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Ética, deontologia, formação e profissão: observações sobre o Jornalismo

Francisco José Castilhos Karam*

Resumo
O trabalho faz vínculos entre afirmações que desconsideram a existência de uma ética es-

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pecífica jornalística e os valores profissionais refletidos nos princípios deontológicos para o exercício na área. Considera o jornalismo essencial ao debate público por onde se dão escolhas sociais e destaca procedimentos que exigem reflexões e opções morais específicas no quadro de atuação cotidiana. Enfatiza, ainda, a necessidade de pesquisas e de formação que, permanentemente, debatam, redimensionem e consolidem o ethos profissional.
*Professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Membro da Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas

Palavras-chave
jornalismo – profissão – valores – ética – deontologia

Estudos em Jornalismo e Mídia,
Vol. I Nº 1 - 1º Semestre de 2004

Assim como o cidadão. No geral. o debate sobre ética no jornalismo. “jornalista nasce feito” ou “nasce ético ou não”. não poderia bater a carteira e sair impune.. um parágrafo. Entre elas. Dada sua generalidade. os defensores de tal posição encontraram na juíza Carla Rister uma significativa aliada.. chamada pelo autor. mas durante toda a vida. referidas observações situadas entre a crença na virtude genética dos cidadãos e na formação moral geral para o exercício profissional .. portanto. suas afirmações são lembradas por empresários (quase sempre). e que a necessidade dos profissionais jornalistas serem éticos não é argumento que também possa Ainda que debates sobre ética jornalística se sucedam. adquiridas não apenas no meio acadêmico. uma cultura de formação profissional fundamentada em valores patrimoniais da atividade. com outras palavras: “precisamos discutir mais nossa profissão”. no mesmo livro e página. que não existiria uma ética própria dos profissionais da área. e mais uma vez o citam. citadas.. Seria descartável. “o jornalista precisa saber que seu papel exige grande responsabilidade 119 . o jornalista não deveria mentir. observações que repetem Abramo. assegura que honestidade e ética são exigências de qualquer profissão. mais prestam um desserviço ao jornalismo do que o auxiliam. tão somente. não passam disso. Considero que tais observações. que as empresas teriam sua ética. trata-se de verificar. que atestam suas qualidades éticas. aqui e ali. é descartado por palavras que. não deveria abusar da confiança. Ainda que debates sobre ética jornalística se sucedam. em 2002.e mais uma vez o citam ser invocado para a exigência de formação em jornalismo (2002). em livro póstumo produzido a partir de depoimentos e artigos. no caso. de ética dos donos (1988. Quando esses aparecem. quando assume tal perspectiva. as de Rister. A juíza-substituta.. “ética não se aprende”. Mas observava. ouve-se. as de que “ou se é ético ou não se é”. se uma ou outra pessoa contém componentes biológicos e genéticos. o renomado jornalista Cláudio Abramo considerava. então. hereditários ou não..Há 15 anos. na sentença depois derrubada contra a obrigatoriedade da formação superior específica para o exercício do jornalismo.e novamente o repetem.. observações que repetem Abramo.e novamente o repetem. ouve-se. repetidas e descontextualizadas. aqui e ali. Em muitas ocasiões. Mais de uma década se passou e.trazem alguns problemas concretos. As opiniões de Abramo não passam de uma página.. surgem outras vozes. 109). Destacava. Por tais observações. ainda no berçário – quando o há – . profissionais do mercado (seguidamente) e estudantes e professores da área (de vez em quando). que o dever de cidadania deveria se refletir na profissão.

