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Ética, deontologia, formação e profissão: observações sobre o Jornalismo

Francisco José Castilhos Karam*

Resumo
O trabalho faz vínculos entre afirmações que desconsideram a existência de uma ética es-

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pecífica jornalística e os valores profissionais refletidos nos princípios deontológicos para o exercício na área. Considera o jornalismo essencial ao debate público por onde se dão escolhas sociais e destaca procedimentos que exigem reflexões e opções morais específicas no quadro de atuação cotidiana. Enfatiza, ainda, a necessidade de pesquisas e de formação que, permanentemente, debatam, redimensionem e consolidem o ethos profissional.
*Professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Membro da Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas

Palavras-chave
jornalismo – profissão – valores – ética – deontologia

Estudos em Jornalismo e Mídia,
Vol. I Nº 1 - 1º Semestre de 2004

não passam disso. surgem outras vozes. e mais uma vez o citam. Entre elas. trata-se de verificar. uma cultura de formação profissional fundamentada em valores patrimoniais da atividade. 109). os defensores de tal posição encontraram na juíza Carla Rister uma significativa aliada. as de Rister. “ética não se aprende”. aqui e ali. As opiniões de Abramo não passam de uma página... Mais de uma década se passou e.e mais uma vez o citam ser invocado para a exigência de formação em jornalismo (2002).. Destacava.Há 15 anos. tão somente. citadas. Assim como o cidadão. no mesmo livro e página. adquiridas não apenas no meio acadêmico. o jornalista não deveria mentir. Considero que tais observações. ouve-se.. não poderia bater a carteira e sair impune. referidas observações situadas entre a crença na virtude genética dos cidadãos e na formação moral geral para o exercício profissional . observações que repetem Abramo. que as empresas teriam sua ética. portanto. o debate sobre ética no jornalismo.e novamente o repetem. em 2002. Em muitas ocasiões. Seria descartável. Dada sua generalidade. Quando esses aparecem. mais prestam um desserviço ao jornalismo do que o auxiliam. se uma ou outra pessoa contém componentes biológicos e genéticos. chamada pelo autor. ainda no berçário – quando o há – . no caso. observações que repetem Abramo.. hereditários ou não. que não existiria uma ética própria dos profissionais da área.e novamente o repetem.. o renomado jornalista Cláudio Abramo considerava. aqui e ali. que atestam suas qualidades éticas. Mas observava. na sentença depois derrubada contra a obrigatoriedade da formação superior específica para o exercício do jornalismo. “jornalista nasce feito” ou “nasce ético ou não”.. repetidas e descontextualizadas. quando assume tal perspectiva. em livro póstumo produzido a partir de depoimentos e artigos. é descartado por palavras que. um parágrafo. com outras palavras: “precisamos discutir mais nossa profissão”. mas durante toda a vida. assegura que honestidade e ética são exigências de qualquer profissão. A juíza-substituta. “o jornalista precisa saber que seu papel exige grande responsabilidade 119 . Ainda que debates sobre ética jornalística se sucedam. não deveria abusar da confiança.. No geral. ouve-se. profissionais do mercado (seguidamente) e estudantes e professores da área (de vez em quando). e que a necessidade dos profissionais jornalistas serem éticos não é argumento que também possa Ainda que debates sobre ética jornalística se sucedam. as de que “ou se é ético ou não se é”.trazem alguns problemas concretos. que o dever de cidadania deveria se refletir na profissão. suas afirmações são lembradas por empresários (quase sempre). de ética dos donos (1988. então. Por tais observações.

