Você está na página 1de 69
NA SALA COM DANUZA DANUZA LEÃO EDITORA SICILIANO 1992 Sumário Prefácio, 7 apresentação, 9 Introdução,11 Os assuntos,17 Dinheiro, 23 Amizades, 31 Apresentando pessoas, 41 Ceral, 47 Na mesa, 59 Beleza, 69 Correspondência, 75 O telefone, 81 Viagens, 87 Hospedar,101 Festas, 111 Trabalho, 121 O rumo, 139 Os solteiros,145 O mundo gay,153 Noivados e casamentos ,157 Morando junto,163 Banheiro,173 Gastronomia,177 O bar,185 Ressacas,189 Um brunch,195 Bichos, 201 Mães & crianças, 205 Prefácio É longa a trajetória das pessoas que nunca se conformam, que não concordam com o estado das coisas. Danuza Leão, como os grandes inconformados, prefere a acidez da verdade, para depois cercá-la de bom humor. Com muita energia, ela sempre brigou por tudo, para de tudo poder gostar com energia ainda maior. Em muitas ocasiões ela se achou, com seus gostos, só, justamente por nunca ter feito parte de nenhuma maioria. Percorreu um longo caminho de escolhas certas e erradas. E por isso mesmo viveu sempre melhor que muita gente. O suficiente para poder enumerar - com o sense of humour de uma globetrotter - o que distingue o bom gosto do meramente banal. As escolhas -estéticas, sensoriais ou afetivas -determinam a qualidade da vida que se leva. São uma depuração permanente, que conduz ao aperfeiçoamento do gostar: o objetivo, afinal, de toda atividade movida pelo coração. E é precisamente disso que se trata aqui. O livro de Danuza é um gentil achado de gostos, preferências e distinções, ditadas primeiro pelo coração grande e ruidoso que ela tem. E segundo, e não menos importante, pelo agudo senso de individualismo que desenvolveu. Essa percepção torna preciosas e plenas as escolhas de Danuza. No falar, no sorrir, no vestir-se, no comer, no morar. Sobretudo no conviver. Para tudo isso existe um tom que não é o dos livros de etiqueta nem o das cartilhas de rebeldia. Achar esse tom custou a Danuza alguns anos de trombadas (que ela distribuiu sem a menor cerimônia), muito tempo em buscas afetivas, uma boa dose de decepções com as bobagens mundanas e, acima de tudo, muito romantismo e muito bom humor. São, aliás, os dois pólos deste livro de savoir vivre. A cada conselho, Danuza não consegue esconder o arfante sorriso da romântica sempre à espera da valsa no final. E a cada sugestão de conduta, o leitor não vai conseguir segurar o riso solto que - mais que vestidos, pratos e belezas - ela sempre fez questão de exibir e provocar nos outros. Não que tenha sido esse percurso apenas o deleite ditoso e despreocupado de quem vagou à procura da melhor bolsa no Hermes ou do melhor prato em Marrakech. Danuza passou por momentos maus e deles tirou uma tranqüila sabedoria. Aquela que abre nela mesma - e tenta abrir nos outros - a doçura da alma e as emoções do afeto. Renato Machado Apresentação O telefone tocou, Danuza propôs fazer um livro sobre barbarismos e barbaridades que ela não agüentava mais ficar calada. A leoa queria rugir. A leoa queria enumerar delicadas delícias de uma gramática comportamental, destilada após anos de filosofias e bobagens. Neste reino da farola, só Danuza pode servir de indicador do comportamento: há décadas ela é ponta-de-lança de acontecimentos fervilhantes, vulcânicos e estrondosos. Só o seu nome destrincharia qualquer charada social, política ou sexual do Brasil que vai de JK a PC. Nada de mais para uma personagem tão tão como ela. De manequim ousada nos anos 50 à avó destrambelhada do ano 2000, muito champanhe rolou, muita tolice foi ouvida, inúmeras cenas fortes radiografadas e, naturalmente, um acúmulo luxuoso de situações arquivou-se na cachola de Danuza Leão. Essa intrépida mulher não pretende sossegar tão cedo. Podem os céus desabarem colinas sobre sua cabeça, podem as águas do Atlântico avançarem sobre seu apartamento carioca, mas ela permanecerá impávida no colosso e tirana até o osso. Danuza é assim: danada. Danuza foi assim: linda. Danuza continua linda e assim: a mais ligada das desligadas. Sabe de tudo. E finge, disfarçada sob a juba, que nunca viu, nunca ouviu ou nunca soube de nada. Elegância é assim, garotos. Inicialmente eu seria uma espécie de ghostwriter do livro, porque Danuza garantiu que não escrevia nem bilhete para a faxineira. Grande mentirosa. Na seqüência, ela comprou uma máquina de escrever e preparou em menos de 20 dias o texto estrutural que deveria ser refeito por mim. Eis que de repente, não mais que de repente, surgiu daquela maçaroca de laudas uma autora engraçada, com estilo e inventora de uma pontuação semelhante aos pensamentos de Andy Warhol. Um, dois, três: Danuza escreve bem. Salve lindo pendão da esperança. Poucas coisas foram alteradas no texto final de Danuza. Juntos, arrumamos os capítulos, editamos assuntos, enxugamos algumas vodkas e gargalhamos. Situações reviradas, tristezas lavadas e bobagens ultrapassadas. As consultas foram várias: até alguns livros de Elsa Maxwell vieram à tona para que nada se perdesse nas gafes imemoriais. Talvez com a função de servir de antídoto, Na sala com Danuza sai no momento mais mal-educado do Brasil. De uma coisa se pode ter certeza: é um livro que não corre em busca do tempo perdido, nem da migalha do pão derrubada sobre a mesa. Ao contrário, Danuza inventou um jeito de salpicarglamour na burrice social dos últimos tempos. `1'alvez estes, aliás, dêem muito laquê e pouco humor. Danuza é antes de tudo uma forte. Danuza antes de tudo é uma garota elegante perdida entre orangotangos de blachtie. Eduardo Logullo Introdução Se você acha que este livro é um tratado sobre etiqueta, errou de livro. Para aprender a etiqueta tradicional, é só escolher qualquer dos títulos que existem no mercado, todos excelentes e absolutamente iguais. Este livro é resultado de como eu vejo certos procedimentos, como me parece que devemos nos comportar diante de certas situações, as tradicionais e as mais insólitas, com presença de espírito e bom senso. Para escrevê-lo, andei lendo livros brasileiros e estrangeiros, e achei curioso que as regras sejam quase sempre as mesmas, à exceção de alguns regionalismos. Longe de mim querer criar polêmica. Mas me sinto no direito de propor outras soluções, sem com isso afirmar que sejam as mais corretas. Com bom senso, insisto, liberdade e às vezes contrariando "o que ficou combinado". Sinta-se livre você também, para com gentileza fazer como sua cabeça e seu coração mandarem. Autoritarismo também em etiqueta? Nem pensar. Este livro quer facilitar a vida de uma tribo que trabalha, tem dinheiro mas não muito, deseja saber das coisas mas não tem tempo nem paciência para decorar regras. Gente que divide contas ezzi restaurantes e que, quando vai passar o fim de semana em casa de amigos, combinam "cada um leva o quê". Nele não se ensina como se beija a mão de uma senhora, como se dobra o cartão de visita, se o pai da noiva fica à direita ou à esquerda do altar. Quem quer aprender isso, como já disse, deve comprar outro livro. Desmistificar. Guardar algumas regras imutáveis do bom convívio social e jogar fora, sem hesitação, um monte de coisas que já não têm razão de ser. Resolver situações que há 2000 anos não existiam. As boas maneiras tornam a vida mais agradável, sim, mas não deixe que as regras rígidas da etiqueta sejam um tormento em sua vida. Tortura, nunca mais. Descomplicar. Mostrar que, mesmo com pouco dinheiro, sem pertencer a família tradicional, tudo se pode aprender. Ser gentil, elegante, viver de maneira charmosa, gostosa, fascinante. Não é possível que, quase no ano 2000, ainda se fale em guardanapos de organdi: quem vai lavar e engomar esses guardanapos? Quando vejo um na minha frente, fico paralisada, nem toco, com pena de sujar. Mas não é disso que quero falar; e de pessoas que podem criar um clima alegre, caloroso, simpático, até mesmo sofisticado, usando uma pilha de guardanapos de papel, grandes e coloridos. Boas maneiras, gentileza, cortesia. Quando em excesso, claro que e artificial, é apenas uma pessoa representando o papel de bem-educada. É fake, não engana ninguém. É aquela que nunca deixa de mandar tlores nos aniversários, Natal, todas as datas convencionadas. É a profissional (as datas sempre lembradas pela secretária, que tem uma agenda apenas para isso). Só que, no terreno das amizades, dos afetos, pede-se menos profissionalismo e mais calor humano. (Por que nunca me mandaram flores no dia 6 de maio? Ou em 22 de outubro? E por que essas datas? por nada apenas por ter sido lembrada gratuitamente nesses dias. Eu teria adorado.) Entre essa forma de educação, que me mata de tédio, e a educação a que me refiro, há um abismo. Claro, nem por isso vamos deixar de seguir as regras que aprendemos em criança e que ajudam a tornar mais agradável e possível o convívio entre as pessoas. É importante dizer não a certas convenções, certas formalidades. Mas só as pessoas naturalmente educadas conseguem fazê-lo com propriedade. Em comportamento, prepare-se, há milhões de `dependes' . Não existem duas situações iguais, o assunto é inesgotável. A cada vez que eu, escrevendo este livro, me perguntava como agir, me via começando com um `depende' . Tenha coragem e independência para fazer o que você gosta, as coisas em que você acredita. Esteja sempre pronto a ajudar quem cometeu uma gafe. Que essa ajuda surja como um reflexo, como quando você vê alguém escorregando na rua e, sem pensar, corre para ajudar. E nunca se aproveitando do fato de, por saber mais, fazer a pessoa se sentir ainda pior do que já está, depois do erro cometido. Afinal, mesmo no peito de quem não conhece etiqueta, também bate um coração. Claro, no mundo oficial as regras são obrigatórias. Mas nós sabemos do tédio que é a vida nesse mundo. A obediência cega a essas leis jamais proporcionou a ninguem um só momento de alegria ou criatividade. Terminei de escrever este livro pensando no quanto o Brasil anda mal-educado. Da vulgaridade à grosseria, os homens que dirigem nosso país se tratam - e nos tratam - sem o menor respeito. É possível que a boa educação tenha desaparecido dos nossos costumes? Ninguém respeita ninguém, os códigos desapareceram. Tudo se nivela, mas por baixo. Não será esse o momento de pensar em conviver mais educadamente com nosso semelhante? Um sorriso , segurar a porta para o outro passar significam a mesma coisa, aqui ou em qualquer lugar do mundo. Se tratada com gentileza, a pessoa, por um instante que seja, se sente especial, e isso a faz não se sentir assim tão só. Há alguns procedimentos que amenizam as relações entre os homens. Já a polêmica grosseira, as discussões barulhentas, os insultos, as agressões, são golpes mortais na arte de conviver e, indiretamente, ao bom funcionamento da democracia (para não falar do péssimo exemplo que dão aos cidadãos). O culto aos grosseiros yujepies felismente está acabando. A verdadeira cortesia é pensar primeiro no outro antes de pensar em si mesmo. Se duas pessoas querem passar por uma porta estreita, vai ser preciso que uma dê lugar à outra. Isso é cortesia. Se estendo a mão com um sorriso, o outro também estende a sua e me retribui o sorriso. As pessoas se imitam. Se eu te trato mal, você também me trata mal. Continuamos a nos imitar. O uso da cortesia é uma maneira de evitar o caos. O mundo está cada vez mais povoado e, quanto mais gente existir, mais necessitamos da boa educação. Nunca pertenci a nenhum grupo, sempre pertenci a muitos. Esse é o lugar que escolhi para mim. Para os mais formais, devo parecer uma espécie de ET Para os mais jovens, méio careta. É no que dá, pertencer a tantas gerações. Faço parte de uma tribo longe de qualquer tradição ou preconceito, de meio social indefinido, uma pessoa com idéias próprias, um certo bom senso. E que, mesmo defendendo as belas maneiras, dá mais valor à ética nas relações do que a qualquer procedimento tido como civilizado. Às vezes me pergunto por que inventei de escrever este livro. Para ser sincera, não é sempre que faço tudo como o livro diz. Quando acordo com a Receita Federal ao telefone me cobrando um recibo de 1989, o banco dizendo que o cheque ainda não foi compensado e o porteiro avisando que a bateria do carro arriou; aí, a Telefônica me deixa 20 minutos escutando uma musiquinha irritante, o tranqüilizante acabou e só com receita, sinceramente: será que nesse dia vou segurar a porta do elevador para alguém? E se, depois do livro publicado, começarem a me cobrar um comportamento irrepreensível? Logo de mim, que às vezes sou tão malcriada? Não sei. Mas também não devemos levar as coisas tão a sério. Vamos procurar ter boa vontade conosco e com os outros. Compreender que às vezes as pessoas não agem como deveriam, acontece. Ria de você mesmo, quando fizer uma bobagem. Depois de ler um artigo de Millôr sobre o assunto, resolvi deixar o texto quase tal como foi escrito, misturando `você' com `tu', e pronto. Não custaria nada mudar as concordâncias, mas não é assim que falo, aliás ninguém. 'Também às vezes me dirijo aos homens, outras vezes às mulheres. Vocês vão entender, claro. Não gostaria de dirigir o livro a um só sexo, já que existem tantos. Este livro pode até passar por superficial. Mas o que procurei, mais que tudo, foi, com algum humor, resgatar a verdadeira delicadeza entre as pessoas. Gentileza não é artigo de luxo, mas sim de primeira necessidade. assuntos Os estatutos do salão Assuntos são estruturas que sustentam diálogos ou são fàíscas que provocam blaclzouts imediatos. Assuntos são fios de correntes elétricas perigosas e que precisam ser conectados no plugue exato. Assuntos são vírgulas no ar, exclamações na cabeça e sorrisos nas bocas. Assuntos são contatos imediatos ou declarações de guerra. Assuntos são cerejas ou bueiros abertos na calçada. Assuntos são ciladas ou atalhos. Assuntos são orações ou pragas. Assuntos são música. Ou, silêncio, por favor. Os assuntos Citando Goethe, "na sala, debatiam-se idéias, enquanto na cozinha falava-se de pessoas". Preste atenção nisso. A primeira regra de um causeur é saber ouvir. Não conte histórias muito longas. Dê chance ao outro de expor as idéias dele. Se você não domina o assunto que está sendo debatido, ouça com atenção, faça perguntas. Pode ser uma bela maneira de ampliar seus conhecimentos. Seja atento, curioso, interessado. Nada pior que ouvinte distraído. Faça como Jô Soares quando está entrevistando. Exibir erudição é pedante e antipático. Se você for mesmo muito culto, finja ser apenas médio. Seja modesto. Evite falar de negócios em festas, apesar dessas ocasiões serem ideais para fazer contatos. Se for o caso, marque um novo encontro para prosseguir o business iniciado. Médicos em festas costumam gerar uma roda de hipocondríacos. Não aproveite o encontro casual para fazer uma pequena consulta. Receita infalível, se você for o médico: com a cara mais séria, diga: "Dispa-se". Deixe para contar gracinhas sobre seus filhos quando estiver numa reunião de mães. Com certeza elas ouvirao tudo com atenção, para depois poderem contar as gracinhas dos seus próprios. Como você sabe, na vida, quase tudo é troca. Dropping names: você conhece essa expressão? Literalmente, quer dizer jogar nomes (na conversa). Explicando melhor: trata-se de pessoas que, no inicio de uma conversa, casual, muito casualmente citam "quando Gianni me disse", se referindo a Gianni Agnelli, presidente mundial da Piat. Ou "eu e Santiago almoçávamos juntos todo sábado", falando do saudoso Santiago Dantas. Essas pessoas sabem tudo, absolutamente tudo, sobre a vida dos ricos e importantes do mundo inteiro. Não se trata de fofoca. Apenas querem mostrar uma intimidade que não têm com os poderosos do mundo. Poderosos social e financeiramente. Me mata de cansaço gente assim. Apesar de serem pessoas inteligentes, nessa hora baixa nelas a burrice de achar que ninguem está percebendo nada. Lamentável. E chatérrimo. Cuidado com o uso de expressões em outras línguas. Pode haver quem desconheça e aí fica indelicado. Também falar demais de pessoas e lugares importantes aos quais o comum dos mortais não tem acesso, mesmo sendo verdade, é antipático. Afinal, nem todos têm a chance de ser tão viajados, bem-relacionados, cultos, inteligentes e brilhantes como você. Encontrando um velho amigo, resista às reminiscências. "Lembra de fulano?" "Que fim levou sicrano?" Perguntas que costumam terminar em depressão brava. Evite comentar sobre seus sucessos com quem está em má fase. Sobre seu maravilhoso trabalho com quem está desempregado. Sobre seu estonteante namorado com quem está sem nenhum. Além de indelicado, pode atrair olho grande. Pintou baixaria e começaram a falar da vida dos outros. Mal, naturalmente. Procure não contribuir para que o assunto floresça. Mas como ninguém é Madre Teresa de Calcutá, pode ser que você tenha uma novidade daquelas irresistíveis. Mesmo assim, lembre-se: um fato comentado entre duas pessoas é uma coisa, mas numa roda tem peso maior, é bem mais grave. Assuntos ferinos incendeiam, não se pode negar. Mas não chegue ao ponto de preferir perder o amigo à piada. Palavrões. Há quem tenha o dom de dizê-los e parecer que estão falando de flores, enquanto em certas bocas viram palavras de baixo calão mesmo. Se você não sabe ao certo em que categoria se encaixa, melhor não arriscar. Vai contar uma história e sentiu que, exagerando, fica melhor? Vá em frente, sem o menor pudor. Nada é mais chato do que ouvir uma história pela segunda vez. Cuidado. Ria muito das histórias que são para rir, mesmo não achando muita graça. Desperte o ator que há em você. Procure ser bem-informado. Leia vários jornais, boas revistas. Leia os livros mais recentes, releia os clássicos. Mesmo superficialmente, saiba o que acontece na política, moda, artes e afins. Inteligência, charme e simpatia salvam uma festa, enquanto baixaria e maldade são intoleráveis. Mas, se o assunto começar a cair, o remédio mais fácil continua sendo: sexo, drogas e rock and roll. E corrupção, claro. Não seja radical em suas opiniões. Tenha flexibilidade para mudar, se ouvir uma melhor que a sua. Também discorde. Se todo mundo estiver de acordo, morre o assunto. Não fique só no eu, eu, eu. Para isso, pague uma sessão de análise. Cuidado com o excesso de sinceridade. Defenda a monarquia com veemência, às vezes, só para provocar. Se quiser que o mundo saiba de uma determinada história, escolha a pessoa certa, conte e peça segredo absoluto. A graça, o humor devem acontecer na hora, espontaneamente. Daí o pavor que é, numa mesa, um contador de anedotas. Evite, evite. Mesmo que a piada seja ótima. Dinheiro A verdadeira fonte da juventude ou o combustivel do planeta ou dinheiro: essa coisa misteriosa que compra até o amor proprio Tutu, grana, largent, bufunfa, cobres, níqueis. Ah, o dinheiro. Aqueles aparentemente inocentes pedaços de papel são capazes de revestir de alegria uma situação, assim como podem transformar tudo em um devastador vendaval. Ter dinheiro é ótimo. Não ter é um problema, os monges trapistas que me perdoem. Dinheiro: palavra doce e complicada. Emprestar, pagar, usar, adiantar, roubar, esconder, exibir, conter, rasgar. Com qual verbo você prefere conjugar os cifrões? Dinheiro, saidas Houve um tempo em que falar de dinheiro era feio, mas atualmente quase não se fala em outra coisa. Então, vamos lá? Nos dias de hoje é perfeitamente natural que se telefone para um amigo, amiga, dizendo: "Vamos jantar, eu, Simão, Antônio, cada um paga o seu, quer vir?" Depois dessa primeira vez, já fica estabelecido que as contas com esse grupo serão divididas, e não se fala mais nisso. Mas quando telefona um amigo tipo rico, e te convida, não se mexa. É distribuição de renda. No caso de sair um grupo tipo "cada um paga o seu", na hora de fazer as contas, a pessoa que não bebeu paga menos, claro. Quem estiver fazendo a divisão deve dizer: "Eduardo, que não bebeu, paga tanto". Se você sai pela primeira vez com um rapaz e ele pergunta onde você quer ir, peça a ele três opções, aí você escolhe uma delas. Quando a conta chegar, cabe à mulher propor dividir. A partir da reação do homem, você insiste ou deixa pra lá. Não aproveite a situação para fazer um discurso sobre a igualdade dos sexos, etc. Se, afinal, não dividiram a conta porque ele não deixou, você pode sempre dizer: "Então, por hoje, tudo bem, mas a partir de agora, a gente divide, combinado?" Se o cavalheiro ainda assim disser "não, imagine", então você esquece e pronto. Se você, mulher, quer retribuir quem sempre te convida e não tem condições para fazê-lo em casa, convide para um restaurante, combinando antes com a direção, o gerente, que no dia seguinte você passa para pagar. Se isso não for possível, deixe o cartão de crédito ou um cheque com o maitre antes do jantar e, na hora de ir embora, simule uma ida ao toalete para assinar. Leve sempre na bolsa dinheiro suficiente para poder voltar para casa sozinha, se for o caso. Às vezes é. Quando ele perguntar "o que você vai beber?" devolva a pergunta com um "e você?" Bem prático. Se sua namorada tem mania de só beber champanhe, seja indulgente. Talvez ela não tenha bebido o suficiente em criança. Se o cavalheiro disser "aqui tem uma pizza ótima", não hesite, diga que você adora pizza e peça. Se você está a pé e a moça vai te buscar no carro dela, na hora de voltar, você deve levá-la até em casa. Se ela disser que não precisa, etc., ainda assim insista. Se ela for mesmo inflexível, será gentil de sua parte, apesar de inútil, dar um tempo e telefonar para ver se ela chegou bem. Se nenhum dos dois tem carro, podem marcar direto no restaurante, mas que o homem seja pontual, chegue até uns dez minutos antes, para não deixá-la sozinha esperando. Se você convidou alguém para o restaurante, jamais, jamais mesmo, faça qualquer comentário sobre o preço de qualquer prato. Nem para dizer que é baratíssimo. Se você quer ser mesmo muito elegante, vá logo dizendo: "Você não quer uma lagosta?" É um risco, claro, ela pode aceitar. Mas, se ela for tão elegante quanto você, poderá responder: "Olha, não vou querer porque para mim lagostas só no Palm em Nova York." Chapeu para os dois. Comentários sobre preços de restaurantes só são permitidos quando se está a uma distância mínima de 15 00 quilômetros. Se você convidou, não vá anunciando que não precisa trazer o couvert, nem sugira dividir o prato alegando que está sem fome. Não pense que as