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Fundamentos da civilização

1. Onde começa a nossa história?


Na escola geralmente
aprendemos que nossa história
começa no crescente fértil, com a
“descoberta” da agricultura, o que
permitiu ao “homem” se
estabelecer num lugar fixo,
desenvolver tecnologia
“avançada”; inventar a linguagem
escrita, progredir suas técnicas
comerciais e progredir em todos
os sentidos. Mas a agricultura não
foi descoberta pelos seres
humanos, ela foi inventada por
um grupo de seres humanos. Ela
representa o começo da nossa
história porque ela permitiu que
esse grupo controlasse sua provisão de comida. E quem somos nós senão
herdeiros deste grupo de pessoas que inventaram uma forma de se livrar do
ciclo natural de provisão de comida que todos os outros humanos seguiam
até então e continuaram seguindo em todas as outras partes do mundo?
Nossa história não é a história da humanidade, é a história de um povo que
tinha uma visão de mundo que se opunha a tudo que houve antes:
acreditavam que necessitavam de mais do que a natureza estava provendo.
Eles queriam mais do que a vida estava oferecendo, e iriam se esforçar ao
máximo para conseguir isso, custe o que custar.

2. Com surge nossa agricultura? Não foi um acontecimento que


atingiu todos os seres humanos ao mesmo tempo. Ela se iniciou em grupos
específicos de seres humanos, e depois tentou se espalhar pelo mundo. De
todos os povos que inventaram a agricultura, nós fomos os únicos que não
entraram em colapso, ainda. Nossa agricultura é mais do que plantar, é
plantar cada vez mais. Ela é expansiva porque é um sistema de auto-
regulação unilateral. O aumento da produção de comida gera o aumento da
população, o que exige o aumento da quantidade de terra cultivada, o que
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por sua vez gera mais crescimento populacional, e assim por diante. É um
ciclo sem fim, é uma função exponencial. Outros povos vivam no crescente
fértil, povos que ainda eram nômades. Com o passar do tempo eles
desapareceram. O que aconteceu com eles? Nós não podíamos deixar os
outros povos entrarem nas “nossas” terras e comerem o fruto do “nosso”
trabalho. Então o que fizemos com os povos nômades do crescente fértil?
Provavelmente, o mesmo que fizemos com todas as culturas não
civilizadas que encontramos pela frente. Dissemos: “Junte-se a nós ou
morra”.

3. A agricultura não é simplesmente uma técnica do cultivo da


terra, é um modo de vida específico, que exige uma visão de mundo
específica. O modo de vida que a agricultura expansiva exige é
extremamente trabalhoso, necessita de organização cada vez mais
complexa e divisão de trabalho cada vez mais desigual, por isso ele gera
idéias culturais que valorizam o trabalho, a eficiência, o desenvolvimento
científico, o progresso tecnológico, o status social e o crescimento
acelerado da produção e do consumo. A origem da palavra geometria é
medição de terra. A mesma geometria que foi cultuada como um deus
pelos sábios gregos. Nosso modo de vida foi assimilando ou destruindo os
outros modos de vida como forma de garantir sua própria sobrevivência.
Cada grupo humano tem um modo de vida próprio, que não serve para
outro grupo, porque foi resultado de milhares de anos de tentativa e erro. O
nosso modo de vida, ao contrário, é considerado universal. Acreditamos
que todas as pessoas do mundo devem viver deste modo, e que qualquer
outro modo está equivocado.

