir a pluralidade sexual na relação de casal. exceto para a remuneração dos parceiros sexuais. o sexo em grupo e. ao invés de escondê-las. ela difundiu fantasias. os filmes e os vídeos pornográficos. casas de prostituições gratuitas que ofereciam todos os serviços propostos pelos antigos bordéis. que antes eram chamadas “perversões”. a liberação guei significou. enquanto os bordéis eram reservados às elites. adotaram como estilo de vida cotidiano e público o que seus predecessores haviam cultuado de modo esporádico e secreto. Para muitos deles. tornaram-se doravante “normais” – até mesmo banais – e entraram no vocabulário cotidiano da sexualidade. Apoiando-se em recursos financeiros imensos. em contrapartida. eram espaços reservados a atividades consideradas ilícitas pela sociedade em seu conjunto. sempre haviam feito em segredo. da pedofilia e do sadomasoquismo.

A partir dos anos 70 apareceram nas grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos estabelecimentos gueis centrados no sexo. e de uma profusão de escritores franceses. Paris: Seuil. Reencontra-se nesse desejo o culto de uma certa masculinidade. A homossexualidade “negra” permite uma mistura de classe e um certo “turismo sexual”. rápidas. às vezes perigosa – e que muitos homens acham excitante. Doravante. Esse mundo dos bas-fonds. chap. dos darkrooms. com personagens sensíveis e refinados de classe relativamente elevada.” A homossexualidade “negra” não tem equivalente nas lésbicas. Trata-se de uma sexualidade impulsiva. menos viciados pela vida moderna. atraiu igualmente. é útil relembrar a distinção que vários autores fizeram entre uma homossexualidade masculina “negra” e uma outra. extremamente atraente para muitos deles. é a homossexualidade inocente das escolas e dos conventos. mas como um espaço vital de uma sexualidade masculina sem entraves – embora. Encontrase uma enorme variedade de pessoas. homens de classe e de educação elevadas. Entre seus adeptos pudemos contar Proust. atravessada de melancolia. Gide e Pasolini. ao lado dela. pagas. Genet. musculosos e espontâneos. criaram o famoso darkroom. às vezes. da qual já falamos. do círculo de Bloomsbury na Inglaterra. ao invés de ir paquerar nos parques. seja em grupo. até mesmo “primitivos”. Como explica um homossexual de quarenta e cinco anos. Ver Frédéric Martel (1996) Le rose et le noir. feita de relações fáceis. Essa última é a homossexualidade que encontramos na literatura e no cinema de bom tom. quarto praticamente escuro consagrado ao sexo anônimo. dos "banhos públicos" e das saunas. “branca96”. arriscada. que respondem ao desejo de muitos homossexuais de terem relações com homens “do povo”. eles são mais simples que nós. e se confundindo às vezes com ela. com operários bonitos. por muito tempo considerado pela sociedade heterossexual como um último recurso para homossexuais famintos por sexo é. descobre-se coisas novas e. existe uma outra modalidade que poderíamos chamar de homossexualidade “negra” ou dos bas-fonds: a dos banheiros públicos. é como viajar em um outro país. que exerce uma profissão liberal: “Se relacionar com o povão. mais francos. e das amizades particulares. Mas essa homossexualidade “negra” nunca foi restrita às classes populares: há muito tempo. na verdade. anônimas e sem obrigações. para citar apenas alguns. das relações sexuais anônimas e. ela representou a única maneira para os homossexuais das classes populares de se encontrarem – e isso ainda vale exceto nas grandes cidades dos países industrializados e na maioria dos países do terceiro mundo. do Maurice de E. Mas. freqüentemente de um grande refinamento intelectual e artístico. É a homossexualidade aristocrática de Oscar Wilde. dos encontros furtivos. É preciso dizer que durante muito tempo. em sua sexualidade.126 Homossexualidade “negra” e “branca” Para melhor entender essa evolução. bares e discotecas que ofereciam em um espaço protegido o equivalente dos banheiros públicos e dos "banhos públicos". M. seja individual. Forster. além do mais. espontâneas. Constituem um espaço puramente masculino e parece corresponder a uma sexualidade masculina. de algum modo domesticada. Em particular. Feita de belos sentimentos. A comercialização da homossexualidade A liberação guei apropriou-se da homossexualidade “negra” não como um último recurso. dos parques públicos e das estações de trem. do amor que não ousa dizer seu nome. 4 . os homossexuais podiam se seduzir em 96 A expressão é de Guy Hocuenghem.

Inúmeros autores tentaram explicar a importância desses no universo guei. Essa comercialização da sexualidade guei no decorrer dos dois últimos decênios contribuiu para reaproximar os dois tipos de homossexualidade. à promiscuidade sexual multiforma. mas romântica. quanto um sentimento de pertença coletiva97”. quando apareceu no início dos anos 80. citado em Martel. e aos poucos se construía uma vida afetiva baseada nessa busca que não era apenas sexual. dezembro de 1993. Antes. São lugares que privilegiam o voyeurismo e o sexo coletivo. segundo o Centers for Disease Control and Prevention nos Estados Unidos. mas somente relativamente seguras. há também freqüentemente. citado em Martel. Apesar de vinte anos de campanhas de prevenção e dos esforços incessantes de inúmeros agrupamentos homossexuais para encorajar o safer sex98 (sexo mais seguro).. p. nunca usa preservativos. revelam ter tido pelo menos um encontro sexual sem preservativo no decorrer dos últimos dezoito meses. Dois terços dos homens gueis pesquisados em Chicago. op. Infelizmente. Ia-se aos bares com a ilusão romântica de encontrar o grande amor. uma busca do amor que vai muito além de um simples orgasmo. vivia-se a cada noite uma grande paixão. os homossexuais eram muito reprimidos e o amor entre homens era proibido. que conheceu bem a cena guei da Nova Iorque dos anos 70: “Há também nos darkrooms uma busca do amor. 1993. 16% “escapam”..9% em 1994 para 60. e até mesmo a tragédia da epidemia não os afetou tanto quanto podíamos esperar. por exemplo. Além do sexo anônimo e dos encontros fáceis.08% em 1997. a taxa de infecção pelo vírus HIV aumenta novamente. quase 38% dos homossexuais que utilizam preservativos omitem o lubrificante. por exemplo. 363. 366-367. Então. apesar das aparências. que 30% de 2500 jovens homossexuais interrogados em várias cidades têm relações ocasionais sem nenhuma proteção. como “um retorno à orgia tradicional. o sexo em grupo serve para recriar uma certa camaradagem masculina. O número de homossexuais que sempre usam preservativos durante contatos ocasionais diminuiu de 69. uma proporção importante – 16. gratuita e fácil: todos aqueles que estão aí são. Isso parece resultar de um uso incorreto: com efeito. a homossexualidade “negra” não é somente um espaço consagrado à conquista sexual. nos bares e nos darkrooms. A solidão desaparecia no espaço de uma noite. quando se ia aos bares e quando se tinha relações sexuais com homens muito bonitos. no início de 1999. Enfim. o preservativo pode se romper ou estar defeituoso. 99 Schiltz. p. Pode haver uma pequena lesão em algum lugar. Denver e São Francisco. permitindo satisfazer tanto uma necessidade fisiológica. os costumes homossexuais masculinos já eram bem sedimentados. após anos de estabilidade: na cidade americana de Atlanta. . enquêtes 1991-1992.127 um espaço social freqüentável com todos os serviços e sem correr o risco de serem brutalizados – pelo preço de uma entrada. nos quais o navio constitui um domínio puramente masculino. Contudo. Uma pesquisa americana revelou. descrevendo-o." A AIDS Essa busca tomou um outro sentido quando a AIDS veio romper todos os novos esquemas. cit.. Os darkrooms em especial permitem uma sexualidade imediata. por definição. disponíveis. um Centro de 97 98 Frédéric Martel. 194 A expressão inglesa safer sex que substituiu safe sex nas campanhas anti-aids há alguns anos. Ver Marie-Ange Schiltz (1993) Les homosexuels masculins face au sida. Uma pesquisa francesa de 1993 revela que mesmo os homossexuais que utilizam regularmente um preservativo estão em risco: 30% dentre eles se rompem e. p. Nessa ótica.9% segundo um estudo francês de 199399 . reflete a idéia de que não existem modalidades sexuais absolutamente seguras. Em Relatório CNRS-EHESS. Como o explica um homem de cinqüenta e seis anos. como aquela exaltada por Walt Whitman em sua poesia e por Herman Melville em seus romances da vida no mar.de homens gueis. do qual se sabia muito bem que ia durar uma noite: tinha-se a miragem do amor eterno durante uma meia hora. tendo relações ocasionais” com penetração anal.

Assim. 100 101 Números dados pela agência Associated Press. As práticas mais freqüentes nos homossexuais são a felação (presente em 72% das últimas relações). 102 Idem. iniciam. Quaisquer que sejam as razões da resistência ao sexo-seguro. o sexo anal não é mais tão difundido durante os contatos ocasionais e. muito mais homossexuais. As pesquisas mostram que a penetração anal em geral é menos difundida do que se pensava: na última relação sexual apenas 36% dos homens sodomizaram seu parceiro e 28% foram sodomizados101. paralelamente. Depois. Isso faz com que suas relações sejam ricas e variadas do ponto de vista erótico. atualmente. é certo que a AIDS marcou e continua marcando quase em todo o mundo a vida dos homossexuais. Tendem antes. agravando assim. a época e a moda. mas não necessariamente mais íntimas. p. Paris.128 Análises Clínicas. Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993) Les comportements sexuels en France. exatamente como entre as lésbicas. Em seguida e. a masturbação recíproca (em 82% das últimas relações) e a estimulação interfemural (na qual um homem coloca seu pênis entre as pernas do outro). relações conjugais monogâmicas mais estáveis e mais duráveis. Segundo os especialistas. a nova geração de homossexuais não conheceu a hecatombe dos anos 80 e não vê mais na AIDS uma condenação à morte irrevogável. como os homens soropositivos não morrem mais tão rapidamente. pelo menos nos países industrializados. continuam a exercer a sua sexualidade livremente. Em primeiro lugar. ou das circunstâncias. o número de parceiros sexuais diminuiu. rimming (a estimulação buco-anal. revela um aumento de 50% do número de resultados soropositivos. pelo menos nos países industrializados. Isso significa que as condutas sexuais entre homens são de uma grande variedade e que a penetração não é um componente essencial do sexo para eles e nem para as lésbicas. A única coisa certa é que os homens usufruem entre eles de uma enorme liberdade sexual. do parceiro. desde 1997100. Outras atividades muito menos freqüentes são. Categorias e práticas que eram comuns há apenas vinte anos perderam amplamente sua significação e sua importância. a divisão entre homossexuais “masculinos” e “femininos” quase desapareceu. pode aparecer somente após certo tempo. 31 de janeiro de 1999. a penetração anal entre desconhecidos é menos corriqueira: é mais reservada às relações entre amigos ou no casal. Ademais. é muito difícil generalizar nesse campo: as práticas mudam segundo o país. as pessoas se acostumaram com a existência do vírus e não prestam mais tanta atenção às campanhas preventivas. os riscos de transmissão. a classe social. 159. e qualquer que seja a evolução da epidemia. Durante os anos 90 houve uma “normalização” da AIDS: os novos tratamentos sintomáticos permitem às pessoas soropositivas viverem por muito mais tempo e em condições muito melhores. a ampliar suas práticas e são menos restritamente “especializados”: praticam mais uma alternância dos papéis que pode depender de seu humor. La Documentation française. . da etapa da relação. esperando que os dois homens se conheçam melhor e se sintam protegidos dos riscos da AIDS. Contudo. não é tão verdadeiro quanto antes que os homossexuais sejam exclusivamente ativos ou passivos em sua sexualidade. Enfim. também conhecida como cunnilingüis) e o fist-fucking (no qual um homem insere seu punho no ânus do outro102). A sexualidade homossexual masculina A sexualidade entre homens também está em plena transformação.

358. Mas certas premissas do casal heterossexual – e em especial a monogamia.. tal qual o conhecemos hoje. Citado em Martel. As pesquisas mostram que existem muitas relações estáveis entre homens qualquer que seja sua forma: perto de 30% dos homossexuais franceses vivem em casal. O casal de homens é mais complexo e mais difícil para entender do que o das mulheres. ao contrário. Um homossexual de trinta e cinco anos conta: O que eu procuro em uma relação parece bastante com um casamento heterossexual: fidelidade. Em contrapartida. ou têm um sentido radicalmente diferente. 48. ao mesmo tempo em que criticou o modelo heterossexual permitiu também aos homossexuais viverem abertamente em casal. de fato.. uma proporção importante de homossexuais que optaram pela estabilidade e o engajamento em longo prazo – mesmo que suas relações difiram ainda. tanto masculinos quanto femininos. Muito antes da AIDS. Um deles me paquerou recentemente. A relação lésbica parece mais com o modelo heterossexual: é geralmente monogâmica (ou tenta sê-lo). E não constitui o único meio de ter relações amorosas estáveis. Eis 103 Antoine Messiah. Mas a realidade é muito diferente. estabilidade. inscreve-se em um discurso amoroso. lembramos. Há um casal que eu admiro muito. septembre-octobre. . porque parece ainda menos com o casamento e seu engajamento em longo prazo e seu acento sobre a monogamia (pelo menos em teoria). e freqüentemente. vol. do casamento heterossexual. não façam juras de fidelidade. porque são dois homens que se amam de verdade e que estão juntos há sete anos. Vê-se por toda a parte relações duplas. ele me disse que.129 Em que consiste o casal masculino? A estrutura. nada tem de universal: o casamento. um engajamento em longo prazo – estão ausentes neste casal. deixaria seu parceiro sem hesitar. mesmo dentro de um pequeno círculo de amigos. Contudo. pode acontecer que dois homens estabelecendo uma relação não falem de amor. homens que vivem em casal mas têm relações paralelas. e as relações duram por sete anos em média103. que provocou uma certa revalorização das relações estáveis e monogâmicas. A liberação guei. Emmanuelle Mouret-Fourme (1993). Uma das dificuldades para estudá-lo e tratá-lo reside precisamente no fato de que nenhum dos parâmetros da relação heterossexual se aplica a ele. Uma proporção importante dos homossexuais de hoje não parecem desejar esse engajamento particular que. é apenas uma modalidade entre muitas outras na história da humanidade. E ele diz amá-lo! Essa anedota mostra bem que não há consensos sobre a significação do casal. Isso dito. e sempre houve. em muitos pontos. Poderia legitimamente se perguntar se o termo “casal” se aplica a uma tal relação – e. Éléments de sociobiographie sexuelle. não tenham nenhuma intenção de serem monogâmicos e não planejam um futuro em comum. até mesmo os homossexuais não parecem estar plenamente de acordo sobre o que eles entendem por isso. A primeira coisa que nós poderíamos dizer é que não se parece nem um pouco com os outros casais. Em Population. poderíamos nos perguntar se a forma do casal tradicional é realmente necessária às relações que não têm em suas funções a de fundar uma família e de criar filhos. isto é. e a própria definição do casal homossexual está também em plena evolução. bisexualité. se alguém excitante aparecesse em sua vida. pelo menos em minha experiência. houve uma época na qual o fato de viver publicamente em casal era em si uma postura contestatória adotada com orgulho por muitos homossexuais. A rejeição do casal tradicional nunca foi universal entre os gueis. p. muitos homossexuais aspiram mesmo assim formar casais tradicionais. e aspira a uma estabilidade em longo prazo. e muitos deles escolheram esse caminho ao invés de parceiros múltiplos. engajamento em longo prazo. Homosexualité.

e é impossível entendê-lo se não deixarmos de lado nossos valores e nossos preconceitos habituais. e são mais freqüentemente o objeto de discórdia do que entre as meninas105. claro. após a fase inicial de lua de mel que é em todas as relações um período de atividade sexual intenso104). a tragédia da AIDS obrigou os homossexuais a se cuidarem entre si. os homens falam menos de seus sentimentos. os terapeutas observam ainda certas dificuldades que parecem características da relação homossexual masculina e que comprometem a sua estabilidade.130 a razão pela qual entrar no universo da homossexualidade masculina é um pouco como chegar a um país exótico. acontecem em geral em grupos maiores com variações de idade mais importantes. Apesar de todas as transformações em curso. ter uma comunicação mais íntima e uma relação mas igualitária com seus parceiros. contudo. provavelmente porque os homens têm mais o costume do que essas de expressar seus desacordos – e de estar com a razão nas discussões. como no casal lésbico. Em Social problems. tendo relações sexuais em média dez vezes por mês (isso. o tipo mais ativo nessa área. mais monogâmicas e talvez mais íntimas. Características do casal masculino O sexo desenvolve um papel muito importante no casal masculino. 1995. mais do que seus pais. cujos costumes podem parecer singulares à primeira vista. lembrando-nos. os homossexuais estão inventando novas formas de masculinidade: como a maioria dos homens hoje. Iremos examiná-los sucessivamente. e por terem freqüentemente amizades importantes com mulheres. uma diferença de idade significativa em muitos casos e diferenças de opinião marcadas. 478-487. É interessante lembrar nesse contexto as diferenças entre as brincadeiras das crianças dos dois sexos: as brincadeiras entre os meninos são mais competitivas. Sem querer simplificar demais. mas também sobre a amizade. Por outro lado. por serem menos envolvidos nos estereótipos masculino e feminino. de um certo modo. A epidemia também os obrigou a forjar relações de casal mais estáveis. a lealdade e a cooperação. O poder desenvolve um papel importante em suas relações: eles procuram 104 105 Ver Partners Task Force for Lesbian and Gay Couples. Três problemas em particular voltam nos relatos dos homens gueis e nas obras que lhe são consagradas: a falta de comunicação. a importância do grupo. 23. É um casal que apresenta mais diferenciação do que o das mulheres. Ver Janet Lever (1976) Sex differences in the games children play. Em geral. encontramos no casal homossexual algumas dessas características: a rivalidade. Esse é. eles são também. escutam-se menos e discordam mais facilmente. Provavelmente procuram. A psicologia. . A dinâmica do casal masculino é determinada mais pelo gênero do que pela homossexualidade. os que existem atualmente ao redor da AIDS constituem antes de tudo espaços de trabalho para o bem comum. Partners National Survey of Gay and Lesbian Couples. já que não há mulheres para influenciá-los. E talvez tenham mais condições do que os heterossexuais para romper as barreiras tradicionais entre os sexos. as modalidades de comunicação e a sexualidade masculina fluem livremente. Isso dito. interrompem-se mais freqüentemente. e apesar das transformações em curso. a falta de engajamento na relação e a multiparceria. p. A comunicação entre homens A comunicação entre homens é muito diferente daquela que as mulheres mantêm. Se os primeiros agrupamentos homossexuais da liberação guei foram muitas vezes pretextos para a paquera. de fato. filhos do feminismo. que estão ligados entre eles. a trabalharem em equipe e a formar uma comunidade que não se baseia mais unicamente sobre a orientação sexual ou sobre um programa político.

