Ética, deontologia, formação e profissão: observações sobre o Jornalismo

Francisco José Castilhos Karam*

Resumo
O trabalho faz vínculos entre afirmações que desconsideram a existência de uma ética es-

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pecífica jornalística e os valores profissionais refletidos nos princípios deontológicos para o exercício na área. Considera o jornalismo essencial ao debate público por onde se dão escolhas sociais e destaca procedimentos que exigem reflexões e opções morais específicas no quadro de atuação cotidiana. Enfatiza, ainda, a necessidade de pesquisas e de formação que, permanentemente, debatam, redimensionem e consolidem o ethos profissional.
*Professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Membro da Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas

Palavras-chave
jornalismo – profissão – valores – ética – deontologia

Estudos em Jornalismo e Mídia,
Vol. I Nº 1 - 1º Semestre de 2004

citadas. mas durante toda a vida..e novamente o repetem. com outras palavras: “precisamos discutir mais nossa profissão”. tão somente. Dada sua generalidade. ainda no berçário – quando o há – . trata-se de verificar. ouve-se.. Ainda que debates sobre ética jornalística se sucedam. os defensores de tal posição encontraram na juíza Carla Rister uma significativa aliada. aqui e ali. hereditários ou não. e mais uma vez o citam.. é descartado por palavras que. uma cultura de formação profissional fundamentada em valores patrimoniais da atividade. Assim como o cidadão. um parágrafo. Mas observava. as de Rister. Em muitas ocasiões. que o dever de cidadania deveria se refletir na profissão.e novamente o repetem. não passam disso. surgem outras vozes. em livro póstumo produzido a partir de depoimentos e artigos. mais prestam um desserviço ao jornalismo do que o auxiliam. ouve-se. Mais de uma década se passou e. portanto. que as empresas teriam sua ética. “o jornalista precisa saber que seu papel exige grande responsabilidade 119 . e que a necessidade dos profissionais jornalistas serem éticos não é argumento que também possa Ainda que debates sobre ética jornalística se sucedam. 109). Por tais observações.. em 2002. As opiniões de Abramo não passam de uma página. de ética dos donos (1988. Considero que tais observações. o renomado jornalista Cláudio Abramo considerava. se uma ou outra pessoa contém componentes biológicos e genéticos. A juíza-substituta. repetidas e descontextualizadas. referidas observações situadas entre a crença na virtude genética dos cidadãos e na formação moral geral para o exercício profissional . o jornalista não deveria mentir. que não existiria uma ética própria dos profissionais da área. Seria descartável. o debate sobre ética no jornalismo. adquiridas não apenas no meio acadêmico. quando assume tal perspectiva. profissionais do mercado (seguidamente) e estudantes e professores da área (de vez em quando). não poderia bater a carteira e sair impune. no caso. assegura que honestidade e ética são exigências de qualquer profissão.Há 15 anos. Destacava.. na sentença depois derrubada contra a obrigatoriedade da formação superior específica para o exercício do jornalismo. então. Entre elas.e mais uma vez o citam ser invocado para a exigência de formação em jornalismo (2002). que atestam suas qualidades éticas. suas afirmações são lembradas por empresários (quase sempre).trazem alguns problemas concretos. observações que repetem Abramo. observações que repetem Abramo. Quando esses aparecem. “ética não se aprende”. no mesmo livro e página.. “jornalista nasce feito” ou “nasce ético ou não”. chamada pelo autor. aqui e ali. não deveria abusar da confiança. No geral... as de que “ou se é ético ou não se é”.