4. Na nossa história, a agricultura expansiva é identificada como o


despertar do homem, e até meados do século XIX todos os pensadores
tinham como certeza indubitável que o homem é inseparável do modo de
vida da agricultura expansiva, dizendo que esta técnica era apenas a
evolução natural das técnicas de coleta de alimentos. Eles tinham certeza
que o homem nasceu para criar cidades e impérios, e que a evolução do
homem estava intrinsecamente ligada ao progresso da tecnologia, das leis e
do comércio. “O homem é um animal político”, disse Aristóteles. As
fundações do nosso pensamento foram feitas por pessoas que acreditavam
nisso, que o homem é um ser civilizado, que a civilização é o seu
verdadeiro habitat. Para eles, fazia muito sentido dizer que a criação da
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humanidade coincide com a criação da agricultura expansiva, e era isso
que acreditavam. Até hoje algumas pessoas ainda acreditam nisso, dizendo
que o homem tem no máximo seis mil anos.

5. Hoje em dia se tornou indefensável a idéia de que o homem


nasceu para a civilização. A nossa própria ciência nos permite afirmar que
o homem não tem no máximo dez milhares de anos, mas pelo menos cem
mil anos. Isto deveria ter sido um choque. Se o homem não havia surgido
com a agricultura expansiva, o que ele fez este tempo todo? Para nossos
teóricos, ele não fez nada de bom. Ao invés de abalar a estrutura das nossas
concepções sobre o homem, simplesmente chamamos a nossa história de
história do homem, e o resto de pré-história. Os outros povos, com seus
modos de vida distintos do nosso, seriam nada mais do que coadjuvantes
na história do homem, nossa história. Os fundamentos da nossa cultura
foram criados por pessoas que tinham idéias equivocadas sobre a origem
da humanidade, mas não nos importamos com isso, e assim continuamos
até hoje a chamar a nossa história de “história do homem”, ignorando
qualquer valor em todas as outras formas de viver que existiram antes e
que existem até hoje.

6. Então a nossa história não é a história da humanidade. A história


da humanidade começa há cem mil anos atrás, e a nossa história começa há
apenas dez mil. A nossa história representa apenas 10% do tempo em que
os seres humanos viveram na Terra. Nosso modo de vida de agricultura
expansiva não foi o primeiro, não é o único e não será necessariamente o
último. Se isto é verdade, então os pensadores estavam errados ao afirmar
que a nossa história representa o avanço universal do homem. Este é o
primeiro passo para entender o nosso problema.

7. Quando se tornou óbvio que o desenvolvimento da civilização


não apontava exatamente para a melhoria da vida de todas as pessoas, os
pensadores se viram pressionados a explicar porque a miséria e a
desigualdade que cresciam. Eles procuraram respostas não no modo de
vida civilizado, mas sim nas próprias pessoas que de alguma forma não se
“adaptavam” à civilização. Isto os levou a crer que é natureza do homem
que o leva aos problemas sociais. Outros acreditavam que a estabilidade
encontrada entre os povos com outros modos de vida acontecia por causa
de uma “nobreza natural”, ou seja, eles estavam num estado de inocência
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que nós perdemos algum tempo no passado, por isso estaríamos
condenados à miséria. Discordo exatamente no que ponto em que todos
eles concordavam, pois eles ainda identificavam o nosso modo de vida
como algo ao qual estamos destinados. “O homem é o lobo do homem”,
disse Hobbes. Para muitos de nós ainda hoje, o problema reside na
natureza humana.

8. Se nosso problema é natural ou necessário, significa que aqueles


que não o apresentem são essencialmente diferente de nós, e ainda estão
em processo de se tornar como nós. Isto significa que, não importa o caso,
a evolução natural leva todos os homens a um ponto de convergência
necessário. Significa também que, se desejarmos evoluir além deste ponto,
os fundamentos do nosso modo de vida devem permanecer os mesmos,
pois estão intrinsecamente ligados a nós. É impossível descartar estes
fundamentos, por pior que seja o resultado. Por exemplo, se eles nos levam
inexoravelmente à extinção, então a extinção é o destino inevitável da
humanidade, e ponto final. Não encontramos, entre todos os outros tipos de
conhecimento humano, nada que seja parecido com isso. Até a geometria
ou a aritmética podem ter seus fundamentos criticados, e tiveram, mas o
nosso modo vida é tão definitivo e indubitável quanto o “penso, logo
existo” era para Descartes.

