POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ

LUCIANO BLASIUS

EDUCAÇÃO POLICIAL E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL:
UM OLHAR RESILIENTE

CURITIBA
2009

LUCIANO BLASIUS

EDUCAÇÃO POLICIAL E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL:
UM OLHAR RESILIENTE
Monografia apresentada à Secretaria Nacional de
Segurança Pública do Ministério da Justiça como
requisito para concorrer ao I Prêmio Nacional de
Monografias em Segurança com Cidadania Professora
Valdemarina Bidone de Azevedo e Souza.
Eixo temático: Valorização profissional e otimização das
condições de trabalho.

CURITIBA
2009

A todos os profissionais de segurança pública que bravamente padeceram em nossa profissão.
Principalmente àqueles que, de forma anônima, mas heróica, cumpriram seus juramentos à
risca, defendendo nossa Pátria, nossa Cidadania e nossas Leis com o sacrifício da própria
vida.
Em especial à memória do meu Amigo 1º Tenente PM Jéferson REIS Rosa, que sua calma,
tranquilidade e profissionalismo estejam presentes nas ações de todos os profissionais de
segurança pública desse Brasil.

é vista como um fator de proteção promissor. é percebida como uma das dificuldades enfrentadas pelos profissionais de segurança pública no Brasil. Pesquisa-ação. desenvolvidas diariamente por nossos policiais. objetivando uma melhoria em sua atuação e consequente valorização profissional e pessoal. da história da ditadura no Brasil e da forma como as instituições policiais são percebidas e conceituadas pela sociedade em geral. aqui entendida como educação policial. Polícia comunitária. tendo a origem de seus dados através de levantamento bibliográfico e documental. Para tanto esta pesquisa contextualiza a antiga formação policial. devido à necessidade urgente de melhorarmos a qualidade dessa própria educação com conhecimentos e saberes que propiciem maior possibilidade de desenvolvimento e qualidade de vida ao cidadão policial. Podemos ainda auferir a este trabalho o conceito de pesquisa-ação. A importância de uma educação policial adequada. . Entretanto essa mudança ocorreu apenas para fora das instituições. que tem em seu desenvolvimento pessoal e profissional todas as dificuldades apresentadas por aquele que não é um policial. enfatizando concepções pedagógicas da Matriz Curricular Nacional. Resiliência. A filosofia de polícia comunitária há muito deixou de ser apenas um amontoado de letras em papéis para se tornar ações concretas. A polícia cidadã atende ao cidadão e não apenas ao Estado. Esta é uma pesquisa qualitativa. destaca fatores de risco inerentes à atividade policial e apresenta o comportamento resiliente como um fator de proteção. que valorize o ser-humano policial é o foco dessa pesquisa. ao contrário o expõe. Ser policial não o propicia uma proteção maior. Faz-se premente que essa mesma filosofia de polícia comunitária seja implementada para dentro de nossas corporações. Formação policial. uma vez que é aplicável à educação do profissional de segurança pública. ao mesmo tempo em que esclarece a atual preocupação com uma adequada educação policial. apresentada ao policial de maneira significativa. a resiliência. sendo assim esse profissional merece especial atenção. De igual forma. O ser-humano policial deve ser percebido e entendido como um ser completo. Entendida inicialmente como um comportamento eficaz.RESUMO A formação policial. Palavras-chave: Educação policial. de maneira integral. adequado e íntegro frente à exposição de pressões ou situações negativas e/ou adversas. Essa necessidade urgente de repensarmos a educação do profissional de segurança pública surge do cotidiano profissional. Como um ser e como um humano.

Police formation. it highlights risk factors inherent to police activity and presents the resilient behavior of police officers as a factor of protection. developed by our police personnel on a daily basis. As a human and as a being who has in their personal and professional development all the difficulties experienced by those who are not a police officer. This reflects the need for improvements of such education and the knowledge that provides positive developments in conjunction with the quality of life of the police officer. It is currently concrete action. It is imperative that this philosophy of community policing be implemented in our police institutions and training. The importance of adequate police education. is the purpose of this research. We can also add to this study the concept of research-action since it is applicable to the education of public safety professionals. are exposed to greater challenges. this research puts in context the old police formation as it clarifies the current emphasis on adequate police education. in an integral manner. resilience. . They are not provided with any greater protection over a civilian just because they are a police officer.ABSTRACT Police formation. such change has occurred only outside the police institutions. which values the police officer as a human being. The philosophy of community policing is no longer a pile of letters on paper. the achievement of higher personal and professional appreciation of police officers. The urgent necessity to reexamine the education of the public safety professional arises from daily duties. Research action. Community Policing. consequently. Therefore. Hence. The citizen police function is to support the citizen and not simply the State. is seen as the factor of fostering protection. from the history of dictatorship in Brazil and from the way police institutions are perceived as well as the way opinions are formed in general. Key words: Police education. targeting teaching concepts of the Matriz Curricular Nacional. The goal is the improvement of operations and. The police officer as a human being must be perceived and understood as a complete being. Previously understood as effective. Resilience. Nevertheless. special attention must be given to them. defined as police education. is perceived as one of the many difficulties faced by public safety professionals in Brazil. on the contrary. This qualitative research has its data based on the bibliography and documental review. adequate and upstanding behavior versus exposure to pressure or negative/adverse situations. In the same way. presented to the police officer in a significant way. They.

.2 FATORES DE RISCO ……………………………………………………………… 2.1 APRESENTAÇÃO …………………………………………………………………. 7 7 7 7 8 8 10 10 13 16 24 25 30 32 .1 Objetivo geral …………………………………………………………………….2.. DOCUMENTOS CONSULTADOS …………………………………………………. 1. 2. 1.2.2 Objetivos específicos …………………………………………………………….2 OBJETIVOS ……………………………………………………………………….. 1... 1..1 FORMAÇÃO POLICIAL ………………………………………………………….SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………… 1. 2.3 RESILIÊNCIA ……………………………………………………………………… 3 METODOLOGIA …………………………………………………………………… 4 CONCLUSÕES ……………………………………………………………………… REFERÊNCIAS ……………………………………………………………………….3 JUSTIFICATIVA …………………………………………………………………. 2 DESENVOLVIMENTO ……………………………………………………………..

