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Voltando neste livro ao gênero e assunto que o consagraram antes mesmo do grande sucesso de O nome da rosa, Umberto Eco focaliza uma variadíssima gama de assuntos, que compreende entre outros os orixás do candomblé, as questões filosóficas, a ecologia, a deterioração dos meios de comunicação de massa e o problema da segurança nos dias de hoje. Esses temas são comentados do ponto de vista da semiologia, para a qual tudo é comunicação: Eco procura ver não apenas as coisas em si, mas também o que querem dizer,

o que comunicam. E o faz numa linguagem viva, com aguda percepção do detalhe revelador, com fino senso de humor e uma ironia que muitas vezes se transforma em mordacidade.

ISBN

85-209-0436-X

De Umberto Eco leia também:

O nome da rosa

EDITORA

NOVA

FRONTEIRA

SEMPRE

UM BOM

LIVRO

Um berto

I

Eco

I

VIAGEM NA IRREALIDADE COTIDIANA

Do mesmo autor de O NOME DA ROSA. A Televisão, a Ecologia, a Religião, a Política, o Esporte, o Cinema, os problemas da atualidade, segundo o maior teórico da Comunicação.

Titulo original:

VIAGGIO NELLAIRREALITÃ QUOTIDIANA

© Grupo Editorialc Fabbri-Bompiani, Sonzogno, Etas S.p.A. Milão, Dalla periferia delTimpero, 1977 II costume di casa, 1973 7 anni di desiderio, 1983

Direitos adquiridos para a Hngua portuguesa pela EDITORA NOVA FRONTEIRA S/A Rua Bambina, 25 - Botafogo - CEP 22.2S1 - Tel.: 286-7822 Endereço telegráfico: NEOFRONT Rio de Janeiro - RJ

Revisão:

UMBERTO FIGUEIREDO PINTO TIZZIANA GlORGINI

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

E22v

Eco, Umberto. 1932 - Viagem na Irrealidade Cotidiana / Umberto Eco; tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade — Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1984

Tradução de: Viaggio Nella Irrealitá Quotidiana

I. Ensaios italianos 1. Titulo II. Série

84-0463

CDD — 854 CDU — 850-4

SUMÁRIO

I.

VIAGEM

PELA HIPER-REALIDADE, 7

As fortalezas da solidão, 9 Os presépios de Satanás, 19

 

. Os castelos encantados, 30 Os mosteiros da salvação, 41

 

A

cidade dos autômatos, 51

Ecologia 1984 e a Coca-Cola tornada carne, 61

II.

A NOVA IDADE MÉDIA,

73

Projeto de Apocalipse, 75 Projeto alternativo de Idade Média, 77 Crise da Pax norte-americana, 80

A

vietnamização do território, 82

A

deterioração ecológica, 86

 

O

neonomadismo, 87

A

Insecuritas, 88

Os vagantes, 89

 

A

Auctoritas, 91

As formas do pensamento, 93

A

arte como bricolage, 95

 

Os mosteiros, 98

 

A

transição permanente, 99

 

III.

OS DEUSES

DO

SUBSOLO,

101

A

mística de Planète, 103

O

sagrado não é uma moda, 110

Os suicidas do templo, 117

A NOVA IDADE MÉDIA

Recentemente, e de muitos lados, começaram a falar de nossa época como de uma nova Idade Média. O problema é saber se se trata de uma profecia ou de uma constatação. Em outros termos: já entramos na Nova Idade Média ou, como se expressou Roberto Vacca num seu inquietante livro, “haverá uma Idade Média próxima e vindoura?” A tese de

Vacca refere-se à degradação dos grandes sistemas típicos da era tecnológica; demasiado vastos e complexos para serem coordenados por uma autoridade central e para serem con­ trolados, mesmo individualmente, por um aparelho empre­ sarial eficiente, estão fadados ao colapso e, por um jogo de interações recíprocas, a produzir um recuo de toda a civili­ zação industrial. Vejamos de novo rapidamente a hipótese

de “ ro­

mais apocalíptica que Vacca concebe, numa espécie teiro” futurível aparentemente bastante persuasivo.

/.

Projeto de apocalipse

Um dia nos Estados Unidos a coincidência de um en­ garrafamento rodoviário e de uma paralisação do tráfego fer­ roviário impedirá o pessoal substitutivo de atingir um grande aeroporto. Vencidos pelo estresse, os operadores não-substi- tuídos provocam a colisão entre dois quadrirreatores fazendo com que caiam em cima de um fio elétrico de alta tensão, cuja carga, repartida por outros fios já sobrecarregados, provoca um blecaute como aquele que Nova Iorque conheceu há alguns anos. Só que desta vez é mais radical e dura vá­

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rios dias. Como está nevando e as estradas ficam bloquea­

das, os automóveis provocam monstruosos congestiona­

mentos; nos escritórios acendem-se fogueiras para esquen­ tar e irrompem incêndios que os bombeiros não conse­ guem atingir e debelar. A rede telefônica fica bloqueada pelo impacto de cinqüenta milhões de quarteirões que ten­ tam se contatar telefonicamente. Têm início marchas na neve com mortos ao longo da estrada.

Privados de abastecimentos de qualquer gênero, os

andarilhos procuram se apoderar de abrigos e mercadorias, entram em ação as dezenas de milhões de armas de fogo vendidas nos Estados Unidos, as forças armadas assumem

todo o poder, mas são vítimas, elas também, da paralisia

geral. Supermercados são saqueados, nas casas acabam as

reservas de velas, sobe o número de mortos pelo frio, pela

fome e por inanição nos hospitais. Quando, com toda a di­

ficuldade, a normalidade for restabelecida após algumas se­ manas, milhões de cadáveres espalhados pela cidade e pelo campo começarão a propagar epidemias, repropondo flagelos de dimensões semelhantes às da peste negra que no século

XIV destruiu dois terços da população européia. Surgirão

psicoses “de contágio” e será imposto um novo macarthismo bem mais cruento que o anterior. A vida política, entrando

em crise, se subdividirá numa série de subsistemas autônomos

e

independentes do poder central, com milícias mercenárias

e

administração autônoma da justiça. Enquanto a crise for

aumentando, os que conseguirão superá-la mais facilmente

serão os habitantes das áreas subdesenvolvidas, já preparados

para viver em condições elementares de vida e de competi­ ção, e ocorrerão grandes migrações com fusões e contami­

nações raciais, importações e difusões de novas ideologias.

