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Pindorama

Memória do
Descobrimento do Brasil
no Discurso da Poesia
Brasileira
Jayro Luna

2000. (Ensaio e Crítica) 1. . Literatura Brasileira. 1960 – Pindorama: Memória do Descobrimento do Brasil no Discurso da Poesia Brasileira / Jairo Nogueira Luna.95 Poética: 801 Copyright. I. Criação e arte: Wilson Babaçu. – São Paulo: Signos. de Vítor Meireles.809 808 801. Poética. Signos.Signos. Título CDD: . Teoria da Literatura. 2000 LUNA. todos os direitos reservados © Jayro Luna Direitos de publicação reservados.95 809 Índice de Catálogo Remissivo: Literatura – História e Crítica: 809 Literatura Comparada: 808 Teoria da Literatura: 801. Capa: Primeira Missa. Literatura – História e Crítica 2. 3. Jayro. 4.

4 2. O tema do descobrimento na Poesia Colonial. Bibliografia. O Descobrimento no Romantismo. 14 5. A revisão modernista do paradigma histórico. . 10 4. 52. Antologia.Sumário 1. 21 6. Pedro Álvares e o Heroísmo Épico. 7 3.

.Ilustração 1: Cabral avista a costa brasileira. José Malhoa O TEMA DO DESCOBRIMENTO NA POESIA BRASILEIRA 1. Pedro Álvares e o heroísmo épico.

ao passo que a descoberta de Cabral. Embora tenha sido o comandante de uma das maiores frotas que Portugal colocou ao mar em busca das riquezas da ousada rota comercial para as Índias. que o personagem tivesse pouco da figura de herói e mais se aproximasse da imagem de um nobre em busca de notoriedade e projeção na corte ou que tenha sido um chefe burocrata a liderar uma grande frota. ainda de quebra. resultado de um erro de rota. talvez. que com apenas três caravelas conquistou a rota para a Índia e uniu dois mundos. o fato é que a literatura .Talvez um dos acontecimentos da época das grandes navegações que mais tenha sido desvalorizado pela literatura seja a viagem de Cabral. O seu descobrimento está rodeado das mais diversas interpretações históricas. Porém. tenha sido ele também o descobridor de terras continentais. prova da ineficiência da capacidade do navegante. mas cujo comando efetivo tivesse a cargo de hábeis navegantes como Bartolomeu Dias. tendo se indisposto com o rei. fato este envolto em mistério e polêmica – Pedro Álvares Cabral ainda em vida conheceu o esquecimento. Diogo Dias e Nicolau Coelho. rodeando o continente africano e. Que a literatura portuguesa tenha menosprezado o feito do navegante português em questão é compreensível – por considerar. desde a teoria que diz tratar-se de uma missão secreta e bem planejada até o dito de que o descobrimento do Brasil foi um acontecimento casual. acabou preterido no comando de uma nova missão. teve que esperar pelo menos dois séculos para que tivesse uma importância mais destacada (quando descobre-se ouro no Brasil) para Portugal. Dois séculos depois é tempo mais que suficiente para que o navegante caísse no olvido ocultando de vez suas prováveis virtudes. ou ainda. passando seus últimos anos afastado das navegações. por considerar que o principal feito foi o de Vasco da Gama. seja casual ou proposital. vivendo pacatamente em sua casa longe da corte de Lisboa.

reforçando a imagem de ser o rei . Santa Rita Durão reservou 16 estrofes para versificar a descoberta de Cabral e sua viagem às Índias. Não temos notícia de outra obra que tratasse do assunto com tal espaço. por sua vez. No levantamento que fizemos de obras poéticas que mencionam. O Tema do Descobrimento na Poesia Colonial. como se fosse uma forma de reavaliar o conceito de brasilidade e de origem.brasileira. destacando-se o Modernismo da primeira fase como o momento em que mais se ateve ao acontecimento do descobrimento. o fato histórico do descobrimento. mas que no geral. inicia uma nova era no império português. o tema foi considerado um tema menor. em especial a poesia. No Caramuru. que ao descobrir o Brasil. pouco a pouco. tanto para demonstrar a relação entre a coroa portuguesa com a igreja. 2. por acaso (“O ilustre Cabral com fausto acaso”). ainda que marginalmente. Durão nos apresenta um navegador hábil e chefe virtuoso. Durão. Cabral estaria assim desempenhando no imaginário modernista papel semelhante ao do domônio que por meio da serpente ocasiona o fim de um tempo mitológico para a entrada num mundo histórico em que a realidade é problemática e o Brasil surge e toma. pouco também têm prestado atenção a Cabral. mas sempre colocando o feito do navegante como o instante da queda de um paraíso edênico. destacando-se o episódio do Caramuru do Frei Santa Rita Durão. consciência de que despertou de um sonho para entrar na realidade espaçotemporal em que liberdade e felicidade são conceitos relativos e ambíguos. pudemos perceber que a percepção deste fato ocorreu de forma diversa nas diferentes escolas literárias. O tema do descobrimento do Brasil durante o período colonial foi pouco explorado pelos poetas.