pois temos como elementos de estudo a realidade dos profissionais de segurança.1 APRESENTAÇÃO A presente pesquisa foi realizada visando à participação no I Prêmio Nacional de Monografias em Segurança com Cidadania Professora Valdemarina Bidone de Azevedo e Souza. objetivando que esse tenha qualidade de vida.1 INTRODUÇÃO 1.1 Objetivo geral Essa pesquisa objetiva demonstrar: a necessidade de uma formação policial voltada para o exercício e o desenvolvimento de uma cidadania plena. Atende aos propósitos da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (SENASP/MJ) por traduzir a realidade da formação policial. Assim direcionamos esse trabalho científico ao eixo Valorização Profissional e Otimização das Condições de Trabalho. Esta pesquisa é de natureza qualitativa. relacionando com a qualidade de vida profissional e pessoal de agentes promotores de segurança pública. profissional e pessoal. Trata-se ainda de uma pesquisa documental ou bibliográfica tendo em vista que nossas fontes são documentos escritos.2 OBJETIVOS 1. trabalhados em busca de uma realidade e perspectivas futuras. desde sua formação às condições de trabalho. 1.2. . principalmente no que se refere à qualidade de vida. e a importância do reconhecimento do ser-humano policial. vivida antes e em dias atuais.

1. Nossas ações são os reflexos de nossa aprendizagem. a importância dessa pesquisa para a situação atual do ser-humano policial. gerará mudanças de comportamentos. como um Cidadão.2 Objetivos específicos Para chegarmos ao desenvolvimento do nosso objetivo geral pretendemos: a) contextualizar a formação policial. a nosso ver. perpassa a administração pública em todas as esferas e chega ao mundo acadêmico. Dessa forma vemos que o conteúdo dessa pesquisa é de fundamental importância . a preocupação com a garantia constitucional de uma segurança pública eficaz para todos é fato constatado e urgente. c) evidenciar a necessidade da valorização profissional do ser-humano policial através da educação policial. Aliás. vemos e sentimos. a principal relevância dessa monografia é a institucional. Sabemos que a principal fonte de mudança é uma Educação Policial adequada que. sendo ótica de inúmeras pesquisas. que estão presente no cotidiano policial que interferem na qualidade de vida pessoal e profissional.2. Não há como propagarmos cidadania se não a vivenciarmos dentro de nossas instituições. ou seja. Vendo-o como um ser e como um humano. Tema que emerge das situações cotidianas. antes e em dias atuais. No entanto.1. c) indicar a resiliência[2] como um comportamento e fator de proteção[3] para o enfrentamento das situações adversas que o ser-humano policial costumeiramente encontra. eficazes e eficientes. Principalmente. que propiciem respostas satisfatórias às questões de relativas à segurança da sociedade. externalizamos aquilo que vivemos. Esta pesquisa apresenta relevância social à medida que traz à lume a situação atual da segurança pública e o clamor da sociedade por políticas públicas. associada à valorização do profissional de segurança pública.3 JUSTIFICATIVA A necessidade de uma formação policial adequada à realidade social democrática atual é premente. b) apontar fatores de risco[1].

queremos que nosso policial seja integrado à comunidade que atende. . que conheça seus problemas e suas dificuldades. A aplicação das percepções aqui apresentadas torna-se importante para mudarmos o cenário atual. muitas vezes o vemos apenas como um número. assim como pretendemos uma mudança da visão que a sociedade tem da polícia[4]. também precisamos mudar a visão que nossos policiais têm das suas próprias instituições. Esperamos que essa pesquisa seja objeto de reflexão a todos os policiais que tiverem acesso à mesma. ela sirva de alavanca para as mudanças necessárias. qualquer mudança que pretendemos deve iniciar-se por nós mesmos. afinal. Ou seja.para repensarmos nossas atitudes educacionais. Que após a reflexão. mas sequer conhecemos seus problemas e suas dificuldades. Não há como disseminarmos uma filosofia de polícia comunitária se não a vivenciarmos primeiro dentro das instituições policiais. mas não agimos assim com o ser-humano policial que trabalha conosco.

” Durante muito tempo a então “formação”[5] policial esteve pautada na herança que as instituições policiais receberam da ditadura. Uma “formação” policial destinada para proteção do Estado.2 DESENVOLVIMENTO 2. . 2002. mas não humana. em primeiro lugar. uma imediata mudança de termo. p. que prevalece até os dias de hoje apresenta-nos fatos. Não há como apenas formarmos policiais. grifo nosso). infelizmente. COSTA JÚNIOR. DESSEN. SILVA apud DESSEN. Em sua obra Para onde vai a educação?. O modelo de “formação” policial que prevaleceu e. em detrimento à proteção do cidadão.1 FORMAÇÃO POLICIAL Em relação à formação policial defendemos. etnia e acessórios. mas não por seus comportamentos. é preciso também apreender as inter-relações entre ambos. p. Dentre esses fatos e circunstância evidenciamos os de origem interna e externa. o modelo bioecológico. Formação torna-se uma expressão frágil para representarmos a grandiosidade e a importância da missão policial. 33) afirma que “A educação é. As relações entre os fatos e circunstâncias que ocorrem com o ser-humano policial. FREITAS. 2005. 85. Esse modelo de “formação” propaga uma polícia bastante técnica. por conseguinte. pois não basta apenas captar as idiossincrasias do ser humano e do ambiente em transformação. (GUIMARÃES[6] apud MARIANO. Teoria e aplicação surgem para a ciência atual como um desafio epistemológico e metodológico. afirmamos. circunstâncias e ocorrências revelam que a ineficiência do mesmo. Piaget (2005. não apenas uma formação. 122). pois: Uma pesquisa orientada pelo modelo bioecológico incorpora tanto as peculiaridades quanto as similaridades das características evolutivas do indivíduo e do seu ambiente. Acreditamos que a palavra adequada é Educação Policial. com base em uma perspectiva holística e sistêmica do fenômeno estudado. Para que possamos esclarecer essa percepção adotamos o modelo de desenvolvimento humano proposto por Bronfenbrenner. raça[7]. mas uma condição formadora necessária ao próprio desenvolvimento natural. tanto institucional quanto pessoal. onde valores do Estado prevalecem aos do cidadão. (POLONIA[8]. p. roupas. Onde os suspeitos são visualizados por biótipo.

