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A Mineracáo e a Ocupacáo do Centro-Sul

o INTERESSE da metrópole pelo Brasil e o desenvolvimento

conseqüente de sua política de restricñes económicas

e opressáo

administrativa tomaráo considerável impulso sobretudo a partir de princípios do c. XVIII quando se fazem na colonia as primeiras grandes descobertas de jazidas auríferas, A míneracáo do ouro no Brasil ocupará durante tres quartos de século o centro das atencñes

de Portugal, e a maior parte do cerio económico da colonia.

Todas as demais atividades entraráo em decadencia,

e as zonas

em que ocorrem se empobrecem e se despovoam. Tudo cede passo

ao novo astro que se levanta no horizonte; o próprio acúcar, que

por culo e meio

representara o nervo económico da colonízacáo

e sua própria razáo de ser, é desprezado.

Os metais preciosos tinham preocupado os portugueses desde . o início da colonízacáo. As prematuras descobertas castelhanas no

México e no Peru incendiaram as imaginacóes, e tomara-se crenca arraigada que qualquer território da América encerrava necessa- riamente os preciosos metais. Com a esperanc;:a de encont-los, nao foram poucos os aventureiras que desde o primeiro momento

da ocupacáo do litoral brasileiro

se tinham internado pelo terri-

rio desconhecido. Deles ficariam notícias vagas, pois quase todos se perderam: quando escapavam dos obstáculos de uma natureza agreste, iam acabar as máos dos indígenas. O fato é que nao se encontravam os cobícados metais. Ao

contrário do que ocorrera no México e no Peru, os indígenas, de

um nível cultural

muito baixo, nao se tinham interessado por eles;

e sua presenc;:anao fora ainda revelada ao homem. Durante quase

dois séculos seriam procurados inutilmente.

Isto nao é bem exato, porque já nos fins do primeiro século se iniciara na capitania de Sáo Vicente (Sño Paulo) uma pequena míneracáo aurífera de lavagem; mas táo insignificante que passou quase despercebída e teve um caráter estritamente local. É so-

mente

nos últimos anos do séc. XVII que se realízam os primeiros

achados de importancia. Devem-se áquelas expedícóes acima refe-

56 Caío Prado Júnior

ridas as bandeiras paulistas que andavam devassando o interior da

colonia a cata de

índios destinados ao cativeiro. Lá por 1696 fa-

zem-se as primeiras descobertas positivas de ouro no centro do que hoje constitui o Estado de Minas Gerais (onde atualmente se acha a cidade de Ouro Préto ). Os achados depois se multiplicaram

sem ínterrupcáo até meados do c. XVIII, quando a mineracáo

do ouro atinge no Brasil sua maior área de expansáo geográfica, e alcanca o mais alto nível de produtividade. Ao contrário do que se deu na agricultura e em outras atíví- dades da colonia (como na pecuária), a mineracáo foi submetida desde o início a um regime especial que minuciosa e rígorosa- mente a disciplina. Já por ocasiáo daqueles insignificantes achados em Sáo Vicente e referidos acima, tinha-se promulgado um-Iongo regulamento sobre a matéria. Os seus prinpios fundamentais permaneceriam definitivamente, apesar das modífícaes poste-

riores: estabelecia-se a livre exploracáo, embora submetida

a uma

físcalízacño estreita, e a coroa reservava-se, como tributo, a quinta'

parte de todo ouro extrdo.' Depois das descobertas feitas em Minas Gerais, a antiga lei é substítuída pelo Regimento dos supe- rintendentes, guardús-mores e ofic'iais deputados para as minas de aura, datado de 1702. Este regimento, com algumas modifica- c;:oesposteriores que nao lhe alterara m a feícáo essencial, manter-se-

-ía até o fim da era colonial.

