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ana paula maia

a guerra dos bastardos


Copyright © 2007 Ana Paula Maia.

Coordenação geral
José Eduardo Agualusa

Editor
Eduardo Coelho

Capa e projeto gráfico


Rico Lins

Revisão
Ana Paula Belchor
André Marinho

Foto
Matze Hoby

Editoração
Leandro Collares (Selênia Serviços)

Qualquer semelhança com pessoas ou fatos é mera coincidência.

CIP BRASIL – DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO | CÂMARA BRASILEIRA DO


LIVRO - SP

Maia, Ana Paula.


Gerra dos bastardos / Ana Paula Maia. – Rio de Janeiro :
Língua Geral, 2007. – (Coleção ponta-de-lança)

ISBN 978-85-60160-10-5

1. Romance brasileiro. I. Título. II. Série.


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Todos os direitos desta edição reservados à


Lingua Geral Livros Ltda.
R. Jardim Botânico, 600/gr. 501-503
Rio de Janeiro - RJ 22461-000
Tel: (21) 2259-3108
Fax: (21) 2259-3240
ponta-de-lança

A presente coleção pretende dar a conhecer aos leitores brasileiros vozes novas, ou ainda pouco
conhecidas, algumas geradas muito perto de si, outras vindas de longe, de África, da Ásia, da
Europa, todas, porém, expressandose no nosso idioma. Vozes que são testemunho da vitalidade das
culturas de língua portuguesa, e em particular das literaturas desses países, e também da
extraordinária riqueza da nossa língua e do muito que nos aproxima. Não se entende o Brasil sem a
África ou Portugal, da mesma maneira que não se entende Angola ou Cabo Verde sem a participação
do Brasil. Venha partilhar conosco esta aventura. A porta está aberta. A casa é sua.
sumário

Copyright
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Aos degenerados, desmedidos e renegados.
… que coisa mais estranha a realidade do mundo desolado e infinito, que não tem destino,
significado, nem centro, e o doce e minúsculo lago do espírito.

Jack Kerouac, Livro dos sonhos.

… para mim é comum donde eu comece;


pois aí de novo chegarei de volta.

Proclo.
Prólogo
O calor conserva no ar o cheiro podre, espalha ardente desgraça dos últimos dias quentes de
primavera. Que coisa mais estranha é a realidade do mundo desolado. O outono, quando chega, ajuda
a derrubar as lembranças e a secar suas folhas; desnuda os galhos da memória.
Por que diabo me preocupo tanto? Porque ainda estamos em dias quentes; as estações não querem
transitar, não querem se dissipar. Espero pelo inverno, um inverno sulista que congele mentes, almas
e corpos. Que transforme a cidade em uma banquisa.
O homem, um microcosmo, alguém disse; em expansão para o caos, eu digo. Enquanto nos
alargamos, esticamos os breves instantes, as decisões fatais, de não nos intrometermos em nada, pra
não desencadear o caos da expansão. Antes de tudo isso, eu era apenas um funcionário frustrado e
mal-humorado trabalhando numa videolocadora. “Ei, Dimitri”, eu falava pra mim. “Isso tem que
mudar, meu chapa.” Alguma coisa tinha que acontecer e alguém distante iria interferir de modo não
muito discreto em minha vida. Agora sou um pouco mais mal-humorado, a frustração ganhou
proporções que não caberiam aqui, porém agora ganho sete vezes mais. É, dá pra viver com a parte
ruim.
Mas estou longe de ser o protagonista nisso tudo, que nada, apenas um personagenzinho um tanto
apagado, mas alguém precisa fazer isso, contar toda a história. Eu poderia ter deixado de lado, mas o
que há pra se fazer enquanto assisto através da janela a cordilheira dos Andes desabar violenta no
mar? Deixei o Sudeste escaldante do Brasil e atingi a extremidade do sul da Argentina. A cidade do
fim do mundo, Ushuaia, no extremo sul; gelado e desolado da Terra do Fogo.
Juro que, mesmo daqui, ainda é possível sentir o cheiro podre, e enquanto espero pela porcaria
do inverno e pela neve que verei pela primeira vez, escrevo trancado neste quarto e me questionando
que, se os olhos são testemunhas mais exatas que os ouvidos, as palavras então trazem aos olhos e
aos ouvidos através da boca uma maneira mais convincente de contar tudo, ou estaria eu enganado?
Capítulo 1