Assim é pretensão da matriz educar pedagogicamente profissionais de segurança pública. ou seja. tendo mesmo assim qualidade de vida. Percebe assim o serhumano policial como um indivíduo que merece atenção pedagógica. tornando-a uma educação policial. Essa adequação não é uma padronização fechada. pois “pensar criticamente a formação dos operados” (BALESTRERI. são fenômenos que revelam a necessidade de repensarmos a “formação” policial. e passa para a atividade. p. Percebemos que a “formação” policial esteve pautada numa linha técnica. A conceituação das organizações policiais frente à opinião pública revela que há necessidade imediata de mudanças. levando-se em conta o ciclo completo de polícia. voltada para um profissional que tenha condições de viver e sobreviver frente às ocorrências do cotidiano policial. Agindo assim a SENASP/MJ demonstra a preocupação e a necessidade de reconhecimento de cidadania para o próprio policial. mas sim um direcionamento para que essa educação seja pautada em cidadania. em qualquer momento da atuação das instituições. com paradigmas fortemente enraizados em comportamentos que tínhamos há anos no Brasil e que hoje não são rotineiros. da educação policial ao desempenho das funções. objetivando a qualidade de serviço policial prestado ao cidadão e a valorização e o reconhecimento do profissional de segurança pública. 2003. sempre objetivando a melhoria do desempenho e principalmente a valorização profissional. autônomo. Essas relações geram um desenvolvimento do ser-humano policial que pode levá-lo à exposição ou não a fatores de risco. 59) é com certeza o primeiro passo para uma transformação do ser-humano policial e do meio onde ele atua. ética. ou seja. Na tentativa de colaborar com a mudança do quadro atual a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (SENASP/MJ) comparece junto às instituições policiais com uma proposta de mudança na educação de policiais. Desde sua disseminação até os dias de hoje a MACUNA já passou por reformulações. moral e outros princípios fundamentais e necessários para que qualquer ser-humano sinta-se cidadão.em si e no meio onde atua. Com a MACUNA o policial deixa de ser um ser passivo. heterônomo. Nessa esteira surge a Matriz Curricular Nacional (MACUNA) que tende atender às necessidades basilares de uma adequação da educação policial em todo o Brasil. dependendo de como ele articula os fatores de proteção que estão à sua disposição. .

essenciais ao bem desempenho da atividade policial. Fica evidente. junto com a mediação de conflitos. Dessa forma podemos educar nossos policiais de acordo com a especificidade de cada região. As questões tecnológicas atuais também estão contempladas na MACUNA. enfim podemos dar a cada educação policial o “sotaque” necessário. Os eixos articuladores[9] propõem desde a autovalorização. Essa liberdade de formatá-la às necessidades de cada instituição é essencial para que ela seja sempre levada em consideração quando da adequação de cada malha curricular policial. . como promotor de segurança pública. As áreas temáticas[10] estão diretamente ligadas aos conteúdos programáticos entendidos como necessários à educação policial. cultura. Percebemos a preocupação que houve quando da sua formulação. com disciplinas complementares a ela. Mesmo dentro de cada instituição existem necessidades diferentes a serem transmitidas durante o período de educação policial. como defensor dos direitos do cidadão e como próprio cidadão está presente na MACUNA. até às questões relativas à convivência humana. que a MACUNA foi confeccionada pensando numa estrutura curricular flexível que atenda às necessidades básicas da educação policial. sendo essa pacífica. o respeito ao outro. aceitando esse outro exatamente como ele é. um esqueleto que será complementado pela instituição policial que resolver segui-la. bem como o percentual de carga-horária necessária para o desenvolvimento de cada uma. Os assuntos abrangem dos conhecimentos jurídicos às maneabilidades práticas. como proposição. A MACUNA apresenta também uma relação de disciplinas. Dessa forma prepara o cidadão policial para si e para o meio.A valorização do policial como educando. ao analisarmos as áreas temáticas. Sendo ela um esqueleto. cabe a cada órgão policial que adotá-la agregar os conhecimentos que julgar necessários para o desenvolvimento específico da sua esfera de competência na segurança pública. o reconhecimento das entidades legalmente constituídas. e não como nós gostaríamos que ele fosse. costumes. Destacamos ainda que a MACUNA é uma proposta.

vemos que os casos de dependências oficialmente registrados juntos às instituições policiais são somente a ponta de iceberg. ou seja. prova disso é a própria história da descoberta das Américas. Empiricamente afirmamos que a maior epidemia que o Brasil tem hoje é a dependência. A proximidade às drogas ilegais as potencializam como FR. tendo em vista nossas atribuições legais. principalmente o álcool e o tabaco. . o que leva um ser-humano policial a abusar dessas substâncias. já o ab-uso. Enquanto policiais vemos as drogas ilegais como as que mais estão ligadas às nossas atividades profissionais. que pela proximidade ao seu tráfico torna-se mais acessível. p. sendo que dentro da nossa visão não existe uso dessas drogas. ou seja. à quantidade ingerida ou ao comportamento apresentado após a ingestão dessa droga. nos deparamos constantemente com esses dois FRs: abuso de drogas[11] e violência[12]. Compreendendo assim o uso é normal e legal. à cerveja e outros tantos exemplos que poderiam ser aqui apresentados. as divindades ao vinho. indica algo de contrário às leis. está intimamente ligada à violência. O abuso de drogas. Se na nossa sociedade a dependência dificilmente é encarada como uma doença. principalmente pelo crack. um ab-uso. por contrariar os ditames legais.2. apenas abuso. já que por ser policial o ser-humano dependente sabe quem usa e assim pode e chega a quem trafica. porém independente da substância é o comportamento que nos importa. todas as faixas etárias e todas as profissões. Cotidianamente nos deparamos com ocorrências em que há o abuso de drogas ilegais. na comunidade ou na sociedade e que propicia o abuso de drogas e a violência”. O uso de drogas pelos seres-humanos é natural e caminha junto com a sociedade. Se ampliarmos esse leque e pensarmos em drogas legais.2 FATORES DE RISCO Assineli-Luz (2000. dotados de poder de polícia para agirmos em prol da segurança pública. chegando então à profissão policial. Como prepostos do Estado. percebê-la assim dentro das instituições policiais é ainda mais difícil. originado pela inobservância à legalidade ou pela ingestão efusiva. Essa afirmativa nos leva diretamente ao dia-a-dia do policial. Entendemos nessa pesquisa que o abuso de drogas se dá de acordo com a etimologia da palavra abuso. doravante denominado normalmente abuso.38) afirma que o fator de risco (FR) está presente “entre os pares. Essa droga atinge hoje todas as camadas sociais.

