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CAPÍTULO 1

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A medição é uma operação antiqüíssima e de fundamental importância para diversas atividades do ser humano. Na comunicação, por exemplo, toda vez que se quantifica um elemento, se está medindo, isto é, comparando este elemento com uma quantidade de referência conhecida pelo transmissor e receptor da comunicação.

O comércio é outra atividade onde a medição é fundamental: para que transações comerciais possam ser efetuadas, é necessário descrever as quantidades envolvidas em termos de uma base comum, isto é, de uma unidade de medição. Com a evolução da manufatura, esta necessidade se intensificou: é preciso descrever o bem fabricado em termos de elementos que o quantifiquem, isto é, número de um calçado, tamanho de uma peça, quantidade contida em uma embalagem, são apenas exemplos. A intercambialidade desejada entre peças e elementos de uma máquina só é possível através da expressão das propriedades geométricas e mecânicas destes elementos através de operações de medição.

Medir é uma forma de descrever o mundo. As grandes descobertas científicas, as grandes teorias

clássicas foram, e ainda são, formuladas a partir de observações experimentais. Uma boa teoria é aquela que se verifica na prática. A descrição das quantidades envolvidas em cada fenômeno se

dá através da medição.

A medição continua presente no desenvolvimento tecnológico. É através da medição do

desempenho de um sistema que se avalia e realimenta o seu aperfeiçoamento. A qualidade, a segurança, o controle de um elemento ou processo é sempre assegurada através de uma operação de medição.

Há quem afirme que "medir é fácil". Afirma-se aqui que "cometer erros de medição é ainda mais

fácil". De fato, existe uma quantidade elevada de fatores que podem gerar estes erros, conhece-

los e controlá-los nem sempre é uma tarefa fácil.

Como o valor a medir é sempre desconhecido, não existe uma forma mágica de checar e afirmar que o número obtido de um sistema de medição representa a grandeza sob medição (mensurando). Porém, existem alguns procedimentos com os quais pode-se caracterizar e delimitar o quanto os erros podem afetar os resultados. Neste texto, são abordadas diversas técnicas e procedimentos que permitem a convivência pacífica com o erro de medição.

1.1 Medir Versus Colecionar Números

É através de um sistema de medição (SM) que a operação medir é efetuada: o valor momentâneo

do mensurando é descrito em termos de uma comparação com a unidade padrão referenciada

pelo SM. O resultado da aplicação deste SM ao mensurando é um número acompanhado de uma unidade de Indicação.

Para o leigo, por mera ignorância ou ingenuidade, o trabalho de medição está encerrado quando

se obtém este número. Na verdade, esta operação é uma parte do processo de medição. É uma

tarefa relativamente simples a aplicação deste SM por várias vezes e a obtenção de infindáveis coleções de números. Porém, a obtenção de informações confiáveis a partir destes números,

exige conhecimentos aprofundados sobre o SM e o processo de medição empregado. Sabe-se que não existe um SM perfeito: além de limitações construtivas internas, o SM é comumente afetado por efeitos diversos relacionados com o meio ambiente, com a forma e a técnica de aplicação deste SM, pelas influências da própria grandeza, dentre outros. É necessário considerar todos estes efeitos e exprimir um resultado confiável, respeitando a limitação deste SM.

O resultado de uma medição séria deve exprimir o grau de confiança a que é depositado pelo

experimentador. Como é impossível obter uma Indicação exata, o erro provável envolvido deve sempre ser informado através de um parâmetro denominado incerteza. Existem diversos procedimentos e técnicas com as quais é possível determinar o nível de confiança de um resultado. Porém, bom senso e ceticismo são características adicionais indispensáveis a quem se dispõe a medir. A regra é "duvidar sempre, até que se prove o contrário".

A qualidade de uma medição se avalia pelo nível dos erros envolvidos. Porém, nem sempre deve-

se buscar o "melhor" resultado, com mínimos erros. Depende da finalidade à qual se destinam

estes resultados. Aceitam-se erros de ± 20 g em uma balança de uso culinário, porém estes erros não podem ser aceitos caso deseje-se medir a massa de pepitas de ouro. Medir com mínimos erros custa caro. À medida que se desejam erros cada vez menores, os custos se elevam exponencialmente. A seleção do SM a empregar é, portanto, uma ação de elevada importância que deve equilibrar as necessidades técnicas com os custos envolvidos.

