UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO

CONTRIBUIÇÕES GEOTÉCNICAS PARA O ESTUDO DO PROBLEMA DA EROSÃO José Manuel Avelar Duarte Silva de Oliveira
(Licenciado)

Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Georrecursos

Orientador: Doutor Carlos Altino Jansen Verdades Dinis da Gama

Julho de 2006

…aos meus Pais, irmãos, e à Andreia.

AGRADECIMENTOS
Gostava, antes de mais, agradecer ao meu Orientador Professor Carlos Dinis da Gama, pelos ensinamentos que me transmitiu ao longo dos anos, pelo apoio na realização desta tese, e cujo acompanhamento foi fundamental para que o trabalho chegasse a bom porto. Aos professores da Secção de Exploração de Minas do Departamento de Engenharia da Minas: Professora Matilde Silva; Professora Paula Falcão Neves; Professor Pedro Bernardo; Professor Vidal Torres e Engenheiro Simone Longo, gostava de deixar o meu apreço pelos ensinamentos cuja data já remetem o ano 1993 e que desde então têm sido fundamentais, não só para a realização desta dissertação mas também ao longo da minha vida profissional. Gostava ainda agradecer a todos os restantes colaboradores desta Secção, em especial ao Sr. Paulo Fernandes e ao Sr. Manuel Reis e Sousa, quer pelo tempo, paciência e apoio dispendido aquando da realização dos ensaios laboratoriais quer pela ajuda na resolução de problemas técnicos dos mesmos. A todos os Colegas e Amigos que desde o início me instigaram e apoiaram na realização deste mestrado, cujo culminar se encontra nas páginas seguintes, um muito obrigado. À SECIL, SA, pela compreensão e cedência de tempo que me disponibilizou, nesta fase final de conclusão do documento. Aos meus Pais, Manuel de Oliveira e Maria Luísa Oliveira, e irmãos, Filipa e Luís Filipe, pelo seu amor em momentos bons e menos bons e por terem compreendido e aceite a necessidade de tantos outros mais ausentes. Aos meus avós pelo espaço dispendido na sua casa e por tantas outras coisas... Por fim, não poderia deixar de agradecer à Andreia pelo apoio total, dedicação, carinho e também, muita compreensão durante todo este processo.

...A todos vós dedico este trabalho. i

ii

RESUMO
A importância do combate à erosão dos terrenos é a principal justificação para o envolvimento da Geotecnia na tentativa de minimizar este fenómeno natural. Com a metodologia própria da Geotecnia Ambiental procurou-se caracterizar os contornos desse problema e procedeu-se à análise de técnicas de estabilização com recurso à drenagem controlada e à aplicação intensiva de revegetação. Procurou-se quantificar a susceptibilidade dos terrenos à erosão, através de um factor de segurança inovador que permite envolver a aplicação das citadas técnicas de estabilização.

PALAVRAS-CHAVE: Erosão Drenagem Susceptibilidade Geotecnia Ambiental Revegetação Factor de Segurança

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ABSTRACT
GEOTECHNICAL CONTRIBUTIONS TO THE STUDY OF EROSION The importance of fighting ground erosion is the main reason for involving Geotechnics in attempting to minimize this natural phenomenon. With the peculiar methodology of Environmental Geotechnics the problem was assessed and application of stabilization techniques such as controlled drainage and intensive revegetation were described. The susceptibility of ground with respect to erosion was sought trough the proposition of an innovative safety factor, which may involved the relevant stabilization techniques.

KEY WORDS: Erosion Drainage Susceptibility Environmental Geotechnics Revegetation Safety factor

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ÍNDICE GERAL

PRIMEIRA PARTE – A ALTERAÇÃO DAS ROCHAS E OS AGENTES EROSIVOS 1. INTRODUÇÃO 1.1. PANORAMA INTERNACIONAL 1.2. PANORAMA NACIONAL 2. ALTERAÇÃO DAS ROCHAS (METEORIZAÇÃO) 3. EROSÃO E EROSIVIDADE 3.1. DEFINIÇÃO 3.2. EROSÃO HÍDRICA 3.2.1. TIPOS DE EROSÃO HÍDRICA 3.2.2. EROSÃO PROVOCADA PELOS CURSOS DE ÁGUA, VAGAS OCEÂNICAS E GLACIARES 3.2.3. CURVAS DE HJULSTROM 3.3. EROSÃO EÓLICA 4. OUTROS FACTORES QUE INFLUENCIAM A EROSÃO 4.1. FACTORES NATURAIS 4.1.1. A FORÇA DA GRAVIDADE 4.1.2. RELEVO TOPOGRÁFICO 4.1.3. SISMICIDADE E VULCANISMO 4.1.4. SUBSIDÊNCIA REGIONAL 4.1.5. ESTADO TENSIONAL 4.1.6. ACTIVIDADE BIOLÓGICA E COBERTURA VEGETAL 4.2. ACTIVIDADE HUMANA 5. ERODIBILIDADE 5.1. DEFINIÇÃO 5.2. SOLO 5.2.1. DEFINIÇÃO 5.2.2. PROPRIEDADES DOS SOLOS 5.2.2.1. TEXTURA DE UM SOLO 5.2.2.2. ESTRUTURA DE UM SOLO 5.2.2.3. RESISTÊNCIA AO CORTE DE UM SOLO 5.2.2.4. CAPACIDADE DE INFILTRAÇÃO 5.2.2.5. COMPONENTES ORGÂNICOS E MINERAIS DE UM SOLO SEGUNDA PARTE – ESTABILIDADE DE TALUDES 6. TIPOLOGIA E DESENVOLVIMENTO DOS MOVIMENTOS DE MASSAS 6.1. CLASSIFICAÇÃO DOS MOVIMENTOS DE MASSAS 6.2. MOVIMENTOS COM PREDOMÍNIO DA TRAJECTÓRIA VERTICAL 6.3. MOVIMENTOS DE ROTAÇÃO DE BLOCOS POR FRACTURAÇÃO VERTICAL vii

1 3 4 7 13 18 18 24 29 32 37 39 44 44 44 45 50 51 51 52 55 59 59 59 59 62 62 64 66 67 68 71 72 72 72 74

6.4. MOVIMENTO DE DESLIZAMENTO DE GRANDES BLOCOS 6.5. MOVIMENTO COM EXTRUSÃO PLÁSTICA LATERAL 6.6. MOVIMENTO COMPLEXOS 6.7. OUTROS MOVIMENTOS 6.8. CORRENTES 7. RISCO, FACTOR DE SEGURANÇA E INCERTEZA 7.1. INTRODUÇÃO 7.2. RISCO 7.2.1. DEFINIÇÃO 7.2.2. MATRIZ DE RISCO GEOTÉCNICO 7.2.3. MAPA DE RISCO GEOTÉCNICO 7.3. PROBABILIDADE E INCERTEZA, FACTOR DE SEGURANÇA 7.4. CUSTO ASSOCIADO À ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES 8. MÉTODOS DE ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES 8.1. INTRODUÇÃO 8.2. ESTABILIZAÇÃO POR MODIFICAÇÃO DA GEOMETRIA DO TALUDE 8.2.1. INTRODUÇÃO 8.2.2. DESCABEÇAMENTO 8.2.3. ENROCAMENTO NA BASE DO TALUDE 8.2.4. BERMAS 8.2.5. REPERFILAMENTO DO TALUDE 8.3. ESTABILIZAÇÃO POR DRENAGEM 8.3.1. GENERALIDADES 8.3.2. DRENAGEM SUPERFICIAL 8.3.3. DRENAGEM PROFUNDA 8.3.3.1. CLASSIFICAÇÕES E CONSIDERAÇÕES GERAIS 8.3.3.2. DRENOS HORIZONTAIS 8.3.3.3. DRENOS VERTICAIS FIBROQUÍMICOS 8.3.3.4. POÇOS VERTICAIS DE DRENAGEM 8.3.3.5. GALERIAS DE DRENAGEM 8.3.3.6. VALAS COM ENCHIMENTO DRENANTE 8.4. ESTABILIZAÇÃO SUPERFICIAL RECORRENDO À VEGETAÇÃO 8.4.1. INTRODUÇÃO 8.4.2. PROTECÇÃO DA SUPERFÍCIE DO SOLO 8.4.2.1. PROTECÇÃO CONTRA A EROSÃO POR SALPICAMENTO 8.4.2.2. PROTECÇÃO CONTRA A ESCORRÊNCIA SUPERFICIAL 8.4.2.3. PROTECÇÃO DO SOLO PELAS PLANTAS 8.5. TÉCNICAS DE BIOENGENHARIA 8.6. ESTABILIZAÇÃO RECORRENDO A ELEMENTOS RESISTENTES (MÉTODOS COMPLEMENTARES) 8.6.1. INTRODUÇÃO 8.6.2. MALHAS GUIA 8.6.3. MUROS viii

75 77 78 78 81 82 82 83 83 87 89 90 100 103 103 106 106 106 106 108 109 110 110 112 114 114 116 117 119 120 121 122 122 124 124 128 129 130 133 133 133 134

8.6.3.1. GENERALIDADES 8.6.3.2. MUROS DE GRAVIDADE 8.6.3.3. MUROS DE ATENUAÇÃO 8.6.3.4. MUROS JAULA 8.6.3.5. MUROS DE GABIÕES 8.6.3.6. MUROS DE TERRA ARMADA 8.6.3.7. ENCHIMENTO POSTERIOR AO MURO 8.7. OUTROS SISTEMAS TERCEIRA PARTE – CASO DE ESTUDO 9. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DO CASO DE ESTUDO 9.1. CARACTERIZAÇÃO GEOMORFOLÓGICA 9.2. CARACTERIZAÇÃO GEOLÓGICA 9.3. CARACTERIZAÇÃO TECTÓNICA 9.4. CARACTERIZAÇÃO CLIMATOLÓGICA 9.5. CARACTERIZAÇÃO HIDROGEOLÓGICA 9.6. CARACTERIZAÇÃO GEOTÉCNICA 10. ERODÍMETRO 10.1. GENERALIDADES 10.2. DESCRIÇÃO DO APARELHO E DO ENSAIO 10.3. ENSAIOS DE ERODIBILIDADE REALIZADOS 11. O FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO («DEBRIS FLOW») 11.1. CASO GERAL 11.2. FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO 11.3. COMPARAÇÃO DO FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO COM O FACTOR DE SEGURANÇA DE JIMENO E GONZALEZ 11.3. CONCLUSÕES QUARTA PARTE – CONCLUSÕES E FUTURAS LINHAS DE INVESTIGAÇÃO 12. CONCLUSÕES 12.1. RESULTADOS OBTIDOS 12.2. SUGESTÕES PARA FUTURAS LINHAS DE INVESTIGAÇÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

134 136 137 138 139 141 142 142 145 146 146 148 149 150 151 152 154 154 155 159 164 164 167

183 186 187 188 188 188 191

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ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1.1. Degradação dos Solos Induzida pela Humanidade. Figura 1.2. Perdas de Crescimento da Riqueza Mundial Causadas por Erosão e Desertificação (em Biliões de Dólares por ano) Figura 1.3. Classificação do pH dos Solos. Figura 1.4. Complexos Litológicos. Figura 1.5. Unidades Pedológicas. Figura 1.6. Uso do território nacional em 1996. Figura 1.7. Uso do solo em Portugal continental. Figura 1.8. Susceptibilidade à desertificação. Figura 2.1. Aspecto geral da meteorização (a rocha firme vai-se transformando gradualmente de baixo para cima). Figura 2.2. Alargamento da rocha provocado pelos processos de termoclastia e gelivação. Figura 2.3. Intensidade dos fenómenos de meteorização em função da temperatura e da pluviosidade. Figura 2.4. Intensidade dos fenómenos de meteorização em função da temperatura e da pluviosidade. Figura 3.1. Balanço Hídrico Figura 3.2. Ciclo das Rochas Figura 3.3. Factores que afectam a erosão hídrica. Figura 3.4. Acção mecânica do impacto de uma gota de chuva. Figura 3.5. Erosão por salpicamento. Figura 3.7. Sulcos e Barrancos num talude. Figura 3.8. Torrentes. Figura 3.9. Fases da evolução de um rio. Figura 3.11. Vale glaciário do Zêzere, na serra da Estrela. Figura 3.12. Gráfico de HJULSTROM.

4 6 9 9 10 10 12 14 15 16 17 21 23 26 27 28 32 33 34 36 38

Figura 3.6. Representação esquemática dos diferentes tipos de erosão hídrica. 30

Figura 3.10. Erosão costeira provocada pelas acções das vagas e da ondulação. 35

x

Figura 3.13. Exemplo esquemático da formação de uma «rocha-cogumelo» e fotografia de uma. Figura 3.14. Formação de uma «Duna». Figura 3.15. Principais formas de transporte eólico de sedimentos. Figura 4.1 Reptação Figura 4.2. a) Cones de detritos; b) Talude de detritos. Figura 4.3. Influência do ângulo de inclinação de um talude sobre a erosão e a vegetação. Figura 4.4. Modelos geométricos de dez tipos de taludes e distribuição da escorrência. Figura 4.5. a) Formas típicas de taludes. b) Saldo de materiais Erosão/Sedimentação. Figura 4.6. Influência da cobertura vegetal na acção do vento. Figura 4.7. Efeito das raízes. Figura 5.1. Diagrama triangular para a determinação da textura com indicação da erodibilidade. Figura 5.2. Tipos e classes de estrutura de solos. Figura 6.1. Formação em consola por remoção do estrato mais brando. Figura 6.2. Mecanismos de desprendimentos (a) e colapsos (b). Figura 6.3. Desabamento de blocos individualizados. Figura 6.4. Deslizamento Rotacional. Figura 6.5. Deslizamentos: a) Discordante; b) Concordante. Figura 6.6. Extensões Laterais: a) Fluência e extrusão do material subjacente; b) Expansão e liquefacção. Figura 6.7. Deformação sem ruptura. Figura 6.8. Movimentos de massas desorganizadas ou revoltas. Figura 7.1. Variação da estabilidade de taludes com o clima e a litologia. Figura 7.2. Níveis de risco em diferentes projectos de engenharia. Figura 7.3. Matriz de risco geotécnico. Figura 7.4. Mapa de probabilidade de escorregamentos numa área a sudeste de Wheeling, EUA. Figura 7.5. Factores de Segurança e Probabilidade de Ruptura de um talude. Figura 7.6. Funções de distribuição de probabilidade (FDP) simples do ângulo de atrito e do nível piezométrico. 95 89 94 78 79 80 83 85 88 63 65 73 74 74 76 77 48 54 55 47 46 40 40 41 45 45

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Figura 7.7. Variação típica da probabilidade de instabilização dos taludes com as seguintes variáveis: α (inclinação do talude), L (comprimento de infiltração no topo do talude, H (altura do talude), γ (peso volúmico do terreno, NF (altura do nível freático), n (porosidade do terreno), i (taxa de infiltração face à precipitação), φ (ângulo de atrito), c (coesão), KMV(coeficiente de protecção do talude), K (condutividade hidráulica). Figura 7.8. Variações da perda de material em função da precipitação. Figura 7.9. Níveis críticos da precipitação acumulada (em mm) durante determinados períodos de tempo (h). Figura 7.10. Custo generalizado do talude e determinação da sua inclinação óptima. Figura 7.11. Análise dos custos de intervenção para a redução do perigo ou probabilidade de ocorrência. Figura 7.12. Estabilização dos taludes finais da pedreira de marga da SECIL – Maceira. Figura 7.13. Aplicação de técnicas de estabilização de taludes de estradas com revegetação. Figura 8.1. Enrocamento na base do talude. Figura 8.2. Criação de Bermas. Figura 8.3. Reperfilamento do talude. Figura 8.4. Diferentes tipos de drenos e funções que desempenham. Figura 8.5. Efeitos hidrológicos e mecânicos da vegetação sobre um talude Figura 8.6. Variação da velocidade terminal de queda de uma gota de água em função do diâmetro da gota. Figura 8.7. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função da altura da vegetação (H), para diferentes intensidades de precipitação (mm/h). Figura 8.8. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do grau de cobertura (S), a alturas diferentes da vegetação, H. Diâmetro de gotas de 5 mm Figura 8.9. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do tamanho da gota (), para diferentes alturas de vegetação (H) e diferentes intensidades de precipitação (I). Figura 8.10. Variação da perda do solo em função do grau de cobertura do mesmo e da altura da vegetação que o cobre. xii 128 127 126 126 124 102 107 109 109 111 122 102 101 101 99 98 99

Figura 8.11. Estabilização de taludes e técnicas de bioengenharia. Figura 8.12. Classificação dos muros do ponto de vista funcional: a) Revestimento, b) Sustimento, c) Contenção. Figura 8.13. Ilustração de um muro de gravidade. Figura 8.14. Muro de gravidade com função de revestimento. Figura 8.15. Muro de betão armado. Figura 8.16. Muro com contraforte. Figura 8.17. Esqueleto de um muro jaula composto por vigas de madeira longitudinais e transversais. Foto 8.18. Muro de gabiões. Figura 8.19. À esquerda muro de gabiões com degraus para o exterior, à direita muro de gabiões com degraus para o interior do talude. Figura 9.1. Aspecto geral da área em estudo. Figura 10.1. Aspecto geral do Erodímetro. Figura 10.2. Preparação amostra sem vegetação. Figura 10.3. Preparação amostra com vegetação (nos moldes). Figura 10.3. Solo Arenoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a inclinação da rampa. Figura 10.4. Solo Silto arenoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a inclinação da rampa. Figura 11.1. Deslizamentos planares de taludes. Figura 11.2. Deslizamentos circulares de taludes. Figura 11.3. Registo Variações da precipitação acumulada vs tempo, para quantificação dos fenómenos de escorrimento em taludes da área em estudo. Figura 11.4. Esquema do escorrimento de taludes Figura 11.5. Correlação entre a inclinação do talude (º) e o material erodido (kN/m) para solo silto arenoso. Figura 11.6. Correlação entre a inclinação do talude (º) e o material erodido (kN/m) para solo arenoso. Figura 11.7. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso, sem vegetação.

132 135 136 137 138 138 139 140 140 146 157 158 158 162 162 165 166

168 170 171 171

178

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Figura 11.8. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 1kN/m2). Figura 11.9. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 5kN/m2). (º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 10kN/m2). (º) e da pluviosidade (m3) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 15kN/m2). Figura 11.12. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e da Coesão (kN/m) para solo areno-siltoso, para um caudal fixo de 1m3. 183 182 181 Figura 11.11. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude 180 Figura 11.10. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude 179

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ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1.1. Severidade de degradação da terra e distribuição populacional mundial Tabela 1.2. A desertificação no Sahel Africano conforme faixas de latitude. Tabela 1.3. Características dos solos incluídos na superfície agrícola portuguesa de Portugal Continental. Tabela 3.1. Desgaste de 15 cm de solo (tempo de formação: 6 mil anos). Tabela 3.2. Esquema empírico do poder erosivo da chuva. Tabela 3.3. Factor de erodibilidade eólica do solo “I”. Tabela 4.1. Efeito do comprimento de rampa nas perdas de solo. Tabela 4.2. Efeito do tipo de uso do solo sobre as perdas por erosão. Tabela 4.3. Efeito do tipo de cultura anual sobre as perdas por erosão Tabela 5.1. Tipos e classes de estrutura de solos. Tabela 5.2. Efeito do tipo de solo nas perdas por erosão. Tabela 5.3. Velocidade de infiltração em solos de diferentes texturas. Tabela 5.4. Susceptibilidade à erosão hídrica de diferentes tipos de solos. Tabela 7.1. Exemplo de matriz qualitativa de risco. Tabela 7.2. Níveis qualitativos da probabilidade de ocorrência de deslizamentos de taludes. Tabela 7.3. Níveis qualitativos das consequências de tipo económico sobre uma propriedade de valor C. Tabela 8.1. Métodos de estabilização de taludes em solos (Holtz y Schuster, 1996). Tabela 8.2. Condições mais comuns de infiltração e seus efeitos na estabilidade de um talude. Tabela 8.3. Efeitos da utilização de sistemas de bioengenharia Tabela 8.4. Valores típicos do incremento da coesão do solo devido à acção das raízes (O’LOUGHLIN E ZIEMER, 1982). Tabela 8.5. Principais funções dos geossintéticos Tabela 9.1. Características gerais da precipitação (em mm) na região de Santarém Tabela 9.2. Tabela síntese dos valores médios obtidos para a região de Santarém xv 151 151 130 143 116 123 104 102 92 8 24 29 43 49 53 56 65 66 68 69 87 5 7

Tabela 9.3. Valores de coesão e ângulo de atrito adoptados para as três formações indicadas Tabela 9. 4. Propriedades dos taludes críticos dos 11 sectores em que foi dividido a área em estudo. Tabela 10.1. Solo arenoso, Erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, em função da inclinação da rampa. Tabela 10.2. Solo Areno siltoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a inclinação da rampa. Tabela 10.3. Índices de resistência do solo à erosão, em função das variáveis de ensaio Tabela 11.1. Parâmetros utilizados para a obtenção do factor de segurança. Tabela 11.2. Factor de segurança para solos sem vegetação. Tabela 11.3. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de coesão é de 1kN/m. Tabela 11.4. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de coesão é de 5kN/m. Tabela 11.5. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de coesão é de 10kN/m. Tabela 11.6. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de coesão é de 15kN/m. Tabela 11.7. Parâmetros utilizados para o cálculo do Factor de segurança. Tabela 11.8. Comparação do factor de segurança das duas equações, aplicadas em dois taludes reais. 185 177 184 176 175 174 164 172 173 161 160 153 152

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PRIMEIRA PARTE – A ALTERAÇÃO DAS ROCHAS E OS AGENTES EROSIVOS

1

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Introdução

Mestrado em Georrecursos

1. INTRODUÇÃO
O tema da presente dissertação insere-se numa das recentes aplicações da Geotecnia ao estudo de problemas ambientais, com o objectivo de ajudar a resolvê-los, através da metodologia que tradicionalmente se utiliza nos projectos de Engenharia. Para o efeito foi escolhido o fenómeno da erosão, que em todo o planeta se manifesta continuadamente, conduzindo a prejuízos muito avultados todos os anos. O assunto tem sido geralmente abordado por geólogos, geofísicos e agrónomos, uns preocupados com a sua génese e manifestações, outros com a respectiva minimização para fins práticos na agricultura. Relativamente escassas têm sido as contribuições da Engenharia Geotécnica para enfrentar os problemas relacionados com a erosão dos terrenos, embora grande parte dos seus mecanismos sejam conhecidos nesta especialidade, assim como as soluções de estabilização. Nessa perspectiva, o trabalho inclui capítulos introdutórios sobre as características do fenómeno erosão, com destaque para a erosividade dos climas e para a erodibilidade dos terrenos. Seguem-se conceitos de estabilidade de taludes, com as abordagens determinísticas e probabilísticas, e destacando os métodos de estabilização mais utilizados. Nesta óptica, merecem tratamento especial os métodos de estabilização por drenagem e por revegetação dos taludes, para além dos processos convencionais. A terceira parte envolve um caso de estudo relacionado com o tema, mais concretamente sobre a elaboração uma equação que permita a criação de mapas de risco geotécnico de taludes, realçando-se os mecanismos conhecidos por escorrimentos («debris flows»). É descrita uma sucessão de ensaios laboratoriais de erodibilidade dos terrenos, com ou sem vegetação, sendo tiradas conclusões importantes para quantificação de problemas de estabilidade de taludes afectados por fenómenos de erosão. Finalmente, o trabalho é concluído com a apresentação dos seus resultados principais e com sugestões para futuras pesquisas.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

Mestrado em Georrecursos

1.1. PANORAMA INTERNACIONAL
Na figura 1.1 as áreas com terrenos estáveis compreendem o norte gelado e quase todo inaproveitável, e algumas pequenas manchas de solos nas áreas subtropicais e inter tropicais dos continentes habitáveis. Porém, quase todas as terras emersas do planeta estão afectadas pelos problemas de erosão (hídrica e eólica), deterioração (química e física), degradação severa e por desertos inúteis a qualquer actividade.

Figura 1.1. Degradação dos Solos Induzida pela Humanidade.
Fonte: FAO2000

FAO (2000) adverte que suas estatísticas, citadas a seguir, foram baseadas em mapas de pequena escala e inventários que, nem sempre, são actualizados e/ou confiáveis. Os resultados devem ser analisados com cuidado, principalmente para países de pequena extensão territorial. De acordo com os levantamentos efectuados pelo FAO (2000), da área aproximada das terras emersas do planeta (aproximadamente 135.000.000 km2), 46 % é escarpada; 64% são terras impróprias (por aridez - 45% e desertos - 19%); 56 % corre risco de desertificação; e somente 24% é constituída por solos utilizáveis sem restrições (áreas a verde na figura anterior).

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

Mestrado em Georrecursos

Tabela 1.1. Severidade de degradação da terra e distribuição populacional mundial.
Fonte: FAO (2000)

Grau de Degradação Nenhuma Pouca Moderada Severa Severíssima

Área (km2) 46.060.000 24.292.000 27.389.000 27.036.000 7.971.000

Relação com a área total do planeta (%) 36 18 20 20 6

Densidade Demográfica (hab/km2) 17 25 34 55 67

Percebe-se na tabela anterior que dois terços das terras agrícolas do planeta (64%) sofrem com a degradação dos solos. Dados da UNESCO (1994) e de KASSAS (1994) afirmam que cerca de cem países são afectados pelo gravíssimo problema da degradação dos solos. Oitenta e um destes são países em desenvolvimento, pobres ou muito pobres, que também são assolados pelos problemas socio-económicos decorrente disso como: fome; epidemias; e analfabetismo. Além disso, estes países são incapazes de solucionar o problema adicional da degradação dos solos, sem assistência externa. Segundo o mesmo organismo internacional, cerca de 35% (49.384.500 km2) das terras da superfície do planeta são consideradas áridas, e 69% das terras áridas usadas para a agricultura estavam degradadas ou em sério perigo de desertificação. Significativamente, mais de 50% das terras áridas do planeta situam-se em países em desenvolvimento e estão sujeitas às necessidades crescentes de alimentação das populações em rápido crescimento (UNESCO, 1994). Comparando os dados da UNESCO (1984) e os dados da FAO (2000), houve um aumento de 10 % na aridez das terras agricultáveis do planeta no curto espaço de tempo de apenas seis anos. Observando-se o gráfico da figura 1.2 percebe-se o quanto os homens perdem anualmente de riqueza para a chuva. Os continentes mais atingidos pelos dois problemas (Erosão e Desertificação) são a Ásia e a África, respectivamente com 21 e 9 biliões de dólares em perda anual de riqueza. Estes são, exactamente, os lugares do planeta com as menores qualidades de vida.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos

Mestrado em Georrecursos

Figura 1.2. Perdas de Crescimento da Riqueza Mundial Causadas por Erosão e Desertificação (em Biliões de Dólares por ano).
Fonte: FAO (2000)

A desertificação afecta cerca de um sexto da população da Terra, 70% de todas as terras áridas, atingindo 3,6 biliões de hectares, ou seja, um quarto da área terrestre total do mundo. Os resultados mais evidentes da desertificação, em acréscimo à pobreza generalizada são (BRASIL,1995): • Degradação de 3,3 biliões de hectares de pastagens, constituindo 73% da área total dessas terras, caracterizadas por baixo potencial de sustento para homens e animais; • Declínio da fertilidade e da estrutura do solo em cerca de 47% das terras áridas, que constituem terras marginais de cultivo irrigadas pelas chuvas; • Degradação de terras de cultivo irrigadas artificialmente, atingindo 30% das áreas de terras áridas com alta densidade populacional e elevado potencial agrícola. O caso mais grave de desertificação acontece no Sahel africano (tabela 1.2), pois esta zona deixou de ser um espaço de circulação e transformou-se num espaço de produção (RETAILLÉ, 1988). Com isto, o deserto do Saara cresce continuamente e suas areias são levadas pelos ventos até à Inglaterra, a uma distância de aproximadamente 3.000km, conforme afirmação de LEINZ e AMARAL (1987).

Biliões de dólares por ano

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Tabela 1.2. A desertificação no Sahel Africano conforme faixas de latitude.
Fonte: L’information Geographique. N.º 5, 1988.

Faixas de precipitação Latitude 16º N - 18º N Precipitação (mm) 100 a 200

Período: 1940 - 1970 Estepe saaro-saeliana. Pecuária bovina.

Período: 1983-1984 Estepe sub-saariana. Grave crise pastoril. Pecuária Ovina

14º N - 15º N

400 a 600

12º N - 14º N 10º N - 12º N

600 a 1.200 1.200 a 1.400

Estepe arbórea. Alto risco de imensas Agricultura com risco perdas na safra elevado. agrícola a cada quatro Dependência externa. anos. Crise da agricultura. Savana. Agricultura Busca de rendimentos com bom rendimento. complementares. Risco de perdas imensas Excedentes na safra agrícola a cada alimentares. quatro anos.

A tabela anterior evidencia o rápido agravamento do problema de deterioração dos solos no Sahel africano. O espaço desertificado aumenta a cada ano, rumo ao sul, indo ao encontro da remanescente floresta equatorial daquele continente. Isto tem diminuído a área disponível para a produção de alimentos naquela região, contribuindo para fazer da África um dos territórios que mais perde riqueza, conforme os dados já apresentados no gráfico da figura 1.2. A perda de solo, pelos processos existentes, ocasiona problemas ao meio ambiente, à economia e a toda a sociedade dos locais afectados.

1.2. PANORAMA NACIONAL
O problema da diminuição da potencialidade de uso do solo por desertificação e erosão tem ocorrido em Portugal em diferentes intensidade e amplitudes geográficas. Isto tem motivado a execução de planos nacionais e internacionais (nomeadamente ligados à União Europeia) de uso e conservação do solo. Em Portugal continental e tendo como fundo a caracterização dos solos tendo em vista a produção agrícola, cerca de 95,7% dos solos apresentam Capacidade de Troca Catiónica (CTC) média a baixa e 88,2% um pH abaixo do considerado óptimo para o crescimento da vegetação. A fragilidade química/mineral evidente da maioria dos solos portugueses, resultante das suas características de pH e de CTC, aumenta o papel preponderante que a matéria orgânica do solo assume (CNCD – Comissão Nacional de Combate à Desertificação, 1999). 7

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Deve salientar-se que a matéria orgânica do solo é uma importante fonte de nutrientes, elemento estabilizador da estrutura do solo e substrato da desejada intensa actividade biológica, estando directamente relacionada com a sua capacidade produtiva e consequente resistência à erosão, estando também relacionada com a capacidade de imobilização e decomposição dos pesticidas aplicados. Segundo o mesmo organismo (CNCD, 1999), apenas 27,5% do território continental tem quantidade de matéria orgânica considerada média ou alta. O atrás exposto pode ser evidenciado na tabela 1.3.
Tabela 1.3. Características dos solos incluídos na superfície agrícola portuguesa de Portugal Continental.
Fonte: Ministério Ambiente, 1999 adaptado de Alves, 1989

Características CTC* Matéria orgânica** pH***

Alto Área (ha) 227 700 1 468 850 631 000 % 4.2 27.5 11.8

Médio Área (ha) 3 757 070 116 650 3 662 120 % 70.2 2.2 5.3

Baixo Área (ha) 1 382 780 3 762 120 4 434 840 % 25.5 70.4 82.0

Nota: os valores consideram uma Superfície Agrícola Utilizada de 5.400.000 ha.

Legenda:
* Capacidade de Troca Catiónica (alto >20, médio entre 10-20, baixo <10 meq/100g de solo) **Matéria orgânica (alto >2%, médio entre 1%-2%, baixo <1%) *** pH (alto >6,5; médio entre 5,5-6,5; baixo <5,5)

A observação do mapa da Figura 1.3. permite confirmar que os solos portugueses são consideravelmente ácidos, facilitando a lixiviação de nutrientes e xenobióticos para as águas subterrâneas, afectando as suas características físicas, químicas e biológicas. A alcalinização do solo ocorre também em algumas áreas do país, onde os solos são irrigados com águas alcalinas ou tratados com adubos alcalinizantes. Do ponto de vista da caracterização litológica e pedológica, os solos do território Continental apresentam-se nos mapas do Atlas do Ambiente que se apresentam nas Figuras 1.4 e 1.5.

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Figura 1.3. Classificação do pH dos Solos.
Fonte: DGA, Atlas do Ambiente (1979)

Figura 1.4. Complexos Litológicos.
Fonte: DGA, Atlas do Ambiente (1982)

Figura 1.5. Unidades Pedológicas.
Fonte: DGA, Atlas do Ambiente (1978)

As diferentes utilizações do solo constituem um factor a analisar enquanto potenciais geradores de pressões no próprio solo e nos sectores que dele dependem. A Figura 1.6 resume a ocupação dos solos no território nacional, utilizando para isso os últimos dados disponíveis do INE (Instituto Nacional de Estatística). O mapa da Figura 1.7 9

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ilustra, a nível territorial, e segundo a Direcção Geral de Florestas, a distribuição dos diversos usos do solo em Portugal Continental.

Figura 1.6. Uso do território nacional em 1996.
Fonte: INE, Retrato Territorial – Infoline, 2000

Figura 1.7. Uso do solo em Portugal continental.
Fonte: DGF, 1998

Tal como irá ser descrito mais à frente neste trabalho, são diversos os processos químicos e físicos, muitos deles provocados e/ou acelerados pela acção do Homem, causadores de degradação do solo, tornando-o susceptível a fenómenos de erosão, sendo este um dos factores que mais contribui para a desertificação - processo de degradação ambiental que se pode considerar praticamente irreversível. Este fenómeno da desertificação tem também, por sua vez, particular responsabilidade pela degradação dos solos de vastas áreas do país.

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As formas mais importantes de degradação química do solo são a perda de nutrientes e de matéria orgânica, a salinização, a alcalinização (sodificação), a poluição e a acidificação, cujas principais razões são a utilização incorrecta de técnicas agrícolas e a desflorestação. A agricultura intensiva pode também provocar degradação física do solo. A exposição do solo à chuva, o calcamento da lavoura e o tráfego da maquinaria pesada, a impermeabilização, o encharcamento do solo e a alteração do perfil do terreno, são algumas das principais causas da degradação física dos terrenos. A estas causas de degradação junta-se a ocorrência de incêndios e o abandono de áreas agrícolas. Merece particular atenção a erosão hídrica, por ser a mais comum em Portugal por motivos que se ligam directamente com as nossas características climáticas, e que condiciona os sistemas tradicionais de agricultura, bem como as áreas sujeitas a sobrepastoreio, onde a degradação da vegetação e a compactação do solo constituem factores decisivos ao seu desencadeamento. Referem-se ainda outras causas de erosão como a subida do nível do mar, as barragens que retêm areias que, em condições naturais, deveriam ser transferidas para o mar, assim como estruturas costeiras em zonas sensíveis fragilizadas pela ocupação humana do litoral e que, protegendo a montante, erodem a costa a jusante. O vento é ainda outro factor meteorológico que pode ocasionar erosão dos solos, apesar de possuir pouca expressão no nosso país. A sensibilidade do solo aos diferentes tipos de degradação tratados depende das suas características. Assim, as áreas semi-áridas e sub-húmidas secas do país, apresentam em regra, terrenos de declives médios a acentuados, onde predominam solos pobres em matéria orgânica, com texturas grossas a médias, com pequena a média espessura, com baixa a média capacidade de retenção e de armazenamento de água, de fertilidade baixa a média e com risco de erosão médio a alto, como acontece nomeadamente com os Leptossolos, Cambissolos e Luvissolos. São ainda zonas sujeitas a escorrimentos superficiais por vezes altos, com baixa a média infiltração e portanto com baixo armazenamento de água no solo. Os solos de elevada produção potencial e elevada resistência (Fluvissolos, Vertissolos, Calcissolos, Podzóis) ocorrem em Portugal em pequena extensão.

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A cartografia mais relevante que caracteriza as condições de uso e conservação do solo foi obtida através do Programa CORINE1 e foi efectuada a partir de parâmetros de erodibilidade do solo, erosividade à chuva, qualidade do clima e dos solos. A partir destes quatro parâmetros foi possível obter o risco potencial de erosão e a erosão actual do solo, o que permitiu elaborar o mapa seguinte.

Figura 1.8. Susceptibilidade à desertificação.
Fonte: INAG, 2000

As áreas mais susceptíveis ao processo de desertificação correspondem a algumas zonas no interior do Alentejo e Algarve e algumas zonas no Norte do país (cerca de 11%). Aproximadamente 60% do território português corre risco moderado de desertificação. Apesar de reflectir bem, a nível nacional, as áreas com maior susceptibilidade à desertificação, esta metodologia necessita ainda de ser validada a uma escala regional, processo esse que se encontra em fase de iniciação.

1 Programa CORINE Coordination of Information on the Environment - o Programa CORINE, entre outros objectivos, foi criado para se ter informação sobre o ambiente e os recursos naturais na Europa, e fazer com que as várias políticas (económicas, agrícolas, de transportes, de energia, sociais...) tenham em consideração a defesa daqueles valores.

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O PANCD2 considera, contudo, que o aspecto climático mais ligado aos processos de desertificação é o clima físico da superfície da Terra, que se refere ao sistema de trocas e equilíbrios que ligam a atmosfera aos outros subsistemas climáticos. O clima físico de um local é transformado quando o Homem altera a natureza da superfície, e estas alterações podem afectar o clima global por processos de realimentação interna, que podem actuar às escalas regional, continental e mesmo planetária. A compreensão dos processos de desertificação assenta na capacidade de apreensão das influências que têm, no clima global, as alterações locais do microclima provocadas pelo Homem (DGF3 – PANCD, 1999). De tudo o que foi apresentado, e procurando fazer um resumo, pode afirmar-se que: • apenas 8% dos solos do território nacional são de boa qualidade, 25% de qualidade moderada e 66% de baixa qualidade; • em cerca de 90% do território nacional, 69% dos solos possuem risco elevado de erosão, 24% risco intermédio e apenas 5% dos solos são dificilmente erodíveis; • a área relativa do território nacional com risco potencial elevado de erosão é quase o dobro do mesmo indicador para a União Europeia; • as áreas relativas dos solos com risco elevado de erosão variam significativamente no país, com maiores valores na região de Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo; • 72% dos solos são impróprios para a agricultura, restando assim 28%, dos quais apenas 10% possuem capacidade de uso elevada.

2. ALTERAÇÃO DAS ROCHAS (METEORIZAÇÃO)
Mesmo antes da exposição aos agentes externos, na sequência de fenómenos que as fazem ascender e, subsequentemente, aflorar, as rochas sofrem modificações, à medida que se elevam das zonas profundas onde se geraram, e que correspondem a fases progressivas de adaptação a ambientes sucessivamente mais próximos das condições físico-químicas que caracterizam a superfície do Globo, isto é, pressão e

2 PANCD Programa de Acção Nacional de Combate à Desertificação (os objectivos principais deste programa são: 1. Conservação do solo e da água; 2. Fixação da população active nas zonas naturais; 3. Recuperação das áreas mais afectadas pela desertificação; 4. Sensibilização da população para a problemática da desertificação e; 5. Consideração da luta contra a desertificação nas políticas gerais e sectoriais). 3 DGF Direcção Geral das Florestas

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temperaturas relativamente baixas, presença de água de oxigénio, de dióxido de carbono, etc.. A alteração das rochas, usada como sinónimo de meteorização diz respeito às modificações causadas nestas pelos agentes externos, sobretudo os relacionados com as condições de humidade e de temperatura ambientais. Nestas condições, as rochas vão ser alteradas e destruídas para originar os materiais com que se irão formar outros tipos de rocha e o aparecimento do solo. Esta acção geodinâmica externa provoca uma modificação constante do relevo, originando o aparecimento de vários aspectos da paisagem, consoante as acções dos diferentes agentes geodinâmicos externos e também dos tipos de rochas existentes no local. É importante ressalvar que estes fenómenos de erosão das rochas são, por vezes, tão lentos que não são perceptíveis. A duração da vida humana não é suficiente para que seja possível, muitas vezes, observar os seus efeitos. O calcário da camada superficial do solo, por exemplo, só desaparece, por dissolução, ao fim de cerca de 300 anos.