8) a consciência pessoal em confronto com a consciência profissional (cláusula de consciência). 7) a relação e os limites entre o direito à informação de interesse público e o direito à inti-midade ou à privacidade . 5) a problemática off e do sigilo das fontes. relembro: 1) o problema da verdade. 14) os “negócios por fora”: a dupla função. 3) separação entre informação e opinião/fato e comentário/ fato e análise/ apuração e interpretação. palavras e hierarquia de fontes. no uso de câmeras ocultas. até onde podemos ir? provação da veracidade mediante fontes diversificadas e documentação. a meu ver. a dupla militância profissional.social”. a dupla relação jornalismo versus promoção de vendas. página-local. “até onde podemos ir?” E aí se coloca para segundo plano a discussão do off entre os cabeleireiros ou dos produtores de pipoca ou fabricantes de automóveis e se passa a pensar. Isso envolve. por exemplo. temas. 10) a manipulação digital na fotografia e na imagem televisiva. incluindo os novos suportes tecnológicos. No jornalismo. declarações e interpretações). o conjunto de dilemas com os quais os profissionais jornalistas se defrontam todos 4) linguagem . Envolve saltar da ética para a deontologia e desta para aquela. na gravação de conversas não-autorizadas. na prática. 9) a problemática do plágio. mais uma vez. I N¦º 1 . . 12) a sonegação de informação de interesse público. 11) o profissional que dá consultoria às fontes e as fontes que “plantam” informação. dilemas os quais. Estudos em Jornalismo e Mídia. da precisão e da exatidão. da verossimilhança. 13) o ritmo da produção informativa e a com- 120 os dias. entre outros. relato e edição: as abordagens e as escolhas (espaço-tamanho.1º Semestre de 2004 Qual é a nossa ética?. num processo permanente e num quadro de referenciais jornalísticos históricos e relacionados à importância social da atividade. “qual é a nossa ética?”. Cada uma das expressões anteriores. Vol. precisaria de complemento: os estudos es-pecíficos sobre a ética jornalística e a base epistemológica em que se apóia. Envolve os estudos de ética aplicados às profissões. 2) isenção. valores e ethos profissional. na importância do sigilo das fontes e de sua necessidade e legitimidade ou limites dentro de uma atividade específica. Envolve história. 6) legitimidade de utilização de determinados métodos para a obtenção da informação jor-nalística – o lícito e o ilícito na alteração da identidade profissional. tais estudos passam por algumas escolhas. a do cotidiano de trabalho dos profissionais.

Já é. 22) os valores universais versus os valores particulares: um só jornalismo ou vários “jornalismos” compatíveis com nações. em si mesmo. 23) os índices de audiência. por alguma “sessão de copo”. apuração e edição do material informativo. de princípios de 121 . culturas ou regiões. de princípios. 17) a cobertura em setores onde se é assessor de imprensa/comunicação ou empregado/diretor. Aparecem porque a história do jornalismo vai afirmando determinados tipos de procedimentos que se tornam patrimônio profissional e social.15) o patrocínio de viagens e coberturas: a “terceirização” do interesse social. princípios e temas apontados só podem integrar o quadro de acertos ou de equívocos éticos se houver a con-solidação de uma forma de se exercer a atividade. abraçados em suas observações sobre ética – está ancorada na luta pela formulação e consolidação de um ethos profissional jornalístico. ancorada em uma teoria que situe a rele-vância. chamam-se éticos. venda de dossiês e similares . princípios e temas apontados só podem integrar o quadro de acertos ou de equívocos éticos se houver a con-solidação de uma forma de se exercer a ativi-dade. dentro do mar de generalidades morais que envolve o conjunto de procedimentos sociais e/ou de outras atividades. 21) o conflito redação versus comercial. 19) pagamento às fontes . necessidade e manutenção da profissão. 24)as megafusões midiáticas e sua reper-cussão nos princípios deontológicos profis-sionais e no ethos jornalístico. de sua realização como profissão e de seus vínculos com o interesse social – embora não invalidem as expressões comuns de leigos ou as opiniões de Abramo ou Rister. Fora disso. ainda que com enormes dificuldades e limites. pela “festança” que é a plena subjetividade. em alguns países. necessidade e manutenção da profissão de procedimentos. 16) casos especiais de cobertura e relato: seqüestros. por alguma determinação divina ou natural. Os problemas. para o debate permanente. a partir de um acúmulo já histórico. Tais expressões aparecem em grande parte dos códigos de conduta. deontológicos que. como no caso do Brasil. zonas de risco e outros. o rendimento da informação e as técnicas de marketing aplicadas ao jornalismo / a utilização de técnicas mercadológicas na cobertura. das impressões mais imediatas para a reflexão sobre valores. E eles aparecem ali não por algum sorteio temático. assim. pelo palpite. 18) dilemas éticos na assessoria de imprensa: a fidelidade ao assessorado versus a fidelidade ao interesse da sociedade. Salta-se. de honra. A história do jornalismo. nos últimos 200 anos. guerras. 20) os embargos noticiosos. um reconhecimento das especificidades Os problemas. ancorada em uma teoria que situe a relevância. circula-se pelo puro arbítrio. que se afirmou. para a consolidação de procedimentos e para a instituição.