para terem certeza que concordam sobre os termos da relação. E constitui. e assim por diante. os mal-entendidos não tardarão a surgir. Quando os diálogos nesses dois campos são insuficientes. “monogamia”. Muitos homens queixam-se de uma falta de sinceridade. “casal”. na verdade. enquanto as mulheres falam dela continuamente (e talvez demais). sem dúvida nenhuma. são os homens que são reticentes em expressar seus sentimentos ou em se engajar na relação. cumprir um trabalho de definição: é indispensável que os dois parceiros façam o esforço de explicitar o que eles entendem pelas palavras “relação”. A atitude do homem que acabamos de citar é muito reveladora: indica-nos que os dois homens em questão nunca falaram sobre a natureza de sua relação. nunca será explicitada. Um homem de trinta e cinco anos conta. no casal heterossexual. mais do que homens. Ela reflete também certa falta de engajamento em relação ao outro: no final das contas. “aventura”. e não há . Nunca lhe prometi nada. essa não é a mesma para os dois homens. os dois homens têm freqüentemente uma visão muito diferente da relação. Em inúmeros casos. e nesse sentido não há realmente um casal. não existia nenhum acordo sobre a existência desse. Faltam. “amor”. É importante renegociar essas regras de vez em quando. mas o que falta. uma barreira para a intimidade e para a estabilidade. Sua comunicação é mais hierarquizada e vertical. Se a liberdade de um é a infidelidade do outro. as necessidades e os desejos evoluem segundo as etapas da vida e da relação. nem sobre seu futuro enquanto casal. Se ele entendeu outra coisa. pode-se dizer que cada um vive sozinho a relação. é menos uma questão de mentira do que de omissão. essa dificuldade é multiplicada por dois. contudo. cada um leva sua vida à parte. sobretudo. Quando isso acontece. não é necessariamente a honestidade. nunca lhe jurei fidelidade. até mesmo de honestidade. Claro. As pessoas mudam. se dão melhor com suas amigas (homo ou heterossexuais) do que com seus próprios parceiros. E há muitas vezes uma contradição na comunicação do casal guei: os dois homens falam a respeito de tudo. dois elementos no casal masculino no plano da comunicação: falar da relação e expressar os sentimentos amorosos. enquanto para o outro não é nada disso. “fidelidade”. esse tipo de mal-entendido não se limita aos homossexuais. sobretudo quando se trata de amor. enquanto as mulheres passam seu tempo a pressioná-los a se engajar nela. exceto de sua relação. é simplesmente a comunicação. E se as regras do jogo não são as mesmas para as duas pessoas. e isso pode também provocar mal-entendidos. nunca lhe falei que íamos viver juntos. o próprio jogo não durará muito. é que seus dois membros habitem uma mesma relação. Mesmo quando dois homens decidem formar um casal. Pode-se pensar que eles encontram nas mulheres uma escuta e uma compreensão que não existem (ou que não são suficientemente desenvolvidas) em suas relações de casal. a condição sine qua non para que um casal exista.131 vencer mais do que encontrar um consenso e tendem mais a se afrontar do que a cooperar. os mal-entendidos são inevitáveis. sobretudo se esses forem heterossexuais. Os homens geralmente têm dificuldade em expressar seus sentimentos. Pode acontecer que um dos dois parceiros acredite que essa está solidamente estabelecida e que existe um engajamento de casal. Por causa dessa falta de reflexão comum sobre o casal. pode existir entre eles uma divergência profunda sobre a natureza da relação que. em muitos casos. após uma relação de curta duração: Não sei onde tirou a idéia de que íamos ficar juntos. Afinal. desde o início. é problema dele. nas relações gueis. No casal homossexual masculino. Eis porque é necessário. Mas. É interessante notar que muitos homossexuais têm mulheres como melhores amigos.

porque os homens variam mais do que as mulheres naquilo que eles esperam de uma relação: mesmo jovens. sempre se pode transformar a forma. Talvez isso seja particularmente importante para o casal masculino. O que gosto na homossexualidade é justamente a fugacidade. Se por ventura tivesse uma relação de casal estável. que a atração dura tão pouco. pelo menos para mim — nunca tive relação que durasse mais de dois meses. em nossa sociedade. o caráter gratuito dos encontros: a aventura. isto é. no qual é muito mais difícil mudar a forma da relação. enquanto os meninos são levados a desenvolver muito mais a iniciativa pessoal. Infelizmente. Não nos esqueçamos que as mulheres aprendem desde sua infância a valorizar o lar. Sem querer dizer que a coabitação seja indispensável. Às vezes tenho a fantasia de ter uma casa grande. nem regras fixas. a cooperação e a vida em comum. Para começar. mas não me vejo nem um pouco vivendo com alguém. observa-se freqüentemente nos homossexuais masculinos uma certa reticência em relação ao engajamento em longo prazo — ou até em curto prazo. Depois nos demos conta que ambos tínhamos vontade de termos uma relação de casal aberta. vendo-se de vez em quando. No casal homossexual. manifestam-se de varias maneiras no casal masculino. nem garantia. pode acontecer que os dois homens não estejam de acordo sobre a decisão de abrir a relação e nem sobre o modo de fazê-lo. uma boa proporção dos casais masculinos não vive juntos. gostaria de viver um pouco como Sartre e Beauvoir — separadamente. aonde as pessoas viriam me visitar e onde eu teria uma grande variedade de opções. é preciso aproveitar isso. Já estávamos consolidados enquanto casal. são geralmente as mulheres que cuidam da comunicação e das relações íntimas. nos casais já formados. falamos a respeito e começamos a ter relações sexuais com outros homens — às vezes juntos. a competição e a independência. elas aspiram a uma certa estabilidade. Durante os dez primeiros anos. dividindo uma mesma cama. A autonomia na relação Esses traços. de termos relações sexuais com outras pessoas. Se o casal homossexual oferece uma flexibilidade maior e permite uma atualização periódica de suas próprias regras. Mas duvido disso. fomos monogâmicos. o resto deve em principio ser negociável. os homens não são “treinados” para esse tipo de exercício. muito freqüentemente. se o conteúdo está aqui. coisa que os homens. o fato de viverem separados significa que não há vida cotidiana em comum. Essa preocupação de independência encontra-se também. às vezes. E não é justo reprimir esse tipo de vontade — o casal não pode funcionar se há repressão. Ora. nesse caso também. Claro. Se houver amor e engajamento. porque. a família. Em uma palavra. é preciso falar da relação para que ela dure.132 razão para que as regras do jogo adotadas no início sejam as mesmas para sempre. Portanto. Sinto. vale mais falar disso do que começar a ter relações clandestinas. em geral procuram somente mais tarde. e às vezes separadamente. é preciso inventá-las. Um homossexual de cinqüenta e dois anos conta: Vivo sozinho há vinte anos e tenho relações ocasionais. e isso nunca nos trouxe problema. nada é dado de antemão: não há “manual de instruções”. Então. Em primeiro lugar. Um homem de quarenta e quatro anos conta: Estamos juntos há quinze anos. com um ginásio e muitos quartos. Nesse exemplo. É uma das grandes diferenças entre o casal homossexual e o casamento heterossexual. os casais que partilham o mesmo espaço sabem que uma parte importante de seu entendimento desenvolve-se . mas. longamente cultivados entre os homens. a relação amorosa sobreviveu à pluralidade sexual porque havia um acordo explícito entre os parceiros.

na vida em comum. As decisões no casal Pois a necessidade de autonomia se manifesta ainda. alternamos. em uma independência econômica que é provavelmente satisfatória para ambos os indivíduos. Muitos homens estão acostumados a tomarem sozinhos as decisões que afetam sua própria vida e a do casal. Em muitos casos. Mas essa compreensão não se aplicará tão facilmente a um homossexual. filhos únicos ou primogênitos. que levam as pessoas a amadurecerem como indivíduos e como casais. declara: Mantemos uma separação rigorosa do dinheiro. Poderíamos pensar. suas famílias e à sociedade em geral. parecerá natural que ele não seja tão disponível quanto um homem solteiro. guardam freqüentemente uma ampla autonomia. de um certo modo. O equivalente de um contrato de casamento ajudaria. Isso se traduz. É de fato. e acima de tudo. uma flexibilidade e um certo costume da negociação. Há também. mais do que a resolvê-los. Um homem de cinqüenta e seis anos. sobretudo se um deles ou ambos estão acostumados a um certo poder de decisão desde sua infância — se foram. que muitos homens gueis preferem viver sozinhos. então. por exemplo. quando gastamos para a casa. A coabitação exige também uma consideração para com o outro. Se há um fator que ameaça as relações masculinas mais do que todas as. mas essa identificação social enquanto casal contribui provavelmente para a estabilidade desse. se entender e se aceitar melhor. e assim por diante. se tiver de mudar de emprego ou ir viver em outro lugar por conta de seu trabalho. que essa separação dos bens materiais se deve ao estatuto jurídico da relação homossexual. mas as pessoas que dormem juntas e acordam juntas todos os dias. conseguem se conhecer. que já é encorajada nos homens desde a infância. Para os homossexuais . Cada um tem sua própria conta no banco e quando vamos ao restaurante cada um paga a metade. talvez seja essa necessidade de independência. as coisas podem se complicar. Nas relações heterossexuais isso não traz tantos problemas.133 justamente a partir dos ínfimos detalhes da vida cotidiana: isso pode parecer prosaico. Mas. que não é casado e não tem filhos. um elemento social: os parceiros que coabitam tornam-se uma unidade frente a seus amigos. essa dinâmica é exacerbada por uma certa visão social dos homens: espera-se deles que ajam de maneira independente. quando se trata de dois homens. mas não necessariamente em uma relação amorosa — sobretudo se se tratar de um casal masculino. Isso funciona muito bem em inúmeros campos. Veremos. Mesmo quando dois homens vivem juntos. seu engajamento como casal. mas não resolveria por si só o problema. eles não têm vontade de renunciar à sua liberdade de movimento. que vive há vinte anos com seu parceiro e que espera viver com ele pelo resto de sua vida. por exemplo. mas que limita. Isso só pode exacerbar a tendência à autonomia. por causa de tudo isso. Enfim. contas bancárias. discussões contínuas — e a necessidade de autonomia tenderá a agravar os conflitos. em todas as áreas. Por exemplo. e muitos homossexuais pensam isso. entenderemos que um homem casado leve em consideração sua família se for convidado para sair. A sociedade espera de um solteiro que ele tome suas próprias decisões e que se mova livremente. sejam eles em situação de casal ou não. na tomada de decisões. sobretudo se não são casados. em comum — mas o fato é que muitos casais lésbicos conseguem fazê-lo. em muitos casos. É difícil estabelecer contratos de aluguel. porque parece "normal" que os homens tomem as decisões importantes da casa. que fazem as compras e lavam a louça juntas. a vida em comum pode lhes parecer uma coerção inaceitável. Isso pode parecer secundário.

106 Robert T. os terapeutas e a sociedade em geral consideram que as relações sexuais fora do casal sinalizam problemas no casal. sobre as regras do jogo. Pois o que parece afetar a relação. Michael. O importante não é necessariamente a modalidade escolhida. mais do que as aventuras sexuais. mas somente se forem partilhadas. p. é o da autonomia. A honestidade e a confiança parecem ser ingredientes indispensáveis em qualquer relação amorosa. é o fato de dormir com uma pessoa só. Uma palavra de precaução no que diz respeito à interpretação do casal homossexual aberto: freqüentemente. O mesmo homossexual explica: A monogamia. John H. a segunda sendo a mais importante. na vida real. se praticarem uma sexualidade a três. O que importa muito mais do que os números ou a definição exata de "monogamia" ou de "fidelidade". o contrário. é que haja entre os dois parceiros um acordo explícito sobre as regras do jogo da relação. nesse contexto. . Sex in America. Provavelmente não há fórmula que seja aplicável a todas as relações. Por outro lado. Portanto. Gagnon. Outros participam de atividades de grupo. as palavras "fidelidade" e "monogamia" não têm necessariamente o mesmo sentido. enquanto os números oscilam entre 70% e 80% para os heterossexuais em vários países europeus e nos Estados Unidos106. é que a comunicação explícita é um ingrediente indispensável em qualquer que seja o arranjo. Certos casais decidem permitir as aventuras. as pessoas têm aventuras quando a relação de casal vai mal. nem sempre se aplica à relação masculina — para os homens. quando estamos falando de monogamia. Claro. Gina Kolata (1994). as definições nem sempre são claras: os estatísticos contam o número de parceiros sexuais nos últimos doze meses para medir a monogamia. As pesquisas revelam que aproximadamente a metade dos homens vivendo em casal homossexual é (ou se diz) monogâmica. mas somente se não forem comunicadas. monogâmico ou não. Certos estudos mostram que os casais masculinos abertos duram mais tempo. Essa idéia. não tem nenhuma importância para a relação. Edward O. Alguns casais fazem uma distinção entre monogamia sexual e emocional. em contrapartida. o fato de ser atraído por outra pessoa não significa forçosamente que não amam mais seu parceiro. Relação e multiparceria Uma outra decisão muito importante que devem tomar os casais masculinos é a de serem um casal "aberto" ou "fechado". Pois parece não haver uma modalidade que funcione melhor do que as outras: as pesquisas nesse campo não são conclusivas. mas somente se o parceiro estiver sabendo. claro. nossas pequenas aventuras ajudam-nos a ficar juntos. 106. New York. Um homossexual declara: Somos um casal fiel: não há nada mais importante para nós do que nossa relação. isto é. Warner Books. Nessa lógica. a medida e a lógica da monogamia são relativamente subjetivas. Loaumann.134 masculinos que querem formar um casal estável — e eles são numerosos — o grande obstáculo a vencer. Outros concordam em terem relações paralelas. é a mentira. sem que sua relação primária seja afetada. muito comum e certamente sedutora em sua simplicidade. Mas. dormimos às vezes com outras pessoas — mas isso não conta. mas o fato de estabelecer regras explícitas e respeitá-las. E outros ainda estipulam que as relações fora do casal sejam permitidas. E suas aventuras não afetarão necessariamente a relação — se os dois homens estiverem de acordo. O que é certo. Ao contrário. com um ou vários homens sucessivos. ou entre relação primária e aventuras passageiras. e outros. as pessoas não procedem necessariamente da mesma forma. isto é. A fidelidade nada tem a ver com isso: é o fato de estar ligado afetivamente a uma só pessoa.

não há regras generalizáveis.135 É preciso igualmente levar em conta o fato de que a busca de parceiros sexuais múltiplos nem sempre é uma questão de simples preferência: pode ser a expressão natural de uma sexualidade plenamente integrada. Por outro lado. mas pode também responder a uma necessidade compulsiva. 363. que pode causar muitos problemas. O perigo não é tanto aquele que ameaça as lésbicas. guardando para suas próprias relações a liberdade de fazer amor sem preservativo. sobretudo se um dos dois homens é mais novo. que se sentem inadequados em outras áreas. nas relações homossexuais. que tendem a confundir amor e sexualidade e a ficar apaixonadas quando dormem com outra pessoa. O ciúme Mesmo que os dois homens estejam em acordo sobre as regras da relação. mais bonito ou mais sexy do que o outro. na França. enquêtes 1991-1992”. Como o notamos no capítulo 6. a AIDS. Eis porque uma proporção considerável dos casais vivendo em relação aberta entra em acordo para praticar sistematicamente o sexo seguro durante seus contatos sexuais fora da relação. é possível que a sedução em cadeia tenha uma dimensão de classe: conquistar os objetos sexuais. Citado em Martel. Relatório CNRS-EHESS. atualmente é muito difícil reconhecer que se é ciumento: é um sentimento que não está na moda. A procura de parceiros múltiplos pode igualmente refletir o culto da masculinidade do qual já falamos. ou para disfarçar uma incapacidade nas relações íntimas. Se a multiparceria não reflete dificuldades no casal. Enfim. às vezes. os sentimentos não se decretam. pode ser o sinal de um problema individual. em especial. como um homossexual que vive uma relação de casal aberta há cinco anos: "O ciúme não existe entre nós. Esse pega freqüentemente as pessoas de surpresa: pode-se acreditar que não se é ciumento ou que não o será se o outro tem relação fora do casal — mas muitas vezes nos iludimos nesse campo. consolidá-la por meio do sexo e que os homossexuais. têm freqüentemente uma longa história de sentimentos de inferioridade. Pode encobrir uma necessidade de ser reconhecido. claro. 107 Marie-Ange Shiltz (1993) “Les homosexuels masculins face au sida. A multiplicidade de parceiros pode também se desenvolver em um contexto de uso abusivo de drogas ou de álcool. As relações "abertas" funcionariam muito bem se as pessoas não fossem ciumentas — mas isso não é sempre o caso. por meio da eterna sedução. é importante fazer a distinção entre esses dois sentimentos. Um outro perigo nos casais abertos é o risco das doenças sexualmente transmissíveis e. os registros sexual e afetivo são mais separados. p. Assim. Pode servir para preencher uma carência afetiva ou para dissimular a ansiedade ou a depressão. sobretudo se forem desejados pelos outros é provavelmente um meio para muitos homens. Existe uma distância entre ideologia e realidade afetiva. e ajudar os homens a se sentirem mais desejáveis na medida em que podem seduzir outros homens mais bonitos ou mais jovens. Assim. Nos homens. em especial. Não esqueçamos de que o ciúme. 46% dos homossexuais "nunca" usam um preservativo na relação de casal. e o perigo reside antes no ciúme. Mas." Contudo. porque não combina muito com a ideologia da liberação sexual. . e a exclusividade sexual parece ainda nos importar muito mais do que o desejaríamos. os homossexuais estão mais acostumados do que os heteros a separarem os campos afetivo e sexual por causa da homofobia interiorizada. enquanto 43% o usam "sempre" 107. aqui também. dezembro. É fácil dizer. podem surgir problemas. é freqüentemente acompanhado de inveja. Não nos esqueçamos de que os homens sofrendo de uma imagem de si desvalorizada procuram. para se elevarem na sua própria auto-estima e na dos outros. ou responder a uma necessidade de pertencimento em uma certa subcultura guei. O fenômeno do ciúme é complicado pela vergonha e pelo silêncio que o cercam.

