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UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA

INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO

CONTRIBUIÇÕES GEOTÉCNICAS PARA O ESTUDO DO


PROBLEMA DA EROSÃO

José Manuel Avelar Duarte Silva de Oliveira


(Licenciado)

Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Georrecursos

Orientador: Doutor Carlos Altino Jansen Verdades Dinis da Gama

Julho de 2006
…aos meus Pais, irmãos, e à Andreia.
AGRADECIMENTOS
Gostava, antes de mais, agradecer ao meu Orientador Professor Carlos Dinis da
Gama, pelos ensinamentos que me transmitiu ao longo dos anos, pelo apoio na
realização desta tese, e cujo acompanhamento foi fundamental para que o trabalho
chegasse a bom porto.

Aos professores da Secção de Exploração de Minas do Departamento de Engenharia


da Minas: Professora Matilde Silva; Professora Paula Falcão Neves; Professor Pedro
Bernardo; Professor Vidal Torres e Engenheiro Simone Longo, gostava de deixar o
meu apreço pelos ensinamentos cuja data já remetem o ano 1993 e que desde então
têm sido fundamentais, não só para a realização desta dissertação mas também ao
longo da minha vida profissional.

Gostava ainda agradecer a todos os restantes colaboradores desta Secção, em


especial ao Sr. Paulo Fernandes e ao Sr. Manuel Reis e Sousa, quer pelo tempo,
paciência e apoio dispendido aquando da realização dos ensaios laboratoriais quer
pela ajuda na resolução de problemas técnicos dos mesmos.

A todos os Colegas e Amigos que desde o início me instigaram e apoiaram na


realização deste mestrado, cujo culminar se encontra nas páginas seguintes, um muito
obrigado.

À SECIL, SA, pela compreensão e cedência de tempo que me disponibilizou, nesta


fase final de conclusão do documento.

Aos meus Pais, Manuel de Oliveira e Maria Luísa Oliveira, e irmãos, Filipa e Luís
Filipe, pelo seu amor em momentos bons e menos bons e por terem compreendido e
aceite a necessidade de tantos outros mais ausentes.

Aos meus avós pelo espaço dispendido na sua casa e por tantas outras coisas...

Por fim, não poderia deixar de agradecer à Andreia pelo apoio total, dedicação,
carinho e também, muita compreensão durante todo este processo.

...A todos vós dedico este trabalho.

i
ii
RESUMO
A importância do combate à erosão dos terrenos é a principal justificação para o
envolvimento da Geotecnia na tentativa de minimizar este fenómeno natural.

Com a metodologia própria da Geotecnia Ambiental procurou-se caracterizar os


contornos desse problema e procedeu-se à análise de técnicas de estabilização com
recurso à drenagem controlada e à aplicação intensiva de revegetação.

Procurou-se quantificar a susceptibilidade dos terrenos à erosão, através de um factor


de segurança inovador que permite envolver a aplicação das citadas técnicas de
estabilização.

PALAVRAS-CHAVE:

Erosão Geotecnia Ambiental


Drenagem Revegetação
Susceptibilidade Factor de Segurança

iii
iv
ABSTRACT
GEOTECHNICAL CONTRIBUTIONS TO THE STUDY OF EROSION

The importance of fighting ground erosion is the main reason for involving Geotechnics
in attempting to minimize this natural phenomenon.

With the peculiar methodology of Environmental Geotechnics the problem was


assessed and application of stabilization techniques such as controlled drainage and
intensive revegetation were described.

The susceptibility of ground with respect to erosion was sought trough the proposition
of an innovative safety factor, which may involved the relevant stabilization techniques.

KEY WORDS:

Erosion Environmental Geotechnics


Drainage Revegetation
Susceptibility Safety factor

v
vi
ÍNDICE GERAL

PRIMEIRA PARTE – A ALTERAÇÃO DAS ROCHAS E OS AGENTES


EROSIVOS 1
1. INTRODUÇÃO 3
1.1. PANORAMA INTERNACIONAL 4
1.2. PANORAMA NACIONAL 7
2. ALTERAÇÃO DAS ROCHAS (METEORIZAÇÃO) 13
3. EROSÃO E EROSIVIDADE 18
3.1. DEFINIÇÃO 18
3.2. EROSÃO HÍDRICA 24
3.2.1. TIPOS DE EROSÃO HÍDRICA 29
3.2.2. EROSÃO PROVOCADA PELOS CURSOS DE ÁGUA,
VAGAS OCEÂNICAS E GLACIARES 32
3.2.3. CURVAS DE HJULSTROM 37
3.3. EROSÃO EÓLICA 39
4. OUTROS FACTORES QUE INFLUENCIAM A EROSÃO 44
4.1. FACTORES NATURAIS 44
4.1.1. A FORÇA DA GRAVIDADE 44
4.1.2. RELEVO TOPOGRÁFICO 45
4.1.3. SISMICIDADE E VULCANISMO 50
4.1.4. SUBSIDÊNCIA REGIONAL 51
4.1.5. ESTADO TENSIONAL 51
4.1.6. ACTIVIDADE BIOLÓGICA E COBERTURA VEGETAL 52
4.2. ACTIVIDADE HUMANA 55
5. ERODIBILIDADE 59
5.1. DEFINIÇÃO 59
5.2. SOLO 59
5.2.1. DEFINIÇÃO 59
5.2.2. PROPRIEDADES DOS SOLOS 62
5.2.2.1. TEXTURA DE UM SOLO 62
5.2.2.2. ESTRUTURA DE UM SOLO 64
5.2.2.3. RESISTÊNCIA AO CORTE DE UM SOLO 66
5.2.2.4. CAPACIDADE DE INFILTRAÇÃO 67
5.2.2.5. COMPONENTES ORGÂNICOS E MINERAIS DE UM SOLO 68
SEGUNDA PARTE – ESTABILIDADE DE TALUDES 71
6. TIPOLOGIA E DESENVOLVIMENTO DOS MOVIMENTOS DE MASSAS 72
6.1. CLASSIFICAÇÃO DOS MOVIMENTOS DE MASSAS 72
6.2. MOVIMENTOS COM PREDOMÍNIO DA TRAJECTÓRIA VERTICAL 72
6.3. MOVIMENTOS DE ROTAÇÃO DE BLOCOS POR FRACTURAÇÃO
VERTICAL 74

vii
6.4. MOVIMENTO DE DESLIZAMENTO DE GRANDES BLOCOS 75
6.5. MOVIMENTO COM EXTRUSÃO PLÁSTICA LATERAL 77
6.6. MOVIMENTO COMPLEXOS 78
6.7. OUTROS MOVIMENTOS 78
6.8. CORRENTES 81
7. RISCO, FACTOR DE SEGURANÇA E INCERTEZA 82
7.1. INTRODUÇÃO 82
7.2. RISCO 83
7.2.1. DEFINIÇÃO 83
7.2.2. MATRIZ DE RISCO GEOTÉCNICO 87
7.2.3. MAPA DE RISCO GEOTÉCNICO 89
7.3. PROBABILIDADE E INCERTEZA, FACTOR DE SEGURANÇA 90
7.4. CUSTO ASSOCIADO À ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES 100
8. MÉTODOS DE ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES 103
8.1. INTRODUÇÃO 103
8.2. ESTABILIZAÇÃO POR MODIFICAÇÃO DA GEOMETRIA
DO TALUDE 106
8.2.1. INTRODUÇÃO 106
8.2.2. DESCABEÇAMENTO 106
8.2.3. ENROCAMENTO NA BASE DO TALUDE 106
8.2.4. BERMAS 108
8.2.5. REPERFILAMENTO DO TALUDE 109
8.3. ESTABILIZAÇÃO POR DRENAGEM 110
8.3.1. GENERALIDADES 110
8.3.2. DRENAGEM SUPERFICIAL 112
8.3.3. DRENAGEM PROFUNDA 114
8.3.3.1. CLASSIFICAÇÕES E CONSIDERAÇÕES GERAIS 114
8.3.3.2. DRENOS HORIZONTAIS 116
8.3.3.3. DRENOS VERTICAIS FIBROQUÍMICOS 117
8.3.3.4. POÇOS VERTICAIS DE DRENAGEM 119
8.3.3.5. GALERIAS DE DRENAGEM 120
8.3.3.6. VALAS COM ENCHIMENTO DRENANTE 121
8.4. ESTABILIZAÇÃO SUPERFICIAL RECORRENDO À VEGETAÇÃO 122
8.4.1. INTRODUÇÃO 122
8.4.2. PROTECÇÃO DA SUPERFÍCIE DO SOLO 124
8.4.2.1. PROTECÇÃO CONTRA A EROSÃO POR SALPICAMENTO 124
8.4.2.2. PROTECÇÃO CONTRA A ESCORRÊNCIA SUPERFICIAL 128
8.4.2.3. PROTECÇÃO DO SOLO PELAS PLANTAS 129
8.5. TÉCNICAS DE BIOENGENHARIA 130
8.6. ESTABILIZAÇÃO RECORRENDO A ELEMENTOS
RESISTENTES (MÉTODOS COMPLEMENTARES) 133
8.6.1. INTRODUÇÃO 133
8.6.2. MALHAS GUIA 133
8.6.3. MUROS 134

viii
8.6.3.1. GENERALIDADES 134
8.6.3.2. MUROS DE GRAVIDADE 136
8.6.3.3. MUROS DE ATENUAÇÃO 137
8.6.3.4. MUROS JAULA 138
8.6.3.5. MUROS DE GABIÕES 139
8.6.3.6. MUROS DE TERRA ARMADA 141
8.6.3.7. ENCHIMENTO POSTERIOR AO MURO 142
8.7. OUTROS SISTEMAS 142
TERCEIRA PARTE – CASO DE ESTUDO 145
9. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DO CASO DE ESTUDO 146
9.1. CARACTERIZAÇÃO GEOMORFOLÓGICA 146
9.2. CARACTERIZAÇÃO GEOLÓGICA 148
9.3. CARACTERIZAÇÃO TECTÓNICA 149
9.4. CARACTERIZAÇÃO CLIMATOLÓGICA 150
9.5. CARACTERIZAÇÃO HIDROGEOLÓGICA 151
9.6. CARACTERIZAÇÃO GEOTÉCNICA 152
10. ERODÍMETRO 154
10.1. GENERALIDADES 154
10.2. DESCRIÇÃO DO APARELHO E DO ENSAIO 155
10.3. ENSAIOS DE ERODIBILIDADE REALIZADOS 159
11. O FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO
(«DEBRIS FLOW») 164
11.1. CASO GERAL 164
11.2. FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO 167
11.3. COMPARAÇÃO DO FACTOR DE SEGURANÇA DO
ESCORRIMENTO COM O FACTOR DE SEGURANÇA DE
JIMENO E GONZALEZ 183
11.3. CONCLUSÕES 186
QUARTA PARTE – CONCLUSÕES E FUTURAS LINHAS DE INVESTIGAÇÃO 187
12. CONCLUSÕES 188
12.1. RESULTADOS OBTIDOS 188
12.2. SUGESTÕES PARA FUTURAS LINHAS DE INVESTIGAÇÃO 188
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 191

ix
ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1.1. Degradação dos Solos Induzida pela Humanidade. 4


Figura 1.2. Perdas de Crescimento da Riqueza Mundial Causadas
por Erosão e Desertificação (em Biliões de Dólares por ano) 6
Figura 1.3. Classificação do pH dos Solos.
Figura 1.4. Complexos Litológicos. 9
Figura 1.5. Unidades Pedológicas. 9
Figura 1.6. Uso do território nacional em 1996. 10
Figura 1.7. Uso do solo em Portugal continental. 10
Figura 1.8. Susceptibilidade à desertificação. 12
Figura 2.1. Aspecto geral da meteorização (a rocha firme vai-se
transformando gradualmente de baixo para cima). 14
Figura 2.2. Alargamento da rocha provocado pelos processos de termoclastia
e gelivação. 15
Figura 2.3. Intensidade dos fenómenos de meteorização em função da
temperatura e da pluviosidade. 16
Figura 2.4. Intensidade dos fenómenos de meteorização em função da
temperatura e da pluviosidade. 17
Figura 3.1. Balanço Hídrico 21
Figura 3.2. Ciclo das Rochas 23
Figura 3.3. Factores que afectam a erosão hídrica. 26
Figura 3.4. Acção mecânica do impacto de uma gota de chuva. 27
Figura 3.5. Erosão por salpicamento. 28
Figura 3.6. Representação esquemática dos diferentes tipos de erosão hídrica. 30
Figura 3.7. Sulcos e Barrancos num talude. 32
Figura 3.8. Torrentes. 33
Figura 3.9. Fases da evolução de um rio. 34
Figura 3.10. Erosão costeira provocada pelas acções das vagas e da ondulação. 35
Figura 3.11. Vale glaciário do Zêzere, na serra da Estrela. 36
Figura 3.12. Gráfico de HJULSTROM. 38

x
Figura 3.13. Exemplo esquemático da formação de uma «rocha-cogumelo» e
fotografia de uma. 40
Figura 3.14. Formação de uma «Duna». 40
Figura 3.15. Principais formas de transporte eólico de sedimentos. 41
Figura 4.1 Reptação 45
Figura 4.2. a) Cones de detritos; b) Talude de detritos. 45
Figura 4.3. Influência do ângulo de inclinação de um talude sobre a erosão e a
vegetação. 46
Figura 4.4. Modelos geométricos de dez tipos de taludes e distribuição da
escorrência. 47
Figura 4.5. a) Formas típicas de taludes. b) Saldo de materiais
Erosão/Sedimentação. 48
Figura 4.6. Influência da cobertura vegetal na acção do vento. 54
Figura 4.7. Efeito das raízes. 55
Figura 5.1. Diagrama triangular para a determinação da textura com
indicação da erodibilidade. 63
Figura 5.2. Tipos e classes de estrutura de solos. 65
Figura 6.1. Formação em consola por remoção do estrato mais brando. 73
Figura 6.2. Mecanismos de desprendimentos (a) e colapsos (b). 74
Figura 6.3. Desabamento de blocos individualizados. 74
Figura 6.4. Deslizamento Rotacional. 76
Figura 6.5. Deslizamentos: a) Discordante; b) Concordante. 77
Figura 6.6. Extensões Laterais: a) Fluência e extrusão do material
subjacente; b) Expansão e liquefacção. 78
Figura 6.7. Deformação sem ruptura. 79
Figura 6.8. Movimentos de massas desorganizadas ou revoltas. 80
Figura 7.1. Variação da estabilidade de taludes com o clima e a litologia. 83
Figura 7.2. Níveis de risco em diferentes projectos de engenharia. 85
Figura 7.3. Matriz de risco geotécnico. 88
Figura 7.4. Mapa de probabilidade de escorregamentos numa área a
sudeste de Wheeling, EUA. 89
Figura 7.5. Factores de Segurança e Probabilidade de Ruptura de um talude. 94
Figura 7.6. Funções de distribuição de probabilidade (FDP) simples do ângulo
de atrito e do nível piezométrico. 95

xi
Figura 7.7. Variação típica da probabilidade de instabilização dos taludes
com as seguintes variáveis: α (inclinação do talude), L (comprimento
de infiltração no topo do talude, H (altura do talude), γ (peso volúmico
do terreno, NF (altura do nível freático), n (porosidade do terreno),
i (taxa de infiltração face à precipitação), φ (ângulo de atrito),
c (coesão), KMV(coeficiente de protecção do talude), K (condutividade
hidráulica). 98
Figura 7.8. Variações da perda de material em função da precipitação. 99
Figura 7.9. Níveis críticos da precipitação acumulada (em mm) durante
determinados períodos de tempo (h). 99
Figura 7.10. Custo generalizado do talude e determinação da sua inclinação
óptima. 101
Figura 7.11. Análise dos custos de intervenção para a redução do perigo ou
probabilidade de ocorrência. 101
Figura 7.12. Estabilização dos taludes finais da pedreira de marga da SECIL
– Maceira. 102
Figura 7.13. Aplicação de técnicas de estabilização de taludes de estradas
com revegetação. 102
Figura 8.1. Enrocamento na base do talude. 107
Figura 8.2. Criação de Bermas. 109
Figura 8.3. Reperfilamento do talude. 109
Figura 8.4. Diferentes tipos de drenos e funções que desempenham. 111
Figura 8.5. Efeitos hidrológicos e mecânicos da vegetação sobre um talude 122
Figura 8.6. Variação da velocidade terminal de queda de uma gota de água em
função do diâmetro da gota. 124
Figura 8.7. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função da
altura da vegetação (H), para diferentes intensidades de precipitação (mm/h). 126
Figura 8.8. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função
do grau de cobertura (S), a alturas diferentes da vegetação, H. Diâmetro
de gotas de 5 mm 126
Figura 8.9. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do
tamanho da gota (), para diferentes alturas de vegetação (H) e
diferentes intensidades de precipitação (I). 127
Figura 8.10. Variação da perda do solo em função do grau de cobertura do
mesmo e da altura da vegetação que o cobre. 128

xii
Figura 8.11. Estabilização de taludes e técnicas de bioengenharia. 132
Figura 8.12. Classificação dos muros do ponto de vista funcional:
a) Revestimento, b) Sustimento, c) Contenção. 135
Figura 8.13. Ilustração de um muro de gravidade. 136
Figura 8.14. Muro de gravidade com função de revestimento. 137
Figura 8.15. Muro de betão armado. 138
Figura 8.16. Muro com contraforte. 138
Figura 8.17. Esqueleto de um muro jaula composto por vigas de madeira
longitudinais e transversais. 139
Foto 8.18. Muro de gabiões. 140
Figura 8.19. À esquerda muro de gabiões com degraus para o exterior, à direita
muro de gabiões com degraus para o interior do talude. 140
Figura 9.1. Aspecto geral da área em estudo. 146
Figura 10.1. Aspecto geral do Erodímetro. 157
Figura 10.2. Preparação amostra sem vegetação. 158
Figura 10.3. Preparação amostra com vegetação (nos moldes). 158
Figura 10.3. Solo Arenoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura
vegetal, com a inclinação da rampa. 162
Figura 10.4. Solo Silto arenoso, evolução da erosão do solo, sem e com
cobertura vegetal, com a inclinação da rampa. 162
Figura 11.1. Deslizamentos planares de taludes. 165
Figura 11.2. Deslizamentos circulares de taludes. 166
Figura 11.3. Registo Variações da precipitação acumulada vs tempo, para
quantificação dos fenómenos de escorrimento em taludes da área
em estudo. 168
Figura 11.4. Esquema do escorrimento de taludes 170
Figura 11.5. Correlação entre a inclinação do talude (º) e o material erodido
(kN/m) para solo silto arenoso. 171
Figura 11.6. Correlação entre a inclinação do talude (º) e o material erodido
(kN/m) para solo arenoso. 171
Figura 11.7. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude
(º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso,
sem vegetação. 178

xiii
Figura 11.8. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude
(º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso,
com vegetação (C2 = 1kN/m2). 179
Figura 11.9. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude
(º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso,
com vegetação (C2 = 5kN/m2). 180
Figura 11.10. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude
(º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com
vegetação (C2 = 10kN/m2). 181
Figura 11.11. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude
(º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com
vegetação (C2 = 15kN/m2). 182
Figura 11.12. Variação do factor de segurança em função da inclinação do
talude (º) e da Coesão (kN/m) para solo areno-siltoso, para um caudal
fixo de 1m3. 183

xiv
ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1.1. Severidade de degradação da terra e distribuição


populacional mundial 5
Tabela 1.2. A desertificação no Sahel Africano conforme faixas de latitude. 7
Tabela 1.3. Características dos solos incluídos na superfície agrícola
portuguesa de Portugal Continental. 8
Tabela 3.1. Desgaste de 15 cm de solo (tempo de formação: 6 mil anos). 24
Tabela 3.2. Esquema empírico do poder erosivo da chuva. 29
Tabela 3.3. Factor de erodibilidade eólica do solo “I”. 43
Tabela 4.1. Efeito do comprimento de rampa nas perdas de solo. 49
Tabela 4.2. Efeito do tipo de uso do solo sobre as perdas por erosão. 53
Tabela 4.3. Efeito do tipo de cultura anual sobre as perdas por erosão 56
Tabela 5.1. Tipos e classes de estrutura de solos. 65
Tabela 5.2. Efeito do tipo de solo nas perdas por erosão. 66
Tabela 5.3. Velocidade de infiltração em solos de diferentes texturas. 68
Tabela 5.4. Susceptibilidade à erosão hídrica de diferentes tipos de solos. 69
Tabela 7.1. Exemplo de matriz qualitativa de risco. 87
Tabela 7.2. Níveis qualitativos da probabilidade de ocorrência de
deslizamentos de taludes. 92
Tabela 7.3. Níveis qualitativos das consequências de tipo económico
sobre uma propriedade de valor C. 102
Tabela 8.1. Métodos de estabilização de taludes em solos
(Holtz y Schuster, 1996). 104
Tabela 8.2. Condições mais comuns de infiltração e seus efeitos na
estabilidade de um talude. 116
Tabela 8.3. Efeitos da utilização de sistemas de bioengenharia 123
Tabela 8.4. Valores típicos do incremento da coesão do solo devido à acção
das raízes (O’LOUGHLIN E ZIEMER, 1982). 130
Tabela 8.5. Principais funções dos geossintéticos 143
Tabela 9.1. Características gerais da precipitação (em mm) na região de
Santarém 151
Tabela 9.2. Tabela síntese dos valores médios obtidos para a região de
Santarém 151

xv
Tabela 9.3. Valores de coesão e ângulo de atrito adoptados para as três
formações indicadas 152
Tabela 9. 4. Propriedades dos taludes críticos dos 11 sectores em que
foi dividido a área em estudo. 153
Tabela 10.1. Solo arenoso, Erosão do solo, sem e com cobertura vegetal,
em função da inclinação da rampa. 160
Tabela 10.2. Solo Areno siltoso, evolução da erosão do solo, sem e
com cobertura vegetal, com a inclinação da rampa. 161
Tabela 10.3. Índices de resistência do solo à erosão, em função das variáveis
de ensaio 164
Tabela 11.1. Parâmetros utilizados para a obtenção do factor de segurança. 172
Tabela 11.2. Factor de segurança para solos sem vegetação. 173
Tabela 11.3. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de
acréscimo de coesão é de 1kN/m. 174
Tabela 11.4. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de
acréscimo de coesão é de 5kN/m. 175
Tabela 11.5. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de
acréscimo de coesão é de 10kN/m. 176
Tabela 11.6. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de
acréscimo de coesão é de 15kN/m. 177
Tabela 11.7. Parâmetros utilizados para o cálculo do Factor de segurança. 184
Tabela 11.8. Comparação do factor de segurança das duas equações,
aplicadas em dois taludes reais. 185

xvi
PRIMEIRA PARTE – A ALTERAÇÃO DAS ROCHAS E
OS AGENTES EROSIVOS

1
2
Mestrado em Georrecursos
Introdução

1. INTRODUÇÃO

O tema da presente dissertação insere-se numa das recentes aplicações da Geotecnia


ao estudo de problemas ambientais, com o objectivo de ajudar a resolvê-los, através
da metodologia que tradicionalmente se utiliza nos projectos de Engenharia.

Para o efeito foi escolhido o fenómeno da erosão, que em todo o planeta se manifesta
continuadamente, conduzindo a prejuízos muito avultados todos os anos. O assunto
tem sido geralmente abordado por geólogos, geofísicos e agrónomos, uns
preocupados com a sua génese e manifestações, outros com a respectiva
minimização para fins práticos na agricultura.

Relativamente escassas têm sido as contribuições da Engenharia Geotécnica para


enfrentar os problemas relacionados com a erosão dos terrenos, embora grande parte
dos seus mecanismos sejam conhecidos nesta especialidade, assim como as
soluções de estabilização.

Nessa perspectiva, o trabalho inclui capítulos introdutórios sobre as características do


fenómeno erosão, com destaque para a erosividade dos climas e para a erodibilidade
dos terrenos.

Seguem-se conceitos de estabilidade de taludes, com as abordagens determinísticas


e probabilísticas, e destacando os métodos de estabilização mais utilizados. Nesta
óptica, merecem tratamento especial os métodos de estabilização por drenagem e por
revegetação dos taludes, para além dos processos convencionais.

A terceira parte envolve um caso de estudo relacionado com o tema, mais


concretamente sobre a elaboração uma equação que permita a criação de mapas de
risco geotécnico de taludes, realçando-se os mecanismos conhecidos por
escorrimentos («debris flows»).

É descrita uma sucessão de ensaios laboratoriais de erodibilidade dos terrenos, com


ou sem vegetação, sendo tiradas conclusões importantes para quantificação de
problemas de estabilidade de taludes afectados por fenómenos de erosão.

Finalmente, o trabalho é concluído com a apresentação dos seus resultados principais


e com sugestões para futuras pesquisas.

3
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

1.1. PANORAMA INTERNACIONAL


Na figura 1.1 as áreas com terrenos estáveis compreendem o norte gelado e quase
todo inaproveitável, e algumas pequenas manchas de solos nas áreas subtropicais e
inter tropicais dos continentes habitáveis. Porém, quase todas as terras emersas do
planeta estão afectadas pelos problemas de erosão (hídrica e eólica), deterioração
(química e física), degradação severa e por desertos inúteis a qualquer actividade.

Figura 1.1. Degradação dos Solos Induzida pela Humanidade.


Fonte: FAO2000

FAO (2000) adverte que suas estatísticas, citadas a seguir, foram baseadas em
mapas de pequena escala e inventários que, nem sempre, são actualizados e/ou
confiáveis. Os resultados devem ser analisados com cuidado, principalmente para
países de pequena extensão territorial.

De acordo com os levantamentos efectuados pelo FAO (2000), da área aproximada


das terras emersas do planeta (aproximadamente 135.000.000 km2), 46 % é
escarpada; 64% são terras impróprias (por aridez - 45% e desertos - 19%); 56 % corre
risco de desertificação; e somente 24% é constituída por solos utilizáveis sem
restrições (áreas a verde na figura anterior).

4
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Tabela 1.1. Severidade de degradação da terra e distribuição populacional mundial.


Fonte: FAO (2000)

Relação com a Densidade


Grau de Área
área total do planeta Demográfica
Degradação (km2)
(%) (hab/km2)
Nenhuma 46.060.000 36 17
Pouca 24.292.000 18 25
Moderada 27.389.000 20 34
Severa 27.036.000 20 55
Severíssima 7.971.000 6 67

Percebe-se na tabela anterior que dois terços das terras agrícolas do planeta (64%)
sofrem com a degradação dos solos.

Dados da UNESCO (1994) e de KASSAS (1994) afirmam que cerca de cem países
são afectados pelo gravíssimo problema da degradação dos solos. Oitenta e um
destes são países em desenvolvimento, pobres ou muito pobres, que também são
assolados pelos problemas socio-económicos decorrente disso como: fome;
epidemias; e analfabetismo. Além disso, estes países são incapazes de solucionar o
problema adicional da degradação dos solos, sem assistência externa.

Segundo o mesmo organismo internacional, cerca de 35% (49.384.500 km2) das terras
da superfície do planeta são consideradas áridas, e 69% das terras áridas usadas
para a agricultura estavam degradadas ou em sério perigo de desertificação.
Significativamente, mais de 50% das terras áridas do planeta situam-se em países em
desenvolvimento e estão sujeitas às necessidades crescentes de alimentação das
populações em rápido crescimento (UNESCO, 1994).

Comparando os dados da UNESCO (1984) e os dados da FAO (2000), houve um


aumento de 10 % na aridez das terras agricultáveis do planeta no curto espaço de
tempo de apenas seis anos.

Observando-se o gráfico da figura 1.2 percebe-se o quanto os homens perdem


anualmente de riqueza para a chuva. Os continentes mais atingidos pelos dois
problemas (Erosão e Desertificação) são a Ásia e a África, respectivamente com 21 e
9 biliões de dólares em perda anual de riqueza. Estes são, exactamente, os lugares do
planeta com as menores qualidades de vida.

5
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Biliões de dólares por ano

Figura 1.2. Perdas de Crescimento da Riqueza Mundial Causadas por Erosão e Desertificação (em
Biliões de Dólares por ano).
Fonte: FAO (2000)

A desertificação afecta cerca de um sexto da população da Terra, 70% de todas as


terras áridas, atingindo 3,6 biliões de hectares, ou seja, um quarto da área terrestre
total do mundo. Os resultados mais evidentes da desertificação, em acréscimo à
pobreza generalizada são (BRASIL,1995):

• Degradação de 3,3 biliões de hectares de pastagens, constituindo 73% da área


total dessas terras, caracterizadas por baixo potencial de sustento para
homens e animais;

• Declínio da fertilidade e da estrutura do solo em cerca de 47% das terras


áridas, que constituem terras marginais de cultivo irrigadas pelas chuvas;

• Degradação de terras de cultivo irrigadas artificialmente, atingindo 30% das


áreas de terras áridas com alta densidade populacional e elevado potencial
agrícola.

O caso mais grave de desertificação acontece no Sahel africano (tabela 1.2), pois esta
zona deixou de ser um espaço de circulação e transformou-se num espaço de
produção (RETAILLÉ, 1988). Com isto, o deserto do Saara cresce continuamente e
suas areias são levadas pelos ventos até à Inglaterra, a uma distância de
aproximadamente 3.000km, conforme afirmação de LEINZ e AMARAL (1987).

6
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Tabela 1.2. A desertificação no Sahel Africano conforme faixas de latitude.


Fonte: L’information Geographique. N.º 5, 1988.

Faixas de precipitação
Período: 1940 - 1970 Período: 1983-1984
Precipitação
Latitude
(mm)
Estepe sub-saariana.
Estepe saaro-saeliana.
16º N - 18º N 100 a 200 Grave crise pastoril.
Pecuária bovina.
Pecuária Ovina
Estepe arbórea. Alto
risco de imensas Agricultura com risco
14º N - 15º N 400 a 600 perdas na safra elevado.
agrícola a cada quatro Dependência externa.
anos.
Crise da agricultura.
Savana. Agricultura
12º N - 14º N 600 a 1.200 Busca de rendimentos
com bom rendimento.
complementares.
Risco de perdas imensas
Excedentes
10º N - 12º N 1.200 a 1.400 na safra agrícola a cada
alimentares.
quatro anos.
A tabela anterior evidencia o rápido agravamento do problema de deterioração dos
solos no Sahel africano. O espaço desertificado aumenta a cada ano, rumo ao sul,
indo ao encontro da remanescente floresta equatorial daquele continente. Isto tem
diminuído a área disponível para a produção de alimentos naquela região, contribuindo
para fazer da África um dos territórios que mais perde riqueza, conforme os dados já
apresentados no gráfico da figura 1.2. A perda de solo, pelos processos existentes,
ocasiona problemas ao meio ambiente, à economia e a toda a sociedade dos locais
afectados.

1.2. PANORAMA NACIONAL


O problema da diminuição da potencialidade de uso do solo por desertificação e
erosão tem ocorrido em Portugal em diferentes intensidade e amplitudes geográficas.
Isto tem motivado a execução de planos nacionais e internacionais (nomeadamente
ligados à União Europeia) de uso e conservação do solo.

Em Portugal continental e tendo como fundo a caracterização dos solos tendo em vista
a produção agrícola, cerca de 95,7% dos solos apresentam Capacidade de Troca
Catiónica (CTC) média a baixa e 88,2% um pH abaixo do considerado óptimo para o
crescimento da vegetação. A fragilidade química/mineral evidente da maioria dos solos
portugueses, resultante das suas características de pH e de CTC, aumenta o papel
preponderante que a matéria orgânica do solo assume (CNCD – Comissão Nacional
de Combate à Desertificação, 1999).

7
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Deve salientar-se que a matéria orgânica do solo é uma importante fonte de


nutrientes, elemento estabilizador da estrutura do solo e substrato da desejada intensa
actividade biológica, estando directamente relacionada com a sua capacidade
produtiva e consequente resistência à erosão, estando também relacionada com a
capacidade de imobilização e decomposição dos pesticidas aplicados. Segundo o
mesmo organismo (CNCD, 1999), apenas 27,5% do território continental tem
quantidade de matéria orgânica considerada média ou alta. O atrás exposto pode ser
evidenciado na tabela 1.3.

Tabela 1.3. Características dos solos incluídos na superfície agrícola portuguesa de Portugal
Continental.
Fonte: Ministério Ambiente, 1999 adaptado de Alves, 1989

Alto Médio Baixo


Características
Área (ha) % Área (ha) % Área (ha) %
CTC* 227 700 4.2 3 757 070 70.2 1 382 780 25.5
Matéria orgânica** 1 468 850 27.5 116 650 2.2 3 762 120 70.4
pH*** 631 000 11.8 3 662 120 5.3 4 434 840 82.0
Nota: os valores consideram uma Superfície Agrícola Utilizada de 5.400.000 ha.

Legenda:

* Capacidade de Troca Catiónica (alto >20, médio entre 10-20, baixo <10 meq/100g de solo)
**Matéria orgânica (alto >2%, médio entre 1%-2%, baixo <1%)
*** pH (alto >6,5; médio entre 5,5-6,5; baixo <5,5)

A observação do mapa da Figura 1.3. permite confirmar que os solos portugueses são
consideravelmente ácidos, facilitando a lixiviação de nutrientes e xenobióticos para as
águas subterrâneas, afectando as suas características físicas, químicas e biológicas.
A alcalinização do solo ocorre também em algumas áreas do país, onde os solos são
irrigados com águas alcalinas ou tratados com adubos alcalinizantes.

Do ponto de vista da caracterização litológica e pedológica, os solos do território


Continental apresentam-se nos mapas do Atlas do Ambiente que se apresentam nas
Figuras 1.4 e 1.5.

8
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Figura 1.3. Classificação do pH dos Solos. Figura 1.4. Complexos Litológicos.


Fonte: DGA, Atlas do Ambiente (1979) Fonte: DGA, Atlas do Ambiente (1982)

Figura 1.5. Unidades Pedológicas.


Fonte: DGA, Atlas do Ambiente (1978)

As diferentes utilizações do solo constituem um factor a analisar enquanto potenciais


geradores de pressões no próprio solo e nos sectores que dele dependem. A Figura
1.6 resume a ocupação dos solos no território nacional, utilizando para isso os últimos
dados disponíveis do INE (Instituto Nacional de Estatística). O mapa da Figura 1.7

9
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

ilustra, a nível territorial, e segundo a Direcção Geral de Florestas, a distribuição dos


diversos usos do solo em Portugal Continental.

Figura 1.6. Uso do território nacional em 1996.


Fonte: INE, Retrato Territorial – Infoline, 2000

Figura 1.7. Uso do solo em Portugal continental.


Fonte: DGF, 1998

Tal como irá ser descrito mais à frente neste trabalho, são diversos os processos
químicos e físicos, muitos deles provocados e/ou acelerados pela acção do Homem,
causadores de degradação do solo, tornando-o susceptível a fenómenos de erosão,
sendo este um dos factores que mais contribui para a desertificação - processo de
degradação ambiental que se pode considerar praticamente irreversível.

Este fenómeno da desertificação tem também, por sua vez, particular responsabilidade
pela degradação dos solos de vastas áreas do país.

10
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

As formas mais importantes de degradação química do solo são a perda de nutrientes


e de matéria orgânica, a salinização, a alcalinização (sodificação), a poluição e a
acidificação, cujas principais razões são a utilização incorrecta de técnicas agrícolas e
a desflorestação.

A agricultura intensiva pode também provocar degradação física do solo. A exposição


do solo à chuva, o calcamento da lavoura e o tráfego da maquinaria pesada, a
impermeabilização, o encharcamento do solo e a alteração do perfil do terreno, são
algumas das principais causas da degradação física dos terrenos. A estas causas de
degradação junta-se a ocorrência de incêndios e o abandono de áreas agrícolas.

Merece particular atenção a erosão hídrica, por ser a mais comum em Portugal por
motivos que se ligam directamente com as nossas características climáticas, e que
condiciona os sistemas tradicionais de agricultura, bem como as áreas sujeitas a
sobrepastoreio, onde a degradação da vegetação e a compactação do solo constituem
factores decisivos ao seu desencadeamento.

Referem-se ainda outras causas de erosão como a subida do nível do mar, as


barragens que retêm areias que, em condições naturais, deveriam ser transferidas
para o mar, assim como estruturas costeiras em zonas sensíveis fragilizadas pela
ocupação humana do litoral e que, protegendo a montante, erodem a costa a jusante.
O vento é ainda outro factor meteorológico que pode ocasionar erosão dos solos,
apesar de possuir pouca expressão no nosso país.

A sensibilidade do solo aos diferentes tipos de degradação tratados depende das suas
características. Assim, as áreas semi-áridas e sub-húmidas secas do país,
apresentam em regra, terrenos de declives médios a acentuados, onde predominam
solos pobres em matéria orgânica, com texturas grossas a médias, com pequena a
média espessura, com baixa a média capacidade de retenção e de armazenamento de
água, de fertilidade baixa a média e com risco de erosão médio a alto, como acontece
nomeadamente com os Leptossolos, Cambissolos e Luvissolos.

São ainda zonas sujeitas a escorrimentos superficiais por vezes altos, com baixa a
média infiltração e portanto com baixo armazenamento de água no solo. Os solos de
elevada produção potencial e elevada resistência (Fluvissolos, Vertissolos,
Calcissolos, Podzóis) ocorrem em Portugal em pequena extensão.

11
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

A cartografia mais relevante que caracteriza as condições de uso e conservação do


solo foi obtida através do Programa CORINE1 e foi efectuada a partir de parâmetros de
erodibilidade do solo, erosividade à chuva, qualidade do clima e dos solos. A partir
destes quatro parâmetros foi possível obter o risco potencial de erosão e a erosão
actual do solo, o que permitiu elaborar o mapa seguinte.

Figura 1.8. Susceptibilidade à desertificação.


Fonte: INAG, 2000

As áreas mais susceptíveis ao processo de desertificação correspondem a algumas


zonas no interior do Alentejo e Algarve e algumas zonas no Norte do país (cerca de
11%). Aproximadamente 60% do território português corre risco moderado de
desertificação.

Apesar de reflectir bem, a nível nacional, as áreas com maior susceptibilidade à


desertificação, esta metodologia necessita ainda de ser validada a uma escala
regional, processo esse que se encontra em fase de iniciação.

1
Programa CORINE
Coordination of Information on the Environment - o Programa CORINE, entre outros objectivos, foi criado para se ter
informação sobre o ambiente e os recursos naturais na Europa, e fazer com que as várias políticas (económicas,
agrícolas, de transportes, de energia, sociais...) tenham em consideração a defesa daqueles valores.

12
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

O PANCD2 considera, contudo, que o aspecto climático mais ligado aos processos de
desertificação é o clima físico da superfície da Terra, que se refere ao sistema de
trocas e equilíbrios que ligam a atmosfera aos outros subsistemas climáticos. O clima
físico de um local é transformado quando o Homem altera a natureza da superfície, e
estas alterações podem afectar o clima global por processos de realimentação interna,
que podem actuar às escalas regional, continental e mesmo planetária.

A compreensão dos processos de desertificação assenta na capacidade de apreensão


das influências que têm, no clima global, as alterações locais do microclima
provocadas pelo Homem (DGF3 – PANCD, 1999).

De tudo o que foi apresentado, e procurando fazer um resumo, pode afirmar-se que:

• apenas 8% dos solos do território nacional são de boa qualidade, 25% de


qualidade moderada e 66% de baixa qualidade;
• em cerca de 90% do território nacional, 69% dos solos possuem risco elevado
de erosão, 24% risco intermédio e apenas 5% dos solos são dificilmente
erodíveis;
• a área relativa do território nacional com risco potencial elevado de erosão é
quase o dobro do mesmo indicador para a União Europeia;
• as áreas relativas dos solos com risco elevado de erosão variam
significativamente no país, com maiores valores na região de Lisboa e Vale do
Tejo e Alentejo;
• 72% dos solos são impróprios para a agricultura, restando assim 28%, dos
quais apenas 10% possuem capacidade de uso elevada.