5) a problemática off e do sigilo das fontes. 3) separação entre informação e opinião/fato e comentário/ fato e análise/ apuração e interpretação. I N¦º 1 . 14) os “negócios por fora”: a dupla função. Envolve saltar da ética para a deontologia e desta para aquela. 7) a relação e os limites entre o direito à informação de interesse público e o direito à inti-midade ou à privacidade . entre outros. Envolve os estudos de ética aplicados às profissões. precisaria de complemento: os estudos es-pecíficos sobre a ética jornalística e a base epistemológica em que se apóia. mais uma vez. na gravação de conversas não-autorizadas. Vol. “qual é a nossa ética?”. da verossimilhança. 8) a consciência pessoal em confronto com a consciência profissional (cláusula de consciência). tais estudos passam por algumas escolhas. relembro: 1) o problema da verdade. a dupla relação jornalismo versus promoção de vendas. dilemas os quais. na prática. no uso de câmeras ocultas.social”. incluindo os novos suportes tecnológicos. 10) a manipulação digital na fotografia e na imagem televisiva. . declarações e interpretações). na importância do sigilo das fontes e de sua necessidade e legitimidade ou limites dentro de uma atividade específica. da precisão e da exatidão. a meu ver. 11) o profissional que dá consultoria às fontes e as fontes que “plantam” informação. a do cotidiano de trabalho dos profissionais. No jornalismo. temas. Estudos em Jornalismo e Mídia. o conjunto de dilemas com os quais os profissionais jornalistas se defrontam todos 4) linguagem . 12) a sonegação de informação de interesse público. relato e edição: as abordagens e as escolhas (espaço-tamanho. “até onde podemos ir?” E aí se coloca para segundo plano a discussão do off entre os cabeleireiros ou dos produtores de pipoca ou fabricantes de automóveis e se passa a pensar. palavras e hierarquia de fontes. página-local. até onde podemos ir? provação da veracidade mediante fontes diversificadas e documentação. Cada uma das expressões anteriores. a dupla militância profissional. 9) a problemática do plágio.1º Semestre de 2004 Qual é a nossa ética?. valores e ethos profissional. 6) legitimidade de utilização de determinados métodos para a obtenção da informação jor-nalística – o lícito e o ilícito na alteração da identidade profissional. Isso envolve. por exemplo. num processo permanente e num quadro de referenciais jornalísticos históricos e relacionados à importância social da atividade. 2) isenção. 13) o ritmo da produção informativa e a com- 120 os dias. Envolve história.

um reconhecimento das especificidades Os problemas. princípios e temas apontados só podem integrar o quadro de acertos ou de equívocos éticos se houver a con-solidação de uma forma de se exercer a atividade. 22) os valores universais versus os valores particulares: um só jornalismo ou vários “jornalismos” compatíveis com nações. Já é. ainda que com enormes dificuldades e limites. E eles aparecem ali não por algum sorteio temático. abraçados em suas observações sobre ética – está ancorada na luta pela formulação e consolidação de um ethos profissional jornalístico. das impressões mais imediatas para a reflexão sobre valores. apuração e edição do material informativo. Tais expressões aparecem em grande parte dos códigos de conduta. 19) pagamento às fontes . guerras. circula-se pelo puro arbítrio. zonas de risco e outros. pelo palpite. como no caso do Brasil. Aparecem porque a história do jornalismo vai afirmando determinados tipos de procedimentos que se tornam patrimônio profissional e social. em alguns países. que se afirmou. por alguma “sessão de copo”. venda de dossiês e similares . para o debate permanente. 18) dilemas éticos na assessoria de imprensa: a fidelidade ao assessorado versus a fidelidade ao interesse da sociedade. a partir de um acúmulo já histórico. 16) casos especiais de cobertura e relato: seqüestros. necessidade e manutenção da profissão. por alguma determinação divina ou natural. culturas ou regiões. de princípios. Os problemas. o rendimento da informação e as técnicas de marketing aplicadas ao jornalismo / a utilização de técnicas mercadológicas na cobertura. ancorada em uma teoria que situe a rele-vância. nos últimos 200 anos. de sua realização como profissão e de seus vínculos com o interesse social – embora não invalidem as expressões comuns de leigos ou as opiniões de Abramo ou Rister. 21) o conflito redação versus comercial. 23) os índices de audiência. de princípios de 121 . ancorada em uma teoria que situe a relevância. 20) os embargos noticiosos. Salta-se. deontológicos que. em si mesmo. Fora disso. 17) a cobertura em setores onde se é assessor de imprensa/comunicação ou empregado/diretor.15) o patrocínio de viagens e coberturas: a “terceirização” do interesse social. chamam-se éticos. necessidade e manutenção da profissão de procedimentos. pela “festança” que é a plena subjetividade. assim. dentro do mar de generalidades morais que envolve o conjunto de procedimentos sociais e/ou de outras atividades. de honra. 24)as megafusões midiáticas e sua reper-cussão nos princípios deontológicos profis-sionais e no ethos jornalístico. princípios e temas apontados só podem integrar o quadro de acertos ou de equívocos éticos se houver a con-solidação de uma forma de se exercer a ativi-dade. para a consolidação de procedimentos e para a instituição. A história do jornalismo.

