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Pensamento nacional acadêmico

Cultura de
valor nas
e m pr e sas
F
O imperativo alar de cultura empresa- no momento que nos contentamos
rial é um desafio depois de com elas.”
da cultura tudo o que foi escrito sobre Mais do que uma exposição,
esse assunto. Contudo, o esse texto será uma ruminação,
organizacional que me anima a escrever metáfora usada para o exercício
sadia é é que as empresas hoje, da meditação em muitas tradições
como todas as instituições espirituais, para que, por meio do
desenvolver uma que adquirem certa hegemonia na sabor das palavras, possamos en-
sociedade de seu tempo, correm contrar um pouco de saber e de
sensibilidade e o risco de considerar o mundo o sabedoria. Pretendo também dei-
uma consciência palco de suas realizações sem avaliar xar algumas perguntas e algumas
com suficiente sabedoria sua subor- trilhas para que cada um possa
que permitam dinação ao mundo nem as conse- continuar o exercício de reflexão e
quências sobre este das ações por transformar as próprias descobertas
enxergar as elas conduzidas. Por isso, prefiro em atitudes concretas.
consequências colocar esse tema em perspectiva:
uma reflexão sobre cultura de valor Cultura
de longo prazo nas empresas deve desenrolar-se Os substantivos originam-se,
simultaneamente em três planos: frequentemente, de um verbo de
da ação do homem o do mundo, o da empresa e o da ação. É o caso da palavra cultura,
sobre a natureza, pessoa que interage com a empresa vindo do verbo latim colere que tem
como cliente, como executivo, como vários significados articulados ao
como afirma fornecedor ou como acionista e, ao redor das palavras cuidar, habitar
mesmo tempo, como cidadão do e cultivar.
Jean Bartoli,
mundo. Gostaria também de consul- Segundo Jean François Mattei
professor da fia tar a etimologia das palavras cultura (em seu livro A Barbárie Interior), Cí-
e valor para reencontrar sua vida e cero usa a expressão: excolere animos
e da fgv-eaesp, seu vigor, lembrando a advertência doctrina (cultivar os espíritos pela
em um artigo do filósofo francês Alain: “ não de- instrução). O homem culto sabe
vemos nos contentar de idéias que, cuidar da própria alma, como o
provocador mesmo verdadeiras tornam-se falsas camponês cuida do próprio campo,

