A Literatura em Tempos de Isolamento
A Literatura em Tempos de Isolamento
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HANA LUZIA
O LEITOR.
POEMAS DE EWA LIPSKA | ELIS REGINA, SAUDADE DO BRASIL | CONTRA AMAZON | PAULO NAZARETH
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PERNAMBUCO, JUNHO 2020
CRÔNICA
EDUARDO AZÊREDO
“Saudade de
que a gente viveu, o gosto da cozinha da mãe, o
cheiro de mato, o gosto de bala”.
Renato Contente Quando descreve essa saudade enquanto “coisa
que tá viva”, “solta na rua”, Elis identifica com
Sombrios são os tempos em que símbolos-chave de perspicácia a ebulição de desejos que compunham
uma coisa
um país são raptados pela gramática do autoritaris- o tecido social do Brasil de então. Desejos cheios
mo. Uma gramática pestilenta, a serviço de um pro- de potência, mas bastante difusos, em desalinho
jeto de poder genocida e obscurantista, que distorce pelo ar, como diagnosticara o filósofo francês Félix
sentidos e deteriora sensibilidades — como as que Guattari em sua visita ao país, em 1982, ano em que
que tá viva”
muitos de nós, não há tanto tempo, partilhávamos Elis morreu. Uma pena não terem se conhecido,
em relação a camisetas, bandeiras e outros artigos como ambos conheceram a Lula, por exemplo,
sob a coloração verde-amarelo-branco-e-azul. porque Elis era o que Guattari e seu parceiro Gilles
Os dias eram assim em 1980, quando a ditadura Deleuze diziam estar à procura: uma aliada dos
militar, já mal das pernas, caminhava para um fim inconscientes que protestam. Em outra entre-
Há 40 anos, Elis Regina formalizado, que ocorreria cinco anos depois. Após
anos de violenta mutação semiótica, não apenas a
vista sobre o show, Elis deixa essa identificação
mais clara: “Existe uma coisa na cabeça da gente
a delirante fantasia de
mas a própria ideia de nação/país tal qual havíamos não pode violentar muito isso, porque a gente
sido obrigados a naturalizar. perde a identidade, a gente se perde”.
Elis Regina estava a par dessa saturação. Ela via Ela estava ciente de que a maneira mais potente
se viver uma democracia vir vindo no vento o cheiro de uma estação cha-
mada democracia, mas sabia que esta só chegaria
de comunicar isso seria produzindo fricções so-
bre esse inconsciente lesionado. Saudade do Brasil
TRADUÇÃO
uma prova de
Inscreveu-se um certo número de reis
e um candidato a rei.
história assim”
que era para ser o rei.
Sim
com certeza ele era o rei.
O presidente da comissão
foi correndo buscar a nação
para poder solenemente A AVARIA DO MUNDO
outorgá-la ao rei. Está chegando a avaria do mundo. Mas por ora ainda dormita
preguiçosa entre os arbustos.
A nação Ronronam os violoncelos de capins desafinados.
era encapada O céu já desarmado. O relâmpago
com finge ser luminária na noite. Ainda o trovão ao longe.
pele.
Esperamos que passe longe da nossa aldeia.
(1978) Vamos tomar cerveja no boteco vizinho.
Ainda a lua jogada no rio.
Ainda nada acontece.
RAZÃO (2017)
Infalível
em confundir opiniões
em provas irrefutáveis
que contradizem umas às outras.
Em compassos
tirados do prumo
(1978) DÚVIDA
Creio na dúvida,
livre do vício da fé.
Na ausência da vida
mortalmente hesito.
(2002)
Permita-se por fim uma ação humana.
Não seja póstumo.
(1978)
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PERNAMBUCO, JUNHO 2020
FILIPE ACA
VÍRUS
Cara senhora Schubert, meu vizinho microbiólogo conduz expe- SOBRE A AUTORA
rimentos sobre os vírus mortíferos que ele cria nos marcadores de
livros. Ele sonha com uma pandemia literária, que poderia tragar Ewa Lipska (1945) é uma das mais importantes
milhões de vítimas. Ultimamente é raro que eu o veja. Parece que poetas polonesas da atualidade. É autora
viajou para a cidade Quarentena, onde, longe dos cenários nefastos, de mais de trinta livros de poesia, recebeu
suspeita de si mesmo pela infectada mutabilidade do destino. vários prêmios poloneses e internacionais e
foi traduzida para numerosos idiomas. Lipska
(2013) foi amiga pessoal de Wisława Szymborska e
é perceptível na sua poesia o diálogo com a
CERTEZA Nobel polonesa e sua influência. As duas poetas
Já houve uma prova de história assim primam pelo humanismo expresso de maneira
quando todos os alunos de uma vez foram reprovados. concisa, precisa e lapidar. Os poemas de Lipska
E restou deles um solene cemitério. testam limites da linguagem sem abrir mão da
clareza da mensagem. Sua linguagem abunda
Não há certeza de que tenha sido uma prova. em paradoxos e metáforas, mas sua imaginação
Não há certeza de que todos tenham sido reprovados. não foge dos elementos oníricos e surrealistas.
Há certeza de que restou deles um solene cemitério. A temática principal da sua poesia gira em
torno da observação pessimista e irônica do ser
Já houve um amor assim. humano, da sua condição existencial, da sua
Mas não há certeza de que tenha sido nosso. dificuldade em aprender as lições da História,
Já houve pessoas assim. da sua liberdade cerceada pela política e pelo
Mas não há certeza de que tenham sido nós. mercado e do seu funcionamento em estruturas
Já houve pteranodontes voadores assim. sociais. Por mais que sua poesia mais recente
Mas não há certeza de que tenha sido nos nossos tempos. observe atentamente as transformações do
Já houve um idioma assim. mundo globalizado, da cultura, a relativização
Mas não há certeza de que o tenhamos falado. de valores e a solidão inerente ao mundo pós-
Já houve um silêncio assim. moderno, Lipska pertence à geração da “Nova
Mas não há certeza de que tenha sido entre nós. Onda”, que nasceu nos fins da Segunda Guerra
Já houve o fim do mundo. e viveu na Polônia totalitária, estreando no final
Mas não há certeza de que tenha sido o nosso mundo. dos anos 1960 e rebelando-se contra a política e
falta de liberdade. É de surpreendente atualidade
E restou dele um solene cemitério. sua poesia escrita naqueles tempos, assim
Há certeza de que restou dele um solene cemitério. como espanta a aguda capacidade de previsão
encontrada em seus poemas mais recentes.
(1972)
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PERNAMBUCO, JUNHO 2020
ENSAIO
e dança em
zação corporal em relação à gravidade. Os pés de-
sempenham um papel fundamental nesse trabalho,
já que são os únicos pontos de contato com o solo
durante o deslocamento. Uma maneira de pensar
a transformação das funções sociais dos pés na
Paulo Nazareth
cultura ocidental é considerar o uso dos calçados.
A partir de alguns dados históricos acerca do uso
dos sapatos na cultura ocidental, procuro apontar
neste ensaio como o trabalho Notícias de América
(2011-2012), do artista mineiro Paulo Nazareth,
A escuta dos pés em se relaciona com essas transformações das fun-
ções sociais dos pés ao eleger a caminhada como
do performer mineiro
damentais ao modo humano de vida — modo
intimamente relacionado à nossa capacidade de
permanecer na posição ereta —, a história que se
popularizou acerca do crescimento da cultura e
Beatriz Galhardo da civilização privilegia o papel preênsil das mãos
e consequentemente suas habilidades criativas
e técnicas graças à transferência das funções de
suporte e locomoção para os pés. Nessa narrativa,
a aquisição da postura ereta, fundamental para a
hegemonia humana no reino animal e seus des-
dobramentos para a vida cultural humana, pouco
tem a ver com os pés, estando relacionada prio-
ritariamente às capacidades técnicas das mãos.
[…]
A maneira como essa separação entre mãos e pés
se desenvolve na cotidianidade confere um poder
criativo de intervenção sobre o ambiente por parte
das mãos, enquanto reduz os pés a uma atividade
locomotora, ou seja, uma atividade meramente
mecânica. Nesse sentido, vemos que existe um
esforço para que o pé seja progressivamente re-
tirado da esfera de atuação criativa e intelectual
na vida humana. Curiosamente, esse esforço se
configura também como uma maneira de me-
lhorar o desempenho mecânico dos pés a partir
do desenvolvimento de técnicas projetadas “pela
cabeça”, realizadas e apreendidas pelas mãos. O
avanço técnico em calçados não só colabora para
essa ideia de potencialização da função mecânica
e locomotora do pé como reafirma a divisão dos
trabalhos existentes entre pés e mãos.
Aprisionar os pés em calçados, desse modo, não
seria apenas uma resposta às preocupações com a
saúde destes membros, eventual proteção em terre- Os viajantes “caminhavam tão pouco quanto
nos cortantes, frios ou muito quentes, mas também possível, preferindo o cavalo ou a carruagem” 1. Para
um modo de se afastar um pouco mais do chão, de dispor desses modos de locomoção os viajantes só
reafirmar a vida cultural humana como aquela que poderiam ser pessoas abastadas, e se eventual-
interfere com as mãos no espaço; de se diferenciar mente “tivessem que andar, eles fariam o que lhes
dos demais primatas e de se diferenciar de um modo fosse possível para apagar a experiência pedestre
de vida considerado “selvagem” ou “animal”. de suas memórias e removê-la de seus registros”,
[…] conferindo à caminhada um caráter pejorativo,
A invenção da sola flexível responde a uma de- ou melhor, marginal. Assim, essa atividade era
manda de produção de conforto para a mecanização destinada às pessoas marginalizadas da sociedade:
do pé, que, quanto mais agilmente realiza seu tra- pobres, criminosos e ignorantes.
balho, melhor pode servir às mãos. […] Mais tarde O andar como fim em si mesmo é adotado ape-
os pés dariam lugar aos pneus de automóveis, e, nas no século XIX, um modo de intensificação do
posteriormente, estes conviveriam com os pneus passeio nos jardins, possível apenas pelo desenvol-
das grandes rodas das aeronaves. Transformações vimento dos meios de transporte que, oferecendo
dos pés em máquinas de andar, mas que eventu- maior conforto, aumentaram consideravelmente
almente, quando descalços, ainda soam como o o fluxo de pessoas e o número de viagens. Surge,
homem e o animal confundidos. então, um modo de viajar no qual se escolhe o
destino, quase como uma paisagem, e uma vez que
NÃO VAI DE AVIÃO, VAI A PÉ se chega ao destino, por meio de algum transporte,
Paulo Nazareth, em Notícias de América, realiza um pode-se caminhar por ele.
gesto que penso ser, ao mesmo tempo, o ponto de […]
partida e o modo pelo qual o trabalho se desen- A viagem, como a entendemos hoje, é um fe-
volve: em vez de ir de avião, ele vai a pé. Não se nômeno que resulta de um conjunto de mudanças
trata apenas de uma alteração dos modos atuais de ocorridas ao longo da modernidade. É possível que
locomoção para chegar a um destino (Nova York, a separação entre o caminhar e o viajar também
Estados Unidos). Ao fazê-lo o artista está aproxi- seja, de algum modo, algo particular à história das
mando o gesto da caminhada ao gesto da viagem. transformações técnicas no Ocidente. […]
[…] O que quero dizer com isso é que, historicamente,
SOBRE O TEXTO
A caminhada passou a se diferenciar da viagem a atividade da caminhada está relacionada à rapidez
Este é um trecho do ensaio por volta do século XVIII, na Inglaterra anterior às com que as descobertas e inovações nos meios de
À escuta dos pés: Caminhada e grandes transformações industriais e urbanas. Para transporte se tornavam acessíveis a uma parte da
dança em Notícias de América, a maioria das pessoas, a caminhada era o único população. Sabemos que na Europa, em especial na
da dançarina, pesquisadora e modo de locomoção; por meio dela as pessoas Inglaterra, onde os estudos de [do antropólogo Tim]
artista visual Beatriz Galhardo, podiam realizar seus afazeres mais cotidianos. No Ingold se concentram, essas inovações interferiram
que a Zazie Edições publicará entanto, raramente essa atividade fazia com que muito rapidamente na vida das pessoas. O trabalho
em seu site (zazie.com.br) para as pessoas percorressem longas distâncias. Nesse artístico analisado aqui parte de uma percepção
leitura gratuita neste mês. contexto europeu, a viagem era realizada por outras sobre as diferenças dessas interferências a partir
pessoas que não as caminhantes. do acesso aos meios de locomoção.