entre outros. Envolve história. Envolve os estudos de ética aplicados às profissões. 10) a manipulação digital na fotografia e na imagem televisiva. Estudos em Jornalismo e Mídia. a dupla relação jornalismo versus promoção de vendas. da precisão e da exatidão. 14) os “negócios por fora”: a dupla função. Envolve saltar da ética para a deontologia e desta para aquela. na importância do sigilo das fontes e de sua necessidade e legitimidade ou limites dentro de uma atividade específica. No jornalismo. da verossimilhança. Cada uma das expressões anteriores. 13) o ritmo da produção informativa e a com- 120 os dias. incluindo os novos suportes tecnológicos. “até onde podemos ir?” E aí se coloca para segundo plano a discussão do off entre os cabeleireiros ou dos produtores de pipoca ou fabricantes de automóveis e se passa a pensar. Isso envolve. “qual é a nossa ética?”. na gravação de conversas não-autorizadas. precisaria de complemento: os estudos es-pecíficos sobre a ética jornalística e a base epistemológica em que se apóia.1º Semestre de 2004 Qual é a nossa ética?. palavras e hierarquia de fontes. declarações e interpretações). 12) a sonegação de informação de interesse público. a dupla militância profissional.social”. relembro: 1) o problema da verdade. até onde podemos ir? provação da veracidade mediante fontes diversificadas e documentação. Vol. no uso de câmeras ocultas. relato e edição: as abordagens e as escolhas (espaço-tamanho. 8) a consciência pessoal em confronto com a consciência profissional (cláusula de consciência). 3) separação entre informação e opinião/fato e comentário/ fato e análise/ apuração e interpretação. 6) legitimidade de utilização de determinados métodos para a obtenção da informação jor-nalística – o lícito e o ilícito na alteração da identidade profissional. mais uma vez. 7) a relação e os limites entre o direito à informação de interesse público e o direito à inti-midade ou à privacidade . 5) a problemática off e do sigilo das fontes. o conjunto de dilemas com os quais os profissionais jornalistas se defrontam todos 4) linguagem . 11) o profissional que dá consultoria às fontes e as fontes que “plantam” informação. a do cotidiano de trabalho dos profissionais. dilemas os quais. por exemplo. tais estudos passam por algumas escolhas. 2) isenção. na prática. num processo permanente e num quadro de referenciais jornalísticos históricos e relacionados à importância social da atividade. a meu ver. página-local. temas. valores e ethos profissional. . 9) a problemática do plágio. I N¦º 1 .

a partir de um acúmulo já histórico. o rendimento da informação e as técnicas de marketing aplicadas ao jornalismo / a utilização de técnicas mercadológicas na cobertura. 23) os índices de audiência. zonas de risco e outros. deontológicos que. A história do jornalismo. por alguma “sessão de copo”. 24)as megafusões midiáticas e sua reper-cussão nos princípios deontológicos profis-sionais e no ethos jornalístico. um reconhecimento das especificidades Os problemas. culturas ou regiões. guerras.15) o patrocínio de viagens e coberturas: a “terceirização” do interesse social. por alguma determinação divina ou natural. princípios e temas apontados só podem integrar o quadro de acertos ou de equívocos éticos se houver a con-solidação de uma forma de se exercer a ativi-dade. necessidade e manutenção da profissão. ancorada em uma teoria que situe a relevância. ancorada em uma teoria que situe a rele-vância. assim. 21) o conflito redação versus comercial. 19) pagamento às fontes . em si mesmo. Os problemas. dentro do mar de generalidades morais que envolve o conjunto de procedimentos sociais e/ou de outras atividades. de sua realização como profissão e de seus vínculos com o interesse social – embora não invalidem as expressões comuns de leigos ou as opiniões de Abramo ou Rister. de honra. apuração e edição do material informativo. de princípios. 22) os valores universais versus os valores particulares: um só jornalismo ou vários “jornalismos” compatíveis com nações. Tais expressões aparecem em grande parte dos códigos de conduta. 18) dilemas éticos na assessoria de imprensa: a fidelidade ao assessorado versus a fidelidade ao interesse da sociedade. 17) a cobertura em setores onde se é assessor de imprensa/comunicação ou empregado/diretor. venda de dossiês e similares . Fora disso. princípios e temas apontados só podem integrar o quadro de acertos ou de equívocos éticos se houver a con-solidação de uma forma de se exercer a atividade. das impressões mais imediatas para a reflexão sobre valores. abraçados em suas observações sobre ética – está ancorada na luta pela formulação e consolidação de um ethos profissional jornalístico. de princípios de 121 . Já é. circula-se pelo puro arbítrio. pela “festança” que é a plena subjetividade. necessidade e manutenção da profissão de procedimentos. Salta-se. Aparecem porque a história do jornalismo vai afirmando determinados tipos de procedimentos que se tornam patrimônio profissional e social. chamam-se éticos. pelo palpite. E eles aparecem ali não por algum sorteio temático. em alguns países. para a consolidação de procedimentos e para a instituição. 16) casos especiais de cobertura e relato: seqüestros. que se afirmou. para o debate permanente. como no caso do Brasil. nos últimos 200 anos. 20) os embargos noticiosos. ainda que com enormes dificuldades e limites.