pessoas são idiotas. Todo mundo percebe e isso não fica nada bem para você. Se o restaurante está acima de suas posses, é simples: não o freqüente, existem muitos outros, mais de acordo com o seu padrão, onde você poderá se comportar mais elegantemente, sem preocupação com a conta. Estando no carro da moça, pague sempre o estacionamento e o manobrista. Recebendo dinheiro, seja no sua mãe, conte. Conte na hora resolve-se na hora. Se não se mais. Quando é você quem está guichê de um banco, de sua maior amiga, de e na frente da pessoa. Se houver engano, resolve na hora, não se resolve nunca entregando o dinheiro, insista para que a outra pessoa confira. Se amigos se encontram casualmente num vernissage, por exemplo, e resolvem jantar juntos, é claro que essa conta é dividida. Afinal, ninguém convidou ninguém. Basicamente, a coisa funciona assim: quem convida deve estar preparado para pagar. E quem foi convidado, para dividir. No caso de ter um namorado que paga sempre todas as contas quando vocês saem, mesmo que ele seja rico, proponha às vezes que venha jantar na sua casa. Se não der, porque você mora com a fàmília, etc., que seja na casa dele. Encomende um jantar num restaurante e chegue já com tudo em cima, é bem gentil. Se o grupo combinar de jantar num restaurante e você estiver absolutamente dura, coma um cachorro-quente em casa antes de sair e na mesa peça um chá, alegando uma terrível gastrite ou úlcera; também vale dieta. Quando for levar sua dama em casa, dificilmente vaga para estacionar seu carro e acompanhá-la até correto. Mesmo assim, espere até que ela entre no partida no carro. Até arrisque uma vaga dupla, se perigoso (e que lugar não parece?). Tenha certeza total segurança, antes de ir embora. você vai encontrar uma a porta, como seria o prédio para dar a o lugar parecer meio de que ela está em Amizades "Coisas para se guardar do lado esquerdo do peito" Pra início de conversa, a maioria das pessoas consegue sobreviver até sem romances ou namoros, mas não sem amizades. Pode existir sensação mais confortadora do que uma agenda telefônica coalhada de números confiáveis? As amizades, portanto, são essenciais para manter um funcionamento regular dos neurônios. Só que conservá-las exige técnicas, minúcias, delicadezas, concessões. (Quarde seus amigos como o mais raro dos vinhos. E saiba que quanto mais tempo, etc. e tal... Sagradas as amizades. E o que é necessário para que duas pessoas sejam amigas? Algumas afinidades, uma ética rigorosa no comportamento, uma lealdade inquestionável. E, o mais importante, aquela coisa que não se define, nem na amizade nem no amor, que não se sabe por que acontece: o gostar. Nunca fale mal de um amigo, nunca critique. Não revele jamais uma confidência. Aceite o amigo como ele é. Se a maneira dele ser te incomoda, afaste-se. Conviver e ficar falando mal, qual é a sua. Lembre-se de que com os amigos deve-se fazer como fazem os bancos: recadastrar periodicamente. As pessoas mudam, e às vezes para pior. Se seu amigo cometeu uma supergafe e você acha que ele gostaria de ser corrigido, para aprender e não repeti-la, corrija. Mas na intimidade, só vocês dois. Nunca conte a ninguém o erro que ele cometeu, nem que foi você quem ensinou o procedimento correto. Seja discreta. Se você perceber que sua amiga não está contando alguma coisa da vida dela, em primeiro lugar ninguém é obrigado a contar tudo a ninguém. Quem sabe você foi indiscreta e ela soube? Se você descobriu - sem sombra de dúvida - que sua amiga e confidente se fez de mais do que engraçadinha com seu marido - em alguns casos vale também para ex-marido -, corte direto, sem perdão. Já que você não pode matá-la, o que seria o ideal, rompa, ignore-a, nunca mais cumprimente. Há certos crimes que não prescrevem e traição de amiga é um deles. De marido é menos grave, acredite. Até porque eles acabam contando. Em briga de casal, ouça, se for o caso, e procure ser o mais neutro possível. Nem pensar em dizer: "Bom, já que as coisas estão nesse pé, vou te contar", etc.  conta. Nunca faça isso. Quando eles reatam, sobra para você. Não revele pormenores de seu namoro para suas amigas. Um dia, uma delas pode usar tudo que ouviu de você para seduzir seu namorado e até fazer uma bela intriga, contando o que você, num momento de fragilidade, contou para ela. Tem gente assim, viu? Cuidado. Às vezes a vida separa as pessoas. Marido novo, interesses novos, acontece. Se sua amiga, que vivia em discotecas, vira zen, mesmo que a amizade permaneça, o assunto acaba, claro. Mesmo que você fique triste, procure entender. O gostar não inclui necessariamente a convivência. Se vocês se gostam mesmo, podem um dia se reencontrar e tlcar tudo como era antes, sem cobranças do tempo em que não se viram nem se procuraram. É tão bom amizade assim. Nunca faça perguntas sobre assuntos pessoais. Se o outro quiser falar, ouça e fique quietinha. Não indague sobre afetos, casamentos, situação financeira, vida sexual, etc. Um cansaço, aquela amiga que se lembra mais de sua vida que você mesma. Em detalhes. E que não só lembra, como insiste em falar, quando tudo que você quer é precisamente esquecer. Amigas devem ter pouca memória sobre nossa vida. Adoro a história de alguém que, perguntada sobre quem era sua melhor amiga, respondeu: "Depende. Para falar de moda, Susana. De receitas, Joana. De doenças, empregadas, Marina. Para viajar, Regina. De problema de filho, Odete. De namorado, Ana. De dieta, Márcia". Volto à tecla da indiscrição. Adoro aquela que vai logo avisando: "Se for para guardar segredo, nem me conte. Se eu não puder repetir, não tem a menor graça". Nunca tente roubar a empregada de sua amiga, essas coisas não se perdoam. Se você ouvir de um amigo "olha, vou te dizer uma ' verdade de que talvez você não vá gostar", responda sem hesitar: "Não me diga. Só quero ouvir mentiras que me façam muito feliz". Verdades, se você quer mesmo dizer , diga mas saia correndo. Não economize elogios. Se você acha uma pessoa bonita, um prato saboroso, uma casa aconchegante, diga, diga, diga. Dê prazer aos outros. Se um amigo te pedir um favor, nunca comente depois o trabalho que te deu, tudo que você teve que fazer para conseguir, etc. A pessoa fica te devendo - e nada pior do que esse tipo de dívida. Nunca fique amiga de ninguém só porque a pessoa é rica. Não convide para madrinha ou padrinho de casamento, de filho, etc. Dinheiro não é sarampo, não pega. Não perca tempo tentando se fazer de esperta, essa mistura não dá certo: Business and pleasure. Amigas que se mostram tão solidárias nas horas difíceis deviam fazer um esforço para também o serem nas horas do sucesso, do êxito. É engraçado. No decorrer da vida surgem algumas mulheres que te perseguem, são fixadas, sei lá. Ou imitam a maneira de você se vestir, ou sua personalidade, ou vão atrás dos homens que são - ou que já foram - seus. Conversando um dia com um amigo, analista sério, ele me disse: "Quem sabe, no fundo, isso não é paixão por você?" Sabe que pensando bem pode ser verdade? Cruzes. Empréstimos Não é a qualquer pessoa que se pode pedir alguma coisa emprestada. Há pessoas que não gostam, e essas pessoas geralmente nunca pedem nada. Melhor não pedir. Antes de emprestar, avise que você empresta numa boa, mas que tem o péssimo hábito de querer de volta. Se houver perda ou dano, não conte; tente resolver o problema e chegar com o caso já solucionado. Jóias, coisas que podem quebrar, que não podem ser repostas, melhor evitar. O carro. Muito arriscado. Mas, se pedir, devolva lavado e com o tanque cheio. Sem ter recebido nenhuma multa nem atropelado ninguém. Um vestido, uma blusa, etc. (sapatos nunca). Faça uma vistoria, para que não volte com nenhuma mancha ou sem um botão, tudo tem que estar impecável. E devolva rapidinho. Não pense que livros, discos, filmes de vídeo, não precisa devolver. É claro que precisa. E na hora da devolução que tal oferecer um livro ótimo que você acabou de ler? Erilberto Braga, que empresta com o maior prazer, tem uma agenda onde anota o que emprestou, a quem e em que data. E cobra a devolução. Certíssimo. Tenho um outro amigo que, quando lhe pedem dinheiro emprestado, ele separa 20,00, e dá, dizendo claramente que é um presente. Assim, segundo ele, não perde o dinheiro nem o amigo. Falando em dinheiro: se você precisa mesmo pedir, diga no ato quando vai devolver. Se por infelicidade não puder pagar na data prevista, telefone, explique, marque outra data. Sobretudo não suma. E pague, claro. Não obrigue a pessoa a ter que pedir de volta o que te emprestou. Nada mais constrangedor. E mais: a displicente costuma fazer comentários tipo "mas que coisa, por causa de um simples livro". Pois é. É bom sempre tratar as pessoas da mesma maneira. Tratar melhor quando está precisando de alguma coisa e mudar o tratamento quando não está mais é uma vergonha. Quando acontece comigo (e acontece), fico péssima, me sinto usada, não tem sensação pior. Das amizades, fàltou falar do melhor: `daquela' amiga. Aquela para quem você telefona para discutir suas dúvidas, contar seus sucessos, seus fracassos. Na casa de quem você vai e se joga em cima da cama para conversar sobre se corta ou não a franja, a possibilidade de um novo trabalho, um fâ que pintou na véspera - ou despintou - enfim, tudo. Aquela que te dá força, é paciente quando você surta, te ensina uma receita, te dá altos toques. Aquela que se envolve, toma partido, compra suas brigas (raro, hoje em dia). Que sofre com você e sobretudo -sobretudo -vibre com seus sucessos. Que não te inveja. Aquela na casa de quem você pode pedir para tomar um banho porque está fazendo calor, que te ensina um novo truque de beleza, com quem você tem a liberdade de abrir a geladeira para ver o que tem de bom. E mais, mais importante do que tudo, aquela com quem você conta, incondicionalmente. Na lealdade, na ética, na amizade enfim. Você tem uma amiga assim Eu tenho. Bom ter você como amiga, viu, Regina. Apresentando pessoas Nunca pergunte o sobrenome da rainha Elizabeth Levanto? Sento? Dou três beijos ou aperto a mão? Sabe aquele abraço? E os tapinhas nas costas? Eu me chamo Danuza. Você tem caneta aí? Ah, onde foram parar aqueles cartões? Posso perguntar seu sobrenome? Acho que já nos conhecemos em outro lugar, ou não? Tenho certeza, sou boa fisionomista. Levanto, Sento? Com licença. Upa, desculpe. Você tem fogo? Levanto? Sento? Oi, tudo bem? Meu nome é e... Apresentando pessoas Quando leio: "O homem é sempre apresentado a uma senhora. Os mais velhos aos mais jovens, salvo o presidente da República ou altos dignitários da Igreja. O rapaz é apresentado à moça, a senhora ao cavalheiro muito idoso; o mais jovem não estende a mão antes que o mais velho o faça, o homem não estende a mão a uma senhora". Querem me enlouquecer. Leio, releio, me sinto uma idiota porque não consigo, simplesmente não consigo, lembrar e sincronizar tudo isso. E quem tem a precedência, um ministro do Supremo Tribunal Federal ou um ministro de Estado. Sei que vou mesmo ter que aprender essas regras tão tiranas , e, para a maioria das pessoas, tão inúteis? Já resolvi: não vou nem quero. Só vou contar para vocês como faço e, quem achar que estou certa, que me siga. Os norte-americanos são os mais práticos nesse item. Quando apresentam duas pessoas, vão logo dizendo: "Esse é Luís Henrique, grande arquiteto do Brasil, agora mesmo resolveu construir um shopping center no Acre, o pior é que pode dar certo. Já projetou um hotel no Pantanal, costuma passar férias numa ilha da Noruega, toma uísque em dois copos ao mesmo tempo, foi seminarista, tem horror a comida japonesa e não perde o festival de Salzburg". Em seguida ao longo prólogo faz o mesmo em relação à outra pessoa. Logo logo o outro (que também é norte-americano) estará perguntando o preço de seus projetos, o quanto ele makes a year, etc. O que poderia assustar um brasileiro é perfeitamente normal em outras culturas. Pecado seria, por exemplo, apresentar alguém, dando como referência, ter sido a e.z de fulano ou sicrano. A depender do tipo de pessoa, hora, local e idade, dá para apresentar informalmente, dizendo apenas o primeiro nome de cada um. Já pensou, num barco, as pessoas semidespidas e alguém dizendo "Jorge Guinle, José Duarte de Aguiar"? Bem mais de acordo, "Jorginho, Zé". Quando o grupo já está formado, basta apresentar quem chega dizendo: "Este é Jorginho". E com um gesto, mas sem apontar: "Lígia, Marcelo, Pinky, Roberto". Essa maneira vale para discotecas, estádios de futebol, autódromos, desfile de escola de samba, e por aí afora. Aliás, vira um exercício curioso. Quando não se sabe direito quem é quem, corre-se o risco de achar mais charmoso o marinheiro do que o dono da lancha... Quando apresentar duas pessoas, procure dizer alguma coisa tipo "vocês têm um amigo comum". Ou um hobby. Nunca uma namorada. Após duas da manhã, as apresentações costumam ser muito informais: "Você conhece essa gracinha?" Depois dessa hora, ninguém se entende mesmo. Se você encontra uma pessoa e percebe que ela não está te reconhecendo, nada de "lembra de mim; garanto que não está lembrando?" Vá direto: "Lembra de mim? Sou fulano e nos conhecemos em casa de beltrano em Paris". Caso contrário, seja franco, diga logo que você não é bom fisionomista, está esclerosado, e acabe com a tortura. Apresentando duas pessoas, a ordem é apresentar a menos à mais importante. Por exemplo: "Madonna, você conhece Rosane?" Tratar uma pessoa mais velha por você é uma coisa que, contrariando todas as regras, costuma alegrar muito o coração de um idoso. Quando você chega a uma casa, bar ou restaurante e encontra um grupo já instalado, não é preciso estender a mão ou beijar cada um. Dê um alô geral, e tudo bem. Havendo intimidade para um abraço e o abraço acontecendo, cuidado. Com os cabelos, o colar, os brincos, o decote, etc. Uma vez, recebi um abraço superafetuoso. Tão afetuoso que o dedo de quem me abraçava tocou, com todo o afeto do mundo, o ponto dolorido da minha coluna. Cada vez que vejo esse amigo sinto a mesma dor, e morro de medo de que a coisa se repita. Num casal, um dos dois é famoso e o outro nem tanto. Não cometa a indelicadeza de só dar atenção ao famoso. Um homem sempre se levanta para ser apresentado a uma mulher ou a um homem mais velho. Mas em restaurantes, bares e discotecas, ficam liberados do gesto - devido à falta de espaço -, bastando dizer "desculpe, não dá para levantar". Já as mulheres não se levantam nunca. Nem em apresentações, nem em cumprimentos. Só para uma anciã ou um cardeal, a menos que se esteja numa discoteca. Mas o que iriam fazer essas pessoas numa discoteca? O beija-mão. Óh, o beija-mão. Se você aprendeu em criança com seu pai, que beijava mão como ninguém, maravilha. Se não é o caso, fique na sua, observe muito, treine com sua irmã, prima, mãe, copie. Há muitas coisas que não se aprende num livro, e esta seguramente é uma delas. Aos de outra religião, nada obriga a beijar o anel de um cardeal ou do papa. Manda o protocolo que as pessoas se dirijam ao presidente da República chamando-o sempre de senhor presidente, V. Exe. Eu sempre chamei os presidentes apenas de presidente e senhor, e eles nunca reclamaram. Ai, o protocolo. Geral Como vencer na vida sem derrubar cinza no tapete persa Não pise no meu pé, não me cutuque, não grite, não bata a porta, não escorregue, não balance as pernas, não feche a janela, não dê milho aos pombos, não peça meu biquíni emprestado, não raspe o tacho, não se atrase, não espirre, não ronque, não me aborreça, não aumente o som, não minta, não puxe o tapete, não corra, não mate, não morra. Gentileza já! Se você estiver fazendo cooper e cruzar com um amigo que tenta parar para bater um papinho, não pare: cooper é coisa séria, não saia do ritmo. faça um sinal de "depois a gente se fàla" e vá em frente. Praia. Nunca fique pedindo coisas: óleo importado, protetor solar, cigarros, as horas, etc. Proteja-se dessas pessoas mais do que de uma insolação. Ou já chegue dizendo "que absurdo, sabe quanto paguei por esse óleo?" Nunca chegue em casa de ninguém sem avisar, a não ser que você tenha se sentido mal exatamente na porta da casa do seu amigo. Assim mesmo, interfone. Não tente passar na frente de quem está numa fila. De banco, cinema, casamento, missa, ponte aérea. Em alguns casos, você não só pode como deve dizer gentilmente, "acho que eu estava aqui antes de você". Ao visitar um doente, que a visita seja curta. Mesmo assim, só vá avisando antes e com a certeza de que será bem-vinda. Cuidado com os assuntos. Não peça detalhes da doença, exames. Não conte a história de uma enfermidade parecida, porém mais interessante. Para uma visita de pêsames, 0 minutos bastam. Mesmo que você perceba que sua presença está fazendo bem, espere que peçam para você ficar um pouco mais. Quando nasce uma criança, também seja breve. A depressão pós-parto existe. Não vá em grupo. Pouco barulho. Não toque no bebê, não peça para segurar no colo. A casa já está cheia de novidades, não é hora para entreter visitas. Não espere que te ofereçam mais do que um copo d'água. Não faça disso um programa. Não fume. Não fique contando histórias. Só há um assunto: o bebê e tudo que diz respeito a ele. O parto, as mamadeiras, fraldas, se chora de noite, se o umbigo caiu, se a mãe tem leite, se empedrou, etc. Quando terminar qualquer visita, espere que abram a porta para você. Não vá logo botando a mão na maçaneta. Sonhos? Só conte para o seu analista. Não descreva a batida de carro que você quase deu, mas que não aconteceu. Não conte o último assalto de que você foi vítima - ninguém agüenta mais. Quando te perguntarem "oi, tudo bem?" não engrene com um "ah, minha filha, com uma gripe!" e aí, os detalhes. Sobretudo, não diga o nome dos remédios que está tomando. Não boceje. Se acontecer e você não puder mesmo evitar, que seja em total silêncio. Tente, apertando a língua no céu da boca e, ao mesmo tempo, a ponta do polegar no dedo indicador. As freiras diziam ser infalível. Se não funcionar, mãozinha na frente da boca. Você deixou de beber ou fumar, que maravilha. Mas não precisa humilhar ninguem mostrando como você é forte, cheio de força de vontade. Seja modesto. Aceite um drinque, sim, vá botando água e mais água, mais gelo, finja que está bebendo, é.tão mais simpático. Ou faça como aquelas mulheres antigas, de cabaré. Tome chá com gelo e finja que é uísque. Se um amigo te pede um copo d'água, nunca sirva na bandeja. Entre amigos, nunca se usa bandeja. Nunca entre num aposento sem bater na porta antes. Se for no quarto do seu filho pequeno, ou no seu próprio, com o marido lá dentro, dê sempre umas batidinhas antes. Não se lê correspondência de outra pessoa. Nem se mexe na bolsa, ou se olha a agenda, ou a gaveta, ou se escuta uma conversa. Isso é invasão intolerável de privacidade. Respeite. o diário de sua filha, mesmo que ela tenha só cinco anos. Cuidado com o perfume. Se gosta de usar, seja muito discreta. Em alguns restaurantes da França, grupos com mulheres perfumadas, mesmo com reserva, o maitre inventa uma desculpa e não recebe. Em respeito ao paladar das mesas vizinhas. Perfume atrapalha quem está comendo. Um homem deve sempre ajudar a mulher que está carregando algum embrulho, a não ser que ele já esteja com as mãos ocupadas. Às vezes você encontra uma pessoa que não via há muitos anos, tipo colega de colégio. E leva um susto, tal o estrago dos anos. Dislárce a depressão que o encontro te causou e não deixe transparecer que você quase não a reconheceu. Não chegue muito perto nem toque seu interlocutor. Guarde a distância regulamentar de 50 centímetros. A não ser, claro, que já estejam a caminho do motel. Se espreguice muito, mas só na intimidade do quarto; ou quando acordar de um cochilo, numa rede, por exemplo. Aliás, cuidado com cochilos. Já pensou se você ronca? E como saber se você ronca? A não ser na mais completa intimidade, nunca tire os sapatos em casa de ninguém. Se tirar, que seus pés estejam impecáveis. Aliás, se não tirar, tambem. Se estiver viajando para o Japão, leve duzias de meias. Lá, tira-se o sapato o tempo todo para tudo. Quando encontrar uma amiga visivelmente grávida, cuidado para não dizer "não sabia que você tinha se casado". Talvez ela não tenha. Se alguém estiver com o zíper aberto, os peitos de fora, avise discretamente (correndo o risco da pessoa ficar com raiva de você ter estragado o número que ela preparou). Alguém vai jantar em sua casa. No dia seguinte te manda tlores, agradecendo. Se você, por sua vez, telefonar agradecendo, não vai acabar nunca a ladainha. Fique atenta e basta que, na próxima vez que se encontrarem, agradeça. Mas não esqueça. Homens merecem flores às vezes. Por que não mandar, no dia em que seu amigo está assumindo um cargo ou recebendo uma homenagem? Mas evite flores do campo, rosas vermelhas. Prefira orquídeas plantadas em vaso, por exemplo. Em enterros ou missas, não vá produzida. Não é necessário vestir preto, mas é imperdoável atacar de perua numa hora dessas. Missas e enterros não são festas, embora às vˆzes certos velórios sejam tão animados quanto, só faltando mesmo bebida, música, e alguém começar a dançar. Eu ouvi outro dia, na fila de uma missa, duas embaixatrizes conversando, uma dizia para a outra: "Ah, mas então seu ascendente deve ser Áries". E olha que eu estava uns dois metros atrás. Você encontra num jantar a coelhinha da Playboy do mês, aquela que foi pôster e que deixou você doidinho. Comporte-se. Não seja vulgar. Não trate a moça com intimidade, nada de piadinhas. Não seja grosseiro. Os tratados de etiqueta divergem, mas prefiro subir a escada na frente, e que na descida o homem vá primeiro. Nada me dá mais segurança do que um ombro masculino onde eu possa apoiar minha fragilidade, geralmente equilibrada em saltos altos. bbb Se cruzar con uma celebridade, tipo artista, e disser que o acha o máximo, a pessoa vai adorar. Mas pare por aí. Deixe-a em paz. Autógrafos, nem pensar. Cuidado com o profissional da perfeição. Ele não perde missa, casamento, batizado, aniversário, noivado, primeira comunhão, formatura, não esquece nenhuma data, manda fllores, telegramas, presentes. Enfim, não deixa você em paz. Nunca. Eu, positivamente, não agüento. Se a sua babá te convidou para ser madrinha de casamento dela, nada de ir simplesinha, com medo de chocar. Vá