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A ULTRAVIOLÊNCIA: MÁQUINA-MÍDIA-MERCADO

OU QUEM ESTÁ COM O CONTROLE,


QUEM ESTÁ SOB CONTROLE, QUEM (SE) DESCONTROLA?

Resumo: Através da análise de dois filmes – Matrix e Truman, pensar a estrutura


dos mídia, as corporações que os formam, enfocar o tipo de sociedade que
está sendo produzida neste processo contemporâneo no mundo e no Brasil. O
texto tenta demonstrar a inextricável relação entre cultura, política,
economia e tecnologia tendo como exemplo os mídia, principalmente a
televisão.E busca uma linha de fuga, para criar democratização dos meios e
democracia no socius.

“A alienação do espectador em proveito do objeto


contemplado (que é o resultado de sua própria atividade
inconsciente) é expressada do seguinte modo: quanto
mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita
reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade,
menos entende sua própria existência e seus próprios
desejos. A externalidade do espetáculo em relação ao
homem ativo surge no fato de que seus próprios gestos
não são mais dele, mas de outro, que os representa para
ele. É por isso que o espectador não se sente à vontade
em parte alguma, porque o espetáculo está por toda a
parte.”
Guy Debord (A sociedade do Espetáculo, aforismo 30)

“estar acordado
é não
estar de acordo”
o vigia

1. Introdução
A arte – moderna e contemporânea - sempre foi um veículo
privilegiado para nos fazer ver/ouvir/tocar/cheirar/sentir coisas
desagradáveis, como a realidade, por exemplo. Mesmo quando é uma
obra na era da reprodutibilidade técnica, numa industria como é a do
entretenimento, num tipo de produção cinematográfica como é a
americana, encontramos esse tipo de filme.
A escolha destes dois filmes, Matrix e O Show de Truman,
não foi aleatória, portanto. É que eles atualizam preocupações dentro do
contexto crítico de análise do desenvolvimento das tecnologias da
comunicação. E apontam caminhos por onde as decisões a serem
tomadas pelos seres humanos, cidadãos com autonomia, podem nos
dirigir.

2. A nova Trindade explicada


2.1 Máquina
“É fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de máquina, não
porque as máquinas sejam determinantes, mas porque elas exprimem as
formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las. As antigas
sociedades de soberania manejavam máquinas simples, alavancas,
roldanas, relógios; mas as sociedades disciplinares recentes tinham por
equipamento máquinas energéticas, com o perigo passivo da entropia e o
perigo ativo da sabotagem; as sociedades de controle operam por
máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e
computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o ativo a pirataria e
a introdução de vírus. Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais
profundamente, uma mutação do capitalismo.”
Gilles Deleuze Sobre as Sociedades de Controle

2.2 Mídia
“Após a Segunda Guerra, a TV se tornou o centro da vida cultural, com
algumas poucas redes controlando os mercados nacionais e, nesse sentido,
operando como grandes máquinas de engenharia do imaginário coletivo,
por meio dos quais se massificavam simultaneamente os valores da Guerra
Fria e do consumo. O enorme potencial para a informação, o esclarecimento
e a ação transformadora que existe latente nesse estratégico veículo de
comunicação raras vezes se manifesta, em meio aos rígidos mecanismos
políticos e mercadológicos que o controlam.(...) O destino da TV – pelo
modo como seu desenvolvimento histórico a encalacrou entre o poder
estatal e as grandes corporações de mídia – é estar acorrentada ao
entretenimento superficial, ao sensacionalismo de baixo instinto, ao festival
aliciante do consumo e à mais mesquinha manipulação política”
Nicolau Sevcenko A Corrida para o Século XXI

2.3 Mercado
“O mercado, esta entidade abstrata, virtual, ultimamente tão nomeada,
criticada ou adorada se globaliza, no sentido em que os empresários já não
tem fronteiras para vender suas mercadorias. Paralelamente a essa
universalização dos produtos assistimos a uma diversificação,
fragmentação, segmentação de produtos sem precedentes. A lógica do
capitalismo é um incessante fervor por converter tudo em mercadoria. E
seu principal objetivo é não respeitar fronteiras, dando lugar ao processo
que se conhece como Globalização. A velha ilusão de unidade social tão
ansiada na modernidade se faz realidade, uma unidade social segmentada
por nichos de mercado, de consumo. Unidade social representada pelo
termo globalização financeira e cultural enquanto “gostos a consumir”, que
deriva de uma combinação dos imperativos que emanam das necessidades
da produção de mais-valor e das necessidades ideológicas de dominação
dos donos do global village.(...) Esta ideologia de mercado não deixa lugar
para uma oposição, ela se impõe como única alternativa, única realidade
que envolve inclusive a difusão dos acontecimentos científicos,
tecnológicos, religiosos, políticos, econômicos e ideológicos.”
Maria Isabell Ackerley GLOBALIZAÇÃO E SOCIEDADE DE CONTROLE