com o agir moralmente correto. simul­ ta­neamente universalizáveis e específicos na 122 zem para que tenha relevância. 1982). humana. da linguagem humana. Estes mesmos sentidos. da objetivação valorativa humana. são um produto histórico-social” (1985. eles serão. Se o melhor e mais moralmente defensável.conduta profissional. pela avaliação moral. em qualquer situação. E. Vol. significa estar a favor de alguns caminhos e não de outros. pode-se dizer que há possibilidades de repartir valores. nos animais e nas plantas. para Kosik. o acúmulo histórico-político da humanidade a faz projetar-se. configurados como tais a partir das formulações humanas. da objetivação valorativa humana . Sartre. seja política. por meio dos quais o homem descobre a realidade e o sentido dela. ideológica ou moral. sintetizadas em representações conceituais. E se confunde. grandezas e tragédias serão sempre pro-duções e responsabilidades humanas.. É em tal direção que Kosik (1985. isto significa que estamos no campo próprio de criação. isto é. E aí volto a uma espécie de abstração para tentar retornar aos casos do dia-a-dia. De onde partir? Toda referência sobre ética. com a carga valorativa do passado e com sua complexidade presente. configurados como tais a partir das formulações Estudos em Jornalismo e Mídia. fatores indispensáveis para poder. da linguagem humana. 1978. Mesmo que tentemos abstrair posições de toda ordem. É um caminho a ser transposto e que tem obstáculo duros e complexos.1º Semestre de 2004 Mesmo que admitamos valores na natureza. E de tal forma incorporado que. mesquinharias. debates sobre ética no jornalismo partem de críticas negativas (no mais das vezes) e de elogios (em raras oportunidades) a comportamentos em coberturas. obviamente. para quem estamos sós e sem desculpas. sempre. em não poucos momentos. eles serão. é possível compreender “o sentido objetivo da coisa se o homem cria para si mesmo um sentido correspondente. E produto de pessoas. sempre. a procedimentos de profissionais. coisa. a edições. por onde anda a vida. para o futuro. Generosidades. Mesmo que admitamos valores na natureza. palavras e conceitos humanos. tal tarefa é impossível. Partindo de tais pressupostos. sobre comunicação e sobre jornalismo será. afirmação e debate de valores. chegar-se a uma proximidade com o correto. 23). embora os limites de execução ética jornalística sejam visíveis muitas vezes. o ethos profissional solidificado torna mais difícil a rutpura dos princípios. nos animais e nas plantas. a mídia como um todo com as profissões que a produ- humanas. a possíveis erros concretos no exercício da atividade. resultado do saber ético incorporado. O patrimônio humano cultural. Valores são. A construção e afirmação de valores contidos nos conceitos também são responsabilidades humanas (Sartre. 217) aproxima-se de Sartre. Em geral.. sempre. I N¦º 1 . não de pedras ou de árvores.

resultaram em debates árduos e complexos. Ainda que provisórias. da mídia e do jornalismo no próprio âmbito da história humana mos lidando. entre especificidade e abrangência. por um possível processo de argumentação e convencimento. Atos cruéis significaram honra e tais atos. no tempo e no espaço? Os valores seriam consensuais ou. qual o caminho mais válido. fora do valor humano. em uma profissão ou em uma relação pessoal. situar as bases consensuais da afirmação valorativa. 1977). faço alguns apontamentos sem. A única perspectiva possível é a de situar o problema da ética. configurados em práticas que cau-saram dor e humilhação a alguém. também para o campo das profissões. sobre ética e sobre deontologia. foram va-lorados como grandeza moral por alguém. com algo que parte de valores constituídos humanamente para chegar a atos praticados humanamente. muitas vezes antagônicos. similares? Não foi e não é assim. 123 Valores e princípios éticos aplicados à profissão Ao tratarmos de ética em jornalismo esta- . Na projeção e ação comunicativas. originando-se normas morais e legais. para situar o problema moral em nova dimensão. esgotar quaisquer temáticas so-bre o assunto. seja nas cabeças ofertadas aos deuses (Russell. Por isso. Para o campo da ética e para o campo da deontologia. ao menos. a validade moral de determinado ato. a meu ver. Tal ponte entre particularidade e universalidade. MacIntyre. Mas a cultura humana seria invariável. o dever-ser do cotidiano. a idéia de bem. seja no âmbito religioso ou natural. elas fizeram avançar o entendimento sobre a gênese humana. no qual as car­gas valorativas compõem um dos eixos de per­­­­ manente debate. Acho difícil quem possa dizer. o debate midiático – aberto. algumas das quais referencio aqui. a única perspectiva possível é a de situar o problema da ética. a natureza constitutiva e. da mídia e do jornalismo no próprio âmbito da história humana. Assim. afirmação e/ou negação.con­­­cretude de uma ação. evidentemente. E não há quem possa comprovar. Situar o problema da correção ou do equívoco ético vale. dá-se num mundo em perpétua mudança. atos hoje considerados anti-éticos foram e são validados. Não há saída. seja na submissão de inimigos. no conjunto. seja ela em política. modificável da humanidade (ver. É uma disputa de e por valores. simultaneamente. Diante disso. É o eixo de uma argumentação na qual os integrantes da vida percebem aos outros e a si mesmos para então. por exemplo. de reflexão moral e de procedimentos éticos é um processo histórico no qual os valores. público e massivo – parece ser um caminho cujas portas precisam estar sempre sem trancas ou fechaduras. levando em conta que há um significativo número de obras qualificadas sobre moral. Em diferentes épocas e regiões.