superelegante, foi para isso que ela te chamou. E não se esqueça de mandar de presente o mais caro dos eletrodomésticos. Foi para isso também que ela te convidou. Delicadeza é você não usar sua roupa mais deslumbrante quando sua amiga está mais para o simplesinho. E também não se espremer como uma salsicha dentro do seu tubinho mais apertado quando for sair com sua amiga gordinha. Ninguém deve pretender ser o que não é. Me lembra a história de um amigo francês que ganhou muito dinheiro e anunciou que ia comprar um castelo. Ao que o outro respondeu: "castelo, não se compra. Se herda". Se você se acha uma Paloma Picasso e acredita num batom vermelho, cuidado com os beijinhos, as golas, os guardanapos. Perguntar a idade de uma mulher é crime, só que ainda não previsto no Códigopenal. Ainda. Mas se ela revela e a juventude dela te surpreende, não assovie, comentando "mas ninguém diria". Óculos escuros. Todo mundo usa, de manhã, à tarde, alguns até mesmo à noite. É uma pena que poucos tomem o trabalho de tirar, na hora de um encontro. Um olhar pode significar tantas coisas. A televisão freqüentemente apresenta uma desumanidade a toda prova. Há anos assisto alguns jornalistas fazendo as mesmas perguntas, tipo "o que você sentiu quando a enchente levou sua casa com tudo que tinha dentro, matou sua mãe, seu marido e seus seis filhos? O que a senhora pretende fazer agora?" Juro que não acredito no que estou vendo e ouvindo. Repórteres de vídeo: sejam menos óbvios e mais humanos. Se você pegar um táxi com um amigo e ele entrar na frente, não tome isso como má educação, muito pelo contrário. Na verdade, ele teve o incômodo maior, que é o de quem entra primeiro. Talvez seja bom que ele diga: "estou entrando na frente para te facilitar". Elevador Subindo num elevador, o homem deve segurar a porta para as mulheres, os mais jovens para os mais velhos. Mesmo com pressa, ninguém vai perder mais de cinco segundos com essa delicadeza. Fumar em elevador nem pensar. É também aí que se percebe o perigo dos perfumes. Quando alguém se apressa para alcançar o elevador, segure a porta para esperar. Se alguém, gentilmente, te der passagem para entrar na frente, aceite logo, para não ficar aquele "não, por favor , depois de você". E agradeça. Ao entrar num elevador com ascensorista, agradeça, ou diga por favor, quando pedir o andar. Já pensou o que deve ser essa profissão, o dia inteiro trancado, subindo e descendo? Você pode estar conversando um assunto palpitante. Entrou no elevador, silêncio. Só retome o assunto depois de sair. Cinema, teatro Em cinema, teatro, não converse. Não mexa demais a cabeça, não fique aos beijos. Cuidado com o barulho do papel de bala, do saco de pipocas. Não jogue no chão, quando acabar. O que fazer? não sei, use sua criatividade. Se estiver com tosse, fique em casa tomando xarope, alugue um filme. Se o seu vizinho estiver fazendo tudo isso e te incomodando, troque de lugar, nada de discussões públicas. Num teatro, concerto, nunca chegue depois do espetáculo começado (mesmo em cinema, evite). Atrasou? Espere lá atrás e deixe para se acomodar no primeiro intervalo. Outra coisa: mesmo odiando, não saia no meio. Também nesse caso, espere o intervalo. No cinema, outra coisa que você não deve fazer é apoiar seus joelhos nas costas da cadeira da frente. Aliás, é uma pena, porque é uma delícia. Mas, e se a cadeira estiver vazia? Como resistir? Quando você tiver um encontro, de trabalho, de amizade, de sedução, nada revela melhor a importância que tem para você esse date do que a maneira como você está vestida, arrumada. Estar elegante, bem `apresentada', como se dizia antigamente, é sempre uma homenagem à pessoa com quem você vai se encontrar. Quando alguem lhe estende a mão, nunca recuse. A não ser, claro, que tenha fortíssimas razões para isso. Mas se essas razões existem, a outra pessoa sabe, claro. Então, por que estendeu? Seja senhor absoluto de sua vida. Faça dela algo de muito interessante - e que só pertence a você. E lembre-se: em qualquer setor, o problema não é o que se faz, mas como se faz. Respondendo a uma pergunta de José Simão, "quando tem blitz em boate, quem é que deve entrar primeiro no camburão, o homem ou a mulher?" Claro, meu querido Simão, que é o homem. É sempre ele quem deve correr todos os riscos, quando está acompanhado. E depois, quem sabe enquanto o homem está embarcando não dá tempo para ela sair correndo? bbb 60 A gente só percebe como os cotovelos são dobradiças tiranas na hora da mesa. Ah, os cotovelos. Portar-se bem à mesa requer algo além de saber onde enfiar os cotovelos, segurar os talheres ou usar o guardanapo. Se você não comer como um ogro, não cuspir arroz no parceiro nem tomar a sopa com sonoplastia de cinema mudo, saiba que nem tudo está perdido. Garçom, o menu por favor? Na mesa, no restaurante Entrando num restaurante, o homem toma a frente, para falar com o maitre, escolher mesa, etc. Também deve esperar a mulher se sentar e só depois se acomodar. Sentados, que nenhum fique olhando em volta, como se procurasse alguma coisa. De toda a atenção à pessoa que está a seu lado. Faça com que ela se sinta especial, única. A não ser que você seja colunista social, e a trabalho. Mesmo sem fome, peça alguma coisa, não deixe o outro comer sozinho. Cuidado com os cotovelos. Só os apóie na mesa quando não estiver comendo. Se cair água ou vinho na mesa, fique fria. Se for champanhe, molhe as pontas dos dedos e toque atrás das orelhas, dá sorte. Mas se derramar o copo inteiro e você perceber que vai cair no seu colo ou no chão, use o guardanapo para diminuir o tamanho da catástrofe. Depois, peça outro. Segure o copo de vinho ou champanhe pela haste, para não interferir na temperatura do líquido. A não ser que você esteja tomando um conhaque. Use os talheres começando pelos de fora. Se você cometer algum erro, não dê importância. Seus amigos delicadamente fingirão que nada viram. Afinal, há alguma coisa menos importante do que, um dia, usar o garfo errado? Tomando sopa, o silêncio deve ser total. Que se possa ouvir o ruído do vôo de uma mosca. Se a sopa vier num boul (taça, xícara grande com asas), no final, você pode levá-la diretamente aos lábios, sem a ajuda da colher. Cuidado para não deixar a colher dentro da taça, é horrível. Não se balance na cadeira. Não tamborile na mesa com os dedos. Mesmo que você adore comer, não se atire no prato como se estivesse saindo de uma greve de fome. Se você for mesmo um Pantagruel, coma uma coisinha antes de sair de casa. A não ser, claro, se for um jantar tipo Confraria dos Gastrônomos. Nesse caso, fique 72 horas sem comer, esperando o dia do jantar. Será que é preciso dizer. Não cncha demais a boca. Não mastigue de boca aberta. Não fale de boca cheia. Mas aprenda a falar com alguma coisa na boca desde que pouca. Ninguém vai ficar esperando que você mastigue, engula, e só então volte a falar. Treine em casa diante do espelho. Nunca aponte para nada com o dedo - só para as estrelas. Não gesticule nem converse com alguém do outro lado do restaurante. Peça licença e vá lá, se for o caso. Não coma nada com as mãos, a não ser alcachofras e aspargos (mas quando os aspargos vêm como acompanhamento de uma carne, tudo de garfo e faca). Mas pode e deve, em nome do prazer, atacar uma asa de frango, ou a batata frita que passou diante de seus olhos - é irresistível. Em churrascarias, vale uma costelinha. Lagostas, caranguejos nunca devem vir inteiros para a mesa. Só na beira da praia, com uma tabuinha e um martelo. Em rortaleza, de preferência. Se o seu garfo caiu no chão, que pena. Mas não se preocupe nem se abaixe para apanhar. Chame o garçom e peça outro. Quando você perceber que um caroço de azeitona ou uma espinha de peixe foram parar dentro de sua boca, fique frio. Passe discretamente para o prato, fazendo escala no garfo. Se você sentir que vai sufocar, não hesite, grite por uma ambulância. Ao levar uma porção à boca, que isso aconteça em cima do prato. Se por infelicidade alguma coisa escorregar do garfo, não cairá no seu colo nem no chão. Pão, ovos e saladas têm horror a facas. Por isso, nada de folhas de alface inteiras, o melhor é que já venham rasgadas (com as mãos - e mãos muito limpas). Quando for beber durante o jantar, passe o guardanapo levemente nos lábios antes de matar a sede. Palitos. Não devia nem falar, mas vou. Nem pensar, mas nem pensar mesmo. Só escondida, trancada no banheiro, luz apagada. Se estiver resfriada, não se esqueça de ter um lenço de prontidão. Não use, nunca, o guardanapo como lenço. Se tossir, mão na frente da boca. Se está assim tão mal, por que não ficar em casa lendo um bom livro? Quando se levantar da mesa, nunca dobre o guardanapo. Que fique bem claro que ele não poderá ser usado novamente se não for lavado e passado. Na salinha de um restaurante japones, não se comporte como se estivesse na praia. Às vezes vejo cenas em que: não acredito. Pelos trajes e posição dos corpos dos comensais penso que estou em Búzios, sinto até o cheiro do protetor solar. Nesses jantares orientais, aliás, verifique as meias antes de sair. Meia furada no calcanhar é de chorar. O macarrão. Espete uma porção com a ponta do garfo, encoste-a verticalmente no prato, enrole. (Entendeu alguma coisa) Observe os que sabem, quando estão fazendo alguma coisa que você não sabe. Ah, o macarrão: nunca ajude com a colher. Quando for beber, ou comer um pedacinho de pão, descanse os talheres. O molho que sobrou no prato. Se estiver mesmo maravilhoso, peça licença com muito charme ("Ah, não resisto! "), espete um pedacinho de pão na ponta do garfo e regale-se. [Na França, não precisa nem do garfo.) Afinal, é uma homenagem ao chef. Mas só faça isso quando houver uma relativa informalidade e, claro, não existir uma colher especial para o molho. Terminou, garfo e faca no prato, paralelos - cruzar, jamais. Antes da sobremesa, tudo que diz respeito aos pratos de sal deve ser removido. Mostarda, azeite, vinagre e cia. Não empurre o prato depois que terminar, é horroroso. Frutas. Para facilitar a vida, peça as que costumam vir já cortadas. Assim, ficam dispensadas as lavandas - pode ser melhor? Nunca deixe a colher dentro de uma taça de sorvete, xícara de chá ou café. Cuidado com o dedinho ao segurar qualquer xícara. Ou um copo. Se ele insistir em levantar, use um esparadrapo ou superbonder. Atenção: uma pessoa realmente elegante nunca se irrita se a mesa que lhe deram no restaurante não é a mais bem situada. (Claro, o lugar em que estiver sentada passa a ser automaticamente o melhor.) Também não exige tratamento especial do maitre. E trata tão bem os garçons quanto o gerente do banco. E outra coisa: fala com os garçons olhando para eles nos olhos. garçom é gente. Mesmo que você tenha um compromisso depois do seu almoço ou jantar, não fique olhando para o relógio, em agonia. Dá a impressão de que você está louco para ir embora. Mesmo que esteja, disfarce. Drama: como comer um sanduíche americano? Se você pretende permanecer com sua imagem intacta, não peça jamais. Com a mão, não dá. De garfo e faca, também não. Os únicos que você pode comer, na maior elegância, são os do hotel Imperial em Tóquio. De tão pequenos, tão delicados. Num restaurante, que sejam no máximo quatro pessoas. Mais de quatro é suplício, a não ser em mesas redondas. Se você já completou 18 anos, evite restaurantes e boates às sextas e sábados. Esses dias, para quem aprecia um certo conforto, são para ficar em casa, ou em casa de amigos. Se não resistir, vá, mas vista-se o mais simplesmente possível. Atenção: fale baixo. Em sua casa, na casa dos outros, em lugares públicos. É incrível o ruído que se ouve quando se entra em alguns restaurantes, sobretudo os não acarpetados. Me sinto num galinheiro. E os salões de beleza? Acho que é por isso (também) que não os freqüento. A insustentável leveza do toucador E aquela virtude que, felizmente ou infelizmente, põe a mesa. Tudo bem: alguns feios têm lá seu charme. Mas as criaturas belas parecem que foram contempladas com um tipo de magnetismo que pode ser `pior' que um ímã. Ninguém consegue olhar indiferente para o belo. A partir da beleza, sinto muito, mas até a burrice é perdoada. Portanto, manter-se bem fisicamente não passa de uma obrigação, de um abre-caminho, de uma maneira de se declarar que ainda existe muita joie nessa vida afora. Espinha ereta, barriga pra dentro, olhar sedutor e pronto: com beleza pode-se convencer até o papa a comprar uma batina usada. Se você é uma daquelas mulheres que nunca acordou desejando ser uma irlandesa de cabelos ruivos, ou uma platinum blonde, parabéns. Você deve ser muito feliz convivendo tão bem com você mesma. Se você resolveu assumir seus cabelos brancos, triplos parabéns. Acho lindo uma cabeça branca (desde que não seja a minha). Mas se já chegou o dia em que você decidiu dar uma variada, ou permanecer nos 50 até os 100, atenção: a raiz dos cabelos deve estar impecável, nem um só milímetro aparecendo. Aliás, é engraçado esse negócio de vaidade. Outro dia estava eu com obras em casa e o operário falou que faltavam sacos para o entulho. Para ganhar tempo, desci até uma loja de material de construção quase ao lado de minha casa e, apressada, quis levar os sacos sem embrulhar. O proprietário da loja, com rara sabedoria, disse no ato: "Dona Danuza, a senhora não vai sair sem embrulhar esses sacos, já pensou se encontra com um ex-namorado?" Aprendi essa. Nem que seja para comprar um maço de cigarros, é sempre bom pensar que podemos cruzar com um ex-namorado. O tempo, claro, não melhora a aparencia de ninguém. Dizem que melhora a cabeça, mas ainda tenho minhas dúvidas. Aos 20 anos, a textura das unhas é tão fina quanto madrepérola. Os cílios são longos, os cabelos sedosos. Os dentes, naturalmente claros, etc. Bem, quando as coisas começam a piorar, você tem que pagar o preço que for para se cuidar. Isso custa paciência, perseverança, tempo, dinheiro. Mas vale a pena. Nada para jogar você na mais horrenda depressão do que se olhar no espelho e enxergar um monstro. Alguns cuidados não custam nada. Corrija sua coluna. Tenha postura ereta. Respire fundo, use toda a capacidade dos pulmões. Ande uma hora por dia. Beba 2 litros de água diariamente. Cuide-se. Ame-se. Mais, muito mais do que a seu próximo. Nem todos têm a sorte de nascer deslumbrantes, com mãos e pés perfeitos, etc. Mas temos a obrigação de mantê-los sempre bem-cuidados. Para ser gentil com os outros, para com você mesma. Há paixões que acabam quando a gente vê o pé do namorado pela primeira vez. Ouviram, rapazes? Lembre-se de que não existe ninguém irremediavelmente feio, e nada que não possa ser melhorado. Todos têm essa possibilidade, e é tão divertido! Sabe aquele dia em que parece que tem uma nuvem cinza bem em cima da sua cabeça? Pois nesse dia, mais do que nunca, acerte sua coluna, levante a cabeça e vá em frente. Não pergunte por que - apenas faça. Fora a atenção dispensada à beleza, procure ser organizada. Existem mulheres cuja bolsa é tão, mas tão bagunçada que dá a impressão de que de dentro vai sair um filhote de jacaré. Leve sempre na bolsa batom, pó (de arroz), lenço, escova de cabelo, de dentes, dentifrício, fio dental, guaraná em pó, tranqüilizantes (para o caso de ver um vestido numa vitrine que te tire o fôlego), cartões de crédito, dinheiro cash, talão de cheque, caneta. Documentos. E tudo em ordem. Eu, quando saio de meias pretas, levo sempre um outro par na bolsa para caso de acidente. Seja prevenida. Evite ser sempre muito original na maneira de se vestir. Mas de vez em quando -ah, de vez em quando -extrapole e seja mais do que original. Seja francamente extravagante. Não se preocupe com a moda. Mas seja obsessiva com a elegância. Torpedos, telegramas e cartas-bombas Pena que poucos conservem a prática da correspondência. Com o DDI à mão, as pessoas só recorrem ao papel e caneta se for para remeter uma carta para aquela ilha perdida ao sul do atol de Muroroa. Mas um envelope lacrado é de uma atração irresistível. Só não vale fazer ninguém de pombo-correio quando se pretende dar notícias para um amigo que mora no Marais ou um parente esquecido no Suriname. Só se for uma carta-bomba. Sempre se responde a uma carta. Carta recebida não se mostra a ninguém. Evite escrever coisas que não devem ser do conhecimento público. Do jeito que as coisas vão, você está arriscado a abrir um jornal e ver, transcrita, a carta de amor que você mandou, já pensou? Uma carta ou cartão para um amigo, a não ser que sua letra seja um garrancho, deve ser sempre escrita à mão. À máquina, só se o assunto for comercial. Nunca deixe de datar sua correspondência. No alto, à direita. Ou no final, à esquerda. Tenha bloquinhos de diversos tamanhos, com seu nome completo ou suas iniciais. É menos formal. A não ser que você curta mesmo a formalidade. É sempre bom ter cartões na bolsa, dois ou três, para o caso de, estando na rua, resolver mandar umas flores. Particularmente, odeio cartões de visita, prefiro aqueles maiores, duplos, que servem praticamente para tudo. Ao mandar cartões para os amigos, faça um traço em diagonal com a caneta, sobre seu nome impresso. Para quebrar um pouco a cerimônia da coisa. Nunca abra nem leia uma carta na frente de outra pessoa. Telegrama pode, pedindo licença. Pode ser urgente. Escrevendo carta ou cartão, se errou, não rasure. Comece tudo de novo. Cuidado como escreve o nome das pessoas. Para alguns, trocar um s por um z, um y por um i, é ofensa grave. Se morre um amigo e você não conhecia a família, mande mesmo assim, um telegrama. É sempre bom saber que nossos mortos eram muito queridos. Uma carta para alguém com quem não se tem intimidade deve ser assinada com nome e sobrenome. Cartões, só mesmo os comerciais. Para serem trocados em lugares comerciais, com finalidades comerciais. Em casos mais pessoais, tire do bolso sua bela agenda e anote o número do telefone. Se alguém quiser te mostrar uma carta, discretamente recuse. Não se torne conivente com esse tipo de procedimento. Quando for passar um fax, não se esqueça de que esse meio de comunicação é totalmente indiscreto, pelo menos por enquanto. Se for correspondência sigilosa, pasede fa.. Há muitos anos, morava no Rio um espanhol, adido cultural da embaixada da Espanha, García Vinolas. Inteligente, bonito, charmoso, era o sucesso da cidade. Um dia, em Madri, citei num grupo que éramos amigos. Quase todos que ali estavam também eram seus amigos. E uma dessas pessoas me pediu que levasse uma carta para ele. Claro, com o maior prazer. No dia seguinte nos encontramos para que me fosse entregue a tal carta. Essa pessoa abriu o envelope para lermos juntos o que havia escrito (até porque falava bém de mim). Tudo bem, continuei a viagem e, quando cheguei ao Rio, telefonei, dizendo que tinha uma carta, etc. Marcamos de ele vir buscar. Tragédia! Não encontro a carta. Simplesmente não encontro. Bom, ele chega, conto a história, peço mil desculpas. Claro, meu amigo ficou decepcionado. E, como se não bastasse, pioro a situação: "Ora, não tinha nada de muito importante, era apenas uma carta contando pequenas novidades, etc." Só quando vi a cara de espanto de Vinolas, percebi o horror da coisa: ele achou, claro, que eu tinha aberto e lido a carta. Quase morri de vergonha. Expliquei tudo, me sentindo péssima. Ele, elegante e carinhosamente compreendeu e conseguiu, com sua generosidade, me convencer de que o fato não era grave. Eu tinha 18 anos, nunca esqueci. Melhor que tudo - continuamos amigos. Algum exemplo melhor de cortesia e gentileza? A maior invenção depois da roda; o telefone Às vezes penso que qualquer um poderia sobreviver apenas com litros de água e um telefone por perto. Quem foi que disse que seriam os cachorros os melhores amigos do homem. Das mulheres, pelo menos, eu sei que o melhor amigo é a invenção de Graham Bell. Só que essa maravilhosa invenção pede algumas regras básicas de manutenção: mais vale uma ligação na hora certa do que um caminhão de flores. Tanto quanto uma ligação malfeita poderá lhe custar mais baixas que a batalha de Waterloo. E aguardem um minutinho que estão me chamando no telefone. É proibido telefonar: na hora do telejornal na hora da novela na hora do almoço ou do jantar para pessoas normais, antes das dez horas da manhã Quando o assunto for longo, pergunte se a pessoa está com tempo, antes de engrenar. Cabe a quem ligou ter a iniciativa de se despedir, de desligar. Deixando o recado na secretária eletrônica, seja clara, máquinas não mordem. Quando deixar o recado com alguém, ajude, dizendo: "Vá buscar lápis e papel, eu espero. 