3. Quem está com o controle, quem está sob controle?


Estes dois filmes dos fins da década de 90, fim do século XX,
traçam um retrato sombrio dos mídia.

Um fala da televisão – mídia já estabelecida; outro da


realidade virtual, inteligência artificial e internet – mídia em processo de
estabelecimento.

Em Matrix, a Máquina(uma mente digital, uma inteligência


artificial que se tornou independente do seu criador) teve de inventar
mundos artificiais para os humanos continuarem vivos para produzir
energia que ela rouba. Matrix leva ao paroxismo nosso medo de que as
máquinas tomem o controle e nos controlem. Na verdade isso sempre
acontece: inventamos as máquinas tecnológicas que se engrenam com a
cultura a política e a sociedade, formando máquinas biopsicossociais. E
elas fogem ao controle: vide o nazismo, o comunismo burocrático, o
neoliberalismo.

Em Truman, Christof, o produtor do programa diário de maior


sucesso manipula a vida de um humano – criado em laboratório, quer
dizer, dentro de um estúdio, com uma vida normal, onde todos os
outros são atores menos ele. Truman não sabe que a cidade, suas
relações e sua vida são ficcionais - para aumentar audiência e venda dos
produtos, fazendo os outros humanos fora do estúdio viverem a vida
através da ‘personagem’ do show. Truman leva ao paroxismo o projeto
de shows como “Casa dos Artistas”, “Big Brother” e “No Limite”. Esta é
uma boa apresentação de como a TV controla o imaginário, já que todos
desejam tornar-se celebridades midiáticas.

Em ambos os filmes, aos poucos, toma-se consciência,


percebe-se o simulacro, o embuste. Nos dois filmes é um horror
enfrentar a realidade, é um trauma, um renascimento, uma conversão,
uma desprogramação.

3.1 Uma porção de teoria


Vamos focar a atenção no que a televisão é
contemporaneamente, e fazer a afirmação de que o mesmo absurdo
pode acontecer com a Internet, se deixarmos tudo nas mãos dos
pontocom. Neste momento, por exemplo, 13/02/2002, alguém está se
dizendo dono da patente do hipertexto, e quer cobrar pela utilização dos
links1. O combate na trincheira digital, mas não apenas nela, é pela
democracia:

Comunicação é o processo de interação social democrático


baseado no intercâmbio de símbolos mediante os quais os
seres humanos compartilham voluntariamente suas
experiências sob condições de acesso livre e igualitário, diálogo
e participação2
Sendo o acesso essencialmente quantitativo – lida com a
recepção da mensagem; o diálogo entretanto é essencialmente
qualitativo – precisa permitir emissão e recepção da mensagem, a
troca; e a participação é concomitantemente quantitativa e qualitativa
– mixando acesso e diálogo. Acesso, diálogo e participação amplos,
gerais e irrestritos é o que queremos na rede.
3.1.1Pólos e Idades

Pierre Lévy e Régis Debray fazem uma categorização dos mídia


que pode nos ajudar. Lévy cria uma história das Tecnologias da
Inteligência, e aponta três pólos do espírito, que começam pela
oralidade, passam pela escrita e chegam ao informático-midiático. O
terceiro pólo do espírito - o pólo informático-midiático, está em Matrix
quase completamente tomado pelo poder e impedindo a criação do
novo, uma tecnoditadura.

Todos (aparentemente) vivem num mundo controlado em


Matrix, apenas Truman (aparentemente) vive num mundo controlado.