Figura 2.1. Aspecto geral da meteorização (a rocha firme vai-se transformando gradualmente de baixo para cima).
Fonte: Geologia, 1981

Esta conversão resulta essencialmente por processos mecânicos (alteração física ou mecânica) ou por processos químicos (alteração bioquímica). A alteração das rochas traduz-se na conversão de uma certa espessura da capa externa das massas rochosas num material mais ou menos incoerente e empobrecido dos componentes mais instáveis, susceptível de ser, mais facilmente mobilizado e evacuado pelos agentes de erosão e de transporte. A espessura desta capa, que depende do tipo de rocha, do clima e do tempo decorrido, pode ir de escassos milímetros a algumas dezenas de metros.

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No primeiro caso empregam-se as expressões alteração mecânica, alteração física ou desagregação, e, no segundo, alteração química ou decomposição. Esta última é preferível considerá-la como alteração bioquímica visto que é praticamente impossível concebê-la sem a participação da actividade biológica. A Alteração Mecânica ou Física, resulta essencialmente de acções de natureza física, tais como variações de volume produzidas por oscilações térmicas (termoclastia4), congelação e descongelação de água (gelivação5) contida nos poros das rochas, cristalização de sais dissolvidos na água de impregnação das fissuras e poros das rochas após evaporação. Os mecanismos físicos citados provocam a constante fissuração das rochas até estados de desagregação mais ou menos avançados. As rochas perdem, assim, a sua coerência sem modificação das suas composições mineralógica e química. Este tipo de alteração está confinado a certas zonas do Globo que têm em comum acentuada carência de água no estado líquido e, consequentemente, muitíssimo pobres de vegetação e, portanto, de reduzidíssima actividade bioquímica. Estão nestas condições as regiões glaciárias (polares e de alta montanha) com gelo permanente a encobrir o solo, as regiões periglaciárias, de solo exposto mas quase permanentemente gelado, e as regiões áridas ou desérticas ou semiáridas. No conjunto, estas regiões perfazem cerca de 15% da área dos continentes.

Figura 2.2. Alargamento da rocha provocado pelos processos de termoclastia e gelivação.
Fonte: Ciências Naturais 7, 1995

4 Termoclastia Uma vez que muitas rochas contêm minerais escuros e minerais claros, portanto, com diferentes graus de absorção da energia radiante, estes minerais aquecem e dilatam-se de modo diferente o que conduz a contínua "descolagem" dos grãos da rocha que acaba por se desagregar. Por outro lado, devido à pouca condutibilidade térmica das rochas, verifica-se um aquecimento da película externa dos afloramentos rochosos que contrasta com a temperatura do seio da rocha. 5 Gelivação A água no estado líquido ocupa menos espaço do que no estado sólido. Nas zonas frias a água no estado líquido penetra nas fendas das rochas e quando gela aumenta de volume. Devido a esse aumento de volume, a água vai pressionar as paredes das fendas originando a desagregação das rochas.

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A Alteração Bioquímica, está representada nos restantes 85% da área dos continentes e encerra, fundamentalmente, mecanismos químicos e, sobretudo, bioquímicos, na sequência da actividade própria dos seres vivos (micro e macroorganismos), em especial do mundo vegetal, quer através da sua acção fisiológica, quer por efeito dos seus produtos de decomposição, após a morte. A água no estado líquido é factor essencial a este tipo de alteração. Por um lado, é a água que desencadeia e permite a maioria das reacções químicas; é a água que recolhe os produtos alterados; é, ainda, a água que determina o equilíbrio da cobertura vegetal e, consequentemente, condiciona os processos bioquímicos a ela ligados. Entre os principais processos decorrentes no conjunto da alteração bioquímica, têm lugar de relevo a hidrólise, a oxidação e certas reacções químicas realizadas com produtos orgânicos de origem biológica. A temperatura tem aqui, também um papel importante, na medida em que, como é sabido, a velocidade das reacções varia no mesmo sentido daquela grandeza. Bastará referir que para uma elevação de 10 ° a velocidade de hidrólise duplica. A C, decomposição aumenta pois com a humidade, com a temperatura e com o grau de importância do mundo orgânico associado.

Figura 2.3. Intensidade dos fenómenos de meteorização em função da temperatura e da pluviosidade.
Fonte: Geologia, 1981

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Figura 2.4. Intensidade dos fenómenos de meteorização em função da temperatura e da pluviosidade.
Fonte: Geologia, 1981

Legenda: Regiões praticamente sem alteração bioquímica 1 – Regiões Polares 2 – Regiões Desérticas quentes Regiões com alteração bioquímica 3 – Zonas Frias 4 – Regiões Intertropicais húmidas 5 – Regiões Tropicais sub-húmidas 6 – Regiões Tropicais secas e temperadas

Como se pôde observar da figura anterior, onde é delimitado de uma forma global, a distribuição da actividade bioquímica, esta é insignificante no domínio da tundra e das turfeiras boreais, é ainda incipiente ao nível da taiga, é já bastante sensível à latitude das florestas temperadas e atinge o máximo de intensidade nas regiões quentes e húmidas sob a floresta tropical e equatorial. Quanto maior for a precipitação atmosférica, maior é a circulação e a renovação da água no seio das rochas, isto é, a drenagem, e mais rápida e profunda será a alteração. O pH do ambiente tem grande influência, pois a acidez acelera a velocidade da hidrólise. Estabelece-se, assim, relação entre o clima e a alteração das rochas, para a qual se pode esboçar uma zonalidade que acompanha de perto a zonalidade climática do Globo. Apesar de muitos autores não fazerem referência à diferença entre a meteorização e a erosão, deve notar-se que, de facto, a meteorização corresponde apenas à alteração da camada superficial das rochas, que irá facilitar o seu desgaste ou escavamento. Pode, inclusivamente, dizer-se que a meteorização é um fenómeno que precede a erosão, preparando, facilitando e acelerando esta última.

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Dada a íntima relação entre estes dois fenómenos, é natural que os agentes de meteorização sejam também os agentes de erosão (GALOPIM DE CARVALHO, 1981). A título de exemplo ao anteriormente exposto, para LEINZ e AMARAL (1987) a erosão das rochas, transformando-as em solo acontece pelo processo denominado intemperismo6 que é, segundo os autores "... o conjunto de processos operantes na superfície terrestre que ocasionam a decomposição dos minerais das rochas, graças à acção de agentes atmosféricos e biológicos". O clima actua sobre o intemperismo por meio de duas formas principais: física e química. O intemperismo físico é a acção mecânica sobre a rocha, desintegrando-a fisicamente por meio de variação de temperatura, cristalização de sais, congelação e agentes físico - biológicos. E o intemperismo químico é desencadeado pela acção da água que penetra na rocha. Esta água que cai sob a forma de chuva traz gases dissolvidos (O2, CO2, N2), que, ao se infiltrarem junto com a água na rocha, reagem com os seus componentes por meio de decomposição química por oxidação, hidrólise e hidratação, ácido carbónico, dissolução e decomposição químico-biológica, contribuindo para transformar a rocha em solo.

3. EROSÃO E EROSIVIDADE 3.1. DEFINIÇÃO
Erosão, etimologicamente, provém do verbo latino «erodere» que significar roer. É um fenómeno natural, gerador de sedimentos e que sempre existiu na superfície terrestre, desde que as rochas se puseram em contacto com a atmosfera. Em última instância, deve-se à energia solar e à presença de um potencial regulador, a gravidade, e pode ocorrer em qualquer lugar da superfície do planeta ainda que não necessariamente com a mesma intensidade no tempo e no espaço. A seguir são descritas algumas definições de “Erosão” que se encontram compiladas pelo Glossário Libéria: Erosão, (1) Trabalho de desgaste realizado pelos diversos agentes do relevo, tais como as águas correntes, o vento e o gelo. (2) Desgaste do solo por água corrente, zonas geladas, ventos e vagas (DNAEE, 1976). (3) Destruição das saliências ou

Intemperismo Palavra utilizada pelos brasileiros para definir Meteorização.

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reentrâncias do relevo, tendendo a um nivelamento ou colmatagem, no caso de litorais, baías, enseadas e depressões (GUERRA, 1978). (4) Desgaste e/ou arrastamento da superfície da terra pela água corrente, vento, gelo ou outros agentes, incluindo processos como o arraste natural. (5) Desgaste do solo, ocasionado por diversos factores, tais como: água corrente, zonas geladas, ventos, vagas e desmatamentos. Obras de engenharia e movimentações de terra podem causar ou ocasionar erosão. Tipos de erosão: mecânica, hidráulica, eólica e outras. (6) Remoção física de rochas ou de partículas do solo por acção de elementos da natureza, como a água e o vento; os processos erosivos podem ser acelerados por actividades antrópicas7. (GLOSSÁRIO LÍBRERIA, 2003) As rochas (e solos) da superfície terrestre estão constantemente a ser erodidas e os seus produtos, uma vez libertados, são transportados pelos diversos agentes (GALOPIM DE CARVALHO 1981). Segundo o mesmo autor, a fronteira entre a erosão e o transporte dos materiais erodidos é bastante ténue uma vez que “... o mesmo agente pode realizar uma ou outra daquelas acções.” e ainda, “... consoante as dimensões dos materiais libertos e a energia do agente assim exercerá uma ou outra” (GALOPIM DE CARVALHO, 1981). A erosão é um fenómeno complexo que basicamente consiste na desagregação ou meteorização de um solo ou de um material rochoso por acção de agentes atmosféricos e posterior desnudação por arraste das partículas desagregadas (JIMENO, 1999). A intensidade com que se manifesta a erosão depende de uma série de factores que, por sua vez, em última instância, dependem da geologia e do clima da região daquele lugar, de acções químicas e biológicas e ainda, da presença humana. Desta forma, podem ser considerados outros factores intrínsecos: tectónicos, litológicos, edafológicos, geomorfológicos, e ainda antrópicos, sendo todos independentes e variáveis ao longo do tempo. O Homem, derivado das actividades que desenvolve (a destruição de bosques e zonas com vegetação densa, transformando-as em áreas cultiváveis; o pastoreio abusivo; o arado do solo seguindo as linhas de máxima pendente do terreno; as práticas de cultivo inadequadas; os incêndios; a utilização de solos férteis para a

Erosão antrópica Aceleramento da erosão nas camadas superiores do solo em consequência de desflorestaremos, construção de estradas etc., ocasionando um desequilíbrio litogliptogénico (GLOSSÁRIO LÍBRERIA, 2003).

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expansão urbana e industrial; a abertura indiscriminada e mal planificada de vias de comunicação e caminhos florestais; e a exploração a céu aberto de recursos minerais e rochas industriais; entre outras muitas acções humanas) é, sem dúvida alguma, o factor que mais consegue influenciar negativamente a evolução natural dos processos erosivos numa determinada região, pois induz alterações importantes no solo que afectam as suas propriedades físicas, químicas e biológicas, levando a uma degradação elevada do mesmo e, em algumas ocasiões, consequências irreversíveis. Segundo JIMENO (1999), a recuperação do solo perdido, como consequência dos processos erosivos, mediante formação natural de novo solo a partir da rocha mãe é muito lenta, calculando-se que para formar, em condições naturais, uma capa de 2 a 3cm de espessura são necessários entre 300 a 1000 anos. Segundo o mesmo autor, este período de tempo pode ser encurtado, sendo necessários entre 15 e 25 anos para formar uma capa de solo novo com 1cm de espessura, se se recorrer a operações agrícolas. GUERRA (1972) apud CERRI, SILVA e SANTOS (1997) conceitua erosão como "... destruição das saliências ou reentrâncias do relevo, tendendo a um nivelamento ou colmatagem, no caso de litorais, de enseadas, de baías e depressões.". Para ele o processo erosivo é único, composto da fase erosiva (gliptogénese) e uma de sedimentação (litogénese). Ele comenta que para o geólogo e o geógrafo o termo erosão significa um conjunto de acções que modelam uma paisagem, enquanto para o pedólogo e o agrónomo consideram-no do ponto de vista da destruição do solo. O mesmo autor ainda distingue vários tipos de erosão, tais como acelerada (com a intervenção humana) e de outros seres vivos; elementar (também chamada de meteorização); eólica (trabalho realizado pelo vento); fluvial (trabalho contínuo das águas correntes na superfície terrestre, incluindo os efeitos dinâmicos exógenos de gliptogénese em que o homem não interfere, para os geólogos); glaciar; marinha (trabalho das vagas forçadas ou de translação ao longo do litoral); pluvial (trabalho das águas da chuva). O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo - IPT (1986) conceitua erosão como "o processo de desagregação e remoção de partículas do solo ou de fragmentos e partículas de rochas, pela acção combinada da gravidade com a água, vento , gelo e/ou organismos (plantas e animais)".

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O balanço hídrico rege todo o comportamento regional frente aos processos erosivos como se pode perceber, observando a figura seguinte.

Figura 3.1. Balanço Hídrico.
Fonte: Ano propedêutico, 1979

Pode-se definir Erosão do solo como: (1) Destruição nas partes altas e acumulação nas partes deprimidas da camada superficial edafizada (GUERRA, 1978). (2) Processo pelo qual a camada superficial do solo ou partes do solo são retiradas, pelo impacto de chuva, ventos e ondas e são transportadas e depositadas noutro lugar (GLOSSÁRIO IBAMA, 2003). Do ponto de vista da geologia, erosão é o processo de longa duração em que os factores erosivos concorrem para transformar a rocha em solo (LEINZ e AMARAL, 1987). Desta forma a erosão do solo faz parte de um processo mais amplo, chamado desnudacção. Este corresponde "... ao conjunto de processos que agem na remoção e consequente abaixamento de uma superfície elevada, pela interacção de processos intempéricos e erosivos, podendo ser acompanhados da lixiviação, no caso de tratarse de regiões calcárias" (LEINZ e AMARAL, 1987).

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LEINZ e AMARAL (1987) afirmam que a erosão é o processo que ataca a rocha transformando-a em solo e desnudação é o processo que ataca o solo destruindo-o. Por outras palavras, esta erosão seria a pedogénese e desnudação corresponderia à morfogénese, conforme TRICART (1968). TRICART (1968) afirma que plantas e animais criam o solo por meio da pedogénese e que esta é parte integrante da morfogénese ao modificar as características superficiais da litosfera, isto é, ao modelar as formas de relevo. Esta modelação do relevo acontece principalmente por meio das formas de erosão pluvial e eólica, bem como de outras de menor magnitude. O tempo de actuação dos factores erosivos interagindo entre si é de importância fundamental. Ele pode ser subdividido em processo de erosão geológica, ou natural e erosão acelerada. A figura 3.2. possibilita uma visão geral do ciclo das rochas, enfocado como um sistema de longa duração. Completando este ciclo, pode-se observar que a erosão das rochas forma o solo e a erosão deste ocasiona novas formas de relevo (morfogénese) nas encostas e novos solos nos sítios de acumulação. A erosão geológica, já descrita, acontece desde a formação da Terra, transformando as rochas em solos e estes em rochas novamente. A erosão acelerada, por sua vez, compreende o curto intervalo de tempo da vida humana e conta com a fundamental e inequívoca participação do homem no processo; esta é desencadeada quase que exclusivamente por práticas incorrectas de uso e manuseamento do solo, da água e dos demais recursos do meio ambiente. De acordo com BIGARELLA e MAZUCHOWSKI (1985), a erosão acelerada instala-se quando se verifica uma ruptura do equilíbrio que favorece os agentes erosivos [pois] em condições normais, via de regra, o desgaste da superfície por erosão é compensado pela contínua alteração das rochas, mantendo-se o perfil do solo.

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Figura 3.2. Ciclo das Rochas.
Fonte: Leinz e Amaral, 1987

Legenda:
1. Meteorização, erosão e transporte; 2. Cimentação, diagénese, recristalização a baixa temperatura; 3. Fusão pela incorporação directa a qualquer massa ígnea após subsidência; 4. Metamorfismo pelo aumento das condições de temperatura, pressão orientada ou pela conjugação de ambos os processos, graças à subsidência; 5. Vulcanismo; por meio de rupturas da crosta o magma basáltico provindo do manto se derrama à superfície; 6. Soerguimento conjugado com a erosão das camadas superiores; 7. Formação de Gabros, peridotitos, kimberlitos, etc.; 8. Formação de metabasitos.

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A análise da tabela 3.1 permite ter uma ideia da escala de ocorrência do processos erosivos. Segundo BERTONI e LOMBARDI NETO, são necessários cerca de 6.000 anos para que se forme uma camada de 15cm de solo. Desta forma, a floresta é a melhor cobertura vegetal para o solo, pois são necessários 440.000 anos para desgastar essa mesma espessura. A pastagem, por seu turno, já não tem capacidade para regenerar o solo perdido, pois demora somente 4.000 anos para que ele seja erodido. Se se observar o efeito da agricultura, então o efeito erosivo é grandemente acelerado, podendo-se observar que uma ocupação anual do solo para a agricultura consegue erodir o solo em apenas 70 anos, aproximadamente 6.000 vezes mais depressa que numa floresta.
Tabela 3.1. Desgaste de 15 cm de solo (tempo de formação: 6 mil anos).
Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Cobertura Floresta Pastagem Café Cultura anual

Tempo (anos) 440.000 4.000 2.000 70

CHRISTOFOLETTI (1974) afirma que a acção biológica das plantas e dos animais também actuam no processo de pedogénese - morfogénese. As plantas actuam tanto na morfogénese desagregando as partículas do solo, como na pedogénese ao barrar o escoamento pluvial, ventos e fornecimento de húmus. Os animais participam da morfogénese ao diminuir os tamanhos das partículas e ao movimentá-las no interior dos solos. JIMENO (1999) distingue sete categorias distintas para os diferentes tipos de erosão, a nível global: 1. Erosão Hídrica; 2. Erosão Eólica; 3. Erosão Fluvial; 4. Erosão Marinha e Litoral; 5. Erosão Glaciar; 6. Erosão Periglaciar; 7. Erosão Cárstica. 24

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Sendo que, segundo o mesmo autor, a uma escala mais reduzida, os tipos de erosão que se revestem com importância são a erosão eólica e sobretudo, a erosão hídrica produzida pelas gotas de chuva que embatem sobre o terreno, desagregando partículas que são por sua vez arrastadas pelas águas de escorrência. GALOPIM (1981) acrescenta ainda, como agentes responsáveis pela modelização do terreno a Força da Gravidade e os Seres Vivos. SELBY (1982), define Erosão como função de dois mecanismos ou processos: Erosão = f( Erosividade; Erodibilidade) em que a Erosividade traduz os efeitos compostos dos agentes naturais característicos de uma dada região, tais como a chuva e ventos (sua intensidade, tamanhos das gotas, velocidade, distribuição, ângulo e direcção, frequência e duração), assim como das águas superficiais correntes (caudais, profundidade do escoamento, velocidade, frequência, magnitude, duração e conteúdo de sedimentos) enquanto que Erodibilidade depende das propriedades dos terrenos (tamanho das partículas, coesão, capacidade de agregação e de infiltração) da vegetação (inclinação e comprimento da superfície dos terrenos, sua rugosidade, convergência ou divergência de escoamentos) e, ainda, as práticas de uso do solo (agricultura intensiva, estabilização de ravinamentos, rotação de colheitas, cobertura das plantas, criação de terraços, conteúdo de matéria orgânica, etc.).

3.2. EROSÃO HÍDRICA
A água, tal como já foi referido, é o agente natural de maior incidência, como factor condicionante e desencadeante no aparecimento de instabilidades. As correntes de água com o seu poder erosivo e de transporte constituem um grande factor desencadeante, conseguindo um perfil de equilíbrio com as encostas dos vales por onde escoam. Estas, podem actuar de forma contínua com desigual importância, segundo a intensidade da corrente, provocando o desgaste do pé do talude diminuindo-o e eliminando o suporte da base e incrementando o esforço de corte dos materiais. A Erosão Hídrica é aquela em que os processos de desagregação da rocha ou solo bem como desnudação e transporte são efectuados pela água. Ocorre através da acção do impacto das gotas da chuva e pelas acções químicas que desenvolve na

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rocha, quando se infiltra nesta e ainda pelo escoamento superficial, quer seja difusa ou concentrada. A Erosão Hídrica é afectada por uma série de factores que se encontram resumidos na figura seguinte.
Propriedades Físicas do Terreno Forças Resistentes
Devidas a

Vegetação

Erosão Hídrica

Depende de

Características das Chuvas Forças Activas
Determinadas por

Pendente e Superfície do Terreno Capacidade de absorçãoda água no terreno

Figura 3.3. Factores que afectam a erosão hídrica.
Adaptado de Jimeno, 1999

A água pode exercer uma acção mecânica sobre as rochas. Na sua passagem, a água arrasta consigo alguns materiais mais soltos. Por outro lado, ao introduzir-se pelas fendas a água vai provocando o seu alargamento, o que pode levar à fracturação e desagregação da rocha. A água que circula na Natureza (mesmo a água da chuva) transporta substâncias dissolvidas. A acção das substâncias dissolvidas na água pode contribuir para fenómenos de erosão química. A própria água, só por si (mesmo se relativamente pura), desencadeia reacções que levam a alteração dos minerais. A água é um importante agente de construção da paisagem, actuando sob diversas formas - águas torrenciais, águas correntes dos rios e do mar, águas subterrâneas e ainda, sob a forma de neve e de gelo quando se encontra no estado sólido. Na sua acção, nestas diferentes formas, a água modela diferentes tipos de paisagem destacando-se aspectos muito característicos como os sulcos torrenciais ou barrancos, as chaminés de fada, os estuários, as praias, os campos de lapiás, as grutas e os vales glaciários. As perdas de solo num terreno estão intimamente relacionadas com a chuva, em parte pelo seu poder de desprendimento aquando do impacto das gotas de água no solo e pela contribuição à escorrência superficial.

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A eficácia do desprendimento de partículas pelas gotas depende directamente da energia cinética das primeiras, das suas massas e da velocidade com que atingem o terreno. A velocidade que uma gota alcança é função do seu diâmetro.

Figura 3.4. Acção mecânica do impacto de uma gota de chuva.
Fonte: Geologia, 1981

HUDSON descobriu em 1973, aquando de estudos efectuados na África subtropical, que a energia cinética de chuvas individuais de intensidade iguais ou superiores a 25,4 mm estava mais estreitamente relacionada com as perdas de solo que qualquer outro parâmetro individual testado. Ainda, segundo dados do mesmo autor, uma chuva tem 256 vezes mais energia cinética que o escoamento superficial (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990). Segundo CHRISTOFOLETTI (1974) e BERTONI & LOMBARDI NETO (1990) e a erosão pelo impacto das gotas de chuva (salpicamento ou splash erosion) acontece quando as gotas de chuva golpeiam a superfície do solo, rompendo os grânulos e torrões, reduzindo-os a partículas menores. Isto diminui a capacidade de infiltração de água no solo. Uma gota golpeando um solo húmido forma uma cratera, compacta a área imediatamente sob o centro da gota, movimenta as partículas soltas para fora num círculo em volta da sua área. O impacto das gotas de chuva (figura 3.5.) rompe os agregados do solo, desprende e transporta as partículas mais finas, que são as de maior valor nutritivo, causando também compactação na superfície do terreno. Isso reduz a capacidade de absorção de água pelo solo e aumenta o escoamento superficial. As partículas mais susceptíveis de serem transportadas pela saltitação são as areias finas que pulam até a 1,5 m de distância.

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Figura 3.5. Erosão por salpicamento.
Fonte: V.P. Robey, Naval Research Lab (EUA); In Leinz e Amaral, 1967

Na primeira foto, a gota está prestes a tocar a superfície. Na figura do meio conseguese observar que os pingos de lama são expelidos radialmente após o impacto da gota e por fim, na foto mais à direita, vê-se a formação uma cratera enquanto os pingos expelidos são depositados. ELLISON (1947), citado por BERTONI e LOMBARDI NETO(1990), afirma que as gotas de chuva contribuem para o processo erosivo de três maneiras: (a) desprendem partículas de solo no local que sofre o impacto; (b) transportam, por salpicamento, as partículas desprendidas; (c) imprimem energia, em forma de turbulência, à água superficial. Segundo os mesmos autores, a chuva afecta o solo por meio de quatro características: • Quantidade - é a soma total da chuva que cai de forma contínua em determinado lugar e tempo; • Intensidade - é a característica mais importante, pois quanto maior seu valor, maior será a perda por erosão, porque chuvas mais intensas têm maior poder de desagregação das partículas do solo, do que chuvas de menor intensidade; • Duração - é complemento da intensidade de chuva pois a combinação das duas características determina a chuva total. Chuvas de longa duração proporcionam maior quantidade de escoamento superficial porque ocorre a saturação do solo cessando a infiltração da água da chuva no solo; • Frequência - é a característica que, para valores constantes das outras características, provoca escoamento superficial de maior intensidade quando o intervalo de tempo entre as chuvas é menor.

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A velocidade máxima de infiltração acontece no início da chuva, caindo rapidamente à medida que o solo se vai saturando de água. Também o tamanho e a disposição dos espaços porosos no solo, determinam a velocidade de infiltração da água da chuva. Solos arenosos, com grandes espaços porosos têm velocidade de infiltração maior que solos argilosos, onde os espaços porosos são menores. A tabela seguinte constitui-se numa tentativa empírica de relacionar o poder erosivo da chuva com a intensidade de erosão (SIDNEI LOPES RIBEIRO, 2000).
Tabela 3.2. Esquema empírico do poder erosivo da chuva.
Fonte: Sidnei Lopes Ribeiro, 2000

Quantidade de chuva Intensidade da chuva Duração da chuva Intervalo entre chuvas (frequência) Erosão

Pequena Baixa Curta Grande Mínima

Média Média Média Médio Média

Grande Alta Longa Pequeno Máxima

Uma vez chegada ao solo, a água não só produz erosão pelo impacto das gotas de chuva mas também, quando a intensidade da chuva supera a capacidade de infiltração do terreno, ocorre escoamento superficial dando origem aos processos de erosão laminar, erosão em sulcos e erosão em barrancos. 3.2.1. TIPOS DE EROSÃO HÍDRICA BIGARELLA e MAZUCHOWSKI (1985) citam quatro formas de erosão provocadas pela água: 1 – laminar; 2 - em sulcos; 3 – ravinamentos; e 4 - boçorocas8. CLAYTON (1972) distingue o processo em duas fases: a) impacto das gotas da chuva e b) escoamento superficial. Quanto a este tipo de erosão (hídrica), OLIVEIRA (1994) diferencia as seguintes classes: 1 - laminar ou entre sulcos; 2 - em sulco; 3 - em calha; 4 - em ravina; e 5 - em boçoroca. No que se refere à sua forma de se manifestar, JIMENO (1999) diferencia-as em três modalidades (ou tipos erosivos): Laminar, em sulco e em barranco. A figura seguinte ilustra os tipos de erosão hídrica definidos por este autor.

Boçoroca (voçoroca) Termo brasileiro para invocar Barranco

8

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Erosão em Barranco Erosão Laminar Erosão em Sulco

Figura 3.6. Representação esquemática dos diferentes tipos de erosão hídrica.
Adaptado de Jimeno, 1999

A) Erosão Laminar ou em Manto («sheet erosion» ou «interrill erosion») A erosão laminar é uma forma de erosão dificilmente perceptível, mas cuja aplicação pode ser denunciada pela coloração mais clara do solo, pela exposição de raízes e pela queda na produtividade agrícola. A aplicação da Equação Universal da Perda de Solo (USLE9) para a avaliação da perda média anual de solo restringe-se às áreas que apresentam erosão hídrica do tipo laminar. BERTONI e LOMBARDI NETO (1985) apud CERRI, SILVA e SANTOS (1997). A Erosão Laminar consiste numa remoção de delgadas capas de solo produzidas pela água que escorre em terrenos uniformes e de pouca inclinação, provocando uma perca de solo, com maior quantidade de matéria orgânica, conduzindo a um empobrecimento em elementos nutrientes e a uma diminuição da capacidade de armazenamento de água. Esta erosão é pouco perceptível no inicio da sua ocorrência já que apenas modifica a superfície do solo no entanto, com o decorrer do tempo produz uma concentração importante de cascalho na superfície, põe a descoberto as raízes de arbustos e de outras pequenas plantas e ainda, produz a acumulação de terras na zona final do talude. Os processos principais que actuam na erosão laminar são o desprendimento e arranque de partículas do solo por efeito do impacto das gotas de chuva (desprendimento por salpicamento) e o seu transporte por efeito de uma delgada lâmina de água (fluxo laminar).

9

USLE Abreviatura para «Universal Soil Loss Equation». Ver Capítulo 7.3

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O fluxo laminar não é um fenómeno que consiga ocorrer durante grandes distâncias, derivado das irregularidades do terreno. Desta forma, a água passa a correr em pequenas linhas de água não hierarquizadas e de trajectórias variadas. As consequências deste tipo de erosão são semelhantes às provocadas pela erosão laminar. B) Erosão em Sulcos («rill erosion») À medida que os fluxos de corrente se vão concentrando nas linhas de maior declive dos terrenos, vão-se adensando os fluxos de água e ocorre o aumento da velocidade da mesma, originando directamente o aumento do potencial de erosão, conseguindo abrir pequenos sulcos no terreno de secção em “U” ou em “V”, com profundidades até 0,3m (JIMENO, 1999). Este tipo de erosão é favorecida com a queda de aguaceiros intensos e com a preexistência de erosão laminar e com a inclinação do talude em causa. CERRI, SILVA e SANTOS (1997) afirmam que a ravina tem profundidade acima de 0,5m e é formada essencialmente pelo escoamento de água superficial, que provoca o desprendimento de partículas do solo e movimentos de massa devido ao abatimento dos taludes. Apresenta forma rectilínea, alongada e estreita: raramente se ramifica, não chega a atingir o nível freático e possui perfil transversal em "V". Ocorre entre eixos de drenagens, muitas vezes associadas a estradas, trilhas de gado e valas abertas por alfaias agrícolas. CAVAGUTI (1994) e SALOMÃO (1994) consideram que sulcos e ravinas são formas resultantes da erosão de solo antes de ser atingido o lençol freático, diferenciando-se pela profundidade da erosão linear. Os mesmos autores indicam que, para o U.S. C. S.10 (1966), o termo sulco é utilizado quando se pode recuperar o entalhe erosivo por operações normais de preparo do solo; caso contrário, trata-se de ravina. Com o aprofundamento da ravina, esta interceptará o lençol freático e , a partir deste instante, ocorre a acção simultânea das águas de escoamento superficial e sub - superficiais, tornando o processo bem mais complexo e fazendo com que a ravina original atinja grandes dimensões. Este estágio final é denominado barranco.

10

USCS (United States Conservation Service) Organismo estatal norte americano que tem como âmbito a conservação das vias terrestres deste país.

31

A alteração das rochas e os agentes erosivos C) Erosão em BARRANCOS («gully erosion»)

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Se os sulcos por onde circula a água no terreno não se eliminarem (por meteorização ou trabalho humano), estes irão progredir no sentido ascendente permitindo desprendimentos de materiais de maior tamanho, originando incisões que poderão atingir vários metros de profundidade graças às correntes de água e de materiais que esta arrasta e ao desmoronamento das paredes do sulco devido à instabilidade da parede onde se encaixa. Este tipo de erosão nos terrenos só ocorre se alguma das erosões anteriores já tiver ocorrido e evidencia um estado avançado de erosão nos mesmos. A sua anulação já requer meios de estabilização e correcção dos terrenos com custos elevados. Para RODRIGUES (1982) as boçorocas são ravinas profundas que se desenvolvem, tanto em sedimentos como em solos, nos taludes naturais e artificiais.

Figura 3.7. Sulcos e Barrancos num talude.
Fonte: López Jimeno, C., 1998

3.2.2. EROSÃO PROVOCADA PELOS CURSOS DE ÁGUA, VAGAS OCEÂNICAS E GLACIARES A erosão hídrica não ocorre somente pelo efeito da chuva e do seu escoamento superficial sobre o solo. Os rios, as vagas oceânicas e os glaciares são também agentes modeladores da paisagem. A seguir são apresentadas as principais modificações provocadas por estes agentes. a) Torrentes As Torrentes são pequenos cursos de água temporários, activos por ocasião das chuvas e que funcionam como locais de convergência e escoamento das águas de escorrência existentes no seu raio de acção. A sua localização é predominante em vertentes íngremes dos vales ou nas cabeceiras dos mesmos, nas zonas de relevo mais acidentados.

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As torrentes são compostas por três troços distintos: 1) Bacia de recepção, localizada na parte mais elevada, possuindo uma forma mais ou menos extensa, alargada e escavada onde convergem as águas e afunilando na zona de transição para o segundo troço. É desprovida de vegetação; 2) Canal de escoamento, entalhe profundo, geralmente de forma em “V” e rectilíneo, pejado de detritos de diâmetros variáveis e tem como «função» o escoamento das águas acumuladas na Bacia de recepção e dos detritos por estas arrastadas; 3) Cone de dejecção, local onde os detritos transportados são depositados, numa forma de acumulação em leque e de superfície cónica.

Figura 3.8. Torrentes.
Fonte: Geologia, 1981

À medida que a Torrente evolui, tende para um ponto de equilíbrio que vai permitir a reintrodução da vegetação, estabilizando a encosta. Os efeitos erosivos da Torrente, enquanto se encontra «activa» são bastante prejudiciais em qualquer dos seus troços. b) Rios Os rios (e os ribeiros) geralmente possuem água em regime permanente, em oposição ao regime torrencial, sazonal. Qualquer corrente de água possui uma menor ou maior capacidade erosiva, que depende da própria força da água que circula. Esta, por sua vez, depende do caudal11 e da velocidade da corrente12. O caudal do rio não é constante ao longo do ano, uma vez que recebe as águas dos seus afluentes. Também a velocidade com que a água circula, varia uma vez que o declive do rio se suaviza à medida que se aproxima da foz.

11

Caudal Caudal de um rio é o volume de água que fluí por unidade de tempo. Exprime-se em m3/s (metros cúbicos por segundo). 12 Velocidade da corrente A velocidade da corrente é consequência do declive do leito do rio.

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Por esse facto, da nascente até à foz, isto é, de montante para jusante, distinguem-se sempre três troços principais, à semelhança das torrentes: Troço superior, o rio corre por áreas montanhosas, em vertentes muito inclinadas. As águas correm rápidas e violentas. Por esse motivo predomina o trabalho de erosão, no qual grandes quantidades de materiais são arrancados das margens e do leito do rio; Troço médio, o rio já saiu do terreno montanhoso, a inclinação do leito diminui e as águas ficam menos violentas. A principal acção da água é o transporte. Existe ainda um certo desgaste nas margens (erosão lateral) devido à acção das águas das chuvas que convergem para o rio; Troço inferior, o rio corre por zonas muito planas, sem inclinação e as águas são muito vagarosas. A sua força é insuficiente para transportar materiais. Assim a acção predominante é a sedimentação. A idade de um rio é também determinante para a erosão (vide figura 3.9.): a) um rio Jovem conduz a grandes acções de erosão (o rio apresenta um perfil irregular e acentuado); b) um rio na sua fase de Maturidade tem maior poder de transporte, já que o seu perfil tende a ser mais regular, com vales profundos e geralmente apertados; e c) na fase da Senilidade, dados os vales serem amplos e possuírem vertentes muito afastadas, as acções de sedimentação são maioritárias. Independentemente dos troços e da idade do rio, a acção dos rios aumenta, consideravelmente, quando se modificam as condições normais do caudal e a geometria: Durante as cheias aumenta o seu poder abrasivo e de desgaste devido ao carácter esporádico e tumultuoso.

Figura 3.9. Fases da evolução de um rio.
Fonte: Geologia, 1981

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A alteração das rochas e os agentes erosivos c) Vagas e Ondulação

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A ondulação contribui para a modelação das escarpas costeiras, actuando como factor destabilizador da mesma. Durante os períodos de tormenta a ondulação produz um desgaste no pé das escarpas. O violento embate das ondas lança fragmentos de rocha contra a costa levando à diminuição da sua estabilidade, dependendo da competência dos materiais. Também se produzem vibrações que podem pressupor um factor condicionante da estabilidade através das descontinuidades. Devido à refracção das ondas por troca de direcção das suas frentes, as zonas salientes da costa são as que mais sofrem os seus efeitos. O retrocesso geral das escarpas por efeito das ondas faz com que estas constituam um factor condicionante da acção dos rios que desembocam na costa. Quando as escarpas sofrem erosão rápida, o vale fluvial fica retido diminuindo o nível de erosão do rio.

Figura 3.10. Erosão costeira provocada pelas acções das vagas e da ondulação.
Fonte: O Mistério da Vida, 1998

A água do mar é a principal responsável pela modelação da paisagem ao longo da costa, originando uma série de aspectos característicos. A sua acção erosiva é provocada principalmente pelo impacto das ondas que golpeiam as rochas, arrancando-lhes fragmentos que depois atiram contra elas, desgastando-as ainda mais. Assim se formam as recortadas arribas costeiras. As ondas e as correntes costeiras realizam também o transporte dos materiais resultantes do desgaste das rochas. A sedimentação destes detritos, principalmente areias, que ocorre sobretudo em zonas mais ou menos abrigadas, «alimenta» as praias.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos d) Águas Subterrâneas

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Consideram-se, como tais, correntes, níveis subterrâneos, a água distribuída pela rede de fracturação de um maciço rochoso ou de forma intersticial pelos solos que condiciona a sua estabilidade. Exercem uma série de dissoluções e outras trocas físico-químicas no terreno, que diminuem as características resistentes deste. Em regiões cársicas o seu progresso pode causar o aluimento de cavernas, afectando os taludes mais próximos. A absorção da água de infiltração produz expansão e contracção contínua dos solos, em períodos alternados de chuva e seca, que faz variar as características resistentes do terreno. A água subterrânea pode originar a liquefacção de solos argilosos por aumento da pressão intersticial devido a trocas bruscas do nível freático. Quando à escorrência por entre as descontinuidades, aumenta a pressão entre elas, actuando como lubrificante nos minerais argilosos constituintes do meio. e) Gelo e Neve O repetido crescimento e fusão do gelo que se transforma em água intersticial do terreno e a contida nas descontinuidades produz uma desagregação mecânica na estrutura deste. Esta traduz-se numa relação de coesão e alargamento das descontinuidades condicionando o terreno perante a acção de outros factores. As grandes massas de gelo em movimento, designadas por glaciares, arrastam fragmentos que arrancam das rochas erodindo o fundo e as paredes do seu Ieito, formando um vale com um perfil transversal em forma de “U”, denominando-se de «vale glaciário».

