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HOSPITAIS MANDARAM-NO EMBORA

A MORTE DENTRO DE CASA


NUM ROSTO A DESFAZER-SE

Hospital, a Coimbra, foi no


FERNANDO PAULOURO NEVES
A. BAPTISTA PEREIRA (fotos) dia 12 de Fevereiro», diz-me.
«Olharam para ele, de longe,
e mandaram-no para casa,
São dezenas de moscas despedida. O homem que sem uma palavra de
coladas aos vidros da assim está a ser crucificado conforto...» Maria R osalina
janela. Passeiam o zumbido foi mandado embora dos faz mais do que pode. Uma
da sua impaciência, esprei- Hospitais. Há quatro meses mulher destroçada que os
tam uma fresta para atacar o que não vê médico, nem medicamentos artificial-
rosto em lenta decompo- enfermeiro. A Segurança mente trazem de pé- Não
sição de um homem que, lá Social nunca se acercou da sabe o que há-de fazer. «O
dentro, na solidão de quatro sua beira. O padre da meu homem está aqui vai
paredes, trava uma inglória freguesia quer lá saber! para 4 meses, sem ver médico
batalha com a morte. Ela, a Consideraram-no morto - e ou enfermeiro. O pior é o
morte, poisou subitamente todos os dias o matam. Com cheiro e as moscas...tantas,
naquela casa, cercou de indiferença. Com abando- tantas!»
tristeza uma família: os dias no. Com desumanidade. O cheiro. Nesta tarde quente
ternos da alegria fugiram Agoniza ali, naquela casa do de Maio, a casa está cheia
para sempre. A morte esco- Casal da Serra. A mulher, desse odor pestilencial que
lheu um rosto que, segundo Maria Rosalina de Matos, e a morte arrasta. E penso no
a segundo, hora a hora, dia o filho, Helder Roberto, de 11 que isso significa de terrível
a dia, vai roendo. É uma anos, vivem há meses este para quem vive permanente-
crucificação sem cruz a que drama à flor do lar. e as mãos foram lançadas à moravam apenas as para cuidar do marido. mente essa realidade, dentro
Álvaro de Matos Ramalho, OAlexandre José, que tem só obra. Pedra a pedra, a casa foi lágrimas. Mostra-me o Alexandre daquelas paredes. O que
que um destes dias de Maio, quatro meses, chora. Cá tomando corpo: aqui a será um dia, muitos dias, uma
fez 39 anos, está a sofrer. A fora, o sol de fim de tarde cozinha, ali a sala, e quarto noite, muitas noites, cerca-
desfiguração é progressiva: recorta de maior beleza os mais além. E para os miúdos, História das pelo cheiro putrefacto
todos os dias ele sabe que penhascos da Gardunha. claro, que é sempre a pensar de uma reportagem que se agarra ao ar, à pele e
um bocado do seu rosto vai Apetece-me chorar de raiva neles que estas coisas se às coisas? O que será essa
ser comido pelo cancro que pelo meu país. Onde este tipo fazem. Maria Rosalina QUANDO o nosso leitor, António Querido, me telefonou morte concreta e real que
o devora. A sua face é já um de crime acontece e fica engravidara: os dias conti- fazendo a leitura indignada do drama do Casal da Serra, Maria Rosalina, o Hélder e o
enorme buraco, onde impune. nuavam felizes. Cá fora, no adivinhámos uma situação limite, mas estávamos longe de menino de quatro meses
imaginar uma realidade tão pungente. Fomos lá, na equipa respiram em cada minuto?
sobressai o tubo que finge espaço que envolve a casa, levámos um médico, o dr. António Lourenço Marques que
alimentá-lo. Já não há boca, NO TEMPO DOS DIAS plantaram-se pinheiros e Que pensará o homem que
depois escreveu o belíssimo texto que completa a nossa
nem maxilar, nem língua. O FELIZES semearam-se flores. «Quan- reportagem. Autorizados a tirar fotografias e a filmar, não
agoniza a sua morte lenta,
rosto é uma ferida aberta do a casa estiver acabada, quisémos publicar as fotos que, podendo ser excelente sem cuidados médicos, sem
sem princípio nem fim. O A casa nova começou a ser que lindo!» suporte visual da reportagem, continham desmesurado solidariedades alheias, sem
homem que sofre este construída no tempo, em No dia 3 de Julho do ano grau de dramatismo. Mesmo assim, a que inserimos, contém a mínima assistência social?
drama, está lúcido. Já não que os dias eram felizes. passado, as obras da casa suficiente força dramática para abanar as nossas Pensava em tudo isto,
consciências e mostrar como um caso desta gravidade é quando o Helder Roberto,
fala, mas comunica com Alvaro de Matos Ramalho, interromperam-se. Foi como atirado neste país para uma criminosa indiferença. Talvez
sinais. O espelho devolve- funcionário dos Serviços se um sonho caísse por terra. nos seus 11 anos que não
valha a pena mostar a documentação fotográfica e video
lhe a imagem da sua trágica Municipalizados de Castelo Álvaro de Matos, mandado deste drama em câmara lenta, ao sr. ministro da Saúde e a
são alegres mas tristes, se
circunstância. Álvaro Branco, trabalhava no Casal a uma consulta médica ao outros membros do governo, para sabermos se, mesmo acerca de mim, acabado de
Ramalho assiste, impo- da Serra, nos Serviços de Hospital de Castelo Branco, assim, não perdem o sono. chegar da escola.
