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Uma refutação ao espiritismo

Maio 15, 2010 Posted by Gustavo Reichenbach in : Debates religiosos , trackback

O

http://www.evanessencias.com/?s=espiritismo , e não expressa necessariamente a nossa

retirado do site

texto

a

seguir

é

de

autoria

de

Caio

Rossi,

e

opinião.

Introdução

Neste feriado estreou nos cinemas uma produção da Globo Filmes, “Chico Xavier”, longa-

metragem sobre a vida do famoso médium brasileiro. Na próxima semana estréia na Rede

Globo a nova novela das seis, “Escrito nas Estrelas”, de temática também espírita. A mesma

rede de televisão exibiu até recentemente a reprise de “Alma Gêmea”, novela de igual

temática. As Organizações Globo parecem estar mais empenhadas em nos converter ao

Espiritismo do que o “25ª Hora” em nos arrancar doações para a IURD.

E os esforços vêm de multinacionais também. A Fox Filmes do Brasil está co-produzindo a

versão cinematográfica de “Nosso Lar”, “clássico” de Chico Xavier atribuído ao espírito

André Luís, que estréia em setembro deste ano. O trailer impressiona (para assisti-lo, visitem

o site oficial , cliquem em “Vídeos” e então escolham o Teaser-Trailer 1). Nunca vi efeitos

visuais tão bem cuidados no cinema nacional (não surpreendentemente, produzidos por uma

empresa canadense).

2010 promete ser um longo e interminável Dia de los Muertos aqui no Brasil, pois haverá o

lançamento, segundo a Folha de São Paulo, de 6 filmes de cunho espírita. Dadas as

alternativas de aquém túmulo, se Juscelino Kubistchek vencer as eleições presidenciais e

passarmos a ser governados através da médium arroz-de-festa Márcia Fernandes, até que a

idéia não será muito ruim. Mas antes que a Terra de Santa Cruz vire a Terra da Mesa Branca,

ofereço aos leitores deste blog algumas informações e reflexões sobre o Espiritismo que vocês

provavelmente não encontrarão em outro lugar.

Espiritismo e espiritualismo: tomando a parte pelo todo.

Pouquíssimos “espíritas” ou aqueles que se dizem simpatizantes do “Espiritismo” sabem

exatamente a que estão se referindo. A confusão está tão arraigada que só concebo explicá-la

lançando mão de uma comparação com a ufologia: no final da década de 40 iniciou-se o

período chamado de ufologia moderna. A partir de então, diversos fenômenos no céu e na

terra passaram a ser creditados à ação de inteligências extraterrestres. Apesar de vários

indivíduos ou grupos, no que se convencionou chamar de “ufologia esotérica”, afirmarem ter

uma explicação mais profunda para esses fenômenos, sua relação com a criação e o sentido da

vida, etc., nenhum deles veio com uma “doutrina ufológica” que fosse aceita por todos os

envolvidos e se confundisse com os fenômenos relacionados. Ninguém que tenha avistado

fenômenos atmosféricos anômalos ou padrões que se formam misteriosamente em plantações por todo o mundo e que acredite em sua origem extraterrestre se sente inescapavelmente compelido a aceitar as mensagens de Ashtar Sheran ou as pregações do (todavia impressionante) Prophet Yahweh.

No Brasil, no entanto, quando uma pessoa admite que a origem de certos fenômenos paranormais é os espíritos dos mortos, ela tende a dizer, como se fosse a mesma coisa, que “acredita no Espiritismo”. A impropriedade de tamanho salto pode ser explicada com a leitura atenta de qualquer obra básica sobre o assunto. Esses fenômenos – que passarei a chamar de “mediúnicos”, mas sem com isso tomá-los pelo que o termo sugere – se iniciaram no século XIX, em Hydesville, uma pequena cidade americana, através das irmãs Fox, e se expandiram posteriormente, aportando na Inglaterra e então chegando à Europa continental.

Assim como os fenômenos ufológicos, eles não carregavam consigo uma “doutrina”. Eram somente fenômenos. Os supostos espíritos comunicantes divergiam em suas “mensagens”, e é por isso que os espíritas dizem – mesmo que já não o saibam mais – que Allan Kardec foi o “codificador” da “doutrina espírita”, que ele atribuiu a espíritos, mas não a todos os espíritos.

Uma das melhores fontes para entender esse período é o livro “A História do Espiritismo” – tradução inapropriada do título, como se verá abaixo -, escrito por Arthur Conan Doyle, o famoso criador de “Sherlock Holmes”. Os volumes I e II do original em inglês podem ser lidos online, e um resumo da obra em português também pode ser baixado gratuitamente. Reproduzirei alguns trechos do resumo do capítulo 21, que tive o cuidado de comparar ao original para me certificar de que o conteúdo não havia sido alterado:

O Espiritismo na França e nas raças latinas concentra-se em torno de Allan Kardec, que prefere o termo Espiritismo, e sua feição predominante é a crença na reencarnação.

… Em 1850, quando as manifestações espíritas americanas chamavam a atenção da Europa, Allan Kardec investigou o assunto através da mediunidade de duas filhas de um amigo.

Nas comunicações obtidas foi informado de que “Espíritos de uma categoria muito mais elevada do que os que habitualmente se comunicavam através dos dois jovens médiuns, tinham vindo especialmente para ele, e queriam continuar a vir, a fim de lhe permitir desempenhar uma importante missão religiosa…

Kardec achava que os vocábulos espiritual e espiritualista, como espiritualismo já possuíam uma significação definida. Assim os substituiu por espiritismo e espírita ou espiritista”.

O título original do livro de Doyle é “History of Spiritualism”, não “History of Spiritism”, como sugere a tradução brasileira. “Espiritismo”, relembro o leitor, é um termo cunhado – em francês, obviamente – por Kardec para se referir à doutrina que ele havia desenvolvido com base nos fenômenos mediúnicos. Essa escolha da editora brasileira confunde o leitor, pois em

trechos como o reproduzido acima, que explica a diferença terminológica, usam-se os vocábulos “Espiritismo” (“O Espiritismo na França…”) e “espírita” (“as manifestações espíritas americanas”) onde, no original, constam “Spiritualism” e “spirit”, respectivamente .

O mesmo ocorre quanto à crença na reencarnação, parte integrante do Espiritismo de Kardec:

esse não era um ensinamento universal, de todos os “espíritos” que estariam se comunicando, como explica Conan Doyle:

“A filosofia espírita se distingue por sua crença em nosso progresso espiritual, que é realizado através de uma série de reencarnações…”

“Se distingue”, conforme se lê no trecho acima, refere-se à distinção entre o reencarnacionismo da “filosofia espírita” e a crença dos espiritualistas em geral. Doyle prossegue (alterei abaixo o termo “Espiritismo” por “Espiritualismo”, e fiz o mesmo com seus derivados, quando apropriado, conforme explicação acima e como pode ser verificado no original):

Os espiritualistas ingleses não chegaram a uma conclusão no que se refere à reencarnação.

Alguns a aceitam, outros não. A atitude geral é que, como a doutrina não pode ser provada, o melhor seria excluí-la da política ativa do Espiritualismo. Explanando essa atitude, Miss Anna Blackwell sugere que, sendo a mente continental mais receptiva de teorias, aceitou Allan Kardec, enquanto a mente inglesa, geralmente declina de considerar qualquer teoria enquanto não se tiver certificado dos fatos admitidos por tal.