2. ALTERAÇÃO DAS ROCHAS (METEORIZAÇÃO)

Mesmo antes da exposição aos agentes externos, na sequência de fenómenos que as


fazem ascender e, subsequentemente, aflorar, as rochas sofrem modificações, à
medida que se elevam das zonas profundas onde se geraram, e que correspondem a
fases progressivas de adaptação a ambientes sucessivamente mais próximos das
condições físico-químicas que caracterizam a superfície do Globo, isto é, pressão e

2
PANCD
Programa de Acção Nacional de Combate à Desertificação (os objectivos principais deste programa são: 1.
Conservação do solo e da água; 2. Fixação da população active nas zonas naturais; 3. Recuperação das áreas mais
afectadas pela desertificação; 4. Sensibilização da população para a problemática da desertificação e; 5. Consideração
da luta contra a desertificação nas políticas gerais e sectoriais).
3
DGF
Direcção Geral das Florestas

13
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

temperaturas relativamente baixas, presença de água de oxigénio, de dióxido de


carbono, etc..

A alteração das rochas, usada como sinónimo de meteorização diz respeito às


modificações causadas nestas pelos agentes externos, sobretudo os relacionados
com as condições de humidade e de temperatura ambientais.

Nestas condições, as rochas vão ser alteradas e destruídas para originar os materiais
com que se irão formar outros tipos de rocha e o aparecimento do solo. Esta acção
geodinâmica externa provoca uma modificação constante do relevo, originando o
aparecimento de vários aspectos da paisagem, consoante as acções dos diferentes
agentes geodinâmicos externos e também dos tipos de rochas existentes no local.

É importante ressalvar que estes fenómenos de erosão das rochas são, por vezes, tão
lentos que não são perceptíveis. A duração da vida humana não é suficiente para que
seja possível, muitas vezes, observar os seus efeitos. O calcário da camada superficial
do solo, por exemplo, só desaparece, por dissolução, ao fim de cerca de 300 anos.

Figura 2.1. Aspecto geral da meteorização (a rocha firme vai-se transformando gradualmente de
baixo para cima).
Fonte: Geologia, 1981

Esta conversão resulta essencialmente por processos mecânicos (alteração física ou


mecânica) ou por processos químicos (alteração bioquímica).

A alteração das rochas traduz-se na conversão de uma certa espessura da capa


externa das massas rochosas num material mais ou menos incoerente e empobrecido
dos componentes mais instáveis, susceptível de ser, mais facilmente mobilizado e
evacuado pelos agentes de erosão e de transporte. A espessura desta capa, que
depende do tipo de rocha, do clima e do tempo decorrido, pode ir de escassos
milímetros a algumas dezenas de metros.

14
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

No primeiro caso empregam-se as expressões alteração mecânica, alteração física ou


desagregação, e, no segundo, alteração química ou decomposição. Esta última é
preferível considerá-la como alteração bioquímica visto que é praticamente impossível
concebê-la sem a participação da actividade biológica.

A Alteração Mecânica ou Física, resulta essencialmente de acções de natureza


física, tais como variações de volume produzidas por oscilações térmicas
(termoclastia4), congelação e descongelação de água (gelivação5) contida nos poros
das rochas, cristalização de sais dissolvidos na água de impregnação das fissuras e
poros das rochas após evaporação. Os mecanismos físicos citados provocam a
constante fissuração das rochas até estados de desagregação mais ou menos
avançados. As rochas perdem, assim, a sua coerência sem modificação das suas
composições mineralógica e química.

Este tipo de alteração está confinado a certas zonas do Globo que têm em comum
acentuada carência de água no estado líquido e, consequentemente, muitíssimo
pobres de vegetação e, portanto, de reduzidíssima actividade bioquímica. Estão
nestas condições as regiões glaciárias (polares e de alta montanha) com gelo
permanente a encobrir o solo, as regiões periglaciárias, de solo exposto mas quase
permanentemente gelado, e as regiões áridas ou desérticas ou semiáridas. No
conjunto, estas regiões perfazem cerca de 15% da área dos continentes.

Figura 2.2. Alargamento da rocha provocado pelos processos de termoclastia e gelivação.


Fonte: Ciências Naturais 7, 1995

4
Termoclastia
Uma vez que muitas rochas contêm minerais escuros e minerais claros, portanto, com diferentes graus de absorção da
energia radiante, estes minerais aquecem e dilatam-se de modo diferente o que conduz a contínua "descolagem" dos
grãos da rocha que acaba por se desagregar. Por outro lado, devido à pouca condutibilidade térmica das rochas,
verifica-se um aquecimento da película externa dos afloramentos rochosos que contrasta com a temperatura do seio da
rocha.
5
Gelivação
A água no estado líquido ocupa menos espaço do que no estado sólido. Nas zonas frias a água no estado líquido
penetra nas fendas das rochas e quando gela aumenta de volume. Devido a esse aumento de volume, a água vai
pressionar as paredes das fendas originando a desagregação das rochas.

15
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

A Alteração Bioquímica, está representada nos restantes 85% da área dos


continentes e encerra, fundamentalmente, mecanismos químicos e, sobretudo,
bioquímicos, na sequência da actividade própria dos seres vivos (micro e
macroorganismos), em especial do mundo vegetal, quer através da sua acção
fisiológica, quer por efeito dos seus produtos de decomposição, após a morte.

A água no estado líquido é factor essencial a este tipo de alteração. Por um lado, é a
água que desencadeia e permite a maioria das reacções químicas; é a água que
recolhe os produtos alterados; é, ainda, a água que determina o equilíbrio da cobertura
vegetal e, consequentemente, condiciona os processos bioquímicos a ela ligados.

Entre os principais processos decorrentes no conjunto da alteração bioquímica, têm


lugar de relevo a hidrólise, a oxidação e certas reacções químicas realizadas com
produtos orgânicos de origem biológica.

A temperatura tem aqui, também um papel importante, na medida em que, como é


sabido, a velocidade das reacções varia no mesmo sentido daquela grandeza. Bastará
referir que para uma elevação de 10 °C, a velocidade de hidrólise duplica. A
decomposição aumenta pois com a humidade, com a temperatura e com o grau de
importância do mundo orgânico associado.

Figura 2.3. Intensidade dos fenómenos de meteorização em função da temperatura e da


pluviosidade.
Fonte: Geologia, 1981

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

Figura 2.4. Intensidade dos fenómenos de meteorização em função da temperatura e da


pluviosidade.
Fonte: Geologia, 1981

Legenda:
Regiões praticamente sem alteração bioquímica
1 – Regiões Polares
2 – Regiões Desérticas quentes
Regiões com alteração bioquímica
3 – Zonas Frias
4 – Regiões Intertropicais húmidas
5 – Regiões Tropicais sub-húmidas
6 – Regiões Tropicais secas e temperadas

Como se pôde observar da figura anterior, onde é delimitado de uma forma global, a
distribuição da actividade bioquímica, esta é insignificante no domínio da tundra e das
turfeiras boreais, é ainda incipiente ao nível da taiga, é já bastante sensível à latitude
das florestas temperadas e atinge o máximo de intensidade nas regiões quentes e
húmidas sob a floresta tropical e equatorial.

Quanto maior for a precipitação atmosférica, maior é a circulação e a renovação da


água no seio das rochas, isto é, a drenagem, e mais rápida e profunda será a
alteração. O pH do ambiente tem grande influência, pois a acidez acelera a velocidade
da hidrólise.

Estabelece-se, assim, relação entre o clima e a alteração das rochas, para a qual se
pode esboçar uma zonalidade que acompanha de perto a zonalidade climática do
Globo.

Apesar de muitos autores não fazerem referência à diferença entre a meteorização e a


erosão, deve notar-se que, de facto, a meteorização corresponde apenas à alteração
da camada superficial das rochas, que irá facilitar o seu desgaste ou escavamento.
Pode, inclusivamente, dizer-se que a meteorização é um fenómeno que precede a
erosão, preparando, facilitando e acelerando esta última.

17
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Dada a íntima relação entre estes dois fenómenos, é natural que os agentes de
meteorização sejam também os agentes de erosão (GALOPIM DE CARVALHO,
1981).

A título de exemplo ao anteriormente exposto, para LEINZ e AMARAL (1987) a erosão


das rochas, transformando-as em solo acontece pelo processo denominado
intemperismo6 que é, segundo os autores "... o conjunto de processos operantes na
superfície terrestre que ocasionam a decomposição dos minerais das rochas, graças à
acção de agentes atmosféricos e biológicos". O clima actua sobre o intemperismo por
meio de duas formas principais: física e química. O intemperismo físico é a acção
mecânica sobre a rocha, desintegrando-a fisicamente por meio de variação de
temperatura, cristalização de sais, congelação e agentes físico - biológicos. E o
intemperismo químico é desencadeado pela acção da água que penetra na rocha.
Esta água que cai sob a forma de chuva traz gases dissolvidos (O2, CO2, N2), que, ao
se infiltrarem junto com a água na rocha, reagem com os seus componentes por meio
de decomposição química por oxidação, hidrólise e hidratação, ácido carbónico,
dissolução e decomposição químico-biológica, contribuindo para transformar a rocha
em solo.

3. EROSÃO E EROSIVIDADE

3.1. DEFINIÇÃO
Erosão, etimologicamente, provém do verbo latino «erodere» que significar roer. É um
fenómeno natural, gerador de sedimentos e que sempre existiu na superfície terrestre,
desde que as rochas se puseram em contacto com a atmosfera. Em última instância,
deve-se à energia solar e à presença de um potencial regulador, a gravidade, e pode
ocorrer em qualquer lugar da superfície do planeta ainda que não necessariamente
com a mesma intensidade no tempo e no espaço.

A seguir são descritas algumas definições de “Erosão” que se encontram compiladas


pelo Glossário Libéria:

Erosão, (1) Trabalho de desgaste realizado pelos diversos agentes do relevo, tais
como as águas correntes, o vento e o gelo. (2) Desgaste do solo por água corrente,
zonas geladas, ventos e vagas (DNAEE, 1976). (3) Destruição das saliências ou

6
Intemperismo
Palavra utilizada pelos brasileiros para definir Meteorização.

18
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

reentrâncias do relevo, tendendo a um nivelamento ou colmatagem, no caso de


litorais, baías, enseadas e depressões (GUERRA, 1978). (4) Desgaste e/ou
arrastamento da superfície da terra pela água corrente, vento, gelo ou outros agentes,
incluindo processos como o arraste natural. (5) Desgaste do solo, ocasionado por
diversos factores, tais como: água corrente, zonas geladas, ventos, vagas e
desmatamentos. Obras de engenharia e movimentações de terra podem causar ou
ocasionar erosão. Tipos de erosão: mecânica, hidráulica, eólica e outras. (6) Remoção
física de rochas ou de partículas do solo por acção de elementos da natureza, como a
água e o vento; os processos erosivos podem ser acelerados por actividades
antrópicas7. (GLOSSÁRIO LÍBRERIA, 2003)

As rochas (e solos) da superfície terrestre estão constantemente a ser erodidas e os


seus produtos, uma vez libertados, são transportados pelos diversos agentes
(GALOPIM DE CARVALHO 1981). Segundo o mesmo autor, a fronteira entre a erosão
e o transporte dos materiais erodidos é bastante ténue uma vez que “... o mesmo
agente pode realizar uma ou outra daquelas acções.” e ainda, “... consoante as
dimensões dos materiais libertos e a energia do agente assim exercerá uma ou outra”
(GALOPIM DE CARVALHO, 1981).

A erosão é um fenómeno complexo que basicamente consiste na desagregação ou


meteorização de um solo ou de um material rochoso por acção de agentes
atmosféricos e posterior desnudação por arraste das partículas desagregadas
(JIMENO, 1999).

A intensidade com que se manifesta a erosão depende de uma série de factores que,
por sua vez, em última instância, dependem da geologia e do clima da região daquele
lugar, de acções químicas e biológicas e ainda, da presença humana. Desta forma,
podem ser considerados outros factores intrínsecos: tectónicos, litológicos,
edafológicos, geomorfológicos, e ainda antrópicos, sendo todos independentes e
variáveis ao longo do tempo.

O Homem, derivado das actividades que desenvolve (a destruição de bosques e


zonas com vegetação densa, transformando-as em áreas cultiváveis; o pastoreio
abusivo; o arado do solo seguindo as linhas de máxima pendente do terreno; as
práticas de cultivo inadequadas; os incêndios; a utilização de solos férteis para a

7
Erosão antrópica
Aceleramento da erosão nas camadas superiores do solo em consequência de desflorestaremos, construção de
estradas etc., ocasionando um desequilíbrio litogliptogénico (GLOSSÁRIO LÍBRERIA, 2003).

19
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

expansão urbana e industrial; a abertura indiscriminada e mal planificada de vias de


comunicação e caminhos florestais; e a exploração a céu aberto de recursos minerais
e rochas industriais; entre outras muitas acções humanas) é, sem dúvida alguma, o
factor que mais consegue influenciar negativamente a evolução natural dos processos
erosivos numa determinada região, pois induz alterações importantes no solo que
afectam as suas propriedades físicas, químicas e biológicas, levando a uma
degradação elevada do mesmo e, em algumas ocasiões, consequências irreversíveis.

Segundo JIMENO (1999), a recuperação do solo perdido, como consequência dos


processos erosivos, mediante formação natural de novo solo a partir da rocha mãe é
muito lenta, calculando-se que para formar, em condições naturais, uma capa de 2 a
3cm de espessura são necessários entre 300 a 1000 anos. Segundo o mesmo autor,
este período de tempo pode ser encurtado, sendo necessários entre 15 e 25 anos
para formar uma capa de solo novo com 1cm de espessura, se se recorrer a
operações agrícolas.

GUERRA (1972) apud CERRI, SILVA e SANTOS (1997) conceitua erosão como "...
destruição das saliências ou reentrâncias do relevo, tendendo a um nivelamento ou
colmatagem, no caso de litorais, de enseadas, de baías e depressões.". Para ele o
processo erosivo é único, composto da fase erosiva (gliptogénese) e uma de
sedimentação (litogénese). Ele comenta que para o geólogo e o geógrafo o termo
erosão significa um conjunto de acções que modelam uma paisagem, enquanto para o
pedólogo e o agrónomo consideram-no do ponto de vista da destruição do solo.

O mesmo autor ainda distingue vários tipos de erosão, tais como acelerada (com a
intervenção humana) e de outros seres vivos; elementar (também chamada de
meteorização); eólica (trabalho realizado pelo vento); fluvial (trabalho contínuo das
águas correntes na superfície terrestre, incluindo os efeitos dinâmicos exógenos de
gliptogénese em que o homem não interfere, para os geólogos); glaciar; marinha
(trabalho das vagas forçadas ou de translação ao longo do litoral); pluvial (trabalho das
águas da chuva).

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo - IPT (1986) conceitua


erosão como "o processo de desagregação e remoção de partículas do solo ou de
fragmentos e partículas de rochas, pela acção combinada da gravidade com a água,
vento , gelo e/ou organismos (plantas e animais)".

20
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

O balanço hídrico rege todo o comportamento regional frente aos processos erosivos
como se pode perceber, observando a figura seguinte.

Figura 3.1. Balanço Hídrico.


Fonte: Ano propedêutico, 1979

Pode-se definir Erosão do solo como: (1) Destruição nas partes altas e acumulação
nas partes deprimidas da camada superficial edafizada (GUERRA, 1978). (2)
Processo pelo qual a camada superficial do solo ou partes do solo são retiradas, pelo
impacto de chuva, ventos e ondas e são transportadas e depositadas noutro lugar
(GLOSSÁRIO IBAMA, 2003).

Do ponto de vista da geologia, erosão é o processo de longa duração em que os


factores erosivos concorrem para transformar a rocha em solo (LEINZ e AMARAL,
1987). Desta forma a erosão do solo faz parte de um processo mais amplo, chamado
desnudacção. Este corresponde "... ao conjunto de processos que agem na remoção e
consequente abaixamento de uma superfície elevada, pela interacção de processos
intempéricos e erosivos, podendo ser acompanhados da lixiviação, no caso de tratar-
se de regiões calcárias" (LEINZ e AMARAL, 1987).

21
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

LEINZ e AMARAL (1987) afirmam que a erosão é o processo que ataca a rocha
transformando-a em solo e desnudação é o processo que ataca o solo destruindo-o.
Por outras palavras, esta erosão seria a pedogénese e desnudação corresponderia à
morfogénese, conforme TRICART (1968).

TRICART (1968) afirma que plantas e animais criam o solo por meio da pedogénese e
que esta é parte integrante da morfogénese ao modificar as características superficiais
da litosfera, isto é, ao modelar as formas de relevo. Esta modelação do relevo
acontece principalmente por meio das formas de erosão pluvial e eólica, bem como de
outras de menor magnitude.

O tempo de actuação dos factores erosivos interagindo entre si é de importância


fundamental. Ele pode ser subdividido em processo de erosão geológica, ou natural e
erosão acelerada.

A figura 3.2. possibilita uma visão geral do ciclo das rochas, enfocado como um
sistema de longa duração. Completando este ciclo, pode-se observar que a erosão
das rochas forma o solo e a erosão deste ocasiona novas formas de relevo
(morfogénese) nas encostas e novos solos nos sítios de acumulação. A erosão
geológica, já descrita, acontece desde a formação da Terra, transformando as rochas
em solos e estes em rochas novamente. A erosão acelerada, por sua vez,
compreende o curto intervalo de tempo da vida humana e conta com a fundamental e
inequívoca participação do homem no processo; esta é desencadeada quase que
exclusivamente por práticas incorrectas de uso e manuseamento do solo, da água e
dos demais recursos do meio ambiente.

De acordo com BIGARELLA e MAZUCHOWSKI (1985), a erosão acelerada instala-se


quando se verifica uma ruptura do equilíbrio que favorece os agentes erosivos [pois]
em condições normais, via de regra, o desgaste da superfície por erosão é
compensado pela contínua alteração das rochas, mantendo-se o perfil do solo.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Energia Solar

Figura 3.2. Ciclo das Rochas.


Fonte: Leinz e Amaral, 1987

Legenda:

1. Meteorização, erosão e transporte;


2. Cimentação, diagénese, recristalização a baixa temperatura;
3. Fusão pela incorporação directa a qualquer massa ígnea após subsidência;
4. Metamorfismo pelo aumento das condições de temperatura, pressão orientada ou
pela conjugação de ambos os processos, graças à subsidência;
5. Vulcanismo; por meio de rupturas da crosta o magma basáltico provindo do manto
se derrama à superfície;
6. Soerguimento conjugado com a erosão das camadas superiores;
7. Formação de Gabros, peridotitos, kimberlitos, etc.;
8. Formação de metabasitos.

23
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

A análise da tabela 3.1 permite ter uma ideia da escala de ocorrência do processos
erosivos. Segundo BERTONI e LOMBARDI NETO, são necessários cerca de 6.000
anos para que se forme uma camada de 15cm de solo. Desta forma, a floresta é a
melhor cobertura vegetal para o solo, pois são necessários 440.000 anos para
desgastar essa mesma espessura. A pastagem, por seu turno, já não tem capacidade
para regenerar o solo perdido, pois demora somente 4.000 anos para que ele seja
erodido. Se se observar o efeito da agricultura, então o efeito erosivo é grandemente
acelerado, podendo-se observar que uma ocupação anual do solo para a agricultura
consegue erodir o solo em apenas 70 anos, aproximadamente 6.000 vezes mais
depressa que numa floresta.

Tabela 3.1. Desgaste de 15 cm de solo (tempo de formação: 6 mil anos).


Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Cobertura Tempo (anos)

Floresta 440.000

Pastagem 4.000

Café 2.000

Cultura anual 70

CHRISTOFOLETTI (1974) afirma que a acção biológica das plantas e dos animais
também actuam no processo de pedogénese - morfogénese. As plantas actuam tanto
na morfogénese desagregando as partículas do solo, como na pedogénese ao barrar
o escoamento pluvial, ventos e fornecimento de húmus. Os animais participam da
morfogénese ao diminuir os tamanhos das partículas e ao movimentá-las no interior
dos solos.

JIMENO (1999) distingue sete categorias distintas para os diferentes tipos de erosão,
a nível global:
1. Erosão Hídrica;

2. Erosão Eólica;

3. Erosão Fluvial;

4. Erosão Marinha e Litoral;

5. Erosão Glaciar;

6. Erosão Periglaciar;

7. Erosão Cárstica.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Sendo que, segundo o mesmo autor, a uma escala mais reduzida, os tipos de erosão
que se revestem com importância são a erosão eólica e sobretudo, a erosão hídrica
produzida pelas gotas de chuva que embatem sobre o terreno, desagregando
partículas que são por sua vez arrastadas pelas águas de escorrência.

GALOPIM (1981) acrescenta ainda, como agentes responsáveis pela modelização do


terreno a Força da Gravidade e os Seres Vivos.

SELBY (1982), define Erosão como função de dois mecanismos ou processos:

Erosão = f( Erosividade; Erodibilidade)

em que a Erosividade traduz os efeitos compostos dos agentes naturais


característicos de uma dada região, tais como a chuva e ventos (sua intensidade,
tamanhos das gotas, velocidade, distribuição, ângulo e direcção, frequência e
duração), assim como das águas superficiais correntes (caudais, profundidade do
escoamento, velocidade, frequência, magnitude, duração e conteúdo de sedimentos)
enquanto que Erodibilidade depende das propriedades dos terrenos (tamanho das
partículas, coesão, capacidade de agregação e de infiltração) da vegetação (inclinação
e comprimento da superfície dos terrenos, sua rugosidade, convergência ou
divergência de escoamentos) e, ainda, as práticas de uso do solo (agricultura
intensiva, estabilização de ravinamentos, rotação de colheitas, cobertura das plantas,
criação de terraços, conteúdo de matéria orgânica, etc.).

3.2. EROSÃO HÍDRICA


A água, tal como já foi referido, é o agente natural de maior incidência, como factor
condicionante e desencadeante no aparecimento de instabilidades. As correntes de
água com o seu poder erosivo e de transporte constituem um grande factor
desencadeante, conseguindo um perfil de equilíbrio com as encostas dos vales por
onde escoam. Estas, podem actuar de forma contínua com desigual importância,
segundo a intensidade da corrente, provocando o desgaste do pé do talude
diminuindo-o e eliminando o suporte da base e incrementando o esforço de corte dos
materiais.

A Erosão Hídrica é aquela em que os processos de desagregação da rocha ou solo


bem como desnudação e transporte são efectuados pela água. Ocorre através da
acção do impacto das gotas da chuva e pelas acções químicas que desenvolve na

25
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

rocha, quando se infiltra nesta e ainda pelo escoamento superficial, quer seja difusa ou
concentrada.

A Erosão Hídrica é afectada por uma série de factores que se encontram resumidos
na figura seguinte.

Propriedades Físicas do Terreno


Forças Devidas a
Resistentes
Vegetação

Erosão Hídrica Depende de

Características das Chuvas

Forças Activas Determinadas por Pendente e Superfície do Terreno

Capacidade de absorçãoda água no terreno

Figura 3.3. Factores que afectam a erosão hídrica.


Adaptado de Jimeno, 1999

A água pode exercer uma acção mecânica sobre as rochas. Na sua passagem, a água
arrasta consigo alguns materiais mais soltos. Por outro lado, ao introduzir-se pelas
fendas a água vai provocando o seu alargamento, o que pode levar à fracturação e
desagregação da rocha.

A água que circula na Natureza (mesmo a água da chuva) transporta substâncias


dissolvidas. A acção das substâncias dissolvidas na água pode contribuir para
fenómenos de erosão química. A própria água, só por si (mesmo se relativamente
pura), desencadeia reacções que levam a alteração dos minerais.

A água é um importante agente de construção da paisagem, actuando sob diversas


formas - águas torrenciais, águas correntes dos rios e do mar, águas subterrâneas e
ainda, sob a forma de neve e de gelo quando se encontra no estado sólido. Na sua
acção, nestas diferentes formas, a água modela diferentes tipos de paisagem
destacando-se aspectos muito característicos como os sulcos torrenciais ou
barrancos, as chaminés de fada, os estuários, as praias, os campos de lapiás, as
grutas e os vales glaciários.

As perdas de solo num terreno estão intimamente relacionadas com a chuva, em parte
pelo seu poder de desprendimento aquando do impacto das gotas de água no solo e
pela contribuição à escorrência superficial.

26
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

A eficácia do desprendimento de partículas pelas gotas depende directamente da


energia cinética das primeiras, das suas massas e da velocidade com que atingem o
terreno. A velocidade que uma gota alcança é função do seu diâmetro.

Figura 3.4. Acção mecânica do impacto de uma gota de chuva.


Fonte: Geologia, 1981

HUDSON descobriu em 1973, aquando de estudos efectuados na África subtropical,


que a energia cinética de chuvas individuais de intensidade iguais ou superiores a 25,4
mm estava mais estreitamente relacionada com as perdas de solo que qualquer outro
parâmetro individual testado. Ainda, segundo dados do mesmo autor, uma chuva tem
256 vezes mais energia cinética que o escoamento superficial (BERTONI e
LOMBARDI NETO, 1990).

Segundo CHRISTOFOLETTI (1974) e BERTONI & LOMBARDI NETO (1990) e a


erosão pelo impacto das gotas de chuva (salpicamento ou splash erosion) acontece
quando as gotas de chuva golpeiam a superfície do solo, rompendo os grânulos e
torrões, reduzindo-os a partículas menores. Isto diminui a capacidade de infiltração de
água no solo. Uma gota golpeando um solo húmido forma uma cratera, compacta a
área imediatamente sob o centro da gota, movimenta as partículas soltas para fora
num círculo em volta da sua área.

O impacto das gotas de chuva (figura 3.5.) rompe os agregados do solo, desprende e
transporta as partículas mais finas, que são as de maior valor nutritivo, causando
também compactação na superfície do terreno. Isso reduz a capacidade de absorção
de água pelo solo e aumenta o escoamento superficial. As partículas mais
susceptíveis de serem transportadas pela saltitação são as areias finas que pulam até
a 1,5 m de distância.

27
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Figura 3.5. Erosão por salpicamento.


Fonte: V.P. Robey, Naval Research Lab (EUA); In Leinz e Amaral, 1967

Na primeira foto, a gota está prestes a tocar a superfície. Na figura do meio consegue-
se observar que os pingos de lama são expelidos radialmente após o impacto da gota
e por fim, na foto mais à direita, vê-se a formação uma cratera enquanto os pingos
expelidos são depositados.

ELLISON (1947), citado por BERTONI e LOMBARDI NETO(1990), afirma que as


gotas de chuva contribuem para o processo erosivo de três maneiras:

(a) desprendem partículas de solo no local que sofre o impacto;

(b) transportam, por salpicamento, as partículas desprendidas;

(c) imprimem energia, em forma de turbulência, à água superficial.

Segundo os mesmos autores, a chuva afecta o solo por meio de quatro


características:

• Quantidade - é a soma total da chuva que cai de forma contínua em


determinado lugar e tempo;

• Intensidade - é a característica mais importante, pois quanto maior seu valor,


maior será a perda por erosão, porque chuvas mais intensas têm maior poder
de desagregação das partículas do solo, do que chuvas de menor intensidade;

• Duração - é complemento da intensidade de chuva pois a combinação das


duas características determina a chuva total. Chuvas de longa duração
proporcionam maior quantidade de escoamento superficial porque ocorre a
saturação do solo cessando a infiltração da água da chuva no solo;

• Frequência - é a característica que, para valores constantes das outras


características, provoca escoamento superficial de maior intensidade quando o
intervalo de tempo entre as chuvas é menor.

28
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

A velocidade máxima de infiltração acontece no início da chuva, caindo rapidamente à


medida que o solo se vai saturando de água. Também o tamanho e a disposição dos
espaços porosos no solo, determinam a velocidade de infiltração da água da chuva.
Solos arenosos, com grandes espaços porosos têm velocidade de infiltração maior
que solos argilosos, onde os espaços porosos são menores.

A tabela seguinte constitui-se numa tentativa empírica de relacionar o poder erosivo da


chuva com a intensidade de erosão (SIDNEI LOPES RIBEIRO, 2000).

Tabela 3.2. Esquema empírico do poder erosivo da chuva.


Fonte: Sidnei Lopes Ribeiro, 2000

Quantidade de chuva Pequena Média Grande


Intensidade da chuva Baixa Média Alta
Duração da chuva Curta Média Longa
Intervalo entre chuvas (frequência) Grande Médio Pequeno

Erosão Mínima Média Máxima

Uma vez chegada ao solo, a água não só produz erosão pelo impacto das gotas de
chuva mas também, quando a intensidade da chuva supera a capacidade de
infiltração do terreno, ocorre escoamento superficial dando origem aos processos de
erosão laminar, erosão em sulcos e erosão em barrancos.

3.2.1. TIPOS DE EROSÃO HÍDRICA


BIGARELLA e MAZUCHOWSKI (1985) citam quatro formas de erosão provocadas
pela água: 1 – laminar; 2 - em sulcos; 3 – ravinamentos; e 4 - boçorocas8. CLAYTON
(1972) distingue o processo em duas fases: a) impacto das gotas da chuva e b)
escoamento superficial. Quanto a este tipo de erosão (hídrica), OLIVEIRA (1994)
diferencia as seguintes classes: 1 - laminar ou entre sulcos; 2 - em sulco; 3 - em calha;
4 - em ravina; e 5 - em boçoroca.

No que se refere à sua forma de se manifestar, JIMENO (1999) diferencia-as em três


modalidades (ou tipos erosivos): Laminar, em sulco e em barranco. A figura seguinte
ilustra os tipos de erosão hídrica definidos por este autor.

8
Boçoroca (voçoroca)
Termo brasileiro para invocar Barranco

29
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Erosão em Barranco

Erosão Laminar

Erosão em Sulco

Figura 3.6. Representação esquemática dos diferentes tipos de erosão hídrica.


Adaptado de Jimeno, 1999

A) Erosão Laminar ou em Manto («sheet erosion» ou «interrill erosion»)


A erosão laminar é uma forma de erosão dificilmente perceptível, mas cuja aplicação
pode ser denunciada pela coloração mais clara do solo, pela exposição de raízes e
pela queda na produtividade agrícola. A aplicação da Equação Universal da Perda de
Solo (USLE9) para a avaliação da perda média anual de solo restringe-se às áreas que
apresentam erosão hídrica do tipo laminar. BERTONI e LOMBARDI NETO (1985)
apud CERRI, SILVA e SANTOS (1997).

A Erosão Laminar consiste numa remoção de delgadas capas de solo produzidas pela
água que escorre em terrenos uniformes e de pouca inclinação, provocando uma
perca de solo, com maior quantidade de matéria orgânica, conduzindo a um
empobrecimento em elementos nutrientes e a uma diminuição da capacidade de
armazenamento de água.

Esta erosão é pouco perceptível no inicio da sua ocorrência já que apenas modifica a
superfície do solo no entanto, com o decorrer do tempo produz uma concentração
importante de cascalho na superfície, põe a descoberto as raízes de arbustos e de
outras pequenas plantas e ainda, produz a acumulação de terras na zona final do
talude.

Os processos principais que actuam na erosão laminar são o desprendimento e


arranque de partículas do solo por efeito do impacto das gotas de chuva
(desprendimento por salpicamento) e o seu transporte por efeito de uma delgada
lâmina de água (fluxo laminar).

9
USLE
Abreviatura para «Universal Soil Loss Equation». Ver Capítulo 7.3

30
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

O fluxo laminar não é um fenómeno que consiga ocorrer durante grandes distâncias,
derivado das irregularidades do terreno. Desta forma, a água passa a correr em
pequenas linhas de água não hierarquizadas e de trajectórias variadas. As
consequências deste tipo de erosão são semelhantes às provocadas pela erosão
laminar.

B) Erosão em Sulcos («rill erosion»)


À medida que os fluxos de corrente se vão concentrando nas linhas de maior declive
dos terrenos, vão-se adensando os fluxos de água e ocorre o aumento da velocidade
da mesma, originando directamente o aumento do potencial de erosão, conseguindo
abrir pequenos sulcos no terreno de secção em “U” ou em “V”, com profundidades até
0,3m (JIMENO, 1999).

Este tipo de erosão é favorecida com a queda de aguaceiros intensos e com a


preexistência de erosão laminar e com a inclinação do talude em causa.

CERRI, SILVA e SANTOS (1997) afirmam que a ravina tem profundidade acima de
0,5m e é formada essencialmente pelo escoamento de água superficial, que provoca o
desprendimento de partículas do solo e movimentos de massa devido ao abatimento
dos taludes. Apresenta forma rectilínea, alongada e estreita: raramente se ramifica,
não chega a atingir o nível freático e possui perfil transversal em "V". Ocorre entre
eixos de drenagens, muitas vezes associadas a estradas, trilhas de gado e valas
abertas por alfaias agrícolas.

CAVAGUTI (1994) e SALOMÃO (1994) consideram que sulcos e ravinas são formas
resultantes da erosão de solo antes de ser atingido o lençol freático, diferenciando-se
pela profundidade da erosão linear. Os mesmos autores indicam que, para o U.S. C.
S.10 (1966), o termo sulco é utilizado quando se pode recuperar o entalhe erosivo por
operações normais de preparo do solo; caso contrário, trata-se de ravina. Com o
aprofundamento da ravina, esta interceptará o lençol freático e , a partir deste instante,
ocorre a acção simultânea das águas de escoamento superficial e sub - superficiais,
tornando o processo bem mais complexo e fazendo com que a ravina original atinja
grandes dimensões. Este estágio final é denominado barranco.

10
USCS (United States Conservation Service)
Organismo estatal norte americano que tem como âmbito a conservação das vias terrestres deste país.

31
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

C) Erosão em BARRANCOS («gully erosion»)


Se os sulcos por onde circula a água no terreno não se eliminarem (por meteorização
ou trabalho humano), estes irão progredir no sentido ascendente permitindo
desprendimentos de materiais de maior tamanho, originando incisões que poderão
atingir vários metros de profundidade graças às correntes de água e de materiais que
esta arrasta e ao desmoronamento das paredes do sulco devido à instabilidade da
parede onde se encaixa.

Este tipo de erosão nos terrenos só ocorre se alguma das erosões anteriores já tiver
ocorrido e evidencia um estado avançado de erosão nos mesmos. A sua anulação já
requer meios de estabilização e correcção dos terrenos com custos elevados.

Para RODRIGUES (1982) as boçorocas são ravinas profundas que se desenvolvem,


tanto em sedimentos como em solos, nos taludes naturais e artificiais.

Figura 3.7. Sulcos e Barrancos num talude.


Fonte: López Jimeno, C., 1998

3.2.2. EROSÃO PROVOCADA PELOS CURSOS DE ÁGUA, VAGAS OCEÂNICAS E GLACIARES

A erosão hídrica não ocorre somente pelo efeito da chuva e do seu escoamento
superficial sobre o solo. Os rios, as vagas oceânicas e os glaciares são também
agentes modeladores da paisagem. A seguir são apresentadas as principais
modificações provocadas por estes agentes.

a) Torrentes
As Torrentes são pequenos cursos de água temporários, activos por ocasião das
chuvas e que funcionam como locais de convergência e escoamento das águas de
escorrência existentes no seu raio de acção. A sua localização é predominante em
vertentes íngremes dos vales ou nas cabeceiras dos mesmos, nas zonas de relevo
mais acidentados.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

As torrentes são compostas por três troços distintos: 1) Bacia de recepção, localizada
na parte mais elevada, possuindo uma forma mais ou menos extensa, alargada e
escavada onde convergem as águas e afunilando na zona de transição para o
segundo troço. É desprovida de vegetação; 2) Canal de escoamento, entalhe
profundo, geralmente de forma em “V” e rectilíneo, pejado de detritos de diâmetros
variáveis e tem como «função» o escoamento das águas acumuladas na Bacia de
recepção e dos detritos por estas arrastadas; 3) Cone de dejecção, local onde os
detritos transportados são depositados, numa forma de acumulação em leque e de
superfície cónica.

Figura 3.8. Torrentes.


Fonte: Geologia, 1981

À medida que a Torrente evolui, tende para um ponto de equilíbrio que vai permitir a
reintrodução da vegetação, estabilizando a encosta. Os efeitos erosivos da Torrente,
enquanto se encontra «activa» são bastante prejudiciais em qualquer dos seus troços.

b) Rios
Os rios (e os ribeiros) geralmente possuem água em regime permanente, em oposição
ao regime torrencial, sazonal. Qualquer corrente de água possui uma menor ou maior
capacidade erosiva, que depende da própria força da água que circula. Esta, por sua
vez, depende do caudal11 e da velocidade da corrente12. O caudal do rio não é
constante ao longo do ano, uma vez que recebe as águas dos seus afluentes.
Também a velocidade com que a água circula, varia uma vez que o declive do rio se
suaviza à medida que se aproxima da foz.

11
Caudal
Caudal de um rio é o volume de água que fluí por unidade de tempo. Exprime-se em m3/s (metros cúbicos por
segundo).
12
Velocidade da corrente
A velocidade da corrente é consequência do declive do leito do rio.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Por esse facto, da nascente até à foz, isto é, de montante para jusante, distinguem-se
sempre três troços principais, à semelhança das torrentes:

Troço superior, o rio corre por áreas montanhosas, em vertentes muito


inclinadas. As águas correm rápidas e violentas. Por esse motivo predomina o
trabalho de erosão, no qual grandes quantidades de materiais são arrancados
das margens e do leito do rio;

Troço médio, o rio já saiu do terreno montanhoso, a inclinação do leito diminui


e as águas ficam menos violentas. A principal acção da água é o transporte.
Existe ainda um certo desgaste nas margens (erosão lateral) devido à acção
das águas das chuvas que convergem para o rio;

Troço inferior, o rio corre por zonas muito planas, sem inclinação e as águas
são muito vagarosas. A sua força é insuficiente para transportar materiais.
Assim a acção predominante é a sedimentação.

A idade de um rio é também determinante para a erosão (vide figura 3.9.):

a) um rio Jovem conduz a grandes acções de erosão (o rio apresenta um perfil


irregular e acentuado);

b) um rio na sua fase de Maturidade tem maior poder de transporte, já que o


seu perfil tende a ser mais regular, com vales profundos e geralmente
apertados; e

c) na fase da Senilidade, dados os vales serem amplos e possuírem vertentes


muito afastadas, as acções de sedimentação são maioritárias.

Independentemente dos troços e da idade do rio, a acção dos rios aumenta,


consideravelmente, quando se modificam as condições normais do caudal e a
geometria: Durante as cheias aumenta o seu poder abrasivo e de desgaste devido ao
carácter esporádico e tumultuoso.

Figura 3.9. Fases da evolução de um rio.


Fonte: Geologia, 1981

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

c) Vagas e Ondulação
A ondulação contribui para a modelação das escarpas costeiras, actuando como factor
destabilizador da mesma. Durante os períodos de tormenta a ondulação produz um
desgaste no pé das escarpas. O violento embate das ondas lança fragmentos de
rocha contra a costa levando à diminuição da sua estabilidade, dependendo da
competência dos materiais.

Também se produzem vibrações que podem pressupor um factor condicionante da


estabilidade através das descontinuidades. Devido à refracção das ondas por troca de
direcção das suas frentes, as zonas salientes da costa são as que mais sofrem os
seus efeitos.

O retrocesso geral das escarpas por efeito das ondas faz com que estas constituam
um factor condicionante da acção dos rios que desembocam na costa. Quando as
escarpas sofrem erosão rápida, o vale fluvial fica retido diminuindo o nível de erosão
do rio.

Figura 3.10. Erosão costeira provocada pelas acções das vagas e da ondulação.
Fonte: O Mistério da Vida, 1998

A água do mar é a principal responsável pela modelação da paisagem ao longo da


costa, originando uma série de aspectos característicos. A sua acção erosiva é
provocada principalmente pelo impacto das ondas que golpeiam as rochas,
arrancando-lhes fragmentos que depois atiram contra elas, desgastando-as ainda
mais. Assim se formam as recortadas arribas costeiras. As ondas e as correntes
costeiras realizam também o transporte dos materiais resultantes do desgaste das
rochas. A sedimentação destes detritos, principalmente areias, que ocorre sobretudo
em zonas mais ou menos abrigadas, «alimenta» as praias.

35
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

d) Águas Subterrâneas
Consideram-se, como tais, correntes, níveis subterrâneos, a água distribuída pela rede
de fracturação de um maciço rochoso ou de forma intersticial pelos solos que
condiciona a sua estabilidade.

