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Resumo e notas de

PLANTINGA, Alvin. Warranted belief in God. In: Warranted Christian Belief. New
York/Oxford: Oxford University Press, 2000. Pp. 167-198.

- A objeção de jure contra a crença cristã ou teísta é de que esta é irracional e


injustificada, devendo ser distinta da objeção de facto, pela qual a crença em Deus
é falsa.
- A objeção de jure acaba sendo vaga e muito geral, quando não é facilmente
respondida. Formulada de modo mais específico, temos a tese de que a crença em
Deus é irracional porque se origina de um mal funcionamento cognitivo (tal como
pode ser interpretada a crítica de Marx) ou de um funcionamento adequado, mas
que se destina a outro objetivo que não a verdade (a objeção de Freud).
- Como resposta a essa objeção, será oferecido aqui um modelo pelo qual a
crença teísta poderia ter garantia, um modelo baseado nas idéias de Tomás de
Aquino e João Calvino.
I. O Modelo Tomás/Calvino
- Entende-se o termo “modelo” no sentido de que “dar um modelo de uma
proposição ou estado de coisas S é mostrar como poderia ser que S fosse
verdadeiro ou atual” (p. 168).
- Modelo, assim, é uma proposição pela qual ele se mostre possível e, caso
seja verdadeira, também o será a proposição que se quer esclarecer.
- Quer-se apresentar como possível o modelo que se vai desenvolver acerca
da garantia da crença em Deus. Possível não apenas no sentido lógico, mas
também no sentido de ser consistente com o que sabemos.
- Além disso, pretende-se mostrar que não há nenhuma objeção que se dirija
especificamente ao modelo, mas que toda objeção a ele se refere também ao
teísmo.
- Se for assim, então não há uma objeção de jure ao teísmo que seja
independente de uma objeção de facto.
- Em terceiro lugar, pretende-se que o modelo não é apenas possível e para
além de objeção filosófica, mas também verdadeiro ou ao menos verossímil,
embora isso não possa ser cabalmente demonstrado, tal como a maior parte das
coisas nas quais acreditamos.
- Em quarto lugar, se a crença cristã clássica é realmente verdadeira, então
um modelo como o que se vai apresentar aqui será provavelmente verdadeiro
também.
- Tomás de Aquino e João Calvino, para Plantinga, concordam na alegação de
que existe um tipo de conhecimento natural de Deus.
- Para Calvino, trata-se de uma disposição, que ele chama de sensus
divinitatis, uma tendência natural humana, uma forma de instinto para formar
crenças acerca de Deus, dada uma variedade de condições em uma variedade de
situações.
- Essas situações e circunstâncias formam a ocasião na qual a crença em Deus
aparece. Assim, tal como acontece com vários tipos de crença (de memória e de
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percepção, por exemplo), vemo-nos tendo essa crença independentemente de


nossa vontade.
- Na interpretação de Plantinga, Calvino não está falando que a crença em
Deus é inata, mas a capacidade de ter essa crença, que só vai se manifestar após
certa maturidade do indivíduo.
- O sensus divinitatis seria, assim, um mecanismo de gerar resultados
cognitivos (outputs) a partir de certo tipo de alimentação (inputs).
- Haveria, segundo Plantinga, seis outras características do sensus divinitatis
em relação às crenças que gera.
- A primeira é que esse conhecimento natural de Deus se dá de uma forma
imediata e não decorrente de raciocínio ou inferência. Essa é uma crença que
acontece espontaneamente em nós, ocasionada por certas circunstâncias e
originadas pelo sensus divinitatis.
- Em outras palavras, as crenças geradas em nós pelo sensus divinitatis no
modelo aqui formado são básicas no sentido de serem aceitas não com base em
outras crenças.
- A segunda é que a crença em Deus não é apenas básica, mas propriamente
básica para quem a tem, não apenas no sentido de não aceitá-la com base em
outras crenças, mas no sentido de que ele está justificado em ter tal crença de
forma básica.
- Estar justificado em ter uma crença de forma básica é não incorrer em
qualquer violação de obrigações epistêmicas, é estar dentro de seus direitos
epistêmicos. Assim, o crente em Deus que, dentro de seus limites, responde aos
desafios colocados pela objeção evidencialista, a de Marx e de Freud, entre outras,
e continuar honestamente acreditando em Deus estaria justificado em sua crença
básica de que Deus existe.
- A terceira é que a crença em Deus conforme o modelo apresentado aqui
pode ser também propriamente básica com respeito à garantia.
- Segundo o modelo Tomás/Calvino, nossas faculdades cognitivas foram
criadas e projetadas por Deus para, dadas as condições corretas, produzir crenças
verdadeiras acerca de Deus que, se forem fortes o bastante, poderão, então, ser
consideradas conhecimento.
- A quarta característica é que o sensus divinitatis é parte de nossa dotação
epistêmica natural, ao contrário da instigação interna do Espírito Santo (a ser
apresentada por Plantinga mais adiante), que é uma resposta divina especial a
nossa condição pecaminosa não-natural.
- Uma quinta característica da crença teísta nesse modelo é que não se trata
de uma crença perceptual necessariamente. Certamente, a crença em Deus, tal
como gerada e ocasionada conforme postula o modelo, não deriva de uma
percepção sensorial.
- Por outro lado, mesmo a percepção não sensorial de Deus, a percepção de
sua presença, tal como fala William Alston, nem sempre acontece nas ocasiões em
que são geradas a crença em Deus com base no modelo proposto aqui.
- O que se tem é o que se pode chamar de “experiência doxástica”, ou seja, o
sentimento de que uma proposição é verdadeira ou falsa. Além disso, não interessa
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muito resolver o problema de se a crença teísta conforme o modelo é perceptual