'tudo em cima' então anote". Fale devagar e depois repita o número. Eu perco vários recados quando falam o número muito rápido. Quando tem ramal, pior ainda. Recebendo telefonema interurbano ou internacional, não prolongue a conversa. Afinal, é o outro que está pagando. Não aproveite o telefonema do amigo para mandar recados, pedir coisas. Ainda sobre telefonemas longos discance: recebendo de alguem que você sabe que não tem muito dinheiro, faça esta gentileza: pergunte "em que telefone você está? te ligo já". E ligue de volta. É o máximo quem faz isso. Nunca deixe telefonema sem resposta. Por outro lado, se você liga duas ou três vezes e a pessoa não retorna o chamado, você não tem a menor obrigação de ligar de novo. É claro que nunca se faz um DDI fora de sua própria casa. Só mesmo em caso de urgencia, e a cobrar. Ao atender a um telefonema, não comece compulsivamente com seus assuntos. Afinal, quem ligou, se ligou, foi porque tinha coisas para falar. Telefonemas, mesmo locais, são cobrados por minuto. Ligue-se. Não telefone para a casa de pessoas com quem você tem negócios, mas não uma relação pessoal, a não ser em caso de extrema necessidade. Cuidado com telefonemas para médicos, analistas. Veja se precisa mesmo ligar, se precisa mesmo incomodar. Ensine sua empregada a atender ao telefone. Primeiro ela diz que você não está, e só então pergunta o nome, e se não quer deixar recado. Nunca o contrário. Se alguém atender o telefone na sua presença, procure se afastar, vá passar um blush, tomar um copo de água. Mesmo que você ouça "matou? com três tiros? que loucura! ", não comente, não pergunte. Uma pessoa verdadeiramente educada, nessa hora fica completamente surda. Não fique pendurado no telefone quando alguém está esperando, sobretudo em orelhão. O telefone esta tão, mas tão caro, que ficaremos condenados ao mais profundo isolamento se as tarifas continuarem a subir. Faça um teste e fale por 20 minutos com aquela sua amiga que mora em Milão. Se alguém telefonar e a pessoa chamada estiver no banheiro, anote o recado na perfeição, mas não a chame. E também não diga por que não pode chamar, diga apenas que ela está ocupada. Se alguém te telefona para fazer um convite, não prolongue a conversa, ela deve ter mais uns 200 telefonemas para dar, compreenda e seja breve. Quando estiver em casa de um amigo, só use o telefone em caso de real necessidade, e rapidinho. E quando estiver recebendo um amigo em sua casa, se atender algum telefonema, diga que não está podendo falar, que liga depois. bbb 86 m adorvel sato no escuro Está longe a era dos zepelins e das viagens transatlânticas onde se dividia o convés dos navios com algum conde esnobe do Luxemburgo. Os deslocamentos internacionais agora exigem mais paciência e menos bagagem: qualquer um está sujeito a ser atropelado pela turba que invade um 747 as filas de check-in, os procedimentos de alfândega. Em, pam, pum: apertem os tailleurs que a aeromoça sumiu, o passageiro ao lado não pára de jogar fumaça na sua cara e tem um time de basquete na fila dos lavatórios. Se a complicação já complica nos ares, em terra a coisa pode ficar pior. Principalmente se você escolheu uma companhia errada para aquela viagem de 5 4 dias pelo Norte da África. Quando você começa a sentir que teria sido melhor ficar em casa, a viagem acabou. Pitangas derramadas e dólares desperdiçados não voltam mais. Lá 20 ou 30 anos uma viagem de avião era privilégio dos muito ricos. Os aeroportos, oásis de paz, luxo e silêncio. Era facil ser cortês nesse tempo. Hoje em dia, aeroportos e rodoviárias são praticamente iguais. Portanto, mantenha a calma para enfrentar as grandes aventuras que surgem a partir de uma simples viagem. Além dos dólares, muna-se de tranqüilizantes. Viajar ainda é das melhores coisas da vida. Mesmo quando você se vê carregando malas porque não encontrou nem carrinho nem carregador, enfrentando filas que jamais enfrentaria no seu cotidiano e passando pelo transtorno de ter sua bagagem esmiuçada na alfândega. (Ainda bem. Já pensou quando ninguém mais confundir você com uma perigosa traficante?) Aí, chega a hora em que você diz "quero voltar pra casa e juro que nunca mais viajo" É tudo mentira. Mal você desarrumou as malas, baixa a grande depressão e você só pensa em voltar. Eu levo oito, dez dias chegando. Existe um tipo de conhecimento, de cultura, que você só adquire viajando. E existem viagens que você só aproveita plenamente quando tem alguma cultura sobre o país que está visitando. Ir a Portugal sem ter lido Eça, para mim, é quase um crime. E só entende o que estou falando quem já leu e releu. Leia. Desenvolva seus sentidos. No meio de um bosque, apure os ouvidos. Viaje através dos sons, dos odores. Apure seu olfàto, seu paladar. Coma de tudo. Beba de tudo. Esqueça seus hábitos, seus horários. Se tomam chá gelado, Coca-Cola quente, ou fumam ópio, faça como eles, experimente, ouse. Só assim você vai sentir a cidade em que está. Outra coisa: não complique. Viajando, freqüente restaurantes italianos só na Itália, franceses só na França , americanos só nos EUA. Se você for como eu, que tenho horror a multidões, viaje fora de estação, procure sobretudo lugares que não estejam na moda. Bali, por exemplo, só no ano 2010. Miami, só em 2015. Não se misture com hordas de turistas, ninguém pode apreciar uma obra de arte cercado por 100 pessoas. Um amigo que adora concertos me revelou o motivo pelo qual deixou de freqüentar as salas: disse que só voltaria quando pudesse estar sozinho no teatro. E nu. Entendi. Repetindo: viaje fora de estação. Côte d'Azur no inverno. Sul da Itália no início da primavera. Ilhas gregas nunca depois de 15 de maio. Mas e se você quiser ver neve? Aí, não tem jeito. Mas você sempre poderá descobrir uma cidadezinha que está completamente fora de moda e onde não vai ninguém, que luxo. Escapulindo das ciladas acima, você poderá encontrar elegância, imaginação, poesia. As cidades serão só suas. Perca-se nas ruas desertas de Veneza, no inverno. Você vai gritar em êxtase, tal a beleza. Estando em Paris, alugue um carro e vá a Lonfleur, no fim do outono. Fica perto de Deauville. Hospede-se na Ferme Saint-Simeon e desça para tomar seu petit dejeuner num café em frente ao porto, vendo os barcos chegarem. Peça ostras e crevettes grises, com vinho branco. Que fique claro: isso logo ao acordar, em jejum. Você vai descobrir que a felicidade tem até sabor e que o sabor é esse. Já deu para ver que em viagens sou muito pouco democratica. Gostaria de visitar museus vazios, freqüentar praias desertas, tudo só pra mim. Seria um sonho. Quem praticamente nasceu numa primeira classe, nunca vai mencionar isso, até porque nem sabe que existe outra classe no avião. Como Juliana, filha de Sílvio de Abreu, que um dia pediu para ir à classe turista "para ver como é". Nada revela mais a insegurança social de uma pessoa do que ouvi-la dizer que "estava na primeira classe". Morro de pena e fico com um pouquinho de vergonha, cada vez que ouço. Também não se pergunta: "Em que classe você viaja?" Conheço gente que só viaja de primeira classe, entra no avião, não come nada e dorme o tempo todo, o máximo. Não corte o barato do outro. Se alguém estiver falando de um restaurante maravilhoso, um hotel fantástico, uma cidadezinha na Tunísia que ninguém conhece, deixe que termine a história antes de dizer que você já conhece tudo que ele contou. Se conseguir se segurar e deixar seu amigo brilhar sozinho, melhor ainda. Pintou uma viagem. Você fica louca para ir, claro, mas imediatamente entram as dúvidas, as inseguranças, as culpas. "O dólar está muito caro." "E se eu perder meu emprego?" "Vou deixar meu marido, meus filhos? " "Logo agora, que as ações estão em alta?" "Logo agora que as ações estão em baixa?" TuDO BOBAGEM. Vá, vá e vá. Você vai voltar nova, revigorada, mais bonita, mais feliz, enriquecida, esqueça a obrigação de sofrer (que todos nós temos), não pense, vá. E depois me conte. No avião Uma cabine de avião não passa de um grande dormitório, onde você divide intimidades com pessoas que nunca viu. Procure evitar, dentro do possível, que a promiscuidade se instale dentro desse espaço reduzido, para que a viagem não se transfórme num inferno insuportável. Durante o vôo, coma pouco. Beba pouco. Assim você diminui os efeitos do jet lag. Não se comporte tipo "quero tudo a que tenho direito". Não se precipite no champanhe , no caviar. Melhor viajar de executiva e, com a diferença do preço da passagem, comprar um quilo de caviar para comer no hotel, do que dar esses vexames a bordo. Procure se manter no seu espaço, sem incomodar o vizinho. Se avistar um amigo três filas adiante, não chame em voz alta, não faça sinais. Papeizinhos de amendoins, head-hones, envelopes de fissues, tudo na maior ordem possível. A manta, dobrada. Idéia para as companhias de aviação: uma pequena lata de lixo ao lado de cada poltrona. Talvez assim as pessoas aprendessem. Tenha sempre uma caneta à mão, para não ficar pedindo emprestada. Dobre os jornais depois de ler. O suéter que você usou, de volta na sacola de mão. Escova de cabelo sempre à mão, mas nunca à vista. Nada de ir descalço ao banheiro, mesmo que seus pés estejam inchados a ponto de gangrenar, pensasse nisso antes. Da próxima vˆz, use sapatos mais confortáveis. Pouca bagagem de mão, para não incomodar o vizinho. Deixe o banheiro impecável, depois de usar. Seja rápido (deviam inventar uns comprimidos que fossem o oposto dos diureticos, obrigatórios em viagens de avião). Óculos escuros à mão. Ninguém é obrigado a ver sua cara na hora de acordar. Evite charutos e cachimbos, mesmo na área de fumantes. Nunca abandone sua bolsa com dinheiro na poltrona, enquanto desenferruja as pernas. Se você detesta conversar com vizinhos, tome suas precauções. Tire da bolsa um terço, a bíblia, o Corão. literalmente, um santo remédio. Encomendas Nunca pergunte se os amigos desejam alguma coisa, tipo encomenda. É dinamite pura. Alguém pode querer e olha a encrenca que você arranjou. Quando isso acontecer, diga francamente que não vai ter tempo, viagem muito rápida, etc. Ou faça como Guilherme Guimarães, que diz "claro , meu amor", põe a listinha e os dólares na gaveta e esquece. Quando volta, devolve e fala com a cara mais cândida que não encontrou. Está bem, sou uma peste, mas convenhamos que encomenda é dose. Ou não? Se você costuma pedir, não pode recusar quando te pedem, fique sabendo. (Não estou falando, claro, daqueles amigos que a gente adora e a quem não se recusa nada.) Mas se você não resistiu e pediu a um amigo que te compre alguma coisa, quando for entregar o dinheiro, dependendo da situação financeira e da intimidade entre os dois, dê uns dólares a mais e diga que, no dia de fazer a tal compra, ele é seu convidado para almoçar. Que ele pense em você, te erga um brinde e depois te conte tudo. Ainda sobre encomendas. Só peça se for uma coisa muito, mas muito importante mesmo. Tipo um batom, um creme, uma meia. Coisas fundamentais para a felicidade de qualquer mulher. Nunca aceite levar encomendas para ninguém. Tenho ouvido histórias pavorosas de pessoas acima de qualquer suspeita que pediram um favorzinho desses e quem o fez, foi parar na cadeia, pois o tal pacotinho não era tão inocente assim. Se alguém pede para você levar uma carta, deve entregar a carta aberta. E você deve fechá-la na frente dele. Tudo , aliás, bem inútil os correios estão funcionando divinamente. Mas tem gente que adora fazer amigo de pombo-correio. Bagagem Pouca bagagem. É tão mais civilizado, tão chique, gente que viaja com poucas malas. Eu adoraria saber ensinar como se faz uma mala pequena, prática, elegante. Aliás, adoraria aprender. Comigo é sempre uma tragédia. Questão malas. Aquelas bem caras, de griffe conhecida, são marivilhosas, porque você viaja com tranqüilidade: o zíper não quebra, a alça não cai. Paga-se uma fortuna pela qualidade, não pelas letrinhas da marca. Um detalhe: que sejam muito velhas, maltratadas pelo tempo. Malas tinindo de novas são um sinal inequívoco de peruagem e nouveaurichisme. Outra coisa: se sua mala, companheira de tantas aventuras, está às quedas, nada mais chique do que uma boa recauchutagem. Vai custar quase o preço de uma nova, mas não hesite, é o que deve ser feito. Caso prefira a informalidade total de malas mais leves, superlegal também. Mesmo que no fim da viagem você precise sair correndo para comprar mais uma sacola porque o zíper enguiçou. Quem optar por um jogo em kilim, ah, são maravilhosas. Em Marrakech você encontra as mais lindas, mas tenho a impressão de que vão desmanchar no caminho do aeroporto. São divinas, sim, mas inconfiáveis. Ao viajar com o namorado pela primeira vez, é bom combinar tudo antes direitinho. Quando a moça chega no aeroporto com seis malas, quatro sacolas grandes, duas pequenas, é de matar. E quem vai pagar o exesso de peso? O luxo mesmo seria viajar apenas com a bagagem de mão, quando se tem um apartamento em Paris. Nesse apartamento, um segundo guarda-roupa, que delícia deve ser, não é, Evinha Ou em Milão, não é, Artur Muitos anos atrás, eu viajava de Londres para Paris com Crace Kelly no mesmo vôo. Quando o avião aterrissou, uma Rolls estacionou na pista, bem na porta, ela saltou com sua bolsinha de mão (Fermes, naturalmente) e foi embora, souta e linda, imagino que sem passar por controle de passaportes, esteira de bagagem, fila para trocar dinheiro. Morri de inveja. Sera que você deve levar peles? Claro que sim. Você corre o risco de ganhar um jato de spray colorido, mas é tão bom viver perigosamente. Aliás, algum ecologista de plantão poderia me dizer o que fazer com as minhas? Todas foram compradas antes do furacão verde, juro. Corto em pedacinhos e faço uma fogueira, é isso? Em tempo: os estilistas de Milão não estão nem aí e decretaram este ano a volta das peles, seja ou não politicamente correto. Viajando com amigos Duas pessoas se adoram, vão viajar juntas e não dá certo. Acontece. Uma adora comer bem, a outra não liga e quer emagrecer. Uma adora compras, a outra detesta sequer olhar vitrines. Uma acorda já querendo ir para a rua, a outra precisa de um tempo. Uma entra nos toaletes dos cafés o dia inteiro, enquanto a outra espera na calçada, impaciente. E gente que quer visitar igrejas, monumentos? E gente que pede "tirar uma foto minha perto da torre Eiffel"? Se você quer ver seu marido à beira de um ataque de nervos, leve-o às Galeries ,Lafayette para umas comprinhas leves, tipo maquillage, meias, etc. Se ele resistir 15 minutos, merece um prêmio (é tudo brincadeira, nunca faça isso com um homem com quem você pretende continuar a viver).1-homens têm horror a lojas (a não ser as de eletrônica, papelaria, vídeos, e tudo que diz respeito a seus hobbies). Só leve seu amado a esses programas culturais se você estiver querendo se vingar dele. E com boas razões para isso. Em viagem, as pessoas ficam muito tempo juntas, para não dizer o tempo inteiro. Até casais casadérrimos passam a ter uma convivência muito maior do que na cidade onde moram. E aquilo que não é problema em circunstâncias normais vira uma complicação quando se viaja. E aqueles que ricam indecisos para escolher uma roupa, um cinema, até mesmo um prato no restaurante? E gente que não quer ticar sozinha nunca? E gente que quer voltar na loja para trocar uma compra feita dois minutos atrás? E gente que não tem paciência para nada disso? Olha, é bom pesar tudo isso antes de embarcar. E gente que está sempre muito cansada? E gente que não cansa nunca? É uma delícia ter amigos na cidade em que se está, mas cada um no seu hotel, chegando e voltando em aviões diferentes, para descaracterizar qualquer compromisso. Se você é muito rico e convidou alguem para viajar, suas obrigações naturais de gentileza dobram. Nada mais terrível do que o clima, mesmo sem palavras, do "mas sou eu quem está pagando", na hora da escolha de cinemas , restaurantes, etc. Na Europa, qualquer hotel de três, e até duas estrelas, te dará um conforto bastante razoável. A roupa de cama e de banho trocadas todo dia, geralmente televisão no quarto, o que mais você pode querer? Quem viaja com muito pouco dinheiro deve levar seu xampu, creme, pasta de dentes, sabonete. É uma delícia comprar tudo nacional - lá -, mas fica caro. Companheiros de viagem que roncam, nada a fazer. Quartos separados ou boules Quies (bolas de cera para os ouvidos). Viajando com amigos, seja supercorreto com as contas. Divisão de despesas de táxi, lanches, etc. Procure ter sempre notas de diversos valores, para evitar aquele "me empresta $0 dólares, depois te pago". Às vezes esquecemos de devolver esses pequenos empréstimos, até mesmo por serem pequenos. Uma sugestão é a caixa única. Cada um coloca uma determinada quantia que sera administrada para despesas comuns. Ao final de cada dia, faz-se a conta para evitar surpresas. E se sua amiga esqueceu, é a boa hora de dicer "você me deve $0 dólares". As boas contas fazem os bons amigos. Difícil duas pessoas de situação econômica muito diferente viajarem juntas sem problemas. Alguém vai ter que sair do seu padrão e não será, seguramente, a mais pobre. Dividindo um quarto de hotel, que a ordem seja rigorosa. A única bagunça aceitável é com aqueles pacotes de compras que você acabou de trazer da rua. Tempo para pôr tudo no lugar:15 minutos Viajar com filhos e netos é maravilhoso. Você vai passando suas experiências, seus conhecimentos, suas lembranças, cheia de emoção. (E eles nem aí, claro.) Fora do Brasil, nunca aceite o convite daquele amigo que mora há anos em Paris e que te chama para comer um feijãozinho na casa dele. Quem faz esse tipo de convite merece o fogo do inferno. Tenha sempre no quarto uns biscoitinhos, uns chocolates, para a fome da madrugada. Combinem de véspera a programação do dia seguinte. Se vai cada um para o seu lado ou o quê. Não se esqueça de levar: tesourinha, pinça, agulha, linha, dois pares de óculos (pode quebrar ou perder), remédio para dor de coluna, tranqüilizantes. Cartões, se precisar mandar umas tlores, endereços e números de telefones dos amigos, listas de preciosos restaurantes à ne jas marzguer, etc. Detalhe: nunca se deve subir num quarto de hotel sem avisar antes, da portaria. Esteja você viajando com amigos, namorado, marido, o que for, sua passagem, seu passaporte, seu dinheiro, tudo na mão. E se houver uma briga? E se? E se? E se? A volta A obrigação de telefonar é de quem chega. Quando sei que um amigo chegou e ainda não me ligou, fico na minha. Pode ser que ele ainda não esteja em condições de aparecer. Eu, quando chego, só começo a telefonar cinco, seis dias depois. E ligo para uma pessoa por dia. Tenho um amigo que leva dez dias para me chamar de volta, depois de receber meu recado. É um sábio. A não ser que você tenha menos de 20 anos e que esta seja sua primeira viagem, evite reuniões para contar a viagem, mostrar fotos, contar os filmes que viu, as peças de teatro, etc. Afinal, a quem interessa uma viagem a não ser a quem a fez? loo # I I C aaar hóspede  rnh sop # Não incomodar é uma arte. Receber bem é um dom. Poucas situações no mundo são tão desagradáveis quanto a de se sentir invadido por alguém que se hospeda com você. Poucas situações no mundo são tão agradávcis quanto a de se sentir querido por alguém que hospeda você. Saiba que o homem é o único animal que hospcda. Os animais costumam demarcar seus cspaos e enxotar qualyuer visitante da área, mesmo os de raça igual. Não se sinta como um cristão intruso na cova dos leões. Nem como um domesticador de hienas no mcio de sua própria casa. I:. I.. #Hospedar, ser hóspede O hóspede A primeira coisa que o hóspede deve deixar claro é até quando vai licar. Esse detalhe deve ser esclarecido antes da chgada, de preferência. Já pensou, um hóspede que você não sabe quando vai embora? Se ele não disser o tempo da permanência, pergunte sutilmente, insinue que você talvez tenha que viajar, que outros amigos talvez chegucm, que você precise saber para combinar as férias da empregada, etc. Se você, ao se hospedar, pretender estender a permanência, pergunte se não vai causar transtorno. Só fque se sentir que esses dias a mais vão ser um prazer pard os donos da casa. Caso perceba qualquer mudança no olhar, moditiyuc seus planos e encerre a temporada na data prevista. Ou até antes. 103 # Não chegue de mãos vazias. Traga algum presente, ou dois ou três. Use pouquíssimo o telefone. Nunca faça interurbanos, só a cobrar - claro. O telefone está caríssimo e se você fizer a gracinha e quem te hospeda te der um puxão de orelhas, se toque, peça desculpas, e interurbano never more. Você é daqueles que de manhã come iogurtes especiais, coisas exóticas. Então compre e ofereça. Mas cuidado para não atravancar a gcladeira da casa. Em hipótese alguma deixe objetos de uso pessoal espalhados pelo banheiro, a não ser que este seja só seu. Escova dc dentes, de cabelo, dentifrício, sabonete, volta tudo para o quarto, dentro do necessaire, certo? Evite receber visitas. O hóspede que precisa encontrar um amigo ou rcver um parente deve marcar o encontro num café, num restaurante. Não c muito agradável chegar cm nossa própria casa e dar de cara com um grupo que a gente nem conhece, instalado na sala, fumando e bcbendo. 'renha um comportamento discreto enquanto hóspede. Nada de tentar criar um clima festivo o tempo todo. Lembre-se de que só você está de férias e que as pessoas têm uma rotina de vida. Traga com alguma freqüência um presentinho da rua. rrutinhas, um queijinho, bobagens tipo um biscoito, até um pãozinho fresco. Seja o que for, mas sempre de comer ou beber. l # Não fique muito em casa. Saia, vá ao cinema, passeie, ocupc-se, não vire uma preocupação par·d quem te hospeda. Gr·atilique os empregados, parte na chegada, parte na saída. Quando estiver hospedado em casa de pessoas que não têm cmpregados, faça sua cama e deixe tudo na mais perfèita ordcm. Quando sair, nunca tranque seu quarto com chave. Se normalmente você almoça e janta em casa, no dia em que resolver mudar seus planos, telefone avisando. Avise também quando r.solver fazer um pouco de boemia, para que: não te esperem e não se preocupem. Chegando muito tarde, entre em casa tão silenciosamente quanto ladrões prolissionais. De vˆz em quando convide quem te hospeda para jantar fora, seu anfitrião vai gostar. Nunca saia do quarto para ir ao banheiro, à cozinha, o que for, sem estar adcquadamente vestido. Fncerrando a temporada, escreva ou telefone dizendo o quulto adorou, agradecendo, etc.  também para oferecer sua casa, claro. Quem hospeda Quando você hospeda alguém deve tratá-lo como um rei. Se maltratado, um hóspede se sente o mais miserável dos seres humanos. E não vai saber como agir. Se faz as io5 malas e vai para um hotel, é a ruptura. Se fica, sente o clima tenso, pesado. Diante disso, se você, por motivos que não vm ao caso, não está contente de ter seu hóspede, mantenha o sangue frio. Controle-se e que o clima fique ameno e civilizado até o momento de deixá-lo no aeroporto. Aí, sim, você pode respirar fundo e pensar: nunca mais. P para sua tranqüilidade: sendo pessoa sensível, seu hóspede provavelmente estará, no mesmo momento, pensando também: nunca mais. (Antcs que o assunto esfrie, quero falar de dois recentes e grandes amigos: Leila e Doc Comparato. Alguns dias em casa deles em Sintra bastaram para conhecer o que é a verdadeira e calorosa hospitalidade. Raramente se encontram pessoas tão adorávcis e pcrfeitas na arte de hospedar. No dia em que Doc resolver deixar sua profissão de roteirista internacional de sucesso, vai poder abrir com Leila um curso ensinando a arte do bem-rcccber. Verdadeiros príncipes esses dois. Inesquecíveis os dias que passei com eles: cstavam - e demonstravam isso - o tempo todo alegres de mc ter em sua casa. Isso é mais que tudo no mundo, para um hóspede.) Dê a chave da casa para seu hóspede. Diga a hora em que você costuma almoçar e jantar. Pergunte o que ele costuma tomar no café da manhã c providencie. Pergunte se cle gostaria de conhecer ou visitar algum lugar especial da cidade. io6 # Caso o banheiro seja de uso comum, coloque no quarto uma toalha de banho e uma de rosto. E troque pelo menos a cada dois dias. I:xplique a seu hóspede a que horas a portaria fecha, se existe algum problema de água quentc, enfim, o funcionamento da casa, empregados, roupa para lavar, etc. Promover uma pcquena reunião ou jantar para apresentar seu hóspede a seus amigos é muito simpático. Dependendo da intimidade e da situação financeira de quem hospeda, o hóspede pode/deve se encarregar das bebidas, Ilorcs, atc ir para' cozinha cuidar de um prato em que seja ex(ert. Se você rccebc um convite para jantar, quando for possível perguntc se pode lcvar seu hóspede. Agrade seu hóspede. Se você chegar em casa e disser "olha o que comprei para você, um pão fresquinho", ele já vai se sentir feliz de ver que você pensou nele. Na hora das despedidas, juras de amor, volte sempre # i ctc., mesmo que seja tudo mentira. Que seu hóspede fique com a sensação de ser querido - amado. Tão boa, essa sensação.  