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31 Vídeo Objetivo: Aprender os conhecimentos básicos para montar um vídeo. Elaborar um roteiro, filmar. Captar
31 Vídeo Objetivo: Aprender os conhecimentos básicos para montar um vídeo. Elaborar um roteiro, filmar. Captar
31 Vídeo Objetivo: Aprender os conhecimentos básicos para montar um vídeo. Elaborar um roteiro, filmar. Captar
31 Vídeo Objetivo: Aprender os conhecimentos básicos para montar um vídeo. Elaborar um roteiro, filmar. Captar
31 Vídeo Objetivo: Aprender os conhecimentos básicos para montar um vídeo. Elaborar um roteiro, filmar. Captar
31 Vídeo Objetivo: Aprender os conhecimentos básicos para montar um vídeo. Elaborar um roteiro, filmar. Captar

Vídeo

Objetivo: Aprender os conhecimentos básicos para montar um vídeo. Elaborar um roteiro, filmar. Captar imagens no computador, montagem e edição de vídeo.

Teatro

Objetivo:Aprender como montar uma peça de teatro através de um tema específico.

Elaborar um Blog

Objetivo: Montar um blog com conteúdo escolhido pelo grupo, dialogando com as temáticas da Caravana.

pelo grupo, dialogando com as temáticas da Caravana. Educação: Quem define a qualidade? escolas públicas no

Educação: Quem define a qualidade?

escolas

públicas no Brasil e a qualidade do ensino. O valor das organizações sociais no processo educativo do aluno.

Objetivo:

Refletir

sobre

a

situação

nas

Uso Estratégico da Internet

Objetivo: Introduzir participantes nas ferramentas de Web 2.0 através de uma demonstração e uso de gerenciador de conteúdo Joomla e a tecnologia Wiki.

Roda de Diálogo sobre Comunicação Livre e Comunitária

Objetivo: Promover uma mostra de experiências em comunicação alternativa e debater sobre a comunicação convencional e meios alternativos de fazer mídia.

Etnia, gênero e sexualidade

Objetivo: Refletir sobre a identidade juvenil a partir das questões étnicas, de gênero e da sexualidade. Direito a educação de qualidade Objetivo: Contribuir com a reflexão sobre a realidade da educação juvenil, qualidade e os meios de acesso a ela. MeioAmbiente e Desenvolvimento Sustentável Objetivo: Favorecer a discussão e reflexão sobre a questão ambiental no Nordeste e no Brasil, bem como sobre a proposta do desenvolvimento sustentável, problemas , desafios e propostas. Trabalho e Juventude Objetivo: Refletir com os/as jovens sobre a situação atual da juventude no mundo do trabalho, abordando seus problemas, desafios e identificando propostas. Radio Livre Objetivo: Dar a palavra aos jovens e as pessoas encontradas ao longo do caminho, para que se expressem sobre as suas problemáticas, demonstrando a importância do meio ambiente nas lutas políticas.

Rádio Comunitária

Objetivo: Mostrar como funciona uma rádio comunitária, dando notícias sobre os acontecimentos no caminho e no FSM.

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Por Sandro Silva de Lima
Por Sandro Silva de Lima

É necessária uma aldeia inteira

É necessária uma aldeia inteira

para cuidar de uma criança”

para cuidar de uma criança”

Provérbio africano

Provérbio africano

Com a intenção, dentre outras, de promover uma maior mobilização social, jovens de muitos estados do Nordeste do Brasil, com o apoio de diversos segmentos da sociedade civil, organizaram a Caravana de Comunicação e Juventudes. Sensibilizando as pessoas através de oficinas e práticas artísticas, que debatiam diversos pontos importantes para a juventude e a sociedade, os/as jovens da Caravana contribuíram para mobilizar as pessoas, ajudando-as a refletirem sobre seus problemas, a não vê-los como algo natural, mas como algo possível de modificação. As juventudes mostraram a força dos/das jovens que muitos acusam estar ausentes do debate acerca dos problemas sociais de nosso mundo. Parece que não é bem assim. Aqui e ali, encontramos diversos e diversas jovens, das áreas rurais e urbanas, trabalhando, debatendo, fazendo intervenções sociais e políticas, mobilizando outros e outras jovens para a missão de pensar e construir coletivamente suas bandeiras de luta. Outro ponto forte e inovador desta ação foi a participação ativa das juventudes na construção e execução dessas intervenções. No exercício da criatividade e da construção coletiva, os/as jovens foram capazes de organizar mobilizações, deixando nas ações realizadas sua marca de alegria e de responsabilidade por onde passaram. A mobilização social vivida na Caravana revelou outro elemento importante: a mudança, a transformação da percepção e das práticas juvenis. Durante e depois da Caravana, as pessoas, os ambientes, o mundo não era mais o mesmo para muitos desses jovens que foram transformados por esta ação. Acreditamos que essa transformação foi resultado das experiências educativas vivenciadas coletivamente pelos jovens e pelas jovens, presentes nos sorrisos compartilhados, nos olhares, nos desejos suscitados, no sentir as pessoas e os lugares, no brincar. Os processos mobilizadores da Caravana tiveram um ponto alto: o Fórum Social Mundial/2009. Esse evento constituiu-se como espaço onde as juventudes mostraram sua alegria e indignação. O Fórum Social Mundial/2009 representou este lugar de encontro, de fortalecimento, de apoio as nossas pautas de luta, aumentando nossa capacidade de ter esperança. Foi também um verdadeiro espaço enriquecedor de formação mútua, promotor de mudanças no coração e na mente daqueles que participaram da Caravana de Comunicação e Juventudes.

Mobilizamos tantas pessoas e fomos tão mobilizados que mais e mais acreditamos hoje que “um outro mundo é possível”.

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Essa caravana me fez mostrar meu lado sentimental e isso foi muito importante para mim,

Essa caravana me fez mostrar meu lado sentimental e isso foi muito importante para mim, obrigado caravana, amo todos vcs!

(Arthur Rodrigues da Silva Santos)

Criamos uma oficina itinerante, resolvemos indiferenças, o dialogo com as comunidades e autoridades com entrega das reinvidicações da juventude.

(Antonio Helio Roque Da Silva)

da juventude. (Antonio Helio Roque Da Silva) O fato de estarmos juntos, jovens do nordeste distintos
da juventude. (Antonio Helio Roque Da Silva) O fato de estarmos juntos, jovens do nordeste distintos
da juventude. (Antonio Helio Roque Da Silva) O fato de estarmos juntos, jovens do nordeste distintos

O fato de estarmos juntos, jovens do nordeste distintos do Brasil, essa troca de saberes, essa mistura de culturas, de sotaques, esse cuidar um do outro, o exercício da tolerância, o exercício do amor, esses para mim foram os melhores

aprendizados. (Edgleison Vieira Rodrigues)

Os jovens desta caravana mostraram que querem ver as coisas acontecendo.

(Antonio Helio Roque da Silva)

Rodrigues) Os jovens desta caravana mostraram que querem ver as coisas acontecendo. ( Antonio Helio Roque

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35 Por Osmar Rufino Braga O propósito deste texto é tentar responder a uma questão levantada
35 Por Osmar Rufino Braga O propósito deste texto é tentar responder a uma questão levantada

Por Osmar Rufino Braga

O propósito deste texto é tentar responder a uma questão levantada no processo da sistematização: como os jovens e as jovens se perceberam e que representações sociais foram construindo de si mesmos/mesmas durante o percurso de sua inserção sociopolítica e cultural no contexto da Caravana de Comunicação e Juventudes? Para responder a questão acima, tivemos que fazer uma “caravana” pelos percursos dos/das jovens na sua experiência de inserção sociopolítica e cultural. Nessa “viagem”, procuramos observar e, na medida do possível, registrar, as percepções, os discursos, as expressões, as linguagens, as reflexões, as atitudes manifestadas pelos jovens e pelas jovens, buscando identificar as representações sociais que os caravaneiros e as caravaneiras fizeram na sua trajetória de inserção sociopolítica e cultural proporcionada pela Caravana; procuramos observar como os/as jovens foram tematizando suas questões, conflitos, descobertas e intervenções nas realidades nas quais se inseriram e onde interagiram com outros sujeitos. Vimos que essas vivências, experimentos e seus significados não foram iguais para todos e todas. Cada qual foi fazendo o percurso traçado pela Caravana, ao mesmo tempo em que, dentro si e na relação com os outros/as, iam fazendo seu percurso pessoal, grupal e social, afirmando-se ou descobrindo-se como sujeito/a na convivência com os outros/as, com as comunidades e, porque não dizer, com o mundo, visto que mergulharam nas questões mundiais pautadas pelo Fórum Social de Belém (PA), destino final da Caravana de Comunicação e Juventudes. As reflexões compartilhadas neste texto são frutos do processo de sistematização, desenvolvido por um grupo de participantes da Caravana, representantes dos estados que se envolveram na organização e realização deste grande evento de mobilização social das juventudes do Nordeste. No texto, dialogaremos com alguns referenciais teóricos, os quais nos ajudarão a refletir sobre os achados nos percursos vividos pelos/pelas jovens na Caravana, sobre os significados e sentidos dessa experiência de inserção sociopolítica e cultural nas comunidades do Nordeste por onde a Caravana passou. Muito útil nos será a categoria “representação social”, cujo conceito defendido por Jovchelovitch (2000, p. 41) adotaremos nesta reflexão. Essa autora diz que

p. 41) adotaremos nesta reflexão. Essa autora diz que ) ( as representações sociais são sempre