temos outras que colaboram para fazer da atividade profissional do policial algo digno de pesquisas. de sua família e daqueles que lhe são caros. o priva de seu lazer. Os policiais que sucumbem com os FRs externos têm tarefa ainda maior quando falamos de problemas internos. A falta de reconhecimento pelas suas ações profissionais são as causas mais evidentes de propagação da síndrome entre os policiais. durante ou depois do fato. Os salários são baixos e há o excesso de serviço. A demanda por segurança pública se faz presente na vida de todo e qualquer brasileiro. seja antes. mas não podemos deixar de confirmar que não realizamos aulas. porém são outros os fatores. através da exaustão emocional. não necessitaríamos de instituições policiais. Costumeiramente dizemos que se não existisse a violência. Nossos problemas já são historicamente conhecidos. Quando a violência se externaliza nas manifestações dos atos dos seres humanos há a necessidade da intervenção policial. de viatura. Ficamos envergonhados. de sua própria vida e de sua cidadania. que são também potencialmente. A falta de efetivo é um FR que leva o policial a um desgaste profissional acentuado. mas decidimos elencar esses por percebermos serem os principais. Intrainstituições a conversa não é diferente. mais que qualquer outro FR. podendo levar à síndrome de Burnout[13]. O convívio diário com essas situações de violências.A violência. Associadas a essas mazelas externas. contribuindo assim para a própria síndrome de Burnout. está presente em todas as ações de policiamento que necessitam de uma ação mais pontual de policiamento para o restabelecimento da ordem e de paz pública. É exatamente esse não preenchimento das necessidades sociais básicas que premeditam a atividade policial como sendo uma das atividades laborais mais estressantes. o que infelizmente não ocorre. instruções e a própria educação policial pela falta de tempo para que essas atividades aconteçam. Apesar de serem poucas as palavras muitas são as consequências desses problemas. de meios. Deixar o policial ausente de sua casa. O estresse policial e a síndrome de Burnout são dois outros FRs que permeiam a atividade profissional do policial. aqueles que se mantêm íntegros lá sofrem aqui de igual forma. privando-o de um convívio familiar adequado. tende a ocasionar nos policiais o estresse profissional. Há falta de efetivo. . Assim como nossa população cresce deveriam crescer as instituições policiais. com toda certeza. grandes FRs. esse é. Evidenciamos que extrainstituições policiais há outros FRs. o maior “crime” que o Estado comete contra seu cidadão e funcionário.

ou até. terceiro plano. Poderíamos ainda citar outros “ses”. senão o principal. entretanto acreditamos que os mencionados representam sobremaneira a situação estressante que as atividades extras propiciam aos policiais que as realizam. que lhe garantirá cobertura e apoio inconteste. com armamento. mental e física do policial. vestes balísticas vencidas. Esperamos ter elucidado alguns dos vários FRs que a função policial apresenta. tornando-as.A ausência de meios materiais também tem relevância como FR. Se na atividade de policiamento o ser-humano policial se deparar com uma ocorrência em que exista a necessidade do uso de sua arma poderá e deverá usá-la. no “bico” não poderá utilizá-la. no “bico” têm a seu desfavor. com colete. no “bico” terá que arrumar uma desculpa para justificar sua presença no local do fato e também para o uso da sua arma. de impressoras. Essa não requer muitos apontamentos. pelo menos um dos principais. A complementação do salário através da realização do “bico” perpassa a questão da legalidade. também conhecido como “bico”. potencializando-o como o principal FR. Propositadamente deixamos por último a questão salarial. de computadores. falta de fardamento. de toner. Mas um em fundamental: a realização de atividades extras. armamento ultrapassado. com viatura e tantas outras coisas que o policiar infelizmente fica em segundo. no “bico” estará sozinho. etc. nosso policial tem que se preocupar com fardamento. Tornam-se FRs realmente difíceis quando existe a falta ou o sucateamento de vários materiais. rádios sem qualidade e com facilidade de interceptação. eivado do poder de polícia que o Estado lhe confere. garantindo-lhe proteção individual. de óleo. A atividade paralela aumenta o estresse policial. Do operacional ao administrativo infelizmente temos sido pífios em nossa administração. Se na atividade de policiamento o ser-humano policial tem a seu favor o princípio de abordagem da surpresa. fora do horário de expediente. Se na atividade de policiamento o ser-humano policial está acompanhado de outro. Ao invés de chegar para trabalhar. Mesmo com dificuldades nos meios o ser-humano policial consegue realizar suas atividades em prol da segurança dos cidadãos. de pneus. São viaturas sucateadas. E esses detalhes são FRs que comprometem a saúde profissional. mas ainda assim não supera a falta de meios humanos para a realização das atividades de policiamento. de cartucho. Se na atividade de policiamento o ser-humano policial estará com veste balística. FR a que os seres-humanos policiais estão expostos. . de pastilhas.

p. Há diversas publicações. modifique o volume ou a forma do material. A resiliência também tem sido percebida em passagens bíblicas. sempre se sobressaindo à condição adversa. livros. Há divergências entre autores sobre a origem etimológica da palavra. revistas. 2. variáveis e fatores que influenciam no enfrentamento e na superação das adversidades”. 2004). matérias jornalísticas e outras formas de divulgação que vêm trazendo à tona a resiliência. Essas alterações podem ter como fonte o calor. Dentro e fora do meio científico o termo resiliência vem sendo. Barlach nos traz que “o sofrimento e sua superação são temas de inúmeros relatos bíblicos. Entendido de maneiras diferentes. a cada dia.também que tenha ficado claro a não-valorização profissional como presente. exatamente por ser resiliente. a noção ou o comportamento resiliente são percebidos através de diferentes características. mais utilizado. artigos científicos e não-científicos. a temperatura e qualquer outra que. é possível estabelecer. conforme vemos na dissertação de Lisete Barlach. dos quais serão destacadas as estórias de Jó e de Jacó“ (2005.3 RESILIÊNCIA O termo resiliência nasceu na Física com a finalidade de denominar a capacidade que alguns materiais têm de passarem por alterações na sua plástica e retornarem à sua condição anterior quando cessa o estímulo ou a pressão a que foram submetidos. (PINHEIRO. o termo quer evidenciar a capacidade que determinadas pessoas têm de passarem por situações adversas e saírem delas fortalecidas ou com as menores lesões possíveis. intitulada: O que é resiliência humana? Uma contribuição para a construção do conceito. a pressão. mas tendo sempre um mesmo norte. Após citar a passagem bíblica de Jó e Jacó em detalhes e comentários a pesquisadora afirma: . Em cada área a ideia. retorna ao seu estado inicial. de alguma maneira. 12-14). “não obstante estes impasses teóricos. sendo que esse. O termo foi adotado por outras áreas do conhecimento. a partir de inúmeras pesquisas internacionais e brasileiras. contribuindo para que os fatores de proteção sejam conhecimento significativo importante durante a educação policial.