9. Mas até o “penso, logo existo” de Descartes pode ser criticado, e


foi. E o que significa criticar os nossos fundamentos? Porque haveria
necessidade de fazer isso? As causas de nossos problemas existem em
qualquer modo de vida, mas somente no nosso modo de vida as
conseqüências são completamente desastrosas. As causas dos nossos
problemas estão ligadas ao nosso egoísmo, inveja, ganância, violência,
mentira e tudo o mais. Porém, nosso modo de vida cria meios aonde essas
coisas podem proliferar de forma tão extraordinária que suas
conseqüências são extremamente preocupantes, de forma que algo que
deve ser sanado para que a vida continue normalmente. Isto só atinge essas
proporções no nosso modo de vida, em qualquer outro são problemas
banais. Sabemos que é impossível eliminar as causas naturais, por isso
tendemos a aliviar seus efeitos com leis, educação, policiamento... Mas não
importa o quanto investimos na formação moral e intelectual de nossos
cidadãos, os problemas não diminuem. Algo não está dando certo.

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10. A agricultura expansiva nos livrou do ciclo natural de provisão
de comida, e nos tornou responsáveis por nosso próprio suprimento de
comida. Isto significa que de agora em diante, diferente dos outros animais,
ficamos inteiramente responsáveis também pela nossa proliferação no
globo, pela nossa expansão em números. Nossa população cresceu tão
extraordinariamente nos últimos 10% da história humana que os
demógrafos chamam isso de curva J, porque realmente tem forma de J. O
que aconteceu a partir daí não foi uma simples mudança natural, foi uma
mudança nas concepções de humanidade e de natureza. A criação de um
modo de vida insustentável. Não mais nos submetemos à natureza, mas
agora tentamos tomar controle dela. Controlar a natureza, aumentar a
produção, proliferar em números... Estes passaram a ser nossos
fundamentos.

11. Superpopulação não é um mero problema de espaço. Aldous


Huxley identificou a origem de nossos problemas sociais no fato de haver
cada vez mais gente no mundo, pois as necessidades se tornam cada vez
maiores. Mas como a superpopulação acontece? Assim como em todas as
espécies, a população humana é limitada não pelo número de filhos que
somos capazes de fazer, mas pelo número de filhos que somos capazes de
alimentar, obviamente. Porém, desde que tomamos controle da nossa
produção de comida, não fizemos nada que não fosse aumentá-la cada vez
mais, e não mostramos tendência para diminuir esta produção. E enquanto
a produção de comida aumentar, nossa população vai aumentar. Mesmo
que a produção tenha que, por algum motivo, se estabilizar ou diminuir, e
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mesmo que fossemos capazes de diminuir o consumo e controlar a
população, não seremos capazes de conter a crise econômica proveniente
disto. Isto porque nossa economia está fundamentada na necessidade de
crescer aceleradamente. Se o consumo cai, a crise aumenta.

Por que aumentar a produção não resolve à fome? Aumentar a


produção é exatamente o que gera a fome. Quando o acúmulo aumenta, a
população aumenta. Quando os recursos locais se esgotam, a população é
obrigada a procurar comida em outros lugares. Quando não há acesso a
mais comida, por qualquer que seja o motivo, a fome é criada. Se os
recursos locais não se esgotam, não há fome, e se não há agricultura
expansiva, os recursos não tem como se esgotar, porque sempre se pode
mudar de região, mas com o nosso modo de vida esta opção não existe. Só
podemos expandir, e quando não houver mais para onde expandir, vamos
entrar em colapso repentino e catastrófico.