Uma vez declinada a força das leis, destruídos os cadastros,

a propriedade se apoiará apenas no direito de usucapião; e,

por outro lado, a rápida decadência terá reduzido as cidades

a um monte de ruínas alternadas com casas habitáveis, e ha­

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bitadas por quem delas se apodera, enquanto pequenas auto­ ridades locais poderão manter um certo poder, constituindo recintos e pequenas fortificações. A essa altura já se estará em plena estrutura feudal, as alianças entre poderes locais serão firmadas sobre o compromisso e não sobre a lei, as re­ lações individuais estarão fundadas na agressão, na aliança por amizade ou comunhão de interesses, renascerão costu­ mes elementares de hospitalidade para o andarilho. Diante de tal perspectiva, diz-nos Vacca, não resta senão pensar em planificar o equivalente das comunidades monásticas que, numa tamanha decadência, desde logo sejam treinadas para manter vivas e para transmitir os conhecimentos técnicos e científicos úteis para o advento de uma nova renascença. Como organizar esses conhecimentos, como impedir que se corrompam no processo de transmissão, ou que certas co­ munidades os utilizem para fins de poder privado, esses e outros problemas constituem os capítulos finais (e em grande parte discutíveis) do A Idade Média próxima e vindoura. Mas a questão (como se dizia no início) é outra. Trata-se, antes de mais nada, de decidir se o roteiro de Vacca é apo­ calíptico ou a enfatização de algo que já existe. E, em segundo lugar, de libertar a noção de Idade Média da aura negativa com que a cingiu uma certa publicística cultural de inspiração renascentista. Tentemos então compreender o que se entende por Idade Média.

2.

Projeto alternativo de Idade Média

Por enquanto percebemos que o nome define dois mo­ mentos históricos bastante distintos, um que vai da queda do Império Romano do Ocidente até o Milênio, e é uma época de crise, decadência, massacres violentos de povos e choque de culturas; o outro vai do Milênio àquilo que na escola nos definem como Humanismo, e não por acaso mui­ tos historiadores estrangeiros já o consideram uma época de

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pleno florescimento; aliás, falam antes em três Renascenças, uma Carolíngia, a outra nos séculos XI e X II e a terceira aquela conhecida como Renascença propriamente dita. Admitindo-se que se consiga sintetizar a Idade Média numa espécie de modelo abstrato, a qual dos dois irá cor­ responder a nossa época? Uma correspondência ponto por ponto seria ingênua, mesmo porque vivemos numa época de processos imensamente acelerados, em que aquilo que acontece em cinco de nossos anos pode às vezes corresponder ao que então sucedia em cinco séculos. Depois, o centro do mundo alargou-se por todo o planeta, atualmente convi­ vem civilizações, culturas e estágios diferentes de desenvol­ vimento, e em termos de senso comum somos levados a falar em “condição medieval” das populações bengalis ao mesmo tempo que vemos Nova Iorque como uma florescente Babilônia, ou Pequim como o modelo de uma nova civiliza­ ção renascentista. Por isso o paralelo, se é feito, deve se instaurar entre alguns momentos e situações de nossa civili­ zação planetária e diversos momentos de um processo histó­ rico que vai do século V ao X III da nossa era. Certamente comparar um momento histórico preciso (hoje) com um pe­ ríodo de quase mil anos tem muito de brincadeira sem graça, e sem graça seria se assim fosse. Mas aqui estamos tentando elaborar uma “hipótese de Idade Média” (como se nos pro­ puséssemos a construir uma Idade Média e pensássemos nos ingredientes necessários para produzir uma eficiente e plau­ sível). Essa hipótese, ou esse modelo, terá as características de todas as criaturas de laboratório: será o resultado de uma escolha, de uma filtragem e a escolha dependerá de um obje­ tivo preciso. Em nosso caso o objetivo é dispor de uma ima­ gem histórica com que medir tendências e situações do nosso tempo. Será uma brincadeira de laboratório, mas nunca nin­ guém disse seriamente que os brinquedos são inúteis. Brin­ cando, a criança aprende a viver no mundo, justamente por­

que finge

verdade.

aquilo

que depois

será obrigada

a executar

de

O que é necessário para se fazer uma boa Idade Média? Antes de mais nada uma grande Paz que se desfolha, um grande poder estatal internacional que unificara o mundo como língua, costumes, ideologias, religiões, arte e tecnologia

e que a certa altura, por sua própria complexidade ingover­

nável, se desmorona. Desmorona-se porque nas fronteiras investem os “bárbaros”, que não são necessariamente incul­ tos, mas trazem novos costumes e novas visões de mundo.

Esses bárbaros podem penetrar com violência, porque pre­ tendem se apropriar de uma riqueza que lhes fora negada;

ou podem insinuar-se no corpo social e cultural da Pax do­ minante, pondo em circulação novas crenças e novas perspec­ tivas de vida. No início de sua queda o Império Romano não estava minado pela ética cristã; já se deixara minar so­ zinho, acolhendo sincreticamente a cultura alexandrina e os cultos orientais de Mitra ou de Astarte, brincando com a magia, as novas éticas sexuais, várias esperanças e imagens de salvação. Acolheu novos componentes raciais, eliminou por força das circunstâncias rígidas divisões de classe, reduziu

a diferença entre cidadãos e não-cidadãos, entre patrícios e

plebeus, conservou a divisão das riquezas mas misturou as diferenças entre papéis sociais, nem podia proceder de modo diverso. Assistiu a fenômenos de aculturamentos rápidos, pôs no governo homens de raças que duzentos anos antes teriam sido julgadas inferiores, desdogmatizou muitas teolo- gias. No mesmo período o governo pode adorar deuses clás­ sicos, os soldados Mitra e os escravos Jesus. Por instinto persegue-se a fé que, de longe, parece mais letal ao sistema, mas em regra uma grande tolerância repressiva permite acei­ tar tudo.