Debray , com sua Midiologia, fala de três idades da midiasfera:


da escrita, da imprensa e do audiovisual. Neste último, a verdade é uma
imagem direta: ver na tv significa conhecer a verdade. Debray mostra
que a Classe Espiritual na época do audiovisual são os difusores e
produtores da mídia e o sacrossanto é a informação.3 Em Truman as
imagens da vida controlada do protagonista são a verdade, o produtor
tem um nome que lembra o deus cristão – Christof. Em Matrix, um
mega-videogame digital transforma todos em Trumans, e quem se
diverte é a Máquina.

Aplicando para a realidade contemporânea: Silvio Santos, Boni,


Daniel Filho, Marlene Mattos, Hebe, Gugu, Adriane Galisteu são os
detentores do sagrado social de nossa época. Mas a informação que
passa na mídia é anódina, não provoca alteração e sim apatia. Nos
dizeres de um maravilhoso apocalíptico :

“Tudo deve ser sacrificado a uma geração operacional das coisas...A


comunicação não é o falar, é o fazer-falar. A informação não é o saber, é o
fazer-saber. O verbo ‘fazer’ indica que se trata de uma operação, não de
uma ação...a ação em si tem menos importância do que o fato de ser ela
produzida, induzida, solicitada, mediatizada, tecnicizada... para que algo
transite melhor e mais depressa, é preciso que o conteúdo esteja no limite
da transparência e da insiginificância...A boa comunicação, isto é, o que
hoje fundamenta a boa sociedade...passa pelo aniquilamento de seu
conteúdo.”4

3.1.2 Da Sociedade Disciplinar para a Sociedade de Controle


Não há como não relacionar imediatamente o mega-estúdio
OmniVision do filme Truman, que engloba a ilha de SeaHaven e o mar
num enorme domo, com o Panóptico de Bentham e a análise
percuciente de Michel Foucault sobre a sociedade que ele chamou
disciplinar – do presídio, do manicômio, do hospital, do quartel, da
escola, da fábrica, da repartição - que repetiam aquela estrutura que
tudo via .

Mas, esta sociedade e sua forma de estruturar-se está


passando ou já passou. Agora, segundo outro pensador, Gilles Deleuze,
saímos da Sociedade Disciplinar para a Sociedade de Controle.

‘Controle’ é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e


que Foucault reconhece como nosso futuro próximo.(...)Não se deve
perguntar qual é o regime mais duro, ou o mais tolerável, pois é em cada
um deles que se enfrentam as liberações e as sujeições.”5
Para Deleuze, esta estrutura social vai estabelecer um novo
tipo de funcionamento do poder, ainda mais introjetado e subliminar
que a disciplina - o controle contínuo a partir de um sistema digital de
cifras e senhas: códigos de barra, números de cartão de crédito, senhas
bancárias e profissionais, etc. E a necessidade de atualização
permanente – profissional, educacional, tecnológica. O ser humano
agora está sempre devendo, com algo por fazer, por consumir.
“O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e
ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e
descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem
endividado.”6
Deleuze não considera a sociedade de controle globalizado
melhor que as antigas sociedades disciplinares . Para ele, o importante é
descobrir formas de resistência a este novo poder .

A mais-valia da análise marxista era um roubo de energia de


primeiro nível -o roubo do que os corpos produziam na fábrica. O de
Matrix é o paroxismo do vampirismo das corporações - só sobram
Trumans a quem se dá a ilusão de viver para roubar-lhes a energia
vital fabricada nos próprios corpos.

“O espetáculo submete a si os homens vivos na medida em que a economia


já os submeteu totalmente. Ele é apenas a economia desenvolvendo-se por
si mesma. É o reflexo verdadeiro da produção das coisas, e a falsa
objetivação dos produtores”7
Os dois filmes estão sendo apropriados aqui como uma
metáfora poderosa da Máquina-Mídia-Mercado: o mundo globalizado
de acordo com o que o G-8 e as corporações querem para todos, que
está se produzindo a Sociedade de Controle.

3.2 Comunicação Global


Hoje, são cerca de oito megacorporações que comandam a
comunicação no mundo – nomes como AOL-Time-Warner, Disney, Fox,
Viacom, entre outras. Elas são as responsáveis pela indução ao consumo
desenfreado de produtos, bens e serviços.

