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FACULDADE DE DIREITO MILTON CAMPOS Programa de Pós-Graduação em Direito

CÉDULA DE PRODUTO RURAL

Nova Lima

2008

Gustavo Ribeiro Rocha

GUSTAVO RIBEIRO ROCHA

2
2

CÉDULA DE PRODUTO RURAL

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Direito Empresarial, da Faculdade de Direito Milton Campos, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Direito.

Orientador: Prof. Dr. Wille Duarte Costa

Nova Lima

2008

Gustavo Ribeiro Rocha Cédula de Produto Rural

3
3

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito, da Faculdade de Direito Milton Campos, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Direito. Nova Lima, 2008.

Prof.

Prof.

Prof.

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4

Aos meus pais, pela orientação na caminhada da vida, pelo exemplo de luta e apoio incondicional.

À Anita, leal esposa que, pacientemente, compreendeu as horas dedicadas a esse estudo, durante nosso noivado e logo nos primeiros meses de nosso casamento, estimulando-me com palavras e gestos de carinho.

AGRADECIMENTOS

5
5

Ao Professor Wille Duarte Costa, pela valiosa orientação.

A todos que colaboraram, das mais variadas formas, para a realização do presente trabalho.

6
6

“A livre exposição das idéias é sinal inconfundível de progresso e civilização, quando tendam para o bem e constituem um sustentáculo para a solução dos problemas ou para o aperfeiçoamento das leis e das normas vigentes na sociedade.”

Carlos Bernardo González Pecotche - Raumsol

RESUMO

7
7

Na presente dissertação realizou-se um estudo detido acerca da Cédula de Produto Rural, importante instrumento para o financiamento do setor produtivo primário brasileiro. Tem-se como objetivo analisar esse título de crédito, considerando a evolução de nosso ordenamento jurídico, as mudanças do Direito Comercial, desde a teoria dos atos de comércio até a teoria da empresa, o entendimento dos tribunais pátrios, bem como a doutrina sobre a questão. A pesquisa investigou a feição cambiária da Cédula de Produto Rural, diferenciando-a dos contratos e dos demais títulos rurais, e as conseqüências daí advindas, além da análise das particularidades desta Cédula, especialmente no tocante às garantias, forma de circulação e de cobrança. O resultado do trabalho demonstra o grande potencial da Cédula de Produto Rural e a necessidade de um melhor entendimento sobre o tema, para que a Cédula cumpra os objetivos almejados pelo legislador, contribuindo para o fortalecimento do agronegócio no País.

Palavras-chave: Cédula de Produto Rural; Agronegócio; Produtor Rural.

ABSTRACT

This

dissertation

presents

a

detailed

study

that

was

carried

out

about

the

Rural

Product

Note,

which

is

an

important

financing

device

used

by

the

primary

productive

sector

of

Brazil.

The

goal

of

the

study

was

to

analyse

this

new

kind

of

bond

in

view

of

the

evolution

of

the

Brazilian

legal

system,

considering the changes in Commercial Law, from the theory of commerce acts

to

the

enterprise

theory,

as

well

as

the

understanding

of

the

country´s

courts

and

the

doctrine

regarding

this

issue.

The

research

has

investigated

the

exchange

aspect

of

the

Rural

Product

Note,

distinguishing

 

it

from

contracts

and

other

kinds

of

rural

securities,

and

also

analysing

the

particularities

of

this

Note,

especially

in

what

regards

the

guarantees,

and

the

methods

of

circulation

and

charging.

The

results

of

this

work

demonstrate

the

potential

of

the

Rural

Product

Note

and

the

need

for

a

better

understanding

of

the

issue,

so

that

the

Note

may

fulfil

the

goals

intended

by

lawmakers,

contributing

to

strengthen

agribusiness

in

Brazil.

Keywords: Rural Product Note; Agribusiness; rural producer.

LISTA DE FIGURAS

8
8

FIGURA 1 MODELO DE CÉDULA DE PRODUTO RURAL, 67

FIGURA 2 ORGANOGRAMA SOBRE ENDOSSO-CAUÇÃO, 92

FIGURA 3 ORGANOGRAMA SOBRE INTERVENIENTES, 109

FIGURA 4 ORGANOGRAMA SOBRE CPR VENCIDA E NÃO PROTESTADA, 109

FIGURA 5 ORGANOGRAMA SOBRE CPR VENCIDA E NÃO PROTESTADA, 110

FIGURA 6 ORGANOGRAMA SOBRE DIREITOS CAMBIÁRIOS, 112

9
9

LISTA DE ABREVIATURAS

ADCOAS

Boletim de Jurisprudência da ADCOAS

AI

Agravo de Instrumento

Ap. Cív.

Apelação Cível

Ap. Crim.

Apelação Criminal

Art.

Artigo

Atual.

Atualizada

BACEN

Banco Central

BM&F

Bolsa de Mercadorias e Futuro

Câm. Cív.

Câmara Cível

Câm. Esp. Cív.

Câmara Especial Cível

CC

Código Civil

CCom.

Código Comercial

CETIP

Câmara de Custódia e Liquidação

CMN

Conselho Monetário Nacional

CPR

Cédula de Produto Rural

CP

Código Penal

CPC

Código de Processo Civil

CR/88

Constituição da República de 1988

CVM

Comissão de Valores Mobiliários

D.

Decreto

Dês.

Desembargador

Dêsª.

Desembargadora

DJ

Diário da Justiça

DJU

Diário da Justiça da União

DL

Decreto-lei

E. Decl.

Embargos de declaração

j.

Julgamento

L.

Lei

LUG

Lei Uniforme de Genebra

Min.

Ministro

Prof.

Professor

RDM

Revista de Direito Mercantil, Industrial, Econômico e Financeiro

rel.

Relator

Resp

Recurso Especial

RExt

Recurso Extraordinário

Rev.

Revista

STF

Supremo Tribunal Federal

STJ

Superior Tribunal de Justiça

Súm.

Súmula

T.

Turma

TAMG

Tribunal de Alçada de Minas Gerais

TAPR

Tribunal de Alçada do Paraná

T.Crim.

Turma Criminal

TJGO

Tribunal de Justiça de Goiás

TJMG

Tribunal de Justiça de Minas Gerais

TJMS

Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul

TJMT

Tribunal de Justiça do Mato Grosso

TJPR

Tribunal de Justiça do Paraná

TJRS

Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul

Trad.

Tradução

UFMG

Universidade Federal de Minas Gerais

v.g.

verbi gratia

SUMÁRIO

RESUMO, 7 LISTA DE FIGURAS, 8 LISTA DE ABREVIATURAS, 9

INTRODUÇÃO, 11

10
10

1 DA CÉDULA DE PRODUTO RURAL, 13 1.1 Da Natureza da Cédula de Produto Rural, 15

1.1.1 Dos Princípios dos Contratos - Breve Recordação, 16

1.1.2 Das Normas Gerais de Direito Cambial - Breve Recordação, 17

1.1.3 Natureza Civil x Natureza Cambiária, 20

1.2 Dos Requisitos da Cédula de Produto Rural, 39

2 DOS BENS VINCULADOS EM GARANTIA, 54

2.1 Hipoteca, 56

2.2 Penhor, 57

2.3 Alienação Fiduciária, 64

3 MODELO DE CÉDULA DE PRODUTO RURAL, 67

4 DA CÉDULA DE PRODUTO RURAL FINANCEIRA, 71

5 DIREITOS E DEVERES DECORRENTES DA CPR, 74

5.1 Da Evicção, 74

5.2 Do Caso Fortuito e da Força Maior, 75

5.3 Do Registro da CPR perante o Cartório de Registro de Imóveis, 77

5.4 Da Entrega Antecipada do Produto Rural, 78

5.5 Do Pagamento Parcial da CPR, 79

6 PARTICULARIDADES DA CÉDULA DE PRODUTO RURAL, 81

6.1 Quanto ao Endosso, 81

6.2 Quanto aos Endossantes, 94

6.3 Quanto à Dispensa do Protesto em Face dos Avalistas, 103

7 DO VENCIMENTO E PAGAMENTO DA CÉDULA DE PRODUTO RURAL, 113

7.1 Da Ação Cambiária, 117

8 DO PEDIDO DE FALÊNCIA FUNDADO EM CÉDULA DE PRODUTO RURAL, 124

9 DA NEGOCIAÇÃO DA CÉDULA DE PRODUTO RURAL NA BOLSA DE VALORES E NO MERCADO DE BALCÃO, 127

CONCLUSÃO, 132 REFERÊNCIAS, 134

11

INTRODUÇÃO

O Brasil é um País de grande extensão territorial, e tem grande parcela de sua economia voltada ao setor produtivo primário, o que causa uma situação de dependência recíproca entre o País e o sucesso de sua agricultura e pecuária. Desde o século passado, a crise financeira que afetou o Estado não lhe tem permitido apoiar e financiar adequadamente aquele setor, importante para o crescimento nacional, apesar da institucionalização do crédito rural pela Lei n. 4.829, de 5 de novembro de 1965, que tinha por escopo o desenvolvimento da produção rural e o bem-estar do povo brasileiro. Com esse quadro adverso, não só ao produtor rural, mas também a outros setores, o Estado desenvolveu novas formas de cumprimento do seu papel na economia, tais como privatizações e redução de gastos públicos, o que repercutiu intensamente sobre a agropecuária, deixando os produtores rurais, em muitos momentos, em situação calamitosa e à beira do abandono. O Estado já não tinha condições de manter o crédito como em anos anteriores, menos ainda de estimular investimentos rurais, favorecer o custeio oportuno e adequado da produção, sua comercialização, o que, se existisse, ensejaria o fortalecimento econômico dos produtores rurais, do pequeno ao grande produtor. Visando à alteração desse quadro e, face à redução dos sistemas oficiais de financiamento, a esperança foi depositada no setor privado, com a criação de um título específico, que não busca os recursos em um fundo de crédito oficial. Trata-se da Cédula de Produto Rural (CPR), regulada pela Lei n. 8.929/94, criada com o objetivo de minimizar as dificuldades do produtor rural no mercado e simplificar o agronegócio, tendo-se destacado por sua grande aceitação, como um instrumento que atende muito bem às necessidades de gerenciamento de risco no setor agrícola, revelando seu grande potencial. Isso, porque foi criada como forma de o produtor rural, com menores custos, ter acesso aos recursos do mercado. E, em aproximadamente quinze anos de existência, destacou-se por sua descomplicada negociação e aquisição, tornando-se

12

uma excelente ferramenta na política agrícola, por facilitar, v.g., as compras antecipadas das safras. Mas, a CPR se presta a muito mais, sendo utilizada por produtores de pequeno, médio e grande porte, e em diversas modalidades. Em 2004, com dez anos de existência da CPR, estimava-se que ela

movimentasse 15 (quinze) bilhões de reais 1 a cada safra. Muito desse sucesso se deve

à participação de várias instituições financeiras como avalistas na CPR. Nesse cenário, nota-se que a compra e venda de produtos agropecuários indica, freqüentemente, a idéia empresarial, pressupondo a figura do empresário. O Prof. WILLE DUARTE COSTA expõe muito bem essa evolução:

Hoje, deixando de lado o ponto de vista de que só a terra produz, sabe-se que um só fazendeiro é capaz de produzir e negociar toneladas de grãos, ele próprio, com ou sem a interferência de terceiros. A criação de gado desenvolveu-se espantosamente, sendo comum encontrar-se homens do campo capazes de criar milhares de cabeças de gado, diversificando e aprimorando raças, como nunca antes foi visto. Aves como a galinha, a codorna, a perdiz, o faisão e outras são criadas em escala industrial, abatidas, e suas carnes são fornecidas diretamente para consumo em restaurantes sofisticados. 2

Tal mudança tem levado, cada vez mais, ao aumento das somas envolvidas,

à especialização da mão-de-obra no campo, que, indubitavelmente, exprimem o caráter

empresarial à produção rural em larga escala. RUY DE SOUZA expõe que ao se focar o “Direito das Empresas, muito mais abrangente do que o antigo Direito Comercial, não há como se expulsar a atividade agrícola ou a pecuária do campo desse novo Direito.” 3

Por tudo isso, mister um estudo, tanto quanto possível, minucioso dessa Cédula. Essa é a proposta deste trabalho.

1 CONCEIÇÃO, Ricardo Alves. BB CPR – Marco de sucesso do agronegócio brasileiro. Disponível em:

<www.agronegocios-e.com.br>. Acesso em 2/11/2004.

COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 34.

SOUZA, Ruy de. Direito das Empresas – Atualização do Direito Comercial. Belo Horizonte: Bernardo Álvares, 1959, p. 252 apud COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 34.

3

2

1 DA CÉDULA DE PRODUTO RURAL

13
13

A CPR é uma cédula diferente das demais. Trata-se de um documento emitido pelo produtor rural ou por suas associações, incluídas as cooperativas, e corresponde a uma promessa de entrega de produtos rurais, com ou sem garantia cedularmente constituída. Assim, a própria cédula, ao ser emitida, especifica os bens oferecidos em garantia, dispensando-se a constituição da garantia por documento separado, como usualmente ocorre com os direitos reais de garantia. Por isso, a menção às garantias cedularmente constituídas, significando que na própria CPR estão mencionadas as garantias para o cumprimento da obrigação. Sua principal função é o recebimento imediato de seu valor, que implica na utilização daquela prestação futura para a realização negócios atuais. Por meio da CPR, o produtor rural tem condições de captar recursos de forma célere, através da venda antecipada de determinado produto, a fim de obter recursos financeiros, o que estimula o crescimento do setor produtivo primário brasileiro. Trata-se de um título líqüido e certo, exigível pela quantidade e qualidade de produto nele previsto, regulado pela Lei n. 8.929, de 22 de agosto de 1994. Por englobar uma promessa de entrega de produtos rurais, PAIVA PEREIRA 4 alerta que a CPR não é título hábil a sustentar uma compra e venda de insumos agrícolas, ou de máquinas voltadas à agricultura, sustentando apenas e tão-somente a promessa de entrega de produtos rurais, podendo ser acompanhada de garantia nesse sentido.

Essa garantia deve ser de cunho real, significando ser perfeitamente possível pactuar-se uma garantia real de que o produto descrito na CPR será efetivamente transferido ao credor, conforme disposto no art. 1º da Lei 5 . FRONTINI assim conceitua a CPR:

4 PEREIRA, Lutero de Paiva. Comentários à Lei de Cédula de Produto Rural. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2003,

p.16.

5 L. n. 8.929/94, art. 1º: “Fica instituída a Cédula de Produto Rural – CPR, representativa de promessa de entrega de produtos rurais, com ou sem garantia cedularmente constituída.”

14

De fato, o ponto mais significativo da cédula de produto rural está na circunstância de que, ao criá-la, o emitente formula promessa pura e simples de entregar o produto nela mencionado no local combinado e nas condições de entrega estabelecidas, dentro das especificações de quantidade e qualidade também indicadas no título. Na verdade a Cédula de Produto Rural – CPR – é título representativo da promessa de entregar, em data futura (ou seja, no vencimento da cártula), o produto rural indicado, na quantidade e qualidade especificadas. 6

Vê-se, portanto, que a CPR representa um compromisso de entregar uma mercadoria, existente ou não ao tempo da conformação do compromisso, a partir da cultura a que se dedica o produtor rural. Essa operação se identifica com a venda futura, com pagamento antecipado, em que o valor é adiantado ao produtor rural, que se compromete a entregar a mercadoria que produzirá. Dessa maneira, não se trata, originariamente, de uma promessa de pagamento em dinheiro. A CPR não constitui um documento de dívida a ser pago mediante a entrega de certa quantia em pecúnia. Ao contrário, representa obrigação de entregar o produto rural, objeto da obrigação, na quantidade e qualidade indicadas. Por isso, sua cobrança se dá por meio de ação de execução para entrega de coisa incerta, conforme dispõe o art. 15 da Lei 7 , cumulado com os arts. 629 a 631, do Código de Processo Civil. Por esse fato, a CPR se diferencia da Nota Promissória Rural (DL. n. 167, art. 42) 8 , pois esta é uma promessa de pagamento em dinheiro. Não se pode confundi-las, portanto.

É possível perceber, já no limiar deste trabalho, que a CPR se diferencia das demais cédulas de crédito, por representar, justamente, a promessa de entrega de

6 FRONTINI, Paulo Salvador apud RIZZARDO, Arnaldo. Cédula de produto rural, in RDM 99/122. Contratos de Crédito Bancário. São Paulo: Revista dos Tribunais, 6. ed., 2003, p. 242.

7 L. n. 8.929/94, art. 15: “Para a cobrança da CPR, cabe a ação de execução para entrega de coisa incerta.”

8 DL n. 167/67, art 42: “Nas vendas a prazo de bens de natureza agrícola, extrativa ou pastoril, quando efetuadas diretamente por produtores rurais ou por suas cooperativas; nos recebimentos, pelas cooperativas, de produtos da mesma natureza entregues pelos seus cooperados, e nas entregas de bens de produção ou de consumo, feitas pelas cooperativas aos seus associados poderá ser utilizada, como título de crédito, a nota promissória rural, nos têrmos deste Decreto-lei. Parágrafo único. A nota promissória rural emitida pelas cooperativas a favor de seus cooperados, ao receberem produtos entregues por êstes, constitui promessa de pagamento representativa de adiantamento por conta do preço dos produtos recebidos para venda” (sic).

15

produtos rurais e, não, uma promessa de pagamento em dinheiro, v.g., a Cédula de Crédito Rural 9 . Isso foi regra até o início de 2001. Com o advento da Lei n. 10.200, de 14 de fevereiro de 2001, que alterou a Lei n. 8.929/94, tornou-se possível a liqüidação da CPR em moeda corrente, com a criação da chamada CPR Financeira. Seu funcionamento é similar ao da CPR criada em 1994, mas diferencia-se substancialmente desta no momento de sua liqüidação, pois, no vencimento, não se dará a entrega de nenhum produto, mas, sim, a do valor equivalente, em dinheiro. Dessa forma, no caso da CPR Financeira, devem nela constar, necessariamente, o preço, ou os referenciais eleitos para seu estabelecimento, ou do índice de preços a ser adotado na liqüidação financeira. A criação dessa nova CPR facilitou o acesso de instituições financeiras às negociações, que como tomadoras (credoras), têm participação mais ativa, cumprindo importante papel no financiamento da agricultura brasileira. Frise-se que se trata de um título voltado ao financiamento de atividades rurais, que se utiliza de princípios dos títulos de crédito em geral, acrescido de outras características que lhe dão uma configuração própria, como será abordado no presente trabalho.

9.1 Da Natureza da Cédula de Produto Rural

Viu-se que a CPR é um documento que tem por origem a compra e venda de produto rural, em que o preço é pago imediatamente, mas a entrega do produto ocorre em data futura. Mas, como entender sua natureza?

9 DL n. 167/67, art 9º: “A cédula de crédito rural é promessa de pagamento em dinheiro, sem ou com garantia real cedularmente constituída, sob as seguintes denominações e modalidades:” Omissis.

16

A Lei n. 8.929/94 se omite, sem determinar a CPR como título civil ou comercial, diferentemente da Cédula de Crédito Rural, nomeada cártula civil 10 . Sabe-se que a distinção entre o caráter civil e comercial é de grande interesse, pois, caso seja considerado comercial, poderá o título se submeter às regras cambiárias, especialmente no tocante à solidariedade das pessoas que apõem suas assinaturas no documento e às condições para execução, como ensinado por RIPERT 11 . Em face dessa omissão, e, na busca do melhor entendimento sobre a CPR, imperiosa uma breve recordação das regras contratuais e das normas de direito cambial, para que seja possível uma melhor e mais acurada compreensão do assunto. Afinal, conforme alerta de ASCARELLI, o direito incerto revela-se ineficaz, uma vez que perturba as relações jurídicas 12 . Dessa forma, são valiosos e bem-vindos os esforços no sentido de torná-lo certo e eficaz.

1.1.1 Dos Princípios dos Contratos - Breve Recordação

Recordando-se, sinteticamente, a teoria contratual, cumpre notar o conceito de contrato, como sendo “um acordo de vontades, na conformidade da lei, e com a finalidade de adquirir, resguardar, transferir, conservar, modificar ou extinguir direitos.” 13 , que obriga os contratantes e produz efeitos jurídicos. Tem-se a faculdade de contratar ou não; a escolha da pessoa com quem se vai contratar e o negócio que se quer; a fixação do conteúdo do contrato; a constituição de fonte formal de direito, com o escopo de garantir sua execução, segundo a vontade das partes, que presidiu sua constituição.

10 DL n. 167/67, art. 10: “A cédula de crédito rural é título civil, líquido e certo, exigível pela soma dela constante ou do endosso, além dos juros, da comissão de fiscalização, se houver, e demais despesas que o credor fizer para segurança, regularidade e realização de seu direito creditório.”

11 RIPERT, George. Tratado Elemental de Derecho Comercial. Vol. III, trad. Felipe de Sola Cañizares, com colaboração de Pedro G. San Martin, Buenos Aires: Tipográfica Editora Argentina, 1954, p. 252.

12 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 5.

13 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. 10 ed., vol. III, Rio de Janeiro: Forense, 1999, p. 2.

17

Os contratos devem respeitar certos requisitos, para que sejam eficazes, contemplando aspecto subjetivo, que se refere à capacidade das partes, não se tratando, simplesmente, da capacidade genérica, mas da aptidão para consentir; e aspectos objetivos, que envolvem a possibilidade de realização, material e jurídica. Ressalta-se que a impossibilidade não significa inexistência do objeto, vez que é admissível um contrato que verse sobre coisa futura, com o desfazimento do contrato em havendo a frustração; liceidade, referente ao respeito à ordem pública e aos bons costumes; determinação, para que a obrigação do devedor tenha sobre que incidir, podendo a determinação ser posterior ao ajuste; e economicidade, uma vez que a prestação deve ser apreciável economicamente. Além disso, deve-se considerar os aspectos formais, apesar de o direito moderno não se prender demasiadamente na forma, que é tida como exceção. Concede-se à declaração de vontade o poder de gerar efeitos diretamente e de ligar os sujeitos juridicamente, como ensina CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA 14 . Assim, salvo em determinadas situações elencadas pela lei 15 , os contratos são celebrados pelo livre consentimento das partes, sem obediência à forma. A declaração originária do contrato pode emanar de diversas formas:

explícita, expressa por escrito; ou até mesmo tacitamente, pelo silêncio. Além disso, aos contratos cabe a interpretação, buscando-se sempre qual terá sido a intenção comum das partes 16 . A hermenêutica da vontade contratual subordina-se à intenção das partes e ao sentido da linguagem.

1.1.2 Das Normas Gerais de Direito Cambial - Breve Recordação

14 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. 10 ed., vol. III, Rio de Janeiro: Forense, 1999, p. 17.

15 Como exemplo de contratos que devem obedecer à forma, têm-se os contratos translativos de direitos reais sobre imóveis.

16 CC, art. 423: “Quando houver no contrato de adesão cláusulas ambíguas ou contraditórias, dever-se-á adotar a interpretação mais favorável ao aderente.”

18

Para uma breve recordação do que é um título de crédito, boa de ver a seguinte conceituação de CARVALHO DE MENDONÇA:

Se o credito ou o direito de credito assume fórma material, transfundindo-se em um documento, certificante da sua existencia, este documento, redigido em fórmulas simples, breves e claras, transferível facilmente a terceiros, podendo se juntar ou subrogar outras pessoas ao primitivo credor ou ao primitivo devedor ou a ambos, e cercado de systema especial de garantias, denomina-se titulo de credito ou fiduciario. Elle é no commercio maravilhoso instrumento de circulação, tendo-se irradiado pela vida civil. 17 (sic)

Os títulos de crédito, na palavra do mestre JOÃO EUNÁPIO BORGES, “constituem o instrumento mais perfeito e eficaz da mobilização da riqueza e da circulação do crédito” 18 , lembrando-se que, na noção de crédito, implícitos estão: a) a confiança – no devedor e, também em garantias pessoais, como o aval, ou reais, como a hipoteca – que, como ensina CARVALHO DE MENDONÇA, é a mãe do crédito 19 ; b) o tempo – prazo que medeia a prestação atual e a futura. Operação de crédito é, justamente, a operação por meio da qual uma pessoa realiza uma prestação atual, contra a promessa de uma prestação futura. Esse intervalo de tempo é o elemento essencial do crédito. O crédito corresponde tanto à confiança quanto ao tempo. É a troca de uma prestação presente por uma futura. Através dos títulos de crédito, o direito transpõe o tempo, “transportando bens distantes e materializando, no presente, possíveis riquezas futuras” 20 , no dizer de ASCARELLI. Os títulos de crédito constituem, antes de tudo, um documento de legitimação em que se registra a obrigação futura a ser cumprida pelo devedor em favor do possuidor do título, titular do direito. E, em função disso, o direito se materializa no documento e, não, na pessoa possuidora do papel.

17 MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de Direito Commercial Brasileiro, v. V, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1938, 3. ed., 2 parte, n. 457, p. 47.

18

BORGES, João Eunápio. Títulos de Crédito. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1979, p. 7.

19 MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de Direito Commercial Brasileiro, v. V, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1938, 3. ed., 2 parte, n. 458, p. 49.

20 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 3.