da linguagem humana. De onde partir? Toda referência sobre ética. humana. é possível compreender “o sentido objetivo da coisa se o homem cria para si mesmo um sentido correspondente. fatores indispensáveis para poder. Mesmo que admitamos valores na natureza. da objetivação valorativa humana . eles serão. E de tal forma incorporado que. da objetivação valorativa humana. palavras e conceitos humanos. pode-se dizer que há possibilidades de repartir valores. sempre. E. E produto de pessoas. grandezas e tragédias serão sempre pro-duções e responsabilidades humanas. significa estar a favor de alguns caminhos e não de outros.conduta profissional.. 1978. são um produto histórico-social” (1985. isto significa que estamos no campo próprio de criação. sintetizadas em representações conceituais. 23). configurados como tais a partir das formulações humanas. Vol. Valores são. pela avaliação moral. a possíveis erros concretos no exercício da atividade. a mídia como um todo com as profissões que a produ- humanas. tal tarefa é impossível.. E aí volto a uma espécie de abstração para tentar retornar aos casos do dia-a-dia. Se o melhor e mais moralmente defensável. É em tal direção que Kosik (1985. ideológica ou moral. seja política. 1982). afirmação e debate de valores. nos animais e nas plantas. sempre. É um caminho a ser transposto e que tem obstáculo duros e complexos. E se confunde. eles serão. em não poucos momentos. debates sobre ética no jornalismo partem de críticas negativas (no mais das vezes) e de elogios (em raras oportunidades) a comportamentos em coberturas. não de pedras ou de árvores. simul­ ta­neamente universalizáveis e específicos na 122 zem para que tenha relevância. resultado do saber ético incorporado. para o futuro. a edições. isto é. Generosidades. O patrimônio humano cultural. I N¦º 1 . Partindo de tais pressupostos. o ethos profissional solidificado torna mais difícil a rutpura dos princípios. sobre comunicação e sobre jornalismo será. Estes mesmos sentidos. o acúmulo histórico-político da humanidade a faz projetar-se. A construção e afirmação de valores contidos nos conceitos também são responsabilidades humanas (Sartre. por onde anda a vida. chegar-se a uma proximidade com o correto. nos animais e nas plantas. 217) aproxima-se de Sartre. embora os limites de execução ética jornalística sejam visíveis muitas vezes. Sartre. a procedimentos de profissionais. Em geral. configurados como tais a partir das formulações Estudos em Jornalismo e Mídia. obviamente. para Kosik. por meio dos quais o homem descobre a realidade e o sentido dela.1º Semestre de 2004 Mesmo que admitamos valores na natureza. para quem estamos sós e sem desculpas. sempre. da linguagem humana. com o agir moralmente correto. mesquinharias. coisa. com a carga valorativa do passado e com sua complexidade presente. Mesmo que tentemos abstrair posições de toda ordem. em qualquer situação.