Se o melhor e mais moralmente defensável. configurados como tais a partir das formulações humanas. I N¦º 1 .. da linguagem humana. o acúmulo histórico-político da humanidade a faz projetar-se. seja política. O patrimônio humano cultural. sempre. chegar-se a uma proximidade com o correto. com o agir moralmente correto. não de pedras ou de árvores. por meio dos quais o homem descobre a realidade e o sentido dela.1º Semestre de 2004 Mesmo que admitamos valores na natureza. são um produto histórico-social” (1985. E. É em tal direção que Kosik (1985. sempre. nos animais e nas plantas. da linguagem humana. simul­ ta­neamente universalizáveis e específicos na 122 zem para que tenha relevância. a possíveis erros concretos no exercício da atividade. 1978. isto é. sobre comunicação e sobre jornalismo será. sintetizadas em representações conceituais. 23). significa estar a favor de alguns caminhos e não de outros. Em geral. E de tal forma incorporado que. o ethos profissional solidificado torna mais difícil a rutpura dos princípios. é possível compreender “o sentido objetivo da coisa se o homem cria para si mesmo um sentido correspondente. pode-se dizer que há possibilidades de repartir valores. configurados como tais a partir das formulações Estudos em Jornalismo e Mídia. por onde anda a vida. Generosidades. tal tarefa é impossível. Valores são. isto significa que estamos no campo próprio de criação. eles serão. da objetivação valorativa humana . obviamente. pela avaliação moral. E aí volto a uma espécie de abstração para tentar retornar aos casos do dia-a-dia. grandezas e tragédias serão sempre pro-duções e responsabilidades humanas. Mesmo que tentemos abstrair posições de toda ordem. palavras e conceitos humanos. mesquinharias. Partindo de tais pressupostos. ideológica ou moral. em qualquer situação.. debates sobre ética no jornalismo partem de críticas negativas (no mais das vezes) e de elogios (em raras oportunidades) a comportamentos em coberturas. para o futuro. E produto de pessoas. nos animais e nas plantas. embora os limites de execução ética jornalística sejam visíveis muitas vezes. Estes mesmos sentidos. em não poucos momentos.conduta profissional. para quem estamos sós e sem desculpas. coisa. fatores indispensáveis para poder. De onde partir? Toda referência sobre ética. 217) aproxima-se de Sartre. Vol. resultado do saber ético incorporado. E se confunde. a edições. afirmação e debate de valores. a procedimentos de profissionais. com a carga valorativa do passado e com sua complexidade presente. eles serão. humana. a mídia como um todo com as profissões que a produ- humanas. para Kosik. Sartre. sempre. 1982). Mesmo que admitamos valores na natureza. da objetivação valorativa humana. É um caminho a ser transposto e que tem obstáculo duros e complexos. A construção e afirmação de valores contidos nos conceitos também são responsabilidades humanas (Sartre.

qual o caminho mais válido. 1977). E não há quem possa comprovar. Na projeção e ação comunicativas. Assim. a única perspectiva possível é a de situar o problema da ética. resultaram em debates árduos e complexos. da mídia e do jornalismo no próprio âmbito da história humana mos lidando. esgotar quaisquer temáticas so-bre o assunto. Situar o problema da correção ou do equívoco ético vale. algumas das quais referencio aqui. faço alguns apontamentos sem. a idéia de bem. simultaneamente. evidentemente. por exemplo. seja no âmbito religioso ou natural. a natureza constitutiva e. Acho difícil quem possa dizer. da mídia e do jornalismo no próprio âmbito da história humana. A única perspectiva possível é a de situar o problema da ética. ao menos. Por isso. a validade moral de determinado ato. com algo que parte de valores constituídos humanamente para chegar a atos praticados humanamente. modificável da humanidade (ver. Não há saída. o debate midiático – aberto. elas fizeram avançar o entendimento sobre a gênese humana. configurados em práticas que cau-saram dor e humilhação a alguém. originando-se normas morais e legais. Diante disso. a meu ver. fora do valor humano. Atos cruéis significaram honra e tais atos. dá-se num mundo em perpétua mudança. Em diferentes épocas e regiões. muitas vezes antagônicos. seja nas cabeças ofertadas aos deuses (Russell. atos hoje considerados anti-éticos foram e são validados. Tal ponte entre particularidade e universalidade. seja ela em política. foram va-lorados como grandeza moral por alguém. situar as bases consensuais da afirmação valorativa. para situar o problema moral em nova dimensão. seja na submissão de inimigos. afirmação e/ou negação. Mas a cultura humana seria invariável. de reflexão moral e de procedimentos éticos é um processo histórico no qual os valores. levando em conta que há um significativo número de obras qualificadas sobre moral. É o eixo de uma argumentação na qual os integrantes da vida percebem aos outros e a si mesmos para então. É uma disputa de e por valores. Para o campo da ética e para o campo da deontologia. no tempo e no espaço? Os valores seriam consensuais ou. Ainda que provisórias.con­­­cretude de uma ação. entre especificidade e abrangência. sobre ética e sobre deontologia. também para o campo das profissões. o dever-ser do cotidiano. em uma profissão ou em uma relação pessoal. MacIntyre. 123 Valores e princípios éticos aplicados à profissão Ao tratarmos de ética em jornalismo esta- . similares? Não foi e não é assim. no qual as car­gas valorativas compõem um dos eixos de per­­­­ manente debate. no conjunto. por um possível processo de argumentação e convencimento. público e massivo – parece ser um caminho cujas portas precisam estar sempre sem trancas ou fechaduras.