Figura 3.11. Vale glaciário do Zêzere, na serra da Estrela.
Fonte: O Mistério da Vida, 1998

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Acima de certa altitude, a água, em vez de se precipitar para o solo na forma de chuva, fá-lo na forma de neve, seja qual for a época do ano. O mesmo fenómeno se passa nas regiões polares onde a temperatura é sempre muito baixa. Nas altas montanhas a neve cobre a superfície do solo e acumula-se, em massas enormes, nos «circos». Estes, são as zonas superiores dos glaciares e correspondem a áreas montanhosas, rodeadas por todos os lados, de paredes escarpadas. A neve dos circos nunca se derrete. Adquire, desta forma, uma altura e espessura consideráveis, formando uma massa gelada que desliza num movimento lento e regular, sob a acção do seu próprio peso, até às zonas de menor inclinação. A esta massa gelada em movimento chama-se «glaciar». O gelo que desce a partir do circo forma a chamada língua glaciária, que se comporta como um verdadeiro rio de gelo. À medida que o glaciar avança, arranca fragmentos e detritos de rochas, das paredes laterais e do leito, que transporta para longe. A estes materiais transportados pelo glaciar dá-se o nome de «moreias». Todos estes materiais, encravados no gelo, contribuem para a acção erosiva dos glaciares, uma vez que ao roçarem pelas margens e pelo fundo do leito, actuam como plainas gigantes, desgastando e polindo os leitos. Estes blocos e calhaus, uma vez libertos do glaciar, apresentam um aspecto polido ou estriado que é prova da sua acção erosiva. A acção erosiva dos glaciares observa-se após o desaparecimento das massas de gelo. Tal, principia quando o glaciar atinge regiões mais quentes e o gelo começa a derreter. 3.2.3. CURVAS DE HJULSTROM Os fenómenos dos vários processos mecânicos provocados pela água foram estudados experimentalmente por HJULSTROM (1935), tendo conseguido obter as curvas que correlacionam a velocidade do fluido com os fenómenos de Erosão, Transporte e Deposição.

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Figura 3.12. Gráfico de HJULSTROM.
Adaptado de RCT, 2001

Segundo HJULSTROM, um grão de areia com 1mm de diâmetro que é deslocado para velocidades superiores a 30cm/s, mantém-se em movimento entre 30 a 6 cm/s e deposita-se para velocidades inferiores a 6cm/s; uma partícula com 2 µm é arrancada para velocidades superiores a 150cm/s e mantém-se em suspensão até que praticamente a velocidade da corrente se anule; um seixo com 10cm de diâmetro, é deslocado da posição de repouso para uma corrente com a velocidade de 300cm/s, movimenta-se entre 300 e 200cm/s e imobiliza-se no leito desde que a velocidade desça abaixo daqueles valores. O gráfico está divido em três grandes áreas, Erosão, Transporte e Sedimentação. Estas áreas são divididas por duas curvas: Curva 1: Curva da velocidade crítica de erosão, indica aproximadamente a velocidade necessária para remover e transportar, em suspensão, partículas de diversas granulometrias. A curva mostra que são necessárias elevadas velocidades para a remoção tanto de partículas extremamente finas como de partículas extremamente grosseiras; Curva 2: Curva de velocidade de queda, curva limite entre o transporte e a deposição, mostra a velocidade a que partículas, para uma determinada granulometria se tornam demasiado pesadas para serem transportadas, depositando-se. 38

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3.3. EROSÃO EÓLICA
A Erosão Eólica é o processo pelo qual o vento recolhe e transporta o material superficial solto, ao mesmo tempo que as partículas transportadas desgastam, por abrasão, as rochas e solos, uma vez que o vento, por si só, não tem capacidade para desgastar as rochas. Conforme BERTONI e LOMBARDI NETO (1990) a erosão eólica acontece em áreas de topografia plana, com poucas chuvas e com vegetação natural escassa com presença de ventos fortes. Este tipo de erosão torna-se ainda mais sério em regiões áridas e semi-áridas, podendo ocorrer em outras regiões. Para isto é necessário que o solo se apresente solto, seco e com granulações finas, superfície lisa e cobertura vegetal ausente ou quase inexistente e rampas sem obstrução à redução da força do vento, o qual necessita de energia suficiente para iniciar o movimento das partículas do solo. Os principais factores que afectam a erosão eólica são o clima, o solo e a vegetação (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990): • O factor climático compreende precipitação, ventos, temperatura, humidade, viscosidade e a densidade do ar; • O solo é factor determinante e considera-se sua textura, estrutura, densidade das partículas, matéria orgânica presente, humidade e também a rugosidade da superfície. O mais importante a considerar é a sua humidade, pois, somente um solo relativamente seco está sujeito a esta forma de erosão; • A altura e a densidade da vegetação são de fundamental importância para diminuir a velocidade do vento e evitar a incidência directa sobre o solo. O tipo de regime do vento também influência bastante os processos erosivos: Ventos constantes e paralelos à superfície de contacto não produzem grandes efeitos de erosão, por seu turno, ventos em regime turbulento e de velocidades alternadas possuem grande poder erosivo. A erosão eólica compreende três acções fundamentais e interligadas: a deflação, a corrosão e a acumulação, a saber: • A deflação consiste na remoção das partículas mais finas e soltas (areias) do solo. Quando este processo se exerce sobre uma superfície pedregosa, 39

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formada por fragmentos rochosos soltos, de dimensões muito variadas, o vento arrasta apenas os mais pequenos deixando ficar os maiores e mais pesados (cascalho e calhaus). Formam-se então superfícies pedregosas limpas de material mais fino, «regs» uma espécie de planície de pedras; • A corrosão é a acção de desgaste e polimento das rochas pelo bombardeamento com os materiais transportados pelo vento. Como os sedimentos mais pesados são transportados rentes ao solo, as rochas por eles atingidas são mais desgastadas na parte de baixo. Daí que se produzam relevos curiosos conhecidos como «rochas-cogumelos» ou blocos pedunculados;

Figura 3.13. Exemplo esquemático da formação de uma «rocha-cogumelo» e fotografia de uma.
Fonte: O Mistério da Vida, 1998; Ciências da Terra 7, 1995

A acumulação consiste na deposição dos materiais transportados pelo vento quando este encontra algum obstáculo ou perde força. Os sedimentos acumulados pelo vento formam frequentemente grandes montes de areia chamados «dunas», vulgares nos litorais e desertos. A parte do deserto constituída pelas dunas denomina-se «erg».

Figura 3.14. Formação de uma «Duna».
Fonte: O Mistério da Vida, 1998

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As partículas, dependendo do tipo de vento e das suas dimensões são transportadas por Suspensão (de curta ou longa duração), Saltação ou Arraste Superficial, como evidencia a figura seguinte.
Suspensão de longa duração
Partículas de argila e silte finas

VENTO

Arraste Superficial
Areia grossa Areia média e fina

Saltação

Suspensão de curta duração

Remoinhos turbulentos

Grãos de silte médios e grosseiros

Figura 3.15. Principais formas de transporte eólico de sedimentos.
Adaptado de Jimeno, 1999

Como se pode observar, as partículas finas como argilas e siltes (diâmetros inferiores a 0,2mm) são transportadas em suspensão, as partículas de médias dimensões (diâmetros inferiores a 0,5mm) como as areias finas são transportadas por saltação e o arraste ocorre para partículas de areia grossa, maiores e mais pesadas (diâmetros normalmente compreendidos entre 0,5mm e 2mm). Para prever a erosão eólica, WOODRUFF e SIDDOWAY (1965) e SKIDMORE e WILLIAMS (1991), desenvolveram uma técnica semelhante à utilizada por WISCHMEIER E SMITH (1978) – USLE – para obter as perdas de solo em função de cinco factores:

WE = f (I, C, K, L, VJ )
Onde:
WE – perda de solo por acção do vento (t/ha.ano) I – factor de erodibilidade do solo (t/ha) C – factor climático (adimensional) K – factor de rugosidade superifical (adimensional) L – factor de campo aberto à corrente de ar (m) V – factor de cobertura vegetal (kg/ha)

[1]

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A equação permite interacções entre factores pelo que não se pode resolver multiplicando somente os valores dos factores. As relações entre os factores são bastante complexas e as previsões podem obter-se utilizando complexos e complicados monogramas ou equações, especialmente desenvolvidas segundo uma sequência pré estabelecida. Factor de erodibilidade “I” Representa a perda potencial do solo durante um ano, numa parcela nivelada, nua e seca, idealmente seleccionada em Garden City, Kansas, Estados Unidos da América. Os seus valores foram determinados por estudos num túnel de vento e podem estimar-se, conhecendo-se a percentagem de agregados secos estáveis maiores que 0,84mm. Valores indicativos para diferentes tipos de solos, podem ser visualizados na tabela 3.3. Factor climático “C” Este factor é função da velocidade média anual do vento (m/s), obtida a 9m de altura e do valor da humidade relativa do solo, expressada pelo índice de precipitação efectiva de Thornthwaite, que por sua vez, é função da precipitação mensal e da temperatura. Factor de rugosidade superficial “K” É função da altura das barreiras criadas pelos trabalhos na área e pela distância entre essas barreiras. Longitude aberta à corrente de ar “L” É função do comprimento do campo e da distância a que este se encontra da protecção de qualquer tipo de árvores, barreiras ou outras edificações. Factor de cobertura vegetal “V” Depende da biomassa viva existente, dos resíduos mortos ainda em pé e dos resíduos estendidos sobre o solo. WOODRUFF e SIDDOWAY (1965) estimaram valores de V para diferentes cultivos, LYLES e ALLISON (1980) para herbáceas de folha perene.

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Tabela 3.3. Factor de erodibilidade eólica do solo “I”.
Fonte: WOODRUFF e SKIDMORE, 1965

Grupos de erodibilidade Areias muito finas, finas e medianas; Areias de dunas. 2 Franco - arenoso; Franco - arenoso fino. Franco - arenoso muito fino; 3 Franco - arenoso fino; Franco - arenoso. Argiloso; Argilo - siltoso; 4 Franco - argiloso não calcário; Franco - argilo - siltoso (>35% de argila). Franco - siltoso calcário; Franco - siltoso; 5 Franco - argiloso não calcário; Franco - argilo - siltoso (<35% de argila). Franco não calcário; 6 Franco - siltoso (<20% de argila); Franco - argilo - arenoso; Argilo - arenoso. Franco não calcário; 7 Franco - siltoso (>20% de argila); Franco - argiloso não calcário (<35% de argila). Siltoso; 8 Franco - argilo - siltoso não calcário (<35% de argila). Solo muito húmido ou rochoso, normalmente não erosível.

Percentagem de agregados em Solos secos > 0,84 mm 1-7

Factor “I” (t/ha)

Erodibilidade

1

165,7 – 395,3 ALTA

10

330,96

25

214,4

25

214,4 MÉDIA

25

214,4

40

138,3

45

1186

BAIXA

50

93,8

9

-

-

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4. OUTROS FACTORES QUE INFLUENCIAM A EROSÃO
A susceptibilidade de uma determinada área, ao desenvolvimento de movimentos dos taludes, está condicionada pela sua estrutura geológica, a sua litologia, as suas condições hidrogeológicas e a sua morfologia. Uma variação destes condicionantes, devido a causas naturais ou devido à acção do homem, pode traduzir-se num incremento ou numa diminuição do esforço de corte cujo efeito imediato desencadeia a instabilidade de uma massa de terreno. Para além das acções da água e do vento, existem outros factores que, não sendo agentes erosivos, afectam directamente a estabilidade dos taludes e que podem ser responsáveis pelo desencadeamento de eventuais movimentos nos mesmos. De um modo geral, estes factores podem agrupar-se da seguinte forma:

4.1. FACTORES NATURAIS
4.1.1. A FORÇA DA GRAVIDADE A força da gravidade é sem dúvida o motor de todos os agentes erosivos. É a gravidade que (GALOPIM DE CARVALHO, 1981): • • • • • • Faz cair as gotas da chuva; Dinamiza a escorrência e a infiltração das águas superficiais; Provoca a corrente dos rios os quais transportam os materiais sólidos que incrementam a erosão; Movimenta massas de gelo ao longo dos vales glaciários; Faz tombar as nuvens de areia elevadas pelo vento; Provoca o recuo da vaga que rebenta no litoral.

Um exemplo das consequências desta força é a reptação (figura 4.1.) ou «creeping», (manifestação por fluência), que são movimentos descendentes muito lentos do material ao longo de um talude pouco inclinado, onde as partículas descem praticamente grão a grão. A reptação é um processo tão lento que dele apenas se observam os efeitos nos muros rachados e deslocados, nos postes telegráficos inclinados, nas árvores encurvadas, etc..

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Figura 4.1 Reptação.
Fonte: Geologia, 1981

Parte dos materiais que descem por gravidade podem permanecer em equilíbrio instável em troços menos íngremes das vertentes, por períodos mais ou menos longos, constituindo depósitos de vertente, os quais, muitas vezes, mantêm a reptação ou alimentam os escorregamentos e as avalanches. Os depósitos acumulados na base das vertentes ou depósitos de sopé, podem encontrar-se individualizados em cones de detritos ou formar um talude contínuo ao longo do sopé da vertente.
a b

Figura 4.2. a) Cones de detritos; b) Talude de detritos.
Fonte: Geologia, 1981

4.1.2. RELEVO TOPOGRÁFICO O relevo topográfico é sem dúvida o factor natural, à parte da gravidade, que mais influência possui na acção dos agentes erosivos (água e ar). Todos os parâmetros geométricos de um talude (comprimento, inclinação, a forma geométrica do perfil ou a estrutura) são condicionantes às acções dos referidos agentes. Como exemplo disso tem-se a influência que possui a inclinação de um talude à chuva. Uma superfície plana recebe as gotas de água da chuva que ao desagregarem o solo salpicam essas partículas aleatoriamente em todas as direcções, enquanto que numa superfície inclinada, essas partículas são posteriormente arrastadas talude abaixo, tendendo em aumentar essa percentagem de arrastamento em função da inclinação do talude.

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A altura do talude também traz consequências nefastas à erosão, pois para as mesmas condições, quanto maior a altura maior a velocidade da escorrência e obviamente, maior o caudal de água que chega à base do mesmo. Na figura seguinte é visível a influência que tem o ângulo da inclinação de um talude sobre a erosão e sobre a vegetação.
Riscos de erosão graves Revegetação improvável

Riscos de erosão perigosos O êxito da revegetação é escasso Riscos de erosão moderados Possibilidade de revegetação Riscos de erosão moderados Bom êxito de revegetação Riscos de erosão moderados Grande êxito de revegetação

Riscos de erosão ligeiros Mínima influência do talude

Figura 4.3. Influência do ângulo de inclinação de um talude sobre a erosão e a vegetação.
Adaptado de Departamento de Minerais e Energia, Western Australia, 1996

Tal como já foi referido, a própria estrutura do relevo condiciona extraordinariamente a escorrência da água influenciando desta forma também, os processos de erosão. POU, A (1988) definiu 10 modelos de taludes (encostas) associados a formas geométricas planas, côncavas e convexas. Os modelos encontram-se ilustrados na figura 4.4.. Na figura “1”, onde existe um perfil misto, convexo na parte superior e côncavo na parte inferior, é possível observar que na parte inferior se regista maior escorrência de água, pois recolhe a água vinda das partes mais altas. Nos casos dos taludes com perfil convexo (figuras “2”, “3” e “4”), a inclinação do talude aumenta progressivamente à medida que se desce, aumentando desta forma a pretensão de criar erosão hídrica (de acordo com o explicado anteriormente). Com se pode observar, na figura “2”, as trajectórias dos fluxos de água divergem, diminuindo 46

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desta forma a probabilidade de criar fluxos preferenciais e por sua vez, produzir erosão. No entanto, à medida que se avança para a situação ilustrada pela figura “4”, a probabilidade de se obter erosão hídrica é elevada, pois as linhas de água convergem para uma zona bem definida. Neste caso, a probabilidade de ocorrerem sulcos e barrancos é elevada.

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

Figura 4.4. Modelos geométricos de dez tipos de taludes e distribuição da escorrência.
Adaptado de Pou, A, 1988

Legenda: 1 2/3/4 5/6/7 8 / 9 / 10 Perfil misto: côncavo na base e convexo no topo. Perfil convexo Perfil rectilíneo Perfil côncavo

Os taludes com perfil rectilíneo (figuras “5”, “6” e “7”), tendem a criar somente um arraste superficial do solo, de uma forma bastante uniforme. Na figura “7”, apesar de as linhas de escorrência se concentrarem todas num só ponto, não é preocupante o risco de erosão criado por taludes com este tipo de geometria porque isso só acontece praticamente na base do talude. Por fim, os taludes com perfil côncavo (figuras “8”, “9” e “10”), têm tendência a reter os materiais arrastados nas partes inferiores dos mesmos, dada a inclinação que os taludes possuem. Estes tipos de taludes, tendem a possuir zonas de erosão no topo, geralmente lineares e, à medida que se desce em altura, o processo de erosão é substituído pelos processos de acumulação e sedimentação.

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PERRENS et al., (1984) estudou a influência do perfil de um talude sobre a erosão hídrica, tendo para tal, estudado taludes de escombreiras e terrenos restaurados de explorações mineiras, correlacionando os quatro tipos de perfil atrás enunciados com os processos de erosão e de sedimentação que afectam cada um dos perfis. A figura seguinte é o espelho da sua investigação.

Figura 4.5. a) Formas típicas de taludes. b) Saldo de materiais Erosão/Sedimentação.
Fonte: Modificado de Perrens et al., 1984

De acordo com o que foi referido, as conclusões mais importantes a reter deste conjunto de figuras são: • Os taludes com perfil côncavo são os que produzem menor quantidade de sedimentos e os que oferecem uma superfície mais estável. • Os taludes de perfil convexo são os que produzem maior quantidade de sedimentos e os que se erosionam mais facilmente.

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Os taludes uniformes, são os que se apresentam num estágio intermédio de erosão, podendo ser facilmente afectados, no entanto, se ocorrer uma queda de água torrencial.

Os taludes mistos, mostram valores elevados de erosão e sedimentação, no seu topo e na base, respectivamente.

A topografia do terreno (relevo), representado pelo comprimento e a extensão das vertentes é factor importantíssimo na erosão pois influi no tamanho, quantidade e velocidade de transporte do material em suspensão, arrastado pelo escoamento superficial. WISCHMEIER e SMITH (1978) definem o comprimento de rampa como a distância do ponto de origem do escoamento superficial até o ponto onde o ângulo da vertente decresce o suficiente para que se inicie a deposição, ou que o escoamento superficial aflua para um curso de água ou para um canal artificial. Sobre a declividade os mesmos autores afirmaram que os estudos dos efeitos da pluviosidade sobre a vertente mostraram que o logaritmo do escoamento superficial das lavouras foi linear e directamente proporcional à declividade. BERTONI e LOMBARDI NETO(1990) concluem após citar vários autores, que a perda de terra é uma função exponencial da declividade. Eles afirmam que, em princípio, quanto maior for o comprimento de rampa mais escoamento superficial se acumula e maior é a energia resultante, traduzindo-se numa maior erosão. São contrários ao cálculo da erosão baseado apenas em dados de declividade, que desconsideram o comprimento de rampa. Lembram que um terreno com apenas 1% de declividade e 180 m de comprimento de rampa tem a mesma perda de terra que outro terreno de 20% de declividade e 20 m de comprimento de rampa.
Tabela 4.1. Efeito do comprimento de rampa nas perdas de solo.
Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Comprimento de rampa (m) 25 50 75 100

Média (ton/ha) 13.9 19.9 26.2 32.5

Segmentos de 25 m cada 1º segmento (ton/ha) 13.9 13.9 13.9 13.9 2º segmento (ton/ha) 25.9 25.9 25.9 3º segmento (ton/ha) 38.8 38.8 4 º segmento (ton/ha) 51.4

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Observa-se na tabela anterior, que numa rampa de 50m, os primeiros 25 metros perdem 13,9 t/ha; os segundos 25 m, 25,9 t/ha, ou seja, quase o dobro; numa rampa de 75 m, os terceiros 25 m perderam 38,8 t/ha, cerca de três vezes mais que os primeiros. Numa rampa de 100 m, os últimos 25 m perderam 51,4 t/ha, isto é, quatro vezes mais que os primeiros 25 m. Conclui-se, assim, o quanto é importante, para o controlo da erosão, o parcelamento dos taludes, usando, ou o reperfilamento ou a colocação de vegetação permanente. (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990). 4.1.3. SISMICIDADE E VULCANISMO Constituem factores desencadeantes de grandes deslocamentos, podendo ocasionar graves danos. Quando ocorre um sismo, geram-se vibrações que se propagam em ondas de variadas frequências. As acelerações vertical e horizontal associadas às ondas originam uma flutuação do estado dos esforços no interior do terreno, afectando o equilíbrio dos taludes. Assim, pode produzir-se uma perturbação na estrutura inter granular dos materiais diminuindo a coesão. Em algumas areias finas saturadas sem drenagem e argilas, o afastamento ou rotação dos grãos pode ter como resultado uma súbita liquefacção do solo como consequência do incremento da pressão da água intersticial. Esta acção sísmica é complexa e origina fenómenos deformacionais que podem ser do tipo sismo-tectónico ou sismo-gravitacional. O primeiro tipo é a manifestação dos movimentos que se produzem ao longo da crosta, ao longo das falhas, pregas, fendas, etc., produzidas por terramotos de intensidade superior a 6,5 na escala de Mercalli. As características da deformação dependem da natureza dos esforços independentemente das forças gravitacionais. Os fenómenos deformacionais do tipo sismo-gravitacional têm uma dinâmica específica. Os materiais deslocados estendem-se por áreas superiores às afectadas pelos movimentos devido à gravidade, particularmente se existirem vibrações de grande duração. Dão origem a grandes deslizamentos, avalanches, desprendimentos e correntes. O factor sísmico de maior incidência no movimento dos taludes é a intensidade do abalo (a partir de 6,5 na escala de Mercalli), e o de menor incidência é a duração. Nas regiões sismicamente activas, os terramotos são a causa predominante dos movimentos nos taludes.

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Os vulcões em actividade associados a movimentos sísmicos de características específicas quanto à sua intensidade, frequência, etc., originam modificações das encostas que formam o cone vulcânico e dos materiais que se encontrem nelas depositados (gelo, blocos). O campo de esforços existente nos cones vulcânicos pode modificar-se como resultado de uma dilatação das câmaras magmáticas, alterações do nível do magma e abalos harmónicos que se dão continuamente. Estes fenómenos alteram o equilíbrio dos taludes que rodeiam as crateras produzindo, geralmente, falhas e colapsos. 4.1.4. SUBSIDÊNCIA REGIONAL Diversos estudos e evidências têm posto em discussão os movimentos que existem na crosta terrestre de modo a estabelecer um equilíbrio para a mesma. A subsidência é um reflexo destes movimentos, de certa importância na estabilidade de taludes. Actua como um factor que condiciona gradualmente a estabilidade dos taludes e desencadeia movimentos quando associado a fenómenos sismo-tectónicos. Consideram-se como subsidências regionais os afastamentos verticais que se produzem ao nível do mar e da terra, em grandes áreas da crosta terrestre. Existem, também, subsidências relacionadas com grandes acidentes tectónicos e outras que acompanham os movimentos mais violentos e constituem acções de registo posterior. Estas têm carácter local. As subsidências têm uma desigual distribuição espacial e desenvolvem-se de forma gradual e muito lenta, praticamente imperceptíveis, excepto as que acompanham os sismos. O efeito que causa é um progressivo aumento do ângulo do talude que contribui para o aparecimento de alguns deslizamentos. Produz uma troca de esforços no interior do terreno, alterando as condições de equilíbrio por um aumento do esforço de corte. É necessário que o talude esteja próximo das condições de equilíbrio limite, para que este pequeno e lento movimento tenha efeitos consideráveis. 4.1.5. ESTADO TENSIONAL A estabilidade dos taludes também pode ser avaliada através da sua história tensional dos maciços rochosos que os constituem. Nunca se deveria efectuar qualquer acção de alteração morfológica do talude sem antes se determinar o seu estado de tensão natural existente.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos 4.1.6. ACTIVIDADE BIOLÓGICA E COBERTURA VEGETAL

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A actividade biológica e a cobertura vegetal não constituem um factor determinante na estabilidade de taludes, no entanto condicionam de forma notável acção de outros factores que podem originar movimentos nos taludes. A cobertura vegetal é a defesa natural de um terreno contra a erosão. O efeito da vegetação é assim enumerado: • • • protecção directa contra o impacto das gotas de chuva; dispersão da água, interceptando-a e evaporando-a antes que atinja o solo; decomposição das raízes das plantas que, formando canalículos no solo, aumentam a infiltração da água; • melhoramento da estrutura do solo pela adição de matéria orgânica, aumentando a sua capacidade de retenção de água; • diminuição da velocidade de escoamento superficial pelo aumento do atrito na superfície. Quando a gota de chuva cai num terreno coberto com vegetação densa, ela divide-se em inúmeras gotículas, diminuindo também sua força de impacto. Em terreno descoberto (tal como referido no sub-capítulo 3.2.), esta gota faz desprender e salpicar as partículas de solo, que são facilmente transportadas pela água. A cobertura vegetal através das suas raízes ajuda a manter os taludes estáveis pois servem de união entre os componentes do solo, aumentando a resistência mecânica do solo. Contribui, ainda, para a drenagem, absorvendo parte da água contida no terreno e atenua a degradação superficial do mesmo. A vegetação actua ainda como uma capa protectora entre a atmosfera e o solo já que os seus ramos e folhas absorvem grande parte da energia cinética das gotas da chuva e do vento, diminuindo os seus efeitos erosivos. Ao decompor-se, a vegetação aumenta o conteúdo de matéria orgânica e de húmus do solo, melhorando-lhe a porosidade e a capacidade de retenção de água. Na tabela 4.2 percebe-se o efeito da acção de diferentes coberturas vegetais nas perdas de solo e água pela erosão. (valores obtidos por uma equipa do IAC – Instituto Agrónomo de Campinas, São Paulo, Brasil).

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A vegetação também desempenha importante papel na diminuição da erosão eólica, pois reduz a velocidade do vento junto à superfície do solo e absorve a maior parte da força exercida pelo mesmo. Agregando partículas de solo, a vegetação previne a formação de nuvens de areia e impede que estas partículas sejam levadas pelo vento. A vegetação torna-se ainda mais eficiente no combate à erosão eólica quando há culturas bem fixadas no solo.
Tabela 4.2. Efeito do tipo de uso do solo sobre as perdas por erosão.
(Médias ponderadas para quatro usos de solo no Estado de São Paulo) Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Perdas de Tipo de uso Mata Pastagem Cafezal Algodoal Solo (ton/ha) 0,004 0,4 0,9 26,6 Água (% da chuva) 0,7 0,7 1,1 7,2

Após a análise da tabela anterior, nota-se que as perdas de solo e água aumentam à medida que a cobertura vegetal diminui. A cobertura vegetal que proporciona a maior protecção é a mata, cujas perdas de solo são apenas 0,004 t/ha e 0,7% de perdas de água da chuva. As pastagens mantêm ainda uma pequena perda de solo (0,4 t/ha) e a mesma quantidade de perdas de água que a mata. A cultura permanente do café, apresenta perdas de solo de 0,9 t/ha e 1,1% de perdas de água. A cultura temporária do algodoal, que deixa o solo nu e desprotegido por boa parte do tempo, apresenta altos valores de perdas de solo (26,6 t/ha) e água (7,2%). JIMENO (1999), defende também que a eficácia da cobertura vegetal para reduzir a erosão por impacto das gotas de chuva depende sobretudo da altura e da densidade da vegetação. Segundo ele, gotas de chuva que caiam de uma altura de 7m podem chegar ao solo com uma velocidade terminal próxima dos 90%, havendo ainda a possibilidade de estas se juntarem a outras, aquando da sua queda, aumentando desta forma de tamanho, tornando-se mais erosivas. A acumulação de água nas folhas das plantas originam a queda pontual da água, que pode, em alguns casos, ser responsável pela saturação do terreno nesse ponto e portanto, permitir o aparecimento de escoamentos.

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Por outro lado, segundo o mesmo autor, a cobertura vegetal dissipa a energia da água em movimento sobre o solo, devido aos «obstáculos» criados à escorrência pelos troncos e vegetação caída, sendo que coberturas vegetais densas e uniformes se opõem mais que qualquer outro tipo de formação. A vegetação muito agrupada e até as gramíneas, por formarem tufos, não são tão eficazes pois permitem o aparecimento de concentrações de fluxo de escorrência, aumentando desta forma a velocidade da mesma. Relativamente à acção do vento, a vegetação reduz a sua velocidade, derivada da sua superfície rugosa e obrigando a que a superfície aerodinâmica do ar se eleve sobre estas, o que origina uma quase nula acção do vento junto à superfície.

Terreno sem vegetação

Terreno com vegetação

Figura 4.6. Influência da cobertura vegetal na acção do vento.
Adaptado de JIMENO, 1999

Pode definir-se um plano de velocidade do vento nula a uma cota Z0, sobre a superfície aerodinâmica. Em superfícies lisas e sem cobertura vegetal (figura à esquerda), essa cota é quase nula, em contrapartida, em locais onde existe vegetação (figura à direita), essa cota Z0 eleva-se para um plano d+Z0 em que d corresponde a cerca de 70% da altura das plantas. Da figura pode-se perceber que apesar de uma vegetação arbórea e arbustiva densas serem mais efectivas à erosão, uma cobertura do solo com herbáceas tem praticamente a mesma eficácia e, consegue-se obter muito mais rapidamente o efeito desejado. 54

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Infelizmente, uma cobertura herbácea, por muito bem conservada e distribuída no terreno, não consegue garantir uma protecção ao talude com pendentes acima dos 30% (ver figura 4.3). Os aspectos negativos devem-se ao facto de existirem raízes capazes de desagregar o terreno e afastar blocos de magnitude considerável, por meio de efeitos mecânicos através de fendas e fissuras actuando como cunhas. A desflorestação de certos taludes incide adversamente no regime de água nos estratos superficiais, contribuindo para a actuação de outros factores destabilizadores. No que respeita aos agentes erosivos é ainda de realçar a importância da denominada «erosão biológica». A acção desagregadora das raízes das plantas é particularmente evidente. Muitas árvores, cujas raízes penetram nas suas fendas, provocam a fragmentação destas e posterior alargamento das fendas criadas. Muitos outros seres vivos como certos animais, fungos e bactérias, que vivem em contacto com as rochas, têm um efeito erosivo: os seres vivos contribuem de diversas formas para a modelação da paisagem; certas bactérias, fungos e líquenes atacam quimicamente as rochas.

Figura 4.7. Efeito das raízes.
Fonte: O Mistério da Vida, 1998

4.2. ACTIVIDADE HUMANA
O desenvolvimento dos países inclui um conjunto de acções de modo a criar uma infra-estrutura que permita o progresso dos mesmos. Destacam-se os sectores orientados à procura de recursos naturais e aqueles que permitam os serviços necessários à sua transformação e distribuição. Três dos mais importantes são a actividade mineira, a agricultura e a construção civil. 55

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A actividade humana que deriva destes actos constitui uma das causas com maior incidência no movimento dos taludes. No entanto, estes têm, geralmente, consequências de menor impacto do que os produzidos por causas naturais. a) Agricultura Quanto ao uso e conservação do solo, BERTONI et al. apresentaram em 1972 o efeito das diferentes densidades de vegetação no processo de erosão das terras com cultivos anuais. Os dados referentes a esta pesquisa encontram-se na tabela 4.3.. Os autores agruparam as lavouras em 4 grupos, segundo o grau crescente de protecção oferecida contra a erosão. Partindo do grupo que menos protege o solo, o primeiro é constituído pelas culturas de mamona, feijão e mandioca; no segundo estão agrupadas as culturas de amendoim, arroz e algodão; o terceiro engloba as culturas de soja e batatinha; o último grupo é formado pelas culturas de cana-de-açúcar, milho, milho + feijão e batata–doce.
Tabela 4.3. Efeito do tipo de cultura anual sobre as perdas por erosão.
(Média tendo como base: 1.300 mm de chuva anual e declive entre 8,5 e 12,8 %) Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Perdas de Grupos Cultura anual Solo (ton/ha) Mamona 1 Feijão Mandioca Amendoim 2 Arroz Algodão 3 Soja Batatinha Cana-de-açúcar 4 Milho Milho + feijão Batata-doce 41,5 38,1 33,9 26,7 25,1 24,8 20,1 18,4 12,4 12,0 10,1 6,6 Água (% da chuva) 12,0 11,2 11,4 9,2 11,2 9,7 6,9 6,6 4,2 5,2 4,6 4.2

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Os autores (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990) concluem que é possível indicar com segurança a prática de culturas em faixas, baseada na resistência apresentada em cada grupo de cultivo e afirmam ainda que os sistemas de utilização do solo é que determinam o grau de erodibilidade dos mesmos. Dependendo da cultura a ser praticada, é necessário tomar algumas medidas de precaução para que se controle o efeito erosivo do solo. Por exemplo, numa cultura de cana-de-açúcar os danos podem ser minimizados preparando o solo e realizando a plantação em linhas de nível. Porém, como cada cultura requer um tratamento específico, utiliza-se também a plantação de faixas de cultura com alguns níveis de vegetação densa ou nativa intercaladas, sendo de grande eficiência contra a erosão hídrica. Outra opção, já bastante difundida principalmente para que os nutrientes do solo se recomponham, é a rotação de culturas. Propicia uma maior cobertura, melhora as condições físicas do solo e reduz a erosão, desde que esta área em descanso esteja coberta por uma vegetação rasteira para que a água da chuva não atinja o solo sem cobertura. b) Escavações e actividades mineiras a céu aberto Constituem um dos factores desencadeantes mais comuns, devido à necessidade das escavações nas obras civis e mineiras. Produzem uma variação do estado de equilíbrio do terreno, traduzindo-se em subsidências, descalces de potenciais superfícies de deslizamento, desequilíbrio de massas, entre outros. c) Actividade mineira subterrânea A exploração subterrânea dos recursos naturais é uma das causas mais importantes dos grandes movimentos à superfície. A degradação que sofrem as câmaras e as galerias das explorações abandonadas podem conduzir a abatimentos das mesmas. Estes fenómenos podem reflectir-se à superfície do terreno originando subsidências, mais notáveis quanto menor for a cobertura do terreno sobre as galerias. Como resultado, produz-se um aumento da diferença de altura dos níveis do terreno e uma relaxação do mesmo em áreas de tensão que rodeiam a subsidência. d) Desmontes Os efeitos imediatos dos desmontes, são característicos da onda que se propaga e dos gases que se originam. As vibrações produzidas actuam como pequenos sismos. 57

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Podem actuar como desencadeantes dos movimentos, condicionando e diminuindo a estabilidade dos maciços rochosos. O comportamento do terreno como meio transmissor depende principalmente: das suas características de resistência à tracção; da existência de descontinuidades; da percentagem de água; etc. A onda de compressão origina a abertura de fendas radiais em redor da carga, e a onda de tracção fragmenta o material. Como consequência, amplia-se a rede de fracturação pré-existente no terreno, criando novas superfícies de potencial deslizamento. e) Sobrecargas São um factor condicionante dos movimentos que afectam as imediações nas quais se produz a acção. É o resultado do aumento de peso devido a diversos tipos de construções sobre o terreno natural. Também pode aparecer devido ao peso da água infiltrada no terreno, como consequência de fugas em condutas, canais de escoamento, depósitos de água, etc. O efeito produzido é, geralmente, um incremento no esforço de corte do terreno e quando se trata de solos com elevado teor em argila, origina-se um aumento da pressão intersticial. Alteram-se deste modo, as condições de equilíbrio existentes no terreno podendo produzir-se movimentos de diferentes tipos. f) Técnicas de reforço e sustimento Durante as etapas de projecto de uma qualquer actividade humana (construção civil, indústria extractiva), deverão ser efectuados estudos e análises de estabilidade dos terrenos, de modo a dimensionar-se, se necessário, os sistemas necessários para melhorar a estabilidade dos taludes. g) Sistema de drenagem Também este ponto, deverá ser bem estudado nas etapas de projecto de uma qualquer actividade humana (construção civil, indústria extractiva), pois a estabilidade dos taludes, como já foi amplamente referido, é dependente em larga escala dos efeitos do escoamento das águas. Se estas não forem bem encaminhadas, os riscos de erosão irão aumentar.

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5. ERODIBILIDADE 5.1. DEFINIÇÃO
Erodibilidade é a susceptibilidade ou vulnerabilidade de uma formação edáfica ou rochosa à erosão e é função das características intrínsecas do solo ou rocha bem como do relevo e vegetação (JIMENO 1999). A erodibilidade de um solo é inversamente proporcional à sua resistência à erosão. A erosividade, como já foi anteriormente referido, depende exclusivamente da chuva e do vento, sendo portanto independente da erodibilidade, no entanto, só se consegue quantificar quando existe erosão. Do mesmo modo, os valores relativos da erodibilidade não são influenciados pelos agentes externos referidos, mas só se podem medir quando estes ocorrem, provocando erosão. Pode-se daqui concluir também, que dois terrenos expostos às mesmas condições climatéricas, o que possui maior erodibilidade, ir-se-á erodir mais. A avaliação da erodibilidade de um terreno depende de: 1) Características intrínsecas do solo que o compõe • • • • • Textura; Estrutura; Resistência ao corte; Capacidade de infiltração; e Composição mineralógica e presença de matéria orgânica

2) Vegetação que se encontra no terreno 3) Práticas do uso do solo sofridas no terreno Tal como foi explanado no capítulo anterior, a vegetação e a actividade humana não são agentes erosivos mas possuem a capacidade de afectar a estabilidade dos taludes, podendo ser benéficos ou prejudiciais, dependendo dos casos.