A única perspectiva possível é a de situar o problema da ética. ao menos. seja nas cabeças ofertadas aos deuses (Russell. o dever-ser do cotidiano.con­­­cretude de uma ação. o debate midiático – aberto. Mas a cultura humana seria invariável. Assim. atos hoje considerados anti-éticos foram e são validados. fora do valor humano. É o eixo de uma argumentação na qual os integrantes da vida percebem aos outros e a si mesmos para então. também para o campo das profissões. Tal ponte entre particularidade e universalidade. elas fizeram avançar o entendimento sobre a gênese humana. MacIntyre. esgotar quaisquer temáticas so-bre o assunto. sobre ética e sobre deontologia. de reflexão moral e de procedimentos éticos é um processo histórico no qual os valores. Atos cruéis significaram honra e tais atos. em uma profissão ou em uma relação pessoal. resultaram em debates árduos e complexos. foram va-lorados como grandeza moral por alguém. É uma disputa de e por valores. no tempo e no espaço? Os valores seriam consensuais ou. a validade moral de determinado ato. da mídia e do jornalismo no próprio âmbito da história humana mos lidando. similares? Não foi e não é assim. da mídia e do jornalismo no próprio âmbito da história humana. seja na submissão de inimigos. 1977). situar as bases consensuais da afirmação valorativa. Acho difícil quem possa dizer. simultaneamente. por exemplo. Ainda que provisórias. modificável da humanidade (ver. Em diferentes épocas e regiões. seja no âmbito religioso ou natural. com algo que parte de valores constituídos humanamente para chegar a atos praticados humanamente. seja ela em política. Por isso. afirmação e/ou negação. a natureza constitutiva e. Não há saída. qual o caminho mais válido. Na projeção e ação comunicativas. E não há quem possa comprovar. a idéia de bem. muitas vezes antagônicos. 123 Valores e princípios éticos aplicados à profissão Ao tratarmos de ética em jornalismo esta- . levando em conta que há um significativo número de obras qualificadas sobre moral. algumas das quais referencio aqui. a meu ver. no conjunto. por um possível processo de argumentação e convencimento. Diante disso. faço alguns apontamentos sem. Situar o problema da correção ou do equívoco ético vale. público e massivo – parece ser um caminho cujas portas precisam estar sempre sem trancas ou fechaduras. para situar o problema moral em nova dimensão. configurados em práticas que cau-saram dor e humilhação a alguém. no qual as car­gas valorativas compõem um dos eixos de per­­­­ manente debate. originando-se normas morais e legais. a única perspectiva possível é a de situar o problema da ética. evidentemente. dá-se num mundo em perpétua mudança. Para o campo da ética e para o campo da deontologia. entre especificidade e abrangência.

no Estado. o cinismo e o narci­­sismo. Lipovetsky. dos maus tratos nos presídios brasileiros à cobertura sobre o seqüestro de Silvio Santos ou aos atentados no World Trade Center). os grupos sociais. que se caminhe para a afirmação de valores configurados em procedimentos transformados em patrimônio humano como um todo. muitas vezes antagônicos. 1996. 1983. muito além. aplicadas também ao exercício de determinadas atividades. o debate permanente. E para que ela seja chamada de profissão jornalística e não de outra ou de qualquer outra coisa. no governo. mediante algum debate prévio. por exemplo. Parece-me necessário. originando-se normas morais e legais tivo. serão sempre valores de alguns. É por isso que. nas culturas. em determinadas situações. que a culminação ética se dá na escolha e na ação política. Mesmo assim. E validam o surgimento. Ou. afirma e define valores éticos? Não seriam apenas sujeitos que fazem a vida e a história? Onde estariam tais sujeitos? No indivíduo. Daniel Cornu afirme: “A . nas etnias. reconhecer e validar a existência dos termos. A descrença. no intercâmbio entre tudo isso? Por isso. resultaram em debates árduos e complexos. que impõem-se por meio de violência.1º Semestre de 2004 A idéia de bem. expressas em campos comunica-cionais. da representação parlamentar. Como o presente é sempre objeto do jornalismo e vai exigir procedimentos específicos diante de inúmeros casos que envolvem escolhas morais no agir diário. 1992). assim. Freitag. Lasch. que podem indicar o modelo de futuro. ficam algumas questões: quem constrói. de Sarajevo ao Oriente Médio. da diferença de abordagens factuais-morais a um mesmo fenômeno político. a não ser que todos concordem. I N¦º 1 . de reflexão moral e de procedimentos éticos é um processo histórico no qual os valores. políticos e culturais. público e aberto. reúnem tragédias potenciais. num primeiro momento. claro. dor e injustiça (ver. uma escolha é melhor do que a outra e é mais recomendável.1988. estão repletos de dúvidas ético-políticas. Isto significa dizer que. 1989). Vol. por exemplo. nas religiões. a indiferença. Como nem todos concordam (e a história. talvez. torna-se referência fundamental para as escolhas e a afirmação de valores compar-ti­­­­ lhados e universalizados. alguns dos elementos componentes da con­temporaneidade. Reconhece-se. as melhores alternativas. Elas devem corresponder a um padrão cumulativo e valoraEstudos em Jornalismo e Mídia. a noção de correto está vinculada à constituição de um campo de reconhecimento de valores que se interiorizam e se tornam patrimônio da profissão. Sloterdijk. no sentido de redução do quadro de escolhas meramente particula­res – travestidas de interesse de todos ou da hu­­­ manidade –. resta escolher. Contra isso. então 124 – parece-me o mais adequado e correto –. Os procedimentos jornalísticos para viabilizar tal debate são objeto permanente de reflexão ética e de aplicação prática deontológica. as modificações e a consolidação de determinadas morais.

