POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ

LUCIANO BLASIUS

EDUCAÇÃO POLICIAL E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL:
UM OLHAR RESILIENTE

CURITIBA
2009

LUCIANO BLASIUS

EDUCAÇÃO POLICIAL E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL:
UM OLHAR RESILIENTE
Monografia apresentada à Secretaria Nacional de
Segurança Pública do Ministério da Justiça como
requisito para concorrer ao I Prêmio Nacional de
Monografias em Segurança com Cidadania Professora
Valdemarina Bidone de Azevedo e Souza.
Eixo temático: Valorização profissional e otimização das
condições de trabalho.

CURITIBA
2009

A todos os profissionais de segurança pública que bravamente padeceram em nossa profissão.
Principalmente àqueles que, de forma anônima, mas heróica, cumpriram seus juramentos à
risca, defendendo nossa Pátria, nossa Cidadania e nossas Leis com o sacrifício da própria
vida.
Em especial à memória do meu Amigo 1º Tenente PM Jéferson REIS Rosa, que sua calma,
tranquilidade e profissionalismo estejam presentes nas ações de todos os profissionais de
segurança pública desse Brasil.

objetivando uma melhoria em sua atuação e consequente valorização profissional e pessoal. Faz-se premente que essa mesma filosofia de polícia comunitária seja implementada para dentro de nossas corporações. da história da ditadura no Brasil e da forma como as instituições policiais são percebidas e conceituadas pela sociedade em geral. que valorize o ser-humano policial é o foco dessa pesquisa. devido à necessidade urgente de melhorarmos a qualidade dessa própria educação com conhecimentos e saberes que propiciem maior possibilidade de desenvolvimento e qualidade de vida ao cidadão policial. ao contrário o expõe. aqui entendida como educação policial. Pesquisa-ação. Polícia comunitária. sendo assim esse profissional merece especial atenção. que tem em seu desenvolvimento pessoal e profissional todas as dificuldades apresentadas por aquele que não é um policial. Podemos ainda auferir a este trabalho o conceito de pesquisa-ação. Formação policial. destaca fatores de risco inerentes à atividade policial e apresenta o comportamento resiliente como um fator de proteção. apresentada ao policial de maneira significativa. Esta é uma pesquisa qualitativa. ao mesmo tempo em que esclarece a atual preocupação com uma adequada educação policial. Entendida inicialmente como um comportamento eficaz. desenvolvidas diariamente por nossos policiais. de maneira integral. tendo a origem de seus dados através de levantamento bibliográfico e documental. Essa necessidade urgente de repensarmos a educação do profissional de segurança pública surge do cotidiano profissional. Resiliência. Para tanto esta pesquisa contextualiza a antiga formação policial. A polícia cidadã atende ao cidadão e não apenas ao Estado. é vista como um fator de proteção promissor. A filosofia de polícia comunitária há muito deixou de ser apenas um amontoado de letras em papéis para se tornar ações concretas. a resiliência. O ser-humano policial deve ser percebido e entendido como um ser completo. adequado e íntegro frente à exposição de pressões ou situações negativas e/ou adversas. . A importância de uma educação policial adequada. é percebida como uma das dificuldades enfrentadas pelos profissionais de segurança pública no Brasil. enfatizando concepções pedagógicas da Matriz Curricular Nacional. De igual forma. Como um ser e como um humano. Ser policial não o propicia uma proteção maior. Entretanto essa mudança ocorreu apenas para fora das instituições. Palavras-chave: Educação policial.RESUMO A formação policial. uma vez que é aplicável à educação do profissional de segurança pública.

The police officer as a human being must be perceived and understood as a complete being.ABSTRACT Police formation. is the purpose of this research. The citizen police function is to support the citizen and not simply the State. This qualitative research has its data based on the bibliography and documental review. The goal is the improvement of operations and. is perceived as one of the many difficulties faced by public safety professionals in Brazil. resilience. adequate and upstanding behavior versus exposure to pressure or negative/adverse situations. Nevertheless. from the history of dictatorship in Brazil and from the way police institutions are perceived as well as the way opinions are formed in general. such change has occurred only outside the police institutions. it highlights risk factors inherent to police activity and presents the resilient behavior of police officers as a factor of protection. consequently. on the contrary. Community Policing. As a human and as a being who has in their personal and professional development all the difficulties experienced by those who are not a police officer. Previously understood as effective. The importance of adequate police education. targeting teaching concepts of the Matriz Curricular Nacional. this research puts in context the old police formation as it clarifies the current emphasis on adequate police education. The philosophy of community policing is no longer a pile of letters on paper. We can also add to this study the concept of research-action since it is applicable to the education of public safety professionals. They are not provided with any greater protection over a civilian just because they are a police officer. It is imperative that this philosophy of community policing be implemented in our police institutions and training. This reflects the need for improvements of such education and the knowledge that provides positive developments in conjunction with the quality of life of the police officer. It is currently concrete action. Key words: Police education. the achievement of higher personal and professional appreciation of police officers. The urgent necessity to reexamine the education of the public safety professional arises from daily duties. special attention must be given to them. are exposed to greater challenges. Research action. developed by our police personnel on a daily basis. They. Hence. which values the police officer as a human being. . Resilience. Therefore. In the same way. in an integral manner. presented to the police officer in a significant way. defined as police education. is seen as the factor of fostering protection. Police formation.

. 7 7 7 7 8 8 10 10 13 16 24 25 30 32 .2. 2 DESENVOLVIMENTO …………………………………………………………….2 Objetivos específicos …………………………………………………………….1 Objetivo geral ……………………………………………………………………..3 JUSTIFICATIVA ………………………………………………………………….SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………… 1.. 1.3 RESILIÊNCIA ……………………………………………………………………… 3 METODOLOGIA …………………………………………………………………… 4 CONCLUSÕES ……………………………………………………………………… REFERÊNCIAS ………………………………………………………………………. 2.2 FATORES DE RISCO ……………………………………………………………… 2..2.. 1..2 OBJETIVOS ……………………………………………………………………….. 2.1 APRESENTAÇÃO …………………………………………………………………. DOCUMENTOS CONSULTADOS …………………………………………………. 1. 1.1 FORMAÇÃO POLICIAL ………………………………………………………….

desde sua formação às condições de trabalho.1 INTRODUÇÃO 1. 1.1 APRESENTAÇÃO A presente pesquisa foi realizada visando à participação no I Prêmio Nacional de Monografias em Segurança com Cidadania Professora Valdemarina Bidone de Azevedo e Souza. relacionando com a qualidade de vida profissional e pessoal de agentes promotores de segurança pública. profissional e pessoal.2. vivida antes e em dias atuais. Assim direcionamos esse trabalho científico ao eixo Valorização Profissional e Otimização das Condições de Trabalho. Trata-se ainda de uma pesquisa documental ou bibliográfica tendo em vista que nossas fontes são documentos escritos. Esta pesquisa é de natureza qualitativa. . pois temos como elementos de estudo a realidade dos profissionais de segurança. Atende aos propósitos da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (SENASP/MJ) por traduzir a realidade da formação policial.2 OBJETIVOS 1. e a importância do reconhecimento do ser-humano policial.1 Objetivo geral Essa pesquisa objetiva demonstrar: a necessidade de uma formação policial voltada para o exercício e o desenvolvimento de uma cidadania plena. principalmente no que se refere à qualidade de vida. trabalhados em busca de uma realidade e perspectivas futuras. objetivando que esse tenha qualidade de vida.