apesar de ser menos freqüente hoje em dia. ao invés de ensaiá-las. explícita e regular. em todas as culturas. há freqüentemente nos casais masculinos diferenças de idade ou de classe que podem complicar a relação. nunca se poderá tocar o trecho do início até o fim. atividades diversas e de escolher. aliás. o homem mais velho desenvolve freqüentemente o papel de um mentor que cuida do rapaz. portanto. Sem querer minimizar a sexualidade. sempre teve na homossexualidade masculina uma modalidade particular que.136 Mas qualquer que seja. O grande desafio para o casal masculino (e para os outros também. Sexualidade e amor Um dos problemas que os casais masculinos enfrentam. se não se quer simplesmente recomeçar o mesmo jogo. O problema é que somente a relação sexual não basta para estabelecer um casal. muitas vezes. Como o mostramos mais acima. ajuda-o em sua profissão e oferece-lhe um apóio econômico. É também muito mais simples procurar em outra parte do que cuidar de uma relação que começa a trazer problemas. se o sexo se torna o critério central para continuarem juntos. homens maduros com mulheres muitos mais jovens. As diferenças no casal De fato. Os homens tendem mais a terem relações sexuais antes de desenvolverem uma relação afetiva. Isso não traz nenhum problema na sociedade heterossexual. antes. pois a homossexualidade masculina é mais heterogênea que a feminina: freqüentemente há entre os dois homens mais diferenças de idade. Um dos dois homens ou ambos se dirão então que não estão mais excitados pelo seu parceiro e procurarão outra pessoa que possa reascender os fogos apagados do desejo. nesse sentido. há na sensibilidade guei de nossa . os homens após os quarenta anos tendem a procurar parceiros mais jovens. parece haver um grande número de mulheres novas dispostas a manterem relações com homens mais velhos. Esse tipo de relação. pessoas com quem se tem afinidades reais. até com vinte anos de diferença. sejam eles homens ou mulheres. Não é fácil quando há tantos outros homens disponíveis. de alargar o repertório: de ter. desde o início. às vezes. na verdade. Historicamente. é que suas relações começam sempre a partir de um encontro sexual. As relações amorosas são. todo arranjo nesse campo dependerá sempre de uma comunicação honesta. enquanto as lésbicas se encontram geralmente em reuniões de amigas onde os meios são mais homogêneos. Isso se deve simplesmente aos lugares onde as pessoas se encontram: os homossexuais conhecem-se muitas vezes em lugares públicos (bares. a relação tenderá a se dissolver assim que a lua de mel chegar a seu fim — o que é inevitável. mais típica do gênero masculino: sociologicamente falando. as coisas não são tão simples. no mundo homossexual. Isso não é tão fácil. Poderíamos igualmente ver nesses casos um desejo de paternidade que faz com que o rapaz. por muito tempo considerada "típica" dos homossexuais masculinos é. Mas é indispensável fazê-lo. na qual se observa. de classe e de educação. Mas. passar do sexo para o amor. Em particular. Nesse tipo de relação. um pouco como o estudo da música: se pular as passagens difíceis. de alguma forma. seja adotado. nos quais as mulheres desejam mais ter uma ligação emocional antes das relações sexuais. mas em uma proporção menor) é. permanece importante: é a ligação entre um homem jovem e um outro muito mais velho. sempre que possível. Isso é menos freqüente nos casais femininos ou heterossexuais. trata-se. discotecas).

os homossexuais consideram que a velhice começa em torno dos sessenta e três anos. E também sempre existe o perigo de um dos dois se apaixonar por outro. Assim. Bennett e Norman L. solidariedade.). New York. Harrington Park Press. Esse tipo de relação. contudo. Então. as publicações científicas sobre a homossexualidade estão repletas de exemplos de casais desse tipo. Como as "bichas-loucas" e os casais masculino-femininos de antes. de qualquer ponto de vista que seja. é muito difícil ter uma relação igualitária nesse tipo de situação. “Accelerated aging and male homosexuality: Australian evidence in a continuing debate”. Essa disparidade no poder não é problema no mundo heterossexual. após os quarenta anos. é bem possível que as relações com uma diferença de idade importante incluam certa transação. Gay midlife and maturity. A diferença de idade nas relações masculinas tende. a diminuir hoje em dia: vêem-se cada vez menos casais formados por homens de gerações diferentes. Entre dois homens. Thompson (1991).137 época um culto ao corpo e à juventude que faz com que os homens deixem de serem objetos eróticos após os cinqüenta anos. Aquele que é mais jovem pode ter necessidade de ter relações sexuais mais freqüentes ou mais variadas. Um homem de quarenta e dois anos explica: Não gostaria de ter um parceiro mais velho do que eu. De fato. . Isso não surpreende: se 108 Keith C. Talvez seja preciso ver aí um arranjo que não é muito diferente daquele que prevalece em muitos casamentos heterossexuais. O problema é que os jovens não querem um homem de minha idade. na qual o homem mais velho oferece ao mais novo uma segurança material em troca de afeição e de sexo — exatamente. aliás. a relação clássica entre homens de idades diferentes ainda é uma modalidade em extinção na rica história da homossexualidade. mas cria outros. Em particular. no estatuto profissional e social e. entre os vinte e trinta anos. como em muitos casais heterossexuais. Em John Alan Lee (Ed. portanto. pois é considerada "normal" entre homens e mulheres. contudo. Isso dito. Ora. nos quais a relação sexual se torna cada vez menos importante em comparação com as outras dimensões da relação: amizade. problemas de rivalidade ou de luta para o poder e até mesmo "passagens ao ato" em que o homem mais novo se "rebela" contra seu parceiro mais velho. segundo uma pesquisa australiana. apresenta inúmeros problemas. O jovem pode parar de desejar seu parceiro. o homem mais velho pode se sentir desvalorizado (e ciumento. seja ela explicitada ou não. se os dois homens moram juntos. com seu dinheiro e segundo suas regras e seu estilo de vida. a menos que se possa pagá-los. nunca poderia me sentir atraído por um homem de cinqüenta anos. a dinâmica é diferente. e o casal se separar. Assim. Uma grande variedade de casais Esse rápido esboço dos diferentes tipos de casal masculino permite-nos constatar que não há relação "típica". Podem surgir ressentimentos. e uma vida conjugal e social que funciona ao benefício das duas pessoas. e invejoso) se seu parceiro mantém outras relações sexuais. Por sua vez. e sentir que tem o direito de exercer livremente sua sexualidade fora do casal. portanto. no poder. Quero alguém mais novo. Alguns autores até mesmo constataram um "envelhecimento acelerado" dos homens gueis. é uma relação que dura às vezes por muito tempo. criando assim uma relação essencialmente assexuada. que faz com que eles se sintam demasiado velhos para serem desejáveis mais cedo do que os heterossexuais. tornase muito difícil termos os parceiros sexuais que gostaríamos. em geral será no apartamento maior e mais confortável do homem mais velho. a diferença de idade acompanha-se freqüentemente de diferenças consideráveis nos salários. mas acreditam que são percebidos como velhos pelos outros homossexuais a partir da idade de cinqüenta e quatro anos em média108. Esse arranjo resolve certos problemas.

quando se casam. era previsível. Em especial. Na Europa pré-moderna e em muitas sociedades não ocidentais. Em outras sociedades. Por enquanto. Em contrapartida. seria mais clara se as pessoas soubessem exatamente o que esperar. não seriam aplicáveis a nossa cultura. Sem querer simplificar as coisas. Eis aí uma das grandes fraquezas do casal homossexual. mas os homossexuais não têm modelo preestabelecido. na qual todas as suas condições são discutidas e estipuladas antes de se chegar a um contrato. e a história e a antropologia nos oferecem ensinamentos preciosos. é o casal masculino que é o mais livre: desprendido das necessidades da procriação e do casamento. tem a oportunidade de ir além das limitações tradicionais da comunicação masculina. o casamento não inclui necessariamente nem o amor romântico. de agora em diante. o movimento das mulheres e a liberação guei mudaram todas as antigas normas regendo a sexualidade. Mas é possível. a partir do momento em que a contracepção. a possibilidade do divórcio. Mas há nesses casos uma negociação anterior ao casamento. imitando o casamento tal qual é vivido hoje. talvez achem no futuro a combinação entre estabilidade e liberdade que tantos dentre eles estão procurando.138 a relação heterossexual não tem mais modelo universal. . o casamento foi ou ainda é uma transação que visa objetivos e que é governada por outros critérios — que. não parece o modelo mais indicado para as relações homossexuais em sua grande variedade atual. mais a vontade do que o das mulheres. A decisão de formar um casal. atualmente muitos gueis aspiram a uma certa estabilidade de casal. ao mesmo tempo em que adquire uma série de direitos. que o amor não tenha mais necessidade de todos esses apoios (que eram também coerções) e que possa. no estado atual das coisas. está em condição de explorar novas formas de amor e de sexualidade. negociações que tornariam explícitas as regras do jogo. A relação de casal baseada unicamente no amor romântico ou na relação erótica. parece-me que negociações desse tipo não seriam uma má idéia para o casal homossexual. os direitos e as obrigações de cada um contribuiriam para evitar muitos mal-entendidos e desilusões. Isso. Os heterossexuais o sabem. aliás. e ainda mais de viver juntos. No passado. TEMAS DE REFLEXÃO PARA CONSOLIDAR O CASAL MASCULINO — A maioria dos exercícios aconselhados no final do capítulo 6 seria igualmente aplicável ao casal masculino. essas normas eram talvez necessárias para cultivar e sustentar a planta frágil que é o amor. não há razão para querer adaptar a relação masculina ao modelo do casamento heterossexual. Contudo. nem a monogamia. porque o casal homossexual teria um? Todas as modalidades tradicionais estão em plena evolução e é provável que continuemos a ver uma proliferação de tipos de casal e de família no futuro. Cada parte aceita nele obrigações e responsabilidades. e também uma de suas grandes forças. florescer mais livremente. a comunicação e o casamento. Modelos alternativos? A priori. mais ou menos. nem o engajamento à perpetuidade. a revolução sexual. por exemplo. Poderia haver outros modelos que levem em conta ao mesmo tempo a autonomia e a pluralidade sexual? Penso que sim. Se os homens gueis desenvolverem mais a intimidade e a cooperação no interior de suas relações de casal. aliás.

uma das duas cozinhas. haveria arranjos possíveis para evitar a mentira? — O que aconteceria ao casal se os dois homens decidissem ficar juntos para sempre? No que mudariam seu estilo de vida. sua relação sexual? Por quê? PRECAUÇÕES PARA O TERAPEUTA — Nunca tentar trazer o casal masculino para o modelo heterossexual. Mesmo que essas regras não sejam respeitadas. férias. limitando-se. contar-se (ou não) as aventuras fora do casal. nunca dormir fora. e assim por diante. — Mesmo que os dois homens não vivam no mesmo lugar. eles não vivem em um meio que respeitará esse tipo de arranjo. compras para a casa. a pessoas com quem se tem afinidades independentemente da orientação ou relação sexual. falar delas permitirá pelo menos aos dois homens expressarem suas necessidades e seus desejos. levá-las em conta e falar delas do que fazer de conta que elas não existem. ou para evitar a dependência ou a intimidade no casal? Haveria outras maneiras de se atingir o mesmo objetivo? — Como funcionaria o casal se os dois homens fossem monogâmicos? E. e dizerem o que esperam da relação.139 — Aos poucos (e não durante ou após uma discussão). E mesmo que os dois homens queiram coabitar como um casal casado estável e monogâmico. negociar algumas regras de base para a relação. — Para os homens que não vivem em casal: tentar serem mais seletivos na escolha dos parceiros sexuais. se possível. . Por exemplo: não paquerar quando se sai junto. — Para os homens que vivem em casal: perguntar-se para que servem na verdade as relações fora do casal: por exemplo. para se sentirem mais desejáveis ou menos sozinhos. a imitação forçada desse não resolverá necessariamente os problemas da relação. se não. uma das duas salas de estar. criar um fundo comum (com participação igual. não ter relações sexuais com outro no espaço que coabitam. — Para consolidar o engajamento do casal: mesmo que os dois homens mantenham suas finanças separadas. tentar acomodar um espaço comum: um dos dois quartos. sua comunicação. que seja decorado junto e reservado se possível para a relação de casal. se possível) destinado a atividades de casal — viagens. Vale mais reconhecer as realidades da cultura guei.

sentindo repulsa pelo seu corpo e pelos seus órgãos genitais. coisa "possível" desde o aparecimento dos hormônios sexuais sintéticos nos anos 60. e não diferem em nada do resto da humanidade do ponto de vista biológico. como também não o são os homossexuais. identificam-se a partir de sua infância com o outro sexo. 1996. chap. normalmente. geralmente não têm atividade sexual. em sua imensa maioria. estão convencidos de que pertencem. eles seguem tratamentos hormonais e se operam para mudarem suas características sexuais 109 Ver Francis Mark Mondimore. em um número ínfimo de casos (pois os custos e os critérios de seleção são proibitivos). ou de uma realidade até agora pouco entendida? Essas questões. O que a bissexualidade não é Talvez devêssemos começar por dizer o que a bissexualidade não é. ao outro. seja como heterossexuais? Trata-se de um mito. muito raros (um em cada trinta mil homens e uma em cada cem mil mulheres109). Há indivíduos. claro. como o pretendem os militantes e os teóricos da bissexualidade? Outras questões surgem: como as pessoas sabem que são bissexuais. A palavra existe. mas os bissexuais não são hermafroditos. As pessoas bissexuais não são bissexuadas: são inteiramente masculinos ou femininos. Os bissexuais também não têm nada a ver com os transexuais que. ocupa um lugar privilegiado na mitologia. nascemos bissexuais? E se sim. de uma moda. Então. na verdade. Baltimore. Ela não tem nada a ver com o conceito biológico da bissexualidade. que possuem ao mesmo tempo órgãos reprodutores masculinos e femininos. até mesmo é muito comum nela. A natural history of homosexuality. como podemos amar duas pessoas ao mesmo tempo? Qual caminho é preciso percorrer para chegar aí? Ou então. É o caso da maioria das plantas com flores e de muitos invertebrados. será que encontraremos um dia um "gene da bissexualidade"? É verdade que todo mundo no fundo é bissexual? Então por que. as condutas existem. Mas há. Esses indivíduos. ideológico. A bissexualidade existe de fato na natureza. um número crescente de pessoas que se definem bissexuais no mundo inteiro. Freqüentemente são obcecados pela idéia de mudarem de sexo. publicações.140 CAPÍTULO 9 A MIRAGEM DA BISEXUALIDADE Muitos autores escreveram que todos nós somos bissexuais. Mas será que se trata de uma orientação sexual alternativa. de um tipo de terceira via na ordem sexual. E outros dizem que a bissexualidade não existe. nas fantasias e nos sonhos da humanidade. páginas da Internet e camisetas para bissexuais. . 13. Mas. sociológico e. no plano afetivo. raríssimos. e não homossexuais ou heterossexuais? Não são simplesmente uns indecisos? Como podemos nos sentir atraídos pelos homens e pelas mulheres ao mesmo tempo? E. A bissexualidade é difícil de entender em vários planos: semântico. sem dúvida nenhuma. as pessoas se definem seja como homossexuais. The Johns Hopkins University Press. no qual as plantas e os animais são ditos bissexuados quando possuem ao mesmo tempo órgãos reprodutores masculinos e femininos. que podem parecer absurdas à primeira vista. e que são chamados "hermafroditos". associações. desde sempre. Há manifestações. na arte. apesar de terem os atributos físicos de um sexo. não há equivalente no ser humano. E a bissexualidade. refletem bem a complexidade da coisa. Outros escreveram que ninguém é bissexual. psicológico.