19

Segundo a clássica definição de VIVANTE, “título de crédito é o documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado” 21 . É o documento no qual se materializa, incorpora-se a promessa da prestação futura a ser realizada pelo devedor, em pagamento da prestação atual, realizada pelo credor. As disposições do Código Civil de 2002 22 reproduzem essa clássica definição, apesar de ser tecnicamente inapropriado constar definições em lei, vez que isso deve ficar a cargo da doutrina e da jurisprudência. Ademais, o legislador pátrio substituiu a palavra “mencionado” por “contido”, o que parece ter sido uma impropriedade, vez que tais palavras não são sinônimas. Conter 23 significa encerrar em si, ao passo que mencionar 24 significa fazer referência a, expor. Por isso, entende-se que a palavra mencionado, tal como ensinado por VIVANTE, é mais adequada à definição. Afinal, o título se refere ao direito, este está exposto no título, está mencionado e, não, guardado, contido dentro do título. Da definição de VIVANTE, pode-se extrair os elementos comuns aos títulos de créditos: cartularidade (materialização do direito no documento, na cártula, de tal forma que o direito não poderá ser exercido sem a exibição do documento), literalidade (a existência do título é regulada por seu teor e somente o que nele está escrito é que deve ser levado em consideração), e autonomia (o direito do legítimo possuidor do título é independente em relação aos possíveis direitos dos possuidores anteriores. O possuidor exerce um direito próprio, não derivado do direito de quem quer que seja, e as diversas obrigações existentes no título são independentes, não se vinculando uma à outra, de forma que uma obrigação nula não afeta as demais, válidas). Com esses princípios, protege-se o crédito, possibilitando sua ágil e segura circulação, favorecendo sobremaneira o desenvolvimento do comércio.

21 VIVANTE, Cesare apud MARTINS, Fran. Títulos de Crédito. Vol. I, 13. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 5.

22 CC, art. 887: “O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei.”

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. 11 ed., São Paulo: Civilização Brasileira S/A, 1969, p. 319.

24 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. 11 ed., São Paulo: Civilização Brasileira S/A, 1969, p. 796.

23

20

ASCARELLI 25 explica que o título de crédito tem como caráter constante ser um documento escrito, submetido a condições de forma, que indique o devedor e sua assinatura, o credor e a maneira de circulação. Após essa breve recordação sobre os elementos comuns aos títulos de crédito, é hora de voltar-se atenção à CPR, importante criação legislativa, destinada ao setor produtivo primário brasileiro. Nesse ponto, releva notar que esse documento tem particularidades e complexidades que requerem um exame detido, não se podendo analisá-lo superficialmente, sob pena de não se ver a realidade, reforçando o castelo de mitologias jurídicas da modernidade 26 .

1.1.3 Natureza Civil x Natureza Cambiária

Há autores e juízes que entendem ter a CPR natureza civil, submetendo-se às normas do direito obrigacional comum e que, somente subsidiariamente, as normas cambiárias devem ser aplicadas àquela cédula. Parece que tal entendimento deriva da tradição, da estagnação do estudo sobre o tema, formando o mito jurídico de que o produtor rural não pode ser considerado comerciante. PAIVA PEREIRA 27 afirma que “a cártula não se caracteriza como um título eminentemente comercial”, acrescentando que, “ainda que omissa a Lei no tocante a sua perfeita caracterização como sendo de natureza civil, é forçoso reconhecer sua total adstrição a este campo do direito”. Por fim, conclui que “a CPR reger-se-á pelas regras que norteiam a compra e venda civil, somente aplicando-se-lhe as normas de direito cambial como norma subsidiária.”

25 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Tradução Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 29.

GROSSI, Paolo. Mitologias Jurídicas da Modernidade. 2 ed., rev. e ampl., trad. Arno Dal Ri Júnior, Florianópolis: Boiteux, 2007, p. 14.

27 PEREIRA, Lutero de Paiva. Comentários à Lei de Cédula de Produto Rural. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2003, p. 83-84.

26

21

Apesar dessas opiniões, que merecem todo respeito, parece ser diferente o entendimento mais preciso. Bem se sabe que a compra e venda civil – que tem como objeto imediato a compra para uso e consumo do adquirente –, difere da mercantil, em que o objeto é a obtenção de ganho, a partir da venda ou aluguel da coisa adquirida. Pode-se intuir que a CPR estará, se não sempre, em quase todos os casos, envolvida numa compra e venda mercantil, pois o produtor rural terá o intuito de produzir para vender, obtendo ganho. A CPR pode, dessa maneira, ser entendida como um título de crédito impróprio, assemelhada aos títulos representativos, v.g., o conhecimento de depósito e o warrant (D. n. 1.102/1903 28 ), que, apesar de não regulados inteiramente pelas regras cambiárias, são considerados títulos de crédito, regidos, portanto, pelas regras do direito cambiário, ou com os chamados títulos de financiamento, v.g., Cédula e Nota de Crédito Rural (DL. n. 167/67), que não se enquadram perfeitamente no regime cambiário, por força de algumas particularidades. Não se pode dizer, outrossim, que o bem objeto do negócio e prometido à entrega, não pode ser considerado oriundo de atividade comercial. Tendo-se em conta que a compra e venda de produtos agropecuários envolve, freqüentemente e, cada vez mais, dois empresários, fácil será perceber que se trata de uma operação mercantil. Desde o vetusto Código Comercial Brasileiro, de 1850, vê-se que, havendo um comerciante na relação de compra e venda, esta era tida por mercantil 29 . BARBI FILHO explica que a venda mercantil “é aquela em que o vendedor é comerciante regular e aliena com efeito comercial” 30 . Vale dizer: trata-se de empresário registrado e com escrituração contábil, que vende o bem profissionalmente, com o objetivo de lucro.

28 D. n. 1.102, de 21 de novembro de 1903: “Institui regras para o estabelecimento de empresas de armazéns-gerais, determinando os direitos e obrigações dessas empresas.”

CCom., art. 191, segunda parte: “É unicamente considerada mercantil a compra e venda de efeitos

móveis ou semoventes, para os revender por grosso ou a retalho, na mesma espécie ou manufaturados,

contanto que nas referidas transações o comprador ou vendedor seja

ou para alugar o seu uso [

comerciante.”

30 BARBI FILHO, Celso. A Duplicata Mercantil em Juízo. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 8.

29

]

22

E, como manifestado por PAIVA PEREIRA, “assim como a duplicata mercantil está para o comerciante, a Cédula de Produto Rural está para o produtor rural, suas associações e cooperativas” 31 . Ademais, o fato de o objeto ser ou não considerado oriundo de atividade comercial não é óbice a que se entenda a CPR como um título de crédito. Outros títulos cambiários, como o cheque e a nota promissória, podem ter objeto não oriundo de atividade comercial, sem, por isso, perderem a sua natureza cambiária. Na verdade, a diferença entre a compra e venda mercantil e a civil está na delimitação dos direitos e obrigações dos contratantes na execução concursal, que variará conforme a situação apresentada seja de falência ou de insolvência. Mesmo que se fique adstrito à idéia contratual, as semelhanças entre os contratos comerciais e civis são maiores que suas diferenças, conforme ensina WALDEMAR FERREIRA 32 . Outro aspecto a ser considerado é o fato de o conceito econômico de comércio não se assemelhar ao jurídico. Atividades artesanais e imobiliárias, v.g., embora promovam a circulação da riqueza e se compreendam no conceito econômico de comércio, escapam ao conceito jurídico. Outras atividades escapam ao conceito econômico, tais como títulos de crédito emitidos por não-comerciantes, para fins civis, mas que integram o conceito jurídico de comércio, o que pode ser o caso, na pior das hipóteses e, eventualmente, de uma CPR. Fazendo-se uma leitura superficial do art. 53, § 8º, da Lei n. 4.504/64, mais conhecida como Estatuto da Terra, que dispõe que “às empresas rurais, organizadas sob a forma de sociedade civil”, pode-se precipitadamente concluir que a atividade rural não pode ser considerada empresária. Mas, desconsiderar a complexidade do tema e ignorar certas indagações contemporâneas pode induzir ao preconceito de que a atividade agrícola não pode ser considerada mercantil, mantendo-se preso ao passado histórico e à tradição, ao mito jurídico que vem desde antes dos tempos dos romanos, conhecidos por terem aversão aos comerciantes e por buscarem no Direito Civil a tutela para qualquer atividade.

31 PEREIRA, Lutero de Paiva. Comentários à Lei de Cédula de Produto Rural. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2003, p. 21.

32

FERREIRA, Waldemar. Tratado de Direito Comercial, vol. VIII, São Paulo: Saraiva, 1962, p. 5.

23

Com a evolução da agricultura de mera subsistência para a de mercado, exige-se uma revisão de conceitos, um aprofundamento sobre o tema, a fim de se atualizar o Direito, que vai além da norma legal, vez que “o saber jurídico é mais amplo que o saber dogmático.” 33 Muito já se debateu sobre a possibilidade de se considerar o produtor rural um comerciante. O Prof. WILLE DUARTE COSTA, com propriedade, alerta:

O que não se pode negar é que nos acostumamos a uma afirmação, desde os tempos dos bancos escolares, de que a atividade agrícola está excluída do Direito Comercial 34 .

Sendo atividade econômica, dirigida para a economia de mercado, a comercialidade da empresa rural desponta, a ela se aplicando as regras do direito comercial, pouco importando tratar-se de pessoa física ou jurídica seu titular. Em verdade, não pode ser de outra forma o entendimento, já que sua estrutura pouco ou nada difere das demais empresas, sendo certo que todos os demais elementos são a ela atribuídos 35 .

E, com o advento do Código Civil de 2002, o produtor rural pode inscrever-se no Registro Público de Empresas Mercantis, sendo declarado empresário para todos os fins de Direito. O Prof. JOSÉ MARIA ROCHA FILHO explica que, ao produtor rural, pessoa física ou jurídica, “foi aberta a possibilidade de ele se tornar empresário ou sociedade empresária (Lei n. 10.406, arts. 971 e 984). Qual deles não aproveitará a oportunidade?” 36 Essa deve ser a opção natural do agronegócio, que investe na utilização de tecnologia avançada, que contrata mão-de-obra assalariada, que possui grandes áreas de cultivo e especialização de culturas, que recorre ao crédito organizado, através, v.g., de uma CPR.

33 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito. 5 ed., rev. e ampl., São Paulo: Atlas, p.

83.

34 COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 15.

COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 174.

36 ROCHA FILHO, José Maria. Curso de Direito Comercial, Parte Geral. 3. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p. 34.

35

24

O Prof. WILLE DUARTE COSTA 37 pondera que, ao se ter em mente que o

conceito de comerciante não se limita à intermediação, estendendo-se a outras atividades, é possível a inclusão da agropecuária entre as atividades mercantis, especialmente no que toca ao produtor rural que habitualmente aplica expressivo capital na produção de grandes quantidades, de acordo com as necessidades e exigências do mercado, excetuando-se apenas a atividade exercida como forma de lazer, descanso mental ou subsistência própria. Impedir tal opção é tolher o produtor rural da sua recuperação, judicial ou extrajudicial, ou da decretação de sua falência. É manter-se inerte, frente à evolução do Direito, estagnando-se em conceitos ultrapassados. Brilhantemente, o Prof. WILLE DUARTE COSTA critica os que ainda mantêm o entendimento de autores do passado, que à sua época, não tinham meios de prever a evolução da atividade rural até os atuais tempos do chamado agronegócio:

Nos casos da atividade agropecuária, o titular pratica também atos em massa, com habitualidade, visando o mercado, para manutenção e crescimento de seu negócio. É ele quem produz, e não a terra, pois desta apenas se serve, como instrumento, para atingir seus fins. A produção pode chegar a ser extraordinária, com grande influência no mercado. Dessa forma, só a tradição pode explicar a exclusão de tal atividade do conceito de comerciante gênero.

38

É preciso superar a inércia mental, os dogmas, as “certezas absolutas”,

prática que leva às chamadas mitologias jurídicas da modernidade 39 . Aos que se prendem à idéia de que quem produz é a terra, considerando que, na atividade agropecuária, não há intermediação, indaga-se: não existem atividades mercantis sem intermediação? Ademais, como manter tal posição, ao se evidenciar que o produtor rural busca empréstimos, insumos para desenvolver sua atividade com profissionalismo, plantando extensas culturas ou criando milhares de semoventes, para entrega ao consumo, intermediando como qualquer outro empresário?

37 COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 52 e 81. 38 COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 88. 39 GROSSI, Paolo. Mitologias Jurídicas da Modernidade. 2 ed., rev. e ampl., trad. Arno Dal Ri Júnior, Florianópolis: Boiteux, 2007, p. 14.

25

O Código Comercial Alemão (HGB), de 1897, já dispunha sobre a faculdade concedida ao produtor rural de optar, em certos casos, pela qualidade de comerciante. Conforme art. 1º, desse diploma, agricultores e silvicultores não eram entendidos como comerciantes, salvo se exercessem uma atividade acessória, respeitando-se alguns requisitos, abrindo a opção do registro facultativo. Explica GIERKE:

Se se preencheu os mencionados requisitos, o agricultor ou silvicultor está facultado, mas não obrigado, a inscrever sua empresa no Registro do Comércio, adquirindo assim a qualidade de comerciante para a atividade acessória. Por isso, ele é denominado comerciante facultativo (Kannkaufmann). 40 (Tradução nossa).

Por esse raciocínio, o simples produtor de uva não será considerado comerciante, mas, se também possuir uma fábrica de vinhos, essa segunda atividade, acessória, possibilitaria a inscrição do produtor perante o Registro do Comércio, adquirindo-se a qualidade de comerciante a partir da inscrição. Vê-se aí a utilização da chamada teoria do ato acessório, que não pacifica a questão da caracterização do empresário. Em grande parte por influência do Código Civil Francês, de 1807, e Espanhol,

de 1829, em nossos vizinhos sul-americanos (Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile), vê-

se

certa dificuldade na caracterização do produtor rural como empresário. Os uruguaios

e

paraguaios têm sua legislação sobre o tema bastante semelhante ao Código

Comercial Argentino, que dispõe que não são consideradas mercantis as vendas dos frutos de colheitas e gados de seus agricultores e fazendeiros 41 . No Chile, o legislador procura afastar a comercialidade do produtor rural, por critérios políticos e, não, científicos. Contudo, segundo a doutrina e jurisprudência de nossos vizinhos argentinos, se a produção rural – agrícola e pecuária –, for de considerável tamanho e

40 “Si se han llenado los mencionados requisitos, el agricultor o silvicultor está facultado, pero no obligado, a inscribir su empresa (firma) en el Registro de Comercio, adquiriendo así la cualidad de comerciante para la actividad accesoria. Por ello, se le denomina comerciante facultativo”. GIERKE, Julius von. Derecho Comercial y de la Navegación. Trad. Juan M. Semon. Buenos Aires: Tipográfica Editora Argentina S/A, 1957, p. 81. 41 Código Comercial argentino, art. 452, 3º: “las ventas que hacen los labradores y hacendados de los frutos de sus cosechas y ganados”. In: COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais.

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especialização, com organização do capital e do trabalho, no intuito de atender às necessidades do mercado, essa deve ser elencada no rol das atividades empresárias. Nada mais lógico, pois o capital, o trabalho e a organização resumem os elementos do chamado estabelecimento comercial 42 . De maneira mais clara, a Legislação Mexicana conceitua o comércio de forma aproximada ao conceito econômico, considerando-se mercantil a venda, pelo proprietário ou agricultor, dos produtos de sua propriedade rural ou de seu cultivo, a demonstrar que o legislador mexicano, considerando a experiência de outros povos, corretamente reviu a classificação das atividades rurais, exaltando, com isso, sua comercialidade. O Prof. WILLE DUARTE COSTA explica que “para o legislador mexicano, a figura da intermediação na atividade agrícola ficou ultrapassada, o que demonstra não ser ela importante para configuração do produtor rural.” 43 Analisando-se o contexto social, vê-se que a intensa evolução humana no campo material e tecnológico desatualizou os Códigos em todo o mundo, o que exigiu a criação de leis complementares, por ser a grande maioria dos Códigos datada do século XIX, momento de nossa história em que não se verificavam grandes desenvolvimentos no comércio e na indústria, como ocorre nas últimas décadas, especialmente na questão rural. Ainda sobre a feição empresarial do produtor rural, RACHEL SZTAJN

explica:

Atividades agrícolas ou rurais, aqui englobadas tanto a plantação e/ou extração agrícola, quanto a criação de animais, tradicionalmente são consideradas não mercantis em virtude da estreita ligação com a propriedade imobiliária. Essa concepção vem sendo posta em cheque por várias razões. De um lado a importância da propriedade imobiliária rural como representação da riqueza se esmaece diante da exploração econômica das áreas rurais em que a produtividade tem grande importância (a função social da propriedade aparece, nesse aspecto, como elemento fundante de ordens de desapropriação); de outro lado, a crescente integração de procedimentos de transformação da produção agrícola às unidades rurais, a fim de agregar valor aos produtos, com

42 ROCHA FILHO, José Maria. Curso de Direito Comercial, Parte Geral. 3. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p. 211.

43 COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 251.

27

reflexos na organização econômica da atividade, torna mais tênue a distinção entre produtor rural e empresário. 44

Do disposto nos arts. 966, caput, e 967, ambos do Código Civil de 2002 45 , considera-se empresário quem exerce atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços, de forma profissional, e que tenha registro prévio perante a Junta Comercial. São três os requisitos: atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços; profissionalidade; registro prévio. No aspecto subjetivo de quem exerce a empresa, tal como traçado pelo art. 2.082, do Código Civil Italiano 46 , percebe-se que, freqüentemente, o produtor rural exerce sua atividade profissionalmente, assumindo os riscos da empresa, dedicando a ela todo o tempo necessário para que obtenha o máximo de resultado, buscando maior produtividade. Não se trata de produção ocasional e/ou para consumo próprio. Amiúde, o produtor exerce sua atividade rural, destinada à produção e circulação de bens, de forma organizada, técnica e economicamente, com empregados contratados por tempo indeterminado, outros contratados sazonalmente, ou até mesmo tendo familiares inseridos na atividade. Isso, sem se olvidar o concurso de contadores, para os registros e formalidades, que, com aqueles outros, formam um núcleo organizado, unindo os objetivos individuais do produtor rural e os de seus colaboradores. Considerando-se a enorme influência do Código Italiano de 1942 em nossa atual legislação, vale recordar o que ensina o Prof. WILLE DUARTE COSTA: “na Itália, o empresário agrícola é empresário como os demais, com a diferença de que a ele não

44 SZTAJN, Rachel. Teoria Jurídica da Empresa: atividade empresária e mercados. São Paulo: Atlas, 2004, p. 24. 45 CC, art. 966: “Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços.” Art. 967: “É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade.”

46 Código Civil italiano, art. 2.082: “E´ imprenditore chi esercita professionalmente un´ attività economica organizzata (2555, 2565) al fine della produzione o dello scambio di beni o di servizi (2135, 2195)”. In:

COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994.

28

se impõe a inscrição no Registro de Empresas, salvo se se tratar de sociedade mercantil.” 47 Conclui-se que o que qualifica uma pessoa, natural ou jurídica, como empresária, é a natureza de sua atividade. Por isso, realmente é cada vez mais tênue a diferença entre o produtor rural e o empresário. Outro ponto a ser considerado pertine ao registro. Nos primórdios do Direito Comercial, o exercício da mercancia dependia da prática de atos de comércio e do registro na corporação de ofício. Posteriormente, a Legislação Francesa suprimiu o registro corporativo, ao adotar o critério objetivo para identificação do comerciante. Com o Código Napoleônico, que adotou o conceito objetivista, da teoria dos atos de comércio, todos os cidadãos estavam sujeitos a ele, reafirmando o conceito de igualdade perante a Lei, da Revolução Francesa. No Brasil, desde 1808 vem sendo regulamentado o registro do comércio, que teve início com o ato de D. João VI, que criou o Tribunal da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábrica e Navegação do Estado do Brasil e Domínios Ultramarinos, sendo sucedido pelos Decretos ns. 2.672 de 1875, e 6.384, de 1876, bem como o Decreto n. 916, de 1890, Lei n. 4.726, de 1965, Lei n. 8.934, de 1994 e o nosso atual Código Civil. Nos termos da Lei n. 8.934/94, o registro tem por escopo dar garantia, publicidade, autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos dos empresários, mantendo atualizadas suas informações pertinentes. A partir do registro, a pessoa passa a gozar das prerrogativas próprias do empresário, devendo ser implementado antes do início da atividade, como dispõe o art. 967, já transcrito. Caso a pessoa não proceda ao registro, não haverá nenhuma sanção específica a ser-lhe imposta, mas esta arcará com restrições legais – tais como impedimento ao requerimento de falência de outrem ou sua própria recuperação judicial, confusão entre a pessoa do sócio com a da sociedade –, e terá a pecha de irregular.

47 COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 261.

29

Ao tempo do vetusto Código Civil Brasileiro, de 1916, o Mestre JOÃO EUNÁPIO BORGES 48 já ensinava que o registro era teoricamente facultativo, mas praticamente obrigatório. Veja-se o que dispõem os arts. 971 e o 984, caput, do Código Civil brasileiro,

in verbis:

Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode, observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro.

Art. 984. A sociedade que tenha por objeto o exercício de atividade própria de empresário rural e seja constituída, ou transformada, de acordo com um dos tipos de sociedade empresária, pode, com as formalidades do art. 968, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da sua sede, caso em que, depois de inscrita, ficará equiparada, para todos os efeitos, à sociedade empresária.

Por sua redação, o produtor rural é ou pode ser considerado empresário, mesmo sem o registro na Junta Comercial. Afinal, já é tido pelo legislador como empresário, como pessoa que exerce atividade empresária, mesmo sem registro próprio, como se infere da leitura do art. 971. O Código Comercial Brasileiro, de 1850, estabelecia que o registro do comerciante era facultativo, e sua falta implicava em restrições ao pleno exercício de prerrogativas do comerciante regular. Isso demonstra, pois, que não era o registro que conferia o status de comerciante a alguém, vez que era entendido por comerciante aquele que habitualmente praticasse atos de comércio. Com isso em mente, conclui-se que o registro, além de facultativo, apenas declarava a condição de comerciante. O Prof. WILLE DUARTE COSTA é taxativo ao ensinar que “o registro não é constitutivo de direito entre nós e, quando muito, pode servir como princípio de prova da qualidade de comerciante.” 49 A partir do Código Civil de 2002, voltou-se à idéia do registro obrigatório, como nos tempos das corporações de ofício, mas sem prever sanções diretas à sua

48 BORGES, João Eunápio. Curso de Direito Comercial Terrestre. 5 ed., 4 tiragem, Rio de Janeiro:

Forense, 1991, p. 174. 49 COSTA, Wille Duarte. A Possibilidade de Aplicação do Conceito de Comerciante ao Produtor Rural. Tese (doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 1994, p. 71.

30

ausência, permanecendo a postura de obstáculos a prerrogativas conferidas aos empresários regularmente registrados. Não obstante, apesar de obrigatório o registro, quanto aos efeitos nada foi mudado, permanecendo este tão somente declaratório 50 da condição de empresário. Por isso, sem o registro, a pessoa atuará à margem da Lei. Ainda sobre os efeitos desse registro, assim pondera o Prof. JOSÉ MARIA ROCHA FILHO:

O registro na Junta Comercial, embora obrigatório (Lei n. 10.406, art. 967), não

é constitutivo, mas simplesmente declaratório da qualidade de empresário. Pelo

menos por enquanto. [

houver prova de que o inscrito no Registro Público de Empresas Mercantis (Junta Comercial) não exercita, profissionalmente, atividade própria de empresário, não adquire ele a condição de empresário.

Mas, considerando nosso Direito Positivo atual, se

]

51

Em sentido semelhante se pronunciou o, àquele tempo, Min. VICENTE CERNICCHIARO, do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA:

A natureza da sociedade, então, é definida pelo objetivo social. O registro no

órgão competente é meramente declaratório. Faltando-lhe o efeito constitutivo,

decisiva é a atividade final. 52

Nesse ponto, imperiosa a recordação de VALVERDE, ao ensinar sobre o sujeito passivo em ação de falência:

As formalidades legais prescritas para o exercício do comércio tendem a regularizá-lo ou a conceder direitos e prerrogativas ao comerciante. Haja ou não

50 Sustenta-se a opinião, porque apenas o registro perante a Junta Comercial não confere ao produtor rural, pelo que exige o Código Civil, a condição de empresário; e, porque o art. 971, do CC, chama o produtor rural de empresário antes mesmo de ele ter aquele registro. Corroborando essa opinião, explica Maximilianus Cláudio Américo Führer, ao tratar do sujeito passivo no processo de falência, no caso do art. 4º, VII, do revogado DL n. 7.661/45 (devedor que cessou o exercício do comércio há mais de dois anos): “a falta de cancelamento do registro na Junta Comercial é irrelevante, se ficar provada a cessação das atividades comerciais há mais de dois anos (RT 388/176, 452/87, 476/97; RF 253/311). Assim como a baixa na Junta não prevalece contra prova de exercício posterior ao ato registrado (art. 4º, VII, LF)”, in:

Roteiro das falências e concordatas. 17. ed., São Paulo: RT, 2000, p. 27-28 e Luiz Tzirulnik, ao explicar que “o empresário rural só terá a qualidade efetiva de empresário mediante o exercício da atividade, já que o registro, embora seja obrigação legal, não é pressuposto para a confirmação da qualidade de empresário”, in: Empresas e Empresários, 2. ed., São Paulo: RT, 2005, p. 34.