que já estava lá. E. O que aos mais viu fazer. Tudo posto a observar. depois que às turbas eloqüente / Dita o sacro orador pelo conceito. logo arremeda. Que nem um pé. sem o conhecimento da fé cristã e dos dogmas religiosos são efetivamente dotados de alma? Se não o são justifica-se o poder comparar suas ações aos dos macacos. / Participa da ceia a cristã gente.” (Est. uma das imagens preferidas do autor em todo o poema. Durão nos expõe um complexo sistema de comparações de modo a revelar-nos a dúvida que ainda envolvia o europeu acerca do caráter dos selvícolas sulamericanos: Os índios.português um representante na terra do “rei dos céus” – aliás. quanto para mostrar como os gestos dos índios indicavam uma propensão tomada por natural e divina do índio em reconhecer e receber os símbolos e sinais ritualísticos religiosos cristãos. como à porfia. / E o dom recebem com fiel respeito”). só que adormecida (ESt. Tal o gentio simples parecia. / E a fé dispensa no ânimo valente / Do nobre povo a propagá-lo eleito. . Por outro lado. em estado selvagem.LV: “Aqui. que o mato hospeda E quanto vê fazer.LIV) Nesta estrofe. ao arremedarem por instinto o gesto dos portugueses no ritual da missa cristã acabam sendo tocados por uma espécie de iluminação da alma e passam do estado selvagem para o estado da civilização cristã e nesta passagem deixam o instinto animalesco e se tornam-se portadores duma alma. fazia-o tudo. nem passo d’ali arreda. ao santo sacrifício atento e mudo. É significativa a estrofe em que os índios imitam os gestos dos portugueses na missa de modo semelhante aos que os macacos imitam os gesto humanos: “Como as nossas ações talvez espia O peloso animal.

que ao descobrir o “Novo Mundo” descobre. Nos demais autores do arcadismo não existe referência ao descobrimento do Brasil feito por Cabral. Agripino Grieco. como era de se esperar de um autor barroquizado. Segundo Durão isto se deveu principalmente aos primeiros colonos e marinheiros que aqui aportaram em busca do pau-brasil. no geral. Cabral.” Na estrofe final deste episódio. se faz referência a Colombo. e o navegante fala-nos por três estrofes. que a terra vasta / Vais livrar do paganismo imundo. prestou-se sobremaneira. Massaud Moisés entre outros) – este episódio do descobrimento do Brasil tem o mérito de ser o primeiro na poesia brasileira e o tema é tratado com a visão de um homem dividido entre o mundo barroco que terminava. na verdade seria a terra de uma grande nação: “Gloriosa nação. personagem que passou pela história deixando de sua vida vários momentos obscuros. o Brasil. mas com o qual se identificava de todo e os tempos de um arcadismo menos teocêntrico. assim dando à terra o nome de um bem material que muito prezavam em lugar de manter-lhe o nome religioso que assinalava o batismo da terra feito por Cabral. Durão buscava na versificação da narrativa épica ao modo camoniano demonstrar que a grandeza dos heróis só teria sentido se associada à religiosidade. sentimento este que . Durão ainda apresentanos uma interpretação para a mudança de nome da terra descoberta de ilha de Vera Cruz e depois terra de Santa cruz para Brasil. Não nos parece que a causa possa ser atribuída a algum sentimento lusófobo. num tom quase profético. a desempenhar o papel de navegador de caráter messiânico. ao dizer que aquela terra que então julgavam uma ilha. quando é preciso mencionar o fato do descobrimento. neste episódio do Caramuru.Durão ainda confere a Cabral o dom da palavra. por metonímia. Em que se pese os erros e a qualidade poética duvidosa do poema de Durão – é alvo de duras críticas (José Veríssimo.

Fato este que. Basta lembrar que “A Carta” de Pero Vaz Caminha. principalmente sobre os dados históricos levantados por Sebastião da Rocha Pita e por alguns outros textos da Academia Brasílica dos Esquecidos1. só foi redescoberta em 1773. . inclusive mesmo sobre o lugar e até sobre a data do acontecimento. A segunda causa é que a figura de Cabral não parecia encarnar os quesitos necessários ao feito heróico. pelo guarda-mor do arquivo da Torre do Tombo e só foi publicada em 1817. 3. teve poucos poetas que ousaram versos acerca do episódio do 1 Sobre os dados levantados por Santa Rita Durão para a composição do seu poema indico a leitura de PEREIRA. Fac. a de que os dados históricos a respeito do descobrimento de Cabral ainda se achavam um pouco enevoados. Carlos de Assis. SP. tanto o descobrimento do Brasil quanto a figura de seu descobridor não faziam parte do imaginário poético até o final do século XVIII e início do século XIX. tanto conseqüência do desconhecimento que se tinha de vários aspectos da viagem de Cabral. quanto pelo fato de Cabral ter caído em desgraça ao retorno da viagem. burocrata e acomodado. brigando com a corte portuguesa. Dessa forma.marcará boa parte do Romantismo no século XIX. muito disso tem sua razão de ser. por duas outras causas: Uma. De Filosofia Ciências e Letras de Assis.1971. detalhes referentes aos dias em que os portugueses ficaram no Brasil. levou ao olvido e que desencorajava os narradores e cronistas da época a recuperar a figura do navegante. O Tema do Descobrimento na Poesia do Romantismo O Romantismo brasileiro respirando os ares de uma jovem nação independente. ao que parece. sem dúvida. única monarquia do continente. mas. por exemplo. tímido. Fontes do Caramuru de Santa Rita Durão. tido então como inábil. o episódio do descobrimento no Caramuru de Santa Rita Durão só vem confirmar como a obra foi produzida sobre muita pesquisa.

fugiu ao controle de seu criador e tornou-se uma obra com episódios que não se concatenam de modo harmonioso ao tema central. Não é à toa que Manuel de Araújo Porto Alegre escreveu o poema épico O Colombo.000 versos! Espécie de poema que bebendo que das águas de uma desenfreada imaginação. No geral. os poetas românticos adotaram uma postura semelhante aos antecessores árcades citando Colombo como o descobridor da América e. . imenso poema de 40 cantos e mais de 40. era o navegante genovês tomado como o descobridor de toda a América. por conseguinte.descobrimento do Brasil.