Exercem uma série de dissoluções e outras trocas físico-químicas no terreno, que


diminuem as características resistentes deste. Em regiões cársicas o seu progresso
pode causar o aluimento de cavernas, afectando os taludes mais próximos. A
absorção da água de infiltração produz expansão e contracção contínua dos solos, em
períodos alternados de chuva e seca, que faz variar as características resistentes do
terreno.

A água subterrânea pode originar a liquefacção de solos argilosos por aumento da


pressão intersticial devido a trocas bruscas do nível freático. Quando à escorrência por
entre as descontinuidades, aumenta a pressão entre elas, actuando como lubrificante
nos minerais argilosos constituintes do meio.

e) Gelo e Neve
O repetido crescimento e fusão do gelo que se transforma em água intersticial do
terreno e a contida nas descontinuidades produz uma desagregação mecânica na
estrutura deste. Esta traduz-se numa relação de coesão e alargamento das
descontinuidades condicionando o terreno perante a acção de outros factores.

As grandes massas de gelo em movimento, designadas por glaciares, arrastam


fragmentos que arrancam das rochas erodindo o fundo e as paredes do seu Ieito,
formando um vale com um perfil transversal em forma de “U”, denominando-se de
«vale glaciário».

Figura 3.11. Vale glaciário do Zêzere, na serra da Estrela.


Fonte: O Mistério da Vida, 1998

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Acima de certa altitude, a água, em vez de se precipitar para o solo na forma de


chuva, fá-lo na forma de neve, seja qual for a época do ano. O mesmo fenómeno se
passa nas regiões polares onde a temperatura é sempre muito baixa. Nas altas
montanhas a neve cobre a superfície do solo e acumula-se, em massas enormes, nos
«circos». Estes, são as zonas superiores dos glaciares e correspondem a áreas
montanhosas, rodeadas por todos os lados, de paredes escarpadas. A neve dos circos
nunca se derrete. Adquire, desta forma, uma altura e espessura consideráveis,
formando uma massa gelada que desliza num movimento lento e regular, sob a acção
do seu próprio peso, até às zonas de menor inclinação. A esta massa gelada em
movimento chama-se «glaciar».

O gelo que desce a partir do circo forma a chamada língua glaciária, que se comporta
como um verdadeiro rio de gelo. À medida que o glaciar avança, arranca fragmentos e
detritos de rochas, das paredes laterais e do leito, que transporta para longe. A estes
materiais transportados pelo glaciar dá-se o nome de «moreias». Todos estes
materiais, encravados no gelo, contribuem para a acção erosiva dos glaciares, uma
vez que ao roçarem pelas margens e pelo fundo do leito, actuam como plainas
gigantes, desgastando e polindo os leitos. Estes blocos e calhaus, uma vez libertos do
glaciar, apresentam um aspecto polido ou estriado que é prova da sua acção erosiva.

A acção erosiva dos glaciares observa-se após o desaparecimento das massas de


gelo. Tal, principia quando o glaciar atinge regiões mais quentes e o gelo começa a
derreter.

3.2.3. CURVAS DE HJULSTROM

Os fenómenos dos vários processos mecânicos provocados pela água foram


estudados experimentalmente por HJULSTROM (1935), tendo conseguido obter as
curvas que correlacionam a velocidade do fluido com os fenómenos de Erosão,
Transporte e Deposição.

37
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Figura 3.12. Gráfico de HJULSTROM.


Adaptado de RCT, 2001

Segundo HJULSTROM, um grão de areia com 1mm de diâmetro que é deslocado para
velocidades superiores a 30cm/s, mantém-se em movimento entre 30 a 6 cm/s e
deposita-se para velocidades inferiores a 6cm/s; uma partícula com 2 µm é arrancada
para velocidades superiores a 150cm/s e mantém-se em suspensão até que
praticamente a velocidade da corrente se anule; um seixo com 10cm de diâmetro, é
deslocado da posição de repouso para uma corrente com a velocidade de 300cm/s,
movimenta-se entre 300 e 200cm/s e imobiliza-se no leito desde que a velocidade
desça abaixo daqueles valores.

O gráfico está divido em três grandes áreas, Erosão, Transporte e Sedimentação.


Estas áreas são divididas por duas curvas:

Curva 1: Curva da velocidade crítica de erosão, indica aproximadamente a


velocidade necessária para remover e transportar, em suspensão,
partículas de diversas granulometrias. A curva mostra que são necessárias
elevadas velocidades para a remoção tanto de partículas extremamente
finas como de partículas extremamente grosseiras;

Curva 2: Curva de velocidade de queda, curva limite entre o transporte e a


deposição, mostra a velocidade a que partículas, para uma determinada
granulometria se tornam demasiado pesadas para serem transportadas,
depositando-se.

38
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

3.3. EROSÃO EÓLICA


A Erosão Eólica é o processo pelo qual o vento recolhe e transporta o material
superficial solto, ao mesmo tempo que as partículas transportadas desgastam, por
abrasão, as rochas e solos, uma vez que o vento, por si só, não tem capacidade para
desgastar as rochas.

Conforme BERTONI e LOMBARDI NETO (1990) a erosão eólica acontece em áreas


de topografia plana, com poucas chuvas e com vegetação natural escassa com
presença de ventos fortes. Este tipo de erosão torna-se ainda mais sério em regiões
áridas e semi-áridas, podendo ocorrer em outras regiões. Para isto é necessário que o
solo se apresente solto, seco e com granulações finas, superfície lisa e cobertura
vegetal ausente ou quase inexistente e rampas sem obstrução à redução da força do
vento, o qual necessita de energia suficiente para iniciar o movimento das partículas
do solo.

Os principais factores que afectam a erosão eólica são o clima, o solo e a vegetação
(BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990):

• O factor climático compreende precipitação, ventos, temperatura, humidade,


viscosidade e a densidade do ar;

• O solo é factor determinante e considera-se sua textura, estrutura, densidade


das partículas, matéria orgânica presente, humidade e também a rugosidade
da superfície. O mais importante a considerar é a sua humidade, pois, somente
um solo relativamente seco está sujeito a esta forma de erosão;

• A altura e a densidade da vegetação são de fundamental importância para


diminuir a velocidade do vento e evitar a incidência directa sobre o solo.

O tipo de regime do vento também influência bastante os processos erosivos: Ventos


constantes e paralelos à superfície de contacto não produzem grandes efeitos de
erosão, por seu turno, ventos em regime turbulento e de velocidades alternadas
possuem grande poder erosivo.

A erosão eólica compreende três acções fundamentais e interligadas: a deflação, a


corrosão e a acumulação, a saber:

• A deflação consiste na remoção das partículas mais finas e soltas (areias) do


solo. Quando este processo se exerce sobre uma superfície pedregosa,

39
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

formada por fragmentos rochosos soltos, de dimensões muito variadas, o vento


arrasta apenas os mais pequenos deixando ficar os maiores e mais pesados
(cascalho e calhaus). Formam-se então superfícies pedregosas limpas de
material mais fino, «regs» uma espécie de planície de pedras;

• A corrosão é a acção de desgaste e polimento das rochas pelo


bombardeamento com os materiais transportados pelo vento. Como os
sedimentos mais pesados são transportados rentes ao solo, as rochas por eles
atingidas são mais desgastadas na parte de baixo. Daí que se produzam
relevos curiosos conhecidos como «rochas-cogumelos» ou blocos
pedunculados;

Figura 3.13. Exemplo esquemático da formação de uma «rocha-cogumelo» e fotografia de uma.


Fonte: O Mistério da Vida, 1998; Ciências da Terra 7, 1995

• A acumulação consiste na deposição dos materiais transportados pelo vento


quando este encontra algum obstáculo ou perde força. Os sedimentos
acumulados pelo vento formam frequentemente grandes montes de areia
chamados «dunas», vulgares nos litorais e desertos. A parte do deserto
constituída pelas dunas denomina-se «erg».

Figura 3.14. Formação de uma «Duna».


Fonte: O Mistério da Vida, 1998

40
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

As partículas, dependendo do tipo de vento e das suas dimensões são transportadas


por Suspensão (de curta ou longa duração), Saltação ou Arraste Superficial, como
evidencia a figura seguinte.

Suspensão de longa duração


VENTO
Partículas de argila e silte finas

Suspensão de curta duração


Arraste Superficial Saltação

Areia grossa Areia média e fina Remoinhos Grãos de silte


turbulentos médios e grosseiros

Figura 3.15. Principais formas de transporte eólico de sedimentos.


Adaptado de Jimeno, 1999

Como se pode observar, as partículas finas como argilas e siltes (diâmetros inferiores
a 0,2mm) são transportadas em suspensão, as partículas de médias dimensões
(diâmetros inferiores a 0,5mm) como as areias finas são transportadas por saltação e
o arraste ocorre para partículas de areia grossa, maiores e mais pesadas (diâmetros
normalmente compreendidos entre 0,5mm e 2mm).

Para prever a erosão eólica, WOODRUFF e SIDDOWAY (1965) e SKIDMORE e


WILLIAMS (1991), desenvolveram uma técnica semelhante à utilizada por
WISCHMEIER E SMITH (1978) – USLE – para obter as perdas de solo em função de
cinco factores:
WE = f (I, C, K, L, VJ ) [1]

Onde:
WE – perda de solo por acção do vento (t/ha.ano)

I – factor de erodibilidade do solo (t/ha)

C – factor climático (adimensional)

K – factor de rugosidade superifical (adimensional)

L – factor de campo aberto à corrente de ar (m)

V – factor de cobertura vegetal (kg/ha)

41
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A alteração das rochas e os agentes erosivos

A equação permite interacções entre factores pelo que não se pode resolver
multiplicando somente os valores dos factores. As relações entre os factores são
bastante complexas e as previsões podem obter-se utilizando complexos e
complicados monogramas ou equações, especialmente desenvolvidas segundo uma
sequência pré estabelecida.

Factor de erodibilidade “I”


Representa a perda potencial do solo durante um ano, numa parcela nivelada, nua e
seca, idealmente seleccionada em Garden City, Kansas, Estados Unidos da América.
Os seus valores foram determinados por estudos num túnel de vento e podem
estimar-se, conhecendo-se a percentagem de agregados secos estáveis maiores que
0,84mm. Valores indicativos para diferentes tipos de solos, podem ser visualizados na
tabela 3.3.

Factor climático “C”


Este factor é função da velocidade média anual do vento (m/s), obtida a 9m de altura e
do valor da humidade relativa do solo, expressada pelo índice de precipitação efectiva
de Thornthwaite, que por sua vez, é função da precipitação mensal e da temperatura.

Factor de rugosidade superficial “K”


É função da altura das barreiras criadas pelos trabalhos na área e pela distância entre
essas barreiras.

Longitude aberta à corrente de ar “L”


É função do comprimento do campo e da distância a que este se encontra da
protecção de qualquer tipo de árvores, barreiras ou outras edificações.

Factor de cobertura vegetal “V”


Depende da biomassa viva existente, dos resíduos mortos ainda em pé e dos resíduos
estendidos sobre o solo. WOODRUFF e SIDDOWAY (1965) estimaram valores de V
para diferentes cultivos, LYLES e ALLISON (1980) para herbáceas de folha perene.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

Tabela 3.3. Factor de erodibilidade eólica do solo “I”.


Fonte: WOODRUFF e SKIDMORE, 1965

Percentagem de
agregados em Factor “I”
Grupos de erodibilidade Erodibilidade
Solos secos (t/ha)
> 0,84 mm
Areias muito finas, finas e
1 medianas; 1-7 165,7 – 395,3
Areias de dunas. ALTA
Franco - arenoso;
2 10 330,96
Franco - arenoso fino.
Franco - arenoso muito fino;
3 Franco - arenoso fino; 25 214,4
Franco - arenoso.
Argiloso;
Argilo - siltoso;
4 Franco - argiloso não 25 214,4
calcário;
Franco - argilo - siltoso MÉDIA
(>35% de argila).
Franco - siltoso calcário;
Franco - siltoso;
5 Franco - argiloso não 25 214,4
calcário;
Franco - argilo - siltoso
(<35% de argila).
Franco não calcário;
Franco - siltoso (<20% de
6 argila); 40 138,3
Franco - argilo - arenoso;
Argilo - arenoso.
Franco não calcário;
Franco - siltoso (>20% de
7 argila); 45 1186 BAIXA
Franco - argiloso não
calcário (<35% de argila).
Siltoso;
8 Franco - argilo - siltoso não 50 93,8
calcário (<35% de argila).
Solo muito húmido ou
9 rochoso, normalmente não - -
erosível.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

4. OUTROS FACTORES QUE INFLUENCIAM A EROSÃO

A susceptibilidade de uma determinada área, ao desenvolvimento de movimentos dos


taludes, está condicionada pela sua estrutura geológica, a sua litologia, as suas
condições hidrogeológicas e a sua morfologia. Uma variação destes condicionantes,
devido a causas naturais ou devido à acção do homem, pode traduzir-se num
incremento ou numa diminuição do esforço de corte cujo efeito imediato desencadeia
a instabilidade de uma massa de terreno.

Para além das acções da água e do vento, existem outros factores que, não sendo
agentes erosivos, afectam directamente a estabilidade dos taludes e que podem ser
responsáveis pelo desencadeamento de eventuais movimentos nos mesmos. De um
modo geral, estes factores podem agrupar-se da seguinte forma:

4.1. FACTORES NATURAIS

4.1.1. A FORÇA DA GRAVIDADE


A força da gravidade é sem dúvida o motor de todos os agentes erosivos. É a
gravidade que (GALOPIM DE CARVALHO, 1981):

• Faz cair as gotas da chuva;


• Dinamiza a escorrência e a infiltração das águas superficiais;
• Provoca a corrente dos rios os quais transportam os materiais sólidos que
incrementam a erosão;
• Movimenta massas de gelo ao longo dos vales glaciários;
• Faz tombar as nuvens de areia elevadas pelo vento;
• Provoca o recuo da vaga que rebenta no litoral.

Um exemplo das consequências desta força é a reptação (figura 4.1.) ou «creeping»,


(manifestação por fluência), que são movimentos descendentes muito lentos do
material ao longo de um talude pouco inclinado, onde as partículas descem
praticamente grão a grão. A reptação é um processo tão lento que dele apenas se
observam os efeitos nos muros rachados e deslocados, nos postes telegráficos
inclinados, nas árvores encurvadas, etc..

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Figura 4.1 Reptação.


Fonte: Geologia, 1981

Parte dos materiais que descem por gravidade podem permanecer em equilíbrio
instável em troços menos íngremes das vertentes, por períodos mais ou menos
longos, constituindo depósitos de vertente, os quais, muitas vezes, mantêm a reptação
ou alimentam os escorregamentos e as avalanches. Os depósitos acumulados na
base das vertentes ou depósitos de sopé, podem encontrar-se individualizados em
cones de detritos ou formar um talude contínuo ao longo do sopé da vertente.

a b

Figura 4.2. a) Cones de detritos; b) Talude de detritos.


Fonte: Geologia, 1981

4.1.2. RELEVO TOPOGRÁFICO

O relevo topográfico é sem dúvida o factor natural, à parte da gravidade, que mais
influência possui na acção dos agentes erosivos (água e ar). Todos os parâmetros
geométricos de um talude (comprimento, inclinação, a forma geométrica do perfil ou a
estrutura) são condicionantes às acções dos referidos agentes.

Como exemplo disso tem-se a influência que possui a inclinação de um talude à


chuva. Uma superfície plana recebe as gotas de água da chuva que ao desagregarem
o solo salpicam essas partículas aleatoriamente em todas as direcções, enquanto que
numa superfície inclinada, essas partículas são posteriormente arrastadas talude
abaixo, tendendo em aumentar essa percentagem de arrastamento em função da
inclinação do talude.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

A altura do talude também traz consequências nefastas à erosão, pois para as


mesmas condições, quanto maior a altura maior a velocidade da escorrência e
obviamente, maior o caudal de água que chega à base do mesmo.

Na figura seguinte é visível a influência que tem o ângulo da inclinação de um talude


sobre a erosão e sobre a vegetação.

Riscos de erosão graves

Revegetação improvável

Riscos de erosão perigosos

O êxito da revegetação é escasso

Riscos de erosão moderados

Possibilidade de revegetação

Riscos de erosão moderados

Bom êxito de revegetação

Riscos de erosão moderados

Grande êxito de revegetação

Riscos de erosão ligeiros

Mínima influência do talude

Figura 4.3. Influência do ângulo de inclinação de um talude sobre a erosão e a vegetação.


Adaptado de Departamento de Minerais e Energia, Western Australia, 1996

Tal como já foi referido, a própria estrutura do relevo condiciona extraordinariamente a


escorrência da água influenciando desta forma também, os processos de erosão.
POU, A (1988) definiu 10 modelos de taludes (encostas) associados a formas
geométricas planas, côncavas e convexas. Os modelos encontram-se ilustrados na
figura 4.4..

Na figura “1”, onde existe um perfil misto, convexo na parte superior e côncavo na
parte inferior, é possível observar que na parte inferior se regista maior escorrência de
água, pois recolhe a água vinda das partes mais altas.

Nos casos dos taludes com perfil convexo (figuras “2”, “3” e “4”), a inclinação do talude
aumenta progressivamente à medida que se desce, aumentando desta forma a
pretensão de criar erosão hídrica (de acordo com o explicado anteriormente). Com se
pode observar, na figura “2”, as trajectórias dos fluxos de água divergem, diminuindo

46
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A alteração das rochas e os agentes erosivos

desta forma a probabilidade de criar fluxos preferenciais e por sua vez, produzir
erosão. No entanto, à medida que se avança para a situação ilustrada pela figura “4”,
a probabilidade de se obter erosão hídrica é elevada, pois as linhas de água
convergem para uma zona bem definida. Neste caso, a probabilidade de ocorrerem
sulcos e barrancos é elevada.

1 2 3 4 5

6 7 8 9 10

Figura 4.4. Modelos geométricos de dez tipos de taludes e distribuição da escorrência.


Adaptado de Pou, A, 1988

Legenda:

1 Perfil misto: côncavo na base e convexo no topo.


2/3/4 Perfil convexo
5/6/7 Perfil rectilíneo
8 / 9 / 10 Perfil côncavo
Os taludes com perfil rectilíneo (figuras “5”, “6” e “7”), tendem a criar somente um
arraste superficial do solo, de uma forma bastante uniforme. Na figura “7”, apesar de
as linhas de escorrência se concentrarem todas num só ponto, não é preocupante o
risco de erosão criado por taludes com este tipo de geometria porque isso só acontece
praticamente na base do talude.

Por fim, os taludes com perfil côncavo (figuras “8”, “9” e “10”), têm tendência a reter os
materiais arrastados nas partes inferiores dos mesmos, dada a inclinação que os
taludes possuem. Estes tipos de taludes, tendem a possuir zonas de erosão no topo,
geralmente lineares e, à medida que se desce em altura, o processo de erosão é
substituído pelos processos de acumulação e sedimentação.

47
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A alteração das rochas e os agentes erosivos

PERRENS et al., (1984) estudou a influência do perfil de um talude sobre a erosão


hídrica, tendo para tal, estudado taludes de escombreiras e terrenos restaurados de
explorações mineiras, correlacionando os quatro tipos de perfil atrás enunciados com
os processos de erosão e de sedimentação que afectam cada um dos perfis. A figura
seguinte é o espelho da sua investigação.

Figura 4.5. a) Formas típicas de taludes. b) Saldo de materiais Erosão/Sedimentação.


Fonte: Modificado de Perrens et al., 1984

De acordo com o que foi referido, as conclusões mais importantes a reter deste
conjunto de figuras são:

• Os taludes com perfil côncavo são os que produzem menor quantidade de


sedimentos e os que oferecem uma superfície mais estável.

• Os taludes de perfil convexo são os que produzem maior quantidade de


sedimentos e os que se erosionam mais facilmente.

48
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

• Os taludes uniformes, são os que se apresentam num estágio intermédio de


erosão, podendo ser facilmente afectados, no entanto, se ocorrer uma queda
de água torrencial.

• Os taludes mistos, mostram valores elevados de erosão e sedimentação, no


seu topo e na base, respectivamente.

A topografia do terreno (relevo), representado pelo comprimento e a extensão das


vertentes é factor importantíssimo na erosão pois influi no tamanho, quantidade e
velocidade de transporte do material em suspensão, arrastado pelo escoamento
superficial. WISCHMEIER e SMITH (1978) definem o comprimento de rampa como a
distância do ponto de origem do escoamento superficial até o ponto onde o ângulo da
vertente decresce o suficiente para que se inicie a deposição, ou que o escoamento
superficial aflua para um curso de água ou para um canal artificial. Sobre a declividade
os mesmos autores afirmaram que os estudos dos efeitos da pluviosidade sobre a
vertente mostraram que o logaritmo do escoamento superficial das lavouras foi linear e
directamente proporcional à declividade.

BERTONI e LOMBARDI NETO(1990) concluem após citar vários autores, que a perda
de terra é uma função exponencial da declividade. Eles afirmam que, em princípio,
quanto maior for o comprimento de rampa mais escoamento superficial se acumula e
maior é a energia resultante, traduzindo-se numa maior erosão. São contrários ao
cálculo da erosão baseado apenas em dados de declividade, que desconsideram o
comprimento de rampa. Lembram que um terreno com apenas 1% de declividade e
180 m de comprimento de rampa tem a mesma perda de terra que outro terreno de
20% de declividade e 20 m de comprimento de rampa.

Tabela 4.1. Efeito do comprimento de rampa nas perdas de solo.


Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Comprimento Segmentos de 25 m cada


Média
de rampa 1º segmento 2º segmento 3º segmento 4 º segmento
(m) (ton/ha) (ton/ha) (ton/ha) (ton/ha) (ton/ha)
25 13.9 13.9 - - -
50 19.9 13.9 25.9 - -
75 26.2 13.9 25.9 38.8 -
100 32.5 13.9 25.9 38.8 51.4

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Observa-se na tabela anterior, que numa rampa de 50m, os primeiros 25 metros


perdem 13,9 t/ha; os segundos 25 m, 25,9 t/ha, ou seja, quase o dobro; numa rampa
de 75 m, os terceiros 25 m perderam 38,8 t/ha, cerca de três vezes mais que os
primeiros. Numa rampa de 100 m, os últimos 25 m perderam 51,4 t/ha, isto é, quatro
vezes mais que os primeiros 25 m. Conclui-se, assim, o quanto é importante, para o
controlo da erosão, o parcelamento dos taludes, usando, ou o reperfilamento ou a
colocação de vegetação permanente. (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990).

4.1.3. SISMICIDADE E VULCANISMO

Constituem factores desencadeantes de grandes deslocamentos, podendo ocasionar


graves danos. Quando ocorre um sismo, geram-se vibrações que se propagam em
ondas de variadas frequências. As acelerações vertical e horizontal associadas às
ondas originam uma flutuação do estado dos esforços no interior do terreno, afectando
o equilíbrio dos taludes. Assim, pode produzir-se uma perturbação na estrutura inter
granular dos materiais diminuindo a coesão.

Em algumas areias finas saturadas sem drenagem e argilas, o afastamento ou rotação


dos grãos pode ter como resultado uma súbita liquefacção do solo como consequência
do incremento da pressão da água intersticial.

Esta acção sísmica é complexa e origina fenómenos deformacionais que podem ser
do tipo sismo-tectónico ou sismo-gravitacional. O primeiro tipo é a manifestação dos
movimentos que se produzem ao longo da crosta, ao longo das falhas, pregas, fendas,
etc., produzidas por terramotos de intensidade superior a 6,5 na escala de Mercalli. As
características da deformação dependem da natureza dos esforços
independentemente das forças gravitacionais.

Os fenómenos deformacionais do tipo sismo-gravitacional têm uma dinâmica


específica. Os materiais deslocados estendem-se por áreas superiores às afectadas
pelos movimentos devido à gravidade, particularmente se existirem vibrações de
grande duração. Dão origem a grandes deslizamentos, avalanches, desprendimentos
e correntes.

O factor sísmico de maior incidência no movimento dos taludes é a intensidade do


abalo (a partir de 6,5 na escala de Mercalli), e o de menor incidência é a duração. Nas
regiões sismicamente activas, os terramotos são a causa predominante dos
movimentos nos taludes.

50
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Os vulcões em actividade associados a movimentos sísmicos de características


específicas quanto à sua intensidade, frequência, etc., originam modificações das
encostas que formam o cone vulcânico e dos materiais que se encontrem nelas
depositados (gelo, blocos).

O campo de esforços existente nos cones vulcânicos pode modificar-se como


resultado de uma dilatação das câmaras magmáticas, alterações do nível do magma e
abalos harmónicos que se dão continuamente. Estes fenómenos alteram o equilíbrio
dos taludes que rodeiam as crateras produzindo, geralmente, falhas e colapsos.

4.1.4. SUBSIDÊNCIA REGIONAL


Diversos estudos e evidências têm posto em discussão os movimentos que existem na
crosta terrestre de modo a estabelecer um equilíbrio para a mesma. A subsidência é
um reflexo destes movimentos, de certa importância na estabilidade de taludes. Actua
como um factor que condiciona gradualmente a estabilidade dos taludes e
desencadeia movimentos quando associado a fenómenos sismo-tectónicos.

Consideram-se como subsidências regionais os afastamentos verticais que se


produzem ao nível do mar e da terra, em grandes áreas da crosta terrestre. Existem,
também, subsidências relacionadas com grandes acidentes tectónicos e outras que
acompanham os movimentos mais violentos e constituem acções de registo posterior.
Estas têm carácter local.

As subsidências têm uma desigual distribuição espacial e desenvolvem-se de forma


gradual e muito lenta, praticamente imperceptíveis, excepto as que acompanham os
sismos. O efeito que causa é um progressivo aumento do ângulo do talude que
contribui para o aparecimento de alguns deslizamentos. Produz uma troca de esforços
no interior do terreno, alterando as condições de equilíbrio por um aumento do esforço
de corte. É necessário que o talude esteja próximo das condições de equilíbrio limite,
para que este pequeno e lento movimento tenha efeitos consideráveis.

4.1.5. ESTADO TENSIONAL

A estabilidade dos taludes também pode ser avaliada através da sua história tensional
dos maciços rochosos que os constituem. Nunca se deveria efectuar qualquer acção
de alteração morfológica do talude sem antes se determinar o seu estado de tensão
natural existente.

51
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

4.1.6. ACTIVIDADE BIOLÓGICA E COBERTURA VEGETAL

A actividade biológica e a cobertura vegetal não constituem um factor determinante na


estabilidade de taludes, no entanto condicionam de forma notável acção de outros
factores que podem originar movimentos nos taludes.

A cobertura vegetal é a defesa natural de um terreno contra a erosão. O efeito da


vegetação é assim enumerado:

• protecção directa contra o impacto das gotas de chuva;

• dispersão da água, interceptando-a e evaporando-a antes que atinja o solo;

• decomposição das raízes das plantas que, formando canalículos no solo,


aumentam a infiltração da água;

• melhoramento da estrutura do solo pela adição de matéria orgânica,


aumentando a sua capacidade de retenção de água;

• diminuição da velocidade de escoamento superficial pelo aumento do atrito na


superfície.

Quando a gota de chuva cai num terreno coberto com vegetação densa, ela divide-se
em inúmeras gotículas, diminuindo também sua força de impacto. Em terreno
descoberto (tal como referido no sub-capítulo 3.2.), esta gota faz desprender e salpicar
as partículas de solo, que são facilmente transportadas pela água.

A cobertura vegetal através das suas raízes ajuda a manter os taludes estáveis pois
servem de união entre os componentes do solo, aumentando a resistência mecânica
do solo. Contribui, ainda, para a drenagem, absorvendo parte da água contida no
terreno e atenua a degradação superficial do mesmo.

A vegetação actua ainda como uma capa protectora entre a atmosfera e o solo já que
os seus ramos e folhas absorvem grande parte da energia cinética das gotas da chuva
e do vento, diminuindo os seus efeitos erosivos.

Ao decompor-se, a vegetação aumenta o conteúdo de matéria orgânica e de húmus


do solo, melhorando-lhe a porosidade e a capacidade de retenção de água. Na tabela
4.2 percebe-se o efeito da acção de diferentes coberturas vegetais nas perdas de solo
e água pela erosão. (valores obtidos por uma equipa do IAC – Instituto Agrónomo de
Campinas, São Paulo, Brasil).

52
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

A vegetação também desempenha importante papel na diminuição da erosão eólica,


pois reduz a velocidade do vento junto à superfície do solo e absorve a maior parte da
força exercida pelo mesmo. Agregando partículas de solo, a vegetação previne a
formação de nuvens de areia e impede que estas partículas sejam levadas pelo vento.
A vegetação torna-se ainda mais eficiente no combate à erosão eólica quando há
culturas bem fixadas no solo.

Tabela 4.2. Efeito do tipo de uso do solo sobre as perdas por erosão.
(Médias ponderadas para quatro usos de solo no Estado de São Paulo)

Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Perdas de
Tipo de uso Solo Água
(ton/ha) (% da chuva)
Mata 0,004 0,7
Pastagem 0,4 0,7
Cafezal 0,9 1,1
Algodoal 26,6 7,2

Após a análise da tabela anterior, nota-se que as perdas de solo e água aumentam à
medida que a cobertura vegetal diminui. A cobertura vegetal que proporciona a maior
protecção é a mata, cujas perdas de solo são apenas 0,004 t/ha e 0,7% de perdas de
água da chuva. As pastagens mantêm ainda uma pequena perda de solo (0,4 t/ha) e a
mesma quantidade de perdas de água que a mata. A cultura permanente do café,
apresenta perdas de solo de 0,9 t/ha e 1,1% de perdas de água. A cultura temporária
do algodoal, que deixa o solo nu e desprotegido por boa parte do tempo, apresenta
altos valores de perdas de solo (26,6 t/ha) e água (7,2%).

JIMENO (1999), defende também que a eficácia da cobertura vegetal para reduzir a
erosão por impacto das gotas de chuva depende sobretudo da altura e da densidade
da vegetação. Segundo ele, gotas de chuva que caiam de uma altura de 7m podem
chegar ao solo com uma velocidade terminal próxima dos 90%, havendo ainda a
possibilidade de estas se juntarem a outras, aquando da sua queda, aumentando
desta forma de tamanho, tornando-se mais erosivas. A acumulação de água nas
folhas das plantas originam a queda pontual da água, que pode, em alguns casos, ser
responsável pela saturação do terreno nesse ponto e portanto, permitir o aparecimento
de escoamentos.

53
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Por outro lado, segundo o mesmo autor, a cobertura vegetal dissipa a energia da água
em movimento sobre o solo, devido aos «obstáculos» criados à escorrência pelos
troncos e vegetação caída, sendo que coberturas vegetais densas e uniformes se
opõem mais que qualquer outro tipo de formação. A vegetação muito agrupada e até
as gramíneas, por formarem tufos, não são tão eficazes pois permitem o aparecimento
de concentrações de fluxo de escorrência, aumentando desta forma a velocidade da
mesma.

Relativamente à acção do vento, a vegetação reduz a sua velocidade, derivada da sua


superfície rugosa e obrigando a que a superfície aerodinâmica do ar se eleve sobre
estas, o que origina uma quase nula acção do vento junto à superfície.

Terreno sem vegetação Terreno com vegetação

Figura 4.6. Influência da cobertura vegetal na acção do vento.


Adaptado de JIMENO, 1999

Pode definir-se um plano de velocidade do vento nula a uma cota Z0, sobre a
superfície aerodinâmica. Em superfícies lisas e sem cobertura vegetal (figura à
esquerda), essa cota é quase nula, em contrapartida, em locais onde existe vegetação
(figura à direita), essa cota Z0 eleva-se para um plano d+Z0 em que d corresponde a
cerca de 70% da altura das plantas.

Da figura pode-se perceber que apesar de uma vegetação arbórea e arbustiva densas
serem mais efectivas à erosão, uma cobertura do solo com herbáceas tem
praticamente a mesma eficácia e, consegue-se obter muito mais rapidamente o efeito
desejado.

54
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Infelizmente, uma cobertura herbácea, por muito bem conservada e distribuída no


terreno, não consegue garantir uma protecção ao talude com pendentes acima dos
30% (ver figura 4.3).
Os aspectos negativos devem-se ao facto de existirem raízes capazes de desagregar
o terreno e afastar blocos de magnitude considerável, por meio de efeitos mecânicos
através de fendas e fissuras actuando como cunhas. A desflorestação de certos
taludes incide adversamente no regime de água nos estratos superficiais, contribuindo
para a actuação de outros factores destabilizadores.

No que respeita aos agentes erosivos é ainda de realçar a importância da denominada


«erosão biológica». A acção desagregadora das raízes das plantas é particularmente
evidente. Muitas árvores, cujas raízes penetram nas suas fendas, provocam a
fragmentação destas e posterior alargamento das fendas criadas.

Muitos outros seres vivos como certos animais, fungos e bactérias, que vivem em
contacto com as rochas, têm um efeito erosivo: os seres vivos contribuem de diversas
formas para a modelação da paisagem; certas bactérias, fungos e líquenes atacam
quimicamente as rochas.

Figura 4.7. Efeito das raízes.


Fonte: O Mistério da Vida, 1998

4.2. ACTIVIDADE HUMANA


O desenvolvimento dos países inclui um conjunto de acções de modo a criar uma
infra-estrutura que permita o progresso dos mesmos.

Destacam-se os sectores orientados à procura de recursos naturais e aqueles que


permitam os serviços necessários à sua transformação e distribuição. Três dos mais
importantes são a actividade mineira, a agricultura e a construção civil.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

A actividade humana que deriva destes actos constitui uma das causas com maior
incidência no movimento dos taludes. No entanto, estes têm, geralmente,
consequências de menor impacto do que os produzidos por causas naturais.

a) Agricultura
Quanto ao uso e conservação do solo, BERTONI et al. apresentaram em 1972 o efeito
das diferentes densidades de vegetação no processo de erosão das terras com
cultivos anuais. Os dados referentes a esta pesquisa encontram-se na tabela 4.3.. Os
autores agruparam as lavouras em 4 grupos, segundo o grau crescente de protecção
oferecida contra a erosão.

Partindo do grupo que menos protege o solo, o primeiro é constituído pelas culturas de
mamona, feijão e mandioca; no segundo estão agrupadas as culturas de amendoim,
arroz e algodão; o terceiro engloba as culturas de soja e batatinha; o último grupo é
formado pelas culturas de cana-de-açúcar, milho, milho + feijão e batata–doce.

Tabela 4.3. Efeito do tipo de cultura anual sobre as perdas por erosão.
(Média tendo como base: 1.300 mm de chuva anual e declive entre 8,5 e 12,8 %)

Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Perdas de
Grupos Cultura anual Solo Água
(ton/ha) (% da chuva)

Mamona 41,5 12,0


1 Feijão 38,1 11,2
Mandioca 33,9 11,4
Amendoim 26,7 9,2
2 Arroz 25,1 11,2
Algodão 24,8 9,7
Soja 20,1 6,9
3
Batatinha 18,4 6,6
Cana-de-açúcar 12,4 4,2
Milho 12,0 5,2
4
Milho + feijão 10,1 4,6
Batata-doce 6,6 4.2

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

Os autores (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990) concluem que é possível indicar


com segurança a prática de culturas em faixas, baseada na resistência apresentada
em cada grupo de cultivo e afirmam ainda que os sistemas de utilização do solo é que
determinam o grau de erodibilidade dos mesmos.

Dependendo da cultura a ser praticada, é necessário tomar algumas medidas de


precaução para que se controle o efeito erosivo do solo. Por exemplo, numa cultura de
cana-de-açúcar os danos podem ser minimizados preparando o solo e realizando a
plantação em linhas de nível. Porém, como cada cultura requer um tratamento
específico, utiliza-se também a plantação de faixas de cultura com alguns níveis de
vegetação densa ou nativa intercaladas, sendo de grande eficiência contra a erosão
hídrica.

Outra opção, já bastante difundida principalmente para que os nutrientes do solo se


recomponham, é a rotação de culturas. Propicia uma maior cobertura, melhora as
condições físicas do solo e reduz a erosão, desde que esta área em descanso esteja
coberta por uma vegetação rasteira para que a água da chuva não atinja o solo sem
cobertura.

b) Escavações e actividades mineiras a céu aberto


Constituem um dos factores desencadeantes mais comuns, devido à necessidade das
escavações nas obras civis e mineiras. Produzem uma variação do estado de
equilíbrio do terreno, traduzindo-se em subsidências, descalces de potenciais
superfícies de deslizamento, desequilíbrio de massas, entre outros.

c) Actividade mineira subterrânea


A exploração subterrânea dos recursos naturais é uma das causas mais importantes
dos grandes movimentos à superfície. A degradação que sofrem as câmaras e as
galerias das explorações abandonadas podem conduzir a abatimentos das mesmas.
Estes fenómenos podem reflectir-se à superfície do terreno originando subsidências,
mais notáveis quanto menor for a cobertura do terreno sobre as galerias. Como
resultado, produz-se um aumento da diferença de altura dos níveis do terreno e uma
relaxação do mesmo em áreas de tensão que rodeiam a subsidência.

d) Desmontes
Os efeitos imediatos dos desmontes, são característicos da onda que se propaga e
dos gases que se originam. As vibrações produzidas actuam como pequenos sismos.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Podem actuar como desencadeantes dos movimentos, condicionando e diminuindo a


estabilidade dos maciços rochosos. O comportamento do terreno como meio
transmissor depende principalmente: das suas características de resistência à tracção;
da existência de descontinuidades; da percentagem de água; etc.

A onda de compressão origina a abertura de fendas radiais em redor da carga, e a


onda de tracção fragmenta o material.

Como consequência, amplia-se a rede de fracturação pré-existente no terreno, criando


novas superfícies de potencial deslizamento.

e) Sobrecargas
São um factor condicionante dos movimentos que afectam as imediações nas quais se
produz a acção. É o resultado do aumento de peso devido a diversos tipos de
construções sobre o terreno natural.

Também pode aparecer devido ao peso da água infiltrada no terreno, como


consequência de fugas em condutas, canais de escoamento, depósitos de água, etc.

O efeito produzido é, geralmente, um incremento no esforço de corte do terreno e


quando se trata de solos com elevado teor em argila, origina-se um aumento da
pressão intersticial. Alteram-se deste modo, as condições de equilíbrio existentes no
terreno podendo produzir-se movimentos de diferentes tipos.

f) Técnicas de reforço e sustimento


Durante as etapas de projecto de uma qualquer actividade humana (construção civil,
indústria extractiva), deverão ser efectuados estudos e análises de estabilidade dos
terrenos, de modo a dimensionar-se, se necessário, os sistemas necessários para
melhorar a estabilidade dos taludes.

g) Sistema de drenagem
Também este ponto, deverá ser bem estudado nas etapas de projecto de uma
qualquer actividade humana (construção civil, indústria extractiva), pois a estabilidade
dos taludes, como já foi amplamente referido, é dependente em larga escala dos
efeitos do escoamento das águas. Se estas não forem bem encaminhadas, os riscos
de erosão irão aumentar.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

5. ERODIBILIDADE

5.1. DEFINIÇÃO
Erodibilidade é a susceptibilidade ou vulnerabilidade de uma formação edáfica ou
rochosa à erosão e é função das características intrínsecas do solo ou rocha bem
como do relevo e vegetação (JIMENO 1999). A erodibilidade de um solo é
inversamente proporcional à sua resistência à erosão.

A erosividade, como já foi anteriormente referido, depende exclusivamente da chuva e


do vento, sendo portanto independente da erodibilidade, no entanto, só se consegue
quantificar quando existe erosão. Do mesmo modo, os valores relativos da
erodibilidade não são influenciados pelos agentes externos referidos, mas só se
podem medir quando estes ocorrem, provocando erosão.

Pode-se daqui concluir também, que dois terrenos expostos às mesmas condições
climatéricas, o que possui maior erodibilidade, ir-se-á erodir mais.

A avaliação da erodibilidade de um terreno depende de:

1) Características intrínsecas do solo que o compõe

• Textura;
• Estrutura;
• Resistência ao corte;
• Capacidade de infiltração; e
• Composição mineralógica e presença de matéria orgânica

2) Vegetação que se encontra no terreno

3) Práticas do uso do solo sofridas no terreno

Tal como foi explanado no capítulo anterior, a vegetação e a actividade humana não
são agentes erosivos mas possuem a capacidade de afectar a estabilidade dos
taludes, podendo ser benéficos ou prejudiciais, dependendo dos casos.