Em resumo, o sistema estabelecido era o seguinte: para diri- gir a míneracáo, físcalízá-Ia e cobrar tributo (o quinto, como ficou denominado), criava-se uma adminístracáo especial, a Inten- dencia de Minas, sob a direcáo de um superintendente; em cada capitanía em que se descobrisse ouro, seria orgariizada uma destas intendencias que índependia ínteirarnente de governadores e

q~J.aisqueroutras autoridades da c?lonia, e

se. subordinava única e

diretamente ao governo metropolitano de LIsboa. O descobrimento de jazídas era obrigatoríamente e sob penas severas comunicado a intendencia da capitania em que se fizera. Os funcionários competentes (os guardas-mores) se transportavam entáo ao .local, faziam a demarcacáo dos terrenos auríferos, e em dia e hora marcados e previamente anunciados, realízava-se a dís- tríbuícáo entre os mineradores presentes. Qualquer pessoa. podia comparecer e participar da dístribuícáo, mas nao se aceitava re- presentac;:ao de terceiros. A dístribuicáo se fazia por sorte e pro- porcionalmente ao número de escravos com que cada pretenden te se apresentava; mas antes desta distribuicáo geral, odescobridor 'da jazida tinha direito de escolher livremente sua data (era o nome dado as propriedades mineradoras); e depois dele, a Fazenda Real também reservava uma para si. Ela aliás nunca explorou suas minas, e as vendia em -leiláo logo depois de adquiridas.

stória Economica do Brasil 57

Entregues as datas aos contemplados, deviam eles dar início a

exploracño no prazo de quarenta dias, sob pena de devolucáo. Transacñes com as datas nao eram permitidas, e somente se auto- rizava a venda na hipótese devidamente comprovada da perda de todos os escravos. Neste caso o minerador s6 podia receber nova data quando provasse que adquirira outros trabalhadores. Mas isto somente urna vez, pois da segunda que alienasse sua proprie-

dade perdia

definitivamente o direito de receber outra.

Como já referi, a Fazenda Real ímpusera.sobre a mineracáo um tributo avultado: a quinta parte de todo ouro extraído. A cobranca deste quinto do ouro tem urna história longa e agitada. Os mineradores naturalmente sempre procuraram se furtar a um táo grande desfalque da sua producño, e compreende-se como de- via ser difícil a físcalízacáo. Viveu-se por isso nas minas em luta

constante: o fisco reclamando e cobrando seus direitos, os mine-

radores dissimulando o montante da producáo

Tentaram-se meios

... indiretos para a cobranca: assim a capitaqiio dos escravos, istoé, um tributo fixo, pago em ouro, que recaía sobre cada trabalhador empregado nas minas. Este sistema nao deu resultado, porque se pagaya o tributo mesmo quando se tratava apenas de trabalhos preliminares de pesquisa que muitas vezes nao produziam o fruto esperado. Depois de muitas hesitacñes e varíacóes, estabeleceu-se afinal um processo que se tomaria definitivo. Criaram-se Casas de Fundícáo em que todo o ouro extraído era necessariamente re- colhido; aí se fundia, e depois de deduzido o quinto e reduzido a barras marcadas com o selo real (chamava-se "isto "quíntar o ouro") era devolvido ao proprietário. Somente nestas barras quin- tadas (de que até hoje se conservam muitos exemplares) podia o ouro circular livremente. O manuseio do ouro sob outra forma - em p6 ou em pepitas, como é encontrado na natureza, ou em bar- ras nao marcadas - era rigorosa e severamente proibido (9) . Quem fosse encontrado com ele sofria penas. severas, que íam do confisco de todos os bens até o degredo perpétuo para as colonias

portuguesas da África. Mas nao ficaram nestas providencias as medidas legais desti- nadas a proteger os interesses da Fazenda Real. O ouro era mer- cadoria muito facilmente escondida gra9as a seu alto valor em pequenos volumes. E para obviar os descaminhos que apesar de toda físcalízacáo ainda se verificassem, fixou-se urna certa quota anual mínima que o produto do quinto devia necessariamente atingir. Est~ quota, depois de algumas oscilacóes, foi orcada em

(9)

Pequenas quantidades emp6, que nao eram suficientes para com-

pletar urna barra, podíam ser trocadas por certificados nas Casas de FUl1-

dícáo, Um número suficiente de certificados era recambiado em ouro quin- tado.