51 ROCHA FILHO, José Maria. Curso de Direito Comercial, Parte Geral. 3. ed., Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p. 87.

52

STJ, 2ª T., Resp n. 3.664, rel. Min. Vicente Cernicchiaro, DJU 9/10/1990.

31

cumprido essas formalidades e não se modificará a sua qualidade, que deflui dos atos de mercancia, praticados, habitualmente, por profissão. Conclui-se, portanto, que nem a matrícula, nem a inscrição da firma, ou razão social, nem o arquivamento do instrumento do contrato ou dos estatutos, no Registro do Comércio dão, por si só, à pessoa física, ou jurídica, a qualidade de comerciante. São simples presunções do exercício regular do comércio.

53

O produtor rural – que assim é chamado em função de sua atividade e, não, por causa da localização onde se exerce a empresa –, antes mesmo de sua inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis, já foi considerado empresário. O registro serve para confirmá-lo, declará-lo empresário, submetendo-o às normas do Direito Comercial, não cabendo dizer que, no tocante ao empresário rural, o registro teria o efeito constitutivo. 54 Conclui-se que não há dispensa do registro. Mas, o só fato de se ter o registro na Junta Comercial não confere ao produtor rural a condição de empresário, pois deve ele, além do registro, desempenhar atividade rural com caráter empresarial. LUIZ TZIRULNIK alerta: “o empresário rural só terá a qualidade efetiva de empresário mediante o exercício da atividade, já que o registro, embora seja obrigação legal, não é pressuposto para a confirmação da qualidade de empresário.” 55 Vê-se, pois, que o traço empresarial da venda surge das características do vendedor e, não, do comprador, como ocorre também com as duplicatas, no dizer de BARBI FILHO 56 . Pensando assim, facilmente se percebe que o objeto da CPR pode ser oriundo de uma atividade empresarial, apesar disso não ser a ela imprescindível. Outro ponto: o fato de a CPR ter origem, necessariamente, em uma venda futura de produto rural não impede de considerá-la um título de crédito, pois este pode, perfeitamente, constituir objeto de uma compra e venda. WALDEMAR FERREIRA já ensinava, décadas antes da criação da CPR, que o título de crédito “pode ser

53 VALVERDE, Trajano de Miranda. Comentários à Lei de Falências. Vol. I, 4 ed., revista e atualizada. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p. 15.

CASTRO, Moema Augusta Soares de. Manual de Direito Empresarial. Rio de Janeiro: Forense, 2007,

54

p.51.

55 TZIRULNIK, Luiz. Empresas e Empresários, 2. ed., São Paulo: RT, 2005, p. 34.
56

BARBI FILHO, Celso. A Duplicata Mercantil em Juízo. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 8.

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representativo de bens, de tôda natureza, móveis ou imóveis, produtos agrícolas, mesmo ainda pendentes.” 57 (sic). Ademais, sabe-se que a duplicata, como título causal, só pode ser emitida em decorrência de uma compra e venda mercantil ou de uma prestação de serviços, sem, por isso, perder sua condição de título cambiariforme. ASCARELLI ensina que os títulos se prendem à relação fundamental e exemplifica: o conhecimento pressupõe o contrato de fretamento ou de transporte, o conhecimento de depósito pressupõe o contrato de depósito, esclarecendo que são nessas hipóteses que a doutrina se refere a títulos causais, em decorrência da íntima conexão entre o título de crédito e sua relação fundamental 58 . A bem da verdade, na grande maioria dos casos, o título de crédito estará vinculado a um negócio que lhe deu origem, podendo as partes que o entabularam discuti-lo. Mas, pode ocorrer a emissão e circulação de uma cambial sem a ciência, ou até mesmo contra a vontade do devedor ou endossatário, e, ainda assim, o terceiro possuidor de boa-fé terá garantido o seu direito, vez que o vínculo cambial deriva da assinatura 59 , o que evidencia que não se trata, simplesmente, de se falar em doutrina contratual. Afinal, a partir do primeiro endosso efetivado, o devedor não terá mais o direito de opor exceções pessoais ao endossatário, como poderia fazer com o primeiro beneficiário. Como ensina SARAIVA, “tolhido ao devedor este direito por causa da autonomia do crédito, desaparece a base do vínculo contratual entre o emitente e cada um dos sucessivos endossatários” 60 . Pensa-se, pois, que a CPR deve ser encarada como um título causal, vez que, necessariamente, deve respeitar os motivos que autorizam sua emissão. Não pode ela ser emitida com base em motivo diverso do previsto em lei, que é a compra e venda de produto rural. Mas, não perde sua autonomia por isso, vez que não se pode confundir a declaração cartular e a declaração fundamental. Conforme lição de

57 FERREIRA, Waldemar. Tratado de Direito Comercial, vol. VIII, São Paulo: Saraiva, 1962, p. 79. 58 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 39.

59 SARAIVA, José A. A Cambial. Vol. 1, Rio de Janeiro: José Konfino, 1947, p. 139. 60 SARAIVA, José A. A Cambial. Vol. 1, Rio de Janeiro: José Konfino, 1947, p. 101.

33

ASCARELLI, “são justamente os títulos de crédito causais aquêles em que a prática mercantil se mostra mais fecunda, multiplicando-os continuamente.” 61 (sic). Se a CPR, como título causal, for perfeita na forma e na substância, observando-se os requisitos da Lei n. 8.929/94, ela poderá circular como qualquer outro título abstrato, com idêntica eficácia, desaparecendo o vínculo contratual. Nesse ponto, nota-se semelhança da CPR com os conhecidos títulos representativos. Esses, explica FRAN MARTINS 62 , são títulos causais que, apesar de visarem a circulação do direito, a circulação da mercadoria, não exprimem verdadeira operação de crédito, mas representam mercadorias ou bens que fundamentam sua existência. Pode-se entendê-los como sendo títulos que incorporam o direito de crédito ao recebimento de determinadas mercadorias, atribuindo-o ao possuidor do título, conforme lição de FIORENTINO 63 , com base no disposto no art. 1.996, do Código Civil Italiano de 1942 64 , que trata dos títulos representativos. Caracterizam-se, pois, por representarem mercadorias ou bens e darem ao possuidor o poder de exercer certos direitos sobre aqueles, v.g., transferindo-os a terceiros, com o documento que os representa, ou constituindo direitos reais sobre os bens e, também, por obedecerem, em certos aspectos, aos princípios norteadores dos títulos de crédito em geral. Os títulos representativos, ensina FRAN MARTINS, “se beneficiam desses princípios para mobilizar o crédito tendo por base mercadorias ou bens de que os portadores dos títulos em regra podem dispor.” 65 Além disso, é certo que a CPR, como outros títulos representativos, v.g., o conhecimento de depósito e o warrant, reveste-se de certos requisitos dos títulos de crédito próprios, encerrando direitos de crédito e utilizando as normas cambiárias para circular, com as garantias que caracterizam aqueles.

61 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943,

p. 159.

62

63

MARTINS, Fran. Títulos de Crédito. Vol. II. Rio de Janeiro; Forense, 1998, p. 253.

FIORENTINO, Adriano apud MARTINS, Fran. Títulos de Crédito. Vol. II. Rio de Janeiro; Forense, 1998,

p. 253.

Código Civil Italiano: “Art 1996 Titoli rappresentativi. [I]. I titoli rappresentativi di merci attribuiscono al possessore il diritto alla consegna delle merci che sono in essi specificate, il possesso delle medesime e il potere di disporne mediante trasferimento del titolo.”. In: MARTINS, Fran. Títulos de Crédito. Vol. II. Rio de Janeiro; Forense, 1998, p. 253.

64

65

MARTINS, Fran. Títulos de Crédito. Vol. II. Rio de Janeiro; Forense, 1998, p. 254.

34

Essas considerações, sobre os chamados títulos representativos, guardam íntima relação com a CPR. No que tange à CPR Financeira, criada a partir da modificação implementada pela Lei n. 10.200/2001, modalidade em que não se obriga à entrega de produtos, mas, sim, do valor equivalente em dinheiro, entende-se ser ela um título de crédito próprio, por encerrar verdadeira operação de crédito, conforme lição de CARVALHO DE MENDONÇA: “a operação de credito por excellencia é a em que a prestação se faz e a contraprestação se promette em dinheiro.” 66 (sic). Além de todos esses aspectos, vale recordar que as pessoas autorizadas a emitir CPR não são impedidas de emitir outros títulos de crédito. Exemplo disso é o fato de um produtor rural, sua associação ou cooperativa poder emitir letras de câmbio, cheques, notas promissórias etc Tendo-se em conta que a CPR surgiu no direito pátrio pela necessidade de se agilizar a venda do produto rural, evidencia-se mais uma semelhança entre ela e os títulos de crédito, que têm por objetivo, precisamente, a circulação do crédito e a mobilização da riqueza. Ensina o festejado ASCARELLI, logo na Advertência de sua obra 67 , que “os títulos de crédito formam um instituto jurídico destinado a facilitar a “circulação” dos direitos”, concluindo, por fim, “ser impossível, com as normas do direito comum, conseguir a “circulação” dos direitos de crédito”. Seguindo essa lição, COELHO 68 pondera que a diferença basilar entre o regime cambiário e as regras dos demais documentos representativos de obrigações está nos preceitos que facilitam ao credor encontrar pessoas interessadas em antecipar o valor da obrigação, em troca da titularidade do crédito, sendo que as regras cambiárias conferem a essa pessoa maiores garantias que as regras do direito comum. Ainda sobre tal diferenciação, WHITAKER ensina:

O credito declarado num documento commum de divida póde ser exigido, modificado ou transferido, independentemente do respectivo titulo, que é prova mas não condição de sua existência; nos títulos de credito, porém, o titulo é a prova indispensável do credito – “é, por assim dizer, o próprio credito reduzido a uma forma sensível”(8), - e exerce sobre este uma tal influencia que, sem elle

66 MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de Direito Commercial Brasileiro, v. V, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1938, 3. ed., 2 parte, n. 458, p. 51.

ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. de Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva,

1943.

68 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de Direito Comercial. Vol. 1, São Paulo: Saraiva, 1998, p. 365.

67

35

ou fora delle, o credito não se póde nem exigir, nem modificar ou transferir 69 (sic).

WALDEMAR FERREIRA põe a pá de cal sobre o tema:

As diferenças assinaladoras da obrigação comercial obedecem à simplicidade das fórmulas, levadas a cabo pelos mercadores em labor de séculos, derrogando e modificando certos princípios dos contratos civis, que entorpeciam e dificultavam a vida comercial; ou criando outros contratos que o tráfico mercantil tornou necessários. Onde elas principalmente se fizeram sentir foi no Direito Marítimo e no Cambiário. Destinada a obrigação mercantil a facilitar o problema circulatório da riqueza, não podia, em geral, acomodar-se às formas hieráticas e solenes dos contratos civis. Nem o processo, para torná-los eficazes, poderia ser amplo e severo como o civil. Se quanto à primeira, impera a fórmula da verdade sabida e da boa-fé guardada, quanto ao segundo, interessa encontrar modo e maneira de tornar a realidade o lema do comércio:

o tempo é dinheiro 70 .

Recordando, uma vez mais, os elementos essenciais do crédito, evidencia-se a proximidade entre a CPR e um título cambiário. Naquela, a confiança está presente, à medida que há promessa de pagamento futuro, assim como a confiança do credor no devedor, que pode repousar em garantias reais. Está presente o tempo, que é o intervalo entre a prestação atual e a futura. Pela breve recordação sobre os elementos comuns dos títulos de crédito, viu- se que são eles a cartularidade, a literalidade e a autonomia, também presentes na CPR. E, conforme ensina CARVALHO DE MENDONÇA, “os documentos das obrigações, desde que se apresentam literal e autonomamente, alistam-se, no direito commercial, entre os titulos de crédito.” 71 (sic). A negociabilidade, evidenciada na facilidade da circulação do crédito documentado, pode ser entendida como o elemento que mais diferencia as cambiais dos demais documentos representativos de obrigações. WHITAKER ensina que a existência de cláusula “à ordem” é “o antecipado consentimento a essa circulação” 72 .

69 WHITAKER, José Maria. Letra de Câmbio. 2 ed., rev. e augmentada. São Paulo: Livraria Acadêmica, 1932, p. 15.

70

FERREIRA, Waldemar. Tratado de Direito Comercial, vol. VIII, São Paulo: Saraiva, 1962, p. 9.

71 MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de Direito Commercial Brasileiro, v. V, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1938, 3. ed., 2 parte, n. 459, p. 52.

72 WHITAKER, José Maria. Letra de Câmbio. 2 ed., rev. e augmentada. São Paulo: Livraria Acadêmica, 1932, p. 18.

36

Outro elemento que referenda essa posição e que não pode ser desconsiderado é a existência da possibilidade do aval na CPR, vez que, indubitavelmente, o aval é instituto de direito cambial. Ensina o festejado civilista CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA:

Não há confundir fiança e aval. Ambos são tipos de garantia pessoal, mas, enquanto a fiança é uma garantia fidejussória ampla, e hábil a aceder a qualquer espécie de obrigação, convencional, legal ou judicial, o aval é restrito aos débitos submetidos aos princípios cambiários.

73

Alerta o Prof. WILLE DUARTE COSTA que o aval é “uma garantia típica cambiária que não existe fora do título de crédito” 74 , posição bem definida também por AZEREDO SANTOS, ao afirmar que “aval e fiança não são sinônimos. O aval está sempre vinculado a título de crédito.” 75 Situações há em que se recorre a institutos do direito comum, mas deve-se reconhecer que tais institutos, por mais valiosos e úteis que sejam, são imperfeitos, quando o objetivo é a circulação do crédito. E, não é pelo fato de constar no art. 10, da Lei n. 8.929/94 76 , que as normas de direito cambial se aplicam à CPR “no que forem cabíveis”, que esta não é um título de crédito. Nesse aspecto, oportuna a explicação de ROSA JÚNIOR, ao tratar de tema semelhante, no que tange à duplicata:

] [

duplicata e à triplicata no que couber (LD, art. 25). Disso resulta que as normas dos mencionados diplomas legais só se aplicam à duplicata e à triplicata no caso de lacuna da Lei n. 5.474/68 e se não contrariarem a feição característica

da duplicata [

as normas da LUG e do Decreto n. 2.044/1908 só podem ser aplicadas à

]

77

.

E continua, mais à frente:

73 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. Vol. III, 4. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1978, p. 457.

74

76

77

COSTA, Wille Duarte. Títulos de Crédito. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 199.

75 SANTOS, Theóphilo de Azeredo. Manual dos Títulos de Crédito. Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1971, p. 174.

L. n. 8.929/94, art. 10: “Aplicam-se à CPR, no que forem cabíveis, as normas de direito cambial, com as seguintes modificações:” – grifo nosso.

ROSA JR., Luiz Emygdio F. da. Títulos de Crédito. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 640.

37

A legislação sobre emissão, circulação e pagamento das letras de câmbio só se

aplica, subsidiariamente, à duplicata no que couber (LD, art. 25), isto é, na parte em que não afetar o seu traço marcante, qual seja, documentar o saque pelo vendedor da mercadoria ou pelo prestador de serviços da importância faturada

ao comprador ou beneficiário do serviço

78

.

Expressão semelhante consta do art. 29, da Lei n. 10.931/2004 79 , que dispõe sobre a Cédula de Crédito Bancário, sem que, com isso, essa Cédula perca sua condição de título de crédito. Na Lei de CPR consta “no que forem cabíveis”; na de Cédula de Crédito Bancário, “no que couberem”. O raciocínio deve ser o mesmo quanto à CPR. O que se extrai daquele dispositivo é justamente que as normas de Direito Cambiário são aplicáveis à CPR, na parte em que não afetar seus traços marcantes, que são a compra e venda de produto rural, além das alterações constantes daqueles incisos, do art. 10, relativas ao endosso, aos endossantes, aos avalistas e ao protesto. Veja-se a afirmação de ASCARELLI, ao se referir ao título de crédito como o documento em que se incorpora o direito nele mencionado:

Caráter constante, porém, de todos, é que constituem um documento; escrito; assinado pelo devedor; formal, no sentido de que é submetido a condições de forma, estabelecidas justamente para identificar com exatidão o direito nele

mencionado e as suas modalidades, a especie do titulo de credito (daí nos títulos cambiários até o requisito da denominação), a pessoa do credor, a forma

de circulação do título e a pessoa do devedor.

80

(sic).

Do exposto, conclui-se que a CPR é um título representativo – título de crédito, portanto –, por ser documento escrito, com denominação própria, submetido à certa forma, a identificar o direito nele mencionado e as pessoas do credor e do devedor, prevendo a forma de circulação. Trata-se, pois, de título de crédito previsto em lei específica e, em função de determinadas particularidades, possui regras próprias em alguns momentos, tais como os seus requisitos essenciais e as diferenças entre ela e os demais títulos de créditos, expostas, especialmente, nos incisos I, II e III, do art. 10, da Lei n. 8.929/94.

78 ROSA JR., Luiz Emygdio F. da. Títulos de Crédito. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 651.

79 L. n. 10.931/2004, art. 29, § 1º: “A Cédula de Crédito Bancário será transferível mediante endosso em

preto, ao qual se aplicarão, no que couberem, as normas do direito cambiário [

ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 29.

80

]” – grifo nosso.

38

O Prof. WILLE DUARTE COSTA 81 ensina que, em se tratando de título de crédito típico existente no Direito brasileiro, este se filia, por referência expressa, à disciplina da legislação cambiária e, por isso, é denominado título cambiariforme. Tais considerações acerca da natureza jurídica convidam à reflexão. Afinal, como manifestado por ASCARELLI:

O problema dos títulos de crédito é, mais que qualquer outro, um problema de tecnica juridica, pois com frequencia, a dificuldade não reside na interpretação da norma ou na individuação do fim visado pelo legislador, mas na coordenação da norma no sistema geral. E justamente por isso lembramos que o problema dos titulos de credito tem origem no contraste entre as exigencias da circulação e as regras do direito comum.

É, portanto, essa coordenação das normas relativas aos titulos de credito no ambito do sistema geral, o unico caminho que pode conduzir à solução dos problemas não resolvidos expressamente pelo legislador e ao aperfeiçoamento do instituto através da formulação dos seus principios gerais (sic).

82

Nesse sentido, o referido Autor explica que é preciso ter em conta tanto as exigências econômicas a que o instituto jurídico deve corresponder, como também a necessidade de se satisfazer tais exigências com princípios jurídicos precisos. Assim, obedecendo ao primeiro preceito, será alcançado um direito vivo e justo; obedecendo ao segundo, será possível torná-lo certo. Conforme asseverado por WALDEMAR FERREIRA:

Para o homem de negócios, nada de maior utilidade haveria do que obter certificado ou título que pudesse transferir, com a mesma facilidade que qualquer bem móvel, e lhe conferisse direito próprio, justificado pela exibição do título, à prestação, nêle de qualquer maneira incluída, sem necessidade de fazer descer sua perquirição até o credor primitivo, em cujos direitos se houvesse investido. Transmissibilidade rápida, penetração do direito no título e, por isso mesmo, independência respectiva de todo portador, doutrinou Edmond Thaller, eis os atributos dos títulos de crédito, eis o que lhes fez a fortuna 83 (sic).

Tal observação, datada de 1962, é atualíssima. Tendo-se isso em conta e, vencida a questão da natureza da CPR, o propósito é, pois, de se chegar a um direito vivo, justo e certo, no que toca à cambial analisada.

81 COSTA, Wille Duarte. Título de Crédito. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 36. 82 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 18.

83

FERREIRA, Waldemar. Tratado de Direito Comercial, vol. VIII, São Paulo: Saraiva, 1962, p. 78.

39

WALDEMAR FERREIRA, na obra acima citada, compara os títulos de crédito, por terem reformado o mundo dos negócios, à alavanca de Arquimedes 84 . Por quê, então, não lançar mão de tão importante ferramenta? Por último, de recordar o parecer do SENADO FEDERAL em relação ao então Projeto de Lei da Cédula de Produto Rural, que trouxe a seguinte definição:

A Cédula de Produto Rural é uma cambial pela qual o emitente vende

antecipadamente a sua produção agropecuária, recebe o valor da venda no ato

da formalização do negócio e se compromete a entregar o produto vendido no

local e data estipulados no título (Senado Federal – Parecer de Plenário, publicado no DCN, Seção II, de 11/8/1994).

85

Feitas essas considerações relativas à natureza da CPR, quanto à sua classificação, esse título pode ser assim entendido: título de crédito impróprio ou cambiariforme – assemelhado por lei aos títulos de crédito, para fins de circulação; privado – em regra, é emitido por pessoas privadas, naturais ou jurídicas, mas é possível a sua emissão por ente público; singular – é emitido para um caso concreto; causal – nasce de uma causa determinada, de um negócio típico fundamental, que é a compra e venda de produto rural e está legalmente vinculado à sua origem 86 ; à ordem ou endossável – o signatário se obriga a entregar ou mandar entregar à pessoa indicada, ou à sua ordem, certa quantidade de coisas fungíveis. Sua transferência se opera através da tradição documentada com a assinatura lançada no título.

9.2 Dos Requisitos da Cédula de Produto Rural

Após essas considerações, acerca da aplicabilidade das regras cambiárias à CPR, passa-se à análise de seus requisitos.

84 FERREIRA, Waldemar. Tratado de Direito Comercial, vol. VIII, São Paulo: Saraiva, 1962, p. 79.

85 PEREIRA, Lutero de Paiva. Comentários à Lei de Cédula de Produto Rural. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2003, p. 198.

Tal característica é relevante, pois se a CPR fosse título abstrato, o devedor poderia dispor dos privilégios dessa cambial, mas sem atender aos seus fins particulares. In: ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 194/195.

86

40

Conforme ensinado por DE SEMO, “por requisitos cambiários devem entender-se aqueles elementos de fundo e de forma para que, segundo a teoria geral do direito e a lei, nasça uma declaração de vontade válida.” 87 Por ser documento formal, a validade da CPR depende da existência de determinados requisitos intrínsecos, relacionados à obrigação mencionada na cártula, v.g., a capacidade e o consentimento, que, por serem comuns a todas as espécies de obrigações, não constituem matéria cambiária; e extrínsecos, relativos à Cédula, que a Lei n. 8.929/94 indica para formalização de sua validade. Conforme disposto no art. 4º, da Lei n. 8.929/94, a CPR deve conter as seguintes indicações, lançadas em seu contexto:

I) Denominação “Cédula de Produto Rural: a denominação dada ao título

cumpre o importante papel de caracterizá-lo como título de crédito e determinar a sua espécie, conforme explicação de ROSA JÚNIOR 88 . Deve a denominação estar inserida no título, a fim de que seus subscritores possam identificar o documento como uma CPR, estando cientes da obrigação que assumiram. Por se exigir a denominação inserida no título, não basta intitular o documento como Cédula de Produto Rural; tal denominação deve estar inserida no texto. Caso contrário, o documento não poderá ser usado na via executiva. WHITAKER ensina que o uso da denominação no título “implica uma renuncia aos favores do direito commum, uma acquiescencia formal e solemne ás normas excepcionaes do direito cambiário.” 89 (sic);

II) Data da entrega: a data fixada não deve impossibilitar o cumprimento da

obrigação pactuada, v.g., data anterior à época da colheita do produto, o que obrigaria

o devedor a entregar um bem ainda inexistente. Não constando a data da entrega do produto na CPR, o portador de boa-fé pode completá-la. Pelo mesmo motivo exposto no exemplo da fixação de data anterior

87 DE SEMO Apud ROSA JR

ROSA JR., Luiz Emygdio F. da. Títulos de Crédito. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 477. 89 WHITAKER, José Maria. Letra de Câmbio. 2 ed., rev. e aumentada. São Paulo: Livraria Acadêmica, 1932, p. 49.

88

Títulos de Crédito. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 114.

41

à colheita, entende-se que não se pode considerar a CPR pagável à vista, como ocorre

com a nota promissória, caso falte a data de entrega do produto, principalmente ao se

considerar que a CPR foi criada para que o produtor rural venda sua produção antes mesmo que essa exista efetivamente. Outra consideração pertine ao erro na estipulação do vencimento. Caso se evidencie esse equívoco na cédula, as partes poderão alterá-la, firmando um aditivo, conforme autorização constante no art. 9º, da Lei n. 8.929/94 90 ;

III) Nome do credor e cláusula à ordem: o nome do credor é importante para

identificar o comprador do produto e para que o vendedor saiba a quem deve entregar o

bem, evidenciando que não se admite CPR emitida ao portador. Freqüentemente, vê-se como credor os exportadores de produtos primários e as próprias cooperativas de produtores rurais, mas qualquer interessado poderá figurar como credor, originariamente ou a partir de um endosso. Mas, a CPR pode ser emitida à ordem do beneficiário, o que assegura ao título seu caráter circulatório. CARVALHO DE MENDONÇA 91 conceitua os títulos à ordem como sendo aqueles nos quais o signatário se compromete a entregar ou mandar entregar a uma pessoa indicada, ou à sua ordem, certa quantia em dinheiro ou certa quantidade de coisas fungíveis, no lugar e no tempo determinados. A cláusula à ordem, sabe-se, é implícita nos títulos de crédito, vez que, a partir de sua, o emitente autoriza a circulação da cambial por endosso, mesmo que isso não esteja explícito. Afinal, para que o documento não tenha essa prerrogativa de circulação sob o regime cambiário, é preciso que haja menção expressa à cláusula não

à ordem.