Mr. Thomas Brevior (Shorter) um dos redatores de The Spiritual Magazine, resume o ponto de vista prevalecente dos espiritualistas ingleses de hoje. Escreve ele:

“Quando a Reencarnação assumir um aspecto mais científico, quando puder oferecer um demonstrável conjunto de fatos que admitam verificação como os do Moderno Espiritualismo, merecerá ampla e cuidadosa discussão. Por enquanto, que os arquitetos da especulação se divirtam como quiserem, construindo castelos no ar. A vida é muito curta e há muito que fazer neste mundo atarefado, para que deixemos os vagares e as inclinações a fim de nos ocuparmos em demolir essas estruturas aéreas ou apontar os frágeis alicerces em que se assentam. É muito melhor trabalhar naqueles pontos em que concordamos, do que nos engalfinharmos sobre aqueles em que parece que divergimos tão desesperadamente.”

William Howitt, um dos pioneiros do Espiritualismo na Inglaterra, é ainda mais enfático em sua condenação à reencarnação. Depois de citar Emma Harding Britten, na sua observação de que milhares do Outro Mundo protestam, através de distintos médiuns, que não têm conhecimento nem provas da reencarnação, diz:

A coisa abala as raízes de toda a fé nas revelações do Espiritualismo. Se formos levados a duvidar das comunicações dos espíritos sob o mais sério aspecto, sob as mais sérias afirmações, onde está o Espiritualismo?

“… Se a reencarnação for uma verdade, lamentável e repelente como é, deve ter havido milhões de Espíritos que, ao entrarem no outro mundo, em vão terão procurado os seus parentes, os filhos, os amigos… Já teria chegado a nós esse sussurro de milhares, de dezenas de milhares de Espíritos comunicantes? Nunca. Podemos, portanto, só nesse campo, considerar falso o dogma da reencarnação como o inferno do qual ele brotou”.

Mr. Howitt, entretanto, em sua veemência, esquece que deve haver um limite antes que se realize a nova reencarnação, e que, também, no ato deve haver um elemento da vontade.

O Hon. Alexander Aksakof, num artigo muito interessante dá os nomes dos médiuns do grupo de Allan Kardec, com uma descrição deles. E também indica que a idéia da reencarnação era fortemente aprovada na França naquele tempo, como se pode ver do trabalho de M. Pezzani – “A Pluralidade das Existências”, bem como de outros. Escreve Aksakof:

É claro que a propagação desta doutrina por Kardec foi matéria de forte predileção.

“De início a reencarnação não foi apresentada como objeto de estudo, mas como um dogma. Para o sustentar, recorreu com freqüência a escritos de médiuns, que, como bem sabemos, facilmente se submetem à influência de idéias preconcebidas. E o Espiritismo as produziu em profusão. Enquanto que através de médiuns de efeitos físicos não só as comunicações são mais objetivas, mas sempre contrárias à doutrina da reencarnação. Kardec seguiu o rumo de sempre desprezar esse tipo de mediunidade, tomando como pretexto a sua inferioridade moral. Assim, o método experimental é, de modo geral, desconhecido no Espiritismo.

“Durante vinte anos ele não fez o menor progresso intrínseco e ficou em completa ignorância do Espiritualismo anglo-americano. Os poucos médiuns franceses de fenômenos físicos que desenvolveram seus dons a despeito de Kardec, jamais foram mencionados na “Revue”; ficaram quase que desconhecidos dos Espíritas e apenas porque os seus guias não sustentavam a doutrina da reencarnação.”

Acrescenta Aksakof que as suas observações não afetam a questão da reencarnação no abstrato, mas apenas no que respeita à sua propagação sob os auspícios do Espiritismo.

Comentando o artigo de Aksakof, D. D. Home deu um impulso a uma fase da crença na reencarnação. Diz ele.

“Encontro muita gente que é reencarnacionista e tive o prazer de encontrar pelo menos doze que tinham sido Maria Antonieta, seis ou sete que tinham sido Mary, Rainha da Escócia; um

bando, de Luiz e outros reis; cerca de vinte Alexandre, o Grande. Mas ainda não encontrei ninguém que tivesse sido um simples John Smith. E vos peço que, se o encontrardes, guardai- o como uma Curiosidade”

O caráter local do “Espiritismo” fica ainda mais evidenciado quando lemos o que Conan Doyle escreveu sobre o colorido alemão do movimento espiritualista:

…Algumas páginas especiais, entretanto, devem ser dedicadas à Alemanha.

Posto que moroso até seguir um movimento organizado, pois só em 1865 é que apareceu um jornal espiritualista – Psyche – e se estabeleceu no país, mais do que em qualquer outra parte, teve aí o Espiritualismo uma tradição de especulação mística e de experiência mágica, que deveria ser considerada uma preparação para a revelação definitiva. Paracelsus, Cornelius Agripsa, van Helmont e Jacob Boehme se acham entre os pioneiros do Espiritualismo, sentindo o seu caminho fora da matéria, embora vago o objetivo, que tivessem atingido. Algo mais definitivo foi alcançado por Mesmer, que realizou seu maior trabalho em Viena, no último quartel do século dezoito. Conquanto enganado quanto a algumas de suas inferências, foi ele quem deu o primeiro impulso para a dissociação entre alma e corpo, antes do atual modo de sentir da humanidade…

Enquanto na França de Kardec o “Espiritualismo” assimilou o racionalismo francês, na Alemanha foi a tradição teosófica filtrada pelo idealismo que parece ter, segundo Conan Doyle, exercido maior influência.

René Guénon, em “O Teosofismo – história de uma pseudo-religião” e “O Erro Espírita”, afirma que a idéia da reencarnação foi defendida por Gothhold Ephraim Lessing na Alemanha na segunda metade do século XVIII, e posteriormente pelos socialistas utópicos franceses Charles Fourier e Pierre Leroux, talvez, segundo Guénon, pela influência do alemão. Enquanto essa idéia circulava nos meios intelectuais alemães e franceses, Allan Kardec, por sua vez, circulava entre os socialistas utópicos da França, como se confirma no site espírita Pense (Pensamento Social Espírita):

Ao que parece, [Kardec] manteve relações com os socialistas (depois chamados de utópicos por Marx e Engels), pois em sua fase espírita, os cita constantemente, entre eles, Fourier, e Saint-Simon. (Robert Owen, por sua vez, recebeu influência de Pestalozzi, pois o visitou em Iverdon e mais tarde tornou-se adepto do Espiritismo). O pesquisador francês François Gaudin descobriu recentemente documentos ainda inéditos, revelando a parceria de Kardec com o amigo Maurice Lachâtre, conhecido socialista de tendência anarquista e editor das obras de Marx, em fascículos populares. Ambos tiveram um projeto economicamente fracassado da fundação de um banco popular, possivelmente nos moldes do que queriam os socialistas pré-marxianos e os anarquistas, como Proudhon”.

No mundo anglo-saxão, evidenciando outra influência cultural no desenvolvimento local do “Spiritualism”, ele tomou uma forma também diferente da francesa, estabelecendo-se não em torno de “centros”, mas de igrejas (isso tanto na Inglaterra como nos EUA). René Guénon, por sua vez, afirma que o reencarnacionismo só foi amplamente introduzido nos Estados Unidos posteriormente, por influência da Sociedade Teosófica de Mme. Blavatsky, que assimilara a idéia do meio espírita na Europa continental.

A conseqüência lógica do que foi dito até agora é que os fenômenos ditos “mediúnicos”,

mesmo para quem acredita que tenham origem em espíritos dos mortos, não deveriam significar necessariamente a adesão à “doutrina espírita” de Allan Kardec.