“A formação de oligopólios constitui o eixo preponderante do atual modelo


organizacional das corporações de mídia. Tal modelo de concentração
multinacionalizada impõe-se como paradigma, alinhando a indústria da
comunicação aos setores mais dinâmicos do capitalismo global, sob efetiva
hegemonia dos EUA como pólo de produção e distribuição de conteúdos.
O predomínio exacerbado dos oligopólios de mídia e entretenimento foi
estimulado tanto pelas desregulamentações como pela deliberada omissão
dos poderes públicos em seu papel regulador e fiscalizador. A
conglomeração deita raízes na América Latina e no Brasil, onde a ação das
corporações transnacionais se intensifica, de olho no potencial
mercadológico de uma região com 480 milhões de consumidores.” 8
“A subordinação dos países latino-americanos se tornará mais aguda com a
eliminação dos poucos subsídios ao desenvolvimento tecnológico local e das
tarifas para a produção estrangeira pelos acordos de livre comércio. Uma
maior dependência cultural e científica das tecnologias comunicacionais de
ponta que demandam altos investimentos financeiros mas ao mesmo tempo
geram inovações mais velozes, nos tornam mais vulneráveis aos capitais
transnacionais e a orientações culturais geradas fora da região.” 9
Neste ano, o Congresso vai estar votando a modificação da Lei
de Telecomunicações, para autorizar que até 30% do capital das
empresas de comunicação possa vir do exterior, de investidores
internacionais. Parece ‘Teoria da Conspiração’?
3.2.1 Plim –plim: A Globalização tupiniquim
“Controlando as nascentes da
informação e o processo de sua
difusão, e controlando, portanto, a
formação da opinião pública —raiz da
opinião eleitoral, de que deriva, no
processo democrático, a definição do
poder— os meios de comunicação
estão, finalmente, definindo a política.
(...)Estamos nos referindo,
evidentemente, ao papel que entre
nós desempenham os meios
eletrônicos, notadamente ...a
televisão.”10

Esta questão da transnacionalização da comunicação faz


lembrar uma história antiga da participação do capital estrangeiro nas
comunicações aqui no Brasil. A Time-Life investiu na Globo quando ela
estava começando, início da década de 60, e quando isso era proibido
pelas leis nacionais. Depois, com a Ditadura, o crime foi investigado e
resolvido da seguinte forma: o patrimônio fica com o Sr. Roberto
Marinho, a Time-Life não leva nada e a TV Globo apóia os militares.
Depois, a Globo apoiou todos os governos que vieram.

“Ampliando o número de suas retransmissoras, a Rede Globo passou a


cobrir a maior parte do território nacional. Em 1992, ela tinha 15 mil
empregados, 500 atores e escritores, 5 filiais, 63 retransmissoras, cobria
99,2% do território brasileiro e era captável por 99,9% dos televisores
brasileiros. Nos anos de 88 a 92, alcançou 78% de audiência e produziu
95% dos programas nobres líderes de audiência, participando em 75% da
renda do mercado publicitário. Em muitos lugares do país, até hoje, os
canais de televisão são os únicos veículos de acesso às informações diárias
e o único canal captado pela maioria continua sendo a Globo(...)A
inexistência de um efetivo controle substancialmente democrático sobre as
mídias ensejou no Brasil um novo tipo de condução hegemônica da política.
(...)Os mass media passam a ter condições de ditar, não apenas as
tendências das modas, mas também certas escolhas políticas. Nisto se
revela o que caracterizamos, aqui, como “ditadura democrática” dos mass
media.” 11
Para lembrar deste ano de eleições e de como a televisão ainda
atinge de maneira ubíqua praticamente toda a população do país por um
único canal, líder absoluto de audiência. Já provamos o perigo que isso
representou na eleição de Fernando Collor.

“A liderança do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados


recentemente concluiu um estudo que confirma a concentração de outorgas
de tele e radiodifusão na mão de políticos brasileiros. Conforme o site
“Telecom Urgente”, das 3.315 concessões de rádio e TV distribuídas pelo
governo federal, 37,5% pertencem a políticos (deputados federais e
estaduais, governadores, prefeitos e vereadores) filiados ao Partido da
Frente Liberal (PFL), 17,5% pertencem a políticos vinculados ao Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e 12,5% ao Partido Progressista
Brasileiro (PPB). Os políticos do Partido da Social Democracia Brasileira
(PSDB) detêm 6,3% das concessões, os do Partido Democrático Trabalhista
(PDT) 3,8% e os políticos do PT não têm nenhuma concessão.”12

Este é outro dado estarrecedor:77,6% das concessões estão


nas mãos dos políticos, e políticos conservadores em sua maioria. Se
fizermos as contas, metade das 3315 concessões estão nas mão do PFL
e do PPB, o que de pior existe em política – com líderes como ACM e
Maluf. Se olharmos para a base governista, então, são 61,3% nas mãos
três partidos que deram apoio aos governos FHC. Não há como evitar :
está demonstrada a violência política que isso representa. Que redunda
em violência nas políticas de comunicação destas empresas: os fatos
que vão ser veiculado tem independência, ou vão mostrar a opinião do
dono?