58 Caía Prado Júniar

100 arrobas (cerca de 1.500 quilos). Quando o quinto arrecadado nao chegava a estas 100 arrobas, procedia-se ao derrame, isto é, obrigava-se a populacáo a completar a soma. Os processos para consegui-Io nao tinham regulamento especial. Cada pessoa, mi- nerador ou nao, devia contribuir com alguma coisa, calculando-se mais ou menos ao acaso suas possibilidades. Criavam-se impostos especiais sobre o comércio, casas de negócio, escravos, transito pelas estradas, etc. Qualquer processo era lícito, contanto que se completassem as 100 arrobas do tributo. Pode-se imaginar o que significava isto de violencias e abusos. Cada vez que se decretava um derrame, a capitania atingida entrava em polvorosa. A forca armada se mobilizava, a populacáo vivia sob o terror; casas parti-

culares eram violadas a qualquer hora

do dia ou da noite, as pri-

sóes se multiplicavam. Isto durava nao raro muitos meses, durante os quais desaparecia toda e qualquer garantia pessoal. Todo mun- do estava sujeito a perder de urna hora para outra seus bens, sua liberdade, quando nao sua vida. Aliás os derrames tomavam ea- ráter de violencia táo grande e subversáo táo grave da ordem, que

somente nos dias áureos da míneracáo se lancou máo deles. Quan- do comeea a decadencia, des se tomam cada vez mais espacados, embora nunca mais depois de 1762 o quinto atingisse as 100 arro- bas fixadas. Da última vez gue se projetou um derrame (em 1788), ole teve de ser suspenso a última hora pois chegaram ao conheci- mento das autoridades notícias positivas de um levante geral em Minas Gerais, marcado para o momento em que fosse iniciada a obranca (conspíracáo de Tiradentes). E nunca mais se recorreu no expediente. A decísáo firme de um POYO é mais forte que qual- quer poder govemamental. Vejamos um outro aspecto da indústria mineradora: como se rganiza e funciona a exploracáo das jazidas. Encontramos aí dois tipos de organízacño: o primeiro é o das lavras, que se emprega as [azídas de certa importancia. As lavras sáo estabelecimentos de algum vulto, dispondo de aparelhamento especializado, e onde ,b dírecáo única e trabalhando em conjunto, reúnem-se vários nbalhadores. A máo-de-obra é quase totalmente constituida de rayos africanos; o trabalho livre é excepcional (embora ocorra, r vezes, sobretudo pelos fins do século) e o índio nao é em- gado. A organízacáo em lavras, que corresponde ao período o da míneracáo, quando ainda havia grandes recursos e pro- o abundante, o que toma possível empresas em larga escala ras de vulto, opñe-se a pequena extracáo realizada por indi- uos isolados que nao empregam senáo uns poucos instrumentos mentares. Sáo os chamados faiscadores. Nao se fixam, em num ponto determinado, como se dá com a lavra; sño móveís mades, indo catar o ouro indiferentemente neste ou naquele

Hist6ria Economíca do Brasil 59

lugar nao ocupado por outro. Reúnem-se as vezes em grande -

mero, num ponto franqueado

a todos, como se dá em

.llguns dis-

tritos

por si e isoladamente.

Parte

especíaís, porém cada qual trabalha deles é de condio livre, colhendo

o ouro por

conta pró-

pria; outros sáo escravos aos quais os senhores fixam

uma certa

medida de ouro que devem entregar, guardando

o excesso com

que provéem a sua manuteno

e resgatam sua liberdade quando

sáo muito felizes em seus achados. 'Em maior ou menor proporcño, esta atividade de faiscadores sempre existiu na mineracáo aurífera da colonia. Mas naturalmen-

te seu volume tende a aumentar com a decadencia das minas. Nao

somente estas se váo nerar convenientemente

esgotando

e o rendimento

deixa de remu-

ínstalaes mais custosas, como os recur-

sos comecam a faltar. Aparece entáo o faiscador que aproveita as

áreas empobrecidas

e abandonadas.