é porque há al-go que não podemos perder. as profissões e sua inserção no mundo. a referência comum que nos embala em busca do sonho e do futuro. Mesmo as-sim. 123). na Política. a ne-cessidade de ampliação e de manutenção de campos específicos de estudos. no caso das profissões. A ética interpela. Partimos. falas e gestos . É com esta perspectiva que o campo da Política e do Jornalismo são construções humanas cotidianas. a meu ver. portanto. inclui o indivíduo e seu cotidiano. na aprovação de um projeto de lei no parlamento. de uma estrela das pas-sarelas ou do cotidiano de um mendigo que dorme sob os viadutos de cidades brasileiras. seja na escolha de tratamento midiático factual da intimidade de um jogador de futebol. mexem-se no cotidiano buscando algo que deve. num ato a favor da paz. ser a favor da huma-nidade. é necessário uma concepção do que é a Polis e do que é um processo de comunicação. é claro.125). a grandeza do andar humano. em princípio. A praxis revelaria. Por isso. de que quaisquer julgamentos exigem algum acúmulo histórico e o reconhecimento de valores os quais se quer ver derrotados ou afirmados e de indivíduos que. e. então. E tomando de Paulo Ricoeur a expressão “sabedoria prática” consi-dera que a deontologia opera no terreno do exer-cício profissional com base nos valores que fun-damentam as regras e as formulações. do que é a Política e do que são as profissões inseridas nos processos midiáticos. no entorno que envolve a especificidade de cada área. a deontologia. Por isso. E mais: “A medição do campo deontológico revela expec-tativas em termos de ética que têm a ver com a dificuldade de escolhas e das decisões no ter-reno. por onde se mexem tais áreas. isto é. há generalidade demasiada para tanta escolha específica. Mas não dispõe de respostas pron-tas a usar. para consolidar quaisquer valores – incluindo os jornalísticos -. do agir político humano que. até sua culmi-nação nas questões técnicas mais imediatas. dotados de um estatuto político e profis-sional.ética procura os fundamentos normativos da deontologia jornalística e funciona como instância crítica. ainda que utópico. as escolhas éticas – e sua conseqüência no campo da ação coti-diana – estão vinculadas ao agir diário. Renova-se assim. Tem de clarificar as suas regras e formulações” (1999. seja na cober-tura de um fato de relevância jornalística. Mas surge então uma última dificuldade: a informação moderna ainda deixará tempo suficiente para uma interrogação ética?” (1999. nos processos midiáticos em geral e no jornalismo em par-ticular.e eles devem ser expressos no mundo vivido dos atos. cujo 125 Surge então uma última dificuldade: a informação moderna ainda deixará tempo suficiente para uma interrogação ética? . Se andamos ao redor de nossos próprios conceitos . de pesquisas e de processos de formação profissional jornalísticos em busca da defesa e da consolidação de determinados valores. a coletividade e sua relação com a sociedade.