5.2. SOLO

5.2.1. DEFINIÇÃO
«Se em pleno campo, ao ar livre, se olhar em volta e se tentar uma análise da
paisagem que nesse momento representa o equilíbrio das forças modeladoras da
crosta terrestre, será possível distinguir a separar o céu, com as nuvens, do relevo

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

formado pelo substrato geológico, um manto de cobertura viva constituída


essencialmente pela vegetação. Estabelecendo a ligação e ao mesmo tempo fazendo
a transição entre esse manto vivo e o esqueleto mineral do substrato geológico
encontra-se o solo». (BOTELHO DA COSTA)

Ainda para BOTELHO DA COSTA, o solo representa uma fase relativamente


superficial do vasto processo geológico e é definido como um meio natural para o
desenvolvimento das plantas terrestres, mais ou menos modificado como resultado
das acções do Homem, que dele procura extrair proveito.

LEINZ e AMARAL (1987) consideram solo e terra à rocha totalmente decomposta


pelos vários processos actuantes na erosão geológica, suportando a vida. BERTONI e
LOMBARDI NETO(1990) definem solo como a colecção de corpos naturais ocorrendo
na superfície da terra, contendo matéria viva, suportando ou sendo capaz de suportar
plantas.

Para LEPSCH (1983) solo e terra compreendem o conjunto de corpos tridimensionais


que ocupam a porção superior da crosta terrestre, capazes de suportar plantas,
apresentando atributos internos próprios e características externas (declividade,
pedregosidade, rochosidade) tais que é possível descrevê-los e classificá-los.

Pode ainda definir-se o solo (MINISTÉRIO DO AMBIENTE, 1999) como a camada


superficial da Terra, substrato essencial para a biosfera terrestre, que desempenha
como principal função o suporte e fonte de nutrientes para a vegetação e, como tal,
base de toda a cadeia alimentar. Constituído por minerais, matéria orgânica,
organismos vivos, ar e água, o solo contribui com um sistema complexo e interactivo
na regularização do ciclo hidrológico, nomeadamente através da sua capacidade de
transformação, filtro e tampão. É no solo que se situam os aquíferos que abastecem a
maioria das populações com água potável. Por tudo isto o solo pode ser visto como
"organismo vivo" onde a actividade biológica determina o seu potencial. A estrutura do
solo depende do tratamento que recebe, e a produtividade das culturas agrícolas e
longevidade da sua bio estrutura reflectem a sua adequação.

No solo consideram-se os seguintes componentes essenciais:

Matéria sólida de origem mineral - fragmentos da rocha-mãe, minerais


desagregados e minerais secundários (por alteração, tais como minerais
das argilas, óxidos e hidróxidos de alumínio e ferro, carbonatos, etc.). No
que se refere à dimensão, estes componentes, de forma muito variável,

60
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

vão desde pedras e cascalho, até partículas muito finas, como as argilas
( 0,002 mm), passando pelas areias (2 a 0,02 mm) e pelos siltes ou limos
(0,02 a 0,002 mm). A proporção relativa destas classes dimensionais
confere ao solo aspectos que concorrem para a definição da sua textura;

Matéria orgânica - restos de plantas e outros seres em diversos estádios de


decomposição em resultado, principalmente, da actividade de certos micro
organismos, os quais, como é óbvio, fazem também parte da fracção
orgânica do solo. A matéria orgânica do solo varia consideravelmente
consoante a génese, podendo ser muito abundante - solos orgânicos - ou
muito escassa - solos minerais;

Água - em proporções variáveis, ocupa os espaços intersticiais do solo e


contém sempre diversas substâncias dissolvidas;

Ar - também designado por atmosfera do solo, ocupa os vazios entre os


restantes constituintes.

O solo pode, assim, ser considerado como uma mistura de materiais sólidos,
resultantes da desagregação e modificação dos minerais das rochas, associados a
uma fracção orgânica (morta ou viva), entre os quais existe, em proporções variáveis,
água e ar. O solo pode, pois, ser referido como um sistema anisotrópico no qual
coexistem fases sólidas, líquida e gasosa.

Na espessura do solo podem distinguir-se porções vagamente semelhantes a


camadas, de limites irregulares e difusos, mas geralmente paralelos à superfície do
terreno, denominadas horizontes do solo.

Estes horizontes diferenciam-se em consequência dos agentes atmosféricos e como


resultado, entre outros, de fenómenos de alteração da rocha-mãe e subsequente
mobilidade dos produtos libertados e elaborados. Neste processo, a interferência da
biosfera é determinante e complexa, sobretudo através da vegetação fixada e dos
micro organismos associados. O tipo e o grau de diferenciação dos horizontes do solo
é muito variável e é função do clima, do tipo de rocha-mãe, do relevo e do tempo de
evolução, os quais constituem os factores essenciais da pedogénese.

O diferente comportamento entre os solos e os meios rochosos evidencia-se na sua


definição como sendo um conjunto de partículas sólidas, soltas ou pouco cimentadas,
mais ou menos consolidadas, de natureza mineral ou orgânica, com fluído intersticial a

61
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

preencher os vazios. A sua origem pode ser “in situ”, endógeno ou noutro local
sofrendo transporte “à posteriori”, exógeno.

O comportamento das massas de solo assemelha-se ao de um meio contínuo e


homogéneo. As superfícies de ruptura desenvolvem-se internamente sem seguirem
uma direcção pré-existente.

A dinâmica dos materiais encontra-se directamente relacionada com as propriedades


e características dos seus agregados dependendo destes. Há que considerar:

• Tamanho, forma e grau de esfericidade das partículas mais grosseiras;


• Proporção relativa em areias e argilas;
• Grau de saturação do solo e localização do nível freático.

Estas características conferem ao solo uma resistência intrínseca que constitui o factor
dominante da sua estabilidade. Quando se desenvolvem superfícies de ruptura na
linha de contacto solo/rocha, as características desta linha diferem das gerais do solo.

5.2.2. PROPRIEDADES DOS SOLOS

5.2.2.1. TEXTURA DE UM SOLO

A textura é função da granulometria que se determina mediante análises mecânicas e


cujos resultados são apresentados graficamente numa curva granulométrica
acumulativa. A partir destas análises granulométricas, são estabelecidas
classificações texturais, sendo a mais utilizada a da Sociedade Americana da Ciência
do Solo (United States Department of Agriculture), tal como ilustram as imagens da
figura 5.1.

Os solos com um valor alto de areias finas, médias e grosseiras (0,1 – 2mm) são
pouco erodibilizáveis devido à sua alta permeabilidade.

Por seu lado, os solos com elevadas percentagens de argila tendem a ser bastante
coerentes pelo que resistem melhor à dispersão provocada pelas gotas da chuva;

62
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Tamanho das partículas (mm)


Argila <0.002
0.002 < Silte <0.05
0.05 < Areia < 2.0 Alta

Média

Baixa

Figura 5.1. Diagrama triangular para a determinação da textura com indicação da erodibilidade.
Fonte: Terra, Universo de Vida, 2000; Jimeno, 1998

Os solos menos resistentes à erosão são os siltosos, e os que contêm uma


percentagem elevada de areia muito fina (0,005 – 0,1mm).

Respeitante aos solos pedregosos (presença de elementos grosseiros como gravilha e


pedra: 0,2 – 60cm), estes são menos erodibilzáveis que solos não pedregosos, uma
vez que as pedras protegem a fracção solo dos impactes das gotas da chuva.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

5.2.2.2. ESTRUTURA DE UM SOLO

A estrutura de um solo é a proporção relativa dos diferentes componentes minerais


que o constituem: areia (partículas cujo tamanho está compreendido entre 2 e
0,05mm); silte (ou limo) (entre 0,05 e 0,002mm) e fracção fina (inferior a 0,002mm),
chamada comummente argila ainda que possa conter também outros minerais. (figura
anterior)

A estrutura de um solo é a agrupação ou união das partículas individuais mediante


cimentos tais como argilas, colóides, óxidos de ferro ou microrganismos, para formar
unidades de maior tamanho, designados por agregados.

A estrutura determina a distribuição no espaço da matéria sólida e dos poros, alguns


dos quais estão ocupados por água, enquanto que outros, os de maior diâmetro, estão
ocupados pelo ar. Essa distribuição condiciona as propriedades físicas do solo:
retenção de água, circulação do ar, etc..

O solo não possui necessariamente uma estrutura permanente, podendo vir a


modificar-se por causa do clima, forma de cultivo ou outros factores. A faculdade de
um solo em manter a sua estrutura face a agentes externos é uma medida de
estabilidade dos agregados. Esta estabilidade influi directamente na erodibilidade do
solo e está relacionada com a textura, a quantidade em matéria orgânica e a presença
de catiões bivalentes:

No que diz respeito à textura, solos argilosos são mais agregados, enquanto que
os de textura grosseira apresentam macroporos; solos arenosos são mais
permeáveis e com melhor infiltração, sendo este tipo de solo o que está menos
sujeito a erosão.

No que diz respeito à matéria orgânica, sua incorporação com o solo é bastante
eficaz na redução da erosão. Há o favorecimento no desenvolvimento de micro
organismos do solo e uma melhor penetração das raízes, o que integra as
partículas do solo não permitindo o desagregamento das mesmas.

Os agregados que contêm uma maior quantidade de argila e matéria orgânica e


que ainda predominam os catiões bivalentes (cálcio e magnésio) em detrimento
dos monovalentes (sódio e potássio) são mais estáveis.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Dado que um solo não é um material maciço e massivo, é possível identificar unidades
de tamanho e formas diferentes. Ainda que um solo possua a mesma textura, pode
apresentar estruturas diferentes, como se pode observar na figura seguinte.

A textura, enquanto tamanho das partículas, tem influência nos índices de erosão. Os
solos arenosos possuem partículas e espaços porosos grandes e podem absorver
mais água que solos argilosos porém, sofrem erosão mesmo com escoamento
superficial pequeno porque têm poucas partículas argilosas que actuam como elo de
ligação entre seus constituintes. O solo argiloso tem partículas e poros menores, com
maior coesão entre si, menor infiltração que um solo arenoso mas têm resistência
maior ao escoamento superficial que este (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990).

Tabela 5.1. Tipos e classes de estrutura de solos.


Fonte: Jimeno, 1999

Laminar Prismática Colunar Em Blocos Granular


Tipo de Estrutura
(a) (b) (c) (d) (e)
Muito Fina <1 < 10 < 10 <5 <1
Fina 1–2 10 – 20 10 – 20 5 – 10 1–2
Classe

Média 2–5 20 – 50 20 – 50 10 – 20 2–5


Grosseira 5 – 10 50 – 100 50 – 100 20 – 50 5 – 10
Muito Grosseira > 10 > 100 > 100 > 50 > 10
Nota: Unidade em “mm”

a b c d e
Figura 5.2. Tipos e classes de estrutura de solos.
Fonte: Jimeno, 1999

A estrutura, que é o modo de arranjo das partículas de solo, actua sobre a erosão
considerando-se os aspectos: (a) das propriedades físico-químicas da argila, a qual
faz os agregados permanecerem estáveis em presença da água e (b): as propriedades
biológicas criadas pela abundância de matéria orgânica em estado de activa
decomposição.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

Textura e estrutura determinam juntas os graus de permeabilidade e densidade de


cada tipo de solo, sempre lembrando que o conteúdo de matéria orgânica, a
profundidade do solo e as características do subsolo também exercem efeito nas
perdas por erosão:

A matéria orgânica retém de duas a três vezes o seu peso em água, aumentando
infiltração e diminuindo as perdas por erosão;

A profundidade do solo e as características do subsolo contribuem para a


capacidade de armazenamento da água no solo;

Um solo pouco profundo, mas com subsolo permeável e descompactado, tem


maior capacidade de armazenamento de água do que um solo com subsolo mais
compacto e pouco permeável (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990).

Tabela 5.2. Efeito do tipo de solo nas perdas por erosão.


Médias tendo como base: 1.300 mm de chuva e declives entre 8,5 e 12,8%
Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Perdas de Volume do
Tipo de solo Solo Água escoamento superficial
(ton/ha) (% da chuva) (kg/m3)
Arenoso 21,1 5,7 28,5
Argiloso 16,6 9,6 13,3
Terra roxa 9,5 3,3 22,1

Percebe-se na tabela anterior que os solos terra roxa são os que têm as menores
perdas de solo e água, seguindo-se os argilosos em posição intermediária de perdas
de solo e os arenosos em perdas de água. Finalmente, os solos arenosos perdem a
maior quantidade de solo e os argilosos são os que perdem a maior quantidade de
água. Quanto ao escoamento superficial, nota-se que o solo argiloso gera os menores
volumes de escoamento superficial, seguido do solo terra roxa em posição
intermediária e o solo arenoso é o maior gerador de grandes volumes de escoamento.

5.2.2.3. RESISTÊNCIA AO CORTE DE UM SOLO

A resistência ao corte de um solo é uma medida da sua coesão e da capacidade de


resistir a tensões exercidas pela gravidade, movimento de fluidos e cargas mecânicas.
A resistência ao corte do solo diminui com o aumento do teor de humidade.

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Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

No limite, quando o solo está saturado, a sua resistência ao corte é mínima, permitindo
o desprendimento de partículas por mecanismos combinados de compressão e corte,
provocados pelo impacto das gotas de chuva.

A resistência ao corte de um solo, medida com um penetrómetro de ponta cónica uma


hora após a queda da chuva, é um bom indicador da resistência do solo à erosão por
salpicadura.

5.2.2.4. CAPACIDADE DE INFILTRAÇÃO

BERTONI e LOMBARDI NETO (1990) afirmam que há vários métodos para determinar
a velocidade e a capacidade de infiltração e, que o factor mais importante para este
cálculo é a cobertura vegetal do solo durante a chuva. Solo desprotegido com
ocorrência de chuva intensa ocasiona pequena quantidade de infiltração e grande
escoamento superficial devido à compressão de sua camada superficial pelo impacto
das gotas de chuva. Por outro lado, um solo coberto com vegetação terá melhores
condições de drenagem e de infiltração pois disporá de melhor permeabilidade e maior
velocidade de infiltração.

A capacidade de infiltração ou velocidade máxima estabilizada a que um solo pode


absorver água, depende do tamanho e da estabilidade dos agregados e da forma do
perfil do solo. Quando este se encontra bastante seco, a velocidade de infiltração é
alta, no entanto, diminui com rapidez à medida que chega a água, por meio da chuva.
Como consequência directa, as argilas expandem-se e tapam parcialmente os poros,
até que a velocidade de infiltração estabiliza num determinado valor (baixo),
comummente designado por «velocidade de infiltração estabilizada», sendo possível
ser medida através de um infiltrómetro de anel duplo, cravado no solo a uma
profundidade de 15 - 20cm.

A velocidade de infiltração estabilizada depende sobretudo da textura do solo: solos


arenosos possuem velocidades de infiltração maiores que os argilosos, enquanto que
os solos francos têm valores intermédios entre ambos, como ilustra a tabela seguinte.

Os solos com agregados estáveis mantêm melhor os seus espaços porosos, enquanto
que os solos com argilas expansivas ou com mineralizações instáveis à água tendem
a possuir baixas capacidades de infiltração. Quando a quantidade de água proveniente
da chuva é superior à velocidade de infiltração estabilizada, a água forma charcos em
superfícies planas, e escorre se existirem taludes inclinados.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

Tabela 5.3. Velocidade de infiltração em solos de diferentes texturas.


Fonte: López Jimeno, C., 1999

Velocidade de Infiltração
Textura
(milímetros de altura de água por hora)
Arenosa Mais de 30
Franco – arenosa 20 – 30
Franco 10 – 20
Franco – argilosa 5 – 10
Argilosa Menos de 5

5.2.2.5. COMPONENTES ORGÂNICOS E MINERAIS DE UM SOLO

Os componentes orgânicos e minerais de um solo são importantes pois influenciam de


forma directa a estabilidade dos agregados.

A matéria orgânica proveniente de restos de vegetação e animais mortos que se


encontram sobre o solo mineral, tende a incorpora-se neste. As moléculas complexas
que a constituem suportam, em primeira instância, uma decomposição microbiana que
liberta compostos simples, solúveis. Parte destes compostos sofrem um processo de
mineralização transformando-se em compostos inorgânicos solúveis ou gasosos (ex:
CO), ainda que, no entanto, alguns deles se possam reorganizar durante o processo
de criação do Húmus, criando moléculas novas, cada vez mais complexas.

Relativamente aos componentes minerais, o factor que mais afecta a erodibilidade dos
solos é a proporção de argila facilmente dispersável. Uma elevada proporção de sódio
no solo pode deteriorar rapidamente a estrutura do mesmo ao ser molhado, perdendo
este a sua resistência, seguido de formação de uma crosta superficial e diminuição da
infiltração ao preencher as partículas de argila soltas ao espaço poroso do solo.

O excesso de carbonato de cálcio nas fracções argilosa e siltosa do solo também


conduzem a valores altos de erodibilidade.

O ciclo gelo-degelo provocado pela presença de água também afecta grandemente a


erodibilidade do solo pelo seu efeito sobre a densidade aparente, condutividade
hidráulica, resistência ao corte e estabilidade dos agregados.

A resistência de um solo à erosão eólica depende muito mais do seu teor de humidade
e portanto, da sua textura e presença de matéria orgânica do que da estabilidade dos

68
Mestrado em Georrecursos
A alteração das rochas e os agentes erosivos

agregados, em contraponto com a sua resistência à erosão hídrica onde a humidade é


penalizante.

Quanto maior é a proporção de silte e argila num solo, maior será a sua resistência à
erosão e menor será portanto, a sua erodibilidade, uma vez que pode produzir torrões.
Em contraponto, a areia, por os não conseguir formar, possui elevada erodibilidade.

Se não se levar em conta as condições edáficas do solo, pode-se estabelecer uma


classificação hierarquizada, simplificada, da erodibilidade dos solos face à erosão
hídrica, baseada no Sistema Unificado de Classificação de Solos.

Tabela 5.4. Susceptibilidade à erosão hídrica de diferentes tipos de solos.


Fonte: Gray, D. y Sotir, R., 1996

Símbolo Descrição do solo Erodibilidade


Cascalho bem graduado; Menos
GW Mistura de cascalho e de areia, com poucos finos ou sem
erodíveis
finos.
Cascalho mal graduado;
GP Mistura de cascalho e de areia, com poucos finos ou sem
finos.
Areias bem graduadas;
SW
Areias com cascalho, com poucos finos ou sem finos.
Cascalho siltoso;
GM
Mistura de cascalho, areia e silte
Argilas inorgânicas muito plásticas;
CH
Argilas gordas.
Argilas inorgânicas pouco plásticas ou de plasticidade
mediana;
Argilas com cascalho;
CL
Argilas arenosas
Argilas siltosas;
Argilas magras.
OL Siltes orgânicos e argilas siltosas orgânicas pouco plásticas.
MH Siltes inorgânicos, com mica ou areia fina ou solos siltosos.
Areias argilosas;
SC
Mistura de areia e argila.
Areias siltosas;
SM
Mistura de areia e silte.
Siltes inorgânicos e areias muito finas;
Pó de rocha; Mais
ML
Areias finas siltosas ou argilosas; erodíveis
Siltes argilosos pouco plásticos.

69
70
SEGUNDA PARTE – ESTABILIDADE DE TALUDES

71
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

6. TIPOLOGIA E DESENVOLVIMENTO DOS MOVIMENTOS DE MASSAS

6.1. CLASSIFICAÇÃO DOS MOVIMENTOS DE MASSAS


Movimentos de massas são deslocamentos de terrenos que constituem uma ladeira
ou talude, naturais ou artificiais (escavações ou aterros), na zona exterior do mesmo e
em sentido descendente.

A classificação dos movimentos de massas varia de autor para autor. Neste


documento é apresentada a classificação de COROMINAS, J. e GARCÍA YAGÜE, A.
(1997).

Segundo os mesmos autores, os movimentos podem ser agrupados em cinco


mecanismos principais:

• Desprendimento;

• Desabamento;

• Deslizamento;

• Expansão lateral;

• Fluxo.

No entanto, o colapso de um talude pode ocorrer através de mais do que um


mecanismo, originando mecanismos complexos.

6.2. MOVIMENTOS COM PREDOMÍNIO DA TRAJECTÓRIA VERTICAL


Desprendimentos e Colapsos

Define-se como sendo a massa separada de um talude mediante uma superfície de


corte normalmente pequena e que teve a sua origem, grande parte, através do ar.

Estas instabilidades afectam frequentemente blocos isolados, e também massas


rochosas originando nestes casos movimentos de terreno com resultados
catastróficos. Estes fenómenos podem ter lugar em zonas constituídas
geologicamente por alternâncias sedimentares de estratos resistente e débeis.

Os mecanismos que podem conduzir a estas instabilidades, geralmente sucessivas e


complementares são a meteorização ou remoção do estrato mais brando e
concentração de pressões no bordo (figura 6.1).

72
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Figura 6.1. Formação em consola por remoção do estrato mais brando.


Fonte: Ana Paula Carreira, 2004

A possibilidade de se produzirem estas instabilidades por descalço é condicionada por


uma série de factores tais como: fracturação, ângulos da série estratigráfica, inclinação
do terreno e disposição em relação ao ângulo dos estratos, resistência comparativa
dos estratos mais rígidos, competência relativa dos estratos resistentes em relação
aos menos competentes. A instabilidade de blocos tem origem em vários mecanismos
tais como: a queda, a ruptura da base, o deslizamento dos estratos, etc..

O mecanismo de ruptura prévia com tracção é relativamente raro já que a maioria dos
maciços se encontram fracturadas originando blocos individualizados. Este
mecanismo acontece quando numa série de estratos débeis e competentes se inicia o
descalce do estrato competente supra jacente por acção de meteorização diferencial,
originando uma concentração de tensões no bordo desta.

Se a rocha que constitui o estrato superior for pouco resistente pode dar-se uma
ruptura por flexotracção com queda de blocos. Se o estrato for competente mas estiver
individualizado em blocos devido a fracturação, também ir-se-á dar a queda destes
devido à excentricidade do peso.

A concentração de pressões no bordo do estrato inferior produz um assentamento


diferencial, podendo originar a ruptura em cunha do mesmo, originando-se a queda do
bloco por ruptura do pé.

Os fragmentos originados por este tipo de movimento podem seguir várias trajectórias,
ou seja, podem cair simplesmente, saltar ou rodar dependendo do ângulo do talude.

A velocidade com que se dá o desprendimento deve-se ao tipo de mecanismo que o


produz. Uma vez originada, a fenda de tracção, pode desenvolver-se de forma rápida
originando frisos e saliências.

73
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

a b

Figura 6.2. Mecanismos de desprendimentos (a) e colapsos (b).


Modificada de Corominas e García Yagüe, 1997

6.3. MOVIMENTOS DE ROTAÇÃO DE BLOCOS POR FRACTURAÇÃO VERTICAL


Desabamento

Este tipo de movimento implica uma rotação da unidade de forma colunar ou bloco
sobre uma base (figura 6.3), devido a uma pequena acção da força da gravidade e
forças exercidas por unidades adjacentes ou por intrusão de água nas
descontinuidades.

Figura 6.3. Desabamento de blocos individualizados.


Fonte: Ana Paula Carreira, 2004

Estes movimentos podem culminar noutros, tais como desprendimentos ou


deslizamentos, dependendo das características geométricas dos materiais e segundo
a direcção das suas descontinuidades. O desabamento pode considerar-se exclusivo
de meios rochosos condicionados pela disposição estrutural dos estratos – inclusive
no interior do talude – e um sistema de descontinuidades bem desenvolvido.

Existem três variedades deste tipo de movimento:

Desabamento por flexão: Desenvolve-se através de um pequeno mecanismo


composto por flexões pseudo contínuas do material, individualizando-o em colunas,
devido a uma série de movimentos acumulados ao longo das descontinuidades.
Quando é desencadeado por transmissão de carga no pé do talude o mecanismo

74
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

progride até ao interior do maciço rochoso originando fendas de tracção com


profundidade e altura variáveis;

Desabamento de blocos: É característico de maciços rochosos que têm sistemas de


descontinuidades ortogonais, dando lugar a uma geometria de colunas divididas em
blocos. A pressão dos blocos superiores sobre os inferiores leva à sua deslocação,
que uma vez iniciada se processa até à zona superior do talude. Quando as colunas
menos esbeltas se soltam do talude por acção da carga que produzem levam ao
reinício do processo;

Desabamento misto: Produz-se quando os blocos caem devido a flexões no pé do


talude e também, devido a movimentos relativos em várias unidades. É a junção dos
casos anteriormente descritos.

6.4. MOVIMENTO DE DESLIZAMENTO DE GRANDES BLOCOS


Deslizamentos

São movimentos que se produzem quando é ultrapassada a resistência ao corte do


material e têm lugar ao longo de uma ou várias superfícies ou através de uma fenda
relativamente estreita do material. Estas superfícies de deslizamento são, geralmente,
visíveis ou podem deduzir-se facilmente.

A velocidade com que se desenvolve este tipo de movimento é variável, dependendo


do tipo dos materiais envolvidos. O movimento pode ser progressivo, produzindo-se
inicialmente uma ruptura local, que pode não coincidir com a superfície da ruptura
geral, mas causada pela propagação desta.

A massa solta pode deslizar uma distância variável na superfície original de ruptura,
juntando-se ao terreno natural deixando a superfície de separação bem definida.
Sobre o lado e a superfície onde se produz o movimento originam-se estrias
indicativas da direcção deste.

Dentro deste tipo de mecanismo, distinguem-se ainda deslizamentos rotacionais e


deslizamentos translaccionais.

Deslizamentos Rotacionais

Têm lugar ao longo de uma superfície de deslizamento interna, de forma circular e


côncava. O movimento tem uma natureza mais ou menos rotacional, em redor de um
eixo disposto paralelamente ao talude. A superfície circular da massa que se solta

75
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

daquela em que se produz a ruptura pode ter origem em três pontos distintos do
talude, segundo as características resistentes do material, altura e inclinação do
talude.

Figura 6.4. Deslizamento Rotacional.


Modificada de Corominas y García Yagüe, 1997

As superfícies de ruptura que se produzem são dos seguintes tipos:

Superfície de ruptura do talude – quando a superfície de ruptura corta o


talude acima do pé;

Superfície de ruptura do pé do talude – quando a superfície de ruptura se dá


no pé do talude e a queda de blocos se dá sobre este;

Superfície de ruptura da base do talude – quando a superfície de ruptura


passa por baixo do pé do talude saindo na base deste e afastando-se do pé.

Na superfície do terreno podem aparecer fendas concêntricas e côncavas com a


direcção do movimento tendo a parte alta a forma de escarpa tanto mais acentuada
quanto maior for o deslocamento da massa deslizada.

A velocidade destes movimentos varia de lenta a moderada, tendo grande influência a


inclinação da superfície de ruptura no pé do deslizamento. Se o perfil da massa
deslizada tiver uma inclinação semelhante à do talude, obtém-se uma melhoria no
equilíbrio da instabilidade, diminuindo o momento indutor e podendo mesmo chegar-se
a evitar o deslizamento.

Deslizamentos Translacionais

Neste tipo de deslizamento a massa afasta-se para o lado de fora e inferior do talude,
ao longo de uma superfície mais ou menos plana ou suavemente ondulada, com
pequenos movimentos de rotação. Normalmente o movimento da massa deslizada faz
com que esta fique na superfície original do terreno.

76
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Os deslizamentos translacionais são controlados pelas descontinuidades –


estratificação, falhas, diaclases, xistosidade – que influenciam a resistência ao corte
entre os estratos de diferentes naturezas, diferente grau de meteorização, diferentes
tipos de terreno, etc. Geralmente desenvolvem-se nos maciços rochosos com
descontinuidades bem definidas.
Estes deslizamentos têm tendência a progredir indefinidamente, sempre que a
inclinação da superfície de deslizamento seja suficientemente grande e a resistência
ao corte inferior à das forças destabilizadoras.

Existem deslizamentos translacionais de tamanhos variados, formados pela


intersecção de duas descontinuidades ou superfícies de debilidade. Se ambas as
superfícies se inclinam em diferentes sentidos, denominam-se cunhas directas
(deslizamento discordante). No caso da inclinação ter o mesmo sentido denominam-se
de cunhas inversas (deslizamento concordante).

a b

Figura 6.5. Deslizamentos: a) Discordante; b) Concordante.


Adaptado de Corominas y García Yagüe, 1997

6.5. MOVIMENTO COM EXTRUSÃO PLÁSTICA LATERAL


Estes movimentos não são frequentes, aparecendo apenas em zonas onde ocorrem
determinadas características geológicas complexas. Podem aparecer em maciços
rochosos com diferentes competências, ou sobre materiais com as características dos
solos.

O movimento consiste numa extensão lateral controlada por superfícies de corte e/ou
fracturas de tensão. O mecanismo de ruptura pode ser complexo, podendo
compreender formas de translação, rotação, fluidificação e liquefacção do material.
Quando estes mecanismos se produzem em meios rochosos desenvolvem-se
lentamente, pelo contrário quando se desenvolvem em materiais do tipo solo são
rápidos ou muito rápidos.

77
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Este tipo de movimento divide-se em dois tipos:


• Movimentos que compreendem uma extensão sem que se reconheça ou exista
uma superfície plana de corte ou se produza um fluxo plástico. São próprios de
cristas modeladas em meios rochosos estratificados;

• Movimento que podem compreender uma extensão e fracturação do material


mais competente (rocha ou solo), devido a uma liquefacção ou fluidez plástica
do material subjacente. Simultaneamente nos materiais superiores produzem-
se fenómenos de subsidência, translação, rotação e também liquefacção e
fluidificação, dependendo da natureza intrínseca do material.

a b

Figura 6.6. Extensões Laterais: a) Fluência e extrusão do material subjacente; b) Expansão e


liquefacção.
Modificada de Corominas e García Yagüe, 1997

6.6. MOVIMENTO COMPLEXOS


São o resultado da combinação de mais do que um dos diferentes tipos descritos
anteriormente. Também são assim considerados aqueles movimentos que apresentam
diferentes estados durante o seu desenvolvimento. Pode-se incluir a combinação
múltipla de um mesmo tipo de ruptura e também os movimentos em que a distribuição
interna das velocidades com que a massa desliza, pode ou não assemelhar-se a um
fluxo viscoso.

Consequentemente as diferentes velocidades com que se produzem estes


movimentos, assim como a sua distribuição espacial, estão condicionadas pelos tipos
de movimentos que compõem a ruptura.

6.7. OUTROS MOVIMENTOS


Neste grupo estão incluídas as deformações sem ruptura ou antes da ruptura e os
movimentos desorganizados ou revoltos.

78
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Deformações sem ruptura ou antes da ruptura

São os mecanismos de ruptura progressiva que dão lugar à deformação e abertura de


gretas no talude, normalmente na zona de cabeceira, sem que a superfície de corte se
desenvolva completamente e produza a ruptura geral do terreno afectado:

Rupturas Confinadas – Certas vezes, as deformações no talude não


degeneram em desprendimentos da massa movida, nem em superfícies de ruptura
contínuas em todo o conjunto. Costumam possuir pequenas extensões ainda que os
grandes movimentos possam atingir vários metros. Estas deformações podem
acelerar-se até à ruptura, rectroactivar-se periodicamente ou paralisar.

Reptação por fluência – São deslizamentos muito lentos, no início mas vão
progressivamente acelerando até atingir a ruptura.

Descabeçamento – Ocorre em formações rochosas intensamente fracturadas.


Os metros mais superficiais por estarem descomprimidos ou alterados, tendem a rodar
até abaixo, definindo uma superfície de deslizamento potencial.

Dobramentos – Os níveis rochosos superiores que repousam sobre os


materiais mais brandos, que se estreitam até ao pé do talude, na zona do vale, podem
dobrar abrindo fissuras nos mesmos.

Deformações gravitacionais profundas – Consistem na formação no terreno de


escarpas com um alinhamento sensivelmente paralelo às curvas de nível do talude, e
colapsando da zona da crista. Na base podem identificar-se abatimentos ainda que
menos claros que os da crista.

Descabeçamento Deformação gravitacional profunda


Figura 6.7. Deformação sem ruptura.
Modificada de Corominas y García Yagüe, 1997

Movimentos de massas desorganizadas ou revoltas

Os Fluxos são movimentos especialmente contínuos em que as superfícies de corte


se encontram muito próximas e geralmente não se conservam. A massa movida não

79
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

mantém a forma no seu movimento descendente aquando do desabamento,


adoptando frequentemente em materiais coesivos formas lobuladas ao colapsar-se
pelo talude ou, quando inclui materiais grosseiros formando cones de dejecção.

Escoadas de Terra – É a deformação plástica de terra ou rochas brandas em


taludes de inclinação moderada. Costumam criar depósitos alongados, formando um
volume positivo sobre a superfície original do terreno.

Correntes de desmoronamentos – São movimentos rápidos de material


detrítico em que predomina a fracção grosseira, ou seja, areias, gravilhas e blocos.
Dada a falta de coesão dos seus componentes, espalham-se na parte inferior dos
taludes sem gerar um depósito com uma forma específica ou acumulam-se formando
cones de dejecção.

Golpes de areia e silte – Movimentação brusca destes materiais, às vezes em


estado seco, devido a um colapso estrutural por efeito de um tremor sísmico ou ao
iniciar-se a ruptura do solo por deslizamento.

Avalanchas – Movimentação de grandes massas de terra e fragmentos de


rocha, que se deslocam a grande velocidade e que podem chegar à liquefacção, pelo
aparecimento de água ou por efeito da inclinação do talude, ultrapassando
invariavelmente o pé do mesmo.

(a) Reptação (b) Escoada de terra (c) Corrente de desmoronamentos

(d) Golpe de areia (e) Avalancha


Figura 6.8. Movimentos de massas desorganizadas ou revoltas.
Adaptado de Corominas y García Yagüe, 1997

80
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

6.8. CORRENTES
São assim denominados certos movimentos produzidos em materiais rochosos, caso
menos frequente, e em materiais do tipo solo, que constituem as correntes em sentido
estrito.

Têm lugar em rochas de maciços estratificados, com disposição favorável ao


desenvolvimento de dobras. Podem ser consideradas como correntes de rocha
intacta.

Nas correntes de materiais do tipo solo, existe uma série de factores que tendem a
diversificar-se ou a originar subtipos. Assim, a granulometria do material e a
quantidade de água presente são os factores mais determinantes para o desenrolar
deste tipo de processo. Os mecanismos são o resultado de uma deformação contínua
de pequenos esforços imperceptíveis, que implicam uma distribuição de velocidades
variável de, extremamente lenta a muito rápida.

a) Correntes em Rocha

São pouco frequentes e próprias dos maciços rochosos pouco competentes, que
apresentam uma estratificação bem definida e se encontram afectados por
dobramentos ou outras manifestações de comportamento plástico. Incluem
deformações que se distribuem entre as fracturas grandes ou pequenas e até mesmo
as microfracturas sem aparente conexão entre si. Não existe uma concentração de
deslocações contínua sobre uma superfície definida por unidades relativamente
intactas. Estes movimentos são geralmente muitos lentos e relativamente estáveis,
afectando zonas superficiais ou pouco profundas.

b) Correntes em Solos

São assim denominadas pois possuem comportamento semelhante a um fluido


viscoso. As superfícies de deslizamento não se encontram definidas, sendo normal
produzirem-se, num mesmo fenómeno inúmeras superfícies de deslizamento em vez
de uma só.

O limite entre a massa que se move e a que permanece “in situ” pode ser marcado por
uma estreita faixa, em que se produzem movimentos diferenciais ou com uma
diferente distribuição de resistência ao corte. A velocidade com que se desenvolvem
pode ser muito rápida, embora existam casos em que é extremamente lenta. Neste
tipo de correntes existe uma série de características gerais tais como: grandes

81
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

deslocamentos da massa que se move e efeito fluidificante da água como parte


integrante do processo.

Existe uma classificação de correntes em solos tendo em conta a sua granulometria,


quantidade de água, mobilidade e carácter do movimento. De seguida descrevem-se
alguns dos tipos mais significativos:

• Arrastamento (Creep): constituem deformações contínuas, geralmente


superficiais e extremamente lentas que podem aparecer acompanhando outros
tipos de movimentos dos materiais subjacentes.

• Correntes de escombros ou escorrimentos (debris flow): característico de


materiais com grande percentagem de fragmentos grosseiros. A massa que
desliza vai-se dividindo em pequenas partes com movimentos lentos. Quando
o movimento é rápido e progressivo, denomina-se de avalanche.

• Correntes de lama (mud flow): tem origem em materiais com pelo menos
cinquenta por cento de fracção fina e teor em água suficiente para permitir o
fluxo.

7. RISCO, FACTOR DE SEGURANÇA E INCERTEZA

7.1. INTRODUÇÃO
Nas principais causas dos deslizamentos de taludes figuram circunstâncias que
possuem íntima relação com o clima e a qualidade do ambiente, tais como a
desmatação e desflorestação. Por outro lado, os processos de revegatação dos
taludes constituem, cada vez mais, formas de estabilização dos mesmos, garantindo
em simultâneo a sua recuperação paisagística. LUTTON (1970), após estudar 91
locais de deslizamentos de taludes, destacou a influência do tipo de terreno e do clima
como determinantes da respectiva estabilidade, através de uma correlação entre as
inclinações e as alturas dos taludes, figura da página seguinte.

82
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Figura 7.1. Variação da estabilidade de taludes com o clima e a litologia.


Fonte: Lutton, 1970 – in XVI Lição Manuel Rocha, 1999

Legenda
1 - Taludes em xisto brando, para climas temperados
2 - Taludes em xisto natural, para climas subtropicais
3 - Taludes em rocha quartzítica, para climas temperados
4 - Taludes em rocha porfírica, para climas semiáridos
5 - Taludes em rocha sã, para climas húmidos
6 - Taludes em rocha sã, para climas secos

7.2. RISCO

7.2.1. DEFINIÇÃO
A caracterização geotécnica constitui o procedimento básico para analisar os
movimentos dos taludes e, os dados da caracterização geotécnica proporcionam as
pautas para determinar os tipos específicos de movimentos numa dada etapa do
tempo e para um tipo de material específico. Os casos reais, no entanto, poderão ser
mais complexos do que os estabelecidos empiricamente uma vez que nestes podem
afectar vários materiais e vários topologias de movimentos.

83
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

No entanto, esta aproximação, que examina o comportamento do talude do ponto


geomecânico, é bastante útil para avaliar o risco associado com o movimento dos
taludes.

A matriz de risco, tal como os mapas de risco de uma área são parte integrante da
análise de risco; é necessário por isso enquadrar o conceito de risco geotécnico,
vulnerabilidade susceptibilidade e ainda a análise de risco, para definir uma matriz de
risco e os mapas de aplicação dos graus de risco à área em questão.

a) Risco Geotécnico

O risco é a combinação da probabilidade de ocorrência de um evento com as suas


consequências físicas, económicas e sociais (CLAYTON C.R.I, 2001). A equação que
identifica o risco é:

R =P×D [2]

onde:
R= risco;
P = probabilidade para que o evento adverso se torne real;
D = dano que o evento adverso considerado vai criar, se acontecer.
Segundo VARNES (1984), o Risco Total está definido pelo conjunto de danos
resultantes da ocorrência de um fenómeno, podendo quantificar-se a partir da seguinte
expressão:

RT = ∑ (H × R i × Vi ) [3]

Onde:
Rt = risco total;
H = probabilidade de ocorrência do fenómeno numa dada área e num período de tempo;
Ri = elementos em risco, potencialmente danificados pelo sistema (≥1)
Vi = vulnerabilidade de cada elemento, representado por um grau de dano
[Sem perda (0) ; Perda total (1)]
O risco geotécnico é, assim, associado ao valor esperado dos danos que ocorrem em
estruturas, edifícios e pessoas devidos a causas naturais ou por interferência humana.

Para se poder realizar uma análise de riscos correcta é necessário, primeiramente,


definir os perigos a que estão sujeitos os grupos mencionados no último parágrafo.
Desta forma, WHITMAN (1984) elaborou um ábaco onde relaciona a probabilidade
anual de ruptura de diferentes projectos de engenharia e as consequências das

84
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

mesmas. Na figura 7.2. é possível observar que o autor definiu níveis de risco
aceitáveis e marginalmente aceitáveis.