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PERNAMBUCO, JUNHO 2020
EDUARDO AZERÊDO
ENTREVISTA
Jorge Carrión
Em favor da
humanidade nas
relações com livros
Livrarias e bibliotecas pensadas por um escritor catalão
que acaba de lançar, no Brasil, obra na qual investe contra
a lógica de mercado representada pela Amazon
BETO GUTIÉRREZ / DIVULGAÇÃO
Everardo
NORÕES
esnoroes@uol.com.br
Um cantar precioso se escuta durante dois minutos poderosos de então. Ombra ma fui. Sombra nunca
do filme Ligações perigosas. foi, é o que diz a letra. O artista “anônimo” parece
É um pequeno trecho da ópera Xerxes, de Haendel. traduzir o que um futuro bem próximo lhe reserva.
A voz nos provoca estranhamento. Não é de Ou a sugerir que não o tornem a sombra do que é.
Cantiga
homem, nem de mulher. Está em Paris, vindo de muito longe, do interior
Como se tivesse sido feita para louvar o mistério do Ceará.
que se entranha no coração das coisas. Percorreu um trajeto penoso até seu canto findar
O filme é inspirado no livro homônimo de Cho- reconhecido pelo mundo da música erudita. Num
derlos de Laclos, general de Napoleão, autor da dos centros culturais mais exigentes, ele acaba es-
(e voo)
obra-prima da literatura erótica. Trama amorosa, colhido, entre 73 candidatos, para cantar na película
o romance é escrito sob a forma de troca de cartas, que ganhará três prêmios no Oscar de 1989, entre
recurso literário que permite a multiplicação das eles o de direção de arte.
opiniões e ideias dos personagens através do fio de A amiga Violeta Arraes é um de seus contatos
do Azulão
suas narrativas. na capital francesa. Depois nomeada secretária de
Numa das cenas, nem mesmo a peruca branca e cultura do Ceará, no governo Tasso Jereissati, ela o
a indumentária de época escondem a origem nor- convidará para a reinauguração do Theatro José de
destina do intérprete, mistura de raças em que a Alencar. Um edifício art nouveau do início do século
componente indígena predomina. No filme, o cantor XX, cujo jardim antes das reformas foi ocupado pelo
se apresenta a um pequeno grupo de nobres franceses Quartel da Cavalaria. Fato significativo e curioso de
no salão de um palacete iluminado por candelabros. uma mudança de política cultural: o lugar que antes
Sobre uma voz preciosa A personagem encarnada por Glenn Close sugere
estar apreciando o desempenho do cantor. Ao mes-
abrigava cavalos, de repente oferece espaço a artistas
de todo o mundo, entre eles a conhecida dançarina
que ecoa na rua vazia mo tempo, ela troca olhares equívocos com John
Malkovich e Michelle Pfeiffer. Traduzem traições e
e coreógrafa Pina Bausch.
O dono da estranha voz do Ligações perigosas também
e no deserto
ambiguidades, motores do enredo. se apresenta na estreia.
A música permeia a intricada novela do escri- É sua consagração na terra natal. E, ao mesmo
tor francês, na qual encontros eróticos e perfídias tempo, seu canto do cisne. Pouco tempo depois de
amorosas desvelam o lado perverso da esfera dos voltar à Europa, ele se esvai, consumido pela Aids,
HANA LUZIA / ACERVO PERNAMBUCO
SILÊNCIO OFICIAL
Diogo Guedes As perdas simbólicas e materiais
Os elementos de uma tragédia não termos sequer uma nota
se tornam mais ultrajantes oficial sobre a morte de Rubem
quando deixam de ser apenas Fonseca (ilustração), Garcia-
uma imposição do destino. -Roza, Sérgio Sant'Anna, entre
Diante da dureza da morte, tantos outros artistas, é sinal de
Antígona não podia cumprir que mais uma pequena parte
o ritual mínimo de enterrar o da liturgia do luto público vai
seu irmão — e um ritual, na se esvaindo. Não é quase nada
verdade, pode ser tudo o que diante de tantas perdas, mas
MERCADO sustenta alguma ilusão de
normalidade ante o abismo.
é bom que se saiba o que foi
ficando para trás — a civilidade,
CRITÉRIOS PARA
RECEBIMENTO E APRECIAÇÃO
DE ORIGINAIS PELO
FILIPE ACA
CONSELHO EDITORIAL
seu futuro. Sem a mudança vocal, característica da
adolescência masculina, guardará uma fala infantil. I Os originais de livros submetidos à Companhia
Sua inteligência arguta e o gosto pela música o levam Editora de Pernambuco -Cepe, exceto aqueles que a
a trabalhar aquela estranheza. E o que poderia ser Diretoria considera projetos da própria Editora, são
um estigma a mais, torna-se seu principal trunfo. analisados pelo Conselho Editorial, que delibera a
Logo se dá conta de que o desregramento hormonal partir dos seguintes critérios:
pode torná-lo um castrato natural.
Em meio às agressões e preconceitos de uma socie-
dade machista e inculta, encara o desafio de tornar a 1. Contribuição relevante à cultura.
diferença instrumento de superação. Enfrenta os re-
veses para burilar a formação musical que o faz chegar 2. Sintonia com a linha editorial da Cepe,
aos altos lugares do canto. Vê-se como um daqueles que privilegia:
adolescentes da época do grande Barroco, quando
as mulheres eram interditas de cantar em igrejas e
meninos eram emasculados para servirem à música. a) A edição de obras inéditas, escritas ou
traduzidas em português, com relevância
Quando ainda pensava em debutar como cantor, cultural nos vários campos do
escolhia cantigas simples de pescadores de sua terra: conhecimento, suscetíveis de serem
apreciadas pelo leitor e que preencham os
Minha jangada de vela
seguintes requisitos: originalidade,
Que vento queres levar?
adequação da linguagem, coerência
Sé à liberdade suspiro, e criatividade;
Vens liberdade me dar,
Se fome tenho, ligeira, b) A reedição de obras de qualquer gênero da
Me trazes para pescar!
criação artística ou área do conhecimento
Até parece que o vento de Aracati do poema de científico, consideradas fundamentais para o
Joaquim Cardozo, ao deixar o Congresso Internacio- patrimônio cultural;
nal dos Ventos “cantando e dançando pela estrada”,
havia lançado no ouvido daquele menino a semente 3. O Conselho não acolhe teses ou dissertações
na trilha de tantos que foram tragados pela peste do poema. sem as modificações necessárias à edição e que
negra dos meados do século XX. É o ano 1992. Tem A semente que o levaria mais tarde a executar
contemplem a ampliação do universo de leitores,
apenas 35 anos. Seu último gesto, antes de receber a peças do repertório clássico e de óperas famosas. E
extrema-unção, contam, é o de entoar para o padre uma das belas modinhas do repertório brasileiro, visando à democratização do conhecimento.
a Ave Maria de Schubert. Último ora pro nobis pecatoribus assinada por outros dois poetas, Manuel Bandeira
desfiado pela voz de uma sombra. e Jaime Ovalle: a cantiga Azulão, destaque de seu II Atendidos tais critérios, o Conselho emitirá parecer
Dele, restaram gravados dois raros CDs, além de segundo e último CD, Mélodies populaires brésiliennes. sobre o projeto analisado, que será comunicado ao
uns poucos registros no Youtube. Na primeira das A canção-poema refere-se a um pássaro que nun-
proponente, cabendo à diretoria da Cepe decidir
gravações, interpretações de cantatas e sonatas de ca vive em bando.
Scarlatti. Na segunda, algumas melodias brasileiras Sozinho e triste, é um lamento em quase despedida: sobre a publicação.
compostas por Ernani Braga, Alberto Nepomuceno,
Waldemar Henrique, Marlos Nobre. Vai Azulão III Os textos devem ser entregues em duas vias, em
Os serviços de streaming de música ainda hoje não Azulão companheiro vai papel A4, conforme a nova ortografia, em fonte Times
o descobriram. É como se a vibração de um timbre Vai ver minha ingrata New Roman, tamanho 12, com espaço de uma linha e
tão especial acabasse por ser tão fugidia quanto seu Diz que sem ela
meia, sem rasuras e, ainda, enviados no formato PDF
eco quase clandestino no filme de Stephen Frears. O sertão não é mais…
Os dois minutos e meio de cena são sua glória fugaz. para o email conselhoeditorial@cepe.com.br,
*** contendo, quando for o caso, índices e bibliografias
Busco na Internet algo que o relembre. Isolado pelo vírus que semeia uma nova peste, sem apresentados conforme as normas técnicas em
Descubro o blog intitulado Cinemaeartes, assina- ouvir o barulho das ruas ou a algazarra dos meninos vigor. As páginas dverão ser numeradas.
do por Gabriel Petter. Trocamos informações. Ele de uma escola à frente do edifício onde estou, a voz
confirma estar em andamento projeto de livro e do cantor me chega como a de alguém a clamar no
documentário sobre o cantor. Conta detalhes do deserto de nossa cultura. IV Serão rejeitados originais que atentem contra a
itinerário do 15º filho e um dos sete sobreviventes de Declaração dos Direitos Humanos e fomentem a
uma família sertaneja extremamente pobre, depois (Paulo Abel do Nascimento, violência e as diversas formas de preconceito.
emigrada para a capital. seu nome.
A voz do menino, esculpida pela ausência de tes- Nascido em Quixeramobim, Ceará, 1957. V Os originais devem ser encaminhados à
tosterona, e sua força de vontade condicionarão o Desaparecido em Paris, 1992.)
Presidência da Cepe, para o endereço indicado a
seguir, sob registro de correio ou protocolo,
acompanhados de correspondência do autor, na
qual informará seu currículo resumido e endereço
para contato.