2 Objetivos específicos Para chegarmos ao desenvolvimento do nosso objetivo geral pretendemos: a) contextualizar a formação policial.3 JUSTIFICATIVA A necessidade de uma formação policial adequada à realidade social democrática atual é premente. b) apontar fatores de risco[1]. Não há como propagarmos cidadania se não a vivenciarmos dentro de nossas instituições. gerará mudanças de comportamentos. Nossas ações são os reflexos de nossa aprendizagem. c) evidenciar a necessidade da valorização profissional do ser-humano policial através da educação policial. que estão presente no cotidiano policial que interferem na qualidade de vida pessoal e profissional. sendo ótica de inúmeras pesquisas. associada à valorização do profissional de segurança pública. Principalmente. Dessa forma vemos que o conteúdo dessa pesquisa é de fundamental importância . que propiciem respostas satisfatórias às questões de relativas à segurança da sociedade. antes e em dias atuais. perpassa a administração pública em todas as esferas e chega ao mundo acadêmico. Esta pesquisa apresenta relevância social à medida que traz à lume a situação atual da segurança pública e o clamor da sociedade por políticas públicas. Vendo-o como um ser e como um humano. 1. vemos e sentimos. a preocupação com a garantia constitucional de uma segurança pública eficaz para todos é fato constatado e urgente. a principal relevância dessa monografia é a institucional. Sabemos que a principal fonte de mudança é uma Educação Policial adequada que. a nosso ver. Tema que emerge das situações cotidianas. externalizamos aquilo que vivemos. c) indicar a resiliência[2] como um comportamento e fator de proteção[3] para o enfrentamento das situações adversas que o ser-humano policial costumeiramente encontra. No entanto. eficazes e eficientes. como um Cidadão. a importância dessa pesquisa para a situação atual do ser-humano policial. ou seja. Aliás.2.1.

ela sirva de alavanca para as mudanças necessárias. . qualquer mudança que pretendemos deve iniciar-se por nós mesmos. Que após a reflexão. que conheça seus problemas e suas dificuldades. queremos que nosso policial seja integrado à comunidade que atende. muitas vezes o vemos apenas como um número. mas sequer conhecemos seus problemas e suas dificuldades. Ou seja. também precisamos mudar a visão que nossos policiais têm das suas próprias instituições. Esperamos que essa pesquisa seja objeto de reflexão a todos os policiais que tiverem acesso à mesma. assim como pretendemos uma mudança da visão que a sociedade tem da polícia[4]. A aplicação das percepções aqui apresentadas torna-se importante para mudarmos o cenário atual.para repensarmos nossas atitudes educacionais. mas não agimos assim com o ser-humano policial que trabalha conosco. Não há como disseminarmos uma filosofia de polícia comunitária se não a vivenciarmos primeiro dentro das instituições policiais. afinal.

que prevalece até os dias de hoje apresenta-nos fatos.” Durante muito tempo a então “formação”[5] policial esteve pautada na herança que as instituições policiais receberam da ditadura. Acreditamos que a palavra adequada é Educação Policial. infelizmente. o modelo bioecológico. Para que possamos esclarecer essa percepção adotamos o modelo de desenvolvimento humano proposto por Bronfenbrenner. 2002. em detrimento à proteção do cidadão. Formação torna-se uma expressão frágil para representarmos a grandiosidade e a importância da missão policial.2 DESENVOLVIMENTO 2. Não há como apenas formarmos policiais. 85. . DESSEN. circunstâncias e ocorrências revelam que a ineficiência do mesmo. p. 2005. Esse modelo de “formação” propaga uma polícia bastante técnica. não apenas uma formação. etnia e acessórios. p.1 FORMAÇÃO POLICIAL Em relação à formação policial defendemos. 33) afirma que “A educação é. Onde os suspeitos são visualizados por biótipo. (GUIMARÃES[6] apud MARIANO. Teoria e aplicação surgem para a ciência atual como um desafio epistemológico e metodológico. pois não basta apenas captar as idiossincrasias do ser humano e do ambiente em transformação. 122). tanto institucional quanto pessoal. SILVA apud DESSEN. Em sua obra Para onde vai a educação?. mas não humana. O modelo de “formação” policial que prevaleceu e. mas uma condição formadora necessária ao próprio desenvolvimento natural. raça[7]. Uma “formação” policial destinada para proteção do Estado. p. afirmamos. (POLONIA[8]. FREITAS. roupas. grifo nosso). onde valores do Estado prevalecem aos do cidadão. mas não por seus comportamentos. pois: Uma pesquisa orientada pelo modelo bioecológico incorpora tanto as peculiaridades quanto as similaridades das características evolutivas do indivíduo e do seu ambiente. COSTA JÚNIOR. As relações entre os fatos e circunstâncias que ocorrem com o ser-humano policial. uma imediata mudança de termo. Dentre esses fatos e circunstância evidenciamos os de origem interna e externa. Piaget (2005. por conseguinte. com base em uma perspectiva holística e sistêmica do fenômeno estudado. em primeiro lugar. é preciso também apreender as inter-relações entre ambos.

são fenômenos que revelam a necessidade de repensarmos a “formação” policial. Assim é pretensão da matriz educar pedagogicamente profissionais de segurança pública. 59) é com certeza o primeiro passo para uma transformação do ser-humano policial e do meio onde ele atua. p. da educação policial ao desempenho das funções. objetivando a qualidade de serviço policial prestado ao cidadão e a valorização e o reconhecimento do profissional de segurança pública. tendo mesmo assim qualidade de vida. mas sim um direcionamento para que essa educação seja pautada em cidadania. Essa adequação não é uma padronização fechada. Nessa esteira surge a Matriz Curricular Nacional (MACUNA) que tende atender às necessidades basilares de uma adequação da educação policial em todo o Brasil. Percebe assim o serhumano policial como um indivíduo que merece atenção pedagógica. heterônomo.em si e no meio onde atua. 2003. e passa para a atividade. dependendo de como ele articula os fatores de proteção que estão à sua disposição. pois “pensar criticamente a formação dos operados” (BALESTRERI. Na tentativa de colaborar com a mudança do quadro atual a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (SENASP/MJ) comparece junto às instituições policiais com uma proposta de mudança na educação de policiais. com paradigmas fortemente enraizados em comportamentos que tínhamos há anos no Brasil e que hoje não são rotineiros. moral e outros princípios fundamentais e necessários para que qualquer ser-humano sinta-se cidadão. autônomo. tornando-a uma educação policial. levando-se em conta o ciclo completo de polícia. em qualquer momento da atuação das instituições. . Agindo assim a SENASP/MJ demonstra a preocupação e a necessidade de reconhecimento de cidadania para o próprio policial. Com a MACUNA o policial deixa de ser um ser passivo. sempre objetivando a melhoria do desempenho e principalmente a valorização profissional. ou seja. ética. Desde sua disseminação até os dias de hoje a MACUNA já passou por reformulações. ou seja. voltada para um profissional que tenha condições de viver e sobreviver frente às ocorrências do cotidiano policial. A conceituação das organizações policiais frente à opinião pública revela que há necessidade imediata de mudanças. Essas relações geram um desenvolvimento do ser-humano policial que pode levá-lo à exposição ou não a fatores de risco. Percebemos que a “formação” policial esteve pautada numa linha técnica.