originando-se normas morais e legais tivo. então 124 – parece-me o mais adequado e correto –. a noção de correto está vinculada à constituição de um campo de reconhecimento de valores que se interiorizam e se tornam patrimônio da profissão. Lasch. nas religiões. o debate permanente. a não ser que todos concordem. no intercâmbio entre tudo isso? Por isso. A descrença. Como nem todos concordam (e a história. nas culturas. de Sarajevo ao Oriente Médio. no governo. resta escolher. as modificações e a consolidação de determinadas morais. Isto significa dizer que. muito além. Elas devem corresponder a um padrão cumulativo e valoraEstudos em Jornalismo e Mídia. Como o presente é sempre objeto do jornalismo e vai exigir procedimentos específicos diante de inúmeros casos que envolvem escolhas morais no agir diário. por exemplo. que se caminhe para a afirmação de valores configurados em procedimentos transformados em patrimônio humano como um todo. dor e injustiça (ver. torna-se referência fundamental para as escolhas e a afirmação de valores compar-ti­­­­ lhados e universalizados. É por isso que. que impõem-se por meio de violência. afirma e define valores éticos? Não seriam apenas sujeitos que fazem a vida e a história? Onde estariam tais sujeitos? No indivíduo. assim. Reconhece-se. que a culminação ética se dá na escolha e na ação política.1º Semestre de 2004 A idéia de bem. dos maus tratos nos presídios brasileiros à cobertura sobre o seqüestro de Silvio Santos ou aos atentados no World Trade Center). público e aberto. num primeiro momento. 1992). ficam algumas questões: quem constrói. 1996. reconhecer e validar a existência dos termos. talvez. mediante algum debate prévio. reúnem tragédias potenciais. Parece-me necessário. Daniel Cornu afirme: “A . da diferença de abordagens factuais-morais a um mesmo fenômeno político. alguns dos elementos componentes da con­temporaneidade. por exemplo. aplicadas também ao exercício de determinadas atividades. resultaram em debates árduos e complexos. E para que ela seja chamada de profissão jornalística e não de outra ou de qualquer outra coisa. Mesmo assim. os grupos sociais.1988. serão sempre valores de alguns. estão repletos de dúvidas ético-políticas. no Estado. da representação parlamentar. Freitag. Contra isso. Os procedimentos jornalísticos para viabilizar tal debate são objeto permanente de reflexão ética e de aplicação prática deontológica. que podem indicar o modelo de futuro. a indiferença. I N¦º 1 . no sentido de redução do quadro de escolhas meramente particula­res – travestidas de interesse de todos ou da hu­­­ manidade –. 1989). Sloterdijk. Ou. muitas vezes antagônicos. 1983. nas etnias. em determinadas situações. E validam o surgimento. políticos e culturais. Lipovetsky. expressas em campos comunica-cionais. de reflexão moral e de procedimentos éticos é um processo histórico no qual os valores. as melhores alternativas. Vol. o cinismo e o narci­­sismo. uma escolha é melhor do que a outra e é mais recomendável. claro.