isita inesperada Quando você resolve visitar seus amigos que estão no sítio, nada de chegar achando que a surpresa já valeu como presente. Se. a dona de casa não está esperando, será que 1o7 #ela vai ter alguma coisa para oferecer? Pensando nisso (e tem que pensar sempre), chegue com alguma bebida, uma coisinha para beliscar. I: se você já 1'oi com a tirme determinação de ricar pard o almoço (para o qual não está sendo esperada), passe antc:s numa delicatessen c desembarque com praticamente tudo debaixo do braço. Seja exagerado nas compras. Se você não aparece sem avisar na cidade onde mora, imagine no meio do mato, onde às vezcs nem um botequim para comprar uma cerveja existc por perto Um fim de semana Muito bem, você foi convidado para um fim de semana, na praia ou no campo. Sua primeira pergunta deverá ser: o que Icvo? Se não for preciso levir nada, chcguc com alguma bebida, uns chocolates, uns queijos, umas revistas. Seja criativo. ,Se resolverem democraticamente dividir as compras, não se esqueça de nada que licou sob sua responsabilidadc. E apareça com mais algumas coisinhas, além do combinido. Abastccendo o carro na estrada, proponha dividir a despesa da l;asolina. Se souber cozinhar, cozinhe. Se não souber, descasque os legumes, lavc os pratos. Se não souber lazcr nada, ocupc:-se do bar, da míisica, faça t;racinhas, contc histórias. Mantenha-se por perto. Nada de Iicar na rcde lendo um livro enquanto os outros trabalham. I'articipc, seja de que maneic~a for. Vocc c dos que costumam acordar cedo. I'ois bem , aprovcitc para sair (em silêncio), compre os jornais, traa um doce, umi lingüicinha, qualquer coisa da região. tos # Desaparcça às vˆzes. Fique no quarto lendo. Dê uma lnnga caminhada. Se você pegar um livro da estante e quiser levá-lo para acabar de ler, comunique, peça à dona da casa. E não se csqueça de devolver. Um bom hóspcde deve ser bem-humorado e muitíssimo bc,m-disposto. Pronto para, se for mesmo preciso, andar de biciclcta, escalar um morro para ver o pôr do-sol, ajudar a consertar a lancha fazer canoagem, madrugar para ver tirar o leitc da vaca. Fi parte. Antes de accitar o convite, pense bem se você vai agüentar o grupo o fim de semana inteiro. Há casos em que voltam todos inimigos. Fins de semana são testes perigosíssimos. Historinha ótima Contam que Zelda e Seott Fitzgerald moravam no campn, perto de Nova York, e costumavam receber muitos amigos para o week-end. Do lado interno da porta de cada quarto havia um providencial quadrinho, com o seguinte texto: "Se no pileque de sábado nós insistirmos para vocês ficarem até segunda-feira, pelo amor de Deus, não fiquem! " 109 # I 1 Tudo gue você sempre quis sber sobre e nunca teve coragem de perguntr # Hoje tem espetáculo? Tem, sim senhor. Quem não gosta de festa é doente do pé, ruim da cabeça, maluco-beleza ou low jrofile. Não sei. A única certeza, porém, é que a palavra festa produz uma luz que acende qualquer papo, friceiona situações e elimina rugas e papadas em questão de segundos. Reunir pessoas requer sabedoria e profundo conhecimento da química humana. Certas misturas costumam resultar em pavorosas explosões. Prineipalmente em jantares que coneentram um número mais reduzido de pessoas. Oferecer, receber, convidar e ser convidado: meu Deus, onde foi que botei os sais aromáticos? Quando você é convidado Quem aceitou um convite para jantar, se tiver que desmarear, que o fàça com boa antecedêneia. No dia, na véspera, só por razões fortíssimas. Nunea deixe o recado com a empregada. Se atender a secretária eletrônica, adiante o assunto e diga que telefona depois para explicar o imprevisto. Telefone mesmo. E ainda: mande flores no dia, lamentando o possível transtorno. Seria desnecessário falar sobre isso, mas tem gente que, sabendo que o jantar é grande, não vai, não avisa que não vai e não telefona para se desculpar e dizer por que não foi. ,Sem comentários. Atraso tem limite. No Rio, é mais ou menos assim: "bom se está mareado para as 21 horas, vou chegar às 22h30". Ate com certa razão. Os muito pontuais correm o risco de não eneontrar a dona da casa - que ainda não chegou do cabeleireiro. Portanto, se chegar pontualmente, já chegue se desculpando. Mas não vamos generalizar. Em casa de Carmem Mayrink Veiga, os almoços são mareados para as 12h45. E todos chegam na hora, é espantoso. (Também, quem ousaria se atrasar com um convite para as 12h45?) , Ah, detalhe: depois de 45 minutos, os copeiros iniciam o serviço, o lugar fica vazio, se for o caso, e estamos conversados. Quando entra uma pessoa famosa numa festa, por ser rica, poderosa, ou uma estrela, fique frio. Nada mais constrangedor que o puxa-saquismo explícito. Não dê vexame. Quando estiver ao lado dessas pessoas, não fique dizendo que conhece ou é amigo de A, B ou C, para mostrar que você também é importante. Aliás, se você e mesmo, nunea vai fazer isso. Quando o jantar for para umas 20 pessoas, dá para sair sem se despedir-embora não deva. Se for para muito mais de 20, não só pode como deve. Em ambos os casos, telefone no dia seguinte agradecendo, ou agradecendo e se desculpando, se for o caso. Resolvendo se despedir, tudo rápido, não se esqueça de que a festa continua rolando. Pessoas são convidadas não para serem alimentadas, mas para contribuir de alguma maneira com o sucesso da reunião. Com seu charme, sua beleza, sua inteligêneia, sua capacidade de serem divertidas. Faça sua parte com brilho. Se você eneontra outra pessoa com uma roupa exatamente igual à sua, o que fazer? Sem perder o humor, chamar o fotógrafo e pedir para registrar a cena histórica. A louça da casa em que você está jantando é linda. Mas não vire o prato para saber a procedência, nem vá bisbilhotar a marea num objeto de prata. Se achou bonito, elogie, pergunte o que quiser e acredite no que vão responder. fuçar objetos é tão indiscreto quanto virar a gola de um vestido para conferir a etiqueta. Aliás, anda muito em moda a dona da casa responder "eram da minha mãe". Fica chiquerrimo, dá um toque de nobreza (mesmo que seja mentira). Ficou estabelecido que é indelicado tirar o último canapé de uma bandeja. Pior, para mim, é tirar o penúltimo, e passar o problema para a próxima pessoa a ser servida. Como sempre se está conversando com alguém quando passa a bandeja com os dois últimos canapés, eu digo logo: "Vamos resolver esse problema? - fico com um e você com o outro". Nos servimos ao mesmo tempo esta de problema. A casa em que você foi jantar não tem empregados. Nem ofereça: vá logo ajudando a tirar os pratos da mesa, veja se precisa mais gelo, limpe os cinzeiros. Os homens também podem ajudar - sabiam, rapazes? Jamais pergunte a alguém "você vai ao jantar de Regina?" Se a pessoa não foi convidada, vai ficar meio assim. A propósito: houve um tempo em que, quando alguém não era convidado para uma festa, a criatura se trancava em casa e mandava espalhar que tinha viajado. Dura a vida social, não? Rola a festa e te oferecem alguma droga. Não fique nervoso, nem banque o repressor. Apenas diga não, obrigado. O mesmo não que você diria se te oferecessem um cigarro e você não fumasse. E com a mesma cara. Mas quem se sentir incomodado com a cena, nenhum problema. Ninguém é obrigado a permanecer em locais onde se sente desconfortável. Sem deduragem, claro. Recadinho para o usuário: não tenho nada com a sua vida, mas é inconveniente ficar dando bandeira em festas. Tem muita gente que não gosta desses climas e, sobretudo, é proibido por lei. Dieta! Ou você é mesmo complicada para comer? Em qualquer dos dois casos, alimente-se antes em casa, mas sirva-se e finja que come. Não se torne um problema para a dona da casa. Certos puristas aconselham a não elogiar o que se está comendo enquanto ainda na mesa - só depois de se levantar. Para que a conversa não descambe na receita, etc. A maldita síndrome de dona Benta. Só se sente à mesa depois da dona da casa. Só se levante também depois dela. Menos costuma ser mais em festas ou jantares. Comer de menos. Beber de menos. falar de menos. Se exibir de menos. Permanecer menos. Seguindo essa orientação, você jamais terá motivos para se arrepender. (Mas também vai se divertir bem menos, garanto.) Se você foi convidado mas não está com a menor vontade de ir, arranje uma desculpa decente. Não vale dizer que na quinta-feira da semana que vem vai ficar doente ou tem um enterro. Chegando a uma festa, primeiro dê uma volta, fale com as pessoas. Cireule. Nada pior do que convidados que chegam cedo, se sentam e ficam só olhando, observando, comentando. Se. no dia do tal jantar acontecer uma coisa que te aborreceu muito, telefone se desculpando, mas não vá Para lá de mau humor, ser má companhia, melhor permanecer em casa. Deite-se, puxe as cobertas, deixando só o nariz de fora, e espere passar. Passa. Para ajudar, faça uma boa faxina na cozinha. Nada melhor, quando se está com problemas, preocupações. Apesar de ser a maior alegria ver chegar um amigo trazendo flores, se você está recebendo muita gente complica, cadê o vaso? Está no armário. E a chave? Já deu para perceber que sou um pouco rebelde, sobretudo quando se trata do tal do protocolo. A propósito, vou contar uma historinha. Nem contra nem a favor - apenas uma historinha. Júlio Senna, grande decorador, morava num extraordinário apartamento na Urca, no Rio de Janeiro. Atrás, havia uma pedreira, com um enorme plateau, onde Júlio dava jantares maravilhosos, ao ar livre. Criados vestidos como figuras de Debret, um sonho. Num desses jantares, oferecido a uma princesa real (da Noruega, se não me engano), blach tie, naturalmente, o tempo estava meio duvidoso. De dez em dez minutos caíam algumas gotas ameaçadoras. Parava. Todo mundo tenso, chove, não chove? Mais algumas gotas. Parava de novo. Na altura do segundo prato, ela veio. Uma chuva tropical, dessas de você correr procurando uma marquise, se estivesse na rua. Mas acontece que, manda o protocolo, com uma royaltie na mesa, ninguém pode se levantar, a não ser que ela o faça primeiro. Royal meyzte, Sua Alteza permaneceu sentada. Nossos cabelos se encharcaram, as maquiagens escorreram, as lagostas boiaram dentro dos pratos. E as pessoas conversando, como se nada estivesse acontecendo. Foi fantástico, uma cena digna de Bunuel. Quando o jantar terminou a princesa se levantou seguida por todos, e o after digzner prosseguiu no mais normal dos mundos. Inesquecível. E se acham que inventei essa história, é só perguntar a Walter Moreira Salles, que estava sentado a meu lado. Demais. E viva o protocolo. Mas aí fico pensando: e se eu (ou qualquer outra pessoa presente) estivesse resfriadíssima, com um início de febre? E se desse uma louca e alguém se levantasse correndo para procurar abrigo, o que aconteceria? Alguém iria atrás? Será que a princesa não adoraria essa chance de não se encharcar até os ossos? E se Darei Ribeiro, conhecido por sua irreverência, estivesse lá, o que teria feito? Perguntas para as quais não tenho respostas, mas que me deixam bem curiosa. Nunca ponha o pé naquela mesa baixinha que está bem na frente do sol em que você está sentada, apesar de ser uma tentação. Se eu não prestar atenção, o meu vai sempre. parar lá - parece até que essas mesas têm um ímã, pelo menos para o meu pé. Quem sabe treinando não fazer isso nem em sua própria casa você aprende? Eu aprendo? Não alugue a dona da casa com assuntos longos. Ela é uma só para dar atenção a todos os convidados. O assunto esfriou? Tire da cartola algo bem polêmico. Provoque - educadamente, claro - as pessoas. E não esqueça: todas as regras podem ser quebradas. Mas é preciso uma enorme experiência social para fazê-lo com sucesso. Quando você convida -sem grana É natural que você fique um pouquinho nervosa no dia do seu jantar. Aconselho, por cautela, a tomar seu primeiro drinque só depois que tiver chegado o último convidado. É mais garantido, embora seja uma pena. Tão gostoso aquele uísque que você toma com a casa impecável, flores, a luz certa, a música certa... Ah, tome sim, para relaxar. Mas só um, viu? Ok, dois. Sirva o primeiro drinque, mostre onde estão as bebidas e previna com charme que você só serve o primeiro. A partir daí, cada um por si. Cerveja, champanhe, vinho, o que você puder. O que for para ser gelado, escandalosamente gelado. E por falar em gelo - muito, muito gelo. Se acabar o gelo, acaba a festa. Se na sua casa faz muito calor e você não tem a felicidade de dispor de um ar-condicionado na sala, adie toda a sua vida social para o outono. Dramático gente pingando mesmo fazendo ginástica. Evite flores perfumadas, ou você já sabe o que fica parecendo. Copos. Se você não tem todos os de que precisa, vai fazer o quê? Comprar ou pedir emprestado? Uma coisa simpática é usar copos inteiramente diferentes, misturando cores, estilos, tamanhos. É como eu faço. Fui comprando um a um, em feiras de antiguidade, viagens, pedindo a amigos que estavam com o serviço já desfaleado. É supercharmoso, misturo todos numa grande bandeja e cada um escolhe o seu (as mulheres, o que combina mais com o aaa 119 #vestido). Todo mundo adora. A rigor, copos de vinho devem ser braneos, para que se possa apreciar a cor da bebida, mas um pouco de fantasia não faz mal a ninguém. A mesma coisa você pode fazer com pratos, xícaras de café, ete. Mas não misture tudo no mesmo jantar. Num dia, os pratos. No outro, os copos. Para não parecer que sua casa é um brechó. Guardanapos de papel, sim, grandes e coloridos, combinando com a louça, lindos e práticos. Não complique. Para acompanhar os drinques, nada de pastinhas, tori~adinhas, faquinhas. Onde você deixa seu copo e seu cigarro nessa hora? Llma enerenea. Castanhas, pistache, amendoins e chega, até para guardar o apetite para o jantar. Em casa de T itá Burlamaqui, onde se come divinamente, a variedade de canapés  tal que mal se consegue jantar depois. Í: maravilhoso jantar lá, mas evite, se você estiver de dieta. Não é que eu não goste de canapés - adoro. Adoro tanto, que um dia vou mandar fazer uma bandeja só para mim e ficar vendo televisão e comendo sem parar. E ainda vou completar com uns docinhos caramelados. Se você mora sozinha, enearreguc um amigo do capítulo bar (reposição de gelo, refrigerantes, coquetéis, ete.). Para isso os homens são muito prestativos. Não fique limpando cinzeiros, pondo guardanapinhos debaixo dos copos par.z proteger a mesa. Ajoelhou, tem que rezar. E por falar em cinzeiros, que sejam muitos e enormes - dedal é para costurar. 120 # Um prato interessante e uma salada verde são o suficiente para um simpático jantar, quando você não tem um grande stafJde empregados. Sejamos franeos: quando não tem nenhum. Tá bom: então, dois pratos e uma salada. Um deles pode ser uma massa. Prefira os que dispensam o uso da I'aca, se vocês não vão comer na mesa. Uma sobremesa, algumas frutas (das fáceis), e flm de papo. 'I'ambém é possível reunir amigos combinando cada um trazer uma coisa. Ou pelo menos a sobremesa. Para a dona de casa que cozinha, um tr'dbalho a menos. Não se esqueça de devolver o prato, pouca gente lembra. E é sempre aquele,tiyre.z que a gente adora. Muio simpático e fácil eneomendar um sushi. Nem panela suja, olha que maravilha. Mas todo mundo tem que adorar, pergunte antes. Se a comida de sua casa for péssima, faça os convidados beberem muito, bebidas fortíssimas, e sirva o jantar bem tarde. Ninguém vai distinguir uma cenoura de um jetit ois, garanto. T ragédia! O rosbife queimou. Tragédia? Depende. Cheguc na sala com um grande sorriso, diga que se distraiu, tão boa estava a conversa e ponha em votação: pizza, lasanha ou um espaguete que você descobriu no fundo do armário? Você verá que todos vão se envolver, talvez até mesmo um mais prendado se proponha a fazer o molho para a massa com o que houver na geladeira. E vocês ainda vão rir e se divertir muito. O importante - não se esqueça - é ter charme. Quando fizer sua lista, procure convidar: 121 #vestido). Todo mundo adora. A rigor, copos de vinho devem ser braneos, para que se possa apreciar a cor da bebida, mas um pouco de fantasia não fàz mal a ninguém. A mesma coisa você pode fazer com pratos, xícaras de café, ete. Mas não misture tudo no mesmo jantar. Num dia, os pratos. No outro, os copos. Para não parecer que sua casa é um brechó. Guardanapos de papel, sim, grandes e coloridos, combinando com a louça, lindos e práticos. Não complique. Para acompanhar os drinques, nada de pastinhas, torr'adinhas, faquinhas. Onde voce deixa seu copo e seu cigarro nessa hot~.z Uma enerenea. Castulhas, pistache, amendoins e chega, até para guardar o apetite para o jantar. Em casa de Titá Burlamaqui, onde se come divinamente, a variedade de canapés  tal que mal se consegue jantar depois. Í: maravilhoso jantar lá, mas evite, se você estiver de dieta. Não é que eu não goste de canapés - adoro. Adoro tanto, que um dia vou mandar fazer uma bandeja só para mim e ficar vendo televisão e comendo sem pat~ar. E ainda vou completar com uns docinhos caramelados. Se você mora sozinha, enearreguc um amigo do capítulo bar (reposição de gelo, refrigerantes, coquetéis, ete.). Para isso os homens são muito prestativos. Não fique limpando cinzeiros, pondo guardanapinhos debaixo dos copos para proteger a mesa. Ajoelhou, tem que rezar. E por falar em cinzeiros, que sejam muitos e enormes - dedal é para costurar. 120 # Um prato interessante e uma salada verde são o suficiente par-a um simpático jantar, quando você não tem um grande staff de empregados. Sejamos franeos: quando não tem nenhum. Tá bom: então, dois pratos e uma salada. Um deles pode ser uma massa. Prefira os que dispensam o uso da 1'aca, se vocês não vão comer na mesa. Uma sobremesa, algumas frutas (das fáceis), e fim de papo. 'I'ambém é possível reunir amigos combinando cada um trazer uma coisa. Ou pelo menos a sobremesa. Para a dona de casa que cozinha, um trabalho a menos. Não se esqueça de devolver o prato, pouca gente lembra. E é sempre aquele pyrex que a gente adora. MuiCo simpático e fácil eneomendar um sushi. Nem panela suja, olha que maravilha. Mas todo mundo tem que adorar, pergunte antes. Se a comida de sua casa for péssima, faça os convidados beberem muito, bebidas fortíssimas, e sirva o jantar bem tarde. Ninguém vai distinguir uma cenoura de um petit pois, garanto. T ragédia! O rosbife queimou. Tragédia? Depende. Cheguc na sala com um grande sornso, diga que se distraiu, tão boa estava a conversa e ponha em votação: pizza, lasanha ou um espaguete que você descobriu no fundo do armário Você verá que todos vão se envolver, talvez até mesmo um mais prendado se proponha a fazer o molho para a massa com o que houver na geladeira. E vocês ainda vão rir c se divertir muito. O importante - não se esqueça - é ter charme. Quando fizer sua lista, procure convidar: 121 · um ou dois políticos que sejam de partidos diferentes, mas nem tão adversários assim · alguém com uma profissão insólita - dono de uma criação de crocodilos no Pantanal (agora pode - o Ibama deixa), alpinista. Se possível, o próprio Amir Klink · se for cm janeiro, tente trazer um carnavalesco · um grznde sedutor, uma grande sedutora · dois ou três jornalistas, que vão chegar bem tarde e com muitas novidades · um autor de novelas (de uma que esteja no ar, de preferêneia) · uma atriz que nunea trabalhou em novelas mas que está louca para (pobre do autor) · um psicanalista bem falante · algumas mulheres muito bonitas - desnecessário serem inteligentes · e algumas pessoas de sexos bem variados, inteligentes, charmosas, solteiras, eneantadoras. F bom que nem todos se conheam. Na hora de fazer a lista, pensc: A c bem capaz de se dar bem com Ij, quem sabe pode até sair um namoro? Esse tipo de tentativa nunea 122 #dá em nada, claro, mas anima bastante. Pronto. Seu jantar já é um sucesso. * Se na sua casa existir um único banheiro, no dia de receber os amigos elimine qualquer vestígio dos objetos de uso estritamente pessoal. Escova de dentes, desodoran- # te, Plax, creminhos, gilete, tudo isso sai fora e dá lugar a um jarrinho com flores, que tal E não se esqueça de trocar o sabonete por um novo. * As pessoas recebem mais freqi.ientemente para jantar. Mas adoro quando me convidam para um almoço (talvez porque eu não goste de dormir tarde). É supersimpático, num sábado, tipo três horas, todo mundo acordou tarde , se foi à praia já foi, se está chovendo melhor ainda, ninguém tem mesmo empregado no f-un de semana, quem almoça às cineo não precisa se preocupar com o jantar, muito agradável a idéia. Teste sempre sua receita, nunea invente novidades no dia em que está recebendo amigos. Evite o que tem que ser feito na hora, tipo suflês, frituras. A não ser que você tenha uma supereozinheira ou que não possa viver sem se preocupar, sem sofrer. Escolha os chamados `pratos que podem esperar'. Goulash, arroz de mariscos, galinha ao curry - e uma bela salada verde. Tenha sempre comida e bebida a mais, pode sempre acontecer chegarem mais algumas pessoas. 