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5- COMO VIVER O AMOR?

Nota prévia
Este tema, sendo um pouco extenso, deve ser apresentado em mais que uma reunião.

A- Objectivo
O amor de Deus é a realidade central do cristianismo. Constitui a comunidade de
irmãos, que se chama Igreja. Hoje vamos meditar e orar esta realidade.

Amor é, talvez, a palavra mais manuseada pelo homem e nos sentidos mais estranhos e
extravagantes. Quando falamos de amor, pensamos numa infinidade de coisas: em emo-
ções e sensibilidades, em namoros e sentimentalismos, em sensualidade e sexo, em todas
as manifestações normais e anormais da sexualidade e dos afectos. Todas estas coisas
que giram ao redor da palavra amor podem ter sombras do amor verdadeiro, porém não
são o amor humano no seu sentido mais profundo de criaturas de Deus, nascidas para
ele e para se realizarem nele enquanto vivem no mundo, nem são o amor cristão que se
nos manifestou na pessoa de Jesus Cristo, amor que se vive na comunidade da Igreja,
alimentado constantemente pelo espírito de Cristo.

B- Desenvolvimento do tema
Deus é amor e todo aquele que ama nasceu de Deus. Deus, sendo amor, não ficou
em si mesmo mas gerou o seu filho. Desde então, o amor é dialéctico, dá-se e rece-
be. E neste dar e receber edifica-se a pessoa. O amor sempre exige dos outros,
Deus quis ter necessidade dos homens e criou-os por amor. Por amor aos homens
criou o universo. Por amor deu-lhes uma alma imortal e pôs no coração de cada
um deles a semente do amor. É por isso que nenhum homem é feliz se deixa de
amar. Só o homem que sai de si mesmo e se doa aos outros em forma de trabalho,
de colaboração, de ajuda, de convivência, de amizade etc., abre os caminhos para
a sua própria realização e felicidade. O homem, no fim da vida, será julgado pelo
amor: "Tive fome, sede, estive enfermo e preso, nu e forasteiro e me servistes". Aqueles
que fizerem isto, receberão a felicidade eterna. Aqueles que não o fizerem, irão
para o castigo eterno.

1- Características do amor de Cristo


- «Deus amou tanto a humanidade que quis mandar-lhe o seu filho». E «o filho de
Deus se fez carne e habitou entre nós». Deus, no Antigo Testamento, dava aos ho-
mens os seus presentes e dons. Porém, no Novo Testamento veio ele mesmo e en-
tregou-se como dom por nós. Aqueles que leram o evangelho, conhecem a história
e o mistério de Jesus desde o seu nascimento até a sua morte, ressurreição e glori-
ficação à direita do Pai. Sabemos que permaneceu connosco, na comunidade cris-
tã, mediante o seu espírito. A encarnação de Deus é o maior acto de amor que
Deus podia realizar pelos homens. O amor de Deus em Cristo é um amor de en-
trega sem reservas e sem condições, um amor que abarca todos os homens, todas
as épocas e todos os lugares da Terra.
- Deus amou-nos primeiro. Ele tomou a iniciativa. Não esperou que lhe pedísse-
mos perdão ou que nos arrependêssemos dos nossos pecados. Simplesmente nos
amou, sem que nós o merecêssemos, perdoou-nos sem que lhe tivéssemos pedido
perdão, presenteou-nos com a sua vida, admitiu-nos em sua casa, em sua intimi-
dade, em seus bens, prometeu-nos a sua herança sem que fôssemos seus filhos.
Amando o seu filho e mandando-o à Terra, amou-nos nele e nos deu tudo aquilo
que é propriedade do seu filho amado, Jesus Cristo.
- O amor de Deus é gratuito. Igualmente o amor de Jesus. Não fizemos nada para
o merecer. Um amor que nos perdoou, que nos aceitou como somos, que se colo-
cou do nosso lado simples e plenamente. Um amor que procurou unicamente o
nosso bem, sem pretender nada de nós.
- O amor de Deus é um amor recriador. Nada do que este amor toca fica nas mes-
mas condições, mas profundamente melhor e renovado. Um amor que, onde ha-
via vício, pôs virtude; onde havia ignorância deu ciência, onde havia insensatez
pôs sabedoria, onde havia angústia pôs paz, onde havia divisão pôs concórdia.
Um amor assim não ama aos outros porque são bons ou virtuosos, mas porque
Deus os ama e quer que o seu amor os torne generosos e afáveis como o seu filho.
- O amor de Deus sente a necessidade de se entregar às pessoas que ama. E para o
fazer torna-se humano, faz-se criança, precisa dos cuidados de uma mãe, faz-se
companheiro dos pecadores e compartilha com eles a sua mensagem; na paixão
busca a ajuda do cireneu, na cruz alguém lhe dá de beber, e pede emprestado o
sepulcro de José de Arimatéia. Toda a vida de Jesus foi um acto de amor que pe-
diu o amor dos outros para levar a cabo a sua missão.
- Deve-se ter necessidade dos outros. Só aquele que ama é capaz de pedir. Jesus
pediu muitas coisas ao seu Pai. Também à sua mãe Maria, aos seus amigos, os
apóstolos, à samaritana, a muitos discípulos e hoje faz o mesmo com todos os ho-
mens que crêem nele.
- O amor de Deus foi verdadeiro porque se sacrificou por nós. O amor de Deus
não foi uma brincadeira. A cruz de Jesus foi uma realidade cruel. Deus sacrificou
o seu filho por amor ao homem. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá
a vida pelos seus amigos». A prova do amor verdadeiro é o sacrifício.