de Sarajevo ao Oriente Médio. que a culminação ética se dá na escolha e na ação política. Vol. o debate permanente. em determinadas situações. a indiferença. claro. que se caminhe para a afirmação de valores configurados em procedimentos transformados em patrimônio humano como um todo. por exemplo. talvez. Mesmo assim. Isto significa dizer que. Reconhece-se. no Estado. uma escolha é melhor do que a outra e é mais recomendável. muitas vezes antagônicos. 1983. da diferença de abordagens factuais-morais a um mesmo fenômeno político. afirma e define valores éticos? Não seriam apenas sujeitos que fazem a vida e a história? Onde estariam tais sujeitos? No indivíduo. serão sempre valores de alguns. estão repletos de dúvidas ético-políticas. a não ser que todos concordem. É por isso que. Lipovetsky. que impõem-se por meio de violência. no governo. que podem indicar o modelo de futuro. aplicadas também ao exercício de determinadas atividades. num primeiro momento. Freitag. Os procedimentos jornalísticos para viabilizar tal debate são objeto permanente de reflexão ética e de aplicação prática deontológica. reúnem tragédias potenciais. a noção de correto está vinculada à constituição de um campo de reconhecimento de valores que se interiorizam e se tornam patrimônio da profissão. dos maus tratos nos presídios brasileiros à cobertura sobre o seqüestro de Silvio Santos ou aos atentados no World Trade Center). Como o presente é sempre objeto do jornalismo e vai exigir procedimentos específicos diante de inúmeros casos que envolvem escolhas morais no agir diário. Parece-me necessário.1º Semestre de 2004 A idéia de bem. Contra isso. E para que ela seja chamada de profissão jornalística e não de outra ou de qualquer outra coisa. resta escolher. A descrença. no sentido de redução do quadro de escolhas meramente particula­res – travestidas de interesse de todos ou da hu­­­ manidade –. as modificações e a consolidação de determinadas morais. dor e injustiça (ver. por exemplo. 1992). 1996.1988. muito além. Como nem todos concordam (e a história. da representação parlamentar. E validam o surgimento. Lasch. de reflexão moral e de procedimentos éticos é um processo histórico no qual os valores. 1989). expressas em campos comunica-cionais. o cinismo e o narci­­sismo. então 124 – parece-me o mais adequado e correto –. torna-se referência fundamental para as escolhas e a afirmação de valores compar-ti­­­­ lhados e universalizados. público e aberto. os grupos sociais. Sloterdijk. reconhecer e validar a existência dos termos. alguns dos elementos componentes da con­temporaneidade. ficam algumas questões: quem constrói. resultaram em debates árduos e complexos. originando-se normas morais e legais tivo. políticos e culturais. as melhores alternativas. nas culturas. no intercâmbio entre tudo isso? Por isso. mediante algum debate prévio. nas etnias. assim. nas religiões. Daniel Cornu afirme: “A . Elas devem corresponder a um padrão cumulativo e valoraEstudos em Jornalismo e Mídia. I N¦º 1 . Ou.