4. Rexistências ( ou Quem (se) descontrola?)


“A ordem efetiva das coisas é
justamente aquilo que as táticas
“populares”desviam para fins próprios
sem a ilusão que mude
proximamente.(...) Na instituição a
servir se insinuam assim um estilo de
trocas sociais, um estilo de invenções
técnicas e um estilo de resistência
moral, isto é, uma economia do
“dom” (de generosidades como
revanche), uma estética de
“golpes”(de operações de artistas) e
uma ética da tenacidade (mil
maneiras de negar à ordem
estabelecida o estatuto de lei, de
sentido ou de fatalidade)”13

Os filmes apresentam também a visão da resistência. É


possível criar outros mundos, sair do limbo. É uma escolha. Assim é que
Neo se associa ao grupo da resistência em Matrix e Truman aumenta
o nível de desconfiança em relação ao fatos e busca chegar até a mulher
que ama embarcando numa viagem em que encontra as verdades.

4.1 Nome como destino


Os nomes dos protagonistas são muito interessantes:

1. Neo, em Matrix, um nick-name, é também anagramaticamente one,


que é sua missão: neo é “the one, the chosen one” – o escolhido. E
‘neo’ é prefixo latino para novo, talvez o novo homem?

2. Truman é sonoramente “true man” – o homem de verdade, o


verdadeiro homem, também sua missão, aquilo em que a personagem
se torna.

Esses somos nós, aquilo que podemos nos tornar.

4.2 O Combate pelo Singular


“Vemos por todos os lugares surgirem as novas religiões, os novos
etnocentrismos, as novas questões lingüísticas, formas bastardas
evidentemente, ambíguas, mas sempre tentando escapar e redescobrir um
território que fuja a essa imensa rede globalizada. Cada indivíduo tem
preservado alguma coisa de singularidade. É a singularidade que está em
jogo. Faço um esquema entre o mundial, o universal e o singular. O
universal está esmagado, então a luta hoje é entre o mundial e o
singular.”14
“Existe uma escolha ética em favor da riqueza do possível, uma ética e uma
política do virtual que descorporifica, desterritorializa a contingência, a
causalidade linear, o peso dos estados de coisas e das significações que nos
assediam. Uma escolha da processualidade, da irreversibilidade e da re-
singularização...na iminência de criar novos sistemas de valorização, um
novo gosto pela vida...”15

A estratégia para uma comunicação mais democrática passam


pela educação para uma leitura crítica das mídias desde a infância , pela
utilização das mídias alternativas, comunitárias e educativas pelos
movimentos populares e da nova militância, pela organização da
sociedade civil e dos partidos políticos que primam pela busca da justiça
social e da democracia real.

“Fuera de esos grandes medias hay una posibilidad de poner en marcha


medias alternativos, de operar una reapropiación de estas tecnologías.
Problema que puede parecer general y utópico, pero que va a encontrarse
muy concretamente planteado con las evoluciones tecnológicas a medio
plazo, que conducirán al encuentro entre la pantalla audiovisual, la
telemática y la informática, y que transformarán el tipo de relaciones
existentes entre los consumidores de medias y los productores de
informaciones y de imágenes. Es algo que podría introducir mucha más
interactividad, con la condición no obstante de que esta posibilidad sea
ejecutada y utilizada por agenciamientos colectivos de enunciación”16

“Don’t hate the media. Be the media”. Não odeie a mídia, seja
a mídia. Para os grupos alternativos de informação, é preciso inventar
as atividades que façam dos novos meios a expressão de uma nova
vida, vencendo a ditadura do pensamento único do mercado, e a
violência social e cultural que as corporações de comunicação impõem.

