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N.

o 499 (468) - HOMILIA DE CARTUM


«Annali B. Pastore» 4 (1873), pp. 32-35

Cartum, 11 de Maio de 1873

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Estou muito contente de finalmente me encontrar de novo entre vós, depois de tantas
vicissitudes penosas e de tantos ansiosos suspiros. O primeiro amor da minha juventude foi para
a infeliz Nigrícia e, deixando tudo o que me era mais querido no mundo, vim, faz agora
dezasseis anos, a estas terras para oferecer o meu trabalho como alívio para as suas seculares
desgraças. Depois, a obediência fez-me voltar para a Europa, dada a minha enfraquecida saúde,
que os miasmas do Nilo Branco em Santa Cruz e em Gondokoro tinham incapacitado para a
acção apostólica. Parti para obedecer; porém, entre vós deixei o meu coração e, tendo-me
recomposto como Deus quis, os meus pensamentos e os meus actos foram sempre para
convosco.
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E hoje, finalmente, recupero o meu coração voltando para junto de vós para o abrir na vossa
presença ao sublime e religioso sentimento da paternidade espiritual, da qual quis Deus que
fosse investido, faz agora um ano, pelo supremo chefe da Igreja Católica, nosso senhor o Papa
Pio IX. Sim, eu sou vosso pai e vós meus filhos e como tais pela primeira vez vos abraço e
estreito contra o meu coração. Estou-vos muito reconhecido pelas entusiásticas recepções que
me tendes dispensado: demonstram o vosso amor de filhos e persuadem-me de que quereis ser
sempre a minha alegria e o meu diadema, como sois o meu dote e a minha herança.
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Tende a certeza de que a minha alma vos corresponde com um amor ilimitado para todo o
tempo e para todas as pessoas. Eu volto para o meio de vós para nunca mais deixar de ser vosso
e totalmente consagrado para sempre ao vosso maior bem. O dia e a noite, o Sol e a chuva
encontrar-me-ão igualmente e sempre disposto a atender as vossas necessidades espirituais; o
rico e o pobre, o são e o doente, o jovem e o velho, o patrão e o servo terão sempre igual acesso
ao meu coração. O vosso bem será o meu e as vossas penas serão também as minhas.
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Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu
possa dar a vida por vós. Não ignoro a gravidade do peso que lanço sobre mim, já que, como
pastor, mestre e médico das vossas almas, terei de velar por vós, instruir-vos e corrigir-vos;
defender os oprimidos sem prejudicar os opressores, reprovar o erro sem censurar o que erra,
condenar o escândalo e o pecado sem deixar de ter compaixão pelos pecadores, procurar os
transviados sem encorajar o vício: numa palavra, ser ao mesmo tempo pai e juiz. Mas resigno-
me a isso, na esperança de que todos vós me ajudareis a levar este peso com júbilo e com
alegria em nome de Deus.
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Sim, antes de tudo confio no teu trabalho, reverendo padre e meu caríssimo vigário-geral: em
ti, que foste o primeiro que me ajudou nesta obra da missão para a regeneração da Nigrícia e o
primeiro que arvoraste o estandarte da santa cruz no Cordofão e ensinaste àqueles povos os
primeiros rudimentos da fé e da civilização. E também confio em vós, estimados sacerdotes
irmãos meus e filhos neste apostolado, uma vez que sereis os meus braços na acção de dirigir
pelos caminhos do Senhor o seu povo e ao mesmo tempo meus anjos conselheiros. E
igualmente confio em vós, veneráveis irmãs, que com mil sacrifícios vos associastes a mim para
colaborar comigo na educação da juventude feminina. E do mesmo modo confio em todos vós,
senhores, porque sempre querereis confortar-me com a vossa obediência e docilidade às
afectuosas insinuações que o meu dever e o vosso bem me aconselhem a fazer-vos.
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Quanto a si, ilustre representante de S. M. I. R. A. o imperador Francisco José I, nobre
protector desta vasta missão, enquanto com prazer lhe agradeço quanto fez até agora por ela,
apresso-me a exprimir-lhe a esperança de que quererá continuar a render gloriosamente a
homenagem da espada à cruz, a defender os direitos da nossa religião divina, no caso de serem
ignorados e espezinhados.
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E agora é a vós a quem me dirijo, ó piedosa Rainha da Nigrícia, e, aclamando-vos como Mãe
amorosa deste vicariato apostólico da África Central entregue aos meus cuidados, atrevo-me a
suplicar-vos que nos recebais solenemente sob a Vossa protecção a mim e a todos os meus
filhos, para que nos guardeis do mal e nos dirijais para o bem.
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Ó Maria, Mãe de Deus, o grande povo dos negros dorme ainda na sua maior parte nas trevas
e sombras da morte: apressai a hora da sua salvação, aplanai os obstáculos, dispersai os
inimigos, preparai os corações e enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão
infelizes e necessitadas.
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Meus filhos, eu confio-vos neste dia solene à piedade dos Corações de Jesus e de Maria, e,
no acto de oferecer por vós o mais aceitável dos sacrifícios ao Altíssimo Deus, rogo
humildemente que seja derramado sobre as vossas almas o sangue da redenção, para as
regenerar, para as sarar, para as embelezar na medida da vossa necessidade, a fim de que esta
santa missão seja fecunda para a vossa salvação e para a glória de Deus. E assim seja.

P.e Daniel Comboni

Original árabe, traduzido para italiano pelo P.e Carcereri


Tradução do italiano