TRADUÇÃO LIVES
Coautoria não solicitada Quando a obra vira transmissão Companhia Editora de Pernambuco
Presidência (originais para análise)
É comum afirmar que a Parte da vida literária segue sem surpresa, a lógica das Rua Coelho Leite, 530 Santo Amaro
tradução envolve um tanto o lema do capinar solitário lives também foi rapidamente CEP 50100-140
de criação. O canadense de que falava o escritor levada para a literatura.
Recife - Pernambuco
Grant Patterson, autor de Back Guimarães Rosa, mas Não há nada de inédito,
in slowly, viu trechos do seu pensá-la como um caminho mas é estranho ver obra se
livro serem “corrigidos” por do isolamento é uma tornar transmissão — é o caso
um tradutor brasileiro, que simplificação. Até porque a da maratona de leitura de
discordou da visão (que, longe cadeia do livro tem investido 12h feita pelo ator Andy
de ser coerente, ao menos era em festivais como uma forma Serkins do livro O hobbit, de
a dele) exposta sobre política de se aproximar do público, J. R. R. Tolkien. É um caminho
brasileira. É caso radical da uma busca por fazer do livro singular e, ao mesmo
“cocriação” tradutória: uma também um evento em uma tempo, é curioso tentar ver
coautoria não solicitada época em que só os eventos se a leitura pode ter seus
e, ainda mais, inimiga. parecem importar. Assim, momentos de catarse coletiva.
12
PERNAMBUCO, JUNHO 2020
CAPA
Penetra surdamente
no reino das palavras
Na pandemia, a leitura Em tempos de confinamento, redes sociais e inter-
mináveis noticiários televisivos, leituras e releituras
e o tranquiliza – “Samuel Smiles, escritor cacete,
prestou-me serviço imenso”.
HANA LUZIA
A luta do leitor
com o texto
nunca se encerra,
é um aprendizado
constante que
começa na
primeira leitura
As reminiscências pessoais do escritor-menino suicídio, mas demora alguns dias para morrer. O Valério do romance projetado e sua aproximação
são mediadas ou atravessadas pelas primeiras lei- deslocamento irônico em relação a obras similares é cada vez maior à realidade circundante, a cumprir
turas, com elas se confundem. Reiteram uma ne- notável: o marido traído não mata a esposa, mas a si seu objetivo de precisão e veracidade, a livrar-se de
cessidade de expressão que é, antes de tudo, busca mesmo. Valério descobre a si e aos outros como os anteriores entraves à escrita efetivamente realizada.
de interlocução com o outro, que se manifestará verdadeiros caetés, “um selvagem feito da mesma A forma que o leitor adquire em Graciliano Ramos
plenamente nos romances e memórias que irá es- matéria de que são feitos os índios sobre os quais está toda ela tramada pelo processo de elaboração
crever e nos quais toma a forma do leitor implícito, escrevia” — eis a virada irônica final. do texto que exige uma atenção literária: o corte
estruturante da narrativa e sua recepção desde o Narrado em linguagem límpida, sem floreios ou afiado do “duplo estilete” supõe um novo leitor
romance de estreia, Caetés (1933). exageros regionalistas, com extensos diálogos tra- diante da tradição do romance realista — Graciliano
Como se sabe, o livro narra, pela voz de João tados objetivamente, o romance tem, de propósito, lendo parodicamente Eça de Queirós — e do novo
Valério, guarda-livros da firma de Adrião Teixei- uma dicção realista — “o contrário dessa nova moda, realismo que tem diante de si a autorreflexão tex-
ra e aspirante a escritor, a vida e os costumes de o chamado abstracionismo”, diz em entrevista de tual que desinveste a leitura regionalista de Caetés
Palmeira dos Índios. Estão presentes os tipos da 1952 —, que será a marca do escritor. No entanto, e, no limite, o próprio realismo. Não por acaso,
cidade do interior alagoano — o padre, o tabelião, o como a desfazer paradoxalmente o realismo pre- todos os protagonistas dos romances e memórias
farmacêutico, o político, as “velhas bisbilhoteiras”, tendido, a narrativa se volta sobre si mesma, num de Graciliano, à exceção de Vidas secas (1938), estão
as “moças dissimuladas”, nas palavras de Antonio ato de autorreflexão que se configura pela técnica às voltas com a escrita e a leitura, fazem delas ponto
Candido — que o autor busca ver e apresentar em do romance dentro do romance: o livro projetado de interesse da mesma importância que o destino
conjunto, mas por meio da introspeção, da pers- por Valério e o romance que o contém e o devora, dos personagens: o objeto da leitura é a própria
pectiva pessoal do narrador-protagonista, tímido bem como devora seu modelo, Eça de Queirós. leitura, base de uma relação conflitiva que a define
e introvertido, embora ambicioso. Este tem como A aproximar os dois escritores, de imediato, e é sua razão de ser.
projeto escrever um romance histórico sobre a ressalta-se a Luísa eciana de O primo Basílio (1878) De outra e mesma maneira, para a menina Cla-
devoração do bispo Dom Pero Fernandes Sardinha e a Luísa de Caetés, uma sorte de imagem especular rice Lispector, a aprendizagem da leitura é uma
pelos índios caetés, ocorrida em Cururipe, litoral sul da antecessora, no que toca ao adultério. Em outro experiência que mistura prazer e dor. Criança e
de Alagoas, em 1556. João Valério e Luísa, mulher lugar, chamei essa relação de “banquete canibal de adolescente pobre no Recife, lê livros emprestados,
de Adrião, se apaixonam. Ao saber do adultério papel” — uma devoração literária — ao mesmo tempo dentre eles os de Monteiro Lobato. Para completar
por uma carta anônima, o marido traído comete em que se dá o paulatino distanciamento de João a leitura do escritor, faltam as Reinações de Narizinho,
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PERNAMBUCO, JUNHO 2020
CAPA
o mais volumoso, por isso mais atraente e de mais desfrutada: “Criava as mais falsas dificuldades para da mensagem enviada ao amado: “estou tentan-
difícil acesso para quem não pode comprá-lo. Uma aquela coisa clandestina que era a felicidade”. No do escrever-te com o corpo todo, enviando uma
menina cujo pai tinha uma livraria lhe promete final, “em êxtase puríssimo”, com o livro junto ao seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da
emprestar o livro. O que parece uma solução se corpo na rede, “não era mais uma menina com um palavra”. Corpo e palavra performam o leitor,
revela, porém, um jogo perverso de sadismo, na livro: era uma mulher com o seu amante”. num processo de contínua reversão mútua em que
medida em que a dona do livro negaceia diante da Não por acaso o livro a que o conto de abertura “tu és uma forma de ser eu, e eu uma forma de te
promessa feita, adia o empréstimo de propósito, dá título, Felicidade clandestina, termina com O primeiro ser”, que está no cerne da imaginação literária,
mantendo mais forte e angustiante o desejo da beijo, no qual se narra o orgasmo de um jovem em entendida como possibilidade de reinvenção de
pequena leitora, até que a mãe da menina intervém excursão — depois de ter “beijado” a estátua de si e do outro.
e faz a filha emprestar o objeto tão desejado. mulher de cuja boca jorrava a água que ele sorveu A aventura experimental da linguagem que
Na crônica O primeiro livro de cada uma de minhas vidas, sedento. Então expectante, “vinda da profundeza escritora-personagem e leitor(a) compartilham
de janeiro de 1973, Clarice lembra do episódio da de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a ver- detona um processo ininterrupto de indagações
“menina gorda e muito sardenta” que a faz humi- dade. Que logo o encheu de susto e logo também especulares em que “um reflete o reflexo do que o
lhar-se durante um mês em busca das Reinações, de um orgulho antes jamais sentido… Ele se tornara outro refletiu” e se cruzam ambos na escrita-lei-
diante do “jogo de amanhã venha em casa que eu homem”. O fim se encontra com o início do livro tura tornada translúcida na sua execução: “Criar
empresto”. Finalmente com o livro em mãos, é do desejo, numa simetria perfeita dos pares de de si próprio um ser é muito grave. E andar na
hora de lê-lo bem devagar — “aos poucos, algumas amantes apaixonados. escuridão completa à procura de nós mesmos é o
páginas de cada vez para não gastar” — e conclui: A relação erótica com a palavra é determinante que fazemos. Dói. Mas é dor de parto: nasce uma
“foi o livro que me deu mais alegria naquela vida”. nos textos de Clarice. Em Água viva (1973), o leitor coisa que é. É-se”. Para levar a tarefa adiante, os
O ocorrido será também, transfigurado, matéria é instigado a participar ativamente dessa relação, elementos factuais do texto são reduzidos a um
do conto Felicidade clandestina (1971), antes intitulado uma espécie de ritual que atualiza aquela cena grau zero, articulando a disponibilidade do sujeito
sugestivamente Tortura e glória, nos informa Nádia originária da leitura por recuos e avanços, gozo em deslocar-se a seu descentramento: ao “eu sou”
Battella Gotlib, biógrafa da autora. O texto relata o e frustação. O livro de “ficção” — o primeiro as- prevalece o “eu é”, como queria Rimbaud.
plano “secreto” e “diabólico” da filha do dono de sim denominado pela autora — se escreve como No jogo impessoal da terceira-pessoa — como
livraria, o domínio que exercia sobre a leitora do apaixonado monólogo ou longa carta de uma pin- no it do inglês, eleito como ponto de partida e pos-
livro inalcançável e a “tortura chinesa” a que era tora-escritora para um destinatário objeto do seu sível chegada da escritura —, a linguagem como
submetida diariamente. De posse do livro, enfim, desejo e móvel da escritura que se inicia com um que corporifica o sujeito da escritura e da leitura,
volta para casa e inicia o ritual da leitura proposi- “grito de felicidade diabólica”. O lugar do leitor tornados uma coisa só: “Então escrever é o modo
talmente interrompida e retomada para ser melhor do livro se confunde, então, com o destinatário de quem tem a palavra como isca: a palavra pes-
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HANA LUZIA
Em Graciliano, o
objeto da leitura
é a própria leitura
— uma relação
conflitiva que a
define e é sua
razão de ser
“aquele átimo de tempo em que o pneu do carro
correndo em alta velocidade toca no chão e depois
não toca mais e depois toca de novo”.
