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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA MUSEOLOGIA SANDRA MARIA SALDANHA KROETZ Ensaio acadêmico apresentado para obtenção de avaliação

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA MUSEOLOGIA

SANDRA MARIA SALDANHA KROETZ

Ensaio acadêmico apresentado para obtenção de avaliação parcial para a disciplina Antropologia do Negro no Brasil, do curso de Museologia da Universidade Federal da Bahia.

Orientador: Prof. Jocélio Teles dos Santos

Salvador

2011

A Santa dos pretos: Apropriações do culto de Santa Efigênia no Brasil Colonial” 1 ,- Anderson José Machado de Oliveira.

“Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento antoniano, séculos XV-XVIII” 2 - Ronaldo Vainfas e Marina de Mello e Souza.

Sandra Maria Saldanha Kroetz 3

Anderson Machado escreve na primeira parte do texto que a escravidão africana foi um dos principais fatores que influenciaram no processo de criação da cristandade colonial brasileira, atuando como elemento fundamental de afirmação dos interesses dos portugueses nos trópicos e da lógica de funcionamento da sociedade. Relata que a cristandade criada no Brasil colonial teve fortes imposições econômicas e sócio-culturais, que influenciaram nas relações entre o Estado e a Igreja, cabendo a Igreja, além de justificar a escravidão negra, incluir os africanos na cristandade colonial, por meio da catequese. Diz o autor, que a igreja, por sua estrutura hierárquica, viu-se obrigada a criar um projeto específico para a cristianização dos africanos, considerando as diferenças sociais existentes, pois a Igreja, como uma instituição importante na estruturação do poder e da sociedade colonial, não poderia deixar de se preocupar com o crescimento da população de africanos no Brasil, principalmente a partir do final do século XVII e ao longo do século XVIII, quando os africanos e seus descendentes iam se tornando, praticamente, o maior contingente populacional da América portuguesa. A partir disso, acredita o historiador, a preocupação da Igreja com a catequização dos negros, se traduziu na busca por modelos de santidade que pudessem ser difundidos entre a população de africanos e seus descendentes de forma a não só inserí-los na cristandade, mas também a fazer cristianizando essa população. Narra o autor que a questão do culto aos santos pelos negros era já difundido por ações portuguesas na costa da África, e essa ação teve importância fundamental para aproximar esses fiéis de origem africana à própria Igreja, já que existem algumas características que podem aproximar o catolicismo de alguns aspectos das próprias religiões de matriz africana, como a questão da possibilidade de comunicação entre o mundo material e o mundo não material, a existência de espíritos que fazem a comunicação entre esses

  • 1 OLIVEIRA, Anderson José Machado de. A Santa dos pretos: Apropriações do culto de Santa Efigênia no Brasil Colonial. Afro-Ásia nº 35. pp. 236-262.

2 VAINFAS, Ronaldo e SOUZA, Marina de Mello e. “Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento antoniano, séculos XV-XVIII”. Tempo nº 6 – DEZ 1998. pp. 95-118. 3 Sandra Maria Saldanha Kroetz, graduanda do Curso de Museologia da UFBA, turma 2009/1.

dois mundos, citando o historiador africanista John Thornton 4 . O texto de Anderson Silva foi baeado na obra do frade José Pereira de Santana 5 : A Crônica dos carmelitas da antiga e regular observância nestes reinos de Portugal, Algarves e seus domínios, publicada em 1745, escrita em dois volumes, sendo o primeiro sobre a vida de São Elesbão, e o segundo sobre a vida de Santa Efigênia. Santo Elesbão e Santa Efigênia eram pretos e Frei José procurava deixar claro esta afirmação, enfatizando que este “acidente” não os deixaria inferiorizados e apesar de possuírem este “acidente” da cor, seriam também atingidos pela graça divina. Frei José reproduzia com isso a concepção hierárquica de sociedade, onde o altar era particionado por diferenças e a própria existência de um projeto específico para catequização dos africanos, conforme citado anteriormente, reforçava e recriava estas diferenças.