) (

as representações sociais são

sempre a representação de um objeto, ou seja, elas ocupam o lugar de alguma coisa, elas re-apresentam alguma coisa. Neste sentido, elas re-constroem a realidade, de uma forma autônoma e criativa. Elas possuem um caráter produtor de imagens e significante, que

expressa, em última instância, o

trabalho do psiquismo humano sobre o

mundo [

].

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Da mesma forma, buscaremos dialogar com Deleuse, Guatarri e Sodré, autores que nos ajudarão a entender

a relação entre o individual e o comum, entre a singularidade e a pluralidade nas relações sociais e nas ações

coletivas criadas e estabelecidas na e pela Caravana. Igualmente importante será a teoria dialógica de Paulo Freire, com a qual buscaremos refletir sobre o fazer pedagógico, político e cultural, assumido pelos/pelas jovens, no processo de tematização das questões juvenis e comunitárias.

A visão biológica do chileno Humberto Maturana iluminará a reflexão e o entendimento sobre o significado e o

aprendizado da convivência na diversidade, questão sempre trazida à tona pelos/pelas jovens em suas vivências.

O texto está divido em três partes: na primeira, fazemos alusão breve ao público que participou da Caravana;

na segunda, parte central desta reflexão, abordamos as representações sociais que os/as jovens fazem de sua experiência e de suas práticas nos percursos vividos na Caravana; na terceira, concluímos o texto, apresentando algumas considerações a reflexão desenvolvida neste trabalho.

considerações a reflexão desenvolvida neste trabalho. No total foram 200 jovens, divididos equilibradamente entre
considerações a reflexão desenvolvida neste trabalho. No total foram 200 jovens, divididos equilibradamente entre

No total foram 200 jovens, divididos equilibradamente entre homens e mulheres, de

faixa etária entre 16 a 29 anos, das áreas rurais

e urbanas dos Estados do Ceará, Pernambuco,

Bahia, Alagoas, Rio Grande do Norte e Piauí, engajados/das ou ligados/das a projetos sociais, ONGs, movimentos, redes e organizações juvenis . Esses/essas jovens tinham percepções de mundo, trajetórias, habilidades, orientação sexual e nível de inserção sociopolítica diferentes, e perfil educacional semelhante (a maioria tinha ou estava concluindo o ensino médio). Havia uma parcela de jovens que não foi devidamente preparada, apresentando certa dificuldade no desenvolvimento das atividades propostas pela Caravana, fato que a desafiou do ponto de vista da inserção sociopolítica e dos aprendizados.

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de vista da inserção sociopolítica e dos aprendizados. 1 1. Os/as jovens de que estamos falamos

1. Os/as jovens de que estamos falamos pertencem ou estão ligados e ligadas a Movimentos de Juventudes – Grupo Jovem Geração Futuro, Grupo de Jovens Fala Sério (Ceará), Rede de Jovens do Nordeste - RJNE, Pastoral de Juventude do Meio Popular, Rede de Resistência Solidária, Centro Popular de Cultura e Comunicação (Fortaleza-CE), Coletivo Gambiarra Imagens, IntegraSol, Projeto Crescendo no Morro, Projeto Peixearte, Grupo Pé no Chão, Caranguejo Uca; a Entidades Ambientalistas e pela reforma agrária – Movimento dos Sem Terra – MST; a Organizações Não-Governamentais, Centros de Defesa dos Direitos Humanos e entidades de defesa do direito à comunicação – Escola de Formação Quilombo dos Palmares - EQUIP, Grupo deApoio às Comunidades Carentes - GACC, Obra Kolping do Nordeste (Ceará e Piauí), Visão Mundial (Ceará, Alagoas e Rio Grande do Norte), Centro de Comunicação da Juventude - CCJ, Diaconia (Ceará e Pernambuco), Volens, MSD/ASD; a Entidades ligadas ao mundo do trabalho – Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), Serviço de Tecnologia Alternativa – SERTA; a Redes Sociais – Rede de Jovens do Nordeste, Rede de Resistência Solidária; a Organizações de Mulheres e organizações pela livre orientação sexual – Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste - MMTR-NE; a Organismos governamentais ligados aos setores populares – Programa Conexões de Saberes (projeto de extensão comunitária da UFPE);

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37 No processo de sistematização, como já falamos, tivemos que fazer uma “caravana” pelas vivências e
37 No processo de sistematização, como já falamos, tivemos que fazer uma “caravana” pelas vivências e
37 No processo de sistematização, como já falamos, tivemos que fazer uma “caravana” pelas vivências e

No processo de sistematização, como já falamos, tivemos que fazer uma “caravana” pelas vivências e experiências vividas pelos/pelas jovens no contexto da Caravana de Comunicação e Juventudes. Neste percurso pelas trajetórias experienciadas pelos/pelas jovens, procuramos observar e anotar como sentiram e perceberam a própria experiência; e como sentiram e perceberam as suas práticas sociopolíticas e culturais. Os significados e sentidos dessas vivências e experiências, dialogando com alguns referenciais teóricos, serão compartilhados nesta parte do trabalho.

Eu nunca tive a experiência de sair do meu estado para

ir para outro(

)

eu aprendi

como viver em conjunto (Edgleison).

) eu aprendi como viver em conjunto (Edgleison). Para muitos/muitas jovens da Caravana, a experiência de
) eu aprendi como viver em conjunto (Edgleison). Para muitos/muitas jovens da Caravana, a experiência de
) eu aprendi como viver em conjunto (Edgleison). Para muitos/muitas jovens da Caravana, a experiência de

Para muitos/muitas jovens da Caravana, a experiência de sair de casa, do seu bairro, da sua comunidade, foi uma experiência de “êxodo”, de desterritorialização e de reterritorialização. Essa experiência, para os/as jovens, representou o aprendizado da convivência, do viver coletivo, do con-viver com o diferente. Duas dimensões nos chamam a atenção nessa experiência de “êxodo”, que, no contexto da Caravana, assumiu um caráter educativo: a da desterritorialização/reterritorialização, e a da convivência. Asaída de casa, do bairro e da comunidade de origem, na verdade, não representou só um passeio por outros mundos rurais e urbanos. Representou uma dupla experiência, mesmo que temporária, de desterritorialização e de reterritorialização. Na primeira (desterritorialização), os/as jovens vivenciaram a saída de seus ambientes, onde construíram, afirmaram relações sociais e deram significação às suas identidades; onde suspenderam sua segurança (psicológica) e se abriram para construir e afirmar outras relações sociais, afetivas e político-culturais, de certa forma buscando construir outros territórios para si (no sentido cultural e psicológico). Guatarri e Deleuse (1991, p. 66), fazendo referência a processos como estes, ressaltam:

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Foi muito interessante observar os/as jovens buscando um “chão” interno e externo (um território) para pisar, construir segurança na sua inserção sociopolítica e cultural em outros territórios, processo que não se deu sem conflitos e contradições, embora profundamente educativo. Nessa aventura, é que os/as jovens vivenciaram a produção de si na relação com os outros e com as comunidades. Vimos também que a produção (social, política, cultural, psicológica, etc.) de si, do outro e das comunidades nas relações estabelecidas, remeteu

os/as jovens à experiência da reterritorialização. Isto é,

o processo inverso, de construir-se individual e

coletivamente na relação com as outras pessoas, com

os outros territórios; de estabelecer novas relações,

afirmar novas identidades, enfim, incorporar novos aprendizados – individuais e coletivos. O depoimento desta caravaneira é muito significativo nesse sentido:

O fato de estarmos juntos, jovens de "nordestes" distintos do Brasil; essa troca de saberes, essa mistura de culturas, de sotaques; esse cuidar um do outro, o exercício da tolerância, o exercício do amor, esses para mim foram os melhores aprendizados

(AURILENE).