é claro. a coletividade e sua relação com a sociedade. para consolidar quaisquer valores – incluindo os jornalísticos -. de que quaisquer julgamentos exigem algum acúmulo histórico e o reconhecimento de valores os quais se quer ver derrotados ou afirmados e de indivíduos que. na aprovação de um projeto de lei no parlamento. Mas surge então uma última dificuldade: a informação moderna ainda deixará tempo suficiente para uma interrogação ética?” (1999. a meu ver. a ne-cessidade de ampliação e de manutenção de campos específicos de estudos. é necessário uma concepção do que é a Polis e do que é um processo de comunicação.e eles devem ser expressos no mundo vivido dos atos. ser a favor da huma-nidade. a deontologia. do que é a Política e do que são as profissões inseridas nos processos midiáticos. A ética interpela. inclui o indivíduo e seu cotidiano. em princípio. 123). falas e gestos .125). seja na escolha de tratamento midiático factual da intimidade de um jogador de futebol. na Política. até sua culmi-nação nas questões técnicas mais imediatas. de pesquisas e de processos de formação profissional jornalísticos em busca da defesa e da consolidação de determinados valores. dotados de um estatuto político e profis-sional. e. E tomando de Paulo Ricoeur a expressão “sabedoria prática” consi-dera que a deontologia opera no terreno do exer-cício profissional com base nos valores que fun-damentam as regras e as formulações. do agir político humano que. A praxis revelaria. num ato a favor da paz. as escolhas éticas – e sua conseqüência no campo da ação coti-diana – estão vinculadas ao agir diário. É com esta perspectiva que o campo da Política e do Jornalismo são construções humanas cotidianas. então. Renova-se assim. portanto. Por isso. mexem-se no cotidiano buscando algo que deve. Tem de clarificar as suas regras e formulações” (1999. nos processos midiáticos em geral e no jornalismo em par-ticular. seja na cober-tura de um fato de relevância jornalística. isto é. ainda que utópico. Por isso. por onde se mexem tais áreas. Se andamos ao redor de nossos próprios conceitos . as profissões e sua inserção no mundo.ética procura os fundamentos normativos da deontologia jornalística e funciona como instância crítica. no caso das profissões. cujo 125 Surge então uma última dificuldade: a informação moderna ainda deixará tempo suficiente para uma interrogação ética? . E mais: “A medição do campo deontológico revela expec-tativas em termos de ética que têm a ver com a dificuldade de escolhas e das decisões no ter-reno. Mesmo as-sim. Partimos.é porque há al-go que não podemos perder. há generalidade demasiada para tanta escolha específica. no entorno que envolve a especificidade de cada área. a grandeza do andar humano. Mas não dispõe de respostas pron-tas a usar. a referência comum que nos embala em busca do sonho e do futuro. de uma estrela das pas-sarelas ou do cotidiano de um mendigo que dorme sob os viadutos de cidades brasileiras.

seja na cobertura de Economia. de Saúde. I N¦º 1 . O problema de descer do mundo dos pensamentos ao mundo real se converte. a prática da Política e do Jornalismo deve ser Estudos em Jornalismo e Mídia. porque falta-ria o objeto produzido pelo sujeito. É onde o exercício técnico e sua expressão tecnológica se encontram com a reflexão ética e aplicação deontológica. se o processo de comunicação que as envolve incluir a realidade concreta. o mundo social e sua complexidade resultado da incorporação valorativa. remetem à organização qualitativa social. entre outras razões. de Comportamento. de Cultura. aqui. A realidade imediata do pensamento é a linguagem. de Esportes. a ação política não tem qualquer referência concreta ética. É quando alguns filósofos deixam o alto dos edifícios – onde antes apontavam os rumos da humanidade sem se sujar nos barros das estradas por onde estão os jornalistas “práticos” . assim. um pensador ainda válido para inúmeras abordagens da vida – e do jornalismo. configurados em palavras e procedimentos. E como os filósofos proclamaram a independência do pensamento. o ápice – ainda que sempre provisório – do exercício ético-político profissional.e descem às ruas para ver de perto as produções cotidianas e as escolhas necessárias – porque necessária é a profissão . É por isso que as duas só têm sentido. Daí que as questões da linguagem e de estilo não possam . Nisto reside o segredo da linguagem filosófica. o obscurantismo torna-se um padrão.1º Semestre de 2004 É por isso que a Filosofia tem sentido se a praticarmos por meio da Política. Vol. que se expressa em infinitos produtos midiáticos. É a razão de ser da profissão. de Ciência. de Política. de Educação. especialmente comum. como palavras. Sem o debate. até se chegar às opções éticas mais adequadas em cada caso e à sua conceituação 126 ético-deontológica. que resulta na qualidade técnica e disseminação tecno-lógica. com dilemas práticos imediatos. apud Romano: 1984. É por isso que as duas só têm sentido. no problema de descer da linguagem à vida” (Karl Marx. onde está a ética. em que os pensamentos encerram. enfim. E acrescenta o Vicente Romano: “a informação jornalística trata precisamente da vida. um conteúdo próprio. que as profissões são construções históricas humanas e uma luta política de afirmação de valores morais também específicos.debate é imprescindível para o convencimento pessoal e para a incorporação de determinados valores que. Por isso.. deveriam também proclamar a linguagem como um reino próprio e soberano. Recupero. É por isso que a Filosofia tem sentido se a praticarmos por meio da Política.feitas em períodos mínimos de tempo. em A Ideologia Alemã. É. de Polícia. o que há mais de 150 anos escrevia. de Cidades. se o processo de comunicação que as envolve incluir a realidade concreta. 147).. É por isso. espe-cialmente comum. Só com ele. de Rural. que faz parte dela: “Um dos problemas mais difíceis para os filósofos é descer do mundo do pensamento ao mundo real. o mundo social e sua complexidade.