5.2. SOLO
5.2.1. DEFINIÇÃO «Se em pleno campo, ao ar livre, se olhar em volta e se tentar uma análise da paisagem que nesse momento representa o equilíbrio das forças modeladoras da crosta terrestre, será possível distinguir a separar o céu, com as nuvens, do relevo 59

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formado pelo substrato geológico, um manto de cobertura viva constituída essencialmente pela vegetação. Estabelecendo a ligação e ao mesmo tempo fazendo a transição entre esse manto vivo e o esqueleto mineral do substrato geológico encontra-se o solo». (BOTELHO DA COSTA) Ainda para BOTELHO DA COSTA, o solo representa uma fase relativamente superficial do vasto processo geológico e é definido como um meio natural para o desenvolvimento das plantas terrestres, mais ou menos modificado como resultado das acções do Homem, que dele procura extrair proveito. LEINZ e AMARAL (1987) consideram solo e terra à rocha totalmente decomposta pelos vários processos actuantes na erosão geológica, suportando a vida. BERTONI e LOMBARDI NETO(1990) definem solo como a colecção de corpos naturais ocorrendo na superfície da terra, contendo matéria viva, suportando ou sendo capaz de suportar plantas. Para LEPSCH (1983) solo e terra compreendem o conjunto de corpos tridimensionais que ocupam a porção superior da crosta terrestre, capazes de suportar plantas, apresentando atributos internos próprios e características externas (declividade, pedregosidade, rochosidade) tais que é possível descrevê-los e classificá-los. Pode ainda definir-se o solo (MINISTÉRIO DO AMBIENTE, 1999) como a camada superficial da Terra, substrato essencial para a biosfera terrestre, que desempenha como principal função o suporte e fonte de nutrientes para a vegetação e, como tal, base de toda a cadeia alimentar. Constituído por minerais, matéria orgânica, organismos vivos, ar e água, o solo contribui com um sistema complexo e interactivo na regularização do ciclo hidrológico, nomeadamente através da sua capacidade de transformação, filtro e tampão. É no solo que se situam os aquíferos que abastecem a maioria das populações com água potável. Por tudo isto o solo pode ser visto como "organismo vivo" onde a actividade biológica determina o seu potencial. A estrutura do solo depende do tratamento que recebe, e a produtividade das culturas agrícolas e longevidade da sua bio estrutura reflectem a sua adequação. No solo consideram-se os seguintes componentes essenciais: Matéria sólida de origem mineral - fragmentos da rocha-mãe, minerais desagregados e minerais secundários (por alteração, tais como minerais das argilas, óxidos e hidróxidos de alumínio e ferro, carbonatos, etc.). No que se refere à dimensão, estes componentes, de forma muito variável, 60

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vão desde pedras e cascalho, até partículas muito finas, como as argilas ( 0,002 mm), passando pelas areias (2 a 0,02 mm) e pelos siltes ou limos (0,02 a 0,002 mm). A proporção relativa destas classes dimensionais confere ao solo aspectos que concorrem para a definição da sua textura; Matéria orgânica - restos de plantas e outros seres em diversos estádios de decomposição em resultado, principalmente, da actividade de certos micro organismos, os quais, como é óbvio, fazem também parte da fracção orgânica do solo. A matéria orgânica do solo varia consideravelmente consoante a génese, podendo ser muito abundante - solos orgânicos - ou muito escassa - solos minerais; Água - em proporções variáveis, ocupa os espaços intersticiais do solo e contém sempre diversas substâncias dissolvidas; Ar - também designado por atmosfera do solo, ocupa os vazios entre os restantes constituintes. O solo pode, assim, ser considerado como uma mistura de materiais sólidos, resultantes da desagregação e modificação dos minerais das rochas, associados a uma fracção orgânica (morta ou viva), entre os quais existe, em proporções variáveis, água e ar. O solo pode, pois, ser referido como um sistema anisotrópico no qual coexistem fases sólidas, líquida e gasosa. Na espessura do solo podem distinguir-se porções vagamente semelhantes a camadas, de limites irregulares e difusos, mas geralmente paralelos à superfície do terreno, denominadas horizontes do solo. Estes horizontes diferenciam-se em consequência dos agentes atmosféricos e como resultado, entre outros, de fenómenos de alteração da rocha-mãe e subsequente mobilidade dos produtos libertados e elaborados. Neste processo, a interferência da biosfera é determinante e complexa, sobretudo através da vegetação fixada e dos micro organismos associados. O tipo e o grau de diferenciação dos horizontes do solo é muito variável e é função do clima, do tipo de rocha-mãe, do relevo e do tempo de evolução, os quais constituem os factores essenciais da pedogénese. O diferente comportamento entre os solos e os meios rochosos evidencia-se na sua definição como sendo um conjunto de partículas sólidas, soltas ou pouco cimentadas, mais ou menos consolidadas, de natureza mineral ou orgânica, com fluído intersticial a 61

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preencher os vazios. A sua origem pode ser “in situ”, endógeno ou noutro local sofrendo transporte “à posteriori”, exógeno. O comportamento das massas de solo assemelha-se ao de um meio contínuo e homogéneo. As superfícies de ruptura desenvolvem-se internamente sem seguirem uma direcção pré-existente. A dinâmica dos materiais encontra-se directamente relacionada com as propriedades e características dos seus agregados dependendo destes. Há que considerar: • • • Tamanho, forma e grau de esfericidade das partículas mais grosseiras; Proporção relativa em areias e argilas; Grau de saturação do solo e localização do nível freático.

Estas características conferem ao solo uma resistência intrínseca que constitui o factor dominante da sua estabilidade. Quando se desenvolvem superfícies de ruptura na linha de contacto solo/rocha, as características desta linha diferem das gerais do solo. 5.2.2. PROPRIEDADES DOS SOLOS 5.2.2.1. TEXTURA DE UM SOLO A textura é função da granulometria que se determina mediante análises mecânicas e cujos resultados são apresentados graficamente numa curva granulométrica acumulativa. A partir destas análises granulométricas, são estabelecidas classificações texturais, sendo a mais utilizada a da Sociedade Americana da Ciência do Solo (United States Department of Agriculture), tal como ilustram as imagens da figura 5.1. Os solos com um valor alto de areias finas, médias e grosseiras (0,1 – 2mm) são pouco erodibilizáveis devido à sua alta permeabilidade. Por seu lado, os solos com elevadas percentagens de argila tendem a ser bastante coerentes pelo que resistem melhor à dispersão provocada pelas gotas da chuva;

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Tamanho das partículas (mm) Argila <0.002 0.002 < Silte <0.05 0.05 < Areia < 2.0

Alta Média Baixa

Figura 5.1. Diagrama triangular para a determinação da textura com indicação da erodibilidade.
Fonte: Terra, Universo de Vida, 2000; Jimeno, 1998

Os solos menos resistentes à erosão são os siltosos, e os que contêm uma percentagem elevada de areia muito fina (0,005 – 0,1mm). Respeitante aos solos pedregosos (presença de elementos grosseiros como gravilha e pedra: 0,2 – 60cm), estes são menos erodibilzáveis que solos não pedregosos, uma vez que as pedras protegem a fracção solo dos impactes das gotas da chuva.

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A alteração das rochas e os agentes erosivos 5.2.2.2. ESTRUTURA DE UM SOLO

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A estrutura de um solo é a proporção relativa dos diferentes componentes minerais que o constituem: areia (partículas cujo tamanho está compreendido entre 2 e 0,05mm); silte (ou limo) (entre 0,05 e 0,002mm) e fracção fina (inferior a 0,002mm), chamada comummente argila ainda que possa conter também outros minerais. (figura anterior) A estrutura de um solo é a agrupação ou união das partículas individuais mediante cimentos tais como argilas, colóides, óxidos de ferro ou microrganismos, para formar unidades de maior tamanho, designados por agregados. A estrutura determina a distribuição no espaço da matéria sólida e dos poros, alguns dos quais estão ocupados por água, enquanto que outros, os de maior diâmetro, estão ocupados pelo ar. Essa distribuição condiciona as propriedades físicas do solo: retenção de água, circulação do ar, etc.. O solo não possui necessariamente uma estrutura permanente, podendo vir a modificar-se por causa do clima, forma de cultivo ou outros factores. A faculdade de um solo em manter a sua estrutura face a agentes externos é uma medida de estabilidade dos agregados. Esta estabilidade influi directamente na erodibilidade do solo e está relacionada com a textura, a quantidade em matéria orgânica e a presença de catiões bivalentes: No que diz respeito à textura, solos argilosos são mais agregados, enquanto que os de textura grosseira apresentam macroporos; solos arenosos são mais permeáveis e com melhor infiltração, sendo este tipo de solo o que está menos sujeito a erosão. No que diz respeito à matéria orgânica, sua incorporação com o solo é bastante eficaz na redução da erosão. Há o favorecimento no desenvolvimento de micro organismos do solo e uma melhor penetração das raízes, o que integra as partículas do solo não permitindo o desagregamento das mesmas. Os agregados que contêm uma maior quantidade de argila e matéria orgânica e que ainda predominam os catiões bivalentes (cálcio e magnésio) em detrimento dos monovalentes (sódio e potássio) são mais estáveis.

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Dado que um solo não é um material maciço e massivo, é possível identificar unidades de tamanho e formas diferentes. Ainda que um solo possua a mesma textura, pode apresentar estruturas diferentes, como se pode observar na figura seguinte. A textura, enquanto tamanho das partículas, tem influência nos índices de erosão. Os solos arenosos possuem partículas e espaços porosos grandes e podem absorver mais água que solos argilosos porém, sofrem erosão mesmo com escoamento superficial pequeno porque têm poucas partículas argilosas que actuam como elo de ligação entre seus constituintes. O solo argiloso tem partículas e poros menores, com maior coesão entre si, menor infiltração que um solo arenoso mas têm resistência maior ao escoamento superficial que este (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990).
Tabela 5.1. Tipos e classes de estrutura de solos.
Fonte: Jimeno, 1999

Tipo de Estrutura Muito Fina Classe Fina Média Grosseira Muito Grosseira
Nota: Unidade em “mm”

Laminar (a) <1 1–2 2–5 5 – 10 > 10

Prismática (b) < 10 10 – 20 20 – 50 50 – 100 > 100

Colunar (c) < 10 10 – 20 20 – 50 50 – 100 > 100

Em Blocos (d) <5 5 – 10 10 – 20 20 – 50 > 50

Granular (e) <1 1–2 2–5 5 – 10 > 10

a

b

c
Fonte: Jimeno, 1999

d

e

Figura 5.2. Tipos e classes de estrutura de solos.

A estrutura, que é o modo de arranjo das partículas de solo, actua sobre a erosão considerando-se os aspectos: (a) das propriedades físico-químicas da argila, a qual faz os agregados permanecerem estáveis em presença da água e (b): as propriedades biológicas criadas pela abundância de matéria orgânica em estado de activa decomposição. 65

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Textura e estrutura determinam juntas os graus de permeabilidade e densidade de cada tipo de solo, sempre lembrando que o conteúdo de matéria orgânica, a profundidade do solo e as características do subsolo também exercem efeito nas perdas por erosão: A matéria orgânica retém de duas a três vezes o seu peso em água, aumentando infiltração e diminuindo as perdas por erosão; A profundidade do solo e as características do subsolo contribuem para a capacidade de armazenamento da água no solo; Um solo pouco profundo, mas com subsolo permeável e descompactado, tem maior capacidade de armazenamento de água do que um solo com subsolo mais compacto e pouco permeável (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990).
Tabela 5.2. Efeito do tipo de solo nas perdas por erosão.
Médias tendo como base: 1.300 mm de chuva e declives entre 8,5 e 12,8% Fonte: Bertoni e Lombardi Neto, 1990

Perdas de Tipo de solo Arenoso Argiloso Terra roxa Solo (ton/ha) 21,1 16,6 9,5 Água (% da chuva) 5,7 9,6 3,3

Volume do escoamento superficial (kg/m3) 28,5 13,3 22,1

Percebe-se na tabela anterior que os solos terra roxa são os que têm as menores perdas de solo e água, seguindo-se os argilosos em posição intermediária de perdas de solo e os arenosos em perdas de água. Finalmente, os solos arenosos perdem a maior quantidade de solo e os argilosos são os que perdem a maior quantidade de água. Quanto ao escoamento superficial, nota-se que o solo argiloso gera os menores volumes de escoamento superficial, seguido do solo terra roxa em posição intermediária e o solo arenoso é o maior gerador de grandes volumes de escoamento. 5.2.2.3. RESISTÊNCIA AO CORTE DE UM SOLO A resistência ao corte de um solo é uma medida da sua coesão e da capacidade de resistir a tensões exercidas pela gravidade, movimento de fluidos e cargas mecânicas. A resistência ao corte do solo diminui com o aumento do teor de humidade.

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No limite, quando o solo está saturado, a sua resistência ao corte é mínima, permitindo o desprendimento de partículas por mecanismos combinados de compressão e corte, provocados pelo impacto das gotas de chuva. A resistência ao corte de um solo, medida com um penetrómetro de ponta cónica uma hora após a queda da chuva, é um bom indicador da resistência do solo à erosão por salpicadura. 5.2.2.4. CAPACIDADE DE INFILTRAÇÃO BERTONI e LOMBARDI NETO (1990) afirmam que há vários métodos para determinar a velocidade e a capacidade de infiltração e, que o factor mais importante para este cálculo é a cobertura vegetal do solo durante a chuva. Solo desprotegido com ocorrência de chuva intensa ocasiona pequena quantidade de infiltração e grande escoamento superficial devido à compressão de sua camada superficial pelo impacto das gotas de chuva. Por outro lado, um solo coberto com vegetação terá melhores condições de drenagem e de infiltração pois disporá de melhor permeabilidade e maior velocidade de infiltração. A capacidade de infiltração ou velocidade máxima estabilizada a que um solo pode absorver água, depende do tamanho e da estabilidade dos agregados e da forma do perfil do solo. Quando este se encontra bastante seco, a velocidade de infiltração é alta, no entanto, diminui com rapidez à medida que chega a água, por meio da chuva. Como consequência directa, as argilas expandem-se e tapam parcialmente os poros, até que a velocidade de infiltração estabiliza num determinado valor (baixo), comummente designado por «velocidade de infiltração estabilizada», sendo possível ser medida através de um infiltrómetro de anel duplo, cravado no solo a uma profundidade de 15 - 20cm. A velocidade de infiltração estabilizada depende sobretudo da textura do solo: solos arenosos possuem velocidades de infiltração maiores que os argilosos, enquanto que os solos francos têm valores intermédios entre ambos, como ilustra a tabela seguinte. Os solos com agregados estáveis mantêm melhor os seus espaços porosos, enquanto que os solos com argilas expansivas ou com mineralizações instáveis à água tendem a possuir baixas capacidades de infiltração. Quando a quantidade de água proveniente da chuva é superior à velocidade de infiltração estabilizada, a água forma charcos em superfícies planas, e escorre se existirem taludes inclinados.

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Tabela 5.3. Velocidade de infiltração em solos de diferentes texturas.
Fonte: López Jimeno, C., 1999

Textura Arenosa Franco – arenosa Franco Franco – argilosa Argilosa

Velocidade de Infiltração (milímetros de altura de água por hora) Mais de 30 20 – 30 10 – 20 5 – 10 Menos de 5

5.2.2.5. COMPONENTES ORGÂNICOS E MINERAIS DE UM SOLO Os componentes orgânicos e minerais de um solo são importantes pois influenciam de forma directa a estabilidade dos agregados. A matéria orgânica proveniente de restos de vegetação e animais mortos que se encontram sobre o solo mineral, tende a incorpora-se neste. As moléculas complexas que a constituem suportam, em primeira instância, uma decomposição microbiana que liberta compostos simples, solúveis. Parte destes compostos sofrem um processo de mineralização transformando-se em compostos inorgânicos solúveis ou gasosos (ex: CO), ainda que, no entanto, alguns deles se possam reorganizar durante o processo de criação do Húmus, criando moléculas novas, cada vez mais complexas. Relativamente aos componentes minerais, o factor que mais afecta a erodibilidade dos solos é a proporção de argila facilmente dispersável. Uma elevada proporção de sódio no solo pode deteriorar rapidamente a estrutura do mesmo ao ser molhado, perdendo este a sua resistência, seguido de formação de uma crosta superficial e diminuição da infiltração ao preencher as partículas de argila soltas ao espaço poroso do solo. O excesso de carbonato de cálcio nas fracções argilosa e siltosa do solo também conduzem a valores altos de erodibilidade. O ciclo gelo-degelo provocado pela presença de água também afecta grandemente a erodibilidade do solo pelo seu efeito sobre a densidade aparente, condutividade hidráulica, resistência ao corte e estabilidade dos agregados. A resistência de um solo à erosão eólica depende muito mais do seu teor de humidade e portanto, da sua textura e presença de matéria orgânica do que da estabilidade dos 68

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agregados, em contraponto com a sua resistência à erosão hídrica onde a humidade é penalizante. Quanto maior é a proporção de silte e argila num solo, maior será a sua resistência à erosão e menor será portanto, a sua erodibilidade, uma vez que pode produzir torrões. Em contraponto, a areia, por os não conseguir formar, possui elevada erodibilidade. Se não se levar em conta as condições edáficas do solo, pode-se estabelecer uma classificação hierarquizada, simplificada, da erodibilidade dos solos face à erosão hídrica, baseada no Sistema Unificado de Classificação de Solos.
Tabela 5.4. Susceptibilidade à erosão hídrica de diferentes tipos de solos.
Fonte: Gray, D. y Sotir, R., 1996

Símbolo GW

Descrição do solo Cascalho bem graduado; Mistura de cascalho e de areia, com poucos finos ou sem finos. Cascalho mal graduado; Mistura de cascalho e de areia, com poucos finos ou sem finos. Areias bem graduadas; Areias com cascalho, com poucos finos ou sem finos. Cascalho siltoso; Mistura de cascalho, areia e silte Argilas inorgânicas muito plásticas; Argilas gordas. Argilas inorgânicas pouco plásticas ou de plasticidade mediana; Argilas com cascalho; Argilas arenosas Argilas siltosas; Argilas magras. Siltes orgânicos e argilas siltosas orgânicas pouco plásticas. Siltes inorgânicos, com mica ou areia fina ou solos siltosos. Areias argilosas; Mistura de areia e argila. Areias siltosas; Mistura de areia e silte. Siltes inorgânicos e areias muito finas; Pó de rocha; Areias finas siltosas ou argilosas; Siltes argilosos pouco plásticos.

Erodibilidade Menos erodíveis

GP SW GM CH

CL

OL MH SC SM

ML

Mais erodíveis

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SEGUNDA PARTE – ESTABILIDADE DE TALUDES

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A estabilidade de taludes

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6. TIPOLOGIA E DESENVOLVIMENTO DOS MOVIMENTOS DE MASSAS 6.1. CLASSIFICAÇÃO DOS MOVIMENTOS DE MASSAS
Movimentos de massas são deslocamentos de terrenos que constituem uma ladeira ou talude, naturais ou artificiais (escavações ou aterros), na zona exterior do mesmo e em sentido descendente. A classificação dos movimentos de massas varia de autor para autor. Neste documento é apresentada a classificação de COROMINAS, J. e GARCÍA YAGÜE, A. (1997). Segundo os mesmos autores, os movimentos podem ser agrupados em cinco mecanismos principais: • • • • • Desprendimento; Desabamento; Deslizamento; Expansão lateral; Fluxo.

No entanto, o colapso de um talude pode ocorrer através de mais do que um mecanismo, originando mecanismos complexos.

6.2. MOVIMENTOS COM PREDOMÍNIO DA TRAJECTÓRIA VERTICAL
Desprendimentos e Colapsos Define-se como sendo a massa separada de um talude mediante uma superfície de corte normalmente pequena e que teve a sua origem, grande parte, através do ar. Estas instabilidades afectam frequentemente blocos isolados, e também massas rochosas originando Estes nestes casos movimentos ter de terreno em com resultados constituídas catastróficos. fenómenos podem lugar zonas

geologicamente por alternâncias sedimentares de estratos resistente e débeis. Os mecanismos que podem conduzir a estas instabilidades, geralmente sucessivas e complementares são a meteorização ou remoção do estrato mais brando e concentração de pressões no bordo (figura 6.1).

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Figura 6.1. Formação em consola por remoção do estrato mais brando.
Fonte: Ana Paula Carreira, 2004

A possibilidade de se produzirem estas instabilidades por descalço é condicionada por uma série de factores tais como: fracturação, ângulos da série estratigráfica, inclinação do terreno e disposição em relação ao ângulo dos estratos, resistência comparativa dos estratos mais rígidos, competência relativa dos estratos resistentes em relação aos menos competentes. A instabilidade de blocos tem origem em vários mecanismos tais como: a queda, a ruptura da base, o deslizamento dos estratos, etc.. O mecanismo de ruptura prévia com tracção é relativamente raro já que a maioria dos maciços se encontram fracturadas originando blocos individualizados. Este mecanismo acontece quando numa série de estratos débeis e competentes se inicia o descalce do estrato competente supra jacente por acção de meteorização diferencial, originando uma concentração de tensões no bordo desta. Se a rocha que constitui o estrato superior for pouco resistente pode dar-se uma ruptura por flexotracção com queda de blocos. Se o estrato for competente mas estiver individualizado em blocos devido a fracturação, também ir-se-á dar a queda destes devido à excentricidade do peso. A concentração de pressões no bordo do estrato inferior produz um assentamento diferencial, podendo originar a ruptura em cunha do mesmo, originando-se a queda do bloco por ruptura do pé. Os fragmentos originados por este tipo de movimento podem seguir várias trajectórias, ou seja, podem cair simplesmente, saltar ou rodar dependendo do ângulo do talude. A velocidade com que se dá o desprendimento deve-se ao tipo de mecanismo que o produz. Uma vez originada, a fenda de tracção, pode desenvolver-se de forma rápida originando frisos e saliências.
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a

b

Figura 6.2. Mecanismos de desprendimentos (a) e colapsos (b).
Modificada de Corominas e García Yagüe, 1997

6.3. MOVIMENTOS DE ROTAÇÃO DE BLOCOS POR FRACTURAÇÃO VERTICAL
Desabamento Este tipo de movimento implica uma rotação da unidade de forma colunar ou bloco sobre uma base (figura 6.3), devido a uma pequena acção da força da gravidade e forças exercidas por unidades adjacentes ou por intrusão de água nas descontinuidades.

Figura 6.3. Desabamento de blocos individualizados.
Fonte: Ana Paula Carreira, 2004

Estes movimentos podem culminar noutros, tais como desprendimentos ou deslizamentos, dependendo das características geométricas dos materiais e segundo a direcção das suas descontinuidades. O desabamento pode considerar-se exclusivo de meios rochosos condicionados pela disposição estrutural dos estratos – inclusive no interior do talude – e um sistema de descontinuidades bem desenvolvido. Existem três variedades deste tipo de movimento: Desabamento por flexão: Desenvolve-se através de um pequeno mecanismo composto por flexões pseudo contínuas do material, individualizando-o em colunas, devido a uma série de movimentos acumulados ao longo das descontinuidades. Quando é desencadeado por transmissão de carga no pé do talude o mecanismo

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progride até ao interior do maciço rochoso originando fendas de tracção com profundidade e altura variáveis; Desabamento de blocos: É característico de maciços rochosos que têm sistemas de descontinuidades ortogonais, dando lugar a uma geometria de colunas divididas em blocos. A pressão dos blocos superiores sobre os inferiores leva à sua deslocação, que uma vez iniciada se processa até à zona superior do talude. Quando as colunas menos esbeltas se soltam do talude por acção da carga que produzem levam ao reinício do processo; Desabamento misto: Produz-se quando os blocos caem devido a flexões no pé do talude e também, devido a movimentos relativos em várias unidades. É a junção dos casos anteriormente descritos.

6.4. MOVIMENTO DE DESLIZAMENTO DE GRANDES BLOCOS
Deslizamentos São movimentos que se produzem quando é ultrapassada a resistência ao corte do material e têm lugar ao longo de uma ou várias superfícies ou através de uma fenda relativamente estreita do material. Estas superfícies de deslizamento são, geralmente, visíveis ou podem deduzir-se facilmente. A velocidade com que se desenvolve este tipo de movimento é variável, dependendo do tipo dos materiais envolvidos. O movimento pode ser progressivo, produzindo-se inicialmente uma ruptura local, que pode não coincidir com a superfície da ruptura geral, mas causada pela propagação desta. A massa solta pode deslizar uma distância variável na superfície original de ruptura, juntando-se ao terreno natural deixando a superfície de separação bem definida. Sobre o lado e a superfície onde se produz o movimento originam-se estrias indicativas da direcção deste. Dentro deste tipo de mecanismo, distinguem-se ainda deslizamentos rotacionais e deslizamentos translaccionais. Deslizamentos Rotacionais Têm lugar ao longo de uma superfície de deslizamento interna, de forma circular e côncava. O movimento tem uma natureza mais ou menos rotacional, em redor de um eixo disposto paralelamente ao talude. A superfície circular da massa que se solta
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daquela em que se produz a ruptura pode ter origem em três pontos distintos do talude, segundo as características resistentes do material, altura e inclinação do talude.

Figura 6.4. Deslizamento Rotacional.
Modificada de Corominas y García Yagüe, 1997

As superfícies de ruptura que se produzem são dos seguintes tipos: Superfície de ruptura do talude – quando a superfície de ruptura corta o talude acima do pé; Superfície de ruptura do pé do talude – quando a superfície de ruptura se dá no pé do talude e a queda de blocos se dá sobre este; Superfície de ruptura da base do talude – quando a superfície de ruptura passa por baixo do pé do talude saindo na base deste e afastando-se do pé. Na superfície do terreno podem aparecer fendas concêntricas e côncavas com a direcção do movimento tendo a parte alta a forma de escarpa tanto mais acentuada quanto maior for o deslocamento da massa deslizada. A velocidade destes movimentos varia de lenta a moderada, tendo grande influência a inclinação da superfície de ruptura no pé do deslizamento. Se o perfil da massa deslizada tiver uma inclinação semelhante à do talude, obtém-se uma melhoria no equilíbrio da instabilidade, diminuindo o momento indutor e podendo mesmo chegar-se a evitar o deslizamento. Deslizamentos Translacionais Neste tipo de deslizamento a massa afasta-se para o lado de fora e inferior do talude, ao longo de uma superfície mais ou menos plana ou suavemente ondulada, com pequenos movimentos de rotação. Normalmente o movimento da massa deslizada faz com que esta fique na superfície original do terreno.

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A estabilidade de taludes Os deslizamentos translacionais são controlados

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pelas

descontinuidades

estratificação, falhas, diaclases, xistosidade – que influenciam a resistência ao corte entre os estratos de diferentes naturezas, diferente grau de meteorização, diferentes tipos de terreno, etc. Geralmente desenvolvem-se nos maciços rochosos com descontinuidades bem definidas. Estes deslizamentos têm tendência a progredir indefinidamente, sempre que a inclinação da superfície de deslizamento seja suficientemente grande e a resistência ao corte inferior à das forças destabilizadoras. Existem deslizamentos translacionais de tamanhos variados, formados pela intersecção de duas descontinuidades ou superfícies de debilidade. Se ambas as superfícies se inclinam em diferentes sentidos, denominam-se cunhas directas (deslizamento discordante). No caso da inclinação ter o mesmo sentido denominam-se de cunhas inversas (deslizamento concordante).

a

b

Figura 6.5. Deslizamentos: a) Discordante; b) Concordante.
Adaptado de Corominas y García Yagüe, 1997

6.5. MOVIMENTO COM EXTRUSÃO PLÁSTICA LATERAL
Estes movimentos não são frequentes, aparecendo apenas em zonas onde ocorrem determinadas características geológicas complexas. Podem aparecer em maciços rochosos com diferentes competências, ou sobre materiais com as características dos solos. O movimento consiste numa extensão lateral controlada por superfícies de corte e/ou fracturas de tensão. O mecanismo de ruptura pode ser complexo, podendo compreender formas de translação, rotação, fluidificação e liquefacção do material. Quando estes mecanismos se produzem em meios rochosos desenvolvem-se lentamente, pelo contrário quando se desenvolvem em materiais do tipo solo são rápidos ou muito rápidos.

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A estabilidade de taludes Este tipo de movimento divide-se em dois tipos: •

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Movimentos que compreendem uma extensão sem que se reconheça ou exista uma superfície plana de corte ou se produza um fluxo plástico. São próprios de cristas modeladas em meios rochosos estratificados;

Movimento que podem compreender uma extensão e fracturação do material mais competente (rocha ou solo), devido a uma liquefacção ou fluidez plástica do material subjacente. Simultaneamente nos materiais superiores produzemse fenómenos de subsidência, translação, rotação e também liquefacção e fluidificação, dependendo da natureza intrínseca do material. a b

Figura 6.6. Extensões Laterais: a) Fluência e extrusão do material subjacente; b) Expansão e liquefacção.
Modificada de Corominas e García Yagüe, 1997

6.6. MOVIMENTO COMPLEXOS
São o resultado da combinação de mais do que um dos diferentes tipos descritos anteriormente. Também são assim considerados aqueles movimentos que apresentam diferentes estados durante o seu desenvolvimento. Pode-se incluir a combinação múltipla de um mesmo tipo de ruptura e também os movimentos em que a distribuição interna das velocidades com que a massa desliza, pode ou não assemelhar-se a um fluxo viscoso. Consequentemente as diferentes velocidades com que se produzem estes movimentos, assim como a sua distribuição espacial, estão condicionadas pelos tipos de movimentos que compõem a ruptura.

6.7. OUTROS MOVIMENTOS
Neste grupo estão incluídas as deformações sem ruptura ou antes da ruptura e os movimentos desorganizados ou revoltos.

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A estabilidade de taludes Deformações sem ruptura ou antes da ruptura

Mestrado em Georrecursos

São os mecanismos de ruptura progressiva que dão lugar à deformação e abertura de gretas no talude, normalmente na zona de cabeceira, sem que a superfície de corte se desenvolva completamente e produza a ruptura geral do terreno afectado: Rupturas Confinadas – Certas vezes, as deformações no talude não degeneram em desprendimentos da massa movida, nem em superfícies de ruptura contínuas em todo o conjunto. Costumam possuir pequenas extensões ainda que os grandes movimentos possam atingir vários metros. Estas deformações podem acelerar-se até à ruptura, rectroactivar-se periodicamente ou paralisar. Reptação por fluência – São deslizamentos muito lentos, no início mas vão progressivamente acelerando até atingir a ruptura. Descabeçamento – Ocorre em formações rochosas intensamente fracturadas. Os metros mais superficiais por estarem descomprimidos ou alterados, tendem a rodar até abaixo, definindo uma superfície de deslizamento potencial. Dobramentos – Os níveis rochosos superiores que repousam sobre os materiais mais brandos, que se estreitam até ao pé do talude, na zona do vale, podem dobrar abrindo fissuras nos mesmos. Deformações gravitacionais profundas – Consistem na formação no terreno de escarpas com um alinhamento sensivelmente paralelo às curvas de nível do talude, e colapsando da zona da crista. Na base podem identificar-se abatimentos ainda que menos claros que os da crista.

Descabeçamento

Deformação gravitacional profunda
Figura 6.7. Deformação sem ruptura.
Modificada de Corominas y García Yagüe, 1997

Movimentos de massas desorganizadas ou revoltas Os Fluxos são movimentos especialmente contínuos em que as superfícies de corte se encontram muito próximas e geralmente não se conservam. A massa movida não
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A estabilidade de taludes

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mantém a forma no seu movimento descendente aquando do desabamento, adoptando frequentemente em materiais coesivos formas lobuladas ao colapsar-se pelo talude ou, quando inclui materiais grosseiros formando cones de dejecção. Escoadas de Terra – É a deformação plástica de terra ou rochas brandas em taludes de inclinação moderada. Costumam criar depósitos alongados, formando um volume positivo sobre a superfície original do terreno. Correntes de desmoronamentos – São movimentos rápidos de material detrítico em que predomina a fracção grosseira, ou seja, areias, gravilhas e blocos. Dada a falta de coesão dos seus componentes, espalham-se na parte inferior dos taludes sem gerar um depósito com uma forma específica ou acumulam-se formando cones de dejecção. Golpes de areia e silte – Movimentação brusca destes materiais, às vezes em estado seco, devido a um colapso estrutural por efeito de um tremor sísmico ou ao iniciar-se a ruptura do solo por deslizamento. Avalanchas – Movimentação de grandes massas de terra e fragmentos de rocha, que se deslocam a grande velocidade e que podem chegar à liquefacção, pelo aparecimento de água ou por efeito da inclinação do talude, ultrapassando invariavelmente o pé do mesmo.

(a) Reptação

(b) Escoada de terra (c) Corrente de desmoronamentos

(d) Golpe de areia

(e) Avalancha

Figura 6.8. Movimentos de massas desorganizadas ou revoltas.
Adaptado de Corominas y García Yagüe, 1997

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A estabilidade de taludes

Mestrado em Georrecursos

6.8. CORRENTES
São assim denominados certos movimentos produzidos em materiais rochosos, caso menos frequente, e em materiais do tipo solo, que constituem as correntes em sentido estrito. Têm lugar em rochas de maciços estratificados, com disposição favorável ao desenvolvimento de dobras. Podem ser consideradas como correntes de rocha intacta. Nas correntes de materiais do tipo solo, existe uma série de factores que tendem a diversificar-se ou a originar subtipos. Assim, a granulometria do material e a quantidade de água presente são os factores mais determinantes para o desenrolar deste tipo de processo. Os mecanismos são o resultado de uma deformação contínua de pequenos esforços imperceptíveis, que implicam uma distribuição de velocidades variável de, extremamente lenta a muito rápida. a) Correntes em Rocha São pouco frequentes e próprias dos maciços rochosos pouco competentes, que apresentam uma estratificação bem definida e se encontram afectados por dobramentos ou outras manifestações de comportamento plástico. Incluem deformações que se distribuem entre as fracturas grandes ou pequenas e até mesmo as microfracturas sem aparente conexão entre si. Não existe uma concentração de deslocações contínua sobre uma superfície definida por unidades relativamente intactas. Estes movimentos são geralmente muitos lentos e relativamente estáveis, afectando zonas superficiais ou pouco profundas. b) Correntes em Solos São assim denominadas pois possuem comportamento semelhante a um fluido viscoso. As superfícies de deslizamento não se encontram definidas, sendo normal produzirem-se, num mesmo fenómeno inúmeras superfícies de deslizamento em vez de uma só. O limite entre a massa que se move e a que permanece “in situ” pode ser marcado por uma estreita faixa, em que se produzem movimentos diferenciais ou com uma diferente distribuição de resistência ao corte. A velocidade com que se desenvolvem pode ser muito rápida, embora existam casos em que é extremamente lenta. Neste tipo de correntes existe uma série de características gerais tais como: grandes
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A estabilidade de taludes

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deslocamentos da massa que se move e efeito fluidificante da água como parte integrante do processo. Existe uma classificação de correntes em solos tendo em conta a sua granulometria, quantidade de água, mobilidade e carácter do movimento. De seguida descrevem-se alguns dos tipos mais significativos: • Arrastamento (Creep): constituem deformações contínuas, geralmente

superficiais e extremamente lentas que podem aparecer acompanhando outros tipos de movimentos dos materiais subjacentes. • Correntes de escombros ou escorrimentos (debris flow): característico de materiais com grande percentagem de fragmentos grosseiros. A massa que desliza vai-se dividindo em pequenas partes com movimentos lentos. Quando o movimento é rápido e progressivo, denomina-se de avalanche. • Correntes de lama (mud flow): tem origem em materiais com pelo menos cinquenta por cento de fracção fina e teor em água suficiente para permitir o fluxo.

7. RISCO, FACTOR DE SEGURANÇA E INCERTEZA 7.1. INTRODUÇÃO
Nas principais causas dos deslizamentos de taludes figuram circunstâncias que possuem íntima relação com o clima e a qualidade do ambiente, tais como a desmatação e desflorestação. Por outro lado, os processos de revegatação dos taludes constituem, cada vez mais, formas de estabilização dos mesmos, garantindo em simultâneo a sua recuperação paisagística. LUTTON (1970), após estudar 91 locais de deslizamentos de taludes, destacou a influência do tipo de terreno e do clima como determinantes da respectiva estabilidade, através de uma correlação entre as inclinações e as alturas dos taludes, figura da página seguinte.

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Figura 7.1. Variação da estabilidade de taludes com o clima e a litologia.
Fonte: Lutton, 1970 – in XVI Lição Manuel Rocha, 1999

Legenda 1 - Taludes em xisto brando, para climas temperados 2 - Taludes em xisto natural, para climas subtropicais 3 - Taludes em rocha quartzítica, para climas temperados 4 - Taludes em rocha porfírica, para climas semiáridos 5 - Taludes em rocha sã, para climas húmidos 6 - Taludes em rocha sã, para climas secos

7.2. RISCO
7.2.1. DEFINIÇÃO A caracterização geotécnica constitui o procedimento básico para analisar os movimentos dos taludes e, os dados da caracterização geotécnica proporcionam as pautas para determinar os tipos específicos de movimentos numa dada etapa do tempo e para um tipo de material específico. Os casos reais, no entanto, poderão ser mais complexos do que os estabelecidos empiricamente uma vez que nestes podem afectar vários materiais e vários topologias de movimentos.
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No entanto, esta aproximação, que examina o comportamento do talude do ponto geomecânico, é bastante útil para avaliar o risco associado com o movimento dos taludes. A matriz de risco, tal como os mapas de risco de uma área são parte integrante da análise de risco; é necessário por isso enquadrar o conceito de risco geotécnico, vulnerabilidade susceptibilidade e ainda a análise de risco, para definir uma matriz de risco e os mapas de aplicação dos graus de risco à área em questão. a) Risco Geotécnico O risco é a combinação da probabilidade de ocorrência de um evento com as suas consequências físicas, económicas e sociais (CLAYTON C.R.I, 2001). A equação que identifica o risco é:

R =P×D
onde: R= risco; P = probabilidade para que o evento adverso se torne real; D = dano que o evento adverso considerado vai criar, se acontecer.

[2]

Segundo VARNES (1984), o Risco Total está definido pelo conjunto de danos resultantes da ocorrência de um fenómeno, podendo quantificar-se a partir da seguinte expressão:
RT =
Onde: Rt = risco total; H = probabilidade de ocorrência do fenómeno numa dada área e num período de tempo; Ri = elementos em risco, potencialmente danificados pelo sistema (≥1) Vi = vulnerabilidade de cada elemento, representado por um grau de dano [Sem perda (0) ; Perda total (1)]

∑ (H × R

i

× Vi )

[3]

O risco geotécnico é, assim, associado ao valor esperado dos danos que ocorrem em estruturas, edifícios e pessoas devidos a causas naturais ou por interferência humana. Para se poder realizar uma análise de riscos correcta é necessário, primeiramente, definir os perigos a que estão sujeitos os grupos mencionados no último parágrafo. Desta forma, WHITMAN (1984) elaborou um ábaco onde relaciona a probabilidade anual de ruptura de diferentes projectos de engenharia e as consequências das
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A estabilidade de taludes

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mesmas. Na figura 7.2. é possível observar que o autor definiu níveis de risco aceitáveis e marginalmente aceitáveis. FINLAY e FELL (1997) afirmam que para se poder aplicar este ábaco, no caso dos taludes, é necessário formar uma equipa pluridisciplinar, para além dos engenheiros (geotécnicos), pois existem implicações sociais, económicas, ambientais, políticas e mesmo legais dos «utilizadores» destes taludes.

Figura 7.2. Níveis de risco em diferentes projectos de engenharia.
Modificada de Whitman, 1984

Quando se fala de taludes, o risco frequente que se considera é a sua ruptura, principalmente porque este risco está intimamente ligado a perdas de vidas humanas. ASTÉ (1991) dividiu os elementos de risco em Individuais, Propriedades e Bens, Actividades e Funções Sociais, podendo estes sofrer as consequências de um fenómeno de forma directa ou de fenómenos indirectos. Por exemplo, a destruição de uma casa por um deslizamento de um talude é uma consequência directa enquanto que a inundação de uma população devido à subida do nível das águas de um rio por ter ocorrido um deslizamento de um talude, é uma consequência indirecta.
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Os principais factores que se devem tomar em consideração porque constituem possíveis causas de danos nos taludes são: • • • • A elevada inclinação; O grau de alteração da superfície do talude; O nível de pluviosidade; As condições das fendas e das descontinuidades.