Os diferentes espiritismos

Além das diferentes tendências do Espiritualismo, há ainda as diversas subdivisões dentro do Espiritismo e as que surgiram a partir dele. A grande maioria dos espíritas ignora que, até o aparecimento de Chico Xavier, o meio espírita brasileiro tinha contornos muito menos “devocionais”, como é regra na maioria, senão em todos os países em que o Espiritismo de Kardec se expandiu, com exceção do nosso. No restante da América Latina, por exemplo, assim como em Portugal, predominou uma versão racionalista, socializante e laicizante – que talvez explique sua baixa popularidade nesses locais. Em geral, fora do Brasil seus raros adeptos são humanistas, e vêem como distorção “católica” ou “igrejeira” a predominância do “Evangelho segundo o Espiritismo” em nosso país em detrimento do “racionalista” “Livro dos Espíritos”.

A antropóloga Ana Jacqueline Stoll, em entrevista ao Jornal do Brasil em 2004, quando do

lançamento de seu livro “Espiritismo à brasileira”, pela Edusp, abordou esse ponto:

“Sandra identificou novas linhas de força da religião espírita, desde o início dividida entre uma corrente cientificista, predominante na Europa, e outra que privilegia o aspecto moral, hegemônica no Brasil…”

“- No livro, você compara a doutrina espírita francesa, fundada por Allan Kardec, com a brasileira. Elas acabaram se tornando religiões diferentes? Ou as diferenças são, basicamente, resultantes de comportamentos culturais distintos?

- A doutrina de Allan Kardec teve uma larga difusão na França, assim como no Brasil, no século 19. Nestes dois países, porém, as características assumidas pela doutrina não foram as mesmas. Na França, a produção das obras de Allan Kardec tinha como tema central a teoria da evolução. Essa era a tônica dos debates científicos e religiosos na Europa na época. Já no Brasil, apenas em círculos sociais restritos esse debate encontrou ressonância. Em contrapartida, o aspecto moral da doutrina espírita foi rapidamente assimilado, por seu

estreito comprometimento com o ideário cristão. O que demonstro no livro é que esse ideário foi aqui reinterpretado, criando-se um ”estilo católico de ser espírita”. O médium Chico Xavier é o paradigma dessa construção. Sua imagem pública foi construída com base na noção católica de santidade. Isso se expressa no estilo de vida por ele adotado, marcado pela incorporação gradativa dos votos monásticos católicos: obediência, castidade,

renúncia aos bens materiais. Traduzidas como ‘’sacrifício de si”, essas práticas, juntamente

à caridade, também assimilada do universo católico, conferem ao espiritismo uma marca arraigadamente católica, cultura religiosa dominante no país…

- Quais seriam as principais tendências do espiritismo brasileiro hoje?

- O espiritismo de ”viés católico”, consolidado em torno da imagem pública de Chico Xavier, ainda é hegemônico no Brasil, mas no interior deste vêm sendo gestadas novas tendências. Hoje temos duas correntes dominantes: uma, a exemplo da orientação de Kardec, vem buscando a inovação da doutrina por meio da atualização de seus conceitos científicos; a outra busca no campo religioso sua atualização, incorporando idéias e práticas de sistemas filosóficos/doutrinários diversos, precariamente reunidos em torno do rótulo de Nova Era e com grande ênfase na auto-ajuda. A Nova Era e as novas idéias científicas relativas às origens e evolução do universo tornaram-se as suas principais fontes contemporâneas de inspiração…

Essa diferença relatada pela antropóloga fica clara ao se constatar o contraste entre o sentimentalismo piegas típico do meio espírita brasileiro em geral e a “frieza” dos sites da portuguesa Adep, da Cepa (Confederação Espírita Pan-Americana), ou do já citado Pense (Pensamento Social Espírita), cuja página de abertura exibe essa citação “socialista” de Kardec:

A aspiração por uma ordem superior de coisas é indício da possibilidade de atingi-la. Cabe

aos homens progressistas ativar esse movimento pelo estudo e aplicação dos meios mais

eficazes.”

No Brasil, devido à figura emblemática de Chico Xavier, que se impôs como autoridade moral no meio, acabou por se formar um certo consenso em torno de seu nome e de suas obras, e até mesmo representantes nacionais dessa vertente “socialista” e “racionalista” buscam confirmar suas posições nas obras desse médium.

O que não parecem saber, e não sei se o novo filme aborda a questão – e realmente me

surpreenderia se o fizesse -, é que a primeira reação contra seus livros veio de dentro do próprio meio espírita. O que mais dificultou a aceitação de suas obras entre os espíritas no passado foram as descrições do “mundo espiritual” como algo muito próximo do que temos

na Terra, fugindo muito do que estava explícito ou implícito nos livros de Allan Kardec. É

esse “mundo espiritual super-materializado” que verão no filme “Nosso Lar” (curiosidade:

esse seria o nome de uma colônia dentro do “Umbral”, termo que o médium introduziu para se referir a um tipo de “inferno” espírita. Teria sido fundada por descendentes dos primeiros portugueses em uma região do Umbral que ocuparia alguma parte do céu do Rio de Janeiro. Eram espíritos de “cristãos novos” degredados para o Novo Mundo. Por isso, essa colônia teria o formato da Estrela de David. O filme chega ao requinte detalhista de reproduzir isso, como pode ser visto no trailer recomendado na Parte 1, na altura dos 2 minutos e 26 segundos, no canto inferior esquerdo).

Herculano Pires, pensador espírita altamente respeitado por Chico Xavier – que o considerava “o homem que melhor compreendeu Kardec” -, sendo que chegaram a escrever um livro em parceria, preferia manter-se mais fiel à visão anterior, herdada de Allan Kardec, e criticar os que chamou de “chiquistas”. De seu “Chico Xavier: o homem, o médium e o mito”, texto de 1975 que infelizmente não encontrei online:

“…Tomam por realidades espirituais as alegorias e analogias das obras de André Luiz, esquecidos do exemplo citado pelo próprio Emmanuel, num de seus prefácios para essa obra, do macaco que voltasse da cidade para o mato e quisesse explicar aos companheiros como vivem os homens: em florestas de cimento, com pelos postiços que os homens podem vestir e desvestir e assim por diante”.

Mesmo há mais de 3 décadas esse aviso de Herculano Pires veio tarde demais, pois tais descrições já haviam sido incorporadas pelo imaginário espírita local, e foram aparecendo também nas “comunicações” recebidas pelos médiuns que liam suas obras. Depois da versão cinematográfica de “Nosso Lar”, Herculano Pires será voz mais vencida do que já é (se é que tal coisa é possível).

Do mesmo texto:

“Chico Xavier é ainda… o caipirinha mineiro de Pedro Leopoldo. Não é sábio nem santo. É um homem comum, dotado de faculdades mediúnicas excepcionais…”

Sobre a descrição detalhada de vida inteligente em outros planetas do nosso sistema solar, como Vênus e Marte, no livro “Cartas de uma Morta”, que Chico Xavier atribuiu ao espírito de sua mãe, e que sabemos hoje ser completamente contrariada pelos fatos, Herculano Pires diz o seguinte:

“A responsabilidade do médium é ressalvada pela sua atitude humilde, mas às vezes o próprio médium, assediado pelo fanatismo dos chiquistas e não querendo contrariá-los, chega a tentar a justificativa de certos enganos, como o fez na televisão sobre o caso de Marte, considerando-o mundo superior de antimatéria…”

Até meados dos século XX ainda era possível dar o benefício da dúvida a quem escrevesse sobre canais na Lua ou cidades em Saturno. O “caipirinha mineiro” não contava com a

possibilidade de que o advento dos foguetes do nazista fundador da Nasa, Wernher Von

Braun , que abriu a era dos vôos espaciais, sondas e telescópios orbitando a Terra, destruísse a fantasia que atribuiu, conscientemente ou não, ao fantasma de sua mãe. Sua mãe não estaria errada, segundo ele: é que as cidades e seres que descreveu em Marte seriam de antimatéria!