O processo da reterritorialização implicou a (re)construção, (re)significação ou (re)afirmação dos próprios referenciais, numa relação dialógica, na perspectiva freireana:

O diálogo é o encontro entre [seres humanos], mediatizados pelo mundo,

para designá-lo. [

]

o diálogo é o

encontro no qual a reflexão e a ação, inseparáveis daqueles que dialogam, orientam-se para o mundo que é preciso transformar e humanizar, este diálogo não pode reduzir-se a depositar idéias em outro

(FREIRE, 1980, p.83).

A reterritorialização vivida pelos/pelas jovens não se deu sem conflitos. Ela foi se constituindo na pluralidade, diversidade, num grau de abertura à realidade, numa perspectiva de interação muito forte

entre os/as jovens. A fala deste caravaneiro explicita muito bem o tipo de relação vivida na

Não tem uma participação individual. Toda participação aqui tá sendo coletiva; a gente tá construindo esse coletivismo, e o que tá dando força à Caravana é essa diversidade no

coletivo (

)

(RAMON).

Vimos também que o processo de reterritorialização implica um “compartilhar o mesmo espaço com outras pessoas tão diferentes no modo de agir, mas que têm o objetivo em comum” (NETO - Baturité – Ceará). Isto é, os/as jovens vivenciaram a experiência de inserir-se e assumir outros territórios, estabelecendo diálogos e construindo propostas com os outros jovens e com as comunidades, fazendo pontes entre seus saberes e os saberes locais, dando significado e sentido coletivo ao fazer sociopolítico e cultural na/da Caravana. A outra dimensão vivenciada pelos/pelas jovens na sua experiência de “êxodo” foi a da convivência. Muitos/muitas jovens falaram, poetizaram e experimentaram o aprendizado da convivência, oportunizado pelos espaços e relações educativas estabelecidas pela e na Caravana. É como fala o jovem abaixo:

) (

A Caravana está me dando a

oportunidade de estar dentro dos movimentos; estou começando agora dentro dos movimentos, e é

muito importante

ela está me

dando a oportunidade de interagir com as outras pessoas, com outras comunidades e está realmente me permitindo conhecer os meus

direitos e deveres(

)

A Caravana

está me dando a oportunidade de aprender coisas novas e de passar

o que eu sei. Então, está tendo essa

troca de experiência(

)

(EDGLEISON).

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Este outro jovem fala que o aprendizado da convivência não foi um processo simples e, portanto, sem conflitos e dificuldades. Ele diz o seguinte:

portanto, sem conflitos e dificuldades. Ele diz o seguinte: Acho ainda que eu poderia ter me

Acho ainda que eu poderia ter me doado um pouco mais, talvez a inexperiência tenha

contribuído para que isso não acontecesse

); (

experimentei conviver com a

complexidade das pessoas e saber administrar isso como uma qualidade divina

(Josivan).

A convivência, construída e vivenciada pelos/pelas jovens da Caravana aproxima-se da visão defendida por Maturana (2001, p. 29), em que afirma que a convivência é viver com o outro como legítimo outro, isto é, “ao conviver com o outro, (este) se transforma espontaneamente, de maneira que seu modo de viver se faz progressivamente mais congruente com o do outro no espaço da convivência”. Percebemos que o aprendizado da convivência se materializou no “saber trabalhar em grupo, (no) conhecer as formas de participação de cada indivíduo e (no) conviver com toda uma diversidade” (RICARDO). Esse processo se deu de forma intensiva e foi decisivo na construção e afirmação das identidades construídas nos percursos vividos pelos/pelas jovens, na experiência de inserção sociopolítica e cultural nos territórios por onde passaram. O aprendizado da convivência na diversidade foi fundamental na construção/afirmação das pessoas, de seus desejos, de sua subjetividade e do grupo. Ela contribuiu na viabilização da participação das pessoas, na sua inserção e comprometimento, fortalecendo suas singularidades e a pluralidade instituída – o grupo de caravaneiros e caravaneiras. No trânsito da busca e da construção da convivência, foi bonito perceber a explosão da subjetividade, como exprimiu essa jovem, integrante da Caravana:

como exprimiu essa jovem, integrante da Caravana: Preciso aumentar o brilho do meu olhar, fazer meu

Preciso aumentar o brilho do meu olhar, fazer meu coração inundar de tanto reivindicar, desejar que o mundo pare nesse instante, nesse momento delirante, que vale mais, muito mais. (Celene).

Vimos, então, muitas passagens nos percursos vividos pelos/pelas jovens na e da Caravana, onde faziam circular suas singularidades, enquanto pessoas, e a pluralidade, enquanto grupo. A articulação entre essas singularidades (indivíduos/pessoas) e a pluralidade (grupos) produziu uma totalidade muito integrada, como assinala este jovem:

Conseguimos nos integrar com extrema facilidade, acredito que isso se deve ao fato de todos já terem um nível de engajamento nas comunidades de origem e pela vontade de atuar (Hélio).

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Esta singularização e pluralidade, portanto, revelam a constituição de um sujeito social (coletivo) que se abre para a inserção sociopolítica e cultural, como bem expressa a fala deste jovem caravaneiro:

Foi essa a sensação

sinto-me agora mais fortalecido e experiente, para mostrar à

sociedade aquilo que ela não quer ver (Willian).

Esta visão comunga com a visão acerca do individual e do comum, expressa por Sodré (1999, p. 141), quando afirma:

Importante é ter em mente que a parte, o individual, a espécie, o singular, não se separam, enquanto diferenças, do todo, do grupo, do gênero, da natureza comum e universal. Singular e comum são duas faces de uma mesma moeda ou de um mesmo movimento, que se encontram no instante de geração de um ser qualquer.

se encontram no instante de geração de um ser qualquer. Foi no movimento dessa tecitura, onde

Foi no movimento dessa tecitura, onde os jovens afirmavam sua singularização e a pluralidade, que sua experiência de inserção sociopolítica e cultural foi construída; foi nesse movimento que construíram significados e sentidos para o seu fazer na Caravana, produzindo novas relações sociais e interferindo na sociedade.

novas relações sociais e interferindo na sociedade. Na “caravana” que fizemos pelos percursos juvenis dos

Na “caravana” que fizemos pelos percursos juvenis dos caravaneiros e caravaneiras, também observamos as práticas, suas representações, sentidos e significados. As práticas sociopolíticas e culturais desenvolvidas na Caravana podem ser organizadas ou enunciadas em torno dos seguintes blocos: práticas diagnósticas; práticas comunicativas e informacionais; práticas de mobilização; práticas de intervenção e proposição. Observando essas práticas na Caravana, podemos definir cada uma delas.

Práticas diagnósticas: inserção no contexto comunitário local, observação direta e levantamento das realidades socioeconômicas, políticas e culturais das comunidades;

Práticas de mobilização: processos e atividades que visam ocupar a rua, a praça, os espaços, convocar vontades, colocar em movimento as pessoas, suas potencialidades e desejos em função de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados;

Práticas comunicativas e informacionais: uso das diferentes mídias e linguagens de comunicação – grafite, rádio, vídeos, internet, etc. – para comunicar um tema, problema, mobilizar pessoas, fazer formação política;

Práticas de intervenção e proposição: processos e atividades voltados para debater ou colocar em discussão um tema, uma questão, um problema e, a partir da participação coletiva, construir soluções e proposições. As intervenções podem ser feitas na rua, na praça, numa sala, enfim, em qualquer lugar. O uso da arte, cultura e das mídias e linguagens variadas foi central nessas práticas.

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Nas atividades sociopolíticas e culturais da Caravana, essas práticas foram vivenciadas de forma integrada

(a divisão aqui é didática) pelos/pelas jovens e desenvolvidas através de diferentes formas: visitas, oficinas, rodas

de conversa, cordéis, poesias, teatro, seminários, músicas, dentre outras formas. Todas buscaram garantir a

dimensão educativa, mobilizando a participação ativa e comprometida dos sujeitos e comunidades.