O molho de chaves cai três vezes sobre o piso de quadradinhos do quinto andar, antes que
Amadeu acerte a fechadura e abra a porta; após algumas tentativas, contém o corpo trêmulo sob o
controle da mão suada.
Entra em seu apartamento, bate a porta e arria os quadris, apoiando as mãos na cabeça. O peito
pulsa arfante, tanto que dói respirar. Olha fixo para a bolsa que acabou de jogar no chão. As gotas de
suor recuam da face, a palidez é levemente ruborizada pelo sangue que novamente circula sem se
obstruir pela tensão. Talvez tenha permanecido ali agachado por dez minutos ou uma hora, mas de
tempo em tempo toca a bolsa, fecha os olhos e retorna à realidade com uma expressão truculenta.
Levanta-se e digita um número no telefone, mas, antes mesmo de concluir, desliga. Na cozinha,
toma um litro d’água no gargalo e encontra migalhas de pão boiando em toda a dimensão da garrafa.
Dessa vez não se importa. Fecha os olhos. A água desliza pela garganta ressequida, novamente o
coração palpita, o rosto queima pela agitação do sangue nas veias, disparada pelas últimas imagens
que vêm à tona.

***

Oito horas e sete minutos. Lá está o sujeito que faria toda a diferença, interferindo nos espaços
caóticos dos outros, como no meu caso. Amadeu é o nome dele. Caminha agitado, pisando duro e
balbuciando como um lunático o discurso que preparou em casa. Péssimo discurso, mas disso não
vou falar, não vem ao caso, até porque esse puto só abrirá a boca para gemer de pavor. Demonstra
certa aflição que tenta esconder sob uma fina camada de esperança, enquanto percorre o Centro da
cidade. Há dois anos trabalha como ator pornô nos estúdios de Zeferino Manches e nunca teve
problemas de espécie alguma no trabalho. Ganha razoável, o correspondente ao tamanho do seu
pênis. Razoável no tamanho, mas potente em ação. Quase um trabalho escravo, forçado muitas vezes,
mas era muito melhor do que carregar caixas em supermercados, dar banhos em cachorros, lavar
pratos em cozinhas imundas e faxinar banheiros masculinos em universidades. Não era gay. Só fazia
filmes com mulheres. Única observação destacada, grifada e ampliada no contrato. Só com mulheres.
Por causa de uma, está disposto a pedir empréstimo a Salvatore, homem de confiança de Zeferino,
responsável pelo dinheiro das produções, pagamentos e contratações. Salvatore, durante muito
tempo, ganhou a vida aplicando golpes em corretoras de seguro, senhoras aposentadas e saques a
cargas de caminhões pelo país. Pelo seu bom comportamento e seu passado longe de delegacias,
Amadeu acredita nesta fina camada de esperança. Tola crença, ele jamais lhe emprestaria um
centavo, nem a ele nem a ninguém. Salvatore não empresta, ele dá; quando quer alguma coisa ele
manda pegar, nunca pede. Ótimo sujeito. Talvez um dia eu fique como ele.
Dentro do velho prédio que range o assoalho, entre choro de criança, cheiro de urina e éter,
Amadeu entra numa estreita fila diante do elevador do qual todas as pessoas sairão no segundo andar
para irem ao laboratório de análises clínicas. É uma fila desgraçada. Ela faria qualquer um subir
pelas escadas, mas quando resolve desistir do elevador, ele chega e lhe abre as portas. Dentro está
escrito, num cartaz verde e amarelo, de forte apelo político patriótico, algumas benfeitorias do atual
governo: “O resultado de nosso esforço está em suas mãos”, e ali cada um carregando seus próprios
excrementos em potinhos de plástico. Mas Amadeu não percebe a piada. Ele está mergulhado em seu
péssimo discurso escrito às pressas.
O sexto andar está deserto e a pouca iluminação que entrecorta o único e extenso corredor vem de
três pequenos basculantes. O expediente de funcionamento de todos os escritórios começará dentro
de meia hora, mas antes esperar diante da porta de Salvatore a perambular desperdiçando tempo. Ali
parado, tomará mais coragem.
Diante do número 604, a porta entreaberta lhe causa uma ruga entre as sobrancelhas. Não espera
entrar naquele instante, não está preparado, com o texto afiado. Por outro lado, respira fundo e entra
silencioso. A recepção está vazia e úmida, decorada por antigas poltronas, carpete mofado e alguns
pombos pousados no parapeito da janela. Pode ouvir vozes vindas da sala de Salvatore e decide
permanecer diante da porta com o ouvido colado.