O colapso da Grande Pax (militar, civil, social e cultu­ ral ao mesmo tempo) inicia um período de crise econômica e de carência de poderes, mas é apenas uma justificável rea­ ção anticlerical a que permitiu ver as Idades das Trevas

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como tão “obscuras” ; com efeito também a alta Idade Média (e talvez mais que a Idade Média após o Milênio) foi uma época de incrível vitalidade intelectual, de diálogos apaixo- nantes entre civilizações bárbaras, herança romana e tem­ peros cristão-orientais, de viagens e encontros, com os mon­ ges irlandeses que atravessavam a Europa difundindo idéias, fazendo conferências, inventando maluquices de todo ti­ Em poucas palavras: foi ali que amadureceu o homem ocidental moderno, e é nesse sentido que o modelo de uma Idade Média pode nos servir para compreender o que está

à queda de uma grande Pax

se sucedem crises e períodos de insegurança, chocam-se ci­

vilizações diferentes e se esboça lentamente a imagem de um homem novo. Ela se tornará clara apenas mais tarde, mas os elementos fundamentais já ali estão em ebulição num dramático caldeirão. Boécio, que divulga Pitágoras e relê Aristóteles, não está repetindo de memória a lição do passado, mas inventa um novo modo de fazer cultura e, fin­ gindo ser o último dos romanos, efetivamente constitui o primeiro gabinete de estudos das cortes bárbaras.

acontecendo nos nossos dias:

3.

Crise da Pax norte-americana

Que estejamos vivendo uma crise da Pax norte-ame­ ricana já é agora lugar-comum de uma historiografia do pre­ sente. Seria pueril tornar rígidos numa imagem precisa os “novos bárbaros” , também pelo peso negativo e despistador que o termo “bárbaro” sempre tem aos nossos ouvidos:

difícil dizer se são os chineses ou os povos do Terceiro Mundo, ou a geração da contestação; ou os imigrados me­ ridionais que em Turim estão criando um novo Piemonte que nunca existira; e se forçam as fronteiras (onde estão) ou já trabalham no interior do corpo social. Por outro lado, quem eram os bárbaros na época da decadência imperial, os

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hunos, os godos ou os povos asiáticos e africanos que envol­ viam o centro do Império em seus comércios e religiões?

A única coisa que de preciso estava desaparecendo era o

Romano, assim como hoje desaparece o Homem Liberal, empresário de língua anglo-saxônica, que tinha tido em Ro-

binson Crusoé o seu poema primitivo e em Max Weber o seu Virgílio. Nos vilarejos dos subúrbios, o executivo médio de cabe­

los à escovinha personifica ainda o romano de antiga cepa, mas seu filho já se veste com cabelos de indiano, poncho

de mexicano, toca citara asiática, lê textos budistas ou libelos

leninistas e consegue quase sempre (como acontecia no baixo Império) conciliar Hesse, o zodíaco, a alquimia, o pensa­ mento de Mao, a maconha e as técnicas de guerrilha urbana; basta ler Do It de Jerry Rubin ou pensar nos programas da Alternate University, que há dois anos, em Nova Iorque, organizava cursos sobre Marx, a economia cubana e a astro­ logia. Por outro lado, também esse sobrevivente romano, nos momentos de tédio, pratica a troca de casais e põe em crise o modelo da família puritana. Inserido numa grande Corporation (grande sistema em degradação), o romano de cabelos à escovinha já está, de fato, vivendo a descentralização absoluta e a crise do poder (ou dos poderes) central reduzido a uma ficção (como já era o Império) e a um sistema de princípios cada vez mais abstratos. Veja-se o impressionante ensaio de Furio Colom­ bo (“Poder, grupos e conflito na sociedade neofeudal”) ', do qual emerge a contemporaneidade de uma situação tipi­ camente neomedieval. Todos sabemos, sem necessidade de fazer sociologia, o quanto em nossa época as decisões do governo são quase sempre formais em relação a decisões aparentemente periféricas de grandes centros econômicos;

'Cf. A. A. V. V., Documenti su il nuovo medioevo, Bompiani, 1973, em que aparece também o presente ensaio.

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os quais não por acaso começam a constituir o seu Sifar par­ ticular, talvez usando as forças daquele público, e suas uni­ versidades, chegando a resultados de eficiência particular, em relação ao Desmoronamento do Distribuidor Central de Treinamento. Em que proporção, afinal, a política do Pentá­ gono ou do FBI possa proceder de modo absolutamente inde­ pendente daquela da Casa Branca é notícia de todos os dias. “O avanço do poder tecnológico esvaziou as insti­ tuições e abandonou o centro da estrutura social” , observa Colombo, e o poder “ se organiza abertamente fora da área central e média do corpo social, rumo a uma zona livre dos deveres e responsabilidades gerais, revelando aberta e re­ pentinamente o caráter acessório das instituições” . Os apelos não são mais em termos de hierarquia ou função codificada, mas de prestígio e pressão efetiva; Co­ lombo cita o caso da rebelião nas prisões de Nova Iorque em outubro de 1970, em que a autoridade institucional, o prefeito Lindsay, pôde agir apenas mediante convites ao equilíbrio, mas a transação acontecia antes entre prisioneiros e serventes, e depois entre jornalistas e autoridades carcerá­ rias, com a mediação efetiva da televisão.

4.

A vietnamizaçao do território

No jogo desses interesses privados que são autogeridos e chegam a manter compromissos e equilíbrios recíprocos, servidos por polícias particulares e mercenárias, com suas próprias centrais torreadas de recepção e defesa, assiste-se àquilo que Colombo chama de uma progressiva vietnamiza- ção dos territórios, freqüentados por novas companhias mer­ cenárias (quem são os minutemen e os black panters?). Expe­ rimente aterrissar em Nova Iorque com um avião da t w a :

entrará num mundo absolutamente privado, uma catedral autogerida que não tem nada a ver com o terminal da Pan-

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american. O poder central, que sofre a pressão da t w a de modo particularmente intenso, fornece à companhia um ser­ viço de vistos e alfândega mais rápido que às outras. Voan­ do pela t w a , entra-se nos Estados Unidos em cinco minutos marcados no relógio, por outras companhias você gastará nisso uma hora. Tudo depende do feudatário voador a quem estará ligado e os missi dominici (que também são investi­ dos do poder de condenação e absolvição ideológica) tirarão de alguns excomunhões que para outros serão muito mais dogmaticamente irrevogáveis.