Narra o texto que Frei José chamou Santo Elesbão e Santa Efigênia de “Atlantes da Etiópia”, associando-os à imagem do sol e da lua, simbolismo dotado de significados tanto para a cultura negra como para a cristã, além de Cristo ser associado ao sol, e da lua como símbolo de fertilidade, o que ocorre em algumas culturas africanas, que também fazem esse tipo de associação dessa simbologia. Esse simbolismo foi resgatado no poema de Cecília Meirelles, presente no texto, onde o autor julgou de extrema importância na compreensão da diferenciação que se estabeleceu entre a aceitação de Elesbão e de Efigênia entre os fiéis negros no século XVIII com uma acentuada preferência dos negros por Santa Efigênia a partir dos Setecentos, em função da prática devocional dos chamados “homens de cor”. Com base nos livros de óbitos, nos testamentos e nos juizados por devoções, o autor chegou a conclusão de que Santa Efigênia era mais apreciada que Santo Elisbão, onde uma das hipóteses dessa predileção seria a questão da figura feminina associada ao culto mariano, que teve grande difusão na época colonial, onde Maria era vista como a grande mãe protetora e consolo para as difíceis condições de existência dos habitantes da Colônia. O autor sugere ainda outra hipótese para essa preferência, relacionada com o processo de construção da memória africana com base nas recordações do papel das mulheres em diversas sociedades da África e transmigradas pelas suas descendentes à

  • 4 John Thornton, África and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400-1700, Cambridge, Cambridge University Press, 1998, pp. 235-254

sociedade colonial, citando, entre outros, estudos de Sheila de Castro Faria 6 , Eduardo Paiva 7 , Claude Meillassoux 8 sobre a importante atuação de liderança das mulheres entre os negros.

O autor conclui que o processo de cristianização dos africanos e seus descendentes foi um dos tópicos mais interessantes da história da diáspora, uma vez que produziu constantemente uma apropriação e uma ressignificação dos símbolos católicos segundo os valores das diversas culturas da África. No texto seguinte, Vainfas e Souza comentam que o desconhecimento da história da África é um dos maiores problemas da historiografia brasileira e que tal fato vêm se modificando nos últimos vinte anos, citando os trabalhos de João Jose Reis 9 , Manolo Florentino 10 e Robert Slenes 11 , apesar de que, segundo esses autores, haver muita coisa por fazer nessa área de estudos. Os autores consideram que o Congo revela historias surpreendentes e não muito conhecidas de nossos historiadores, a exemplo do processo de catolização iniciado naquele reino a partir do século XV e ao “aportuguesamento” de suas instituições sociais e do governo a partir do século XVI., sem, no entanto, acabar com as tradições bakongo ali existentes.

O Congo, segundo o autor, foi formado no final do século XIV, era um reino forte e estruturado, com milhares de habitantes e tinha como lider o Manikongo, cercado por linhagens nobres que faziam alianças por meio do casamento e pelas relações comerciais e políticas entre as diversas regiões. A divisão fundamental da sociedade congolesa era entre as cidades - mbanza – e as comunidades de aldeia – lubata, onde as diferenças básicas que distinguiam as cidades das aldeias eram a maior concentração da população e a administração da produção por parte da nobreza, que se apropriava do trabalho escravo. No Congo existiam dois tipos de escravidão, segundo tipologia elaborada por João José Reis 12 : a chamada escravidão doméstica ou de linhagem, na qual o cativeiro era resultante do cumprimento de penas sociais ou captura de guerras, onde o escravo era

  • 6 Sheila de Castro Faria, “Mulheres forras – riqueza e estigma social”. Tempo, vol. 5, nº 9, (2000),pp.65-92.

  • 7 Eduardo França Paiva, “Escravos e Libertos nas Minas Gerais nos séculos XVIII: estratégias de resistência através dos testamentos”, São Paulo, Annablumme, 1995, pp. 131-140.

  • 8 Claude Meilassoux, “Antropologia da Escravidão”, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995, pp. 87 e 235.

  • 9 João José Reis: “Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos malês (1835)”. São Paulo. Brasiliense. 1986. 293 pp.

    • 10 Manolo G. Florentino. “Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (sécs. XVIII-XIX)”. Rio de Janeiro. Arquivo Nacional. 1995. 300 pp.

    • 11 Robert Slenes. “Malungu, Ngoma vem: África coberta e descoberta no Brasil”. Revista USP, VOL 12. São Paulo. 1991-92, pp. 48-67.