ou não.
- A sexta e última característica da crença teísta em relação ao sensus
divinitatis é que a ação deste é comprometida, enfraquecida e reduzida pela
ocorrência do pecado e suas conseqüências.
- Assim, o conhecimento de Deus provido por essa disposição pode ser
diminuído ou mesmo inteiramente suprimido pelo comprometimento do bom
funcionamento dessa tendência em decorrência do pecado.
- Desse modo, para o modelo aqui proposto, ao contrário do que propõem
Marx e Freud, é o descrente que apresenta disfunção cognitiva e não o crente.
- Isso não quer dizer que o agnosticismo seja injustificado por essa razão, pois
não há nele infração de qualquer dever epistêmico, mas, segundo o modelo, ele é
irracional no sentido de não ser garantido. Curiosamente, na proposta de
Plantinga, a suspensão do juízo pode ser caracterizada em alguns casos como uma
irracionalidade séria.
II. A crença em Deus é básica em termos de garantia?
- Segundo Plantinga, se a crença teísta for falsa, mas for assumida de forma
básica, então ela não terá garantia. Isso porque nenhuma crença falsa pode ser
garantida no sentido de constituir conhecimento, mas principalmente porque não
haveria um sensus divinitatis projetado por Deus para produzir crenças verdadeiras
sobre Deus mesmo.
- Por outro lado, se a crença teísta for verdadeira, então é provável que ela
tenha garantia, segundo o modelo aqui proposto. Isso porque haveria uma pessoa
que nos criou à sua imagem, com capacidade para o conhecimento, que nos ama e
quer que a amemos e a conheçamos.
- Assim, tomada no sentido de garantida, a consideração da racionalidade da
crença em Deus dependerá dos posicionamentos adotados em relação a questões
metafísicas e religiosas como: “que tipo de seres são os humanos? Que tipo de
crenças eles têm quando suas faculdades funcionam adequadamente?”, entre
outras.
- Desse modo, a questão da racionalidade da crença em Deus é no fundo não
apenas um problema epistemológico, mas também uma disputa ontológica ou
teológica.
- Em conseqüência, a questão de se a crença teísta tem garantia ou não
depende da questão de se essa crença é verdadeira. Nesse caso, a ateologia não
poderá mais falar da irracionalidade da crença em Deus sem apresentar
argumentos para pensar que esta é falsa.
- É importante perceber que, embora a origem de uma crença não seja
relevante para sua verdade (isso seria cometer a falácia genética), ela é relevante
para sua garantia, para confiar que essa crença é verdadeira e justificada não por
acaso.
- Em todo caso, para Plantinga, não há porque aceitar a acusação freudiana
de que a crença em Deus não tem garantia porque decorre de auto-engano. Em
primeiro lugar, porque ela contém componentes nada agradáveis para o crente.
Em segundo lugar, porque não há fortes argumentos em favor da tese freudiana,
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mas apenas uma afirmação que, por vezes, escapa elegantemente qualquer tipo de
falseamento empírico, sem contar o fato de que ela é pouco precisa em sua
formulação.
- O que temos em Freud é a tomada por certo de que Deus não existe e de
que a crença teísta é falsa, sem que qualquer argumento ou indício seja
apresentado em favor dessa tese. É daí que decorre sua tese de que essa crença é
irracional.