A CPR, como título de crédito que é, tem em si a possibilidade de circulação. Dessa maneira, a promessa feita pelo emitente se dirige a quem seja o legítimo portador da CPR no vencimento.

90 L. n. 8.929/94, art. 9º: “A CPR poderá ser aditada, ratificada e retificada por aditivos, que a integram, datados e assinados pelo emitente e pelo credor, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância.”

91 MENDONÇA, J.X. Carvalho de. Tratado de Direito Commercial Brasileiro. Vol. V, 2 parte. 3. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1938, n. 489, p. 95.

42

IV) Promessa pura e simples de entregar o produto, sua indicação e as

especificações de qualidade e quantidade: essa promessa não pode estar subordinada à condição. Se houver cláusula condicional constante do título, deve-se considerá-la não-escrita. O bem prometido deve ser discriminado, de forma a caracterizá-lo especificamente acerca da quantidade e qualidade. Essa caracterização pode ser atingida pela descrição do tipo, teor de umidade, teor de impureza, quilo, arroba etc., variando conforme o produto. Quanto mais detalhada a indicação, maior segurança haverá para as partes envolvidas. Tendo-se em conta o art. 3º, § 1º, da Lei 8.929/94 92 , vê-se que outras cláusulas podem ser inseridas no título, tal como a que expresse claramente o produto negociado. Caso a Cédula seja imprecisa quanto à identificação do produto, entende-se que deve ela ser alterada oportunamente nesse ponto, sob pena de se revelar imprestável ao credor, impossibilitando-o de exigir judicialmente do devedor a entrega de um bem que não se pode identificar com precisão. Pode acontecer, também, de a coisa identificada não mais existir, ou não ser mais possível a escolha. Nesses casos, a execução para entrega de coisa incerta fatalmente deverá se converter em execução por quantia certa, conforme explicitado nas seguintes decisões:

Apelação cível. Entrega de coisa incerta, fungível. Inexistência da coisa, impossibilidade de escolha. Conversão em execução por quantia certa. Carência de ação por procedimento incorreto repelida. Quando não mais

existe a coisa ou já seja individuada pelo seu número, medida e peso, espécie, qualidade e quantidade, não há processo de escolha, por impossibilidade

objetiva. [

ser na quantidade, espécie e qualidade avençadas na CPR, por inexistir outra

alternativa. Frustrada a busca e apreensão por inexistência da coisa, a execução se converte em execução por quantia certa (CPC, art. 627, § 1º). O valor da coisa é o do dia do pagamento.

Havendo impossibilidade de escolha, a entrega da coisa só pode

]

93

Apelação cível. Direito privado não especificado. Embargos à execução de título extrajudicial. Cédula de Produto Rural. Entrega de coisa incerta. Conversão. Pagamento de quantia certa. Deixando os executados de atender

a determinação judicial para entrega da coisa reclamada, admite-se a conversão da execução para entrega de coisa incerta em procedimento voltado

O art. 4º da Lei

ao pagamento de quantia certa contra devedor solvente. [

]

92 L. n. 8.929/94, art. 3º, § 1º: “Sem caráter de requisito essencial, a CPR poderá conter outras cláusulas lançadas em seu contexto, as quais poderão constar de documento à parte, com a assinatura do emitente, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância.” 93 TJGO, 2ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 54.662-7/188, rel. Des. Aluízio Ataídes de Sousa, j. 8/5/2001.

43

8.929/1994 é expresso quanto à certeza, liquidez e exeqüibilidade da Cédula de Produto Rural pela quantidade e qualidade de produto nela previsto, logo, a pretensão creditória deve ser balizada de acordo com os limites da convenção estabelecida entre as partes, segundo recomenda o princípio da adstrição ao título executado. 94

Dessa forma, nos termos do Código de Processo Civil, se não for possível a entrega do produto mencionado na CPR, ainda resta ao credor converter a execução para a modalidade por quantia certa.

V) Local e condição da entrega: o local da entrega do produto deve ser bem

descrito, com identificação precisa. Se as partes estabeleceram na CPR um local certo

e determinado, é nesse lugar onde deve ser satisfeita a obrigação. Ponto fundamental é dar certeza do local de entrega do produto. Não basta, v.g., informar que a entrega será efetivada no porto de determinada cidade, mas, sim, indicar o terminal e/ou cais do referido porto. Em havendo dúvida, o emitente poderá notificar o credor – caso saiba quem é

o legítimo portador –, para que a incerteza não persista, precisando melhor o local já indicado na CPR. Se, apesar de notificado, o credor não prestar os esclarecimentos necessários, ou se não se souber quem é o legítimo portador da CPR, o emitente poderá promover a consignação judicial do bem 95 , para que não seja constituído em mora.

Na data e no local em que efetivamente se der a entrega do produto, considerar-se-á efetuada a transferência da propriedade do produto ao credor. E, pelo fato de a CPR fundar-se em uma compra e venda, em que o objeto nem sempre existe ao tempo do negócio, v.g., safra futura, caso o devedor não tenha recebido o preço avençado, não estará obrigado a entregar o bem prometido ao credor, podendo opor- lhe essa exceção pessoal 96 , obviamente, se o título não tiver circulado. Se a CPR tiver saído da mão do credor originário, por endosso dele em favor de terceiro, o devedor não poderá opor aquela exceção ao endossatário, terceiro portador de boa-fé.

94 TJRS, 12ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 70020028031, rel. Des. Cláudio Baldino Maciel, j. 11/10/2007.
95

96 CC, art. 491: “Não sendo a venda a crédito, o vendedor não é obrigado a entregar a coisa antes de receber o preço.”

Ver CPC, arts. 890 e seguintes.

44

Outro ponto importante, sobre o local de entrega, relaciona-se à sua inalterabilidade, mesmo em caso de circulação da CPR por endosso. O emitente da Cédula se obriga a entregar o bem prometido no local descrito no título. A alteração do legítimo possuidor da CPR não é suficiente a modificar o local onde deva ser satisfeita a obrigação pelo devedor, salvo com seu consentimento. Nesse caso, a alteração do local deve ser formalizada através de um aditivo 97 , especificando o novo local. Veja-se:

Cédula de produto rural. Cessão. Falta de comunicação ao emitente. Entrega do produto à cessionária. Não é razoável exigir que o agricultor emitente de cédula de produto rural entregue a mercadoria na sede da

cessionária, localizada a mais de mil quilômetros do local da produção. À falta de comunicação da cessão, é eficaz a entrega na sede do estabelecimento da

Havendo o endosso,

que deve ser completo, a natureza da cédula exige a prévia notificação do devedor, para confirmar ou alterar o local da entrega do produto. Sem isso, o emitente permanece sempre com a obrigação de efetuar a entrega do produto no local indicado, mesmo porque o agricultor não pode correr o país para procurar o lugar possível de entrega do objeto da sua prestação, no caso de endosso feito pelo credor [primitivo comprador do produto] às empresas que industrializam ou se atravessam no mercado de produtos agrícolas, localizados nos mais diversos pontos do país. 98

primitiva credora, que recebe o produto e dá quitação. [

]

Além disso, não havendo estipulação expressa em contrário, a cláusula que indica o local de entrega do bem determina o foro competente para eventual ação fundada na CPR (art. 100, IV, “d”, do Código de Processo Civil) 99 .

VI) Descrição dos bens cedularmente vinculados em garantia: essa é uma

cláusula não essencial, pois sua obediência tem fundamento somente se a CPR for emitida com garantia real, cedularmente constituída, já que, conforme disposto no art.

1º, da Lei n. 8.929/94, a Cédula pode ser emitida sem essa garantia. Faltando espaço na CPR, para a descrição do bem conferido em garantia real, um documento à parte poderá ser usado para esse fim 100 .

97 L. n. 8.929/94, art. 9º: “A CPR poderá ser aditada, ratificada e retificada por aditivos, que a integram, datados e assinados pelo emitente e pelo credor, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância.”

98

STJ, 4ª T., Resp. n. 494.052-RS, rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJ 1º/9/2003.

99 CPC, art. 100: “É competente o foro:

omissis IV – do lugar:

omissis d) onde a obrigação deve ser satisfeita, para a ação em que se lhe exigir o cumprimento;”

45

VII) Data e lugar da emissão: a menção à data e ao lugar de em que a CPR foi

emitida devem constar do título. A data é importante para que seja possível auferir se o emitente era capaz juridicamente, para assumir obrigações cambiárias ao tempo da emissão da CPR. E, em havendo pessoa que assine a cambial como mandatário do emitente, para se saber se aquele tinha mandato válido ou poderes especiais 101 . Da mesma forma, a data serve como termo inicial da fluência de juros compensatórios 102 . A fixação da data também pode ser relevante para verificação de emissão da CPR por empresário rural dentro do termo legal da falência 103 . Além disso, como ensina RIPERT 104 , a indicação da data determina o vencimento, caso o título faça menção a um lapso temporal a partir da data de emissão, para se averiguar o dia do pagamento. No que tange ao lugar da emissão, conforme o disposto no artigo ora analisado, se a CPR não o indicar, aquele será considerado o do domicílio do emitente. Mutatis mutandis, da mesma forma que a nota promissória e a letra de câmbio devem conter a indicação da data de sua emissão, sob pena de não serem entendidas como títulos de crédito, a CPR sem indicação da data de sua emissão pode sofrer o mesmo tratamento, não sendo passível, pois, de ser executada judicialmente.

VIII) Assinatura do emitente: aquele que assume diretamente a obrigação de

entregar o produto rural descrito no título deve apor sua assinatura em campo específico da Cédula.

100 L. n. 8.929/94, art. 3º: Omissis. “§ 2º. A descrição dos bens vinculados em garantia pode ser feita em documento à parte, assinado pelo emitente, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância.”

LUG, art. 8º: “Todo aquele que apuser a sua assinatura numa letra, como representante de uma pessoa, para representar a qual não tinha de fato poderes, fica obrigado em virtude da letra e, se a pagar, tem os mesmos direitos que o pretendido representado. A mesma regra se aplica ao representante que tenha excedido os seus poderes.”

102 LUG, art. 5º, 3ª alínea: “Os juros contam-se da data da letra, se outra data não for indicada.” 103 L. n. 11.101/2005, art. 99: “A sentença que decretar a falência do devedor, dentre outras determinações:

101

I – omissis; II – fixará o termo legal, sem poder retrotraí-lo por mais de 90 (noventa) dias contados do pedido de falência, do pedido de recuperação ou do 1º (primeiro) protesto por falta de pagamento, excluindo-se, para essa finalidade, os protestos que tenham sido cancelados.”

104 RIPERT, George. Tratado Elemental de Derecho Comercial. Vol. III trad. de Felipe de Sola Cañizares, com colaboração de Pedro G. San Martin, Buenos Aires: Tipográfica Editora Argentina, 1954, p. 162.

46

De recordar que pode se obrigar, como emitente da CPR, quem tenha capacidade civil ou comercial, sendo certo que o art. 2º, da Lei n. 8.929/94 105 , determina que têm capacidade para emiti-la o produtor rural, suas associações e cooperativas. Sabe-se que as cooperativas de produtores rurais, freqüentemente, não produzem efetivamente o produto, o que permite a conclusão de que o emitente não precisa produzir diretamente o produto negociado. Dessa maneira, uma sociedade empresária que adote o tipo da sociedade limitada – que não se confunde com a pessoa natural do produtor rural, nem com as suas associações ou cooperativas, já que aquelas possuem natureza civil, enquanto essas são consideradas sociedades simples –, constituída para desempenho de atividade voltada ao agronegócio, dedicada à produção rural, pode emitir validamente uma CPR.

Ultrapassada a questão da capacidade, entende-se por emissão a declaração cambiária, originária e necessária, vez que é a primeira manifestação de vontade, na ordem cronológica, constante da Cédula, e é essencial para que se produza efeito como CPR. A Lei n. 8.929/94 não estipula onde, na CPR, deve ser aposta a assinatura do emitente, mas, sugere-se que seja lançada abaixo do texto do título, vez que, assim, o emitente expressa sua anuência com o inteiro teor da Cambial. E, apesar de a mencionada lei não tratar da hipótese de emissão de CPR através de mandato, não significa que isso seja vedado. Se o mandatário tiver poderes para tanto, poderá firmar a CPR em nome do vendedor, por aplicação da Lei Uniforme de Genebra 106 .

Desses oito elementos, viu-se que o sexto não é essencial, pois a CPR poderá ser emitida com ou sem garantia cedularmente constituída.

105 L. n. 8.929/94, art. 2º: “Têm legitimação para emitir CPR o produtor rural e suas associações, inclusive cooperativas.”

LUG, art. 8º: “Todo aquele que apuser a sua assinatura numa letra, como representante de uma pessoa, para representar a qual não tinha de fato poderes, fica obrigado em virtude da letra e, se a pagar, tem os mesmos direitos que o pretendido representado. A mesma regra se aplica ao representante que tenha excedido os seus poderes.”

106

47

Mas, quanto aos demais elementos, a ausência de um poderá comprometer o direito cambiário do credor, pois a omissão de qualquer requisito essencial torna o documento ineficaz cambiariamente, inviabilizando a execução fundada em título executivo extrajudicial. Na falta de algum dos requisitos essenciais, a CPR não conferirá ao credor o direito ao uso da ação cambial, não significando, porém, que a obrigação não exista, ou seja ineficaz juridicamente. O que muda é que o documento valerá como prova de uma obrigação comum, fora do direito cambiário. Conforme ensina RIPERT, “pode ser a prova de uma operação jurídica de caráter civil ou comercial, mas não se aplicará o direito cambiário às relações nascidas dessa operação.” 107 (Tradução nossa). Conseqüentemente, mesmo tendo circulado, o devedor poderá invocar exceções pessoais contra o credor, pois será caso de cessão de crédito e, não, de endosso, sendo que o cedente se responsabiliza para com o cessionário pela existência do crédito ao tempo em que lhe cedeu, na cessão a título oneroso 108 . Afinal, para que um documento tenha a natureza cambiária, deve-se cumprir as exigências impostas por lei, com o fim de assegurar ao portador os direitos mencionados no papel. Veja-se a lição de FRAN MARTINS, ao tratar sobre o formalismo dos títulos:

Cada espécie de título possui, assim, uma forma própria. Isso se obtém através do cumprimento de requisitos, expressamente enumerados na lei. Devem, desse modo, tais requisitos constar obrigatoriamente dos títulos, e do modo

Em regra, se faltar no documento ao menos um

daqueles requisitos considerados essenciais, o escrito não terá valor de título

preconizado na lei. [

]

de crédito, não se beneficiando, assim, do direito especial que ampara esses títulos 109 .

O direito vale tal como declarado no documento, sendo regulado, pois, pelo título, que tem forma sujeita a regras rígidas. ASCARELLI ensina:

107 “Puede ser la prueba de una operación jurídica de carácter civil o comercial, pero no se aplicará el derecho cambiario a las relaciones nacidas de esta operación”. RIPERT, George. Tratado Elemental de Derecho Comercial. Vol. III Trad. de Felipe de Sola Cañizares, com colaboração de Pedro G. San Martin, Buenos Aires: Tipográfica Editora Argentina, 1954, p. 163. 108 CC, art. 295: “Na cessão por título oneroso, o cedente, ainda que não se responsabilize, fica responsável ao cessionário pela existência do crédito ao tempo em que lhe cedeu; a mesma responsabilidade lhe cabe nas cessões por título gratuito, se tiver procedido de má-fé.”

109

MARTINS, Fran. Títulos de Crédito. Vol. I, 13. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 11.

48

É dessa maneira que o direito declarado no título adquire autonomia; passa a ficar rigorosamente delimitado, distinguindo-se do complexo das relações havidas entre as partes, torna-se suscetível de circular, sem arrastar consigo aquêle complexo de relações, e pode proporcionar, ao que o adquire, a necessária segurança 110 (sic).

Sabe-se que o título pode circular em branco ou de forma incompleta. Em qual momento a CPR deve, pois, revestir-se de todos os requisitos legais? A CPR não precisa nascer completa. Deve assim estar, necessariamente, no momento imediatamente anterior ao protesto ou à cobrança judicial, conforme disposto no art. 3º, do D. n. 2.044/1908 111 , confirmado pela Súmula n. 387, do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL 112 . ASCARELLI 113 já ensinava que os requisitos devem coexistir no momento em que se invoca o direito cartular, com base no próprio título. Assim, o portador pode preencher a CPR até esse momento, desde que proceda com boa-fé. Cumpridos esses requisitos, a CPR constitui título executivo extrajudicial, como os demais títulos de crédito. Não obstante, há julgados em que se exigiu outras informações na Cédula, como o lançamento de assinatura de duas testemunhas, para que a CPR fosse entendida como título executivo extrajudicial, o que não se mostra apropriado. Veja-se:

Cédula de Produto Rural – CPR – Exeqüibilidade – Requisitos – Art. 4º da Lei n. 8.929 de 22.08.94 – Preço de mercado – Nome da instituição responsável pela apuração – Índice explicitado – Ausência – Título não exeqüível. A Cédula de Produto Rural – CPR, representativa de promessa de entrega de produtos rurais, emitida por produtor rural e suas associações, inclusive cooperativas, somente constitui título executivo, nos termos no art. 4º da Lei n. 8.929 de 22.08.94, se nela estiverem contidos os requisitos ali exigidos, que propiciem o levantamento do valor do produto, devendo constar na cédula o nome de índice de conhecimento público, bem como da instituição responsável por sua apuração ou divulgação explicitado em seu corpo, com os referenciais necessários à clara identificação do preço do mercado para multiplicação pela quantidade do produto especificado. Não se pode transformar a CPR sem tais requisitos, mesmo se nele constar preço certo, em

110 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, VIII.

111 Tratando dos requisitos da letra de câmbio, o art. 3º, do D. n. 2.044/1908, dispõe que “esses requisitos são considerados lançados ao tempo da emissão da letra. A prova em contrário será admitida no caso de má-fé do portador”.

112 STF, Súm. n. 387: “A cambial emitida ou aceita com omissões ou em branco, pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do protesto.”

113 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 34.

49

título executivo previsto no art. 585 do CPC, se não houver lançamento de assinatura de duas testemunhas, conforme exige o inciso II do mesmo artigo. 114

Agravo de instrumento - Exceção de pré-executividade - Cópia de contrato - Ausência de assinatura dos contratantes e autenticação na primeira página da cédula desvalidade do título - Extinção do processo executivo - Honorários advocatícios. Excepcionalmente, poder-se-ia admitir a instrução da inicial da execução com cópia da Cédula de Produto Rural, por não se tratar de título que circula, sendo, entretanto, imprescindível a assinatura dos contratantes em todas as vias do título, bem como sua autenticação; ausentes tais pressupostos, não se pode considerá-la título executivo extrajudicial hábil ao manejo da execução. É de se acolher a exceção de pré-executividade, declarando-se a nulidade do feito executivo por falta de uma das condições da ação, extinguindo, por conseguinte, o processo, sem apreciação do mérito, nos termos do artigo 267, incisos IV e VI, do Código de Processo Civil. Acolhida a exceção de pré-executividade, extinguindo-se, assim, a execução intentada, cabível a condenação em honorários advocatícios, à luz do artigo 20, § 4º, do Código de Processo Civil. 115

Infere-se dos acórdãos que o entendimento era, pelo menos quanto a essas ações, no sentido de entender a CPR como contrato e, não, como título de crédito, vez que exigiu-se a assinatura de duas testemunhas, para que fosse entendida como título executivo extrajudicial, ou até mesmo a instrução da execução com cópia da CPR, o que não se coaduna com os títulos de crédito, que devem ser juntados aos autos, obrigatoriamente, em original, para garantir sua retirada de circulação. Com respeito aos que assim pensam, especialmente no que toca às assinaturas de testemunhas, entende-se que a CPR não necessita disso para se tornar um título executivo extrajudicial. Da mesma forma que a Cédula de Crédito Rural, a Cédula de Crédito Bancário e a Cédula de Crédito Industrial são títulos executivos extrajudiciais, independentemente da assinatura de duas testemunhas, apesar de não estarem expressos no art. 585, do Código de Processo Civil, a CPR também o é, sem sombra de dúvidas, mesmo sem assinatura de duas testemunhas 116 . Felizmente, o entendimento dos julgados acima indicados não prevalece, como se infere nas seguintes decisões, mais recentes, do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE MINAS GERAIS:

114 TAMG, 1ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 335.392-8, rel. Juíza Vanessa Verdolim Andrade, j. 12/6/2001.
115

116 “Não é requisito da cédula de produto rural a presença de duas testemunhas” (TJGO, 3ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 51.518-1/188, rel. Des. Gercino Carlos Alves da Costa, j. 28/3/2000).

TJMG, 9ª Câm. Cív., AI n. 1.0115.05.007940-5/001, rel. Des. Osmando Almeida, j. 24/10/2006.

50

Agravo de instrumento. Execução por quantia certa. Exceção de pré- executividade. Cédula de Produto Rural. Título que possui legislação específica. Desnecessidade da assinatura de duas testemunhas. Nulidade do título afastada. É dispensável a assinatura de duas testemunhas para que

a cédula de produto rural tenha eficácia de título executivo, a teor do disposto no artigo 3º da Lei nº 8.929/94. 117

Processual civil. Apelação. Ação de execução. Cédula de Produto Rural. Título de crédito em fotocópia. Impossibilidade. Honorários advocatícios. Fixação. Valor da causa. Recurso não provido. A cédula de produto rural é

título de crédito e tem circulação comercial, motivo pelo qual deve ser exibida em original, ao ajuizar a ação de execução, salvo situação excepcional. Ante a inexistência da excepcionalidade, torna-se inadmissível lastrear ação de execução com título de crédito em fotocópia. Os honorários advocatícios podem ser arbitrado por parâmetro do valor da causa, desde que guarde sintonia com

o previsto no art. 20, § 4º, do CPC. 118

Da análise dos requisitos essenciais da CPR, pode-se observar que a Lei não contemplou a necessidade do estabelecimento do preço do produto rural negociado. Insta perguntar, então: omitiu-se o legislador? Não constando na CPR a fixação do preço do produto rural negociado, isso não significa que aquele preço não foi estipulado e que tal fixação poderá ficar a bel prazer do comprador ou do vendedor, mesmo porque a emissão da CPR tem como origem a compra e venda de produto rural descrito no título, e este tem suas regras, conforme determinação do Código Civil, in verbis:

Art. 489. Nulo é o contrato de compra e venda, quando se deixa ao arbítrio exclusivo de uma das partes a fixação do preço.

Contudo, por ser título de crédito e, principalmente, pela possibilidade de negociação em Bolsa de valores e mercado de balcão, deve-se analisar tal fato de outra forma. Se a CPR for emitida sem o preço do produto, e o credor, preenchendo a Cédula, limite-se ao que foi pactuado, não haverá vício. O que se veda é que o credor preencha o título abusivamente, desrespeitando o acordado. Nesse caso, a argüição de preenchimento abusivo poderá ser provada através de convenção prévia entre emitente

117 TJMG, 9ª Câm. Cív., AI, 1.0620.03.002284-7/001(1), rel. Des. Generoso Filho, j. 15/5/2007. 118 TJMG, 17ª Câm. Cív., Ap. Cív. 1.0003.06.016987-1/001, rel. Desª. Márcia de Paoli Balbino, j.

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e credor, sobre o conteúdo da CPR, incumbindo ao emitente produzir essa prova, lembrando que a circunstância não poderá ser oposta a terceiro de boa-fé 119 . Por se tratar de um título negociável em bolsa, não se pode condenar a inexistência do preço na CPR. Afinal, esta pode ser emitida, com prévio ajuste, com preço de liqüidação atrelado a um índice financeiro ou cotação em bolsa. Trata-se da chamada CPR Financeira indexada, em que o preço será definido na data de vencimento constante da Cédula. Muito já se falou acerca da expressão “quantia determinada”, constante do art. 1º, n. 2, da LUG, entendendo vedada a emissão de cambial indexada, salvo em caso de cambial vinculada a contrato de aquisição de casa própria, por meio do Sistema Financeiro de Habitação, pela existência, nesse caso, de norma autorizadora. Mas, atualmente, entende-se possível a emissão de cambial indexada, desde que o índice adotado seja oficial ou de amplo conhecimento no comércio, em que o valor do crédito é encontrado por simples operação matemática. Sobre isso, pondera COELHO:

Negar a possibilidade de cambial indexada é pretender o impossível: que o comércio ignore um fato de tal importância e conseqüências que é a inflação. Trata-se de posição irrealista entender a expressão “determinada”, constante da lei, no sentido estreito de “inalterável”. 120

Conclui-se que o legislador não se omitiu, vez que há casos em que a CPR é emitida com preço de liqüidação acertado na emissão (CPR Financeira com preço fechado) e há casos como o da CPR Financeira indexada. Veja-se:

Embargos de declaração. Erro material. Ocorrência. Cédula de Produto Rural. Conversão. Erro material no lançamento de valor de conversão do

produto em pecúnia. Utilização de informação acerca do valor da saca de arroz de data diversa da conversão da CPR em pecúnia. Correção. Acolheram os

Como se viu do relatório, o embargante identifica a ocorrência de

erro material no julgado embargado, haja vista ter definido a data de 09 de fevereiro de 2007 como a de conversão da obrigação contida na Cédula de Produto Rural em dinheiro, mas fixado o valor unitário da saca de arroz em R$ 31,62, quando este valor diria respeito ao valor da saca na data do vencimento da cédula, 15/04/2004.

embargos. [

]

119 LUG, art. 17: “As pessoas acionadas em virtude de uma letra não podem opor ao portador exceções fundadas sobre as relações pessoais delas com o sacador ou com os portadores anteriores, a menos que o portador ao adquirir a letra tenha procedido conscientemente em detrimento do devedor.”