123 # Se você faz um prato divinamente bem, repita. Quando os convidados chegarem, diga: "Estou fazendo aquela massa yue você adora". Vira atenção especial, e não repetição monótona. Uma amiga que adoro, dessas que não estão nem aí, veio jantar em minha casa, só nós duas, e em vez de usar o pratinho de salada, misturou tudo no prato grande. Quando pereebeu, ticou para morrer, disse "logo na sua casa, voce que está escrevendo um livro", ete. Não foi difícil fazê-la entender yuc não tinha a menor importâneia. Errado seria se cu me tomasse de ares e contasse o fato para todo mundo. Confundir um prato com o outro? Como dizia Nelson Rodrigucs (meu ídolo): "afinal, nós temos uma alma imortal". Qual a lembrança que fica de um jantar? O serviço perfi:ito? As louças valiosas? A prataria preciosa? O requinte dos pratos? Esse conjunto c realmente sedutor. Mas ao lado de todas essas maravilhas é preciso que haja aquela mágica, que não depende da dona da casa, nem dos convidados. Quando acontece, o jantar se torna aquele acontecimento, do qual você nunea vai se esquecer. Quando você convida - com grana Para um jantar de 15, 20 pessoas, convide oito dias antes. Quanto maior for, mais antecedêneia para convidar. Em jantares de improviso, vale até no mesmo dia, não esquecendo, claro, de dizer que acabou de resolver. 12 # Ao convidar, sempre teleÌone pessoalmente. Vale a se- cretária ligar se quem dá o jantar for um celibatário. Sendo jantar muito gt~ande e que por isso você convidou com grande antecedêneia, mande um pour mémoire de pois do convite ter sido aceito. (Para quem não sabe, pour mémoire é um cartão impresso, com espaços em braneo para especiticar, à mão, se é jantar, almoço, coquetel, dia, hora, traje.) Explique semlre a razão do jantar: recebi um salmão, um amigo que chcgou, comemorar as eleiçõcs na África do Sul, os 200 anos da Rcvolução Praneesa, yi' importe. Diga o tr·aje c cite alumas das pe.ssoas que vão cstar presentes, sobretudo se o jantar l'or pequeno. Assim, se a pessoa não mantém relaçõc s com um dos convidados, dá para inventar uma desculpa. Não é preciso talir a verdade - "porque cla teve um caso com meu marido", por exemplo. Se não aceitou c mandar llores no dia, é a perfeição. Nunea s deve perguntar quem são os outros convidados. Cabe a yucm convida dar uma panorâmica (scm precisar ler a lista inteira). Nunea se deve, como eu disse, mas eu pergunto. I'crunto sim. Atinal, a vida não é uma roleta-russa (ou c?) c I;osto de saber o que me espera quando saio de casa. Claro, dou uma volta, tipo "é muita gente? quem vai estar?" Para dizer a verdade, essa pergunta que nãv de.ve ser feita, pode cvitar grindes constrangimentos para todos. Quando se manda convite com as letras RSVP (Reondez, S'il Vous Plait: respond:, por favor), espera-se a resposta com certa rapidez. Ajuda quem está convidando na previsio da bebida, comida, garçons. Sem contar que, 125 #se receber 20 respostas negativas, são mais 20 pessoas que poderão ser convidadas. Fscolha com atenção os convidados de sua fe.sta. Deve haver um mínimo de harmonia cntre eles; mas também, harmonia demais ninguém agizenta. Chame também gente polêmica, costumam ser o sal de uma festa. Quando você telefonar para convidar, mostre o prazer que sentiu pelo convite ter sido aceito. I: lamente quando a pessoa não puder comparecer. Nada mais triste do que aquela bandeja com 22 canapés de caviar para oito pessoas. Caviar, ou uma lata de 125 gramas para cada um, de: colher, ou amendoim geral. Nunea telefone para alguém que está dando uma grande festa na véspez~a ou no dia, para Ìorçar o convite. Quando isso acontece comigo (nos dias yue precedem Ìestas é imprudêneia atender ao telefone), quem atende pergunta quem quer falar. Se não quero mesmo convidar, mando meu pedido de desculpas e digo que falo depois. A não ser, claro, se for alguém que:. deixc.i de: chamar por distração, esclC:roSe, isso podf. acontecC'r. NtSSe Cl,SO atelld0  pe0 desculpas, explico, convido, insisto. Um de seus eonvidados telefona para perguntar se pode levar um amigo, amiga. O pedido só se justilica se Ìor alguém que os donos da casa não conheç.am. F se o jantar for suficientemente grande para não criar problema. Nun- ca leve sem perguntar, não pega bem. Mas seu convidado nem telefonou e já chegou com a amiga a tiracolo. Mostre-se eneantada. I: procure conhecer 126 #melhor essa pessoa. Ela pode ser eneantadora e até - quem sabe -, vocês podem se tornar amigas, por que não? Aposte no inesperado, você pode ter boas surpresas. Aquele casal se separou e você está dando um jantar, o que Iàzer? Bem, a não ser que você seja declaradamente mais amiga de um dos dois, convide o que está precisando mais de se distrair, de uma força. Até pode perguntar "algum proble:ma, se eu convidar seu ex?" Se tudo bem , maravilha. Se não, tudo bem também. Pode até dizer para o outro (o excluído) que, como ele está numa boa, ficou para o próximo. E ponto tinal. Não misture família em suas festas. Embora adorando nossos parentes, os amigos não têm culpa disso. Se for seu próprio aniversário, parabéns e segredo absoluto. Se for o de um amigo, avise, para que todos tragam muitos presentes. I: por falar em aniversários: duas amigas, Ilva e Lila, inventaram de comemorar o meu de maneira diferente. Como todas começávamos a trabalhar relativamente cedo, f'omos làzer um cooer, andamos uns cineo quilômetros e depois tomamos café no hotel Méridien. roi uma manhã cheia de alegria, de grande criatividade. Iomenageando um estrangeiro, cuidado com os pratos típicos. Um só - é mais do que suficiente. Convidar pessoas inimigas, políticos adversários ferrenhos, ex-marido-que-acabou-de-casar-com-ex-maior-amiga, só quando a festa é enorme. 127 # Jamais comece a convidar com a frase "o que você vai I'azer na quinta-feira?" Essa pergunta é uma cilada, pois só comporta dois tipos de resposta. Ou "tenho um jantar" ou "nada", o que é um grande risco. Já pensou se te convidam para um baile funlz, para ser jurado do coneurso de Miss Verão, ou um campeonato de tranea? Se um de seus amigos esteve envolvido recentemente em escândalo finaneeiro, contrabando de armas, tráfico de drogas, com direito a aparecer na 1V c nos jornais, por mais que vocês sejam amigos, de um tempo. Deixc para convidá-lo depois que o caso estiver csclarecido ou, pelo menos, esquecido. Quando resolver dar um jantar, pense sempre se os convidados que você elegcu são os que você gostaria de eneontrar - se o jantar fosse em casa de outra pessoa. Pense no seu próprio divertimento, e tudo correrá bem. Copeiras vestidas corretamente, uniforme preto, avental braneo (não necessariamente de organdi), sapatos pretos Ièchados e sem salto, cabelos discretamente penteados. Se você Ìor uma dona de casa muito novidadeira, pode pedir à sua cmpregada (sc for negra) para fazer um penteado al'ro. Nunea sirva prdtos difíceis de comer, a não ser que todos sejam íntimos do prato em questão. Evite embaraços para seus convidados, servindo escargot a quem nunea ouviu làlar dessa delícia. Como ninguém aprende a comer escargot por escrito, ne.xl time, em Paris, preste atenção. Se for preciso, peça ajuda ao garçom, ele vai adorar te ensinar (e não se: esqueça de uma boa gorjeta depois). Regale-se. l28 # Avise, se for servir um prato pouco banal, tipo cérebro de sagüi, cuscus marroquino ou mesmo um singelo vatapá. Quem aceitar o convite, mesmo com horror, fica caladinho, come em casa antes e na hora finge que come, nunea obrigando o anfitrião a preparar um pratinho só para ele. Se os pratos forem à base de alho (que delícia), é bom avisar também. Alho - ou comem todos, ou não come ninguém. Mesmo em restaurantes. Para quem come, um copinho de leite depois. Não resolve mas ajuda. rrutas a serem servidas num jantar, pela facilidade: caqui, tlgo, uva, cereja, morango. Já preparadas para virem à mesa: manga, melão, melaneia, laranja, abacate, kiwi, goiaba. Dependendo do número de convidados, divida cada prato que voce vai servir em duas, três travessas iguais; para não ficar aquele horror, pessoas na fila esperando para se servir: para mim, quer sejam recepções de posse de presidente, de casamento, cruzeiros em navios, hotéis (com almoço e jantar ineluídos na diária) ou a sopa dos pobres, é tudo igual. Preriro morrer de fome. Se você pretende armar um jantar puxado seriamente a gastronomia, não vá além de oito pessoas. Nessa noite, só dois assuntos são permitidos: a mesa e os vinhos. Antes do jantar, não beba mais do que dois drinques, xerez ou vinho braneo, por exemplo. Que ninguém se eneharque de uísque, não tem nada a ver. Se você é a esposa de um desses serüssimos amantes da mesa e não liga para tais prazeres, que tal, num gesto elegante, liberar seu lugar para outra pessoa mais merecedora do privilégio? Tenho certeza de que todos erguerão um brinde à sua compreensão e generosidade. 129 # Nada mais monótono do que um jantar em que você já sabe quem vai star, o que vai comer, o que provavelmente vai acontecer - isto é, nada. Crie algo, chame Joãozinho Trinta, faça qualquer coisa, senão eu grito. Se sua festa está tão mas tão boa que ningzém vai embora, você pode: · esconder a bebida · dizer que o gelo acabou · vassoura atrás da porta de cabeça para baixo e sal no fogo (não costuma falhar). Mas falhou. Então você põe aquele disco de forró sacudido, comprado especialmente para essa finalidade. O som, no volume máximo. Deve funeionar. Também não funeionou. Então, se o grupo for pequeno e íntimo, você pede desculpas, diz que vai dormir e que eles batam a porta quando forem embora, pois você começa a trabalhar cedo. Mas suponhamos que você é daquelas que gostam de que a sua festa não acabe nunea. Mesmo assim, não exagere, como aquela anfitriã em Salvador que me perguntou, às sete da manhã: "Mas já vai? Alguma coisa te contrariou?" Se você algum dia deu um jantar, então sabe o que é a solidão da manhã seguinte, quando você está louca para comentar o que se passou, saber o que as pessoas acharam, #sc tudo funeionou bem, ete., e ninguém telefona. Eu fíco arrasada, quero morrer. Pense nisso e, sendo a anfìtriã sua amiga, ligue - ela vai adorar. # 1 131 Cha·cha·ch de las secretárias # Os ambicntes de trabalho são estranhos. Sempre há uma tnsão pairando no ar e um perÌume da secretária, na recepção. A partir desse ninho de relaçõcs quasc perigosas, saiba como se aprumar em escritórios, repartições grandes ou microempresas. ,Saiba que uma secretária de tiituro é aquela que tem a frieza de um robô e a discrição de um nomo invisível. Assim como os chefes c os patrões de:vem parecer eunucos de gravata. E. L. # Você é o patrão. Então, proíba sua secretária de dizer, io telelone: · quem deseja? · quem gostaria? · de chamar as pessoas de "meu bem", "meu amor" · de perguntar: "Danuza Leão, de onde?" Ora, de onde. De minha casa. Em tempo: nunea repreenda a secretária na frerite de ninguém. Nem mande que ela escolha as flores que você precisa mandar, o gosto pode não combinar. Instrua sua secretária para quando você não quiser ou não puder atender ao telefone. Ela deve ter um talento especial para não deixá-lo mal e não constranger a pessoa que chamou. 135 # No ambiente de trabalho, deve-se evitar: · salto muito alto, tênis · cores berrantes, elétricas · saia muito justa, muito curta · batom, esmalte vermelhão (e biquíni cavadão) · decotes, pulseiras barulhentas, brineos enormes · qualquer perfume · cabelos compridos e soltos Tudo que é visto, lido, ouvido ou pressentido num escritório torna-se sigiloso. Secretária alguma deve ter cumplicidades, fazer comentários nem lançar sorrisos compreensivos para seu chefe. Neutralidade acima de tudo. A melhor política é a da pouca intimidade. Com o chefe, a esposa do chefe, os filhos do chefe, o caso do chefe. Qiiando a secretária pereebe que o telefonema é pessoal, deve sair da sala discretamente. Uma boa secretária não deve ser curiosa, nem deve se apaixonar pelo patrao. Não deve também ser do tipo ciumento, que dificulta o acesso ao chefe a ertas pessoas. Quando chega alguém para falar com o patrão, a secretária deve limitar-se a oferecer café, água. Sem puxar conversa mas respondendo amavelmente ao que lhe for perguntado. Não deve estender a mão para as pessoas que 136 #chegam. Nem ficar ao telefone conversando, enquanto a pessoa espera. Secretária: ao ser paquerada pelo patrão, defenda-se, voce já deve ter idade para saber como, já não passou dos 15  tlfinal, no trabalho ou na rua, toda mulher deve saber como dizer não. Agora, se a coisa ficou mesmo muito feia, seja realista. Você não vai conseguir despedir seu chefe e conservar seu emprego. Fntão, se for o caso, troque de trabalho antes de ter de chamar a polícia. Não passe a segunda-feira contando o seu fim de semana. Não fique pendurdda no telefone, namorando. Ao chegar ao tzbalho, cumprimente todos como se o mundo estivesse correndo às mil maravilhas. Não fique se queixando da vida. Nem conte para seu patrão que o colégio das crianças aumentou, o plano de saúde também. Peça o aumento sem precisar entrar em detalhes, você vai ter mais chanecs de conseguir. Seja boa colega de trabalho. Se ofereça para quebrar um galho, seja leal com os companheiros. Nunea faça comentários desagradáveis sobre a firma em que trabalha, sobre seu chefe. Corredores e bebedouros têm ouvidos. Cuidado, emprego está difícil. F não venha com a história de "meu chefe implica comigo". Nunea houve chcfe que implicasse com um bom tìineionário que trabalha bem e não cria caso. Faça uma 137 #autocrítica c pense se isso não passa de desculpa para voc mesma. Quando voce for presidente da República e reunir seu ministerio, atenção: a cada duas horas, as pessoas (até para se refazerem e conseguirem produzir mais) precisam de de'r. minutos e descanso. E se a reunião começou de manhã e varou a hora do almoço, o mínimo da boa hospitalidade obriga a uma rodada de sanduíches e refrigerantes, antes que caia a primeira vítima. Não fazer isso é sinal de prepotêneia e despotismo. l:s #Meu Bleneiag está um f um só # "Meu Baleneiaga ficou uma fumaça só, não volto mais naque:le lugar." rrases assim costumam ser proferidas por quem se ineomoda com lugares de alta coneentração de fumaÇa. Radicalismos de lado, os não-fumantes podem ser, em algumas situações, tão chatos quanto os fumantes. Acender um cigarro e se entregar a esse prazer é uma coisa. rumar compulsivamente é outt~a. Os atletas que me perdoem, mas fumar um cigarro pode ser um belo exereício de clegâneia. Assim como os adeptos da mania também devem achar normal e correto alguém que se ineomode com baforadas perdidas no salão. Is. L. #  muito feio uma mulher fumar na rua. Evite. Nunea apague um cigarro numa planta, num pires. Se não eneontrar um cinzeiro, engula a cinza mas não jogue no chão. Mesmo com raiva, evite apagá-lo na mão ou no bt~aço do namorado que está especialmente saliente naquela noite. Jamais entre num lugar fumando. Nunea acenda um cigarro no outro. m carros com ar-condicionado, cuidado. Se não estiver mesmo dando para segurar, peça licença e pergunte se não vai ineomodar. Vai, é claro. Mas se você contiriua decidido, abra um pouquinho a janela, dê não mais do que duas tragadas e apague imediatamente o cigarro. 141 # Se você não fuma, mesmo com horror não diga que o cigarro dos outros te ineomoda. Não seja um corta-barato. OLi troque de. grupo. Se você tem mesmo pavor a cigarro, nem por isso tem o direito de desaparecer com os cinzeiros de sua casa, quando espera amigos. Não seja tirano. Charuto? Cachimbo? É bom perguntar antes se tudo bem. Cachimbos, só em casa, de prefereneia na biblioteca e se você tiver passaporte inglês. Acender seus próprios cigarros faz parte do ritual de Ìumar para certas pessoas. Se pereeber que alguém está sendo muito veloz em acender os seus próprios, na tereeira tentitiva frustrada, pergunte. Lembre-se de que hoje é perfeitamente normal uma mulher acender seu próprio cigarro. h algumas preferem. Se algucm que se vangloriou de ter parado de fumar não resistir c puxar um cigarro, favor deixá-lo em paz - em lugar de falar: "Mas você não disse que tinha parado?" Não se esqueça de sair levando seus cigarros, nada pior do que aquela que já chega pedindo. Aliás, cigarro é igual a hlush, batom, objeto de uso pessoal. Uma das minhas paranóias é cinzeiro sujo. Se eu não me segurar, esteja em casa de quem estiver, estou limpando os cinzeiros. Muito bem. Um dia em Paris, no hotel 142 #Montaigne, estava lendo um livro. Lendo, fumando e despejando o cinzeiro, claro. Só que a cestinha de lixo, que parecia ser de metal, era de plástico. De repente, a lata estava derretendo - como bruxa de história infantil. Consegui, com a ajuda de uma toalha, levá-la para o banheiro e voltei â paz da minha leitura. Quando olho - ah, quando olho -, pela fresta da porta saía uma fumaça preta e pequenas partículas de não sei o quê, como se fosse uma pocira negra. Saí correndo e pedi socorro ao coneierge. Daí a pouco chegavam os bombeiros (lá eles não brineam com essas coisas). O papel de parede do quarto e a cortina ticaram negros de Iùmaça, foi um escândalo e acabei -um horror - expulsa do hotel. Que vergonha! Bom, tudo passou - até a vergonha. Menos a minha mania. Só que agora veritico muito bem se o cigarro está apagado antes de jogá-lo na cestinha. g hotel Montaigne, nunea mais. Passci a provocar meus ineêndios bem longe, na Rive Clauche. Não seria muito só de sou a favor do fumo, claro. Mesmo que fosse, não louca de levantar essa bandeira. Mas ouvi, de fonte bem-informada, que morre muita gente de infarto, tensão - pela falta de um cigarro. 143 #1 1 1 La vie en rose à la carte # Solteiros parecem maiores abandonados ou gcnios cmaneipados. Morar alone não significa habitar uma jaula imunda, nem passar a impressão de que se está prestes a virdr ernzitão. Optar por uma vida de bachelor não quer dizer que você só possa comer corn flakes no café da manhã. A solteirice- antiga ou de poucos dias - pode não ser aquela sensação de bonjour tristesse. Declare todos os dias estado de carnaval em sua casa, nem que seja para dlnçar cheeh to cheeh com a vassoura! E. L. #Estatutos de um namoro: · poucas demonstrações de paixão em público. Carinhos ligeiros, discretos, são o suficiente · não f iquem contando como se conheceram, como o namoro começou · em público, jamais chame seu pareeiro por um apelido íntimo que vocês inventaram um para o outro. Tipo Pituquinha, Ncném, ete. · não fiquem contando como é o outro, as características, a íiltima briga, as pazes, ete. · nada de bilu-bilu em público.  bonito o amor, mas só interessa aos que estão se amando. E dispensa platéia. 147 # I'or maior que seja sua paixão, seus amigos agora só podem ver você acompanhado? Um elemento novo no grupo costuma inibir a intimidade, e nada mais chato do que gente que vive grudado no namorado. · jamais diga que namorou A, B, C, D, I:, P, ete. O namoro, tendo sido público, se perguntada, apenas confirme. Jamais conte nada dos seus ex. E lique atenta. I-Iomem que fala muito dos amore:s passados vai falar igualzinho de voce, já pe.nsou? · se voce está em casa do seu namorado e cle recebe um telefonema, saia diseretamente da sala, vá retocar a maquiagem. A ele cabe desligar rápido, em atenção a VOCê · num jantar, que os namorados não fiquem juntos o tempo todo. Para fazer cena de love stoyy, melhor não sair lenha em casa alguns maços de cigarros da marea que seu pareeiro fuma, se é que ele tuma. Nada mais gentil. Já deu para pereeber que eu fumo, não? Mas estou pensando scriamente em parar. Se você for mais alta que seu namorado, cvite sapatos de salto. Nem todos os homens aceitam com um sorriso bater no ombro da mulher com quem estão. Alguns até I;ostam, mas é raro. Eu tenho um amigo que c feio, baixinho e se veste mais para o mal. Mas c inteligente, charmoso e muito vaidoso. Ple adora mulheres lindas, c de preferência, muito altas. Diz ele que, assim, as outras mulheres licam se perguntando " mas o que foi que ela viu nesse Í l #homem? ele deve ser inerível!" E nessa, meu inteligente amigo se vê cereado de mulheres, todas muito curiosas de conhecer seus charmes secretos. Que ele, aliás, aproveita para exibir, sem nenhuma modéstia. Esperto esse meu amigo, não? E os ciumentos? Bem, aí já é um problema que transcende este livro. Mas qualquer coisa - qualquer - é melhor do que uma briga pública, uma cena de ciúmes. Se você pereebe que não vai conseguir se controlar, evapore-se. Suma. Pegue seu carro, um táxi, o carro dele - deixe ele a pé, não faz mal -, desça pelas escadas, respire fundo tire o telefone do ganeho quando chegar em casa, e deixe para brigar no dia seguinte. Fácil dar conselhos, não? Se voce vai ter uma conversa daquelas definitivas com seu namorado, nada de tênis. Um bom salto alto vai te dar outra moral. Free again Separdção: alívio ou grande dor? Ou os dois juntos? Manda a prudêneia que você não tenha pressa, nem para cair de boca na vida, nem para casar correndo. Aproveite esse momento maravilhoso, mesmo que ainda esteja doendo. Você eneontra sua ex-paixão de namorado novo. Haja coração! Mesmo que tudo já esteja superado, nem goste mais dela, é duro, convenhamos. Mas não dê bandeira. Fique frio e, logo que possível, deixe o gramado, vá para casa, tome bastante água, eu disse água! Não fantasie que ela c a mulher de sua vida, provavelmente não é. E não 149 #telefone de madrugada, pense bem; se quiser mesmn falar, por que não deixa para amanhã, para não se arrepender depois? Ah, mas tão bom esse telefonema da madrugada. E se ela não estiver so'r.inha? Já pensou no seu desespero? O namoro acabou e você está arrasada. Mas não se deixe abater: aproveite o tempo vazio para se cuidar. Entre naquela ginástica, faça aquela dieta, você agora tem tempo sobrando, use-o a seu favor. Muita massagem de óleo nos cabelos, creme na cara. Ocupe-se, distraia-sc., nada de licar relembr'ando os tempos Ìclizes que não voltam mais. Aproveite para dar Lima eral nas suas renipas, mexer nas bainhas dos seus vestidos (sempre para cima, claro). Olhe par'a a frente, pense no seu lùturo amor. Ou você acha que este foi o último? Ouvi ou li, já não me lembro, que o fim de um amor deveria ser comemorado com uma festa. Não para festejar o fim de algLima coisa (o que é sempre triste), mas como o prineípio de uma nova fase. Por que não tentar? Seu namorado: como  ele? · mimado? · lilho único, adorado pela mãe · possessivo? · machista? · imaturo? 