A valorização do policial como educando. costumes. Dessa forma podemos educar nossos policiais de acordo com a especificidade de cada região. Dessa forma prepara o cidadão policial para si e para o meio. Mesmo dentro de cada instituição existem necessidades diferentes a serem transmitidas durante o período de educação policial. ao analisarmos as áreas temáticas. A MACUNA apresenta também uma relação de disciplinas. Os assuntos abrangem dos conhecimentos jurídicos às maneabilidades práticas. como defensor dos direitos do cidadão e como próprio cidadão está presente na MACUNA. Destacamos ainda que a MACUNA é uma proposta. Percebemos a preocupação que houve quando da sua formulação. bem como o percentual de carga-horária necessária para o desenvolvimento de cada uma. o reconhecimento das entidades legalmente constituídas. cultura. sendo essa pacífica. e não como nós gostaríamos que ele fosse. como promotor de segurança pública. . Sendo ela um esqueleto. As questões tecnológicas atuais também estão contempladas na MACUNA. enfim podemos dar a cada educação policial o “sotaque” necessário. Essa liberdade de formatá-la às necessidades de cada instituição é essencial para que ela seja sempre levada em consideração quando da adequação de cada malha curricular policial. junto com a mediação de conflitos. com disciplinas complementares a ela. um esqueleto que será complementado pela instituição policial que resolver segui-la. essenciais ao bem desempenho da atividade policial. o respeito ao outro. aceitando esse outro exatamente como ele é. Fica evidente. As áreas temáticas[10] estão diretamente ligadas aos conteúdos programáticos entendidos como necessários à educação policial. cabe a cada órgão policial que adotá-la agregar os conhecimentos que julgar necessários para o desenvolvimento específico da sua esfera de competência na segurança pública. que a MACUNA foi confeccionada pensando numa estrutura curricular flexível que atenda às necessidades básicas da educação policial. Os eixos articuladores[9] propõem desde a autovalorização. como proposição. até às questões relativas à convivência humana.

p. todas as faixas etárias e todas as profissões. na comunidade ou na sociedade e que propicia o abuso de drogas e a violência”. que pela proximidade ao seu tráfico torna-se mais acessível. Compreendendo assim o uso é normal e legal. originado pela inobservância à legalidade ou pela ingestão efusiva. um ab-uso. vemos que os casos de dependências oficialmente registrados juntos às instituições policiais são somente a ponta de iceberg. está intimamente ligada à violência. Enquanto policiais vemos as drogas ilegais como as que mais estão ligadas às nossas atividades profissionais. O abuso de drogas. porém independente da substância é o comportamento que nos importa. A proximidade às drogas ilegais as potencializam como FR. chegando então à profissão policial. doravante denominado normalmente abuso. Como prepostos do Estado. Entendemos nessa pesquisa que o abuso de drogas se dá de acordo com a etimologia da palavra abuso. prova disso é a própria história da descoberta das Américas. o que leva um ser-humano policial a abusar dessas substâncias. O uso de drogas pelos seres-humanos é natural e caminha junto com a sociedade. tendo em vista nossas atribuições legais. à cerveja e outros tantos exemplos que poderiam ser aqui apresentados. principalmente pelo crack.2.2 FATORES DE RISCO Assineli-Luz (2000.38) afirma que o fator de risco (FR) está presente “entre os pares. principalmente o álcool e o tabaco. percebê-la assim dentro das instituições policiais é ainda mais difícil. as divindades ao vinho. à quantidade ingerida ou ao comportamento apresentado após a ingestão dessa droga. Se na nossa sociedade a dependência dificilmente é encarada como uma doença. apenas abuso. Cotidianamente nos deparamos com ocorrências em que há o abuso de drogas ilegais. . já o ab-uso. sendo que dentro da nossa visão não existe uso dessas drogas. indica algo de contrário às leis. Essa afirmativa nos leva diretamente ao dia-a-dia do policial. ou seja. Essa droga atinge hoje todas as camadas sociais. nos deparamos constantemente com esses dois FRs: abuso de drogas[11] e violência[12]. já que por ser policial o ser-humano dependente sabe quem usa e assim pode e chega a quem trafica. Empiricamente afirmamos que a maior epidemia que o Brasil tem hoje é a dependência. por contrariar os ditames legais. ou seja. dotados de poder de polícia para agirmos em prol da segurança pública. Se ampliarmos esse leque e pensarmos em drogas legais.

tende a ocasionar nos policiais o estresse profissional. Os policiais que sucumbem com os FRs externos têm tarefa ainda maior quando falamos de problemas internos. Costumeiramente dizemos que se não existisse a violência. Intrainstituições a conversa não é diferente. mais que qualquer outro FR. Associadas a essas mazelas externas. Nossos problemas já são historicamente conhecidos. Apesar de serem poucas as palavras muitas são as consequências desses problemas. o maior “crime” que o Estado comete contra seu cidadão e funcionário. Evidenciamos que extrainstituições policiais há outros FRs. esse é. O convívio diário com essas situações de violências. É exatamente esse não preenchimento das necessidades sociais básicas que premeditam a atividade policial como sendo uma das atividades laborais mais estressantes. A demanda por segurança pública se faz presente na vida de todo e qualquer brasileiro. podendo levar à síndrome de Burnout[13]. contribuindo assim para a própria síndrome de Burnout. privando-o de um convívio familiar adequado. Há falta de efetivo. com toda certeza. de viatura. Os salários são baixos e há o excesso de serviço. através da exaustão emocional. temos outras que colaboram para fazer da atividade profissional do policial algo digno de pesquisas. mas decidimos elencar esses por percebermos serem os principais. mas não podemos deixar de confirmar que não realizamos aulas. A falta de reconhecimento pelas suas ações profissionais são as causas mais evidentes de propagação da síndrome entre os policiais. Assim como nossa população cresce deveriam crescer as instituições policiais. que são também potencialmente. porém são outros os fatores.A violência. seja antes. o priva de seu lazer. o que infelizmente não ocorre. está presente em todas as ações de policiamento que necessitam de uma ação mais pontual de policiamento para o restabelecimento da ordem e de paz pública. instruções e a própria educação policial pela falta de tempo para que essas atividades aconteçam. de meios. Ficamos envergonhados. de sua própria vida e de sua cidadania. Quando a violência se externaliza nas manifestações dos atos dos seres humanos há a necessidade da intervenção policial. durante ou depois do fato. grandes FRs. . O estresse policial e a síndrome de Burnout são dois outros FRs que permeiam a atividade profissional do policial. Deixar o policial ausente de sua casa. A falta de efetivo é um FR que leva o policial a um desgaste profissional acentuado. de sua família e daqueles que lhe são caros. não necessitaríamos de instituições policiais. aqueles que se mantêm íntegros lá sofrem aqui de igual forma.