FINLAY e FELL (1997) afirmam que para se poder aplicar este ábaco, no caso dos
taludes, é necessário formar uma equipa pluridisciplinar, para além dos engenheiros
(geotécnicos), pois existem implicações sociais, económicas, ambientais, políticas e
mesmo legais dos «utilizadores» destes taludes.

Figura 7.2. Níveis de risco em diferentes projectos de engenharia.


Modificada de Whitman, 1984

Quando se fala de taludes, o risco frequente que se considera é a sua ruptura,


principalmente porque este risco está intimamente ligado a perdas de vidas humanas.

ASTÉ (1991) dividiu os elementos de risco em Individuais, Propriedades e Bens,


Actividades e Funções Sociais, podendo estes sofrer as consequências de um
fenómeno de forma directa ou de fenómenos indirectos. Por exemplo, a destruição de
uma casa por um deslizamento de um talude é uma consequência directa enquanto
que a inundação de uma população devido à subida do nível das águas de um rio por
ter ocorrido um deslizamento de um talude, é uma consequência indirecta.

85
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Os principais factores que se devem tomar em consideração porque constituem


possíveis causas de danos nos taludes são:
• A elevada inclinação;

• O grau de alteração da superfície do talude;

• O nível de pluviosidade;

• As condições das fendas e das descontinuidades.

Um só destes factores ou a combinação entre eles pode ocasionar danos nos taludes
que variam de danos leves até danos que provocam o colapso, com possível
envolvimento de estruturas próximas dos mesmos.

b) Vulnerabilidade e Susceptibilidade

Estritamente relacionado com o risco estão os conceitos de vulnerabilidade e de


susceptibilidade de uma área, sendo estes o conjunto de factores que determinam a
magnitude dos danos que um evento adverso pode criar. Independentemente do facto
de uma área ser perigosa em relação a um determinado evento adverso, a
vulnerabilidade depende de muitos outros factores como a presença de sistemas de
monitorização, de aviso imediato, bem como a qualidade e a idade das construções
presentes. Em taludes próximos à linha férrea, entre os factores que reduzem a
vulnerabilidade pode-se incluir a monitorização periódica das condições do maciço, da
pluviosidade e o controlo da circulação na linha férrea, (GAMA, 1999).

A noção de susceptibilidade de uma dada região é inerente à predisposição da mesma


para determinados tipos de catástrofes naturais, frutos da conjugação de causas
geológicas, climatéricas e outras conducentes a uma maior frequência e/ou magnitude
desses fenómenos, (GAMA, 1999).

c) Análise de Risco

A análise de risco estuda assim os diferentes perigos que podem tornar-se reais numa
área e indica como operar para minimizá-los, optimizando a investigação e
monitorização necessárias. Prever a ocorrência de um evento geotécnico adverso
como a instabilidade de um talude é parte da análise de risco. A qualidade da previsão
depende sobretudo da monitorização dos eventos precursores desse fenómeno.

Os eventos precursores são pequenas variações físicas que antecedem o fenómeno


adverso. No caso dos taludes, um elemento precursor é o aparecimento de novas
fendas no maciço e progressivo alargamento das bermas antes do colapso. A

86
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

monitorização pode-se fazer com a instalação de grupos de marcos topográficos e


referências instaladas nos dois lados de cada fractura e efectuando medições
periódicas dos afastamentos das marcas.

Pelo que foi referido, todos estes aspectos deverão ser considerados na análise dos
riscos, tendo sempre como ponto fulcral as consequências dos movimentos. Uma
matriz de risco de tipo qualitativo, utilizada com sucesso em estudos de deslizamentos
de taludes, é apresentada na tabela 7.1.. A matriz contém diferentes níveis de risco
em função das duas variáveis (probabilidade e consequência ou dano).

Os níveis indicados podem ser assumidos como de tipo qualitativo, sendo necessário
um estudo detalhado das probabilidades de ocorrência de deslizamentos nos taludes
da área em estudo e dos custos que podem provocar para obter uma matriz de risco
mais detalhada pois, apesar de funcionar como boa aproximação, ao se definir a
composição das matrizes qualitativas de risco em seis níveis de probabilidade de
ocorrência, através de designações específicas para o risco e cinco tipos de
consequências físicas e económicas, resulta um conjunto de 30 adjectivos, com
diversas repetições de termos e, consequentemente, prestando-se a confusões de
interpretação.

Tabela 7.1. Exemplo de matriz qualitativa de risco.


Fonte: Australian Geomechanics Society, 2000

Consequências (ou danos) físicas e económicas do evento


Probabilidade
1.Desastrosas 2.Altas 3.Médias 4.Baixas 5.Insignificantes
Elevada Muito Alto Muito Alto Alto Médio Médio
Provável Muito Alto Alto Alto Médio Médio
Possível Alto Alto Médio Médio Baixo
Improvável Alto Médio Médio Baixo Baixo
Rara Médio Médio Baixo Baixo Muito Baixo
Muito rara Médio Baixo Baixo Muito Baixo Muito Baixo

7.2.2. MATRIZ DE RISCO GEOTÉCNICO

Para o estabelecimento de uma matriz de risco compatível com as características e as


soluções pretendidas para o problema em análise, foram ponderados os seguintes
factores:

a) A natureza dispersa (em termos geográficos) dos taludes cuja estabilidade


deve ser permanentemente objecto de quantificação;

87
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

b) A multiplicidade de variáveis que afectam a probabilidade de instabilização


de cada talude;

c) O interesse em incorporar de modo permanente o fenómeno natural que


desencadeia mais frequentemente as instabilizações de taludes, ou seja, a
pluviosidade que afecta a região do estudo;

d) A necessidade de definir uma matriz de risco por meio de um parâmetro de


interpretação simples e directa, acessível a todos os utilizadores.

Veja-se na figura 7.3. uma matriz formulada para uma ferrovia13, com 4 níveis de risco,
definidas para certos intervalos da probabilidade de instabilização dos taludes, e tendo
correspondentes implicações para o tráfego ferroviário.

As cores assinaladas correspondem às simbologias definidas para os níveis de risco


geotécnico e que se relacionam com a segurança do tráfego ferroviário, sendo objecto
de representação gráfica sobre mapas da linha férrea que assinalam a localização dos
sectores (mapas de risco geotécnico).

Em termos de circulação das composições rodoviárias, os diferentes níveis de risco


teriam as seguintes consequências:

Nível 1 – Via Livre

Nível 2 – Afrouxamento para 30 a 60 km/h

Nível 3 – Afrouxamento para 10 km/h

Nível 4 – Afrouxamento para 10 km/h e um funcionário de prevenção no local

NÍVEL DE 1 2 3 4
RISCO Sectores com Sectores com
Sectores com Sectores com
risco de risco de
risco de risco de
colapso colapso muito
colapso baixo colapso alto
PARÂMETROS médio alto
Probabilidade de
0 – 50 % 51 – 80 % 81 – 95 % 96 – 100 %
instabilização
Implicações para o
NENHUMAS ATENÇÃO PRECAUÇÃO PERIGO
tráfego ferroviário
Figura 7.3. Matriz de risco geotécnico.
Fonte: CEGEO, 2005

13
Matriz de Risco Geotécnico utilizada no Projecto “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na ferrovia, incluindo
telegestão”, (Centro de Geotecnia do IST,2005)

88
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

7.2.3. MAPA DE RISCO GEOTÉCNICO

Um mapa de risco resulta da aplicação de uma classificação de risco a uma dada área
geográfica: é possível atribuir a cada ponto da área em estudo um valor compreendido
na escala de risco, obtendo assim um modelo de variação espacial do risco em toda a
área sobre a qual os eventos perigosos têm probabilidade de acontecer.

Num mapa de risco serão reconhecíveis os taludes com maior tendência para a
instabilização e, consequentemente, ficam assinaladas as áreas mais críticas onde
será possível intervir aplicando medidas de mitigação.

Os mapas de risco poderão ainda ser dinâmicos se os conjugar com a análise inicial
com os novos elementos obtidos da monitorização dos taludes e das áreas adjacentes
a este (linha férrea, no caso em estudo). Desta forma os Mapas de Risco poderão ser
facilmente recalculados e redesenhados, sendo assim mapas de tipo dinâmico
(podem-se prever repetições dos cálculos a cada ano hidrológico, por exemplo).

HANEBERG (2000) refere a necessidade e a importância da utilização de métodos


probabilísticos para a identificação de potenciais zonas de risco de escorregamento de
taludes em detrimento dos métodos baseados em modelos matemáticos
determinísticos exactamente devido à variabilidade e incerteza dos diversos
parâmetros envolvidos: geotécnicos, hidrológicos, geológicos, climáticos, que intervêm
na estabilidade dos taludes principalmente quando as análises abrangem grandes
áreas (Figura 7.4.).

SCAVIA e COCCOLO (2000), utilizam a mesma metodologia na previsão da


estabilidade de taludes determinando as probabilidades de ruptura em função da
variação da distribuição do factor de segurança.

Figura 7.4. Mapa de probabilidade de escorregamentos numa área a sudeste de Wheeling, EUA.
Fonte: Haneberg, W., 2000

89
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

WILSON, R. & JAYKO, A. (1997) relacionam também a precipitação (quantidade e


intensidade) com a previsão de escorrências, criando mapas de risco consoante a
duração dos episódios de chuva.

Estes autores consideram a duração das chuvas um parâmetro importante na previsão


de escorregamentos que venham a ocorrer em situações idênticas ou outras mais
gravosas de maior duração. As áreas com diferente probabilidade de escorregamento
associadas aos factores climáticos que os influenciam, ajudam a fornecer uma
imagem espacial das zonas de potencial escorregamento bem como dos eventuais
danos.

GRIFFITHS e COLLISON (2004) estudam a possibilidade da utilização de um modelo


hidrológico de um talude criado com base no Sistema de Informação Geográfica para
a previsão de futuros escorregamentos de taludes em função da variação da
precipitação e da temperatura. O modelo em questão foi calibrado para as condições
climatéricas de Inglaterra (clima temperado húmido) e para a região do Sudeste de
Espanha (considerada pelos autores como tendo clima temperado sub húmido).

7.3. PROBABILIDADE E INCERTEZA, FACTOR DE SEGURANÇA


Os taludes e encostas constituídos por maciços rochosos, por apresentarem os
maiores riscos de instabilização e consequentemente produzirem os efeitos mais
gravosos, abrangem normalmente maiores volumes de terrenos e, por isso, envolvem
maiores energias cinéticas associadas a estes deslizamentos. Contudo, é sabido que
muitos maciços rochosos, numa primeira fase, considerados sãos, vão sofrendo
diferentes graus de alteração ao longo do tempo, passando então a apresentar
comportamentos mistos de solos e rochas (DINIZ DA GAMA, 2005).

O deslizamento de grandes massas (tal como já foi referido anteriormente) é o


resultado de modificações das tensões de corte actuantes, ou porque se verificou um
acréscimo desta no talude (em resultado da remoção do suporte lateral ou da base, de
acções de sobrecarga, de acções dinâmicas ou do aumento de pressões laterais), ou
porque se verificou uma redução da resistência ao corte do material (fruto de
alterações na composição e textura do material, por efeito de reacções químicas, ou
por efeitos de aumento da pressão intersticial nos poros, sobretudo no caso dos
solos).

90
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

O factor de segurança ao deslizamento é então normalmente determinado pelo


quociente entre a resistência ao corte do material e as tensões de corte instaladas na
superfície potencial de deslizamento.

A determinação deste factor de segurança depende pois, de parâmetros topográficos,


geológicos, hidrogeológicos, geotécnicos, climáticos e outros externos que possam
induzir alterações nas tensões de corte tais como acções desenvolvidas pelo homem:
escavações, construções, desmatação, etc..

Desta forma, em Engenharia de Taludes, podem apontar-se os seguintes tipos de


variabilidade e incerteza na sua caracterização geológica e geomecânica:

Variabilidades:

• Natureza geológica, resultantes da composição heterogénea dos solos e


rochas que dão origem a propriedades mecânicas afectadas por anisotropias,
anelasticidades, efeitos de descontinuidades, etc;

• Provenientes de erros de observação, devidos a deficiências do próprio


observador, dos instrumentos utilizados na medição, do meio ambiente onde é
efectuada a avaliação e até devidos às perturbações causadas no objecto
observado pelo sistema de medida;

• Resultantes de erros de amostragem, onde se destacam a escolha imprópria


do tamanho da amostra e a sua representatividade, a eficiência do processo de
amostragem escolhido.

Incertezas:

• Ocorrência de cargas inesperadas ou imprevistas durante a vida útil do talude;

• Ignorância do comportamento real do talude;

• Imperfeição das observações e medidas de dados necessários ao projecto;

• Simplificações ou aproximações empregues nos métodos de análise de


instabilidade.

A probabilidade de ocorrência de deslizamentos nos taludes pode-se classificar


qualitativamente de acordo com o indicado na tabela 7.2.: existem seis descritores ou
níveis, cada um definido com base num intervalo de probabilidade aproximada anual
que o deslizamento tem para se tornar real. Tratam-se de valores estimados por uma

91
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Comissão Técnica da Sociedade Australiana de Geomecânica (AGS)14, que produziu


um relatório intitulado “Gestão de riscos de escorregamentos de taludes”15, que
originalmente pretendia organizar a nomenclatura com que se deveriam designar os
níveis de risco e as respectivas ordens de grandeza.

Tabela 7.2. Níveis qualitativos da probabilidade de ocorrência de deslizamentos de taludes.


Fonte: Australian Geomechanics Society, 2000

Probabilidade
Nível Descritor Descrição do evento
anual aproximada

A Quase Certo Esperado P≥10-1

B Provável Provável 10-2≤P<10-1

C Possível Possível, em circunstâncias adversas 10-3≤P<10-2

D Improvável Possível, em circunstâncias muito adversas 10-4≤P<10-3

E Raro Concebível, em circunstâncias excepcionais 10-5≤P<10-4

F Muito raro Quase inconcebível P<10-5

Como pode ser observado, o processo qualitativo apresenta inconvenientes de três


ordens:
• Subjectividade na definição e aquisição dos dados necessários;

• Precariedade na sua análise e interpretação;

• Ambiguidade nos resultados.

A maior dificuldade para efectuar uma análise de risco é a incerteza. Segundo


MORGENSTEN (1995) existem as diferentes fontes de incerteza:

• Incerteza dos parâmetros;

• Incerteza do modelo;

• Incerteza humana.

14
Australian Geomechanics Society
Sociedade Australiana de Geomecânica
15
“Landslide risk management concepts and guidelines”

92
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Se se considerar que não existe incerteza humana ou do modelo por ser totalmente
representativo do problema considerado então, a incerteza é somente derivada dos
parâmetros. Neste caso, a incerteza pode dividir-se em:

• Incerteza que depende da variação espacial dos parâmetros característicos


dos materiais e dos factores de predisposição. Esta incerteza depende,
obviamente, da qualidade e extensão da investigação efectuada;

• Incerteza que depende da variação temporal dos factores desencadeantes e


agravantes. É essencialmente devida a essas variações que se produz a
ruptura ou a alteração na velocidade do movimento. Assim, quando se
desencadeia um deslizamento (ou um deslizamento activo alcança
determinada velocidade), intervêm diversos factores (por exemplo o nível
piezométrico da água ou a erosão do talude) em que a probabilidade de
ocorrência, é a soma das probabilidades de que esses factores alcancem um
determinado nível, mais a probabilidade dos factores que se combinam para
produzir o mesmo fenómeno.

Para definir o perigo associado aos parâmetros incertos, pode-se aplicar um modelo
probabilístico a uma solução determinística. No caso da ruptura de um talude, o
modelo pode basear-se no Equilíbrio Limite, supondo-se que a ruptura ocorre quando
o Factor de Segurança é inferior a 1,0.

A visualização do que foi explanado nos parágrafos anteriores é o que se mostra na


figura seguinte (figura 7.5.): Pode-se obter um Factor de Segurança (FS) elevado
(1,79) mas em que o nível de incerteza dos parâmetros de cálculo é alto; e o inverso,
um FS reduzido mas com uma maior certeza dos parâmetros característicos do
maciço em estudo.

No que se refere à incerteza dos modelos, percebe-se facilmente que os processos


são geralmente mais complexos do que se supõe (influência da estrutura e
anisotropia, efeitos das alterações das tensões, rupturas progressivas, etc.) e como
tal, não estão totalmente representados nos modelos de cálculo existentes.

Relativamente à incerteza humana, MORGENSTEN (1995) comenta que esta é óbvia,


mas difícil de levar em conta. Reliability

93
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Figura 7.5. Factores de Segurança e Probabilidade de Ruptura de um talude.


Adaptado de JIMENO 1999

BAECHER & CHRISTIAN, no seu recente livro de texto intitulado “Confiança e


estatística em engenharia geotécnica”16(JOHN WILEY, 2003) afirmam que os métodos
probabilísticos de análise da estabilidade de taludes promovem adequadamente a
modelização de cenários que incorporam a incerteza e a variabilidade inerentes a
estes fenómenos.

Entre os métodos mais utilizados citam os seguintes:


• Método de Monte Carlo;

• Método FOSM (“First Order Second Moment”),ou seja, média e desvio padrão.

Ambos têm a vantagem de trabalhar sobre factores de segurança que é suposto


caracterizarem adequadamente a estabilidade de taludes e há muito tempo estão
implantados na Geotecnia e nos hábitos dos engenheiros. Os diferentes modos de
tratar a variabilidade dos factores de segurança (resultantes da incerteza inerente a
certas variáveis intervenientes no cálculo, designadamente aquelas relacionadas com
a resistência ao corte dos terrenos) dão origem às duas abordagens diferentes.

Com efeito, enquanto a técnica de Monte Carlo promove o cálculo de um elevado


número de factores de segurança, a partir de simulações com números aleatórios,
submetendo-os no final a uma análise estatística que conduz à determinação da

16
“Reliability and Statistics in Geotechnical Engineering”

94
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

probabilidade de instabilização dos taludes, o método FOSM visa o cálculo da


integridade do talude (“slope reliability”), Sr, a partir da seguinte expressão:

FS − 1
Sr = [4]
σ FS

onde FS representa o valor médio do factor de segurança e σ FS o respectivo desvio

padrão.

Para os objectivos da presente investigação preferiu-se a primeira opção, por conduzir


a uma grandeza cuja variação é perfeitamente definida entre 0 e 100%, prestando-se
assim à sua utilização imediata na definição de níveis de risco.

Assim sendo, para interpretar as propriedades geotécnicas dos terrenos resultantes de


determinações “in situ” ou em laboratório (e até após estudos de retroanálise), é
essencial reconhecer a sua variabilidade e proceder a análises estatísticas dos dados,
através das suas distribuições de frequências simples (ver figura 7.6.). Em seguida,
passa-se à determinação das respectivas curvas acumuladas, que traduzem
probabilidades associadas a cada valor, logicamente compreendidas entre 0 e 1.

Ficam assim criadas condições para aplicar o método de Monte Carlo, que exige a
geração de números aleatórios (entre 0 e 1), uma ou mais funções de distribuição de
probabilidade acumulada e as equações de equilíbrio limite para calcular o factor de
segurança FS, que envolve as variáveis aleatórias prédefinidas e também incluem as

F.D.P.
F.D.P.

ANG. DE ATRITO φ ALT. DE ÁGUA HW

grandezas consideradas como causas dos deslizamentos.

Figura 7.6. Funções de distribuição de probabilidade (FDP) simples do ângulo de atrito e do nível
piezométrico.
Fonte: Dinis da Gama, 1984

95
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Nessas circunstâncias, aplicando programas computacionais onde se geram números


aleatórios, efectuam-se numerosas simulações (por exemplo 10.000 de cada vez) e
obtém-se a probabilidade de colapso PC do talude, pela relação:

Nº de Vezes em que o FS é < 1


PC = [5]
Nº total de simulações

Segundo BERTONI e LOMBARDI NETO (1990), para evitar a erosão, é imprescindível


eliminar o desprendimento das partículas do solo causado pelas gotas de chuva que
golpeiam o terreno. Citam a importância da determinação da energia cinética da chuva
natural e demonstram a fórmula:

EC = 12,14 + 8,88 × log I [6]

Onde:
I = intensidade da chuva em mm/h.
EC = energia cinética medida em t-m/ha-mm
A energia cinética é uma função da massa e da velocidade. Considere-se que uma
gota de chuva ao desprender-se de uma nuvem fica sujeita à aceleração da gravidade
e, por isto, quanto maior a altura da queda maior será sua energia cinética. As gotas
são deformáveis e sofrem mudanças no trajecto tanto na forma quanto na velocidade
devido ao atrito com o ar e à sua pressão. Por esta razão, existe uma velocidade
máxima ou terminal conseguida quando a resistência oposta à queda é igual ao peso
do corpo menos a impulsão do ar para cima (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990).

Deve-se determinar a distância que a gota percorre na sua queda até alcançar sua
velocidade terminal. BERTONI (1967) cita que uma gota de chuva que cai de uma
árvore não diminui a sua velocidade de queda até chegar ao solo, pois atinge
novamente a sua velocidade terminal. Além disso, esta gota une-se a outras gotas
aumentando o seu tamanho e resultando numa velocidade final maior ao cair de
árvores de 7 a 8 m de altura do que quando cai livremente. Por conseguinte, o
aumento da massa e da velocidade desta gota faz com que ela tenha energia cinética
maior ao tocar o solo do que as gotas que caem livremente.

WISCHMEIER E SMITH (1978) citam que quando os outros factores são constantes,
excepto o factor chuva, a perda de solo por unidade de área de um solo cultivado é
directamente proporcional à energia cinética e à intensidade máxima da chuva em 30

96
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

minutos. Este é o factor R = E.I30 da equação USLE, sendo E = energia cinética,


I = intensidade da chuva; e 30 = os trinta minutos de chuva.

A =R×K ×L×S×C×P [7]

Onde:

A – perda de solo arável, por ano

R – factores de erosividade da chuva na região

K – factores de erodibilidade do terreno em causa

L – factor topográfico do comprimento dos taludes

S – factor topográfico da declividade dos taludes

C – factor de gestão adequada das colheitas

P – factor relativo às práticas de conservação

Esta equação pode ser adaptada ao estudo de taludes em geotecnia, tendo ZHU, M.
et all (1994) redefinindo os parâmetros C e P para:

C – factor correspondente ao tipo de cobertura do solo

P – factor das práticas de manutenção adoptadas para qualquer infraestrutura de


protecção do talude

Esta utilização da USLE é efectuada de acordo com a noção de que para uma
determinada área, quando for possível estimar a lei de probabilidade de R, pode ser
estimada a probabilidade da perda de solo se os outros factores se mantiverem dentro
de intervalos de valores conhecidos. Isto é, se K, L, S, C e P puderem ser tratados
como parâmetros conhecidos para uma dada área, a distribuição de probabilidade da
perda de solo dependerá só da variável aleatória R.

Esta abordagem probabilística foi desenvolvida com o intuito de determinar as


melhores utilizações dos solos de acordo com a lei de variação climática que tinha
sido estabelecida por Wischmeier e Smith, após análise de cerca de 25 anos de
registos pluviométricos de 180 estações localizadas nos EUA.

É possível dividir as variáveis intervenientes em dois grupos distintos: aquelas cujo


aumento conduz a incrementos da probabilidade de deslizamento dos taludes
(designadas por variáveis instabilizadoras) e outras cujo aumento tem o feito oposto
(variáveis estabilizadoras). A correspondente representação gráfica está transposta na
Figura 7.7.

97
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Pode inferir-se desta forma e em consonância com o que se tem vindo a afirmar que,
são determinantes os efeitos da acção das águas pluviais, quer no que respeita à
erosão ravinosa devida ao escoamento superficial nos materiais superficiais dos
taludes (designados por escorrimentos ou “debris flows”), quer pela alteração e
desagregação dos materiais argilosos; quer pela erosão interna devida à circulação de
águas subterrâneas; quer ainda pela saturação dos terrenos e consequente subida
dos níveis freáticos, provocando diminuição notável da sua resistência ao corte. No
último caso, os mecanismos de instabilização podem ocorrer através de deslizamentos
planares ou circulares dos taludes.

Variação da Probabilidade de Instabilização com as principais Variáveis


100

90
Probabilidade de Instabilização(%)

80

70

60

50

40

30

20

10

0
α L H γ NF n i φ C KMV K

Figura 7.7. Variação típica da probabilidade de instabilização dos taludes com as seguintes
variáveis: α (inclinação do talude), L (comprimento de infiltração no topo do talude, H (altura do
talude), γ (peso volúmico do terreno, NF (altura do nível freático), n (porosidade do terreno), i (taxa
de infiltração face à precipitação), φ (ângulo de atrito), c (coesão), KMV(coeficiente de protecção do
talude), K (condutividade hidráulica).
Fonte: CEGEO, 2005

Assim, como nestes deslizamentos de massa se verifica a instabilização de grandes


volumes e, as superfícies de deslizamento mais prováveis variam em profundidade, de
acordo com a variação do nível freático, estes mecanismos são estudados atendendo
sobretudo aos valores de precipitação acumulada.

A instabilização, que como se referiu anteriormente é aferida pela perda de solo (A), é
também potenciada pelo aumento da quantidade de água nos terrenos e pode por
isso, assumir um carácter mais gravoso em invernos especialmente chuvosos. A sua
dependência da precipitação (intensidade e duração, R) é tipicamente representada
por curvas semelhantes às da figura seguinte.

98
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Figura 7.8. Variações da perda de material (A) em função da precipitação (R).


Fonte: CEGEO, 2005

Existem estudos que relacionam níveis críticos da precipitação acumulada, “P” (em
mm) durante determinados períodos de tempo “t” (h), que conduzem a
escorregamentos. Ortigao e Sayao (2004) estabeleceram uma lei de variação que
representa as condições mínimas que desencadeiam estes acidentes (figura 7.9.), e
que foi elaborada com base em vários escorregamentos observados em de 14 regiões
distintas. A lei é regida pela seguinte equação:

P = 22,4 × t 0,41 [8]

Figura 7.9. Níveis críticos da precipitação acumulada (em mm) durante determinados períodos de
tempo (h).
Fonte: Ortigao e Sayao, 2004

99
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

7.4. CUSTO ASSOCIADO À ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES


A intervenção dos factores naturais em estudos de estabilidade de maciços terrosos e
rochosos é, cada vez mais divulgada. A nível de projecto, esta tendência possui
características que se coadunam com as abordagens probabilísticas da estabilidade,
uma vez que tais factores são do tipo estocástico. Com efeito, para a determinação do
conceito de inclinação óptima de um talude através da minimização do custo
generalizado de obtenção do talude, (COATES, 1981) definiu a seguinte equação:

Cg = C0 + Pc × (D + R ) [9]

Onde C0 é o custo de escavação ou construção do talude, Pc é a respectiva


probabilidade de colapso, D é o custo dos danos resultantes do deslizamento e R os
custos da respectiva reconstrução. Como todas as grandezas dependem da inclinação
do talude, a sua variação típica é a que se indica na figura seguinte (7.10.), revelando
que a minimização do custo generalizado aponta para a inclinação óptima do talude
em causa.

Como pode ser observado, um talude pouco inclinado possui uma probabilidade de
colapso baixa, não evidenciando desta forma custos por danos resultantes de
deslizamentos ou de reconstrução, mas apresenta um custo de construção do mesmo
elevado. À medida que o talude se torna mais inclinado, os custos de construção
diminuem mas a probabilidade de colapso aumenta. O ângulo óptimo de inclinação do
talude é aquele que minimiza o custo de construção do talude e simultaneamente,
possui uma probabilidade de colapso associada aos custos de deslizamento e
reconstrução mínima (ponto de inflexão da curva de probabilidade).

Figura 7.10. Custo generalizado do talude e determinação da sua inclinação óptima.


Fonte: COATES, 1981; in XVI Lição Manuel Rocha, GAMA 1999

100
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

JIMENO (1999) explica que quando uma equipa técnica se depara com um talude
possuidor de uma estabilidade precária, podem optar por diversas opções:

• Não fazer nada ao talude;

• Não realizar trabalhos no talude em si, mas instalar sistemas de protecção para
evitar danos e melhorar a segurança das pessoas;

• Melhorar o talude até um nível satisfatório de redução de risco.

O mesmo autor elucida ainda que ao analisar acções de beneficência de uma dada
situação com o fim de reduzir os perigos e seus riscos associados, estas devem ser
examinadas como função dos custos, para se poder obter uma análise custo benefício
(como ilustra a figura em baixo indicada) e consequentemente, obter aquelas que
melhor se apresentam.

Figura 7.11. Análise dos custos de intervenção para a redução do perigo ou probabilidade de
ocorrência.
Adaptado de JIMENO, 1999

Exemplos da aplicação desta filosofia foram apresentados por vários autores, entre os
quais GAMA (1995), verificando-se tendência para ser apresentados em explorações
mineiras a céu aberto (figura 7.12) e taludes de vias de comunicação (MENDONÇA e
CARDOSO, 1998), integrando técnicas de revegetação e revelando grande sentido de
integração de soluções para este problema (figura 7.13).

101
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Figura 7.12. Estabilização dos taludes finais da pedreira de marga da SECIL, SA – Maceira.
Fonte: CECIL; in XVI Lição Manuel Rocha, GAMA 1999.

Estabilização de Taludes

Barreiras dinâmicas

Figura 7.13. Aplicação de técnicas de estabilização de taludes de estradas com revegetação.


Fonte: Mendonça e Cardoso; in XVI Lição Manuel Rocha, GAMA 1999

A AGS, no mesmo relatório atrás referido, incidiu ainda sobre as consequências de


tipo económico inerentes a propriedades de valor conhecido C. Na tabela 7.3 é
mostrada a classificação em cinco níveis, sendo os custos dos danos expressos em
percentagem do valor das estruturas envolvidas no colapso, incluindo também os seus
custos de recuperação e colocação em serviço.

102
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Tabela 7.3. Níveis qualitativos das consequências de tipo económico sobre uma propriedade
de valor C.
Fonte: Australian Geomechanics Society, 2000

Nível Descritor Descrição Custo aproximado


Estrutura completamente destruída ou
danificada em grande parte, exigindo
1 Desastroso ≥100% de C
importantes intervenções para a sua
estabilização
Estrutura parcialmente destruída,
2 Alto requerendo significativos trabalhos 10%≤C<100%
de estabilização e reconstrução
Danos moderados em algumas estruturas;
3 Médio sendo necessárias intervenções 1%≤C<10%
limitadas
Danos limitados só a algumas partes das
4 Baixo estruturas, sendo necessárias 0.1%≤C<1%
ligeiras obras de estabilização
5 Insignificante Danos pequenos 0.01%≤C<0.1%

8. MÉTODOS DE ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES

8.1. INTRODUÇÃO
Tanto em obras civis como em explorações mineiras a céu aberto, é necessário
realizar trabalhos de modo a conseguir estabilizar os taludes de materiais soltos
procedentes da erosão e desagregação do maciço rochoso.

A tabela seguinte (tabela 8.1.) tenta dar uma ideia dos vários métodos para estabilizar
taludes de solos bem como, os campos de aplicação e as suas limitações, permitindo
desta forma, definir qual o melhor método a aplicar, em cada caso.

103
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Tabela 8.1. Métodos de estabilização de taludes em solos (Holtz y Schuster, 1996).


Fonte: Jimeno, 1999

Categoria Actuação Aplicação Limitações Observações


Nenhuma em fase de Estudos detalhados das
Alterar a localização da planificação. Custos novas propostas para
Alternativa simples
obra elevados após a obra assegurar o
executada melhoramento da obra
Escavação de pequenas Esta actuação pode ser
Evitar o problema Deve ser feita uma
Remoção de materiais quantidades de material onerosa. A evitar em
análise prévia da
instáveis a pequena profundidade deslizamentos de
situação
em solos pobres dimensões elevadas
Além dos custos que Realizar estudos prévios
Em zonas de colina com
acarreta, pode não ter de carga para assegurar
Instalação de pontes movimentos de terras em
efeitos práticos uma boa estabilidade da
níveis superficiais
desejados obra
Alterar a linha do Durante o desenho Afecta a secção das vias
-
pendente preliminar do projecto na zona de remodelação
Medida correctiva que
Em qualquer desenho afecta somente o A instalação da
Drenagens superficiais como medidas escoamento superficial e vegetação é fundamental
correctivas ajuda a diminuir a para esta medida
infiltração desta água
É preciso ter em
Em qualquer talude onde
Reduzir as forças consideração a pressão
se incremente a Não é efectiva quando a
destabilizadoras intersticial provocada
Drenagens profundas estabilidade reduzindo a massa deslizante é
pela infiltração aquando
quantidade de água insensível à drenagem
da análise de
subterrânea
estabilidade
São necessários Requer análise de
Em qualquer fenómeno materiais leves que estabilidade para saber
Reduzir o peso potencial ou real de podem ser onerosos, qual o peso máximo que
deslizamento pode ser necessário se pode colocar sobre o
realizar expropriações terreno

104
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Categoria Actuação Aplicação Limitações Observações


Podem ocorrer
Deve levar-se em conta a
Num deslizamento problemas de
Incremento dos necessidade de bermas,
Contrafortes ou muros existente, em combinação assentamentos. Pode
momentos em função das
com outros métodos ser necessário realizar
resistentes expropriações
expropriações
aplicando forças
Requer que o solo tenha Devem ser efectuados
externas Onde se está limitado pelo
Instalação de ancoragens resistência às forças de estudos das
direito de expropriação
corte das ancoragens propriedades dos solos
Em qualquer deslizamento
onde o nível freático se Requer pessoal
Drenagens profundas -
encontra por cima da sua especializado
superfície
Devem ser calculados os
Em diques e ladeiras onde É preciso ter em conta a
esforços que os
Muros de terra armada se necessita reconstruir durabilidade dos
elementos resistentes
após um deslizamento materiais a longo prazo
vão estar submetidos
É preciso ter em conta a Devem ser efectuados
Estruturas temporárias em
Instalação de reforços in situ durabilidade dos estudos das
solos resistentes
materiais a longo prazo propriedades dos solos
Incremento da
Em taludes de altura Climáticas, pode ser
resistência Bioengenharia -
moderada necessário efectuar rega
interna
Quando a superfície de Ensaios laboratoriais
deslizamento está bem Pode ser reversível, entre o solo e o
Tratamento químico definida e o solo reage impactes ambientais tratamento; requer
positivamente a esta ainda desconhecidos Estudo de Impacte
solução Ambiental
Só é utilizado como
Baixa a pressão intersticial
Requer energia eléctrica medida de emergência,
Tratamento eléctrico e incrementa a resistência
constante onde nenhum método
ao corte dos solos
funcionou
Para reduzir a sensibilidade Processo bastante Método ainda muito
Tratamento térmico
das argilas à água oneroso experimental e oneroso

105
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

8.2. ESTABILIZAÇÃO POR MODIFICAÇÃO DA GEOMETRIA DO TALUDE

8.2.1. INTRODUÇÃO
Quando um talude é instável ou a sua estabilidade é precária, uma forma de actuar é
modificando a sua geometria de modo a obter uma configuração estável. Esta
modificação tem como objectivo um dos seguintes efeitos:

• Diminuir as forças que tendem ao movimento da massa;

• Aumentar a resistência ao corte dos terrenos através do aumento das tensões


normais em zonas convenientes da superfície de ruptura.

O primeiro ponto consegue-se reduzindo o volume da parte superior do deslizamento,


e o segundo, aumentando o volume no pé do talude.

As formas de actuar sobre a geometria do talude para melhorar a sua estabilidade,


são as seguintes:

• Eliminar a massa instável ou potencialmente instável. Só se aplica em casos


extremos e com comprovação de que a nova configuração será estável.

• Descabeçamento.

• Construção de blocos de terra ou enrocamento.

• Construção de bermas intermédias.

8.2.2. DESCABEÇAMENTO

Consiste na eliminação do material da parte superior da massa potencialmente


deslizante. É nesta zona que o peso do material mais contribui ao deslizamento e
menos à resistência, devido a ser na parte superior do deslizamento que esta tem a
sua máxima inclinação. Por isso, a eliminação de relativamente escassa quantidade
de material produz aumentos importantes do factor de segurança.

Este método de correcção de taludes é efectivo e aplica-se fundamentalmente quando


a escavação não apresenta dificuldades sérias que podem dever-se tanto às
características do material como à acessibilidade à zona de escavação.

8.2.3. ENROCAMENTO NA BASE DO TALUDE

A aplicação no pé do talude de blocos de terra ou enrocamento pode realizar-se em


combinação com o descabeçamento do talude ou como medida independente.

106
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

No primeiro caso e dependendo das características do material, pode empregar-se


para o enrocamento o mesmo tipo de material da cabeça do talude, o que diminui o
custo da operação. O peso do bloco colocado no pé do talude traduz um aumento das
tensões normais na parte inferior da superfície de deslizamento, o que aumenta a sua
resistência. Este aumento depende do ângulo de atrito interno da parte inferior da
superfície de deslizamento, se for elevado o deslizamento pode produzir-se no pé
sendo mais vantajoso construir o bloco em cima do pé.

Bloco do
enrocamento

Figura 8.1. Enrocamento na base do talude.

Podem-se estabilizar grandes massas deslizantes através de pesos relativamente


pequenos de blocos. Se o ângulo de atrito interno for baixo, o deslizamento pode dar-
se pela base, sendo também possível colocar enchimento em frente ao pé do talude.

Em qualquer caso o peso próprio do bloco supõe um aumento do momento


estabilizador em relação à ruptura. Quando a linha de ruptura se vê forçada a
atravessar o enchimento, este tem um comportamento de elemento resistente
propriamente dito.

É importante que a base do enchimento seja drenada, pois caso contrário o efeito
estabilizador pode ser diminuído, especialmente, se o enchimento se apoiar sobre
materiais argilosos. Pode ser necessário colocar um material com funções de filtro (por
exemplo membranas geotexteis), entre o enchimento drenante e o material do talude.

O enchimento drenante, normalmente o enrocamento, deve ser colocado a alguma


distância da frente do movimento, distância esta que depende da sua velocidade. Ao
situar-se em frente ao deslizamento sobre o enchimento, a sua acção drenante detém
o movimento.

Outra medida efectiva é estender o enchimento protector com base drenante sobre a
superfície do talude argiloso. O estado tensional do material situado por baixo do
enchimento melhora consideravelmente.

O enchimento deve projectar-se como uma berma estável por si mesma.

107
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Os blocos de terra e enchimentos constroem-se frequentemente com enrocamento


devido ao seu alto atrito interno, que permite taludes muito inclinados, diminuindo a
quantidade de material utilizado e que devido à sua grande permeabilidade, garante o
efeito drenante necessário, sendo este efeito imprescindível na parte inferior do
enchimento ou bloco. Por outro lado a grande resistência ao deslizamento por parte do
enrocamento aumenta a segurança do talude.

No caso de falta de espaço no pé do talude é frequente suster o enchimento com um


muro.

8.2.4. BERMAS

A disposição das bermas intermédias num talude é uma medida que pode ser decidida
antes da construção do talude, durante a fase de projecto, medidas estas que se
adoptam frequentemente em taludes naturais ou construídos, quando se prevêem
deslizamentos ou quando estes se começam a produzir.

As bermas no solo produzem um efeito benéfico na estabilidade geral do talude, sendo


a sua aplicação aconselhável também por outros motivos, tais como: facilitam o
processo construtivo e as operações de manutenção do talude; retêm a queda de
fragmentos de rocha indesejáveis em todos os casos; permitem a colocação de valas
de drenagem para evacuar as águas de escorrência; diminuem o seu efeito erosivo; e
promovem o aumento das pressões intersticiais.

No caso de taludes mineiros, as bermas são estritamente necessárias à exploração.


Uma largura normal de talude empregue em grandes minas a céu aberto ronda os
20m. A altura das bancadas pode oscilar, para rocha, entre 10 e 15m. A presença de
bermas em taludes mineiros dá origem nos dois tipos de taludes básicos a analisar: os
taludes de bancada e o talude global ou de corta. O ângulo do talude de bancada varia
entre 75º e 90º e o do talude de corta entre 10º e 50º.