O que impediria essa antimatéria de reagir com o restante da matéria do planeta e fazer

desaparecer todo o Sistema Solar são detalhes técnico enfadonhos dos quais o médium, o homem e o mito preferiu nos poupar por pura caridade.

Mais falhas são encontradas em outras obras que diz ter psicografado. O site Criticando Kardec, de um espírita que se dispôs a encarar publicamente esses problemas, compila uma série do que ele prefere chamar de “possíveis” erros nas obras de Chico Xavier e Divaldo P. Franco (médium de que tratarei abaixo).

Uma outra “tendência” dentro do Espiritismo brasileiro, e que também apostou na descrição

da vida em outros planetas de nosso sistema solar, é composta pelos seguidores de Ramatís,

“guia espiritual” de inclinação “universalista”, que, por uma grande coincidência, escrevia através de Hercílio Maes, médium que, “antes de se tornar ‘espírita’, foi teosofista, maçon e rosacruz”. Seus livros, por se distanciarem demais do que era convencional no meio espírita, e por não terem sido escritos “através” de um médium carismático como Chico Xavier, foram renegados pelos “formadores de opinião” do movimento . Eles não atinaram para o fato de que o próprio Chico, no entanto, não era contrário às obras de Ramatís. E posso dar meu testemunho pessoal quanto a isso, já que certa vez conversei com um dos irmãos de Chico, então dono de uma livraria espírita no centro de São Paulo que vendia os livros de Ramatís. Ele me assegurou que seu irmão foi sempre um leitor assíduo dos livros de Hercílio Maes. Curiosamente, aliás, o nome desse irmão é André Luis, em homenagem a quem o espírito autor de “Nosso Lar” teria adotado o pseudônimo. A propósito, sua verdadeira identidade é atribuída ao espírito de Oswaldo Cruz – segundo fontes ligadas a Chico Xavier – e a Carlos Chagas – segundo Waldo Vieira, médium cujos talentos foram reconhecidos por Chico, com quem até “co-psicografou” “Evolução em Dois Mundos”, obra mais “técnica” da série “Nosso Lar” (em que, em outra fenomenal coincidência, os capítulos com terminologia mais científica foram psicografados por Waldo, que é médico).

Conforme avançamos nos anos 90, o país foi se abrindo para o mundo e a literatura de auto- ajuda americana sendo traduzida e publicada por aqui. Médiuns espíritas até então convencionais, como o viajado Luís Antônio Gasparetto, e sua mãe, a famosa Zíbia Gasparetto, distanciaram-se da vertente “devocional” estabelecida por Chico Xavier – que, por influência de sua formação católica, nunca deixou de se referir ao “espírito de luz” Jesus como “Nosso Senhor Jesus Cristo”. Ambos reconheceram esse distanciamento em matéria da Revista Época.

Outro médium cuja “mentora espiritual”, Joanna de Angelis, se adaptou aos novos rumos do mercado foi Divaldo Franco. Ela, que até então somente lhe ditava obras de conteúdo semelhante ao das “psicografadas” por Chico Xavier, também modernizou a temática com sua “Série Psicológica”, composta de 12 livros. Há algumas décadas, esse médium baiano foi protagonista de um escândalo envolvendo Chico Xavier. Até então cotado para ser o substituto do seu congênere mineiro, foi pego plagiando o colega famoso, o que foi reportado pelo programa Fantástico muito tempo depois e que se confirma através de carta de Herculano Pires, disponível online. Chico Xavier rompeu com Divaldo por cerca de 40 anos devido ao ocorrido. Esse fato é muito bem conhecido nos corredores do meio espírita, cujos dirigentes fazem o possível para evitar escândalos e manter as aparências.

Outra tendência de origem espírita mas que, como os Gasparetto, acabou tomando novos rumos, foi a “projeciologia” e a “conscienciologia” fundadas pelo já citado Waldo Vieira. Como disse acima, Waldo havia sido médium juntamente como Chico Xavier, mas acabou deixando o amigo (alegam-se diferentes razões para isso, mas prefiro não propagar fofocas de bastidores que não posso confirmar) e se dedicando à cirurgia plástica e a suas pesquisas pessoais na área de “experiências fora-do-corpo” (desdobramento ou projeção astral, daí o termo “projeciologia”, que cunhou). Nesse meio tempo ele se casou com uma estrangeira, herdeira da empresa de bebidas Brahma, cuja venda lhe disponibilizou o capital necessário para investir de forma muito mais substancial em seus projetos.

Waldo Vieira lançou um calhamaço denominado “Projeciologia”, cuja primeira edição, de 5 mil exemplares, foi distribuída gratuitamente para pessoas que se demonstravam genuinamente interessadas no tema. Fui um dos agraciados no dia de seu lançamento, na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Waldo Vieira voltava então ao meio cercado de espíritas “intelectualizados” do Rio de Janeiro, onde residia, trazendo consigo influências parapsicológicas, teosóficas e ramatistas, todas elas unificadas por um empirismo cientificista radical. Antes de seu retorno retumbante, segundo comunicação pessoal de uma de suas convidadas, reuniu uma série de médiuns e pesquisadores ligados ao Espiritismo – como Hernani Guimarães Andrade – para anunciar seus planos de dar novos rumos ao movimento espírita, aproximando-o do que considerava ser mais “cientificamente racional” e distanciando-o do emocionalismo devocional de origem católica. Com o tempo, notou que sua proposta não estava sendo bem recebida no meio, e então decidiu partir para novos rumos em seu “Centro da Consciência Contínua” (mais tarde denominado Instituto Internacional de Projeciologia, e, posteriormente, Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia), abandonando o rótulo “espírita”, como fez a família Gasparetto.

Muitos adeptos do Espiritismo ficam indignados com os Gasparetto e Waldo Vieira, pois não só acreditam, com base em Allan Kardec, que a “doutrina espírita” é o ápice da evolução humana na Terra, como confundem Espiritismo com Espiritualismo. Ignoram completamente o que foi explicado anteriormente: que a “doutrina espírita” é uma racionalização dos

fenômenos mediúnicos de alcance regional somente; que Allan Kardec não está para esse fenômenos como Jesus Cristo para os “dons do Espírito Santo” distribuídos no Pentecostes.

E essas variações regionais ocorrem mesmo dentro do Espiritismo brasileiro: a Federação Espírita Brasileira, com sede no Rio de Janeiro, tem influências completamente diferentes das sofridas pela Federação Espírita do Estado de São Paulo, destacando-se a controvérsia sobre a obra de Roustaing, que afirmava que Jesus Cristo tinha um “corpo fluídico”, que é defendida pela FEB e rejeitada pela FEESP.

A FEESP, por sua vez, apesar de se dizer a guardiã de um Espiritismo genuinamente “kardequiano”, foi alvo de Herculano Pires, no livro supra-citado, escrito em dupla com Chico Xavier e denominado “Na Hora do Testemunho”, em que denuncia adulterações da obra de Allan Kardec cometidas em tradução publicada pela FEESP, em um caso que merece ser analisado por configurar talvez um dos primeiros exemplos de adaptação politicamente correta de uma tradução para o português.