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Alex Lutkus

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para poder habitar o mundo como milde da nossa capacidade de pen-
um ser humano e não como um ani- sar ou que ela seja um instrumento
mal. A cultura está articulada com de manipulação que transforme as
a natureza, o espírito com a terra e pessoas em sujeitos abstratos, pla-
o homem com o mundo num traba- nilhados e intercambiáveis que só
lho íntimo no qual a alma abre em possam produzir discursos e com-
si mesma o próprio sulco até colher portamentos massificados?
os frutos. A partir do século 18, o
século das Luzes, a palavra “cultu- Barbárie
ra” designa também tanto o saber Quando falamos de cultura,
dominado num sistema quanto o existe um tema que não podemos
trabalho de educação do espírito deixar de mencionar porque, infe-
que elabora este sistema na emer- lizmente, ele se convida em todas as
gência da civilização. É esta cultura tentativas civilizatórias e culturais
herdada dos princípios humanistas que o humano tenta construir. Des-
da Antiguidade que a Europa tenta- de a Grécia e Roma, a humanidade
rá impor ao mundo inteiro. civilizada pensou-se como huma-
Vem depois a “cultura de massa”. nismo somente elevando o homem
Escrevia Edgar Allan Poe, em The acima da própria barbárie, pela
man in the crowd: “minhas observa- conversão da sua violência surda
ções tomaram primeiro um jeito numa obra de criação, ou, como diz
abstrato e generalizado. Olhava Goethe, numa obra de excelência.
para os transeuntes por massas, e A palavra barbarophonos aparece na
meu pensamento os considerava tão Ilíade de Homero, e designa a pes-
somente nos seus laços coletivos”. O soa que hesita, articula mal e, por-
olhar sobre o homem das multidões tanto, massacra o próprio idioma
é abstrato e genérico porque este antes de massacrar os outros idio-
homem, que vai dominar a cena mas e as outras culturas. A primeira
social, é um homem de massas que linha de fratura entre a barbárie e
só pode ser considerado nas suas a civilização passa no meio dos que
interfaces coletivas. É o olhar “pro- conseguem dominar o discurso e
cessador” que transforma as pessoas dos que não conseguem. Aquele que
reais, consideradas nas suas rela- domina a palavra e as força caóticas
ções coletivas, em sujeitos abstra- presentes na linguagem humana
tos impossíveis de ser distinguidos é civilizado na guerra ou na paz.
uns dos outros. A massificação do Aquele que fala de modo confuso
olhar produz a massificação dos e desarticulado, deixando-se envol-
comportamentos e a massificação ver pela própria violência interior, é
do pensamento. bárbaro na guerra e na paz.
Duas perguntas : Será que, nas Na filosofia grega, Heráclito já
empresas, não vivemos um processo dizia que quem confiava nos senti-
de massificação semelhante quando dos em vez de confiar na própria
transformamos as pessoas em perfis razão devia ser considerado como
disso ou daquilo? Queremos que a “alma bárbara”. Ele chama de escra-
cultura das nossas empresas privi- vos os que estão fechados na idiotia
legie a busca de um conhecimento (seu mundo particular), permane-
real, de um exercício honesto e hu- cendo cegos e surdos para a razão