120 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de Direito Comercial. 16. ed. revista e atualizada de acordo com a nova Lei de Falências, São Paulo: Saraiva, 2005, p. 246.

52

Tem razão o embargante, pois se está efetivamente diante de erro material da Câmara – induzida pelo relator – ao utilizar a informação de fl. 79, que diz com o valor da saca de arroz no dia 15/04/2004 como se fosse o de comercialização na data da conversão (09/02/2007). Assim, corrigindo-se o julgado, se afasta o valor lançado desde logo no final do segundo parágrafo da fl. 141, devendo a saca ter seu valor apurado mediante consulta posterior a Cooperativas da região. Nessa linha, acolhe-se os embargos.

121

Ressalte-se que a CPR poderá conter outras cláusulas, constantes nela ou em documento à parte. Mas, para isso, esse documento deverá conter a assinatura do emitente ou de seu procurador e, na CPR, deverá haver menção a essa circunstância 122 . A CPR deve noticiar a existência de eventual documento separado, pois, para que este se ligue à Cédula, é necessário que, além de conter a assinatura do emitente ou de seu procurador, seja mencionado na CPR. Não constando na Cédula menção a outro documento, este não formará, com aquela, um todo jurídico, salvo se admitido pela parte contrária. Descumpridas tais condições, o credor não poderá constranger o emitente, em juízo, a cumprir o disposto no documento. Não é muito dizer que, apesar de o parágrafo segundo, do referido art. 3º, mencionar apenas à assinatura do emitente da CPR 123 , se houver na CPR um terceiro garantidor, a assinatura deste também deverá constar no documento à parte, pois as estipulações constantes do documento podem afetar seu patrimônio além do estabelecido na CPR e, também, para que o gravame se efetue. Faltando a assinatura do terceiro no documento, as obrigações nele constantes não comprometerão seu patrimônio além do ônus que deflui da CPR. Obviamente, todas as cláusulas, essenciais e não essenciais, deverão respeitar os princípios da legalidade, da licitude e dos bons costumes. Sabendo-se que as estipulações constantes da CPR são determinadas, freqüentemente, pelo credor, e que este procura resguardar-se ao máximo, podem surgir exageros, v.g., existência de disposição a determinar que o credor apenas se

121 TJRS, 19ª Câm. Cív., E. Decl. n. 70021204755, rel. Des. Carlos Rafael dos Santos Júnior, j.

18/9/2007.

122 L. n. 8.929/94, art. 3º, § 1º: “Sem caráter de requisito essencial, a CPR poderá conter outras cláusulas lançadas em seu contexto, as quais poderão constar de documento à parte, com a assinatura do emitente, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância.” 123 L. n. 8.929/94, art. 3º, § 2º: “A descrição dos bens vinculados em garantia pode ser feita em documento à parte, assinado pelo emitente, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância.”

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obriga ao pagamento do valor avençado depois da entrega do produto pelo devedor, nas condições, data e local acertados, o que se choca com o próprio objetivo da Cédula e não deve, pois, prevalecer. Afinal, a exigibilidade do crédito subordina-se ao pagamento, que deve ser entendido como condição para o exercício do direito. É no âmbito das cláusulas não essenciais que se deve ter maior atenção, pois ali podem surgir ilegalidades, criadas, no mais das vezes, pelo credor, podendo levar, inclusive, à desnaturação da CPR. Assim, a estipulação de que a CPR foi emitida, v.g., como garantia de uma outra obrigação, não pode perdurar, vez que alterou a finalidade do título, que se presta a uma compra e venda de produto rural. Pode a CPR também ser aditada, ratificada e retificada. Tais alterações dar- se-ão por meio de aditivos, que a integrarão e que deverão ser datados e assinados pelo emitente e pelo credor, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância 124 .

124 L. n. 8.929/94, art. 9º: “A CPR poderá ser aditada, ratificada e retificada por aditivos, que a integram, datados e assinados pelo emitente e pelo credor, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância.”

2 DOS BENS VINCULADOS EM GARANTIA

54
54

Por se tratar de um título de crédito, na CPR pode haver a garantia fidejussória do aval, que será abordado adiante. Mas, além do aval, existem as

garantias reais, dispostas no art. 5º, da Lei n. 8.929/94 125 , que são a hipoteca, o penhor

e a alienação fiduciária, conferindo ao titular da CPR o direito a uma garantia acessória

à obrigação principal (entrega do produto rural ou do equivalente em dinheiro), visando

à satisfação de seu crédito. Cumpre notar, de início, que a CPR garantida por uma dessas três modalidades, não tem seu nomen iuris alterado, tal como ocorre com a Cédula de Crédito Rural. Assim, não há que se falar em CPR hipotecária, CPR pignoratícia, ou CPR fiduciária. A CPR deve ser formalizada como as demais cédulas, constando a descrição dos bens, móveis ou imóveis, cedularmente vinculados em garantia, o que pode ser feito em documento à parte, com menção, na Cédula, dessa garantia, conforme dispõe

o art. 3º, § 2º, já mencionado. Da análise desses dispositivos, vê-se a intenção do legislador em fazer com que a constituição da garantia seja formalizada, mas identificando o bem de forma simplificada 126 . Contudo, o credor deve estar atento para que a simplificação não implique em omissão, a ponto de a individualização do bem se tornar duvidosa, sob pena de dificultar o exercício do seu direito. Se o obrigado declarar falsamente ou de forma inexata o bem oferecido em garantia da CPR, ou omitir declaração de já estar ele sujeito a outros ônus ou responsabilidade de qualquer espécie, incluindo as fiscais, praticará ato tipificado como

125 L. n. 8.929/94, art. 5º: “A garantia cedular da obrigação poderá consistir em:

I – hipoteca; II – penhor; III – alienação fiduciária.” 126 L. n. 8.929/94, art. 3º, § 3º: “A descrição do bem será feita de modo simplificado e, quando for o caso, este será identificado pela sua numeração própria, e pelos números de registro ou matrícula no registro oficial competente, dispensada, no caso de imóveis, a indicação das respectivas confrontações.”

55

estelionato 127 , nos termos do art. 17, da Lei 128 , da mesma forma que a pessoa que dispõe do bem oferecido em garantia, sem consentimento do credor:

Apelação criminal – Estelionato – Defraudação de penhor – Pretendida absolvição – Atipicidade da conduta – Alegação de que o Apelante não tinha a posse da coisa, que o produto dado em garantia era referente à safra futura e que não ficou como fiel depositário do bem – Não- ocorrência – Garantia pignoratícia da Cédula de Produto Rural – Alienação do objeto empenhado sem o consentimento do credor – Alegada insuficiência de provas da colheita – Confissão do Réu e depoimentos testemunhais firmes – Conjunto probatório consistente – Dolo comprovado – Condenação mantida – Pretendido reconhecimento da excludente da ilicitude do estado de necessidade – Ausência dos requisitos – Impossibilidade – Pedido de aplicação dos princípios da proporcionalidade e razoabilidade – Alegada ausência de prejuízo – Reconhecimento pelo magistrado na aplicação da pena – Recurso não provido. Não há falar em atipicidade da conduta se o réu, devedor pignoratício, tendo a posse do objeto empenhado, defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor, a garantia pignoratícia. Assim, restando comprovado nos autos, por meio da confissão do réu e dos firmes depoimentos testemunhais, que aquele deu destinação diversa ao bem empenhado daquela avençada na Cédula de Produto Rural, não há dúvidas de que está configurada

a defraudação a garantia pignoratícia, figura tipificada 171, § 2º, III, do Código Penal. Ausentes os requisitos, não se pode reconhecer a excludente da ilicitude do estado de necessidade. A ausência de prejuízo não tem o condão de elidir a criminalidade do ato, porquanto o que se pune é a prática da alienação ou

A

defraudação com a consciência de que se trata de objeto de penhor. [

cláusula de garantia da cédula confiava a entrega do produto a seu destinatário, sendo vedado ao devedor dispor do produto para fins alheios. Se o ora apelante

deu destinação diversa àquela avençada no titulo, não há dúvidas que está configurada a defraudação da garantia pignoratícia, figura tipificada 171, § 2º,

III, do Código Penal. [

O dolo do apelante é evidente. Tinha ele pleno

entendimento da ilicitude do ato que praticava, pois sabia que a colheita era

objeto de garantia pignoratícia, tendo em vista que firmou sua assinatura (f. 10

e 11), de maneira voluntária e consciente, na cédula de produto rural.” 129

]

]

Atente-se que, normalmente, é o credor quem redige a CPR. Por isso, aconselha-se ao devedor ter atenção redobrada, para que não se dê margem a

127 CP, art. 171: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento: Pena – reclusão, de 1 (um) ano a 5 (cinco) anos, e multa. I - omissis II – vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias;”

128 L. n. 8.929/94, art. 17: “Pratica crime de estelionato aquele que fizer declarações falsas ou inexatas acerca de bens oferecidos em garantia da CPR, inclusive omitir declaração de já estarem eles sujeitos a outros ônus ou responsabilidade de qualquer espécie, até mesmo de natureza fiscal.” 129 TJMS, 2ª T. Crim., Ap. Crim. n. 2004.000472-9/0000-00 - Rio Brilhante, rel. Des. José Augusto de Souza, j. 5/5/2004.

56

inexatidões em suas declarações, especialmente no que tange às garantias, afastando, assim, qualquer atribuição de conduta tipificada como estelionato.

2.1 Hipoteca

Imóveis rurais e urbanos podem ser objeto da hipoteca celular, sem necessidade de indicação das confrontações do imóvel objeto do gravame; basta a informação do número de matrícula junto ao Cartório de Registro de Imóveis. À hipoteca cedular aplicam-se os preceitos da legislação sobre hipoteca, no que não conflitarem com a Lei n. 8.929/94 130 . Para ser eficaz contra terceiros, a CPR deve ser registrada perante o Cartório de Registro de Imóveis do domicílio do emitente – para garantia de que ele não venda a safra mais de uma vez –, e, em havendo a hipoteca, a CPR deve ser averbada na matrícula do imóvel hipotecado 131 . Veja-se o disposto no Código Civil, relativo a essa garantia, in verbis:

Art. 1.475. É nula a cláusula que proíbe ao proprietário alienar imóvel hipotecado. Parágrafo único. Pode convencionar-se que vencerá o crédito hipotecário, se o imóvel for alienado.

Da leitura do artigo indicado, conclui-se que o vencimento antecipado do crédito não é imperativo legal, devendo ser convencionada entre as partes. Frise-se que os bens vinculados à CPR não podem ser penhorados ou seqüestrados por outras dívidas do emitente ou terceiro que prestou a garantia real, em conformidade com o art. 18 132 , da Lei n. 8.929/94. Veja-se:

130 L. n. 8.929/94, art. 6°, parágrafo único: “Aplicam -se à hipoteca cedular os preceitos da legislação sobre hipoteca, no que não colidirem com esta Lei.”

L. n. 8.929/94, art. 12, § 1º: “Em caso de hipoteca e penhor, a CPR deverá também ser averbada na matrícula do imóvel hipotecado e no Cartório de localização dos bens apenhados.”

L. n. 8.929/94, art. 18: “Os bens vinculados à CPR não serão penhorados ou seqüestrados por outras dívidas do emitente ou do terceiro prestador da garantia real, cumprindo a qualquer deles denunciar a existência da cédula às autoridades incumbidas da diligência, ou a quem a determinou, sob pena de responderem pelos prejuízos resultantes de sua omissão.”

132

131

57

Agravo de instrumento - Cédula de Produto Rural - Imóvel hipotecado - Impenhorabilidade - Art. 18 da lei 8.929/1994 - Voto vencido. O imóvel vinculado à cédula de produto rural não é passível de penhora por outras dívidas do emitente ou do terceiro prestador da garantia real, devendo ser desconstituída a constrição sobre ele efetivada. Inteligência do art. 18 da Lei 8.929/1994. 133

2.2 Penhor

No tocante ao penhor, este pode ter como objeto bens suscetíveis de penhor rural e mercantil, além dos passíveis de penhor cedular. Conforme disposto no art. 1.442, do Código Civil, podem ser objeto de penhor: máquinas e instrumentos de agricultura; colheitas pendentes, ou em via de formação; frutos acondicionados ou armazenados; lenha cortada e carvão vegetal; animais do serviço ordinário de estabelecimento agrícola. Quanto ao penhor pecuário, o referido Código dispõe que podem ser objeto os animais que integram a atividade pastoril, agrícola e de laticínios, nos termos de seu art. 1.444.

Esse tipo de penhor merece atenção, por haver algumas particularidades. Trata-se de uma subdivisão do penhor rural – que engloba também o penhor agrícola –, disciplinado pela Lei n. 492/37, em que a indicação do bem gravado deve obedecer a certas exigências. O art. 10, parágrafo único, da Lei n. 492/37 134 , determina expressamente que a descrição dos animais indicados em garantia deve ser feita com a maior precisão, significando que se deve indicar a espécie, raça, grau de mestiçagem, marca, sinal e nome, caso o tenha.

133 TJMG, 11ª Câm. Cív., AI n. 2.0000.00.518014-9/000, rel. Des. Afrânio Vilela, j. 17/11/2005. 134 L. n. 492/37, art. 10: “Podem ser objeto de penhor pecuário os animais que se criam pascendo para a indústria pastoril, agrícola e de laticínios, em qualquer de suas modalidades, ou de que sejam eles simples acessórios ou pertences de sua exploração. Parágrafo único. Deve a escritura, sob pena de nulidade, designar os animais com a maior precisão, indicando o lugar onde se encontrem e o destino que têm, mencionando de cada um a espécie, denominação comum ou científica, raça, grau de mestiçagem, marca, sinal, nome, se tiver, e todos os característicos por que se identifique.” – Nota: O parágrafo único menciona escritura, pois ao tempo da entrada em vigor da Lei n. 492/37, os financiamentos rurais eram feitos através daquele documento. Com o advento do DL. n. 167/67, surgiram as cédulas de crédito rural, que substituíram as escrituras.

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A simples descrição do bem empenhado na CPR, com a firma do devedor, é suficiente para validar o penhor entre as partes. Mas, é prudente que a CPR seja inscrita perante o Cartório de Registro de Imóveis do emitente e o Cartório de localização dos bens empenhados, nos termos do art. 12, § 1º, da Lei n. 8.929/94, cumulado com o art. 1.438, do Código Civil, in verbis:

Art. 12. a CPR, para ter eficácia contra terceiros, inscreve-se no Cartório de Registro de Imóveis do domicílio do emitente. § 1º. Em caso de hipoteca e penhor, a CPR deverá também ser averbada na matrícula do imóvel hipotecado e no Cartório de localização dos bens apenhados.

Art. 1.438. Constitui-se o penhor rural mediante instrumento público ou particular, registrado no Cartório de Registro de Imóveis da circunscrição em que estiverem situadas as coisas empenhadas.

Com exceção dos títulos de crédito, os bens empenhados continuam na posse imediata do emitente ou do terceiro que prestou a garantia, que responde por sua guarda e conservação. Se penhor constituído por terceiro, o emitente da CPR será responsável solidário, juntamente ao terceiro empenhador, pela guarda e conservação dos bens 135 . Importante frisar que a solidariedade é do emitente em relação ao terceiro e não o contrário. Diz-se isso, porque podem existir duas garantias na Cédula: uma prestada pelo terceiro e outra pelo emitente. Neste último caso, o terceiro não é responsável solidário em relação ao emitente, pois o mencionado art. 7º, § 2º, não dispõe sobre essa solidariedade e, conforme regula o art. 265, do Código Civil 136 , a solidariedade não se presume. Em consulta à Lei Civil, vê-se que a regra é a efetivação da transferência do bem ao credor pignoratício, que responderá por sua guarda e conservação. Mas, quando se trata de penhor rural ou mercantil, a garantia é prestada sem a tradição do bem. Veja-se o que dispõe o Código Civil, in verbis:

135 L. n. 8.929/94, art. 7º: “Podem ser objeto de penhor cedular, nas condições desta lei, os bens suscetíveis de penhor rural e de penhor mercantil, bem como os bens suscetíveis de penhor cedular.

§ 1º. Salvo se tratar de títulos de crédito, os bens apenhados continuam na posse imediata do emitente

ou do terceiro prestador da garantia, que responde por sua guarda e conservação como fiel depositário.

§ 2º. Cuidando-se de penhor constituído por terceiro, o emitente da cédula responderá solidariamente com o empenhador pela guarda e conservação dos bens.” 136 CC, art. 265: “A solidariedade não se presume; resulta da lei ou da vontade das partes.”

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Art. 1.431 Omissis. Parágrafo único. No penhor rural, industrial, mercantil e de veículos, as coisas empenhadas continuam em poder do devedor, que as deve guardar e conservar.

A ausência de tradição é explicada pelo fato de o prestador da garantia não poder prescindir da posse do bem, por ser indispensável ao desenvolvimento de sua atividade produtiva, v.g. maquinário, ou, também, pelo fato de o bem ainda não existir, como no caso da safra. O dono do bem empenhado, embora seja proprietário e possuidor direto, passa à condição de depositário, respondendo nessa qualidade, em caso de perecimento, deterioração ou desvio da coisa empenhada. Contudo, pelo fato de o penhor especial (rural) não se enquadrar, a priori, nas previsões de prisão civil (prestação alimentar e depósito ou penhor comum), é discutível a possibilidade de deferimento de pedido de prisão contra o garantidor. Veja-se:

Processo civil. Depósito. Bens fungíveis. A infidelidade do depósito de coisas fungíveis não autoriza a prisão civil. Ressalva do ponto de vista pessoal do relator. Habeas Corpus concedido de ofício. 137

Ação de depósito. Cédula de Produto Rural com garantia pignoratícia. Entrega futura de soja. Penhor irregular de coisa fungível. Impossibilidade de prisão por deposito infiel. Precedentes do STJ. Ausência de previsão legal expressa para configuração do pedido de prisão. Novação e descaracterização do depósito. Preliminar de carência de ação acolhida. Apelo provido.

138

Penhor rural. Desvio dos bens apenhados. Prisão civil – Não encontrados os bens objeto de penhor rural e depósito, somente há lugar para a decretação da prisão civil, após o trânsito em julgado de ação de depósito, que o tenha reconhecido como depositário infiel. 139

Prisão civil. Penhor rural. Bens fungíveis. Prisão civil. 1. Não se acolhe a prisão civil em relação ao mútuo rural, garantido por bens fungíveis. 2. Recurso especial não conhecido. 140

Penhor rural. Cédula rural pignoraticia. Ação de depósito. Questão da fungibilidade dos bens dados em garantia e não mais existentes em poder de depositário. Prisão civil vedada. Financiamento concedido para "estocagem de carne bovina". Penhor incidente sobre determinado estoque de carne, por cláusula expressa depositado em poder da devedora para ser

137 STJ, 3ª T. Resp. n. 46.017/MG, rel. Min. Waldemar Zveiter, j. 26/3/2001.
138

6/11/2001.

139 STJ, 4ª T., Resp 21.397-0 – ES, rel. Min. Dias Trindade, DJU 21/3/1994.

140 STJ, 3ª T., Resp n. 182923-GO, rel. Min. Carlos Alberto Menezes, j. 26/10/1999.

TJRS, 2 Câm. Esp. Cív., Ap. Cív. n. 70000688382, Rel. Des. Breno Pereira da Costa Vasconcellos, j.

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guardado em câmara frigorífica, com vedação de sua retirada total ou parcial sem autorização escrita do banco financiador. caso em que a carne, bem fungível, ganha 'foros de infungibilidade', qualificação esta que não decorre apenas da natureza das coisas, mas igualmente pode resultar da livre vontade das partes. Prisão civil, não essencial a ação de depósito e somente admissível nos depósitos para guarda, e não nos depósitos em garantia de crédito, sob pena de retrocedermos aos tempos prístinos da prisão por dívidas, constitucionalmente defesa. Recurso especial conhecido e em parte provido, para afastar a carência da ação de depósito, excluída todavia a cominação de caráter pessoal. 141

Obviamente, o garantidor – emitente da Cédula ou terceiro –, deve conservar e guardar o bem gravado. Mas isso não impede, v.g., a constituição de novo gravame sobre o bem, durante a vigência do penhor 142 . Com relação ao terceiro garantidor, vale recordar o que, não havendo cláusula expressa, o terceiro não se obriga a substitui ou reforçar a garantia, se essa se perder, se deteriorar ou se desvalorizar sem culpa sua 143 . Dessa forma, considerando a hipótese de o terceiro ter oferecido uma safra pendente em penhor, caso haja frustração dela, em decorrência de eventos naturais, tais como chuvas torrenciais, seca prolongada etc., aquele não será obrigado a oferecer outro bem, em substituição ao anteriormente gravado, salvo se houver cláusula expressa nesse sentido. Da mesma forma que na hipoteca, aplicam-se ao penhor constituído pela CPR os dispositivos da legislação sobre penhor (L. n. 492/37 e o DL n. 167/67, no que não foi revogado pelo Código Civil de 2002; e o Código Civil, Título X, Capítulo II), inclusive o mercantil, o rural e o efetuado através de cédulas, no que não conflitarem com a Lei n. 8.929/94. Assim, não se aplica à CPR o disposto no art. 1.443, do Código Civil 144 . Diz- se isso porque, da leitura do referido artigo, com seu parágrafo único, vê-se que o

141 STJ, 4ª T., Resp n. 12.507-RS, rel. Min. Athos Carneiro, j. 1º/12/1992.

142 L. n. 492/37, art. 4º: “Independe o penhor rural do consentimento do credor hipotecário, mas não lhe prejudica o direito de prelação, nem restringe a extensão da hipoteca, ao ser executada.

§ 1º. Pode o devedor, independentemente de consentimento do credor, constituir novo penhor rural se o

valor dos bens ou dos animais exceder ao da dívida anterior, ressalvada para esta a prioridade de pagamento.”

CC, art. 1.427: “Salvo cláusula expressa, o terceiro que presta garantia real por dívida alheia não fica obrigado a substituí-la, ou reforçá-la, quando, sem culpa sua, se perca, deteriore, ou desvalorize.”

CC, art. 1.443: “O penhor agrícola que recai sobre colheita pendente, ou em via de formação, abrange

a imediatamente seguinte, no caso de frustrar-se ou ser insuficiente a que se deu em garantia.

144

143

61

legislador autorizou a extensão da garantia, em se tratando de penhor agrícola, apenas

e tão-somente para o contrato de mútuo. Ao se referir ao financiador, para indicar o

credor pignoratício – “se o credor não financiar” –, pode-se concluir que a extensão do penhor à safra seguinte se aplica apenas ao contrato de mútuo, pois é nele em que há

a figura do financiador. E, uma vez que a CPR não se confunde com contrato de mútuo,

infere-se que esse dispositivo não se aplica a ela. Aspecto interessante sobre a prática da garantia pignoratícia na CPR é trazido por PAIVA PEREIRA 145 , ao explicar que o credor da CPR, pretendendo resguardar ao máximo o seu direito, advindo da compra do produto mencionado no título, tem feito com que a própria coisa vendida constitua-se em garantia cedular. Apesar de aparentemente lícita, da leitura do art. 1.442, do Código Civil, vê-se que nessa prática há, na verdade, um desvirtuamento, por duas razões: (i) se o produto

rural descrito na CPR foi vendido ao credor pelo emitente do título, é certo que o emitente não poderá mais dá-lo em penhor ao credor, já que, pela compra e venda realizada, está impossibilitado de gravar a coisa sem a anuência do seu novo proprietário; (ii) se o credor da CPR é o novo proprietário da coisa que lhe foi alienada pelo título, o bem gravado cedularmente não alcança o caráter de garantia real, visto que o gravame incidiria sobre objeto que é de propriedade do próprio credor. Segundo o referido autor, “tal confusão fático-jurídica no âmbito da garantia, fará com que o penhor não se aperfeiçoe efetivamente em proveito do credor, deixando

o comprador do produto rural desvestido de tal garantia real.” 146 Pensa-se que a hipótese do aludido artigo da Lei Civil é possível, caso a garantia seja uma outra safra pendente, que não se confunda com a negociada na CPR. Assim, em garantia à negociação envolvendo a entrega de sacas de café, o emitente oferece, em penhor, v.g., a safra de milho ou outra de café. Portanto, deve-se estar atento às particularidades do título, visando comprovar a procedência da garantia pignoratícia, validando-a, ou, caso contrário,

Parágrafo único. Se o credor não financiar nova safra, poderá o devedor constituir com outrem novo penhor, em quantia máxima equivalente à do primeiro; o segundo penhor terá preferência sobre o primeiro, abrangendo este apenas o excesso apurado na colheita seguinte.”

PEREIRA, Lutero de Paiva. Comentários à Lei de Cédula de Produto Rural. 2 ed. Curitiba: Juruá, 2003, p. 37. 146 PEREIRA, Lutero de Paiva. Comentários à Lei de Cédula de Produto Rural. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2003, p. 37.