tente, ao desfazer do seu Abastecimento de Água. A iria ficar internado. F.P.N. Tento o impossível: falar-lhe
corpo.A morte antecipou-se família era o seu universo. A Depois, em Coimbra, foi-lhe doutras coisas, da banda
e ele convive agora com o mulher, Maria Rosalina de diagnosticada a doença desenhada, dos ninhos e
cadáver que alastra por Matos, e o Hélder Roberto, fatal. Fez cobalto. Mas o mal dos pássaros, dos cóbois
dentro de si. As moscas que já frequentava o Ciclo, depressa lhe escreveu no HÁQUATROMESES José: - «Faz hoje quatro que decerto é bom jogar nos
espreitam e atacam, enton- constituíam o retrato da rosto a inevitabilidade da SEMASSISTÊNCIA meses!» labirintos de pedra da
tecidas pelo cheiro nausea- felicidade do lar. Num sítio morte. Quando o mandaram MÉDICA Enquanto pega no menino, Gardunha. O Helder diz-me
bundo que invade toda a bonito, à beira da estrada, para casa, Alvaro de Matos um sorriso parece aflorar-lhe que sim, mas o seu pensa-
casa. No rosto que se dominando a aldeia e a Serra, trazia uma guia de marcha MARIA Rosalina de Matos os lábios. Mas depressa a mento está no pai que, lá
desfaz, dois olhos rasos de Álvaro de Matos começou para o fim. OAlexandre José, tem 33 anos. Fazia umas face se fecha no pesadelo dentro, em cada hora, ele vê
água, trespassam o meu a materializar o sonho de ter que entretanto nasceu, veio horas num café, mas foi que há meses está a viver. «A morrer aos bocados. «Esta
olhar como uma longa uma casa nova. A vida sorria habitar um espaço onde já obrigada a deixar de trabalhar última vez que o levaram ao criança está traumatizada!»,
diz-me a mãe. E uma vizinha, tratar e não tratam estes que pregam o céu, mas temos coragem! Outra vez, pároco da freguesia e com o deu-lhe 300$00 e chorou
a srª Maria Joaquina, de 87 casos especiais; para os esquecem os dramas em Dezembro, vieram umas pregador para visitarem o muito...» O miúdo regressa
anos, sempre solidária, que técnicos da solidariedade terrenos para não perderem senhoras da Segurança marido. Preparou tudo e ao ar livre. Tem ao colo o
trata do menino quando social, que sabem mas o sono. Social de Castelo Branco. ficou à espera. irmão mais novo. Diz-me:
pode, e ajuda, apontando Visitaram todos os doentes, «Eu gosto muito do meu pai,
para o Helder. «O que esta mas este que deixa arrastar mas acho que no Hospital
criança tem passado, meu assim, sem qualquer acom- estaria melhor...» A mãe
Deus! Quando a mãe sai, ele panhamento, um caso desta irrompe num choro: «Todos
é que fica a tomar conta do dimensão trágica? Onde os dias enterro bocados de
pai. Tem tido uma vida muito está a assistência social? carne que caem para o
sacrificada, este menino...» Onde estão e para que lençol. Até tenho medo de
Aquele menino vive num servem os Hospitais? Onde entupir a máquina com a
inferno, pensa o repórter em está um serviço mínimo roupa que ponho a lavar...»
voz alta, com os olhos domiciliário de saúde? Por As palavras parecem
gelados de tristeza. que serviços passou este lâminas. Regresso ao Helder,
caso? Quem não se que traz um pintassilgo com
OSOUTROSFINGEM envergonha com tamanha ele. Olho a pequena ave,
IGNORAR desumanidade? poisada na palma da mão. O
pássaro está ferido. O
VEJO tudo isto, faço DOIS OLHOS, UMA Helder vai curá-lo para
prodígios de imaginação LENTADESPEDIDA depois o pintassilgo poder
para imaginar o sofrimento a voar, em liberdade.
que foi condenada esta gen- AS moscas continuam O sol está quase a passar a
te, e digo para mim, lembrado coladas aos vidros da janela linha do horizonte e a serra
de outros dramas: No Casal do quarto onde Álvaro de parece diferente. Descemos
da Serra, tu não viste nada! Matos assiste à sua morte de para o Louriçal do Campo,
Porque não é possível olhos abertos. Grandes num silêncio embaciado de
descrever o que se vê, o que fingem ignorar; para os Um dia, vieram enfermeiros. Estiveram na cozinha. «Não afectos o prendem à vida. Os lágrimas. Presa a nós, vem
se sente, o que se cheira. É médicos de família, que Perguntaram da porta: foram capazes de ir ver o olhos poisam nos filhos e na uma imagem: dois olhos
um outro mundo, absurdo e conhecendo o caso, põem - Precisa alguma coisa, D. meu marido!» Deram alguma mulher. Gosta de ouvir a sua muito vivos num rosto a
trágico. sobre ele uma pedra; para os Rosalina? coisa, mas nunca mais voz. Comove-se sempre que desfazer-se. Dois olhos que
Álvaro de Matos, como se a que dirigem a freguesia que - Se preciso! - respondeu a voltaram. Esta Páscoa, lhe levam o menino de eram uma lenta despedida.
doença não lhe bastasse, é devem ser atentos à mulher. - Preciso que façam houve procissão aos meses. Um fio de ternura, é o Só muitos quilómetros
incómodo para todos. Para dimensão social destes o penso ao meu homem... enfermos. Maria Rosalina, que resta. «No dia 7 de Maio, depois, voltámos a respirar
os hospitais, que deviam acontecimentos; para os - Não nos peça isso, que não falou na véspera com o o Helder fez 11 anos. O pai com palavras.