Um só destes factores ou a combinação entre eles pode ocasionar danos nos taludes que variam de danos leves até danos que provocam o colapso, com possível envolvimento de estruturas próximas dos mesmos. b) Vulnerabilidade e Susceptibilidade Estritamente relacionado com o risco estão os conceitos de vulnerabilidade e de susceptibilidade de uma área, sendo estes o conjunto de factores que determinam a magnitude dos danos que um evento adverso pode criar. Independentemente do facto de uma área ser perigosa em relação a um determinado evento adverso, a vulnerabilidade depende de muitos outros factores como a presença de sistemas de monitorização, de aviso imediato, bem como a qualidade e a idade das construções presentes. Em taludes próximos à linha férrea, entre os factores que reduzem a vulnerabilidade pode-se incluir a monitorização periódica das condições do maciço, da pluviosidade e o controlo da circulação na linha férrea, (GAMA, 1999). A noção de susceptibilidade de uma dada região é inerente à predisposição da mesma para determinados tipos de catástrofes naturais, frutos da conjugação de causas geológicas, climatéricas e outras conducentes a uma maior frequência e/ou magnitude desses fenómenos, (GAMA, 1999). c) Análise de Risco A análise de risco estuda assim os diferentes perigos que podem tornar-se reais numa área e indica como operar para minimizá-los, optimizando a investigação e monitorização necessárias. Prever a ocorrência de um evento geotécnico adverso como a instabilidade de um talude é parte da análise de risco. A qualidade da previsão depende sobretudo da monitorização dos eventos precursores desse fenómeno. Os eventos precursores são pequenas variações físicas que antecedem o fenómeno adverso. No caso dos taludes, um elemento precursor é o aparecimento de novas fendas no maciço e progressivo alargamento das bermas antes do colapso. A
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monitorização pode-se fazer com a instalação de grupos de marcos topográficos e referências instaladas nos dois lados de cada fractura e efectuando medições periódicas dos afastamentos das marcas. Pelo que foi referido, todos estes aspectos deverão ser considerados na análise dos riscos, tendo sempre como ponto fulcral as consequências dos movimentos. Uma matriz de risco de tipo qualitativo, utilizada com sucesso em estudos de deslizamentos de taludes, é apresentada na tabela 7.1.. A matriz contém diferentes níveis de risco em função das duas variáveis (probabilidade e consequência ou dano). Os níveis indicados podem ser assumidos como de tipo qualitativo, sendo necessário um estudo detalhado das probabilidades de ocorrência de deslizamentos nos taludes da área em estudo e dos custos que podem provocar para obter uma matriz de risco mais detalhada pois, apesar de funcionar como boa aproximação, ao se definir a composição das matrizes qualitativas de risco em seis níveis de probabilidade de ocorrência, através de designações específicas para o risco e cinco tipos de consequências físicas e económicas, resulta um conjunto de 30 adjectivos, com diversas repetições de termos e, consequentemente, prestando-se a confusões de interpretação.
Tabela 7.1. Exemplo de matriz qualitativa de risco.
Fonte: Australian Geomechanics Society, 2000

Probabilidade Elevada Provável Possível Improvável Rara Muito rara

Consequências (ou danos) físicas e económicas do evento 1.Desastrosas
Muito Alto Muito Alto Alto Alto Médio Médio

2.Altas
Muito Alto Alto Alto Médio Médio Baixo

3.Médias
Alto Alto Médio Médio Baixo Baixo

4.Baixas
Médio Médio Médio Baixo Baixo Muito Baixo

5.Insignificantes
Médio Médio Baixo Baixo Muito Baixo Muito Baixo

7.2.2. MATRIZ DE RISCO GEOTÉCNICO
Para o estabelecimento de uma matriz de risco compatível com as características e as soluções pretendidas para o problema em análise, foram ponderados os seguintes factores: a) A natureza dispersa (em termos geográficos) dos taludes cuja estabilidade deve ser permanentemente objecto de quantificação;
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b) A multiplicidade de variáveis que afectam a probabilidade de instabilização de cada talude; c) O interesse em incorporar de modo permanente o fenómeno natural que desencadeia mais frequentemente as instabilizações de taludes, ou seja, a pluviosidade que afecta a região do estudo; d) A necessidade de definir uma matriz de risco por meio de um parâmetro de interpretação simples e directa, acessível a todos os utilizadores. Veja-se na figura 7.3. uma matriz formulada para uma ferrovia13, com 4 níveis de risco, definidas para certos intervalos da probabilidade de instabilização dos taludes, e tendo correspondentes implicações para o tráfego ferroviário. As cores assinaladas correspondem às simbologias definidas para os níveis de risco geotécnico e que se relacionam com a segurança do tráfego ferroviário, sendo objecto de representação gráfica sobre mapas da linha férrea que assinalam a localização dos sectores (mapas de risco geotécnico). Em termos de circulação das composições rodoviárias, os diferentes níveis de risco teriam as seguintes consequências:

Nível 1 – Via Livre Nível 2 – Afrouxamento para 30 a 60 km/h Nível 3 – Afrouxamento para 10 km/h Nível 4 – Afrouxamento para 10 km/h e um funcionário de prevenção no local

NÍVEL DE RISCO PARÂMETROS Probabilidade de instabilização Implicações para o tráfego ferroviário

1
Sectores com risco de colapso baixo 0 – 50 % NENHUMAS

2 3 Sectores com Sectores com risco de risco de colapso colapso alto médio
51 – 80 % ATENÇÃO 81 – 95 % PRECAUÇÃO

4 Sectores com risco de colapso muito alto
96 – 100 % PERIGO

Figura 7.3. Matriz de risco geotécnico.
Fonte: CEGEO, 2005

13

Matriz de Risco Geotécnico utilizada no Projecto “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na ferrovia, incluindo telegestão”, (Centro de Geotecnia do IST,2005)

88

A estabilidade de taludes 7.2.3. MAPA DE RISCO GEOTÉCNICO

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Um mapa de risco resulta da aplicação de uma classificação de risco a uma dada área geográfica: é possível atribuir a cada ponto da área em estudo um valor compreendido na escala de risco, obtendo assim um modelo de variação espacial do risco em toda a área sobre a qual os eventos perigosos têm probabilidade de acontecer. Num mapa de risco serão reconhecíveis os taludes com maior tendência para a instabilização e, consequentemente, ficam assinaladas as áreas mais críticas onde será possível intervir aplicando medidas de mitigação. Os mapas de risco poderão ainda ser dinâmicos se os conjugar com a análise inicial com os novos elementos obtidos da monitorização dos taludes e das áreas adjacentes a este (linha férrea, no caso em estudo). Desta forma os Mapas de Risco poderão ser facilmente recalculados e redesenhados, sendo assim mapas de tipo dinâmico (podem-se prever repetições dos cálculos a cada ano hidrológico, por exemplo). HANEBERG (2000) refere a necessidade e a importância da utilização de métodos probabilísticos para a identificação de potenciais zonas de risco de escorregamento de taludes em detrimento dos métodos baseados em modelos matemáticos determinísticos exactamente devido à variabilidade e incerteza dos diversos parâmetros envolvidos: geotécnicos, hidrológicos, geológicos, climáticos, que intervêm na estabilidade dos taludes principalmente quando as análises abrangem grandes áreas (Figura 7.4.). SCAVIA e COCCOLO (2000), utilizam a mesma metodologia na previsão da estabilidade de taludes determinando as probabilidades de ruptura em função da variação da distribuição do factor de segurança.

Figura 7.4. Mapa de probabilidade de escorregamentos numa área a sudeste de Wheeling, EUA.
Fonte: Haneberg, W., 2000

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WILSON, R. & JAYKO, A. (1997) relacionam também a precipitação (quantidade e intensidade) com a previsão de escorrências, criando mapas de risco consoante a duração dos episódios de chuva. Estes autores consideram a duração das chuvas um parâmetro importante na previsão de escorregamentos que venham a ocorrer em situações idênticas ou outras mais gravosas de maior duração. As áreas com diferente probabilidade de escorregamento associadas aos factores climáticos que os influenciam, ajudam a fornecer uma imagem espacial das zonas de potencial escorregamento bem como dos eventuais danos. GRIFFITHS e COLLISON (2004) estudam a possibilidade da utilização de um modelo hidrológico de um talude criado com base no Sistema de Informação Geográfica para a previsão de futuros escorregamentos de taludes em função da variação da precipitação e da temperatura. O modelo em questão foi calibrado para as condições climatéricas de Inglaterra (clima temperado húmido) e para a região do Sudeste de Espanha (considerada pelos autores como tendo clima temperado sub húmido).

7.3. PROBABILIDADE E INCERTEZA, FACTOR DE SEGURANÇA
Os taludes e encostas constituídos por maciços rochosos, por apresentarem os maiores riscos de instabilização e consequentemente produzirem os efeitos mais gravosos, abrangem normalmente maiores volumes de terrenos e, por isso, envolvem maiores energias cinéticas associadas a estes deslizamentos. Contudo, é sabido que muitos maciços rochosos, numa primeira fase, considerados sãos, vão sofrendo diferentes graus de alteração ao longo do tempo, passando então a apresentar comportamentos mistos de solos e rochas (DINIZ DA GAMA, 2005). O deslizamento de grandes massas (tal como já foi referido anteriormente) é o resultado de modificações das tensões de corte actuantes, ou porque se verificou um acréscimo desta no talude (em resultado da remoção do suporte lateral ou da base, de acções de sobrecarga, de acções dinâmicas ou do aumento de pressões laterais), ou porque se verificou uma redução da resistência ao corte do material (fruto de alterações na composição e textura do material, por efeito de reacções químicas, ou por efeitos de aumento da pressão intersticial nos poros, sobretudo no caso dos solos).

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O factor de segurança ao deslizamento é então normalmente determinado pelo
quociente entre a resistência ao corte do material e as tensões de corte instaladas na superfície potencial de deslizamento. A determinação deste factor de segurança depende pois, de parâmetros topográficos, geológicos, hidrogeológicos, geotécnicos, climáticos e outros externos que possam induzir alterações nas tensões de corte tais como acções desenvolvidas pelo homem: escavações, construções, desmatação, etc.. Desta forma, em Engenharia de Taludes, podem apontar-se os seguintes tipos de variabilidade e incerteza na sua caracterização geológica e geomecânica:

Variabilidades:
• Natureza geológica, resultantes da composição heterogénea dos solos e rochas que dão origem a propriedades mecânicas afectadas por anisotropias, anelasticidades, efeitos de descontinuidades, etc; • Provenientes de erros de observação, devidos a deficiências do próprio observador, dos instrumentos utilizados na medição, do meio ambiente onde é efectuada a avaliação e até devidos às perturbações causadas no objecto observado pelo sistema de medida; • Resultantes de erros de amostragem, onde se destacam a escolha imprópria do tamanho da amostra e a sua representatividade, a eficiência do processo de amostragem escolhido.

Incertezas:
• • • • Ocorrência de cargas inesperadas ou imprevistas durante a vida útil do talude; Ignorância do comportamento real do talude; Imperfeição das observações e medidas de dados necessários ao projecto; Simplificações ou aproximações empregues nos métodos de análise de instabilidade. A probabilidade de ocorrência de deslizamentos nos taludes pode-se classificar qualitativamente de acordo com o indicado na tabela 7.2.: existem seis descritores ou níveis, cada um definido com base num intervalo de probabilidade aproximada anual que o deslizamento tem para se tornar real. Tratam-se de valores estimados por uma

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Comissão Técnica da Sociedade Australiana de Geomecânica (AGS)14, que produziu um relatório intitulado “Gestão de riscos de escorregamentos de taludes”15, que originalmente pretendia organizar a nomenclatura com que se deveriam designar os níveis de risco e as respectivas ordens de grandeza.
Tabela 7.2. Níveis qualitativos da probabilidade de ocorrência de deslizamentos de taludes.
Fonte: Australian Geomechanics Society, 2000

Nível
A B C D E F

Descritor
Quase Certo Provável Possível Improvável Raro Muito raro

Descrição do evento
Esperado Provável Possível, em circunstâncias adversas Possível, em circunstâncias muito adversas Concebível, em circunstâncias excepcionais Quase inconcebível

Probabilidade anual aproximada
P≥10-1 10-2≤P<10-1 10-3≤P<10-2 10-4≤P<10-3 10-5≤P<10-4 P<10-5

Como pode ser observado, o processo qualitativo apresenta inconvenientes de três ordens: • • • Subjectividade na definição e aquisição dos dados necessários; Precariedade na sua análise e interpretação; Ambiguidade nos resultados.

A maior dificuldade para efectuar uma análise de risco é a incerteza. Segundo MORGENSTEN (1995) existem as diferentes fontes de incerteza: • • • Incerteza dos parâmetros; Incerteza do modelo; Incerteza humana.

14

Australian Geomechanics Society Sociedade Australiana de Geomecânica 15 “Landslide risk management concepts and guidelines”

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Se se considerar que não existe incerteza humana ou do modelo por ser totalmente representativo do problema considerado então, a incerteza é somente derivada dos parâmetros. Neste caso, a incerteza pode dividir-se em: • Incerteza que depende da variação espacial dos parâmetros característicos dos materiais e dos factores de predisposição. Esta incerteza depende, obviamente, da qualidade e extensão da investigação efectuada; • Incerteza que depende da variação temporal dos factores desencadeantes e agravantes. É essencialmente devida a essas variações que se produz a ruptura ou a alteração na velocidade do movimento. Assim, quando se desencadeia um deslizamento (ou um deslizamento activo alcança determinada velocidade), intervêm diversos factores (por exemplo o nível piezométrico da água ou a erosão do talude) em que a probabilidade de ocorrência, é a soma das probabilidades de que esses factores alcancem um determinado nível, mais a probabilidade dos factores que se combinam para produzir o mesmo fenómeno. Para definir o perigo associado aos parâmetros incertos, pode-se aplicar um modelo probabilístico a uma solução determinística. No caso da ruptura de um talude, o modelo pode basear-se no Equilíbrio Limite, supondo-se que a ruptura ocorre quando o Factor de Segurança é inferior a 1,0. A visualização do que foi explanado nos parágrafos anteriores é o que se mostra na figura seguinte (figura 7.5.): Pode-se obter um Factor de Segurança (FS) elevado (1,79) mas em que o nível de incerteza dos parâmetros de cálculo é alto; e o inverso, um FS reduzido mas com uma maior certeza dos parâmetros característicos do maciço em estudo. No que se refere à incerteza dos modelos, percebe-se facilmente que os processos são geralmente mais complexos do que se supõe (influência da estrutura e anisotropia, efeitos das alterações das tensões, rupturas progressivas, etc.) e como tal, não estão totalmente representados nos modelos de cálculo existentes. Relativamente à incerteza humana, MORGENSTEN (1995) comenta que esta é óbvia, mas difícil de levar em conta. Reliability

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Figura 7.5. Factores de Segurança e Probabilidade de Ruptura de um talude.
Adaptado de JIMENO 1999

BAECHER & CHRISTIAN, no seu recente livro de texto intitulado “Confiança e estatística em engenharia geotécnica”16(JOHN WILEY, 2003) afirmam que os métodos probabilísticos de análise da estabilidade de taludes promovem adequadamente a modelização de cenários que incorporam a incerteza e a variabilidade inerentes a estes fenómenos. Entre os métodos mais utilizados citam os seguintes: • • Método de Monte Carlo; Método FOSM (“First Order Second Moment”),ou seja, média e desvio padrão.

Ambos têm a vantagem de trabalhar sobre factores de segurança que é suposto caracterizarem adequadamente a estabilidade de taludes e há muito tempo estão implantados na Geotecnia e nos hábitos dos engenheiros. Os diferentes modos de tratar a variabilidade dos factores de segurança (resultantes da incerteza inerente a certas variáveis intervenientes no cálculo, designadamente aquelas relacionadas com a resistência ao corte dos terrenos) dão origem às duas abordagens diferentes. Com efeito, enquanto a técnica de Monte Carlo promove o cálculo de um elevado número de factores de segurança, a partir de simulações com números aleatórios, submetendo-os no final a uma análise estatística que conduz à determinação da

16

“Reliability and Statistics in Geotechnical Engineering”

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probabilidade de instabilização dos taludes, o método FOSM visa o cálculo da integridade do talude (“slope reliability”), Sr, a partir da seguinte expressão:

Sr =

FS − 1 σ FS

[4]

onde FS representa o valor médio do factor de segurança e σ FS o respectivo desvio padrão. Para os objectivos da presente investigação preferiu-se a primeira opção, por conduzir a uma grandeza cuja variação é perfeitamente definida entre 0 e 100%, prestando-se assim à sua utilização imediata na definição de níveis de risco. Assim sendo, para interpretar as propriedades geotécnicas dos terrenos resultantes de determinações “in situ” ou em laboratório (e até após estudos de retroanálise), é essencial reconhecer a sua variabilidade e proceder a análises estatísticas dos dados, através das suas distribuições de frequências simples (ver figura 7.6.). Em seguida, passa-se à determinação das respectivas curvas acumuladas, que traduzem probabilidades associadas a cada valor, logicamente compreendidas entre 0 e 1. Ficam assim criadas condições para aplicar o método de Monte Carlo, que exige a geração de números aleatórios (entre 0 e 1), uma ou mais funções de distribuição de probabilidade acumulada e as equações de equilíbrio limite para calcular o factor de segurança FS, que envolve as variáveis aleatórias prédefinidas e também incluem as
F.D.P. F.D.P.

ANG. DE ATRITO φ

ALT. DE ÁGUA HW

grandezas consideradas como causas dos deslizamentos.
Figura 7.6. Funções de distribuição de probabilidade (FDP) simples do ângulo de atrito e do nível piezométrico.
Fonte: Dinis da Gama, 1984

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A estabilidade de taludes

Mestrado em Georrecursos

Nessas circunstâncias, aplicando programas computacionais onde se geram números aleatórios, efectuam-se numerosas simulações (por exemplo 10.000 de cada vez) e obtém-se a probabilidade de colapso PC do talude, pela relação:
PC = Nº de Vezes em que o FS é < 1 Nº total de simulações [5]

Segundo BERTONI e LOMBARDI NETO (1990), para evitar a erosão, é imprescindível eliminar o desprendimento das partículas do solo causado pelas gotas de chuva que golpeiam o terreno. Citam a importância da determinação da energia cinética da chuva natural e demonstram a fórmula:

EC = 12,14 + 8,88 × log I
Onde: I = intensidade da chuva em mm/h. EC = energia cinética medida em t-m/ha-mm

[6]

A energia cinética é uma função da massa e da velocidade. Considere-se que uma gota de chuva ao desprender-se de uma nuvem fica sujeita à aceleração da gravidade e, por isto, quanto maior a altura da queda maior será sua energia cinética. As gotas são deformáveis e sofrem mudanças no trajecto tanto na forma quanto na velocidade devido ao atrito com o ar e à sua pressão. Por esta razão, existe uma velocidade máxima ou terminal conseguida quando a resistência oposta à queda é igual ao peso do corpo menos a impulsão do ar para cima (BERTONI e LOMBARDI NETO, 1990). Deve-se determinar a distância que a gota percorre na sua queda até alcançar sua velocidade terminal. BERTONI (1967) cita que uma gota de chuva que cai de uma árvore não diminui a sua velocidade de queda até chegar ao solo, pois atinge novamente a sua velocidade terminal. Além disso, esta gota une-se a outras gotas aumentando o seu tamanho e resultando numa velocidade final maior ao cair de árvores de 7 a 8 m de altura do que quando cai livremente. Por conseguinte, o aumento da massa e da velocidade desta gota faz com que ela tenha energia cinética maior ao tocar o solo do que as gotas que caem livremente. WISCHMEIER E SMITH (1978) citam que quando os outros factores são constantes, excepto o factor chuva, a perda de solo por unidade de área de um solo cultivado é directamente proporcional à energia cinética e à intensidade máxima da chuva em 30

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A estabilidade de taludes

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minutos. Este é o factor R = E.I30 da equação USLE, sendo E = energia cinética, I = intensidade da chuva; e 30 = os trinta minutos de chuva.

A =R×K ×L×S×C×P
Onde:
A – perda de solo arável, por ano R – factores de erosividade da chuva na região K – factores de erodibilidade do terreno em causa L – factor topográfico do comprimento dos taludes S – factor topográfico da declividade dos taludes C – factor de gestão adequada das colheitas P – factor relativo às práticas de conservação

[7]

Esta equação pode ser adaptada ao estudo de taludes em geotecnia, tendo ZHU, M.

et all (1994) redefinindo os parâmetros C e P para:
C – factor correspondente ao tipo de cobertura do solo P – factor das práticas de manutenção adoptadas para qualquer infraestrutura de protecção do talude

Esta utilização da USLE é efectuada de acordo com a noção de que para uma determinada área, quando for possível estimar a lei de probabilidade de R, pode ser estimada a probabilidade da perda de solo se os outros factores se mantiverem dentro de intervalos de valores conhecidos. Isto é, se K, L, S, C e P puderem ser tratados como parâmetros conhecidos para uma dada área, a distribuição de probabilidade da perda de solo dependerá só da variável aleatória R. Esta abordagem probabilística foi desenvolvida com o intuito de determinar as melhores utilizações dos solos de acordo com a lei de variação climática que tinha sido estabelecida por Wischmeier e Smith, após análise de cerca de 25 anos de registos pluviométricos de 180 estações localizadas nos EUA. É possível dividir as variáveis intervenientes em dois grupos distintos: aquelas cujo aumento conduz a incrementos da probabilidade de deslizamento dos taludes (designadas por variáveis instabilizadoras) e outras cujo aumento tem o feito oposto (variáveis estabilizadoras). A correspondente representação gráfica está transposta na Figura 7.7.
97

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Pode inferir-se desta forma e em consonância com o que se tem vindo a afirmar que, são determinantes os efeitos da acção das águas pluviais, quer no que respeita à erosão ravinosa devida ao escoamento superficial nos materiais superficiais dos taludes (designados por escorrimentos ou “debris flows”), quer pela alteração e desagregação dos materiais argilosos; quer pela erosão interna devida à circulação de águas subterrâneas; quer ainda pela saturação dos terrenos e consequente subida dos níveis freáticos, provocando diminuição notável da sua resistência ao corte. No último caso, os mecanismos de instabilização podem ocorrer através de deslizamentos planares ou circulares dos taludes.
Variação da Probabilidade de Instabilização com as principais Variáveis
100 90

Probabilidade de Instabilização(%)

80 70 60 50 40 30 20 10 0 α L H γ NF n i φ C KMV K

Figura 7.7. Variação típica da probabilidade de instabilização dos taludes com as seguintes variáveis: α (inclinação do talude), L (comprimento de infiltração no topo do talude, H (altura do talude), γ (peso volúmico do terreno, NF (altura do nível freático), n (porosidade do terreno), i (taxa de infiltração face à precipitação), φ (ângulo de atrito), c (coesão), KMV(coeficiente de protecção do talude), K (condutividade hidráulica).
Fonte: CEGEO, 2005

Assim, como nestes deslizamentos de massa se verifica a instabilização de grandes volumes e, as superfícies de deslizamento mais prováveis variam em profundidade, de acordo com a variação do nível freático, estes mecanismos são estudados atendendo sobretudo aos valores de precipitação acumulada. A instabilização, que como se referiu anteriormente é aferida pela perda de solo (A), é também potenciada pelo aumento da quantidade de água nos terrenos e pode por isso, assumir um carácter mais gravoso em invernos especialmente chuvosos. A sua dependência da precipitação (intensidade e duração, R) é tipicamente representada por curvas semelhantes às da figura seguinte.
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Figura 7.8. Variações da perda de material (A) em função da precipitação (R).
Fonte: CEGEO, 2005

Existem estudos que relacionam níveis críticos da precipitação acumulada, “P” (em mm) durante determinados períodos de tempo “t” (h), que conduzem a escorregamentos. Ortigao e Sayao (2004) estabeleceram uma lei de variação que representa as condições mínimas que desencadeiam estes acidentes (figura 7.9.), e que foi elaborada com base em vários escorregamentos observados em de 14 regiões distintas. A lei é regida pela seguinte equação:

P = 22,4 × t 0,41

[8]

Figura 7.9. Níveis críticos da precipitação acumulada (em mm) durante determinados períodos de tempo (h).
Fonte: Ortigao e Sayao, 2004

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7.4. CUSTO ASSOCIADO À ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES
A intervenção dos factores naturais em estudos de estabilidade de maciços terrosos e rochosos é, cada vez mais divulgada. A nível de projecto, esta tendência possui características que se coadunam com as abordagens probabilísticas da estabilidade, uma vez que tais factores são do tipo estocástico. Com efeito, para a determinação do conceito de inclinação óptima de um talude através da minimização do custo generalizado de obtenção do talude, (COATES, 1981) definiu a seguinte equação:

Cg = C0 + Pc × (D + R )

[9]

Onde C0 é o custo de escavação ou construção do talude, Pc é a respectiva probabilidade de colapso, D é o custo dos danos resultantes do deslizamento e R os custos da respectiva reconstrução. Como todas as grandezas dependem da inclinação do talude, a sua variação típica é a que se indica na figura seguinte (7.10.), revelando que a minimização do custo generalizado aponta para a inclinação óptima do talude em causa. Como pode ser observado, um talude pouco inclinado possui uma probabilidade de colapso baixa, não evidenciando desta forma custos por danos resultantes de deslizamentos ou de reconstrução, mas apresenta um custo de construção do mesmo elevado. À medida que o talude se torna mais inclinado, os custos de construção diminuem mas a probabilidade de colapso aumenta. O ângulo óptimo de inclinação do talude é aquele que minimiza o custo de construção do talude e simultaneamente, possui uma probabilidade de colapso associada aos custos de deslizamento e reconstrução mínima (ponto de inflexão da curva de probabilidade).

Figura 7.10. Custo generalizado do talude e determinação da sua inclinação óptima.
Fonte: COATES, 1981; in XVI Lição Manuel Rocha, GAMA 1999

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JIMENO (1999) explica que quando uma equipa técnica se depara com um talude possuidor de uma estabilidade precária, podem optar por diversas opções: • • Não fazer nada ao talude; Não realizar trabalhos no talude em si, mas instalar sistemas de protecção para evitar danos e melhorar a segurança das pessoas; • Melhorar o talude até um nível satisfatório de redução de risco.

O mesmo autor elucida ainda que ao analisar acções de beneficência de uma dada situação com o fim de reduzir os perigos e seus riscos associados, estas devem ser examinadas como função dos custos, para se poder obter uma análise custo benefício (como ilustra a figura em baixo indicada) e consequentemente, obter aquelas que melhor se apresentam.

Figura 7.11. Análise dos custos de intervenção para a redução do perigo ou probabilidade de ocorrência.
Adaptado de JIMENO, 1999

Exemplos da aplicação desta filosofia foram apresentados por vários autores, entre os quais GAMA (1995), verificando-se tendência para ser apresentados em explorações mineiras a céu aberto (figura 7.12) e taludes de vias de comunicação (MENDONÇA e CARDOSO, 1998), integrando técnicas de revegetação e revelando grande sentido de integração de soluções para este problema (figura 7.13).

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Figura 7.12. Estabilização dos taludes finais da pedreira de marga da SECIL, SA – Maceira.
Fonte: CECIL; in XVI Lição Manuel Rocha, GAMA 1999. Estabilização de Taludes

Barreiras dinâmicas

Figura 7.13. Aplicação de técnicas de estabilização de taludes de estradas com revegetação.
Fonte: Mendonça e Cardoso; in XVI Lição Manuel Rocha, GAMA 1999

A AGS, no mesmo relatório atrás referido, incidiu ainda sobre as consequências de tipo económico inerentes a propriedades de valor conhecido C. Na tabela 7.3 é mostrada a classificação em cinco níveis, sendo os custos dos danos expressos em percentagem do valor das estruturas envolvidas no colapso, incluindo também os seus custos de recuperação e colocação em serviço.

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Tabela 7.3. Níveis qualitativos das consequências de tipo económico sobre uma propriedade de valor C.
Fonte: Australian Geomechanics Society, 2000

Nível

Descritor

Descrição
Estrutura completamente destruída ou danificada em grande parte, exigindo importantes intervenções para a sua estabilização Estrutura parcialmente destruída,

Custo aproximado

1

Desastroso

≥100% de C

2

Alto

requerendo significativos trabalhos 10%≤C<100% de estabilização e reconstrução Danos moderados em algumas estruturas;

3

Médio

sendo limitadas

necessárias

intervenções 1%≤C<10%

Danos limitados só a algumas partes das 4 Baixo estruturas, sendo necessárias 0.1%≤C<1% ligeiras obras de estabilização 5 Insignificante Danos pequenos 0.01%≤C<0.1%

8. MÉTODOS DE ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES 8.1. INTRODUÇÃO
Tanto em obras civis como em explorações mineiras a céu aberto, é necessário realizar trabalhos de modo a conseguir estabilizar os taludes de materiais soltos procedentes da erosão e desagregação do maciço rochoso. A tabela seguinte (tabela 8.1.) tenta dar uma ideia dos vários métodos para estabilizar taludes de solos bem como, os campos de aplicação e as suas limitações, permitindo desta forma, definir qual o melhor método a aplicar, em cada caso.

103

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Tabela 8.1. Métodos de estabilização de taludes em solos (Holtz y Schuster, 1996).
Fonte: Jimeno, 1999

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Categoria

Actuação

Aplicação

Alterar a localização da Alternativa simples obra Evitar o problema Remoção de materiais instáveis Escavação de pequenas quantidades de material a pequena profundidade em solos pobres Em zonas de colina com movimentos de terras em níveis superficiais do Durante o desenho preliminar do projecto Em qualquer como correctivas desenho medidas

Instalação de pontes Alterar a pendente linha

Drenagens superficiais

Limitações Nenhuma em fase de planificação. Custos elevados após a obra executada Esta actuação pode ser onerosa. A evitar em deslizamentos de dimensões elevadas Além dos custos que acarreta, pode não ter efeitos práticos desejados Afecta a secção das vias na zona de remodelação Medida correctiva que afecta somente o escoamento superficial e ajuda a diminuir a infiltração desta água

Observações Estudos detalhados das novas propostas para assegurar o melhoramento da obra Deve ser feita análise prévia situação uma da

Realizar estudos prévios de carga para assegurar uma boa estabilidade da obra A instalação da vegetação é fundamental para esta medida É preciso ter em consideração a pressão intersticial provocada pela infiltração aquando da análise de estabilidade Requer análise de estabilidade para saber qual o peso máximo que se pode colocar sobre o terreno

Reduzir as forças destabilizadoras

Drenagens profundas

Em qualquer talude onde se incremente a Não é efectiva quando a estabilidade reduzindo a massa deslizante é quantidade de água insensível à drenagem subterrânea Em qualquer fenómeno potencial ou real de deslizamento São necessários materiais leves que podem ser onerosos, pode ser necessário realizar expropriações

Reduzir o peso

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A estabilidade de taludes Categoria Incremento dos momentos resistentes aplicando forças externas Actuação Contrafortes ou muros Aplicação

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Instalação de ancoragens

Drenagens profundas

Muros de terra armada

Instalação de reforços in situ Incremento da resistência interna Bioengenharia

Tratamento químico

Tratamento eléctrico Tratamento térmico

Limitações Observações Podem ocorrer Deve levar-se em conta a Num deslizamento problemas de necessidade de bermas, existente, em combinação assentamentos. Pode em função das com outros métodos ser necessário realizar expropriações expropriações Requer que o solo tenha Devem ser efectuados Onde se está limitado pelo resistência às forças de estudos das direito de expropriação corte das ancoragens propriedades dos solos Em qualquer deslizamento onde o nível freático se Requer pessoal encontra por cima da sua especializado superfície Devem ser calculados os Em diques e ladeiras onde É preciso ter em conta a esforços que os se necessita reconstruir durabilidade dos elementos resistentes após um deslizamento materiais a longo prazo vão estar submetidos É preciso ter em conta a Devem ser efectuados Estruturas temporárias em durabilidade dos estudos das solos resistentes materiais a longo prazo propriedades dos solos Em taludes de altura Climáticas, pode ser moderada necessário efectuar rega Quando a superfície de Ensaios laboratoriais deslizamento está bem Pode ser reversível, entre o solo e o definida e o solo reage impactes ambientais tratamento; requer Estudo de Impacte positivamente a esta ainda desconhecidos solução Ambiental Só é utilizado como Baixa a pressão intersticial Requer energia eléctrica medida de emergência, e incrementa a resistência constante onde nenhum método ao corte dos solos funcionou Para reduzir a sensibilidade Processo bastante Método ainda muito das argilas à água oneroso experimental e oneroso

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8.2. ESTABILIZAÇÃO POR MODIFICAÇÃO DA GEOMETRIA DO TALUDE
8.2.1. INTRODUÇÃO
Quando um talude é instável ou a sua estabilidade é precária, uma forma de actuar é modificando a sua geometria de modo a obter uma configuração estável. Esta modificação tem como objectivo um dos seguintes efeitos: • • Diminuir as forças que tendem ao movimento da massa; Aumentar a resistência ao corte dos terrenos através do aumento das tensões normais em zonas convenientes da superfície de ruptura. O primeiro ponto consegue-se reduzindo o volume da parte superior do deslizamento, e o segundo, aumentando o volume no pé do talude. As formas de actuar sobre a geometria do talude para melhorar a sua estabilidade, são as seguintes: • Eliminar a massa instável ou potencialmente instável. Só se aplica em casos extremos e com comprovação de que a nova configuração será estável. • • • Descabeçamento. Construção de blocos de terra ou enrocamento. Construção de bermas intermédias.

8.2.2. DESCABEÇAMENTO
Consiste na eliminação do material da parte superior da massa potencialmente deslizante. É nesta zona que o peso do material mais contribui ao deslizamento e menos à resistência, devido a ser na parte superior do deslizamento que esta tem a sua máxima inclinação. Por isso, a eliminação de relativamente escassa quantidade de material produz aumentos importantes do factor de segurança. Este método de correcção de taludes é efectivo e aplica-se fundamentalmente quando a escavação não apresenta dificuldades sérias que podem dever-se tanto às características do material como à acessibilidade à zona de escavação.

8.2.3. ENROCAMENTO NA BASE DO TALUDE
A aplicação no pé do talude de blocos de terra ou enrocamento pode realizar-se em combinação com o descabeçamento do talude ou como medida independente.
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No primeiro caso e dependendo das características do material, pode empregar-se para o enrocamento o mesmo tipo de material da cabeça do talude, o que diminui o custo da operação. O peso do bloco colocado no pé do talude traduz um aumento das tensões normais na parte inferior da superfície de deslizamento, o que aumenta a sua resistência. Este aumento depende do ângulo de atrito interno da parte inferior da superfície de deslizamento, se for elevado o deslizamento pode produzir-se no pé sendo mais vantajoso construir o bloco em cima do pé.

Bloco do enrocamento

Figura 8.1. Enrocamento na base do talude.

Podem-se estabilizar grandes massas deslizantes através de pesos relativamente pequenos de blocos. Se o ângulo de atrito interno for baixo, o deslizamento pode darse pela base, sendo também possível colocar enchimento em frente ao pé do talude. Em qualquer caso o peso próprio do bloco supõe um aumento do momento estabilizador em relação à ruptura. Quando a linha de ruptura se vê forçada a atravessar o enchimento, este tem um comportamento de elemento resistente propriamente dito. É importante que a base do enchimento seja drenada, pois caso contrário o efeito estabilizador pode ser diminuído, especialmente, se o enchimento se apoiar sobre materiais argilosos. Pode ser necessário colocar um material com funções de filtro (por exemplo membranas geotexteis), entre o enchimento drenante e o material do talude. O enchimento drenante, normalmente o enrocamento, deve ser colocado a alguma distância da frente do movimento, distância esta que depende da sua velocidade. Ao situar-se em frente ao deslizamento sobre o enchimento, a sua acção drenante detém o movimento. Outra medida efectiva é estender o enchimento protector com base drenante sobre a superfície do talude argiloso. O estado tensional do material situado por baixo do enchimento melhora consideravelmente. O enchimento deve projectar-se como uma berma estável por si mesma.

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Os blocos de terra e enchimentos constroem-se frequentemente com enrocamento devido ao seu alto atrito interno, que permite taludes muito inclinados, diminuindo a quantidade de material utilizado e que devido à sua grande permeabilidade, garante o efeito drenante necessário, sendo este efeito imprescindível na parte inferior do enchimento ou bloco. Por outro lado a grande resistência ao deslizamento por parte do enrocamento aumenta a segurança do talude. No caso de falta de espaço no pé do talude é frequente suster o enchimento com um muro.

8.2.4. BERMAS
A disposição das bermas intermédias num talude é uma medida que pode ser decidida antes da construção do talude, durante a fase de projecto, medidas estas que se adoptam frequentemente em taludes naturais ou construídos, quando se prevêem deslizamentos ou quando estes se começam a produzir. As bermas no solo produzem um efeito benéfico na estabilidade geral do talude, sendo a sua aplicação aconselhável também por outros motivos, tais como: facilitam o processo construtivo e as operações de manutenção do talude; retêm a queda de fragmentos de rocha indesejáveis em todos os casos; permitem a colocação de valas de drenagem para evacuar as águas de escorrência; diminuem o seu efeito erosivo; e promovem o aumento das pressões intersticiais. No caso de taludes mineiros, as bermas são estritamente necessárias à exploração. Uma largura normal de talude empregue em grandes minas a céu aberto ronda os 20m. A altura das bancadas pode oscilar, para rocha, entre 10 e 15m. A presença de bermas em taludes mineiros dá origem nos dois tipos de taludes básicos a analisar: os taludes de bancada e o talude global ou de corta. O ângulo do talude de bancada varia entre 75º e 90º e o do talude de corta entre 10º e 50º. As bermas podem utilizar-se em taludes de rocha, especialmente se esta é facilmente meteorizada e quando é importante evitar as quedas de fragmentos de rocha, tal como no caso de taludes junto a vias de transporte. O dimensionamento da altura e do ângulo do degrau é feita em função de um duplo conceito: altura e ângulo do degrau próximo de 90º. A estabilidade geral de um talude com bermas é muito superior à de um talude contínuo de igual altura e com ângulo igual ao do degrau.
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Na altura de tomar a decisão sobre o tipo de talude, contínuo ou com bermas, de igual ângulo geral, deve ter-se em conta que este último diminui os efeitos de desprendimentos de rocha e permite a evacuação das águas superficiais, além de outras considerações de tipo construtivo.

Berma

Figura 8.2. Criação de Bermas.

8.2.5. REPERFILAMENTO DO TALUDE
O reperfilamento ou retaludamento do talude é um dos métodos mais utilizados, por ser bastante económico, sendo geralmente a primeira opção considerada aquando da necessidade de estabilização de um talude.

Figura 8.3. Reperfilamento do talude.
Fonte: Dinis da Gama, 1994

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A estabilidade de taludes

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8.3. ESTABILIZAÇÃO POR DRENAGEM
8.3.1. GENERALIDADES
A correcção de taludes através de medidas de drenagem tem como objectivo reduzir as pressões intersticiais que actuam sobre a potencial ou existente superfície de deslizamento, o que aumenta a sua resistência, e diminui o peso total e consequentemente as forças destabilizadoras. Tendem-se a adoptar as medidas de drenagem quando num talude já existente se apresentam sinais evidentes de instabilidade. A detecção de um talude instável encontra-se associada a certos movimentos da massa deslizante o que leva a uma redução das propriedades resistentes do material. A inclusão de medidas de drenagem no projecto do talude e a sua aplicação desde o início da construção permite obter o máximo de benefício pois mantém-se intacta a resistência do terreno. As drenagens podem ser bastante eficazes no que se refere à estabilização de um talude no entanto, é difícil saber quais os efeitos que promovem no maciço, a longo prazo, uma vez que na maioria dos casos, não se costuma monitorizar esse efeito. Na figura 8.4 estão representados vários tipos de drenagem bem como as funções que desempenham. Estas, podem ser resumidas a: • • • Controlo do movimento da água superficial; Redução da pressão intersticial em profundidade; Controlo da influência da água infiltrada no comportamento hidráulico subterrâneo do talude.