Observando as falas e as vivências em relação a essas diferentes práticas, é possível afirmar que os/as jovens as vêem de forma multifacetária, tanto no seu conteúdo, como na sua implementação e nos seus resultados. É muito significativa a frase deste jovem: “o mundo é da cor que a gente pinta” (JOSÉ WILLIAN).

De fato, no contexto da

Caravana, as práticas sociopolíticas

e culturais assumiram uma

diversidade de conteúdos, sentidos

e abordagens, numa dimensão

criativa do saber, como bem explicita

essa jovem:

A Caravana foi um processo múltiplo de conhecimentos, foi um processo de muitas atuações formadoras e atuações políticas de mudanças para um

outro mundo. (

)

A troca de informações e

experiências com outras pessoas. (Vanessa)

Este caravaneiro, na mesma direção, referindo-se às práticas de intervenção nas comunidades, parece mostrar que a ação pedagógica tem uma dimensão subjetiva, na medida em que, através dela, o/a jovem também se produz enquanto pessoa e enquanto sujeito político-pedagógico:

enquanto pessoa e enquanto sujeito político-pedagógico: Se Se a a proposta proposta era era fazer fazer

Se Se a a proposta proposta era era fazer fazer intervenções intervenções em em

comunidades comunidades para para tematizar tematizar a a possibilidade possibilidade de de um um

outro outro mundo, mundo, de de ajudá-las ajudá-las a a entrar entrar em em contato contato com com

as as pautas pautas que que não não chegam chegam até até elas, elas, também também é é

importante importante notar notar o o quanto quanto as as intervenções intervenções

ocorreram ocorreram dentro dentro de de nós. nós. (SANDRO (SANDRO APRENDIZ) APRENDIZ)

O que inferimos, a partir dessas falas, é que, as práticas político-pedagógicas e socioculturais, para os/as jovens, são vistas como auto-formadoras e portadoras de mudanças subjetivas, antes mesmo de atingirem seus objetivos maiores. O próprio ato sociopolítico-pedagógico-cultural pensado para outros sujeitos, em si, já é auto- formador e produtor de mudanças dos sujeitos que o constroem; o tema, a questão, o problema que originou o ato político-pedagógico-cultural, já carrega, nesse fazer, a auto-formação dos sujeitos, já produz, nesses sujeitos, relações subjetivas e objetivas que criam, recriam e potencializam o mundo dos envolvidos e das envolvidas nesse ato. O pensamento de Freire (2002, p. 51) reforça essa compreensão:

A partir das relações do ser humano com a realidade, resultantes de estar com ela

e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão, vai ele dinamizando o seu

mundo. [

]

vai acrescentando e ela algo de que ele mesmo é o fazedor. Vai

temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura. E ainda o jogo destas relações do ser humano com o mundo e deste com os outros seres humanos, desafiando e respondendo ao desafio, alterando, criando, que não permite a imobilidade, a não ser em termos de relativa preponderância, nem das sociedades nem das culturas. E, na medida em que cria, recria e decide, vão se confirmando as épocas históricas. É também criando, recriando e decidindo que o ser humano deve participar destas épocas.

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Mas, não estamos falando de qualquer ato político-pedagógico e sociocultural. Estamos falando de um ato político-pedagógico e sociocultural que articula duas dimensões: a linguagem artística e o discurso político, como assinala um dos caravaneiros:

e o discurso político, como assinala um dos caravaneiros: A Caravana tem um grande potencial de

A Caravana tem um grande potencial de mobilização política e a força dela reside na facilidade de ligar linguagem artística (provocadora) e o discurso político

(MATHIEU ORFINGER)

(provocadora) e o discurso político (MATHIEU ORFINGER) Ora, esse aspecto fez a diferença no trabalho

Ora, esse aspecto fez a diferença no trabalho político-pedagógico e sociocultural desenvolvido pelos/pelas jovens na Caravana, pois estamos falando de práticas pedagógicas e políticas multifacetárias, ou seja, que combinam e articulam várias dimensões: a artístico-cultural, a da mobilização social, a da discussão política de temas e questões; a da criatividade e comunicação. Essas dimensões, sempre vivenciadas e trabalhadas de forma integrada pelos/pelas jovens, no jogo das trocas e relações estabelecidas na Caravana, produziram grande impacto na vida dos próprios jovens e das próprias jovens, bem como na vida de outros sujeitos/as envolvidos na ação da Caravana. Micinete (2009), uma das jovens da Caravana, no seu texto apresentado nessa publicação, destaca muito bem o “papel da arte como mobilização política e cultural”:

) (

sermos gente de direitos. Nós encenamos, nos colocando no lugar do outro, e, fazendo isso,

mostramos que é possível a transformação das pessoas para se indignarem contra situações de

No final de tudo, o importante mesmo, não é exibir uma solução, mas provocar um

violência. (

Podemos batucar os nossos gritos de revolta contra a opressão que quer nos impedir de

)

bom debate. Até porque, cada realidade, pede soluções diferentes (

).

A dimensão artístico-cultural, pela importância e peso que teve na ação e intervenção dos/das jovens na Caravana, também é destacada por este jovem caravaneiro:

O destaque que eu faria é o destaque cultural, onde a gente conseguiu pegar toda a problemática que a juventude está passando, que as comunidades estão passando, e transformar isso em cultura, em arte, e expressar isso de uma forma bastante diferente. Acho que essa passagem da gente pelas diversas cidades, também traz

conosco um pouco da memória desse povo (

).

Refletindo e analisando o que diz esse jovem, e considerando as diferentes e multifacetadas formas de trabalhar os temas, as questões sociais, os problemas das comunidades na Caravana, podemos afirmar que a experiência cultural e político-pedagógica vivida pelos/pelas jovens foi muito profunda e contribuiu para potencializar o poder criador que os/as jovens possuem no diálogo consigo mesmos/as e com a realidade social. Ao mesmo tempo em que mergulharam artístico-culturalmente na realidade dos outros jovens e das comunidades, vivenciaram-se como sujeitos políticos, capazes de modificar a realidade. Esse fato nos lembra o

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que Freire fala sobre o processo de mudança, de transcendência que acontece com o ser humano quando se assume como ser capaz de transformar-se e de transformar a situação histórica em que vive. Ele afirma:

Na medida em que [o ser humano] faz essa emersão no tempo, libertando-se de sua unidimensionalidade (uma só dimensão), discernindo-a, suas relações com o mundo se impregnam com o sentido conseqüente. Na verdade, já é quase um lugar- comum afirmar-se que a posição normal do ser humano no mundo, visto como não está apenas nele, mas com ele, não se esgota em mera passividade. Não se reduzindo tão-somente a uma das dimensões de que participa - a natural e a

cultural - da primeira, pelo seu aspecto natural, da segunda, pelo seu poder criador,

o ser humano pode ser eminentemente interferidor (grifo nosso)

Herdando a

experiência adquirida, criando e recriando, integrando-se às condições de seu contexto, respondendo a seus desafios, objetivando-se a si próprio, discernindo, transcendendo, lança-se o ser humano num domínio que lhe é exclusivo - o da História e o da Cultura (FREIRE, 2002, p. 49).

A partir da reflexão do referido autor, vemos que as práticas político-pedagógicas e socioculturais dos/das jovens priorizam dois aspectos fundamentais: o da integração/inserção criativa no contexto social e cultural, e o da intervenção. É nesse processo que acontece o que Freire (2002) chama de "enraizamento sociocultural", processo onde a pessoa afirma-se como sujeito crítico e político, e onde afirma sua capacidade criadora. Na Caravana, essa experiência de inserção nas comunidades e de intervenção criativa, vivenciada de forma dialógica, alegre, prazerosa e extremamente aberta, superou todas as dificuldades, problemas e cansaços nos percursos desta ação, a ponto de uma jovem, abatida pelo enfado da caminhada, externar:

Havia momentos em que eu queria dormir, descansar, que não dava pra continuar. Quando ouvia aquela batucada e todo mundo lá, na maior animação, não sei como, só sei que não dava pra ficar parada.