Mas voltando a Waldo Vieira: ele fez mais do que deixar o movimento espírita. Ele soltou a língua. E soltou feio. Waldo fez revelações, em vídeo disponível no Youtube, sobre como as mensagens mediúnicas com detalhes da vida do morto são fraudadas. A transcrição abaixo vem do site Obras Psicografadas:

“A mesma coisa aquelas mensagens que o Chico recebia. Você sabe que essas mensagens psicografadas, da pessoa que morreu assim, eles mandam a carta com os detalhes para a pessoa colocar na mensagem psicografada, né? Tem médium que ainda está recebendo essas mensagens até hoje. Eu nunca recebi uma mensagem assim. Agora, o pior disso é aquilo que eu falo para vocês, a natureza humana não falha. Quando eu deixei o movimento espírita, me mandaram umas cartas dessas pra mim pra eu receber mensagens pras pessoas. Eu queimei as cartas, só para não envolver ninguém. Então eles mandavam, ‘ó, o apelido dele é esse, a tia que ele gosta é essa, a madrinha dele, a dindinha, é a fulana, ela mora assim e assim.’ Tudo para haver uma relação. ‘O avô que ele gostava muito morreu no ano tal.’ Agora, eles mandavam essas cartas com tudo já mastigado para você colocar. Tudo carta marcada, jogo de carta marcada. Foi por isso que quando Souto Maior teve aí eu falei com ele. ‘Olha, você já viu isso?’ ‘Eu já’. Ele já tinha visto! Todo mundo que vai estudar isso acaba vendo, porque vai encontrar isso aí. E ele até sabe, tem médium que ele evita. Porque ele sabe que tem médium até hoje que ainda tão recebendo essas coisas e fazendo aí um auê, né? Isso dá ibope. Sabe, o processo seguinte faz média com muita gente, etc. Então a mãe faz média, o médium faz média, o centro espírita faz média, é um monte de coisa. Agora, ó… se você observar, lá em Uberaba, na minha época, o Chico não recebia essas mensagens. Por que é que ele não recebia? Porque eu falei com ele: ‘Olha, se tiver isso, eu caio fora já!’ Se você agüentar um tempo eu sigo as coisas pra melhorar a sua vida aqui e todo o trabalho. Tinha várias coisas… Outra coisa, vocês nunca viam, naquelas

reuniões que faziam de efeitos físicos, eu não aparecia… porque ela era fajuta… a dele. Tudo isso… Hoje eu falo porque as coisas todas já passaram, é bom a gente clarear as coisas, porque a natureza humana não falha”.

Waldo Vieira diz acima que ele e Chico, com quem cooperou, não estavam envolvido nas fraudes de mensagens e nem nas fajutas sessões de materialização em Uberaba, que, não obstante, ocorreram também em seu consultório.

O site Obras Psicografadas complementa a transcrição acima com algumas considerações muito pertinentes sobre o depoimento de Waldo Vieira:

Waldo Vieira diz: Outra coisa, vocês nunca viam, naquelas reuniões que faziam de efeitos físicos, eu não aparecia… porque ela era fajuta… a dele.

.O trecho está entre 3:47 e 3:48.

A médium Otília Diogo, que realizou sessões de materialização com Chico Xavier, foi pega em fraude anos depois interpretando a irmã Josefa.

Há a descrição em ao menos dois livros da materialização do senador Públio Lêntulos, episódio esse que nitidamente foi fraude, uma vez que tal personagem jamais existiu na época descrita (contemporâneo de Cristo). Para detalhes de porque tal episódio foi uma fraude perpetrada por Chico, ler aqui.

Considerando-se as influências humanas no conteúdo das mensagens – como no caso da crença na reencarnação, na vida em outros planetas de nosso sistema solar e da literatura de auto-ajuda espírita -, a variação, no tempo e espaço, de como os supostos “espíritos” teriam descrito o “mundo espiritual” – da forma mais sóbria do “Espírito da Verdade” em “O Livro dos Espíritos” às “cidades astrais” hi-tech de Chico Xavier, que se tornaram padrão nas “mensagens” de médiuns brasileiros – e as fraudes confessas e as evidentemente ocultadas, é impossível alguém minimamente racional levar a sério as mensagens de Chico Xavier ou de qualquer outro médium menor.

Minha posição quanto aos fenômenos mediúnicos

Considero o livro “O Erro Espírita”, de René Guénon, a melhor crítica já escrita ao Espiritismo e ao Espiritualismo em geral. O autor consegue demolir as principais falácias da “doutrina espírita” – confirmando a propriedade do título da tradução para o inglês: The Spiritist Fallacy – e expor ao ridículo seus principais expoentes até então. O único problema é que algumas de suas críticas, como aquela feita à idéia de reencarnação, dependem do conhecimento e concordância do leitor com a composição tripartite do ser-humano e a compreensão de como isso implica primordialmente na conceituação guenoniana (e tradicional) de “personalidade” e “individualidade”. Ele não consegue demonstrar, sem depender da diferença entre esses dois conceitos e uma série de outros conexos, os quais ele

nem faz questão de explicar, que a comunicabilidade dos santos mortos com os vivos é possível mas não a de um defunto comum.

O melhor argumento para derrubar especificamente a “doutrina espírita” é apontar o fato de que a realidade, conforme descrita nas partes anteriores e como pode ser verificado no dia-a-dia, não corrobora as condições que o próprio Allan Kardec estabeleceu para validar o Espiritismo. Refiro-me àquelas expostas em seu “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, capítulo II, denominado “Autoridade da Doutrina Espírita: Controle universal do ensino dos espíritos”. Os trechos destacados em negrito são uma sucessão de tiros que Kardec dá em seu próprio pé, pois são exigências ideais que nunca se verificaram na prática:

Se a doutrina espírita fosse uma concepção puramente humana, não teria como garantia senão as luzes daquele que a tivesse concebido. Ora, ninguém neste mundo poderia ter a pretensão de possuir, sozinho, a verdade absoluta. Se os Espíritos que a revelaram se houvessem manifestado a apenas um homem, nada lhe garantiria a origem, pois seria necessário crer sob palavra no que dissesse haver recebido os seus ensinos. Admitindo-se absoluta sinceridade de sua parte, poderia no máximo convencer as pessoas do seu meio, e poderia fazer sectários, mas não chegaria nunca a reunir a todos.

Deus quis que a nova revelação chegasse aos homens por meio mais rápido e mais autêntico. Eis porque encarregou os Espíritos de a levarem de um pólo ao outro, manifestando-se por toda parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra. Um homem pode ser enganado e pode enganar-se a si mesmo, mas não aconteceria assim, quando milhões vêem e ouvem a mesma coisa: isto é uma garantia para cada um e para todos

São realmente os próprios Espíritos que fazem a propaganda, com a ajuda de inumeráveis médiuns, que eles despertam por toda parte. Se houvesse um intérprete único, por mais favorecido que esse fosse, o Espiritismo estaria apenas conhecido. Esse intérprete, por sua vez, qualquer que fosse a sua categoria, provocaria a prevenção de muitos; não seria aceito por todas as nações. Os Espíritos, entretanto, comunicando-se por toda parte, a todos os povos, a todas as seitas e a todos os partidos, são aceitos por todos…

Esta universalidade do ensino dos Espíritos faz a força do Espiritismo, e é ao mesmo tempo a causa de sua tão rápida propagação. Enquanto a voz de um só homem, mesmo com o auxílio da imprensa, necessitaria de séculos para chegar aos ouvidos de todos, eis que milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente, em todos os pontos da Terra, para proclamar os mesmos princípios e os transmitir aos mais ignorantes e aos mais sábios, a fim de que ninguém seja deserdado. É uma vantagem de que não pôde gozar nenhuma das doutrinas aparecidas até hoje. Se, portanto, o Espiritismo é uma verdade, ele não teme nem a má vontade dos homens, nem as revoluções morais, nem as transformações físicas do globo, porque nenhuma dessas coisas pode atingir os Espíritos.