***

“Na banheira de hidromassagem? Que desgraçado.”


Salvatore está sentado atrás de uma mesa e ajeita-se na cadeira antes de confirmar a pergunta do
homem que está à sua frente. Salvatore tem cerca de sessenta anos, tato e paladar afiados. Um tipo
bastante dissimulado e geometricamente equilibrado nas suas decisões.
“Deu dois tiros na mulher. Um, bem aqui no meio da testa. Pow! O outro, no coração. Acredite, o
silicone explodiu. Litros e mais litros sendo despejados na banheira”, diz Salvatore. “Ele olhava
pr’aquilo tudo escorrendo e imaginava a fortuna que jorrava dos peitos da vaca.”
O velho cão está de ótimo humor nesta manhã, o que não é raro. “E o sujeito? Que fim levou?”
“Ele deixou escapar”, responde. “Mas antes mandou que ele mamasse nos peitos da mulher morta.
Que chupasse todo o silicone”, diz Salvatore, cortando a extremidade de um charuto com uma
guilhotina. “Deve ter morrido envenenado, o desgraçado.” “Ou criado tetas”, finaliza o homem à sua
frente.
Salvatore, sentado sob a luz amarela do abajur, toma em pequenos goles uma xícara de café e
come um pedaço de bolo de laranja. Na sua frente está Aluísio, capaz de fazer qualquer coisa, entrar
ou sair do país, até mesmo no rabo de Greice Sally, sua mulher, estrela de filmes pornôs, cuja bunda
era a escada de emergência em certas transações do Aluísio. Aquela bunda lhe causava orgulho e
cruzava oceanos transportando verdadeiras fortunas em pedras preciosas, microfilmes e chipes de
computador. Devido às informações contidas na cavidade anal, um presidente fora deposto.
Conspiratória, terrorista e espiã. Há alguns anos, vinha administrando o traseiro da mulher com
apuro. O melhor papel higiênico, assentos confortáveis com revestimento acolchoado, massagens,
drenagem linfática e práticas diárias de pompoarismo.
“Digamos …”, Salvatore ajeita os óculos, “… que o senhor Zeferino esteja interessado em outros
negociadores. Apenas uma suposição, é claro.” Aluísio seguramente responde não acreditar ser
possível existir pessoa melhor. “Claro, claro”, é tudo que diz Salvatore antes de dar mais algumas
tragadas em seu charuto, um proeminente Churchill verde-amarelado.
Aluísio abre uma maleta prateada sobre a mesa. Está vazia. “Salvatore, meu velho, hoje você está
terrível. Que humor filho da mãe!” Salvatore levanta as sobrancelhas e contrai os lábios cinicamente.
“Ué, está vazia? Pombos de merda, esses” — aponta para a janela. “Devem ter comido seu dinheiro
achando que fossem migalhas. Nunca ficam satisfeitos. Um bando de esfomeados.”
Levanta-se e coloca sobre o parapeito da janela algumas migalhas do bolo de laranja, enquanto
arrulha para as aves. Aluísio, calado, assiste aos gestos delicados de Salvatore, que quanto mais
carinho demonstra pelas aves, mais truculento lhe parece ser. Ameaça levantar-se, mas ele faz sinal
para que permaneça sentado.
“É incrível como esses bichos se proliferam”, exclama Salvatore impressionado. “Enquanto os
ratos cuidam dos esgotos, do asfalto, das brechas subterrâneas, marginalizados, surrupiando restos
em lixeiras e valas, os pombos dominam os topos: igrejas, torres, telhados, postes. Nos espreitam do
alto, quando não descem e caminham entre nós, ganham migalhas de nossas mãos e retribuem
cagando em nossas cabeças. Um bando de ingratos, não é mesmo?”
Aluísio, de olhar arriado, espreme os dedos. “Eu não tive intenção premeditada, Salvatore, foi um
erro, eu sei, eu tive uma fraqueza. Uma fraqueza sim”, diz Aluísio, nervoso. “Uma fraqueza muito
dispendiosa, não acha?”, retruca Salvatore. “Quero pagar cada centavo. Devolver todo o dinheiro.”
Ameaça novamente se levantar. Outro gesto de Salvatore o sossega.
“Esta maleta vazia? Teu pagamento. Contenção de despesas, redução da folha de pagamento,
coisas desagradáveis que só os ratos que chafurdam nos esgotos sabem fazer. É uma pena mesmo,
Aluísio, você é muito bom, mas não deixa de ser como essas malditas aves. Come em nossa mão e
caga em nossa cabeça.”