(Joana D´arc)

só sei que não dava pra ficar parada. (Joana D´arc) Com Freire (2002), podemos dizer que
só sei que não dava pra ficar parada. (Joana D´arc) Com Freire (2002), podemos dizer que

Com Freire (2002), podemos dizer que o ser humano integrado é um ser humano sujeito. Essa integração, tomada como capacidade de se inserir e interferir na realidade na perspectiva de sua transformação, foi bastante vivenciada na Caravana e revela o diferencial das práticas político-pedagógicos e socioculturais pensadas e desenvolvidas pelos jovens e pelas jovens. Observamos que foi pela integração, isto é, pela inserção e

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intervenção crítica e criativa na realidade, que os/as jovens se apropriaram dos temas fundamentais no contexto da Caravana, reconhecendo suas tarefas concretas, as daquele momento e as do futuro. Os depoimentos destes caravaneiros são indicadores dessa constatação:

(

De jovem para jovem, temos que levantar os desafios e as potencialidades, e construirmos o mundo, que, com equidade, possa atender a todos em sua diversidade. Os jovens dessa Caravana mostraram que querem ver as cosias acontecendo (HÉLIO).

)

Saímos de nossas casas com o objetivo de diminuir as tristezas, as injustiças, a falta de democracia social que existe na nossa região Nordeste, no nosso país e no nosso mundo (Sandro).

região Nordeste, no nosso país e no nosso mundo (Sandro). Por último, ainda fazendo o percurso

Por último, ainda fazendo o percurso pelas vivências e experiências dos/dos jovens, descobrimos que as práticas político-pedagógicas e socioculturais trabalharam uma dimensão importante: a intervenção no espaço público.Afala deste caravaneiro é muito significativa nesse sentido:

Através do diálogo, elaboramos uma carta, apresentando as reivindicações da juventude; participamos de uma audiência pública com as autoridades e entregamos ao prefeito de Crateús (cidade do Estado do Ceará) as reivindicações dos grupos do interior e da

cidade (Hélio).

Essa experiência de intervenção no espaço público foi muito importante e expressiva durante toda a Caravana. Ela destaca que os processos educativos desenvolvidos pelos/pelas jovens se preocuparam e trabalharam o enfoque e a perspectiva da cidadania ativa, aquela que busca formar cidadãos/cidadãs autônomos/autônomas e críticos/críticas, capazes de assumir o exercício do controle social na esfera pública, tornando-se atores sociopolíticos na sociedade. Vimos serem explicitadas e vivenciadas uma visão e uma prática de educação popular, edificada numa "pedagogia do público, da decisão, da construção de um sentido comum" (PONTUAL, 2005, p. 11). Uma educação que promove a apropriação crítica dos temas emergentes da cidadania, principalmente daqueles temas relacionados com a justiça de gênero, as relações interculturais e intergeracionais, empoderamento e governo das cidades e das regiões (PONTUAL, 2005). Trata-se, então, de uma pedagogia da gestão democrática, capaz de contribuir para a construção de novas formas de exercício do poder no terreno da Sociedade Civil e por parte do Estado.

poder no terreno da Sociedade Civil e por parte do Estado. Compartilhamos neste texto algumas reflexões
poder no terreno da Sociedade Civil e por parte do Estado. Compartilhamos neste texto algumas reflexões

Compartilhamos neste texto algumas reflexões sobre as experiências e as práticas político-pedagógicas e socioculturais dos/das jovens participantes da Caravana de Comunicação e Juventudes, acompanhando seus percursos, observando e dialogando com seus discursos e vivências, com o intuito de identificar e sistematizar seus significados e sentidos.

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Inicialmente, fizemos uma rápida caracterização do público participante da Caravana. Em seguida, realizamos uma "caravana" através de seus percursos, refletindo sobre os sentidos e significados de suas experiências e de suas práticas sociopolíticas e culturais. Aprendemos que temos muito que aprender com a experiência da Caravana de Comunicação e Juventudes, considerando todas as suas dimensões - a da organização/planejamento, a político-pedagógico; a metodológica, a temática. Priorizamos, nesta reflexão, as dimensões político-pedagógica e metodológica. Os percursos juvenis observados e analisados, ora por dentro, ora por fora da Caravana, permitem-nos afirmar e destacar alguns aspectos, tomados aqui como desafios, que deverão ser aprofundados na continuidade desta experiência:

ser aprofundados na continuidade desta experiência: - O processo político-pedagógico e metodológico precisa

- O processo político-pedagógico e metodológico precisa considerar o caráter multifacetário da intervenção sociopolítica e sociocultural, onde podemos trabalhar as diferentes dimensões, abordagens, conteúdos e instrumentos;

- É necessário ficar atento e trabalhar de forma sistemática a dimensão da subjetividade, fazendo as pontes entre as motivações profundas dos sujeitos envolvidos na ação e os desafios da intervenção sociopolítica e cultural; - Aprofundar o caráter auto-formativo e produtor de sujeitos políticos das próprias vivências político-pedagógicas e socioculturais, refletindo e sistematizando os saberes de experiência e os aprendizados da prática;

- Estudar o papel da arte e da cultura

nos processos de mobilização social e político-pedagógicos, analisando como as abordagens artístico-culturais podem oferecer subsídios estratégicos para uma intervenção efetiva, mas alegre, prazerosa e extremamente conscientizadora, na perspectiva da educação popular; - É fundamental estruturar e articular, no processo político-pedagógico e sociocultural, duas dimensões chaves no trabalho: a inserção no contexto sócio-comunitário e a intervenção política.

Finalizando, e diante desses desafios, afirmamos nosso desejo de continuar refletindo sobre nosso fazer político-pedagógico e sociocultural, potencializando experiências como as da Caravana de Comunicação e Juventudes, crendo que elas podem trazer e produzir novas formas de intervenção social e política, revitalizando a educação popular.

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Por Maria Micinete
Por Maria Micinete

A juventude que fez e tomou parte da Caravana de Comunicação e Juventudes utilizou da arte o tempo todo para chamar a atenção para o que está acontecendo com as juventudes do Nordeste e do mundo inteiro. Nós nos unimos nessa Caravana com o intuito de mobilizar outros jovens e outras jovens para discutirmos questões que nos afligem, para debatermos direitos básicos e universais que nos são negados, direitos como o respeito ao ser humano, independentemente de raça, etnia, opção religiosa e sexualidade. Quando a gente pintava o rosto, vestia-se de chita, botava o megafone na boca e as faixas nas mãos, era para cortejar outros/outras jovens, mostrando que somos capazes de grafitar um mundo mais bonito; que a gente pode dançar esperanças para situações conflitantes, que às vezes nos matam antes mesmo de tentarmos enfrentá-las. Podemos batucar os nossos gritos de revolta contra a opressão que quer nos impedir de sermos gente de direitos. Nós encenamos, colocando-nos no lugar do outro, e, fazendo isso, mostramos que é possível a transformação das pessoas para se indignarem contra situações de violência. Através do click da câmara fotográfica, mais do que imagem, a gente quis mostrar coisas capazes de dizer sentimentos, que as palavras não conseguiram alcançar. No final de tudo, o importante mesmo, não era exibir uma solução, mas provocar um bom debate.Até porque, cada realidade, pede soluções diferentes. Essa é a cara desse pessoal que pegou a estrada, porque nossos olhos brilham com a possibilidade de que, juntando-nos, “um outro mundo é possível”.