Isto se torna particularmente

sensível pelos fins do séc. XVIII, quando a mineracáo Brasil em processo franco de decomposícño.

entra no

A decadencia

da míneracáo

do ouro (que já comeca a se

fazer sentir desde mea dos do século) deriva de várias causas. A

principal

é o esgotamento

das [azídas. O ouro brasileiro

é, na

maior parte, de aluviáo, e se en contra sobretudo no leito dos cursos

d'água e nas su as margens

mais próximas. Ele resulta de um pro-

cesso geogico milenar em que a água, tendo atacado as rochas

matrizes onde antes se concentrava

o metal, o espalhou por urna

área superficial extensa. Daí a pequena concentracáo

em que foi

encontrado

e o esgotamento

rápido dos depósitos, mesmo os mais

importantes.

O que sobra é de um teor aurífero táo baixo que

nao paga trabalhos

de vulto, e dá apenas para o sustento indi-

vidual de modestos faiscadores isolados. Esta situacáo se prolonga aliás até hojeo Em toda a regíáo do Brasil central (compreendendo os Estados de Minas Gerais, Gos, boa parte de Mato Grosso e

Bahia) ainda se encontra ouro em quase todos os rios e margens

adjacentes. Mas numa porcentagem

táo baixa que sua exploracáo

se torna antieconómica,

A ela se dedicam apenas uns pobres fais-

cadores que mal conseguem apurar o seu sustento diário. A ocorréncia de rochas matrizes, isto é, grandes concentracóes

primitivas de ouro que resistiram ao processo geológico de desa-

grega<;:ao, é no Brasil muito rara. E mesmo as concentracóes

exís-

tentes tém um teor aurífero baixo. A maior e mais rica mina de

ouro do país há poucos anos abandonada,

a de Morro Velho em

Minas Gerais, tinha um teor de 10,4 gramas de ouro por tonelada

de minério, quando o das minas consideradas

de boa produtivi-

dade nos grandes centros auríferos

da atualidade

(a Austrália,

p. ex.) atinge odobro

daquela

taxa. Mas além da raridade

pobreza

das rochas matrizes,

outro obstáculo

e

impediu os mine-

60 Caío Prado Iúnior

radores do séc. XVII de as explorarem:

a _sua técnica deficiente.

Enquanto

se tratou

de depósitos

superficiais

de aluviáo,

nao

foi difícil extrair o' metal.

Mas quando

foi preciso

aprofun-

dar a pesquisa,

entranhar-se

no solo, a capacidade

tanto por falta de recursos

dos mine-

 

radores fracassou,

como de co-

nhecimentos técnicos.

Tentou-se as vezes, mas raramente, obviar

ao primeiro

inconveniente

pela assooíacáo

de esforcos,

orga-

nizando ligas ou sociedades para as quais entravam vários proprie-

tários.

Mas isto foi excepcional porque faltava o necessário espí-

rito associativo. Quanto as deficiencias

a admínístracáo

técnicas, é preciso lancar

pública, que manteve a

a culpa principal sobre colonia num iso lamento

completo; e nao tendo organizado

aqui

nenhum sistema eficiente de educacáo, por mais rudímentar

que

fosse, tornou inacesvel aos colonos qualquer

conhecimento

téc-

nico relativo as suas atividades.

O baixo nível intelectual

na co-

lonia, que nao tem talvez paralelo na América, nao cabe em nosso

assunto; mas é preciso lembrá-lo

porque interfere

aqui direta-

mente com a economia do país. Nao resta

a menor dúvida que a

ignorancia

dos colonos portugueses

sempre constituiu

um óbice

muito sério oposto ao desenvolvimentode

suas atividades

econó-

micas; na míneracño como nas outras também.

Nao é aliás apenas pelos obstáculos opostos a difusáo de 00-

nhecimentos

que a adminístracáo

racáo e apressou sua decadencia.

entravou o progresso da mine- O sistema geral que adotou ao

regulamentá-Ia contribuiu também consideravelmente

para isto.

Nunca se cogitou seriamente

de outra coisa que os quintos, o

tributo que os mineradores

deviam pagar. Que fosse satisfeito,

por bem ou a forca; o mais nao tinha importancia.