Ele pode ser heterossexual. Nos últimos cento e cinqüenta anos houve uma proliferação impressionante das categorias e das definições aplicadas à sexualidade humana. se vestem. passando. o único modo para os homens terem relações sexuais com outros homens sem serem taxados de homossexuais. podiam se libertar sem perigo das coerções de sua época. com funções sociais que variam conforme o contexto. Nada a ver com os bissexuais. Mas a primeira é um fenômeno pessoal que concerne à escolha de objetos amorosos ou sexuais: ama-se ou deseja-se pessoas de ambos os sexos. não têm nenhuma vontade de mudá-lo e têm relações sexuais "normais" — mas com pessoas de ambos os sexos. e alternar livremente entre relações homo e heterossexuais. É o caso da bissexualidade. sempre existiu. sempre houve indivíduos mantendo relações sexuais e amorosas com ambos os sexos: a história está repleta deles. . É preciso também não confundir os bissexuais com os travestis. provavelmente houve entre eles pessoas que. Esses. nesse caso. Podemos supor que todos (ou quase todos) os fenômenos assim descritos existiam antes. A travestilidade não é. é um fato mais cultural (e não psicológico). Um grande número de personalidades da política. de artistas e de escritores teve relações íntimas e importantes com ambos os sexos. maquiagem feminina e um corte de cabelo unissex. que teve relações sexuais com uma mulher. mas que tinham outras funções e outras significações. claro. mas em contextos e com conotações muito diferentes dos nossos. homossexual. pois. não poderíamos falar de uma autêntica bissexualidade. A bissexualidade e a androginia são também coisas muito diferentes: as duas estão em moda e parecem. assim como os bissexuais podem adotar uma aparência plenamente masculina. Mas. às vezes. a bissexualidade teve significações rituais ou religiosas em uma grande variedade de culturas. gostariam de adquirir certos traços do outro sexo — mas sem transformar seus corpos. em paises ou meios homofóbicos. mas também cultural. Esses homens e mulheres talvez fossem. Com efeito. por meio de hormônios). na verdade. desde a Antigüidade até a era contemporânea. eles se denominam. se comportam e formam relações amorosas com outros homens como se pertencessem ao sexo oposto. que se identificam plenamente com o seu sexo. em uma bissexualidade escolhida e não imposta. como os transexuais. ou bissexual.141 secundárias. A androginia. ou para ganharem a vida no mundo do espetáculo. e até mesmo chegam a esconder seus órgãos genitais de tal forma que um outro homem possa pensar. A própria palavra só apareceu no século XIX. Um indivíduo andrógino pode assim combinar roupas masculinas. Portanto. sob certas condições. graças a sua situação social. à primeira vista. em contrapartida. A travestilidade é. mas o fenômeno ao qual se refere sempre existiu. Pode obedecer a critérios ou objetivos sexuais diversos: há homens que se fantasiam de mulheres para se prostituírem. pelo Renascimento. Geralmente de sexo masculino. através da cirurgia ou dos hormônios. feminina ou andrógina. Isso dito. para se divertirem. apenas um fenômeno psicológico. Fazem tudo que é possível para se parecerem com as mulheres por meio da maquiagem e da depilação (e às vezes. isto é. é certo que muitos andróginos aproveitam sua aparência ambígua para atrair ao mesmo tempo homens e mulheres — mas isso não significa que eles se sintam atraídos por ambos os sexos. Todas essas distinções são importantes para evitar as confusões e para mostrar que existe uma classificação ao mesmo tempo vasta e precisa dos costumes sexuais. Enfim. derivar de uma certa indiferenciação dos sexos. seus órgãos genitais e sua aparência. no qual uma pessoa se apropria dos traços que considera desejáveis nos dois sexos: gosta de parecer homem e mulher ao mesmo tempo. homossexuais que se casavam por interesse ou obrigação.

Nessa perspectiva é preciso se desfazer das etiquetas tradicionais. os militantes e teóricos da bissexualidade sublinham o fato de que as orientações tradicionais – heterossexualidade e homossexualidade – não são tão incompatíveis quanto se pensava. pode se descobrir uma atração ou um amor contrário a sua orientação habitual. pode. Uma vez colocada a possibilidade teórica e cultural da bissexualidade. Nessa ótica. há nessa autodesignação um elemento de rejeição em relação às duas orientações reconhecidas pela sociedade: os bissexuais definem-se por oposição às categorias de homossexual e de heterossexual que eles sentem muito restritas. ou conforme as etapas da vida. ou terem relações sexuais. Os textos programáticos das associações bissexuais na Europa e nos Estados Unidos proclamam que eles não são nem uma nem outra. Em particular. contudo. as pessoas podem mudar de orientação conforme suas necessidades ou desejos. mas que ela pode variar através do ciclo vital.142 O conceito de bissexualidade Os bissexuais de hoje definem-se melhor como pessoas que podem se apaixonar. justamente. primeiramente nos Estados Unidos e depois na Europa. é a partir dos anos 70 que começam a aparecer. na qual se é ou heterossexual ou homossexual. se definir como tal. Assim. e a defenderem a causa dos bissexuais — antes de tudo. a heterossexualidade não é mais a única orientação permitida. mas que representam uma terceira opção tão válida quanto às outras. como a bissexualidade. De fato. Não se nasce heterossexual nem homossexual. Por outro lado. cada um destes três elementos — sentimentos. desejos e condutas — é uma condição necessária e suficiente para se considerar bissexual. De fato. seu direito a serem reconhecidos enquanto tais. e a visão binária da sexualidade em geral. Apresentam nesse sentido dois argumentos principais. do que se pensava. E isso prova bem que a orientação sexual não é fixa. muitas pessoas se reconheceram nela e começaram a trabalhar para construir uma comunidade. e nunca se é ancorado em uma orientação ou outra de modo definitivo — mesmo tarde na vida. porque a ordem sexual tradicional impõe uma visão binária da sexualidade. até mesmo um indivíduo que nunca teve relações sexuais com alguém. quando as condições sociais. Isso só se torna possível. e as categorias muito mais permeáveis. os militantes e teóricos da bissexualidade apóiam-se nas pesquisas em sexologia que demonstram que a orientação sexual é muito mais fluida. Se essa nunca foi reconhecida como tal é precisamente porque está entre duas ordens: ela é invisível. pode variar. o que aconteceu no decorrer da revolução sexual. Graças a essa liberdade social e psicológica. Uma orientação sexual variável Em primeiro lugar. associações consagradas a promoverem espaços de diálogo e de encontro. mais ou menos indistintamente. e a homossexualidade não é mais a única alternativa: pode haver outras. claro. A autodefinição é central na bissexualidade — o que é normal se considerarmos que os bissexuais buscam. Para isso. ideológicas e pessoais o permitem. a partir do momento em que a sociedade deixa de prender as pessoas em uma "heterossexualidade obrigatória". Graças à evolução dos costumes. Mas sua invisibilidade não a torna menos real. se sentirem atraídos. elas se erigem contra as interpretações tradicionais da bissexualidade. sustentam que a orientação sexual não é "dada" de uma vez para sempre a partir da infância. e a existência da bissexualidade em particular. Inúmeras pesquisas desde os trabalhos de Kinsey nos . e na qual essas se libertam das coerções de uma visão binária. para poder apreciar a riqueza da sexualidade em geral. libertarem-se das etiquetas impostas pela sociedade e conceituarem a orientação sexual de uma maneira radicalmente nova.

Mas observa-se igualmente uma certa permeabilidade do desejo. Les comportements sexuels en France. de fato. 111 Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993). claro. Kinsey tinha descoberto que 13% das mulheres e 37% dos homens americanos haviam tido pelo menos uma vez contatos homossexuais indo até o orgasmo. 112 Martin S. nos estágios primitivos da sociedade e nos primeiros períodos da história. Samuel S. XVII. Vol VII. Chicago. Lauman. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. essa bissexualidade "original" não subsiste (ou não deveria subsistir) na idade adulta: as vicissitudes do desenvolvimento psicossexual fazem com que as pessoas acabem por se tornarem ou heterossexuais ou homossexuais. New York. Com comentários e notas de James Strachey. Pryor (1994). Dual attraction. a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos114". Essas estatísticas só correspondem. John H. 115 Idem. Outros estudos americanos encontraram números que vão de 6% da população até 17% das mulheres e 22% dos homens. afinal de natureza química. John Wiley and Sons. Williams Colin e Douglas W. Pode certamente existir. . a psicanálise considera que a escolha de um objeto. do ponto de vista da psicanálise. p. The Janus report on sexual behavior. 114 Sigmund Freud (1905). E nesse caso. uma parte de "heterossexualidade obrigatória". na qual um grande número de pressões sociais. Escreveu igualmente: “Em todos nós. Direção da Edição Brasileira. Michael e Stuart Michaels (1994). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. New York.6% das mulheres contam ter tido pelo menos um contato sexual com alguém de seu sexo biológico no decorrer de sua vida. 150-151. às práticas. Homosexualités. o interesse sexual exclusivo de homens por mulheres também constitui um problema que precisa ser elucidado. masculinos e femininos. Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Martin S. baseado em uma atração. no decorrer da vida. Não há nenhuma dúvida de que se elas levassem também em conta o número de pessoas que se sentiram apaixonadas ou que sentiram atração sexual por alguém do mesmo sexo. se desenvolvem tanto os tipos normais como os invertidos. e "uma medida muito considerável de homossexualismo latente ou inconsciente pode ser detectada em todas as pessoas normais115”. Estima-se.1% dos homens e 2. Paris. Gagnon. J. Weinberg. Jayme Salomão. Mas a bissexualidade não se limita aos heterossexuais que apresentam condutas. Jayme Salomão. é a base original da qual. Com comentários e notas de James Strachey. 4. A atitude sexual definitiva do indivíduo não se define senão depois da puberdade e é o resultado 110 Ver Edward O. têm às vezes desejos ou sentimentos heterossexuais. Oxford University Press. que postulou "uma bissexualidade original em todo indivíduo humano113". Direção da Edição Brasileira. Robert T. embora menos de 10% os concretizem112. como conseqüência da restrição num ou noutro sentido. University of Chicago Press. Weinberg (1980). para Kinsey. independentemente de seu sexo – que recai igualmente em objetos femininos e masculinos – tal como ocorre na infância. Contudo. nesses casos. o termo aplica-se também aos homossexuais que se sentem atraídos por pessoas do outro sexo biológico.143 anos 40 e 50 mostraram que uma minoria significativa da população heterossexual se sente também atraída por pessoas do seu próprio sexo. Como Freud o explica: Ao contrário. Ver também Alan P. Bell. Janus (1993). e 4% dos homens e 2. familiares e culturais converge para promover a relação heterossexual. mas também para Freud. The social organization of sexuality: Sexual practices in the United States. Paris. 113 Sigmund Freud (1920). La Documentation Française. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. que nos traz de volta. Eduardo Salomão. Assim. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. para Freud. que entre 30% e 40% dos homossexuais. éditions Albin Michel. 136-140. Janus e Cynthia L. Vol.5% das mulheres citam práticas com pessoas de ambos os sexos111. para aqueles que tiveram relações homossexuais na idade adulta110. contudo. p. seriam muito mais elevadas. Eduardo Salomão. Na França. desejos ou sentimentos homossexuais. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. os números são ainda mais elevados. pois não é fato evidente em si mesmo.

Assim. Vol VII. As pessoas que vivem esse tipo de transformação (que pode acontecer até mesmo tarde na vida) explicam que elas puderam desenvolver. É simultânea. nem todos ainda conhecidos: alguns são de natureza constitucional. e as circunstâncias da vida podem as levar a escolhas de objetos diferentes. bem como do sexo oposto. Jayme Salomão.144 de numerosos fatores. aspectos de sua personalidade ou de sua sexualidade contra os quais sempre haviam lutado. mas permanecem bissexuais ao longo do ciclo vital. além do mais. e se as pessoas não contém mais seus desejos. Em contrapartida. se a sociedade permite a experimentação e uma grande variedade de alternativas. ou dos quais nem mesmo suspeitavam a existência. tendo relações sucessivas com homens e mulheres em diferentes épocas. mas pode mudar. quando um indivíduo mantém relações com ambos os sexos ao mesmo tempo. Jayme Salomão. fazer uma distinção entre dois fenômenos diferentes. (Nota de rodapé acrescida em 1915 – Na edição impressa pp. são acidentais. lembramo-lo. e as duas orientações possíveis são normalmente incompatíveis entre elas. sem que uma das inclinações interfira na outra. Os teóricos atuais da bissexualidade aproximam-se dessa posição. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. inúmeros autores a viram como uma defesa — seja contra a homossexualidade. Com comentários e notas de James Strachey. A bissexualidade sucessiva é mais fácil de entender: as pessoas evoluem. A mais comum sempre foi a de dizer que a bissexualidade não existe enquanto tal. Eduardo Salomão. Essa posição foi muitas vezes. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. porém. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. como se pode manter relações com duas pessoas ao mesmo tempo? Diversas explicações foram sugeridas desde o século passado. a bissexualidade simultânea é mais complicada. 117 Sigmund Freud (1937). incompatíveis). Direção da Edição Brasileira. nelas próprias. porque implica que um indivíduo pode se sentir atraído pelos homens e pelas mulheres. e continua a ser. A bissexualidade é sucessiva. em primeiro lugar. isso coloca um problema: como se pode ser ao mesmo tempo homossexual e heterossexual? E. 116 Sigmund Freud (1905). No segundo. a homofobia interiorizada impede a pessoa de reconhecer que é homossexual e faz com que ela se considere bissexual. o homossexual que tem tendências heterossexuais se defende contra elas ao se definir bissexual. Interpretações tradicionais Que formas pode tomar a bissexualidade nos adultos? É importante. ele escreve: É bem sabido que em todos os períodos houve. como ainda há. adotada pelos homossexuais que vêem nos bissexuais uma traição em relação a sua "verdadeira" orientação — que é a homossexualidade. quando afirmam que certas pessoas não se tornam nem heterossexuais nem homossexuais. Direção da Edição Brasileira. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira. Vol XXIII. No primeiro caso.116 Portanto. Análise terminável e interminável. Com comentários e notas de James Strachey. então a bissexualidade sucessiva não tem nada de surpreendente. quando um indivíduo mudou de orientação uma ou várias vezes em sua vida. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Se a orientação sexual não é "dada" desde a infância.146-147). duas orientações possíveis que são. . todo mundo não o permanece. assim. os outros. seja contra a heterossexualidade. Contudo. Na abordagem tradicional (na qual só há. Eduardo Salomão. pessoas que podem tomar como objetos sexuais membros de seu próprio sexo. e se ligar a duas pessoas ao mesmo tempo. Chamamos tais pessoas de bissexuais e aceitamos sua existência sem sentir muita surpresa sobre elas117. em nível afetivo. se para Freud todo mundo é bissexual na origem.

Em casos extremos. não leva em conta a experiência das pessoas que transitam em um sentido e depois no outro uma ou várias vezes. Illinois. 106. Alguns autores falam também de uma bissexualidade acidental. E enfim. unicamente para confirmar sua identidade masculina ou feminina e para preservar as aparências em relação à sociedade. ao postulá-las como estados definitivos e ao reduzir a um simples acidente de percurso um fenômeno que parece muito mais complexo. Nesses casos. Tal interpretação geral apresenta. e das relações complexas entre eles. Qualquer orientação sexual contem elementos de todas as outras. o homem que desenvolve o papel ativo considera-se plenamente "viril" e. A bissexualidade pode também ter uma dimensão de ratificação do gênero: muitas pessoas que são. mas não param por isso de desejar pessoas de seu sexo e até mesmo de manter relações íntimas com elas. heterossexual. e que um terço delas foi casada 118 . Apresentam-se assim as condutas. na realidade. É aqui que intervém o que a poetisa e feminista americana Adrienne Rich chamou de "a heterossexualidade obrigatória". de fantasias e de desejos "proibidos". Lesbian Psychologies: Explorations and challenges. Talvez seja aqui que seria preciso colocar a bissexualidade de muitos homens nos países do terceiro mundo ou nos paises islâmicos conservadores. e em outros. e sem muito prazer. continua a colocar uma dicotomia entre homossexualidade e heterossexualidade. certos homossexuais (sobretudo as mulheres) são literalmente obrigados a se casarem. a meu ver. Nessa lógica. com certeza. dois problemas. a meu ver. “Lesbian sexuality: Issues and developing theory. University of Illinois Press. No inconsciente. sem por isso se considerarem bissexuais. ou a elas mesmas. uma lésbica se sinta atraída pelos homens. na qual muitos homens têm relações sexuais tanto com homens quanto com mulheres. se se trata de uma autêntica bissexualidade. que é muito comum na América Latina e na Ásia. inclusive uma infinidade de sentimentos. . falar de uma falsa bissexualidade — porque foi imposta e não escolhida. portanto. por exemplo. na vida afetiva e sexual.145 Essa abordagem.” Em Boston Lesbian Psychologies Collective. Poderíamos nos perguntar. homossexuais mantêm relações com o sexo oposto. Poderíamos dizer que a bissexualidade foi uma transição nesse caso — mas. p. de algum modo. A bissexualidade pode servir de transição em certos casos. Há também a bissexualidade da qual falamos em capítulos anteriores. 118 Margaret Nichols (1987). Denega a importância das fantasias. contudo. Em uma outra explicação da bissexualidade. e se as lésbicas em questão (como muitas mulheres) não tiveram relações sexuais com homens simplesmente por conformismo ou por obrigação. não explica a experiência das pessoas que permanecem bissexuais durante anos ou a vida toda. essa constitui uma fase de transição entre heterossexualidade e homossexualidade ou vice-versa. Um outro elemento importante. demasiadamente simplista. Em segundo lugar. mas não a autodefinição da bissexualidade. dos desejos e dos sentimentos. suscitada por circunstancias particulares — por exemplo. ninguém é exclusivamente homossexual ou heterossexual: todas as orientações coexistem independentemente da maneira com a qual o indivíduo se define. a falta de opções heterossexuais. que se considere portanto bissexual e que "chegue" um dia a uma relação heterossexual. 90%) teve relações heterossexuais. onde os costumes tornam difíceis as relações heterossexuais fora do casamento. não. poderíamos. Em primeiro lugar. Em tal transição é possível que. é que a maioria das lésbicas (segundo um estudo americano. não em todos os casos. a sua família. que faz da bissexualidade uma defesa contra uma orientação sexual mais "autêntica" é.