145

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promovendo sua anulação. Alerta-se para a importância que pode ter a Lei n. 4.829/65, que institucionalizou o crédito rural no País, vez que suas disposições podem ser aplicadas a questões tratadas, genericamente, na Lei de CPR. Outro aspecto importante pertine à execução de CPR garantida por penhor. A execução da CPR se processa por entrega de coisa incerta, mas, sendo impossível a entrega do produto convencionado e, havendo garantia pignoratícia, poderia o credor intentar medida cautelar de seqüestro do bem conferido em garantia, vez que a ação cautelar de seqüestro atua na tutela da execução para entrega de coisa certa, visando um bem específico, litigioso, exatamente o bem sobre cuja posse e domínio se refere a lide. Veja-se o seguinte julgado:

Embargos do devedor. Execução para entrega de coisa certa. Cédula de

produto rural. - A cédula de produto rural é título de crédito hábil a instruir

execução para entrega de coisa certa. [

pelo agravante tem como modalidade de garantia o penhor cedular (f. 64-68, TJ), ou seja, penhor especial, espécie de direito real de garantia, que tem por finalidade garantir o pagamento de uma dívida. Destarte, conforme as doutas lições de Wille Duarte Costa, a cédula de produto rural de que se valeu a agravada para ajuizar ação cautelar de seqüestro é título líquido certo e exigível e o bem vinculado à garantia real, decerto que poderia ser perseguido pelo agravado, em face da inadimplência.” 147

A cédula de produto rural firmada

]

Dessa forma, revelando-se inviável a entrega do bem objeto da CPR, a execução seria para entrega de coisa certa – bem oferecido em garantia –, e, não, por coisa incerta – produto rural –, não se podendo afirmar, contudo, que a CPR contempla

a execução para entrega de coisa certa, quando se refere ao produto rural em si. Dá-se a execução visando ao bem indicado em garantia na CPR, mas a execução desta, quanto ao produto rural, permanece na modalidade de entrega de coisa incerta, nos

termos do art. 15, da Lei n. 8.929/94, que determina que “para cobrança da CPR, cabe

a ação de execução para entrega de coisa incerta”. Não se pode, diante das situações fáticas, confundir as garantias e a extensão de sua proteção, sob pena de desrespeito ao direito de outrem, tal como se deu na situação exposta abaixo:

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Mandado de Segurança - Registro de escritura de imóvel - Oficial - Recusa - Cédula de Produto Rural averbada - Fundamento - Ilegalidade do ato - Sentença confirmada. A existência de penhor constante de Cédula de Produto

Rural averbada no registro do imóvel, cuja propriedade foi adquirida por meio de compra e venda, não impede a lavratura do registro da respectiva escritura, vez que a garantia do penhor é o bem móvel mencionado no contrato correspondente, e não o imóvel objeto da transação. Em reexame necessário,

confirma-se a sentença. [

proferida pelo MM. Juiz da Comarca de Itamogi que, nos autos do mandado de segurança, manejado por Alicino Robuste, contra ato da Srª Oficial do Registro

de Imóveis daquela comarca, que teria se recusado a lavrar o registro da escritura pública de uma propriedade rural adquirida pelo impetrante, ao argumento de que no registro do referido imóvel consta averbação relativa a cédula de produto rural. Em suas informações, a autoridade coatora alega que a existência de penhor, constante de cédula de produto rural averbada sobre o

imóvel constitui óbice à lavratura do ato objetivado pelo impetrante. [

análise circunstanciada dos elementos constantes dos autos verifica-se que a autoridade tida como coatora, diante do documento que lhe fora apresentado para registro negou-se a fazê-lo, ao fundamento que a escritura "não poderá ser registrada antes da Autorização para Cancelamento do registro da Cédula de Produto Rural nº 00032325, emitida em 26/02/2002, vencida em 10/12/2002, conforme cópia anexa, registrada nesta Serventia sob o nº 4.255, livro 3-H, fls. 30". Ora, conforme bem observado na sentença, a garantia da referida Cédula, além de ser um bem móvel, portanto diverso daquele cuja propriedade foi

objeto da transação constante do documento que se pretende registrar, seu registro se deu em livro distinto daquele onde deverá ser lavrado o registro objeto do mandamus. Verifica-se, ainda, que a garantia constante da CPR consiste no penhor cedular de primeiro grau sobre 30.000 Kg de café, correspondente a 500 sacas de 60 Kg do produto, sendo que a segunda garantia consiste em hipoteca incidente sobre imóvel diverso daquele constante da escritura a ser objeto de registro. Desta forma, não estando o imóvel transacionado pelo impetrante, servindo de garantia do negócio jurídico apontado como impedimento do ato registral, tem-se que a negativa de sua

lavratura violou a direito líquido e certo do impetrante, conforme asseverado na sentença examinanda. Ademais, referindo-se o penhor a café já ensacado desde o ano de 2003, ainda que este bem se encontre no imóvel, o que parece pouco provável, cabe ao credor proceder a busca do mesmo, armazenando-o

onde melhor lhe aprouver. [

Com estas considerações, em reexame

necessário, confirmo integralmente a sentença. 148

] De uma

Trata-se de reexame necessário da r. sentença

]

]

Vê-se que, no caso em comento, foram confundidas as garantias – penhor cedular, a garantir a CPR, e a hipoteca, relativa à venda do imóvel –, em que se procedeu ao registro da CPR perante o registro imobiliário, sendo que o Oficial do Cartório, por esse motivo, houve por bem não registrar a venda do imóvel, situação totalmente distinta do penhor cedular registrado, por ocasião da emissão da CPR.

148 TJMG, 3ª Câm. Cív., Reexame necessário n. 1.0329.06.900001-9/001, rel. Des. Kildare Carvalho, j.

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2.3 Alienação Fiduciária

No que tange à alienação fiduciária – ato que tem por escopo transferir o domínio da coisa de uma pessoa para outra, em garantia, com a restituição após o adimplemento –, a não-identificação do bem objeto dela não torna ineficaz a garantia, que poderá recair sobre outros bens do mesmo gênero, qualidade e quantidade, de propriedade do garante, nos termos do art. 8º, da Lei de CPR 149 . Quanto às formalidades a serem cumpridas, insta notar que o contrato de alienação fiduciária deve ser registrado perante o Cartório de Títulos e Documentos do domicílio do credor – se bem móvel –, ou perante o Cartório de Imóveis da localização do imóvel – em sendo imóvel –, para que o contrato tenha eficácia erga omnes, estendendo-se a terceiros. Caso o credor da CPR tenha que invocar o referido art. 8º, visando buscar outro bem em uma ação judicial, mas tendo apenas o gênero indicado na Cédula, o juiz deverá examinar minuciosamente a base fático-jurídica apresentada, pois o autor da ação tentará, em realidade, corrigir um erro, ocorrido no momento da emissão da CPR, quando não se identificou adequadamente a coisa alienada fiduciariamente. Nesse caso, a interpretação deve ser feita, no mais das vezes, em favor do prestador da garantia, emitente da CPR, tendo em vista o disposto no art. 423, do Código Civil 150 , ao dispor que, em contrato por adesão, cláusula ambígua ou contraditória deve ser interpretada em favor do aderente. Embora a hipoteca, o penhor e a alienação fiduciária sejam negócios jurídicos em garantia, nos dois primeiros, o direito de propriedade continua na esfera jurídico- patrimonial do devedor. Na alienação fiduciária, porém, o direito dominicial é alienado e ingressa na esfera jurídico-patrimonial do credor. Recorda-se que, a partir do Código Civil de 2002, a alienação ou gravame de ônus real quanto a bens imóveis passou a sofrer a limitação da outorga do outro

149 L. n. 8.929/94, art. 8º: “A não identificação dos bens objeto de alienação fiduciária não retira a eficácia da garantia, que poderá incidir sobre outros do mesmo gênero, qualidade e quantidade, de propriedade do garante.”

150 CC, art. 423: “Quando houver no contrato de adesão cláusulas ambíguas ou contraditórias, dever-se-á adotar a interpretação mais favorável ao aderente.”

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cônjuge, caso o prestador da garantia seja casado, salvo no caso do regime do casamento ser o da separação absoluta de bens 151 . Aspecto processual relevante, quanto ao exercício do direito advindo dessas garantias reais, é abordado no seguinte julgado:

Agravo interno. Decisão que nega seguimento a recurso de agravo de instrumento. Ação cautelar de arresto. Cédula de Produto Rural garantida por penhor e por hipoteca. Decisão que indefere o pedido liminar formulado na inicial. I – a cautelar de busca e apreensão somente é cabível se a garantia da cédula de produto rural for alienação fiduciária. No caso de ser garantida por penhor e hipoteca, cabível o arresto. Aplicação do princípio da fungibilidade das cautelares; II - Em se tratando de medida cautelar de arresto, em face da excepcionalidade que a caracteriza e da extensão dos efeitos que produz, indispensável se faz, para o seu deferimento, o atendimento inequívoco aos requisitos elencados no art. 814 do CPC, e bem ainda que reste configurada uma das hipóteses descritas no art. 813 do mesmo diploma legal. Não se verificando, no caso concreto, o preenchimento integral de tais condições, a medida não se justifica, merecendo ser mantida a decisão agravada. Negaram provimento. Unânime. 152

A situação envolve as formas de perseguição da garantia, indicando a ação cautelar de busca e apreensão para o caso de CPR garantida por alienação fiduciária, e a medida cautelar de arresto para os casos de penhor e hipoteca. Deve-se respeitar a forma legal prevista para cada modalidade de garantia.

Por isso, o parágrafo único, do art. 6º, da Lei n. 8.929/94 153 , dispõe que aplicar-se-á à hipoteca os preceitos de legislação de hipoteca, enquanto o § 3º do art. 7º, da mesma lei 154 , determina que, tratando-se de penhor, aplicam-se os preceitos da legislação sobre penhor.

Dessa forma, havendo penhor e/ou hipoteca apenas, não se aplica a primeira parte do art. 16, da Lei n. 8.929/94, que se refere à ação de busca e apreensão tão- somente para a alienação fiduciária. Isso, porque, a ação de busca e apreensão tem

151 CC, art. 1.647: “Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta:

I – alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis.”

152

TJRS, 16ª Câm. Cív., Agravo Interno n. 7002008338, rel. Des. Ergio Roque Menine, j. 21/11/2007.

153 L. n. 8.929/94, art. 6º, parágrafo único: “Aplicam-se à hipoteca cedular os preceitos da legislação sobre hipoteca, no que não colidirem com esta lei.”

L. n. 8.929/94, art. 7º, § 3º: “Aplicam-se ao penhor constituído por CPR, conforme o caso, os preceitos da legislação sobre penhor, inclusive o mercantil, o rural e o constituído por meio de cédulas, no que não colidirem com os desta lei.”

154

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natureza satisfativa, esgotando em si mesma sua finalidade, e é típica da alienação fiduciária, nos termos do art. 3º, do DL n. 911/67 155 .

No julgado examinado, as garantias prestadas foram o penhor e a hipoteca, sendo certo, também, que a intenção da parte é assegurar a efetividade do processo de execução para entrega de coisa. Realmente, não é cabível a cautelar de busca e apreensão, que deve ser empregada se não for oportuno o arresto ou o seqüestro.

Ademais, a parte não atendeu aos requisitos do art. 814, nem demonstrou a configuração das hipóteses do art. 813, ambos do Código de Processo Civil 156 , o que não autorizaria o deferimento do arresto. A parte alega o risco de lesão, por ser credora de safra de soja que já estaria sendo colhida, mas não entregue a ela, temendo, pois, a perda do produto. Mas, conforme exposto no julgado, não alegou nem demonstrou a dificuldade econômica que beire à insolvência, ou algum sinal de conduta no sentido de fraude a credor. Não estava, nem sequer, evidenciada a mora do devedor, pois a dívida ainda não estava vencida. Por isso, não fazia jus, também, ao arresto.

155 DL 911/67: “Art. 3º. O proprietário fiduciário ou credor poderá requerer contra o devedor ou terceiro a busca e apreensão do bem alienado fiduciariamente, a qual será concedida liminarmente, desde que comprovada a mora ou o inadimplemento do devedor.”

156

CPC, art. 813: “O arresto tem lugar:

I – quando o devedor sem domicílio certo intenta ausentar-se ou alienar os bens que possui, ou deixa de pagar a obrigação no prazo estipulado;

II – quando o devedor, que tem domicílio:

a) se ausenta ou tenta ausentar-se furtivamente;

b) caindo em insolvência, aliena ou tenta alienar bens que possui; contrai ou tenta contrair dívidas extraordinárias; põe ou tenta pôr os seus bens em nome de terceiros; ou comete outro qualquer artifício fraudulento, a fim de frustrar a execução ou lesar credores;

III – quando o devedor, que possui bens de raiz, intenta aliená-los, hipotecá-los ou dá-los em anticrese,

sem ficar com algum ou alguns, livres e desembargados, equivalentes às dívidas;

IV – nos demais casos expressos em lei.”

Art. 814: “Para a concessão do arresto é essencial:

I – prova literal da dívida líquida e certa;

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3 MODELO DE CÉDULA DE PRODUTO RURAL

Depois dessas considerações, relativas aos requisitos da CPR, já se pode vislumbrar um formato para ela. Ressalta-se que, por ser um título livre quanto ao modelo, não há padrão de utilização obrigatória estabelecido em lei. O emitente pode dispor da forma como entenda mais adequada, desde que atendendo aos requisitos estabelecidos pela Lei n. 8.929/94. Assim, o modelo abaixo, referente à promessa de entrega de produto rural, é apenas uma exemplificação, não sendo um padrão:

PRODUTO: CAFÉ ARÁBICA

CÉDULA DE PRODUTO RURAL

VENCIMENTO: 20 de dezembro de 2007.

Aos vinte dias do mês de dezembro de 2007, entregarei, por meio desta Cédula de Produto Rural, a José Ribeiro, brasileiro, casado, comerciante, inscrito no CPF/MF sob o n.º xxx.xxx.xxx-xx, domiciliado na fazenda Abaeté, Rodovia MG-01, Km 75, no município de Café com Leite/MG, ou à sua ordem, o seguinte produto rural:

PRODUTO

Café Arábica, em grãos, safra de 2007.

QUANTIDADE

1.000 (um mil) sacas de 60 Kg (sessenta quilos)

CARACTERÍSTICAS

Café arábica, cru, beneficiado, tipo 06, bebida dura, peneira 15 acima.

LOCAL DE FORMAÇÃO DA LAVOURA

Fazenda Tupi, no Município de Canela/MG, imóvel registrado no Cartório de Registro de Imóveis de Canela/MG, sob a matrícula n. 2905.

LOCAL E CONDIÇÕES DE ENTREGA - O produto rural será entregue ao Credor, mediante apresentação desta CPR, nos armazéns da ABC, situado na av. 7 de setembro n. 100, em Café com Leite/MG, em 20/12/2007, devendo o Credor dar quitação no verso. Caso o produto rural, na data da entrega, apresente características diferentes das acima estabelecidas, poderá ser recusado pelo Credor ou, a critério deste, recebido com descontos.

TRIBUTOS - Os tributos que incidam ou venham a incidir sobre esta CPR serão de responsabilidade exclusiva do Emitente, não podendo ser abatidos na quantidade do produto rural, ora descrita.

DESPESAS COM CONSERVAÇÃO - Até o vencimento e/ou entrega do produto rural descrito nesta CPR, as despesas com manutenção, conservação, armazenamento, transporte e outras que forem necessárias, correrão exclusivamente por conta do Emitente.

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HIPOTECA CEDULAR - Em garantia ao fiel cumprimento desta CPR, o Emitente indica ao Credor, em hipoteca cedular, sem concorrência de terceiros, o imóvel localizado no município de Canela/MG, registrado sob a matrícula n. 2081, no Cartório de Registro Imóveis de Canela/MG, autorizando a imediata averbação desta CPR junto à matrícula do imóvel mencionado.

CONDIÇÕES GERAIS:

a) Eu, Joaquim Campestre, brasileiro, casado, produtor rural, CI n.º xxxxxx, inscrito no CPF/MF sob o n.º xxx.xxx.xxx-xx, residente e domiciliado na rua xxxx n.º xxx, bairro xxx, na cidade de Canela/MG, declaro que permanecerei na posse imediata e propriedade do bem ora dado em hipoteca, considerando-se vencido o crédito expresso nesta CPR, nos termos do art. 1.475, do Código Civil, caso o referido bem seja alienado durante a vigência desta Cédula; b) Ao Credor, bem como a eventuais Intervenientes, garante-se o livre acesso à propriedade onde estiver formada a lavoura, armazenado o produto ou conservada a garantia, de forma a lhe(s) permitir averiguar o atendimento às condições estipuladas nesta CPR, desde que demonstre ser o legítimo possuidor dela, e, constatadas irregularidades, liberado(s) para adotar as medidas administrativas e/ou judiciais necessárias ao fiel cumprimento das obrigações assumidas nesta Cédula; c) Assina a CPR, na condição de avalista do Emitente, o Sr. Antônio Níquel, brasileiro, viúvo, comerciante, CI n.º xxxxxx,, inscrito no CPF/MF sob o n.º xxx.xxx.xxx-xx, domiciliado na rua Tiradentes n. 85, na cidade de Saíras/MG;

Canela/MG, 2 de abril de 2007.

EMITENTE

Nome: Joaquim Campestre

CI n.º:

CPF n.º:

AVALISTA

Nome: Antônio Níquel CI n.º:

CPF n.º:

Figura 1: Modelo de Cédula de Produto Rural

Pela qualidade cambiária da CPR, mister se levar em conta o princípio quod non est in titulo non est in mundo. Vale dizer: pela literalidade marcante dos títulos de crédito, ele deve ser bem descrito, definindo corretamente o direito dele decorrente,

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fazendo-se uma declaração sintética, clara e precisa, em função do chamado rigor cambiário 157 . É da análise da CPR que se poderá verificar eventual falsidade, incapacidade, deficiência formal, prescrição, dentre outros vícios. Entregue a CPR ao seu beneficiário – que passará a ter a sua posse –, inicia- se a obrigação decorrente da Cédula. Isso, porque ela não se confunde com um contrato, como já exposto alhures, não gerando efeitos desde a sua feitura; o direito cambiário do credor surge da posse do título, vez que a emissão da CPR pressupõe a elaboração e tradição ao legítimo possuidor. Acerca da garantia hipotecária conferida no exemplo acima, frise-se que o eventual endossatário que receber a CPR, adquire as garantias, dentre elas a hipotecária, desde que essa seja constituída em benefício de qualquer possuidor de boa-fé. Isso, porque, se a hipoteca fosse conferida em favor unicamente de José Ribeiro, não se poderia presumir a garantia em favor de qualquer credor, endossatário da CPR, como muito bem elucidado por PONTES DE MIRANDA 158 , ao abordar as garantias reais da duplicata endossada. Muito se discute sobre a possibilidade de inserção da cláusula de juros nos títulos de crédito. O art. 44, I, do D. n. 2.044/1908 159 a proíbe, sendo considerada incompatível com a cambial. Deve, pois, ser tida por não-escrita. E, O art. 10, da Lei n. 8.929/94, prevê a aplicação das normas de direito cambial à CPR, levando-se em consideração, pois, do mencionado art. 44, I. A indicação na Cédula de critérios para se calcular a atualização da soma cambiária retiraria a liquidez da CPR? Pensa-se que não, pois a quantia não deixa de ser determinada, por depender apenas de um simples cálculo aritmético. Dessa forma, conforme ensinado por PONTES DE MIRANDA 160 , se consta do título “pelo preço de cinqüenta mil reais, a prazo de seis meses, com os juros de um

157 MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Cambiário. Vol. III, atual. Vilson Rodrigues Alves, Campinas:

Bookseller, 2000, p. 62.

MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Cambiário. Vol. III, atual. Vilson Rodrigues Alves, Campinas:

Bookseller, 2000, p. 260.

158

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D. n. 2.044/1908, art. 44: “Para os efeitos cambiais, são consideradas não escritas:

I – a cláusula de juros;”

160

MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Cambiário. Vol. III, atual. Vilson Rodrigues Alves, Campinas:

Bookseller, 2000, p. 231/232.

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por cento ao mês”, o preço estipulado na cambial foi, em verdade, cinqüenta e três mil reais. O que a Lei veda é: “cinqüenta e três mil reais, mais os juros de um por cento ao mês, se não pagar”. O manifestado acerca dos juros é válido para a convenção de multa, considerando-se esta não escrita. É certo que o DL n. 167/67 e o DL n. 413/69 prevêem multa de 10% (dez por cento), em caso de inadimplemento, mas tais disposições se referem à Cédula de Crédito Rural e à Cédula de Crédito Industrial, como apontado por NEVES 161 , não se aplicando à CPR, vez que, quanto a essa, não há previsão naquele sentido.

Assim, entende-se impossível a inserção de cláusula de juros e multa na CPR, por expressa vedação legal.

161 NEVES, Rubia Carneiro. Cédula de Crédito: doutrina e jurisprudência. Belo Horizonte: Del Rey, 2002, p. 87.

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4 DA CÉDULA DE PRODUTO RURAL FINANCEIRA

Alguns anos após a instituição da CPR, o legislador criou a chamada CPR Financeira, através da Lei n. 10.200, de 14 de fevereiro de 2001, dispondo que a liqüidação dessa CPR dar-se-á com a entrega de certa quantia em dinheiro. Com isso, abriu-se mais uma possibilidade de liqüidação da CPR: além da entrega de produto rural, já prevista para a CPR, desde 1994, o legislador permitiu a liqüidação financeira, para a denominada CPR Financeira. Essa diferença tem grande relevância, pois a CPR Financeira possui procedimento executório diferente, vez que, ao executá-la, o credor deverá adotar a modalidade de execução por quantia certa 162 e, não, para entrega de coisa incerta, conforme se dá com a CPR, nos termos do art. 15, da Lei n. 8.929/94. Ainda com base no exemplo de CPR, sugerido no capítulo anterior, caso se tratasse de CPR Financeira, dever-se-ia observar, necessariamente, seu nomem iuris Cédula de Produto Rural Financeira, em lugar de Cédula de Produto Rural –, para que os subscritores tivessem ciência das obrigações que assumiram. Afinal, ao contrário da CPR, que dispõe sobre a promessa de entrega de produto rural, a CPR Financeira é um título líqüido e certo, exigível pelo resultado da multiplicação do preço, apurado segundo determinados critérios, com referenciais necessários à identificação precisa do preço ou índice de preços adotado, pela quantidade do produto discriminado 163 . A CPR Financeira apresenta-se de duas formas como título líqüido. Na primeira, menciona a identificação exata do preço atribuído ao produto prometido. Nesse caso, multiplicando-se a quantidade do produto prometido pelo valor a ele atribuído, chegar-se-á ao valor do título. Assim, ao se fixar o preço desde a emissão, nenhuma alteração no mercado promoverá qualquer modificação em benefício das partes.

162 L. n. 8.929/94, art. 4º- A, § 2º: “Para cobrança da CPR com liquidação financeira, cabe ação de execução por quantia certa.”

L. n. 8.929/94, art. 4º-A, § 1º: “A CPR com liquidação financeira é um título líquido e certo, exigível, na data de seu vencimento, pelo resultado da multiplicação do preço, apurado segundo os critérios previstos neste artigo, pela quantidade do produto especificado.”

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Tendo-se por base o exemplo do capítulo anterior, caso se tratasse de CPR Financeira com “preço fechado”, no momento da emissão da Cédula, José Ribeiro e Joaquim Campestre poderiam ter combinado o preço de R$ 230,00 (duzentos e trinta reais) a saca, que, multiplicado pela quantidade do produto – mil sacas – totalizaria R$ 230.000,00 (duzentos e trinta mil reais). Poderia ocorrer, também, que José Ribeiro tivesse ofertado R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) a Joaquim Campestre, emitindo-se uma CPR Financeira de R$ 230.000,00 (duzentos e trinta mil reais) em favor de José Ribeiro, gerando a obrigação da entrega desse valor, por Joaquim Campestre, no vencimento do título. Assim, o credor José Ribeiro teria aplicado recursos à taxa de 15% (quinze por cento) ao período compreendido entre a data da emissão e o vencimento da CPR Financeira, com risco minorado pela existência de um eventual avalista, a garantir o pagamento.

A segunda forma da CPR Financeira não menciona em seu corpo o preço do

produto prometido, mas há estipulação de um índice de preços a ser usado no vencimento do título. Frise-se que tal prática não se relaciona ou se assemelha à cláusula de juros ou de multa, vedadas, como mencionado anteriormente. Entende-se perfeitamente possível a emissão de cambial indexada, desde que o índice adotado seja oficial ou de amplo conhecimento no comércio, em que o valor do crédito é encontrado por simples operação matemática. Considerando-se essa CPR Financeira indexada, com preço de liqüidação atrelado a um índice financeiro ou à cotação em bolsa de valores, e projetando-a ao exemplo de CPR supra, José Ribeiro teria desembolsado R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) para receber, em 20 de dezembro de 2007, a quantia equivalente a 200 (duzentas) vezes o valor da cotação da saca naquela data, que poderá ser inferior ou superior a R$ 200,00 (duzentos reais). Vê-se que, nessa segunda forma de CPR

Financeira, a alteração das condições no mercado implicará modificação em benefício a uma das partes.