12. Nossa economia é como uma pirâmide de dinheiro. Ela não


pode parar de crescer, por isso exige que cada vez mais capital circule,
cada vez mais rápido. Cada vez que plantamos um campo para nos
alimentar, tiramos da terra uma parte de sua energia. Se tirarmos da terra
mais energia do que ela é capaz de regenerar, será uma questão de tempo
até que o planeta se esgote. O fundamento da economia, que é o nosso
fundamento, contradiz esta lei natural. Acreditamos erroneamente que
salvar a terra é uma questão de “preservação”. Mas nem toda preservação
do mundo muda o fato de que a economia precisa crescer aceleradamente,
e que os recursos são finitos, e que mesmo que reciclássemos 100% do que
consumimos, ainda haveria perda de energia no processo. É impossível ser
sustentável com o atual modelo econômico, e é impossível que a
humanidade sobreviva sem sustentabilidade.

13. Há dez mil anos atrás um grupo de seres humanos se livrou da


restrição natural da provisão de comida, seguida por todos os outros
animais, criando um modo de vida que, diferente dos outros, tem
fundamentos supostamente universais. Este modo de vida se fundamenta
em aumentar aceleradamente a produção através do trabalho humano.
Graças a esse fundamento, pudemos desenvolver tecnologias, mas criamos
também a miséria e a desigualdade. Isto aconteceu porque valorizamos
somente os frutos do nosso trabalho, criamos a possibilidade de redistribuir
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os bens de forma desigual, e esta possibilidade foi explorada por algumas
pessoas com os meios apropriados. Então, nosso problema não é o fato de
que somos humanos, mas o fato de que criamos um modo de vida que
possibilita e potencializa o desequilíbrio, devido aos seus fundamentos
insustentáveis. E ainda assim acreditamos que este modo de vida deve ser
levado até o fim a qualquer custo, que não há nada que possa superá-lo ou
substituí-lo.

14. Devido à profundidade com que as crenças do nosso modo de


vida estão enraizadas nas mentes de qualquer pessoa, é muito comum
distorcer e tirar conclusões errôneas sobre o que foi exposto. Eis as
principais coisas que eu NÃO estou dizendo: a humanidade destrói a Terra,
a agricultura é má, precisamos voltar para as cavernas, os tribais são
pessoas melhores... O que eu disse é que nosso modo de vida está mal
adaptado ao meio e a nós mesmos e não funciona para nossa subsistência
em longo prazo. A nossa agricultura está destinada ao colapso porque é
expansiva, não é uma questão de ser ecológica ou politicamente correta.
Podemos voltar a um modo de cooperação com a comunidade da vida ao
invés de priorizar o aumento da produção e do consumo de bens. Os povos
não civilizados têm modos de vida realmente sustentáveis, e não se trata de
imitar seus modos de vida. Tão pouco a diferença residiria na nossa
natureza, na nossa mente ou nas nossas virtudes. Um novo modo de vida
pode ser criado a partir de agora, se quisermos que a humanidade sobreviva
ou viva com melhor qualidade. Estas idéias, com mais detalhes, são
encontradas em vários livros. Confira a lista de referências na última
página ou visite o site para uma lista completa. O diálogo está aberto.

Janos Biro
janosbirozero@gmail.com
largue.wikispaces.com
30/04/2008

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Sites e blogs:
antizero.wikispaces.com ervadaninha.sarava.org
celulazero.blogspot.com ativismoabc.guardachuva.org
punkcanibal.zip.net freegan.info
excambo.ourproject.org eco-anarquista.org
midiaindependente.org editoraderiva.multiply.com
gato-negro.org protopia.wikispaces.com

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Konrad Lorenz A demolição do homem
Oito pecados do homem civilizado
Daniel Quinn A história de B
Além da civilização
Pierre Clastres A sociedade contra o Estado
John Zerzan Futuro primitivo
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Marshall Sahlis A primeira sociedade da afluência
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Outras publicações:
Crenças letais – 20 páginas.
Por uma mudança – 20 páginas.
Criticando a civilização – 20 páginas.

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