seja do Estado que representava. o controle sobre a opinião e a coerção sempre esteve pendulando. No Jornalismo não é diferente. 1995. de uma determinada moral vivida. massiva. que necessitam ser adquiridas 127 . Como sua base é a moral vivida e os códigos morais. como o direito à Tortura. além das virtudes. menos pelo ritmo regular de um relógio e mais pelo interesse particularizado. portanto. a meu ver. uma escolha também éticoprática. na prática. seja dos indivíduos.que se produziram valores. a análise ética necessita. então validar alguns. necessitamos sempre produções midiáticas e jornalísticas.500 anos.. e. à ação política cotidiana. na escolha temática e no debate público. Os limites cotidianos. menos pelo ritmo regular de um relógio e mais pelo interesse particularizado. vivem a tensão entre a possibilidade de realização da ética e as dificuldades teórico-operacionais para a execução dos princípios. de uma teoria que a justifique. uma preocupação reflexiva própria das teorias filosóficas” (Bonete Perales. Foi no calor dos debates e do agir. Significa. de diferentes estruturas de poder e similares imediata. que concretizam deveres e direitos. em geral travestido de interesse social. no Jornalismo. é essencial e estratégica para este caminho. Para Bonete Perales. técnicas e éticas de produção midiáticas e jornalísticas. 22). derrotar outros. “em sentido rigoroso. tarefas intelectuais que nos indicam um certo nível de abstração e generalização. Ao longo de 2. claro. foi no calor da hora e dos tempos – com o embalo do acúmulo histórico . o controle sobre a opinião e a coerção sempre esteve pendulando. incluindo. os valores. para se realizar. em geral travestido de interesse social. Em tal direção. Se concordarmos com tais afirmações. de argumentação e de persuasão teria de. Quem define isso? E como manter espaços de interlocução pública e de controvérsias. o das mídias segmentadas. de diferentes estruturas de poder e similares. do tipo jornalística. “as normas. Ao validar alguns. seria possível. responsável. Mas é nesse momento.500 anos. relacionada aos processos de comunicação. contraria-se outros. justificação racional. como eu concordo. 147). como direito à Vida. que a abstração e a generalização necessitam uma ponte com as situações e circunstâncias concretas e vínculos com as funções sociais. já que o fim dele é satisfazer as crescentes necessidades culturais e intelectuais da população” (1984. Ao longo de 2. os quais hoje se pode dizer que são patrimônios comuns da humanidade como gênero.se separar do jornalismo. clara. sempre. no calor da disputa. que se apresentam como ideais sociais e culturais. o que equivale a dizer que o movimento moral é sempre presente. a ética. A ética da palavra. negação ou afirmação de procedimentos. fundamentação. As finalidades do jornalismo implicam sua relação com o mundo. conectar-se. Debruçando-se sobre eles. públicas ou privadas. que discutam valores? A informação periódica. remete sempre à conceituação. de determinados valores imperantes ou ideais. etc.