O doente terminal entre o abandono e o desespero


ANTÓNIO LOURENÇO MARQUES*

1. Todos nós teremos um dia térebras, que abatiam, sem das palavras doces e fio umbilical que vem do cheiro nauseabundo dos há muito, não recebe
o fim, a nossa morte, a apelo nem agravo, as amargas e porque não do estômago, a única via de tecidos pútridos e qualquer assistência do
enfrentar talvez de forma muralhas inimigas. O queixo amor, extinta que foi pela raiz, acesso aos alimentos líqui- infectados. E pairando à médico, da enfermeira ou da
desconhecida: violenta- arrasou, restando apenas um deixou soltos os sons dos que mantêm a vida volta, as moscas zumbindo, assistente social, abando-
mente ou em paz, em agonia resquício do osso da man- guturais, subterrâneos, de- deste corpo invulgarmente atraídas ao repasto. nado apenas aos cuidados
quase interminável ou da mulher que também trata
subitamente, imersos no dos filhos à mistura com a
maior sofrimento ou sem labuta dos campos. Maca-
dor, sós ou acompanhados bro exemplo de qualidade de
pela família e pelos amigos, assistência portuguesa, em
em casa, no hospital ou tempos de sucesso, no final
saberemos lá onde? do século XX!
Por vezes, o cenário da Está ali um homem dócil, com
morte antecipa-se e há quem quem se pode comunicar.
o viva em jeito de aconte- Que tem uma alma ou, se
cimento prenunciado. Há quisermos, algo mais que o
doenças que se inscrevem corpo irremediavelmente
nos corpos, com o selo condenado. Quando os dois
fatídico da morte, demo- filhos entram por ali, o de
rando-se tempos que, mes- meses ao colo da mãe e o
mo que sejam curtos, não rapazito com um pássaro na
deixam de ser sofridos com mão, como eu vi nesta visita,
duração redundante. São os a emoção estala nos olhos
doentes terminais, com ainda não consumidos e
doenças crónicas que os funde-se em lágrimas que
vão consumindo inexora- brilham como gotas orva-
velmente até à morte, per- lhadas. É o reflexo da luz
manentemente anunciada. opalescente, vinda das
O caso do Casal da Serra é cercanias da serra através
de um dramatismo atroz. da larga janela do quarto,
Num homem na força da que o observador retém na
idade, o cancro partiu do memória, a assinalar con-
pavimento da boca, com tacto tão intenso, vivido
uma fúria desatinada, díbula, seco e esponjoso, em finitivamente animalescos e mutilado. Para baixo do E o que é mais espantoso é numa tarde destas de Maio,
corroendo tudo à sua volta. forma de boomerang espe- impedidos do prodígio da buço desalinhado não há saber que este doente, tão na aldeia rarefeita, mas de
É uma forma terebrante, tado pelos bicos e prestes a voz clara. mais nada, a não ser a ferida gravemente doente, foi paisagens vetustas.
actuando como essas saltar totalmente descar- Um tubo de plástico aflora na aberta a escorrer um suco enviado dos hospitais, Experiência invulgar que o
máquinas de guerra, as nado. A língua do paladar e caverna da garganta. É um amarelo-esverdeado, com o «despedido», e ali em casa, jornalista Fernando Paulou-
ro Neves, com a sua escrita a morte vem, é uma obriga- demorar tempos impre- por mais discreta que remover os tecidos mortos. acompanhado pelos
purificada, aqui deposita ção de todos, em especial visíveis e por vezes bem pareça. Quase sempre os O tratamento da dor, que e familiares e amigos, cuidado
para sempre nestas páginas dos profissionais que têm o «longos». familiares necessitam tam- um fenómeno psicossomá- pelo seu médico de família a
de memória. dever social de zelar pela Estes doentes precisam de bém de apoio, o que se tico, com componentes quem cabe um papel impor-
2. Nas longínquas e geladas saúde dos cidadãos. cuidados que permitam uma ignora com frequência. A orgânicos mas também tante, devendo ser apoiado