Nota: Seria oportuno pôr os jovens, individualmente, a falar sobre o amor de Deus.

2- Dimensão humana do amor


Recitar o poema e fazer uns minutos de silêncio para o reflectir
Quem é teu amigo?
Aquele que, sendo leal e sincero, te compreende,
aquele que te aceita como és e tem fé em ti,
aquele que, sem inveja, reconhece os teus valores,
te encoraja e elogia sem te adular.
Aquele que te ajuda desinteressadamente
e não abusa da tua bondade.
Aquele que, com sábios conselhos te ajuda a construir,
e a polir a tua personalidade.
Aquele que vibra com as alegrias
que chegam ao teu coração.
Aquele que, sem invadir a tua intimidade,
procura conhecer a tua dificuldade, para te ajudar.
Aquele que, sem te ferir, esclarece aquilo que entendeste mal
e te afasta do erro.
Aquele que te encoraja quando estás desanimado.
Aquele que, com seus cuidados e atenções,
quer amenizar a dor da tua enfermidade.
Aquele que te perdoa com generosidade esquecendo a tua ofensa.
Aquele que vê em ti um ser humano com alegrias, esperanças, fraquezas e lutas.
Este é o amigo verdadeiro,
que, com amor, demonstra conhecer a Deus
através dos seus irmãos.

O amor consiste, essencialmente, em ser amado e não em amar. Na procura do


amor, as pessoas utilizam muitos artifícios equivocados, como ter êxito, ser pode-
rosos e ricos. Muitos homens e mulheres perdem muito tempo em busca de forças
de atracção: roupas, títulos, modelos, beleza, cultura, convenções, serviços, mani-
pulações, amizades. Cremos que amar é simples e que a grande dificuldade é en-
contrar a quem amar.
A cultura moderna pensa que a felicidade do homem está em ter todas as coisas
que pode comprar ou intercambiar. Não se pode procurar o amor nestas coisas. A
maioria dos homens e das mulheres dependem muito da moda. Crêem que estar
na moda os torna amáveis. Nos anos da pós-guerra, uma jovem que bebia e fuma-
va, empreendedora e provocante sexualmente era atractiva. O homem devia ser
agressivo e ambicioso. Hoje, são atractivos os homens e as mulheres dotados de
um conjunto de qualidades que os tornam populares. Fazer o amor consistir nes-
sas coisas é um equívoco.

Outro pressuposto equivocado sobre o amor, nos nossos dias, é supor que não
existe mais nada para aprender. Confunde-se facilmente a experiência inicial do
apaixonar-se com a situação permanente de estar enamorado. É frequente o caso
de dois jovens que não se conhecem: vêem-se pela primeira vez, rompem as dis-
tâncias, unem-se mais intimamente. Obedecem, simplesmente, a uma atracção se-
xual que se conclui na consumação do acto sexual. Este amor, por sua própria na-
tureza, é pouco duradouro. Em pouco tempo se chega ao cansaço, ao aborreci-
mento, à desilusão. E no começo pareciam estar loucos de amor um pelo outro.
Esses amores fracassam muito cedo. O amor não é improvisado. O amor é apren-
dido num processo de maturação.