FR a que os seres-humanos policiais estão expostos. pelo menos um dos principais. garantindo-lhe proteção individual. com armamento. Poderíamos ainda citar outros “ses”. Se na atividade de policiamento o ser-humano policial tem a seu favor o princípio de abordagem da surpresa. Se na atividade de policiamento o ser-humano policial se deparar com uma ocorrência em que exista a necessidade do uso de sua arma poderá e deverá usá-la. de toner. vestes balísticas vencidas. de pastilhas. no “bico” têm a seu desfavor. fora do horário de expediente. também conhecido como “bico”. com colete. falta de fardamento. ou até. armamento ultrapassado. Mesmo com dificuldades nos meios o ser-humano policial consegue realizar suas atividades em prol da segurança dos cidadãos. etc. Propositadamente deixamos por último a questão salarial. que lhe garantirá cobertura e apoio inconteste. potencializando-o como o principal FR. A complementação do salário através da realização do “bico” perpassa a questão da legalidade. eivado do poder de polícia que o Estado lhe confere. Se na atividade de policiamento o ser-humano policial estará com veste balística. nosso policial tem que se preocupar com fardamento. mental e física do policial. Se na atividade de policiamento o ser-humano policial está acompanhado de outro. de impressoras. . no “bico” estará sozinho. Ao invés de chegar para trabalhar. terceiro plano. tornando-as.A ausência de meios materiais também tem relevância como FR. de cartucho. Tornam-se FRs realmente difíceis quando existe a falta ou o sucateamento de vários materiais. senão o principal. no “bico” terá que arrumar uma desculpa para justificar sua presença no local do fato e também para o uso da sua arma. Mas um em fundamental: a realização de atividades extras. de pneus. de óleo. Esperamos ter elucidado alguns dos vários FRs que a função policial apresenta. Do operacional ao administrativo infelizmente temos sido pífios em nossa administração. mas ainda assim não supera a falta de meios humanos para a realização das atividades de policiamento. entretanto acreditamos que os mencionados representam sobremaneira a situação estressante que as atividades extras propiciam aos policiais que as realizam. A atividade paralela aumenta o estresse policial. Essa não requer muitos apontamentos. com viatura e tantas outras coisas que o policiar infelizmente fica em segundo. E esses detalhes são FRs que comprometem a saúde profissional. de computadores. no “bico” não poderá utilizá-la. rádios sem qualidade e com facilidade de interceptação. São viaturas sucateadas.

modifique o volume ou a forma do material. sendo que esse. a partir de inúmeras pesquisas internacionais e brasileiras. intitulada: O que é resiliência humana? Uma contribuição para a construção do conceito. 12-14). Barlach nos traz que “o sofrimento e sua superação são temas de inúmeros relatos bíblicos. Essas alterações podem ter como fonte o calor. A resiliência também tem sido percebida em passagens bíblicas. Em cada área a ideia. Há diversas publicações. “não obstante estes impasses teóricos. 2. a noção ou o comportamento resiliente são percebidos através de diferentes características. Há divergências entre autores sobre a origem etimológica da palavra. dos quais serão destacadas as estórias de Jó e de Jacó“ (2005. Dentro e fora do meio científico o termo resiliência vem sendo. (PINHEIRO. matérias jornalísticas e outras formas de divulgação que vêm trazendo à tona a resiliência. retorna ao seu estado inicial. 2004). variáveis e fatores que influenciam no enfrentamento e na superação das adversidades”. artigos científicos e não-científicos. mas tendo sempre um mesmo norte. conforme vemos na dissertação de Lisete Barlach. a cada dia. p. o termo quer evidenciar a capacidade que determinadas pessoas têm de passarem por situações adversas e saírem delas fortalecidas ou com as menores lesões possíveis. livros.também que tenha ficado claro a não-valorização profissional como presente. a temperatura e qualquer outra que.3 RESILIÊNCIA O termo resiliência nasceu na Física com a finalidade de denominar a capacidade que alguns materiais têm de passarem por alterações na sua plástica e retornarem à sua condição anterior quando cessa o estímulo ou a pressão a que foram submetidos. O termo foi adotado por outras áreas do conhecimento. a pressão. mais utilizado. sempre se sobressaindo à condição adversa. de alguma maneira. Entendido de maneiras diferentes. contribuindo para que os fatores de proteção sejam conhecimento significativo importante durante a educação policial. Após citar a passagem bíblica de Jó e Jacó em detalhes e comentários a pesquisadora afirma: . exatamente por ser resiliente. é possível estabelecer. revistas.

na mudança. 21) e “A VIDA É BELA” (BARLACH. após a luta com o anjo fazer-se merecedor do nome pelo qual se tornaria conhecido o povo de Israel. Encontram-se comentários que revelam a plasticidade emocional típica da resiliência referindo-se a ele. 22). p. a resposta. 2005. o jogador Ronaldo “o fenômeno”. 2005. e tantos outros exemplos. MELAMED. sua busca por autonomia e seu investimento constante em relações humanas. acima de tudo. o negativo. A resiliência vem num rumo completamente diferente. 14). o músico Ray Charles. ou seja. mesmo sem nos darmos conta. ao comportamento mais adequado e não voltado para o problema. p. Enquanto os modelos e estudos dos déficits negam o sujeito como condutor. científicos e empíricos. Ou. as falhas. entre elas o filme “FRIDA” (BARLACH. 75) “os déficits. Um dos indicadores mais interessantes sobre o enfrentamento da adversidade por parte de Jacó é o fato de que. unificam uma capacidade imprescindível para aqueles que. Cientificamente citamos Assis: A vida de Clarice Lispector é um manancial para se pensar sobre a capacidade de superação que o ser-humano desenvolve frente à adversidade. tais como “sete vezes cairá e sete vezes se levantará” (PARASHÁ. OJEDA. p. assume o significado de elevação espiritual. pessoas e entidades em seus aspectos mais redutores”. sobre o seu potencial de resiliência.Neste caso. 2006). A mudança de nome aqui. Há também inúmeros relatos. como cita Ravazzola[16] (apud MELILLO. p. buscam. não há muitos indícios. relacionam situações diferentes de vida. ator e protagonista da sua própria existência a resiliência evidencia a autonomia para esse sujeito e . 2005. 21). destacando-se seu esforço ao longo de toda a existência para encontrar um propósito para a própria vida. (BARLACH. 1996)[14]. VAIGASH. sobre a atitude interna de Jacó diante dessas adversidades. 2005. mas. p. (BIGHELINI. p. o que nos induz ao entendimento de que Jacó conseguiu transcender seu sofrimento pela via de elevação espiritual. sobre pessoas importantes que marcaram suas vidas com características que evidenciam um comportamento resiliente. 13). fator que é analisado por alguns autores no contexto de pesquisas acadêmicas sobre o assunto. como em diversas outras tradições. A autora cita como exemplos da arte imitando a vida e trazendo algumas questões relacionadas “a temática da adaptação em condições de adversidade” (BARLACH. (ASSIS. o pensamento está direcionado para a resolução. o modelo Ramiro Lotufo. Algumas produções cinematográficas também são citadas por Barlach. os problemas e os fracassos nos fizeram considerar. entretanto. 2006. Empiricamente podemos citar o texto de Karine Bighelini[15]: O iatista Lars Grael. 2005. no relato bíblico. a doença. um processo de desenvolvimento e renovação. Geralmente temos nos preocupado em estudar o lado e os comportamentos negativos. dito de outra maneira.

