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Sábado 14 .1 .2017

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Segundo Caderno

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O GLOBO l

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Sábado 14 .1 .2017 l Segundo Caderno l O GLOBO l 9 Sebo O cotidiano precário
Sábado 14 .1 .2017 l Segundo Caderno l O GLOBO l 9 Sebo O cotidiano precário

Sebo

O cotidiano precário de uma criança que acaba de perder seu pai “O menino e o mundo” / Paulo Rodrigues

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Paulo, o mais novo dos irmãos Rodrigues, também

é um dos menos conhecidos membros da família

de escritores e jornalistas. Seu romance “O menino

e o mundo”, porém, teve boa recepção da crítica

quando foi lançado, em 1958. O autor, que escreve- ria ainda cinco livros até sua morte, em 1967, quase sempre foi marcado por seu tema predileto: a relação dos homens com a cidade.

Semiautobiográfico, “O menino e o mundo” traz o cotidiano precário de uma criança que acaba de perder o seu pai. Assim como aconteceu com os Rodrigues após a morte do patriarca, a família sofre com a falta de dinheiro, e os filhos se viram em busca de emprego. A criança que protagoniza o livro, porém, não pode trabalhar e passa os seus dias errante pelas ruas da cidade.

Crítica

A verdade é que não senti falta da verdade em “Sul”, de Veronica Stigger. Explico. O livro traz três

textos e uma espécie de surpresa: um conto (“2035”), uma peça teatral (“Mancha”), um poema narrativo (“O coração dos homens”) e, por fim, o texto batizado “A verdade sobre ‘O co- ração dos homens’’’, que se propõe a revelar o que seria biográfico ou não em “O coração dos homens’’. Porém este último texto exige um gesto e uma decisão do leitor. As páginas do cader- no final do livro que contêm “a verda- de” vêm lacradas. Não foram cortadas mecanicamente e, para ler seu conteú- do, é preciso decidir rasgar, romper as folhas. E aí volto: não senti falta da ver- dade ou curiosidade de abrir as pági- nas secretas. E isso é um elogio a “Sul”, livro que diz muito, independe de re- velações (biográficas ou não) a seu respeito. Embora muito distintos em conteúdo e linguagem, seus três textos criam forte ligação entre si pelo poder de estranhamento, por temas e ideias que suscitam e vão sublinhando à me- dida que se acumulam. O Sul de Veronica não é direção a se- guir. Pode ser um lugar, mas parece mais um imaginário violento e rituali- zado — no que todo ritual tem de não- dito e segredos. É sobretudo sangue. Is- so vem com força no conto de abertura, minidistopia na qual uma menina, ao fazer 10 anos, é buscada em casa por “oficiais” e um “civil” para ser o centro das “comemorações”. Do início ao vio- lento desfecho, passando pelo “civil” que carrega a garota nas costas, tudo é ritual e normalização do absurdo, tudo é aquele estranho que, se pensarmos bem, não é tão estranho assim. E ao fi- nal, o rastro de sangue, sinônimo de vi- olência, mas também de rito ou de sa-

RELAÇÃO DE SANGUE ENTRE MULHERES

R EGINALDO PUJOL F ILHO

DE SANGUE ENTRE MULHERES R EGINALDO P UJOL F ILHO “SUL” AUTOR: Veronica Stigger EDITORA: Editora

“SUL” AUTOR: Veronica Stigger EDITORA: Editora 34 PÁGINAS 96 PREÇO: R$ 35 COTAÇÃO: Ótimo