Para alcançar esse átimo de significação, um
outro escritor, Rubem Fonseca, segue caminho
cando o que não é palavra”. Nem confissão, nem Feira de São Cristóvão, e cujo desamparo a impres- próprio. Censurado ironicamente pela ditadura
autobiografia ou autoficção — “Não vou ser auto- siona fortemente. Macabéa, nome de ressonâncias que chegou a apoiar, o autor de Feliz ano novo (1975)
biográfica. Quero ser ‘bio’”, mas “sensação atrás judaicas (de macabeu, do grego: “forte”, “lutador”), dá vida a delegados de polícia, grupos marginais,
do pensamento” onde a palavra se finca como um é uma moça pobre do interior de Alagoas, que prostitutas, empresários assassinos, que tomam
falo ou “halo do it”. vive no Rio como datilógrafa, a mais humilde das a rédea da narrativa e impõem diretamente sua
A tensão entre pensar e escrever que permeia tarefas ligadas à escrita. Deslocada do seu lugar palavra, sem nenhuma mediação textual. Frases
Água viva atiça a leitura e faz dela um trabalho pa- de origem, imigrante, assim como a escritora, é curtas, ritmo alucinante, realismo “brutalista”,
ciente e assustador em que “[c]ada um de nós é um como se fosse uma sobrevivente desajeitada dos segundo o qualificativo de Alfredo Bosi, dão o tom
símbolo que lida com símbolos — tudo ponto de romances regionalistas dos anos 1930, lançada ao conto que dá título ao livro e que pode ser lido
apenas referência ao real”. Esse ato de mão dupla tempos depois no tumulto da grande metrópole. como um prólogo do que se lerá até o fim.
no qual o que se escreve “não é de ninguém” — e O autor masculino da história é “na verdade No conto, um assaltante narra da prisão o assalto
de todos, acrescente-se —, não acaba nunca: “O Clarice Lispector”, como é dito na dedicatória do que ele e amigos realizaram durante uma festa de
que te escrevo continua e estou enfeitiçada”, ter- livro ou o contrário? — “gênero não me pega mais”, réveillon numa mansão de endinheirados. O con-
mina o texto. Feiticeira e enfeitiçada ou leitora que nas palavras de Água viva. Desdobrado em narrador, fronto de classes se revela por meio da linguagem
escreve, enfim, vão traçando uma via alternativa Rodrigo S. M. se dedica com afinco à “melodia sem rodeios ou eufemismos dos assaltantes e da
para a leitura em desconstrução. sincopada e estridente” do quase nada que é a vida violência excludente que dá forma às relações so-
Um outro livro de Clarice retoma a questão de de Macabéa, a quem não resta senão o desejo do ciais. Em dois outros contos famosos, Passeio noturno
outra perspectiva, só aparentemente contrária à desejo, como os retirantes de Vidas secas, anteces- – Parte I e Passeio noturno – Parte II, um empresário sai à
de seus livros anteriores: A hora da estrela, publicado sores da personagem. Tudo nesse livro-testamento noite com seu carro para espairecer: busca ansioso
em 1977, ano da morte da autora. A escolha desse de Clarice — a atração pelo outro, o silêncio como alguém para atropelar e só se acalma quando con-
título dentre outros treze, elencados no início do fala, a compulsão pela busca do real que escapa à segue realizar seu intento e depois volta calmo para
livro, multiplica as vias de leitura e interpretação do linguagem — encaminha-se para o encontro desse a paz (pretensa) da família burguesa: os filhos e a
que na “dedicatória do autor” é identificado como enigma indecifrável que é a alteridade. mulher assistem à televisão: “Deu a sua voltinha,
“essa coisa aí”, à qual caberá ao leitor dar forma: A construção da vida invisível de Macabéa e de agora está mais calmo? perguntou minha mulher,
“Trata-se de livro inacabado porque lhe falta a tudo que ela representa é, no seu passo a passo, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou
resposta. Resposta esta que espero que alguém no razão da escrita: “Enquanto eu tiver perguntas e dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã
mundo ma dê. Vós?”. não houver resposta continuarei a escrever”. Mas vou ter um dia terrível na companhia”.
A inspiração para a personagem-pergunta vem afinal, qual a pergunta que se coloca? A pergunta. Narrado fria e objetivamente pelo assassino, o
de uma nordestina vista de relance por Clarice na Ao torná-la matéria do narrado, que a personagem conto suporta uma leitura alegórica da violência
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PERNAMBUCO, JUNHO 2020
CAPA
então — e ainda — vivida pelo país. A força absurda do desconforto do leitor em Se um viajante numa noite
da situação advém da brevidade e contundência da de inverno (1979), ao colocar em cena, como prota-
ação no momento em que se dá a ler pela lingua- gonistas do relato, justamente o Leitor e a Leitora,
gem fria e pela sóbria dicção do narrador — como como se fossem agentes secretos à procura do livro
se fosse um relatório apresentado pelo empresário que começam a ler, é interrompido, substituído
numa reunião da empresa —, o que contribui per- por outro que também é interrompido e assim por
versamente para o horror e prazer da cena da lei- diante, até o limite de uma babel de narrativas de
tura. Ao inverter a origem da violência ou mostrar conjetura que sofrem interrupção no momento
sua outra face, os contos assinalados ampliam seu mesmo em que o enigma que carregam está a ponto
alcance para além da situação narrativa, de forma de ser decifrado — um acúmulo de histórias inter-
a testar seus limites e possibilidades. rompidas que busca cumprir o desejo de despertar
No conto-ensaio que encerra o livro, não sem nos leitores “um fundo de angústia insepulto”.
ironia intitulado Intestino grosso, desvenda-se a poé- À medida que Se um viajante — desde o título aber-
tica subjacente a Feliz ano novo e demais livros do to a inúmeras possibilidades de realização — vai
escritor. O Autor, assim é nomeado o protagonista, sendo escrito, esse desejo toma forma nas pegadas
concede uma entrevista, depois de aceita a con- de Silas Flannery, autor de best-sellers policiais em
dição que impõe de receber por cada palavra dita, crise de criação. Seu diário, transcrito em parte no
alusão mordaz à circulação da palavra impressa no livro que o reflete, começa com a cena de leitura
mundo capitalista. Na verdade, o conto é uma re- “da mulher da espreguiçadeira”, observada de
flexão sobre a pornografia de que os livros do autor longe por Flannery — “E se, exatamente como eu
são acusados pelos censores — “Já ouvi acusarem a miro enquanto ela lê, ela apontasse uma luneta
você de escritor pornográfico. Você é?”, “Sou, os para mim enquanto escrevo?”. A troca imaginária
meus livros são cheios de miseráveis sem dentes”. de olhares que configura a relação entre mun-
O deslocamento de sentido da pornografia leva do escrito e mundo não-escrito supõe, da parte
também o Autor a uma leitura desconstrutora de do escritor, uma “terceira-pessoa impessoal” —
histórias pseudo-edificantes, como no caso de João “Poderei alguma vez dizer ‘hoje escreveu’ como
e Maria, em que as duas crianças são abandonadas quem diz ‘hoje choveu’ ou ‘ventou’?” — para que
no bosque pelos pais, caem nas garras de uma fei- possa exprimir algo menos limitado do que “a
ticeira, conseguem matá-la jogando-a no caldeirão individualidade do homem singular”. E prossegue:
de água fervente e voltam para casa ricos com o “Seria possível dizer ‘hoje leu’ como se diz ‘hoje
que roubaram da casa da bruxa: “É uma história choveu’”, mesmo considerando que a leitura é um
indecente, vergonhosa, obscena, despudorada, “ato necessariamente individual”?
suja e sórdida. […] Essas crianças, ladras, assassi- A aposta arriscada de despersonalização do su-
nas, com seus pais criminosos, não deviam poder jeito — escritor e leitor —, como se fossem ghost
entrar na casa da gente, nem mesmo escondidas
dentro de um livro”.
Tanto num caso quanto no outro, o que fere o
pudor é, respectivamente, a exclusão social e a
A obra de Rubem
ganância pelo dinheiro, responsáveis pela obs-
cenidade presente mais em nossas mentes do
que em nossos corpos, cujas funções sexuais e
Fonseca implica
excretoras não deveriam provocar alarde e cen-
sura, segundo o Autor. Gostaria de supor que em o leitor na
leitura, força
Fonseca a ressignificação da pornografia vem do
reaproveitamento dos romances pornôs que eram
vendidos em bancas de revista e tinham grande
à reflexão moral
aceitação, principalmente do público masculino.
No mesmo diapasão da cultura de massa, a apro-
priação que o escritor faz do romance policial, já
bastante estudada, compreende uma mudança
significativa de rumo do objeto apropriado. Di-
ferentemente da narrativa policial clássica, na
e distribui
qual busca-se desvendar um crime e chegar, no
final, a uma verdade indiscutível, agora o texto
se abre para múltiplas interpretações, sem juízos
responsabilidades
de valor preconcebidos que separem nitidamente writers de si mesmos, é uma proposta de sobrevi-
o bem do mal, o bandido do mocinho, contrário vência da escrita do mundo, povoado borgianamente
ao que se dá em filmes e novelas de televisão. O de apócrifos e falsas atribuições que se dão a ler
escritor dá mais importância aos meandros do enquanto fantasmas que “se perdem pelo cami-
caso, notadamente em seus romances, nos quais nho”. São variantes das Mil e uma noites, origem e fim
a peripécia se arma de maneira a tornar o leitor de toda narrativa, restos do que poderia ter sido e
cúmplice do crime cometido pelo e no texto, como se oferecem à leitura descontínua e fragmentária:
forma de distribuir mais justamente culpas e res- uma “operação sem objeto” ou “que não tem outro
ponsabilidades, ou seja, de tornar a leitura um ato objeto senão ela própria”.
de reflexão moral e política aberta ao contraditório, Em outro de seus livros, Palomar (1983), Italo
para usar a palavra da moda. Calvino retoma a questão desde o texto inicial do
O engajamento da literatura de Rubem Fonseca périplo da personagem-título, Leitura de uma onda,
está todo ele nesse ato comunitário em que a imuni- tradução em termos literários da teoria da catás-
dade do leitor é posta à prova a todo momento por trofe. Na praia, o senhor Palomar tenta medir uma
uma linguagem extremamente refinada na elabo- onda, ciente de que “não se pode observar uma
ração da fala de diferentes setores urbanos. Por onda sem levar em conta aspectos complexos que
isso talvez os filmes baseados em seus textos não concorrem para formá-la”. A tarefa que se impõe
alcancem o mesmo nível de excelência artística, revela-se impossível à medida que a observação
uma vez que, na tradução de uma linguagem para avança, tendo em conta os fatores que consti-
outra, perdem a força verbal que torna os livros do tuem o problema: não se pode a olho nu precisar
escritor tão especiais. Apesar do apelo fortemente o momento exato em que uma onda se forma e se
visual de seus textos — não fosse o escritor também desfaz, desdobradas que são ao infinito. A falência
roteirista, o que diz muito, mas não o principal —, da leitura — “O senhor Palomar se afasta ao longo
a alteridade que buscam ansiosamente traduzir se da praia, com os nervos tensos como havia chegado
dá pela abertura a lugares de fala antes interditos e ainda mais inseguro de tudo” — é o seu sucesso.
à literatura ou dependentes da voz do escritor O desconforto do leitor literário está nesse
para se tornarem plenamente audíveis no mundo desdobrar-se sobre si mesmo diante das ondas
letrado. Lugares de fala são para a melhor litera- dos textos que se propõe decifrar e tornam a ex-
tura de Rubem Fonseca lugares de ação narrativa periência da leitura um ato de vir à tona do real
compartilhada pelo leitor em confronto violento que se transforma, então, numa sobrevivência
com a alteridade que o real impõe. compartilhada. Diferentes formas de acessá-la,
Por isso a leitura desses textos de Rubem Fonseca como as que foram aqui apontadas, são formas de
é ainda hoje tão salutarmente desconfortável. Italo luta e resistência. São armas insignificantes, diria
Calvino, muito distinto do escritor brasileiro, tratou Graciliano Ramos, mas são armas.