vez que pretendemos percebê-la como fator de proteção frente às adversidades da vida e do cotidiano profissional do policial. Nessa esteira é fundamental citarmos Grotberg[17] (apud MELILLO. “pessoas expostas a situações de risco que não desenvolvem a capacidade de resiliência são vistas como mais vulneráveis a estes eventos”. o bem mais precioso que temos. Justificamos que tal busca se dá em razão de que a atividade do ser-humano policial está cotidianamente ligada a situações de estresse. pró-ativas. 03). seus companheiros e terceiros. leva qualquer um. onde muitas vezes o profissional em pauta se vê em meio a confrontos. acidentes sérios ou ataques pessoais. E é pensando no pós-trauma que essa pesquisa busca salientar a evidência da resiliência. A ameaça à vida. família e/ou comunidade buscando uma forma de enfrentamento e de convívio com a adversidade. tais como estupro. a uma situação de altíssimo estresse. identifiquei fatores resilientes e os organizei em quatro categorias[18] diferentes: “eu tenho” (apoio). estas têm capacidades potenciais para se desenvolver e alcançar níveis aceitáveis de saúde e bem estar”. Ainda Ravazzola (apud MELILLO. tais como combates militares. desastres naturais. p. p 16): “nas primeiras etapas de pesquisa. 82). Assim podemos refletir que essas capacidades potenciais são por atos. incidentes terroristas. 2005.” (BARLACH. não obstante as adversidades sofridas por uma pessoa. mas principal e relevantemente ao que vai ocorrer pós-trauma. família ou comunidade. existindo ali o risco de morte para ele. “eu sou” e “eu estou” (relativo ao desenvolvimento da força intrapsíquica). 75). Assim consideramos que a resiliência como fundamentação teórica é primordial para essa pesquisa. p. atitudes e comportamentos de cada sujeito. “eu posso” (aquisição de habilidades interpessoais e resolução de conflitos).requer do mesmo atitudes ativas. Para tanto buscamos respaldo na pesquisa de Barlach: Dentre os inúmeros temas abordados pelos teóricos do stress. fenômeno definido pelo Centro Nacional de Stress Pós-traumático americano como uma “desordem psiquiátrica que pode ocorrer após a experiência ou o testemunho de eventos ameaçadores à vida humana. interessa ainda o campo de estudo do stress pós-traumático. p. Conforme cita Koller (1997. OJEDA. “o enfoque das resiliências permite pensar que. 2005. protagonismo e condução da sua própria vida. já na educação inicial do policial. profissional ou não.” . Ressaltamos que o mais importante aqui não é centrarmos nossa atenção ao estresse ou à situação de confronto mencionada. 2005. OJEDA.

2005. OJEDA. quando estou “disposto a me responsabilizar por meus atos” nos dá uma noção de ações ativas frente às adversidades.17) identifica que o “eu estou”. temos um comportamento resiliente.17) traz que quando temos “pessoas que querem que eu aprenda a me desenvolver sozinho” conseguimos ter condutas positivas. sem ações resilientes. Em cada um dos “fatores resilientes” são descritos comportamentos que evidenciam um comportamento resiliente como salutar frente às adversidades. é acreditarmos que alguém nos escutará ativamente. ou seja. p. sem trocas resilientes. 2005. OJEDA. 17) são importantes e relacionados às atividades de segurança pública. autoestima e autoconhecimento necessários para que possamos ser autônomos e termos assim comportamentos resilientes. Responsabilidade é estarmos prontos para os enfrentamentos. Ainda Grotberg[22] (apud MELILLO.17) exemplifica o “eu sou” com o fato de ser “respeitoso comigo mesmo e com o próximo”. cada um de nós como protagonistas de nossas atitudes e responsáveis pelas consequências. o que nos ajuda. p.17).Cada um dos “fatores resilientes” de Grotberg[19] (apud MELILLO. estamos tendo ações resilientes. saindo de uma heteronomia para uma autonomia. p. OJEDA. 2005. 2005. Obviamente não há resiliência sem fatores resilientes. tendo assim ações resilientes. A resiliência está diretamente ligada aos fatores resilientes que vimos. O que queremos dizer com isso? Queremos dizer que quando temos (“eu tenho”) pessoas que querem que aprendamos algo para que possamos nos desenvolver sozinhos. é acreditarmos na disponibilidade dos outros. nos mostra que “encontrar alguém que me ajude quando necessito”. Finalmente nos fatores resilientes Grotberg[23] (apud MELILLO. Queremos dizer que quando estamos (“eu estou”) dispostos a nos responsabilizarmos por nossos atos e das consequências advindas dos mesmos estamos tendo . conseguimos perceber também os outros. p. por conseguinte. nos faz assim pensarmos que a partir do momento que nos reconhecemos como cidadãos. primordiais e necessários para que nossas ações possam ser resilientes. No fator resiliente “eu tenho” Grotberg[20] (apud MELILLO. Queremos dizer que quando somos (“eu sou”) respeitosos por nós mesmos e pelos outros adquirimos autoconfiança. p. sem comportamentos resilientes. nos dá autoconfiança e. 2005. OJEDA. Da mesma forma Grotberg[21] (apud MELILLO. é podermos contar com o(s) outro(s). existindo assim respeito e tolerância. OJEDA. percebendo a nós e aos outros com respeito e tolerância.