e que. talvez pudéssemos falar de uma bissexualidade "ideológica" ou "política". concluiu que a bissexualidade. na qual a pessoa faz literalmente abstração do sexo da pessoa amada. acompanhados de transformações sociais e econômicas profundas. Assim. Nesse último caso. A bissexualidade nas mulheres Parece de fato haver modalidades diferentes da bissexualidade nos homens e nas mulheres. é bem possível se apaixonar por alguém independentemente de seu sexo: formam-se relações com pessoas. é natural que ele se sinta atraído pelos dois sexos. Mas será provavelmente cada vez mais comum no futuro. . Uma bissexual que teve relações importantes com homens e com mulheres explica: Apaixonei-me por minha parceira atual não por causa de seu sexo. a autodefinição é extremamente importante na bissexualidade. e depois alargaram seus horizontes afetivos e sexuais para incluir indivíduos do mesmo sexo119. da liberação guei e do movimento das mulheres. Muitas feministas. Poderíamos também falar de uma bissexualidade "abstrata". e não com homens ou com mulheres. De fato. apesar de o número mais elevado de contatos homossexuais nos homens. Muitos homens e mulheres não se satisfazem mais com as relações tradicionais entre os sexos. e que as relações entre os sexos são difíceis nesse momento: vivemos uma crise importante do casal heterossexual. e vice-versa. nem homossexuais nem heterossexuais. a bissexualidade. sobretudo entre os jovens. temos aí um fato interessante: os homens e as mulheres não o fizeram pelas mesmas razões. em especial. em geral. Enfim. E. Nessa abordagem. E há jovens que se dizem bissexuais sem nunca terem tido experiências sexuais. retomada pela corrente New Age. me apaixonaria exatamente da mesma forma. Esse tipo de discurso corresponde evidentemente a um certo contexto cultural e seria provavelmente inaceitável para a maioria das pessoas. Não há nenhuma dúvida de que a instituição do casamento está em crise. sem se considerarem bissexuais. é alguma coisa que vem se acrescentar à heterossexualidade. há pessoas que se consideram bissexuais sem nunca terem tido relações fora de sua orientação habitual. Como o veremos um pouco adiante. e buscam alternativas: uma delas é. Essas têm muito mais chances de passar da heterossexualidade para a homossexualidade. talvez fosse inevitável que a bissexualidade aumentasse rapidamente a partir da revolução sexual. uma mulher tem mais chances de se apaixonar por uma outra mulher do que um homem por um outro homem. justamente. Esse tipo de raciocínio tornou-se muito comum desde a revolução sexual e a liberação guei. Se ela fosse homem. feito em São Francisco nos anos 80. A maioria das pessoas interrogadas foi primeiramente heterossexual. nas mulheres. mesmo nos paises industrializados. portanto. segundo a qual todo ser humano tem componentes masculinos e femininos. um estudo aprofundado de cem bissexuais que se definem como tais. ou mais flexível.146 A dimensão ideológica Ora. Por quê? 119 Ver Dual attraction. Há muitos homens e mulheres que têm relações sexuais com os dois sexos. As pesquisas nesse campo mostraram que a orientação sexual é muito mais instável. As pesquisas sobre a bissexualidade parecem confirmar essa idéia. na qual certas pessoas (sobretudo nos países industrializados) adotam a etiqueta unicamente por princípio ou por convicção política. Mas. encontram-se nessa situação. Uma variação sobre esse tema é a idéia jungiana. um número significativo de heterossexuais se voltam para ela procurando preencher as lacunas que sentem no interior do casal. mas por causa de sua personalidade.

Sendo assim." “Partilho mais coisas com as mulheres. O homem sempre quer dominar no ato sexual. Encontrei nas mulheres o mesmo ciúme. estão mais preparadas para se ligarem a uma pessoa que satisfaça as suas necessidades emocionais. mais recíproco. menos orientada para o genital. Identifico-me mais com elas. ou de criá-los em um contexto heterossexual.366. não. que poderia ter com elas relações mais livres. exprimem uma certa recusa da dominação masculina 120. não sabia que podíamos ser ambos. mais tenra e também mais igualitária: sentem-se menos em uma posição de "submissão" do que com os homens. como vimos em capítulos anteriores. Enfim. dão mais importância à ligação afetiva do que à relação sexual. mas não pelo universo marginalizado da homossexualidade. a relação sexual com os homens. claro. Uma bissexual de quarenta e seis anos conta: Sou bissexual porque me sinto sexualmente atraída pelos homens e pelas mulheres. As pesquisas sobre a bissexualidade feminina confirmam essas hipóteses. essa ligação afetiva pode evoluir em direção a uma relação sexual que nunca teria acontecido de outro modo. há mais paixão. Muitas bissexuais. p. Os homens são mais previsíveis. se elas gostam tanto das mulheres. há mais ternura. em geral. pensava que podíamos ser ou homossexual. Pensava que as mulheres teriam menos preconceitos. Com os homens. interesses e atividades em comum.147 Vários autores observaram que as mulheres. O que as mulheres heterossexuais procuram. a mesma possessividade. do que nos homens. Elas têm mais afinidades. e depois com as mulheres aos vinte. com suas preocupações e com sua atitude em relação à vida. Gosto também do fato de que elas mudam. Apreciam igualmente nas mulheres uma sensibilidade. Um outro elemento importante é a igualdade na relação com uma mulher. e também mais igualitário. Não tenho amigos homens — o desejo sexual é mais importante com eles. são de fato coisas que lhes faltam na heterossexualidade. eles me entediam. muitas mulheres desejam relações de casal mais igualitárias do que as que podem ter. em um contexto heterossexual. Na cama.” 120 Ibid. uma comunicação e um entendimento afetivo que lhes faltam com os homens. independentemente de seu sexo biológico. muitas mulheres buscam uma relação sexual mais delicada. quando estabelecem relações com outras mulheres. mais pessoal. a possibilidade de terem filhos. As bissexuais interrogadas no estudo citado acima contam que encontram em suas relações homoeróticas uma maneira mais "sensual" de ter relações sexuais. Depois. menos apressada. Durante muito tempo perguntei-me se era lésbica. é mais delicado com uma mulher. E. Mas encontrei exatamente as mesmas relações. por oposição aos papéis estereotipados masculino-feminino e aos desequilíbrios no poder que elas conheceram em suas relações heterossexuais. É igualmente possível que se sintam atraídas pelas mulheres. e a idéia de dormirem com uma outra mulher pode atraí-las nesse sentido. as vantagens sociais e econômicas da heterossexualidade e. Comecei a ter relações sexuais com homens aos dezesseis anos. Com as mulheres. Então por que. em alguns casos. . do que a que existe entre os homens ou entre os dois sexos. "Foi somente aos trinta anos que enfim decidi que era bissexual. posso ter uma amizade independentemente da atração sexual — com os homens. Nessa época. com as mulheres . em geral. e explorei o mundo lésbico — mas não gostei dele. não se tornam definitivamente lésbicas? Porque lhes faltam. segundo a mesma pesquisa. por um outro lado. Não é por acaso que os melhores amigos das mulheres são geralmente outras mulheres. Dei-me conta de que não era para mim.. ou heterossexual. a comunicação entre mulheres é mais íntima. menos apressada e "genital" do que a que têm com os homens.

” “Meus melhores amigos são mulheres. os homens bissexuais buscam em suas relações com outros homens as seguintes coisas que lhes faltam em suas relações heterossexuais: relações sexuais mais freqüentes. Portanto. . não é totalmente verdade que a escolha de objeto seja indiferente. Encontro nelas uma compreensão. sociais e ideológicos que faz dela uma opção talvez "ideal". tem seus ciclos. abrir o leque de possibilidades. e lhes faltam a estabilidade e os filhos do casal heterossexual. a bissexualidade parece corresponder a uma clivagem entre os campos afetivo e sexual: o desejo leva a pessoa em uma direção. que encontram com outros homens. Por que não se tornam homossexuais. Para mim. Não tenho equivalente masculino em minha vida. é como a agricultura: você cultiva a relação.” A bissexualidade nos homens Por seu lado. É preciso que seja aberta e honesta. A única coisa que é inconcebível para mim. É muito importante para mim eu ter muitas opções. As pessoas que tiveram efeitos duráveis sobre mim. assim como afinidades mais importantes. e quando a pega. é como se partes deles mesmos entrassem em relação com partes de seus parceiros. O número de mulheres com quem eu poderia me relacionar é muito restrito. Enquanto com os homens tenho muito mais interesses em comum. que não implicam necessariamente o engajamento afetivo nem as responsabilidades inerentes às relações heterossexuais. acabou. há também um aspecto tribal que é muito excitante. vê seus frutos.” Vemos assim que a bissexualidade não é somente uma questão de erotismo. mais intensas e mais variadas. freqüentemente impessoais. A bissexualidade parece-me a escolha ideal. É com elas que tenho mais continuidade e constância na amizade — tenho com elas relações muito mais duradouras do que com os homens. foram mulheres. no plano sexual. que mudaram minha visão de mundo. seria preciso alguém muito especial. mas momentâneas. É uma relação mais profunda e mais prolongada. perde o interesse. mais do lado das mulheres. Contudo. ou que os bissexuais possam entrar em relação indistintamente com um ou outro sexo. Opinião de um bissexual de cinqüenta e dois anos: Tenho um leque muito maior de possibilidades com os homens. Não sou monogâmica. o afetivo. você sabe exatamente como funciona a sensualidade do outro. Com as mulheres.148 “Sempre tive aventuras paralelamente às minhas relações. mas certamente complexa e difícil de viver. simplesmente? Porque sentem também a necessidade de relações mais íntimas do que aquelas. Com meus amigos tive relações muito intensas. Eles têm relações muito diferentes com os dois — ou melhor. Diferentes tipos de bissexualidade Em casos como o último citado. homens ou mulheres. a maioria das minhas fantasias sexuais é com homens. Os homens são como a caça: você vai à procura de uma presa. Compreende uma série de elementos afetivos. Apreciam a liberdade que suas relações masculinas lhes oferecem. e depois a vê crescer. como a natureza. cuida dela. É como se os dois sexos respondessem a camadas ou a necessidades divergentes da personalidade. o sexual e a estética encontram-se do lado dos homens. uma confiança e uma aceitação que são muito gratificantes. O problema com os homens. com ambos os sexos. Depois. e a afinidade emocional na outra. é ter uma relação baseada na mentira. que influenciaram minha personalidade e meu modo de ser. é que dura pouco.

mas sempre presente de nossa paisagem interna e de nossa identidade profunda. de um modo mais ou menos abstrato. uma certa frustração: as relações permanecem mais ou menos superficiais. formam uma parte escondida. Como corolário. há as pessoas que se consideram bissexuais somente no plano imaginário. Contudo. e diz respeito. mesmo que nunca tenham tido relações fora de sua orientação habitual. as mulheres porque são mulheres. é menos freqüente que a primeira. em nossos sonhos e em nossas fantasias. Não há nenhuma dúvida de que essa ocupa um lugar central nessa bissexualidade potencial ou latente. é preciso se lembrar da enorme importância do desconhecido e do proibido na vida psíquica e sexual. dos quais só percebemos. Outras foram apaixonadas fora de sua orientação habitual. a bissexualidade que compreende ao mesmo tempo encontros sexuais e relações afetivas é muito mais complexa. provavelmente a um perfil psicológico e a uma história pessoal e familiar bastante particulares. É provavelmente a razão pela qual essa forma de bissexualidade. ao mesmo tempo afetiva e sexual. em longo prazo. de vez em quando. Quando esse tipo de bissexual está em relação com uma pessoa de um sexo. e quando se volta para o outro.149 Talvez fosse necessário fazer aqui a distinção entre vários tipos de bissexualidade: uma puramente sexual. desenvolver-se um esquema recorrente. à amizade. observa-se uma falta de engajamento afetivo em todas as relações. já que se limita ao sexo e. e homossexuais que imaginam aventuras heterossexuais. Essas três modalidades são muito diferentes entre si. Geralmente não há engajamento afetivo importante. Do que se trata? Para entender esse tipo de bissexualidade. Os dois sexos lhe agradam por diferentes razões: os homens porque são homens. Implica também um problema de identidade pessoal e social mais ou menos constante: é difícil assimilar. o fato de ter relações com homens e mulheres ao mesmo tempo. mas somente no plano da imaginação. uma certa frustração. mas se ligam afetivamente apenas com um deles. e explicar aos outros. Há pessoas que estabelecem relações sexuais com os dois sexos. Esses vastos continentes do inconsciente. No primeiro caso. faltam-lhe aspectos do primeiro. trata-se provavelmente do tipo de bissexualidade mais comum. faltam-lhe elementos do outro. quando encontra problemas de casal. sejam heterossexuais. acredita que é por causa do sexo da outra pessoa. e aos ritmos rápidos e impessoais da sedução em nossa época. E também. Por isso também. sem procurar . que não querem (ou não podem) desenvolver uma ligação emocional com qualquer pessoa. Enfim. e uma última que poderíamos qualificar de imaginária. sejam homo. corresponde à ideologia da revolução sexual e do consumismo desenfreado. mas simplesmente diferentes maneiras de passar um bom momento. Em contrapartida. Contudo. Baseia-se igualmente em um contexto social e cultural que encoraja (ou pelo menos permite) uma certa flexibilidade psíquica. e vê-se. sem nunca passarem à prática. às vezes. uma outra ao mesmo tempo afetiva e sexual. Limites da bissexualidade Nesse último caso (que talvez seja o mais comum). É por causa deles que muitas pessoas se consideram bissexuais. Esse tipo de bissexualidade não coloca demasiados problemas. às vezes. E existem os bissexuais que têm relações sexuais com homens e mulheres sem nunca se apaixonarem por ninguém. Muitas pessoas têm fantasias eróticas contrárias a sua orientação habitual: há heterossexuais que imaginam encontros homossexuais. existe uma modalidade que não se vive nem no plano das práticas nem no dos sentimentos. o fato de imaginar a bissexualidade sem nunca a concretizarem pode trazer. uma pessoa pode desejar e ter uma relação erótica satisfatória com homens e mulheres. os vagos contornos. Implica a possibilidade de se apaixonar por um homem ou por uma mulher. De fato.

é porque é uma mulher. No caso da bissexualidade. ou mantêm relações simultâneas com homens e mulheres. Mas pode também constituir uma resposta superficial que não engaja ninguém. seus amigos são homens gueis com quem têm relações sexuais de vez em quando. então. bastante freqüente. 90% têm relações "abertas" 121 . estabelece relações parciais que lhe permitem satisfazer diferentes necessidades. É sempre sério. se tiver problemas com um homem. Assim. é porque é um homem. e não há problemas.. elas sempre querem se casar ou ter filhos. e dificilmente por uma mulher. 121 122 Ver Dual attraction. Portanto. significa “chave para todas as fechaduras. O que conta mais para ele é a amizade e o sexo ocasional com muitos parceiros. esconder confusão pura e simples. mas me dou melhor com os homens. Não acho que eu poderia me apaixonar por um homem. constitui em geral uma solução de facilidade: é uma maneira de se subtrair ao trabalho sobre si e ao engajamento em relação ao outro tão necessário em qualquer relação — e no desenvolvimento pessoal. Claro.150 resolver as dificuldades da relação em si mesma. p. nem a seus amantes. depois não os ver mais. sobretudo entre os jovens. entretanto. nem todos os bissexuais se encontram nessa situação. Ela pode corresponder a uma escolha consciente e plenamente assumida. Então. . Podemos observar nessa visão da vida uma certa reticência. mas com as mulheres sempre temos problemas. E com eles é mais excitante e podemos falar melhor. Muitos deles têm relações amorosas importantes com homens e mulheres. Trata-se de expressão francesa já assimilada pela língua portuguesa. escolhe um parceiro do outro sexo. Mas não uma relação de casal. Isso não deveria nos surpreender: conforme o mesmo estudo. gostaria de viver só. mas não resolve nada. A maioria de minhas relações foi com mulheres. é sempre a mesma coisa. Assim. Sou bissexual porque amo as mulheres. em sua relação seguinte. E alterna entre os dois. É mais fácil se dizer bissexual do que se questionar.. E entre os que vivem em casal. com as mulheres. que pode mascarar muitas coisas. como uma fórmula passe-partout122 que deixa todas as opções abertas. Esse exemplo — que não é necessariamente típico — nos dá. uma idéia dos problemas psicológicos que a bissexualidade pode abraçar. Por outro lado. a bissexualidade pode refletir uma real incerteza quanto à orientação sexual. Ouvimos um homem de vinte e nove anos que tem aventuras com ambos os sexos: Não sou nem homo nem heterossexual. enquanto que com os homens você pode ir com eles. Segundo um estudo realizado em São Francisco. existe uma admiração inegável da bissexualidade desde mais ou menos vinte anos. mesmo que não sejam monogâmicas. quase todos os bissexuais que não têm uma relação primária estável praticam a pluralidade sexual. A bissexualidade aparece. para estabelecer relações íntimas.” (Nota dos tradutores). O homem que fala (que é casado e tem dois filhos) não parece particularmente ligado a sua mulher — nem a suas amantes. significando a idéia de um dispositivo que pode ser utilizado para múltiplas funções. se os encontrar com uma mulher. igualmente. há ao mesmo tempo um elemento de dificuldade e um outro de facilidade. 107-108. Pode. senão incapacidade. Assim uma autodefinição de bissexualidade pode servir para mascarar dificuldades em estabelecer relações íntimas e engajadas. Se eu me imaginar daqui vinte anos. dois terços dos bissexuais interrogados passaram por uma fase mais ou menos comprida de confusão antes de se assumir enquanto tais. ou como visto no dicionário Aurélio. É difícil reconhecer em si necessidades ou desejos que estão fora das normas sociais. com um monte de relações diferentes — um pouco como agora. Não é por acaso que quase todos os bissexuais recusam a monogamia: logicamente essa exclui a alternância entre um sexo e o outro e implica um engajamento afetivo com uma só pessoa. Esse esquema.