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HANA LUZIA
HUMOR, AVENTURA E HISTÓRIA EM
LIVROS PARA ADULTOS E CRIANÇAS
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BASTIDORES
FILIPE ACA
Ao lado da
recursos das mais importantes revistas acadêmicas
Regina Dalcastagnè da área de Humanas no país. Enquanto seguimos
arduamente em nossas pesquisas, eles acabam com
Trabalho e moro dentro do campus universitário nossas bolsas de Iniciação Científica, essenciais
Esplanada dos
Darcy Ribeiro, na Asa Norte, Brasília, Distrito Fede- para o começo de qualquer carreira acadêmica. Em
ral. O dia a dia aqui é difícil por uma série de razões, seguida, serão as bolsas de mestrado e doutorado,
mas às vezes é bom lembrar que estamos vivendo os apoios para participação e realização de eventos,
dentro de um sonho. O sonho de uma universidade o financiamento das pesquisas em geral. Sabemos
Ministérios
que pudesse pensar e melhorar a realidade brasileira. bem que o objetivo deles é eliminar historiadores,
Um sonho de esquerda, que se fundava na ideia da sociólogos, cientistas políticos, filósofos, antro-
autonomia universitária e envolvia nomes como pólogos, artistas, linguistas, críticos literários da
Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Oscar Niemeyer. vida nacional.
Embora a construção de uma universidade estivesse Somos nós, afinal, que pensamos criticamente
em meio à precarização nistérios, foi uma luta de quase dois anos — porque
algumas autoridades não queriam professores e
acalentamos a dúvida sobre as certezas da religião,
do governo, até mesmo da própria ciência. Somos
do Ensino Superior e
estudantes ao lado do poder central. Continuam não nós que contribuímos para tornar mais complexa
gostando da nossa presença, é claro, e expressam a leitura sobre o mundo que nos cerca. E quando
isso com bastante truculência a cada vez que nos nos juntamos à classe trabalhadora, aos moradores
da pesquisa, por uma aproximamos dos gramados da Esplanada.
Temos muita história de luta pela democracia
das periferias, aos pobres, às populações negras e
indígenas, à comunidade LGBT, nos tornamos ainda
KARINA FREITAS
Isabel Lucas
VIAGEM AO PAÍS DO FUTURO
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PERNAMBUCO, JUNHO 2020
Isabel Lucas
VIAGEM AO PAÍS DO FUTURO
de uma época e, por extensão, fornece também uma vivenda em estilo colonial, um piso visto de fora, entre
‘imagem’ do povo que ali habita”. As palavras são de arbustos, árvores, e um perfilar longo de mais casas.
Veronica Stigger, gaúcha de Porto Alegre, escritora Ao fim da tarde, numa pausa da tempestade, o sol a
de uma geração a que pertencem nomes como Paulo conseguir furar o filtro cerrado das nuvens, o ambiente
Scott, Eliane Brum, Michel Laub ou Eduardo Sterzi. é bucólico e contrasta com a verticalidade do centro
Sobre O tempo e o vento, Sterzi diz: “é o esforço mais e arredores, edifícios altos que alastram, ameaçando
consistente e amplo de figuração literária da constitui- canibalizar qualquer construção mais baixa.
ção histórica do Rio Grande do Sul, com um tanto de A “pequena cidade grande”, como chamou o poeta
mitologia misturada à história. Foi, aliás, justamente Mário Quintana, cresceu muito nas últimas décadas e
por força dessa mitologia — e da capacidade de Erico transformou-se numa das maiores capitais do Brasil.
de lhe conferir espessura literária — que alguns dos Em 1950, Porto Alegre tinha pouco mais de 390 mil
seus personagens, como Ana Terra e Rodrigo Cam- habitantes. Em 2019, estima-se que eram 1,4 milhão
bará, tornaram-se quase arquétipos do povo gaúcho, numa área metropolitana de mais de 4 milhões de
modelos nos quais tantos gostariam de se reconhecer. pessoas. A cidade é vertical, estende-se por colinas
Por mais que o próprio Erico, em entrevistas, buscasse e morros, uma urbe que um caminhante conhece
demarcar distância com relação à identidade mítica do pelas elevações e declives que vão dar ao Lago Guaíba,
gaúcho, que envolve sempre um tanto de machismo e no delta do Rio Jacuí. Depois é a Lagoa dos Patos, a
outras características problemáticas, tenho a impressão maior laguna da América do Sul, 265 quilómetros
de que O tempo e o vento foi tão importante para a cons- de extensão até ao extremo sul do estado quando
tituição dessa mitologia — que ganha força sobretudo banha Rio Grande, a cidade mais antiga do território
ao longo do século XX, com a recuperação de figuras disputado por Espanha e Portugal, então chamado de
antes marginalizadas, a começar pela própria figura Continente de São Pedro.
do gaúcho — quanto o Movimento Tradicionalista “O horizonte empalidecia e as estrelas se iam apa-
Gaúcho, fundado em 1947.” gando aos poucos. Em torno da redução os campos
Divido em O continente, O retrato e O arquipélago, O tem- estendiam-se, ondulados, sob a luz gris. Alonzo olhou
po e o vento começou a ser publicado em 1949 com o para o nascente e foi de repente tomado dum senti-
primeiro volume de O continente. Erico Verissimo tinha mento de apreensão muito semelhante ao mal-estar
44 anos e Luis Fernando, 13. “Acompanhei a feitura que lhe deixara o sonho da noite. Naquela direção
do livro. Me lembro do pai sentado naquela sala de ficava o Continente do Rio Grande de São Pedro, que
refeições, ele batia à máquina, batia com rapidez. Dei- Portugal, inimigo da Espanha, estava tratando de ga-
xava espaço entre as linhas para ele mesmo corrigir e rantir para a sua Coroa. Um dia, em futuro talvez não
depois copiava a colecção. Tenho essa memória muito mui remoto, os portugueses haveriam de fatalmente
viva. Não vou dizer que acompanhei toda a feitura voltar seus olhos cobiçosos para os Sete Povos. Fazia
do livro, mas uma boa parte. Assim que saia o papel sessenta e cinco anos que, com o fim de estender ainda
da máquina de escrever eu lia”, conta, dizendo que mais seu império na América, haviam eles fundado
lia mas não dava palpites. “Com 12 anos, não tinha à margem esquerda do Rio da Prata a Colônia do Sa-
palpites para dar.” cramento, a qual desde então passara a ser um pomo
Aos 83 anos mora na mesma casa onde o pai viveu de discórdia entre Espanha e Portugal. Laguna, posto
e escreveu até morrer em 1975, aos 70 anos. É uma extremo dos domínios portugueses no sul do Brasil,
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KARINA FREITAS
O tempo e o
vento lançou
personagens que
são quase arquétipos
dos gaúchos,
como Ana Terra e
Rodrigo Cambará
tempo, e com destaque comparável, o melhor da li-
teratura internacional, [...] mas também [com] o que
havia de mais importante na literatura do Rio Grande
do Sul. A livraria foi também um ponto de encontro
da intelectualidade local, o que certamente ajudou a
constituir um ambiente cultural propício à criação e
difusão das obras literárias”.
Porto Alegre é isso e é também a cidade branca que
elegeu o primeiro prefeito negro, Alceu Collares, em
1986. Também é a cidade da primeira negra a ser Miss
Brasil, Deise Nunes, a do Fórum Social Mundial, a da
Ponte da João Pessoa com as suas palmeiras. É uma
das cidades mais dispendiosas do Brasil, mas também
há favelas. São 108, segundo o censo de 2010, e uma
população de quase 200 mil pessoas, menos de 2%
delas tem ensino superior e 62% vivia em domicílios
com menos de um salário mínimo de rendimento. Esse
valor em 2019 era de 1039 reais, aproximadamente 170
euros hoje, metade do preço de um corte de cabelo no
salão onde Sandra trabalha como manicure.
Todos os dias, excepto aos domingos, apanha o
autocarro desde Restinga para Moinhos de Vento, um
dos bairros mais elitistas de Porto Alegre. A viagem
não é longa, mas a paisagem urbana é outra. Habitação
social degradada, casinhos de betão, telhados de zinco,
marcas de incêndio em muros, no chão, lixo nas ruas,
elevada taxa de homicídios. “Estou acostumada, mas
me preocupo com os meus filhos. Morro de medo que
entrem na droga. Trabalho para os tirar dali, quero que
tenham educação. Até agora não dão problema, mas
a gente nunca sabe.” Sandra parece mais nova. Tem
43 anos, dois filhos de 13 e 15. “Eles gostam de ficar
em casa, jogando no computador, tocando guitarra. O
mais velho lê, o outro joga futebol.” Não se queixa do
salário, “as gratificações são boas, mas viver em Porto
Alegre é caro. Tenho sorte de trabalhar num sítio bom,
com gente educada”, diz, o sorriso no rosto e uma
estava separada da Colônia por uma vasta extensão de são conquistadores; mas congela a simpatia, evitando queixa: “A pouca sorte é com os governantes sabe?
terras desertas, cruzadas de raro em raro por grupos que o leitor se identifique com Licurgo e abrace seus Esse povo não acerta, nós não acertamos. Estamos
de vicentistas que, passando pela estrada por eles ideais”, escreve a crítica literária Regina Zilberman no por nossa conta”.
próprios rasgada através da Serra Geral, iam e vinham prefácio à mais recente edição do primeiro volume de São 10 horas. A primeira cliente está a chegar.
na sua faina de buscar ouro e prata, arrebanhar gado e O continente, sublinhando a importância da alteridade Sandra aperta o casaco, apressa-se. O vento é frio.
cavalos selvagens, prear índios e emprenhar índias.” na maior obra de Erico Verissimo. É a única pessoa na rua de moradias de dois pisos,
Este é o território de O continente no princípio de Porto Alegre nasceu desse caldeirão. Seria a capi- montras grandes, cheiro a café e a relva acabada de
tudo. Ou seja, da disputa que deu origem ao Tratado tal, primeiro povoada por casais vindos dos Açores, regar. Ouvem-se pássaros, o som de uma vassoura
de Madrid assinado entre Portugal e Espanha, com depois por gente vinda de outras partes do mundo e num jardim. Parece tudo bem ali naquele canto da
Portugal a ceder Sacramento aos Espanhóis em troca de outras regiões do Brasil. Cresceu sempre. “Porto cidade considerada uma das regiões de alto desen-
do Continente de São Pedro, alterando naquele ponto Alegre, antes, era uma grande cidade pequena. Agora, volvimento humano segundo o PNUD, o Programa
o Tratado de Tordesilhas. Alonzo, missionário jesuíta, é uma pequena cidade grande”, diria ainda Quintana, para o Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.
assistia e pressentia o futuro. Ele seria o padrinho de nostálgico de uma cidade que desaparecia. É, já se viu, uma cidade do paradoxo, como quase
Pedro, menino visionário nascido de uma índia e de todas as grandes cidades. E é a cidade de Tabajara
um branco, que, por sua vez, teria um filho com Ana A CIDADE É Ruas, de João Gilberto Noll, Moacyr Scliar, Dyonélio
Terra e os dois seriam avós de Bibiana, que havia de Que cidade é esta? Não tem o colorido de Salvador Machado, capital de um estado de com 11,5 milhões
casar-se com Rodrigo Cambará. Mas isso já e avançar ou a beleza que resiste a todas as profanações do Rio de habitantes que faz fronteira com a Argentina, o
na história. Ainda no princípio de tudo o que aqui de Janeiro; não parece pairar vinda do nada, como Uruguai e o estado de Santa Catarina; cidade de maio-
importa está o facto de os jesuítas, líderes dos guaranis Curitiba, não é a megalópole São Paulo, não tem a ria branca (82%), liberal num estado conservador.