paragens da Estónia, os No doente que se aproxima sobrevivência que mereça gestão da verdade exige emocionais e afectivos, pelos serviços hospitalares
esquimós gravemente inevitavelmente da morte, ser vivida humanamente. uma sabedoria própria, que exige uma abordagem com- especializados para cuida-
doentes ou velhos, depois cresce um sem número de São cuidados que envol- sem ferir não traia nunca plexa e multidisciplinar. dos que não poderão
de uma cerimónia breve, necessidades nomeada- vem meios multidiscipli- aquilo que não pode ser Uma plêiade de outros pro- efectuar-se no domicílio. É
eram abandonados na mente de ordem básica, quer nares, materializados nas negado. blemas pode estar presente, necessário contudo que a
solidão das estepes, para físicas quer psíquicas. A componentes médica, de Os problemas de ordem como as náuseas, os satisfação de estar em casa
que as intempéries e o medicina de hoje tem enfermagem, de assistência orgânica são também vários, vómitos, a obstipação, a falta não seja minada pela
esgotamento pusessem soluções que permitem dar social, religiosa, familiar, dos exigindo cuidados específi- de apetite, etc, exigindo sensação de insegurança
rapidamente fim aos seus à maioria dos doentes uma amigos, etc. Só activando cos destinados a suavizar tratamentos adequados. do doente e da família»,
dias. Em várias civilizações morte mais tranquila. É pois todas estas incidências, será as queixas que mais preocu- Pois bem, qual deve ser o assim sintetizou esta magna
e durante séculos o aban- legítimo exigir que essas possível obter as melhores pam os doentes e a manter local mais apropriado para questão o dr. José Maçanita,
dono do doente terminal tem soluções sejam disponibili- condições de ordem física e uma funcionalidade aceitá- prestar esta assistência ao no XXI Curso de Pneumo-
sido uma realidade. No zadas pela organização psicológica, efectivamente vel dos diferentes sistemas doente terminal? O lugar logia para pós-graduados,
entanto, o desenvolvimento assistencial, quer na sua suportáveis. orgânicos, não prolongan- ideal será aquele que da Faculdade de Medicina
da medicina veio afastando vertente técnica quer no Problemas como a solidão, o do no entanto a vida a corresponde à satisfação de de Lisboa,em 1988.
progressivamente tal prá- apoio psicossocial. desespero, a dificuldade em qualquer preço. Mas deve- vários factores, como o Compreendemos que aos
tica desumana. Também o O que se pretende efectiva- estabelecer relações familia- se combater a infecção que desejo manifestado pelo hospitais cabe uma grande
moribundo tem tratamento e mente é uma sobrevivência res e humanas. outros obs- alastre à árvore respiratória, doente e seus familiares, responsabilidade no trata-
é seguramente nesta situa- ligada a uma qualidade de táculos de cariz social ou evitando o colapso desta susceptível de absorver o mento do doente terminal.
ção tão intensa que os vida suportável. Este mesmo financeiro, devem função, penosamente sen- dramatismo psicosocial da Mas é uma realidade que,
cuidados médicos ou objectivo é particularmente ser encarados pela equipa tido pela dispneia, pela dor doença e onde os cuidados entre nós, é em muitos casos
outros têm a sua maior desejável no doente responsável pelo tratamen- torácica, pela tosse ou pela a prestar em cada caso ou humilhante.
expressão e significado. canceroso, que habitual- to, não minimizando ou febre; é preciso prevenir a situação sejam exequíveis.
Ajudar um ser humano a mente se conserva lúcido até ignorando qualquer mani- obstrução das próprias vias «O domicílio seria talvez o
morrer, isto é a viver quando bem perto do fim, que pode festação desconfortante, aéreas, limpar as feridas e local desejável com o doente *Médico

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