Mas com der-

rames e tudo, o quinto foi minguando;

e durante meio século em

que o rendimento

baixou em Minas Gerais (sáo os únicos dados

do que ternos notícias certas, e representa m aliás a maior parte

da contribuícáo

colonial) de 118 arrobas em 1754, máximo perce-

bído, para 35 apenas,

exatamente

cinqüenta

anos depois, nao

ocorreu sequer urna vez a admistracáo

outra explicao que a

fraude. Donde as violencias referidas acima. Nao se deu um passo

para introduzir na míneracáo quaisquer melhoramentos;

tócnícos para dirigí-la, mandavam-se

em vez de fiscais.

para cá cobradores

() pessoal com que se formavam as intendencias

eram burocratas

gUllanciosos e legistas .incumbído s de interpretar

e aplicar os com-

plicados regulamentos

que se destinavam,

quase unicamente,

a

glll'antirem os interesses do fisco. Nao

11111 culo de atividade, urna pessoa

se en contra nelas, durante

que entendesse de minera-

~·II(). E enquanto os míneradores

se esgotavam com o oneroso tri-

huto que sobre eles pesava, qualquer

crítica, objecáo ou sim-

I'lns dúvida era imediatamente

punida com castigos severos.

História Econámica do Brasil 61

Nestas condícñes nao é de admirar a prematura decadencia' da míneracáo. Chega-se em fins do séc. XVIII a um momento em

que já se tinham esgotado praticamente todos os depósitos aurí- feros superficiais em toda a vasta área em que ocorreram. A mi. neracáo sofre entáo seu colapso final. Nada se acumulara na fase mais próspera para fazer frente a eventualidade. Os recursos ne- cessários para restaurar a mineracáo, reorganizá-la sobre novas bases 'que a situacáo impunha, tinham-se volatizado, através do oneroso sistema fiscal vigente, no fausto da corte portuguesa e na sua dispendiosa e ineficiente admínístracáo, as migalhas que so- bravam desta orgía financeira também se foram na díssípacáo ím- previdente dos mineradores e na compra de escravos importados da Africa. A ignorancia, a rotina, a incapacidade de organízacáo

nesta sociedad e caótica que se instalara nas minas,

e cuja consti-

tuícáo nao fora condicionada por outro critério que dar quintos a

um rei esbanjador e a sua corte de parasitos, e no resto

satisfazer .

o apetite imoderado de aventureiros, davam-se as máos para com- pletar o desastre.

Além do ouro, exploraram-se também, na mesma época, os diamantes. O Brasil foi o primeiro grande produtor moderno desta pedra, que antes provinha apenas, e em pequenas quantidades, da

India; e somente no último quartel do século passado se deseo-

bríráo

as jazídas da Africa do Sul. O Brasil teve assim, no século

XVIII, o monopólio da producño. Mas apesar disto, sua impor-

tancia relativa a do ouro é entre

nós pequena. Os primeiros acha-

dos, devidos aos inineradores de ouro (pois os diamantes ocorrem no Brasil em terrenos auríferos), datam de 1729. A princípio adotou-se para com a extracáo dos diamantes o mesmo sistema que vigorava na do ouro: a livre extraeño com pagamento do quinto. Mas era difícil calcular e separar o quinto de pedras muí-

to diferentes urnas das outras, em tamanho e qualidade; e como além disto ocorressem apenas em áreas limitadas, adotou-se logo

outro

processo mais conveniente a percepcáo do tributo - lm

todas

as matérias da sua admínístracño, a metrópole portuguesa

sempre colocava este assunto em primeiro e quase único lugar. Demarcou-se cuidadosamente o territ6rio em que se encontravam os diamantes, isolando-o completamente do exterior. Este terrító- rio, que se chamou o Distrito Diamantino, é o que circunda a atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais. E a exploracáo foi outorgada como privilégio a determinadas pessoas que se obrí- gavam a pagar urna quantia fixa pelo direito de exploracáo. Em 1771 modifica-se este sistema, passando a Real Fazenda a fazer ela mesma, diretamente, a exploracño, Organizou-se urna Junta da adsninistraciio geral dos diamantes, sob a dírecáo de um inten- dente, para ocupar-se da matéria. Esta admínístracáo, como se