crifício convertido em espetáculo. Sangue e estranhamento também mar- cam a peça “Mancha’.’ Com tons de teatro do absurdo, as personagens Carol 1 e Ca- rol 2 estão cercadas de mistérios incômo- dos: as manchas de sangue no tapete, o intermitente som do chuveiro. Mas sem- pre que se aproximam desses assuntos (por insistência de Carol 2), problemas na maquiagem, fofocas ou tergiversações, mudam o rumo do diálogo, num clima de “elefante na sala” ou “rei nu”, que podem ser metáfora de quase tudo no Brasil. E há “O coração dos homens’,’ texto em versos com as memórias da narradora a partir da primeira (e outras) menstruação. Mas está longe de um clichê sobre fim da infância, descobrir-se mulher. São episó- dios sarcásticos, de revelação de absurdos e até da violência da infância, da escola e de certos ritos escolares ou domésticos que aprendemos a ter como normais. Cada um dos textos pede reflexão mais demorada pelo que permitem de signifi- cação e leituras. Por exemplo, chama a atenção em todos (pode ser um vetor pa- ra pensar “Sul”) a relação entre sangue e mulheres, seja pela violência, pelo misté- rio ou pela menstruação. Mas a verdade é que, por dever de rese- nhista, pratiquei o ritual e rasguei as pági- nas que traziam a revelação. E, na posição de leitor de ficção, quero crer que Veroni- ca oferece um efeito contrário ao de escla- recer. Admito: nada impede que você saia

por aí afirmando que “na verdade isso não aconteceu, a escritora explica no final do livro”. Contudo, lembro que não há pacto biográfico em “Sul”. Em momento algum ele se oferece como biografia. “A verdade sobre ‘O coração dos homens’’’ pode ser li- do também como ficção. Nova camada de ficção. Como numa sala de espelhos, per- der-se sem referência estável. Claro, dá para ir ao Google ou contratar um detetive para saber se A verdade é verdade. Mas parece que este recurso de Verônica está

aí para discutir sobre a busca do real na ficção, do “baseado em fatos reais”, do rea- lity show, da legitimação da ficção pelo re-

al e, por que não, do terror de spoilers: não

conta o segredo antes da hora.

RASGAR OU NÃO RASGAR, EIS A QUESTÃO Contudo, arrisco que o mais importante das páginas lacradas não esteja no que há de metáfora, ensaio e até expansão da literatura em direção às artes conceitu- ais. Ao criar um objeto que propõe ao

público um gesto individual, irrepetível (rasgar as páginas), Veronica aproxima- se da performance, do efêmero tão caro

à produção artística atual. Sim, o livro

pode ser lido e relido por mais pessoas, e

a leitura será sempre individual e in-

transferível, mas o rasgar das páginas e o decidir fazê-lo é ainda mais único. O ob- jeto é um antes de mim e será outro de- pois (sem chance de retorno à condição inicial). Nesse sentido, cria-se uma nova camada ritualística em “Sul”, para além das tantas percebidas nas tramas ficcio- nais. E pode-se pensar que mais do que revelar segredos da autora, este livro está revelando discussões importantes e po- tencialidades para o literário. l

Reginaldo Pujol Filho é autor de “Só faltou o título” (Record, 2015) e douto- rando em Escrita Criativa na PUC-RS.

Lançamentos

e douto- rando em Escrita Criativa na PUC-RS. Lançamentos “Lembrança gravada: atores e atrizes nos logradouros

“Lembrança gravada: atores e atrizes nos logradouros do Rio”

Angela de Castro Reis

HISTÓRIA

Folha Seca Edições, 210 páginas R$ 48

Lançamento sexta, às 17h, na Livraria Folha Seca — Rua do Ouvidor, 37, Centro (2224-4159).

Folha Seca — Rua do Ouvidor, 37, Centro (2224-4159). “Dupla exposição” Paloma Vidal e Elisa Pessoa

“Dupla exposição”

Paloma Vidal e Elisa Pessoa

CONTOS

Editora Rocco, 104 páginas R$ 49,50

Combinando textos e imagens, livro que investiga limites e interações entre linguagens e gêneros.

limites e interações entre linguagens e gêneros. “Consertos de oficina” Contos CLAUDIA GELB Editora

“Consertos de oficina”

Contos

CLAUDIA GELB

Editora Moinhos, 102 páginas R$ 32

As histórias de amor do livro expõem as mazelas e as alegrias do mais universal dos sentimentos.

as mazelas e as alegrias do mais universal dos sentimentos. “O trenzinho do Dioniso" Luis Maffei

“O trenzinho do Dioniso"

Luis Maffei e Sara Paz (ilustrações)

INFANTIL

Oficina Raquel, 40 páginas R$ 35

Ao longo de versos e vagões, a aventura vai do mar ao céu, criando personagens.