O impacto do disparo abafado pelo silenciador joga o corpo de Aluísio para trás. O chão
estremece até os pés de Amadeu.
Salvatore se debruça com dificuldades sobre o corpo de Aluísio. Verifica a pulsação. Enquanto
se coloca de pé, pensa na maldita idade, no peso do próprio corpo, que precisa se cuidar melhor,
praticar alguns exercícios. Dá a última golada em seu café, que já está frio, e telefona. “Já está feito.
Tenho massagista marcado pra daqui a meia hora. Não demore.”
A oscilação da voz lhe permite compreender palavras desconexas, separadas por burburinhos e
pelo arrulhamento dos pombos no parapeito da janela da recepção. Mas pode ouvir com clareza: “Já
está feito” e “Não demora”.
Amadeu permanece firme diante da porta. Olha as horas e provavelmente a secretária chegará em
breve. Não sabe que naquele dia ela está de folga. Pensa em ir embora, porque teme que a porta seja
aberta. Sente fustigar-lhe a alma, espreme os dedos, ofegante e assustado. É péssimo em
improvisação, mas arrisca-se. Cola novamente o ouvido à porta.

Salvatore sente-se sufocado e desabotoa a camisa. Abre a outra banda da janela e respira com
muita dificuldade. Sabe que em dez minutos alguém virá recolher Aluísio. Depois terá todo o dia de
folga. Mas esse mal-estar não faz parte de seus planos. Os pombos circulam agitados no parapeito.
São aves negras e cinzas. Não há brancura ou paz naqueles animais.
Olha para Aluísio estendido no chão, aproxima-se do corpo. Que trabalho limpo! A perfuração na
testa lhe parece um círculo perfeito e o semblante do homem é de serenidade. Salvatore descobriu
que, ao morrer uma pessoa, basta olhar por alguns minutos o seu semblante. Se estiver contraído,
graças aos céus por ter morrido: é um verdadeiro cão disfarçado. Se for sereno, era alguém
equivocado: mal premeditado. Ali estava um bom homem, é isso que Aluísio era, um homem mal
premeditado, e sente-se confortado por ele nunca ter descoberto o caso de Greice Sally com Zeferino
Manches. Um conforto que guarda para si.
Uma pontada aguda no lado esquerdo do peito, que se eleva com mais intensidade, crescente até o
braço. Parte de seu corpo se torna imóvel, despenca no chão emitindo alguns grunhindos e em poucos
segundos não respira mais. Fulminante. Implacável. Seu semblante contraído, retorcido.
A segunda queda faz trepidar ainda mais violentamente o piso do escritório. Amadeu espera um
pouco, acompanhando o ponteiro do relógio. Abre a porta do escritório. Com um buraco na testa,
Aluísio caído no chão; parte do corpo pendurado sobre a cadeira. Com a boca retorcida e o
semblante contraído de horror, Salvatore estendido atrás da mesa. Na janela, dois pombos negros
espiam os acontecimentos, andando de um lado para o outro.
Com a mão na boca, suspende a ânsia de vômito. A maleta aberta e vazia permanece respingada
de sangue sobre a mesa. No chão, próxima aos pés de Salvatore, uma bolsa de náilon vermelha semi-
aberta. Amadeu abaixa-se para abrí-la e, numa primeira revista, não lhe diz nada. São pacotes
pequenos e bem fechados, pacotes que ainda não sabe, mas mudarão algumas vidas, pacotes que
quando ele abrir entenderá do que se trata. Amadeu e seu delicado defeito de lentidão de raciocínio.
Olha para os corpos. Em trinta segundos revive todos os seus grandes momentos. Todos os cães
que lavou, as privadas que faxinou, os descontos em seu salário por pratos quebrados, as caixas que
empilhou em supermercados, as vagabundas em que metia todas as semanas, as bocas que chupavam
seu razoável pênis e principalmente a mulher que o levou até ali. Trinta segundos foram o suficiente
para acreditar na providência divina e naqueles pacotinhos brancos dentro da bolsa vermelha. Era a
boa sorte que lhe sorria, cheia de dentes, com uma boca carnuda. Não é certo fazer aquilo, mas o que
haveria de ser certo em sua vida até então? Creditou pontos incertos em toda sua trajetória e poria
um fim apossando-se da sorte, ainda que ilegal.
“Já está feito. Não demora.” Alguém chegará para limpar toda essa bagunça. Salvatore, morto,
criará uma tremenda agitação. Uma única chance, ainda que fosse daquela maneira. Olhando os dois
homens estendidos no chão, sabe que não é uma tragédia. Quantos outros eles não mataram,
enganaram, roubaram. Pensando dessa forma, tudo se torna mais simples, acompanhado de certa dose
de coragem. Definitivamente, não é problema seu.
Apanha a bolsa, joga-a sobre os ombros e começa a esfregar com a ponta da camisa possíveis
lugares que tenha tocado. Limpa a maçaneta da porta da sala de Salvatore e a da porta da recepção,
tendo o cuidado de deixá-la semi-aberta, exatamente como a encontrou.
O toque de saltos contra o piso e batidas de portas ecoam pelo corredor do sexto andar. Diante do
elevador, opta pelas escadas. Quando alcança o terceiro andar, um homem alto, cerca de 35 anos,
bem-arrumado, vestindo calças e paletó pretos, de olhar severo, o encara por alguns instantes
enquanto sobe as escadas sem pressa.
Amadeu, disparado pelos degraus, escorrega três vezes até atingir o térreo. Atravessa a rua e
entra no primeiro táxi que pára. Vira a cabeça e lança um último olhar para a entrada do prédio. O
táxi detém-se no sinal vermelho, emparelhado com os demais carros. Respira aliviado, até o instante
em que vê o homem bem vestido na porta do prédio lançando olhares em todas as direções. O sinal
abre e o táxi avança. Agarra a bolsa vermelha contra o peito e sente o coração bater através de cada
pacotinho trespassando o náilon.