é perfeitamente compreensível que os homossexuais sintam uma certa rejeição em relação à bissexualidade. Tendo conquistado uma certa "normalidade" e até mesmo uma certa respeitabilidade. É certo. nunca falo disso com minhas amigas lésbicas que nunca aceitariam eu ter relações sexuais também com homens. não uma relação. que não somos acostumados a pensar a sexualidade fora das categorias tradicionais da heterossexualidade e da homossexualidade. às vezes. na verdade. homossexuais. Discernimos o preto e o branco. mas não um casal. como se eu vivesse duas vidas separadas. Afinal de contas. os bissexuais são freqüentemente considerados como sendo. lutaram durante anos para se forjar uma identidade que fosse aceita pela sociedade. Portanto. Nessa ótica. enquanto os homossexuais os vêem como covardes que não ousam assumir sua verdadeira orientação. Após várias relações heterossexuais pouco satisfatórias. a bissexualidade é. Então. e que querem umas relações. Em primeiro lugar. os heterossexuais e depois os outros. Por sua vez. Decorre disso. Além do mais. ao contrário. Em segundo lugar. e para ganhar para si um pedaço de território na paisagem mutante dos costumes atuais. E é a razão pela qual é fácil encontrar indivíduos bissexuais — e difícil encontrar casais bissexuais. Têm poucas chances de ter um parceiro que possa satisfazer suas necessidades sexuais e afetivas ao mesmo tempo. Em contrapartida. Eis a resposta a uma das perguntas colocadas no início desse capítulo: como podemos amar duas pessoas ao mesmo tempo? A única maneira de fazê-lo. os homossexuais. de fato. que muitos heterossexuais desconfiam deles. constitui também uma escolha e um estilo de vida difíceis. Essa situação é muito bem ilustrada por uma mulher de vinte e quatro anos que seguiu um percurso típico da bissexualidade. torna-se quase impossível imaginar ou planificar o futuro. os homens bissexuais são muitas vezes mal vistos pelas mulheres que temem neles as doenças sexualmente transmissíveis (e em particular a AIDS) tão freqüentes nos homens tendo relações com outros homens. acham isso bastante excitante. todos os bissexuais vão de encontro a um problema central que não tem solução: nunca encontrarão uma pessoa que seja ao mesmo tempo homem e mulher. Inúmeras lésbicas sentem assim um certo sentimento de rejeição em relação às bissexuais: desleais desde o início porque têm relações sexuais com o "inimigo". é um pouco complicado. naturalmente não ficam muito felizes em ver sua pequena parcela desagregar aos poucos por uma nova minoria que renega tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade. todas as suas relações são condenadas a serem parciais. Essa evolução a levou a se definir bissexual — mas não para todo mundo. Aliás. a bissexualidade ainda não é entendida nem aceita pela sociedade. igualmente. a escolha ideal para as pessoas (e sobretudo os homens) que procuram aventuras. mas dificilmente aceitamos que possa haver tonalidades de cinza em matéria de orientação sexual. Ela explica: Só o digo para meus amigos homens que não têm nenhum problema com a bissexualidade. como uma resposta fácil para problemas psicológicos ou interpessoais. apaixonou-se por uma outra mulher com quem teve. Em especial. aliás. são também percebidas como parceiras incertas porque poderiam a qualquer momento deixar sua amante por um homem. Há nesse campo uma polarização que deriva em parte da homofobia: existe nós. tendemos a classificar as pessoas segundo suas relações do momento: uma . é amá-las somente em parte. uma relação difícil e finalmente efêmera.151 No final das contas. ela implica em uma instabilidade mais ou menos permanente: se tudo é possível. Problemas da identidade bissexual Se a bissexualidade aparece.

Por outro lado. nem preencher as lacunas afetivas e a solidão das quais tantas pessoas sofrem. a instituição do casamento "até a morte" parece não responder mais às necessidades reais das pessoas e. Em uma palavra. Finalmente. É cada vez mais evidente que toda relação. Muitos pensadores e criadores a defenderam e preconizaram sua generalização. Contudo. É provável que vejamos surgir no futuro agrupamentos específicos para mulheres bissexuais. que apenas as coerções sociais nos impedem de praticar. foram obrigados a criarem outra. no final das contas. aceita pela sociedade. mas também no sexo de seus parceiros. enquanto potencial inerente ao gênero humano. um homem que tem relações sexuais com um homem é um homossexual. Se o movimento guei procurou libertar o homossexual em cada um de nós. para adolescentes bissexuais. e assim por diante. Reencontramos aqui uma idéia muito comum desde o século passado. Aliás. não é inconcebível que um certo número de pessoas pratique uma alternância não somente em suas relações. existe um paradoxo em sua autodefinição: para se libertarem das etiquetas. . aos poucos. Por um lado. a bissexualidade permanece amplamente invisível aos olhos da sociedade. sua modalidade "sucessiva" talvez não seja tão afastada da evolução atual dos costumes. no futuro. Se. Ao tentar ir além das categorias sexuais reconhecidas e abrir uma terceira opção. os militantes bissexuais de hoje procuram libertar o bissexual. A bissexualidade em si mesma não poderia melhorar a comunicação entre os sexos. for possível mudar de parceiro várias vezes na vida. em longo prazo. Os teóricos atuais da bissexualidade parecem adotar essa visão. segundo o qual todo mundo é bissexual — mas não pelas mesmas razões nem do mesmo modo. cede o lugar a uma seqüência de relações monogâmicas. Há demasiados tipos de bissexualidade para incluí-los em uma única significação. que correspondem às diferentes etapas da vida. tem significações muito diferentes para os homens e para as mulheres. enfim. se as mulheres e os homens forem livres para seguirem seus desejos. a homossexualidade é cada vez mais tolerada pela população em geral. e uma pessoa que tem relações sexuais com alguém do sexo oposto é heterossexual — enquanto os três podem muito bem ser bissexuais. se o casamento não for mais obrigatório. para homens bissexuais. É possível que essa idéia se sedimente e que essa "terceira via" se torne cada vez mais tolerada. se é mal aceita pela sociedade. Bissexualidade e liberdade Se a bissexualidade "simultânea" coloca problemas difíceis de resolver. talvez voltemos ao ponto de partida de todo esse processo. a categoria da bissexualidade engloba demasiadas definições e condutas. e que faz parte de uma certa tradição utópica: a existência de uma bissexualidade original e universal. A bissexualidade não simultânea. Por outro lado. que são os únicos a poderem nos fazer aceder ao amor profundo e – por que não ― à felicidade. representa apenas uma variação sobre esse tema. exige um esforço e uma constância. para bissexuais mais homossexuais ou mais heterossexuais. para artistas bissexuais. Por causa de tudo isso. e se a homossexualidade for. se a sexualidade não estiver mais ligada indissoluvelmente à procriação. está claro que poder escolher entre diversas modalidades ou orientações sexuais não resolverá os problemas que afetam tantos casais atuais. qualquer que seja sua natureza. os bissexuais ainda não têm identidade social. são pouco numerosos e mal compreendidos. para os homossexuais e para os heterossexuais.152 mulher que tem relações sexuais com uma mulher é uma lésbica.

ao invés de procurar por em outra parte o que não encontra nela. — Procure definir por si próprio. — Lembrar-se de que não há uma única definição nem um único tipo de bissexualidade. É provável que mudar de parceiro. e é importante não procurar de um lado o que só existe do outro.. mesmo que o indivíduo considere que ela resolveria todas as suas dificuldades.. o problema nem a solução. A consciência da bissexualidade pode aparecer em diversos momentos da vida. Em primeiro lugar. a maioria dos bissexuais começaram por serem heterossexuais (assim como muitos homossexuais). É provável que os melhores parceiros para você sejam pessoas que partilham seus valores e seu modo de vida ― em uma palavra. um indivíduo casado não é necessariamente "mais" heterossexual. a bissexualidade é uma prova de confusão ou de imaturidade psicossexual. A primeira relação também não indica nada. ou se voltar para alguém do outro sexo. Mas essa. e muito menos o orientar em um sentido ou em outro. Isso significa que a sua história sexual também não constitui um indicador fidedigno de sua "verdadeira" orientação. e a bissexualidade de um adulto que já teve relações com pessoas de um ou de ambos os sexos. outros bissexuais. e felizes. apenas mascara outros problemas intrapsíquicos ou interpessoais. Para a maioria dos bissexuais. — Não supor que os bissexuais são obrigatoriamente andróginos. Como nos homossexuais ou nos heterossexuais. com certeza. Em especial. — Se uma relação não está dando certo. existem bissexuais infelizes. e ela tem um sentido muito diferente conforme a idade e a experiência de cada um. pode-se facilmente cair na armadilha que consiste em considerar que seu problema central é a bissexualidade. É indispensável também fazer uma distinção entre a "bissexualidade" de alguém que ainda nunca teve relações íntimas com ninguém (situação comum entre os adolescentes). os bissexuais são incapazes de terem relações íntimas. que tipo de relações você quer: monogâmicas. abertas. em si mesma. Se esses problemas são. sua imagem de si e sua aparência. mas muitos outros são claramente masculinos ou femininos em sua identificação.153 RECOMENDAÇÕES PARA O BISSEXUAL — Na medida do possível. é impossível prever sua evolução futura. às vezes. — Não supor automaticamente que o bissexual está "transitando" em direção à homossexualidade ou à heterossexualidade. — Procure explicitar e entender o que lhe atrai nos dois sexos. muitos bissexuais permanecerão como tais para sempre e não estão de jeito nenhum "transitando". sem ou com engajamento ― e procure depois pessoas que partilhem seu ponto de vista. A bissexualidade não é necessariamente. RECOMENDAÇÕES PARA O TERAPEUTA — Quando se está diante de uma pessoa bissexual que apresenta dificuldades em suas relações íntimas. . tome o tempo e esforce-se para entender o porquê. em primeiro lugar. e independentemente de seus parceiros eventuais. É importante. — A relação primária de uma pessoa não dá nenhuma indicação a respeito de sua orientação "verdadeira". não resolva o problema. presentes. aproxime-se de outros bissexuais ou das associações especializadas. — Desconfiar dos seguintes estereótipos: a bissexualidade é um pretexto para a promiscuidade. freqüentemente. não é a mesma coisa se relacionar com um homem ou com uma mulher. não o são em todos os casos. entrar em acordo sobre a significação do termo. e depois. Alguns se apresentam como tais.

muitas vezes. e se sentem. estão isolados. Diversas partes de sua personalidade podem estar em jogo ― ou em conflito. se comporta. Isso significa que. Sempre são poucos e pouco visíveis. não têm identidade social reconhecida. ajudá-la a desenvolver o conceito e a prática de papeis variáveis. Ao contrário. e. Geralmente. são vistos com desconfiança pelos dois grupos. — Um dos grandes riscos da bissexualidade é o fato da pessoa se sentir dividida ― de sentir uma clivagem entre dois modos de vida. portanto. nem comunidade à qual se filiar. às vezes. conforme o sexo do parceiro. — Levar em conta que os bissexuais. incompreendidos ou desvalorizados pelos seus próximos e pela sociedade em geral. que apenas se sobrepõem a uma única identidade e a uma única imagem de si que permanecem constantes. não têm as redes de apóio que os homossexuais e os heterossexuais podem ter. Sempre haverá um trabalho de síntese a ser feito. se expressa e se sente com pessoas de um ou de outro sexo. por oposição aos homossexuais e aos heterossexuais. — Os bissexuais têm ainda menos modelos para seguirem do que os homossexuais. freqüentemente. existem diferenças importantes na maneira com a qual um bissexual entra em uma relação. É preciso.154 — Ficar cético quando uma pessoa afirma que é exatamente igual para ela ter relações com homens ou com mulheres. então. devem inventar tudo à medida que acontece cada relação. .

vêem-se por toda parte bandeiras nos quintais. de agências de viagem. certamente. de oficinas. uma legião. observaremos. os bens imobiliários nesse distrito estão entre os mais caros dos Estados Unidos: um pequeno estúdio aluga-se por algo em torno de mil e duzentos a mil e quatrocentos dólares por mês. um apartamento com dois cômodos: dois mil dólares.] PIERRE WALDECK-ROUSSEAU Há um pequeno bairro na cidade de São Francisco com casas de madeira.. Representam um arco-íris formado por cores vivas: é o símbolo do movimento GLBTT que engloba o pluralismo na unidade.155 Conclusão UMA NOVA HOMOSSEXUALIDADE Avant de devenir sage. provavelmente. mas será que são uma nação? Acreditaríamos facilmente nisso ao percorrer as livrarias da Castro Street. Esse arco-íris que. A homossexualidade seria. uma nacionalidade? Será que se mora na homossexualidade como se mora em um país? Os homossexuais do mundo têm uma identidade comum. de restaurantes. de escritórios. homens bem sucedidos. Se olharmos mais de perto. é demasiadamente próspero para ser comparado aos antigos guetos dos Judeus. e uma casinha custaria no mínimo trezentos e cinqüenta mil dólares. sua própria imprensa. E o cineminha do bairro passa filmes com temática guei. de advogados.. Encontram-se igualmente catálogos telefônicos com longas listas de bares. vários detalhes curiosos. Parece que não há crianças ― o que é estranho para uma manhã de domingo nos Estados Unidos. Mas não nos enganemos: o distrito Castro não é de forma alguma um gueto. Encontram-se aí centenas de livros. Existe aqui toda uma cultura que possui seus próprios heróis. quase não há mulheres. nem de religiões. ou aos bairros dos Negros ou de outras minorias rejeitadas da sociedade através da história. atualmente. calendários e pôsteres que foram feitos por homossexuais para homossexuais. . Os homossexuais que vivem aqui não são nem fracassados. E os homens passeiam em casais. seus próprios escritores e artistas. além das fronteiras? Os homossexuais são. graciosamente pintadas. As pessoas são jovens e amáveis. de clínicas. Mas não são emblemas de países. Il faut avoir été longtemps libre. uma cultura própria. nem marginais. nem doentes mentais: são. quase exclusivamente. Se dermos um passeio em um domingo pela manhã. vídeos. flutua nos bairros gueis do mundo todo. Com efeito. vestidas com o descuido um pouco infantil que os americanos erigiram em arte de viver. revistas. floridas e cuidadas. Para começar. nem de companhias multinacionais. portanto. de braços dados. Em primeiro lugar. suspensas nas janelas. a inclusão na diversidade. ou grudadas nas vitrinas. Enfim. contudo. ou de mãos dadas. veremos os moradores sorridentes sentados na porta ou vagueando nas ruas cheias de cafés e de restaurantes elegantes e simpáticos. é muito mais que um emblema no bairro Castro: aqui ele é elevado a conceito de bandeira. [Antes de se tornar obediente É preciso ter sido livre durante muito tempo. de terapeutas ― todos gueis.

aos poucos. no decorrer desses últimos vinte anos. é também verdade que esses se adaptaram a ela. recoloca em questão todos os papéis tradicionais do homem e da mulher. as coisas evoluíram muito no decorrer dos últimos vinte e cinco anos. nem da Igreja. A sociedade em seu conjunto aceita melhor a homossexualidade. e em que sua existência visível constitui uma ameaça para as instituições heterossexuais. Os homossexuais descobriram. e que isso não tem nada de patológico. que não precisam nem da família. Foi assim que ao se tornarem mais visíveis. que podiam sair do armário sob uma condição: para não ser endemoninhados. de subvenções para a AIDS. Nesse processo de "normalização". em que são diferentes. a inclusão nos esquemas da vida heterossexual do que a sua reforma profunda. às vezes. os acontecimentos. despenalizar a homossexualidade e a ampliar os direitos dos homossexuais. era preciso que eles se parecessem com os heterossexuais. Isso nem sempre foi verdade. do gênero. E isso não tem nada de surpreendente. Assim. para realizarem seu potencial e levar uma vida plenamente satisfatória. Mas. atualmente. que colocavam em questão as estruturas patriarcais e autoritárias da sociedade heterossexual. Ela prova.156 Pois é possível. New York. Como Urvashi Vaid o explica. em favor de reivindicações de tipo jurídico. provavelmente. de um estatuto legal e de vantagens fiscais para o casal. sem dúvida nenhuma. A Feminist Perspective on the Lesbian Sexual Revolution. As organizações gueis de hoje procuram mais o acesso às estruturas do poder do que a sua transformação. tornaram-se também mais parecidos com todo mundo. Ora. a crítica da "falocracia" (sexismo) e do casal heterossexual. dos direitos humanos e um grande número de indivíduos corajosos conseguiram. diluíram-se em um vasto esforço de assimilação. Essa evolução do movimento guei trouxe. graças a vários fatores. nem dos filhos. E enfim. que qualquer um pode se tornar homossexual. A crítica guei da sexualidade. e muito menos ainda a única que a ser "natural". Pois resta ainda fazer o grosso do trabalho. As posições contestadoras da liberação guei. Ver Sheila Jeffreys (1995). As organizações gueis. dos papéis masculino e feminino. esqueceram. em importantes setores. de maneira brilhante. político e cultural. não esqueceu isso: continua ainda existindo. . os raciocínios e as contradições internas que levaram o movimento americano de liberação guei a se afastar de sua crítica radical da sociedade. The Lesbian Heresy. os direitos conquistados pelos 123 124 Urvashi Vaid (1995). uma homofobia profunda. se a atitude da sociedade em relação aos homossexuais mudou. A AIDS desenvolveu igualmente um papel importante obrigando os gueis a se organizarem em comunidade para enfrentar o vírus e também a indiferença ― até mesmo a hostilidade ― das autoridades e da sociedade. aos homossexuais sucessos importantes e indispensáveis ― mas a um preço elevado. proclamar-se guei e vencer na vida. E ainda mais grave que isso. a advogada e ativista lésbica Urvashi Vaid123 descreve. A análise de classe. a busca de um discurso original e de uma nova sexualidade feminina praticamente desapareceram. A existência visível da homossexualidade ameaça os próprios fundamentos da sociedade heterossexual. nem do Estado para formarem casais estáveis. que as pessoas podem ser felizes fora do casamento. por exemplo. para reivindicar cada vez mais os direitos civis e as vantagens materiais procurados por qualquer minoria discriminada. A liberação guei transformou um problema pessoal. graças a esforços incessantes. A sociedade. É a mesma coisa para o movimento das lésbicas que antes representava a ala mais radical da ideologia feminista. da família e da sociedade diluiu-se na busca de uma série de ajudas e de direitos. Virtual Equality. Em seu livro Virtual Equality. Anchor Books. Spinifex. ela demonstra que as mulheres não dependem dos homens. prova que a heterossexualidade não é a única orientação legítima. medical e econômico124. por sua vez. secreto e médico em um movimento social.