o crescimento pessoal. (capacidade de se relacionar + eu tenho/sou) Teríamos inúmeros exemplos. (BARLACH. tendo em vista a diversidade de termos usados para dialogar essas com a resiliência. p. 62). já na sua educação. 100. independência. somos autoconfiantes. (introspecção + eu posso) Quando somos independentes. Quando nos questionamos introspectivamente podemos nos dar uma resposta honesta. como sendo: “introspecção. OJEDA. Após trabalho de pesquisa sobre o tema resiliência. de sua própria percepção e de sua atitude diante da vivência da condição da adversidade ou trauma. 2005. Queremos dizer que quando podemos (“eu posso”) encontrar alguém que nos ajude quando necessitamos e de igual forma nos colocamos à disposição dos outros quando eles necessitarem estamos tendo trocas resilientes. ou mesmo traumática. a partir de então. Por sua vez Melillo[25] (2005. grifo da autora). temos autonomia. o desenvolvimento de novos recursos pessoais. a confirmação de sua identidade. constituindo-se numa reação que transcende os limites de um mero processo de adaptação. demonstramos nossa necessidade de relação com os outros. Barlach chegou ao seguinte construto: A resiliência é a reconfiguração interna. A resiliência é uma condição interna (não observável. constituindo esta. moralidade e autoestima consistente”. criatividade.ações e comportamentos resilientes. caracterizada por alto potencial destrutivo ou desintegrador das estruturas e recursos pessoais. Além dos fatores resilientes citados anteriormente encontramos na literatura outras citações que trazem diversos comportamentos. Realizando um diálogo entre os autores Grotberg e Melillo podemos dizer que os pilares da resiliência traduzem na prática o que os fatores resilientes querem expressar. iniciativa. .73) nos apresenta o termo “resiliências”. porém não é esse o foco principal dessa pesquisa. capacidade de se relacionar. da qual resulta o fortalecimento dessas estruturas. no plural. sentimentos e atitudes que contribuem e se relacionam com a resiliência. p. humor. tanto é assim que Ravazzola[24] (apud MELILLO. fator de crescimento ou desenvolvimento pessoal. 2005. O foco dessa pesquisa é a apresentação clara da resiliência para que ela atenda às necessidades do policiai. Encontramos uma dificuldade bastante grande em denominar pontualmente tais citações. pelo sujeito. (independência + eu posso/sou) Quando demonstramos nossa afetividade. p. destaca “os pilares da resiliência”. atributos. a não ser em seus efeitos) constatada numa demanda de adaptação do indivíduo frente a uma situação excepcionalmente adversa.

. Também citamos que não há como significar resiliência como invulnerabilidade. autonomia. iniciativa. 7). autorrespeito. é fator de preocupação dessa pesquisa na proposta de tornar o termo resiliência significativo durante o processo de educação policial. p. o foco no indivíduo busca identificar resiliência a partir de características pessoais. justamente. Resiliência requer como fatores resilientes: ação ética e moral baseada em valores. superação positiva. àquilo que não tem vulnerabilidade. desafios. apesar de todas terem trajetórias semelhantes. Invulnerabilidade nos remete a algo inatingível. autoconfiança. apesar de todos os autores acentuarem em algum momento o aspecto relevante da interação entre bases constitucionais e ambientais da questão da resiliência. o conceito de resiliência no desenvolvimento humano requer algo mais. invencível. que vai além de um retorno ao estado original. autoestima elevada. e é. As questões relativas a “habilidades individuais” são em geral ilustradas com pequenas histórias de pessoas dentre as quais algumas conseguem superar os momentos de crise e outras sucumbem. que se colocarão frente a inúmeras adversidades. tão pouco à uma simples adaptação. 2003. situações de risco. superação e/ou moldagem destinada ao crescimento ou desenvolvimento positivo. temperamento e background genético. há a exposição do sujeito a fatores adversos. Assim a presença desses fatores resilientes na educação de profissionais da segurança.Percebemos que enquanto no conceito utilizado para a Física. (YUNES. Desta forma. nessas situações e em outras correlatas que o indivíduo resiliente apresenta adaptação. como sexo. Na resiliência há a vulnerabilidade. protagonismo. relação com o outro e respeito. em que um material exposto a uma condição adversa retorna à sua plástica original. Dessa forma torna-se importante citarmos a percepção de Yunes sobre a resiliência sendo focada no indivíduo: A perspectiva no indivíduo é notória também na introdução de diversos estudos que investigam a resiliência.

p. p. 60).” (LUDWIG. a origem do termo.3 METODOLOGIA Esta pesquisa é de caráter qualitativo. 53) trata-se de uma pesquisa bibliográfica que também apresenta características de uma pesquisa-ação por ter a vontade de “solucionar um problema coletivo. de maior clareza e riqueza para a percepção das necessidades metodológicas propostas. . Entendemos ainda que por pretender “explicar um problema a partir de referências teóricas publicadas” (RAMPAZZO. os fatores de risco e os de proteção presentes nessa atividade laboral. A educação policial deve ser pesquisa cientificamente para que possa atender a todas as necessidades educacionais e as profissionais já citadas. a terminologia. p. citamos também Appolinário (2004. referente às características dessa pesquisa-ação. uma vez que. Sentimos a forma adotada mais didática. Quanto à apresentação dos elementos adotamos nessa monografia o modelo de apresentação por itens. 151152. 2005. Para corroborar com nosso pensamento. a aplicação. 23) “lida com interpretação das realidades sociais”. o estado da arte e outros pontos que colaboraram na compreensão e pretensão de aplicabilidade dela como fator de proteção. algum problema coletivo no qual os pesquisadores e sujeitos da pesquisa estejam envolvidos de modo cooperativo e participativo”. em detrimento à apresentação textual. 2009. através de documentos existentes sobre a educação policial. através da ação. o uso do construto por outras áreas do conhecimento. como cita Bauer (2002. A pesquisa bibliográfica ocorreu em laboratório. p. grifo do autor) o qual identifica que a pesquisa-ação é uma “modalidade de pesquisa aplicada cujo objetivo básico é o de resolver. Pesquisamos ainda a resiliência.

Não queremos passar a ideia prepotente de autossuficiência. Entretanto. de suas prescrições e de sua idoneidade. social e profissional das situações adversas que encontrará no dia-a-dia do desenvolvimento de sua atividade profissional. Deve propiciar ao ser-humano que optou pela carreira policial a autonomia necessária para o enfrentamento pessoal.4 CONCLUSÕES A passada e ainda atual “formação” policial apresenta relevantes conhecimentos quanto aos aspectos técnicos.” (DELVAL. para agir eficaz e eficientemente diante das mais variadas e complexas condições que a carreira policial lhe apresentará. o qual nos esclarece que toda educação cidadã deve propiciar ao estudante a compreensão da “necessidade de regras. Essa autonomia faz parte da própria filosofia de policiamento comunitário. que a atividade profissional de polícia requer. coerente e certa. devemos educar o policial. advindos de uma adequada educação policial. a formação cidadã encontra-se em processo de aperfeiçoamento. torna o policial comunitário um aliado da sociedade. 59). Um policial com heteronomia precisará de auxílio para tomar essas decisões. objetivando melhora nas condições de trabalho. Propomos falarmos sempre em Educação Policial. sem prejuízo às partes envolvidas. Nessa esteira aproveitamos a afirmativa de Juan Delval. para dessa forma atingir a autonomia de conduta. um policial com autonomia terá recursos. no reconhecimento da atividade policial e na evidência da cidadania para o próprio ser-humano policial. Com certeza essa possibilidade de agir de forma correta. dentro dos princípios de legalidade. 2006. termo adequado à real necessidade pedagógica do ensino policial. dessa forma apresentamos a necessidade urgente de uma mudança de comportamentos. mesmo dentro da sua área de responsabilidade. que prevê a autoconfiança para tomar decisões assertivas como um fator de proteção para o policial. começando pela substituição na nomenclatura que será importante para a percepção e pretensão educativa. p. Não podemos somente formar policiais. Assim a educação policial deve levar ao desenvolvimento completo e integral do ser-humano policial. ética e responsabilidade. Precisamos entender aqui que há grande diferença em um policial com autonomia para um policial com heteronomia. Levando-se em conta a esfera de competência individual. mas sim de capacidade de saber o que fazer e fazer isso de forma adequada. A filosofia de polícia comunitária já é atitude presente nas relações e ações dos .