Por isso é preciso aprender a trabalhar com o potencial de


virtualidades que o movimento das rádios-livres, por exemplo, geraram:
o questionamento das concessões ( fora do processo político-
econômico), o questionamento da programação( fora do processo
comercial -mercado fonográfico e noticioso), o questionamento da forma
de veiculação(uma despadronização dos falares radiofônicos), o
questionamento do público-alvo(rádios comunitárias, ou de minorias).
Fazer diferente, passar por fora das centrais distribuidoras de sentido e
de valor institucionalizadas, cristalizadas.

O militantismo na Internet foi elaborado pelos sobreviventes


das experiências comunitárias e políticas do final dos 60 e início dos 70,
que passaram pelo terror do Estado dos 70, entraram no movimento de
computadores, redes e ONGs dos 80. Hoje, estes grupos disputam a
primazia da informação com os gigantescos conglomerados das
comunicações no mundo digital on-line. O novo militante reúne o
trabalho digital à realização vital: o DAN (Direct Action Network) - um
dos principais organizadores das manifestações de 1999 em Seattle
(EUA) contra a Organização Mundial do Comércio, faz parte da
federação de movimentos que criou o Independent Media Center
www.indymedia.org. Experiências como a Rede Brasileira de
Comunicação Comunitária www.rbc.org.br ou a Oficina de Informações
www.oficinainforma.com.br , são exemplos a ser seguidos aqui nas
nossas terras.

“A militância atual é uma atividade positiva, construtiva e inovadora(...)a


resistência está imediatamente ligada a uma participação vital e inevitável
no conjunto das estruturas sociais e à formação de aparatos cooperativos
de produção e comunidade. Essa militância faz da resistência um
contrapoder e da rebelião um projeto de amor.”17

Estes movimentos são uma nova maneira de se opor ao que


está aí, à ultraviolência do sistema neoliberal. Eles estão dando forma a
uma outra maneira de existir – fora do planejado pelo sistema, e uma
outra maneira de resistir. Eles são, por isso, a rexistência.

5. Conclusão: Uma Ética da Decisão


“Não vos conformeis a este mundo, mas
tranformai-vos pela renovação da vossa mente”
Epístola aos Romanos 12:2
“O complemento da necessidade não é o acaso,
mas a escolha(...)Aja de modo a sempre
aumentar o número de escolhas possíveis.”
Heinz von Foerster

Esta escolha pela democratização dos mídia é fundamental que


se faça, como comunicador social. Não reproduzir o mesmo, ativar as
diferenças e a multiplicidade, aceitar lançar-se no devir e na
complexidade do conhecimento e da vida. (trans)Formar(-se) enquanto
informa(-se). Inventar, criar novas maneiras de ouvir, ver, falar. E
nunca conformar-se com a injusta ultraviolência.
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www.adbusters.org ONG de contra-publicidade
www.metodista.br/unesco/PCLA Revista do Pensamento Comunicacional LatinoAmericano

Notas
1
www.no.com.br/revista/noticia/58049/atual
2
BELTRÁN, Luiz Ramiro. Adeus a Aristóteles: comunicação horizontal. In: Comunicação e
Sociedade. Revista semestral de estudo de comunicação. São Paulo, n.º 6, setembro de 1981.
P. 5-35
3
É preciso esclarecer que tanto os pólos de Lévy quanto as idades de Debray não acontecem
em separado, elas se mesclam. No Brasil convivemos com todos ao mesmo tempo agora.
4
Gilles Deleuze. Sobre as Sociedade de Controle, Conversações RJ/RJ Ed 34, 1994
5
idem
6
Debord, Guy. A Sociedade do Espetáculo.
7
Dênis de Moraes. A hegemonia das corporações de mídia no capitalismo global
8
Néstor Garcia Canclini. Consumidores e Cidadãos
9
Roberto Amaral .Controle das eleições e informação - o papel dos meios de comunicação de
massa www.cebela.org.br
10
Euclides André Mance Globalização, Subjetividade e Totalitarismo- Elementos para um estudo
de caso: O Governo Fernando Henrique Cardoso
11
www.rbc.org.br
12
Michel de Certeau, A invenção do cotidiano/ 1. Artes de fazer, Petrópolis, RJ, Vozes, 1994, pp.
88-89
13
Jean Baudrillard. Entrevista em O Globo 30/09/201
14
Felix Guattari . Caosmose RJ Editora 34 1994
15
Felix Guattari. Hacia una autopoietica de la comunicacion xero
16
Michael Hardt e Toni Negri. Império pg 437