a linguagem aparentemente alinhada não


esconde uma confusão mental? há consciÊncia
da barbárie presente nas empresas?
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sentido. No português, o verbo valer
Saiba mais sobre Jean Bartoli encontra significados parecidos e
é usado em expressões presentes
F rancês que adotou o Brasil como pátria
desde 1975, Jean Bartoli é professor
da Escola de Administração de Empresas
em nosso dia-a-dia. Resgatar essas
expressões pode dar nova vida a um
da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) substantivo muito desgastado.
e da Fundação Instituto de Administração
da Universidade de São Paulo (FIA-USP), Valeu
alem de professor convidado da Fundação Quando usamos a expressão
Dom Cabral. Tem em seu currículo a ex- “valeu”, aludimos a uma experiên-
periência de palestrante ou consultor de cia forte, vigorosa e boa. Escrever
várias empresas de primeira linha do Brasil,
“valores” na parede significa algo
com ABN-AMRO Bank, Accor, Aracruz,
para uma comunidade empresarial,
Aventis, Banco do Brasil, HSBC, Itaú, Bic,
Blindex, Bradesco, Braskem, Camargo
religiosa ou política somente se seus
Corrêa, Carrefour, Cargill, Dow Química, membros conseguirem identificar
Ford, Grupo Bertin, Lojas Renner, Marco- uma experiência forte e... valiosa
polo, McDonald’s, Mercedes, Multibrás, e sofrimento no trabalho, Bartoli tem uma que encarne esse texto.
Rhodia, Santander, Siemens, Telefónica, experiência pessoal fora da curva: foi No caso da comunidade empre-
Unibanco, Ultragaz, Vivo, Volkswagen, religioso dominicano até 1981 Também sarial, empenhada, por causa de sua
Votorantim Celulose e Papel, Wal-Mart e foi gerente nacional de recursos humanos própria natureza e finalidade, em
White Martins, entre outras. Especialista do Makro Atacadista e responsável pela alcançar resultados econômicos e
em temas como ética, liderança e com- área de recrutamento e seleção de exe- financeiros a questão fundamental
portamento organizacional; autonomia e cutivos da firma de consultoria Coopers
é também qualitativa: para quem
tomada de decisão; aspectos relacionais & Lybrand, entre outros cargos. Em 2005,
da gestão de pessoas; espiritualidade e lançou Ser Executivo, um Ideal? Uma
valeu esse resultado? Essa pergunta
vida empresarial; aprendizado; e sacrifício religião? (ed. Ideias & Letras). leva exatamente a refletir se o resul-
tado alcançado valeu para um dos
protagonistas da ação empresarial
(por exemplo o investidor) ou para
comum. A barbárie sempre latente obra de civilização. Senão, ele não todos eles (investidores, clientes,
no homem afastado do logos, este merece mais o qualificativo de hu- colaboradores, fornecedores e a co-
senso comum que pertence a todos mano e torna-se desumano! munidade política onde a empresa
não sendo propriedade de ninguém, Então, há duas perguntas: está inserida).
é nomeada por Heráclito de hubris, Debaixo de uma linguagem apa-
que significa excesso desmedido. rentemente “alinhada”, não há hoje Valeu a pena?
A barbárie deve ser combatida uma grande confusão mental, pen- Dependendo da resposta dada
pelo pensar que significa descobrir samentos desarticulados e uma falta à pergunta acima, vem outra inda-
a verdadeira medida e os limites de bom senso que impedem várias gação: qual é o preço que estamos
que permitam sair da própria idiotia organizações de expressar clara- dispostos a pagar para fazer nossas
(podem traduzir por idiotice...) e mente o projeto que elas dizem escolhas valerem e se transformar
inscrever-se no mundo comum dos compartilhar com seus clientes, em experiências positivas? Uma
que têm a humildade de pensar, de seus executivos e a sociedade? das experiências humanas mais
discernir para poder agir. Estamos conscientes da barbárie dolorosas é a escolha, principal-
Os “idiotas” contemporâneos presente nas empresas, manifestada mente entre dois bens que não são
não são muito diferentes! O bár- em barbáries cotidianas que ofen- compatíveis, por exemplo entre
baro não é mais estrangeiro para o dem a inteligência e, portanto, a dinheiro e integridade numa situ-
humano do que a barbárie o é para dignidade dos seus colaboradores, ação de corrupção. A aceitação da
a civilização ou a morte para a vida. seus clientes, seus fornecedores e pena ou da perda aceitas será refe-
A barbárie é constitutiva da humani- seus acionistas? renciada ao escopo perseguido e à
dade: é interior a ela. Só o homem capacidade de enxergar mais longe
enquanto humano, misto de razão Valor do que os resultados ou o bem-
e instinto, de paixão e de entendi- Essa palavra vem do verbo latim estar imediatos. Consideremos a
mento, pode e deve escolher entre valere e significa ser forte, vigoroso crise atual. Segundo Jacques Attali
deixar soltas as pulsões destruidoras e poderoso, ter uma superioridade, (“La crise, et après?”), ela fornece
do próprio ser ou dominá-las numa uma influência, um significado e um a oportunidade de entender como