respeito e atendimento a todas as necessidades que estiverem ao nosso alcance. mas com a possibilidade de ter seus próprios “sotaques”. O Brasil é um país conhecido pela sua extensão territorial. A MACUNA percebe o policial como ser-humano. em desenvolvimento integral e completo. que propicia inúmeras culturas. Nosso policial não vive uma situação de atenção comunitária dentro da instituição.policiais com a sociedade. Vemos a abordagem bioecológica de Bronfenbrenner presente já na educação policial. Quando agirmos assim. A explicação está na relação bioecológica do ambiente-sujeito que temos em nossas instituições. da educação policial à rotina diária. então ele tem dificuldade para perceber o quanto esse comportamento é eficaz à atividade de policiamento em prol da segurança pública. em processo de educação. mas um exemplo arrasta. . que pensa. Essa mudança de comportamento nada mais é do que tratar o policial com respeito. através de uma malha curricular flexível adaptável às peculiaridades de cada instituição policial. diante da preocupação da MACUNA com a dicotomia policial-meio. tradições e comportamentos diferentes. Assim como os sotaques são locais. Uma palavra comove. buscando em primeiro plano a valorização do profissional de segurança pública e em seguida o reconhecimento das instituições policiais e da atividade de polícia em si. pesquisa e aplica conhecimentos científicos de várias áreas do conhecimento humano em prol de uma qualificação profissional. tratando como um ser-humano e não apenas como um número. a qual já está em fase de reformulação. Isso é tão forte que temos vários sotaques para uma mesma língua portuguesa. Dentro de perspectivas atualizadas da pedagogia moderna a MACUNA evidencia o estudante policial com um ser ativo. locais também os são os problemas e as dificuldades da segurança pública. com atenção. estaremos praticando polícia comunitária com o próprio policial. As propostas da MACUNA apresentam a necessidade do sistema de ensino policial perceber as necessidades dos seus discentes. Verificamos a preocupação em propiciar uma educação policial de qualidade na matriz. entretanto ainda enfrentamos resistências internas à sua aplicação. Prova disso é a proposição pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (SENAS/MJ) da matriz curricular nacional (MACUNA). Constatamos essa necessidade de mudança de comportamento interno à medida que verificamos as deficiências atuais da educação policial. com uma matriz para dar um mote. Devemos tratar nossos policiais da forma como queremos que ele trate a sociedade. logo a educação policial também deve ser assim. tratando o policial como cidadão pleno de direitos e deveres.

principalmente aqueles que afetam diretamente a saúde mental dos nossos policiais. percebemos várias coincidências. Dos FRs externos às instituições aos internos. Dos vários citados centramos nossas percepções em dois: na ausência de efetivo para a atividade fim. Se os quadros organizacionais fossem cumpridos de acordo com o que as leis estabelecem esse seria um . aparentemente inofensivos. Esse é um comportamento reflexo da própria sociedade brasileira que mascara as questões afetas à doença epidêmica chamada dependência. não paga a saúde mental dos seres-humanos policiais que ficam à mercê da própria sorte. Não podemos. São pequenos gestos diários. O ter que ser feito. e nas atividades-extras que expõe o policial. mas que retratam a atual disseminação da violência. é calar quando precisamos falar! E nessa fala devemos nos perguntar: o que há de errado? A ausência de políticas de prevenção ao abuso de drogas dentro de nossas instituições policiais se apresenta como FR potencial à dependência por policiais. Enfatizamos que os levantamentos oficiais apresentam apenas a ponta do problema. na nossa sociedade torna-se motivo de preocupação e FR aos policiais quando banalizada e naturalizada. Quanto aos externos enfatizamos o abuso de drogas e a violência como sendo os principais FRs que atuam na relação do policial com a sociedade.Ao contrário das especificidades da educação policial. Como um policial será valorizado senão percebe preocupação pela própria administração policial quanto a um tratamento humanizado de seus próprios policiais? Nosso policiais trabalham mais do que o recomendável para realizar o policiamento necessário e atender às demandas da sociedade. De fora vamos para dentro das instituições e vemos que os FRs também são inúmeros. Quanto à falta de efetivo afirmamos que há um descaso do Estado em relação à profissão. os fatores de risco (FRs) a que estão expostos os policiais tornam-se praticamente universais. quanto à segurança pública. tão presente. interferindo e prejudicando fortemente essa relação. nem devemos ignorar a existência da dependência entre policiais. esse iceberg. é querer não escutar o que nossos estão ouvindo. é maior do que oficialmente temos registrado. que resulta em vários problemas. como escutamos. fazê-lo é tentar não enxergar o que nossos olhos estão vendo. A violência. de quando for possível acontecer uma folga a mais. infelizmente. Quando não reconhecemos direitos fundamentais e a própria cidadania do ser-humano policial institucionalizamos a violência e a tornamos aceita.

que acima de tudo desqualifica a profissão policial. Dessa forma há condição de sairmos de situações adversas sem manifestações negativas em nossos comportamentos. uma norma de comportamento. mas há policiais que nunca passaram por uma reciclagem e já tem mais de dez anos desde sua escola de formação. uma explicação de um fenômeno físico ou social. Acreditamos que um comportamento resiliente é fundamental para realizarmos a atividade policial e assim propiciarmos condições de valorização e de reconhecimento profissional. Pensando assim apresentamos nesse trabalho a resiliência como um fator de proteção promissor para a atividade policial. Às vezes a administração deixa de educar adequadamente seus profissionais de segurança pública. As atividades extras ao serviço policial. É vergonhoso. devido à falta de policiais. p. Eles não somente expõe o policial como à sua própria família. Os problemas vividos por policiais são percebidos nessa pesquisa como FRs que comprometem a qualidade de vida. etc. dos policiais. para fazer policiamento. ou fazemos educação continuada. 1994. . então temos que propiciar.. mas infelizmente não podemos negar que é um FR de grande potencial. pessoal e profissional. fatores de proteção que possam fazer frente e auxiliar para um adequado desenvolvimento da atividade profissional de segurança pública.] o aluno aprende um conteúdo qualquer – um conceito. Como já citamos são inúmeros os FRs apresentados num só. Para que esse comportamento resiliente faça parte do rol de fatores de proteção do policial se faz necessário que ele seja um conhecimento propiciado e evidenciado e principalmente significativo pois: [. – quando é capaz de atribuir-lhe um significado. um procedimento para resolver determinado tipo de problemas.148). ou colocamos os policiais na rua. como vimos. que a maestria da atividade laboral de policial requer. Os FRs da profissão policial. Um comportamento resiliente deve apresentar capacidade e possibilidade de enfrentamento. são inúmeros. principalmente através de uma educação continuada. (SALVADOR. conhecidos por “bicos” são ainda mais preocupantes. já na educação policial inicial. realizado por policiais. Desde à exposição até as questões de legalidade. superação e de adaptação frente à exposição a FRs.primeiro passo rumo à uma verdadeira valorização profissional.. ou seja. um valor a respeitar. bem como deixa de propiciar a valorização profissional adequada. Mesmo que não existam soluções imediatas há necessidade de nós os revelarmos e pensarmos juntos os melhores fatores de proteção para que possamos conviver com eles da melhor maneira possível.