A moral e a ética não se reduzem à deontologia. constituem três eixos. a partir da história de tal área – para afirmá-la. o comportamento prático do dia-a-dia. negá-la ou redimensioná-la. de toda reflexão ética e de todo conflito moral. Tais debates são 128 atividade que implica um saber e uma especialização. diversos pesquisadores e profissionais têm contribuído para o debate sobre a profissão jornalística.1º Semestre de 2004 O exercício ético das profissões está vinculado às situações morais que enfrenta e às escolhas que necessita fazer a partir da relevância social da área. que ainda sofre da falta de reconhecimento enquanto O debate sobre a ética jornalística e sobre as temáticas e procedimentos profissionais deon-tológicos em jornalismo vêm crescendo nos últimos anos. estudos e princípios específicos Estudos em Jornalismo e Mídia. entre elas as daqueles que trabalham na mídia e no jornalismo. Sobre debates.pelas pessoas por meio da prática. E é Daniel Cornu mesmo que vai dizer. sua ética e deontologia específicas. ainda insuficientes. cresce também a análise so-bre a eficácia e a utilidade das referências deontológicas na área. 130). Trata-se. Os seus contornos continuam a ser imprecisos” (1994. 41). subscritos por categorias profissionais e empresariais no cam-po do Jornalismo. O exercício ético das profissões está vinculado às situações morais que enfrenta e às escolhas que necessita fazer a partir da relevância social da área. A especificidade é fundamental. 25). incluindo as profissões. Ao mesmo tempo em que é ampliado o número de códigos. mas encontram nela uma culminação provisória. 128). de avançar estudos para consolidar contornos. I N¦º 1 . Enquanto isso. desde a minha perspectiva. que “o jornalismo continua a ser uma profissão aberta. a partir de uma teoria de determinada atividade. Vol. de certa forma. conforme os princípios profissionais teóricos e éticos. Assim como eles. O campo da reflexão ética. sem dúvida capitais. O jornalista e escritor Serge Halimi mostra-se cético quanto à existência de códigos deontológicos (1998. Tal culminação é uma referência capaz de gerar debates sobre situações concretas e relacioná-las à moral e à ética. a partir da história de tal área . Aznar considera que os códigos no jornalismo contribuem “de maneira fundamental para criar e afirmar uma consciência moral coletiva dentro da profissão” (1997. ilumina. Tratam da inser-ção das profissões na contemporaneidade e de suas possibilidades de realização. assim. embora não se manifeste explicitamente a favor da formação profissional e da exigência de um título acadêmico específico. muitos deles já reconhecidos mas. a partir de uma teoria de determinada atividade. trabalhados por meio da estética e da técnica e expressos em distintos suportes tecnológicos. As observações dos dois autores remetem à discussão sobre a eficácia dos códigos e sobre o debate moral decorrente deles. tanto no âmbito da vida privada como de qualquer profissão pública” (1995.

a formação e a produção jornalísticas exigem fundamentos epistemoló-gicos. são os limites de ordem política. Não obstante. Por isso. que. imposta pela política educacional dos Estados Unidos e assimilada sem críticas por muitas univer-sidades latino- A moral e a ética não se reduzem à deontologia. administração de empresas e outras”. O jornalista cubano Ernesto Vera. econômica. é preciso ficar alertas quanto à influência negativa que possa exercer para nos negar. financeira e mercadológica que devem ser superados. incluindo reflexões de ordem ética. É em tal cruza-mento que se dá a convergência entre a ética do profissional jornalista com a do cidadão. publicidade. financeira. na mídia. a luta ética é também uma luta política. Os princípios morais da ativi-dade reúnem. de um acidente a um desvio de verbas públicas. Esta é a razão de existir códigos que. parece-me também correto que são referências para a ação e a reflexão. 23). téc-nica e estética. Por isso. que os tensiona. No entanto. Tal culminação é uma referência capaz de gerar debates sobre situações concretas e relacioná-las à moral e à ética americanas. em última ins-tância. O espaço da formação profissional em Jor- 129 . Eles precisam ser removidos-e não a ética. o nome legítimo de jornalistas” (1999. é na especificidade da temática ética que se dá a ponte para a universalidade das questões sociais. de um atentando às razões dele ou sobre os interesses envolvidos em quaisquer conflitos ou guerras. revelam as bases teóricas e os marcos teleológicos os quais se busca em uma profissão.necessariamente mais complexos e remetem a uma filosofia da profissão. E prossegue: “esta tendência. também deixaram de sê-lo para rebatizar-se com o nome de comu-nicação social.. É aí também que o processo de comunicação e de informação do tipo jornalística. observa: “O caráter juvenil da profissão jornalística e o interesse hegemônico em desvirtuar o fundamento principal de sua fun-ção na sociedade. entre elas. do gesto cotidiano à representação parlamentar e ao interior do exercício das profissões. A meu ver. em brado à esquerda. um dever-ser (deontologia) ancorado na busca pela realização profissional e pela resolução de fatos-problemas os quais a humanidade reconhece como tais. na sociedade ou em todo o sistema midiático. se vitimadas eti-camente pela lógica econômica. determinam não poucas in-conseqüências e. Com tal estatuto. po-lítica ou exclusivamente de mercado. põe no centro dos debates os limites a superar. na afirmação do indivíduo como um ser profis-sional e político. a de mudar seu nome para o de comunicador social. ainda não chegou às organizações que agrupam os jornalistas. Os princípios morais são limitados. junto às de relações públicas. se aproxima do processo da ação política .com P maiúsculo.) As escolas de jornalismo. além do conceito de profissão.. A escolha técnica é também moral e vice-versa. onde o jornalismo é uma espe-cialidade mais. é certo. mas encontram nela uma culminação provisória. como síntese. (.