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Figura 8.4. Diferentes tipos de drenagem e funções que desempenham.
Fonte: Bromhead, 1992

Existem dois tipos de medidas de drenagem, os quais são normalmente aplicados em conjunto: • Drenagem superficial: tem como função a recolha das águas superficiais e, também, das águas recolhidas através de drenagens em profundidade e evacuá-las do talude evitando a sua infiltração; • Drenagem em profundidade: tem como finalidade baixar o nível freático com a consequente diminuição das pressões intersticiais. Tanto as drenagens profundas como as superficiais se podem manter facilmente, podendo ser rapidamente reparadas. As drenagens profundas vão controlar mais efectivamente os efeitos da água de infiltração dentro do terreno. Na generalidade, apesar de possuírem custos de colocação maiores que as drenagens superficiais, no final, este tipo de trabalhos fica muito mais barato do que seria se se tivesse que remover todo o maciço para estabilizá-lo.

111

A estabilidade de taludes 8.3.2. DRENAGEM SUPERFICIAL

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As drenagens superficiais são de uma importância essencial devido ao efeito evacuador das águas procedentes da escorrência superficial e à necessidade de existirem para escoarem as descargas das águas de drenagem profundas. As medidas de drenagem superficial têm uma dupla finalidade: • Evitar que as águas superficiais cheguem a zonas suficientemente próximas do talude e se infiltrem directamente ou por fendas no terreno, produzindo uma elevação significativa do nível freático e por consequência das pressões intersticiais; • Evitar na medida do possível os efeitos erosivos das águas de escorrência sobre a superfície do talude provocando a sua degradação. Como primeira medida, qualquer curso de água permanente ou estacionário, deve ser desviado de modo a não afectar a área a tratar. Se na superfície do talude ou na cabeceira do mesmo existir alguma fonte, esta deve ser desviada para fora da possível zona de deslizamento. A zona em que a água superficial é potencialmente mais prejudicial situa-se superiormente à crista do talude. É mais provável que a água que fica nesta zona se introduza no terreno por qualquer fissura ou fenda de tracção, sendo por isso conveniente introduzir uma certa inclinação nesta superfície de modo a eliminar os blocos amontoados ou outras formas de relevo que possam permitir o aparecimento de água. Desta forma permite-se o fácil acesso da água superficial aos dispositivos de evacuação que se tenham introduzido. Em algumas situações pode ser necessário impermeabilizar totalmente a superfície superior desde a crista do talude incluindo-o. Neste processo utiliza-se asfalto, membranas plásticas ou cobertura de argila impermeável. As águas de escorrência evacuam-se por meio de valas de drenagem,

impermeabilizadas ou não, aproximadamente paralelas ao talude. Devem situar-se a pouca distância da crista do talude por traz da mesma. Devem também ser colocadas no pé do mesmo e se necessário, sobre o talude, longitudinalmente. Devem ter uma secção suficiente para o caudal que tenham de evacuar e a soleira deve ser convenientemente inclinada com o fim de evitar encharcamentos que podem

112

A estabilidade de taludes

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ser perigosos. O revestimento tem de ser capaz de resistir à erosão da água e é conveniente ser impermeável, sobretudo se o terreno for arenoso. A drenagem superficial pode apresentar canais em forma de “U” ou “V”, revestidos com uma película de betão ou através de tubos cilíndricos de aço ou betão cortados longitudinalmente, devendo garantir-se a impermeabilidade selando as juntas e revestindo-as com asfalto tanto na soleira como lateralmente. São também empregues betão armado e cintas plásticas resistentes. Os parâmetros que se devem considerar aquando da colocação de um sistema de drenagem são: • • • • • Área e tipo da bacia de recepção; Intensidade da chuva; Pendente e longitude do talude que se pretende drenar; Condições do terreno, em superfície e em substrato; Natureza e extensão da vegetação.

O cálculo da secção deve-se fazer com base em métodos hidrológicos. Uma aproximação ao caudal de ponta pode-se fazer mediante a seguinte equação:

Q=
Sendo:
Q – caudal de ponta (m /s) C – coeficiente de escorrência
3

CIA 3,6

[10]

I – intensidade da chuva no período considerado (mm/h) A – bacia de recepção (km )
2

É importante a manutenção e vigilância das valas de drenagem pois podem tornar-se ineficazes se se acumularem sedimentos ou então se a impermeabilidade dos mesmos for perdida devido a pequenos movimentos do talude. No caso de existirem fendas de tracção na cabeça do talude, estas medidas podem não ser impeditivas à infiltração da água superficial nas fendas. Uma fenda de tracção cheia de água gera importantes pressões intersticiais, o que pode pôr em perigo a estabilidade do talude, pelo que pode ser necessário selar as fendas com material

113

A estabilidade de taludes

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impermeável e flexível. A partir de uma largura de fenda superior a 5 - 10cm esta deve, antes de selada, ser enchida com gravilha ou outro material permeável, com o qual, se consiga o escoamento rápido da água que se infiltra.

8.3.3. DRENAGEM PROFUNDA 8.3.3.1. CLASSIFICAÇÕES E CONSIDERAÇÕES GERAIS
O propósito principal das drenagens profundas é modificar o regime de infiltração. O factor de segurança ao deslizamento, em qualquer superfície potencial de ruptura que passa por debaixo do nível freático, pode aumentar com a colocação destes drenos. As drenagens profundas consistem sempre em orifícios que penetram no terreno e que recolhem a água contida nele, atraindo as linhas de corrente e deprimindo o nível freático. Aplicam-se geralmente em taludes escavados e em taludes naturais com mostras de instabilidade. Estas drenagens podem-se classificar em:

Drenos horizontais – perfurados desde a superfície do talude; Drenos verticais fibroquímicos; Poços verticais – perfurados desde a superfície superior ao talude ou desde o
próprio talude;

Galerias de drenagem – geralmente paralelas ao talude e a grande
profundidade;

Valas com enchimento drenante – dispostas na superfície do talude ou no
seu pé. Na altura de escolher um sistema de drenagem, deve-se ter em conta as seguintes considerações recolhidas por Canmet (1977), que mostram a importância do conhecimento prévio das características hidrogeológicas do terreno. a. Tem de existir uma adequada conexão hidráulica entre o material do talude e o sistema de drenagem. Nos maciços rochosos a infiltração desenvolve-se fundamentalmente ao longo das descontinuidades pelo que a eficiência do sistema de drenagem depende do número de descontinuidades, interceptadas. Em rochas susceptíveis de erosão ou dissolução pode acontecer que o fluxo fique confinado em determinados canais de infiltração contidos em algumas descontinuidades, o que dificulta o funcionamento do sistema de drenagem.

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b. A eficácia de um sistema de drenagem está condicionada pela capacidade de recarga da zona a drenar. O sistema de drenagem tem de ser capaz de desaguar um caudal superior ao da dita capacidade de recarga, pelo que tem de possuir uma superfície efectiva suficiente. A capacidade de recarga do terreno pode ser limitada afastando as águas de escorrência através de medidas de drenagem superficial. As águas subterrâneas que alcançam a zona do talude podem ser limitadas por meio de telas impermeáveis ou telas de poços verticais de drenagem. c. O sistema de drenagem deve ser adaptado à heterogeneidade. Quando existe um estrato de permeabilidade muito diferente do restante talude, este deve ser interceptado pelo sistema de drenagem. Em grande parte dos maciços rochosos, a permeabilidade diminui com a profundidade devido à diminuição da abertura das juntas com o aumento da tensão que actua sobre elas e, em geral, quanto maior a profundidade maior o espaçamento entre as juntas. As drenagens em locais profundos são de eficácia limitada pois a descarga proporcionada pelo sistema é pequena em comparação com a capacidade de recarga do maciço. A opção de drenos horizontais no pé do talude afecta apenas os estratos superficiais deste. Nestes casos, o alinhamento dos poços de drenagem pouco profundos por detrás da crista do talude pode ser a solução mais apropriada, complementando-se, caso seja necessário, com drenos horizontais no pé do talude. d. O tempo de resposta das pressões intersticiais na instalação de uma drenagem profunda depende da permeabilidade do material. Em materiais muito pouco permeáveis podem ser necessários períodos de tempo superiores a um ano para que sejam alcançadas as condições de estacionariedade no talude drenado. Em geral, considera-se provável o bom funcionamento da drenagem em maciços rochosos de permeabilidade mássica equivalente superior a 105cm/s. Sendo o tempo de resposta, num raio de 30m geralmente inferior a um mês. e. Se se vão levar a cabo medidas de drenagem num talude, é necessário definir a zona do talude que requer as ditas medidas e qual será a zona mais provável da instabilidade, a qual por sua vez dependerá das condições de pressão intersticial.

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Na tabela 8.2, podem observar-se os efeito na estabilidade de um talude, dependendo do tipo de infiltração.
Tabela 8.2. Condições mais comuns de infiltração e seus efeitos na estabilidade de um talude.
Fonte: Jimeno, 1999

Infiltração
Seco e bem drenado Sujeito ao fluxo normal de escoamentos superficiais de água, procedentes da chuva Sujeito a fluxo vertical, favorecido por outros sistemas de drenagem

Efeitos na estabilidade
Favorável, com pequena infiltração, serve como subdrenagem. A estabilidade reduz-se à medida que se incrementa a pressão intersticial. O fluxo é geralmente paralelo ao pendente. O fluxo vertical reduz a pressão intersticial e incrementa a estabilidade

8.3.3.2. DRENOS HORIZONTAIS
Também denominados drenos californianos. Consistem em furos de pequeno diâmetro sub horizontais (com inclinações que variam entro os 5º e os 10º), que parte desde a superfície do talude, e encontram-se contidos nele. Este tipo de drenagem emprega-se em casos em que a profundidade da água subterrânea é tanta que o custo de retirar terreno ou de instalar valas de drenagem é proibitivo. Tem como principais vantagens: • • • • Instalação rápida e simples; A drenagem realiza-se por gravidade; Requer pouca manutenção; É um sistema flexível que se pode readaptar se a geologia local for diferente da esperada. Como inconvenientes tem: • A sua área de influência é limitada e menor que outros métodos de drenagem em profundidade;

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Tem que ser feita após a realização da escavação pelo que a segurança do talude até à sua instalação pode ser precária.

Os drenos horizontais são aplicáveis como medida única a taludes de altura pequena ou média. Em taludes de altura superior a 100m o comprimento de perfuração torna-se considerável, o que os torna pouco económicos. Nestes casos a instalação pode ser feita através de bermas intermédias e em combinação com outros métodos de drenagem em profundidade. Num talude com o nível freático situado entre os 30m e os 60m acima do pé, obtémse, geralmente, um bom resultado com drenos horizontais perfurados a partir do pé e até uma profundidade aproximadamente igual à da altura do talude, com um máximo de 90-100m. Se o nível freático se encontrar a mais de 60m acima do pé do talude, devem-se dispor diferentes níveis de drenos com intervalos entre si de 30m na vertical, a começar no pé do talude. O diâmetro dos furos pode oscilar entre 6,3cm e 15cm e o seu espaçamento entre 7m e 30m, sendo frequente usar-se entre 10m e 15m. Estes dados são meramente indicativos, pois para um determinado talude estas dimensões devem adoptar-se após um estudo hidrogeológico. É importante que os drenos horizontais se mantenham livres de materiais que possam reduzir a sua secção, pois de contrário a sua eficiência pode ver-se diminuída até 75%. Para que isto não aconteça é suficiente realizar-se uma limpeza periódica, injectando ar ou água sob pressão no furo, podendo ser, em alguns casos, necessário instalar revestimentos perfurados. Estes drenos têm sido usados com êxito no controlo de deslizamentos devido à sua rápida aplicação numa área localizada.

8.3.3.3. DRENOS VERTICAIS FIBROQUÍMICOS
Com a utilização de drenos verticais fibroquímicos é possível a eliminação rápida da água do solo, ocasionando uma grande redução do tempo necessário ao adensamento de terrenos compressíveis. Na prática, os drenos verticais são utilizados em terrenos argilosos moles e pouco permeáveis, permitindo também o aumento da resistência ao corte e por conseguinte, da capacidade de suporte. O emprego dos drenos faz com que a maior parte do recalque ocorra antes da execução da obra, trazendo substancial economia nos custos de manutenção, como
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A estabilidade de taludes

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por exemplo no renivelamento e reconstrução de pavimentos, galerias, linhas-férreas, vias rodoviárias etc. O processo de consolidação começa quando o terreno, sendo comprimido, filtra a água contida entre os poros das partículas sólidas, reduzindo seu volume. A consolidação é tanto mais lenta quanto menos permeável for o terreno. A instalação dos drenos verticais reduz sensivelmente o percurso que a água deve fazer para sair da área comprimida e chegar a uma região permeável sem pressões, ou seja, nas colunas dos drenos. Com o uso de drenos, o fluxo da água no interior da argila é predominantemente horizontal, enquanto no processo de adensamento normal, o fluxo é vertical. O coeficiente de permeabilidade horizontal é substancialmente superior ao coeficiente de permeabilidade vertical, conferindo ao uso de drenos, uma significativa vantagem adicional. A execução de um dreno vertical consiste basicamente na introdução no terreno de um material com elevado coeficiente de permeabilidade e capacidade de resistir aos esforços de cravação e aos movimentos da camada argilosa provocados pelo adensamento e execução de aterros. Este tipo de dreno possui as seguintes vantagens principais: • Não necessita de água para instalação, mantendo limpo e acessível o caminho da obra; • • Não há remoção de solo para sua instalação; Mantém inalterada a sua capacidade de funcionamento mesmo quando a sua posição vertical, na altura da instalação, é alterada pelos recalques ou movimentos laterais provocados pelo adensamento do solo; • A permeabilidade horizontal do solo em torno do dreno é mantida inalterada, pois o efeito de cravação é desprezável; • • Possui eficiente sistema de protecção contra a colmatação; Toda a área lateral do dreno funciona como superfície livre para a captação de água. O sistema de cravação permite uma elevada produtividade e protege totalmente o dreno, podendo atravessar ou deslocar, sem causar danos ao dreno, camadas de solo de elevada resistência, pedaços de madeira ou matacões de pequenas dimensões.

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A estabilidade de taludes 8.3.3.4. POÇOS VERTICAIS DE DRENAGEM

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A principal função dos poços verticais de drenagem é reduzir o nível das pressões intersticiais naquelas camadas em que seria impossível chegar por meio de métodos de escavação a céu aberto ou, em locais onde é impossível colocar drenagens horizontais, tanto por razões económicas como construtivas. A água recolhida por este processo é normalmente extraída por bombagem, utilizando-se para o efeito bombas submersíveis situadas na parte inferior do poço. A sua grande vantagem em relação aos drenos horizontais, é o facto de se poderem instalar e pôr em funcionamento antes do início da escavação, com o que se consegue: • • Garantir a estabilidade do talude durante a construção; Facilitar a construção ao diminuir a quantidade de água que aflora na frente da escavação, não se interferindo nesta devido à instalação de drenos horizontais. Outra vantagem é o facto de se poder aproveitar para poços de drenagem as sondagens verticais de investigação, desde que estas se realizem com um diâmetro maior do que o estritamente necessário. O seu principal inconveniente refere-se ao elevado custo do equipamento de bombagem e a energia necessária ao seu funcionamento, já que este tem de ser constante para que o sistema de drenagem seja eficaz. Este problema pode-se eliminar conectando os poços, numa segunda fase, com uma galeria de drenagem, obtendo-se assim um escoamento por gravidade. Outro método que se pode adoptar, noutras ocasiões, é ligar os poços com drenos horizontais, perfurados desde o talude. Os poços de drenagem têm geralmente um diâmetro superior a 30cm, sendo comum 40cm ou mais. Em solos e rochas brandos pode ser necessária a instalação de tubagens perfuradas, sendo conveniente colocar entre o topo e o terreno, enchimento com funções filtrantes. O comprimento dos poços pode ser muito grande, atingindo profundidades superiores a 300m. Devido à inclinação que o nível freático adquire nas proximidades dos poços, estes têm de alcançar maiores profundidades do que seria de supor ao início. Se a intenção for drenar totalmente o talude, a profundidade de perfuração necessária, supondo os poços situados na cabeça do talude, é da ordem de 1,2 vezes a altura do talude. A

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instalação de vários níveis de poços é uma medida alternativa, aplicada normalmente em taludes de grande altura.

8.3.3.5. GALERIAS DE DRENAGEM
São galerias escavadas no terreno a bastante distância da superfície deste. Podem dispor-se paralelas ao talude. É o sistema mais efectivo, sendo também o mais caro, pelo que a sua utilização só é considerada em situações críticas e em taludes de grandes alturas, sendo necessário um elevado número de drenos horizontais e poços verticais de grande profundidade, o que pode tornar económico o emprego das galerias de drenagem. Em muitas ocasiões é conveniente instalar drenos perfurados desde a galeria, de modo a aumentar o seu raio de acção e a efectividade do sistema de drenagem. As principais vantagens das galerias de drenagem relativamente aos drenos horizontais e aos poços verticais são: • Têm uma maior capacidade drenante devido à sua grande secção transversal. Permitem uma maior conexão hidráulica com as fissuras portadoras de água; • São apropriadas para operações a longo prazo, dado que a drenagem se realiza geralmente por gravidade, e a sua vida útil é muito maior do que a dos drenos horizontais; • • São um modo excelente para determinar as características do terreno; Não afectam a superfície do terreno porque não interferem nas operações que se realizam neste; • A sua localização a grande profundidade torna-os apropriados para zonas de clima muito frio. Em geral dispõem-se um ou dois níveis de galerias, sendo poucos os casos em que se instalam mais. Embora o mais corrente seja escavar as galerias paralelamente ao talude, em algumas ocasiões dispõem-se perpendicularmente ao mesmo com o objectivo de drenar zonas localizadas. Neste caso, o sistema de drenagem pode complementar-se com galerias transversais principais e com drenos perfurados dispostos em leque. A situação e tamanho óptimos da galeria podem estudar-se por métodos teóricos pelo que se tem de conhecer, pelo menos aproximadamente, as características de

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permeabilidade do terreno. A influência de drenos adicionais perfurados pode estudarse do mesmo modo. As galerias proporcionam uma boa drenagem quando é maior a permeabilidade no sentido vertical do que no sentido horizontal como acontece em maciços rochosos onde predomina um diaclasamento vertical. No caso relativamente frequente da permeabilidade horizontal ser muito superior à vertical, deve facilitar-se a drenagem mediante a perfuração desde a galeria com drenos verticais. A direcção dos drenos complementares deve ser aproximadamente normal à da máxima permeabilidade. O espaçamento entre os drenos deve ser tal, de modo a que constituam uma autêntica tela contínua que intercepta o fluxo de água. Em solos e rochas muito fracturadas pode ser necessário um revestimento contínuo, geralmente em betão armado, pelo que a drenagem do talude tem de ser proporcionada através da instalação de um feixe de drenos com diferentes direcções. É bastante frequente encher a galeria com pedras ou gravilha, de modo a conseguir diminuir o efeito das deformações posteriores da galeria e inibir a sua capacidade drenante.

8.3.3.6. VALAS COM ENCHIMENTO DRENANTE
São valas preenchidas com material drenante, escavadas no talude o mais próximo possível do seu pé e cuja acção drenante se limita a pequenas profundidades. As valas podem ser de dois tipos:

Valas de talude: segundo a linha de maior inclinação do talude.
São aplicadas quando os potenciais deslizamentos se encontram a pouca profundidade. Um caso típico é aquele em que existe alternância entre estratos duros e estratos brandos e impermeáveis, todos de pequena espessura e dispostos paralelamente ao talude. O deslizamento de materiais sobre terrenos débeis pode-se evitar através de valas com enchimento drenante que aliviam as pressões intersticiais no estrato inferior.

Valas horizontais: são paralelas ao talude e situam-se no seu pé.

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Utilizam-se para recolher a água proveniente das valas de talude. Podem ser muito úteis em taludes com estratos aproximadamente horizontais de diferente permeabilidade.

8.4. ESTABILIZAÇÃO SUPERFICIAL RECORRENDO À VEGETAÇÃO
8.4.1. INTRODUÇÃO
A vegetação nos projectos de engenharia é normalmente utilizada para reduzir os impactes visuais causados pelas obras e para melhorar a qualidade da paisagem nessas zonas. No entanto, a vegetação pode ter também, um papel muito importante no controlo dos processos erosivos e como elemento de protecção e conservação do solo, derivada da influência que exerce sobre ele, tanto à superfície, protegendo e segurando o solo, como em profundidade, ao incrementar a resistência e a coesão dos terrenos. Aliás, tem uma influência significativa no nível da humidade e na sua capacidade de retenção da água. Todos estes efeitos podem ser benéficos ou adversos, dependendo das circunstâncias ainda que, no balanço final, se constata que esses efeitos são mais positivos e relevantes que o inverso. A vegetação, constitui uma interface de interacção entre o solo e a atmosfera que se manifesta através de uma série de efeitos hidrológicos, mecânicos, (figura 8.5) e ainda com efeitos no regime de circulação do vento.

Figura 8.5. Efeitos hidrológicos e mecânicos da vegetação sobre um talude
Fonte: JIMENO, 1999

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Nos últimos anos tem-se inclusivamente desenvolvido um novo ramo da engenharia em que se utilizam as plantas vivas e materiais lenhosos como materiais de construção (Bioengenharia, ver capítulo 8.5) em contraste com a engenharia convencional, onde se usa somente material inerte e inorgânico. Na tabela seguinte estão enumerados os efeitos da utilização de sistemas de bioengenharia.
Tabela 8.3. Efeitos da utilização de sistemas de bioengenharia.
Fonte: Ground Bioengineering Techniques for slope protection and erosion control (1996)

Áreas Geotecnia

Efeitos
Protecção da superfície do solo da erosão pela precipitação, vento e outros agentes erosivos Moderação da temperatura e humidade extremas do ar ao nível do solo, melhorando as condições para o crescimento de vegetação Melhoramento da relação entre o solo e a quantidade de água que este possui, derivado dos processos de intercepção, evapotranspriação e drenagem Melhoramento do solo e criação de húmus pela decomposição da vegetação Criação de novas e/ou melhoradas condições de vida para plantas e animais Construções e manutenções com custos mais reduzidos que os

Ecologia

Economia

convencionais Criação de áreas que poderão ser utilizadas para a agricultura, floresta, lazer, entre outras

Estética

Integração dos edifícios na paisagem

Juntamente com as plantas vivas, é ainda prática comum utilizar materiais auxiliares para garantir uma estabilização inicial até que a vegetação se desenvolva e alcance a sua eficiência óptima. Estes materiais secundários vão desde a madeira, a pedra, o cimento, as malhas plásticas e metálicas, os geoteixteis, as redes e as mantas orgânicas, entre outros.

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A estabilidade de taludes 8.4.2. PROTECÇÃO DA SUPERFÍCIE DO SOLO 8.4.2.1. PROTECÇÃO CONTRA A EROSÃO POR SALPICAMENTO

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Como já foi anteriormente referido, ao efeito do impacto directo das gotas da chuva sobre a superfície do solo é denominado por «erosão por salpicamento». Na ausência de obstáculos, as gotas de água golpeiam o solo, desagregando as partículas terrosas e projectando-as no ar (vide capítulo 3.5. Erosão Hídrica). Em experiências de laboratório, foi observado que uma gota de 6mm de diâmetro, ao cair no solo de uma altura de 2m é capaz de elevar partículas até 0,6m e de projectálas até uma distância na ordem dos 1,5m (JIMENO, 1999). Este poder erosivo da chuva, por salpicadura, é em função: • • Da intensidade da precipitação; Do volume de precipitação que consegue causar este tipo de erosão, ou seja, o volume de água que consegue alcançar directamente o solo; • Da energia cinética que a gota de água alcança, e varia com o tamanho da gota e da velocidade terminal aquando do impacto no solo. Na figura seguinte é possível observar a variação da velocidade terminal de queda de uma gota de água ( e consequentemente da energia cinética), em função do diâmetro da gota.

Figura 8.6. Variação da velocidade terminal de queda de uma gota de água em função do diâmetro da gota.
Fonte: JIMENO, 1999

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A cobertura vegetal reduz a intensidade deste efeito, já que modifica as características da precipitação: • A vegetação forma uma cobertura protectora que evita o impacto directo da chuva no solo; • Ao atrasar a água no solo, consegue diminuir localmente a intensidade da precipitação; • Ao interceptar a chuva, a vegetação consegue dissipar e reduzir a energia cinética das gotas de água, travando a sua queda. A extensão e a eficácia da protecção proporcionada pela vegetação depende da sua

altura, do seu grau de cobertura e das suas características morfológicas.
A altura da vegetação determina a altura da queda das gotas de água que foram interceptadas e que são libertadas pelo gotejamento das plantas. Desta forma, quanto maior for a altura da planta maior será a energia cinética imprimida à gota de água e consequentemente, maior será a força do impacto desta no solo (e, logicamente, maior o seu potencial erosivo). Desta forma, as herbáceas, por possuírem alturas reduzidas, proporcionam velocidades de queda inferiores às árvores e outras plantas com portes superiores. STYCZEN Y HΦGH-SCHMIDT (1988), em estudos realizados para aferir o potencial erosivo da água por salpicadura, chegaram ao gráfico da figura 8.7, onde correlacionam a variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função da altura da vegetação (H), para diferentes intensidades de precipitação (I).

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Figura 8.7. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função da altura da vegetação (H), para diferentes intensidades de precipitação (mm/h).
Fonte: Styczen y HΦgh-Schmidt, 1988

O grau de cobertura do solo, determina a superfície deste, que se encontra protegido pela vegetação do impacto directo das gotas de água. Os mesmos autores definem como protecção máxima, coberturas superiores a 70%. O gráfico da figura 8.8 evidencia a variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do grau de cobertura (S), a alturas diferentes da vegetação (H).

Figura 8.8. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do grau de cobertura (S), a alturas diferentes da vegetação (H). Diâmetro de gotas de 5 mm.
Fonte: Styczen y HΦgh-Schmidt, 1988

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As características morfológicas das plantas, principalmente no que se refere ao tipo de folha e estrutura da ramagem, determinam a quantidade de água interceptada que chega ao solo por gotejamento, bem como o seu tamanho, e ainda, o tempo de armazenamento da água na sua estrutura. Atendendo ao que foi anteriormente referido, é possível elaborar um gráfico (figura 8.9) onde correlacione o coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do tamanho da gota (δ) e da altura de queda (H).

Figura 8.9. Variação do coeficiente de erosão por salpicadura (CS) em função do tamanho da gota (δ), para diferentes alturas de vegetação (H) e diferentes intensidades de precipitação (I). δ
Fonte: Styczen y HΦgh-Schmidt, 1988

RICKSON e MORGAN (1988), elaboraram um gráfico, ilustrado na figura 8.10, onde correlacionam a perda do solo com a percentagem de cobertura do mesmo, e em função da altura da vegetação. No gráfico pode-se observar, que para uma cobertura vegetal rente ao solo ou até 0,3m, não existe perda de solo significativa derivado do gotejamento dessas plantas, o que indica que não existe energia cinética suficiente para que a erosão aconteça. Ainda se pode observar que a perda de solo decresce exponencialmente com o incremento do grau de cobertura. Para as restantes alturas, a perda de solo decresce linearmente com o aumento do grau de cobertura e aumenta proporcionalmente com o aumento da altura das plantas.

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Figura 8.10. Variação da perda do solo em função do grau de cobertura do mesmo e da altura da vegetação que o cobre.
Fonte: RICKSON e MORGAN, 1988

É notório neste gráfico, a influência da estrutura da folha para a perda de solo: para plantas cujas folhas são planas e largas (*), existe um incremento significativo da perda de solo, mesmo para alturas reduzidas.

8.4.2.2. PROTECÇÃO CONTRA A ESCORRÊNCIA SUPERFICIAL
A vegetação diminui o poder erosivo da escorrência ao modificar dois dos factores principais dos quais esta é função: diminui a quantidade de água de escorrência generalizada e reduz a sua velocidade. A redução do volume de escorrência superficial é o resultado da combinação de vários factores: • • Intercepção e evaporação de parte da precipitação recebida; Transpiração das plantas, levando a uma diminuição da humidade do solo, permitindo-lhes mais capacidade de retenção aquando da precipitação; • Grande capacidade de absorção de água da cobertura vegetal que se encontra junto ao solo; O aumento da rugosidade da superfície, obriga a água de escorrência a repetidas modificações de direcção, diminuindo-lhe assim a velocidade.

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Para se poder ter uma ideia da importância da vegetação na velocidade de escorrência, JIMENO (1999) afirma que em zonas urbanas, a escorrência superficial pode atingir os 70% da precipitação recebida. Em áreas cultivadas, este valor decresce para 30 – 40% e em terrenos cuja cobertura vegetal é contínua e densa, independentemente de ser do tipo herbácea ou do tipo arbóreo, o valor diminui para valores abaixo dos 20%, podendo mesmo atingir os 10%.

8.4.2.3. PROTECÇÃO DO SOLO PELAS PLANTAS
As raízes das plantas retêm as partículas do solo, evitando o seu deslocamento face aos movimentos induzidos pela gravidade, pelo impacto das gotas de chuva, pelas águas de escorrência e pelo vento. As plantas mais eficazes para esta função são as que reúnem as seguintes qualidades:

Resistência – Capacidade para suportar o impacto de materiais sem que estes
lhes causem danos e com a flexibilidade suficiente para que os seus ramos e troncos se dobrem sem partir;

Ramificação desenvolvida desde a base, para oferecer mais superfície
normal à trajectória de queda dos materiais e assim maximizar o efeito de retenção;

Tolerância ao enterramento – capacidade de produzir novas raízes desde os
galhos enterrados, e assim desenvolver um novo sistema de raízes sobre a nova superfície de solo criada. Para segurar os taludes de solos, são mais eficazes as plantas possuidoras de um sistema de raízes pequeno, radial e estendido horizontalmente. As plantas como árvores e arbustos altos são mais propícios para segurar superfícies instáveis, que ocorrem no material rochoso. Diversos autores desenvolveram estudos no sentido de perceber qual a influência das raízes das plantas no aumento de coesão dos solos. A tabela seguinte é o resultado desses estudos, compilados por O´Loughlin e Ziemer.

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Tabela 8.4. Valores típicos do incremento da coesão do solo (C) devido à acção das raízes (O’LOUGHLIN E ZIEMER, 1982).
Fonte: Jimeno, 1999

Autor
Swaston (1970) O’Loughlin (1974) Endo e Tsuruta (1969) Wu e tal. (1981) Waldron et al. (1981) O’Loughlin e Ziemer (1982) Gay e Megaham (1981) Riestenberg, Savonick e Dunford (1983)

Solo/Vegetação
Coníferas de montanha sobre moreias Coníferas de montanha sobre moreias Plantas de viveiro sobre aluviões Coníferas de montanha sobre moreias Pinheiros sobre solos argilosos Bosque perenofólio misto, sobre solos desenvolvidos em moreias Coníferas em solos arenosos Ácer em solos de coluvião argilosos

C (kN/m2)
3,4 – 4,4 1–3 2 – 12 5,9 5 3,3 10,3 5,7 3 – 17,5 3 -5

Borroughs e Thomas (1977) Coníferas em solos de montanha Pasto semeado em blocos de cimento Barker e Hewlett (1986) cobertos com solo argiloso reforçado com uma estrutura celular

Segundo JIMENO (1999), a relação entre a densidade de vegetação e consequente densidade de enraizamento, e o aumento da coesão dos solos não é linear, podendo mesmo aumentar exponencialmente.

8.5. TÉCNICAS DE BIOENGENHARIA
As técnicas de Bioengenharia são baseadas no aproveitamento dos conhecimentos biológicos e em particular, botânicos para a implementação de medidas de protecção e estabilização de estruturas variadas como taludes, estruturas hidráulicas, bancos de rios, entre outras e ainda, utilizando as características dos materiais de modo que as intervenções fiquem enquadrados na paisagem. A sua principal característica é a utilização de plantas e de materiais vegetais que, quando empregues, com ou sem a incorporação de materiais inertes nesses trabalhos, consigam atingir a estabilização dos terrenos. Estas técnicas não são um substituto, mas sim, deverão ser consideradas como complementos aos trabalhos mecânicos realizados pela engenharia convencional (KRUEDENER, 1951).

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É necessário ter em conta a escolha do método e do tipo de construção, para que se possa realizar uma escolha criteriosa do tipo de espécies a utilizar. O cronograma de trabalhos também deve ser bem elaborado de modo a que permita uma optimização dos trabalhos de plantação durante o período específico para tal. Desta forma, as condições mais importantes para estas escolhas são:

Objectivo dos trabalhos: A necessidade mais imediata dos trabalhos é sem
dúvida a estabilização do talude em causa. Em segundo plano, em termos de curto prazo, o sucesso da plantação colocada é o ponto a ter em conta, e por fim, mas não menos importante, os custos do trabalho de execução e de manutenção;

Efeitos Técnicos: A protecção dos taludes erodíveis através de um eficiente
plano de plantação e consequente cobertura correcta da superfície;

Ecologia do local: O local em causa condiciona a escolha das plantas, e que
por sua vez, mas não só, condiciona o tipo de trabalhos a desenvolver;

Disponibilidade dos materiais de construção: Claro que é preciso ter em
consideração se os materiais com que se pretende realizar os trabalhos se encontram disponíveis;

Época do Ano: Os métodos em que a plantação é um factor determinante, é
necessário ter em consideração a época do ano em que esta se irá realizar. A utilização da vegetação nestes trabalhos deverá ter em consideração alguns aspectos essenciais:

Tipo de trabalho: taludes, aterros, etc.; Dimensões do talude: altura, comprimento, inclinação; Forma do talude: uniforme, convexo, côncavo, em degraus; Tipo de solo: coesivo, não coesivo; Existência de água; Características das plantas a colocar: tipo, forma, distribuição.
Estes aspectos poderão ser visualizados no esquema seguinte (figura 8.11), o qual permite, de uma forma simples, a selecção apropriada do tipo de método de construção, de acordo com o tipo de talude e as estratégias a adoptar nele.

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Criação de Aterros / Taludes

Reabilitação de escorregamentos

Drenagem

Talude Estável FS > 1.15

Talude Marginalmente Estável 1.0 < FS < 1.15

Talude Instável FS < 1.0

Métodos de Protecção e.g. sementeira

Métodos de Estabilização

Métodos combinados com estruturas de contenção

Métodos de drenagem vegetativa combinados com trabalhos de ordem mecânica

Figura 8.11. Estabilização de taludes e técnicas de bioengenharia.
Fonte: KUONEN, 1983

SHIECHTL (1973) classificou as técnicas de bioengenharia em quatro grupos:

Técnicas de protecção do solo: são técnicas que a partir da acção da cobertura do
solo, o vão proteger rapidamente da erosão superficial e da meteorização. Estas técnicas melhoram a capacidade da água e promovem a actividade biológica do solo. A cobertura com palha promove a protecção do solo da precipitação, mesmo antes da vegetação o conseguir fazer por si só;

Técnicas de contenção do solo: são desenvolvidas para reduzir ou eliminar as
forças mecânicas disturbadoras. Estas técnicas estabilizam e seguram taludes em risco de escorregamento através da penetração das raízes, decréscimo da pressão intersticial através da transpiração e promoção da drenagem. São geralmente utilizadas como complemento às técnicas de protecção do solo com o intuito de evitar a erosão;

Técnicas de construção combinadas: nestas técnicas, combinam-se o uso de
vegetação com materiais inertes (pedra, betão, madeira, aço, plástico, etc.) de modo a aumentar a eficiência das medidas aplicadas;

Técnicas de construção suplementares: técnicas de plantação e sementeira.
Servem para garantir uma segura transição entre o estágio de construção e o projecto final.

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A estabilidade de taludes

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8.6.

ESTABILIZAÇÃO

RECORRENDO

A

ELEMENTOS

RESISTENTES

(MÉTODOS

COMPLEMENTARES)

8.6.1. INTRODUÇÃO
Os sistemas de reforço são cada vez mais utilizados em situações em que não existe a possibilidade de utilizar outros sistemas, ou porque existem problemas de espaço ou porque existem dificuldades em realizar a expropriação dos terrenos afectados pelas obras.

8.6.2. MALHAS GUIA
A fixação de malhas e redes metálicas na superfície de taludes, permite a imobilização ou o amortecimento do deslizamento dos materiais procedentes da decomposição do substrato e contribui para a consolidação definitiva do talude, favorecendo ainda a colonização vegetal. Entre outras, as vantagens de se utilizar este método são: • Não requerem espaço para a sua instalação, pelo que não é necessário realizar obras de escavação ou ocupar terrenos para o depósito de terras; • Como consequência directa do ponto anterior, não existe o risco potencial de queda de material, pelo que este tipo de risco diminui; • • Permite uma actuação directa sobre o talude; É uma solução económica e que não implica grandes riscos aquando da sua aplicação e ainda permite uma rápida intervenção no talude; • Permite a revegetação do talude, minimizando desta forma os impactes visuais da sua aplicação; • Permite o uso da hidrossementeira que, para taludes de pequenas dimensões e declives na ordem dos 2V:3H evitam com grande eficácia os processos erosivos.

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A estabilidade de taludes 8.6.3. MUROS 8.6.3.1. GENERALIDADES

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Os muros empregam-se frequentemente como elementos resistentes em taludes. São usados em ocasiões de potenciais deslizamentos, ou até mesmo em deslizamentos já existentes, sendo introduzidos como elemento de contenção do pé. Esta forma de actuar pode ter vários inconvenientes: em primeiro lugar, a construção do muro exige uma certa escavação no pé do talude, o que favorece a instabilidade até que o muro esteja completamente instalado. Por outro lado, o muro pode são ser capaz de evitar possíveis deslizamentos, por cima ou por baixo dele próprio. Uma contenção só pode suster um comprimento determinado de deslizamento já que em caso contrário, este excede o muro. Posto isto, pode ser mais apropriado em taludes com sinais evidentes de instabilidade realizar o muro com o objectivo de reter um enchimento estabilizador. Em desmontes e terraplenagens em que há falta de espaço, impondo taludes quase verticais, o uso de muros pode ser quase obrigatório. Este é um caso frequente na construção de vias de transporte. Em geral, a construção de um muro é uma operação cara e apesar disso, os muros empregam-se com frequência pois são em muitos casos a única solução viável. As principais vantagens da utilização deste tipo de estruturas são: • Redução dos custos de fabricação dos elementos, podendo ser fabricados em série; • • • Redução dos custos de instalação, maquinaria e pessoal; Melhoria da qualidade da obra; Redução do impacte ambiental já que se pode ajustar o desenho da obra ao encontro da topografia que existe, permitindo um melhor enquadramento e uma mais fácil revegetação.

134

A estabilidade de taludes
Os muros podem classificar-se em três grupos:

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Muros de revestimento: Têm como função proteger o terreno da erosão e
meteorização além de proporcionarem um peso estabilizador.

Muros de sustimento: Constroem-se separados do terreno natural e enchemse posteriormente.

Muros de contenção: Geralmente são escavados e constroem-se para conter
um terreno que sem a acção do muro seria provavelmente instável.