valorizando-o profissional e pessoalmente. As percepções pessoais resilientes citadas acima evidenciam a importância da presença da resiliência como fator de proteção. com toda certeza. eu estou e o eu posso para os policiais. Garantindo assim autonomia. pela qualificação educacional que esse agente de segurança pública terá para mediar as ocorrências que.Esse aprendizado significativo da resiliência acontecerá através de conteúdos programáticos que evidenciem o eu tenho. Finalmente temos consciência que essa necessidade de mudanças no ensino policial objetiva uma educação policial adequada à realidade que o ser-humano policial enfrenta em seu dia-a-dia. autoestima. enfim a própria resiliência. acima de tudo. Capacitar o ser-humano policial de forma adequada é garantir-lhe a própria cidadania. . À medida que potencializamos e empoderamos nossos policiais a agirem assim possibilitamos condições mais humanas e cidadãs. se deparará. A busca de uma valorização profissional passa. autovalorização. eu sou.

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[8] POLONIA. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller. Tradução: Valério Campos. 2000) [4] Dados de 2002 da SENASP revelam que menos de 20% da população brasileira reconhecem que a polícia faz um bom trabalho. cultura e conhecimentos jurídicos. cotidiano e prática policial reflexiva. na escola. Polícia: desafio da democracia brasileira. 22) [12] Segundo a Organização Mundial da Saúde violência é “o uso intencional de força ou de poder físico. Isabel. subdesenvolvimento ou privação. na forma real ou de ameaça. na família. Luiz Antônio Brenner. DESSEN. cidadania. ou tem grandes chances de resultar em ferimentos. sociedade. [3] Condição que pode estar presente no indivíduo. Maria Auxiliadora. informação e tecnologias em segurança pública. valorização profissional e saúde do trabalhador. espaço público e segurança pública.” (BRASIL. entre aspas. danos psicológicos. 2006). Benedito Domingues. 2000) [2] Entendida inicialmente aqui como um comportamento eficaz. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. 2005. [14] MELAMED. [15] Relações públicas. para identificarmos o processo de educação policial com o qual não concordamos. Aquele processo educativo à moda antiga. na comunidade ou na sociedade e que propicia o abuso de drogas ou a violência. violência. (VIEIRA. In: A ciência do desenvolvimento humano: tendências atuais e perspectivas futuras. modalidades de gestão de conflitos e eventos críticos. p. morte. p. Maria Cristina. Estado. 2002. SILVA. entre os pares. introduzida no organismo vivo. palestrante. [7] Entendida como uma construção social e não como uma orientação biologia. (ANTÓN. na escola. p. que resulta. conflitos e segurança pública. contra outra pessoa. Porto Alegre: Corag. 2009. p. poder. (ASINELLI-LUZ. na família. O modelo bioecológico de Bronfenbrenner: contribuições para o desenvolvimento humano. ética. [10] Sistemas. 71-89. entre os pares. despersonalização (ou ceticismo) e diminuição da realização pessoal (ou eficácia profissional). adequado e íntegro frente à exposição de pressões ou situações negativas e/ou adversas. e funções. In: MARIANO. [9] Sujeito e as relações no contexto da segurança pública. ou contra um grupo ou comunidade. pode modificar uma ou mais de suas funções. direitos humanos e segurança pública. [16] RAVAZZOLA. . na comunidade ou na sociedade e que pode contribuir para diminuir a probabilidade de envolvimento com a droga. (ASINELLI-LUZ. 1996. 121-143. (BRASIL. 2003. [11] A Organização Mundial da Saúde define fármaco ou droga como toda substância que. crime e controle social. contra si mesmo. 2009) [13] Síndrome psicológica resultante de estressores interpessoais crônicos no trabalho e caracteriza-se por: exaustão emocional. impedindo o aparecimento de novos casos. FREITAS. Porto Alegre: Artmed. comunicação. Porto Alegre: Artmed. Ana da Costa. que privilegia um policial defensor do Estado e não da sociedade. com a gravidez indesejada. (Org. instituições e gestão integrada em segurança pública.). 2005. Resiliências familiares. São Paulo: Templo Israelita. e diversidade. A lei de Moisés. Consultoria. 27) [5] Utilizaremos a expressão formação. mesmo quando há fatores de risco presentes. com a violência. consultora em Comunicação Organizacional e sócia-diretora da Sharing Consultores Associados. A polícia de proteção à cidadania. ocorrendo isoladamente ou em conjunto. técnicas e procedimentos em segurança pública.[1] Condição que pode estar presente no indivíduo. Nara Liana Pereira. p. Rabino Meir Matzliah. 73-85. [6] GUIMARÃES.

p. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. Tradução: Valério Campos. p. Porto Alegre: Artmed. Alicia. Porto Alegre: Artmed. 59-72. Tradução: Valério Campos. já que os verbos “ser” e “estar” são o mesmo “to be”. 2005. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller. 15-22. . Tradução: Valério Campos. Consultoria. Maria Cristina. 2005. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller.[17] GROTBERG. 73-85. Porto Alegre: Artmed. 2005. Introdução: novas tendências em resiliência. Resiliências familiares. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller. CUESTAS. Tradução: Valério Campos. p. ESTMATTI. 15-22. Porto Alegre: Artmed. Mirla. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. Aldo. [25] MELILLO. Alguns fundamentos psicológicos do conceito resiliência. Edith Henderson. p. Edith Henderson. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. Introdução: novas tendências em resiliência. In: Resiliência: descobrindo as suas próprias fortalezas. [19] GROTBERG. [18] Cita MELILLO em nota de rodapé que “no trabalho original (em inglês) assinalam-se três categorias. Consultoria. [20] Id [21] Id [22] Id [23] id [24] RAVAZZOLA. Consultoria. 2005. Consultoria. supervisão e revisão técnica: Sílvia Helena Koller.