A aplicação de índice possibilita que o valor a ser pago pelo emitente seja

atualizado ao longo do tempo que medeia a emissão e o pagamento. Ressalte-se apenas que, eleito um índice em lugar do preço, na CPR Financeira deverão constar a instituição responsável pela apuração ou divulgação do índice, a praça ou o mercado

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de formação do preço e o nome do índice, nos termos do art. 4º-A, I 164 . É importante que a instituição eleita tenha um bom conceito e credibilidade no mercado, disponibilizando informações claras sobre o índice a ser aplicado, para se mensurar precisamente o quantum debeatur. Dispõe o art. 4º-A, II 165 , que os indicadores de preços devem ser divulgados periodicamente e de forma ampla, possibilitando a aferição de um histórico da evolução do preço. É insuficiente a simples informação disponibilizada em quadro de avisos internos de entidades negociadoras de produtos agrícolas, pois isso restringiria a divulgação do preço e indicadores, não preenchendo a exigência legal de facilidade de acesso à informação. Mas, o que ocorrerá se o indicador eleito na emissão da Cártula deixa, posteriormente, de ser divulgado, conforme exigido pela Lei n. 8.929/94? Entende-se que a CPR deverá ser adequada às exigências da Lei, por meio de um aditivo, permitido pelo art. 9º da Lei, adotando-se novo critério, sob pena de o título perder a liqüidez necessária à sua execução. No caso da CPR Financeira indexada, o ônus da prova quanto ao índice para apuração do valor da CPR, recai sobre o credor, e a ausência de tal prova poderá determinar a frustração da execução, por falta de título líqüido, certo e exigível, com sua conseqüente extinção 166 .

164 L. n. 8.929/94, Art. 4º-A, I: “que seja explicitado, em seu corpo, os referenciais necessários à clara identificação do preço ou do índice de preços a ser utilizado no resgate do título, a instituição responsável por sua apuração ou divulgação, a praça ou o mercado de formação do preço e o nome do índice.”

Lei n. 8.929/94, art. 4º-A., II: “que os indicadores de preço de que trata o inciso anterior sejam apurados por instituições idôneas e de credibilidade junto às partes contratantes, tenham divulgação periódica, preferencialmente diária, a ampla divulgação ou facilidade de acesso, de forma a estarem facilmente disponíveis para as partes contratantes.”

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CPC, art. 618: “É nula a execução:

I – se o título executivo extrajudicial não corresponder a obrigação certa, líquida e exigível;”

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5 DIREITOS E DEVERES DECORRENTES DA CPR

Após a análise dos requisitos formais da CPR, bem como sugestão de seu modelo e a diferenciação entre a CPR e a CPR Financeira, há ainda algumas outras considerações pertinentes aos direitos e deveres decorrentes da Cédula.

5.1 Da Evicção

O emitente da CPR, além de responder pela evicção 167 , não pode invocar caso fortuito ou força maior em seu benefício, para eximir-se da obrigação de entregar o bem no tempo, no local e nas condições pactuadas. Do contrário, facilmente se eximiria de sua obrigação, tendo em vista a ocorrência de variações climáticas bruscas, tais como chuvas torrenciais, secas prolongadas, geadas, que eventualmente castigam as culturas rurais, o que tornaria a relação insegura para o credor. Esses eventos naturais não podem ser invocados, por se tratar do próprio risco da atividade, irrelevante para a relação cambiária. Afinal, a LUG admite prorrogação do vencimento por motivo de força maior ou por determinação legal 168 , mas isso não confere ao devedor a possibilidade de invocar as intempéries para o não pagamento no vencimento. A forma do produtor rural se proteger desses eventos naturais é contratar seguro ou tentar se proteger de outra forma, como será visto adiante.

Pelo fato de a evicção não se fundar na culpa do emitente, será este responsável, ainda que de boa-fé, salvo se houver convenção em contrário, por ser

167 Evicção é a perda da coisa, por força de uma sentença judicial, que a atribui a terceiro, por direito anterior ao contrato aquisitivo. A sentença se funda em causa anterior ao contrato pelo qual se operou a aquisição do direito do evicto. Tal responsabilidade é cabível não só na transmissão de direitos reais, mas, também, na de créditos.

168 LUG, art. 54: “Quando a apresentação da letra ou o seu protesto não puder fazer-se dentro dos prazos indicados por motivo insuperável (prescrição legal declarada por um Estado qualquer ou outro caso de força maior), esses prazos serão prorrogados.”

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admitida a exclusão expressa da responsabilidade pela evicção, concomitantemente com o conhecimento do risco de evicção pelo evicto 169 . Assim, infere-se que a obrigação do emitente difere da assumida pelo terceiro garantidor. Conforme visto anteriormente, o terceiro que indica uma safra pendente em penhor, não será obrigado a oferecer outro bem, em substituição ao anteriormente gravado, salvo se tiver se obrigado por cláusula expressa, em havendo frustração da safra, em decorrência de eventos naturais, enquanto o emitente responde pela evicção.

5.2 Do Caso Fortuito e da Força Maior

É notório que a atividade rural está sujeita a variações climáticas bruscas, que castigam as culturas rurais, mesmo atualmente, com toda a tecnologia meteorológica e de maquinário à disposição do produtor. E, considerando-se a degradação ambiental e os efeitos, já sentidos, do superaquecimento global, as calamidades impostas por secas intensas e chuvas fortes e/ou prolongadas devem ser mais freqüentes nos próximos anos. Casos há em que a força maior realmente impossibilita a colheita da safra pelo devedor, v.g., como uma forte e prolongada geada, ou uma inundação, que leva ao perecimento não só de sua lavoura, mas das vizinhas também. Nessa hipótese, como deve ser entendida tratada essa situação? A Lei n. 8.171/91 170 dispõe que o setor primário nacional, voltado ao abastecimento alimentar do País, é importante para a ordem pública e a paz social, evidenciando-se que a agricultura merece tratamento diferenciado, sobretudo em momentos adversos e calamitosos, em que os que trabalham nesse setor sofrem

169 CC, art. 448: “Podem as partes, por cláusula expressa, reforçar, diminuir ou excluir a responsabilidade pela evicção.” Art. 449: “Não obstante a cláusula que exclui a garantia contra a evicção, se esta se der, tem direito o evicto a receber o preço que pagou pela coisa evicta, se não soube do risco da evicção, ou, dele informado, não o assumiu.”

170 L. n. 8.171/91, art. 2º: “A política agrícola fundamenta-se nos seguintes pressupostos:

omissis. IV – o adequado abastecimento alimentar é condição básica para garantir a tranqüilidade social, a ordem pública e o processo de desenvolvimento econômico-social.”

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graves e iminentes riscos em seu patrimônio, podendo ocasionar a insolvência ou falência, conforme o caso. Tendo-se em mente tais considerações, poder-se-ia refletir – em havendo caso fortuito ou força maior a comprometer a produção de uma determinada região, restando patente que a perda da cultura não se deu por culpa ou dolo do devedor –, sobre a possibilidade de alteração dos termos da CPR, a fim de preservar a própria atividade rural, vez que o comprometimento financeiro do produtor rural de forma desmedida, inviabilizando sua capacidade produtiva, é altamente prejudicial ao País. Nesse sentido, importante a ressalva feita por nossos Constituintes, no art. 5º, XXVI, da CR/88, no que tange aos pequenos produtores rurais, in verbis:

Art. 5º. Omissis. XXVI – a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família, não será objeto de penhora para pagamento de débitos decorrentes de sua atividade produtiva, dispondo a lei sobre os meios de financiar o seu desenvolvimento;

Mas, cambiariamente, esses riscos do negócio não eximem o devedor do cumprimento de sua obrigação, não conferindo a ele, pois, a possibilidade de invocar as intempéries para o não pagamento da CPR no vencimento. Não obstante, considerando-se a importância do setor produtivo primário para o País, apesar de o caso fortuito ou a força maior não eximirem o devedor do cumprimento de suas obrigações, a CPR pode sofrer alguma alteração nesse caso, excepcionalmente, como, v.g., a prorrogação do vencimento da Cédula para a safra futura, para que o devedor tenha tempo suficiente para conseguir os bens a serem entregues, ou a receita para pagamento da CPR Financeira. Não tendo a CPR circulado, bastaria um aditivo 171 , ou mesmo a inutilização da CPR, com criação de outra, em substituição à primeira. Se a CPR tiver circulado antes de tais modificações, pensa-se que a cambial deve ser inutilizada, criando-se uma nova, com as novas disposições, incluindo-se o novo vencimento, vez que os credores anteriores não saberão, v.g., do novo vencimento. Mas, tal medida implicará um problema diante do credor: ao inutilizar a

171 L. n. 8.929/94, art. 9º: “A CPR poderá ser aditada, ratificada e retificada por aditivos, que a integram, datados e assinados pelo emitente e pelo credor, fazendo-se, na cédula, menção a essa circunstância.”

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CPR, criando-se uma nova, ele perderá a cadeia de endossos e eventuais avalistas que se obrigaram na Cédula destruída, diminuindo suas opções de cobrança do crédito, caso o emitente não pague. Por isso, ressalta-se que tais modificações somente serão possíveis por meio de acordo entre o devedor e o credor. Se este não quiser a prorrogação, ele poderá exigir o cumprimento da obrigação ou a garantia prestada na Cédula, em caso de descumprimento.

5.3 Do Registro da CPR perante o Cartório de Registro de Imóveis

Para ser eficaz perante terceiros, a CPR deve ser inscrita no Cartório de Registro de Imóveis do domicílio do emitente, nos termos do caput, do art. 12 172 , da lei examinada. Além disso, esse cuidado serve de obstáculo ao produtor rural, para que não venda sua safra mais de uma vez. A inscrição da Cédula, ou dos respectivos aditivos, deve ser efetuada no prazo de três dias, contados da apresentação do título, sob pena de responsabilidade funcional do oficial encarregado de promover os atos necessários, e tem por escopo dar ao conhecimento público que o produtor rural (devedor) vendeu ao credor o produto indicado na Cédula, na quantidade determinada, para proteção do direito do comprador contra terceiros que, eventualmente, exerçam qualquer tipo de ação envolvendo o bem alienado.

PAIVA PEREIRA 173 critica esse dispositivo, manifestando que pode acontecer de o emitente da CPR não ser proprietário de nenhum imóvel no seu domicílio, ou ser proprietário de imóveis na mesma circunscrição imobiliária, o que poderia deixar o credor confuso quanto à realização do ato de publicização. Para o aludido autor, mais apropriado seria se a lei estabelecesse o Registro de Títulos e Documentos como o

172 L. n. 8.929/94, art. 12: “A CPR, para ter eficácia contra terceiros, inscreve-se no Cartório de Registro de Imóveis do domicílio do emitente.”

173 PEREIRA, Lutero de Paiva. Comentários à Lei de Cédula de Produto Rural. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2003, p. 91.

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competente, vez que o objetivo é tornar a venda de um bem fungível (produto rural), de conhecimento público. Tal crítica parece razoável. Ainda sobre o registro da CPR, esta pode também ser registrada em qualquer instituição de registro autorizada pelo Banco Central, a fim de ser negociada em Bolsa de valores ou mercado de balcão, como será abordado adiante.

5.4 Da Entrega Antecipada do Produto Rural

Da análise dos requisitos da CPR, viu-se que a Cédula deve mencionar a data de entrega do produto. Mas, sem prejuízo disso, é possível a entrega do produto antes da data prevista na cédula, desde que com a anuência do credor 174 . A concordância do credor é importante, pois, tomando-se o exemplo de CPR, sugerido no capítulo 3, pode não ser vantajoso ao credor receber as mil sacas de café antes do vencimento (20/12/2007). Considerando-se que o credor tenha negociado o produto com terceiro, obrigando-se a entregar a mercadoria a este somente no dia 27/12/2007, caso as sacas de café sejam entregues pelo emitente no dia 20/11/2007, ao credor da cédula seriam impostos gastos com armazenamento, riscos de subtração ou dano, caso o terceiro não queira ou possa receber a mercadoria antes do dia 27/12/2007. Considerando a hipótese de que José Ribeiro comprou as sacas de café, visando vendê-las para o mercado internacional, ele arcaria com os custos de manutenção e de uma possível perda do bem, durante os dias 20/11/2007 a 27/12/2007. E isso pode ser desvantajoso para ele, pois pode ser impossível somar tais gastos aos de transporte do bem até o porto, armazenagem, desembaraço aduaneiro de exportação etc., estipulados no Incoterm 175 a regular a negociação internacional, e o

174 L. n. 8.929/94, art. 13: “A entrega do produto antes da data prevista na cédula depende da anuência do credor.” 175 Os Incoterms são regras de interpretação de cláusulas comuns no comércio internacional, identificadas por siglas, tais como FOB (Free on Board), posto a bordo; CIF (Cost, Insurance and Freight), custo, seguro e frete; FAS (Free Along Side Ship), ao lado do navio, etc., dispondo sobre a repartição dos custos de tradição entre o vendedor e o comprador.

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exportador não terá condições de embutir aqueles gastos, oriundos da entrega antecipada do produto pelo emitente da CPR, no preço do bem exportado. Se, v.g., o contrato de exportação foi assinado na condição FOB, posto ou livre a bordo, cabe ao vendedor (exportador) os custos da tradição, até que a mercadoria, devidamente desembaraçada para exportação, tenha sido embarcada no navio indicado pelo comprador. Assim, José Ribeiro arcaria com os custos dos dias adicionais em que o produto ficou em seu poder, em função da entrega antecipada. Outra alternativa seria pactuar, na CPR, sobre a responsabilidade pelos gastos advindos da entrega antecipada do produto rural, ou, também, obter a anuência do credor à entrega antes da data fixada na Cédula. Nesse último caso, a modificação da data não requer formalismos. Um fac-símile, ou uma mensagem via correio eletrônico, enviados pelo credor, elucidando a questão da entrega antecipada, caracteriza sua anuência quanto ao recebimento antes da data inicialmente acertada.

5.5 Do Pagamento Parcial da CPR

A legislação cambiária não veda o pagamento parcial, por não acarretar prejuízo ao beneficiário do título. Por isso, caso haja o cumprimento parcial da obrigação – v.g., a entrega de 800 (oitocentas) sacas de café, ao invés de mil –, esse pagamento deve ser anotado no verso da cártula, tornando-se exigível apenas o saldo referente a duzentas sacas de café. Deve-se notar que a CPR, como título líqüido, certo e exigível pela quantidade e qualidade do produto, serve de base à propositura de ação de execução para entrega de coisa incerta, mesmo em havendo pagamento parcial, pois a obrigação assumida não se refere à entrega de dinheiro. Veja-se o julgado do TRIBUNAL DE ALÇADA DO ESTADO DO PARANÁ:

Cédula de produto rural (CPR) não constitui documento de dívida a ser paga, no vencimento, mediante cumprimento de prestação de entregar certa soma em dinheiro. Representa obrigação de entregar, em data futura (a do vencimento do título) o produto objeto da obrigação, na qualidade e quantidade indicadas.

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Havendo o cumprimento parcial da obrigação, mesmo que através de medidas judiciais especiais ou cautelares, o saldo é exigível mediante ação de execução para entrega de coisa incerta 176 .

Dessa forma, ocorrendo pagamento parcial, eventual execução sobre o saldo remanescente será na modalidade de entrega de coisa incerta. Por óbvio, tratando-se de CPR Financeira, o pagamento parcial será em pecúnia e o saldo remanescente será objeto de execução por quantia certa. Veja-se o seguinte julgado, que muito bem diferencia as modalidades de execução de CPR e de CPR Financeira:

Cédula de Produto Rural - Art.15 da Lei nº 8.929/94 - Execução para entrega de coisa incerta - Embargos acolhidos - Não sendo financeira a

Cédula de Produto Rural, inadmissível a execução por quantia certa, por que a

lei impõe que seja a execução para entrega de coisa incerta. [

referida Lei n° 10.200/2001, admite, em seu §2°, a execução por quantia certa para a cobrança da CPR financeira. Na verdade, aquele dispositivo inserido pela Lei n° 10.200/2001 inseriu na Lei n° 8.929/94 novo tipo de Cédula de Produto Rural, que é a Cédula de Produto Rural Financeira. Este tipo de cédula Financeira admitiria a execução por quantia certa. Entretanto, a cédula em execução não é Financeira, porque não preenche os requisitos dos incisos do art. 4°-A, da Lei n° 8.929/94, com redação dada pel a Lei n° 10.200/2001. Não sendo cédula Financeira, mas cédula de produto rural comum, regida pela redação original da Lei n° 8.929/94, aplicável a re gra do art. 15, do referido diploma, que dispõe que "para a cobrança da CPR, cabe a ação de execução

para entrega de coisa incerta".

] O art. 4°-A, da

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Distintos, pois, os meios de cobrança judicial, por meio de processo executório, de uma CPR e de uma CPR Financeira, que serão da mesma forma utilizados em caso de pagamento parcial da CPR.

176 TAPR , 5ª Câm. Cív., AI n. 194.100-0, Peabiru – AC. 13.898, Juiz Convocado Jurandyr Souza Júnior, j. 4/9/2002. 177 TJMG, 16ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 2.0000.00.516591-3/000, rel. Des. Batista de Abreu, j. 23/11/2005.

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6 PARTICULARIDADES DA CÉDULA DE PRODUTO RURAL

Pelo que já foi exposto, sabe-se que a CPR é, em muitos aspectos, semelhante aos títulos de crédito mais conhecidos, v.g., a letra de câmbio, o cheque, a nota promissória e a duplicata. O próprio art. 10, da Lei n. 8.929/94, determina que, quando cabíveis, as normas de direito cambial se aplicam à CPR:

Art. 10. Aplicam-se à CPR, no que forem cabíveis, as normas do direito cambial, com as seguintes modificações:

I – os endossos devem ser completos; II – os endossantes não respondem pela entrega do produto, mas, tão-somente pela existência da obrigação; III – é dispensado protesto cambial para assegurar o direito de regresso contra avalistas.

Da leitura desse artigo, percebe-se que, além das características gerais dos

títulos de crédito, tais como as pessoas envolvidas, a emissão, o endosso, o aval etc., existem algumas particularidades quanto ao título analisado neste trabalho.

É importante ter em mente que, na busca por uma teoria dos títulos de

crédito, não se pode deixar seduzir pela ilusão, estendendo normas peculiares de alguns títulos de crédito a todos eles, sem uma análise detida e criteriosa. Quanto à CPR, o alerta é válido em ambos os sentidos: pretender aplicar normas que não se

estendem a ela e, também, aplicar suas peculiaridades em outros títulos cambiários. Passa-se à análise desses pormenores, especialmente dispostos no aludido art. 10.

6.1 Quanto ao Endosso

“I - os endossos devem ser completos”

O título cambiário tem por escopo a circulação do crédito. Em decorrência

disso, há preocupação em se proteger o terceiro portador de boa-fé, o que contribui

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para a circulação do título. As sucessões hereditária ou testamentária também podem operar a transferência lícita do título, mas a circulação é feita, no mais das vezes, pela figura do endosso. Conforme lição de ASCARELLI, entende-se por circulação dos créditos:

o maximo de rapidez e de simplicidade no transmiti-los a varios adquirentes

sucessivos, com o minimo de insegurança para cada adquirente que deve ser posto, não só em condições de conhecer pronta e eficazmente aquilo que adquire, mas, tambem, a salvo das exceções cuja existencia não lhe fosse dado

notar, facilmente, no ato da aquisição.

178

(sic).

O endosso pode ser entendido como uma declaração cambial, sucessiva e

eventual, pela qual o portador do título transfere a terceiro o documento e o direito nele mencionado, passando o antigo portador, agora endossante, a obrigado indireto, também responsável pelo pagamento do título. ASCARELLI 179 diferencia de forma sutil, mas inquestionável, a contraposição existente entre a circulação do título e a cessão do direito: nessa, o objeto é o direito, ao passo que, na circulação, o objeto é o título.

Assim, a aquisição do direito deriva da aquisição do título. Sabe-se que é o beneficiário da cambial, ou seu procurador, quem tem legitimidade para endossar. Caso feito pelo representante legal do beneficiário, esse mandatário deve ser investido de poderes especiais para endossar, sob pena de se obrigar de forma pessoal 180 .

O mero portador, que não possa dispor legitimamente do título e/ou não

tenha capacidade jurídica para assumir obrigações cambiárias, não pode prestar o endosso. O portador legítimo é a pessoa que justifica o seu direito por uma cadeia

ininterrupta de endossos 181 .

178 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, p. 10.

179 ASCARELLI, Tullio. Teoria Geral dos Títulos de Crédito. Trad. Nicolau Nazo, São Paulo: Saraiva, 1943, IX.

180 LUG, art. 8º: “Todo aquele que apuser a sua assinatura numa letra, como representante de uma pessoa, para representar a qual não tinha de fato poderes, fica obrigado em virtude da letra e, se a pagar, tem os mesmos direitos que o pretendido representado. A mesma regra se aplica ao representante que tenha excedido os seus poderes.”

181 LUG, art. 16: “O detentor de uma letra é considerado portador legítimo se justifica o seu direito por uma séria ininterrupta de endossos, mesmo se o último for em branco.”

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Ato unilateral e formal, o endosso não se confunde com cessão de crédito. Dentre outras razões, porque aquele é ato de natureza cambiária, ao contrário da cessão, que é instituto de direito comum. Deve o endosso ser puro e simples e qualquer condição a que fique subordinado é considerada como não escrita no título 182 . Diz-se formal, pois somente pode ser prestado no título, não sendo admitido o endosso em separado 183 . A cessão não exige forma especial. Diz-se unilateral o endosso, pois não é necessária a anuência do endossatário, ao contrário da cessão, que é contrato bilateral. Outra diferença marcante é quanto ao direito transmitido. No endosso, o endossatário recebe um direito que emerge do título, não o direito do endossante, ao contrário do que se dá com a cessão, em que o cedente transfere o seu próprio direito ao cessionário. Há outras diferenças, que não serão aqui elencadas, por não ser esse o objetivo do presente trabalho. Caso um título à ordem, como uma CPR, seja adquirido por meio diverso do endosso, essa aquisição terá o efeito de cessão civil. Isso faz toda a diferença, como é sabido.

O endosso se desvincula de sua causa e, por isso mesmo, ao endossatário de boa-fé são inoponíveis a exceções extracartulares que o devedor possa invocar em relação ao credor originário, vez que o terceiro adquirente do título recebe direito novo, originário e autônomo 184 . Quem assume a posição de endossante no título, torna-se obrigado indireto pelo pagamento, como devedor solidário. Significa que sua obrigação poderá ser exigida, caso o portador comprove ter apresentado o título à pessoa designada pela lei, no vencimento, e que esta não efetuou o pagamento. CARVALHO DE MENDONÇA 185 explica que, inexistindo disposição expressa de lei, aplicam-se ao endosso dos títulos à ordem as normas da lei cambial. No que

182 LUG, art. 12, 1ª alínea: “O endosso deve ser puro e simples. Qualquer condição a que ele seja subordinado considera-se como não escrita.”

183 LUG, art. 13, 2ª alínea: “O endosso pode não designar o benefício, ou consistir simplesmente na assinatura do endossante (endosso em branco). Neste último caso, o endosso para ser válido deve ser escrito no verso da letra ou na folha anexa.”

184 LUG, art. 17: ”As pessoas acionadas em virtude de uma letra não podem opor ao portador exceções fundadas sobre as relações pessoais delas com o sacador ou com os portadores anteriores, a menos que o portador ao adquirir a letra tenha procedido conscientemente em detrimento do devedor”.

185 MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de Direito Commercial Brasileiro.Vol. V, 2 parte, 3. ed., n. 495, p. 100.

84

toca à CPR, título à ordem, uma vez emitida, possível será o endosso. Mas, a Lei n. 8.929/94 possui algumas disposições particulares, que diferem das relativas a outros títulos, sendo uma delas acerca do endosso. A CPR pode circular por endosso, desde que completo, por expressa determinação legal. Mas o que se entende por endosso completo? Na busca por uma resposta a essa indagação, vê-se que a doutrina não tem um entendimento acorde. Segundo CARVALHO DE MENDONÇA, há duas espécies de endosso: em preto e em branco. Para esse autor, endosso completo é o mesmo que pleno, que são sinônimos do endosso em preto, ao afirmar que “o endosso póde ser em preto, também chamado nominativo, pleno ou completo e em branco” 186 (sic). WHITAKER também vê sinonímia entre os chamados endosso completo e em preto, ao registrar que há “dois typos formaes de endosso: o endosso completo e o endosso em branco. O primeiro é aquelle em que se declara o nome do beneficiário; o segundo, aquelle em que esta declaração é omittida” 187 (sic). AZEREDO SANTOS adota o mesmo entendimento: “endosso completo ou em preto, em que o nome do beneficiário (endossatário) vem especificado ou lançado no título” 188 . Mas, pouco à frente, registra que o endosso impróprio é sinônimo de endosso-mandato, de endosso incompleto 189 . Dessa última manifestação, poder-se-ia desenvolver o seguinte raciocínio: se o endosso-mandato é incompleto, o completo não seria o em preto, mas sim, o que transfere o direito mencionado no título. BULGARELLI invoca diferenças entre o endosso completo e o pleno, afirmando que o completo é o que não é prestado de forma parcial:

Não se confunda, outrossim, o endosso pleno com o endosso completo (no sentido de não ser parcial, isto é, de ter o endossante assumido integralmente a obrigação que se contém no título), já que o § 3º, do art. 8º, do Decreto 2.044/1908, veda o endosso parcial, e a Lei Uniforme, no seu art. 12, considera

186 MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de Direito Commercial Brasileiro.Vol. V, 2 parte, 3. ed., n. 495, p. 100.