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47 Por Gerson Flávio Parecia uma Utopia quando começamos a pensar na possibilidade de realizarmos uma
47 Por Gerson Flávio Parecia uma Utopia quando começamos a pensar na possibilidade de realizarmos uma
47 Por Gerson Flávio Parecia uma Utopia quando começamos a pensar na possibilidade de realizarmos uma
47 Por Gerson Flávio Parecia uma Utopia quando começamos a pensar na possibilidade de realizarmos uma

Por Gerson Flávio

Parecia uma Utopia quando começamos a pensar na possibilidade de realizarmos uma caravana formada por

jovens que faria o percurso de Recife a Belém do Pará. Só vinha na cabeça a imagem de um comboio pela

E foi assim, inspirados na experiência

realizada pelo Media Sana, rumo ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre, que no CCJ (Centro de Comunicação e Juventude) a gente começou a falar desse sonho. Bart e eu começamos a montar uma estratégia. Vamos reunir as ONGs de Pernambuco, as agências de cooperação internacional, os movimentos sociais. Fizemos o convite para a primeira reunião no CCJ, compareceu um bom grupo. Sentimos que a proposta da caravana seduzia as pessoas. O companheiro Omar, de tantos anos de experiência na Oxfam e cooperação internacional, nos animou com várias idéias que ele trouxe que nos ajudariam na mobilização e na captação de recursos para o projeto. As reuniões em Recife se sucederam, foram formadas comissões de trabalho, os jovens começaram a se integrar nelas, pouco a pouco, foram tomando conta do processo de organização. Pelo trabalho realizado pela Diaconia em Fortaleza, inclusive com a perspectiva da criação de um CCJ lá, mobilizamos as organizações e movimentos populares de Fortaleza para uma primeira reunião. Com o apoio do GACC, entidade parceira de Volens, acolhidos por Mathieu, Verônica e outras pessoas da instituição, eu e Bart partimos para lá, com a cara e a coragem. Fizemos uma primeira reunião na sede do GACC, um número excelente de pessoas representativas das organizações e movimentos locais. Apresentamos o nosso esboço de projeto de uma caravana, a qual chamávamos simplesmente de a Caravana da Comunicação. De cara, recebemos uma enxurrada de questionamentos, para muitas perguntas nós não tínhamos respostas, queríamos construí-las coletivamente. Para isso havíamos mobilizado as organizações em Pernambuco e em Fortaleza. Começávamos a nossa corrida contra o tempo. Quando elaboramos o primeiro projeto vimos que não seria moleza mobilizar tantos recursos, mas esse desafio nos impulsionava. A notícia de que estávamos organizando uma caravana ganhou mundo quando foi para a internet. Outros estados começaram a se comunicar conosco. Surgiu até uma proposta de uma organização do Paraná que propunha integrar a caravana com um ônibus de 50 jovens do Sul do país. Depois veio a Bahia que entrou pra valer no processo organizativo. E assim o sonho foi se tornando realidade, a cada dia que se aproximava do Fórum Social Mundial, uma novidade surgia: um contato novo, um apoio novo, uma pessoa que se interessava em ajudar seduzida pela maravilhosa idéia nascida dentro do CCJ. Para mim, a criação do CCJ, a sua primeira turma de jovens comunicadores populares, tiveram um papel fundamental para a concretização desse sonho. O carinho e o empenho de Bart e Carine, cooperantes da Volens, que desde o início cuidaram do CCJ como quem cuida de uma criança recém nascida. O envolvimento das entidades parceiras do CCJ, eu me lembro de reuniões fora do expediente de trabalho com o Pastor Arnulfo, onde buscávamos seus conselhos e sugestões quanto ao projeto financeiro, e ele sempre nos apoiou. Era um entusiasta daquela caravana que estava sendo gestada. O engajamento dos jovens, especialmente aqueles que foram tecnicamente capacitados e politicamente formados nas primeiras turmas do CCJ. Todo esse conjunto de esforços criou uma sinergia e num determinado momento nós tínhamos a certeza de que o sonho seria realizado. Por força de circunstâncias profissionais acabei nem podendo acompanhar de perto o processo e a trabalheira final na organização da Caravana, acompanhava tudo pela internet. Muitas outras pessoas, jovens de outros movimentos, foram se engajando. Acabei nem indo fisicamente, mas espiritualmente me fortaleci na busca de sonhos que se concretizam coletivamente, de pensar um outro mundo possível, de não perder de vista a Utopia.

estrada afora

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48 Embora o primeiro contato na cidade de Juazeiro houve troca de experiência e de realidade,

Embora o primeiro contato na cidade de Juazeiro houve troca de experiência e de realidade, lidar com o diferente foi bastante difícil até a chegada em Teresina-Pi, onde a democracia e o respeito ao outro não foi prioridade, quando era solicitado menos excesso em relação ao grupo; podendo mencionar também a falta de uma real concepção do que seria o FSM por grande parte dos integrantes da CCJ-Ba, mesmo havendo uma formação sobre o evento. Chegando em Teresina, a sensação de estar participando do FSM se intensificou quando a pulsação do corpo foi substituída pelo som dos tambores e energia dos demais jovens que ali se encontravam representando o estado do Pernambuco e do Ceará, recepcionando a CCJ-Ba com uma grande ciranda, que se tornou o ponto chave da integração dos participantes. A caravana da Bahia ficou incumbida de realizar uma oficina na comunidade de Timon-Ma, no bairro de Cidade Nova, um lugar carente, desprovido da infra-estrutura e do olhar atento dos governantes locais, foi ai que pude deparar com uma realidade trágica, principalmente quando Kivia e eu, conhecemos a família de Sr. José, morador de uma casa de taipa de mão, dentro de um cômodo único, sobrevivendo no limiar da dor de sua doença e a fraqueza de não poder sustentar seus três filhos de forma digna; repetindo assim durante toda a caminhada, historias de dor e de indignação, nos levando a questionar sobre qual seria a dignidade existente naquela população? mas durante a tarde quando as oficinas estavam sendo ministradas surge um novo sentido, pois éramos observados por cerca de quinze jovens com olhares curiosos, dispostos a mudança através das provocações causadas pela oficina de Salvador, sobre “Juventude no século XXI”, estimulando através de contextualização sobre os movimentos políticos e culturais para instigar a luta e mudança em uma comunidade carente de informações, esta passagem pela cidade de Timon, mostrou uns dos pontos mais inesquecíveis de todo o trajeto da CCJ.

(Suemys Luize Pansani Tavares)

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49 Fazer uma nova comunicação, dando a ela um status de mediadora do diálogo dos jovens

Fazer uma nova comunicação, dando a ela um status de mediadora do diálogo dos jovens entre si e destes com a sociedade, essa foi uma conquista da Caravana de Comunicação e Juventudes. Durante todo o processo da Caravana foram produzidos textos, fotos, vídeos, programas de rádio e várias outras formas de comunicação. Foi possível ver as mensagens de mudança pintadas nos rostos e nos grafites, ouvir gritos por um mundo melhor que ecoavam nas músicas e passeatas, feitas pelos jovens nordestinos. A abertura que a juventude teve dentro da Caravana para planejar e executar ações instituiu um espaço de debate onde o/a jovem se enxergou capaz de intermediar diálogos entre a sua comunidade e seus representantes, percebendo-se protagonista para definir ações que transformam a realidade, como relata um dos jovens caravaneiros:

Criamos uma oficina itinerante, resolvemos indiferenças, o diálogo com as comunidades e autoridades com entrega das reivindicações da juventude".

(Hélio Roque).

Por Arlene Freire

com as comunidades e autoridades com entrega das reivindicações da juventude". (Hélio Roque). Por Arlene Freire
com as comunidades e autoridades com entrega das reivindicações da juventude". (Hélio Roque). Por Arlene Freire

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50 As juventudes da Caravana utilizaram com competência as novas ferramentas de comunicação e levaram seus
50 As juventudes da Caravana utilizaram com competência as novas ferramentas de comunicação e levaram seus
50 As juventudes da Caravana utilizaram com competência as novas ferramentas de comunicação e levaram seus

As juventudes da Caravana utilizaram com competência as novas ferramentas de comunicação e levaram seus vídeos para o mundo através do Youtube e do site da Caravana, tornando públicas as histórias de dor, como as histórias vividas no bairro Cidade Nova, na cidade de Timon, no Maranhão. Uma das jovens, que visitou e vivenciou a realidade maranhense, destaca:

) (

Uma comunidade

completamente esquecida pelas autoridades locais e desacreditada de que "Um outro mundo seria possível". Deparei-me com situações delicadas, não diferentes das que vejo em Salvador Conversei com a população e me senti inútil diante daqueles problemas que apenas naquele dia, apenas naquele Fórum, associações, ONGs, instituições, o mundo estaria perto, e depois o que seria daquilo tudo?

(Alessandra Nascimento Gomes)

A Caravana foi uma experiência de comunicação e mobilização ímpar. Através de uma metodologia autônoma, criou um espaço onde os/as jovens estabeleceram diferentes diálogos com as comunidades e mostraram ter capacidade de analisar criticamente a realidade em que vivem, construindo e apontando soluções.