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um pequeno grupo de pessoas, felicidade. Essa apologia da liber- que tem de liberal no fato de que
sem produzir riquezas, confiscou dade individual acabou transfor- o capitalismo atual só serve uma
legalmente, sem controle de nin- mando a deslealdade e a cobiça em pequena minoria: portanto a de-
guém, uma parte essencial do valor valores aceitáveis, assim destruindo mocracia, que deveria equilibrá-lo,
produzido por todos e como esse os empregos, o direito e, por fim, leva cada vez menos em conta os
grupo, tendo conseguido arrancar o altruísmo considerado coisa de interesses dos mais necessitados e
tudo o que podia, mandou a conta ingênuos e de perdedores. das próximas gerações. Democracia
para os contribuintes, forçando e mercado tornam-se valores cada
os governos a achar em poucos é para valer? vez mais ameaçados e isto pode
dias o dinheiro sempre negado É para valer que podemos con- desencadear um movimento de re-
para os mais desfavorecidos e os fiar num sistema que faz a apologia volta e de violências políticas sem
esfomeados do mundo inteiro. A de sua própria precariedade? Se- precedente, junto com a volta ao
sociedade então pergunta com gundo Jacques Attali, a ideologia ódio de classes.
uma insistência cada vez mais en- que serve de base para o poder
surdecedora: para quem valeu a de um grupo, deve também ter a Trilhas
pena tudo isso? capacidade de dar para as pesso- No momento em que falamos de
Acrescentaria duas expressões as uma razão e um horizonte para cultura e de valores, é difícil igno-
que ajudam na procura de um dis- trabalhar e para viver. A ideologia rar que estamos falando de ética.
cernimento de valores para nossa atual é chamada abusivamente de Segundo pensadores contemporâ-
sociedade e para nossas empresas. “neo-liberal”, porque muito sele- neos como Hans Jonas e Emmanuel
tiva em relação aos princípios da Lévinas, uma reflexão ética só faz
Não vale grande tradição liberal advinda de sentido quando se busca uma pers-
Quais são os limites em que Adam Smith, por exemplo no que pectiva de futuro:
uma experiência pessoal se torna tange à relação capital-trabalho. A ética do futuro e o “princípio
possível em harmonia com uma Daí sua dificuldade em explicar o responsabilidade” (a expressão é de
experiência coletiva advinda das Hans Jonas) implicam maximizar
relações de interdependência que o conhecimento do nosso agir na
encontramos ou escolhemos como o fato é que a medida em que suas conseqüên-
seres humanos, em nossos vários cias podem determinar e pôr em
papéis de parentes, de amigos, de apologia da liberdade perigo o destino do homem e da
executivos e de cidadãos? Pode pa- natureza.
recer até difícil identificar esse con- individual tornou A necessidade de um conhe-
flito numa sociedade que preferiu cimento maior sobre as eventuais
a liberdade individual a qualquer a deslealdade e a consequências ulteriores do nos-
outro valor (justiça, solidariedade, so agir coletivo deve conjugar o
imortalidade...) e proclamou que cobiça valores rigor científico e a vivacidade de
esta era a única escolha possível, nossa imaginação; só assim o que
preferindo o bem estar inclusive à aceitáveis discernimos do futuro exercitará
sua força de influência sobre nos-
sas atitudes de hoje, forçando nos
Referências bibliográficas
a “pro – agir”.
Isso gera um imperativo de
Attali, Jacques. Uma breve história do futuro, São Paulo, Novo Século, 2008
educação: trata-se de desenvolver
Bartoli, Jean. Ser executivo, um ideal? Uma religião? São Paulo, Ideias & Letras, 2005 uma sensibilidade e uma cons­
Boff, Leonardo. Ética e Moral, a busca dos fundamentos, Petrópolis, Editora Vozes, 2003 ciência que permitam enxergar as
De Gaulejac, Vincent. Gestão como doença social, ideologia, poder gerencialista e consequências de longo prazo da
fragmentação social, São Paulo, Idéias e Letras, 2007 ação do homem sobre o equilíbrio
Jonas, Hans. O princípio responsabilidade, Rio de Janeiro, Contraponto Editora, 2006 delicado entre as pretensões huma-
Mattéi, Jean-François. A barbárie interior, ensaio sobre o i–mundo moderno, São Paulo,
nas e a capacidade de produção da
Editora Unesp, 2001 natureza.
Reich, Robert B. Supercapitalismo, como o capitalismo tem transformado os negócios,
Esses são os desafios de qualquer
a democracia e o cotidiano, Rio de Janeiro, Elsevier/Campus, 2008 pessoa responsável que procure res-
Soros, George. O novo paradigma para os mercados financeiros, Rio de Janeiro, Agir, 2008 gatar uma cultura organizacional
sadia!

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