Não é preciso ir aos Estados Unidos para notar que se modificou o aspecto exterior da sala central de um banco de Milão ou de Turim, e para conferir, tentando entrar no pa­ lácio da r a i na Avenida Mazzini em Roma, qual complexo de controles, geridos por polícias internas, é necessário atraves­ sar antes de poder pôr os pés num castelo mais fortificado que os outros. O exemplo da fortificação e pré-militarização das fábricas, também aqui, está em nível de experiência co­ tidiana. A essa altura o policial em serviço é útil e inútil, reforça a presença simbólica do poder, que por vezes pode se tornar um braço secular efetivo; mas quase sempre bastam as forças mercenárias internas. Quando, então, a fortificação herética (pense-se na Estatal de Milão, com seu território livre guarnecido de privilégios “de fato”) se torna embara­ çosa, então o poder central intervém para restabelecer a autoridade da Imagem do Estado; mas na Faculdade de Arquitetura em Milão, transformada em cidadela, o poder central interveio somente quando senhores feudais de va­ riada extração, indústrias, jornais, d c urbana, decidiram que

a

cidadela inimiga estava sendo expugnada. Somente então

o

poder central percebeu ou fingiu acreditar que a situação

era ilegal há anos, e acusou o conselho da faculdade. Até que

a pressão de feudatários mais ricos não se tornasse insusten­ tável, aquele pequeno feudo de templários extravagantes, ou aquele mosteiro de monges dissolutos, foi abandonado à

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autogestão com suas regras e abstenções, ou suas liberti-

nagens.2

Um geógrafo italiano, Giuseppe Sacco, desenvolveu há um ano o tema da medievalização da cidade. Uma série de minorias que recusam a integração constitui-se em clã e cada clã escolhe um bairro que se torna o próprio centro, freqüentemente inacessível: estamos na “ contrada” medieval (Sacco ensina em Siena). Dentro do espírito de clã são res­ tabelecidas, por outro lado, também as classes abastadas que,

2 Os estudantes protestam porque as classes estão cheias demais e o ensino é demasiado autoritário. Os professores gostariam de organizar o trabalho em seminários com os alunos, mas a política intervém. Num choque cinco estudantes são mortos (ano 1200). É aprovada uma reforma que dá auto­ nomia aos professores e estudantes: o chanceler não poderá recusar a licença de ensino ao candidato proposto por seis professores (ano 1215).

O chanceler de Notre Dame proíbe Aristóteles. Os estudantes, sob pre­

texto dos preços demasiado caros, invadem e demolem uma hospedaria.

O chefe de polícia intervém com uma companhia de arqueiros e fere os

transeuntes. Grupos de estudantes chegam das ruas vizinhas e atacam a

força pública, quebrando a pavimentação para poder lançar pedras. O chefe

de polícia dá ordem de atirar: três estudantes mortos. Greve geral na uni­

versidade, barricada no prédio, delegação ao governo. Estudantes e profes­

sores dirigem-se para universidades periféricas. Após longas negociações o rei estabelece uma lei que regulamenta a preço baixo os alojamentos para

os estudantes e cria associações universitárias e cantinas (março de 1229).

As ordens mendicantes ocupam três cátedras em cada doze. Revolta dos docentes seculares que os acusam de constituir uma máfia de barões (1252). No ano seguinte explode uma luta violenta entre estudantes e polí­ cia, os docentes seculares se abstêm dos cursos em solidariedade, enquanto

os catedráticos das ordens regulares continuam mantendo os seus (1253).

A universidade entra em conflito com o papa, que dá razão aos docentes

das ordens regulares até que Alexandre IV precisa conceder o direito de

greve se a decisão é tomada pela assembléia da faculdade por maioria de

dois terços. Alguns

Guillaume de Saint-Amour, Eudes de Douai, Chrétien de Beauvais e Nico- las de Bar-sur-Aube são processados. Os professores destituídos publicam um livro branco intitulado O perigo dos tempos atuais, mas o livro é con­ denado como “iníquo, criminoso e execrável” por uma bula de 1256 (cf. Gilette Ziegler, Le défi de la Sorbonne, Paris, Julliard, 1969).

docentes

recusam as concessões

e> são destituídos:

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seguindo o mito da natureza, retiram-se para fora da cidade, no bairro-jardim com supermercados autônomos, dando vida

a outros tipos de microssociedade. Sacco também retoma o tema da vietnamização dos ter­ ritórios, teatros de tensões permanentes, por causa da ruptu­ ra do consenso: entre as respostas do poder, a tendência a descentralizar as grandes universidades (uma espécie de “desfolhamento” estudantil) para evitar perigosas concen­ trações de massa. Nesse quadro de guerra civil permanen­ te, dominado por um choque de minorias opostas e sem cen­ tro, as cidades estarão preparadas cada vez mais para se tornarem aquilo que já podemos encontrar em algumas locali­ dades latino-americanas, habituadas à guerrilha “onde a frag­ mentação do corpo social é bem simbolizada pelo fato de o porteiro dos prédios de apartamentos estar habitualmente armado de metralhadora. Nessas mesmas cidades os edifícios públicos parecem de algum modo fortalezas, como os palácios presidenciais, e são circundados por uma espécie de barragem em terra que os protege dos ataques das bazucas” . Naturalmente o nosso paralelo medieval deve ser arti­ culado de modo a não temer as imagens simetricamente opos­ tas. Porque enquanto a outra Idade Média via como intima­ mente ligados decréscimo de população, abandono das cidades e carestia dos campos, dificuldade de comunicação, deterioração das estradas e das postas romanas, crise do controle central, hoje parece acontecer (referente e subja­ cente à crise dos poderes centrais) o fenômeno oposto: o excesso de população que interage com o excesso de comu­ nicação e transportes, tornando as cidades inabitáveis não por destruição e abandono, mas por paroxismo de atividade,

a hera que corrói as grandes construções que desabam é

substituída agora pela poluição atmosférica e pelo acúmulo de lixo que deturpa e torna irrespiráveis as grandes cons­ truções que se renovam; a cidade fica cheia de imigrantes, mas esvaziada de seus velhos habitantes que a usam para trabalhar, correndo depois aos subúrbios (cada vez mais for-

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tifiçados após a chacina de Bel Air). Manhattan prepara-se para ser habitada apenas por negros, Turim por meridionais, enquanto nas colinas e nas planícies circundantes brotam castelos aristocráticos, ligados a etiquetas de boa vizinhança, confiança mútua e grandes ocasiões cerimoniais de encontro.

5.

A deterioração ecológica

Por outro lado a cidade grande, que atualmente não é invadida por bárbaros beligerantes e devastada por incêndios, sofre de escassez de água, crise de energia elétrica disponível, paralisia do tráfego. Ao tentar afetar nas bases a convivência tecnológica, Vacca lembra a existência de grupos under- ground que conclamam à exploração de todas as redes elé­ tricas, usando simultaneamente a maior quantidade possível de eletrodomésticos, e a refrescar a casa deixando a geladeira aberta. Vacca observa, como cientista, que, deixando a ge­ ladeira aberta, a temperatura não diminui, mas aumenta; porém os filósofos pagãos tinham objeções bem mais graves para opor às teorias sexuais ou econômicas dos primeiros cristãos, e todavia o problema não era tanto ver se as teorias eram eficientes quanto, ao contrário, o de reprimir, além de um certo limite, o abstencionismo e a recusa de colabo­ ração. Os professores do Castelnuovo são incriminados por­ que não registrar as ausências à assembléia eqüivale a não fazer sacrifícios aos deuses. O poder receia o relaxamento dos cerimoniais e a falta de respeito formal às institui­ ções, onde vê o desejo de sabotagem da ordem tradicional

e de inserção de novos costumes.