que haviam convertido ao cristianismo, se recusarem decadência cosmopolita de Manaus. Não é quente. Às É a cidade que tem um bairro chamado Tristeza que
a cumprir o acordo e aí começar uma guerra. vezes neva. É um sobe e desce de ruas onde o mais nem de longe é o mais pobre. Mediano a ver pelos
A história do território é uma história de lutas suces- solitário dos andarilhos se perde e se cansa enquanto rendimentos que oscilam entre os 17 salários de
sivas. A Revolução Farroupilha, a guerra contra o Pa- ouve um sotaque com érres fortes e ésses que não se renda mensal em Três Figueiras, e o pouco mais de
raguai, a Revolução Federalista. Nelas há heróis e ven- arrastam, como os dos cariocas. Orgulha-se de ter “a um salário e meio no bairro com o nome do poeta,
cidos num povo que Erico Veríssimo sublinha como rua mais bonita do mundo”, a Gonçalo de Carvalho, Mário Quintana.
nascido da miscigenação, tantas vezes sangrenta, com fronteira entre o bairro da Independência e Floresta. É a cidade que tem esplanadas com cadeiras
realce para o genocídio dos índios. Esse sangue correu Coberta pelo verde das tipuanas que formam um cobertas de mantas, como as das cidades do centro
no chão mas corre também nas veias de quase todos, túnel a reverberar o som dos pássaros e o silêncio é da Europa ou da Argentina. Não custa imaginar que ao
os subalternos e os que ascenderam socialmente. Os uma sombra abençoada no verão, um guarda-chuva andar por ela nos cruzemos com uma das personagens
dominados foram capazes de prosperar. Isso é bom. a converter pingos em gotas grossas espaçadas, um do grande escritor ensimesmado, João Gilberto Noll
Mas há sempre o paradoxo. “À medida que os Terra reduto de floresta gélida no frio. (1946-2017), e segui-la, na imaginação, no seu matu-
Cambará avançam politicamente, regridem afetiva- É uma cidade de muitos escritores. Por quê? Razões tar de vida, até à margem da lagoa, como ao homem
mente. O capitão Rodrigo é o romântico conquistador, históricas. Eduardo Sterzi refere o “papel decisivo” de Sangue do Guaíba. “Aquele sangue nas mãos que eu
que seduz não apenas a jovem Bibiana, mas também da livraria e editora Globo na transição do século XIX devia lavar ali, no Guaíba. Se não, desconfiariam. Do
o leitor que acompanha suas aventuras; Licurgo, seu para o XX, mas sobretudo a partir dos anos 1930 do quê, nem eu mesmo sabia. Lembro que, pouco antes,
neto, é o realista que não comove nem se perturba, século passado. Explica: “Foi uma casa cosmopolita, num lance gratuito, imaginara que tivesse ficado em
caracterizando-se pela frieza das emoções, a mesma muito por conta do papel que nela desempenhou Erico casa estaria em melhor situação. Foi só então que vi
que recebe de seu público. Habilmente, Erico Verissi- Verissimo como editor e conselheiro, e cosmopolita as mãos cobertas de sangue. Olhei o rio, tentando
mo não criminaliza a personagem, porque seus heróis no sentido pleno do adjetivo, publicando ao mesmo escapar da circunstância. Apesar do estado das águas,
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Isabel Lucas
VIAGEM AO PAÍS DO FUTURO
entrei até os joelhos. E agora só me restava assobiar. grande livro cheio de ‘grades’ certos papéis, em forma
A melodia imprecisa, o dia ameno, parecendo ileso. de faturas. É preciso antes submetê-los a uma con-
Pouco a pouco o assobio amortecia tudo. A noite logo ferência, ver se as operações de cálculo estão certas.
mais me acolheria. Para que sonhar?” São ‘notas’ de consumo de materiais, há sempre mul-
Noll fez da errância solitária uma espécie de fio tiplicações e adições a fazer. O serviço, porém, não
condutor das suas obras. Nos 19 livros que publicou, exige pressa, não necessita ‘estar em dia’.” Naziazeno
entre conto, romance e livros para crianças, e onde encontra tempo para olhar à volta. “Através das pér-
se destacam O cego e a dançarina (1980), Harmada (1993) gulas e dos arbustos da praça lá no fundo, distingue a
Mínimos múltiplos comuns (2003), Lorde (2004) ou Acenos esquina do mercado. Um pouco mais para diante, na
e afagos (2008), a cidade é o atlas onde se manifestam altura do portão central, há movimento, pessoas que
as inquietações do indivíduo, a arena da sua subjecti- atravessam a rua. Bondes, automóveis desembocam
vidade. Acontece ser Porto Alegre porque talvez Porto na praça, fazem a curva defronte da grande casa que
Alegre seja propícia a essa interioridade, à indagação toma todo o quarteirão. Os pios das buzinas chegam
que pode ter o ritmo do pisar na calçada. Lento, ou já, meio veladamente, aos ouvidos de Naziazeno.
apressado a caminho de uma tarefa bem definida. Por Atinge a esquina da Rua Santa Catarina, por onde
exemplo, a da sobrevivência proletária que marca os entrou o auto... É larga, bonita. Diminui o passo, até
passos do funcionário público Naziazeno Barbosa, quase parar: fica olhando ao longo da rua... No fundo,
protagonista de Os ratos, de Dyonélio Machado (1895- passando a avenida, estacionam alguns automóveis...
1985), romance de referência da segunda metade do Uma limousine mesmo vai nesse momento fazendo a
Modernismo, publicado em 1935 por influência de manobra pra sair. Naziazeno para. A limousine toma
Erico Verissimo. Numa manhã, Naziazeno é confron- impulso, aproxima-se da esquina onde começa uma
tado pelo leiteiro que lhe dá um ultimato: ou paga a ladeira forte; buzina. Ele distingue a figura do inspetor
dívida ou deixará de ter leite em casa. “Os bem vizi- do tráfego quadrando-se todo, dando passagem. — A
nhos de Naziazeno Barbosa assistem ao ‘pega’ com o limousine desaparece numa curva.”
leiteiro. Por detrás das cercas, mudos, com a mulher Imaginar os outros é uma das tarefas mais estimu-
e um que outro filho espantado já de pé àquela hora, lantes de alguém que se perde ou gosta de se perder
ouvem. Todos aqueles quintais conhecidos têm o na cidade. Um lugar onde se chega com referências,
mesmo silêncio. Noutras ocasiões, quando era apenas imagens construídas a partir de livros, por exemplo,
a ‘briga’ com a mulher, esta, como um último desaforo mas livres da memória desse lugar. Essa só se constrói
de vítima, dizia-lhe: ‘Olha, que os vizinhos estão a partir do momento em que se pisa a terra. E foram
ouvindo’. Depois, à hora da saída, eram aquelas caras 11 horas de voo desde Lisboa, só o mar pelo meio.
curiosas às janelas, com os olhos fitos nele, enquanto Os outros estão ali. Já não apenas uma possibilidade.
ele cumprimentava. O leiteiro diz-lhe aquelas coisas, Estão com a sua língua, os aromas, a paisagem, os
despenca-se pela escadinha que vai do portão até à contornos dos edifícios. A água do rio, que afinal é
rua, toma as rédeas do burro e sai a galope, fustigando turva; parece turva. Chove, não é possível chegar até
o animal, furioso, sem olhar para nada. Naziazeno ela. Há uma barreira para parada presidencial nas
ainda fica um instante ali sozinho. (A mulher havia margens. Ali vai-se celebrar o 7 de Setembro, Dia da
entrado.) Um ou outro olhar de criança fuzila através Independência, marcado pelo desafio do presidente
das frestas das cercas.” Jair Bolsonaro de que todos se vistam com o verde e
Porto Alegre transformava-se. Chegavam os eléc- amarelo da bandeira em sinal de apoio à sua gover-
tricos, a indústria, os prédios altos. E com isso uma nação nos 197 anos de independência do país, o seu
alteração social com o campo a deslocar-se para a primeiro 7 de Setembro como presidente do Brasil. Os
cidade, o crescimento de habitação de baixo preço, que o contestam argumentam que não tem o direito
a procura de mão-de-obra, a migração de outros es- de se apossar das cores nacionais e apelam a um luto
tados em busca de trabalho. Dyonélio escrevia sobre nas vestes. Negro em sinal de protesto num cinzento
as consequências humanas dessa alteração, seguindo que domina a paisagem.
o quotidiano de um homem comum. “O trabalho Dois dias antes, Luis Fernando Verissimo escreveu
de Naziazeno é monótono: consiste em copiar num uma crónica em O Estado de S. Paulo. Deu-lhe o título É
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KARINA FREITAS
a arena onde
aconteça nada disso, mas as indicações são essas.” regulares sobre arte e filosofia, eventos agradáveis se-
guidos por noites agradáveis num dos inúmeros cafés
A COMPOSIÇÃO DA MEMÓRIA do centro frequentados por mulheres bonitas e solteiras
se manifestam
Na esplanada de um café numa rua pequena cheia de como convém, cujos pais ficariam muito satisfeitos as
árvores, um homem chama a funcionária e aponta: serem apresentados a um judeu.”