assim. onde está a ética. de Educação. de Polícia. de Cidades.. E acrescenta o Vicente Romano: “a informação jornalística trata precisamente da vida. até se chegar às opções éticas mais adequadas em cada caso e à sua conceituação 126 ético-deontológica. em que os pensamentos encerram. deveriam também proclamar a linguagem como um reino próprio e soberano. a ação política não tem qualquer referência concreta ética. Daí que as questões da linguagem e de estilo não possam . que se expressa em infinitos produtos midiáticos. de Esportes. Vol. Só com ele. O problema de descer do mundo dos pensamentos ao mundo real se converte. É por isso que as duas só têm sentido. configurados em palavras e procedimentos. É por isso.. como palavras. com dilemas práticos imediatos. se o processo de comunicação que as envolve incluir a realidade concreta. É. no problema de descer da linguagem à vida” (Karl Marx. o ápice – ainda que sempre provisório – do exercício ético-político profissional.debate é imprescindível para o convencimento pessoal e para a incorporação de determinados valores que. É por isso que as duas só têm sentido. que faz parte dela: “Um dos problemas mais difíceis para os filósofos é descer do mundo do pensamento ao mundo real. É onde o exercício técnico e sua expressão tecnológica se encontram com a reflexão ética e aplicação deontológica. É quando alguns filósofos deixam o alto dos edifícios – onde antes apontavam os rumos da humanidade sem se sujar nos barros das estradas por onde estão os jornalistas “práticos” . de Ciência. um conteúdo próprio. porque falta-ria o objeto produzido pelo sujeito. um pensador ainda válido para inúmeras abordagens da vida – e do jornalismo. que resulta na qualidade técnica e disseminação tecno-lógica. Recupero. A realidade imediata do pensamento é a linguagem. Por isso. o que há mais de 150 anos escrevia. Nisto reside o segredo da linguagem filosófica. que as profissões são construções históricas humanas e uma luta política de afirmação de valores morais também específicos. É por isso que a Filosofia tem sentido se a praticarmos por meio da Política. de Saúde. aqui. o mundo social e sua complexidade. seja na cobertura de Economia. espe-cialmente comum.1º Semestre de 2004 É por isso que a Filosofia tem sentido se a praticarmos por meio da Política. em A Ideologia Alemã. Sem o debate. remetem à organização qualitativa social.feitas em períodos mínimos de tempo. especialmente comum. a prática da Política e do Jornalismo deve ser Estudos em Jornalismo e Mídia. enfim. se o processo de comunicação que as envolve incluir a realidade concreta.e descem às ruas para ver de perto as produções cotidianas e as escolhas necessárias – porque necessária é a profissão . apud Romano: 1984. de Rural. o obscurantismo torna-se um padrão. de Política. de Comportamento. I N¦º 1 . É a razão de ser da profissão. 147). E como os filósofos proclamaram a independência do pensamento. de Cultura. entre outras razões. o mundo social e sua complexidade resultado da incorporação valorativa.