a busca de direitos reservados até agora aos heterossexuais está despertando a hostilidade de outros setores da população. e 64% haviam sido agredidos verbalmente125. os direitos civis para os homossexuais não servirão para eliminar a homofobia inata que ainda prejudica vastos setores da população heterossexual. Os homossexuais mais bem tolerados são aqueles que se integram e vencem na sociedade atual: de preferência. no contexto de sua vida cotidiana. os homossexuais desfrutam de uma aceitação frágil e superficial que. Uma pesquisa com quatrocentos homossexuais. essa aceitação só é aparente. os militares homossexuais americanos são ameaçados de exclusão não somente quando incorrem em práticas homoeróticas. que se aceita a homossexualidade ― mas isso não indica absolutamente nada a respeito das reações que se pode ter na vida cotidiana. a uma certa visão da sexualidade. apesar de um lobby intenso.157 homossexuais frente à lei e à sociedade só constituem uma igualdade "virtual": atualmente. não afeta em nada o racismo. os homossexuais são aceitos na medida em que aderem aos valores da sociedade heterossexual ― em particular. Depois. os grandes problemas de fundo. ou quando "se infiltram" em certas profissões como o ensino ou a política. presença e poder. ouvido em um pub inglês: “Não tenho nenhum problema com os homossexuais. revistas gueis. op. É um pouco mais difícil sentir a mesma rejeição se um casal amável mora ao lado. Um exemplo notório dessa dicotomia ― dessa "igualdade virtual" ― foi o fracasso total dos esforços feitos pelas associações GLBTT nos Estados Unidos para anularem a interdição da homossexualidade nas forças armadas desse país. 125 Urvashi Vaid. do casal e da família. a discriminação real e a homofobia real. até mesmo tenho bons amigos gueis ― mas não gosto que eles venham se sentar ao meu lado. Talvez o movimento guei tenha cometido o erro de confundir visibilidade e aceitação. o acento posto pelas associações gueis nas reformas legislativas e a ação governamental tornou o movimento totalmente dependente das vicissitudes da política. e é bem possível que as pesquisas nesse campo não reflitam as atitudes reais das pessoas. A experiência dos Negros nos Estados Unidos demonstrou claramente que a conquista de uma igualdade jurídica. sobretudo. Em primeiro lugar. Contudo. p.. Mas é preciso que esses "gentis homossexuais" respeitem certas regras do jogo: de fato. tentam casarem-se. Mas. Ainda há demasiados comentários como esse. vivendo tranquilamente em casal como todos. Inúmeras pesquisas mostraram que as pessoas aceitam melhor a homossexualidade quando têm contatos. com homossexuais de carne e osso. Atualmente. 26 % haviam sido ameaçados. E é bom se cuidar aquele que se aproxima demais!” A tolerância abstrata não equivale à aceitação. apesar da absurdidade das normas nesse campo que excluíam regularmente da profissão militar homens e mulheres altamente qualificados e ligados à sua pátria. brancos de classe média. como também quando dizem que são gueis ou o revelam ao assinarem. ou se se tem uma sobrinha lésbica. realizada em Nova Orleans em 1991. ao supor que os homossexuais seriam mais bem tolerados se se mostrassem numerosos. É fácil dizer. ou quando começam a terem filhos. em 1993.12. cit. por exemplo. mostrou que 28% dos homens e 10% das lésbicas haviam sido agredidos fisicamente por causa de sua orientação sexual. o resultado final foi um completo fracasso. as pesquisas evidenciam que uma maioria da população não tem mais problemas com a homossexualidade ― exceto quando os homossexuais se tornam "demasiadamente" visíveis. Do mesmo modo. Contudo. é apenas aparente. no âmbito de uma pesquisa ibope. Em uma outra variação sobre esse tema. no final das contas. é verdade que os preconceitos perdem um pouco de sua virulência quando se conhece as pessoas visadas. Apesar da boa vontade e da popularidade do presidente Clinton. permanecem intactas. em si mesma. .

quisemos conservar o trocadilho sugerido no original que é: “L’homosexualité contemporaine a redonné au désir sa citoyenneté dans la cité des mœurs” [Nota dos tradutores] 127 Urvashi Vaid. preconceitos e esquemas mentais ― como qualquer minoria que consegue romper as correntes da discriminação. poderíamos traduzir “cidade dos costumes” por “campo” ou “domínio” dos costumes. por um lado. são católicos e são muçulmanos. O grande desafio para os homossexuais (e para os heterossexuais) de nossa época é o de redefinir em que são parecidos e em que divergem do resto da sociedade ― e o de decidir quais similaridades. em seu modo de viver e de entrar em relação com outras pessoas. em português. A única característica sociológica que lhe seja própria.. por oposição ao desejo reprimido e penalizado que. Não é por acaso que tantos criadores. mas a todos os homossexuais vivendo esse período de transição. o que diferencia os homossexuais. em que consiste ― ou deveria consistir ― a identidade homossexual. durante tanto tempo. Mas os homossexuais são também diferentes de outras minorias discriminadas. artistas e escritores eminentes de nossa época tenham sido homossexuais. é que eles são geralmente mais instruídos que o resto da população. valores e esquemas de casal que lhes são específicos. eles não têm bairros onde se agrupam. nem uma língua específica. nem um sotaque. A homossexualidade contemporânea devolveu ao desejo sua cidadania na “cidade dos costumes” 126. ou trabalhar com ele. quando a libertarmos das coerções sociais e ideológicas da heterossexualidade moderna. Todavia. Exceto em algumas grandes cidades. são aceitos como todos somente quando não tentam serem realmente "como todo mundo”. ou de um judeu em uma sociedade católica. o que os torna únicos enquanto coletividade. eles querem guardar. aos olhos da sociedade heterossexual? Em uma palavra. das outras minorias que conheceram a discriminação? Detectamos. Eles não têm uma origem étnica. nem profissões que lhe sejam reservadas. enquanto apenas 21% dos heterossexuais o realizaram127. costumes. uma série de particularidades na psicologia dos homossexuais e em seu desenvolvimento. Definimos com precisão uma sensibilidade. nem um modo de se vestir particular. onde quer que estejam. De fato. na sociedade contemporânea. Isso se aplica não apenas ao movimento guei em seu conjunto. caracterizou a cultura ocidental. e quais diferenças. Lembra-nos também a importância da amizade no casal ― e é aqui um elemento que falta em muitas relações heterossexuais. há igualmente entre os homossexuais uma sobre-representação dos titulados. e por outro lado. desde sempre.158 Paradoxalmente. pelo menos no mundo industrializado. Os homossexuais formam uma minoria que é verdadeiramente invisível. O que distingue os homossexuais de todas as outras minorias. lembra-nos o lado espontâneo e lúdico que a sexualidade pode ter. na França. . às vezes iconoclasta. são ricos e são pobres. sem nunca se dar conta de sua homossexualidade ― fato pouco provável se se tratar de um negro em uma sociedade branca. ao longo dessa obra. Poderíamos muito facilmente viver ao lado de um homossexual anos a fio. São negros e são brancos. é que eles não diferem em nada do resto da humanidade. A isso. Os homossexuais têm assim um papel inovador. No final das contas. Esses constituem uma comunidade que recoloca em questão muitos valores. por exemplo. os criminosos e os doentes mentais que foram. quando os homossexuais deixam de serem os pecadores. exceto por um traço psicológico. Isso 126 Na verdade. Ibid. estima-se que 60% dos homossexuais nos Estados Unidos fizeram estudos universitários. seria preciso acrescentar um outro elemento do mundo guei igualmente notado por Urvashi Vaid e por outros autores: o lugar atribuído ao desejo livremente vivido. p.250. os homossexuais são considerados "normais" apenas quando ficam à margem da vida "normal". dos heterossexuais. Não pertencem mais a uma classe social do que à outra.

e sabem exatamente o que isso significa. os homossexuais formam uma minoria invisível que ainda têm interesse em assim permanecer. provam terem humor e ironia realmente notáveis e muito originais. quando gozam de si mesmos. Se os homossexuais não são uma nação. os homossexuais partilham também uma história pessoal. que um dos problemas para os casais homossexuais dos dois sexos é que são. além dessa cultura. de um "conjunto de homens que moram ou não em um mesmo território e que constituem uma comunidade social ou cultural" (Larousse)? Trata-se de uma coletividade de pessoas partilhando uma história. Quando os gueis parodiam os costumes heterossexuais. que é esperada de sua parte pela sociedade heterossexual. Tudo isso significa que os homossexuais. quando duas pessoas homossexuais se encontram pela primeira vez. Dois homossexuais de países diferentes se encontrando pela primeira vez terão provavelmente mais coisas para se dizerem do que dois heterossexuais. cristãs ou ateias. Além do mais. Viveram o sentimento de serem diferentes. mas os homossexuais circulam livremente em todos os estratos. Então. e de um código de conduta que lhes são próprios. de uma linguagem. Se duas pessoas são homossexuais. talvez sejam um povo. Ora. na maioria dos países. Mas. Talvez seja essa dupla perspectiva que explica uma das características da cultura guei que é o humor. tiveram dificuldades com as suas famílias e afastaram-se delas. valores e crenças? Falamos no capítulo 6. já partilham um universo de experiências. lutaram contra a incerteza.159 corresponde. elas têm uma história e uma sensibilidade parecidas em muitos pontos. como o escreveu Arthur Koestler. em todos os meios da sociedade heterossexual. um fator essencial do humor parece ser essa possibilidade de se mover e de se expressar em dois ou vários universos ao mesmo tempo. os homossexuais tendem a se concentrar nas grandes aglomerações populacionais: na França. La Documentation française. à liberdade da qual usufruem os homossexuais que não têm as responsabilidades do casamento e da família. se vêem como seriam vistos do lado de fora. Essa combinação de educação e de concentração urbana permitiu o progresso de uma cultura guei que é perfeitamente reconhecível. trazem uma sensibilidade radicalmente diferente. o medo de serem anormais e de nunca poderem ser felizes. e que isso não constitui uma afinidade real. mas devem parecer iguais. sentiram-se à parte. as gozações anti-gueis tão comuns em nossas sociedades. 86% dentre eles vivem nas cidades de mais de cem mil habitantes128. freqüentemente. ouviram com desânimo as piadas. Os homossexuais são diferentes. Portanto. Outras minorias são menos integradas à sociedade em seu conjunto. Les Comportements sexuels en France. . Ao mesmo tempo. freqüentemente. ou não tem o mesmo acesso a ela. assim como uma certa visão das relações humanas. e também a da maioria: têm acesso as duas e fazem parte das duas. os insultos. do amor e da amizade. participam de uma cultura. mais do que qualquer outra minoria. a vergonha. Em que consiste esse terreno de entendimento? Ele é suficientemente importante para falar em termos de povo distinto. provavelmente. Ricas ou pobres. Vivem às margens da sociedade heterossexual. vivem realmente em dois mundos: aquele que lhes é próprio e o da maioria. formados por indivíduos que não têm nada em comum exceto a sua orientação sexual. Paris. os homossexuais tentam fazer melhor. e freqüentemente excluídas. isto é. já têm um ponto em comum. É como se tivessem duas existências ao mesmo tempo: a que eles têm na realidade e uma outra. e também ao fenômeno de sobrecompensação descrito no capítulo 5: em muitos casos. para se "redimir" aos olhos de sua família e da sociedade. francesas ou mexicanas. eles têm uma cultura própria. uma sensibilidade particular e uma consciência aguda de sua identidade ― em uma palavra. provavelmente. O momento chegou de nuançar esse ponto de vista. para uso externo. Os homossexuais. Existe sempre neles uma crítica 128 Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993).

Em particular. que as homossexuais femininas queiram aceder às instituições heterossexuais ― mas elas poderiam também contribuir para a sua transformação. de sexo diferente ou do mesmo sexo. cheios de vitalidade e de juventude. Livres. não são os homossexuais que ameaçam o casal tradicional: esse está em via de desabar sozinho. Paralelamente. Portanto. e com a sociedade em seu conjunto. O grande perigo para o estado atual das coisas. podem oferecer modos de vida e de relação alternativos que merecem consideração. O texto da lei relativa ao Pacto Civil de Solidariedade (PACS) encontra-se no site www. podem reinventar continuamente seu estilo de vida e renegociar as regras de suas relações. para organizar a vida comum". que passou a constar explicitamente do Código Civil como "união de fato. entre duas pessoas de sexo diferente ou do mesmo sexo que vivem como casal" (artigo 3 da lei). segundo Koestler. não é necessariamente para seu interesse. o concubinato. Marta Suplicy.ambafrance. nem para o da sociedade imitar o seu modo de vida. na amizade e na família. então são muito mais ativos. heterossexuais e homossexuais. Desde sua promulgação (a lei foi adotada definitivamente em 13 de outubro de 1999). e talvez seja realizado mais plenamente pelas novas gerações. caracterizada por uma vida comum com características de estabilidade e continuidade. E é de fato o medo que fundamenta a oposição conservadora frente a iniciativas como o PACS129. É em parte por causa disso que os homossexuais são tantas vezes inovadores. Mas o fato é que os próprios heterossexuais se afastam do modelo do casamento tradicional de qualquer modo. viveram sozinhos. Mas. Em contrapartida. [Nota dos tradutores] . Que isso não seja sempre o caso. das responsabilidades do casamento e da família. São mais independentes. um jogo de espelhos. há aproximadamente trinta anos.br/abr/imagesdelafrance/pactocivil. que muitos homens gueis sejam misóginos e que muitas lésbicas desconfiem dos homens é inegável.. o legislador optou por definir também. A possibilidade de questionar constantemente os dados da vida é uma fonte de renovação continua. E isso é evidente: os homossexuais de idade parecem menos velhos que seus contemporâneos heterossexuais. porque não têm regras fixas.fr. os homossexuais encontram-se na interseção dos dois sexos: não porque são "hermafroditas psíquicos" ou seres bissexuados. um outro elemento crucial dessa juventude constantemente renovada é o fato de que os homossexuais escapam de muitas obrigações da sociedade heterossexual.” Retirado de texto de Fréderic Martel datado de junho de 2001 e publicado no site: http://www. freqüentemente.. não é que os homossexuais se tornem como os heterossexuais. Inspirado no PACS a ex-deputada federal. são mais flexíveis. porque.151 denominado Parceria Civil Registrada. além do PACS. Nesse sentido podem constituir uma interface entre os dois sexos." Claro.160 dos estereótipos. Se os homossexuais aspiram a todos os direitos e todas as garantias dos quais usufruem os heterossexuais. mais jovens em sua maneira de viver e de pensar. apresentou em 1995 o projeto de Lei Federal no1.org. cada vez mais evidentes. dos papéis masculino e feminino. é que esses se tornem como os homossexuais. […] O PACS é um "contrato firmado entre duas pessoas físicas maiores. 129 PACS – O Pacto Civil de Solidariedade dota de estatuto civil todos os casais não casados. Isso lhes permite estabelecer relações essencialmente diferentes com homens e mulheres ao mesmo tempo. Citamos as palavras de uma lésbica de quarenta e cinco anos: "As pessoas gueis são mais abertas. É normal e legítimo.legifrance. noção mais fraca do ponto de vista do comprometimento dos co-contratantes.gouv.htm . Mas o potencial está aqui. na maioria dos casos. E é isso também que permite aos homossexuais de hoje proporem visões alternativas da sociedade e de experimentarem novas modalidades no amor e na sexualidade. a dupla perspectiva de uma minoria que se dilui na maioria. precisa o artigo 1º da lei. têm mais energia. Essa está igualmente na própria base de toda criatividade. abrindo a possibilidade de novas formas de entendimento e de comunicação. mas simplesmente porque se libertaram das limitações. Deu-se preferência a esse conceito voluntarista de "contrato" sobre a noção de "atestado". não é apenas o humor que depende dessa capacidade de viver e de pensar em vários universos ao mesmo tempo. que deixem de se casarem e de terem filhos. isto é.