187 WHITAKER, José Maria. Letra de Câmbio. 2 ed., revista e augmentada. São Paulo: Livraria Acadêmica, 1932, p. 122.

SANTOS, Theóphilo de Azeredo. Manual dos Títulos de Crédito. Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1971, p. 40.

189 SANTOS, Theóphilo de Azeredo. Manual dos Títulos de Crédito. Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1971, p. 42.

188

85

como “não escrita” qualquer condição a que ele seja subordinado e “nulo” o endosso parcial. 190

Não obstante, o Prof. WILLE DUARTE COSTA 191 ensina que o endosso pleno é o também chamado de endosso completo, como afirmado por CARVALHO DE MENDONÇA. Mas, para o festejado Professor mineiro, endosso pleno ou completo é o que transfere o título e o direito nele mencionado por completo, podendo ser expresso em preto, em branco ou ao portador, contrariamente ao entendimento de CARVALHO DE MENDONÇA, que vê o endosso completo como sinônimo do endosso em preto. Corroborando o raciocínio, PONTES DE MIRANDA ensina que o endosso completo é o que transfere a propriedade, diferenciando-o dos endossos mandato e pignoratício 192 , entendimento também defendido por SARAIVA 193 . Acompanhando essa linha, ROSA JÚNIOR diferencia bem os chamados endosso completo e incompleto:

O endosso próprio, pleno, completo ou translativo, é aquele que viabiliza a

transferência dos direitos decorrentes do título de crédito, e o portador será legítimo se justificar o seu direito por uma série ininterrupta de endossos, mesmo que o último seja em branco (LUG, arts. 14, al. 1ª, e 16; LC, arts. 20 e

22). [

Endosso impróprio, não translativo, incompleto ou não pleno, é o ato

cambiário pelo qual o endossante transfere apenas o exercício dos direitos

emergentes do título, sem ficar responsável cambiário pelo aceite e pagamento.

]

O

endosso denomina-se impróprio porque não cumpre a sua função precípua

de

operar a transferência dos direitos decorrentes do título. 194

Com

essa

diferenciação

em

mente,

veja-se

a

seguinte

decisão,

do

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL:

Em que pese a simpatia pelas teses do apelante, em razão da comprovação da entrega do produto junto à Cooperativa, não vejo como prover o recurso. A sentença foi técnica, fez análise clara e objetiva da legislação que se aplica ao título objeto da lide, que é a Cédula de Produto Rural. Porque a Lei n. 8.929/94, que criou este novo título de crédito, admitiu apenas a possibilidade do endosso

190 BULGARELLI, Waldírio. Títulos de Crédito. 14. ed., São Paulo: Atlas, p. 166.

191 COSTA, Wille Duarte. Títulos de Crédito. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 179.
192

Bookseller, 2000, p. 254/255.

MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Cambiário. Vol. III, atual. Vilson Rodrigues Alves, Campinas:

SARAIVA, José A. A Cambial. Vol. 1, Rio de Janeiro: José Konfino, 1947, p. 242.

ROSA JR., Luiz Emygdio F. da, Títulos de Crédito. Rio de Janeiro: Renovar, p. 251.

193

194

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completo, em preto, pleno, transmitindo a propriedade do título ao endossatário apontado, com a tradição, que ocorreu. 195

Qual a intenção do legislador ao determinar que o endosso, na CPR, deve ser completo? Significa que se permite apenas o endosso que transfere o título e o direito nele mencionado? Ou que somente admite a modalidade em preto? Ou significa que não pode ser parcial? É certo que o endosso parcial – que transmitiria apenas parte da importância mencionada no título –, é considerado nulo, desde antes da Lei n. 8.929/94, como se pode ver do disposto na LUG 196 . O próprio parágrafo 3º, do art. 8º, do D. n. 2.044/1908, apesar de não mais vigente, já proibia o endosso parcial 197 . Ilógico seria crer que o legislador quis, novamente, tratar da vedação quanto ao endosso parcial. Recordando-se o intuito cambiário de propiciar a circulação do título, também não há lógica em se permitir apenas o endosso em preto, vedando-se o endosso em branco e o ao portador. Por isso, o endosso completo não pode ser confundido com o endosso em preto. Entende-se por endosso completo, portanto, aquele que viabiliza a transferência do título e dos direitos dele decorrentes, e o portador será legítimo se justificar o seu direito por uma série ininterrupta de endossos, mesmo que o último seja em branco. Ver-se-á adiante que os tribunais pátrios têm afastado o endosso-caução na CPR, exatamente por não promover a transferência dos direitos decorrentes do título de crédito, sendo chamado, inclusive, endosso impróprio. 198 A partir disso, conclui-se que, na CPR, é possível que se opere a transferência da propriedade da cártula, por meio do endosso em preto, em branco, ou ao portador. Frise-se que, conforme diferenciado por WHITAKER, o endosso em branco não transforma, precisamente, a cártula em título ao portador, vez que para legitimação

195 TJRS, 16ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 70000333377, rel. Des. Helena Cunha Vieira, j. 7/6/2000.
196

197 D. n. 2.044/1908, art. 8°: “O endosso transmite a propriedade do título. Omissis. § 3°. É vedado o endosso parcial.”

LUG, art. 12, 2ª alínea: “O endosso parcial é nulo.”

198

FERREIRA, Waldemar. Tratado de Direito Comercial, vol. VIII, São Paulo: Saraiva, 1962, p. 250.

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do credor de título ao portador basta a posse, enquanto que, para legitimação do credor de título endossado em branco, imperiosa a cadeia ininterrupta de endossos 199 . Veja-se o alerta CARVALHO DE MENDONÇA:

o endosso em branco empresta á letra de cambio a similhança de um título ao

portador [

é juridicamente um titulo ao portador; ao contrário, mantem o caracter de titulo á

Note-se, porém, que a letra de cambio endossada em branco não

]

ordem. 200 (sic).

Portanto, é inapropriado dizer que em havendo endosso em branco, a CPR passará a ser um título ao portador. Trata-se apenas de uma semelhança quanto à circulação, vez que, para legitimação de quem detenha o título ao portador, basta a sua posse, ao passo que, para legitimação do portador do título endossado em branco, será necessária a comprovação da cadeia ininterrupta de endossos, ainda que o último seja em branco, pois o endosso em branco só é válido quando se liga à cadeia de endossos.

Após breve parêntesis, diferenciando-se endosso em branco e ao portador, pergunta-se: o que representa o endosso na CPR? Pagar o quê? Onde e quando?

Viu-se que o objeto da CPR é a promessa de entrega de produto rural, ou de dinheiro (CPR Financeira). Remetendo-se ao exemplo de CPR – capítulo 3 –, deve-se entregar o produto rural descrito, o café indicado.

Acerca do local onde deve ser feita a entrega do produto, a resposta deve defluir da própria Cédula endossada: “O produto rural será entregue ao Credor, mediante apresentação desta CPR, nos armazéns da ABC, situado na av. 7 de setembro n. 100, Café com Leite/MG, em 20/12/2007”.

Recorde-se que o endosso promove a alteração na titularidade do crédito mencionado na Cédula, mas não altera as demais disposições constantes do título, tais como a data e o local de entrega do produto. Frisa-se isso, porque o local de entrega, estipulado no momento da emissão da CPR, pode ser inconveniente ao endossatário, mas isso não lhe confere o direito de exigir que a entrega seja efetuada em local

199 WHITAKER, José Maria. Letra de Câmbio. 2 ed., rev. e aum

p.127. 200 MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de Direito Commercial Brasileiro. Vol. V, 2 parte, 3. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1938, n. 690, p. 281.

São Paulo: Livraria Acadêmica, 1932,

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diverso do que consta na Cédula. Somente através de aditivo e cumpridas as formalidades é que o local de entrega pode ser alterado. Mantido o local da entrega do produto, ajustado originariamente na CPR, v.g., o armazém do credor originário, ora endossante, e, sendo o produto entregue e recebido naquele lugar, surge a presunção de que o endossante – primeiro credor indicado na CPR –, é mandatário tácito do endossatário, com o que poder-se-ia considerar cumprida a obrigação pelo emitente. Por isso, seria descabido o aponte da Cédula a protesto extrajudicial, sob a alegação de que o produto não fora entregue ao credor na data e local ajustados. Nesse diapasão, boa de ver a seguinte decisão:

Cédula de Produto Rural. Ação Ordinária. Julgamento Antecipado.

Cerceamento de defesa inocorrente. [

entrega do produto em local previamente determinado, essa circunstância, por si só, demandava notificação para a indicação de outro local. Caso em que, entregue o produto no local assinalado na cédula, pressupõe-se, no mínimo, outorga de mandato pelo endossatário a outro, no caso, o endossante, para o recebimento. 201

figurando na cártula obrigação de

]

Porém, tal entendimento não é pacífico:

Ação Ordinária de Nulidade. Preliminar de cerceamento de defesa. Inexiste quando o pretendido nada acrescenta para o mérito da sentença. No endosso pleno dispensável a notificação do devedor-emitente por parte do credor-endossatário quando recebe a Cédula de Produto Rural (CPR) do endossante. Não é possível o emitente do título alegar oponibilidade quando não efetuou o pagamento ao endossatário e sim ao endossante. Prevalece o princípio do Direito Cambial que diz: “quem paga mal, paga duas vezes. 202

A solução para essas situações deverá ser proferida caso a caso, após análise dos argumentos e particularidades expostos pelas partes, especialmente em exceção de pré-executividade ou embargos à execução. Independentemente disso, insta perguntar: quem pode figurar, na prática, como credor da CPR? Veja-se a lição de FRONTINI:

201 TJRS, 2ª Câm. Esp. Cív., Ap. Cív. n. 70000667758-Ijui, rel. Des. Marilene Bonzanini Bernardi, j.

30/5/2000.

202 TJRS, 10ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 70002201481, Rel. Des. Jorge Alberto Schreiner Pestana, j.

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Quem serão os tomadores-credores das cédulas de produto rural? Em primeiro lugar, as empresas da agroindústria (os assim chamados agro-business). Em segundo lugar, os exportadores de produtos primários. Em terceiro lugar, as próprias cooperativas de produtores rurais, que não se nos afiguram impedidas de assim agir. Por fim, outros intermediários que operam no ramo, alguns às vezes pejorativamente identificados como atravessadores. De qualquer forma, como a lei silencia a respeito, mostra-se aberta a possibilidade de qualquer interessado, presente e atuante no mercado, negociar o recebimento futuro de produto rural, contra a emissão da CPR. 203

Uma vez que a pessoa pode adquirir a qualidade de credor por meio de endosso, deve-se atentar para o chamado endosso-caução, em que o portador transfere o título ao seu credor, como garantia do pagamento da dívida, não se operando a transferência da titularidade do crédito mencionado na cambial. E, como explica BARBI FILHO, “este credor, na condição de endossatário pignoratício, pode praticar todos os atos necessários à defesa e conservação dos direitos emergentes do título sob sua posse” 204 . Pode, pois, protestar o título e executá-lo, mas não pode transferir a titularidade do crédito 205 . Chama-se atenção para tal endosso, considerado impróprio, pois os tribunais pátrios têm acertadamente considerado que, em seus efeitos, o endosso-caução se diferencia do endosso completo e, por isso, é vedado pelo art. 10, da Lei n. 8.929/94. Tal entendimento está correto, pois ante a falta da transmissão da propriedade do título no endosso-caução, esse não pode, realmente, ser tido por completo. E, para que não se confunda, vale lembrar que o endosso-caução, vedado na CPR, não é o mesmo que o endosso-mandato 206 . Em havendo endosso completo, o emitente da CPR deve efetuar o pagamento em favor do endossatário, como se vê nas seguintes decisões:

203 FRONTINI, Paulo Salvador apud PEREIRA, Lutero de Paiva. Comentários à Lei de Cédula de Produto Rural. 2. ed., Curitiba: Juruá, p. 30.

BARBI FILHO, Celso. A duplicata mercantil em juízo. Atualizada por Otávio Vieira Barbi. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 125.

LUG, art. 19: “Quando o endosso contém a menção “valor em garantia”. “valor em penhor” ou qualquer outra menção que implique uma caução, o portador pode exercer todos os direitos emergentes da letra, mas um endosso feito por ele só vale como endosso a título de procuração.”

Sobre essa distinção, ensina BARBI FILHO: “Pela regra prevista no art. 18, da LUG, para o endosso- mandato, os coobrigados só podem invocar contra o endossatário-mandatário exceções que eram oponíveis ao endossante mandante. No caso do endosso-caução, diferentemente, o art. 19 determina que os coobrigados não podem alegar contra o portador-endossatário as exceções oponíveis ao endossante caucionante, salvo se aquele tiver procedido de má-fé”. BARBI FILHO, Celso. A duplicata mercantil em juízo. Atualizada por Otávio Vieira Barbi. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 127.

206

205

204

90

Cédula de Produto Rural. Endosso do Título. Ação Ordinária de Nulidade do Aponte. Tendo o devedor efetuado pagamento do título, sem exigir a

devolução da cédula, impróprio opor-se ao endossatário que é portador legítimo

e de boa-fé. Sentença de improcedência de ação anulatória mantida.

207

Processo Civil. Agravo. Endosso de Título de Crédito. O endosso lançado

em Cédula de Produto Rural não lhe retira o caráter de autonomia, certeza, liquidez e exigibilidade. O endossatário recebe o direito estampado no título como se fosse um credor originário, totalmente desvinculado do negócio subjacente. "Pagamento feito pelo devedor de título à ordem, sem que a cédula

lhe seja devolvida, descabe oposição ao endossatário, portador legitimo e de

boa-fé. "Quem paga mal, paga duas vezes.

208

Cédula de Produto Rural. Endosso. Pagamento efetuado ao Endossante. Ineficácia. Efeito quanto ao Credor. Preliminares. O pagamento feito pelo devedor diretamente ao endossante, embora ciente de que a CPR havia sido

endossada a terceiro, não o desonera em face do novo credor. [

] Pelo que se

vê,

o emitente-devedor teve ciência da existência do endosso, aceitou o risco

de

ser compelido a pagar uma segunda vez, com o que tem inteira aplicação o

brocardo “quem paga mal, paga duas vezes”. Ainda, em relação a tal quitação,

tenho a asseverar que ciente o autor da transferência da titularidade do crédito,

a quitação obtida diretamente do endossante é tida como ilícita, pois já não

mais era credora do produto constante da CPR. [

titularidade, o direito ao crédito passou a ser da ré, não podendo alegar o

apelante, que desconhecia tal situação dada a publicidade do seu registro no Cartório de Registros Especiais, podendo, então, somente a ré receber e dar a

quitação noticiada nos autos. [

faz prova do alegado adimplemento. A certidão permite afirmar que o endosso

precedera a entrega do produto, determinando, assim, a negligência com que

agiu o devedor que não exigiu a apresentação da cédula na entrega do produto.

O presente caso submete-se, portanto, à “regra da inoponibilidade ao

endossatário das exceções pessoais do devedor contra o tomador e anteriores endossatários”, referida por João Eunápio Borges, entre “as normas que tornam

segura e privilegiada a posição do terceiro de boa-fé que, na circulação regular

do título tornou-se proprietário da letra de câmbio” (em “Títulos de Crédito”,

Forense, Rio, 1971, p. 73).

A declaração passada em nome do apelante,

Com o endosso, a

]

]

209

Mas, no que se refere ao endosso-caução – em que a CPR seria considerada um bem móvel, onerada em favor de credor do endossante, por meio de penhor –, a jurisprudência tem se posicionado de forma a rejeitá-lo:

Ação Ordinária. Decretação de nulidade de aponte e de Danos Morais e Materiais. Protesto de Cédula de Produto Rural. Cédula de Produto Rural-CPR. Trata-se de um título circulativo, ao qual se aplicam as normas de direito cambial, com algumas peculiaridades. A lei não autoriza a mera entrega do título ao endossatário como garantia de outro negócio, sem a transferência da propriedade do título (CPR). Logo, não

207 TJRS, 5ª Câm. Cív., Ap. Civ. n. 70000306647, rel. Des. Sérgio Pilla da Silva, j. 25/11/1999.
208

TJRS, 9ª Câm. Cív., AI n. 598300416, rel. Des. Tupinambá Pinto de Azevedo, j. 30/3/1999.

209 TJRS, 6ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 70000310284, rel. Des. João Pedro Freire, j. 8/11/2000.

91

comporta

caução.

210

a

CPR

a

espécie

de

endosso

conhecido

com

endosso-

Na hipótese de endosso-caução, o crédito é transferido ao endossatário, que fica apenas na condição de credor pignoratício do endossante. Cumprida a obrigação do endossante, garantida pelo penhor, o endossatário devolverá o título ao endossante. Não cumprida a obrigação garantida, o endossatário se apropriará do crédito constante do título.

Sobre isso, veja-se as seguintes decisões do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, especificamente sobre a CPR, e as situações que podem advir do endosso-caução:

Ao analisar o endosso a primeira impressão é de que se trata de endosso puro e simples, em preto, acompanhado da expressão “pague-se”, pois consignada como favorecida a apelada. E isso não só por assim dispor a lei, mas também pelo fato de não estar acompanhado das expressões “valor em garantia” ou “valor em penhor” (Rubens Requião, in “Curso de Direito Comercial”, 19ª ed., 2º Vol., p. 335). No entanto, análise mais apurada dos autos remete a conclusão de que o título foi, na verdade, dado em caução, nos termos dos arts. 789 e seguintes do CC, de maneira que aplicável ao caso não as normas de direito cambiário, mas sim as de Direito Civil.

211

Cédula de Produto Rural. Ação Ordinária. Endosso-caução. Análise do conjunto que evidencia a efetiva ocorrência de endosso-caução, exigindo, pois, prévia notificação ao sacado. Além disso, figurando na cártula obrigação de entrega do produto em local previamente determinado, essa circunstância, por si só, demandava notificação para a indicação de outro local. Caso em que, entregue o produto no local assinalado na cédula, pressupõe-se, no mínimo, outorga de mandato pelo endossatário a outro, no caso, o endossante, para o recebimento. 212

Da análise desses julgados infere-se que, não raras vezes, apesar de vedado pela Lei n. 8.929/94, o beneficiário da CPR presta endosso-caução a um credor, sem promover a notificação do emitente, o que, logo após o vencimento e pagamento da CPR, faz com este seja surpreendido com um aponte de protesto, por suposto descumprimento de sua obrigação cambiária.

210 TJRS, 12ª Câm. Cív., Ap. Cív. n. 70001994367, rel. Des. Agathe Elsa Schmidt da Silva, j. 5/12/2002.
211

28/6/2001.

212 TJRS, 2ª Câm. Esp. Cív., Ap. Cív. n. 70 000 667 758, rel. Des. Marilene Bonzanini Bernardi, j.

TJRS, 2ª Câm. Esp. Cív., Ap. Cív. n. 70000667675, rel. Des. Breno Pereira Da Costa Vasconcellos, j.

92

No cotidiano dos produtores rurais, esses podem se tornar vítimas dessa operação, pelo fato de o beneficiário endossar, em garantia, a CPR a terceiros, o que poderia levar à impressão de que não houve o pagamento do título, apesar de a CPR ter sido quitada junto ao endossante-caucionante, e este, sem promover a devolução da CPR ao emitente – fato comum também em outros títulos de crédito –, acaba possibilitando que o título ainda circule. Essa situação pode ser assim ilustrada:

1 Produtor Rural
1
Produtor
Rural
Cooperativa
Cooperativa
2
2

ENDOSSO-CAUÇÃO

Pagamento C P R
Pagamento
C P R
Rural Cooperativa 2 ENDOSSO-CAUÇÃO Pagamento C P R Quitação PROTESTO 3 “Pague-se a XYZ, valor em

Quitação

PROTESTO

3
3

“Pague-se a XYZ, valor

em garantia.

Importadora XYZ
Importadora XYZ

Figura 2: Organograma sobre Endosso-Caução

Após a emissão da CPR pelo produtor rural, a cooperativa, beneficiária da CPR, endossa a Cédula, em garantia, em favor de uma importadora, credora da cooperativa. Ignorando o endosso-caução, o produtor rural efetua o pagamento da CPR à cooperativa, que o recebe e dá quitação fora do título, sem devolvê-la ao emitente. Posteriormente, o produtor rural é surpreendido com o aponte ou protesto do título, vendo-se coagido a pagar um débito já quitado, ou rotulado como mau pagador. Por ser vedado o endosso-caução na CPR, cumpre notar o disposto no caput do art. 292, do Código Civil 213 , a dispor que o devedor que, antes de ter conhecimento

213 CC, art. 292: “Fica desobrigado o devedor que, antes de ter conhecimento da cessão, paga ao credor primitivo, ou que, no caso de mais de uma cessão notificada, paga ao cessionário que lhe apresenta, com o título de cessão, o da obrigação cedida; quando o crédito constar de escritura pública, prevalecerá a prioridade da notificação.”

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da cessão, paga ao primitivo credor, fica desobrigado. Veja-se o seguinte julgado sobre

a questão:

Apelações Cíveis. Ação Ordinária. Ação Cautelar de Sustação de Protesto. Cédula de Produto Rural. Endosso em preto. Entrega do título em garantia de cumprimento de contrato entre a endossante e endossatária. Notificação do devedor. Indispensabilidade. Se o endosso feito pela credora foi em cumprimento de cláusula contratual que previa a entrega dos títulos como garantia de cumprimento do pacto, era imprescindível a intimação do devedor, nos termos dos arts. 792, II, e 794, ambos do CCB. Além disso, prevendo o título o local e a quem o produto seria entregue, não tendo tal cláusula sido alterada e nem tendo sido notificado o devedor pela endossatária, é de se ter que a endossante recebeu o produto como mandatária e por conta da credora e endossatária. Assim, a quitação fornecida pela endossante é válida. O protesto feito pela endossatária é indevido e injusto. Dano moral reconhecido. Perdas e danos não especificadas que não se reconhece. 214

Entende-se que a Lei n. 8.929/94 não autoriza a mera entrega do título ao endossatário como garantia de outro negócio, sem a transferência da propriedade da CPR. Isso porque, como visto, o endosso completo, ao qual a Lei de CPR faz menção, transfere a propriedade da cédula, diferentemente do endosso-caução, que transfere apenas a posse. Havendo endosso em garantia, tem-se exigido a intimação do emitente acerca da operação, ou o aditamento da CPR, com a alteração da pessoa que receberá

o pagamento e do local da entrega do produto, seguindo o que dispõe o art. 290, do

Código Civil de 2002 215 , por se tratar de cessão e, não, de endosso. Conclui-se que o portador da CPR que a transfere por endosso-caução, na verdade efetuou uma cessão de crédito, regida pelos arts. 286 a 298, do Código Civil de 2002, pois a Lei n. 8.929/94 não permite o endosso incompleto. Com isso em mente, veja-se o que o Prof. WILLE DUARTE COSTA ensina:

Nestas hipóteses {circulação de direito comum}, havendo transferência por outro modo diferente do endosso, o direito do adquirente não é autônomo, pois não nasce em decorrência do ato de transferência propriamente dito, qualquer que seja. O seu direito será sempre derivado do direito do último possuidor, de

214 TJRS, 1ª Câm. Esp. Cív., Ap. Cív. n. 70000653030 – Ijuí, rel. Des. Luis augusto Coelho Braga, j.

23/5/2001.

215 CC, art. 290: “A cessão do crédito não tem eficácia em relação ao devedor, senão quando a este notificada; mas por notificado se tem o devedor que, em escrito público ou particular, se declarou ciente da cessão feita.”

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tal forma que, quem tinha defesa contra o direito do possuidor anterior, continua tendo a mesma defesa contra o possuidor a quem o título foi transmitido nessas circunstâncias. 216

Assim, a quitação prestada pela cooperativa ao produtor rural deve ser considerada válida, não cabendo, portanto, o protesto feito pela importadora. E, como o endosso-mandato também é considerado incompleto ou impróprio, deve-se entendê-lo como não permitido, no que toca à CPR.

6.2 Quanto aos Endossantes

“II - os endossantes não respondem pela entrega do produto, mas, tão- somente, pela existência da obrigação”

Segundo as normas cambiárias 217 , o endossante garante o pagamento do título, salvo cláusula em contrário. Trata-se de uma promessa indireta de pagamento, vez que o portador somente poderá exigir o crédito do endossante se comprovado o protesto, indicando que o título fora apresentado à pessoa designada pela lei (devedor principal) e este não efetuou o pagamento na data avençada. O endosso faz com que o endossante passe à condição de obrigado indireto, também responsável pelo pagamento do título. PONTES DE MIRANDA ensina que “com a posse por outrem, o endosso, que se tornou irrevogável pelo endossante sem posse, põe o endossante na situação de devedor de regresso.” 218 . Nesse ponto, não se pode ignorar o antagonismo existente entre o disposto no art. 914, caput, e seu § 1º, do Código Civil 219 , e o art. 15 da LUG.

216 COSTA, Wille Duarte. Títulos de Crédito. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p.190.

LUG, art. 15: “O endossante, salvo cláusula em contrário, é garante tanto da aceitação como do pagamento da letra. O endossante pode proibir um novo endosso, e, neste caso, não garante o pagamento às pessoas a quem a letra for posteriormente endossada.”

MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Cambiário. Vol. I, atual. Vilson Rodrigues Alves, Campinas:

Bookseller, 2000. p. 319.

CC, art. 914: “Ressalvada cláusula expressa em contrário, constante do endosso, não responde o endossante pelo cumprimento da prestação constante do título. § 1º Assumindo responsabilidade pelo pagamento, o endossante se torna devedor solidário.”

219

218