Figura 8.12. Classificação dos muros do ponto de vista funcional: a) Revestimento, b) Sustimento, c) Contenção.
Fonte: Modificada de Jiménez Salas et al., 1976

Na altura de projectar um muro têm de se determinar as cargas a que vai ser submetido e a sua distribuição, o que permitirá dimensionar uma estrutura capaz de lhes resistir. Num caso típico é necessário conhecer: • • A estabilidade geral do sistema muro-terreno em relação ao deslizamento; Se a estabilidade geral do muro inclui a estabilidade à queda e ao deslizamento; • • A resistência do terreno às fundações; A resistência estrutural. Deve comprovar-se que as tensões máximas no muro não ultrapassam as admissíveis.

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A estabilidade de taludes 8.6.3.2. MUROS DE GRAVIDADE

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É o tipo de muro mais antigo. São elementos passivos, em que o seu peso próprio é a acção estabilizadora fundamental. Na maior parte dos casos são feitos de betão, no entanto existem muros de gravidade de pouca altura, construídos com ladrilhos ou alvenaria. Não é comum empregar estes muros com alturas superiores a 10m. Um dos inconvenientes dos muros de gravidade, é o facto do seu peso, fundamental para a estabilidade, ser limitado pela resistência das fundações, o que é muito importante se o material for do tipo argiloso. Estes muros só podem empregar-se para prevenir ou deter o deslizamento de pequenas dimensões. São inadequados para grandes deslizamentos ou para aqueles em que não é possível a escavação. Como principais vantagens apresentam a sua facilidade construtiva e o baixo custo que apresentam no caso de muros de pouca altura. Neste caso, podem ser muito úteis se o terreno onde vão assentar as fundações for aceitável e não forem excessivas as cargas provenientes do terreno. Para melhorar a estabilidade do muro é usual dar-se uma pequena inclinação na parte frontal. No entanto se a inclinação for excessiva perde-se em parte a principal vantagem do muro, que é o ganho de espaço.

Figura 8.13. Ilustração de um muro de gravidade.
Fonte: ITGE, 1991

No caso extremo em que a inclinação do muro corresponde à da face livre do talude, o muro passa a actuar apenas como revestimento. Este tipo de muro apresenta como inconvenientes a perda de espaço e uma maior dificuldade de construção.

136

A estabilidade de taludes

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No que respeita às fundações do muro no solo, têm de ser capazes de resistir às cargas verticais a que o muro vai ser submetido, sendo também importante conseguir uma adequada resistência ao deslizamento entre a base do muro e o terreno das fundações. Esta resistência melhora com uma pequena inclinação da base em relação ao talude.

Figura 8.14. Muro de gravidade com função de revestimento.
Fonte: ITGE, 1991

8.6.3.3. MUROS DE ATENUAÇÃO
São muros, em betão armado, em que a parede vertical actua como uma viga em flexão contrariando o momento de carga do terreno, principalmente pelo momento estabilizador das terras situadas sobre a base. Na sua construção é usado menos betão do que nos anteriores. Existem dois tipos fundamentais de muros de atenuação:

Muros em L
A pressão sobre as fundações é menor do que nos muros de gravidade, pelo que são indicados quando os terrenos das fundações são maus. Podem apresentar contrafortes interiores e menos frequentemente exteriores. Os momentos flectores máximos produzem-se na parede vertical. Para grandes alturas, a magnitude dos momentos a que são submetidos pode tornar conveniente o emprego dos contrafortes. Os esforços sobre cada uma das partes do muro são calculados supondo um comportamento das vigas sem apoio.

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A estabilidade de taludes

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Figura 8.15. Muro de betão armado.
Fonte: Santamaría Arias et a1.,1997

Muros com contrafortes
Os contrafortes podem dispor-se tanto na face interior como na exterior. No primeiro caso, o que se faz é atenuar o muro de gravidade suprimindo betão das zonas que por se encontrarem mais perto do pé, colaboram pouco no efeito estabilizador. No segundo caso, trata-se mesmo de um muro em L reforçado, com contrafortes interiores.

Figura 8.16. Muro com contraforte.
Fonte: Santamaría Arias et a1.,1997

8.6.3.4. MUROS JAULA
Consistem numa trama resistente em forma de jaula que é enchida com solo granular, preferencialmente compactado. As armações ou jaulas são compostas por vigas longitudinais ou corridas e vigas transversais ou travessas. Em alguns casos fechamse as aberturas entre os corredores convertendo a face do muro numa superfície plana. A estabilidade de um muro jaula é fundamentalmente proporcionada pelo seu peso próprio, tal como nos muros de gravidade.

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A estabilidade de taludes

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São adequados para alturas moderadas, não superiores a 7m. A largura do muro é geralmente compreendida entre a altura e metade desta. O seu uso é frequente como medida correctiva de taludes nos quais se produziram movimentos significativos, dada a sua rápida montagem. As suas principais vantagens em relação aos muros de betão são a sua fácil e rápida montagem, a sua capacidade de adaptação nos assentamentos que se podem produzir no terreno e o facto de poderem começar a actuar imediatamente após a sua construção. Por outro lado, a sua facilidade de manuseamento e montagem permite a sua ampliação, redução e troca de local. No caso do enchimento interior ser feito com material permeável e as aberturas da face não forem fechadas, garante-se a acção drenante sem se dispor de dispositivos especiais. A jaula é construída com peças de madeira, blocos pré-fabricados de betão armado ou peças metálicas de aço ou alumínio.

Figura 8.17. Esqueleto de um muro jaula composto por vigas de madeira longitudinais e transversais.
Fonte: Santamaría Arias et al., 1997

8.6.3.5. MUROS DE GABIÕES
Os gabiões são elementos com forma de prisma rectangular. O muro de gabiões consiste num enchimento granular constituído por fragmentos de rocha não degradável, retida por uma rede metálica. Têm uma construção simples, a qual consiste em encaixar os gabiões uns nos outros de modo a formar o muro (figura 8.18). Este tipo de muros trabalha essencialmente através da força da gravidade e da força de atrito.

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A estabilidade de taludes

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Foto 8.18. Muro de gabiões.
Fonte: López Jimeno, C., 1998

As principais vantagens são: a sua instalação rápida e simples, o facto de serem estruturas flexíveis que admitem assentamentos diferenciais do terreno e não apresentam problemas de drenagem devido à sua grande permeabilidade. A sua facilidade de montagem permite colocar uma nova fila de gabiões para reforçar um muro no qual se notem sinais de instabilidade. A construção deste tipo de muro é feita de forma escalonada em relação à face interior ou à exterior (figura 8.19).

Figura 8.19. À esquerda muro de gabiões com degraus para o exterior, à direita muro de gabiões com degraus para o interior do talude.
Fonte: Ana Paula Carreira, 2004

A construção escalonada relativamente à face exterior utiliza-se quando existe uma inclinação entre o muro e o terreno, o que permite reduzir a largura do muro. Os muros de gabiões são usados na contenção de taludes argilosos, sendo geralmente conveniente o uso de contrafortes, que devem penetrar no terreno de forma a ultrapassar a superfície de deslizamento em pelo menos o comprimento de um gabião (entre 2 e 4m). O espaçamento entre contrafortes varia entre 4 e 9m e a sua função é tanto de drenagem como estrutural.

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A estabilidade de taludes

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O enchimento dos gabiões pode ser de granito, caliça, quartzito ou betão. Os arames que constituem a malha metálica devem ser galvanizados, e no caso de serem sujeitos a condições extremas que favoreçam a corrosão, devem ser revestidos de plásticos.

8.6.3.6. MUROS DE TERRA ARMADA
A terra armada é um procedimento que consiste em reforçar um muro por meio de bandas de material pré-fabricado, normalmente metálico. Estas bandas são ancoradas à parede e dispõem-se perpendicularmente a esta. O atrito entre as bandas e o solo proporciona a estabilidade do conjunto. As principais vantagens que estes muros apresentam são: • • Construção fácil e rápida; Custo frequentemente inferior em relação aos sistemas alternativos (entre 20 a 50% menos); • • Não têm limitações práticas em comprimento ou altura; A sua construção é particularmente apropriada em terrenos com má cimentação devido a transmitirem tensões relativamente pequenas à cimentação e além de serem muito flexíveis adaptam-se facilmente aos assentamentos diferenciais. O projecto de um muro de terra armada tem de ter em conta os seguintes requisitos básicos: • Tem de existir atrito suficiente entre o solo e as bandas de reforço de modo a evitar o deslizamento entre ambos, o que iria provocar a ruptura do muro; • As bandas de reforço têm que ter secção suficiente para resistirem aos elevados esforços de tracção a que irão ser submetidas. O atrito entre as bandas e o solo pode ser melhorado dando maior rugosidade à superfície das bandas, embora o factor fundamental na obtenção de fricção suficiente seja o comprimento das bandas, sendo geralmente suficiente um comprimento entre 0,8 e 1,2 vezes a altura do muro.

141

A estabilidade de taludes 8.6.3.7. ENCHIMENTO POSTERIOR AO MURO

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Nos muros de sustimento, o tipo de enchimento utilizado para ocupar o espaço entre a face interior e o terreno natural, influi sobre a força de carga que se desenvolve sobre o muro. Os solos de grão fino podem produzir grandes esforços, principalmente por variações de volume devido ao grau de humidade. Além disso, é possível que se abram fendas no material de enchimento pelas quais irá penetrar a água da chuva produzindo pressões intersticiais de grande magnitude e difíceis de dissipar. É frequente compactar o enchimento para evitar os assentamentos. No entanto, em muros com pouca deformação lateral a compactação pode aumentar os esforços, especialmente em muros de pouca altura, pelo que nestes casos, o enchimento não se compacta a não ser que seja imprescindível.

8.7. OUTROS SISTEMAS
À parte dos sistemas atrás descritos, ainda existem uma panóplia de sistemas que poderão ser utilizados na contenção e/ou estabilização de taludes de solos. De entre eles, destacam-se: • • • • • Cortinas de Estacas; Muros Cortina; Pregagens; Ancoragens; Geossintéticos.

Não menosprezando os sistemas referidos neste ponto, os geossintéticos merecem especial referência devida às (quase) ilimitadas aplicações que possuem nas obras de engenharia. Os geossintéticos são materiais poliméricos, cujas aplicações vão desde as áreas da geotecnia, área ambiental, vias de comunicação até à engenharia hidráulica. KOERMER (1998) distinguiu seis grandes tipos de geossintéticos, tendo ainda definido as principais funções dos mesmos. Essa classificação encontra-se ilustrada na tabela a seguir indicada.
142

A estabilidade de taludes

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Tabela 8.5. Principais funções dos geossintéticos.
Fonte: KOERMER., 1998

Função Tipo Separação Reforço Filtragem Drenagem Contenção Geotêxteis Geogrelhas Georredes Geomembranas Geossintéticos Bentoníticos Geocompósitos
Variável X X X X X X X X

É de esperar, dadas as possibilidades de aplicação deste tipo de contenção/suporte dos materiais referidos, haja num futuro próximo, intensificação da utilização de geossintéticos em obras de engenharia.

143

144

TERCEIRA PARTE – CASO DE ESTUDO

145

Caso de Estudo

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9. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DO CASO DE ESTUDO 9.1. CARACTERIZAÇÃO GEOMORFOLÓGICA
No estudo “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na ferrovia, incluindo Telegestão”, (Centro de Geotecnia do IST, 2005), a região de Santarém foi caracterizada sob diversos parâmetros, de modo a ser possível obter os Mapas de Risco Geotécnico. A figura seguinte evidência a área em estudo, onde se pode ver ainda os onze sectores que foram definidos para melhor caracterizar a área.

N

Figura 9.1. Aspecto geral da área em estudo.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

As principais conclusões dessa caracterização encontram-se descritos nos pontos seguintes. Santarém situa-se na Bacia Terciária do Tejo, na margem direita do rio, no topo de um planalto marginado por vertentes que atingem os 95 metros de altura, recortadas pela incisão fluvial. 146

Caso de Estudo

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O relevo apresenta uma morfologia do tipo “mesa” originada pela superfície estrutural da unidade calcária que se localiza no seu topo. A cotas elevadas, os taludes encontram-se escarpados e quase verticais na parte superior, enquanto que, a cotas inferiores a 90 metros aproximadamente, os declives vão progressivamente diminuindo (embora com inclinações da ordem dos 35º a 45º na zona das Portas do Sol), tornando-se o perfil côncavo junto aos sopés dos taludes. Este perfil dos taludes resulta do contraste de resistência entre o “cap-rock” calcário e os solos brandos subjacentes. Assim, e como seria de esperar, na parte inferior da vertente, os solos arenosos e argilosos produzem um perfil de declive muito mais baixo do que a rocha calcária dura. (Coelho, 2001) Na parte superior, o “cap-rock” calcário, protege directamente os materiais brandos subjacentes, porque o recuo da bancada resistente é muito mais lento do que o destes materiais. É necessário que os materiais brandos da zona superior do talude, sob o “cap-rock” calcário resistente, sofram repetidos deslizamentos para que se produza a subescavação e desmoronamento da escarpa rochosa. Quando a escarpa se desmorona, fragmenta-se em blocos que devido à forte inclinação do talude, são rapidamente removidos por gravidade e por acção do escoamento superficial. Dá-se assim, a longo prazo, um recuo da escarpa calcária e da parte superior das encostas e a acumulação de depósitos de vertente na base da encosta, constituídos pelos materiais escorregados ou transportados pelo escoamento superficial. (Coelho, 2001) Esta morfologia de erosão dever-se-á ter desenvolvido no decurso da descida de nível de base correlativa da glaciação Würm, que, no final do Quaternário, retomou a instalação da rede de drenagem actual e originou o entalhe rápido do Tejo e das linhas de água afluentes. A erosão ravinosa e o consequente recuo das cabeceiras das linhas de água, penetraram na capa rochosa calcária provocando a dissecação das vertentes e originando interflúvios isolados do topo plano, sobranceiros à planície aluvial do Tejo, caso das Portas do Sol. (Coelho, 2001) Um factor geologicamente recente desta evolução, foi, certamente, a erosão lateral e consequente, a erosão do sopé das encostas pelo Rio Tejo, nomeadamente na zona das Portas do Sol, situada no ponto de máxima curvatura do trajecto côncavo do rio, onde a acção erosiva durante as cheias era mais intensa.

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Esta acção erosiva do rio cessou quando os aterros marginais, construídos desde o século XIX para a protecção do caminho-de-ferro, passaram também a proteger o sopé da encosta. (Coelho, 2001).

9.2. CARACTERIZAÇÃO GEOLÓGICA
A área em questão situa-se no vale inferior do Rio Tejo, na margem direita, e enquadra-se geologicamente na bacia sedimentar do baixo Tejo, a qual corresponde a uma depressão tectónica complexa, alongada na direcção NE-SW, que sofreu subsidência ao longo do Cenozóico. Em termos geológicos, corresponde a formações do Pliocénico na sua maior extensão e a formações do Miocénico, situadas apenas na zona sul da área. As principais formações ocorrentes na área em análise são as seguintes: • “Calcários de Santarém” (P2) – esta formação encontra-se no topo dos relevos mais elevados, com cotas que rondam os 90 metros. É constituída por calcário lacustre branco, com alguns metros de espessura. Estes taludes calcários encontram-se escarpados e quase verticais na parte superior. Estes calcários encontram-se muito fracturados e fissurados, com vazios de dissolução, o que lhes confere uma grande permeabilidade, permitindo a alimentação e a circulação de água a partir da superfície. • “Grés e argilas com vegetais de Nossa Senhora da Saúde e de Vale de Santarém” (P1) – esta formação é constituída por intercalações de complexos areno-siltosos, Os complexos complexos desta essencialmente exibem arenosos uma com areias de granulometria diversa e complexos de natureza essencialmente siltosa. formação estrutura regularmente estratificada, com variações laterais de composição e de espessura, como é típico dos depósitos continentais, lacustres e fluviais. A estratificação é horizontal, ou quase horizontal com ligeira inclinação (2 a 3º) para Sudeste. Os complexos essencialmente arenosos por apresentarem permeabilidades altas, formam aquíferos múltiplos, suspensos nas intercalações dos complexos de natureza siltosa de baixa permeabilidade. Foi possível distinguir três níveis aquíferos mais importantes. A alimentação destes aquíferos faz-se quer através dos afloramentos da vertente quer pela infiltração dos níveis superiores. 148

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“Calcários, grés e argilas com Hipparion gracile de Azambujeira” (M5) – esta formação miocénica corresponde a rochas de fácies variável. Desenvolve-se principalmente em cotas mais elevadas, apenas na zona sul da área em estudo. “Calcários, grés e argilas com vertebrados de Quinta do Marmelal e camadas com Crassostrea crassíssima do Calhariz e de Alcanhões” (M4) – esta formação é constituída essencialmente por uma alternância de complexos detríticos de natureza areno-siltosa, arenosa e de natureza siltosa com algumas fracções argilosas.

9.3. CARACTERIZAÇÃO TECTÓNICA
De acordo com Cabral (1993), a região de Santarém situa-se no vale inferior do Rio Tejo e enquadra-se geologicamente na bacia sedimentar do baixo Tejo, a qual corresponde a uma depressão tectónica complexa, alongada na direcção NE-SW, que sofreu subsidência ao longo do Cenozóico. A evolução da bacia sedimentar ao longo do Cenozóico foi condicionada por importantes acidentes tectónicos encontrando-se alguns deles – provavelmente os principais – ainda mal caracterizados devido ao seu carácter profundo, não aflorante, em resultado da subsidência e da sedimentação concomitante (Cabral, 1993). Segundo Cabral (1993), a ocorrência de actividade tectónica no interior da bacia do Tejo ao longo do Quaternário, mesmo actualmente, como o testemunha uma importante sismicidade regional, é controlada por estruturas geológicas profundas, de que se destaca um acidente tectónico provável, referenciado em numerosa bibliografia como o lineamento ou falha do vale inferior do Tejo (ou falha do Tejo). Esta, corresponde a uma estrutura provável de orientação N30ºE, seguida aproximadamente pelo traçado do rio Tejo no seu troço compreendido entre Vila Nova da Barquinha e o Barreiro. Quanto à região de Santarém, as formações terciárias apresentam de grande horizontalidade. No entanto, devem-se mencionar algumas excepções relacionadas com a presença de falhas e de desligamentos. (Zbyszewski, 1953)

149

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Das falhas de orientação NNE-SSW, conhecidas na região de Azambuja e de Vila Franca de Xira, apenas uma foi observada nas proximidades de Vale da Pinta. (Zbyszewski, 1953) Os acidentes de direcção NNW-SSE são mais frequentes, originando duas famílias principais de fracturas. A primeira, a mais importante, estende-se entre Azambujeira, Almoster, Fonte Boa e Vale de Santarém. A segunda, foi observada entre Pontével e Setil. (Zbyszewski, 1953) No entanto, na área em estudo entre Santarém e Vale de Santarém, não há a evidências de acidentes tectónicos.

9.4. CARACTERIZAÇÃO CLIMATOLÓGICA
A análise climatológica da região de Santarém baseou-se em dados de precipitação e temperatura disponibilizados pelo Instituto Meteorológico, referentes às estações de Santarém e de Almeirim. • Em relação à precipitação, foi possível constatar que não se encontra condicionada pela situação geográfica (latitude e longitude). No entanto, em relação à altitude nota-se uma certa influência, visto que os valores de precipitação média anual na Estação de Santarém (cota aos 54 m) são mais elevados do que na Estação de Almeirim, dado que esta estação se encontra a menor altitude (16 m). Assim, embora a Estação de Almeirim se encontre mais próxima do Rio Tejo, os seus valores são mais baixos do que os da Estação de Santarém devido à influência da altitude. Verificou-se que os anos de 1974 e 1992 são considerados anos secos e que o ano de 1980 foi um ano muito seco. Relativamente aos anos de precipitação máxima, correspondem aos anos de 1969, 1996 e 1997. Assim, para a região de Santarém o valor de precipitação média anual considerado é 705,75 mm/ano. Importa ainda referir que se verificou que nos últimos 30 anos houve um decréscimo nos valores de precipitação registados de cerca de 10%.

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Caso de Estudo

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Tabela 9.1. Características gerais da precipitação (em mm) na região de Santarém.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Valores Normais 1951-00
705,75

Valores extremos de precipitação
Máximo anual Mínimo anual mm 1226 Ano 1996 mm 371 Ano 1945 Máximo diário mm Dia-Mês-Ano 105 26 -11-1967

No que diz respeito à temperatura, admite-se para a zona de Santarém uma temperatura média anual de 16 ºC e uma amplitude térmica anual com valores de aproximadamente 13ºC. Pode-se considerar como período seco da estação em estudo, o período que começa a meados de Abril e se prolonga até meados de Setembro. Foi possível concluir que não ocorreu qualquer alteração significativa ao longo do tempo no que respeita à temperatura.

Quanto à evapotranspiração real, foi estimada pelo Método de Thornthwaite (balanço hídrico sequencial mensal) conhecendo os valores de capacidade de campo (100 mm), precipitação, evapotranspiração potencial e assumindo que no início do ano hidrológico (Outubro) a reserva útil de água no solo é zero. Assim, para a região de Santarém considera-se o valor de evapotranspiração real de 501,73 mm/ano.
Tabela 9.2. Tabela síntese dos valores médios obtidos para a região de Santarém.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Precipitação (mm/ano)
705,75

Temperatura (ºC)
16,0

Evapotranspiração real (mm/ano)
501,73

Percentagem de Infiltração
28,9%

9.5. CARACTERIZAÇÃO HIDROGEOLÓGICA
Tal como foi referido anteriormente, os taludes da área em estudo são constituídos por complexos sedimentares de composição arenítica intercalados com complexos de natureza argilosa. No topo dos taludes mais elevados, com cotas que rondam os 90 metros localiza-se a unidade calcária correspondente aos “Calcários de Santarém”.

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Estes calcários encontram-se muito fracturados e fissurados, com vazios de dissolução, o que lhes confere uma grande permeabilidade, permitindo a alimentação e a circulação de água a partir da superfície. Na série detrítica subjacente, as camadas arenosas mais permeáveis formam aquíferos múltiplos, suspensos nas intercalações argilosas de baixa permeabilidade. A alimentação destes aquíferos faz-se quer através dos afloramentos da vertente quer pela infiltração dos níveis superiores. De um modo geral, é possível afirmar que se tratam de aquíferos contínuos, devendo existir, no entanto, zonas de circulação preferenciais. (L.N.E.C., 1976) Existem ao longo dos taludes várias evidências da circulação de água no maciço, principalmente ressurgências localizadas acima das camadas argilosas, algumas com caudais quase permanentes, que aumentam significativamente durante e após os períodos de precipitação.

9.6. CARACTERIZAÇÃO GEOTÉCNICA
No estudo realizado, para melhor caracterização dos terrenos anexos à via férrea, foram os mesmos divididos em 11 sectores, em cada um dos quais se definiu o talude crítico, a partir do qual se procedeu à respectiva caracterização, incluindo a realização de ensaios geotécnicos de corte directo. Em síntese, a tabela 9.3. foi construída de acordo com os valores máximos, mínimos e médios obtidos em laboratório com ensaios de corte. Esta compilação de dados, teve ainda em consideração os valores obtidos pelas retroanálises efectuadas no estudo.
Tabela 9.3. Valores de coesão e ângulo de atrito adoptados para as três formações indicadas.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Coesão, c (kPa)
Mínimo Areias e arenitos Siltes e argilas Complexo areno – siltoso 1 18,5 11,5 Médio 14 33 23,5 Máximo 18 45 29

Ângulo de atrito, φ (º)
Mínimo 20 14,5 18 Médio 32 22 27 Máximo 34,5 24 29,5

152

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Para além das variáveis aleatórias c e φ, os taludes foram caracterizados pelos seguintes parâmetros: altura do talude, inclinação média do talude, peso volúmico do terreno, altura do nível freático, coesão média do terreno, ângulo de atrito médio do terreno, largura de infiltração no topo do talude, porosidade média do terreno, condutividade hidráulica, percentagem de infiltração e coeficiente de protecção atribuído aos muros anexos à via férrea. Estes parâmetros estão descritos na tabela seguinte.
Tabela 9. 4. Propriedades dos taludes críticos dos 11 sectores em que foi dividido a área em estudo.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Parâmetros 1
Altura do talude (m) Inclinação média do talude (º) Peso volúmico do terreno (kN/m3) Altura do nível freático (m) Coesão média do terreno (kPa) Ângulo de atrito médio (º) Largura de infiltração no talude (m) Porosidade média Condutividade hidráulica (m/s) Percentagem de infiltração (%) Coeficiente de protecção dos muros
61,6

Talude 2
58,7

3
24,1

4
43,2

5
35,8

6
30,0

7
84,4

8
87,7

9
82,7

10
39,0

11
39,4

24

27

26

23

23

21

30

23

36

21

23

17,5

17,5

16,4

16,4

16,4

18,5

18,5

18,5

18,5

17,5

17,5

30

48

20

31

31

25

68

31

31

31

31

23,5

23,5

33,0

33,0

14,0

14,0

14,0

14,0

30,0

23,5

23,5

27,0

27,0

22,0

22,0

32,0

32,0

32,0

32,0

32,0

27,0

27,0

123

164

204

71

92

51

110

51

32

54

19

46,7

46,7

47,6

47,6

47,6

45,8

45,8

45,8

45,8

46,7

46,7

1,80E

-7

1,80E

-7

8,30E

-8

8,30E

-8

8,30E

-8

3,50E

-7

3,50E

-7

3,50E

-7

3,50E

-7

1,80E

-7

1,80 E

-7

28

26

29

26

26

24

25

22,5

22

26

27

0,1

0,1

0,7

0,1

0,1

0,3

0,3

0,1

0,9

0,8

0,7

153

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10. ERODÍMETRO 10.1. GENERALIDADES
INDERBITZEN (1961) propôs um ensaio para determinar em laboratório a quantidade de solo erodido numa amostra com 152 mm de diâmetro, colocada numa rampa com inclinação conhecida, quando a sua superfície é exposta a um determinado escoamento. (in tese de MARCIO KOETZ, 2003). Desde então, vários autores, como FÁCIO e SANTOS, desenvolveram modificações ao aparelho original de Inderbitzen, definindo-o como o “Novo ensaio GES - grau de erodibilidade do solo”, tanto na confecção como na metodologia do próprio ensaio, de modo a haver um ganho considerável na rapidez do ensaio como na economia de água, sem qualquer comprometimento do resultado dos ensaios (ORLANDO CAMPOS et al e, ÉRICILIS FREIRE e LUCIMAR GALVÃO, 2002). FÁCIO (1991) projectou e construiu uma versão modificada do aparelho proposto por Inderbitzen que permite variações da declividade, do escoamento e no posicionamento da amostra, tornando o aparelho mais versátil. O equipamento teve alterações na largura da rampa, que passou de 1,00 m para 0,33 m; comprimento da rampa, que passou de 1,00 m para 1,30 m; e na redução do diâmetro das amostras, de 152 mm para 100 mm. A partir de uma série de ensaios com variações nos valores de escoamento, da declividade da rampa, do tempo de ensaio e de saturação da amostra, este autor propôs a realização do ensaio sob condições normalizadas, a seguir apresentadas: • • • • tempo de humedecimento = 15 min; escoamento = 50 mL s-1; declividade da rampa = 100; e tempo de ensaio = 20 min.

O humedecimento das amostras é realizado para minimizar as forças associadas à sucção presente na amostra no seu estado natural. O autor propõe ainda que os resultados dos ensaios sejam apresentados na forma de gráficos de perda acumulada de solo (g mm-2) versus tempo (min), o que facilita a análise dos resultados obtidos. SANTOS (1997) utilizou o equipamento desenvolvido por FÁCIO em 1991 para determinar os resultados de erodibilidade no município de Goiânia, Brasil. Visando 154

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melhorar a qualidade dos resultados obtidos foram feitas algumas modificações no aparelho utilizado por FÁCIO (1991). A rampa na qual ocorre o escoamento teve a sua largura reduzida para 100 mm, assegurando que todo o escoamento se processasse sobre a amostra e não ao seu lado. O tempo de ensaio foi aumentado para 30 min, para melhor se poder caracterizar o comportamento da perda de solo com o tempo. O material carreado pelo escoamento superficial é colectado em peneiras com 0,074 mm de abertura (#200 da ABNT), sendo depois seco em estufa e pesado. FRAGASSI (2001) realizou o estudo da erodibilidade de solos residuais de gnaisse da Serra de São Geraldo e de Viçosa, Minas Gerais, Brasil, utilizando o ensaio de Inderbitzen. O mesmo autor cita que a principal mudança no aparelho de Inderbitzen utilizado em relação ao de SANTOS (1997), está no diâmetro da amostra, que foi aumentada para 152 mm. ORLANDO CAMPOS, et al (2003), também desenvolveu uma versão de um novo aparelho de forma a atingir alguns objectivos específicos como: permitir a facilidade de uso e operação; apresentar custos mais reduzidos relativamente ao ensaio original; permitir a utilização de materiais de fácil aquisição; e permitir a resolução de alguns problemas existentes em versões convencionais como a concentração do fluxo na rampa de descida da água ou a liberdade de utilização de inclinações de rampa aleatórias. No Centro de Geotecnia do IST, em 2004, foi desenvolvido um novo equipamento, utilizado na presente dissertação, cuja descrição se encontra no capítulo seguinte.

10.2. DESCRIÇÃO DO APARELHO E DO ENSAIO
O equipamento utilizado para a realização dos ensaios foi o Erodímetro, aparelho composto por (ver figura 10.1) dois dispositivos uma calha com aproximadamente 1m de comprimento e 0,18m de largura, fixa sobre um tampo basculante, em que no seu fim possui um amostrador com uma profundidade de 4cm e uma área de 0,15m x 0.13m, onde é colocado o provete em ensaio. Como se pode observar na mesma figura, existem dois pontos distintos de distribuição de água: • Um, consta de uma caixa de fundo perfurado e com área equivalente à da superfície livre do provete, que lança gotas de água directamente sobre o mesmo, de modo a criar o efeito dos pingos de chuva; 155

Caso de Estudo

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O outro, consta de um tubo perfurado (8 furos) que lança água no topo superior da rampa (calha). A água escorre ao longo da calha em regime laminar, graças às tiras de acrílico colocadas longitudinalmente na mesma.

Uma vez que a plataforma onde se encontra a amostra é basculante, é possível realizar ensaios de erodibilidade para diferentes inclinações. Foi instalada uma bomba de água submersível e um sistema de depósitos de água, com capacidade de 50 litros cada, em diferentes alturas, por forma a garantir a reutilização da água, (após três estágios de decantação) sem contaminações do solo arrastado. O caudal da água é controlado por um sistema de torneiras, garantindo desta forma um caudal fixo e constante ao longo do ensaio: • • A torneira azul controla o caudal global do ensaio; As torneiras encarnadas controlam o caudal que é dirigido para a calha (escoamento laminar) e para a caixa perfurada (efeito das gotas da chuva). O ensaio de erodibilidade consistiu, fundamentalmente, em sujeitar a superfície livre do solo em ensaio a impactos de gotas de água e, simultaneamente, ao galgamento dessa mesma superfície por uma lâmina de água escorrente ao longo da plataforma. Para uma comparação mais fácil dos resultados obtidos com os diferentes provetes de ensaio e nas diversas condições, o tempo de duração de cada um dos ensaios realizados foi de 1 hora e 30 minutos e o caudal de água, distribuído pelos dois dispositivos, foi de sensivelmente 1 litro/ minuto, sendo que o caudal de água lançado na parte superior da rampa foi sensivelmente duplo do caudal lançado directamente sobre o provete.

156

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Descargas de água

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Sistema de controlo do caudal no ensaio

Manípulo de regulação da inclinação da rampa

Rampa (calha) Sistema de decantação e reutilização de água Amostrador

Tampo basculante Transferidor

Figura 10.1. Aspecto geral do Erodímetro.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

As amostras sujeitas aos ensaios foram preparadas de acordo com a metodologia seguinte:

Material sem cobertura vegetal
• • • • • • • • Pesagem de 15kN de material; Pesagem de 2,5kN de água; Mistura do solo com a água Colocação da mistura no amostrador até enchê-lo por completo; Realização do ensaio de erodibilidade; Secagem do material que não foi erodido; Pesagem desse material; Cálculo da erodibilidade do solo (tendo em atenção as perdas de solo laboratoriais e os teores de humidade do material). 157

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Figura 10.2. Preparação amostra sem vegetação.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Material com cobertura vegetal
• • • • • • Colocação do solo num molde com as dimensões do amostrador; Plantação da vegetação; Realização do ensaio de erodibilidade; Secagem do material que não foi erodido; Pesagem desse material; Cálculo da erodibilidade do solo (tendo em atenção as perdas de solo laboratoriais e os teores de humidade do material). De modo a obter-se o teor de humidade do solo com vegetação, os moldes com vegetação foram regados sempre com a mesma quantidade de água, e existiu sempre um molde em cada bateria de ensaios que foi colocado na estufa, calculando-se assim a perda de água.

Figura 10.3. Preparação amostra com vegetação (nos moldes).
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

158

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10.3. ENSAIOS DE ERODIBILIDADE REALIZADOS
De acordo com a metodologia atrás explanada, foram realizados uma bateria de ensaios, tendo em consideração três variáveis fundamentais: •

Solo: foram utilizados os dois tipos de solo mais representativos da área em
estudo, Solo areno-siltoso e Solo arenoso;

Vegetação: dada a impossibilidade de utilizar neste trabalho espécies
arbustivas ou arbóreas, os ensaios de erodibilidade com vegetação, foram realizados com a espécie gramínea (mais comummente conhecida por relva);

Inclinação da rampa (de modo a simular a inclinação do talude): o intervalo
utilizado nos ensaios de erodibilidade foi [0º ; 30º].

Os resultados dos ensaios de erodibilidade realizados com amostras de solo areno siltoso estão expressos na tabela 10.1 e na figura 10.3. A tabela 10.2 e a figura 10.4 dizem respeito aos resultados das amostras do solo arenoso.

159

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Tabela 10.1. Solo areno-siltoso, Erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, em função da inclinação da rampa.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Situação do solo

Inclinação da rampa
5° 10° 15° 20° 25° 30 5° 10° 15° 20° 25° 30 5° 10° 15° 20° 25° 30 5° 10 15° 20 25° 30

Sem cobertura vegetal

Com cobertura vegetal (verde) de 0.8 pés/m2

Com cobertura vegetal (verde) de 2.0 pés/m2 Com cobertura vegetal (seca) de 2.0 pés/m2

Peso de solo seco (g) Antes do Arrastado ensaio 1267 165,9 1267 234,8 1267 364,0 1267 613,2 1267 843,8 1267 964,6 1152,4 2,8 1069,1 14,6 1071,3 27,4 1073,8 45,4 1093,9 54,8 1092,4 69,9 1174,6 1,1 1205,2 1,3 1247,9 1,8 1251,3 2,7 1262,2 7,0 1234,6 7,9 1262,8 1,4 1267,3 1,5 1270,1 1,7 1259,8 5,9 1212,7 8,6 1246,5 9,6

Percentagem do solo arrastado (%)
13,1 18,5 28,7 48,4 66,6 76,1 0,24 1,37 2,56 4,23 5,01 6,40 0,09 0,11 0,14 0,22 0,55 0,64 0,11 0,12 0,13 0,47 0,71 0,77

160

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Tabela 10.2. Solo arenoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a inclinação da rampa.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Situação do solo

Inclinação da rampa
5° 10° 15° 20° 25° 30° 5° 10° 15° 20° 25° 30° 5° 10° 15° 20° 25° 30° 5° 10° 15° 20° 25° 30°

Peso de solo seco (g) Antes do Arrastado ensaio
1230 1230 1230 1230 1230 1230 976,5 959,8 964,0 1010,9 984,4 965,4 1078,2 1171,9 1200,2 1142,8 1186,9 1179,8 1077,0 1170,1 1191,9 1131,5 1185,4 1103,5 390,2 515,0 688,2 811,1 968,0 1079,9 121,8 134,8 149,2 159,1 174,8 198,9 32,1 66,2 84,8 109,3 118,8 120,7 59,9 84,2 114,8 150,1 250,4 281,8

Percentagem do solo arrastado (%)
31,7 41,9 56,0 65,9 78,7 87,8 12,5 14,0 15,5 15,7 17,8 20,6 3,0 5,6 7,1 9,6 10,0 10,2 5,6 7,2 9,6 13,3 21,1 25,5

Sem cobertura vegetal

Com vestígios de cobertura vegetal seca e raízes (2.0 pés/m2)

Com cobertura vegetal (verde) de 1.2 pés/m2

Com cobertura vegetal (seca) de 1.2 pés/m2

161

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100 90 PERCENTAGEM DE SOLO ARRASTADO (%) 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 5 10 15 20 25 30 ÂNGULO DE INCLINAÇÃO DA RAMPA (0) Solo sem cobertura vegetal Solo com cobertura vegetal verde (2.0 pés/m^2)l Solo com cobertura vegetal verde (0.8 pés/m^2) Solo com cobertura vegetal seca (2.0 pés/m^2)

Figura 10.3. Solo areno-siltoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a inclinação da rampa.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

PERCENTAGEM DE SOLO ARRASTADO (%)

100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0 5 10 15 INCLINAÇÃO DA RAMPA ( )
Sem cobertura vegetal Com cobertura vegetal verde (1.2 pés/m^2) Com raizes de cobertura vegetal (2.0 pés/m^2) Com cobertura vegetal seca (1.2 pés/m^2)
0

20

25

30

Figura 10.4. Solo arenoso, evolução da erosão do solo, sem e com cobertura vegetal, com a inclinação da rampa.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

162

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Da análise dos dados anteriormente apresentados, pode-se constatar como resultados preliminares que: • O solo arenoso, com ou sem vegetação, é mais apto à erosão hídrica do que o solo areno-siltoso; • Solo com vegetação apresenta perdas de solo significativamente menores do que solo sem vegetação; • Independentemente do tipo de solo, quanto maior é a inclinação, maior a perda de solo causada pela acção da água. A partir das percentagens de solo arrastado em cada um dos ensaios efectuados, determinaram-se, através de correlação linear, para cada tipo de solo, os índices de resistência do solo à erosão, Ir em função de cada uma das diferentes variáveis do ensaio (inclinação do talude, densidade da cobertura vegetal e tempo de pluviosidade). Para a situação em que não se verifica qualquer arrastamento do solo, considerou-se a unidade como índice de resistência máxima à erosão. Assim, e relativamente a cada uma das variáveis, o índice de resistência, do solo à erosão é dado por:

Ir =
Sendo:

A −B A

[11]

A - totalidade do solo ensaiado (peso seco) B - quantidade de solo arrastado no ensaio (peso seco)

Com base nos valores dos índices de resistência correspondentes a cada uma das condições de ensaio e respectivos valores das variáveis, determinaram-se os parâmetros da função que, dentro do intervalo das variáveis dos ensaios (inclinação do talude, α, densidade da cobertura vegetal, D, e tempo de ensaio, T) e para o caudal de água nos ensaios (≅ 1 l/min), relacionam o índice de resistência do solo à erosão, motivada pela água das chuvas, com aquelas três variáveis em simultâneo. O índice de resistência do solo em função das variáveis dos ensaios é bem definido por uma função múltipla linear.