os problemas e os fracassos nos fizeram considerar. Cientificamente citamos Assis: A vida de Clarice Lispector é um manancial para se pensar sobre a capacidade de superação que o ser-humano desenvolve frente à adversidade. não há muitos indícios. entre elas o filme “FRIDA” (BARLACH. p. Ou. OJEDA. após a luta com o anjo fazer-se merecedor do nome pelo qual se tornaria conhecido o povo de Israel. p. Um dos indicadores mais interessantes sobre o enfrentamento da adversidade por parte de Jacó é o fato de que. 2005. 2006). entretanto. mas. como cita Ravazzola[16] (apud MELILLO. 2005. o músico Ray Charles. p. MELAMED. Geralmente temos nos preocupado em estudar o lado e os comportamentos negativos. 75) “os déficits. mesmo sem nos darmos conta. destacando-se seu esforço ao longo de toda a existência para encontrar um propósito para a própria vida. sobre pessoas importantes que marcaram suas vidas com características que evidenciam um comportamento resiliente. o que nos induz ao entendimento de que Jacó conseguiu transcender seu sofrimento pela via de elevação espiritual. ao comportamento mais adequado e não voltado para o problema. científicos e empíricos. A autora cita como exemplos da arte imitando a vida e trazendo algumas questões relacionadas “a temática da adaptação em condições de adversidade” (BARLACH. 13). Empiricamente podemos citar o texto de Karine Bighelini[15]: O iatista Lars Grael. a resposta. o pensamento está direcionado para a resolução. e tantos outros exemplos. 22). A mudança de nome aqui. o modelo Ramiro Lotufo. p. como em diversas outras tradições. VAIGASH. as falhas. Algumas produções cinematográficas também são citadas por Barlach. p. assume o significado de elevação espiritual. p.Neste caso. um processo de desenvolvimento e renovação. sobre o seu potencial de resiliência. (BIGHELINI. 21). buscam. tais como “sete vezes cairá e sete vezes se levantará” (PARASHÁ. o negativo. (ASSIS. Enquanto os modelos e estudos dos déficits negam o sujeito como condutor. relacionam situações diferentes de vida. dito de outra maneira. na mudança. pessoas e entidades em seus aspectos mais redutores”. 1996)[14]. 2005. acima de tudo. 2005. a doença. 14). 2006. o jogador Ronaldo “o fenômeno”. 21) e “A VIDA É BELA” (BARLACH. no relato bíblico. sua busca por autonomia e seu investimento constante em relações humanas. unificam uma capacidade imprescindível para aqueles que. ou seja. A resiliência vem num rumo completamente diferente. Há também inúmeros relatos. fator que é analisado por alguns autores no contexto de pesquisas acadêmicas sobre o assunto. ator e protagonista da sua própria existência a resiliência evidencia a autonomia para esse sujeito e . Encontram-se comentários que revelam a plasticidade emocional típica da resiliência referindo-se a ele. (BARLACH. sobre a atitude interna de Jacó diante dessas adversidades. 2005.

já na educação inicial do policial. pró-ativas. p 16): “nas primeiras etapas de pesquisa. 82). tais como combates militares. interessa ainda o campo de estudo do stress pós-traumático. “o enfoque das resiliências permite pensar que. fenômeno definido pelo Centro Nacional de Stress Pós-traumático americano como uma “desordem psiquiátrica que pode ocorrer após a experiência ou o testemunho de eventos ameaçadores à vida humana. p. onde muitas vezes o profissional em pauta se vê em meio a confrontos. OJEDA. o bem mais precioso que temos. “eu sou” e “eu estou” (relativo ao desenvolvimento da força intrapsíquica). atitudes e comportamentos de cada sujeito. a uma situação de altíssimo estresse.requer do mesmo atitudes ativas. p. 2005. E é pensando no pós-trauma que essa pesquisa busca salientar a evidência da resiliência. leva qualquer um. vez que pretendemos percebê-la como fator de proteção frente às adversidades da vida e do cotidiano profissional do policial. 03). Nessa esteira é fundamental citarmos Grotberg[17] (apud MELILLO. Assim consideramos que a resiliência como fundamentação teórica é primordial para essa pesquisa. família e/ou comunidade buscando uma forma de enfrentamento e de convívio com a adversidade. “eu posso” (aquisição de habilidades interpessoais e resolução de conflitos). A ameaça à vida. Para tanto buscamos respaldo na pesquisa de Barlach: Dentre os inúmeros temas abordados pelos teóricos do stress. identifiquei fatores resilientes e os organizei em quatro categorias[18] diferentes: “eu tenho” (apoio). 2005. OJEDA. mas principal e relevantemente ao que vai ocorrer pós-trauma. acidentes sérios ou ataques pessoais. tais como estupro. protagonismo e condução da sua própria vida. não obstante as adversidades sofridas por uma pessoa. família ou comunidade. 75).” (BARLACH. “pessoas expostas a situações de risco que não desenvolvem a capacidade de resiliência são vistas como mais vulneráveis a estes eventos”. existindo ali o risco de morte para ele. Ressaltamos que o mais importante aqui não é centrarmos nossa atenção ao estresse ou à situação de confronto mencionada. desastres naturais. profissional ou não.” . Ainda Ravazzola (apud MELILLO. incidentes terroristas. 2005. p. Conforme cita Koller (1997. seus companheiros e terceiros. Assim podemos refletir que essas capacidades potenciais são por atos. Justificamos que tal busca se dá em razão de que a atividade do ser-humano policial está cotidianamente ligada a situações de estresse. estas têm capacidades potenciais para se desenvolver e alcançar níveis aceitáveis de saúde e bem estar”.

