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Resumo da Mesa: Ficção e Psicologia Social: três experimentações metodológicas.

Durante a modernidade erigimos uma série de prerrogativas metodológicas para garantir a autonomia do objeto perante o pesquisador, era necessário dividir o sujeito do objeto para proporcionar o máximo de previsão e controle sobre os fenômenos da natureza. Para tanto se utilizou uma metafísica baseada em duas distinções fundamentais: atributos primários (número, massa, forma, substância, essência necessária) e secundários (cor, odor, sabor, ruído, acidentes, contingências); fato (dado objetivo) e invenção (o produzido para além do dado). Ambas díades estão em estreita interação, posto que as qualidades ditas “secundárias” seriam o ponto fraco da epistemologia diante da ontologia, ponto através do qual nos perderíamos em divagações pouco seguras ultrapassando os fatos e adentrando o arenoso território da invenção subjetivista e das ardilosas armadilhas da perspectiva

singular. Já em nossos tempos, existe uma série de iniciativas as quais estão revendo muitos destes cânones metodológicos pensando a ontologia a partir de uma outra perspectiva onde não existem mais as díades antes citadas (e muitas outras): Nietzsche, Whitehead, Simondon, Roland Barthes, Deleuze e Guattari, por exemplo, nos abrem um mundo de acidentes em relação sem a necessidade de serem atribuídos a uma substância ou essência necessária, uma rede de predicados sem sujeito, um universo constituído por ações- experiência em relação a constituírem arranjos sensíveis e inteligíveis a um só tempo.

A mesa “A ficção como método para a psicologia social” parte desta perspectiva

ontológica para propor a problematização do uso de estratégias ficcionais de criação nas práticas de pesquisa e de intervenção em psicologia social. Pensando para além da distinção simplificadora entre fato e invenção, a ficção nos permite pensar aos eventos de modo complexo. Para além da estrita descrição fria do visto segundo uma lógica da representação abstrata, a ficção permite a multiplicação de variáveis sobre um acontecimento nos abrindo suas virtualidades, suas tensões e ressonâncias sutis as quais não podem ser descritas segundo a lógica do objeto dado. Ao tentar dar corpo a estas virtualidades de um evento em palavras ou imagens, ao dar passagem em conceitos a um devir da nossa sociedade ou ao tentar escrever uma vida em sua imanência impessoal, o uso da ficção potencializa nossa capacidade de erigir uma série de relações que ultrapassam as formas dadas na atualidade adentrando o denso universo das virtualidades, do por vir, do impessoal, do plano de imanência em devir com suas tensões, linhas de fuga, territórios e desterritorializações. A presente mesa apresentará o uso de metodologias como a Cartografia (Deleuze e Guattari), o Ensaio (Adorno), o Biografema (Barthes), com o intuito de propor uma outra possibilidade metodológica para a psicologia social: ficção implicada com uma ética da complexidade para pensar o que pode uma vida.

Resumo Apresentação Luis Artur Costa

O corpo das nuvens: cartografia, ensaio e transdução na psicologia social.

A ficção é aqui uma estratégia que visa ultrapassar a divisão estabelecida por

autores como Descartes, Bacon e Hobbes, entre, de um lado, o inteligível (o entendimento, a razão pura e a consciência) e do outro o sensível (a intuição, as paixões do corpo, os fluidos animais, as afecções, as sensações e a imaginação). Propomos aqui uma perspectiva híbrida para além e aquém das divisões estabelecidas pelos filósofos do iluminismo entre entendimento (razão pura e/ou consciência), sensação (impressão dos objetos sobre os

sentidos), afetos (paixões do corpo) e imaginação (fantasia). Na construção do método moderno definiu-se nossa humana natureza como sendo racional, bastava então definir nossos demais atributos e anulá-los de algum modo. Fluidos animais, afetos e imaginação deveriam ser iluminados e sanados pelo inteligível. É apenas a razão que permite a sanidade dos sentidos fazendo-os ir além das aparências até as essências gerais e eternas. Já com a cartografia e com o ensaio construímos formas de compreensão que ultrapassam as divisões entre o entendimento (razão), o sentimento (afetos) e a sensação (empírico). Como nos dizem Nietzsche e Espinosa o saber, o conhecimento, não apenas é mais um afeto entre os demais, como também tem especial importância com sua força de mobilização da subjetividade. Deste modo, para além destas partições categoriais, entre razão e afeto, temos um plano de imanência constituído por fluxos híbridos que criam estilísticas singulares e podemos então lançar um olhar estético sobre o mundo onde o inteligível é sensível e o sensível, por sua vez, inteligível: para além da divisão entre entendimento e sensação, desejo e razão, epistemologia e ontologia. Logo, a criação, a invenção, fatores antes relegados ao ostracismo epistêmico, passam a fazer parte das operações de construção do conhecimento e constituição de intervenções. Estas estratégias nos permitem explorar com especial destreza as sutilezas do virtual

e seus fluxos muitas vezes obscuros, posto que constituem uma densa atmosfera de singularidades em tensão a forjarem nossa atualidade. Percebemos então a concretude do sutil, as forças produtoras imateriais onde se forjam mundos para além do exclusivamente mineral e orgânico. Assim a noção de produção ultrapassa a de materialidade, sutilizando-

se e percebendo a concretude imaterial da subjetivação e seus modos. Estas estratégias se

fazem ainda mais relevantes em um mundo tomado de sutilezas imateriais, encontramo-nos com estas forças produtoras vivendo em um cotidiano tomado pelas sutilezas imateriais das novas mídias e do trabalho criativo, intelectual: forjamos um corpo para o incorpóreo, tornando-o sensível através das estratégias ficcionais. Esta apresentação pretende argumentar sobre as possibilidades desta vertente metodológica para a prática e pesquisa em Psicologia Social, possibilitando uma operação de transdução, de disparação entre díspares, na criação da pesquisa e da intervenção.