62 Caío"Prado /únior

dava com as Intendencias do ouro, independia completamente

de quaisquer autoridades coloniais, e somente prestava contas ao

governo de Lisboa. Sua autonomia

ainda era maior, porque se

estendia soberana sobre todo um território. Verdadeiro corpo estranho enquistado na colonia, o Distrito Diamantino vivía ínteí- ramente ísolado do resto do país, e com urna organízacáo sui ge-

neris: nao havia governadores, cámaras municipais, juízes, repartí- c;óés fiscais ou quaisquer outras autoridades ou órgáos administra-

tivos. Havia apenas o Intendente e um corpo submisso de auxiliares

que eram tudo

aquilo ao mesmo tempo, e que se guiavam uníca-

mente por um regimento colocado acima de todas as Ieis e que

lhes dava a mais ampla e ilimitada competencia. Na área

do

Distrito ninguém podia estabelecer-se, nem ao menos penetrar ou sair sem autorízacáo especial do Intendente, e a vida de seus habi- tantes (que pelo final do séc, XVIII montavam a 5.000 pessoas)

achava-se inteiramente nas máos daquele pequeno régulo que

punha e dispunha dela a seu talante. Seus poderes iam até o con- fisco de todos os bens e decretacáo da pena de morte civil (10) sem forma de processo ou recurso algum. Um naturalista alemño

que em

princípio do séc. XIX visitou o

Distrito ( 11), assim se

refere a ele: "Única na história esta idéia de isolar um território no qual todas as condícóes da vida civil de seus habitantes ficas- sem sujeitas a exploracáo de um bem da coro a",

Além do Distrito Diamantino, outras áreas da colonia onde se encontram diamantes também foram destacadas e isoladas, proi- bindo-se o acesso a qualquer pessoa: rio Jequitinhonha (Minas Gerais); rio Claro e Píes (Goiás); sudoeste da Bahia; alto Pa- raguai (Mato Grosso). Estas áreas nao foram aproveitadas e se conservaram desertas. A decadencia da míneracáo dos diamantes, que é mais ou menos paralela a do ouro, tem também causas semelhantes. Veio agravá-la um fator: a deprecíacao das pedras, devido ao seu grande afluxo no mercado europeu. O governo portugués tentou impedir a queda dos prec;os restringindo a producáo e a venda; mas seus crónicos apertos financeiros obrigavam-no freqüen- temente a abrir máos das restrícóes e lancar inoportunamente no mercado grandes quantidades de pedras. O seu valor veio assim, de queda em queda, até princípios do séc. XIX. Ao mesmo tempo, urna admínístracáo inepta e ineficiente foi incapaz de racionalizar

(10)

Esta pena desapareceu do direito moderno; nao vai até a exe-

cucáo capital, mas significa a cessacáo de todos os direitos do indivíduo "como se a pessoa deixasse de existir", definem as leis da época,

(11)

Trata-se de Carl Friedrich Philip von Martius (1794-1868), um

dos grandes botánicos modernos.

,

Hístória Economica do Brasil 63

11 produeáo e reduzir o custo da: extracáo, tudo se conservou até o

mais em particular a pecuária desenvolver-se-áo grandemente nes-

fim na mesma rotina de sempre. O desastre foi completo; e a ex- ploracáo de diamantes deixou inteiramente de contar como ativi-

tas regioes. É de notar que o territ6rio das minas propriamente (sobretudo das mais importantes localizadas no centro de Minas

dade .económíca de alguma expressáo desde fins do séc. XVIII.

Gerais) é impróprio para as atividades rurais. O solo

é pobre e

A míneracáo teve na vida da colónía um grande papel. Du- rante tres quartos de século ocupou a maior parte das atencñes do

o relevo excessivamente acidentado. Nestas condicóes, os mine- radares ter áo de se abastecer de generas de consumo vindos de

país, e desenvolveu-se a custa da decadencia das demais atividades. O afluxo de popula9ao para as minas é, desde o início do séc,

Iora. Servir-lhes-á sobretudo o sul de Minas Gerais, ande se desen- volve urna economía agrária que embora nao contando com ge-

XVIII, considerável: um rusli de proporcóes gigantescas, que rela-