A alta Idade Média caracteriza-se também por uma for­ te decadência tecnológica e pelo empobrecimento dos cam­ pos. Escasseia o ferro e um camponês que deixa cair no poço

a única podadeira que tem deve esperar a intervenção mila­

grosa de um santo que a faça reaparecer (como testemunham

as lendas), do contrário não tem como viver. O pavoroso

86

decréscimo de população aumenta apenas depois do Milênio justamente graças à introdução do plantio do feijão, lentilha e fava, de alto poder nutritivo, sem o que a Europa teria morrido de fraqueza orgânica (a relação entre feijões e re­ nascimento cultural é decisiva). O paralelo, hoje, se inverte para ser restabelecido: um enorme desenvolvimento tecno­ lógico provoca bloqueios e desarranjos e a expansão de uma indústria alimentícia converte-se na produção de alimentos venenosos e cancerígenos. Por outro lado, a sociedade de consumo no mais alto nível não produz objetos perfeitos, mas engenhocas facil­ mente deterioráveis (se quiser uma boa faca, compre-a na África; nos Estados Unidos, depois do primeiro uso, ela se quebra) e a civilização tecnológica está se tornando uma so­ ciedade de objetos usados e inúteis; enquanto nos campos assistimos a desmatamentos, abandono dos cultivos, polui­ ção hídrica, atmosférica e vegetal, desaparecimento de espé­ cies animais e assim por diante, de modo que, se não os feijões, pelo menos uma injeção de elementos genuínos se torna cada vez mais urgente.

6.

O neonomadismo

O fato de que hoje se vá à lua, sejam transmitidas com­ petições esportivas via satélite e se inventem novas substân­ cias coincide muito bem com a outra face, quase sempre ignorada, da Idade Média a cavalo entre os dois milênios, que é definida como a época de uma primeira importantís­ sima revolução industrial; no decorrer de três séculos são inventados os estribos e arreios que aumentam o rendimento do cavalo, o timão posterior articulado que permite aos na­ vios navegar à bolina contra o vento, o moinho de vento. Não parece, mas são poucas as oportunidades que um ho­ mem tem em sua vida de ver Pavia, e muitas as de ir parar em Santiago de Compostela ou em Jerusalém. A Europa

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medieval era sulcada de estradas de peregrinação (enumera­ das em seus bons guias turísticos que citavam as igrejas aba­ dais como hoje são citados os motéis e os Hilton) como nossos céus são sulcados por linhas aéreas que tornam mais fácil ir de Roma a Nova Iorque que de Spoleto a Roma. Alguém poderia objetar que a sociedade seminômade medieval era uma sociedade de viagem insegura; partir signi­ ficava fazer testamento (pense-se na partida do velho Anne Vercos em UAnnonce faite à Marie de Claudel), e viajar significava encontrar salteadores, bandos de andarilhos, fei­ ras. Mas a idéia da viagem moderna como uma obra-prima de conforto e segurança já naufragou faz tempo, e tomar um jato atravessando os vários controles eletrônicos e as investi­ gações contra o desvio de rota restabelece de modo semelhan­ te o antigo sentimento de insegurança aventureira destinado presumivelmente a aumentar.

7.

A Insecurítas

“ Insegurança” é uma palavra-chave: é preciso inserir

essa sensação no quadro das aflições milenaristas ou “quiliás-

ticas” : o mundo está no fim, uma catástrofe

com o milênio. Os famosos horrores do ano Mil são uma lenda, como já foi demonstrado, mas que durante todo o século X serpenteava o medo do fim, isso também já foi de­ monstrado (exceto que no término do milênio a psicose já tinha passado). No que se refere aos nossos dias, os temas recorrentes da catástrofe atômica e da catástrofe ecológica (além do presente estudo) bastam para indicar vigorosas cor­ rentes apocalípticas. Como corretivo utópico havia naquela época a idéia da “renovado imperii” e há hoje a idéia bas­ tante modulável de “revolução” , ambas com sólidas pers­ pectivas reais, salvo defasagens finais em relação ao projeto (não será o Império a se renovar, mas haverá o renascimento

das comunas e as monarquias nacionais a disciplinar a inse­

final acabará

gurança). Mas a insegurança não é apenas “histórica” , é psicológica, incorpora-se na relação homem-paisagem, ho- mem-sociedade. Perambulava-se pelos bosques à noite ven­ do-os apinhados de presenças maléficas, não era conveniente aventurar-se tão facilmente fora do povoado, andava-se arma­ do; condição a que chega o habitante de Nova Iorque, que não mais põe os pés depois das cinco da tarde no Central Park, ou presta atenção para não pegar um metrô que o dei­ xe, por engano, no Harlem, nem toma o metrô sozinho depois da meia-noite, e mesmo antes, se é uma mulher. Entretanto, ao mesmo tempo que em toda a parte as forças policiais começam a reprimir os saques mediante massacres indiscriminados de bons e maus, instaura-se a prática do roubo revolucionário e do seqüestro de embaixador, assim como um cardeal com seu séquito podia ser capturado por um Robin Hood qualquer e ser trocado por um par de alegres companheiros da floresta, destinados à forca ou à roda. Último retoque no quadro da insegurança coletiva, o fato de que como naquela época, e diferentemente dos usos ins­ taurados pelos Estados modernos liberais, a guerra não é mais declarada (a não ser no fim do conflito, vide índia e Paquistão) e nunca se sabe se se está em estado de belige­ rância ou não. De resto, que se vá a Livorno, a Verona ou a Malta para perceber que tropas do Império aquartelam-se nos vários territórios nacionais como presídio contínuo, e trata-se de exércitos plurilíngües com comandantes continua­ mente tentados a usar essa força para guerrear (ou fazer po­ lítica) por conta própria.