3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Sentença de 18 de dezembro de 2002.) (1995). Jornalismo e Verdade: Para Uma Ética da Informação.61. “El debate en torno a la utilidad de los códigos deontológicos del periodismo”. 2ª ed. ROMANO. Hugo (1997).1º Semestre de 2004 . trazem grandes contribuições à afirmação de um ethos teórico-prático que envolve profissionais. Daniel (1999). Carla Abrantkoski (2002). Vol. Traducción de Miguel Ángel Vega Madrid: Taurus. 2ª ed. 125-144). FREITAG. Lisboa: Instituto Piaget. RISTER. 3ª ed. Tradução de Vergílio Ferreira. n 20. Os Novos Cães de Guarda. Crítica de la Razón Cínica (tomos 1 y 2). Bertrand (1977). SARTRE. Rio de Janeiro: Zahar. Lisboa: Presença. Peter (1989). O Existencialismo é um Humanismo. sobre Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público Federal e Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no estado de São Paulo (Processo n° 2001. SLOTERDIJK. 4ª ed. CORNU.00. Traducción de Juana Bignozzi. Tradução de Célia Neves e Alderico Toríbio.nalismo. Introducción al Periodismo: Información y Conciencia. História de la Ética. Jean-Paul e FERREIRA.025946-3). A Regra do Jogo. Traducción de Roberto Juan Walton. RUSSELL. Tradução de Ernani Pavanelli Moura. MacINTYRE. Vergílio (1978). VERA. LASCH. que ora se amplia com a Sociedade Brasileira de Estudos de Jornalismo. Gilles (1996). Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Barcelona: Paidós. El Periodismo y la Segunda Independencia Latinoamericana. professores e pesquisadores – num campo que. estudantes. o do Conselho Federal de Jorna-lismo e de uma nova regulamentação para a área. La Habana: Editorial Pablo de la Torriente. HALIMI. Karel (1985). El Crepúsculo del Deber: la Ética Indolora de los Nuevos Tiempos Democráticos. Moral e Sociedade. AZNAR. ao se afirmar. BONETE PERALES. Dialética do Concreto. Petrópolis: Vozes. afirma também a especificidade dentro da necessária relação com outros campos de estudos e de práticas midiáticas e sociais. Barcelona: Teide. São Paulo: Companhia das Letras. I Nº1 . Cristopher (1983). Ética e Política na Sociedade Humana.. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1997 (pp. Barcelona: Anagrama. 130 Estudos em Jornalismo e Mídia. Enrique (coord. Rio de Janeiro: Imago. Caixeiro. Madrid: Tecnos. Tradução de Nice Rissone. Referências Bibliográficas ABRAMO. o do campo permanente de debates. Jean-Paul et allii (1982). A Cultura do Narcisismo. Serge (1998). Itinerários da Antígona: a Questão da Moralidade. KOSIK. Bárbara (1992). Campinas: Papirus. Tradução de Armando Pereira da Silva. In: Anàlisi. SARTRE. Éticas de la Información y Deontologías del Periodismo. Claudio (1988). Ernesto (1999). Barcelona: Universitat Autònoma de Barcelona. LIPOVETSKY. Alasdair (1988). Vicente (1984). Tradução de Nathanael C.