é porque há al-go que não podemos perder. inclui o indivíduo e seu cotidiano. as escolhas éticas – e sua conseqüência no campo da ação coti-diana – estão vinculadas ao agir diário.ética procura os fundamentos normativos da deontologia jornalística e funciona como instância crítica. de que quaisquer julgamentos exigem algum acúmulo histórico e o reconhecimento de valores os quais se quer ver derrotados ou afirmados e de indivíduos que. dotados de um estatuto político e profis-sional. a grandeza do andar humano. Por isso. na Política.e eles devem ser expressos no mundo vivido dos atos. seja na cober-tura de um fato de relevância jornalística. isto é. a referência comum que nos embala em busca do sonho e do futuro. de pesquisas e de processos de formação profissional jornalísticos em busca da defesa e da consolidação de determinados valores. nos processos midiáticos em geral e no jornalismo em par-ticular. Mas não dispõe de respostas pron-tas a usar. cujo 125 Surge então uma última dificuldade: a informação moderna ainda deixará tempo suficiente para uma interrogação ética? . Por isso. portanto. a meu ver. do agir político humano que. A praxis revelaria. E mais: “A medição do campo deontológico revela expec-tativas em termos de ética que têm a ver com a dificuldade de escolhas e das decisões no ter-reno. para consolidar quaisquer valores – incluindo os jornalísticos -. é necessário uma concepção do que é a Polis e do que é um processo de comunicação. então. Tem de clarificar as suas regras e formulações” (1999.125). e. há generalidade demasiada para tanta escolha específica. no caso das profissões. E tomando de Paulo Ricoeur a expressão “sabedoria prática” consi-dera que a deontologia opera no terreno do exer-cício profissional com base nos valores que fun-damentam as regras e as formulações. ainda que utópico. Mas surge então uma última dificuldade: a informação moderna ainda deixará tempo suficiente para uma interrogação ética?” (1999. falas e gestos . por onde se mexem tais áreas. num ato a favor da paz. 123). É com esta perspectiva que o campo da Política e do Jornalismo são construções humanas cotidianas. mexem-se no cotidiano buscando algo que deve. na aprovação de um projeto de lei no parlamento. de uma estrela das pas-sarelas ou do cotidiano de um mendigo que dorme sob os viadutos de cidades brasileiras. ser a favor da huma-nidade. Partimos. é claro. seja na escolha de tratamento midiático factual da intimidade de um jogador de futebol. do que é a Política e do que são as profissões inseridas nos processos midiáticos. A ética interpela. Se andamos ao redor de nossos próprios conceitos . as profissões e sua inserção no mundo. até sua culmi-nação nas questões técnicas mais imediatas. em princípio. a ne-cessidade de ampliação e de manutenção de campos específicos de estudos. a coletividade e sua relação com a sociedade. a deontologia. Mesmo as-sim. no entorno que envolve a especificidade de cada área. Renova-se assim.

Recupero. Sem o debate. um conteúdo próprio. Daí que as questões da linguagem e de estilo não possam . especialmente comum. de Cultura. Por isso. o obscurantismo torna-se um padrão. O problema de descer do mundo dos pensamentos ao mundo real se converte. assim. a prática da Política e do Jornalismo deve ser Estudos em Jornalismo e Mídia. de Saúde. em A Ideologia Alemã. de Política. de Rural. em que os pensamentos encerram. espe-cialmente comum. É por isso que a Filosofia tem sentido se a praticarmos por meio da Política. remetem à organização qualitativa social.debate é imprescindível para o convencimento pessoal e para a incorporação de determinados valores que. até se chegar às opções éticas mais adequadas em cada caso e à sua conceituação 126 ético-deontológica. de Educação. que se expressa em infinitos produtos midiáticos. E como os filósofos proclamaram a independência do pensamento. o mundo social e sua complexidade resultado da incorporação valorativa. É por isso que as duas só têm sentido. porque falta-ria o objeto produzido pelo sujeito. Vol. como palavras. de Cidades. o ápice – ainda que sempre provisório – do exercício ético-político profissional. Só com ele. um pensador ainda válido para inúmeras abordagens da vida – e do jornalismo. deveriam também proclamar a linguagem como um reino próprio e soberano. É a razão de ser da profissão. com dilemas práticos imediatos.feitas em períodos mínimos de tempo.. A realidade imediata do pensamento é a linguagem. apud Romano: 1984. que resulta na qualidade técnica e disseminação tecno-lógica. É por isso que as duas só têm sentido. E acrescenta o Vicente Romano: “a informação jornalística trata precisamente da vida. se o processo de comunicação que as envolve incluir a realidade concreta. que as profissões são construções históricas humanas e uma luta política de afirmação de valores morais também específicos. enfim. que faz parte dela: “Um dos problemas mais difíceis para os filósofos é descer do mundo do pensamento ao mundo real. I N¦º 1 . entre outras razões. de Esportes. o mundo social e sua complexidade. se o processo de comunicação que as envolve incluir a realidade concreta. Nisto reside o segredo da linguagem filosófica.1º Semestre de 2004 É por isso que a Filosofia tem sentido se a praticarmos por meio da Política. É quando alguns filósofos deixam o alto dos edifícios – onde antes apontavam os rumos da humanidade sem se sujar nos barros das estradas por onde estão os jornalistas “práticos” . 147). onde está a ética. de Ciência. aqui. o que há mais de 150 anos escrevia. É onde o exercício técnico e sua expressão tecnológica se encontram com a reflexão ética e aplicação deontológica. de Comportamento. É por isso. de Polícia. É. a ação política não tem qualquer referência concreta ética.e descem às ruas para ver de perto as produções cotidianas e as escolhas necessárias – porque necessária é a profissão .. no problema de descer da linguagem à vida” (Karl Marx. seja na cobertura de Economia. configurados em palavras e procedimentos.