Os vagantes

Nesses amplos territórios dominados pela insecuritas, vagam bandos de marginalizados, místicos ou aventureiros. Afora que na crise geral das universidades e no plano de bolsas de estudo descoordenadas, os estudantes vão se re­

X9

constituindo como vagantes, e recorrem sempre e somente

a mestres não-permanentes, rejeitando os próprios “precep- tores naturais”, temos de um lado bandos de hippies

verdadeiras ordens mendicantes — que vivem da caridade pública em busca de uma felicidade mística (droga ou Graça divina faz pouca diferença, mesmo porque várias religiões não-cristãs despontam entre as dobras da felicidade química). As populações locais não os aceitam e perseguem-nos, e quando for expulso de todas as casas da juventude escreva o irmão das flores que aqui reina perfeita alegria. Como na Idade Média quase sempre o limite entre o místico e o ladrão é mínimo e Manson outra coisa não é senão um monge que se excedeu, como seus ancestrais, nos ritos satâ­ nicos (por outro lado também quando o homem de poder faz sombra ao governo legítimo acaba envolvido, como fez Filipe, o Belo, com os Templários, no escândalo dos baila­ dos verdes). Excitação mística e rito diabólico estão muito próximos, e Gilles de Rais, queimado vivo por ter devorado muitas criancinhas, era companheiro de armas de Joana

d ’Arc, guerrilheira carismática como Che. Outras formas

afins àquelas das ordens mendicantes são, ao contrário, rei­ vindicadas, em outra chave, por grupos politizados, e o mo- ralismo da União dos marxistas-leninistas tem raízes monás­ ticas, com seu apelo à pobreza, à austeridade dos costumes

e “ao serviço do povo” .

Se os paralelos parecem desordenados, pense-se na enor­ me diferença, sob a aparente cobertura religiosa, que se in­ terpunha entre monges contemplativos e indolentes, que no recesso do mosteiro viviam fazendo das suas, franciscanos ativos e populistas, dominicanos doutrinários e intransigen­ tes, todos juntos porém se marginalizando por vontade pró­ pria e de modos diferentes do contexto social corrente, desprezado como decadente, diabólico, fonte de neuroses,

de “ alienação” . Essas sociedades de renovadores,

entre uma furiosa atividade prática a serviço dos desampa­ rados e uma violenta discussão teológica, são dilaceradas por

divididas

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recíprocas acusações de heresia e pelo ricochete contínuo de excomunhões. Cada grupo fabrica os próprios dissidentes e os próprios heresiarcas, os ataques que se dirigiam uns aos outros dominicanos e franciscanos não são diferentes daque­ les que se dirigem trotskistas e stalinistas — nem esse é

o indício, ceticamente sublinhado, de uma desordem sem

objetivo, mas, ao contrário, é o indício de uma sociedade em que novas forças buscam novas imagens de vida coletiva e descobrem não poder impô-las a não ser através da luta con­ tra os “ sistemas” estabelecidos, praticando uma consciente

e

rigorosa intolerância teórica e prática.

9.

A Auctoritas

Há um aspecto da civilização medieval que uma óptica leiga, iluminista e liberal nos levou, por excesso de obriga­ tória polêmica, a deformar e a julgar mal, é a prática de recurso à auctoritas. O estudioso medieval finge sempre não ter inventado nada e cita continuamente uma autoridade pre­ cedente. Serão os padres da Igreja oriental, será Agostinho, serão Aristóteles ou as Sagradas Escrituras ou estudiosos de apenas um século antes, mas nunca nada de novo deve ser sustentado a não ser fazendo com que apareça como que

já dito por outrem que nos precedeu. Se pensarmos bem,

é justamente o contrário daquilo que se fará de Descartes

até o nosso século, em que o filósofo ou o cientista que va­ lem alguma coisa são exatamente aqueles que trouxeram algo de novo (e o mesmo, do Romantismo e quem sabe até do Maneirismo em diante, vale para o artista). O medieval não, faz exatamente o contrário. Desse modo o discurso cultural medieval parece, de fora, um enorme monólogo sem variações, porque todos se preocupam em usar a mesma lin­ guagem, as mesmas citações, os mesmos argumentos, o mes­ mo léxico, e parece ao ouvinte que está de fora que se está

dizendo sempre a mesma coisa, exatamente como acontece

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a quem chega a uma assembléia estudantil, lê a imprensa

dos grupinhos extraparlamentares ou os escritos da revolu­ ção cultural. De fato, o estudioso de assuntos medievais sabe reco­ nhecer diferenças fundamentais assim como o político, hoje,

nada com desenvoltura individuando diferenças e desvios a cada intervenção e sabendo classificar imediatamente seu interlocutor neste ou naquele engajamento. É que o medieval sabe muito bem que da auctoritas pode-se fazer o que bem se entende: “A auctoritas tem um nariz de cera que pode ser deformado como se quiser” , diz Alain de Lille no século

X II. Mas já antes Bernard de Chartres dissera: “Nós somos

como que anões em cima

dos ombros de gigantes” ; os gi­

gantes são as autoridades indiscutíveis, muito mais lúcidas

e enxergando mais longe que nós, mas nós, pequenos que

somos, quando nos sustentamos em cima deles enxergamos mais longe. Havia, então, de um lado a consciência de estar inovando e continuando, mas a inovação devia ser apoiada num corpus cultural que garantisse de uma parte algumas persuasões indiscutíveis e de outra uma linguagem comum.

O

que não constituía apenas (embora quase sempre acabas­

se

se tornando) dogmatismo, mas era o modo como o medie­

val reagia à desordem e à dissipação cultural da baixa ro-

manidade, ao cadinho de idéias, religiões, promessas e linguagens do mundo helenístico, em que cada um se encon­ trava só com seu tesouro de sabedoria. A primeira coisa a fazer era reconstruir uma temática, uma retórica e um léxico comum, nos quais se reconhecer, do contrário não

se podia mais comunicar e (o que interessava) não se podia

lançar uma ponte entre o intelectual e o povo — coisa que

o medieval, paternalmente e por conta própria, fazia, ao

contrário do intelectual grego e romano. Ora, o comportamento dos grupos políticos juvenis hoje é exatamente do mesmo tipo, representa a reação à dis­ sipação da originalidade romântico-idealista, e ao pluralismo das perspectivas liberais, vistas como capas ideológicas que

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ocultam, sob a pátina da diferença de opiniões e de métodos, a maciça unidade do domínio econômico. A pesquisa dos textos sagrados (sejam eles Marx ou Mao, Guevara ou Rosa Luxemburg) tem antes de mais nada a seguinte função: res­ tabelecer uma base de discurso comum, um corpo de autori­ dades reconhecíveis sobre as quais instaurar o jogo das di­ ferenças e das propostas em conflito. Tudo isso com uma humildade completamente medieval e exatamente oposta ao espírito moderno, burguês e renascentista; não tem mais im­ portância a personalidade de quem propõe, e a proposta não deve passar como descoberta individual, mas como fruto de uma decisão coletiva, sempre e rigorosamente anônima. Des­ se modo uma reunião em assembléia se desenvolve como uma quaestio disputata: a qual dava ao forasteiro a impres­ são de um jogo monótono e bizantino, enquanto nela eram debatidos não só os grandes problemas do destino do ho­ mem, mas as questões concernentes à propriedade, à dis­ tribuição da riqueza, às relações com o Príncipe, ou à natu­ reza dos corpos terrestres em movimento e dos corpos ce­ lestes imóveis.