Mas não é esta a única vantagem que resulta dessa posição excepcional. O Espiritismo ainda encontra nela uma poderosa garantia contra os cismas que poderiam ser suscitados, quer pela ambição de alguns, quer pelas contradições de certos Espíritos. Essas contradições são certamente um escolho, mas carregam em si mesmas o remédio ao lado do mal…

A concordância no ensino dos Espíritos é portanto o seu melhor controle, mas é ainda

necessário que ela se verifique em certas condições. A menos segura de todas é quando um médium interroga por si mesmo numerosos Espíritos sobre uma questão duvidosa. É claro que, se ele está sob o império de uma obsessão, ou se tem relações com um Espírito embusteiro, este Espírito pode dizer-lhe a mesma coisa sob nomes diferentes. Não há garantia suficiente, da mesma maneira, na concordância que se possa obter pelos médiuns de um mesmo centro, porque eles podem sofrer a mesma influência.

A única garantia segura do ensino dos Espíritos está na concordância das revelações feitas

espontaneamente, através de um grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em diversos lugares…

Ora, já verificamos que a “doutrina espírita”, ou Espiritismo, não representa a “concordância das revelações feitas espontaneamente” através de médiuns “estranhos uns aos outros, e em diversos lugares”. Não foi “revelada” a todo o movimento espiritualista, e tampouco o que teria sido revelado e “codificado” por Allan Kardec foi corroborado pelos rumos posteriores das “revelações” feitas no meio espírita brasileiro, como foi demonstrado no caso de Chico Xavier, Hercílio Maes, os Gasparetto ou Waldo Vieira.

Isso no que se refere aos postulados doutrinários do Espiritismo. Mais essencial é o que ele partilha com o Espiritualismo em geral e que, uma vez descartado, derruba toda a doutrina espírita junto: a crença de que a origem dos fenômenos ditos mediúnicos sejam os espíritos dos mortos. Fazendo vistas grossas à hipótese de fraude, o que se verifica de fato, nas supostas comunicações, é que elas não ocorrem como seria de se esperar caso a explicação espiritualista fosse correta. Se fosse esse o caso, os espíritos estariam produzindo provas incontestáveis de sua identidade, como, por exemplo, enviando a mesma mensagem para diferentes médiuns, ou dividindo uma mensagem em várias partes e comunicando cada uma delas a um médium que não conhecesse seus congêneres envolvidos, informando-lhes onde estaria a parte anterior e posterior, com todas elas se encaixando. E fazendo isso em profusão.

Absolutamente nada disso foi jamais possível. O que se verifica invariavelmente é que mensagens atribuídas aos espíritos e carregadas de detalhes propiciando sua identificação, como as que eram produzidas por Chico Xavier, são raríssimas se considerarmos todo o contingente de “médiuns” disponíveis – daí, aliás, a fama do mineiro como primus inter pares -, e, quando ocorrem, advém de um único médium.

Esse fato – frisando que estou descartando aprioristicamente a possibilidade de fraude, a despeito do que disse Waldo Vieira na parte anterior – só condiz com uma explicação:

a de que é esse indivíduo que tem uma capacidade extraordinária de receber informações desconhecidas de diferentes fontes por meios “paranormais” (como “telepatia”, “clarividência” ou “remote viewing”, etc.), e não que os espíritos dos mortos têm a capacidade natural de oferecer informações a ditos “médiuns”.

Fazendo uma comparação: os televisores, não importando se analógicos ou digitais, com tela convencional, de LCD ou plasma, captam necessariamente as mesmas informações das antenas retransmissoras de VHF e UHF, apesar da qualidade da recepção e exibição variarem.

Quem mora em prédio já deve ter passado pela experiência de descer ou subir vários lances de escada e, enquanto se movimenta, ouvir o som de um mesmo programa vazando dos apartamentos e, com isso, conseguir acompanhá-lo conforme muda de andar. Percebemos que é o mesmo filme, novela ou telejornal sendo captado nas várias residências. É isso que permite que haja pessoas, todos os dias, comentando as mesmas cenas que assistiram em lugares diferentes.

Quando se vai a uma lan house a coisa é bem diferente. Conforme nos deslocamos, podemos perceber, na tela do computador de cada usuário, imagens diferindo completamente umas das outras, e muitas vezes várias imagens simultâneas sobrepostas parcialmente, cada uma delas relacionada a um programa, aplicativo ou aba com informações diferentes abertas em um mesmo computador.

O que os aparelhos de televisão evidenciam é que há uma só fonte para as imagens e sons de cada canal, que, como sabemos, no caso do sinal aberto, são as antenas retransmissoras. Seus sinais são compartilhados, de forma praticamente sincrônica, ao longo de toda a região de cobertura. Os televisores funcionam como “médiuns”, meios de recepção e reprodução dessas informações.

Os computadores, por sua vez, podem ser utilizados para VOIP ou live streaming, mas o que evidenciam é sua capacidade de processamento local de informações advindas de diferentes fontes geralmente assíncronas (internet, pendrives, câmeras, etc.).

No caso da TV, o ponto fulcral é a antena retransmissora, que lhe é externa. No do computador, o disco rígido que carrega internamente. Pode-se assistir a um vídeo no computador e com isso emular a aparência e a função de um televisor, mas isso não permite confundir a forma de funcionamento de cada um deles. Um computador, mesmo que funcionando em rede, é uma unidade autônoma quando comparado ao aparelho de TV.

A hipótese mediúnica dos espíritas e espiritualistas em geral exige médiuns operando de forma semelhante à da televisão. Ninguém duvidaria deles se, morando em diferentes

andares de um único prédio, mas sem comunicação entre si, reproduzissem, mesmo que com menor precisão, a experiência de vários moradores sintonizando o mesmo canal de TV.

Mesmo nos poucos casos que me foram narrados em que algo semelhante parecia ocorrer, havia sempre a exposição a pelo menos uma mesma pessoa em comum (como alguém que vai procurar diferentes médiuns, e esses relatam detalhes semelhantes sobre alguma coisa), o que não cumpre nem mesmo as exigências de Kardec citadas acima. O que não ocorre, e nem jamais ocorreu, são médiuns que não se conhecem e não têm nenhuma forma de comunicação entre si captarem, como sugeri no início desta terceira parte, a mesma mensagem ou partes de um mesmo texto que se completam. Se a hipótese mediúnica fosse correta, isso teria de ocorrer com a mais convincente freqüência.

Para piorar ainda mais a situação dos espíritas, eles admitem a existência do “animismo”, termo que utilizam para se referir à capacidade do indivíduo vivo produzir fenômenos “paranormais” sem a contribuição dos espíritos dos mortos (como no caso da telepatia, precognição, experiências-fora-do-corpo, etc.).