Mesa 2: O que pode a poética na pesquisa em Psicologia Social?

O uso da poética como estratégia de problematização da sociedade e suas questões não se apresenta exatamente como uma novidade aos nossos olhos. Há muito tempo existe uma estreita relação entre as artes plásticas, a literatura, o cinema e as ciências humanas, estando aí incluída a Psicologia Social. Diversos foram os autores que exploraram esta relação criando obras que oscilaram entre ambas: os filmes ensaios de Godard e Dziga Vertov, as etnografias poéticas de Jean Rouch e Jorma Puranen, o conceito de ensaio em Adorno e a Cartografia em Deleuze e Guattari, os aforismos Nietzschianos e os diálogos Platônicos, as Memórias do Subsolo de Dostoievski e a Água Viva de Clarice Lispector, a enciclopédia de literatura nazi de Bolaños e o almoço nu de Burroughs, entre uma multidão de outros exemplos possíveis. É exatamente sobre essa nebulosa fronteira que esta mesa pretende se debruçar para explorar o que pode acrescentar a poética na pesquisa em psicologia social. Partindo de três trabalhos que utilizam a poética como operador metodológico da pesquisa, esta mesa pretende problematizar quais são as possibilidades advindas de tal perspectiva. Trata-se de intentar pensar nosso famigerado “objeto” sem a

dupla intensão de isolá-lo e de reduzi-lo a um mínimo de variáveis, ao invés disso buscamos explorar a multiplicidade de relações que este estabelece com o pesquisador e com o mundo para dar corpo a uma complexa rede tomada de sutilezas difíceis de serem capturadas pelas palavras que se querem somente simples e objetivas. E é neste ponto que encontramos o compromisso ético desta metodologia: adentrar na atmosfera virtual e dar corpo às linhas de fuga que aí encontramos. O uso da poética de distintas formas em cada um dos três trabalhos a serem apresentados converge no intuito de não apenas complexificar o chamado “objeto” (ao expressar proposições sutis com matizes inviáveis de serem expressos sem o cuidadoso uso da estética ficcional), mas também transformá-lo em suas relações com o mundo de modo a possibilitar o devir deste último em outro:

resistência enquanto criação. Configura-se então outro método, onde não há disjunção absoluta entre o inteligível e o sensível. Admitindo que o estilo é inevitável e que mesmo a escrita dura das descrições puras possuem um estilo com seus artifícios de elegância, simplicidade, coesão, minúcia, jargão, entre outros elementos estéticos, passamos então a pensar na possibilidade de outras estéticas do pesquisar que se aliem às tradições poéticas (literatura, poesia, artes plásticas, cinema) para reinventar nossa forma de problematizar ao contemporâneo. Veremos nesta mesa três trabalhos que dão corpo a esta proposta e discutiremos quais as características deste modo de investigação que se coloca para além da divisão estrita entre ficcional e documental.

O uso da poética do delírio como método na Psicologia Social: experimentação, criação e resistência. Luis Artur Costa Este trabalho pretende problematizar, dentro das potências da poética nas ciências sociais, o uso da estética do delírio como operador de experimentação no campo da psicologia social. Partimos da definição de poética como delírio que é forjada por Manuel

de Barros em seu livro das Ignoraçã: fazer poesia é fazer a palavra delirar. Delírio, por sua vez, na definição do autor, é um exercício de experimentação e esquecimento que nos

permite produzir a desmedida da medida: “(

(DELEUZE, 1988, p.457). E é com esta estética do excesso enquanto desmedida informe (e não excesso como hiperestimulação formal) que podemos produzir o delírio o qual nos permitirá pensar/ criar as linhas de fuga das formas ao agitar as forças do fundo que lhes sustentam: “O delírio está no fundo do bom senso, razão pela qual o bom senso sempre é segundo” (DELEUZE, 1988, p. 363). A poética do delírio, portanto, é um dispositivo experimental que ativa a resistência das forças contra as formas para que se abram as possibilidades de reinvenção. Assim como Manuel de Barros produz uma língua menor em seu devir criança com a palavra, o psicólogo social faz o mesmo com suas práticas quando imbuído deste modo. Ao nos encontrarmos em um ambiente institucional, por exemplo, podemos fazê-lo delirar, tomando seus elementos formais e esgarçando-os até tornarem-se outra coisa, para tanto podemos nos utilizar de expedientes da literatura, da poesia, do cinema, do teatro, das artes plásticas, etc. Tal ação de experimentação e esquecimento nos proporcionará a falta de medida necessária para dar vazão às forças que ultrapassam as formas o que nos permitirá problematizar a instituição em seu modo existencial e as linhas de fuga que aí pulsam buscando uma brecha. Assim, a criação estética guiada pela lógica do delírio serve de resistência criativa ao dado e se constitui em uma importante ferramenta

)

uma idéia de poesia sempre excessiva”

de reflexão e intervenção para o psicólogo social. Problematizarmos então o método científico moderno deslocando suas operações de formalização redutora, previsão e controle, em prol de uma lógica da complexidade sensível a partir da interferência das artes e suas operações poéticas que nos permitem abrir a experiência à experimentação fazendo delirar ao campo empírico e seus sentidos pela sua potência poética. Apresentaremos alguns experimentos de tal metodologia e comentaremos sua sustentação teórica e potências pra a psicologia social.