10.

As formas do pensamento

Mudando rapidamente (no que diz respeito a hoje) de cenário, mas sem nos deslocarmos um centímetro no que diz respeito ao paralelo medieval, eis-nos numa aula univer­ sitária onde Chomsky recorta gramaticalmente nossos enun­ ciados em elementos atômicos que se ramificam em dois, ou Jakobson reduz a espaços binários as emissões fonológicas, ou Lévi-Strauss estrutura em jogos antinômicos a vida pa- rental e a textura dos mitos, ou Roland Barthes lê Balzac, Sade e Inácio de Loyola como o medieval lia Virgílio, no encalço de ilusões opostas e simétricas. Nada está mais pró­ ximo do jogo intelectual medieval que a lógica estruturalis- ta, como nada está mais próximo dela, no fim das contas,

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que o formalismo da lógica e da ciência física e matemática contemporânea. Que no próprio território antigo possam ser encontrados paralelos com o debate dialético dos políticos ou com a descrição matematicizante da ciência não deve surpreender ninguém, justamente porque estamos comparan­ do uma realidade atual a um modelo condensado: mas tra­ ta-se, em ambos os casos, de dois modos de enfrentar a realidade que não encontram paralelos satisfatórios na cultura moderna burguesa e que dependem ambos de um projeto de reconstituição, diante de um mundo cuja imagem oficial foi perdida ou rejeitada. O político argumenta com sutileza, apoiado pela auto­ ridade, para fundamentar em bases teóricas uma práxis de formação; o cientista tenta restituir uma forma, através de classificações e distinções, a um universo cultural explodido (como o greco-romano) por excesso de originalidade e pela confluência conflitante de contribuições demasiado díspares, Oriente e Ocidente, magia, religião e direito, poesia, medi­ cina ou física. Trata-se de mostrar que existem abscissas do pensamento que permitem recuperar modernos e primitivos sob a égide de uma mesma lógica. Os excessos formalistas

e a tentação anti-histórica do estruturalismo são os mesmos

das discussões escolásticas, assim como a tensão pragmática

e modificadora dos revolucionários, que então eram chama­

dos reformadores ou hereges tout court, deve (como devia) apoiar-se em cima de furiosas diatribes teóricas e cada nuan- ça teórica implicava uma práxis diferente. Até as discussões entre São Bernardo, partidário de uma arte sem imagens,

depurada e rigorosa, e Suger, partidário da catedral suntuosa

e pululante de comunicações figurativas, têm correspondên­

cia, em variados níveis e chaves, com a oposição entre cons- trutivismo soviético e realismo socialista, entre abstratos e neobarrocos, entre teóricos puristas da comunicação concei­

tuai e partidários mcluhanianos da aldeia global da comu­ nicação visual.

94

11.

A arte como bricolage

Quando se passa porém aos paralelos culturais e artís­ ticos, o panorama se torna muito mais complexo. De um lado temos uma correspondência bastante perfeita entre duas épocas que de diferentes modos, com semelhantes utopias educativas e com semelhante mascaramento ideológico de um projeto paternalista de direção das consciências, tentam preencher a diferença entre cultura culta e cultura popular, passando através da comunicação visual. Ambas são épocas cuja elite selecionada raciocina sobre textos escritos com mentalidade alfabética, mas depois traduz em imagens os dados essenciais do saber e as estruturas portadoras da ideologia dominante. Civilização da visão, a Idade Média, onde a catedral é o grande livro de pedra, e de fato é o manifesto publicitário, o vídeo televisual, o místico almana­ que que deve contar e explicar tudo, os povos da terra, as artes e as profissões, os dias do ano, as estações da se- meadura e da colheita, os mistérios da fé, as anedotas da história sagrada e profana e a vida dos santos (grandes mo­ delos de comportamento, como hoje os astros e os cantores, elite sem poder político, como explicaria Francesco Alberoni, mas com imenso poder carismático). Junto a essa maciça empresa de cultura popular de­ senvolve-se o trabalho de composição e colagem que a cultu­ ra culta exerce sobre os detritos da cultura passada. Pegue- se uma caixa mágica de Cornell ou Armand, uma colagem de Ernst, uma máquina inútil de Munari ou de Tinguely, e se estará numa paisagem que não tem nada a ver com Rafael ou Canova, mas que tem muitíssimo a ver com o gosto esté­ tico medieval. Na poesia são centões e adivinhas, os kenning irlandeses, os acrósticos, as tramas verbais de citações múlti­ plas que lembram Pound e Sanguineti; os jogos etimológicos desvairados de Virgilio de Bigorre e Isidoro de Sevilha, que lembram tanto Joyce (Joyce sabia disso), os exercícios de composição temporais dos tratados de poética, que parecem

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um programa para Godard, e sobretudo o gosto da coleção e do inventário. Que então se concretizava nos tesouros dos príncipes ou das catedrais, onde eram recolhidos indis­ tintamente uma lasca da cruz de Jesus, um ovo achado den­ tro de outro ovo, um chifre de unicórnio, o anel de noivado de São José, o crânio de São João aos doze anos de idade

(.sic).3

E dominava uma total indistinção entre objeto estético e objeto mecânico (um autômato em forma de galo, artisti­ camente cinzelado, é presenteado por Harun al-Rachid a Car­ los Magno, jóia cinêtica se é que existiram), e não havia di­ ferença entre objeto de “criação” e objeto de curiosidade, com uma indistinção entre artesanal e artístico, entre “múlti­ plo” e exemplar único e sobretudo entre trouvaille curiosa (o lustre liberty como o dente de baleia) e obra de arte. O todo dominado pelo senso da cor berrante e da luz como ele­ mento físico de prazer, e não importa que lá houvesse vasos de ouro incrustados de topázios postos para refletir os raios de sol refratados por um vitral de igreja, e aqui haja a orgia em multimídias de um Electric Circus qualquer, com pro­ jeções polaroid cambiantes e lembrando a natureza da água.