É o que se lê em “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, cap. XIX, “Papel do Médium nas Comunicações” :

2. As comunicações escritas ou verbais podem ser também do próprio Espírito do médium?

— A alma do médium pode comunicar-se como qualquer outra. Se ela goza de um certo grau de liberdade, recobra então as suas qualidades de Espírito. Tens a prova na visita das almas de pessoas vivas que se comunicam contigo, muitas vezes sem serem chamadas. Porque é bom saberes que entre os Espíritos que evocas há os que estão encarnados na Terra. Nesses casos eles te falam como Espíritos e não como homens. Por que o médium não poderia fazer o mesmo?…

E a nota do tradutor (o já citado Herculano Pires):

Esse erro de exclusivismo é o mesmo que hoje praticam os parapsicólogos antiespíritas, que pensam haver descoberto a pólvora ao afirmar: “Não há Espíritos, pois tudo vem da mente do médium!” O Espiritismo, como se vê, conhece desde o seu início os dois fenômenos: o anímico, de manifestação da alma do médium, e o espírita, de manifestação de um Espírito desencarnado. Jamais o Espiritismo cometeu o erro do exclusivismo oposto, ou seja, de afirmar que as comunicações são apenas de Espíritos desencarnados. Veja-se a Revista Espírita, o livro de Aksakoff Animismo e Espiritismo e os livros de Ernesto Bozzano Animismo ou Espiritismo e Comunicações Mediúnicas Entre Vivos. (N. do T.)

De “O Livro dos Espíritos”, cap. VIII, “Emancipação da Alma”:

420. Os Espíritos podem comunicar-se, se o corpo estiver completamente acordado?

— O Espírito não está encerrado no corpo como numa caixa: ele irradia em todo o seu

redor; eis porque pode comunicar-se com outros Espíritos, mesmo no estado de vigília,

embora o faça mais dificilmente.

421. Por que duas pessoas, perfeitamente despertas, têm, muitas vezes, instantaneamente, o mesmo pensamento?

São dois Espíritos simpáticos que se comunicam e vêem reciprocamente os seus pensamentos, mesmo quando não dormem.

Há entre os Espíritos que se afinam uma comunicação de pensamentos que faz que duas pessoas se vejam e se compreendam sem a necessidade dos signos exteriores da linguagem. Poderia dizer-se que elas falam a linguagem dos Espíritos.

E mais: os espíritas incluem comumente, sob a designação de animismo, a influência inconsciente do dito “médium” nas mensagens dos supostos “espíritos”.No capítulo IV do Livro dos Médiuns, “Sistemas“, Kardec levanta explicações alternativas à espiritualista, e, em uma delas, admite a influência do “médium”:

45. SISTEMA SONAMBÚLICO: este sistema teve mais partidários, mas ainda agora conta com alguns. Como precedente, admite que todas as comunicações inteligentes procedem da alma ou Espírito do médiumNão se pode negar, em certos casos, a influência dessa causa

Do trecho acima excluí os argumentos que Kardec usa para descartar essa explicação para todas as comunicações “mediúnicas”. Reproduzo-os agora:

…Não se pode negar, em certos casos, a influência dessa causa, mas é suficiente haver presenciado como opera a maioria dos médiuns para compreender que ela não pode resolver todos os casos, constituindo pois a exceção e não a regra. Poderia ser assim, se o médium tivesse sempre o ar de inspirado ou extático, aparência que ele poderia, aliás, simular perfeitamente, se quisesse representar uma comédia. Mas como crer na inspiração, quando o médium escreve como uma máquina, sem a menor consciência do que obtém, sem a menor emoção, sem se preocupar com o que faz, inteiramente distraído, rindo e tratando de assuntos diversos?

A esses argumentos adiciono outros, que Kardec apresentou na consideração de uma outra explicação alternativa:

… Pensou-se que poderia ser a do médium ou dos assistentes, que se refletiria como a luz ou as ondas sonoras…

… Somente a experiência, dissemos, poderia dar a última palavra sobre essa teoria, e a experiência a deu condenando-a, porque ela demonstra a cada instante, e pelos fatos mais

positivos, que o pensamento manifestado pode ser, não só estranho aos assistentes, mas quase sempre inteiramente contrário ao deles; que contradiz todas as idéias preconcebidas e desfaz todas as previsões. De fato, quando eu penso branco e me respondem preto, não posso acreditar que a resposta seja minha…

Como, aliás, explicar pelo reflexo do pensamento a escrita feita por pessoas que não sabem escrever? As respostas do mais elevado alcance filosófico obtidas através de pessoas iletradas. E aquelas dadas a perguntas mentais ou formuladas numa língua desconhecida do médium? E mil outros fatos que não podem deixar dúvida quanto à independência da inteligência manifestante? … Além disso, a espontaneidade do pensamento manifestado independente de toda expectativa e de qualquer questão formulada, não permite que se possa tomá-lo como um reflexo do que pensam os assistentes.

O sistema do reflexo é muito desagradável em certos casos. Quando, por exemplo, numa

reunião de pessoas sérias ocorre uma comunicação de revoltante grosseria, atribuí-Ia a um dos assistentes seria cometer uma grave indelicadeza, e é provável que todos se apressassem em repudiá-Ia. (Ver O Livro dos Espíritos, parágrafo XVI da Introdução.)

Ora, Allan Kardec, bastava que o Sr. prestasse atenção ao que está escrito em outro de seus livros. No capítulo VIII de O Livro dos Espiritos, “Emancipação da Alma”, o “Espirito da Verdade” teria respondido:

O sonho é a lembrança do que o vosso Espírito viu durante o sono; mas observai que nem

sempre sonhais, porque nem sempre vos lembrais daquilo que vistes ou de tudo o que vistes…

freqüentemente não vos resta mais do que a lembrança da perturbação que acompanha a vossa partida e a vossa volta, a que se junta a lembrança do que fizeste ou do que vos preocupa no estado de vigília. Sem isto, como explicaríeis esses sonhos absurdos, a que estão sujeitos tanto os mais sábios quanto os mais simples?

Os sonhos são o produto da emancipação da alma, que se torna mais independente pela suspensão da vida ativa e de relação. Daí uma espécie de clarividência indefinida, que se estende aos lugares os mais distantes ou que jamais se viu, e algumas vezes mesmo a outros mundos. Daí também a lembrança que retraça na memória os acontecimentos verificados na existência presente ou nas existências anteriores. A extravagância das imagens referentes ao que se passa ou se passou em mundos desconhecidos, entremeadas de coisas do mundo atual, formam esses conjuntos bizarros e confusos que parecem não ter senso nem nexo.

… 405. Freqüentemente se vêem em sonhos coisas que parecem pressentimentos e que não se cumprem; de onde vêm elas?

— Podem cumprir-se para o Espírito, se não se cumprem para o corpo. Quer dizer que o

Espírito vê aquilo que deseja, porque vai procurá-lo. Não se deve esquecer que, durante o sono, a alma está sempre mais ou menos sob a influência da matéria e por conseguinte não se

afasta jamais completamente das idéias terrenas. Disso resulta que as preocupações da vigília podem dar, àquilo que se vê, a aparência do que se deseja ou do que se teme. A isso é que realmente se pode chamar um efeito da imaginação. Quando se está fortemente preocupado com uma idéia liga-se a ela tudo o que se vê…

Temos então a admissão, nas mais importantes fontes espíritas, de que há influências “paranormais” entre vivos (como a telepatia), e também que a mente humana pode criar um sonho que apresente conteúdo de fontes “anímicas” (como a “clarividência indefinida”), preocupações e a memória de eventos que ocorreram na vigília. Isso tudo ocorrendo no suposto “médium”, que funciona aí como o ponto central dessas informações todas, a exemplo do computador, e recriando-as no que “realmente pode-se chamar um efeito da imaginação”.