“Está muito estranho aqui. Dona Joana nem abriu a O narrador fala de um Brasil idealizado pelo avô
janela!” As persianas verde-água estão fechadas, é
quase meio-dia. Noutra mesa, uma mulher pergunta
o que há de fazer com o pão que lhe levaram. “Tu
as inquietações que conheceu o privilégio no ano de 1945. O ano até
onde vai a formação do Rio Grande do Sul em O tempo
e o vento, o ano em que Erico Verissimo regressa com a
abre o pão e em cada fatia bota um pedaço de queijo
e uma geleinha, queijo, geleinha, queijo, geleinha,
sempre assim, viu?”
dos indivíduos família de dois anos nos Estados Unidos para “evitar
problemas” – expressão de Luis Fernando – com a
ditadura de Getúlio Vargas. “O pai nunca deixou dúvida
É no Bom Fim, bairro associado à esquerda, o da como algo à parte, e acho que isso diz muito sobre a sobre sua posição política, se declarava um socialista
grande comunidade judaica da cidade, junto a Moi- sua posição periférica; ou melhor, sobre a disposição democrático. Naquela época grande parte dos autores
nhos de Vento. Nele viveu Moacyr Scliar (1937-2011), dos gaúchos de se colocar numa posição deliberadamente e dos intelectuais brasileiros seguiam a linha comu-
o médico especialista em saúde pública, o autor de O periférica. É fácil pegar um gaúcho falando no ‘resto nista, a ortodoxia comunista, e o pai sempre enfatizou
centauro no jardim (1980), considerado uma referência do Brasil’ quando se quer referir aos outros estados do que era um socialista, mas democrático. Não aceitava
mundial na literatura sobre a diáspora judaica. Nessa país, bem como afirmando, algumas vezes sem notar, totalitarismos. Quando fomos para os Estados Unidos
mitologia, o narrador e protagonista é filho de um que o Rio Grande do Sul (e não o Brasil) faz fronteira a primeira vez, nessa época da guerra, ele estava um
casal que foge da perseguição aos judeus da Rússia, com o Uruguai e a Argentina — o que não deixa de ser pouco fugido daquela ditadura do Estado Novo. A ida
nasce metade homem, metade cavalo e procura o seu verdade.” Quanto a haver uma identidade gaúcha: dele teve muito a ver com isso.”
lugar num mundo onde a diferença é mal aceita. É “Não sei se há, tampouco sei se há uma identidade Quando o narrador de Laub descreve o diário do
um olhar irónico sobre a identidade. Judaica, de imi- brasileira, mas creio que algo próximo a isso talvez avô ele quer sublinhar a existência de pelo menos
grante, de um imigrante em Porto Alegre, e também a passe por um compartilhamento de hábitos, de pai- duas histórias paralelas, ou dois pontos de vista pa-
identidade gaúcha. “Rosa não queria deixar a Rússia. sagens, de leituras, de sotaque, de vocabulário... aliás, radoxais quando se narra uma história, no caso a de
Pogroms ou não, gostava da aldeia, era o seu chão. Mas muitas palavras e expressões que empregamos vêm um país, de uma região. “Imagine uma casa rica de
Leão estava decidido. Quando os emissários do Barão do castelhano, como lomba, dar uma tunda etc., que nem Porto Alegre, 1945. Imagine um jantar nessa casa, a
Hirsch apareceram, foi o primeiro a se oferecer para a sempre são compreendidas em outras partes do país, mesa num dos ambientes da sala, uma família que
colonização na América do Sul. América do Sul! Rosa como São Paulo ou Rio de Janeiro. A experiência urba- fala várias línguas, inclusive e em especial o alemão.
se apavorava, pensava em selvagens nus, em tigres, na numa cidade como Porto Alegre é muito diferente A família é servida por empregados de uniforme e
em cobras gigantescas. Mil vezes cossacos! O marido, da experiência numa cidade como São Paulo.” talvez comente a posse do presidente Eurico Gaspar
porém, não queria discussões. Arruma as malas, orde- Michel Laub tratou a questão dos judeus em Porto Dutra, de quem meu avô jamais tinha ouvido falar,
nou. Ela, grávida, arquejando com o esforço, obedeceu. Alegre de modo bem distinto de Scliar, em Diário da que- ou um discurso de Carlos Lacerda, de quem meu avô
Embarcaram num cargueiro em Odessa.” da (2011). Três homens, avô, pai e neto, cruzam-se na jamais tinha ouvido falar também, ou qualquer dessas
Vieram de toda a Europa. Rússia, Alemanha, Es- vida. O mais velho é um sobrevivente do Holocausto, referências conhecidas do período, os cassinos, a
panha, Polónia, Médio Oriente... Dizem coisas como e é no diário desse registro de perdição que os três se Rádio Nacional, as vedetes do teatro e revista, e pelo
“ser gaúcho não é bem ser brasileiro, mas também encontram e desencontram. Esse homem mais velho resto da noite se bebe e faz brindes e em nenhum
é ser brasileiro”. “Sim, os gaúchos costumam dizer chegou um dia ao Brasil. “Nos cadernos do meu avô, momento o dono da casa se dirige ao meu avô a não
coisas como essa”, ironiza Veronica Stigger. “E têm o Brasil de 1945 era um país que não tinha passado ser para comentar que o mundo ficaria pior com a
também a mania de considerar o Rio Grande do Sul pela escravidão. Onde nenhum agente do governo fez vitória americana na guerra.”
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Isabel Lucas
VIAGEM AO PAÍS DO FUTURO
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UMA ESTÉTICA DO SUL — o que não costuma ser usual, suponho também eu,
Muitos anos depois. 1989. Outro livro, outro escri- quando se mora no próprio país. Mas isso, é verdade,
tor, a experiência de uma cidade contada de ou- costuma acontecer com alguma frequência com os
tra perspectiva da História. “Se tivesse de resumir gaúchos que moramos em outras cidades, por mais que
seus dias de militante político Paulo diria que foi nós mesmos também vejamos a ‘identidade gaúcha’
da idealização completa a um cinismo sem igual e, como algo caricatural — e tenhamos com ela, como de
por fim, à melancolia escapista dos últimos meses. resto com quase todas as coisas, uma relação irônica”.
Não deveria ser assim, logo agora que o Partido dos Ironizando um pouco, Paulo Scott traz à conversa
Trabalhadores ganhou as eleições à Prefeitura de uma espécie de ginga que há na fala, um sotaque
Porto Alegre e ele se tornou uma referência estudantil “quadrado”, sem as “subversões do nordestino”, onde
importante no país inteiro...” Paulo é o narrador e entram palavras como “guria”, um “tu” muito do Sul,
protagonista de Habitante irreal, romance de 2011 de as sílabas todas pronunciadas. E meio a rir: “Gaúcho
Paulo Scott, 53 anos, natural de Porto Alegre, de um é o argentino brasileiro, se acha mais do que ele é, na
bairro popular, periférico, o Partenon, e que, como verdade. Gaúcho melhor em tudo, ‘Porto Alegre, ca-
Laub, leva a biografia para a literatura, mas depois pital do universo’, você acaba de ganhar o selo gaúcho
livra-se dela. A vida é o mote. O neto do judeu não de qualidade!” Sente-se gaúcho? Total. “Do Partenon!”.
é Laub, Paulo não é Scott. Mas os dois transportam a Scott fala com uma toada que leva para os seus livros.
sua experiência, ou seja, uma identidade que compõe Oralidade vincada, um discurso que quer trazer os
o colectivo a que se refere Sterzi, um certo modo de matizes que compõe não apenas um tom de pele que
ser. “Acho que quem melhor formulou essa questão no seu caso é índio, negro, germânico, “pelo menos”,
foi o músico e escritor Vitor Ramil num importante e uma gravidade/seriedade e ironia que está tantos
ensaio intitulado A estética do frio. Também é titulo de nos seus poemas como na sua prosa.
um álbum sobre um som comum ao Rio Grande do Esse tom e olhar irónicos são comuns a muitos
Sul, Uruguai e Argentina, a milonga. Escreve Ramil: autores do Rio Grande do Sul, mesmo, ou sobretudo,
[...] os rio-grandenses, também conhecidos como quando tratam de temas duros. Está na solidão de Noll,
gaúchos, aparentam sentir-se os mais diferentes em na deriva de Nazazieno em Os ratos, está também no
um país feito de diferenças. Isso deve-se, em grande mais recente romance de Paulo Scott, Marrom e amarelo
parte, à sua condição de habitantes de uma importante (2019), um livro sobre a relação entre o colorismo, o
zona de fronteira, com características únicas [...]; à tom de pele, e o modo como se experiencia a reali-
forte presença do imigrante europeu, principalmente dade, numa sociedade descrita como profundamente
italiano e alemão, nesse processo de formação; ao racista. O embate entre dois universos antagónicos
clima de estações bem definidas e ao seu passado representados por dois irmãos que não se odeiam,
de guerras e revoluções, como os embates durante mas muitas vezes se estranham. E que é também
três séculos entre os impérios coloniais de Portugal sobre embate de classe, de territórios, de geografia,
e Espanha por aquilo que é hoje nosso território e de um país polarizado em dois momentos da história
a chamada Revolução Farroupilha (1835–1845), do Brasil — 1984 e 2016 — e que pode ser representado
que chegou a separar o estado do resto do Brasil, pela diferença de perspectiva dependendo se se vive
proclamando a República Rio-Grandense.” no Auxiliadora, outro bairro privilegiado de Porto
Alegre, ou no Partenon.
de ser brasileiro
nem sempre associada aos gaúchos porque muitas
vezes não é sequer entendida. “É uma ironia que,
muitas vezes, deixa o interlocutor ‘estrangeiro’ des-
e de pensar
concertado, até porque costumamos dizer os maiores
absurdos de modo muito sério, sem deixar explícita
a piada. Mais do que não se ver como brasileiros, a
RESENHAS
REPRODUÇÃO
derrota da
a movimentação do suplicava feito criança literário, mas também o leitor se percebe
pavilhão penal em que para que os demais críticas mordazes de seus enredado numa trama
se encontram cerrados, companheiros de companheiros de luta. implacável, em que
liberdade
atentos ao vaivém infortúnio cedessem Durante a ruídos aparentemente
paradoxalmente fixo espaço para que ele adolescência, iniciou inarticulados de
dos guardas — também metesse a cabeça no sua militância política um mundo infernal
eles aprisionados feito postigo: “eu quero ver na órbita do Partido são vivenciados
José Revueltas e a ficção “macacos” no interior
de caixotes. Peleando
a hora que a mamãe
chegar”, insistia. Afinal,
Comunista Mexicano. Em
1929, antes mesmo de
pela experiência da
palavra encarnada,
como exercício existencial violentamente pelo se Polonio e Albino completar quinze anos, desestabilizada aqui
contra barbárie
espaço para introduzir a haviam selado com ele foi levado à prisão ao e ali pela irrupção
cabeça sobre a prancha uma aliança, devia-se participar de um comício de lampejos do mais
horizontal com que ao fato de que a mãe no Zócalo. Na década profundo lirismo. A
Leonardo Nascimento se fecha o postigo, o do pobre diabo estava de 1930, sua atuação força política da obra
trio anseia mais que disposta a entrar na militante valeu-lhe resulta, sobretudo, de
tudo pela chegada prisão com um pacote de ainda duas temporadas um minucioso trabalho
providencial do “anjo droga metido no corpo; na prisão de segurança com a linguagem,
branco e sem rosto” “liquidado o negócio, máxima das Islas esgarçando-a a um limite
capaz de restituir-lhes o o aleijado que fosse às Marías. Antistalinista e quase sempre bastante
acesso ao próprio corpo, favas, que fosse à puta antidogmático, o escritor arriscado. Por isso, se
sufocado pela torturante que o pariu”. rompeu oficialmente a militância comunista
experiência do cárcere. Como autor do com o Partido Comunista do autor tratou de jogar
Soma-se à lista de plano, Polonio tratou em 1960. Nos anos luz sobre a brutalidade
degradações o horror de convencer a mãe do seguintes, aproximou-se do sistema capitalista,
experimentado por Caralho, afirmando que das marchas, assembleias sua obra ficcional
Polonio e Albino ao com ela as guardas não e ocupações estudantis. nos convida, antes de
serem obrigados a se engraçariam durante Após a violenta repressão tudo, a repolitizarmos
dividir o exíguo espaço a revista. Enfiando-a policial que culminou no o próprio sentido da
com o terceiro homem, num tampão de gaze Massacre de Tlatelolco, literatura, fazendo dela
o Caralho — a quem com um fio levemente em 1968, Revueltas foi um exercício existencial
impuseram tal alcunha para fora, a velha detido e condenado a contra a barbárie.