***
Amadeu abre a torneira da pia da cozinha e deixa o jato d’água bater com força em sua nuca e se
desviar por caminhos errantes entre seus cabelos até encontrar seu rosto suado. Desliga a torneira,
escorre o excesso da água e retorna à sala, cambaleante. Torna-se alerta novamente, quando seus
ouvidos captam o seco estilhaçar de um jarro de vidro contra o chão que faz eco dentro de sua
cabeça. Abaixa-se e recolhe os cacos maiores, varrendo com os pés os mínimos para debaixo do
sofá.
Diante do telefone, outra euforia, mais forte e decidida. Apanha-o e digita o mesmo número de
antes. “Eu consegui. Preciso resolver algumas coisas antes de falar com você, mas espere que eu
ligo. Amo você. Na hora certa, eu te acho. Apaga logo esta mensagem.”
Uma bolsa de viagem é pinçada do fundo do armário e preenchida com duas calças, camisas,
sapatos, vídeos, CDS e tudo que encontra pela frente. Ele divide o apartamento com outro sujeito, que
permanece dormindo no quarto ao lado. Deixa R$ 400,00 e um bilhete sobre a mesa da sala:
“Precisei viajar. Aqui está minha parte das despesas. Um abraço, Amadeu.”
Corre novamente até o quarto e retira de um porta-retrato a foto de uma mulher e, com um
isqueiro, queima-a dentro do tanque de lavar roupas. Enquanto a foto é consumida, o rosto da mulher
torna-se enrugado e deformado, causando certo horror. Um dragão vermelho que envolve todo o
corpo, começando um pouco abaixo da nuca e terminando com a cauda no umbigo. O único dragão
com piercing no rabo que cospe um cabelo vermelho-sangrento. Ela arde em brasa, é o que sempre
diz.
Alisa o isqueiro, gravado com o mesmo dragão e uma inscrição na parte inferior: “Para dissipar o
tempo.” Amadeu não fuma, mas ela havia lhe dado o isqueiro de presente, duas semanas antes, para
que controlasse os cigarros dela, que talvez assim conseguisse parar de fumar.
Encarando os olhos expressivos da mulher, perdidos entre as mechas vermelhas do cabelo,
apaga-o antes que tudo se consuma, e guarda no bolso da calça um pedacinho da foto. Seus olhos e
seus cabelos vermelhos.
As cinzas são lavadas pela água da torneira. Ele apanha as duas bolsas. Novamente a porta é
fechada num segundo golpe, que ecoa pelo corredor deserto do quinto andar. Pela terceira vez,
naquela manhã, ele estremece dos pés à cabeça.
Capítulo 2