161 Ser guei, atualmente, é uma experiência coletiva sem precedente. Pela primeira vez na história, os homossexuais formam uma comunidade que está baseada não mais na vergonha e no isolamento, mas no orgulho e na cooperação; não é mais um gueto, mas uma comunidade que, em alguns lugarzinhos do globo ― como certas cidades, ou o distrito Castro ―, pode se permitir viver abertamente. Nesses distritos ― que, geralmente, se encontram nas grandes cidades ― os homossexuais usufruem de sua vida de bairro, freqüentam os seus vizinhos, elegem as suas autoridades locais, lêem os seus jornais e respiram a cultura que lhes pertence como qualquer população urbana contemporânea. Todos esses direitos e costumes, adquiridos há tanto tempo pelos cidadãos dos países industrializados, existem realmente para os homossexuais apenas aonde eles se organizaram em comunidade. Mas não basta viver em sua comunidade. Para desenvolver plenamente seu potencial como ser humano, é preciso ir além. A existência individual insere-se em uma série de círculos concêntricos crescentes: casal, família, amigos, comunidade, sociedade, nação, mundo. Se os homossexuais recusam perderem seu lugar em cada uma dessas esferas, se perderem de vista o vasto mundo no qual todos nós vivemos, então serão novamente afastados e rejeitados às margens. E as margens, nesse contexto, são, ao mesmo tempo, largas e perigosas. Em 1998, bastou, nos Estados Unidos, que um rapaz guei se descuidasse durante uma festa, em um lugar situado fora do pequeno território onde a homossexualidade era aceita, para ser brutalmente torturado e assassinado. A homofobia, a vergonha e o isolamento ainda reinam em quase todo o mundo. Ora, muitos traços psicológicos que descrevemos nesse livro derivam dessa situação que limita em muitos pontos o desenvolvimento pessoal dos homossexuais. A homofobia interiorizada, as dificuldades da clandestinidade e certas dinâmicas de casal são intimamente ligadas à discriminação sofrida pelos homossexuais há séculos. Será que elas desaparecerão em uma sociedade mais aberta? Iniciativas como o PACS facilitarão muitas coisas para a população homossexual. A vida cotidiana, a relação de casal, a possibilidade de planejar o futuro serão muito mais simples; e os homossexuais, enfim, serão libertos de uma grande quantidade de medos, dúvidas e sofrimentos inúteis. Mas a igualdade jurídica não poderia ser um fim em si mesmo; é apenas um meio para uma realização mais plena no quadro de uma liberdade maior. Mas os homossexuais saberão aproveitar dela? Isso porque, as reformas jurídicas e legislativas não resolverão, em si mesmas, todas as dificuldades psicológicas descritas nesse livro. No final das contas, os homossexuais serão sempre uma minoria. E um longo trabalho será ainda requisitado para que eles encontrem modos de vida e formas de relação que lhes permitam usufruir plenamente de seus direitos recentemente adquiridos. Ninguém pode saber como evoluirão os costumes dos homossexuais em uma sociedade que os autoriza (pelo menos em teoria) a viverem abertamente. Haverá mais homossexuais? Ou então, serão mais numerosos aqueles que sairão do armário? É verdade que eles estabelecerão relações de casal mais estáveis? Tentarão fundar famílias? O contexto novo trará algumas respostas, mas também muitas perguntas que nunca tinham sido colocadas. Podemos supor que nossos conhecimentos sobre a homossexualidade serão também muito diferentes no futuro. Não esqueçamos de que a psicologia não pode ser atemporal; como todas as ciências humanas, está inscrita na história. Do mesmo modo que a psicologia das mulheres, das meninas, das crianças e dos adolescentes mudou muito em cinqüenta anos, a dos homossexuais será radicalmente transformada daqui algumas gerações. Podemos esperar que esse livro seja, então, totalmente ultrapassado e que as mentes curiosas que o folhearem um dia se surpreenderão de ver nele costumes

162 expostos, modos de sentir e de pensar ― e também preconceitos ― que terão expirado há muito tempo.

163

Bibliografia
Almaguer, Tomás. Chicago men: A cartography of homosexual identity and behaviour, In Differences, vol. 3, nº 2, été 1991. Bailey, J. Michael, e Richard C. Pillard, A genetic study of male sexual orientation, In Archives of General Psychiatry, 48, 1991, 1098-1096. Bell, Alan P., Martin S. Weinberg, Homosexualités, Paris, éditions Albin Michel, 1980. Berzon, Betty, Permanent Partners: Building Gay and Lesbian Relationships That Last, New York, E. P. Dutton, 1988; ___. The Intimacy Dance, New York, Plume Books, 1996. Bieber, Irving, H. Dain, P. Dince, M. G. Drellich, H. G. Grand, R. H. Grundlach, M. W. Kremer, A. H. Rifkin, C. B. Wibur, e T. B. Bieber, Homosexuality: A Psychoanalytic Study of Male Homosexuals, New York, basic Books, 1962. Blumenfeld, Warren J., e Raymond, Diane, Looking at Gay and Lesbian Life, Boston, Beacon Press, 1989. Bonnet, Marie-Jo, Les Relations amoureuses entre les femmes, Paris éditions Odile Jacob, 1995. Borhek, Mary V., Coming Out to Parents, New York, Pilgrim Press, 1993. Carl, Douglas, Counselling Same-Sex Couples, New York, W.W. Norton & Company, 1990. Carrier, Joseph, De los otros, Intimacy and Homosexuality among Mexican Men, New York, Columbia University Press, 1995. Cass, Vivienne C., Homosexual identity formation: A theoretical model, In Journal of Homosexuality, 4, 1979, 219-235. Clark, Don, Loving Someone Gay, Berkeley, California, Celestialarts Publishing, 1977, reatualizado em 1997. Clunis, Merilee D., e Green, Dorsey G., Lesbian Couples, Seattle, WA, Seal Press, 1988. De Cecco, John (éd.), Gay Relationships, New York, Harrington Park Press, 1988. D'Emilio, John, Sexual Politics, Sexual Communities: The Making of a Homosexual Minority in the United States, 1940-1970, Chicago, University of Chicago Press, 1983. Falco, Kristine L., Psychotherapy with Lesbian Clients, New York, Brunner/Mazel Inc., 1991. Fee, Elizabeth, e Daniel M. Fox (éd.), AIDS: the Burdens of History, Berkeley, University of California Press, 1988. Foucault, Michel, Histoire de la sexualité, vol, 1, Paris, Gallimard, 1976. Freud, Sigmund, Obras completas, troisième édition, trad. Luis LópezBallesteros y de Torres, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 1973. Gibson, P., Gay male and lesbian youth suicide, In U.S. Department of Health and Human Services, Report of the Secretary's Task Force on Youth Suicide, Washington, D.C., U.S. Government Printing Office, 1989. Gilligan, Carol, In a Different Voice, Cambridge, MA, Harvard University Press, 1982. Gonsiorek, John C. (éd.), A Guide to Psychotherapy with Gay and Lesbian Clients, New York, Harrington Park Press, 1985.

Richard A. 1993. Annamarie. Janus. Queer Theory. The Janus Report on Sexual Behavior. New York. Love Between Men. Hoagland. Pattatucci. Gilbert (éd. New York.. Richard P. Gay and Lesbian Youth. 1996. University of Massachussetts Press. John.B. 1993. Chicago. 1990. Jaspard. 1948. I. . Macmillan. Gagnon. 1989. Elizabeth. New York. 1996. New York. Sheila. Kübler-Ross. Damien Martin. 321-327. 1992. In American Journal of Psychiatry. Lerner. Janus. 1996. 1987. Jonathan Ned. Katz.D. A feminist Perspective on the Lesbian Sexual Revolution. Sexual Behaviour in the Human Male. Kinsey. Lee. APA Monitor. 1989. Men Are from Mars. Maryse.164 Gray. Kooden. The Construction of Homosexuality. The Lesbian Heresy. Herdt. Gay Midlife and Maturity. Edward O. The dance of Anger. University of Chicago Press. Gershen. Sand. Alfred. e Angela M. Lesbian Ethics. Manguson. 1989. e A. Green. Riddle. B. Harper Collins. John Alan. E. Isensee. Henry Holt and Company. e Lev Raphael. The Invention of Heterosexuality. Gender identity in childhood end later sexual Orientation. Robert T.. Women Are from Venus. New York. Wardell Pomeroy e Clyde Martin.. Penguin Books USA Inc. Strassburger. 1991. Los Angeles. Inness.. Richard. Palo Alto. 1969. The Lesbian Menace. 1994. New York. David F. Isay. 1996. 1985. Institute of Lesbian Studies. Emery. 1997. Morin. Hamer. Harriet G. Continuum Publishing Company. Lauman. Sherrie A. Michael e Stuart Michaels. F. F. John H. In Science. John Wiley ans Sons. New York. Philadelphia. Chicago. Rogers..). New York. New York. Jagose. Coming Out of Shame. Doubleday. A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. University of Chicago Press. S. e Cynthia L. Samuel S. Hardy. éditions La Découverte. W. M. task force on the status of lesbian end gay male psychologists. Spinifex. Jeffreys.. Development issues and their resolution for gay end lesbian adolescents. New York. Stella Hu. Haworth Press. L. In American Psychological Association. New York University Press. La sexualité en France.. Hetrick. 1998. Dean. J. Victoria L. Becoming Gay. Loving Men. Saunders. Kaufman. Amherst. Rik. Harrington Park Press.. 1997. Greenberg.. 1988. D. 339-341. On Death and Dying. Harper Collins. Sarah Lucia. 261. Removing the stigma: Final report. In Journal of Homosexuality. Paris. 1979. 142. Alyson Publications. The Social Organization of Sexuality: Sexual Practices in the United States. 1995. Nan Hu. New York.

University of Chicago Press. 1991.) The Homosexual Dialetic.. L. JoAnn. Schiltz. e P. Routledge. Gina Kolata. 1972. Murray. 1976. Homosexuals in History. 1989. bisexualité. Harper Collins. 253. Paris. New York. Lesbian Psychologies: Exploration and Challenges. Chicago. Mondimore. 48. Peterson. San Francisco. 1954. 1996. 1996. Sprinters Book Company. Englewood Cliffs. University of Illinois Press. Alcohol and drug use among homosexual men and women: Epidemiology and population characteristics. 1998. New York. Joseph A. The shattering of an illusion: The problem of competition in lesbian relationships. Francis Mark. Alyson Publications. Joyce P. 1034-1037. Queens. New York. vol. 1995. Sex in America. À la recherche du temps perdu. 1997. Science and Homosexualities. Proust. Bob. In Population. 1990. McWhirter. Illinois. 1997. Edward O.). D. printemps. McDaniel. Nichols. Alburquerque. A Family and Friends' Guide to Sexual Orientation. Gary. Inc. New York. The Johns Hopkins University Press. décembre 1993. Gagnon. Robert T. Homosexuality/Heterosexuality: Concepts of Sexual Orientation. Routledge. Routledge. In Addictive Behaviors. 478-487. Annick. Judith. Vernon A.. McKiman. In Boston Lesbian Psychologies Collective. 1995. Janet. John H. University of New Mexico Press. McCaffrey. nº 1.. Londres. Simon. Warner Books. (éd. A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men. e Alan Ellis. 1995. Stephanie Sanders e June Reinisch (éd. Marcel. Prentice Hall Inc. 1992. In Feminist Studies 11. Messiah. editions du Seuil. Lindenbaum. Antoine. 23. National Gay and Lesbian Survey. In Rapport CNRS-EHESS. University. J. A. 1985. .165 LeVay. 1995. Latin American Male Homosexualities.. Margaret. The Lesbian Erotic Dance. Loulan.). 1977. Prieur. Oxford University Press. 14. (éd. Baltimore. enquêtes 1991-1992. septembre-octobre 1993. L. David. NJ. Sex differences in the games children play.. Rowse. (éd. The Lesbian Couples' Guide. editions Gallimard. Lesbian sexuality: Issues and developing theory. Partners National Survey of Gay and Lesbian Couples. Lever. In Social Problems. Homosexualité. Mexico City: On Transvesties. Le Rose et le Noir. 545. New York. Michael. Martel. Remafedi. Lauman. Éléments de sociobiographie sexuelle. Les homosexuels masculins face au sida. Rosario. 1994. 1987. O. A Natural History of Homosexuality. Paris. 1990. What a Lesbian Looks Like. In Science. Carroll & Graf Publishers. Partners Task Force for Lesbian and Gay Couples. Marie-Ange.). Powers. Frédéric. Mema's House. and Machos. Boston. New York. Death by Denial: Studies of Gay and Lesbian Youth Suicide. Emmanuelle Mouret-Fourme. S.

1993.). Report of the Secretary's Task Force on Youth Suicide. New York. 1997.. Histoire de l'homosexualité. Dual Attraction. Mexican male homosexual interaction in public contexts. Naomi (éd. Gerald (éd. New York. New York. 14. Queer by Choice. U. J. Spira. 1994. In Journal of Homosexuality. Urvashi. University of California Press. Alfred A. Sullivan.C. La Documentation française. Paris. 23 juillet 1998. 1997. em APA Monitor. U. Same-Sex Marriage: Pro and Con. Deborah. 1998. Contemporary Perspectives on Psychotherapy with Lesbians and Gay Men. You Just Don't Understand. Vintage Books. Pryor. Vintage.). Virtual Equality. 117-136. Routledge. Washington.. Colin. .166 Spencer. Vera. Stein. Unks. 1995. Books. Colin. Paris. (éd.S. Tucker. Clark. Stein. Terry S. Les Comportements sexuels en France. Arlene. New York. New York.. Ballantine Books. 1997. D. 1997. Task Force on the Status of Lesbian and Gay Male Psychologists. New York. Anchor. Valdés..). Weinberg. Carol J. Vaid. Harrington Park Press. Department of Health and Human Services. Tannen. Routledge. Edmund. Government Printing Office. In The Boston Globe. Martin S. Pelnum Publishing Corporation. Londres. Oxfrod University Press. Alfred. 1995. Berkeley. Queries and Visions. Alisa.. New York. New York. 1995. Inc. The Gay Teen. Williams e Douglas W. Bisexual Politics: Theories.S. "Removing the stigma". 1989. New York. L. Whisman. White. Andrew. Taylor. 1986. 1986. e Cohen. 1990. Coming Out in Spanish. Le Pré aux Clercs. Knopf. 1996. Virtually Normal. 1995. e Nathalie Bajos. The Farewell Symphony. Sex and Sensibility.

........................................27 Joyce Hunter —.135 Marie-Jo Bonnet (1995) —..................................58 Margaret Mahler —.....18 Oscar Wilde.....128.......21 P.31 Marcy Adelman —.............................................167 ÍNDICE REMISSIVO Autores citados...................................... 115 JoAnn Loulan (1990) —.20 P........................ Lerner (1989) —..........................31 Janet Lever —.....................79 Carlston —...... Lauman —............................31 Vivienne Cass —........ 143............................. 165 Eli Coleman —...........................................34 Clifford Wright (1935) —............. Lauman............ Jean Paul Sartre.............32 Tomás Almaguer (1991) —. 134...110 Cesare Lombroso —.............................................17...................................... Peterson...............27 Antoine Messiah —.........44 Elizabeth Kübler-Ross —...................................15 Mondimore.............22 Richard C........ 130 Janet Lever (1976) —.... 143. J................................................................ Hitler.................47 Gilbert Herdt —.....27 Vernon A Rosario [ed.....................47 Joyce P........................... Weinberg —.................................. Falco —........56 Freud —..........................35 Joseph Carrier (1989) —........................... ................................................................111 E............. 144............................... 20 Alfred Spira.....................27 Harriet G...............19............... 163 Garland E..... 143........................................... Lindenbaum —........... 116..................110............... Martin —.........................................71 Alan K........... S............................... A....................................109......................111 Jonathan Ned Katz —.............................................................. Allen —............... L....................................................17..... Janus —. 20....115...... 39 Richard von Krafft-Ebbing.............................143.........] —...................................47 P......52 John C.............. Michael —........................ D..................33 James D.............................................................................................................................. 28............. 143 Alisa Valdés —... 145 Marie-Ange Shiltz —..........143.33 Deborah Tannen —.......................26 Michel Foucault.........143 Alfred Kinsey.....45 J................71 Edmund Bergler —......... McKirnan................ 18 Nathalie Bajos...143 Sheila Jeffreys (1995) —......................102 John Gray (1992) —............... 23.................95 Deborah Tannen (1990) —... 115.....33............. Malyon —.......19 John De Cecco —......................... Carlston —............. 140 Frédéric Martel —...48 Erin G...51 Alan P... 144 Freud —.... 35........109 John Alan Lee —....................129 Brill —.............60 Allen —................................22 Dean Hamer Dean Hamer —.....42 Edward O............................. Bell —............110 Margaret Nichols —..... Michael Bailey —............................................. 115 Maryse Jaspard (1997) —.................. Pillard —........ 18........................33 Gary Remafedi —.........79 Carol Gilligan —. 26.34 Andi O’Conor —........ 41.....44 John D’Emilio....... Gibson............................................ Gonsiorek —..... Gibson —.121 Hetrick —..........71 Lord Alfred Douglas....17 Robert T.........118 Keith C..................................30 D.............................32 Colin Spencer (1998) —...........................44 Homofobia........20 Alfred Spira —..................... 163 Maryse Jaspard —.......... Hetrick —...18 Homossexualidade e literatura...108 Simon LeVay —.. 21.. Bennett —...42....18 Magnus Hirschfeld (1914) —....................................................26................47 Gerald Unks —.. 164 Samuel S...107 Martin S.20 Edward O...43........................... Steakley (1997) —.....34 Stephanie H...17 Francis Mark Mondimore —....32 Evelyn Hooker...............137 Kristine L........21 Francis Mark Mondimore........ 42................18 .....32 Clifford Wright (1939) —............. Kenen —..................47 Annick Prieur (1998) —........110 JoAnn Loulan —.......................

........................168 Simone De Beauvoir..18 .