3- Passos para amadurecer no amor


- Perceber claramente que o amor é uma arte e tem que dar como resultado uma
obra-prima. Para aprender a arte mais importante da nossa existência, temos de
fazê-lo com a mesma dedicação, cuidado, constância e entusiasmo que as demais
requerem. É mais fácil aprender engenharia, medicina, artes plásticas do que o
amor. É por isso que é necessário seguir os vários passos que seguem na aprendi-
zagem de uma carreira artística: 1) dominar a teoria, 2) dominar a prática, 3) dar-
lhe o lugar que requer.
- O amor é a resposta ao problema da existência humana. Qualquer teoria do
amor deve começar na teoria do homem e da sua existência. Quem é? De onde
vem? Aonde vai? Qual é a sua essência? O que o realiza? O homem é um ser que
nasceu para se relacionar com os outros numa abertura de amor. O homem sem o
amor é uma aberração, é a vergonha e ao mesmo tempo a fonte da culpa e da an-
gústia. O homem que não ama é um homem só e solitário. Tudo aquilo que des-
trói o amor no homem torna-o infeliz e chama-se pecado e vício.
O alcoolismo, a droga, a sexualidade compulsiva, o suicídio são indicadores claros
de que fracassamos no caminho do amor, de que nos afundamos no egoísmo, no
desamor, na solidão.
A solidão é o contrário do amor. Supera-se a solidão unindo-se a outros no amor.
Há relações imaturas como a união simbiótica na qual se depende dos outros
como a criança no ventre da mãe, o masoquismo ou submissão a outros de forma
irracional, até com dores físicas e morais, e o seu contrário: o sadismo. A união de
dominação onde o forte crê amar o fraco é imatura; é o mesmo que servir-se do
outro. A união que cria relações de amor integra e unifica o ser, fá-lo livre, consci-
ente das suas possibilidades e com metas realmente esplêndidas na existência.
O homem foi criado para viver com os outros e realizar o progresso do mundo.
Quando fica só, erra em sua vida de homem e na sua missão. Então, sobrevêm os
diversos frutos da solidão: o egocentrismo, o poder, o orgulho, o despotismo, a ti-
rania, a exploração e todas as formas de luxúria que levam, inevitavelmente, à
loucura.
As formas mais comuns de solidão acabam no álcool, nas drogas e na sexualidade
compulsiva. Poderíamos dizer que são mecanismos de defesa diante da solidão.
Quanto mais os homens as utilizam, mais sós e perdidos se sentem.
A solução plena para a solidão é o amor, em todas as suas expressões e formas.
No amor não existe solidão mas a unidade dos que se encontram e compartilham
aquilo que são e o que possuem.
O amor é uma atitude, uma forma de ser e de agir. É fundamentalmente sair de si
mesmo para se abrir aos outros em gesto de doação. Mais do que receber, amar é
dar. E dar sem esperar nada. Quando se dá algo e se espera uma resposta, o amor
torna-se mercantilismo. O amor dá o que tem, e quanto mais dá, mais se preenche
de riquezas, porque o amor jamais se esgota. O seu segredo é dar sempre, para ter
sempre em abundância.
O que dá uma pessoa? Dá aquilo que é e tem, aquilo que constitui a sua vida. Dá
alegria, compreensão, conhecimento, humor, sentimentos, emoções, tristezas, ple-
nitude, confiança. Uma pessoa que dá do que é e tem, entrega-se à outra pessoa e
isto torna-a mais rica e cheia de riqueza para dar aos outros.
O amor produz amor. «Onde não há amor, põe amor e criarás amor». O amor re-
fracta-se em muitas expressões como paciência, afabilidade, generosidade, humil-
dade, decência, desinteresse, esperança, justiça, rectidão, respeito, serenidade, ver-
dade, confiança, sofrimento. O respeito produz respeito. A serenidade gera calma.
A honestidade dá vida nova e promove a honradez etc. Por isso, o amor verdadei-
ro, uma vez compartilhado, obtém fecundos resultados de transformação nas pes-
soas e nas sociedades.
O amor vai em busca do bem-estar das pessoas que amamos e da consolidação
dos ideais e metas que se abriram ao nosso coração. O amor obedece aos senti-
mentos mais profundos do ser humano, do qual o amor filial, paterno e fraterno é