Isso é o bastante para responder às objeções apresentadas por Allan Kardec – que reproduzi acima – às explicações alternativas à “mediúnica”. Se todos os fatos que ele apresenta para contrariá-las preenchessem as condições que se esperaria de um fenômeno genuinamente mediúnico – repetindo: a proliferação de mensagens com detalhes da vida dos mortos através de médiuns diferentes que não se conhecessem e nem tivessem tido qualquer forma de comunicação entre si, ou o recebimento de trechos de mensagens através de diferentes médiuns, e que esses trechos se encaixassem formando um só texto com unidade interna -, ele estaria certo. Mas não é isso que ocorre. Os fenômenos que ele elencou são sempre compatíveis com o modus operandi de um computador, não do aparelho de televisão, e nada compatíveis com o que foi dito por Kardec e que reproduzi no início desta parte:

Deus quis que a nova revelação chegasse aos homens por meio mais rápido e mais autêntico. Eis porque encarregou os Espíritos de a levarem de um pólo ao outro, manifestando-se por toda parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra. Um homem pode ser enganado e pode enganar-se a si mesmo, mas não aconteceria assim, quando milhões vêem e ouvem a mesma coisa: isto é uma garantia para cada um e para todos…

São realmente os próprios Espíritos que fazem a propaganda, com a ajuda de inumeráveis médiuns, que eles despertam por toda parte…Os Espíritos, entretanto, comunicando-se por toda parte, a todos os povos, a todas as seitas e a todos os partidos, são aceitos por todos…

… eis que milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente, em todos os pontos da Terra, para proclamar os mesmos princípios e os transmitir aos mais ignorantes e aos mais sábios, a fim de que ninguém seja deserdado…

“To add insult to injury”, como se diria em inglês, Kardec tentou descartar a explicação de que as mensagens seriam fruto de uma “alma coletiva” das pessoas presentes à sessão. Do cap. IV de “O Livro dos Méduns”:

44. SISTEMA DA ALMA COLETIVA: é uma variante do precedente. Segundo este sistema, somente a alma do médium se manifesta, mas identificando-se com a de muitas outras pessoas presentes ou ausentes, para formar um todo coletivo que reuniria as aptidões, a inteligência e os conhecimentos de cada uma delas. Embora a brochura que expõe essa teoria se intitule A Luz(5) pareceu-nos de um estilo bastante obscuro. Confessamos haver compreendido pouco do que vimos e só a citamos para registrá-Ia. Trata-se, aliás, de uma opinião individual como tantas outras e que fez poucos adeptos…

Contraponho Allan Kardec a Stephen Wagner, em seu artigo intitulado “How to create a ghost” (Como criar um fantasma), do qual traduzo alguns trechos abaixo:

Muitos pesquisadores do paranormal suspeitam que algumas das manifestações fantasmagóricas e fenômenos de poltergeist… sejam produtos da mente humana. Para testar essa idéia, um experimento fascinante foi conduzido no início da década de 70 pela Toronto Society for Psychical Research (TSPR) para ver se eles conseguiriam criar um fantasma. A idéia era reunir um grupo de pessoas que comporia uma personagem completamente ficcional e, então, durante sessões mediúnicas, verificariam se era possível contatá-la e receber mensagens e outros fenômenos físicos – talvez até mesmo uma aparição.

Os resultados do experimento – que foram totalmente documentados em filme e fita de áudio

– são surpreendentes.

A TSPR, sob a supervisão do Dr. A.R.G. Owen, reuniu um grupo de oito pessoas de entre os

associados, nenhum deles alegando ter quaisquer dons paranormais… [T]ornou-se

conhecido como o Grupo de Owen…

A primeira tarefa do grupo foi criar sua personagem histórica ficcional. Juntos, escreveram

uma curta biografia da pessoa, que denominaram Philip Ayesford…

Stephen Wagner passa então a descrever os detalhes biográficos que criaram, que incluíam incidentes muito específicos. Não foi uma descrição genérica.

Com a vida e aparência de sua obra então firmemente estabelecidas em sua mente, o grupo começou a segunda fase do experimento: o contato.

Em setembro de 1972, as “sessões” foram iniciadas, e nada conseguiram durante um ano, exceto alguns membros relatarem a sensação de uma presença na sala. Decidiram então reproduzir o ambiente clássico de uma sessão mediúnica, com luzes fracas, participantes em torno de uma mesa, etc.

Isso funcionou. Durante uma das sessões noturnas, o grupo recebeu a primeira comunicação de Philip na forma de uma inconfundível batida (rap) na mesa. Em breve Philip estava respondendo perguntas feitas pelo grupo – uma batida para sim, duas para não. Eles sabiam que era Philip porque, bem, perguntaram a ele.

As sessões então deslancharam, produzindo uma profusão de fenômenos que não poderiam ser explicados cientificamente. Através da comunicação por batidas na mesa, o grupo conseguiu detalhes mais precisos da vida de Philip. Ele até parecia exibir uma personalidade, expressando suas preferências e sua convicta opinião sobre diversos assuntos… O “espírito” também conseguia mover a mesa, deslizando-a de um lado para o outro apesar de o chão estar revestido por um grosso tapete. Às vezes ela até “dançava” sobre uma só perna.

Que Philip era uma criação da imaginação coletiva do grupo era evidenciado por suas limitações. Embora pudesse responder perguntas sobre eventos e pessoas de sua época com precisão, não parecia possuir informações desconhecidas pelo grupo… Alguns membros pensavam ouvir sussurros em resposta às perguntas, mas nenhuma voz jamais foi capturada em fita.

Percebam que essa limitação das informações àquelas conhecidas pelo grupo se explica pelo fato de que nenhum dos participantes era “médium”. Se levarmos em consideração que um médium pode ser, de fato, um paranormal com a capacidade “anímica” de buscar informações de outras fontes – o que nem mesmo Allan Kardec nega – além da possibilidade de fraude, como descrita por Waldo Vieira, aliada ou não a uma paranormalidade genuína, mas que estou descartando agora -, a referência a fatos desconhecidos até mesmo por esse “médium”, ao contrário do que concluiu Kardec, é só uma variação do experimento descrito e que, nem por isso, deixou de apresentar fenômenos paranormais, como a levitação da mesa.

Wagner continua descrevendo outros fenômenos físicos que ocorreram, mas diz que a desejada materialização de Philip jamais foi conseguida (talvez porque não ocorreram no consultório de Waldo Vieira). E cita a replicação do experimento, algo que tenho exigido das mensagens dos “espíritos” e que não existe até hoje:

O experimento de Philip foi tão bem sucedido que a instituição de Toronto decidiu tentá-lo novamente com um grupo totalmente diferente e uma nova personagem ficcional. Depois de apenas 5 semanas, o novo grupo estabeleceu “contato” com seu novo “fantasma”, Lilith, uma espião franco-canadense. Outros experimentos similares convocaram entidades como Sebastian, um alquimista medieval , e até mesmo Axel, um homem do futuro. Todos completamente ficcionais, embora tendo produzido comunicações inexplicáveis por meio de suas inconfundíveis batidas.

Recentemente, um grupo de Sidnei, Austrália, tentou um teste semelhante com o “Experimento Skippy”.Os seis participantes criaram a história de Skippy Cartman, uma garota australiana de 14 anos. O grupo relata que Skippy se comunicou com eles através de batidas e arranhos.