150 · vaidoso? # · competitivo? · galinha? · dono do mundo? · ciumento (um pouquinho não só pode como deve) Se ele tem muitas das características acima, vá com calma. F não diga que não avisei. Namore, viaje, tenha Iilhos, more junto, até case. Mas cuidado para não se apaixonar. F falando em paixão: nunea se apaixone por um homem que não seja capaz de se emocionar. Não confie em ninguém, aliás, imune a emoções. Apaixonados, vocês já pensam em morar juntos. Sugiro, antes de consumar o fato, ensaiar pequenas viagens. Comecem com tins de semana (curtos). Deu certo, a vontade continua. Planejem, agora, uma viagem mais longa. Sete dias. (Viagens são grandes testes para ver se vale a pena enf rentar a vida em comum. Nelas, sabe-se mais sobre as pessoas do que em anos de amizade, de namoro.) Se foi tudo maravilhoso, comecem a se preparar para o grande passo. Mas se escolherem continuar morando cada um em sua casa, por que não? é também uma excelente maneira de viver a dois. 151 # . A praa da legri # Impossível conhecer alguém que não tenha amigos ou amigas declaradamente gays. Festa, repartição e excursão sem gay perde toda a graça. Mas lidar educadamente com a categoria exige certos eondicionamentos, antes que contalos de primeiro grau sejam rebaixados a tereeiro. Voilà! E. L. # Se voce costuma transitar pelo mundo gay e um rapaz te apre.senta a outro dizendo "este é Ricardo, estamos juntos há dez anos", fique fria. Se você ainda se escandaliza com essas coisas, mesmo assim não mova um só músculo do rosto. I: para não ficar aquele braneo, pode até dizer "que coisa bonita, rard, um casamento durar tanto". Mas não leve sua naturalidade ao exagero de perguntar: `ocês têm fllhos?" Sim, pois você pode ouvir como resposta: "Não, nós evitamos". Aí quero ver a sua cara. Quando você receber uma cantada gay, reaja da mesma maneira que você reagiria a qualquer cantada. Dê corda, sc estiver a fim. Corte, se não estiver. Caso fique muito nervoso, atenção: isso costuma ser uma grande bandeira. Após as apresentações, você não precisa ir logo contando suas preferêneias sexuais. Ninguém tem nada a ver com isso. 155 # E como mandar um convite para um casal gay? Se, olicialmente, a casa é de Luís, mande dois convites dentro do mesmo envelope, sobrescritado em nome de Luís. Ou mande dois convites em dois envelopes. Menos problemas, melhor assim. Em nenhuma hipótese use sr. e sra. Se você quer convidar seu amigo gay para jantar e ouviu falar que ele está casado, o que fazer? Convida também o namorado que nem conhece? Nenhuma obrigação - a não ser que tenha sido participado do casamento. 156 # 1 1 - 1 1 Por f àvor, pre aora! # Noivados e casamentos não são ficção científica. Existem, acontecem diariamente aos montes, assim como quilômetros de tule e açudes de lágrimas são gastos na produção de tais situações. São exatamente aquele tipo de acontecimento onde um centímetro a mais pode significar um desastre. Ou uma gota de champanhe a mais pode transÌormar o que parecia bobagem no mais inacreditável dos contos de fadas. raça sua opção ou anule a questão. . I.. # Consta que, em outros tempos, quando um noivado era rompido, a noiva costumava devolver todos os presentes dados pelo noivo, junto com as cartas recebidas. Hoje, os I'atos mais íntimos são publicados na imprensa e os noivados, raros. Que dizer então dos presentes? Mas, e se acon- tecer? Mais uma vez, depende. No meu entender, se quem rompeu I'oi a noiva (caso raro, as mulheres em geral adoram casar), tudo certo, ela devolve os presentes. Mas se foi o noivo, deixando a noiva arrasada, infeliz, não tem que devolver nada. I: tomara que ela já tenha, no nome dela , apartamento, earro, tudo dado pelo noivo. Aí ela vende tudo e faz uma bela viagem de volta ao mundo, par'a eneontrar o seu verdadeiro príneipe eneantado. Se você quer aprender o protocolo de um casamento tradicional, um conselho: procure um profissional do ramo. le vai ensinar tudo na perfeição, ensaiar a cerimônia, alem de cstar presente no dia, comandando a operação: quem cntra primeiro, quem fica ao lado de quem no altar, ete., coisa que nenhum livro, aliás, poderá fazer por 159 #você. Mais uma coisa. Quando, após o casamento, os noivos recebem para uma recepção, nem sempre convidam todo mundo. Daí aquele cartãozinho antipático que só os privilegiados recebem. Eu, quando recebo o convite só para a igreja, Iico arrasada, não vou, só telegrama e pronto. E não gosto dessa moda. Ou convida todo mundo, ou não convida ninguém. Mas uma recepção, como deve ser caro. Por que então não fazer uma pequena reunião depois da igreja, convidando apenas os muito, muito íntimos? Por telefone, sem nenhum cartãozinho, para que não haja dúvida sobre a intimidade da coisa. Outra coisa que complica muito os casamentos são as Iamílias. Parentes que não vemos há 250 anos, outros que nunea vimos, sobrinhos-netos, primas em tereeiro grau já no quarto marido, os tilhos dos outros casamentos do marido, um caos. Essa mistura Ìaz de um casamento uma estranha reunião (estou falando sobretudo dos casamentos sc:guidos de recepção). Uma amiga minha resolveu bem essa situação. Casou-se na igreja de manhã, cm seguida recebeu toda a família, padrinhos, ete., para um almoço. Mas toda a làmília mesmo. À noite, convidou para uma discoteca os amigos, sem ninguém da família. roi muito divertido. A noiva gostou tanto de cstar vestida de noiva que foi para a pista de dança de grinalda c buquê. A festa acabou alta madrugada, os noivos dançando rock, animadíssimos, foi superlindo, alegre, ver noivos tão soltos, em vez de bonecos de vitrine recebendo cumprimentos em grande parte de gente que nunea viram. Adorei. Se alguém, pretendendo se casar, me perguntasse como deveria fazer o casamento, eu não tenia dúvida: aconselharia, se tivessem uma casa fora (se não tivessem, a de um amigo) e f'izessem questão de cerimônia religiosa, que se io #casassem na igreja da cidadezinha mais próxima, só com os amigos mais queridos, de manhã. Não usaria tafetás, bordados, apenas um belo vestido de algodão (mas sem um só tio sintético), acho um luxo. Um almoço depois e fim. O casamento mais bonito que já vi foi o de Ilde e JeanLouis Lacerda Soares. Eles se casaram na capela Mayrink, na rloresta da Tijuca, não mais do que 50 pessoas, convites leitos por tlefone, do lado de fora uma mesa apenas com o bolo, simples, simples. Nada de canapés, suquinhos, apenas caviar e champanhe, TONELADAS. Eu e Samuel fomos padrinhos, foi lindíssimo. Só mostre fotos e vídeo do casamento a quem tiver estado lá - assim mesmo, se pedirem muito. Quanto aos convites, vá a uma boa gráfica, há mil modelos, podem te aconselhar. Escolha, de preferêneia, um bem simples. Olha, estou falando de casamentos como se fosse uma e.pert no assunto. Na verdade, me casei três vezes, apenas uma no civil. As outras duas pelas minhas próprias leis. Meus filhos me pouparam de um casamento na igreja. Já pensou, eu vestida de mãe da noiva, de longo, saltos altos, arranjo na cabeça, horas em pé, recebendo os cumprimentos na sacristia, acho que desmaiava. Pinky só pôde se casar com Roberto depois da lei do divóreio e já com dois filhos. [Na semana seguinte, Pinky se vestia para ir ao casamento de uma amiga e uma das crianças perguntou: "E quantos filhos eles têm?" Para eles, o normal era os pais se casarem já com filhos.) O casamento de Samuca foi lindo: num cartório em Copacabana, ao lado de uma pracinha onde havia uma lanehonete, tipo 11 da manhã. Depois descemos e ficamos tomando sorvete, milk shake, Helô com um barrigão de oito meses, um monte de amigos. Foi como161 #vente, um dia inesquecível. Bruno, já com dois filhos, se recusa a assinar o tal papel. Ele é quem sabe. Pode parecer que eu seja contra o casamento. Claro que não. Apenas, não acho importante. Importantes são os sentimentos que, no meu entender, devem ser vividos com pudor e discrição, partilhados apenas com os íntimos. Falo de sentimentos - sejam eles de dor ou de alegria -, não de festas. 62 #Oh, que delici de guerr! # Talvez fosse mais simples obrigar um tamanduá a dividir a mesma toca com uma ariranha do que eneontrar o segredo da convivêneia mútua entre os tais humanos. Morar junto é padecer num paraíso ou pisar em ovos constantemente. Morar junto pode ser glorioso. Mesmo que um belo dia você tenha uma crise existeneialista e ache que o inferno é o outro. E. L. # Claro que é complicado. Um fuma, o outro não. Um gosta de gato, o outro de cachorro. Um come carne vermelha, o outro só come peito de frango. Um gosta de Nova York, o outro de Paris. Um adora cinema, o outro só vai a teatros. Não é fácil, temos que admitir. E como fazer? Alguém vai ter que ceder, claro. Por que não você? É tão bom, quando se está apaixonada. Eu adoro. Nunea, perto do outro: · corte as unhas (prineipalmente as dos pés) · tire as sobraneelhas · passe creme no rosto · raspe as pernas (com o barbeador dele jamais) · limpe o ouvido com cotonete 165 · Iàça uma massagem de óleo no cabelo, ou uma `touca' · pinte os cabelos · esprema qualquer espinha ou afns · escove os dentes · I'ique horas pendurada no telefone Í: bem verdade que existem pessoas que acham essas intimidades parte integr·ante do relacionamento. Tem de tudo nesse mundo. Aproveito para dizer que nunea houve uma idéia pior do que aquela de duas pias no mesmo banheiro. Por que não dois chuveiros num mesmo box? Tire um dia da semana para os cuidados relacionados acima (estou evitando a palavra certa: faxina). Seu marido não vai ao futebol? [Se não vai, obrigue-o a ir.) I: você, não vai ao supermereado? Então, aproveitem as respectivas ausêneias de maneira útil. Nunea fale mal do seu pareciro com ningucm. Casais devem jogar no mesmo time. rure o olho dele com um estilete, mas só quando estiverem sozinhos. Constranger ou humilhar o companhciro? Se vocês se maltratam ate mesmo publicamente, por que ficam juntos? Será medo de não eneontrar mais ninguém? Aos que não conseguem deixar de jogar charme: seja um mestre na discrição. Galinhagcm com repereussão social é mLtito mais grave. Aproveitando: nada mais fora de moda que o adultério. As relações devem ser livres, ensolaradas. 66 #Iumilhar a pessoa com quem se vive é, para além da discussão sobre os sentimentos, muito, muito mal educado. Elogie sua mulher, sua namorada. O vestido, o penteado que cla mudou. Preste atenção na pessoa que você, pelo menos teoricamente, ama. Ela vai ficar tão feliz. Se você vai fazer uma plástica, é aconselhável que, na volta do hospital, um dos dois vá passar uma temporada em casa de amigos, ou num hotel. Só apareça quando a derradeird maneha roxa já tiver desaparecido. Quando estiver uma deusa. Nada do marido participar da sessãocurativos, sabendo de pormenores tipo onde puxou, ete. Enquanto espera, namore pelo telefone, é uma total delícia. O rímel, na manhã seguinte, transforma-se em grande inimigo da mulher. Em compensação, óculos escuros são grandes aliados. Durma sempre com eles na mesa de cabeceira. E uma máscara, no caso do outro gostar de ler antes de dormir. Jamais converse sobre doenças femininas com seu na- # morado, marido, o que for. Clinecologista existe para isso. Se sua mulhcr tentar colocar esses assuntos em pauta, seja franeo, diga que não gosta. Isso não significa que você não estará solidário se acontecer algum problema. São apenas pequenos cuidados, para amenizar certos aspectos prosaicos da vida de um casal. 'renho uma amiga que põe o alarme do seu microdespertador para soar 15 minutos antes do namorado acordar. Esse despertador toca tão baixo que só o coração de uma mulher apaixonada consegue ouvir. Aí, ela penteia os cabelos, dá um jeito no rosto, escova os dentes (só com 167 #água, para não dar bandeira), volta para a cama e finge lindamente que ainda está dormindo. Supergracinha, ela fazer tudo isso pelo namorado. Mas também esse homem deve merecer, não é mesmo? Nada mais insuportável do que mau humor matinal. Pior só mesmo bom humor em excesso, aquele que já acorda de bem com a vida, brineando e cantando no chuveiro. Que tal um pacto de silêneio durante os primeiros 60 minutos depois de abrir os olhos, até voltar ao normal? Dormir junto é ótimo. Acordar junto, nem tanto. Só que ainda não foi descoberta a solução desse problema. Capítulo louça suja na pia. São dois pratos, dois garfos, duas facas, dois copos. Tão mais fácil lavar do que discutir a igualdade dos sexos. Antes do ataque feminista: você não lava um pratinho, com o maior prazer, para sua irmã, seu tilho, seu amigo? Por que não o do homem que você ama? Mas se foi o homem quem sujou o tal pratinho, ele também pode passar uma aguinha e deixar tudo em ordem. Afinal, sua amada não é nem sua escrava nem sua mãe. stando na casa da namorada, não vá pegando o jornal e entregando para ela o caderno de variedades. Quando duas pessoas costumam ler o mesmo jornal, o ideal é ter duas assinaturas. Não saia do quarto ou do banheiro sem um rápido toque de escova nos cabelos. Se for até a sala, no mínimo um robe em cima do pijama ou da camisola. 168 # Quem mora junto deve combinar: dois toques de campainha antes de botar a chave na fechadura, para avisar que está chegando. Para não dar aquele susto; penso lógo que é assalto. E paredón para aquele que entra pé ante pé para Iàzer uma surpresa. Morar junto exige manter a geladeira em ordem. Compre recipientes cspeciais para guardar as coisas. Melhor: faça como os europeus. Compre hoje apenas o que vai comer hoje. Assim vocês terão tudo sempre fresco e sem aqueles horrores de sobrinha de arroz, sobrinha de um legume, sobrinha de sei lá o quê. Separe numa prateleira os docs, as fr,.ztas. Na outra os molhos. Organize, tenha orgulho da arrumação de sua geladeira. Por maior que seja a intimidade (e morando juntos costuma ser bem razoável), caleinha e sutiã na cozinha não dá. Nem cueca. Aliás, nem morando sozinha: apenas uma questão de estética. Cheiro de alho é ótimo. Cheiro de amor é ótimo. Mas não misture. Cheiro de alho na cozinha e de amor no quarto. Quando um dos dois não fuma, o que fuma que tenha a gentileza de não fumar no quarto, sem que seja preciso pedir. Ok, vocês estão morando juntos. Façam o possível para que cada um mantenha um canto só seu, mesmo que esse canto seja mínimo. Procure cada um conservar seus amigos, prazeres e atividades, sem aquela de ter que compar tilhar tudo com o pareeiro. Não abra mão de ter sua vida própria, passeios, almoços, amigos, cinema, cooper, o que 169 #I'or. Isso não deve ser computado como vida secreta, são apenas prazeres pessoais que qualquer pessoa tem o direito de ter. Mesmo em casa, tenha atividades só suas: armar umuzzle, limpar o som, costurar, ouvir música, qualquer coisa. Está provado que aquela coisa antiga de "somos um só coração" ou "só vou se você for" não tem nada a ver.  na hipótese do romanee acabar, agindo assim, você não se sentirá tão desesperadamente só. Aviso às mulheres que fogem da cozinha: aprendam alguma receita, ponham o nariz nas panelas, c uma delícia. I: mulhcr que não sabe cozinhar deveria ser proibida de morar junto com alguém. l:, gente, um pouco de ordem na casa! Até se pode tolet~ar que a roupa da noite, quando se chegou tarde, fique espalhada. Mas c tão, mas tão bom dormir com o quarto impecavelmente arrumado. O sono fica mais gostoso, faa um csforço, vale a pena. Nas relações amorosas, qualquer coisa é melhor do que a indiferença, o desinteresse. Às vezes fico obscrvando nos restaurantes casais que jantam sem se olhar, sem se falar. I'ar'. mim, é o pior tìlme que pode haver entre duas pessoas. Guidado com as surpresas. Isso é muito pessoal, claro. I:u, se meu marido, namorado, o que lor, chel;ar em casa anuneiando que ganhou na loto, já comprou as passagens para a gente embarear no dia seguinte para a I:uropa, que o prêmio foi tão alto que vou poder comprar todos os Armanis que quiser, vou ter um ataque - odeio surpresas. Mas sua amada pode ser mais dócil que eu. Mesmo assim, procure saber se ela gosta das novidades inventadas por você. 17 # Numa relação amorosa, depois de uma noite de grande desacerto, de.sapareça. Dê tempo para que a raiva passe e que a saudade chegue. Talvez seja sua única chanee. Aconteceu. O que pode acontecer, com duas pessoas que moram junto, namoram, convivem, ou são apenas amigas: um desentendimento, uma rusga, um malentendido, o que for, com ou sem razão, culpa de um ou de outro. Mas voces se cntnderam, se desculparam, se perdoaram. Fntão, regra de ouro: não se fala mais no assunto. Nunea mais, entendido? `lorne sua casa o melhor lugar do mundo. Falta de dinheiro? L deseulpa. Você sempre poderá fazer alguma coisa para melhorar, cmbelezar, mesmo com pouca grana. Quc ela seja o lugar onde você chega sempre com grande prazer, onde se sente melhor, protegida de tudo c de todos. I'ense um pouco. m vez de comprar uma saia nova, um tenis, compre um bonito pano (que nem precisa ser caro) c joguc cm cima do sofá, vai te dar um novo élan. Arraste os móveis, mude tudo. A casa é um prolongamento nosso. Rellete nossa personalidade, o que vai dentro de nós. 1'ortanto, coragem e mãos à obra. (Se continuo o discurso vou acabar dizendo que o mundo não vale o meu lar.) Talvez você ache frescut~d tudo que leu neste capítulo. Mas não c. Se no início do namoro você não fazia certas coisas, por que não fazia? e por que faz agora? Renita sobre isso e procure, na sua vida a dois, preservar a beleza e o cneantamento dos primeiros tempos do seu romanee. Vale a pena. 171 #1' , Território grdo # Bureker de azulejos que serve para todas as coisas que ninguém nem às paredes confessa. Local onde a intimidade de cada um atinge a plenitude total, ampla e irrestrita. Tudo que se passa dentro de um banhciro assume ares de mistério. Daí aquele fetiche do buraco da fechadura. Faça dessa oficina um altar para suas mais recônditas displicêneias e um camarote impenetrável. Saiba que usar banheiro de portas abertas pode ser uma heresia. F ros castiga. h. L. # Quando entrar no banheiro, nem que seja para passar um inocente batonzinho, tranque a porta e abra todas as torneiras. Ninguém, nem mesmo sua mãe, deve suspeitar do que se passa lá dentro. Seja na cása de sua maior amiga, no avião ou em sua própria casa, deixe o banheiro impecável, ao sair. Nenhum vestígio de sua presença, aja como se tivesse acabado de cometer um assassinato. Só não se preocupe com as impressões digitais. Enxugue a pia e a banheira por dentro, assim que terminar de usá-las. Lave o sabonete e cuidado com aquela cspuminha hedionda que costuma ficar. Tire qualquer fio de cabelo da escova, nem que seja apenas um. Esprema o tubo de dentifrício do fim para o começo. E f'eche depois de usar. 175 # Nunea deixe o tapete amarfanhado, estenda-o em algum lugar. Se raspar a perna ou fizer a barba e a água acabar, limpe tudo, nem que seja com saliva. Vai demorar, mas é o único jeito. 17 #l 0 mpérió do erdós # Se os peixes morrem pela boca, um jantar morre pela falta de idéias na cozinha. A sinfonia que gira em tor o de um prato inteligente, simples e saboroso, pode ser comparável às harpas celestiais. Uma orquestra de paladares só é destruída pela desatenção dos comensais. Mais vale uma bela sardinha frita do que um quilo de caviar em casa de gente chata. Ou aquele bistrô perdido pode ser mais envolvente que uma festa de Babette. Comida é diversão e arte. Solte seus cães farejadores em busca daquela trufa impossível. E. L. # Gastronomia -tão em voga nos dias de hoje. Como tudo o mais, pratos e tendêneias entram e saem de moda. Já te ocorreu que, dentro de alguns anos, talvez seja coisa do passado ir a um restaurante japonês? Pois prepare-se, não c nada impossível que isso aconteça. Em Paris, aliás, essa moda nunea chegou. Seja superexigente à mesa. Isso é padrão de civilização e refinamento. Saber o que se está comendo, poder identificar o que está no prato: um direito de todos. Horrível, comidas envoltas em cremes, queijos. Lá dentro, sejam camarões, cobras ou lagartos, não importa. Tudo tem sempre o mesmo gosto. Os homens costumam entender e apreciar mais a boa mesa que as mulheres. Por isso, num jantar gastronômico de responsabilidade, melhor evitar a presença do belo sexo. 179 # Que o seu paladar tenha memória. Impossível esquecer umas bogas [pequenos peixes que, me parece, só existm em Portugal) comidas num inverno, no Algarve. O bareo de pesca chegando, as gaivotas sobrevoando, um fogareiro com carvão para assá-las na brasa, um vinho de areia (feito de uvas que crescem em terreno arenoso, perto do mar), um vento frio, à beira-mar - ah, que delícia. P o Ieitão do Pedro dos I.eitõcs, na estrada para Coimbra (foram uns 150 quilômetros de asfalto, mas valeu a pena), bebendo um vinho de agulhada P a insalatta carese, num início de primavera em Capri, a ilha quase deserta, com seus aromas de llores, laranjas, limões, acompanhada de um vinho Tibério Agradeço aos céus que meu paladar tenha tão boa memória. F meu coração também. Tivemos a tragédia, nos últimos dez anos, de conviver com a tão original Nouvelle Cuisine. Ah, quando me Iembro! Peixc com molho de fruta-do-conde, frango com araçá, camarão com manga, pato com carambola. Como é cansativa a originalidade! Felizmente acabou. Nossos aplausos a Paul Bocuse que, como outros restaurateurs da França, decretou a morte dessa bobagem. F viva! A todos os foies, os magrets de canard, as gorduras, a opulêneia dos pratos, o prazer de comer bem e - embord pouco elegante - muito. Que as matérias-primas sejam de primeira: azeites, vinagres, temperos, crvas. Que não se complique demais a receita. Que você possa identilicar, insisto, sem que vire adivinhação, o que está comendo. Você sabia? Na França, a imprensa especializada, aquela que dá notas aos restaurantes, testam a qualidade dos pratos pedindo sempre as coisas mais simples. Í: na simpli180 #cidade que se reconhece a verdadeira qualidade - ouviram, donos de restaurantes? Se é para enganar, làça um prato ao curry - ou à la moutarde - e estamos mais do que conversados. Não que eu não goste - até gosto -, mas não tem nada a ver com Gastronomia. Aquela que se escreve com letra maiúscula e da qual se fàla com grande respeito. Fstava lendo outro dia sobre uma nova moda - ouro em pó na culinária. Achei engraçado, tiquei até com curiosidade de experimentar. Mas um pouco adiante, na mesma matéria, também diziam que esse luxuoso ingrediente, além de não fàzer mal à saíide, não tem nenhum sabor. Fiquei pensando: então, por que não purpurina? Vou usar, um dia desses. Não é preciso que você esteja em grandes restaurantes para comer muito bem. Tenho lembranças inesquecíveis do Maxime em Recife, lugar bem mais para o modesto, (apesar do nome), onde se comem casquinhos de caranguejo, moquecas de lagosta, tudo maravilhoso. Ou o l3arrica, em Fortaleza, pouco mais que uma pensão, ao lado de uma linha de trem, onde vou sempre que visito a cidade. Espero que nenhum dos dois tenha sido fechado ou se modernizado demais. Porque pretendo voltar. Jamais tente comer um acar-ajé fora de Salvador. Certos ingredientes viajam mal - e o dendê é um deles. Terminando esse capítulo saboroso (sou capaz de ricar horas falando de comida - e comendo também), atenção aos falsos conhecedores da boa mesa. Nos salões, freqüentemente, se confundem pessoas com bom vocabulário 181 #gastronômico com aquelas que têm bom paladar. Nada a ver. Ah, os vinhos. Se você for uma das 20 pessoas que realmente entendem de vinhos no Brasil, ótimo. Mas se for, humildemente, um dos outros 149 999 98 brasileiros que não entendem, nenhuma importâneia. Dirija-se aos sommeliers - afinal, eles estudaram e ganham para isso - e aconselhe-se. Não é nenhuma humilhação não saber nada de algum assunto. l3obo é querer parecer que conhece - sem conhecer. 