Responsabilidade é estarmos prontos para os enfrentamentos. Da mesma forma Grotberg[21] (apud MELILLO.17) exemplifica o “eu sou” com o fato de ser “respeitoso comigo mesmo e com o próximo”. 2005. estamos tendo ações resilientes. saindo de uma heteronomia para uma autonomia. quando estou “disposto a me responsabilizar por meus atos” nos dá uma noção de ações ativas frente às adversidades. sem comportamentos resilientes. sem ações resilientes. OJEDA. primordiais e necessários para que nossas ações possam ser resilientes. por conseguinte. O que queremos dizer com isso? Queremos dizer que quando temos (“eu tenho”) pessoas que querem que aprendamos algo para que possamos nos desenvolver sozinhos. é podermos contar com o(s) outro(s). p. nos mostra que “encontrar alguém que me ajude quando necessito”. p. nos faz assim pensarmos que a partir do momento que nos reconhecemos como cidadãos. temos um comportamento resiliente. Finalmente nos fatores resilientes Grotberg[23] (apud MELILLO. é acreditarmos que alguém nos escutará ativamente. Queremos dizer que quando estamos (“eu estou”) dispostos a nos responsabilizarmos por nossos atos e das consequências advindas dos mesmos estamos tendo .Cada um dos “fatores resilientes” de Grotberg[19] (apud MELILLO. ou seja.17) identifica que o “eu estou”. Obviamente não há resiliência sem fatores resilientes. OJEDA. 2005. 17) são importantes e relacionados às atividades de segurança pública.17) traz que quando temos “pessoas que querem que eu aprenda a me desenvolver sozinho” conseguimos ter condutas positivas. conseguimos perceber também os outros. Ainda Grotberg[22] (apud MELILLO. o que nos ajuda. é acreditarmos na disponibilidade dos outros. p. tendo assim ações resilientes. 2005. OJEDA. OJEDA. OJEDA. cada um de nós como protagonistas de nossas atitudes e responsáveis pelas consequências. p. nos dá autoconfiança e. 2005. p.17). 2005. percebendo a nós e aos outros com respeito e tolerância. Queremos dizer que quando somos (“eu sou”) respeitosos por nós mesmos e pelos outros adquirimos autoconfiança. sem trocas resilientes. Em cada um dos “fatores resilientes” são descritos comportamentos que evidenciam um comportamento resiliente como salutar frente às adversidades. existindo assim respeito e tolerância. No fator resiliente “eu tenho” Grotberg[20] (apud MELILLO. autoestima e autoconhecimento necessários para que possamos ser autônomos e termos assim comportamentos resilientes. A resiliência está diretamente ligada aos fatores resilientes que vimos.

a partir de então. ou mesmo traumática. fator de crescimento ou desenvolvimento pessoal. a confirmação de sua identidade. . OJEDA. caracterizada por alto potencial destrutivo ou desintegrador das estruturas e recursos pessoais. (introspecção + eu posso) Quando somos independentes. (BARLACH. humor. o crescimento pessoal. no plural. tendo em vista a diversidade de termos usados para dialogar essas com a resiliência. da qual resulta o fortalecimento dessas estruturas. iniciativa. como sendo: “introspecção.73) nos apresenta o termo “resiliências”. demonstramos nossa necessidade de relação com os outros. independência. destaca “os pilares da resiliência”. atributos. tanto é assim que Ravazzola[24] (apud MELILLO. A resiliência é uma condição interna (não observável. p. O foco dessa pesquisa é a apresentação clara da resiliência para que ela atenda às necessidades do policiai. somos autoconfiantes. (capacidade de se relacionar + eu tenho/sou) Teríamos inúmeros exemplos. o desenvolvimento de novos recursos pessoais.ações e comportamentos resilientes. pelo sujeito. porém não é esse o foco principal dessa pesquisa. 62). de sua própria percepção e de sua atitude diante da vivência da condição da adversidade ou trauma. grifo da autora). Após trabalho de pesquisa sobre o tema resiliência. a não ser em seus efeitos) constatada numa demanda de adaptação do indivíduo frente a uma situação excepcionalmente adversa. Quando nos questionamos introspectivamente podemos nos dar uma resposta honesta. moralidade e autoestima consistente”. Por sua vez Melillo[25] (2005. criatividade. p. p. Além dos fatores resilientes citados anteriormente encontramos na literatura outras citações que trazem diversos comportamentos. constituindo-se numa reação que transcende os limites de um mero processo de adaptação. Queremos dizer que quando podemos (“eu posso”) encontrar alguém que nos ajude quando necessitamos e de igual forma nos colocamos à disposição dos outros quando eles necessitarem estamos tendo trocas resilientes. 100. 2005. temos autonomia. Barlach chegou ao seguinte construto: A resiliência é a reconfiguração interna. capacidade de se relacionar. já na sua educação. Realizando um diálogo entre os autores Grotberg e Melillo podemos dizer que os pilares da resiliência traduzem na prática o que os fatores resilientes querem expressar. constituindo esta. 2005. (independência + eu posso/sou) Quando demonstramos nossa afetividade. Encontramos uma dificuldade bastante grande em denominar pontualmente tais citações. sentimentos e atitudes que contribuem e se relacionam com a resiliência.

7). autoestima elevada. o conceito de resiliência no desenvolvimento humano requer algo mais. superação positiva. As questões relativas a “habilidades individuais” são em geral ilustradas com pequenas histórias de pessoas dentre as quais algumas conseguem superar os momentos de crise e outras sucumbem. é fator de preocupação dessa pesquisa na proposta de tornar o termo resiliência significativo durante o processo de educação policial. que vai além de um retorno ao estado original. o foco no indivíduo busca identificar resiliência a partir de características pessoais. justamente. há a exposição do sujeito a fatores adversos. protagonismo. Resiliência requer como fatores resilientes: ação ética e moral baseada em valores. 2003. autonomia. invencível. que se colocarão frente a inúmeras adversidades. temperamento e background genético. Assim a presença desses fatores resilientes na educação de profissionais da segurança. apesar de todas terem trajetórias semelhantes. Também citamos que não há como significar resiliência como invulnerabilidade. iniciativa. em que um material exposto a uma condição adversa retorna à sua plástica original. apesar de todos os autores acentuarem em algum momento o aspecto relevante da interação entre bases constitucionais e ambientais da questão da resiliência. desafios. Invulnerabilidade nos remete a algo inatingível. nessas situações e em outras correlatas que o indivíduo resiliente apresenta adaptação. e é. Na resiliência há a vulnerabilidade. autoconfiança. Dessa forma torna-se importante citarmos a percepção de Yunes sobre a resiliência sendo focada no indivíduo: A perspectiva no indivíduo é notória também na introdução de diversos estudos que investigam a resiliência. . p.Percebemos que enquanto no conceito utilizado para a Física. àquilo que não tem vulnerabilidade. situações de risco. Desta forma. tão pouco à uma simples adaptação. relação com o outro e respeito. autorrespeito. como sexo. superação e/ou moldagem destinada ao crescimento ou desenvolvimento positivo. (YUNES.