remete sempre à conceituação. 1995.500 anos. que discutam valores? A informação periódica. clara. do tipo jornalística. 147). o das mídias segmentadas. A ética da palavra. sempre. a ética. Se concordarmos com tais afirmações. No Jornalismo não é diferente. o controle sobre a opinião e a coerção sempre esteve pendulando. de diferentes estruturas de poder e similares. negação ou afirmação de procedimentos. para se realizar. na prática. vivem a tensão entre a possibilidade de realização da ética e as dificuldades teórico-operacionais para a execução dos princípios. Mas é nesse momento. incluindo. Como sua base é a moral vivida e os códigos morais. à ação política cotidiana. que concretizam deveres e direitos. Quem define isso? E como manter espaços de interlocução pública e de controvérsias. de diferentes estruturas de poder e similares imediata. então validar alguns. Significa. derrotar outros. massiva. menos pelo ritmo regular de um relógio e mais pelo interesse particularizado. claro. na escolha temática e no debate público. uma preocupação reflexiva própria das teorias filosóficas” (Bonete Perales. como direito à Vida. conectar-se. que necessitam ser adquiridas 127 . seja dos indivíduos. etc. e. Debruçando-se sobre eles. a análise ética necessita. em geral travestido de interesse social. o que equivale a dizer que o movimento moral é sempre presente. de uma determinada moral vivida. Os limites cotidianos. seria possível. necessitamos sempre produções midiáticas e jornalísticas. relacionada aos processos de comunicação. além das virtudes. de argumentação e de persuasão teria de. Em tal direção.. As finalidades do jornalismo implicam sua relação com o mundo. Para Bonete Perales. como eu concordo.500 anos. menos pelo ritmo regular de um relógio e mais pelo interesse particularizado. é essencial e estratégica para este caminho. fundamentação. uma escolha também éticoprática. públicas ou privadas. já que o fim dele é satisfazer as crescentes necessidades culturais e intelectuais da população” (1984. foi no calor da hora e dos tempos – com o embalo do acúmulo histórico . Ao longo de 2.se separar do jornalismo. contraria-se outros. o controle sobre a opinião e a coerção sempre esteve pendulando. justificação racional. que se apresentam como ideais sociais e culturais. Foi no calor dos debates e do agir. responsável. de determinados valores imperantes ou ideais. no Jornalismo. “as normas. Ao validar alguns. como o direito à Tortura.que se produziram valores. Ao longo de 2. a meu ver. no calor da disputa. seja do Estado que representava. tarefas intelectuais que nos indicam um certo nível de abstração e generalização. 22). os quais hoje se pode dizer que são patrimônios comuns da humanidade como gênero. portanto. “em sentido rigoroso. de uma teoria que a justifique. técnicas e éticas de produção midiáticas e jornalísticas. em geral travestido de interesse social. que a abstração e a generalização necessitam uma ponte com as situações e circunstâncias concretas e vínculos com as funções sociais. os valores.