a expressão mais evidente. Os pais levam no seu sangue o amor incondicional aos
seus filhos. Também os filhos em relação aos seus pais, e os irmãos entre si.
O amor não é, essencialmente, relação com uma pessoa. É atitude, orientação de
carácter, actividade, poder do espírito. Se amo realmente alguém, amo a todas as
pessoas, amo o mundo, amo a vida. Se posso dizer a alguém que o amo, devo po-
der dizer que amo a todos nele, através dele; no outro amo o mundo e amo-me.
Amar o irmão é sentir-se responsável por ele, cuidar dele, conhecê-lo, respeitá-lo,
solidarizar-se com ele, perceber as suas necessidades, promovê-lo. A Bíblia refere-
se a este amor quando nos manda «amar o próximo como a nós mesmos».
Quando o amor humano faz o seu caminho de maturação, acontecem todas as
possibilidades para o amor de Deus nas suas correctas manifestações: de amor a
nós mesmos, de amor aos irmãos, de amor ao Senhor e às suas obras.
O amor a si próprio não é um amor imaturo. O amor a si próprio é um amor ma-
duro porque vê a própria pessoa nas dimensões que Deus lhe deu como ser racio-
nal, ao lado de outros homens, com uma missão a cumprir. Amar a si próprio é
ver-se nas próprias qualidades de homem, plenamente cumpridas, desenvolvidas,
activadas e postas a serviço dos outros. Pensar nas coisas com critério, com averi-
guação, com informação, vendo as suas consequências etc., é ser homens maduros
que se amam a si próprios. Julgar acontecimentos e pessoas, somando prós e con-
tras, com base em investigações, em oração etc.,..., é ser maduros e amar-se a si
mesmos. Tomar decisões, após ter pesado causas e consequências, é ser maduros e
amar-se a si mesmos.
Quando o amor a si mesmo chegar a desenvolver as próprias potencialidades
como pessoa humana, então nascerá o amor aos irmãos, porque a pessoa se porá
ao serviço dos outros e da sociedade. Entramos em cheio no amor fraterno. Se o
amor a mim mesmo me pede esforços de estudo, dinheiro para os mesmos etc.,
então agora terei de pôr os meus esforços e recursos ao serviço dos outros, dos
que começam a vida, dos que estão no caminho, dos que já estão a concluir, para
que tenham a mesma força pessoal que eu tive.
E quando o amor a si mesmo transbordar no amor aos outros, então está a cum-
prir-se o amor de libertação do homem, o amor que transcende a própria pessoa e
a pessoa dos outros: é o amor de Deus, o amor que nos une a ele nos seus projec-
tos, nas suas intenções, nos seus planos para o homem e para o mundo. O homem
torna-se um colaborador de Deus onde quer que se encontre e em qualquer voca-
ção à qual for chamado. O amor de Deus é possível sempre, porque é possível en-
contrar Deus sempre, pois ele deixa-se encontrar.
Então, todas as actividades do homem entrarão no amor e encontrarão o seu senti-
do pleno. O casado viverá no amor, o religioso viverá no amor, o sacerdote viverá
no amor. As crianças, os jovens e os anciãos viverão no amor. As obrigações religi-
osas serão vividas no amor (os mandamentos, os sacramentos...), as obrigações so-
ciais (trabalho, solidariedade, respeito etc.), as transformações culturais (comuni-
cações, idiomas, formas religiosas etc.), os parâmetros económicos (bancos, caixas
electrónicas, mercados etc.)... Não haverá nada fora do amor de Deus. O amor é
uma arte que se aprende.

O animador encontrará o melhor modo de expor e debater este tema, que pode
terminar com a oração e o cântico que abaixo indicamos…

C- Oração
Senhor, estou a falar sem saber o que digo. É uma tarefa que me faz estremecer.
É inútil que me empenhe em dissimular. No entanto, se o meu amor tem que ser ge-
Vou dizer-te o que sinto neste momento. nuinamente cristão,
Parece que me pedes muito. deve ajustar-se perfeitamente ao teu,
Não só me pedes que ame, não me resta outro remédio
mas que chegue a amar como tu amas. senão pedir-te emprestado o teu amor.
A verdade é que me parece muito Amem.
para as minhas pobres forças.
D- Cântico