“porque não valia nem entraria com cerca de 16 anos de prisão. Em
um reverendo caralho trinta gramas da farinha Lecumberri, escreveu a
para nada”. Com um olho providenciada por Chata célebre novela El apando
cego, uma perna aleijada e Mecha, namoradas de (A gaiola), dedicando-a
e portador de tremores Albino e Polonio. Ainda a Pablo Neruda,
que o faziam se arrastar que os homens já não poeta que criticara
de um lado para o outro gozassem do direito à o “existencialismo”
sem nenhuma dignidade, visita, frustrados com a exacerbado de seu
o coitado era famoso na transferência repentina primeiro romance.
prisão pelo costume de para o interior da gaiola, o Libertado dois anos
cortar as veias cada vez plano permanecia de pé. depois, faleceu na Cidade
que o punham na gaiola. Chata, Mecha e do México em 1976.
Sem nunca alcançar a mãe do Caralho Muito além de um
a morte, produzia deveriam entrar no retrato do pavilhão
com isso o escândalo pavilhão confundidas que conheceu ao
necessário para que aos familiares dos chegar em Lecumberri, NOVELA
lhe transferissem para demais presos, para sendo transferido
a enfermaria, “onde então alcançar a gaiola e posteriormente da ala A gaiola
sempre dava um jeito entregar o pacote metido dos “presos comuns” Autor - José Revueltas
de conseguir a droga e no corpo da velha: “o para a ala dos “presos Editora - Editora 34
recomeçar tudo mais pacotinho para alimentar políticos”, poder-se- Páginas - 64
uma vez, cem vezes, mil o vício do filho, como ia dizer que o cárcere Preço - R$ 42
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RESENHAS
EDUARDO AZERÊDO
centro, para
na cidade, no dia a dia do ódio como em modos de viver e pelas regras do
social, na pulsão de nosso rearticulação dos lugares juntos. Esse é um dos inteligível democrático”.
pensamento. O ódio na de fala, das posições pontos abordados por Nessas escritas, como
desordená-lo
ação — a placa em homenagem de enunciação, dos Kiffer em seu ensaio lembra Giorgi — citando
a Marielle Franco destruída por agenciamentos coletivos intitulado O ódio e o desafio Jacques Rancière —, o
dois homens brancos —; o ódio que podem ser lidos nesse da relação: Escrita dos corpos que importa são os
na imagem — a presidenta contexto e as guerras e afecções políticas. No texto, leitores. Os autores são
Ensaístas discutem o ódio Dilma Rousseff com as pernas
abertas, em adesivo automotivo,
de línguas, nas quais se
configuram novas formas
dividido em três “cenas”,
a pesquisadora traça um
figuras, muitas vezes,
anônimas, valendo-se
como força de interferência para que as mangueiras de e circuitos do público, a contexto no qual o ódio de mecanismos externos,
combustível sirvam de objeto exemplo das redes sociais, passa pela compulsão, softwares, cartazes,
política e social fálico com alvo constante —; o dos fóruns de discussão pelas bordas do corpo e instalações, para dizer o
ódio que se segue à palavra online, entre outros. O chega à relação. Destaco que antes era indizível na
Priscilla Campos — Jair Bolsonaro, chefe do Estado ódio, aqui, não é um tanto a última cena como a esfera pública. O ódio em
brasileiro, pronuncia-se sobre a (ou não apenas) uma mais pungente do ensaio vida, em força, em luz,
crescente mortalidade diante da dimensão psicológica, pela sua análise acerca do para todo mundo ver. Uma
pandemia do Covid-19 com um um foco da vida afetiva lugar de fala no Brasil (e sensação enfurecida que
sonoro “E DAÍ?” —; o ódio que da subjetividade, mas nos países colonizados, vai além do gesto e toca
desafoga como insurreição especialmente uma no geral) a partir de na palavra para que se
— os enfrentamentos entre energia e uma intensidade uma leitura de Poétique apreenda, mesmo que em
mulheres e policiais durante as que altera os pactos de la relation, de Édouard fuga, o instante do perigo.
manifestações do 8M. discursivos, os laços Glissant. Por meio de
Como forma de seguir simbólicos […]”. uma citação de Vladimir NOTA
os fluxos dos movimentos Para além do ódio como Safatle em Quando as ruas 1. Ainda na apresentação,
em fúrias estão os ensaios sentimento que resulta de queimam, Kiffer inicia o os autores falam sobre
que compõem Ódios processos desagregadores tópico questionando as “regimes de afecções” que,
políticos e política do ódio: Lutas, e, ao mesmo tempo, dinâmicas que o lugar segundo eles entendem, é o
gestos e escritas do presente, apaixonantes 1, os de fala produz e como a campo de estudo no qual se
lançado pela Bazar do pesquisadores procuram sua formação aparece considera “o universo dos
Tempo e assinado pelos entender quais as maneiras em ondas heterogêneas afetos como sendo da ordem
pesquisadores Ana Kiffer que o nosso corpo (como e não uniformizadas. política e subjetiva”. Assim,
e Gabriel Giorgi. Nos massa coletiva) responde Assim, a relação, como sentimentos de ódio, tristeza,
textos, é debatida uma ao espaço violento e posta aqui, seria uma saída amor e outros não são mais
espécie de narrativa do autoritário que voltou para os aniquilamentos da ordem individual.
ódio e suas continuidades a tornar-se cotidiano da política do ódio e de
como centro de urgências presente no território sua institucionalização no
nas dinâmicas sociais latino-americano. Se governo bolsonarista, por
do Brasil e da Argentina. pensarmos nos estudos exemplo. Para Glissant,
Nos últimos anos, com deleuzianos sobre o a relação implica-se no
o avanço da direita e corpo sem órgãos e suas lugar onde vivemos, para
da extrema direita, os incursões em O antiédipo além do pensamento.
confrontos são expandidos e a sequência de Mil platôs, Mesmo que se chegue
para além do discurso observamos uma fuga no nesse lugar pela errância,
homogêneo “população que diz respeito ao campo pela fuga, como vimos em
versus governo”. Existe algo social. Para Deleuze, a Deleuze. Kiffer termina o
que pulsa e impulsiona sociedade, como corpo, ensaio esbarrando numa
no que diz respeito à determina-se a partir perspectiva de incerteza
transformação política, de seus movimentos de de nos imaginarmos em
algo que caminha pelas desterritorialização. Dessa novos mundos enquanto
bordas pronto para chegar forma, como o ódio nos vivemos neste. O ensaio de ENSAIO
no centro e desordená-lo. impulsiona, no tecido Gabriel Giorgi surge, então,
Na apresentação do social, a reagir (seja no como uma frente que pode Ódios políticos e política do ódio
livro, Kiffer e Giorgi confronto da rua, seja nas responder a essa pergunta. Autores - Ana Kiffer e Gabriel Giorgi
assinalam o tema escritas performáticas, seja Afinal, ainda vivemos em Editora - Bazar do Tempo
que percorre os dois ao longo de um isolamento uma democracia, e, como Páginas - 136
ensaios a partir de uma social, e assim por diante)? esse ódio perpassa por ela, Preço - R$ 44
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ECOPOLÍTICA
Mais do que a passagem tempos de fake news Um debate sensível e cortes de gastos Escrito por Acácio Augusto, Beatriz Scigliano,
do jornalista ao analista pelo WhatsApp); pelo em parte das esquerdas viravam prioridade, Salete Oliveira, Thiago Rodrigues e Edson
das vidas de milhões, entendimento do papel é o legado político de interesses materiais Passetti, Ecopolítica pensa a passagem da
o que se vê em Odeio crucial da cultura Stalin. Não se pode dos trabalhadores eram biopolítica (grosso modo, a disciplina imposta
os indiferentes, seleta (enquanto costume) passar pelo século esquecidos. Os poucos à população pelo poder) apontada por Foucault
de textos de Antonio em um projeto de XX sem falar de sua números sobre o fim para uma ecopolítica, um sistema em que as
Gramsci (1891-1936) ataque ao poder; e, importância para a do período analisado relações de poder vão além das fronteiras dos
escritos em 1917, é o principalmente, por derrocada do nazismo apontam que a distribuição Estados e impõem formas de a racionalidade
entusiasmo absoluto ver um sujeito político e não se pode negar as da alimentação era usada neoliberal passar ao controle de todos os viventes.
com um projeto político. coerente, atuando na opressões que causou. como arma disciplinar Os autores integram o
É possível que um leitor realidade para alcançar O esforço sobre- pelo regime. Também Núcleo de Sociabilidade
dentro do Brasil de suas vontades, que são -humano por trás a rotatividade de operários Libertária (Nu-Sol).
Bolsonaro estranhe a as do socialismo. da autossuficiência nas fábricas e divisões
confiança (não inédita) Seleção, tradução e soviética é o campo internas entre eles
em um projeto político apresentação de Daniela de atuação de Greves no parecem ter contribuído
genuíno, neste caso o Mussi e Alvaro Bianchi. período soviético, de 1922 para o declínio da Autor: Edson Passetti (org.)
socialismo, destinado ao (Igor Gomes) a 1932, do historiador atividade grevista. (I.G.) Editora: Hedra
exercício da verdadeira Kevin Murphy. Parte da Páginas: 476
liberdade — ainda importância conquistada Preço: R$ 79,90
que soe anacrônica a pela URSS na geopolítica
racionalidade granítica mundial vem dessa HISTÓRIA SOCIAL DO LSD NO BRASIL
da “visão geral de autossuficiência. Ao saírem da cadeia, Osmar Ludovico da Silva e o
vida” exposta nesses O Estado empregava australiano Barry John Holohan tinham um plano:
textos. Para além do os trabalhadores e dizia vender LSD no Brasil para comprar cocaína a ser
interesse intelectual defender os interesses vendida na Europa. A partir daí começa o livro do
e de discordâncias de deles. Por que, então, historiador Júlio Delmanto, fruto de sua tese de
ideias, o leitor pode sair havia greves? Entre os doutoramento na USP, em que são investigadas a
revigorado desta obra fatores para o declínio trajetória dos usos recreativos e criativos do ácido
por alguns motivos: pelo da atividade grevista, lisérgico no país (com destaque para poetas como
entusiasmo genuíno com no período em que Roberto Piva), assim como
a política, especialmente Stalin ascendia ao poder, as pesquisas científicas
visto nos textos sobre está o enfraquecimento realizadas com a substância.
a Revolução Russa; ARTIGOS do “contrato social” ARTIGO
pela indicação de uma entre Estado e operários,
ideia de palavra que, Odeio os indiferentes que era invocado Greves no início do período soviético...
lastreada por ações Autor - Antonio Gramsci nas contendas e, Autor - Kevin Murphy Autor: Júlio Delmanto
revolucionárias, seria Editora - Boitempo não raro, beneficiava Editora - Zazie Edições Editora: Elefante
uma “palavra-fato” Páginas - 120 trabalhadores. À medida Páginas - 43 Páginas: 480
(algo estranho em Preço - R$ 37 que produtividade Preço - Gratuito (em zazie.com.br) Preço: R$ 70
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José
CASTELLO www.facebook.com/JoseCastello.escritor
HANA LUZIA