Loredano

Veronica Stigger
Veronica
Stigger

Escritora.

criando personagens. Loredano Veronica Stigger Escritora. UM OUTRO LADO DA HISTÓRIA O QUE UM ANTIGO JORNAL

UM OUTRO LADO DA HISTÓRIA

O QUE UM ANTIGO JORNAL LUSO FALAVA DO RIO

B OLÍVAR T ORRES

bolivar.correa@oglobo.com.br

P rincipal periódico de informação por-

tuguês entre os inícios do século XVIII

e XIX, o “Gazeta de Lisboa” trazia prin-

cipalmente notícias da Europa e de países orientais. Apenas na última página — e às ve- zes nem sempre completa — vinham as no- tas sobre Portugal, incluindo o Ultramar. Nes- se pequeno espaço, o Brasil tinha presença constante, assim como o Rio de Janeiro. Habituado a pesquisas de peso, como “Te- atro a bordo de naus portuguesas nos sécu-

los XV, XVI, XVII e XVII”, que investiga as re- presentações teatrais feitas nas embarcações lusas; ou ainda “Astronomia na Amazônia no século XVIII”, sobre a saga dos astrôno- mos Ignácio Szentmártonyi e Giovanni Bru- nelli para demarcar os limites estabelecidos pelo Tratado de Madri, o historiador Carlos Francisco Moura rastreou, nas edições do antigo periódico de Portugal, toda e qual- quer referência sobre o Rio. O resultado da coleta está no recém-lançado primeiro volu- me de “O Rio de Janeiro nas notícias da ‘Ga- zeta de Lisboa’” (Editora Real Gabinete Por- tuguês de Leitura), que abrange o período de 1715-1750. Um futuro segundo volume será dedicado aos anos de 1751 a 1800.

A iniciativa levou três anos para ser com-

pletada. Mas houve um facilitador: como pesquisar nos originais da “Gazeta” necessi- taria um exército de historiadores, ele recor- reu ao livro “Notícias históricas de Portugal e Brasil”, publicado pela Universidade de Co- imbra em 1961, que já havia compilado tudo que o jornal publicou sobre os dois países ao longo do século XVIII. Moura consultou o li- vro e filtrou o conteúdo, focando apenas nas referências à Cidade Maravilhosa.

Referências em periódico português mostram evolução da cidade colonial no século XVIII

O conjunto dessas notas desenha a evo-

lução comercial, política e cultural do Rio.

São informações sobre troca de governa- dores e bispos, atividades marinhas, pro- dutos exportados, ou festejos públicos e

comemorações reais. Há também curiosi- dades sobre legislação, como a referência

a uma regra que impedia as mulheres do

Brasil de irem ao Reino. Aliás, outro fato

digno de nota: nas páginas do jornal, o pa- ís não é citado como colônia, mas como Estado do Brasil. Ao fim do volume, fica clara a nova importância que o Rio havia adquirido na metade do século XVIII.

— Uma das últimas notícias de 1750 des-

creve sucintamente o desenvolvimento que

a cidade tinha alcançado até então, e que pode ser cotejado, por exemplo, com a planta da cidade atribuída a João Massé

(militar francês) e a “Carta Topográfica” de André Vaz Figueira (cartógrafo) — diz Mou- ra. — Mudanças culturais aparecem nas notícias de festas públicas, inclusive nas inesperadas promovidas pelo governador Vahia Monteiro, “o Onça”. Entre as muitas curiosidades do livro, Moura destaca a nota sobre a bravura de Maria Úrsula, uma das poucas portuguesas

a ter servido nas Forças Armadas no perío-

do colonial; e os registros dos festejos da

inauguração do Convento de Santa Teresa:

— Outro elemento interessante são as

notícias sobre a quantidade de ouro ex- portada para Portugal, que falta na docu- mentação de arquivos portugueses da pri- meira metade do século XVIII. l

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