3 Objetos contidos no tesouro de Carlos IV da Boêmia: o crânio de Sto. Adalberto, a espada de Sto. Estêvão, um espinho da coroa de Jesus, lascas da Cruz, toalha da Última Ceia, um dente de Sta. Margarida, uma lasca de osso de S. Vital, uma costela de Sta. Sofia, o queixo de Sto. Eubano, costela de baleia, presa de elefante, cajado de Moisés, roupas da Virgem. Objetos do tesouro do duque de Berry: um elefante empalhado, um basi- lisco, maná encontrado no deserto, chifre de unicórnio, cocos, aliança de casamento de S. José. Descrição de uma amostra de pop art e nouveau réalisme: boneca estripada com cabeças de outras bonecas à mostra, um par de óculos com olhos pintados por cima, cruz incrustada de garrafas de Coca-Cola e uma luzinha no meio, retrato de Marilyn Monroe multi­ plicado, ampliação de quadrinhos de Dick Tracy, cadeira elétrica, mesa de pingue-pongue com bolas de gesso, pedaços de automóveis comprimidos, capacete de motociclista pintado a óleo, pilha elétrica de bronze sobre pe­ destal, caixa com tampinhas de garrafas, mesa vertical com prato, faca, maço de Gitanes e chuveiro pendente sobre paisagem a óleo.

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Dizia Huizinga que para compreender o gosto estético medieval é necessário pensar no tipo de reação que experi­ menta diante do objeto curioso e precioso um burguês estar­ recido. Huizinga pensava em termos de sensibilidade esté­ tica pós-romântica; hoje veremos que esse tipo de reação é

o mesmo que sente um jovem em relação a um pôster que

representa um dinossauro ou uma motocicleta, ou a uma caixa mágica transistorizada em que rodam feixes luminosos, a meio caminho entre o modelinho tecnológico e a promessa de ficção científica, com componentes de ourivesaria bár­ bara.

Arte não sistemática mas cumulativa e compositiva a nossa como a medieval, hoje como então coexiste o experi­ mento elitista refinado com a grande empresa de divulgação popular (a relação miniatura-catedral é a mesma que há entre

o

Museum of Modern Art e Hollywood), com intercâmbios

e

empréstimos recíprocos e contínuos: e o aparente bizanti-

nismo, o gosto tresloucado pela coleção, o elenco, o assern- blage, o amontoamento de coisas diferentes é devido à ne­

cessidade de decompor e reavaliar os detritos de um mundo precedente, talvez harmônico, mas já agora obsoleto, para ser vivido, diria Sanguineti, como uma Palus Putredinis, que fora ultrapassada e esquecida. Enquanto Fellini e Antonioni experimentam seus Infernos e Pasolini seus Decamerões (e

o Orlando de Ronconi não é absolutamente uma festa re­

nascentista, mas um mistério medieval na praça e para a arraia-miúda), alguém tenta desesperadamente salvar a cultu­

ra antiga, achando-se investido de um mandato intelectual, e se acumulam as enciclopédias, os digestos, as mostras ele­ trônicas da informação com que Vacca contava para trans­ mitir aos pósteros um tesouro de saber que está arriscado a se dissolver na catástrofe.

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12.

Os mosteiros

Nada é mais semelhante a um mosteiro (perdido no campo, cercado e rodeado por hordas bárbaras e estranhas, habitado por monges que não têm nada a ver com o mundo e desenvolvem suas pesquisas particulares) que um campus universitário norte-americano. Às vezes o Príncipe chama um desses monges e faz dele seu conselheiro, mandando-o em embaixada a Catai; e esse passa do claustro ao século com indiferença, tornando-se homem de poder e tentando gover­ nar o mundo com a mesma asséptica perfeição com que co­ leciona seus textos gregos. Chame-se Gerbert d ’Aurillac ou MacNamara, Bernard de Clairvaux ou Kissinger, pode ser homem de paz ou de guerra (como Eisenhower, que ven­ ce algumas batalhas e em seguida se retira para um mosteiro, tornando-se diretor de college, só para depois voltar ao serviço do Império quando a multidão o chama como herói carismático). Mas é de duvidar se pertencerá a esses centros monás­ ticos a tarefa de registrar, conservar e transmitir o fundo da cultura passada, talvez mediante complicados aparelhos eletrônicos (como sugere Vacca) que a restituam aos poucos, estimulando sua reconstrução sem nunca revelar a fundo to­ dos os segredos. A outra Idade Média produziu no fim um Renascimento que se divertia em fazer arqueologia, mas de fato a Idade Média não fez obra de conservação sistemá­ tica, mas sim de destruição casual e conservação desordenada:

perdeu manuscritos essenciais e salvou outros completamen­ te irrisórios, raspou poemas maravilhosos para escrever em cima adivinhas ou preces, falsificou os textos sagrados inter- polando passagens e assim procedendo escrevia os “ seus li­ vros”. A Idade Média inventa a sociedade comunal sem ter tido notícias precisas sobre a pólis grega, chega à China acre­ ditando encontrar homens de um pé só ou com a boca na barriga, chega quem sabe à América antes de Colombo usan­

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k

do a astronomia .

nes

de

Ptolomeu

13.

A transição permanente

e a geografia

de Eratóste-

Dessa nossa nova Idade Média já se disse que será uma época de “ transição permanente” na qual serão adotados no­ vos métodos de adaptação: o problema não será tanto o de conservar cientificamente o passado quanto o de elaborar hi­ póteses sobre o aproveitamento da desordem, entrando na lógica da conflitualidade. Nascerá, como já está nascendo, uma cultura da readaptação contínua, nutrida de utopia. Foi assim que o homem medieval inventou a universidade, com a mesma desinibição com que os clérigos vagantes de hoje a estão destruindo; e talvez transformando. A Idade Média conservou a seu modo a herança do passado não para hiber­ nação, mas para contínua retraduçao e reutilização, foi uma imensa operação de bricolage em equilíbrio instável entre nostalgia, esperança e desespero. Sob sua aparência imobilista e dogmática foi, parado­ xalmente, um momento de “revolução cultural” . O processo todo foi naturalmente caracterizado por pestes e massacres, intolerância e morte. Ninguém diz que a nova Idade Média representa uma perspectiva de todo alegre. Como diziam os chineses para maldizer alguém: “Que você possa viver numa época interessante.”

1972

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