182 #undo e pre f ere estar trê uiques cim d humanidade # Algumas casas riscaram do mapa doméstico a existêneia do bar. Outras casas parecem ter sido construídas em função exclusiva do... bar. Quando existir, que seja como um altar: santos exatos para momentos exatos. Quando não existir um bar em sua casa, que você tenha pelo menos toneladas de humor e possa indicar o caminho do boteco mais próximo das redondezas. Tenha um bar e deixe-o se for capaz. . L. #O bar e afins Você está morando sozinho e quer montar seu bar sem muita complicação. Anote o básico: Coos: · uísque - longos e curtos · campari - longos e inos · vodea - os mesmos de uísque e outros menores, para quem bebe vodea direta do freezer · vinho do porto - como um copo de vinho, só que menor · dry martini - tem que ter r85 · vinho braneo/tinto - basicamente iguais, de pé, dois tamanhos, sendo o menor para o vinho braneo · champanhe - champanhe é um vinho - portanto, copos de vinho (melhor do que flútes, taças). # Bebidas: · uísque · vodea · gim (e Noylly Pratt para um dry martint · campari · vinho do Porto (para quando sua tia vier te visitar) · uns dois licores meio doces, para quem não gosta de beber · um conhaque, armagnac ou calvados. Na geladeira: · xerez · vinho braneo s6 # · champanhe · cerveja No freezer. · poire · vodea (pura ou preparada com poivre rosé ou canela, ica demais) Pela manhã, os corajosos geralmente bebem: · campari · gim tônica · vodea tônica · champanhe · cerveja · vinho braneo Mas de preferêneia, não cometa essa loucura. As conseqüências, para quem ousa desa iar essa lei, costumam ser sinistras. ls7 # No meio da tarde: · champanhe · um Porto Com esse arsenal, você vai poder inventar novos coquetéis (só vale feitos na hora). Talvez acabe com o fígado destruído, mas vai se divertir muito até lá. Uma receita de dry martini: coloque o gim num copo com gelo. Sacuda, jogue o gelo fot~a. Chegue bem perto e sussurre: Vermouth. Dizem que fica divino. Nem vou fàlar sobre vinhos, claro. Para conhecê-los com propriedade e escrever sobre, só tendo nascido ou vivido muitos anos na rrança, e estudado o assunto com seriedade. Como não é o meu caso, ficamos por aqui. Num clima tropical, não chega a braneo o tempo todo - mesmo que o também quero defender o rosé, tão tico no verão para acompanhar uma ser erro ficar no vinho prato seja carne. E mal-falado, mas simpásalada. Só beba maquilada e adequadamente vestida. E de saltos altos, claro. Pessoas que bebem com aspecto desleixado são um quadro pavoroso. E - conselho precioso - só com pessoas que também estão bebendo. A intolerâneia de quem não bebe para com as pessoas que bebem é um fato indiscutível. # I 1 Gio, sso e abotomi # Tenebrosas. Vingança dos deuses. Terremotos emocionais. Mea culpa. Arrependimentos abissais. Juras de abstinêneia etílica. Uma bacia de alka-seltzer. Um ciclone no quarto. Sim, as ressacas são terríveis. Sim, as ressacas são heavy-metal. Sim, as ressacas têm cura. Não, as ressacas não têm cura. Se seu mundo caiu, você que aprenda a levantá-lo. Nem que seja para fechar a janela do quarto e dornzir três dias seguidos. Boa sorte. E. L. #Os ve.xames - como evitar? · não misturando fermentados com destilados (graes and graiycs) Não bebendo: · de estômago vazio · quando cstiver triste, intèliz, em depressão, num almoço de negócios · no dia de cotlZecer a futur sogra, com direito a enteados · na véspera de tratar um novo emprego · no domingo à noite · quando eneontrar seu ex com outra 191 # · quando eneontrar seu atual com outr·a · quando eneontrar seu atual com outro. As ressacas, umapraga que assola a humanidade: como evitá-las? I-Iá um consenso: deve-se, antes de deitar, comer, ou tomar um copo de leite, ou dois engovs, ou tudo junto. Só que nunea ouvi fàlar de ninguém que, tendo bebido além do figurino, lembrou de qualquer dessas recomendações, ao chegar em casa. Se chegou. Como curá-las? · penumbra · ar-refrigerado e cobertor · um quase silêneio · uma música tocando bem baixinho, para impedir de pensar · Wagner e Beethoven, proibidos. Mozart e Vivaldi podem. Alguém que te adore e que; te dê não só apoio moral, como todos os cuidados materiais. Esse alguém deve des192 #fazer todos os seus compromissos, resolver problemas, ir ao baneo, pagar contas (entregando o cheque já preenehido, para você só assinar). Deve falar pouco, pouquíssimo, e olhar para você sem o menor ar de repressão. Para começar, água. Muita água. Quando você voltar a raciocinar, cerveja ou champanhe, num copo grande e muito bonito. Mas só um. Após um tempo, o capítulo alimentação. Vai depender, é claro, do que você conseguir pensar em comer. O ideal seria carne, ovos, açúcar, muito açúcar. Proteína e glicose. Mousse de chocolate, doce de leite. Na veia, se possível. As palavras uísque e vodea não devem ser pronuneiadas nesse dia perto de você. Não saia da cama, não atenda ao telefone. De mãe e de filho , hoje, nem pensar. Aliás, só atenda para ouvir boas notícias. A tal pessoa que te adora se enearrega de fazer a triagem. Nada de jornais. No começo da noite - sem que você tenha saído da cama para nada -um banho de imersão morno, prolongado. Enquanto você está na banheira, a pessoa que te adora faz a cama, troca os lençóis (que deverão ser braneos), dá uma geral no quarto, abre a janela para ventilar, fecha a janela de novo. Quando você volta, uma bela camiseta limpinha, e é só escolher entre os três ou quatro filmes (comédias ligeiras) que a pessoa que te adora foi buscar para você no videoclube. Nada de noticiários na TV. Nesse dia, Iique fora desse insensato mundo. Talvez o jornal da noite, aquele bem tarde. Talvez. A partir do banho, já é aconselhável trocar algumas palavras. Eu disse palavras, não idéias. A carêneia, no dia seguinte a uma grande noitada, é a maior que um ser humano pode sentir. Daí a importâneia da pessoa que te adora ao seu lado. Mas ou a pessoa que te 193 #adora também bebeu na véspera e está sem condições de fazer qualquer coisa por você, ou ela não bebeu e pode não estar te adorando nem um pouco. O ideal então seria uma empregada maravilhosa, com você há anos, habituada a esse tipo de cena. E que te adore, mesmo assim. E rompa relações - rompa! - com qualquer pessoa que tenha a insensibilidade de nesse dia dizer: "Você ontem hein! " , 194 #Alta voltgem # Este capítulo é um roteiro de cinema para ser dirigido num dia lindo c cinzento, num inverno perdido de um domingo qualquer. A locação rlea a criterio do produtor (cmbora eu torça para que seja em Nova York). Os Iigurantes devem ser muito divertidos. rigurinos nada pesados. Iluminação de nuanças. Trilha sonora com aquela old maic. Lu'r., câmara, ação. . L. # Quer fazer uma coisa divertida, difere:nte? Convide para um bruneh. Bruneh: mistura de break, fàst (café da manhã) com luneh (almoço). scolha um domingo de inverno, de prefereneia chuvoso. Chame a quantidade de pessoas que sua casa comportar confortavelmente. Marque aí por volta de meio-dia/uma hora. Í: fundamental que os convidados deixem para ler os jornais em sua casa. Para isso, você deve comprar todos os do dia, dois ou três exemplares de cada , dependendo do níimero de pessoas. Revistas de atualidade, de moda. Jornais c revistas não podem ser tocados até os convidados chegarem. O que servir? · três ou quatro tipos de chá · chocolate · café, leite 197 # · creme (fresco) · duas jarras de suco (que as jarras sejam iguais). Em homenagem à beleza, que um deles seja vermelho melaneia, por cxemplo. Que sjam feitos em centrífuga · uma jare~d de chá gelado · suco de tomate - para o bloody mary · frutas da estação -mas não faça um `arranjo de frutas' tipo artístico; coisa de hotel · duas ou três qualidades de mel, de geléia · lãcs frescos, croissants, brioches, torradas · presunto cru c cozido, salaminho, salsichas , · queijos braneos e amarelos · ovos, que você vai fazendo na hora: quentes, ou fritos, ou mexidos; com queijo ralado, salsichas em rodelas, salsa e cebolinha, salmão defumado, ovas de salmão · uma torta de maçã, outra de morango · um belo rosbife frio, de maminha ou picanha. Filé mignon, não, é a carne mais sem gosto que existe · duas qualidades de mostarda, dois ou três chutneys 198 #Seu bichno cb de rsgar minhas meias # Pêlo na boca, pêlo no sofá, pêlo no teto, pêlo no abajur, latidos em baixo do sofá, almofadas destruídas, xixi no kilim, miados no telhado, coleira perdida, ração acabou, o cachorro sumiu e atiraram o pau no gato. Criar animais pode ser uma delícia, prineipalmente para aqueles que exereitam sua porção São Franeisco de Assis diariamente. Mas, regra número um: mesmo que você possua um gato mais persa que o xá do Irã ou um pavão que fale polonês, isso não significa que todos tenham que nutrir o mesmo sentimento. E cuidado porque cavalos não descem escada e os veterinários cobram fortunas. E. L. #De bichos - com todo o respeito Você adora bichos. Que maravilha. Isso mostra, entre outras coisas, que você deve ser muito bom caráter (dizem). Mas nem todos gostam. Fntão, cuidado. Cuidado para não: · contar historinhas de seus queridos animais · mostrar fotos ' p , contar o arto uantas crias deu, o sexo, os nomes, que esta já é a quarta ninhada, ete. Mais. Quando estiver com visitas, não deixe seus gatos, cachorros, entrarem na sala naquela alegria exuberante, cheirando e lambendo nossas orelhas, subindo sem cerimônia nos nossos colos, rasgando nossas meias, sujando nossas roupas, largando pêlo e latindo. Se forem do sexo 2o3 #masculino, ainda podem acontecer cenas de excitação explícita, que deixam qualquer um de saia justésima. I:sse tipo de conversa só em cireuito fechado. Alguns assuntos, ou por serem de interesse geral ou pelo seu ineditismo, podem inebriar uma platéia. Mas papo de gato, cachorro, periquito, só para quem adora. No dia em que estiver recebendo amigos - os queridos jets bem traneados ou num bom hotel até o dia seguinte. Ou Valium 10 dissolvido no leite. Antes que me acusem de não gostar de bichos, com tudo que isso costuma implicar (falta de sentimentos, cte.), quero declarar minha paixão por gatos. Tive um, Amadeu, e tenho saudades dele até hoje. Gatos têm personalidade, independêneia; não são puxa-sacos nem carentes. São bonitos, elegantes, limpos, educados. Capazes de subir numa mesa cheia de objetos sem ao menos eneostar em nenhum. Quando, t~aramente, se aproximam de alguém, essa pessoa deve se sentir privilegiada por ter sido escolhida por esse ser raro e especial que é um gato. Sou apaixonada. Mas que ninguém pense em me dar um de presente. I:m matéria de bichos, o único que me daria prazer receber atualmente seria uma tartaruga. De bronze. 204 # N I I Os seus, os meus, os nossos adorveis monstrinhos e quelas mães amestradas # rste, com certeza, é o capítulo mais delicado. Mães e crianças costumam provocar uma mistura explosiva sob todos os aspectos. Mães e crianças costumam aborrecer até a mais aveludada das criaturas. Tem quem goste de conviver com o zigue-zaguc emocional das mães e com o foguetório constante dos pequerruchos. Pois . Talvez tenha sido por isso que nascemos com altas dosagens de tolerância, paciêneia e abnegação. Cuidado: virtudes têm limite. Mães e crianças, não. P. L. # Mães: geralmente é a vocês que cabe a educação dos filhos, sobretudo no capítulo modos à mesa, arrumação do quarto, ete. Não sejam preguiçosas. Claro, é mais fácil fazer que ensinar. Mas tenham coragem, ensinem, e comecem cedo, para que os bons hábitos se tornem uma segunda natureza e não um procedimento para ter só na frente de visitas. Seja rigorosa. Eles vão te odiar às vezes. Você vai querer esganá-los freqüentemente. Faz parte, entre pessoas que se amam. Mas um belo dia alguém vai dizer o quanto seu filho é educado, prestativo, gentil, querido. Você vai desmaiar de surpresa e felicidade. Nunea me esqueço da história daquela mãe que se dirigiu a uma especialista em boas maneiras para saber com que idade deveria colocar seu filho no curso. Ao saber que o tuturo aluno estava com três meses de idade, ela respondeu: "talvez já seja muito tarde". Não morra de vergonha se seu filho deu um vexame na frente de seus amigos. Não valorize os erros nem dê bronea 207 #em público. Nunea trat nenhuma criança como se ela fosse uma débil mental. Elas entendem tudo. Use sempre um bom vocabulário, isso aumenta a capacidade lingüística das crianças. E não fique para morrer de culpa, se algum dia precisar frustrar seu filho, tipo promessa que não pôde ser cumprida, ete. Apesar do que dizem os especialistas, uma frustraçãozinha de vez em quando prepara a criança para aprender a suportá-las, quando no decorrer da vida elas (infelizmente) acontecerem. Eu adoro meus tilhos. Você deve adorar os seus. Mas nem por isso a gente deve abrir a carteira e mostrar aquela foto pequenininha, em que todas as erianças são absolutamente iguais. E Ioto de bebês? Não vamos obrigar o nosso próximo a dizer que gracinha, ok? O palavrão. É dito por todos, até em televisão, escrito em jornais, ete. Pretender que uma criança não repita é puro delírio. Vamos moderar; mas a regra de ouro seria: palavrão, na linguagem corriqueira, é uma coisa. Mas não pode ser usado jamais na hora da raiva, da briga. Isso vale para os adultos também. Ensine, obrigue seus filhos a cuidarem da bagunça que fazem. O copo de Coca-Cola? De volta para a cozinha. A revistinha que acabou de ler? Para o quarto. Os milhares de papeizinhos de Bis? Amassar e jogar no cinzeiro. A lista não teria fim, porque a imaginação de uma criança para instalar o caos onde quer que esteja é também infinita. Alguns mandamentos: · não sair para se servir correndo na frente dos outros. O ideal, aliás, seria que as crianças, até uma certa 208 # idade, tizessem as refeições antes dos adultos, com as mães ao lado, patrulhando as boas maneiras · não deixar cair um grão de arroz sequer na mesa · não eneher demais o prato. A fome do mundo, ete... Se eneher, que coma tudo · usar sempre o guardanapo a partir dos cineo anos, não cortar a carne toda de uma vez. Cineo? talvez eu tenha exagerado. Sete · não misttirar carne com peixe, macarrão com farofa, ete. Isso é cultura · pedir licença para se levantar quando a refeição terminar (pode alegar que precisa estudar). Para evitar aquela tortura de ficar na mesa até a hora do café, um suplício · não bater a porta do quarto com estrondo, nem quando brigar com o irmão · só gritar se for por mordida de cobra · tlear mudo, estático, dentro do elevador não chamar a amiga da mãe de tia. Aliás, não chamar ninguém de tia, a não ser as tias de verdade. E, só para deixar bem claro, tia Rosina, tia Helena, nunea tia só. # 209 Todos os lanelinhas chamam a gente de tia - quero matar · sentar à mesa devidamente penteados, mãos limpas. Você está preparando os últimos retoques de sua festa c as crianças insistem em estar presentes. Diga não. O mesmo não que elas te dizem quando você pretende permanecer na sala no dia da festa delas. Mas elas não vão desistir. Do charme à chantagem, deixando você bem culpada, elas farão tudo para conseguir o que querem. Aí, só há uma solução; o suborno puro e simples. Pague a elas - cash. Metade antes, metade depois. Que elas fiquem no quarto, traneadas, só tendo o direito de sair em caso de ineêndio. I:m tim de semana prolongado no sítio, não esquecer de levar: filmes, video games, baralho, tichas. Lembre-se de que crianças têm horror a quintal, ar livre, subir em árvores, ete. Cu adoro bebes. Quando começa a idade da correria, conlésso que já adoro um pouco menos (tenho que dizer isso bem baixinho, para não ofender as mães). Vamos então falar dessa fasc sublime? I:las gostam de passar no espaço de 15 centímetros que existe entre o sofá e a mesa, brineam de pique numa sala de dois por três, colocam a cadeira na frente da televisão, sc penduram nos lustres, pintam as paredes da sala, o teto, ete. F tudo aos gritos. Pcnso que esta talvez seja a fase de maior energia do ser humano.  a idade da guerra dos travesseiros, das almofadas que voam pela janela. Jovens pais adoram essas traquinagens. Tudo bem. Mas não ache 21C #cstranho se um de seus amigos não curir tanto quanto você essa fase tão adorável de seus filhotes. Crianças são difíceis mesmo, é preciso muita paciêneia para agüentar o que elas freqiientemente aprontam. Querem ver como os interesses adultos/crianças são ineoneiliáveis? · pai joga futebol com filho filho não lê jornal com pai · pai leva filho à Disneylandia lilho não vai com pai ao museu Beaubourg · pai vai com filho ao McDonald's tlho não vai com pai a restaurante vietnamita · pai assiste a desenho animado com ilho lilho não vê Boris Casoy com pai E mil outras coisas. Acho que a única coisa que pai e filho gostam de fazer juntos é assistir ao programa do Mièle. O problema de relacionamento cntre crianças e adultos é uma questão de energia vital. Enquanto certos adultos adoram preguiçosamente prolongar uma refeição batendo papo, fumando, tomando um licor, as crianças tleam indó- ceis. Se são obrigadas a rlear, começam a despejar sal na mesa, quebrar palitos e botar dentro do saleiro, mostarda na Coca-Cola, ete. Daí a razão de separar as crianças dos adultos na hora das refeições. Mas os pais continuam tentando coneiliar, e sabe Deus o que pode acontecer. CTeralmente essas tentativas ocorrem aos domingos em restaurantes. Um restaurante onde 211 #o menu possa, dentro do possível, agradar a todos os paladares. Adivinha aonde vamos? À churrascaria, é claro. Combinam com alguns amigos que têm filhos mais ou menos da mesma idade, e vão enfrentar a guerra. As crianças, é claro, não se simpatizam nem se olham. Falar, nem pensar. Os adultos, já grilados, redobram as atenções, ninguém come em paz. Clima tenso. Como as crianças comem pouco e depressa, ficam impacientes para se levantar da mesa. Os pais, aliviados, coneedem a permissão. Pensa que está tudo cm paz? Aguarde. O filme continua. Seis ou sete crianças se juntam imediatamente às 347 das outras mesas e começam todas a lrinear no meio do restaurante. Se tiverem levado patins, skales, pranehas de surfe, melhor ainda. Iica aquela churrascaria animada, picanhas sangrando nas camisas dos guris, gritos laneinantes, algazarra geral. Um garçom não muito paciente poderia até assassinar uma delas com o espeto. Perigoso e nada impossível. Mas uma das crianças não enturmou, nem nessa hora. Vai ficar na mesa, com a cabeça recostada, dizendo, de dois em dois minutos, "quero ir pra casa". E torna a repetir, bem devagarzinho, "quero ir pra casa". Resultado: desestabilização emocional de todos os presentes. Bom, por que falei tudo isso? Simples. Para que todos compreendam, numa boa, que juntar crianças com adultos não costuma dar pé, que isso c natural e não há por que dr·amatizar. Sejamos sineeros: mesmo sendo o pai ou a mãe, cnearar um teatro infantil seguido de lanehonete é dose. Mesmo quando existem laços afetivos fortíssimos, é preciso sobretudo que você seja um adulto muito, muito pacien212 #te. Paciente ou apaixonado pela mãe da criança -  isso só no início da paixão. Mas as crianças crescem. E zm dia querem trazer a namor·ada para dormir em cas2. Dinheiro para motel só se você der. Então, o que fazer? Claro, a gente compreende a situação, mas franeamente: ter que cruzar no corredor de manhã com a gatona desenteada que a gente mal conhece, de camiseta e esco·ra de dentes na mão, talvez perguntando: "Tia, dá pra rne emprestar uma escova de cabelo?" Ok. Dá. Mas e se rocê tem três filhos? Vão ser três gatonas? Acho que eu liberaria a casa nos fins de semana e iria dormir no sofá da casa da minha mãe, ou de uma amiga, ou no banr da praia, deixando a garotada à vontade. Eles e eu , n'uma boa. Mas só até domingo às 19 horas, nem um minuto a mais. Mesmo os fllhos mais modernos costumam ser caretési- mos em relação às suas próprias mães. Portanto, vá anotando! Na frente dos filhos: mãe não namora, não toma mais de um drinque, não fala que acha o Jeff ßridges um tesão (perdão, mãe não pronuneia essa palavra, nem sabe o que quer dizer), não usa minissaia, não pode adorar Madonna (só pode gostar de Roberto Carlos, Julio Iglesias). Eles te amam, mas essas preferêneias sempre ineomodam. Nem amigos comuns se deve ter, por precaução. Portanto, quando o destino colocar vocês na mesma festa, pareça o que eles querem que você seja. Anule-se. Tenha pouca, pouquissíma personalidade. raça o tipo distinto e alegre. Se possível, use uma peruca grisalha. Seja discreta e assexuada, tenha poucas opiniões. Se enturme com os mais velhos e trate os jovens como se fosse assim uma tia simpaticona, nada mais. Ria das histó213 #rias deles e não conte nenhuma sua. Mãe não tem passado. Só fale de receitas, crianças, se ofereça para levar um vestido na costureira para consertar, tenha bons endereços para fornecer, dicas de cozinha. Conte como era o mundo `no seu tempo'. Seus filhos vão adorar. E depois dessa festa vá correndo tomar um uísque duplo no bar do Guneho, para não ter um infarto. Em compensação, na frente dos netos, faça tudo o que não deve - e muito mais. Netos costumam adorar avós digamos - fora dos padrões. É que eles sabem que vão poder contar com elas como fortes aliadas, nas crises de caretice dos pais. Cruel? Não, apenas verdade. E mais. Isso c que làz o equilíbrio da vida. , 214 #

Interesses relacionados