cresce também a análise so-bre a eficácia e a utilidade das referências deontológicas na área. desde a minha perspectiva. trabalhados por meio da estética e da técnica e expressos em distintos suportes tecnológicos. a partir da história de tal área . Ao mesmo tempo em que é ampliado o número de códigos. 41). assim. O jornalista e escritor Serge Halimi mostra-se cético quanto à existência de códigos deontológicos (1998. 25). muitos deles já reconhecidos mas. Vol. a partir de uma teoria de determinada atividade. negá-la ou redimensioná-la. 130). Tal culminação é uma referência capaz de gerar debates sobre situações concretas e relacioná-las à moral e à ética. E é Daniel Cornu mesmo que vai dizer. Assim como eles. embora não se manifeste explicitamente a favor da formação profissional e da exigência de um título acadêmico específico. mas encontram nela uma culminação provisória. subscritos por categorias profissionais e empresariais no cam-po do Jornalismo. conforme os princípios profissionais teóricos e éticos. que ainda sofre da falta de reconhecimento enquanto O debate sobre a ética jornalística e sobre as temáticas e procedimentos profissionais deon-tológicos em jornalismo vêm crescendo nos últimos anos. Tratam da inser-ção das profissões na contemporaneidade e de suas possibilidades de realização. Trata-se. entre elas as daqueles que trabalham na mídia e no jornalismo. diversos pesquisadores e profissionais têm contribuído para o debate sobre a profissão jornalística. sem dúvida capitais. de toda reflexão ética e de todo conflito moral. Os seus contornos continuam a ser imprecisos” (1994. Aznar considera que os códigos no jornalismo contribuem “de maneira fundamental para criar e afirmar uma consciência moral coletiva dentro da profissão” (1997. Enquanto isso. ainda insuficientes. As observações dos dois autores remetem à discussão sobre a eficácia dos códigos e sobre o debate moral decorrente deles. Tais debates são 128 atividade que implica um saber e uma especialização.1º Semestre de 2004 O exercício ético das profissões está vinculado às situações morais que enfrenta e às escolhas que necessita fazer a partir da relevância social da área. que “o jornalismo continua a ser uma profissão aberta. I N¦º 1 . 128). ilumina. tanto no âmbito da vida privada como de qualquer profissão pública” (1995.pelas pessoas por meio da prática. Sobre debates. sua ética e deontologia específicas. de avançar estudos para consolidar contornos. incluindo as profissões. O exercício ético das profissões está vinculado às situações morais que enfrenta e às escolhas que necessita fazer a partir da relevância social da área. O campo da reflexão ética. a partir de uma teoria de determinada atividade. estudos e princípios específicos Estudos em Jornalismo e Mídia. A especificidade é fundamental. a partir da história de tal área – para afirmá-la. o comportamento prático do dia-a-dia. constituem três eixos. de certa forma. A moral e a ética não se reduzem à deontologia.

Esta é a razão de existir códigos que. mas encontram nela uma culminação provisória. Não obstante.necessariamente mais complexos e remetem a uma filosofia da profissão. determinam não poucas in-conseqüências e. É em tal cruza-mento que se dá a convergência entre a ética do profissional jornalista com a do cidadão. observa: “O caráter juvenil da profissão jornalística e o interesse hegemônico em desvirtuar o fundamento principal de sua fun-ção na sociedade. o nome legítimo de jornalistas” (1999. E prossegue: “esta tendência. téc-nica e estética. onde o jornalismo é uma espe-cialidade mais. também deixaram de sê-lo para rebatizar-se com o nome de comu-nicação social. em brado à esquerda. Por isso.com P maiúsculo. (. é na especificidade da temática ética que se dá a ponte para a universalidade das questões sociais. junto às de relações públicas. incluindo reflexões de ordem ética. na afirmação do indivíduo como um ser profis-sional e político. revelam as bases teóricas e os marcos teleológicos os quais se busca em uma profissão. Tal culminação é uma referência capaz de gerar debates sobre situações concretas e relacioná-las à moral e à ética americanas. que os tensiona. como síntese. em última ins-tância. põe no centro dos debates os limites a superar. é preciso ficar alertas quanto à influência negativa que possa exercer para nos negar. parece-me também correto que são referências para a ação e a reflexão.. 23). é certo. po-lítica ou exclusivamente de mercado. de um acidente a um desvio de verbas públicas.) As escolas de jornalismo. na sociedade ou em todo o sistema midiático. a de mudar seu nome para o de comunicador social. entre elas. financeira e mercadológica que devem ser superados. publicidade. Eles precisam ser removidos-e não a ética. que. O jornalista cubano Ernesto Vera. do gesto cotidiano à representação parlamentar e ao interior do exercício das profissões. administração de empresas e outras”. um dever-ser (deontologia) ancorado na busca pela realização profissional e pela resolução de fatos-problemas os quais a humanidade reconhece como tais. além do conceito de profissão. a luta ética é também uma luta política. Por isso. ainda não chegou às organizações que agrupam os jornalistas. de um atentando às razões dele ou sobre os interesses envolvidos em quaisquer conflitos ou guerras. financeira. A escolha técnica é também moral e vice-versa. Os princípios morais da ativi-dade reúnem.. se aproxima do processo da ação política . Com tal estatuto. imposta pela política educacional dos Estados Unidos e assimilada sem críticas por muitas univer-sidades latino- A moral e a ética não se reduzem à deontologia. A meu ver. Os princípios morais são limitados. a formação e a produção jornalísticas exigem fundamentos epistemoló-gicos. É aí também que o processo de comunicação e de informação do tipo jornalística. na mídia. econômica. No entanto. são os limites de ordem política. se vitimadas eti-camente pela lógica econômica. O espaço da formação profissional em Jor- 129 .