163

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Na tabela 10.3 apresentam-se as funções que relacionam o índice de resistência à erosão dos solos ensaiados com as variáveis de ensaio, bem como os correspondentes coeficientes de correlação, para os seguintes intervalos daquelas mesmas variáveis: • • Inclinação do talude (α): Densidade da cobertura vegetal (D: Tempo de ensaio (T): 0º a 30º 0 a 2.0 pés /m2 (solo arenoso) 0 a 2.0 pés /m2 (solo areno-siltoso) • 0 a 1,5h

Tabela 10.3. Índices de resistência do solo à erosão, em função das variáveis de ensaio.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Solo
Areno-siltoso Arenoso

Índice de resistência do solo (Ir)
Ir = 1 - 0,7413 senα +0,0042 D – 0,2555 T Ir = 1 - 0,7634 senα +0,0017 D – 0,0970 T

Coeficiente de correlação
0,913 0,864

Uma vez que este índice foi obtido para uma zona específica (solos da área em estudo), a equação do índice de resistência do solo pode tomar a forma genérica a seguir apresentada, em que cada coeficiente numérico a, b, c são característicos de cada região e em função de cada solo.

Ir = 1 − a × senα + b × D − c × T

[12]

11. O FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO («DEBRIS FLOW») 11.1. CASO GERAL
A grande maioria dos taludes que constituem os casos de engenharia são constituídos por deslizamentos planares ou circulares ou deslizamentos de cunhas rochosas e tombamentos de blocos ou combinações entre estes quatro tipos (HOEK & BRAY, 1977). De modo a definir probabilisticamente os deslizamentos profundos (“deep seated slidings”) que se manifestam após subidas do nível freático resultantes de significativa pluviosidade acumulada, e que poderão ocorrer através de mecanismos translacionais ou rotacionais, as análises matemáticas para determinar o factor de segurança são do conhecimento geral (por exemplo, Hoek & Bray – Rock Slope Engineering. IMM, London, 1997; D.J. Varnes – Slope Movement Types and Processes. NRC, Washington, 1978; Slope/W, Geo-Slope, Calgary, 2002). 164

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Os deslizamentos planares (Figura 11.1) são objecto de análise do equilíbrio de forças resistentes pelas forças que desencadeiam o movimento, definindo-se um factor de segurança 2-D (duas dimensões) dado pelo quociente entre o somatório das forças resistentes R e o das forças motoras M, segundo a expressão geral:

FSP =

ΣR (Wcosα − U)tgϕ'+c' L = ΣM Wsinα

[13]

onde W é o peso de terreno que desliza (com espessura unitária), α o ângulo de inclinação do plano de deslizamento, U o impulso ascencional da água sobre este último plano, c’ e φ’ a coesão e o ângulo de atrito efectivos, respectivamente. Na sua forma mais completa, a expressão do factor de segurança para os deslizamentos planares assume a seguinte forma:

Fs

(Wcosβ − kWsinβ + Tcosθ − U − Vsinβ)tgφ ' + c 'L =
Wsinβ + kWcosβ − Tsinθ + Vcosβ

[14]

incluindo os termos correspondentes a vibrações (coeficiente sísmico k), pregagens (de força resultante igual a T, que faz um ângulo θ com a normal ao plano de deslizamento) e os impulsos da água, respectivamente sob este plano, dado por:
1 U = 2 γ aLd

[15]

e dentro de uma fenda de tracção vertical:
1 V = 2 γ a d2

[16]

onde γa é o peso volúmico da água e d a distância entre a superfície freática e a base da fenda de tracção.

Figura 11.1. Deslizamentos planares de taludes.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

165

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Por sua vez, o factor de segurança que caracteriza os escorregamentos circulares resulta do quociente entre os momentos das forças resistentes pelo momento das forças instabilizadoras em relação ao centro de rotação, ou seja:

FSC =

θ τ R2 WL a

[17]

em que R é o raio do círculo de deslizamento, θ o ângulo ao centro, ζ a resistência mobilizável ao corte e La o braço do momento causado pelo peso do volume instabilizado.

Figura 11.2. Deslizamentos circulares de taludes.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

Na sua expressão mais geral o factor de segurança do deslizamento circular é dado pela equação (FELLENIUS, 1984).

Fs

∑ [(W cos θ − h b γ − KW sinθ ) tgφ + c b ] = ∑ (W sinθ + KW cosθ )
n ' i =1 i i i i a i i i n i=1 i i i i

[18]

As duas relações que traduzem os factores de segurança dos taludes, com os tipos de ruptura planar e circular, são subsequentemente tratadas de modo similar através da aplicação do método de Monte Carlo, sendo a coesão e o ângulo de atrito do terreno as duas variáveis aleatórias que o permitem implementar.

166

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11.2. FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO
No que se refere ao mecanismo de instabilização superficial de taludes, os fenómenos de escorrimentos ou ravinamentos («debris flows»), cuja origem se relaciona com a ocorrência de chuvas intensas em curtos intervalos de tempo, não é conhecida uma equação matemática geral para a obtenção do seu factor de segurança. ORTIGAO e SAYAO (2004), tal como foi referido no capítulo 7, relacionam a precipitação com a sua duração e obtiveram a equação correspondente ao desencadeamento dos fenómenos (trigger) dos fenómenos de escorrimento:

P = 22.4 × t 0.41

[19]

onde P é a precipitação acumulada (em mm) e t é o tempo de chuva contínua (em horas). No estudo “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na Ferrovia, incluindo Telegestão”, (Centro de Geotecnia do IST, 2005), foi obtida também, a partir de uma conjugação de informações provenientes dos fenómenos deste tipo ocorridos na região de Santarém, a seguinte expressão, (e ver figura 11.3):

P = 0.9925 × T 0.9178

[20]

onde P é a precipitação acumulada (em mm) e T é o tempo de chuva contínua (em segundos). Com base na duas expressões anteriores, foi desenvolvida uma equação probabilística para essa região em que a probabilidade de ocorrência de escorrimentos, Q, é dada por:

Q = 0.433 × P 0.243 × T −0.126

[21]

onde P é a precipitação acumulada (em mm) e T o tempo de chuva contínua (em segundos).

167

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1200

PRECIPITAÇÃO ACUMULADA (mm) ACCUMULATED PRECIPITATION (mm)

1000

Ponto de escorrimento anterior na Point of previous debris flow região de Santarém

800

Curva de limite para casos de Trigger curve for case escorrimentos históricos histories of debris flow s

600

400

P = 22.4 t

0.41

200 P = 0.9925 t 10
-2 0.9178

10

-1

10

0

10 10 10 TIM E (hour) TEMPO (horas)

1

2

3

10

4

10

5

Figura 11.3. Registo Variações da precipitação acumulada vs tempo, para quantificação dos fenómenos de escorrimento em taludes da área em estudo.
Fonte: Centro de Geotecnia do IST, 2005

No entanto, tendo em consideração o que tem vindo a ser descrito neste trabalho, existe uma importância considerável na estabilidade de taludes de solos devido à existência de vegetação. Infelizmente, esta equação atrás obtida não leva em consideração este parâmetro. Existem alguns trabalhos publicados onde os autores definem o Factor de Segurança (FS) do deslizamento, através de aplicações informáticas das equações desenvolvidas por estes, tais como:

A) S. Debray e W.Z. Savage (2001) – recorrem ao programa PLAXIS para calcular o
FS de um escorrimento ocorrido nas imediações de Seatle, Estados Unidos da América, através da equação do programa:
' C + σ n tanφ FS = ' CR + σ n tanφ R

[22]

168

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Onde, C e ϕ são os valores de coesão e ângulo de atrito do terreno, CR e φR os valores introduzidos pelo programa PLAXIS, σ’n é a tensão normal efectiva a actuar no plano de deslizamento.

B) L. Jimeno, S. Pedraza, C. Gonzalez (1999) – desenvolveram um programa
informático que permite calcular o factor de segurança de deslizamentos de taludes, tendo em consideração, para além das variáveis dos solos e da presença de água, a influência da vegetação no movimento dos terrenos:

FS =
Onde:

Cr + C s + [q0 + γ(γ sat - γ w )D w ] cos 2 α × tanφ '

[q0 + γ satD w + γ(D − D w )]

× senα × cosα

[23]

Cr – resistência das raízes; Cs – coesão do solo; α – ângulo do talude; ϕ – ângulo de atrito do solo; q0 – carga arbórea;

γ – peso volúmico do solo; γsat – peso volúmico do solo saturado; γw – peso volúmico da água; D – espessura do solo; Dw – espessura do solo saturado.

C) De referir ainda o contributo dado pelos investigadores G. Furuya, K. Sassa e A.
Suemine (2004), na obtenção de um factor de segurança para um deslizamento ocorrido num talude numa área onde são recorrentes estes fenómenos, tendo em conta os parâmetros resistentes do terreno e a inclinação do talude. Estes investigadores extrapolaram depois, os resultados obtidos para toda a região, criando um mapa onde o factor de segurança é função do ângulo do talude:

Fs =
Onde:

c ' + [γ t × h w + (γ sat − γ w ) × (H − h w )] × cos 2 α × tanϕ [γ t × h w + γ sat × (H − h w )] × cosα × senα

[24]

c’ – coesão do solo; γt – peso volúmico do solo; γw – peso volúmico da água; ϕ – ângulo de atrito do solo;

γsat – peso volúmico do solo saturado; H – espessura do solo; hw – localização do nível piezométrico;

α – ângulo do talude.

Neste trabalho, tentou definir-se uma equação que fosse representativa do Factor de Segurança para escorrimentos de taludes. Como primeira análise, desenvolveu-se a equação seguinte, tendo em atenção a figura 11.4.

169

Caso de Estudo

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A nova expressão foi baseada na consideração do equilíbrio limite entre as forças que resistem ao escorrimento, FR, do terreno superficial do talude e as forças que promovem essa instabilização, FI (ver figura seguinte).

α
Figura 11.4. Esquema do escorrimento de taludes.

FS =

FR P × cosα × tanφ + (C1 + C 2 ) × L = Vγ w FI P × sinα + D

[25]

Onde:
Fs – factor de segurança P – Peso do material erodido (kN/m) α – ângulo do talude (º) ϕ – ângulo de atrito do solo (º) C1 – coesão do solo (kN/m ) C2 – acréscimo de coesão proveniente da vegetação (kN/m ) D – largura do talude / largura da bacia de recepção de água (m)
2 2

γW – peso volúmico da água (kN/m3)
H – altura do talude (m) V – precipitação caída no talude e na bacia de recepção a montante do mesmo (m /m), dada por:
3

V = p × (D + L × cotgα)
p – precipitação do evento (mm) L – comprimento do plano frontal do talude (m), dada por:

[26]

L=

H sinα

[27]

170

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Atendendo aos ensaios de erodibilidade efectuados, foi possível obter uma correlação entre o material erodido (P) e o ângulo do talude (α), na forma P = a0 + a1xα + a2xα2, como evidenciam as figuras seguintes.

2,5 Material erodido (kN)

2,0 y = -0,001x2 + 0,0708x + 1,035 R2 = 1 1,5 10 15 20 Ângulo do Talude (º) 25 30

Figura 11.5. Correlação entre a inclinação do talude (º) e o material erodido (kN/m) para solo arenosiltoso.
11,0

Material Erodido (kN)

10,0

y = -0,0002x2 + 0,1057x + 7,986 R2 = 1 9,0 10 15 20 Ângulo do Talude (º) 25 30

Figura 11.6. Correlação entre a inclinação do talude (º) e o material erodido (kN/m) para solo arenoso.

Desta forma, substituindo na equação do FS [25], “P - Peso do material erodido” por: “-0,001α2+0,0708α+1,035”, para solos areno-siltosos; “-0,0002α2+0,1057α+7,986” para solos arenosos

171

Caso de Estudo

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é possível avaliar a evolução do factor de segurança em função da inclinação do talude e da precipitação, para cada tipo de solo e para diferentes tipos de planta (de acordo com a tabela 8.4).

Factor de segurança para solo areno-siltoso

FS =

(- 0.001α + 0.0708α + 1.035) × cosα × tanφ + (C + C ) × L (- 0.001α + 0.0708α + 1.035) × sinα + Vγ D
2 1 2 2 w

[28]

Factor de segurança para solo arenoso

FS

(- 0.0002α + 0.1057α + 7.986 )× cosα × tanφ + (C + C ) × L = (- 0.0002α + 0.1057α + 7.986 )× sinα + Vγ D
2 1 2 2 w

[29]

As tabelas e as figuras que se seguem ilustram os resultados obtidos na utilização destas equações. A tabela seguinte resume os parâmetros utilizados para a obtenção destes dois factores de segurança, de acordo com a geometria do Erodímetro:
Tabela 11.1. Parâmetros utilizados para a obtenção do factor de segurança.

Parâmetros Resistentes Tipo de Solo
CI2 ϕ C1 CII2 CIII2 CIV2 Vegetação arbórea de pequeno porte 10 10 CIV2 Vegetação arbórea de grande porte 15 15

Sem Vegetação Vegetação vegetação rasteira arbustiva 0 0 1 1 5 5

Arenosiltoso Arenoso

27 32

23,5 14

Os restantes parâmetros utilizados foram: D = 1,00m L = 0,15 x cos α m α: [5º ; 45º] Caudal: [0m3 ; 100m3] V: [0 m3/m ; 110,61m3/m]

172

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Mestrado em Georrecursos

Tabela 11.2. Factor de segurança para solos sem vegetação.
Caudal m3 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Areno-siltoso (sem vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Arenoso (sem vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 5º 35,363 4,749 2,546 1,739 1,320 1,064 0,540 0,272 0,109 0,055 0,037 0,027 0,011 0,005 9,963 4,900 3,249 2,430 1,941 1,616 0,879 0,460 0,189 0,096 0,064 0,048 0,019 0,010 10º 15,057 4,090 2,366 1,665 1,284 1,045 0,541 0,276 0,111 0,056 0,037 0,028 0,011 0,006 4,864 3,268 2,461 1,973 1,647 1,413 0,827 0,452 0,191 0,098 0,066 0,049 0,020 0,010 15º 8,929 3,467 2,151 1,559 1,223 1,006 0,533 0,275 0,112 0,056 0,038 0,028 0,011 0,006 3,155 2,409 1,948 1,636 1,409 1,238 0,770 0,439 0,191 0,099 0,067 0,050 0,020 0,010 Factor de Segurança (FS) 20º 6,122 2,937 1,932 1,439 1,147 0,953 0,517 0,270 0,111 0,056 0,037 0,028 0,011 0,006 2,293 1,876 1,588 1,376 1,214 1,087 0,712 0,422 0,190 0,099 0,067 0,051 0,020 0,010 25º 4,560 2,503 1,725 1,316 1,064 0,892 0,495 0,261 0,108 0,055 0,037 0,028 0,011 0,006 1,769 1,511 1,319 1,170 1,051 0,955 0,654 0,401 0,186 0,098 0,067 0,050 0,020 0,010 30º 3,585 2,151 1,536 1,195 0,978 0,827 0,467 0,250 0,104 0,053 0,035 0,027 0,011 0,005 1,414 1,243 1,109 1,001 0,913 0,838 0,596 0,377 0,180 0,096 0,065 0,050 0,020 0,010 35º 2,928 1,864 1,368 1,080 0,892 0,760 0,437 0,236 0,099 0,050 0,034 0,025 0,010 0,005 1,155 1,036 0,940 0,860 0,793 0,735 0,539 0,352 0,172 0,093 0,064 0,048 0,020 0,010 40º 2,460 1,629 1,218 0,972 0,809 0,693 0,403 0,220 0,093 0,047 0,032 0,024 0,010 0,005 0,955 0,870 0,800 0,739 0,688 0,643 0,484 0,324 0,163 0,089 0,061 0,047 0,019 0,010 45º 2,115 1,434 1,085 0,872 0,729 0,627 0,368 0,201 0,085 0,044 0,029 0,022 0,009 0,004 0,795 0,733 0,680 0,634 0,594 0,559 0,431 0,296 0,152 0,084 0,058 0,044 0,018 0,009

Tipo de Solo

173

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

Tabela 11.3. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de coesão é de 1kN/m.
Tipo de Solo Caudal m3 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Areno-siltoso (com vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Arenoso (com vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 5º 36,620 4,918 2,636 1,801 1,367 1,102 0,559 0,282 0,113 0,057 0,038 0,028 0,011 0,006 10,165 4,999 3,315 2,479 1,980 1,648 0,897 0,469 0,193 0,097 0,065 0,049 0,020 0,010 10º 15,575 4,230 2,447 1,722 1,328 1,081 0,560 0,285 0,115 0,058 0,039 0,029 0,012 0,006 4,958 3,331 2,508 2,011 1,679 1,441 0,843 0,460 0,195 0,099 0,067 0,050 0,020 0,010 15º 9,228 3,583 2,223 1,612 1,264 1,040 0,551 0,284 0,116 0,058 0,039 0,029 0,012 0,006 3,213 2,454 1,985 1,666 1,436 1,261 0,785 0,447 0,195 0,101 0,068 0,051 0,021 0,010 Factor de Segurança (FS) 20º 6,323 3,034 1,995 1,487 1,185 0,985 0,534 0,279 0,115 0,058 0,039 0,029 0,012 0,006 2,334 1,910 1,616 1,401 1,236 1,106 0,725 0,429 0,193 0,101 0,068 0,051 0,021 0,010 25º 4,708 2,584 1,781 1,358 1,098 0,921 0,511 0,270 0,112 0,057 0,038 0,028 0,011 0,006 1,799 1,537 1,342 1,190 1,070 0,971 0,665 0,408 0,189 0,100 0,068 0,051 0,021 0,010 30º 3,700 2,220 1,586 1,233 1,009 0,854 0,482 0,258 0,108 0,055 0,037 0,028 0,011 0,006 1,437 1,264 1,128 1,018 0,928 0,852 0,606 0,384 0,183 0,098 0,067 0,051 0,021 0,010 35º 3,022 1,924 1,411 1,114 0,921 0,784 0,451 0,244 0,102 0,052 0,035 0,026 0,011 0,005 1,173 1,053 0,955 0,874 0,806 0,747 0,548 0,358 0,175 0,095 0,065 0,049 0,020 0,010 40º 2,539 1,681 1,257 1,004 0,835 0,715 0,416 0,227 0,096 0,049 0,033 0,025 0,010 0,005 0,970 0,884 0,812 0,751 0,699 0,653 0,492 0,329 0,166 0,090 0,062 0,047 0,020 0,010 45º 2,183 1,480 1,120 0,900 0,753 0,647 0,380 0,208 0,088 0,045 0,030 0,023 0,009 0,005 0,807 0,744 0,691 0,644 0,603 0,567 0,437 0,300 0,154 0,085 0,059 0,045 0,019 0,009

174

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

Tabela 11.4. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de coesão é de 5kN/m.
Tipo de Solo Caudal m3 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Areno-siltoso (com vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Arenoso (com vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 5º 41,648 5,593 2,998 2,048 1,555 1,253 0,636 0,321 0,129 0,065 0,043 0,032 0,013 0,006 10,970 5,396 3,578 2,676 2,137 1,779 0,968 0,506 0,208 0,105 0,070 0,053 0,021 0,011 10º 17,646 4,793 2,773 1,951 1,505 1,225 0,634 0,323 0,131 0,066 0,044 0,033 0,013 0,007 5,335 3,585 2,699 2,164 1,806 1,550 0,907 0,496 0,210 0,107 0,072 0,054 0,022 0,011 15º 10,424 4,048 2,511 1,821 1,428 1,174 0,622 0,321 0,131 0,066 0,044 0,033 0,013 0,007 3,449 2,633 2,130 1,788 1,541 1,354 0,842 0,480 0,209 0,108 0,073 0,055 0,022 0,011 Factor de Segurança (FS) 20º 7,127 3,419 2,249 1,676 1,335 1,110 0,602 0,314 0,129 0,065 0,044 0,033 0,013 0,007 2,498 2,045 1,730 1,500 1,323 1,184 0,776 0,459 0,207 0,108 0,073 0,055 0,022 0,011 25º 5,298 2,908 2,004 1,529 1,236 1,037 0,575 0,304 0,126 0,064 0,043 0,032 0,013 0,006 1,922 1,642 1,433 1,271 1,142 1,037 0,710 0,436 0,202 0,106 0,072 0,055 0,022 0,011 30º 4,160 2,496 1,783 1,386 1,134 0,960 0,542 0,290 0,121 0,061 0,041 0,031 0,012 0,006 1,532 1,347 1,202 1,085 0,989 0,909 0,646 0,409 0,195 0,104 0,071 0,054 0,022 0,011 35º 3,396 2,163 1,586 1,253 1,035 0,882 0,507 0,274 0,115 0,059 0,039 0,030 0,012 0,006 1,248 1,120 1,016 0,930 0,857 0,795 0,583 0,380 0,186 0,101 0,069 0,052 0,022 0,011 40º 2,855 1,890 1,413 1,128 0,939 0,804 0,468 0,255 0,108 0,055 0,037 0,028 0,011 0,006 1,030 0,939 0,863 0,798 0,742 0,693 0,522 0,350 0,176 0,096 0,066 0,050 0,021 0,010 45º 2,456 1,665 1,260 1,013 0,847 0,728 0,427 0,234 0,099 0,051 0,034 0,026 0,010 0,005 0,856 0,789 0,732 0,683 0,640 0,602 0,464 0,318 0,164 0,091 0,063 0,048 0,020 0,010

175

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

Tabela 11.5. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de coesão é de 10kN/m.
Tipo de Solo Caudal m3 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Areno-siltoso (com vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Arenoso (com vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 5º 47,932 6,437 3,450 2,357 1,790 1,442 0,732 0,369 0,148 0,074 0,050 0,037 0,015 0,007 11,978 5,891 3,906 2,922 2,334 1,943 1,057 0,553 0,227 0,115 0,077 0,058 0,023 0,012 10º 20,235 5,496 3,180 2,237 1,725 1,404 0,727 0,370 0,150 0,075 0,050 0,038 0,015 0,008 5,807 3,901 2,938 2,356 1,966 1,687 0,987 0,539 0,228 0,117 0,078 0,059 0,024 0,012 15º 11,919 4,628 2,872 2,082 1,633 1,343 0,711 0,367 0,149 0,075 0,050 0,038 0,015 0,008 3,742 2,858 2,311 1,940 1,672 1,469 0,914 0,520 0,227 0,117 0,079 0,059 0,024 0,012 Factor de Segurança (FS) 20º 8,131 3,901 2,566 1,912 1,523 1,266 0,687 0,358 0,147 0,074 0,050 0,037 0,015 0,007 2,704 2,213 1,873 1,623 1,432 1,282 0,840 0,497 0,224 0,117 0,079 0,060 0,024 0,012 25º 6,036 3,313 2,283 1,741 1,408 1,181 0,655 0,346 0,143 0,073 0,049 0,036 0,015 0,007 2,075 1,773 1,547 1,373 1,233 1,120 0,767 0,470 0,218 0,115 0,078 0,059 0,024 0,012 30º 4,735 2,841 2,029 1,578 1,291 1,092 0,617 0,330 0,138 0,070 0,047 0,035 0,014 0,007 1,650 1,451 1,295 1,169 1,065 0,979 0,696 0,441 0,210 0,112 0,076 0,058 0,024 0,012 35º 3,864 2,461 1,805 1,425 1,178 1,003 0,576 0,311 0,131 0,067 0,045 0,034 0,014 0,007 1,342 1,204 1,093 1,000 0,921 0,854 0,627 0,409 0,200 0,108 0,074 0,056 0,023 0,012 40º 3,249 2,151 1,608 1,284 1,069 0,915 0,533 0,290 0,123 0,062 0,042 0,032 0,013 0,006 1,105 1,007 0,925 0,856 0,796 0,744 0,560 0,375 0,189 0,103 0,071 0,054 0,022 0,011 45º 2,798 1,897 1,435 1,154 0,965 0,829 0,487 0,267 0,113 0,058 0,039 0,029 0,012 0,006 0,917 0,845 0,784 0,731 0,685 0,644 0,497 0,341 0,175 0,097 0,067 0,051 0,021 0,011

176

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

Tabela 11.6. Factor de segurança para solos com vegetação, cujo valor de acréscimo de coesão é de 15kN/m.
Tipo de Solo Caudal m3 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Areno-siltoso (com vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Solo Arenoso (com vegetação) 1 2 5 10 15 20 50 100 5º 54,217 7,282 3,903 2,666 2,024 1,632 0,828 0,417 0,168 0,084 0,056 0,042 0,017 0,008 12,985 6,387 4,235 3,167 2,530 2,106 1,146 0,599 0,247 0,124 0,083 0,063 0,025 0,013 10º 22,824 6,199 3,587 2,523 1,946 1,584 0,820 0,418 0,169 0,085 0,057 0,042 0,017 0,009 6,278 4,218 3,176 2,547 2,126 1,824 1,067 0,583 0,247 0,126 0,085 0,064 0,026 0,013 15º 13,415 5,209 3,232 2,343 1,837 1,511 0,801 0,413 0,168 0,085 0,057 0,042 0,017 0,009 4,036 3,082 2,493 2,093 1,803 1,584 0,985 0,561 0,245 0,126 0,085 0,064 0,026 0,013 Factor de Segurança (FS) 20º 9,136 4,383 2,883 2,148 1,712 1,423 0,771 0,403 0,165 0,083 0,056 0,042 0,017 0,008 2,910 2,381 2,015 1,747 1,541 1,379 0,904 0,535 0,241 0,125 0,085 0,064 0,026 0,013 25º 6,774 3,718 2,562 1,954 1,580 1,326 0,735 0,388 0,161 0,081 0,054 0,041 0,016 0,008 2,228 1,903 1,661 1,474 1,324 1,202 0,823 0,505 0,234 0,123 0,084 0,063 0,026 0,013 30º 5,310 3,186 2,275 1,770 1,448 1,225 0,692 0,370 0,155 0,078 0,053 0,040 0,016 0,008 1,769 1,555 1,388 1,253 1,142 1,049 0,746 0,472 0,225 0,120 0,082 0,062 0,025 0,013 35º 4,332 2,759 2,024 1,598 1,320 1,125 0,646 0,349 0,147 0,075 0,050 0,038 0,015 0,008 1,435 1,288 1,169 1,069 0,986 0,914 0,671 0,437 0,214 0,116 0,079 0,060 0,025 0,012 40º 3,643 2,413 1,803 1,440 1,198 1,026 0,597 0,325 0,137 0,070 0,047 0,035 0,014 0,007 1,181 1,076 0,988 0,914 0,850 0,794 0,599 0,401 0,201 0,110 0,076 0,058 0,024 0,012 45º 3,139 2,129 1,610 1,295 1,083 0,930 0,546 0,299 0,127 0,065 0,043 0,033 0,013 0,007 0,977 0,901 0,836 0,780 0,730 0,687 0,530 0,363 0,187 0,103 0,071 0,055 0,023 0,011

177

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00
0, 0, 1 2 0, 3 0, 4 0, 5 1 0

0,00 35
2

40

45

10 15

Caudal (m )

3

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00
0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1 0

0,00 35
2

40

45

15 20

Caudal (m3)

10

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45
3

Figura 11.7. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal (m ) para solo areno-siltoso e solo arenoso, sem vegetação.

178

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00

0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1

0

0,00 35

2

40

45

10 15

Caudal (m )

3

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00
0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1 0

0,00 35
2

40

45

15

Caudal (m3)

10

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45
3

Figura 11.8. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal (m ) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 1kN/m).

179

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00

0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1

0

0,00 35

2

40

45

10 15

Caudal (m3)

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00

0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1

0

0,00 35

2

40

45

15

Caudal (m3)

10

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45
3

Figura 11.9. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal (m ) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 5kN/m).

180

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00

0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1

0

0,00 35

2

40

45

10 15

Caudal (m3)

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00

0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1

0

0,00 35

2

40

45

15

Caudal (m3)

10

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45

Figura 11.10. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal 3 (m ) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 10kN/m).

181

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00

0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1

0

0,00 35

2

40

45

10 15

Caudal (m3)

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45

FS do talude em função da inclinação e do caudal

60,00 50,00 40,00 30,00 FS 20,00 10,00

0, 1 0, 2 0, 3 0, 4 0, 5 1

0

0,00 35

2

40

45

15

Caudal (m3)

10

20

5

10

15

20

10 0

5

50

10

15

20

25

30

5

Inclinação (º)

25

30

35

40

45

Figura 11.11. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e do caudal 3 (m ) para solo areno-siltoso e solo arenoso, com vegetação (C2 = 15kN/m).

182

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

Como conclusões aos dados atrás expostos, constata-se que: • Fixando o caudal num qualquer valor, (e.g. 1m3) e tomando como exemplo o solo areno-siltoso, é fácil construir um gráfico (em baixo representado) onde se pode verificar que o Factor de Segurança aumenta com o incremento da coesão das plantas. Isto é verdade para qualquer outro caudal;
FS do talude em função da inclinação e do incremento da coesão

0,90 0,80 FS 0,70 0,60 0,50 0,40 5º 15º 10 15

25º

35º

Inclinação (º)

0 45º

1

5

Coesão (kN/m)

Figura 11.12. Variação do factor de segurança em função da inclinação do talude (º) e da Coesão 3 (kN/m) para solo areno-siltoso, para um caudal fixo de 1m .

O solo anero-siltoso é muito mais estável que o solo arenoso, conseguindo, para este caso, factores de segurança superiores à unidade em taludes de 45º, para caudais não superiores a 0,2m3;

O ponto crítico para qualquer dos dois tipos de solo estudados situa-se para caudais compreendidos entre 0,5m3 e 1m3.

11.3. COMPARAÇÃO

DO FACTOR DE SEGURANÇA DO ESCORRIMENTO COM O FACTOR

DE SEGURANÇA DE JIMENO E GONZALEZ

Uma vez obtida a equação geral para o Factor de Segurança ao escorrimento de taludes neste trabalho (equação 25, caso geral e equações 28 e 29 para solos arenosiltosos e arenosos, respectivamente), segue-se uma comparação com a equação desenvolvida por Jimeno e Gonzalez (equação 23). Para a análise destes Factores de Segurança foram utilizados os dados de dois taludes caracterizados no estudo “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na ferrovia, incluindo Telegestão”, (Centro de Geotecnia do IST, 2005):

183

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

Talude do sector 6 (Outeiro da Forca), caracterizado por ser constituído quase na sua totalidade por solo arenoso. Foram registados, neste talude, dois escorrimentos importantes: um a 7 de Novembro de 1966; e outro a 15 de Março de 1969;

Talude do sector 7 (Quebradas), caracterizado por ser constituído quase na sua totalidade por solo arenoso. Foi registado um escorrimento importante a 19 de Março de 1969.

O elemento a caracterizar encontra-se, em ambos os casos, a 5m de altura no talude estando os parâmetros usados, compilados na tabela seguinte:
Tabela 11.7. Parâmetros utilizados para o cálculo do Factor de segurança.

Parâmetros
Solo H H’ D L α γ γsat γw φ C1 C2 q0 D* Dw Material predominante
Altura do talude (m) Altura do elemento a caracterizar (m) Largura de infiltração no talude (m) Coeficiente do plano frontal do talude ((H-H’) / sinα) (m) Inclinação média do talude (º) Peso volúmico do solo seco (kN/m ) Peso volúmico do solo saturado (kN/m ) Peso volúmico da água (kN/m ) Ângulo de atrito médio (º) Coesão média do terreno (kN/m ) Acréscimo de coesão proveniente da 2 vegetação (kN/m ) Carga arbórea (kN/m ) Espessura do solo (m) Espessura do solo saturado (m)
2 2 3 3 3

Talude crítico do sector 6
Arenoso
30,0 5 51 69,76 21 1,2 1,7 1 27,0 23,5 Árvores de porte médio alto e arbustos: 10 0,6 5,0

7
Arenoso
84,4 5 110 158,8 30 1,2 1,7 1 27,0 23,5 Vegetação rasteira:2 0,2 5,0

V

Precipitação acumulada no talude e na bacia de recepção a montante do talude 3 (precipitação x (D+L x cotgα) x 1m (m /m)

Variável: optou-se por utilizar Dw = 0m para precipitações inferiores a 5mm e Dw = 5m para precipitações superiores a este valor Variável: o FS foi calculado fazendo variar a precipitação nesses dois taludes. Os três últimos valores de precipitação apresentados na tabela seguinte dizem respeito às precipitações que provocaram os escorrimentos atrás mencionados

184

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

Tabela 11.8. Comparação do factor de segurança das duas equações, aplicadas em dois taludes reais.

Talude

Precipitação (mm)
0 1 5 10 31,5 75,4 116,9 0 1 5 10 31,5 75,4 116,9

FS
FS Escorrimento 463,39 14,03 2,88 1,44 0,46 0,19 0,12 464,01 10,07 2,05 1,03 0,33 0,14 0,09 FS Jimeno e Gonzalez 11,14 11,14 11,14 8,08 8,08 8,08 8,08 6,02 6,02 6,02 4,29 4,29 4,29 4,29

6

7

A tabela anterior permite tecer algumas considerações: • A equação introduzida neste trabalho permite prever o fenómeno de escorrimento de um talude, em função da precipitação que nele ocorre; • A equação do FS definida por Jimeno e Gonzalez, por ser uma equação que deriva da equação geral dos deslizamentos planares, não consegue ser um bom instrumento de aplicação para a previsão de escorrimentos (veja-se a fraca variação do FS em ambos os casos), uma vez que não contempla a variável precipitação na mesma; • Os FS’s obtidos para os valores de precipitação que antecederam os eventos de escorrimentos nos taludes 6 e 7 (bastante reduzidos), comprovam a aplicabilidade da equação [25].

185

Caso de Estudo

Mestrado em Georrecursos

11.4. CONCLUSÕES
As principais conclusões retidas neste capítulo são as que a seguir se enumeram: • Para o mesmo caudal de precipitação, a quantidade de solo erodido aumenta de forma acentuada com a inclinação do talude, comprovado pela diminuição do factor de segurança; • Para o mesmo tipo de solo, as mesmas inclinações da rampa, o mesmo caudal de água e o mesmo tempo de ensaio, a quantidade de solo arrastado em amostras com cobertura vegetal, é muito reduzido, quando comparado com o solo arrastado em amostras sem qualquer cobertura vegetal; • • O factor de segurança diminui com o aumento da pluviosidade; O factor de segurança aumenta com o incremento da coesão global, provocada pela incorporação da vegetação, como era de esperar; • A equação introduzida neste trabalho [25] permite prever o fenómeno de escorrimento de um talude, em função da precipitação que nele ocorre, como pode ser comprovado no cálculo dos FS’s para os valores de precipitação que antecederam os eventos de escorrimentos nos taludes 6 e 7 (bastante reduzidos); • A equação do FS definida por Jimeno e Gonzalez, por ser uma equação que deriva da equação geral dos deslizamentos planares, não consegue ser um bom instrumento de aplicação para a previsão de escorrimentos, uma vez que não contempla a variável precipitação na mesma.

186

QUARTA PARTE – CONCLUSÕES E FUTURAS LINHAS DE INVESTIGAÇÃO

187

Conclusões e futuras linhas de investigação

Mestrado em Georrecursos

12. CONCLUSÕES 12.1. RESULTADOS OBTIDOS
É reconhecida a ausência de contribuições geotécnicas para estudo do problema da erosão. A contribuição desta tese foi baseada em investigações bibliográficas, ensaios laboratoriais e trabalhos de campo realizados sobre o tema. Como principal resultado, conseguiu-se quantificar as perdas de material resultantes de fenómenos de escorrimento, identificando as variáveis mais influentes do processo e ainda, sugeriu-se a definição de um factor de segurança especifico para o fenómeno do escorrimento. Na geotecnia clássica existem métodos de estabilização de taludes que omitem a revegetação, revegetação essa que permite uma melhor integração ambiental do talude e em muitos casos, é sem dúvida um processo de contenção muito mais económico. Uma vez que o FS obtido é baseado em dados específicos de um caso real é provável que as equações específicas (equações [28] e [29]) não sejam extrapoláveis para outras situações; no entanto a sua essência (equação geral do factor de segurança [25]) deverá ser mantida uma vez que se baseia no critério do equilíbrio limite, que é típico da Geotecnia.

12.2. SUGESTÕES PARA FUTURAS LINHAS DE INVESTIGAÇÃO
Para futuras linhas de investigação, sugere-se a realização de novos ensaios de erodibilidade, tentando utilizar vegetação de maior porte, de modo a poder averiguar a influência efectiva das propriedades físicas externas destas (e.g. tipo de folha), à queda de água sobre a superfície; Caracterização detalhada de taludes facilmente acessíveis, como por exemplo, taludes recuperados de explorações a céu aberto, onde é possível, com relativamente facilidade conceber um Erodímetro «natural», e consequentemente, obter dados mais próximos da realidade, permitindo ainda, o estudo com árvores de médio e grande porte, situação não possível em laboratório.

188

Conclusões e futuras linhas de investigação

Mestrado em Georrecursos

Extrapolação da definição dos FS’s aos deslizamentos, em função das novas aplicações com o objectivo de promover estudos de estabilização, baseada em trabalhos de revegetação intensiva.

189

190

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

191

Referências bibliográficas
Atlas do Ambiente. (2006). Instituto do Ambiente.

Mestrado em Georrecursos

Campos Maciel Júnior, O., Gomes Marques, E.A., Carvalho e Silva, C.H., Minette, E., Lima, D.C. (2002). “Desenvolvimento de um aparelho Inderbitzen modificado para caracterização da erodibilidade de solos”. 8º Congresso Nacional de Geotecnia. Volume 1. Sociedade Portuguesa de Geotecnia, Lisboa. Carvalho, A. M. Galopim de. (1979). “Ciências Naturais Geologia – II Volume”. Ministério da Educação – Secretaria de Estado do Ensino Superior. Editorial do Ministério da Educação. Lisboa. Carvalho, G., Pereira, G., Brandão, J., Vau, O., Perdigão, S., Baptista, P. (1981). “ Geologia – Volume II – Geodinâmica”.1ª Edição. Livraria Popular de Francisco Franco. Lisboa. Carreira, Ana Paula. (2004). “Estabilidade de Taludes – Trabalho final do curso de Engenharia de Minas e Georrecursos. Instituto Superior Técnico. Lisboa. CEGEO – Centro de Geotecnia do IST (2005). “Elaboração de Mapas de Risco Geotécnico na ferrovia, incluindo Telegestão”. Para a REFER (não publicado). Coelho, A. Q., Bernardino, F., Ceia, A. (1995). “Ciências Naturais 7”. Departamento de Investigações e Edições Educativas da Constância Editores, S.A.. 1ª Edição. Constância Editores, S.A.. Alfragide. Dinis da Gama, C. (1994). “Geotecnia Ambiental – Interacções da Mecânica dos Solos e das Rochas com a Engenharia do Ambiente”. X Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e Engenharia de Fundações. Volume Pós-Congresso. ABMS. Foz do Iguaçu. Dinis da Gama, Carlos. (2000) “XVI Lição Manuel Rocha: Geotecnia Ambiental – Perspectiva e Aplicação”. Geotecnia n.º 90, Novembro 00. Revista Sociedade Portuguesa de Geotecnia. Lisboa. Dinis da Gama, Carlos., Reis e Sousa, Manuel., Oliveira, José. (2005). “A Erodibilidade dos Terrenos e sua Medição em Escala Laboratorial”. CEGEO. I.S.T. Lisboa. Domingues, H. V., Batista, J. A., Sobral, M. S. (1998). “O Mistério da Vida – Ciências da Natureza – 7º Ano”. 1ª Edição. Texto Editora. Lisboa. E. Hoek & J. H. Bray. (1977). Rock slope engineering, IMM, London. 192

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