o uso do construto por outras áreas do conhecimento. 53) trata-se de uma pesquisa bibliográfica que também apresenta características de uma pesquisa-ação por ter a vontade de “solucionar um problema coletivo. uma vez que. 2005. a aplicação. p. em detrimento à apresentação textual. a origem do termo. p. o estado da arte e outros pontos que colaboraram na compreensão e pretensão de aplicabilidade dela como fator de proteção. . os fatores de risco e os de proteção presentes nessa atividade laboral. p. Pesquisamos ainda a resiliência. A educação policial deve ser pesquisa cientificamente para que possa atender a todas as necessidades educacionais e as profissionais já citadas.3 METODOLOGIA Esta pesquisa é de caráter qualitativo. 60). de maior clareza e riqueza para a percepção das necessidades metodológicas propostas. 2009. Sentimos a forma adotada mais didática. Quanto à apresentação dos elementos adotamos nessa monografia o modelo de apresentação por itens. Para corroborar com nosso pensamento. 23) “lida com interpretação das realidades sociais”. grifo do autor) o qual identifica que a pesquisa-ação é uma “modalidade de pesquisa aplicada cujo objetivo básico é o de resolver.” (LUDWIG. referente às características dessa pesquisa-ação. citamos também Appolinário (2004. através de documentos existentes sobre a educação policial. A pesquisa bibliográfica ocorreu em laboratório. p. através da ação. algum problema coletivo no qual os pesquisadores e sujeitos da pesquisa estejam envolvidos de modo cooperativo e participativo”. a terminologia. como cita Bauer (2002. 151152. Entendemos ainda que por pretender “explicar um problema a partir de referências teóricas publicadas” (RAMPAZZO.

Não queremos passar a ideia prepotente de autossuficiência. no reconhecimento da atividade policial e na evidência da cidadania para o próprio ser-humano policial. para dessa forma atingir a autonomia de conduta.” (DELVAL. dessa forma apresentamos a necessidade urgente de uma mudança de comportamentos. de suas prescrições e de sua idoneidade. 2006. sem prejuízo às partes envolvidas. para agir eficaz e eficientemente diante das mais variadas e complexas condições que a carreira policial lhe apresentará. a formação cidadã encontra-se em processo de aperfeiçoamento. objetivando melhora nas condições de trabalho. Deve propiciar ao ser-humano que optou pela carreira policial a autonomia necessária para o enfrentamento pessoal. que prevê a autoconfiança para tomar decisões assertivas como um fator de proteção para o policial. Entretanto. começando pela substituição na nomenclatura que será importante para a percepção e pretensão educativa. social e profissional das situações adversas que encontrará no dia-a-dia do desenvolvimento de sua atividade profissional. termo adequado à real necessidade pedagógica do ensino policial. advindos de uma adequada educação policial. mesmo dentro da sua área de responsabilidade.4 CONCLUSÕES A passada e ainda atual “formação” policial apresenta relevantes conhecimentos quanto aos aspectos técnicos. que a atividade profissional de polícia requer. dentro dos princípios de legalidade. A filosofia de polícia comunitária já é atitude presente nas relações e ações dos . Assim a educação policial deve levar ao desenvolvimento completo e integral do ser-humano policial. Um policial com heteronomia precisará de auxílio para tomar essas decisões. o qual nos esclarece que toda educação cidadã deve propiciar ao estudante a compreensão da “necessidade de regras. coerente e certa. Levando-se em conta a esfera de competência individual. Precisamos entender aqui que há grande diferença em um policial com autonomia para um policial com heteronomia. ética e responsabilidade. 59). um policial com autonomia terá recursos. devemos educar o policial. Com certeza essa possibilidade de agir de forma correta. Essa autonomia faz parte da própria filosofia de policiamento comunitário. Não podemos somente formar policiais. Nessa esteira aproveitamos a afirmativa de Juan Delval. p. mas sim de capacidade de saber o que fazer e fazer isso de forma adequada. torna o policial comunitário um aliado da sociedade. Propomos falarmos sempre em Educação Policial.

policiais com a sociedade. tratando o policial como cidadão pleno de direitos e deveres. em desenvolvimento integral e completo. Quando agirmos assim. Essa mudança de comportamento nada mais é do que tratar o policial com respeito. Prova disso é a proposição pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (SENAS/MJ) da matriz curricular nacional (MACUNA). pesquisa e aplica conhecimentos científicos de várias áreas do conhecimento humano em prol de uma qualificação profissional. Dentro de perspectivas atualizadas da pedagogia moderna a MACUNA evidencia o estudante policial com um ser ativo. A explicação está na relação bioecológica do ambiente-sujeito que temos em nossas instituições. com uma matriz para dar um mote. Constatamos essa necessidade de mudança de comportamento interno à medida que verificamos as deficiências atuais da educação policial. mas com a possibilidade de ter seus próprios “sotaques”. Vemos a abordagem bioecológica de Bronfenbrenner presente já na educação policial. diante da preocupação da MACUNA com a dicotomia policial-meio. que pensa. Assim como os sotaques são locais. Isso é tão forte que temos vários sotaques para uma mesma língua portuguesa. buscando em primeiro plano a valorização do profissional de segurança pública e em seguida o reconhecimento das instituições policiais e da atividade de polícia em si. entretanto ainda enfrentamos resistências internas à sua aplicação. . através de uma malha curricular flexível adaptável às peculiaridades de cada instituição policial. Nosso policial não vive uma situação de atenção comunitária dentro da instituição. locais também os são os problemas e as dificuldades da segurança pública. tratando como um ser-humano e não apenas como um número. O Brasil é um país conhecido pela sua extensão territorial. então ele tem dificuldade para perceber o quanto esse comportamento é eficaz à atividade de policiamento em prol da segurança pública. A MACUNA percebe o policial como ser-humano. em processo de educação. estaremos praticando polícia comunitária com o próprio policial. respeito e atendimento a todas as necessidades que estiverem ao nosso alcance. logo a educação policial também deve ser assim. Verificamos a preocupação em propiciar uma educação policial de qualidade na matriz. Devemos tratar nossos policiais da forma como queremos que ele trate a sociedade. mas um exemplo arrasta. Uma palavra comove. a qual já está em fase de reformulação. que propicia inúmeras culturas. tradições e comportamentos diferentes. da educação policial à rotina diária. As propostas da MACUNA apresentam a necessidade do sistema de ensino policial perceber as necessidades dos seus discentes. com atenção.