As bermas podem utilizar-se em taludes de rocha, especialmente se esta é facilmente


meteorizada e quando é importante evitar as quedas de fragmentos de rocha, tal como
no caso de taludes junto a vias de transporte.

O dimensionamento da altura e do ângulo do degrau é feita em função de um duplo


conceito: altura e ângulo do degrau próximo de 90º.

A estabilidade geral de um talude com bermas é muito superior à de um talude


contínuo de igual altura e com ângulo igual ao do degrau.

108
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A estabilidade de taludes

Na altura de tomar a decisão sobre o tipo de talude, contínuo ou com bermas, de igual
ângulo geral, deve ter-se em conta que este último diminui os efeitos de
desprendimentos de rocha e permite a evacuação das águas superficiais, além de
outras considerações de tipo construtivo.

Berma

Figura 8.2. Criação de Bermas.

8.2.5. REPERFILAMENTO DO TALUDE

O reperfilamento ou retaludamento do talude é um dos métodos mais utilizados, por


ser bastante económico, sendo geralmente a primeira opção considerada aquando da
necessidade de estabilização de um talude.

Figura 8.3. Reperfilamento do talude.


Fonte: Dinis da Gama, 1994

109
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A estabilidade de taludes

8.3. ESTABILIZAÇÃO POR DRENAGEM

8.3.1. GENERALIDADES
A correcção de taludes através de medidas de drenagem tem como objectivo reduzir
as pressões intersticiais que actuam sobre a potencial ou existente superfície de
deslizamento, o que aumenta a sua resistência, e diminui o peso total e
consequentemente as forças destabilizadoras.

Tendem-se a adoptar as medidas de drenagem quando num talude já existente se


apresentam sinais evidentes de instabilidade. A detecção de um talude instável
encontra-se associada a certos movimentos da massa deslizante o que leva a uma
redução das propriedades resistentes do material.

A inclusão de medidas de drenagem no projecto do talude e a sua aplicação desde o


início da construção permite obter o máximo de benefício pois mantém-se intacta a
resistência do terreno.

As drenagens podem ser bastante eficazes no que se refere à estabilização de um


talude no entanto, é difícil saber quais os efeitos que promovem no maciço, a longo
prazo, uma vez que na maioria dos casos, não se costuma monitorizar esse efeito. Na
figura 8.4 estão representados vários tipos de drenagem bem como as funções que
desempenham.

Estas, podem ser resumidas a:

• Controlo do movimento da água superficial;

• Redução da pressão intersticial em profundidade;

• Controlo da influência da água infiltrada no comportamento hidráulico


subterrâneo do talude.

110
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Figura 8.4. Diferentes tipos de drenagem e funções que desempenham.


Fonte: Bromhead, 1992

Existem dois tipos de medidas de drenagem, os quais são normalmente aplicados em


conjunto:

• Drenagem superficial: tem como função a recolha das águas superficiais e,


também, das águas recolhidas através de drenagens em profundidade e
evacuá-las do talude evitando a sua infiltração;

• Drenagem em profundidade: tem como finalidade baixar o nível freático com a


consequente diminuição das pressões intersticiais.

Tanto as drenagens profundas como as superficiais se podem manter facilmente,


podendo ser rapidamente reparadas. As drenagens profundas vão controlar mais
efectivamente os efeitos da água de infiltração dentro do terreno. Na generalidade,
apesar de possuírem custos de colocação maiores que as drenagens superficiais, no
final, este tipo de trabalhos fica muito mais barato do que seria se se tivesse que
remover todo o maciço para estabilizá-lo.

111
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

8.3.2. DRENAGEM SUPERFICIAL

As drenagens superficiais são de uma importância essencial devido ao efeito


evacuador das águas procedentes da escorrência superficial e à necessidade de
existirem para escoarem as descargas das águas de drenagem profundas.

As medidas de drenagem superficial têm uma dupla finalidade:

• Evitar que as águas superficiais cheguem a zonas suficientemente próximas do


talude e se infiltrem directamente ou por fendas no terreno, produzindo uma
elevação significativa do nível freático e por consequência das pressões
intersticiais;

• Evitar na medida do possível os efeitos erosivos das águas de escorrência


sobre a superfície do talude provocando a sua degradação.

Como primeira medida, qualquer curso de água permanente ou estacionário, deve ser
desviado de modo a não afectar a área a tratar. Se na superfície do talude ou na
cabeceira do mesmo existir alguma fonte, esta deve ser desviada para fora da
possível zona de deslizamento.

A zona em que a água superficial é potencialmente mais prejudicial situa-se


superiormente à crista do talude. É mais provável que a água que fica nesta zona se
introduza no terreno por qualquer fissura ou fenda de tracção, sendo por isso
conveniente introduzir uma certa inclinação nesta superfície de modo a eliminar os
blocos amontoados ou outras formas de relevo que possam permitir o aparecimento
de água. Desta forma permite-se o fácil acesso da água superficial aos dispositivos de
evacuação que se tenham introduzido.

Em algumas situações pode ser necessário impermeabilizar totalmente a superfície


superior desde a crista do talude incluindo-o. Neste processo utiliza-se asfalto,
membranas plásticas ou cobertura de argila impermeável.

As águas de escorrência evacuam-se por meio de valas de drenagem,


impermeabilizadas ou não, aproximadamente paralelas ao talude. Devem situar-se a
pouca distância da crista do talude por traz da mesma. Devem também ser colocadas
no pé do mesmo e se necessário, sobre o talude, longitudinalmente.

Devem ter uma secção suficiente para o caudal que tenham de evacuar e a soleira
deve ser convenientemente inclinada com o fim de evitar encharcamentos que podem

112
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

ser perigosos. O revestimento tem de ser capaz de resistir à erosão da água e é


conveniente ser impermeável, sobretudo se o terreno for arenoso.

A drenagem superficial pode apresentar canais em forma de “U” ou “V”, revestidos


com uma película de betão ou através de tubos cilíndricos de aço ou betão cortados
longitudinalmente, devendo garantir-se a impermeabilidade selando as juntas e
revestindo-as com asfalto tanto na soleira como lateralmente. São também empregues
betão armado e cintas plásticas resistentes.

Os parâmetros que se devem considerar aquando da colocação de um sistema de


drenagem são:

• Área e tipo da bacia de recepção;

• Intensidade da chuva;

• Pendente e longitude do talude que se pretende drenar;

• Condições do terreno, em superfície e em substrato;

• Natureza e extensão da vegetação.

O cálculo da secção deve-se fazer com base em métodos hidrológicos. Uma


aproximação ao caudal de ponta pode-se fazer mediante a seguinte equação:

CIA
Q= [10]
3,6

Sendo:

3
Q – caudal de ponta (m /s)
C – coeficiente de escorrência
I – intensidade da chuva no período considerado (mm/h)
2
A – bacia de recepção (km )

É importante a manutenção e vigilância das valas de drenagem pois podem tornar-se


ineficazes se se acumularem sedimentos ou então se a impermeabilidade dos
mesmos for perdida devido a pequenos movimentos do talude.

No caso de existirem fendas de tracção na cabeça do talude, estas medidas podem


não ser impeditivas à infiltração da água superficial nas fendas. Uma fenda de tracção
cheia de água gera importantes pressões intersticiais, o que pode pôr em perigo a
estabilidade do talude, pelo que pode ser necessário selar as fendas com material

113
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

impermeável e flexível. A partir de uma largura de fenda superior a 5 - 10cm esta


deve, antes de selada, ser enchida com gravilha ou outro material permeável, com o
qual, se consiga o escoamento rápido da água que se infiltra.

8.3.3. DRENAGEM PROFUNDA

8.3.3.1. CLASSIFICAÇÕES E CONSIDERAÇÕES GERAIS

O propósito principal das drenagens profundas é modificar o regime de infiltração. O


factor de segurança ao deslizamento, em qualquer superfície potencial de ruptura que
passa por debaixo do nível freático, pode aumentar com a colocação destes drenos.

As drenagens profundas consistem sempre em orifícios que penetram no terreno e


que recolhem a água contida nele, atraindo as linhas de corrente e deprimindo o nível
freático. Aplicam-se geralmente em taludes escavados e em taludes naturais com
mostras de instabilidade. Estas drenagens podem-se classificar em:

Drenos horizontais – perfurados desde a superfície do talude;

Drenos verticais fibroquímicos;

Poços verticais – perfurados desde a superfície superior ao talude ou desde o


próprio talude;

Galerias de drenagem – geralmente paralelas ao talude e a grande


profundidade;

Valas com enchimento drenante – dispostas na superfície do talude ou no


seu pé.

Na altura de escolher um sistema de drenagem, deve-se ter em conta as seguintes


considerações recolhidas por Canmet (1977), que mostram a importância do
conhecimento prévio das características hidrogeológicas do terreno.

a. Tem de existir uma adequada conexão hidráulica entre o material do talude e o


sistema de drenagem. Nos maciços rochosos a infiltração desenvolve-se
fundamentalmente ao longo das descontinuidades pelo que a eficiência do
sistema de drenagem depende do número de descontinuidades, interceptadas.
Em rochas susceptíveis de erosão ou dissolução pode acontecer que o fluxo
fique confinado em determinados canais de infiltração contidos em algumas
descontinuidades, o que dificulta o funcionamento do sistema de drenagem.

114
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

b. A eficácia de um sistema de drenagem está condicionada pela capacidade de


recarga da zona a drenar. O sistema de drenagem tem de ser capaz de
desaguar um caudal superior ao da dita capacidade de recarga, pelo que tem
de possuir uma superfície efectiva suficiente. A capacidade de recarga do
terreno pode ser limitada afastando as águas de escorrência através de
medidas de drenagem superficial. As águas subterrâneas que alcançam a zona
do talude podem ser limitadas por meio de telas impermeáveis ou telas de
poços verticais de drenagem.

c. O sistema de drenagem deve ser adaptado à heterogeneidade. Quando existe


um estrato de permeabilidade muito diferente do restante talude, este deve ser
interceptado pelo sistema de drenagem. Em grande parte dos maciços
rochosos, a permeabilidade diminui com a profundidade devido à diminuição da
abertura das juntas com o aumento da tensão que actua sobre elas e, em
geral, quanto maior a profundidade maior o espaçamento entre as juntas. As
drenagens em locais profundos são de eficácia limitada pois a descarga
proporcionada pelo sistema é pequena em comparação com a capacidade de
recarga do maciço. A opção de drenos horizontais no pé do talude afecta
apenas os estratos superficiais deste. Nestes casos, o alinhamento dos poços
de drenagem pouco profundos por detrás da crista do talude pode ser a
solução mais apropriada, complementando-se, caso seja necessário, com
drenos horizontais no pé do talude.

d. O tempo de resposta das pressões intersticiais na instalação de uma drenagem


profunda depende da permeabilidade do material. Em materiais muito pouco
permeáveis podem ser necessários períodos de tempo superiores a um ano
para que sejam alcançadas as condições de estacionariedade no talude
drenado. Em geral, considera-se provável o bom funcionamento da drenagem
em maciços rochosos de permeabilidade mássica equivalente superior a
105cm/s. Sendo o tempo de resposta, num raio de 30m geralmente inferior a
um mês.

e. Se se vão levar a cabo medidas de drenagem num talude, é necessário definir


a zona do talude que requer as ditas medidas e qual será a zona mais provável
da instabilidade, a qual por sua vez dependerá das condições de pressão
intersticial.

115
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Na tabela 8.2, podem observar-se os efeito na estabilidade de um talude, dependendo


do tipo de infiltração.

Tabela 8.2. Condições mais comuns de infiltração e seus efeitos na estabilidade de um talude.
Fonte: Jimeno, 1999

Infiltração Efeitos na estabilidade


Favorável, com pequena infiltração, serve
Seco e bem drenado
como subdrenagem.
A estabilidade reduz-se à medida que se
Sujeito ao fluxo normal de escoamentos
incrementa a pressão intersticial. O
superficiais de água, procedentes
fluxo é geralmente paralelo ao
da chuva
pendente.
Sujeito a fluxo vertical, favorecido por O fluxo vertical reduz a pressão intersticial
outros sistemas de drenagem e incrementa a estabilidade

8.3.3.2. DRENOS HORIZONTAIS

Também denominados drenos californianos. Consistem em furos de pequeno diâmetro


sub horizontais (com inclinações que variam entro os 5º e os 10º), que parte desde a
superfície do talude, e encontram-se contidos nele.

Este tipo de drenagem emprega-se em casos em que a profundidade da água


subterrânea é tanta que o custo de retirar terreno ou de instalar valas de drenagem é
proibitivo.

Tem como principais vantagens:

• Instalação rápida e simples;

• A drenagem realiza-se por gravidade;

• Requer pouca manutenção;

• É um sistema flexível que se pode readaptar se a geologia local for diferente da


esperada.

Como inconvenientes tem:

• A sua área de influência é limitada e menor que outros métodos de drenagem


em profundidade;

116
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

• Tem que ser feita após a realização da escavação pelo que a segurança do
talude até à sua instalação pode ser precária.

Os drenos horizontais são aplicáveis como medida única a taludes de altura pequena
ou média. Em taludes de altura superior a 100m o comprimento de perfuração torna-se
considerável, o que os torna pouco económicos. Nestes casos a instalação pode ser
feita através de bermas intermédias e em combinação com outros métodos de
drenagem em profundidade.

Num talude com o nível freático situado entre os 30m e os 60m acima do pé, obtém-
se, geralmente, um bom resultado com drenos horizontais perfurados a partir do pé e
até uma profundidade aproximadamente igual à da altura do talude, com um máximo
de 90-100m. Se o nível freático se encontrar a mais de 60m acima do pé do talude,
devem-se dispor diferentes níveis de drenos com intervalos entre si de 30m na
vertical, a começar no pé do talude.

O diâmetro dos furos pode oscilar entre 6,3cm e 15cm e o seu espaçamento entre 7m
e 30m, sendo frequente usar-se entre 10m e 15m. Estes dados são meramente
indicativos, pois para um determinado talude estas dimensões devem adoptar-se após
um estudo hidrogeológico.

É importante que os drenos horizontais se mantenham livres de materiais que possam


reduzir a sua secção, pois de contrário a sua eficiência pode ver-se diminuída até
75%. Para que isto não aconteça é suficiente realizar-se uma limpeza periódica,
injectando ar ou água sob pressão no furo, podendo ser, em alguns casos, necessário
instalar revestimentos perfurados.

Estes drenos têm sido usados com êxito no controlo de deslizamentos devido à sua
rápida aplicação numa área localizada.

8.3.3.3. DRENOS VERTICAIS FIBROQUÍMICOS

Com a utilização de drenos verticais fibroquímicos é possível a eliminação rápida da


água do solo, ocasionando uma grande redução do tempo necessário ao
adensamento de terrenos compressíveis. Na prática, os drenos verticais são utilizados
em terrenos argilosos moles e pouco permeáveis, permitindo também o aumento da
resistência ao corte e por conseguinte, da capacidade de suporte.

O emprego dos drenos faz com que a maior parte do recalque ocorra antes da
execução da obra, trazendo substancial economia nos custos de manutenção, como

117
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

por exemplo no renivelamento e reconstrução de pavimentos, galerias, linhas-férreas,


vias rodoviárias etc. O processo de consolidação começa quando o terreno, sendo
comprimido, filtra a água contida entre os poros das partículas sólidas, reduzindo seu
volume. A consolidação é tanto mais lenta quanto menos permeável for o terreno.

A instalação dos drenos verticais reduz sensivelmente o percurso que a água deve
fazer para sair da área comprimida e chegar a uma região permeável sem pressões,
ou seja, nas colunas dos drenos. Com o uso de drenos, o fluxo da água no interior da
argila é predominantemente horizontal, enquanto no processo de adensamento
normal, o fluxo é vertical. O coeficiente de permeabilidade horizontal é
substancialmente superior ao coeficiente de permeabilidade vertical, conferindo ao uso
de drenos, uma significativa vantagem adicional.

A execução de um dreno vertical consiste basicamente na introdução no terreno de


um material com elevado coeficiente de permeabilidade e capacidade de resistir aos
esforços de cravação e aos movimentos da camada argilosa provocados pelo
adensamento e execução de aterros. Este tipo de dreno possui as seguintes
vantagens principais:

• Não necessita de água para instalação, mantendo limpo e acessível o caminho


da obra;

• Não há remoção de solo para sua instalação;

• Mantém inalterada a sua capacidade de funcionamento mesmo quando a sua


posição vertical, na altura da instalação, é alterada pelos recalques ou
movimentos laterais provocados pelo adensamento do solo;

• A permeabilidade horizontal do solo em torno do dreno é mantida inalterada,


pois o efeito de cravação é desprezável;

• Possui eficiente sistema de protecção contra a colmatação;

• Toda a área lateral do dreno funciona como superfície livre para a captação de
água.

O sistema de cravação permite uma elevada produtividade e protege totalmente o


dreno, podendo atravessar ou deslocar, sem causar danos ao dreno, camadas de solo
de elevada resistência, pedaços de madeira ou matacões de pequenas dimensões.

118
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

8.3.3.4. POÇOS VERTICAIS DE DRENAGEM

A principal função dos poços verticais de drenagem é reduzir o nível das pressões
intersticiais naquelas camadas em que seria impossível chegar por meio de métodos
de escavação a céu aberto ou, em locais onde é impossível colocar drenagens
horizontais, tanto por razões económicas como construtivas.

A água recolhida por este processo é normalmente extraída por bombagem,


utilizando-se para o efeito bombas submersíveis situadas na parte inferior do poço. A
sua grande vantagem em relação aos drenos horizontais, é o facto de se poderem
instalar e pôr em funcionamento antes do início da escavação, com o que se
consegue:

• Garantir a estabilidade do talude durante a construção;

• Facilitar a construção ao diminuir a quantidade de água que aflora na frente da


escavação, não se interferindo nesta devido à instalação de drenos horizontais.

Outra vantagem é o facto de se poder aproveitar para poços de drenagem as


sondagens verticais de investigação, desde que estas se realizem com um diâmetro
maior do que o estritamente necessário.

O seu principal inconveniente refere-se ao elevado custo do equipamento de


bombagem e a energia necessária ao seu funcionamento, já que este tem de ser
constante para que o sistema de drenagem seja eficaz. Este problema pode-se
eliminar conectando os poços, numa segunda fase, com uma galeria de drenagem,
obtendo-se assim um escoamento por gravidade. Outro método que se pode adoptar,
noutras ocasiões, é ligar os poços com drenos horizontais, perfurados desde o talude.

Os poços de drenagem têm geralmente um diâmetro superior a 30cm, sendo comum


40cm ou mais. Em solos e rochas brandos pode ser necessária a instalação de
tubagens perfuradas, sendo conveniente colocar entre o topo e o terreno, enchimento
com funções filtrantes. O comprimento dos poços pode ser muito grande, atingindo
profundidades superiores a 300m.

Devido à inclinação que o nível freático adquire nas proximidades dos poços, estes
têm de alcançar maiores profundidades do que seria de supor ao início. Se a intenção
for drenar totalmente o talude, a profundidade de perfuração necessária, supondo os
poços situados na cabeça do talude, é da ordem de 1,2 vezes a altura do talude. A

119
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

instalação de vários níveis de poços é uma medida alternativa, aplicada normalmente


em taludes de grande altura.

8.3.3.5. GALERIAS DE DRENAGEM

São galerias escavadas no terreno a bastante distância da superfície deste. Podem


dispor-se paralelas ao talude. É o sistema mais efectivo, sendo também o mais caro,
pelo que a sua utilização só é considerada em situações críticas e em taludes de
grandes alturas, sendo necessário um elevado número de drenos horizontais e poços
verticais de grande profundidade, o que pode tornar económico o emprego das
galerias de drenagem.

Em muitas ocasiões é conveniente instalar drenos perfurados desde a galeria, de


modo a aumentar o seu raio de acção e a efectividade do sistema de drenagem. As
principais vantagens das galerias de drenagem relativamente aos drenos horizontais e
aos poços verticais são:

• Têm uma maior capacidade drenante devido à sua grande secção transversal.
Permitem uma maior conexão hidráulica com as fissuras portadoras de água;

• São apropriadas para operações a longo prazo, dado que a drenagem se


realiza geralmente por gravidade, e a sua vida útil é muito maior do que a dos
drenos horizontais;

• São um modo excelente para determinar as características do terreno;

• Não afectam a superfície do terreno porque não interferem nas operações que
se realizam neste;

• A sua localização a grande profundidade torna-os apropriados para zonas de


clima muito frio.

Em geral dispõem-se um ou dois níveis de galerias, sendo poucos os casos em que se


instalam mais. Embora o mais corrente seja escavar as galerias paralelamente ao
talude, em algumas ocasiões dispõem-se perpendicularmente ao mesmo com o
objectivo de drenar zonas localizadas. Neste caso, o sistema de drenagem pode
complementar-se com galerias transversais principais e com drenos perfurados
dispostos em leque.

A situação e tamanho óptimos da galeria podem estudar-se por métodos teóricos pelo
que se tem de conhecer, pelo menos aproximadamente, as características de

120
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

permeabilidade do terreno. A influência de drenos adicionais perfurados pode estudar-


se do mesmo modo.

As galerias proporcionam uma boa drenagem quando é maior a permeabilidade no


sentido vertical do que no sentido horizontal como acontece em maciços rochosos
onde predomina um diaclasamento vertical. No caso relativamente frequente da
permeabilidade horizontal ser muito superior à vertical, deve facilitar-se a drenagem
mediante a perfuração desde a galeria com drenos verticais.

A direcção dos drenos complementares deve ser aproximadamente normal à da


máxima permeabilidade. O espaçamento entre os drenos deve ser tal, de modo a que
constituam uma autêntica tela contínua que intercepta o fluxo de água.

Em solos e rochas muito fracturadas pode ser necessário um revestimento contínuo,


geralmente em betão armado, pelo que a drenagem do talude tem de ser
proporcionada através da instalação de um feixe de drenos com diferentes direcções.
É bastante frequente encher a galeria com pedras ou gravilha, de modo a conseguir
diminuir o efeito das deformações posteriores da galeria e inibir a sua capacidade
drenante.

8.3.3.6. VALAS COM ENCHIMENTO DRENANTE

São valas preenchidas com material drenante, escavadas no talude o mais próximo
possível do seu pé e cuja acção drenante se limita a pequenas profundidades. As
valas podem ser de dois tipos:

Valas de talude: segundo a linha de maior inclinação do talude.

São aplicadas quando os potenciais deslizamentos se encontram a pouca


profundidade. Um caso típico é aquele em que existe alternância entre estratos duros
e estratos brandos e impermeáveis, todos de pequena espessura e dispostos
paralelamente ao talude.

O deslizamento de materiais sobre terrenos débeis pode-se evitar através de valas


com enchimento drenante que aliviam as pressões intersticiais no estrato inferior.

Valas horizontais: são paralelas ao talude e situam-se no seu pé.

121
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Utilizam-se para recolher a água proveniente das valas de talude. Podem ser muito
úteis em taludes com estratos aproximadamente horizontais de diferente
permeabilidade.

8.4. ESTABILIZAÇÃO SUPERFICIAL RECORRENDO À VEGETAÇÃO

8.4.1. INTRODUÇÃO

A vegetação nos projectos de engenharia é normalmente utilizada para reduzir os


impactes visuais causados pelas obras e para melhorar a qualidade da paisagem
nessas zonas. No entanto, a vegetação pode ter também, um papel muito importante
no controlo dos processos erosivos e como elemento de protecção e conservação do
solo, derivada da influência que exerce sobre ele, tanto à superfície, protegendo e
segurando o solo, como em profundidade, ao incrementar a resistência e a coesão dos
terrenos. Aliás, tem uma influência significativa no nível da humidade e na sua
capacidade de retenção da água.

Todos estes efeitos podem ser benéficos ou adversos, dependendo das circunstâncias
ainda que, no balanço final, se constata que esses efeitos são mais positivos e
relevantes que o inverso.

A vegetação, constitui uma interface de interacção entre o solo e a atmosfera que se


manifesta através de uma série de efeitos hidrológicos, mecânicos, (figura 8.5) e ainda
com efeitos no regime de circulação do vento.

Figura 8.5. Efeitos hidrológicos e mecânicos da vegetação sobre um talude


Fonte: JIMENO, 1999

122
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Nos últimos anos tem-se inclusivamente desenvolvido um novo ramo da engenharia


em que se utilizam as plantas vivas e materiais lenhosos como materiais de
construção (Bioengenharia, ver capítulo 8.5) em contraste com a engenharia
convencional, onde se usa somente material inerte e inorgânico.

Na tabela seguinte estão enumerados os efeitos da utilização de sistemas de


bioengenharia.

Tabela 8.3. Efeitos da utilização de sistemas de bioengenharia.


Fonte: Ground Bioengineering Techniques for slope protection and erosion control (1996)

Áreas Efeitos

Protecção da superfície do solo da erosão pela precipitação, vento e


Geotecnia
outros agentes erosivos

Moderação da temperatura e humidade extremas do ar ao nível do solo,


melhorando as condições para o crescimento de vegetação

Melhoramento da relação entre o solo e a quantidade de água que este


possui, derivado dos processos de intercepção, evapotranspriação e

Ecologia drenagem

Melhoramento do solo e criação de húmus pela decomposição da


vegetação

Criação de novas e/ou melhoradas condições de vida para plantas e


animais

Construções e manutenções com custos mais reduzidos que os


convencionais
Economia
Criação de áreas que poderão ser utilizadas para a agricultura, floresta,
lazer, entre outras

Estética Integração dos edifícios na paisagem

Juntamente com as plantas vivas, é ainda prática comum utilizar materiais auxiliares
para garantir uma estabilização inicial até que a vegetação se desenvolva e alcance a
sua eficiência óptima. Estes materiais secundários vão desde a madeira, a pedra, o
cimento, as malhas plásticas e metálicas, os geoteixteis, as redes e as mantas
orgânicas, entre outros.

123
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

8.4.2. PROTECÇÃO DA SUPERFÍCIE DO SOLO

8.4.2.1. PROTECÇÃO CONTRA A EROSÃO POR SALPICAMENTO

Como já foi anteriormente referido, ao efeito do impacto directo das gotas da chuva
sobre a superfície do solo é denominado por «erosão por salpicamento». Na ausência
de obstáculos, as gotas de água golpeiam o solo, desagregando as partículas terrosas
e projectando-as no ar (vide capítulo 3.5. Erosão Hídrica).

Em experiências de laboratório, foi observado que uma gota de 6mm de diâmetro, ao


cair no solo de uma altura de 2m é capaz de elevar partículas até 0,6m e de projectá-
las até uma distância na ordem dos 1,5m (JIMENO, 1999).

Este poder erosivo da chuva, por salpicadura, é em função:

• Da intensidade da precipitação;

• Do volume de precipitação que consegue causar este tipo de erosão, ou seja, o


volume de água que consegue alcançar directamente o solo;

• Da energia cinética que a gota de água alcança, e varia com o tamanho da


gota e da velocidade terminal aquando do impacto no solo.

Na figura seguinte é possível observar a variação da velocidade terminal de queda de


uma gota de água ( e consequentemente da energia cinética), em função do diâmetro
da gota.

Figura 8.6. Variação da velocidade terminal de queda de uma gota de água em função do diâmetro
da gota.
Fonte: JIMENO, 1999

124
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

A cobertura vegetal reduz a intensidade deste efeito, já que modifica as características


da precipitação:

• A vegetação forma uma cobertura protectora que evita o impacto directo da


chuva no solo;

• Ao atrasar a água no solo, consegue diminuir localmente a intensidade da


precipitação;

• Ao interceptar a chuva, a vegetação consegue dissipar e reduzir a energia


cinética das gotas de água, travando a sua queda.

A extensão e a eficácia da protecção proporcionada pela vegetação depende da sua


altura, do seu grau de cobertura e das suas características morfológicas.

A altura da vegetação determina a altura da queda das gotas de água que foram
interceptadas e que são libertadas pelo gotejamento das plantas. Desta forma, quanto
maior for a altura da planta maior será a energia cinética imprimida à gota de água e
consequentemente, maior será a força do impacto desta no solo (e, logicamente,
maior o seu potencial erosivo). Desta forma, as herbáceas, por possuírem alturas
reduzidas, proporcionam velocidades de queda inferiores às árvores e outras plantas
com portes superiores.

STYCZEN Y HΦGH-SCHMIDT (1988), em estudos realizados para aferir o potencial


erosivo da água por salpicadura, chegaram ao gráfico da figura 8.7, onde
correlacionam a variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função da
altura da vegetação (H), para diferentes intensidades de precipitação (I).

125
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Figura 8.7. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função da altura da
vegetação (H), para diferentes intensidades de precipitação (mm/h).
Fonte: Styczen y HΦgh-Schmidt, 1988

O grau de cobertura do solo, determina a superfície deste, que se encontra


protegido pela vegetação do impacto directo das gotas de água. Os mesmos autores
definem como protecção máxima, coberturas superiores a 70%. O gráfico da figura 8.8
evidencia a variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do grau
de cobertura (S), a alturas diferentes da vegetação (H).

Figura 8.8. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do grau de cobertura
(S), a alturas diferentes da vegetação (H). Diâmetro de gotas de 5 mm.
Fonte: Styczen y HΦgh-Schmidt, 1988

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A estabilidade de taludes

As características morfológicas das plantas, principalmente no que se refere ao tipo de


folha e estrutura da ramagem, determinam a quantidade de água interceptada que
chega ao solo por gotejamento, bem como o seu tamanho, e ainda, o tempo de
armazenamento da água na sua estrutura.

Atendendo ao que foi anteriormente referido, é possível elaborar um gráfico (figura


8.9) onde correlacione o coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do
tamanho da gota (δ) e da altura de queda (H).

Figura 8.9. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do tamanho da gota

δ), para diferentes alturas de vegetação (H) e diferentes intensidades de precipitação (I).
Fonte: Styczen y HΦgh-Schmidt, 1988

RICKSON e MORGAN (1988), elaboraram um gráfico, ilustrado na figura 8.10, onde


correlacionam a perda do solo com a percentagem de cobertura do mesmo, e em
função da altura da vegetação.

No gráfico pode-se observar, que para uma cobertura vegetal rente ao solo ou até
0,3m, não existe perda de solo significativa derivado do gotejamento dessas plantas, o
que indica que não existe energia cinética suficiente para que a erosão aconteça.
Ainda se pode observar que a perda de solo decresce exponencialmente com o
incremento do grau de cobertura.

Para as restantes alturas, a perda de solo decresce linearmente com o aumento do


grau de cobertura e aumenta proporcionalmente com o aumento da altura das plantas.

127
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A estabilidade de taludes

Figura 8.10. Variação da perda do solo em função do grau de cobertura do mesmo e da altura da
vegetação que o cobre.
Fonte: RICKSON e MORGAN, 1988

É notório neste gráfico, a influência da estrutura da folha para a perda de solo: para
plantas cujas folhas são planas e largas (*), existe um incremento significativo da
perda de solo, mesmo para alturas reduzidas.

8.4.2.2. PROTECÇÃO CONTRA A ESCORRÊNCIA SUPERFICIAL

A vegetação diminui o poder erosivo da escorrência ao modificar dois dos factores


principais dos quais esta é função: diminui a quantidade de água de escorrência
generalizada e reduz a sua velocidade.

A redução do volume de escorrência superficial é o resultado da combinação de vários


factores:

• Intercepção e evaporação de parte da precipitação recebida;

• Transpiração das plantas, levando a uma diminuição da humidade do solo,


permitindo-lhes mais capacidade de retenção aquando da precipitação;

• Grande capacidade de absorção de água da cobertura vegetal que se encontra


junto ao solo;

O aumento da rugosidade da superfície, obriga a água de escorrência a repetidas


modificações de direcção, diminuindo-lhe assim a velocidade.

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Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Para se poder ter uma ideia da importância da vegetação na velocidade de


escorrência, JIMENO (1999) afirma que em zonas urbanas, a escorrência superficial
pode atingir os 70% da precipitação recebida. Em áreas cultivadas, este valor
decresce para 30 – 40% e em terrenos cuja cobertura vegetal é contínua e densa,
independentemente de ser do tipo herbácea ou do tipo arbóreo, o valor diminui para
valores abaixo dos 20%, podendo mesmo atingir os 10%.

8.4.2.3. PROTECÇÃO DO SOLO PELAS PLANTAS

As raízes das plantas retêm as partículas do solo, evitando o seu deslocamento face
aos movimentos induzidos pela gravidade, pelo impacto das gotas de chuva, pelas
águas de escorrência e pelo vento. As plantas mais eficazes para esta função são as
que reúnem as seguintes qualidades:

Resistência – Capacidade para suportar o impacto de materiais sem que estes


lhes causem danos e com a flexibilidade suficiente para que os seus ramos e
troncos se dobrem sem partir;

Ramificação desenvolvida desde a base, para oferecer mais superfície


normal à trajectória de queda dos materiais e assim maximizar o efeito de
retenção;

Tolerância ao enterramento – capacidade de produzir novas raízes desde os


galhos enterrados, e assim desenvolver um novo sistema de raízes sobre a
nova superfície de solo criada.

Para segurar os taludes de solos, são mais eficazes as plantas possuidoras de um


sistema de raízes pequeno, radial e estendido horizontalmente. As plantas como
árvores e arbustos altos são mais propícios para segurar superfícies instáveis, que
ocorrem no material rochoso.

Diversos autores desenvolveram estudos no sentido de perceber qual a influência das


raízes das plantas no aumento de coesão dos solos. A tabela seguinte é o resultado
desses estudos, compilados por O´Loughlin e Ziemer.

129
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Tabela 8.4. Valores típicos do incremento da coesão do solo (C) devido à acção das raízes
(O’LOUGHLIN E ZIEMER, 1982).
Fonte: Jimeno, 1999

Autor Solo/Vegetação C (kN/m2)


Swaston (1970) Coníferas de montanha sobre moreias 3,4 – 4,4
O’Loughlin (1974) Coníferas de montanha sobre moreias 1–3
Endo e Tsuruta (1969) Plantas de viveiro sobre aluviões 2 – 12
Wu e tal. (1981) Coníferas de montanha sobre moreias 5,9
Waldron et al. (1981) Pinheiros sobre solos argilosos 5
Bosque perenofólio misto, sobre solos
O’Loughlin e Ziemer (1982) 3,3
desenvolvidos em moreias
Gay e Megaham (1981) Coníferas em solos arenosos 10,3
Riestenberg, Savonick e
Ácer em solos de coluvião argilosos 5,7
Dunford (1983)
Borroughs e Thomas (1977) Coníferas em solos de montanha 3 – 17,5
Pasto semeado em blocos de cimento
Barker e Hewlett (1986) cobertos com solo argiloso reforçado 3 -5
com uma estrutura celular

Segundo JIMENO (1999), a relação entre a densidade de vegetação e consequente


densidade de enraizamento, e o aumento da coesão dos solos não é linear, podendo
mesmo aumentar exponencialmente.

8.5. TÉCNICAS DE BIOENGENHARIA


As técnicas de Bioengenharia são baseadas no aproveitamento dos conhecimentos
biológicos e em particular, botânicos para a implementação de medidas de protecção
e estabilização de estruturas variadas como taludes, estruturas hidráulicas, bancos de
rios, entre outras e ainda, utilizando as características dos materiais de modo que as
intervenções fiquem enquadrados na paisagem. A sua principal característica é a
utilização de plantas e de materiais vegetais que, quando empregues, com ou sem a
incorporação de materiais inertes nesses trabalhos, consigam atingir a estabilização
dos terrenos. Estas técnicas não são um substituto, mas sim, deverão ser
consideradas como complementos aos trabalhos mecânicos realizados pela
engenharia convencional (KRUEDENER, 1951).

130
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

É necessário ter em conta a escolha do método e do tipo de construção, para que se


possa realizar uma escolha criteriosa do tipo de espécies a utilizar. O cronograma de
trabalhos também deve ser bem elaborado de modo a que permita uma optimização
dos trabalhos de plantação durante o período específico para tal.

Desta forma, as condições mais importantes para estas escolhas são:

Objectivo dos trabalhos: A necessidade mais imediata dos trabalhos é sem


dúvida a estabilização do talude em causa. Em segundo plano, em termos de
curto prazo, o sucesso da plantação colocada é o ponto a ter em conta, e por fim,
mas não menos importante, os custos do trabalho de execução e de
manutenção;

Efeitos Técnicos: A protecção dos taludes erodíveis através de um eficiente


plano de plantação e consequente cobertura correcta da superfície;

Ecologia do local: O local em causa condiciona a escolha das plantas, e que


por sua vez, mas não só, condiciona o tipo de trabalhos a desenvolver;

Disponibilidade dos materiais de construção: Claro que é preciso ter em


consideração se os materiais com que se pretende realizar os trabalhos se
encontram disponíveis;

Época do Ano: Os métodos em que a plantação é um factor determinante, é


necessário ter em consideração a época do ano em que esta se irá realizar.

A utilização da vegetação nestes trabalhos deverá ter em consideração alguns


aspectos essenciais:

Tipo de trabalho: taludes, aterros, etc.;

Dimensões do talude: altura, comprimento, inclinação;

Forma do talude: uniforme, convexo, côncavo, em degraus;

Tipo de solo: coesivo, não coesivo;

Existência de água;

Características das plantas a colocar: tipo, forma, distribuição.

Estes aspectos poderão ser visualizados no esquema seguinte (figura 8.11), o qual
permite, de uma forma simples, a selecção apropriada do tipo de método de
construção, de acordo com o tipo de talude e as estratégias a adoptar nele.

131
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A estabilidade de taludes

Criação Reabilitação
Drenagem
de Aterros / Taludes de escorregamentos

Talude
Talude Estável Talude Instável
Marginalmente Estável
FS > 1.15 FS < 1.0
1.0 < FS < 1.15

Métodos de drenagem
Métodos de Protecção Métodos de Estabilização Métodos combinados com
vegetativa combinados com
e.g. sementeira estruturas de contenção
trabalhos de ordem mecânica

Figura 8.11. Estabilização de taludes e técnicas de bioengenharia.


Fonte: KUONEN, 1983

SHIECHTL (1973) classificou as técnicas de bioengenharia em quatro grupos:

Técnicas de protecção do solo: são técnicas que a partir da acção da cobertura do


solo, o vão proteger rapidamente da erosão superficial e da meteorização. Estas
técnicas melhoram a capacidade da água e promovem a actividade biológica do solo.
A cobertura com palha promove a protecção do solo da precipitação, mesmo antes da
vegetação o conseguir fazer por si só;

Técnicas de contenção do solo: são desenvolvidas para reduzir ou eliminar as


forças mecânicas disturbadoras. Estas técnicas estabilizam e seguram taludes em
risco de escorregamento através da penetração das raízes, decréscimo da pressão
intersticial através da transpiração e promoção da drenagem. São geralmente
utilizadas como complemento às técnicas de protecção do solo com o intuito de evitar
a erosão;

Técnicas de construção combinadas: nestas técnicas, combinam-se o uso de


vegetação com materiais inertes (pedra, betão, madeira, aço, plástico, etc.) de modo a
aumentar a eficiência das medidas aplicadas;

Técnicas de construção suplementares: técnicas de plantação e sementeira.


Servem para garantir uma segura transição entre o estágio de construção e o projecto
final.

132
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A estabilidade de taludes

8.6. ESTABILIZAÇÃO RECORRENDO A ELEMENTOS RESISTENTES (MÉTODOS


COMPLEMENTARES)

8.6.1. INTRODUÇÃO
Os sistemas de reforço são cada vez mais utilizados em situações em que não existe
a possibilidade de utilizar outros sistemas, ou porque existem problemas de espaço ou
porque existem dificuldades em realizar a expropriação dos terrenos afectados pelas
obras.

8.6.2. MALHAS GUIA


A fixação de malhas e redes metálicas na superfície de taludes, permite a imobilização
ou o amortecimento do deslizamento dos materiais procedentes da decomposição do
substrato e contribui para a consolidação definitiva do talude, favorecendo ainda a
colonização vegetal.