Pois sós somos fracos e frágeis, mas unidos somos a forca e as decisões do Pais

(Luis Rufino da Silva Neto)

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51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia
51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia
51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia
51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia
51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia
51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia
51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia
51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia
51 Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia

Hoje, nesse mundo dito globalizado, em um sistema político que tem como modelo a democracia "representativa", enfrentamos certo descrédito dos políticos eleitos e uma crise do sistema que os elegeu, que não fiscaliza nem controla o que é público, apesar dos mecanismos de participação popular estabelecidos na Constituição Federal do Brasil. Nesse contexto, é da maior importância continuar a ocupação e a participação nos espaços políticos clássicos, mas precisamos ir além, na direção de uma democracia cada vez mais direta, com ampla e efetiva participação da população. A Caravana de Comunicação e Juventudes foi um exemplo de experiência de aprendizagem da participação política juvenil, onde as juventudes de todas as cores e rostos, cabelos raspados, compridos ou rastafári, de todos os tipos, com gostos variados e escolhas definidas se juntaram para levantar a bandeira da construção de "um outro mundo possível". Foram jovens de vários estados do Nordeste, tanto das periferias urbanas como da área rural, que percorreram a estrada pelo interior do país, mobilizando outros e outras jovens, conhecendo e discutindo seus problemas, construindo propostas de mudança da condição juvenil. Caracterizada por um perfil político e de acúmulo em relação à temática de comunicação e educação popular, as juventudes mostraram para as instituições, grupos e movimentos sociais, que é possível re-inventar nossa intervenção, nossa atuação formativa e nosso jeito de fazer a transformação social.Apoiados em

Por Mathieu Orfinger

intervenção, nossa atuação formativa e nosso jeito de fazer a transformação social.Apoiados em Por Mathieu Orfinger
intervenção, nossa atuação formativa e nosso jeito de fazer a transformação social.Apoiados em Por Mathieu Orfinger
intervenção, nossa atuação formativa e nosso jeito de fazer a transformação social.Apoiados em Por Mathieu Orfinger

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52 competências, habilidades, energias e potenciais artísticos próprios das juventudes contemporâneas, os/as jovens

competências, habilidades, energias e potenciais artísticos próprios das juventudes contemporâneas, os/as jovens participantes dessa Caravana foram seus protagonistas, debateram temas como comunicação alternativa, desenvolvimento sustentável, juventude e trabalho, sexualidade, gênero e etnia, direito à educação, dentre outros. Os jovens e as jovens venceram desafios que desencadearam profundos e marcantes aprendizados. Algumas vezes, esses aprendizados chegaram em momentos inesperados, de forma surpreendente, quando, por exemplo, realizou-se uma "oficina

itinerante" pelos corredores da universidade, enquanto

as salas pagas e reservadas pelo Fórum Social Mundial

para a realização destas oficinas, ficaram definitivamente fechadas. A energia criativa e a

versatilidade da juventude possibilitaram dialogar com

os sentimentos de um público muito maior que o público

que podia estar confinado nas salas inicialmente

previstas, multiplicando e ampliando o impacto da ação. A Caravana parece ter despertado o poder individual de mudança dentro de cada jovem e, ao mesmo tempo, a força de transformação da realidade pelo coletivo. É muito interessante notar que, voltando da Caravana, jovens integraram-se em espaços de discussão política

e estão se mobilizando para a mudança nas suas

comunidades, resultado este que, às vezes, algumas

ONGs e associações não conseguem alcançar através

de projetos de dois ou três anos.

Aqui, o resultado chegou sozinho, como o gato solitário "Le chat qui s'en allait tout Seul" da estória francesa, que minha mãe me contava. Ele vai embora, tendo tomado o leite de casa, depois segue seu caminho. Assim, os jovens se alimentaram na Caravana, construíram seus aprendizados com autonomia, vivenciando uma experiência de formação e de militância para além do contexto institucional de cada entidade. Essa experiência de aprendizado da participação política evidenciou outro resultado interessante: a descoberta da força da arte e da comunicação para mobilizar a sociedade no enfrentamento das problemáticas sociais. A força da arte e da comunicação na Caravana nos chama a atenção para o que disse Paulo Freire, quando falou que "não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão. Por isso, o diálogo é uma exigência existencial". A situação de diálogo entre os/as jovens que a Caravana potencializou, destacou existências individuais e desafios coletivos, revelou a situação multifacetária das juventudes do Nordeste. A vivência e o diálogo com as juventudes dos lugares por onde a Caravana passou, criaram nos jovens um novo sentimento de "estar no mundo", ampliando suas percepções, sua visão e reflexão política, geográfica e filosófica. Ao terem contato, por exemplo, com a realidade de outros jovens de uma comunidade que seria desapropriada para a construção de uma barragem, os/as caravaneiros/ras mergulharam no diálogo criador de sentimentos de amor, de reconstrução de um mundo onde as juventudes deveriam se organizar e as comunidades se mobilizariam na criação de outras perspectivas. Concluindo esta reflexão, podemos dizer que, olhando as tramas vividas pelos jovens na experiência da Caravana, é possível re-inventar a participação na nossa sociedade, potencializando principalmente a força e o poder juvenil. É possível, inclusive, superar a visão da participação clássica, reinventando-a com criatividade, arte-cultura e com o diálogo crítico e reflexivo, valorizando as experiências populares de luta e resistência das populações nordestinas.

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Senhores e Senhoras,
Senhores e Senhoras,
53 Senhores e Senhoras, A Caravana de Comunicação e Juventudes é uma iniciativa conjunta de organizações,

A Caravana de Comunicação e Juventudes é uma iniciativa conjunta de organizações, movimentos sociais, redes, grupos de jovens e tem o apoio de órgãos públicos de alguns municípios da região Nordeste. Tem como objetivo central contribuir para a democratização da comunicação, levando à cena pública e ao Fórum Social Mundial 2009 os conteúdos, olhares e questões das juventudes do Norte e Nordeste do Brasil. Nós que fazemos a Caravana de Comunicação e Juventudes em Crateús, junto com a Cáritas Diocesana, Sindicato dos Professores do Município, Sindicato dos trabalhadores Rurais, Paróquia Senhor do Bonfim e demais entidades apoiadoras, com a juventude crateuense das comunidades de Poti, Realejo, Jatobá dos Umbelinos, Açude dos Barrosos, Fátima I e II, Frei Damião e Sede, viemos convocar a todos e todas a pensar e construir caminhos e soluções para os problemas do município, a partir das proposições e posicionamentos da juventude como protagonistas e sujeitos de direito. Através desta carta queremos fazer valer o clamor dos jovens e das jovens que participaram dessa Caravana e desejam mudança, queremos a partir das discussões realizadas nas oficinas, reivindicar:

1. DIREITO À EDUCAÇÃO

Ampliação da estrutura escolar com laboratórios de informática, biologia e química, Biblioteca ampla, com profissionais capacitados, aula de informática para todos da comunidade; Maior valorização da cultura e esporte; Abertura da escola para os jovens no fim de semana, feriado e férias; Maior utilização da quadra de esporte pela comunidade;

2. SEXUALIDADE, GÊNERO E ETNIA

Sensibilizar e continuar essa reflexão nos espaços públicos, em especial nas escolas; Resgatar e fortalecer os grupos de jovens e outros trabalhos focados na juventude; Capacitar outros e outras jovens; Levantar debates sobre o tema sexualidade, gênero e etnia nas escolas e nos grupos; Mobilizar jovens para os trabalhos de formação através da cultura, teatro, dança; Atuar juntamente com o Conselho Tutelar no combate à exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e outros; Cobrar das escolas e autoridades o cumprimento e o exercício da Lei 10.639; Utilização dos meios de comunicação e outros espaços para se discutir o tema sexualidade, gênero e etnia;

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3. MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Trabalhar a agricultura com práticas de conservação de solo; Construção do aterro sanitário; Recuperação das áreas degradadas; Educação ambiental nas escolas, nas comunidades, nos espaços públicos; Coleta seletiva do lixo nas comunidades; Difusão da Agroecologia na sociedade; Realização de projetos de reciclagem; Reflorestamento do meio ambiente que pede socorro; Maior debate e discussão com a comunidade Açude dos Barrosos sobre as questões ligadas ao meio ambiente; Maior assistência técnica para os agricultores jovens e adultos; Formação de grupos nas comunidades para discutir as problemáticas relativas ao meio ambiente; Apoio dos sindicatos e entidades aos grupos de proteção ambiental;

4 . JUVENTUDE E TRABALHO

Mais oportunidades de trabalho e renda para as pessoas; Mais cursos de qualificação para a juventude; Ampliação das escolas e universidades com cursos diversificados para os jovens; Ampliação das escolas técnicas, das escolas familiares agrícolas; Mais apoio e incentivo ao jovem da área rural na plantação e produção agropecuária; Maior preparação do jovem para o mundo do trabalho; Maior oportunidade de acesso dos jovens ao micro-crédito;

5. PROTAGONISMO, PARTICIPAÇÃO E IDENTIDADE JUVENIL

Construção de espaços culturais e de lazer nas comunidades e na cidade; Ampliação dos cursos profissionalizantes de nível médio e superior; Maior esclarecimento da população sobre a construção da Barragem Lago de Fronteiras; Maior participação e diálogo com a comunidade nas definições sobre a Barragem Lago de Fronteiras de Poti; Garantia do cumprimento dos direitos das pessoas e da comunidade de Poti com a construção da Barragem;

Certos de que vamos ser ouvidos/das e sermos atendidos/das, nos comprometemos em levar ao

Fórum Social Mundial as visões de mundo, desafios e inquietações das comunidades, assim como a

juventude crateuense se comprometem em monitorar e acompanhar a

apresentadas. Reafirmando nosso compromisso e a esperança, clamamos: "Ajunta aí, meu povo! Outro mundo é possível".

realização das propostas aqui

Crateús, 21 de janeiro de 2009.