1.2 Erro de Medição Existe !

Uma medição perfeita, isto é, sem erros, só pode existir se um SM (sistema de medição) perfeito existir e a grandeza sob medição (denominada mensurando) tiver um valor único, perfeitamente definido e estável. Apenas neste caso ideal o resultado de uma medição (RM) pode ser expresso por um número e uma unidade de medição apenas.

Sabe-se que não existem SM perfeitos. Aspectos tecnológicos forçam que qualquer SM construído resulte imperfeito: suas dimensões, forma geométrica, material, propriedades elétricas, ópticas, pneumáticas, etc, não correspondem exatamente à ideal. As leis e princípios físicos que regem o funcionamento de alguns SM nem sempre são perfeitamente lineares como uma análise simplista poderia supor. A existência de desgaste e deterioração de partes agravam ainda mais esta condição. Nestes casos, o SM gera erros de medição.

Perturbações externas, como, por exemplo, as condições ambientais, podem provocar erros, alterando diretamente o SM ou agindo sobre o mensurando, fazendo com que o comportamento

do

SM se afaste ainda mais do ideal. Variações de temperatura provocam dilatações nas escalas

de

um SM de comprimento, variações nas propriedades de componentes e circuitos elétricos, que

alteram o valor indicado por um SM. Vibrações ambientais, a existência de campos

eletromagnéticos, umidade do ar excessiva, diferentes pressões atmosféricas podem, em maior

ou

menor grau, afetar o SM, introduzindo erros nas indicações deste.

O

operador e a técnica de operação empregada podem também afetar a medição. O uso de força

de medição irregular ou excessiva, vícios de má utilização ou SM inadequados, podem levar a erros imprevisíveis. A forma, tamanho ou faixa de medição do SM pode não ser a mais indicada para aquela aplicação.

Em parte dos casos, o mensurando não possui valor único ou estável. Apenas um cilindro ideal

apresenta um valor único para o seu diâmetro. Não se consegue fabricar um cilindro real com a forma geométrica matematicamente perfeita. Características da máquina operatriz empregada, dos esforços de corte, do material ou ferramenta empregada afastam a forma geométrica obtida

da ideal. Mesmo que disponha de um SM perfeito, verifica-se que diferentes medições do diâmetro

em diferentes ângulos de uma mesma secção transversal ou ao longo de diferentes seções ao longo do eixo do cilindro levam a diferentes números. Estas variações são de interesse quando se deseja caracterizar as propriedades do cilindro e devem ser informadas no resultado da medição. A temperatura de uma sala é outro exemplo de um mensurando instável: varia ao longo do tempo e com a posição onde é medida. A massa de uma peça metálica é um exemplo de um mensurando estável, se forem desprezados aspectos relativísticos.

Na prática estes diferentes elementos que afetam a resposta de um SM aparecem superpostos. Ao se utilizar de um sistema de medição para determinar o resultado de uma medição é necessário conhecer e considerar a faixa provável dentro da qual se situam estes efeitos indesejáveis - sua incerteza - bem como levar em conta as variações do próprio mensurando. Portanto, o resultado de uma medição não deve ser composto de apenas um número e uma unidade, mas de uma faixa de valores e a unidade. Em qualquer ponto dentro desta faixa deve situar-se o valor verdadeiro associado ao mensurando.

1.3

Terminologia

Para que se possa expor de forma clara e eficiente os conceitos da metrologia, através do qual são determinados e tratados os erros de medição, é preciso empregar a terminologia técnica apropriada. A terminologia adotada neste texto está baseada na Portaria 029 de 10 de março de 1995 do INMETRO - Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial, que estabelece o “Vocabulário de Termos Fundamentais e Gerais em Metrologia”. Este documento é baseado no vocabulário internacional de metrologia elaborado por diversas entidades internacionais tais como BIPM, IEC, IFCC, ISO, IUPAC e IUPAP.