De fora vamos para dentro das instituições e vemos que os FRs também são inúmeros. esse iceberg. A violência. Quanto aos externos enfatizamos o abuso de drogas e a violência como sendo os principais FRs que atuam na relação do policial com a sociedade. Se os quadros organizacionais fossem cumpridos de acordo com o que as leis estabelecem esse seria um . fazê-lo é tentar não enxergar o que nossos olhos estão vendo. O ter que ser feito. quanto à segurança pública. Dos vários citados centramos nossas percepções em dois: na ausência de efetivo para a atividade fim. é calar quando precisamos falar! E nessa fala devemos nos perguntar: o que há de errado? A ausência de políticas de prevenção ao abuso de drogas dentro de nossas instituições policiais se apresenta como FR potencial à dependência por policiais. que resulta em vários problemas. Como um policial será valorizado senão percebe preocupação pela própria administração policial quanto a um tratamento humanizado de seus próprios policiais? Nosso policiais trabalham mais do que o recomendável para realizar o policiamento necessário e atender às demandas da sociedade. Não podemos. percebemos várias coincidências. nem devemos ignorar a existência da dependência entre policiais. principalmente aqueles que afetam diretamente a saúde mental dos nossos policiais. na nossa sociedade torna-se motivo de preocupação e FR aos policiais quando banalizada e naturalizada. como escutamos. mas que retratam a atual disseminação da violência. de quando for possível acontecer uma folga a mais. São pequenos gestos diários. Quando não reconhecemos direitos fundamentais e a própria cidadania do ser-humano policial institucionalizamos a violência e a tornamos aceita. é querer não escutar o que nossos estão ouvindo. Quanto à falta de efetivo afirmamos que há um descaso do Estado em relação à profissão. não paga a saúde mental dos seres-humanos policiais que ficam à mercê da própria sorte. tão presente. aparentemente inofensivos.Ao contrário das especificidades da educação policial. Enfatizamos que os levantamentos oficiais apresentam apenas a ponta do problema. e nas atividades-extras que expõe o policial. os fatores de risco (FRs) a que estão expostos os policiais tornam-se praticamente universais. Esse é um comportamento reflexo da própria sociedade brasileira que mascara as questões afetas à doença epidêmica chamada dependência. infelizmente. interferindo e prejudicando fortemente essa relação. é maior do que oficialmente temos registrado. Dos FRs externos às instituições aos internos.

então temos que propiciar. uma norma de comportamento. pessoal e profissional. um valor a respeitar.. principalmente através de uma educação continuada. devido à falta de policiais. bem como deixa de propiciar a valorização profissional adequada. Eles não somente expõe o policial como à sua própria família. É vergonhoso. Pensando assim apresentamos nesse trabalho a resiliência como um fator de proteção promissor para a atividade policial. uma explicação de um fenômeno físico ou social. Desde à exposição até as questões de legalidade. que acima de tudo desqualifica a profissão policial. Como já citamos são inúmeros os FRs apresentados num só.primeiro passo rumo à uma verdadeira valorização profissional. Um comportamento resiliente deve apresentar capacidade e possibilidade de enfrentamento. um procedimento para resolver determinado tipo de problemas. As atividades extras ao serviço policial.. ou seja. superação e de adaptação frente à exposição a FRs. Mesmo que não existam soluções imediatas há necessidade de nós os revelarmos e pensarmos juntos os melhores fatores de proteção para que possamos conviver com eles da melhor maneira possível. . que a maestria da atividade laboral de policial requer. dos policiais. ou colocamos os policiais na rua. mas há policiais que nunca passaram por uma reciclagem e já tem mais de dez anos desde sua escola de formação. já na educação policial inicial. p. Os problemas vividos por policiais são percebidos nessa pesquisa como FRs que comprometem a qualidade de vida. conhecidos por “bicos” são ainda mais preocupantes. como vimos. Às vezes a administração deixa de educar adequadamente seus profissionais de segurança pública. fatores de proteção que possam fazer frente e auxiliar para um adequado desenvolvimento da atividade profissional de segurança pública. Os FRs da profissão policial. (SALVADOR. são inúmeros. 1994. mas infelizmente não podemos negar que é um FR de grande potencial. realizado por policiais. ou fazemos educação continuada. etc.] o aluno aprende um conteúdo qualquer – um conceito.148). Dessa forma há condição de sairmos de situações adversas sem manifestações negativas em nossos comportamentos. – quando é capaz de atribuir-lhe um significado. Acreditamos que um comportamento resiliente é fundamental para realizarmos a atividade policial e assim propiciarmos condições de valorização e de reconhecimento profissional. Para que esse comportamento resiliente faça parte do rol de fatores de proteção do policial se faz necessário que ele seja um conhecimento propiciado e evidenciado e principalmente significativo pois: [. para fazer policiamento.

eu sou. Finalmente temos consciência que essa necessidade de mudanças no ensino policial objetiva uma educação policial adequada à realidade que o ser-humano policial enfrenta em seu dia-a-dia. autovalorização. acima de tudo. enfim a própria resiliência. . Garantindo assim autonomia. se deparará. com toda certeza. eu estou e o eu posso para os policiais. A busca de uma valorização profissional passa. À medida que potencializamos e empoderamos nossos policiais a agirem assim possibilitamos condições mais humanas e cidadãs. autoestima. pela qualificação educacional que esse agente de segurança pública terá para mediar as ocorrências que. Capacitar o ser-humano policial de forma adequada é garantir-lhe a própria cidadania.Esse aprendizado significativo da resiliência acontecerá através de conteúdos programáticos que evidenciem o eu tenho. As percepções pessoais resilientes citadas acima evidenciam a importância da presença da resiliência como fator de proteção. valorizando-o profissional e pessoalmente.

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2005. Aldo. 2005. CUESTAS. Maria Cristina. p. [20] Id [21] Id [22] Id [23] id [24] RAVAZZOLA. [19] GROTBERG. p. Consultoria. Consultoria. 15-22. Tradução: Valério Campos. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller. [18] Cita MELILLO em nota de rodapé que “no trabalho original (em inglês) assinalam-se três categorias. 73-85. Tradução: Valério Campos. Porto Alegre: Artmed. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. Alguns fundamentos psicológicos do conceito resiliência. 2005. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. Mirla. ESTMATTI. [25] MELILLO. Edith Henderson. Alicia. Tradução: Valério Campos. 59-72. Consultoria. Consultoria. p. . Porto Alegre: Artmed. Resiliências familiares. 2005. Porto Alegre: Artmed. Introdução: novas tendências em resiliência.[17] GROTBERG. Introdução: novas tendências em resiliência. 15-22. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. Edith Henderson. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller. p. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller. Porto Alegre: Artmed. Tradução: Valério Campos. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller. já que os verbos “ser” e “estar” são o mesmo “to be”.