Ética e Política na Sociedade Humana. Bertrand (1977). Vicente (1984). História de la Ética. Introducción al Periodismo: Información y Conciencia. Tradução de Célia Neves e Alderico Toríbio. SARTRE. HALIMI. LIPOVETSKY. Peter (1989). Lisboa: Instituto Piaget. In: Anàlisi. Madrid: Tecnos. trazem grandes contribuições à afirmação de um ethos teórico-prático que envolve profissionais. 1997 (pp. SLOTERDIJK. 2ª ed. A Regra do Jogo. Lisboa: Presença. I Nº1 . Os Novos Cães de Guarda. Traducción de Juana Bignozzi.. Rio de Janeiro: Paz e Terra. São Paulo: Companhia das Letras. 3ª ed. Tradução de Vergílio Ferreira. Ernesto (1999). 2ª ed. o do Conselho Federal de Jorna-lismo e de uma nova regulamentação para a área. Traducción de Roberto Juan Walton. ao se afirmar. Vergílio (1978). O Existencialismo é um Humanismo. Caixeiro. Vol. Carla Abrantkoski (2002).025946-3). Éticas de la Información y Deontologías del Periodismo. Karel (1985). Crítica de la Razón Cínica (tomos 1 y 2). Cristopher (1983). Barcelona: Paidós. Tradução de Nice Rissone. Jornalismo e Verdade: Para Uma Ética da Informação. Sentença de 18 de dezembro de 2002. Moral e Sociedade. estudantes. sobre Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público Federal e Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no estado de São Paulo (Processo n° 2001. professores e pesquisadores – num campo que. El Crepúsculo del Deber: la Ética Indolora de los Nuevos Tiempos Democráticos. Claudio (1988). o do campo permanente de debates.nalismo. afirma também a especificidade dentro da necessária relação com outros campos de estudos e de práticas midiáticas e sociais. Barcelona: Teide. 130 Estudos em Jornalismo e Mídia. 4ª ed. MacINTYRE.00.61. Serge (1998). BONETE PERALES. 3ª ed. SARTRE. “El debate en torno a la utilidad de los códigos deontológicos del periodismo”. La Habana: Editorial Pablo de la Torriente. Jean-Paul et allii (1982). Petrópolis: Vozes. CORNU. Barcelona: Universitat Autònoma de Barcelona. El Periodismo y la Segunda Independencia Latinoamericana. RUSSELL.) (1995). Jean-Paul e FERREIRA. Daniel (1999). Rio de Janeiro: Zahar. Barcelona: Anagrama. VERA. LASCH.1º Semestre de 2004 . Enrique (coord. Rio de Janeiro: Imago. A Cultura do Narcisismo. Tradução de Armando Pereira da Silva. que ora se amplia com a Sociedade Brasileira de Estudos de Jornalismo. Dialética do Concreto. Alasdair (1988). Rio de Janeiro: Paz e Terra. Tradução de Nathanael C. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. ROMANO. KOSIK. AZNAR. RISTER. n 20. Tradução de Ernani Pavanelli Moura. FREITAG. Traducción de Miguel Ángel Vega Madrid: Taurus. 125-144). Bárbara (1992). Referências Bibliográficas ABRAMO. Gilles (1996). Campinas: Papirus. Hugo (1997). Itinerários da Antígona: a Questão da Moralidade.