já que o fim dele é satisfazer as crescentes necessidades culturais e intelectuais da população” (1984.se separar do jornalismo. a meu ver. de diferentes estruturas de poder e similares imediata.500 anos. claro. justificação racional. como eu concordo. em geral travestido de interesse social. técnicas e éticas de produção midiáticas e jornalísticas. em geral travestido de interesse social. remete sempre à conceituação. Se concordarmos com tais afirmações. uma preocupação reflexiva própria das teorias filosóficas” (Bonete Perales. de argumentação e de persuasão teria de. menos pelo ritmo regular de um relógio e mais pelo interesse particularizado. Em tal direção. que se apresentam como ideais sociais e culturais. seja do Estado que representava. Os limites cotidianos. públicas ou privadas. portanto. de uma teoria que a justifique. 22). no calor da disputa. no Jornalismo. para se realizar. uma escolha também éticoprática. que discutam valores? A informação periódica. relacionada aos processos de comunicação. que a abstração e a generalização necessitam uma ponte com as situações e circunstâncias concretas e vínculos com as funções sociais. fundamentação. na prática. o das mídias segmentadas. A ética da palavra. de diferentes estruturas de poder e similares. como direito à Vida. “as normas. foi no calor da hora e dos tempos – com o embalo do acúmulo histórico . responsável. que concretizam deveres e direitos. como o direito à Tortura. sempre. os valores. Como sua base é a moral vivida e os códigos morais. contraria-se outros. No Jornalismo não é diferente. Quem define isso? E como manter espaços de interlocução pública e de controvérsias. de uma determinada moral vivida.que se produziram valores. na escolha temática e no debate público. As finalidades do jornalismo implicam sua relação com o mundo. Ao validar alguns. à ação política cotidiana. Para Bonete Perales. seja dos indivíduos.. necessitamos sempre produções midiáticas e jornalísticas. o que equivale a dizer que o movimento moral é sempre presente. de determinados valores imperantes ou ideais. o controle sobre a opinião e a coerção sempre esteve pendulando. 1995. etc. menos pelo ritmo regular de um relógio e mais pelo interesse particularizado. negação ou afirmação de procedimentos. clara. vivem a tensão entre a possibilidade de realização da ética e as dificuldades teórico-operacionais para a execução dos princípios. é essencial e estratégica para este caminho. Debruçando-se sobre eles. tarefas intelectuais que nos indicam um certo nível de abstração e generalização. incluindo. Ao longo de 2. Mas é nesse momento. então validar alguns. derrotar outros. a análise ética necessita. “em sentido rigoroso. os quais hoje se pode dizer que são patrimônios comuns da humanidade como gênero. que necessitam ser adquiridas 127 . seria possível. o controle sobre a opinião e a coerção sempre esteve pendulando. do tipo jornalística. conectar-se. Significa. a ética. além das virtudes. massiva.500 anos. Foi no calor dos debates e do agir. 147). e. Ao longo de 2.

entre elas as daqueles que trabalham na mídia e no jornalismo. 25). Aznar considera que os códigos no jornalismo contribuem “de maneira fundamental para criar e afirmar uma consciência moral coletiva dentro da profissão” (1997. constituem três eixos. A especificidade é fundamental. estudos e princípios específicos Estudos em Jornalismo e Mídia. Tais debates são 128 atividade que implica um saber e uma especialização. O exercício ético das profissões está vinculado às situações morais que enfrenta e às escolhas que necessita fazer a partir da relevância social da área. As observações dos dois autores remetem à discussão sobre a eficácia dos códigos e sobre o debate moral decorrente deles. que “o jornalismo continua a ser uma profissão aberta. mas encontram nela uma culminação provisória. diversos pesquisadores e profissionais têm contribuído para o debate sobre a profissão jornalística.pelas pessoas por meio da prática. ilumina. cresce também a análise so-bre a eficácia e a utilidade das referências deontológicas na área. O jornalista e escritor Serge Halimi mostra-se cético quanto à existência de códigos deontológicos (1998. sua ética e deontologia específicas. o comportamento prático do dia-a-dia. de certa forma. subscritos por categorias profissionais e empresariais no cam-po do Jornalismo.1º Semestre de 2004 O exercício ético das profissões está vinculado às situações morais que enfrenta e às escolhas que necessita fazer a partir da relevância social da área. muitos deles já reconhecidos mas. Sobre debates. tanto no âmbito da vida privada como de qualquer profissão pública” (1995. Tal culminação é uma referência capaz de gerar debates sobre situações concretas e relacioná-las à moral e à ética. a partir da história de tal área . desde a minha perspectiva. sem dúvida capitais. 130). negá-la ou redimensioná-la. a partir da história de tal área – para afirmá-la. Os seus contornos continuam a ser imprecisos” (1994. Enquanto isso. embora não se manifeste explicitamente a favor da formação profissional e da exigência de um título acadêmico específico. a partir de uma teoria de determinada atividade. 41). a partir de uma teoria de determinada atividade. ainda insuficientes. que ainda sofre da falta de reconhecimento enquanto O debate sobre a ética jornalística e sobre as temáticas e procedimentos profissionais deon-tológicos em jornalismo vêm crescendo nos últimos anos. de toda reflexão ética e de todo conflito moral. I N¦º 1 . Trata-se. trabalhados por meio da estética e da técnica e expressos em distintos suportes tecnológicos. A moral e a ética não se reduzem à deontologia. Ao mesmo tempo em que é ampliado o número de códigos. E é Daniel Cornu mesmo que vai dizer. 128). Vol. conforme os princípios profissionais teóricos e éticos. assim. incluindo as profissões. Assim como eles. O campo da reflexão ética. Tratam da inser-ção das profissões na contemporaneidade e de suas possibilidades de realização. de avançar estudos para consolidar contornos.