Entre outras, as vantagens de se utilizar este método são:

• Não requerem espaço para a sua instalação, pelo que não é necessário
realizar obras de escavação ou ocupar terrenos para o depósito de terras;

• Como consequência directa do ponto anterior, não existe o risco potencial de


queda de material, pelo que este tipo de risco diminui;

• Permite uma actuação directa sobre o talude;

• É uma solução económica e que não implica grandes riscos aquando da sua
aplicação e ainda permite uma rápida intervenção no talude;

• Permite a revegetação do talude, minimizando desta forma os impactes visuais


da sua aplicação;

• Permite o uso da hidrossementeira que, para taludes de pequenas dimensões


e declives na ordem dos 2V:3H evitam com grande eficácia os processos
erosivos.

133
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

8.6.3. MUROS

8.6.3.1. GENERALIDADES

Os muros empregam-se frequentemente como elementos resistentes em taludes. São


usados em ocasiões de potenciais deslizamentos, ou até mesmo em deslizamentos já
existentes, sendo introduzidos como elemento de contenção do pé. Esta forma de
actuar pode ter vários inconvenientes: em primeiro lugar, a construção do muro exige
uma certa escavação no pé do talude, o que favorece a instabilidade até que o muro
esteja completamente instalado. Por outro lado, o muro pode são ser capaz de evitar
possíveis deslizamentos, por cima ou por baixo dele próprio.

Uma contenção só pode suster um comprimento determinado de deslizamento já que


em caso contrário, este excede o muro. Posto isto, pode ser mais apropriado em
taludes com sinais evidentes de instabilidade realizar o muro com o objectivo de reter
um enchimento estabilizador.

Em desmontes e terraplenagens em que há falta de espaço, impondo taludes quase


verticais, o uso de muros pode ser quase obrigatório. Este é um caso frequente na
construção de vias de transporte.

Em geral, a construção de um muro é uma operação cara e apesar disso, os muros


empregam-se com frequência pois são em muitos casos a única solução viável.

As principais vantagens da utilização deste tipo de estruturas são:

• Redução dos custos de fabricação dos elementos, podendo ser fabricados em


série;

• Redução dos custos de instalação, maquinaria e pessoal;

• Melhoria da qualidade da obra;

• Redução do impacte ambiental já que se pode ajustar o desenho da obra ao


encontro da topografia que existe, permitindo um melhor enquadramento e
uma mais fácil revegetação.

134
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Os muros podem classificar-se em três grupos:

Muros de revestimento: Têm como função proteger o terreno da erosão e


meteorização além de proporcionarem um peso estabilizador.

Muros de sustimento: Constroem-se separados do terreno natural e enchem-


se posteriormente.

Muros de contenção: Geralmente são escavados e constroem-se para conter


um terreno que sem a acção do muro seria provavelmente instável.

Figura 8.12. Classificação dos muros do ponto de vista funcional: a) Revestimento, b) Sustimento,
c) Contenção.
Fonte: Modificada de Jiménez Salas et al., 1976

Na altura de projectar um muro têm de se determinar as cargas a que vai ser


submetido e a sua distribuição, o que permitirá dimensionar uma estrutura capaz de
lhes resistir. Num caso típico é necessário conhecer:

• A estabilidade geral do sistema muro-terreno em relação ao deslizamento;

• Se a estabilidade geral do muro inclui a estabilidade à queda e ao


deslizamento;

• A resistência do terreno às fundações;

• A resistência estrutural. Deve comprovar-se que as tensões máximas no muro


não ultrapassam as admissíveis.

135
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

8.6.3.2. MUROS DE GRAVIDADE

É o tipo de muro mais antigo. São elementos passivos, em que o seu peso próprio é a
acção estabilizadora fundamental. Na maior parte dos casos são feitos de betão, no
entanto existem muros de gravidade de pouca altura, construídos com ladrilhos ou
alvenaria. Não é comum empregar estes muros com alturas superiores a 10m.

Um dos inconvenientes dos muros de gravidade, é o facto do seu peso, fundamental


para a estabilidade, ser limitado pela resistência das fundações, o que é muito
importante se o material for do tipo argiloso. Estes muros só podem empregar-se para
prevenir ou deter o deslizamento de pequenas dimensões. São inadequados para
grandes deslizamentos ou para aqueles em que não é possível a escavação.

Como principais vantagens apresentam a sua facilidade construtiva e o baixo custo


que apresentam no caso de muros de pouca altura. Neste caso, podem ser muito úteis
se o terreno onde vão assentar as fundações for aceitável e não forem excessivas as
cargas provenientes do terreno.

Para melhorar a estabilidade do muro é usual dar-se uma pequena inclinação na parte
frontal. No entanto se a inclinação for excessiva perde-se em parte a principal
vantagem do muro, que é o ganho de espaço.

Figura 8.13. Ilustração de um muro de gravidade.


Fonte: ITGE, 1991

No caso extremo em que a inclinação do muro corresponde à da face livre do talude, o


muro passa a actuar apenas como revestimento. Este tipo de muro apresenta como
inconvenientes a perda de espaço e uma maior dificuldade de construção.

136
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

No que respeita às fundações do muro no solo, têm de ser capazes de resistir às


cargas verticais a que o muro vai ser submetido, sendo também importante conseguir
uma adequada resistência ao deslizamento entre a base do muro e o terreno das
fundações. Esta resistência melhora com uma pequena inclinação da base em relação
ao talude.

Figura 8.14. Muro de gravidade com função de revestimento.


Fonte: ITGE, 1991

8.6.3.3. MUROS DE ATENUAÇÃO

São muros, em betão armado, em que a parede vertical actua como uma viga em
flexão contrariando o momento de carga do terreno, principalmente pelo momento
estabilizador das terras situadas sobre a base. Na sua construção é usado menos
betão do que nos anteriores. Existem dois tipos fundamentais de muros de atenuação:

Muros em L

A pressão sobre as fundações é menor do que nos muros de gravidade, pelo que são
indicados quando os terrenos das fundações são maus. Podem apresentar
contrafortes interiores e menos frequentemente exteriores. Os momentos flectores
máximos produzem-se na parede vertical. Para grandes alturas, a magnitude dos
momentos a que são submetidos pode tornar conveniente o emprego dos contrafortes.
Os esforços sobre cada uma das partes do muro são calculados supondo um
comportamento das vigas sem apoio.

137
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Figura 8.15. Muro de betão armado.


Fonte: Santamaría Arias et a1.,1997

Muros com contrafortes

Os contrafortes podem dispor-se tanto na face interior como na exterior. No primeiro


caso, o que se faz é atenuar o muro de gravidade suprimindo betão das zonas que por
se encontrarem mais perto do pé, colaboram pouco no efeito estabilizador. No
segundo caso, trata-se mesmo de um muro em L reforçado, com contrafortes
interiores.

Figura 8.16. Muro com contraforte.


Fonte: Santamaría Arias et a1.,1997

8.6.3.4. MUROS JAULA

Consistem numa trama resistente em forma de jaula que é enchida com solo granular,
preferencialmente compactado. As armações ou jaulas são compostas por vigas
longitudinais ou corridas e vigas transversais ou travessas. Em alguns casos fecham-
se as aberturas entre os corredores convertendo a face do muro numa superfície
plana. A estabilidade de um muro jaula é fundamentalmente proporcionada pelo seu
peso próprio, tal como nos muros de gravidade.

138
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

São adequados para alturas moderadas, não superiores a 7m. A largura do muro é
geralmente compreendida entre a altura e metade desta. O seu uso é frequente como
medida correctiva de taludes nos quais se produziram movimentos significativos, dada
a sua rápida montagem.

As suas principais vantagens em relação aos muros de betão são a sua fácil e rápida
montagem, a sua capacidade de adaptação nos assentamentos que se podem
produzir no terreno e o facto de poderem começar a actuar imediatamente após a sua
construção. Por outro lado, a sua facilidade de manuseamento e montagem permite a
sua ampliação, redução e troca de local.

No caso do enchimento interior ser feito com material permeável e as aberturas da


face não forem fechadas, garante-se a acção drenante sem se dispor de dispositivos
especiais. A jaula é construída com peças de madeira, blocos pré-fabricados de betão
armado ou peças metálicas de aço ou alumínio.

Figura 8.17. Esqueleto de um muro jaula composto por vigas de madeira longitudinais e
transversais.
Fonte: Santamaría Arias et al., 1997

8.6.3.5. MUROS DE GABIÕES

Os gabiões são elementos com forma de prisma rectangular. O muro de gabiões


consiste num enchimento granular constituído por fragmentos de rocha não
degradável, retida por uma rede metálica. Têm uma construção simples, a qual
consiste em encaixar os gabiões uns nos outros de modo a formar o muro (figura
8.18). Este tipo de muros trabalha essencialmente através da força da gravidade e da
força de atrito.

139
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Foto 8.18. Muro de gabiões.


Fonte: López Jimeno, C., 1998

As principais vantagens são: a sua instalação rápida e simples, o facto de serem


estruturas flexíveis que admitem assentamentos diferenciais do terreno e não
apresentam problemas de drenagem devido à sua grande permeabilidade. A sua
facilidade de montagem permite colocar uma nova fila de gabiões para reforçar um
muro no qual se notem sinais de instabilidade. A construção deste tipo de muro é feita
de forma escalonada em relação à face interior ou à exterior (figura 8.19).

Figura 8.19. À esquerda muro de gabiões com degraus para o exterior, à direita muro de gabiões
com degraus para o interior do talude.
Fonte: Ana Paula Carreira, 2004

A construção escalonada relativamente à face exterior utiliza-se quando existe uma


inclinação entre o muro e o terreno, o que permite reduzir a largura do muro.

Os muros de gabiões são usados na contenção de taludes argilosos, sendo


geralmente conveniente o uso de contrafortes, que devem penetrar no terreno de
forma a ultrapassar a superfície de deslizamento em pelo menos o comprimento de
um gabião (entre 2 e 4m). O espaçamento entre contrafortes varia entre 4 e 9m e a
sua função é tanto de drenagem como estrutural.

140
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

O enchimento dos gabiões pode ser de granito, caliça, quartzito ou betão. Os arames
que constituem a malha metálica devem ser galvanizados, e no caso de serem
sujeitos a condições extremas que favoreçam a corrosão, devem ser revestidos de
plásticos.

8.6.3.6. MUROS DE TERRA ARMADA

A terra armada é um procedimento que consiste em reforçar um muro por meio de


bandas de material pré-fabricado, normalmente metálico. Estas bandas são ancoradas
à parede e dispõem-se perpendicularmente a esta. O atrito entre as bandas e o solo
proporciona a estabilidade do conjunto.

As principais vantagens que estes muros apresentam são:

• Construção fácil e rápida;

• Custo frequentemente inferior em relação aos sistemas alternativos (entre 20 a


50% menos);

• Não têm limitações práticas em comprimento ou altura;

• A sua construção é particularmente apropriada em terrenos com má


cimentação devido a transmitirem tensões relativamente pequenas à
cimentação e além de serem muito flexíveis adaptam-se facilmente aos
assentamentos diferenciais.

O projecto de um muro de terra armada tem de ter em conta os seguintes requisitos


básicos:

• Tem de existir atrito suficiente entre o solo e as bandas de reforço de modo a


evitar o deslizamento entre ambos, o que iria provocar a ruptura do muro;

• As bandas de reforço têm que ter secção suficiente para resistirem aos
elevados esforços de tracção a que irão ser submetidas.

O atrito entre as bandas e o solo pode ser melhorado dando maior rugosidade à
superfície das bandas, embora o factor fundamental na obtenção de fricção suficiente
seja o comprimento das bandas, sendo geralmente suficiente um comprimento entre
0,8 e 1,2 vezes a altura do muro.

141
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

8.6.3.7. ENCHIMENTO POSTERIOR AO MURO

Nos muros de sustimento, o tipo de enchimento utilizado para ocupar o espaço entre a
face interior e o terreno natural, influi sobre a força de carga que se desenvolve sobre
o muro.

Os solos de grão fino podem produzir grandes esforços, principalmente por variações
de volume devido ao grau de humidade. Além disso, é possível que se abram fendas
no material de enchimento pelas quais irá penetrar a água da chuva produzindo
pressões intersticiais de grande magnitude e difíceis de dissipar.

É frequente compactar o enchimento para evitar os assentamentos. No entanto, em


muros com pouca deformação lateral a compactação pode aumentar os esforços,
especialmente em muros de pouca altura, pelo que nestes casos, o enchimento não
se compacta a não ser que seja imprescindível.

8.7. OUTROS SISTEMAS


À parte dos sistemas atrás descritos, ainda existem uma panóplia de sistemas que
poderão ser utilizados na contenção e/ou estabilização de taludes de solos. De entre
eles, destacam-se:

• Cortinas de Estacas;

• Muros Cortina;

• Pregagens;

• Ancoragens;

• Geossintéticos.

Não menosprezando os sistemas referidos neste ponto, os geossintéticos merecem


especial referência devida às (quase) ilimitadas aplicações que possuem nas obras de
engenharia.

Os geossintéticos são materiais poliméricos, cujas aplicações vão desde as áreas da


geotecnia, área ambiental, vias de comunicação até à engenharia hidráulica.

KOERMER (1998) distinguiu seis grandes tipos de geossintéticos, tendo ainda definido
as principais funções dos mesmos. Essa classificação encontra-se ilustrada na tabela
a seguir indicada.

142
Mestrado em Georrecursos
A estabilidade de taludes

Tabela 8.5. Principais funções dos geossintéticos.


Fonte: KOERMER., 1998

Função
Tipo
Separação Reforço Filtragem Drenagem Contenção

Geotêxteis X X X X

Geogrelhas X

Georredes X

Geomembranas X

Geossintéticos
X
Bentoníticos

Geocompósitos Variável

É de esperar, dadas as possibilidades de aplicação deste tipo de contenção/suporte


dos materiais referidos, haja num futuro próximo, intensificação da utilização de
geossintéticos em obras de engenharia.

143
144
TERCEIRA PARTE – CASO DE ESTUDO

145
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

9. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DO CASO DE ESTUDO

9.1. CARACTERIZAÇÃO GEOMORFOLÓGICA


No estudo “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na ferrovia, incluindo
Telegestão”, (Centro de Geotecnia do IST, 2005), a região de Santarém foi
caracterizada sob diversos parâmetros, de modo a ser possível obter os Mapas de
Risco Geotécnico. A figura seguinte evidência a área em estudo, onde se pode ver
ainda os onze sectores que foram definidos para melhor caracterizar a área.

Figura 9.1. Aspecto geral da área em estudo.


Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

As principais conclusões dessa caracterização encontram-se descritos nos pontos


seguintes.

Santarém situa-se na Bacia Terciária do Tejo, na margem direita do rio, no topo de um


planalto marginado por vertentes que atingem os 95 metros de altura, recortadas pela
incisão fluvial.

146
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

O relevo apresenta uma morfologia do tipo “mesa” originada pela superfície estrutural
da unidade calcária que se localiza no seu topo.

A cotas elevadas, os taludes encontram-se escarpados e quase verticais na parte


superior, enquanto que, a cotas inferiores a 90 metros aproximadamente, os declives
vão progressivamente diminuindo (embora com inclinações da ordem dos 35º a 45º na
zona das Portas do Sol), tornando-se o perfil côncavo junto aos sopés dos taludes.

Este perfil dos taludes resulta do contraste de resistência entre o “cap-rock” calcário e
os solos brandos subjacentes. Assim, e como seria de esperar, na parte inferior da
vertente, os solos arenosos e argilosos produzem um perfil de declive muito mais
baixo do que a rocha calcária dura. (Coelho, 2001)

Na parte superior, o “cap-rock” calcário, protege directamente os materiais brandos


subjacentes, porque o recuo da bancada resistente é muito mais lento do que o destes
materiais.

É necessário que os materiais brandos da zona superior do talude, sob o “cap-rock”


calcário resistente, sofram repetidos deslizamentos para que se produza a
subescavação e desmoronamento da escarpa rochosa. Quando a escarpa se
desmorona, fragmenta-se em blocos que devido à forte inclinação do talude, são
rapidamente removidos por gravidade e por acção do escoamento superficial. Dá-se
assim, a longo prazo, um recuo da escarpa calcária e da parte superior das encostas e
a acumulação de depósitos de vertente na base da encosta, constituídos pelos
materiais escorregados ou transportados pelo escoamento superficial. (Coelho, 2001)

Esta morfologia de erosão dever-se-á ter desenvolvido no decurso da descida de nível


de base correlativa da glaciação Würm, que, no final do Quaternário, retomou a
instalação da rede de drenagem actual e originou o entalhe rápido do Tejo e das linhas
de água afluentes. A erosão ravinosa e o consequente recuo das cabeceiras das
linhas de água, penetraram na capa rochosa calcária provocando a dissecação das
vertentes e originando interflúvios isolados do topo plano, sobranceiros à planície
aluvial do Tejo, caso das Portas do Sol. (Coelho, 2001)

Um factor geologicamente recente desta evolução, foi, certamente, a erosão lateral e


consequente, a erosão do sopé das encostas pelo Rio Tejo, nomeadamente na zona
das Portas do Sol, situada no ponto de máxima curvatura do trajecto côncavo do rio,
onde a acção erosiva durante as cheias era mais intensa.

147
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Esta acção erosiva do rio cessou quando os aterros marginais, construídos desde o
século XIX para a protecção do caminho-de-ferro, passaram também a proteger o
sopé da encosta. (Coelho, 2001).

9.2. CARACTERIZAÇÃO GEOLÓGICA


A área em questão situa-se no vale inferior do Rio Tejo, na margem direita, e
enquadra-se geologicamente na bacia sedimentar do baixo Tejo, a qual corresponde a
uma depressão tectónica complexa, alongada na direcção NE-SW, que sofreu
subsidência ao longo do Cenozóico.

Em termos geológicos, corresponde a formações do Pliocénico na sua maior extensão


e a formações do Miocénico, situadas apenas na zona sul da área.

As principais formações ocorrentes na área em análise são as seguintes:

• “Calcários de Santarém” (P2) – esta formação encontra-se no topo dos relevos


mais elevados, com cotas que rondam os 90 metros. É constituída por calcário
lacustre branco, com alguns metros de espessura. Estes taludes calcários
encontram-se escarpados e quase verticais na parte superior.
Estes calcários encontram-se muito fracturados e fissurados, com vazios de
dissolução, o que lhes confere uma grande permeabilidade, permitindo a
alimentação e a circulação de água a partir da superfície.

• “Grés e argilas com vegetais de Nossa Senhora da Saúde e de Vale de


Santarém” (P1) – esta formação é constituída por intercalações de complexos
areno-siltosos, complexos essencialmente arenosos com areias de
granulometria diversa e complexos de natureza essencialmente siltosa.
Os complexos desta formação exibem uma estrutura regularmente
estratificada, com variações laterais de composição e de espessura, como é
típico dos depósitos continentais, lacustres e fluviais. A estratificação é
horizontal, ou quase horizontal com ligeira inclinação (2 a 3º) para Sudeste.

Os complexos essencialmente arenosos por apresentarem permeabilidades


altas, formam aquíferos múltiplos, suspensos nas intercalações dos complexos
de natureza siltosa de baixa permeabilidade. Foi possível distinguir três níveis
aquíferos mais importantes. A alimentação destes aquíferos faz-se quer
através dos afloramentos da vertente quer pela infiltração dos níveis
superiores.

148
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

• “Calcários, grés e argilas com Hipparion gracile de Azambujeira” (M5) – esta


formação miocénica corresponde a rochas de fácies variável. Desenvolve-se
principalmente em cotas mais elevadas, apenas na zona sul da área em
estudo.
• “Calcários, grés e argilas com vertebrados de Quinta do Marmelal e camadas
com Crassostrea crassíssima do Calhariz e de Alcanhões” (M4) – esta
formação é constituída essencialmente por uma alternância de complexos
detríticos de natureza areno-siltosa, arenosa e de natureza siltosa com
algumas fracções argilosas.

9.3. CARACTERIZAÇÃO TECTÓNICA


De acordo com Cabral (1993), a região de Santarém situa-se no vale inferior do Rio
Tejo e enquadra-se geologicamente na bacia sedimentar do baixo Tejo, a qual
corresponde a uma depressão tectónica complexa, alongada na direcção NE-SW, que
sofreu subsidência ao longo do Cenozóico.

A evolução da bacia sedimentar ao longo do Cenozóico foi condicionada por


importantes acidentes tectónicos encontrando-se alguns deles – provavelmente os
principais – ainda mal caracterizados devido ao seu carácter profundo, não aflorante,
em resultado da subsidência e da sedimentação concomitante (Cabral, 1993).

Segundo Cabral (1993), a ocorrência de actividade tectónica no interior da bacia do


Tejo ao longo do Quaternário, mesmo actualmente, como o testemunha uma
importante sismicidade regional, é controlada por estruturas geológicas profundas, de
que se destaca um acidente tectónico provável, referenciado em numerosa bibliografia
como o lineamento ou falha do vale inferior do Tejo (ou falha do Tejo). Esta,
corresponde a uma estrutura provável de orientação N30ºE, seguida
aproximadamente pelo traçado do rio Tejo no seu troço compreendido entre Vila Nova
da Barquinha e o Barreiro.

Quanto à região de Santarém, as formações terciárias apresentam de grande


horizontalidade.

No entanto, devem-se mencionar algumas excepções relacionadas com a presença de


falhas e de desligamentos. (Zbyszewski, 1953)

149
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Das falhas de orientação NNE-SSW, conhecidas na região de Azambuja e de Vila


Franca de Xira, apenas uma foi observada nas proximidades de Vale da Pinta.
(Zbyszewski, 1953)

Os acidentes de direcção NNW-SSE são mais frequentes, originando duas famílias


principais de fracturas. A primeira, a mais importante, estende-se entre Azambujeira,
Almoster, Fonte Boa e Vale de Santarém. A segunda, foi observada entre Pontével e
Setil. (Zbyszewski, 1953)

No entanto, na área em estudo entre Santarém e Vale de Santarém, não há a


evidências de acidentes tectónicos.

9.4. CARACTERIZAÇÃO CLIMATOLÓGICA


A análise climatológica da região de Santarém baseou-se em dados de precipitação e
temperatura disponibilizados pelo Instituto Meteorológico, referentes às estações de
Santarém e de Almeirim.

• Em relação à precipitação, foi possível constatar que não se encontra


condicionada pela situação geográfica (latitude e longitude). No entanto, em
relação à altitude nota-se uma certa influência, visto que os valores de
precipitação média anual na Estação de Santarém (cota aos 54 m) são mais
elevados do que na Estação de Almeirim, dado que esta estação se encontra a
menor altitude (16 m). Assim, embora a Estação de Almeirim se encontre mais
próxima do Rio Tejo, os seus valores são mais baixos do que os da Estação de
Santarém devido à influência da altitude.
Verificou-se que os anos de 1974 e 1992 são considerados anos secos e que o
ano de 1980 foi um ano muito seco. Relativamente aos anos de precipitação
máxima, correspondem aos anos de 1969, 1996 e 1997.

Assim, para a região de Santarém o valor de precipitação média anual


considerado é 705,75 mm/ano. Importa ainda referir que se verificou que nos
últimos 30 anos houve um decréscimo nos valores de precipitação registados
de cerca de 10%.

150
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 9.1. Características gerais da precipitação (em mm) na região de Santarém.


Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Valores Normais Valores extremos de precipitação

1951-00 Máximo anual Mínimo anual Máximo diário

mm Ano mm Ano mm Dia-Mês-Ano


705,75
1226 1996 371 1945 105 26 -11-1967

• No que diz respeito à temperatura, admite-se para a zona de Santarém uma


temperatura média anual de 16 ºC e uma amplitude térmica anual com valores
de aproximadamente 13ºC.
Pode-se considerar como período seco da estação em estudo, o período que
começa a meados de Abril e se prolonga até meados de Setembro.

Foi possível concluir que não ocorreu qualquer alteração significativa ao longo
do tempo no que respeita à temperatura.

• Quanto à evapotranspiração real, foi estimada pelo Método de Thornthwaite


(balanço hídrico sequencial mensal) conhecendo os valores de capacidade de
campo (100 mm), precipitação, evapotranspiração potencial e assumindo que
no início do ano hidrológico (Outubro) a reserva útil de água no solo é zero.
Assim, para a região de Santarém considera-se o valor de evapotranspiração
real de 501,73 mm/ano.

Tabela 9.2. Tabela síntese dos valores médios obtidos para a região de Santarém.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Precipitação Temperatura Evapotranspiração real Percentagem


(mm/ano) (ºC) (mm/ano) de Infiltração

705,75 16,0 501,73 28,9%

9.5. CARACTERIZAÇÃO HIDROGEOLÓGICA


Tal como foi referido anteriormente, os taludes da área em estudo são constituídos por
complexos sedimentares de composição arenítica intercalados com complexos de
natureza argilosa. No topo dos taludes mais elevados, com cotas que rondam os 90
metros localiza-se a unidade calcária correspondente aos “Calcários de Santarém”.

151
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Estes calcários encontram-se muito fracturados e fissurados, com vazios de


dissolução, o que lhes confere uma grande permeabilidade, permitindo a alimentação
e a circulação de água a partir da superfície.

Na série detrítica subjacente, as camadas arenosas mais permeáveis formam


aquíferos múltiplos, suspensos nas intercalações argilosas de baixa permeabilidade. A
alimentação destes aquíferos faz-se quer através dos afloramentos da vertente quer
pela infiltração dos níveis superiores.

De um modo geral, é possível afirmar que se tratam de aquíferos contínuos, devendo


existir, no entanto, zonas de circulação preferenciais. (L.N.E.C., 1976)

Existem ao longo dos taludes várias evidências da circulação de água no maciço,


principalmente ressurgências localizadas acima das camadas argilosas, algumas com
caudais quase permanentes, que aumentam significativamente durante e após os
períodos de precipitação.

9.6. CARACTERIZAÇÃO GEOTÉCNICA


No estudo realizado, para melhor caracterização dos terrenos anexos à via férrea,
foram os mesmos divididos em 11 sectores, em cada um dos quais se definiu o talude
crítico, a partir do qual se procedeu à respectiva caracterização, incluindo a realização
de ensaios geotécnicos de corte directo.

Em síntese, a tabela 9.3. foi construída de acordo com os valores máximos, mínimos e
médios obtidos em laboratório com ensaios de corte. Esta compilação de dados, teve
ainda em consideração os valores obtidos pelas retroanálises efectuadas no estudo.

Tabela 9.3. Valores de coesão e ângulo de atrito adoptados para as três formações indicadas.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Coesão, c (kPa) Ângulo de atrito, φ (º)

Mínimo Médio Máximo Mínimo Médio Máximo

Areias e arenitos 1 14 18 20 32 34,5

Siltes e argilas 18,5 33 45 14,5 22 24

Complexo areno – siltoso 11,5 23,5 29 18 27 29,5

152
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Para além das variáveis aleatórias c e φ, os taludes foram caracterizados pelos


seguintes parâmetros: altura do talude, inclinação média do talude, peso volúmico do
terreno, altura do nível freático, coesão média do terreno, ângulo de atrito médio do
terreno, largura de infiltração no topo do talude, porosidade média do terreno,
condutividade hidráulica, percentagem de infiltração e coeficiente de protecção
atribuído aos muros anexos à via férrea. Estes parâmetros estão descritos na tabela
seguinte.

Tabela 9. 4. Propriedades dos taludes críticos dos 11 sectores em que foi dividido a área em
estudo.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Parâmetros Talude
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11

Altura do talude (m) 61,6 58,7 24,1 43,2 35,8 30,0 84,4 87,7 82,7 39,0 39,4

Inclinação média do
24 27 26 23 23 21 30 23 36 21 23
talude (º)

Peso volúmico do
17,5 17,5 16,4 16,4 16,4 18,5 18,5 18,5 18,5 17,5 17,5
terreno (kN/m3)

Altura do nível freático


30 48 20 31 31 25 68 31 31 31 31
(m)

Coesão média do
23,5 23,5 33,0 33,0 14,0 14,0 14,0 14,0 30,0 23,5 23,5
terreno (kPa)

Ângulo de atrito médio


27,0 27,0 22,0 22,0 32,0 32,0 32,0 32,0 32,0 27,0 27,0
(º)

Largura de infiltração
123 164 204 71 92 51 110 51 32 54 19
no talude (m)

Porosidade média 46,7 46,7 47,6 47,6 47,6 45,8 45,8 45,8 45,8 46,7 46,7

Condutividade -7 -7 -8 -8 -8 -7 -7 -7 -7 -7 -7
1,80E 1,80E 8,30E 8,30E 8,30E 3,50E 3,50E 3,50E 3,50E 1,80E 1,80 E
hidráulica (m/s)

Percentagem de
28 26 29 26 26 24 25 22,5 22 26 27
infiltração (%)

Coeficiente de
0,1 0,1 0,7 0,1 0,1 0,3 0,3 0,1 0,9 0,8 0,7
protecção dos muros

153
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

10. ERODÍMETRO

10.1. GENERALIDADES
INDERBITZEN (1961) propôs um ensaio para determinar em laboratório a quantidade
de solo erodido numa amostra com 152 mm de diâmetro, colocada numa rampa com
inclinação conhecida, quando a sua superfície é exposta a um determinado
escoamento. (in tese de MARCIO KOETZ, 2003).

Desde então, vários autores, como FÁCIO e SANTOS, desenvolveram modificações


ao aparelho original de Inderbitzen, definindo-o como o “Novo ensaio GES - grau de
erodibilidade do solo”, tanto na confecção como na metodologia do próprio ensaio, de
modo a haver um ganho considerável na rapidez do ensaio como na economia de
água, sem qualquer comprometimento do resultado dos ensaios (ORLANDO
CAMPOS et al e, ÉRICILIS FREIRE e LUCIMAR GALVÃO, 2002).

FÁCIO (1991) projectou e construiu uma versão modificada do aparelho proposto por
Inderbitzen que permite variações da declividade, do escoamento e no posicionamento
da amostra, tornando o aparelho mais versátil. O equipamento teve alterações na
largura da rampa, que passou de 1,00 m para 0,33 m; comprimento da rampa, que
passou de 1,00 m para 1,30 m; e na redução do diâmetro das amostras, de 152 mm
para 100 mm. A partir de uma série de ensaios com variações nos valores de
escoamento, da declividade da rampa, do tempo de ensaio e de saturação da
amostra, este autor propôs a realização do ensaio sob condições normalizadas, a
seguir apresentadas:

• tempo de humedecimento = 15 min;

• escoamento = 50 mL s-1;

• declividade da rampa = 100; e

• tempo de ensaio = 20 min.

O humedecimento das amostras é realizado para minimizar as forças associadas à


sucção presente na amostra no seu estado natural. O autor propõe ainda que os
resultados dos ensaios sejam apresentados na forma de gráficos de perda acumulada
de solo (g mm-2) versus tempo (min), o que facilita a análise dos resultados obtidos.

SANTOS (1997) utilizou o equipamento desenvolvido por FÁCIO em 1991 para


determinar os resultados de erodibilidade no município de Goiânia, Brasil. Visando

154
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

melhorar a qualidade dos resultados obtidos foram feitas algumas modificações no


aparelho utilizado por FÁCIO (1991). A rampa na qual ocorre o escoamento teve a sua
largura reduzida para 100 mm, assegurando que todo o escoamento se processasse
sobre a amostra e não ao seu lado. O tempo de ensaio foi aumentado para 30 min,
para melhor se poder caracterizar o comportamento da perda de solo com o tempo. O
material carreado pelo escoamento superficial é colectado em peneiras com 0,074 mm
de abertura (#200 da ABNT), sendo depois seco em estufa e pesado.

FRAGASSI (2001) realizou o estudo da erodibilidade de solos residuais de gnaisse da


Serra de São Geraldo e de Viçosa, Minas Gerais, Brasil, utilizando o ensaio de
Inderbitzen. O mesmo autor cita que a principal mudança no aparelho de Inderbitzen
utilizado em relação ao de SANTOS (1997), está no diâmetro da amostra, que foi
aumentada para 152 mm.

ORLANDO CAMPOS, et al (2003), também desenvolveu uma versão de um novo


aparelho de forma a atingir alguns objectivos específicos como: permitir a facilidade de
uso e operação; apresentar custos mais reduzidos relativamente ao ensaio original;
permitir a utilização de materiais de fácil aquisição; e permitir a resolução de alguns
problemas existentes em versões convencionais como a concentração do fluxo na
rampa de descida da água ou a liberdade de utilização de inclinações de rampa
aleatórias.

No Centro de Geotecnia do IST, em 2004, foi desenvolvido um novo equipamento,


utilizado na presente dissertação, cuja descrição se encontra no capítulo seguinte.

10.2. DESCRIÇÃO DO APARELHO E DO ENSAIO


O equipamento utilizado para a realização dos ensaios foi o Erodímetro, aparelho
composto por (ver figura 10.1) dois dispositivos uma calha com aproximadamente 1m
de comprimento e 0,18m de largura, fixa sobre um tampo basculante, em que no seu
fim possui um amostrador com uma profundidade de 4cm e uma área de
0,15m x 0.13m, onde é colocado o provete em ensaio.

Como se pode observar na mesma figura, existem dois pontos distintos de distribuição
de água:

• Um, consta de uma caixa de fundo perfurado e com área equivalente à da


superfície livre do provete, que lança gotas de água directamente sobre o
mesmo, de modo a criar o efeito dos pingos de chuva;

155
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

• O outro, consta de um tubo perfurado (8 furos) que lança água no topo superior
da rampa (calha). A água escorre ao longo da calha em regime laminar, graças
às tiras de acrílico colocadas longitudinalmente na mesma.

Uma vez que a plataforma onde se encontra a amostra é basculante, é possível


realizar ensaios de erodibilidade para diferentes inclinações.

Foi instalada uma bomba de água submersível e um sistema de depósitos de água,


com capacidade de 50 litros cada, em diferentes alturas, por forma a garantir a
reutilização da água, (após três estágios de decantação) sem contaminações do solo
arrastado.

O caudal da água é controlado por um sistema de torneiras, garantindo desta forma


um caudal fixo e constante ao longo do ensaio:

• A torneira azul controla o caudal global do ensaio;

• As torneiras encarnadas controlam o caudal que é dirigido para a calha


(escoamento laminar) e para a caixa perfurada (efeito das gotas da chuva).

O ensaio de erodibilidade consistiu, fundamentalmente, em sujeitar a superfície livre


do solo em ensaio a impactos de gotas de água e, simultaneamente, ao galgamento
dessa mesma superfície por uma lâmina de água escorrente ao longo da plataforma.

Para uma comparação mais fácil dos resultados obtidos com os diferentes provetes de
ensaio e nas diversas condições, o tempo de duração de cada um dos ensaios
realizados foi de 1 hora e 30 minutos e o caudal de água, distribuído pelos dois
dispositivos, foi de sensivelmente 1 litro/ minuto, sendo que o caudal de água lançado
na parte superior da rampa foi sensivelmente duplo do caudal lançado directamente
sobre o provete.

156
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Descargas
de água

Sistema de
controlo do
caudal no
ensaio

Rampa (calha)
Manípulo de
regulação da Sistema de
inclinação da decantação e
rampa reutilização de
água

Amostrador

Tampo
basculante

Transferidor

Figura 10.1. Aspecto geral do Erodímetro.


Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

As amostras sujeitas aos ensaios foram preparadas de acordo com a metodologia


seguinte:

Material sem cobertura vegetal

• Pesagem de 15kN de material;

• Pesagem de 2,5kN de água;

• Mistura do solo com a água

• Colocação da mistura no amostrador até enchê-lo por completo;

• Realização do ensaio de erodibilidade;

• Secagem do material que não foi erodido;

• Pesagem desse material;

• Cálculo da erodibilidade do solo (tendo em atenção as perdas de solo


laboratoriais e os teores de humidade do material).

157
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Figura 10.2. Preparação amostra sem vegetação.


Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Material com cobertura vegetal

• Colocação do solo num molde com as dimensões do amostrador;

• Plantação da vegetação;

• Realização do ensaio de erodibilidade;

• Secagem do material que não foi erodido;

• Pesagem desse material;

• Cálculo da erodibilidade do solo (tendo em atenção as perdas de solo


laboratoriais e os teores de humidade do material).

De modo a obter-se o teor de humidade do solo com vegetação, os moldes com


vegetação foram regados sempre com a mesma quantidade de água, e existiu sempre
um molde em cada bateria de ensaios que foi colocado na estufa, calculando-se assim
a perda de água.

Figura 10.3. Preparação amostra com vegetação (nos moldes).


Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

158
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

10.3. ENSAIOS DE ERODIBILIDADE REALIZADOS


De acordo com a metodologia atrás explanada, foram realizados uma bateria de
ensaios, tendo em consideração três variáveis fundamentais:

• Solo: foram utilizados os dois tipos de solo mais representativos da área em


estudo, Solo areno-siltoso e Solo arenoso;

• Vegetação: dada a impossibilidade de utilizar neste trabalho espécies


arbustivas ou arbóreas, os ensaios de erodibilidade com vegetação, foram
realizados com a espécie gramínea (mais comummente conhecida por relva);

• Inclinação da rampa (de modo a simular a inclinação do talude): o intervalo


utilizado nos ensaios de erodibilidade foi [0º ; 30º].

Os resultados dos ensaios de erodibilidade realizados com amostras de solo areno -


siltoso estão expressos na tabela 10.1 e na figura 10.3. A tabela 10.2 e a figura 10.4
dizem respeito aos resultados das amostras do solo arenoso.

159
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 10.1. Solo areno-siltoso, Erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, em função da
inclinação da rampa.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Peso de solo seco (g)


Inclinação Percentagem do
Situação do solo Antes do Arrastado
da rampa solo arrastado (%)
ensaio
5° 1267 165,9 13,1
10° 1267 234,8 18,5
Sem cobertura 15° 1267 364,0 28,7
vegetal 20° 1267 613,2 48,4
25° 1267 843,8 66,6
30 1267 964,6 76,1
5° 1152,4 2,8 0,24
10° 1069,1 14,6 1,37
Com cobertura
15° 1071,3 27,4 2,56
vegetal (verde)
20° 1073,8 45,4 4,23
de 0.8 pés/m2
25° 1093,9 54,8 5,01
30 1092,4 69,9 6,40
5° 1174,6 1,1 0,09
10° 1205,2 1,3 0,11
Com cobertura
15° 1247,9 1,8 0,14
vegetal (verde)
20° 1251,3 2,7 0,22
de 2.0 pés/m2
25° 1262,2 7,0 0,55
30 1234,6 7,9 0,64
Com cobertura 5° 1262,8 1,4 0,11
vegetal (seca) 10 1267,3 1,5 0,12
de 2.0 pés/m2 15° 1270,1 1,7 0,13
20 1259,8 5,9 0,47
25° 1212,7 8,6 0,71
30 1246,5 9,6 0,77

160
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 10.2. Solo arenoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a
inclinação da rampa.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Peso de solo seco (g)


Inclinação Antes do Arrastado Percentagem do
Situação do solo
da rampa ensaio solo arrastado (%)

5° 1230 390,2 31,7


10° 1230 515,0 41,9
Sem cobertura 15° 1230 688,2 56,0
vegetal 20° 1230 811,1 65,9
25° 1230 968,0 78,7
30° 1230 1079,9 87,8
5° 976,5 121,8 12,5
Com vestígios de 10° 959,8 134,8 14,0
cobertura vegetal 15° 964,0 149,2 15,5
seca e raízes 20° 1010,9 159,1 15,7
(2.0 pés/m2) 25° 984,4 174,8 17,8
30° 965,4 198,9 20,6
5° 1078,2 32,1 3,0
10° 1171,9 66,2 5,6
Com cobertura 1200,2 84,8 7,1
15°
vegetal (verde)
20° 1142,8 109,3 9,6
de 1.2 pés/m2
25° 1186,9 118,8 10,0
30° 1179,8 120,7 10,2
5° 1077,0 59,9 5,6
10° 1170,1 84,2 7,2
Com cobertura 1191,9 114,8 9,6
15°
vegetal (seca)
20° 1131,5 150,1 13,3
de 1.2 pés/m2
25° 1185,4 250,4 21,1
30° 1103,5 281,8 25,5

161
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

100

90
PERCENTAGEM DE SOLO ARRASTADO (%)

80

70

60

50

40

30

20

10

0
0 5 10 15 20 25 30
ÂNGULO DE INCLINAÇÃO DA RAMPA (0)

Solo sem cobertura vegetal Solo com cobertura vegetal verde (0.8 pés/m^2)
Solo com cobertura vegetal verde (2.0 pés/m^2)l Solo com cobertura vegetal seca (2.0 pés/m^2)

Figura 10.3. Solo areno-siltoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a
inclinação da rampa.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

100
PERCENTAGEM DE SOLO ARRASTADO (%)

90

80

70

60

50

40

30

20

10

0
0 5 10 15 20 25 30
0
INCLINAÇÃO DA RAMPA ( )

Sem cobertura vegetal Com raizes de cobertura vegetal (2.0 pés/m^2)


Com cobertura vegetal verde (1.2 pés/m^2) Com cobertura vegetal seca (1.2 pés/m^2)

Figura 10.4. Solo arenoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a
inclinação da rampa.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

162
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Da análise dos dados anteriormente apresentados, pode-se constatar como resultados


preliminares que:

• O solo arenoso, com ou sem vegetação, é mais apto à erosão hídrica do que o
solo areno-siltoso;

• Solo com vegetação apresenta perdas de solo significativamente menores do


que solo sem vegetação;

• Independentemente do tipo de solo, quanto maior é a inclinação, maior a perda


de solo causada pela acção da água.