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ABRAVO (PI) ABRAÇO SISAL - (BA) ACOOPAMEC (BA) ASSOCIAÇÃO SANTO DIAS (CE) CAATINGA - Ouricuri (PE) CABEÇA ATIVA (PE) CARITAS ( PI) CCJ- Centro de Comunicação e Juventude (PE) CHANGEMAKERS (Noruega) COLETIVO GAMBIARRA IMAGENS (PE) CONEXÕES DE SABERES (PE e PI) CONSELHO ESTADUAL DA JUVENTUDE (PI) COORDENAÇÃO ESTADUAL DE DIREITOS HUMANOS E JUVENTUDE (PI) CONSELHO NOVA VIDA (CONVIDA) DIACONIA EQUIP - Escola de Formação Quilombo dos Palmares (PE) ESCUTA (CE) FALA SÉRIO (CE) FETAG (PI) GACC - Grupo de Apoio às Comunidades Carentes (CE) GAJOP - Gabinete de Assessoria às Organizações Populares (PE) GERAÇÃO FUTURO (PE) INSTITUTO GANDHI (PI INTEGRASOL (CE) MMTR-NE - Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra OBRA KOLPING (CE e PI) PEIXEARTE (PE) RÁDIO LIVRE-SE (PE) RECID (PI) REDE DE JOVENS DO NORDESTE (PE) REDE DE RESISTÊNCIA SOLIDÁRIA (PE) REDE DE ARTICULAÇÃO DO GRANDE JANGURUSSU E ANCURI (CE) REFAISA SERTA - Serviço de Tecnologia Alternativa - Glória de Goitá (PE) SOLTANDO A VOZ (CE) VISÃO MUNDIAL BRASIL - Unidades Operacionais de Fortaleza-CE, Rio Grande do Norte, Sertão I (AL) e Salvador-BA VOLENS - Brasil - Bélgica

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VOLENS (Bélgica) Christian AID (Inglaterra) TEARFUND (Inglatrerra) ZUIDDAG (Bélgica) Operation Daywork (Noruega) AIN - Igreja da Noruega DISOP (Bélgica) SOS Abandonados (Bélgica) CESE (BA)

VISÃO MUNDIAL (BR)

BANCO DO NORDESTE SECRETARIA DE TRABALHO E DESENVOLVIMENTO SOCIAL DO CEARÁ GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO GOVERNO DO ESTADO DO PIAUÍ EMATER - (PI) PREFEITURA MUNICIPAL DE RECIFE (PE) PREFEITURA MUNICIPAL DE CRATEÚS (CE) PROGRAMA CONEXÕES DE SABERES UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO EMATER (PI) CÁRITAS DIOCESANA DE CRATEUS (CE) SINDICATO DOS PROFESSORES DO MUNICÍPIO DE CRATEUS (CE) SINDICATO DOS TRABALHADORES RURAIS DE CRATEUS (CE) PARÓQUIA SENHOR DO BONFIM - CRATEUS (CE) IRPAA (BA) COOPERATIVAS DE CRÉDITO (BA) DOADORES PARTICULARES Mais detalhe sobre os apoios no site www.caravanadecomiunicacao.org.br

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Data da Audiência: 21 de janeiro de 2009 Local: Teatro Objetivo: discutir os problemas e questões apresentadas pela Caravana de Comunicação e Juventudes a partir do documento “Carta da Juventude”.

Instituições Governamentais e Não Governamentais presentes:

Secretaria de Negócios Rurais, Urbanos e Meio Ambiente Regional da FETRAECE Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Crateús Vereador Marcio Cavalcante – Presidente da Câmara Municipal de Crateús Paróquia Senhor do Bonfim Sindicato dos Professores do Município de Crateús Comunidade Jatobá dos Umbelinos Comunidade Poti Comunidade Realejo (representado por uma jovem da Caravana) Comunidade Açude dos Barroso (representado por um jovem da Caravana) Comunidade Fátima I e II (representado por um jovem da Caravana) Coordenação da Caravana de Comunicação e Juventude

Encaminhamentos:

1. Multiplicar e difundir junto às associações, comunidades, ONGs e grupos juvenis a

"Carta da Juventude";

2. Fortalecer a mobilização social dos jovens e das comunidades a fim de levar adiante as

propostas da Caravana;

3. Apresentar projetos sociais como instrumento para viabilizar as propostas da Caravana;

4. Potencializar a luta contra o lixão visando a construção de um Aterro Sanitário;

5. Criar um fórum local para debater e encaminhar as questões referentes à construção da

Barragem Fronteiras e a desapropriação das terras quilombolas;

6. Buscar interferir no Orçamento Público visando o redirecionamento dos recursos

públicos;

7. Apresentar projeto de iniciativa popular em prol da criação da Secretaria de Cultura e do

Fundo de Cultura.

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Não sei fazer repente

Oficinas realizadas

Mas vou mostrar para você

Despertaram o saber

A

forma de ensinar

Dos jovens que ensinam

E

a forma de aprender

Que também têm que aprender.

Preste bem atenção Na batida do coração Vou começar a dizer!

Tirar o véu da realidade Mostrando pra sociedade O que ela tem que fazer.

Meu povo e minha galera Peço licença pra falar Da Caravana da Juventude Sua história eu vou contar Construída com esforço Mobilização e reforço Pra o projeto realizar.

O Nordeste se juntou

Para o projeto realizar Mobilizou as juventudes Para um desafio enfrentar

Democratizar a comunicação Assumir como missão

A comunicação popular.

Três estados se uniram Pra fazer o movimento

Pernambuco foi o primeiro

O Ceará deu segmento

Rio Grande do Norte despontou

O Piauí acompanhou

Bahia e Alagoas estão dentro.

Os temas foram vários:

Etnia e sexualidade, Protagonismo juvenil, O jovem e sua identidade, A cidade e o campo Cantaram o mesmo canto De uma nova realidade.

A Caravana passou bonita Por grandiosas cidades Ouricuri foi uma delas Que deixou muitas saudades Crateús, Teresina e Juazeiro Eita povinho ligeiro Pra falar das novidades.

Botamos o pé na estrada Seguimos nossa missão Não resistimos a energia Do povo do Maranhão Caxias da Balaida Aqui foi nossa parada Pra fazer uma intervenção.

Pernambuco de grandes guerreiros De valores culturais

Mais uma vez na estrada

Nosso projeto era real

O

Ceará tem muita história

A caravana animada

E

a Bahia não fica atrás

E com muito alto astral

Piauí de sol ardente Rio Grande do Norte bom no repente Alagoas dos canaviais.

A emoção veio de novo " Ajunta aí, meu povo " Viva o Fórum Social !!

Sua atenção eu vou chamar Para o jeito de fazer Como o jovem organiza

A maneira de aprender

A caravana propicia

Nova metodologia Pra juventude crescer.

Osmar Braga (CE), Severino José (PE), Francisco José (CE), Ramon Bonfim (BA), Alessandra Masullo (CE).

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Antillón, Roberto: Sistematización de la experiencia de Imdec em programas de formación metodológica, 1981-1990, Imdec, Guadalajara, 1992.

COSTA, Antonio Carlo Gomes. Protagonismo Juvenil: adolescência, educação e participação. Salvador:

Fundação Odebrecht, 2000.

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