    • 12 João José Reis. “Notas sobre a escravidão na África pré-colonial”. Estudos Afro-Asiáticos. n.14. Rio de Janeiro, pp. 5-21.

integrado à linhagem do senhor, e a escravidão ampliada ou escravismo, que era um tipo de escravidão comercial ligado à produção agrícola ou à exploração das minas, a qual seria mais tarde estimulada e desviada para o Atlântico após o contato com os portugueses. O Congo não era uma nação voltada para o comércio, mas os principais interesses dos portugueses quando chegaram ao Congo eram o comércio de escravos e o controle das minas, que eram sempre abaixo das expectativas. Quando pela segunda vez Diogo Cão desembarcou no Congo, por determinação de D. João II, alguns homens de sua esquadra foram enviados para um contato inicial com o Mankongo, porém, como demoraram a retornar, Diogo Cão retornou sem eles à Portugal juntamente com alguns bantos; estes, ficaram alguns anos em Portugal, foram bem tratados, aprenderam a religião, a língua, para quando retornassem ao Congo, causassem boa impressão ao que lá ficaram. O retorno dos bantos à origem, causou uma ressignificação de determinados valores pelos bantos, que associaram os portugueses ao deus banto: o rei de Portugal passou a ser denominado por eles Zampem-Apongo – rei do mundo - situação esta que fez com que os portugueses desenvolvessem uma relação “amistosa”, com o objetivo de adquirir a confiança dos africanos e posteriormente desenvolver a conquista colonial pretendida, isto é, lideranças políticas foram agregadas e auxiliavam aos portugueses na captura de nativos que seriam direcionados para o tráfico de escravos para as Américas. A partir de então, deu-se a imediata catolização do reino do Congo, a começar pela conversão do Manikongo Nsoyo, que passou a se chamar D. João I após o batismo, que foi celebrado com procissões, pregações, missas contra a idolatria e superstição, sendo destruídos templos e cultos locais. Na catolização do Congo foram cultivadas analogias entre o cristianismo e os cultos locais, passando os congoleses a preservar grande parte de suas crenças locais, sob o discurso da nova religião, ocorrendo uma africanização do catolicismo. Juntamente com a catolização, ocorreu a europeização dos costumes e instituições africanas daquela região, quando Afonso I, sucessor de D. João I, promoveu a educação formal com base na língua portuguesa, a Justiça passou a se inspirar na de Portugal e o estado passou a utilizar o regime monárquico, imaginando que poderia falar de igual para igual com as potências européias, firmar acordos e participar de uma política internacional, o que logo percebeu não ser possível, por ser um parceiro de menor valor. Em meio a todos estes acontecimentos, o Congo entra em crise e surge o antonianismo, movimento religioso de inspiração católica, cujo discurso tinha forte conotação política, liderado pela aristocrata Kimpa Vita, que dizia ter ressuscitado como

Santo Antônio, após ter sido acometida por forte doença e falecido em torno de 1702-1703. Segundo Ronaldo Vainfas e Marina Souza, o antonianismo era muito original, pois implicava na leitura banto ou bakongo da mensagem cristã, rejeitava boa parte dos sacramentos católicos, a exemplo do matrimônio, restaurando a poligamia e proibindo a veneração da cruz, uma vez ter sido ela o instrumento da morte de Cristo. Kimpa Vita provocou a ira dos missionários capuchinhos e dos postulantes do poder real e acabou por morrer na fogueira em 1708 como herege do catolicismo. A seguir os autores descrevem os estudos de vários autores sobre o movimento dos antonianos, cujo tema dizem ser dos mais polêmicos na historiografia acerca do Congo, a partir dos anos 60, sendo inclusive condenado como obscena e diabólica pela historiografia portuguesa que se espelhava no conservadorismo da Igreja.

CONCLUSÃO

O catolicismo era religião do colonizador, também foi a religião que necessitou ser reinterpretada pelos negros escravizados africanos, que se apropriaram do catolicismo como uma alternativa de reconstrução” de suas próprias identidades, apropriação esta não do catolicismo hierárquico pregado pela Igreja, mas um “catolicismo popular”, que seria justamente uma reinterpretação do catolicismo de acordo com as várias origens culturais africanas existentes no período colonial”. Pensando no cotidiano das mulheres que viviam na África e de suas descendentes na sociedade colonial, percebe-se que mesmo em meio às atrocidades do meio em que viviam, restaram alguns valores culturais que foram recriados e adaptados à nova vida que foram obrigadas assumir, situação que possivelmente deixou graves marcas na formação da cultura afro-brasileira. As ressignificações que os africanos realizaram já a partir da presença portuguesa em terras africanas, depois durante a travessia oceânica e posteriormente em terras atlânticas, foram assimiladas pelos cativos, que criaram uma nova identidade, tornando-a ativa a partir do momento em que uniram novas atitudes culturais às que já faziam parte de sua maneira de agir, ser e pensar, gerando formas novas e variadas, utilizando essa reapropriação como uma forma de se reorganizarem política, social e culturamente.