A partir das percentagens de solo arrastado em cada um dos ensaios efectuados,


determinaram-se, através de correlação linear, para cada tipo de solo, os índices de
resistência do solo à erosão, Ir em função de cada uma das diferentes variáveis do
ensaio (inclinação do talude, densidade da cobertura vegetal e tempo de
pluviosidade).

Para a situação em que não se verifica qualquer arrastamento do solo, considerou-se


a unidade como índice de resistência máxima à erosão. Assim, e relativamente a cada
uma das variáveis, o índice de resistência, do solo à erosão é dado por:

A −B
Ir = [11]
A
Sendo:
A - totalidade do solo ensaiado (peso seco)
B - quantidade de solo arrastado no ensaio (peso seco)

Com base nos valores dos índices de resistência correspondentes a cada uma das
condições de ensaio e respectivos valores das variáveis, determinaram-se os
parâmetros da função que, dentro do intervalo das variáveis dos ensaios (inclinação
do talude, α, densidade da cobertura vegetal, D, e tempo de ensaio, T) e para o caudal
de água nos ensaios (≅ 1 l/min), relacionam o índice de resistência do solo à erosão,
motivada pela água das chuvas, com aquelas três variáveis em simultâneo. O índice
de resistência do solo em função das variáveis dos ensaios é bem definido por uma
função múltipla linear.

163
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Na tabela 10.3 apresentam-se as funções que relacionam o índice de resistência à


erosão dos solos ensaiados com as variáveis de ensaio, bem como os
correspondentes coeficientes de correlação, para os seguintes intervalos daquelas
mesmas variáveis:

• Inclinação do talude (α): 0º a 30º


• Densidade da cobertura vegetal (D: 0 a 2.0 pés /m2 (solo arenoso)
0 a 2.0 pés /m2 (solo areno-siltoso)
• Tempo de ensaio (T): 0 a 1,5h
Tabela 10.3. Índices de resistência do solo à erosão, em função das variáveis de ensaio.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Coeficiente
Solo Índice de resistência do solo (Ir)
de correlação
Areno-siltoso Ir = 1 - 0,7413 senα +0,0042 D – 0,2555 T 0,913
Arenoso Ir = 1 - 0,7634 senα +0,0017 D – 0,0970 T 0,864

Uma vez que este índice foi obtido para uma zona específica (solos da área em
estudo), a equação do índice de resistência do solo pode tomar a forma genérica a
seguir apresentada, em que cada coeficiente numérico a, b, c são característicos de
cada região e em função de cada solo.

Ir = 1 − a × senα + b × D − c × T [12]

11. O FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO («DEBRIS FLOW»)

11.1. CASO GERAL


A grande maioria dos taludes que constituem os casos de engenharia são constituídos
por deslizamentos planares ou circulares ou deslizamentos de cunhas rochosas e
tombamentos de blocos ou combinações entre estes quatro tipos (HOEK & BRAY,
1977).

De modo a definir probabilisticamente os deslizamentos profundos (“deep seated


slidings”) que se manifestam após subidas do nível freático resultantes de significativa
pluviosidade acumulada, e que poderão ocorrer através de mecanismos translacionais
ou rotacionais, as análises matemáticas para determinar o factor de segurança são do
conhecimento geral (por exemplo, Hoek & Bray – Rock Slope Engineering. IMM,
London, 1997; D.J. Varnes – Slope Movement Types and Processes. NRC,
Washington, 1978; Slope/W, Geo-Slope, Calgary, 2002).

164
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Os deslizamentos planares (Figura 11.1) são objecto de análise do equilíbrio de forças


resistentes pelas forças que desencadeiam o movimento, definindo-se um factor de
segurança 2-D (duas dimensões) dado pelo quociente entre o somatório das forças
resistentes R e o das forças motoras M, segundo a expressão geral:

ΣR (Wcosα − U)tgϕ'+c' L
FSP = = [13]
ΣM Wsinα

onde W é o peso de terreno que desliza (com espessura unitária), α o ângulo de


inclinação do plano de deslizamento, U o impulso ascencional da água sobre este
último plano, c’ e φ’ a coesão e o ângulo de atrito efectivos, respectivamente.

Na sua forma mais completa, a expressão do factor de segurança para os


deslizamentos planares assume a seguinte forma:

Fs =
(Wcosβ − kWsinβ + Tcosθ − U − Vsinβ )tgφ ' + c 'L
[14]
Wsinβ + kWcosβ − Tsinθ + Vcosβ

incluindo os termos correspondentes a vibrações (coeficiente sísmico k), pregagens


(de força resultante igual a T, que faz um ângulo θ com a normal ao plano de
deslizamento) e os impulsos da água, respectivamente sob este plano, dado por:

U = 21 γ aLd [15]

e dentro de uma fenda de tracção vertical:

V = 21 γ a d2 [16]

onde γa é o peso volúmico da água e d a distância entre a superfície freática e a base


da fenda de tracção.

Figura 11.1. Deslizamentos planares de taludes.


Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

165
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Por sua vez, o factor de segurança que caracteriza os escorregamentos circulares


resulta do quociente entre os momentos das forças resistentes pelo momento das
forças instabilizadoras em relação ao centro de rotação, ou seja:

θ τ R2
FSC = [17]
WL a

em que R é o raio do círculo de deslizamento, θ o ângulo ao centro, ζ a resistência


mobilizável ao corte e La o braço do momento causado pelo peso do volume
instabilizado.

Figura 11.2. Deslizamentos circulares de taludes.


Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Na sua expressão mais geral o factor de segurança do deslizamento circular é dado


pela equação (FELLENIUS, 1984).

∑ [(W cos θ − h b γ − KW sinθ ) tgφ + c b ]


n '
i =1 i i i i a i i i
Fs = n
[18]
∑ (W sinθ + KW cosθ )
i=1 i i i i

As duas relações que traduzem os factores de segurança dos taludes, com os tipos de
ruptura planar e circular, são subsequentemente tratadas de modo similar através da
aplicação do método de Monte Carlo, sendo a coesão e o ângulo de atrito do terreno
as duas variáveis aleatórias que o permitem implementar.

166
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

11.2. FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO


No que se refere ao mecanismo de instabilização superficial de taludes, os fenómenos
de escorrimentos ou ravinamentos («debris flows»), cuja origem se relaciona com a
ocorrência de chuvas intensas em curtos intervalos de tempo, não é conhecida uma
equação matemática geral para a obtenção do seu factor de segurança.

ORTIGAO e SAYAO (2004), tal como foi referido no capítulo 7, relacionam a


precipitação com a sua duração e obtiveram a equação correspondente ao
desencadeamento dos fenómenos (trigger) dos fenómenos de escorrimento:

P = 22.4 × t 0.41 [19]

onde P é a precipitação acumulada (em mm) e t é o tempo de chuva contínua (em


horas).

No estudo “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na Ferrovia, incluindo


Telegestão”, (Centro de Geotecnia do IST, 2005), foi obtida também, a partir de uma
conjugação de informações provenientes dos fenómenos deste tipo ocorridos na
região de Santarém, a seguinte expressão, (e ver figura 11.3):

P = 0.9925 × T 0.9178 [20]

onde P é a precipitação acumulada (em mm) e T é o tempo de chuva contínua (em


segundos).

Com base na duas expressões anteriores, foi desenvolvida uma equação


probabilística para essa região em que a probabilidade de ocorrência de
escorrimentos, Q, é dada por:

Q = 0.433 × P 0.243 × T −0.126 [21]

onde P é a precipitação acumulada (em mm) e T o tempo de chuva contínua (em


segundos).

167
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

1200

ACCUMULATED PRECIPITATION (mm)


Pontoofde
Point escorrimento
previous anterior na
debris flow
1000 região de Santarém

PRECIPITAÇÃO ACUMULADA (mm)


800
Curva de limite para casos de
Trigger curve for case
escorrimentos históricos
histories of debris flow s
600

0.41
400 P = 22.4 t

200
0.9178
P = 0.9925 t

-2 -1 0 1 2 3 4 5
10 10 10 10 10 10 10 10
TIM E (hour)
TEMPO (horas)

Figura 11.3. Registo Variações da precipitação acumulada vs tempo, para quantificação dos
fenómenos de escorrimento em taludes da área em estudo.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

No entanto, tendo em consideração o que tem vindo a ser descrito neste trabalho,
existe uma importância considerável na estabilidade de taludes de solos devido à
existência de vegetação. Infelizmente, esta equação atrás obtida não leva em
consideração este parâmetro.

Existem alguns trabalhos publicados onde os autores definem o Factor de Segurança


(FS) do deslizamento, através de aplicações informáticas das equações desenvolvidas
por estes, tais como:

A) S. Debray e W.Z. Savage (2001) – recorrem ao programa PLAXIS para calcular o


FS de um escorrimento ocorrido nas imediações de Seatle, Estados Unidos da
América, através da equação do programa:

C + σ n' tanφ
FS = [22]
CR + σ n' tanφ R

168
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Onde, C e ϕ são os valores de coesão e ângulo de atrito do terreno, CR e φR os valores


introduzidos pelo programa PLAXIS, σ’n é a tensão normal efectiva a actuar no plano
de deslizamento.

B) L. Jimeno, S. Pedraza, C. Gonzalez (1999) – desenvolveram um programa


informático que permite calcular o factor de segurança de deslizamentos de taludes,
tendo em consideração, para além das variáveis dos solos e da presença de água, a
influência da vegetação no movimento dos terrenos:

Cr + C s + [q0 + γ(γ sat - γ w )D w ] cos 2 α × tanφ '


FS = [23]
[q0 + γ satD w + γ(D − D w )] × senα × cosα

Onde:
Cr – resistência das raízes; γ – peso volúmico do solo;
Cs – coesão do solo; γsat – peso volúmico do solo saturado;
α – ângulo do talude; γw – peso volúmico da água;
ϕ – ângulo de atrito do solo; D – espessura do solo;
q0 – carga arbórea; Dw – espessura do solo saturado.

C) De referir ainda o contributo dado pelos investigadores G. Furuya, K. Sassa e A.


Suemine (2004), na obtenção de um factor de segurança para um deslizamento
ocorrido num talude numa área onde são recorrentes estes fenómenos, tendo em
conta os parâmetros resistentes do terreno e a inclinação do talude. Estes
investigadores extrapolaram depois, os resultados obtidos para toda a região, criando
um mapa onde o factor de segurança é função do ângulo do talude:

c ' + [γ t × h w + (γ sat − γ w ) × (H − h w )] × cos 2 α × tanϕ


Fs = [24]
[γ t × h w + γ sat × (H − h w )] × cosα × senα
Onde:

c’ – coesão do solo; γsat – peso volúmico do solo saturado;


γt – peso volúmico do solo; H – espessura do solo;
γw – peso volúmico da água; hw – localização do nível piezométrico;
ϕ – ângulo de atrito do solo; α – ângulo do talude.
Neste trabalho, tentou definir-se uma equação que fosse representativa do Factor de
Segurança para escorrimentos de taludes. Como primeira análise, desenvolveu-se a
equação seguinte, tendo em atenção a figura 11.4.

169
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

A nova expressão foi baseada na consideração do equilíbrio limite entre as forças que
resistem ao escorrimento, FR, do terreno superficial do talude e as forças que
promovem essa instabilização, FI (ver figura seguinte).

Figura 11.4. Esquema do escorrimento de taludes.

FR P × cosα × tanφ + (C1 + C 2 ) × L


FS = = [25]
FI Vγ w
P × sinα +
D

Onde:

Fs – factor de segurança
P – Peso do material erodido (kN/m)
α – ângulo do talude (º)
ϕ – ângulo de atrito do solo (º)
2
C1 – coesão do solo (kN/m )
2
C2 – acréscimo de coesão proveniente da vegetação (kN/m )
D – largura do talude / largura da bacia de recepção de água (m)

γW – peso volúmico da água (kN/m3)


H – altura do talude (m)
3
V – precipitação caída no talude e na bacia de recepção a montante do mesmo (m /m),
dada por:

V = p × (D + L × cotgα) [26]

p – precipitação do evento (mm)


L – comprimento do plano frontal do talude (m), dada por:
H
L= [27]
sinα

170
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Atendendo aos ensaios de erodibilidade efectuados, foi possível obter uma correlação
entre o material erodido (P) e o ângulo do talude (α), na forma P = a0 + a1xα + a2xα2,
como evidenciam as figuras seguintes.

2,5
Material erodido (kN)

2,0

y = -0,001x2 + 0,0708x + 1,035


R2 = 1

1,5
10 15 20 25 30
Ângulo do Talude (º)

Figura 11.5. Correlação entre a inclinação do talude (º) e o material erodido (kN/m) para solo areno-
siltoso.

11,0
Material Erodido (kN)

10,0

y = -0,0002x2 + 0,1057x + 7,986


R2 = 1

9,0
10 15 20 25 30
Ângulo do Talude (º)

Figura 11.6. Correlação entre a inclinação do talude (º) e o material erodido (kN/m) para solo
arenoso.

Desta forma, substituindo na equação do FS [25], “P - Peso do material erodido” por:

“-0,001α2+0,0708α+1,035”, para solos areno-siltosos;

“-0,0002α2+0,1057α+7,986” para solos arenosos

171
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

é possível avaliar a evolução do factor de segurança em função da inclinação do


talude e da precipitação, para cada tipo de solo e para diferentes tipos de planta (de
acordo com a tabela 8.4).

Factor de segurança para solo areno-siltoso

FS =
(- 0.001α + 0.0708α + 1.035) × cosα × tanφ + (C + C ) × L
2
1 2
[28]
(- 0.001α + 0.0708α + 1.035) × sinα + VγD
2 w

Factor de segurança para solo arenoso

FS =
(- 0.0002α + 0.1057α + 7.986 )× cosα × tanφ + (C + C ) × L
2
1 2
[29]
(- 0.0002α + 0.1057α + 7.986 )× sinα + VγD
2 w

As tabelas e as figuras que se seguem ilustram os resultados obtidos na utilização


destas equações.

A tabela seguinte resume os parâmetros utilizados para a obtenção destes dois


factores de segurança, de acordo com a geometria do Erodímetro:

Tabela 11.1. Parâmetros utilizados para a obtenção do factor de segurança.

Parâmetros Resistentes
CI2 CII2 CIII2 CIV2 CIV2
Tipo de
Solo Vegetação Vegetação
ϕ C1
Sem Vegetação Vegetação arbórea de arbórea
vegetação rasteira arbustiva pequeno de grande
porte porte
Areno-
27 23,5 0 1 5 10 15
siltoso

Arenoso 32 14 0 1 5 10 15

Os restantes parâmetros utilizados foram:

D = 1,00m
L = 0,15 x cos α m
α: [5º ; 45º]
Caudal: [0m3 ; 100m3]
V: [0 m3/m ; 110,61m3/m]

172
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 11.2. Factor de segurança para solos sem vegetação.

Caudal Factor de Segurança (FS)


Tipo de Solo

m3 5º 10º 15º 20º 25º 30º 35º 40º 45º


0 35,363 15,057 8,929 6,122 4,560 3,585 2,928 2,460 2,115
0,1 4,749 4,090 3,467 2,937 2,503 2,151 1,864 1,629 1,434
0,2 2,546 2,366 2,151 1,932 1,725 1,536 1,368 1,218 1,085
0,3 1,739 1,665 1,559 1,439 1,316 1,195 1,080 0,972 0,872
0,4 1,320 1,284 1,223 1,147 1,064 0,978 0,892 0,809 0,729
0,5 1,064 1,045 1,006 0,953 0,892 0,827 0,760 0,693 0,627

Solo Areno-siltoso 1 0,540 0,541 0,533 0,517 0,495 0,467 0,437 0,403 0,368
(sem vegetação) 2 0,272 0,276 0,275 0,270 0,261 0,250 0,236 0,220 0,201
5 0,109 0,111 0,112 0,111 0,108 0,104 0,099 0,093 0,085
10 0,055 0,056 0,056 0,056 0,055 0,053 0,050 0,047 0,044
15 0,037 0,037 0,038 0,037 0,037 0,035 0,034 0,032 0,029
20 0,027 0,028 0,028 0,028 0,028 0,027 0,025 0,024 0,022
50 0,011 0,011 0,011 0,011 0,011 0,011 0,010 0,010 0,009
100 0,005 0,006 0,006 0,006 0,006 0,005 0,005 0,005 0,004
0 9,963 4,864 3,155 2,293 1,769 1,414 1,155 0,955 0,795
0,1 4,900 3,268 2,409 1,876 1,511 1,243 1,036 0,870 0,733
0,2 3,249 2,461 1,948 1,588 1,319 1,109 0,940 0,800 0,680
0,3 2,430 1,973 1,636 1,376 1,170 1,001 0,860 0,739 0,634
0,4 1,941 1,647 1,409 1,214 1,051 0,913 0,793 0,688 0,594
0,5 1,616 1,413 1,238 1,087 0,955 0,838 0,735 0,643 0,559

Solo Arenoso 1 0,879 0,827 0,770 0,712 0,654 0,596 0,539 0,484 0,431
(sem vegetação) 2 0,460 0,452 0,439 0,422 0,401 0,377 0,352 0,324 0,296
5 0,189 0,191 0,191 0,190 0,186 0,180 0,172 0,163 0,152
10 0,096 0,098 0,099 0,099 0,098 0,096 0,093 0,089 0,084
15 0,064 0,066 0,067 0,067 0,067 0,065 0,064 0,061 0,058
20 0,048 0,049 0,050 0,051 0,050 0,050 0,048 0,047 0,044
50 0,019 0,020 0,020 0,020 0,020 0,020 0,020 0,019 0,018
100 0,010 0,010 0,010 0,010 0,010 0,010 0,010 0,010 0,009

173
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 11.3. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de
coesão é de 1kN/m.

Caudal Factor de Segurança (FS)


Tipo de Solo
m3 5º 10º 15º 20º 25º 30º 35º 40º 45º
0 36,620 15,575 9,228 6,323 4,708 3,700 3,022 2,539 2,183
0,1 4,918 4,230 3,583 3,034 2,584 2,220 1,924 1,681 1,480
0,2 2,636 2,447 2,223 1,995 1,781 1,586 1,411 1,257 1,120
0,3 1,801 1,722 1,612 1,487 1,358 1,233 1,114 1,004 0,900
0,4 1,367 1,328 1,264 1,185 1,098 1,009 0,921 0,835 0,753
0,5 1,102 1,081 1,040 0,985 0,921 0,854 0,784 0,715 0,647
Solo Areno-siltoso 1 0,559 0,560 0,551 0,534 0,511 0,482 0,451 0,416 0,380
(com vegetação) 2 0,282 0,285 0,284 0,279 0,270 0,258 0,244 0,227 0,208
5 0,113 0,115 0,116 0,115 0,112 0,108 0,102 0,096 0,088
10 0,057 0,058 0,058 0,058 0,057 0,055 0,052 0,049 0,045
15 0,038 0,039 0,039 0,039 0,038 0,037 0,035 0,033 0,030
20 0,028 0,029 0,029 0,029 0,028 0,028 0,026 0,025 0,023
50 0,011 0,012 0,012 0,012 0,011 0,011 0,011 0,010 0,009
100 0,006 0,006 0,006 0,006 0,006 0,006 0,005 0,005 0,005
0 10,165 4,958 3,213 2,334 1,799 1,437 1,173 0,970 0,807
0,1 4,999 3,331 2,454 1,910 1,537 1,264 1,053 0,884 0,744
0,2 3,315 2,508 1,985 1,616 1,342 1,128 0,955 0,812 0,691
0,3 2,479 2,011 1,666 1,401 1,190 1,018 0,874 0,751 0,644
0,4 1,980 1,679 1,436 1,236 1,070 0,928 0,806 0,699 0,603
0,5 1,648 1,441 1,261 1,106 0,971 0,852 0,747 0,653 0,567
Solo Arenoso 1 0,897 0,843 0,785 0,725 0,665 0,606 0,548 0,492 0,437
(com vegetação) 2 0,469 0,460 0,447 0,429 0,408 0,384 0,358 0,329 0,300
5 0,193 0,195 0,195 0,193 0,189 0,183 0,175 0,166 0,154
10 0,097 0,099 0,101 0,101 0,100 0,098 0,095 0,090 0,085
15 0,065 0,067 0,068 0,068 0,068 0,067 0,065 0,062 0,059
20 0,049 0,050 0,051 0,051 0,051 0,051 0,049 0,047 0,045
50 0,020 0,020 0,021 0,021 0,021 0,021 0,020 0,020 0,019
100 0,010 0,010 0,010 0,010 0,010 0,010 0,010 0,010 0,009

174
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 11.4. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de
coesão é de 5kN/m.

Caudal Factor de Segurança (FS)


Tipo de Solo
m3 5º 10º 15º 20º 25º 30º 35º 40º 45º
0 41,648 17,646 10,424 7,127 5,298 4,160 3,396 2,855 2,456
0,1 5,593 4,793 4,048 3,419 2,908 2,496 2,163 1,890 1,665
0,2 2,998 2,773 2,511 2,249 2,004 1,783 1,586 1,413 1,260
0,3 2,048 1,951 1,821 1,676 1,529 1,386 1,253 1,128 1,013
0,4 1,555 1,505 1,428 1,335 1,236 1,134 1,035 0,939 0,847
0,5 1,253 1,225 1,174 1,110 1,037 0,960 0,882 0,804 0,728

Solo Areno-siltoso 1 0,636 0,634 0,622 0,602 0,575 0,542 0,507 0,468 0,427
(com vegetação) 2 0,321 0,323 0,321 0,314 0,304 0,290 0,274 0,255 0,234
5 0,129 0,131 0,131 0,129 0,126 0,121 0,115 0,108 0,099
10 0,065 0,066 0,066 0,065 0,064 0,061 0,059 0,055 0,051
15 0,043 0,044 0,044 0,044 0,043 0,041 0,039 0,037 0,034
20 0,032 0,033 0,033 0,033 0,032 0,031 0,030 0,028 0,026
50 0,013 0,013 0,013 0,013 0,013 0,012 0,012 0,011 0,010
100 0,006 0,007 0,007 0,007 0,006 0,006 0,006 0,006 0,005
0 10,970 5,335 3,449 2,498 1,922 1,532 1,248 1,030 0,856
0,1 5,396 3,585 2,633 2,045 1,642 1,347 1,120 0,939 0,789
0,2 3,578 2,699 2,130 1,730 1,433 1,202 1,016 0,863 0,732
0,3 2,676 2,164 1,788 1,500 1,271 1,085 0,930 0,798 0,683
0,4 2,137 1,806 1,541 1,323 1,142 0,989 0,857 0,742 0,640
0,5 1,779 1,550 1,354 1,184 1,037 0,909 0,795 0,693 0,602

Solo Arenoso 1 0,968 0,907 0,842 0,776 0,710 0,646 0,583 0,522 0,464
(com vegetação) 2 0,506 0,496 0,480 0,459 0,436 0,409 0,380 0,350 0,318
5 0,208 0,210 0,209 0,207 0,202 0,195 0,186 0,176 0,164
10 0,105 0,107 0,108 0,108 0,106 0,104 0,101 0,096 0,091
15 0,070 0,072 0,073 0,073 0,072 0,071 0,069 0,066 0,063
20 0,053 0,054 0,055 0,055 0,055 0,054 0,052 0,050 0,048
50 0,021 0,022 0,022 0,022 0,022 0,022 0,022 0,021 0,020
100 0,011 0,011 0,011 0,011 0,011 0,011 0,011 0,010 0,010

175
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 11.5. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de
coesão é de 10kN/m.

Caudal Factor de Segurança (FS)


Tipo de Solo
m3 5º 10º 15º 20º 25º 30º 35º 40º 45º
0 47,932 20,235 11,919 8,131 6,036 4,735 3,864 3,249 2,798
0,1 6,437 5,496 4,628 3,901 3,313 2,841 2,461 2,151 1,897
0,2 3,450 3,180 2,872 2,566 2,283 2,029 1,805 1,608 1,435
0,3 2,357 2,237 2,082 1,912 1,741 1,578 1,425 1,284 1,154
0,4 1,790 1,725 1,633 1,523 1,408 1,291 1,178 1,069 0,965
0,5 1,442 1,404 1,343 1,266 1,181 1,092 1,003 0,915 0,829

Solo Areno-siltoso 1 0,732 0,727 0,711 0,687 0,655 0,617 0,576 0,533 0,487
(com vegetação) 2 0,369 0,370 0,367 0,358 0,346 0,330 0,311 0,290 0,267
5 0,148 0,150 0,149 0,147 0,143 0,138 0,131 0,123 0,113
10 0,074 0,075 0,075 0,074 0,073 0,070 0,067 0,062 0,058
15 0,050 0,050 0,050 0,050 0,049 0,047 0,045 0,042 0,039
20 0,037 0,038 0,038 0,037 0,036 0,035 0,034 0,032 0,029
50 0,015 0,015 0,015 0,015 0,015 0,014 0,014 0,013 0,012
100 0,007 0,008 0,008 0,007 0,007 0,007 0,007 0,006 0,006
0 11,978 5,807 3,742 2,704 2,075 1,650 1,342 1,105 0,917
0,1 5,891 3,901 2,858 2,213 1,773 1,451 1,204 1,007 0,845
0,2 3,906 2,938 2,311 1,873 1,547 1,295 1,093 0,925 0,784
0,3 2,922 2,356 1,940 1,623 1,373 1,169 1,000 0,856 0,731
0,4 2,334 1,966 1,672 1,432 1,233 1,065 0,921 0,796 0,685
0,5 1,943 1,687 1,469 1,282 1,120 0,979 0,854 0,744 0,644

Solo Arenoso 1 1,057 0,987 0,914 0,840 0,767 0,696 0,627 0,560 0,497
(com vegetação) 2 0,553 0,539 0,520 0,497 0,470 0,441 0,409 0,375 0,341
5 0,227 0,228 0,227 0,224 0,218 0,210 0,200 0,189 0,175
10 0,115 0,117 0,117 0,117 0,115 0,112 0,108 0,103 0,097
15 0,077 0,078 0,079 0,079 0,078 0,076 0,074 0,071 0,067
20 0,058 0,059 0,059 0,060 0,059 0,058 0,056 0,054 0,051
50 0,023 0,024 0,024 0,024 0,024 0,024 0,023 0,022 0,021
100 0,012 0,012 0,012 0,012 0,012 0,012 0,012 0,011 0,011

176
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 11.6. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de
coesão é de 15kN/m.

Caudal Factor de Segurança (FS)


Tipo de Solo
m3 5º 10º 15º 20º 25º 30º 35º 40º 45º
0 54,217 22,824 13,415 9,136 6,774 5,310 4,332 3,643 3,139
0,1 7,282 6,199 5,209 4,383 3,718 3,186 2,759 2,413 2,129
0,2 3,903 3,587 3,232 2,883 2,562 2,275 2,024 1,803 1,610
0,3 2,666 2,523 2,343 2,148 1,954 1,770 1,598 1,440 1,295
0,4 2,024 1,946 1,837 1,712 1,580 1,448 1,320 1,198 1,083
0,5 1,632 1,584 1,511 1,423 1,326 1,225 1,125 1,026 0,930

Solo Areno-siltoso 1 0,828 0,820 0,801 0,771 0,735 0,692 0,646 0,597 0,546
(com vegetação) 2 0,417 0,418 0,413 0,403 0,388 0,370 0,349 0,325 0,299
5 0,168 0,169 0,168 0,165 0,161 0,155 0,147 0,137 0,127
10 0,084 0,085 0,085 0,083 0,081 0,078 0,075 0,070 0,065
15 0,056 0,057 0,057 0,056 0,054 0,053 0,050 0,047 0,043
20 0,042 0,042 0,042 0,042 0,041 0,040 0,038 0,035 0,033
50 0,017 0,017 0,017 0,017 0,016 0,016 0,015 0,014 0,013
100 0,008 0,009 0,009 0,008 0,008 0,008 0,008 0,007 0,007
0 12,985 6,278 4,036 2,910 2,228 1,769 1,435 1,181 0,977
0,1 6,387 4,218 3,082 2,381 1,903 1,555 1,288 1,076 0,901
0,2 4,235 3,176 2,493 2,015 1,661 1,388 1,169 0,988 0,836
0,3 3,167 2,547 2,093 1,747 1,474 1,253 1,069 0,914 0,780
0,4 2,530 2,126 1,803 1,541 1,324 1,142 0,986 0,850 0,730
0,5 2,106 1,824 1,584 1,379 1,202 1,049 0,914 0,794 0,687

Solo Arenoso 1 1,146 1,067 0,985 0,904 0,823 0,746 0,671 0,599 0,530
(com vegetação) 2 0,599 0,583 0,561 0,535 0,505 0,472 0,437 0,401 0,363
5 0,247 0,247 0,245 0,241 0,234 0,225 0,214 0,201 0,187
10 0,124 0,126 0,126 0,125 0,123 0,120 0,116 0,110 0,103
15 0,083 0,085 0,085 0,085 0,084 0,082 0,079 0,076 0,071
20 0,063 0,064 0,064 0,064 0,063 0,062 0,060 0,058 0,055
50 0,025 0,026 0,026 0,026 0,026 0,025 0,025 0,024 0,023
100 0,013 0,013 0,013 0,013 0,013 0,013 0,012 0,012 0,011

177
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
0, 1
0,

0,00
2
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

3
Caudal (m ) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50
0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,

0,00
2
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

Caudal (m3) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50
0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

3
Figura 11.7. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal (m )
para solo areno-siltoso e solo arenoso, sem vegetação.

178
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,

0,00
2
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

3
Caudal (m ) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50
0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,
2

0,00
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

Caudal (m3) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50

0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

3
Figura 11.8. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal (m )
para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 1kN/m).

179
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,

0,00
2
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

Caudal (m3) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50
0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,
2

0,00
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

Caudal (m3) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50

0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

3
Figura 11.9. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal (m )
para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 5kN/m).

180
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,

0,00
2
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

Caudal (m3) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50
0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,
2

0,00
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

25
Caudal (m3)
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50

0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

Figura 11.10. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal
3
(m ) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 10kN/m).

181
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,

0,00
2
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

Caudal (m3) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50
0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00

50,00

40,00

30,00 FS

20,00

10,00
0
1
0,
2

0,00
0,
3
0,
4
0,

45
5
0,

40
1

35
2

30
5

Caudal (m3) 25
10

20
15

15
20

10 Inclinação (º)
5
50

0
10

5 10 15 20 25 30 35 40 45

Figura 11.11. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal
3
(m ) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 15kN/m).

182
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Como conclusões aos dados atrás expostos, constata-se que:

• Fixando o caudal num qualquer valor, (e.g. 1m3) e tomando como exemplo o
solo areno-siltoso, é fácil construir um gráfico (em baixo representado) onde se
pode verificar que o Factor de Segurança aumenta com o incremento da
coesão das plantas. Isto é verdade para qualquer outro caudal;

FS do talude em função da inclinação e do incremento da coesão

0,90

0,80

0,70
FS
0,60

0,50

0,40

15
15º

10
5
25º

1
Inclinação (º) Coesão
0
35º

(kN/m)
45º

Figura 11.12. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e da Coesão
3
(kN/m) para solo areno-siltoso, para um caudal fixo de 1m .
• O solo anero-siltoso é muito mais estável que o solo arenoso, conseguindo,
para este caso, factores de segurança superiores à unidade em taludes de 45º,
para caudais não superiores a 0,2m3;

• O ponto crítico para qualquer dos dois tipos de solo estudados situa-se para
caudais compreendidos entre 0,5m3 e 1m3.

11.3. COMPARAÇÃO DO FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO COM O FACTOR

DE SEGURANÇA DE JIMENO E GONZALEZ

Uma vez obtida a equação geral para o Factor de Segurança ao escorrimento de


taludes neste trabalho (equação 25, caso geral e equações 28 e 29 para solos areno-
siltosos e arenosos, respectivamente), segue-se uma comparação com a equação
desenvolvida por Jimeno e Gonzalez (equação 23).

Para a análise destes Factores de Segurança foram utilizados os dados de dois


taludes caracterizados no estudo “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na
ferrovia, incluindo Telegestão”, (Centro de Geotecnia do IST, 2005):

183
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

• Talude do sector 6 (Outeiro da Forca), caracterizado por ser constituído quase


na sua totalidade por solo arenoso. Foram registados, neste talude, dois
escorrimentos importantes: um a 7 de Novembro de 1966; e outro a 15 de
Março de 1969;

• Talude do sector 7 (Quebradas), caracterizado por ser constituído quase na


sua totalidade por solo arenoso. Foi registado um escorrimento importante a 19
de Março de 1969.

O elemento a caracterizar encontra-se, em ambos os casos, a 5m de altura no talude


estando os parâmetros usados, compilados na tabela seguinte:

Tabela 11.7. Parâmetros utilizados para o cálculo do Factor de segurança.


Talude crítico do sector
Parâmetros
6 7
Solo Material predominante Arenoso Arenoso
H Altura do talude (m) 30,0 84,4
H’ Altura do elemento a caracterizar (m) 5 5
D Largura de infiltração no talude (m) 51 110
Coeficiente do plano frontal do talude
L 69,76 158,8
((H-H’) / sinα) (m)
α Inclinação média do talude (º) 21 30
3
γ Peso volúmico do solo seco (kN/m ) 1,2 1,2
3
γsat Peso volúmico do solo saturado (kN/m ) 1,7 1,7
3
γw Peso volúmico da água (kN/m ) 1 1

φ Ângulo de atrito médio (º) 27,0 27,0


2
C1 Coesão média do terreno (kN/m ) 23,5 23,5
Árvores de porte
Acréscimo de coesão proveniente da Vegetação
C2 2
vegetação (kN/m )
médio alto e
rasteira:2
arbustos: 10
2
q0 Carga arbórea (kN/m ) 0,6 0,2
D* Espessura do solo (m) 5,0 5,0
Variável: optou-se por utilizar Dw =
0m para precipitações inferiores a
Dw Espessura do solo saturado (m)
5mm e Dw = 5m para precipitações
superiores a este valor
Variável: o FS foi calculado fazendo
variar a precipitação nesses dois
Precipitação acumulada no talude e na taludes. Os três últimos valores de
V bacia de recepção a montante do talude precipitação apresentados na tabela
3
(precipitação x (D+L x cotgα) x 1m (m /m) seguinte dizem respeito às
precipitações que provocaram os
escorrimentos atrás mencionados

184
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

Tabela 11.8. Comparação do factor de segurança das duas equações, aplicadas em dois
taludes reais.

Precipitação FS
Talude
(mm)
FS Escorrimento FS Jimeno e Gonzalez
0 463,39 11,14
1 14,03 11,14
5 2,88 11,14
6 10 1,44 8,08
31,5 0,46 8,08
75,4 0,19 8,08
116,9 0,12 8,08
0 464,01 6,02
1 10,07 6,02
5 2,05 6,02
7 10 1,03 4,29
31,5 0,33 4,29
75,4 0,14 4,29
116,9 0,09 4,29

A tabela anterior permite tecer algumas considerações:

• A equação introduzida neste trabalho permite prever o fenómeno de


escorrimento de um talude, em função da precipitação que nele ocorre;

• A equação do FS definida por Jimeno e Gonzalez, por ser uma equação que
deriva da equação geral dos deslizamentos planares, não consegue ser um
bom instrumento de aplicação para a previsão de escorrimentos (veja-se a
fraca variação do FS em ambos os casos), uma vez que não contempla a
variável precipitação na mesma;

• Os FS’s obtidos para os valores de precipitação que antecederam os eventos


de escorrimentos nos taludes 6 e 7 (bastante reduzidos), comprovam a
aplicabilidade da equação [25].

185
Mestrado em Georrecursos
Caso de Estudo

11.4. CONCLUSÕES
As principais conclusões retidas neste capítulo são as que a seguir se enumeram:

• Para o mesmo caudal de precipitação, a quantidade de solo erodido aumenta


de forma acentuada com a inclinação do talude, comprovado pela diminuição
do factor de segurança;

• Para o mesmo tipo de solo, as mesmas inclinações da rampa, o mesmo caudal


de água e o mesmo tempo de ensaio, a quantidade de solo arrastado em
amostras com cobertura vegetal, é muito reduzido, quando comparado com o
solo arrastado em amostras sem qualquer cobertura vegetal;

• O factor de segurança diminui com o aumento da pluviosidade;

• O factor de segurança aumenta com o incremento da coesão global, provocada


pela incorporação da vegetação, como era de esperar;

• A equação introduzida neste trabalho [25] permite prever o fenómeno de


escorrimento de um talude, em função da precipitação que nele ocorre, como
pode ser comprovado no cálculo dos FS’s para os valores de precipitação que
antecederam os eventos de escorrimentos nos taludes 6 e 7 (bastante
reduzidos);

• A equação do FS definida por Jimeno e Gonzalez, por ser uma equação que
deriva da equação geral dos deslizamentos planares, não consegue ser um
bom instrumento de aplicação para a previsão de escorrimentos, uma vez que
não contempla a variável precipitação na mesma.

186
QUARTA PARTE – CONCLUSÕES E FUTURAS LINHAS
DE INVESTIGAÇÃO

187
Mestrado em Georrecursos
Conclusões e futuras linhas de investigação

12. CONCLUSÕES

12.1. RESULTADOS OBTIDOS


É reconhecida a ausência de contribuições geotécnicas para estudo do problema da
erosão.

A contribuição desta tese foi baseada em investigações bibliográficas, ensaios


laboratoriais e trabalhos de campo realizados sobre o tema.

Como principal resultado, conseguiu-se quantificar as perdas de material resultantes


de fenómenos de escorrimento, identificando as variáveis mais influentes do processo
e ainda, sugeriu-se a definição de um factor de segurança especifico para o fenómeno
do escorrimento.

Na geotecnia clássica existem métodos de estabilização de taludes que omitem a


revegetação, revegetação essa que permite uma melhor integração ambiental do
talude e em muitos casos, é sem dúvida um processo de contenção muito mais
económico.

Uma vez que o FS obtido é baseado em dados específicos de um caso real é provável
que as equações específicas (equações [28] e [29]) não sejam extrapoláveis para
outras situações; no entanto a sua essência (equação geral do factor de segurança
[25]) deverá ser mantida uma vez que se baseia no critério do equilíbrio limite, que é
típico da Geotecnia.

12.2. SUGESTÕES PARA FUTURAS LINHAS DE INVESTIGAÇÃO


Para futuras linhas de investigação, sugere-se a realização de novos ensaios de
erodibilidade, tentando utilizar vegetação de maior porte, de modo a poder averiguar a
influência efectiva das propriedades físicas externas destas (e.g. tipo de folha), à
queda de água sobre a superfície;

Caracterização detalhada de taludes facilmente acessíveis, como por exemplo, taludes


recuperados de explorações a céu aberto, onde é possível, com relativamente
facilidade conceber um Erodímetro «natural», e consequentemente, obter dados mais
próximos da realidade, permitindo ainda, o estudo com árvores de médio e grande
porte, situação não possível em laboratório.

188
Mestrado em Georrecursos
Conclusões e futuras linhas de investigação

Extrapolação da definição dos FS’s aos deslizamentos, em função das novas


aplicações com o objectivo de promover estudos de estabilização, baseada em
trabalhos de revegetação intensiva.

189
190
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Mestrado em Georrecursos
Referências bibliográficas

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