o nome legítimo de jornalistas” (1999. se aproxima do processo da ação política . mas encontram nela uma culminação provisória. É em tal cruza-mento que se dá a convergência entre a ética do profissional jornalista com a do cidadão. Não obstante. é na especificidade da temática ética que se dá a ponte para a universalidade das questões sociais. revelam as bases teóricas e os marcos teleológicos os quais se busca em uma profissão. Esta é a razão de existir códigos que. financeira. incluindo reflexões de ordem ética. se vitimadas eti-camente pela lógica econômica. um dever-ser (deontologia) ancorado na busca pela realização profissional e pela resolução de fatos-problemas os quais a humanidade reconhece como tais. a de mudar seu nome para o de comunicador social. O espaço da formação profissional em Jor- 129 . Os princípios morais são limitados. onde o jornalismo é uma espe-cialidade mais. O jornalista cubano Ernesto Vera. observa: “O caráter juvenil da profissão jornalística e o interesse hegemônico em desvirtuar o fundamento principal de sua fun-ção na sociedade. a luta ética é também uma luta política. administração de empresas e outras”. que os tensiona. na sociedade ou em todo o sistema midiático. determinam não poucas in-conseqüências e.. junto às de relações públicas. E prossegue: “esta tendência. que. No entanto. também deixaram de sê-lo para rebatizar-se com o nome de comu-nicação social. financeira e mercadológica que devem ser superados. na mídia. do gesto cotidiano à representação parlamentar e ao interior do exercício das profissões. é preciso ficar alertas quanto à influência negativa que possa exercer para nos negar. Por isso. 23). ainda não chegou às organizações que agrupam os jornalistas. de um acidente a um desvio de verbas públicas. de um atentando às razões dele ou sobre os interesses envolvidos em quaisquer conflitos ou guerras. Por isso. téc-nica e estética.necessariamente mais complexos e remetem a uma filosofia da profissão. A escolha técnica é também moral e vice-versa. a formação e a produção jornalísticas exigem fundamentos epistemoló-gicos. A meu ver. é certo. econômica. imposta pela política educacional dos Estados Unidos e assimilada sem críticas por muitas univer-sidades latino- A moral e a ética não se reduzem à deontologia. Eles precisam ser removidos-e não a ética. po-lítica ou exclusivamente de mercado. É aí também que o processo de comunicação e de informação do tipo jornalística. como síntese. são os limites de ordem política. parece-me também correto que são referências para a ação e a reflexão. em brado à esquerda. (.. em última ins-tância. Os princípios morais da ativi-dade reúnem. publicidade. na afirmação do indivíduo como um ser profis-sional e político. Tal culminação é uma referência capaz de gerar debates sobre situações concretas e relacioná-las à moral e à ética americanas. põe no centro dos debates os limites a superar.) As escolas de jornalismo. além do conceito de profissão. Com tal estatuto. entre elas.com P maiúsculo.

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