“Não jogue seu lixo no meu portão, seu argentino filho de uma puta.” Stefano Lozonni, grita para
o sujeito que mora ao lado. É mesmo um argentino filho-da-puta. “La puta madre que te parió,
carcamano”, responde. Na verdade responde a tudo com um puta madre que te parió, ainda que de
forma gentil.
Lozonni, um velho cheio de adjetivos pejorativos, não era menos filho-da-puta, só que de grande
espírito. A vizinhança o odiava e ele odiava a vizinhança. Morava sozinho naquela casa e pouco se
sabia a seu respeito. Fez sua mudança durante a noite, entrando madrugada adentro. Era como o
conde Drácula: pálido, voz gutural reverberante, deslizando pelas penumbras, escondendo-se do sol.
Especulava-se centenas de coisas a seu respeito. Sofria de uma doença no sangue por ter devorado
uma ratazana ainda viva que costumava perambular pelo quintal, revirando o lixo e brigando com os
gatos da casa ao lado. Nada a matava. Sua força descomunal trouxe certo pânico ao trucidar a
garganta de seu cão pastor, por isso ele a chamava de “Rasputin”.
Colocava-se no quintal durante horas à espera da ratazana, ao lado de uma garrafa contendo uma
mistura de bebidas fortes com uma buchinha no gargalo; na outra mão, um isqueiro. De tanto esperar,
adormeceu sentado, em uma cadeira de balanço, com os braços levemente apoiados nela. Seu
antebraço esquerdo foi seqüelado ainda na juventude, após uma doença que o fez perder totalmente a
sensibilidade.
Um suave tilintar de sininhos angelicais ecoava à sua volta, acompanhado de um forte odor
férrico. Ao acordar, uma cavidade rasgada em seu antebraço, os dentinhos cravados na carne até os
ossos, lambuzada de sangue morno, os olhinhos brilhando no princípio das trevas, fezes, sangue e
saliva dentro da ferida exposta com as veias arrebentadas e corroídas fluindo através da garganta de
Rasputin. De supetão, lançou-a à distância e em seguida a mistura explosiva atingiu a ratazana que
corria incinerada pelo quintal, enfurecida, e desapareceu como a hora crepuscular pondo-se em
alguma cavidade subterrânea.
Até que um dia Rasputin entrou em casa, devorou uma banana, restos do almoço sobre a pia e um
precioso exemplar de Dom Quixote, presente de um tal duque. Quando a alcançou, o ódio de Lozonni
era tamanho que a despedaçou com os dentes, gritando: “Nem os gigantes, nem os moinhos o
mataram. Nem os gigantes, nem os moinhos o mataram.”
A confusão e os falatórios quase indecifráveis terminam apagando o sorriso de Horácio, que,
diante da janela, contempla a vizinhança enquanto devora uma tigela de cereais e murmura para si:
“Velho maluco.” Ele volta a atenção para o seu serrote, de onde tira, com um arco de violino, uma
melodia forte e indecifrável. Mais uma colherada de cereais, algumas melodias no serrote e o
telefone toca.

Horácio mora no segundo andar de um prédio de quatro andares em frente à casa de Lozonni,
dando vista exatamente para a janela do sótão que continua ostentando a placa ALUGA-SE, já com
indícios de desbotamento. Anda preocupado com sua atual condição de não ter com quem dividir as
despesas do mês. Não conhece uma pessoa sequer que conheça outra pessoa que esteja precisando de
um lugar para morar. O mês anda em baixa, todos já têm um lugar.
Ele não sabe, mas hoje à tarde irá receber mais uma cobrança da imobiliária. Talvez ele mesmo
alugue o pequeno pardieiro infestado que vem contemplando diariamente.
Nenhuma mudança significativa em seu horizonte, que continua a oferecer aquela porcaria de casa
velha e o seu sótão. Pensa que viver dignamente é ter, no mínimo, um horizonte, uma vista. Lá em
cima, nos morros superpovoados, há a constante ameaça da violência, porém uma vista privilegiada.
Se conseguir coragem e ninguém com quem dividir o apartamento, irá mudar-se para uma favela. A
ameaça é constante, tanto em cima quanto embaixo, mas lá pelo menos há uma vista, um horizonte
vasto. É disso que Horácio precisa, vastidão.
Antes de atender ao insistente telefone, ele despeja restos de cereais no parapeito da janela que
reúne três pombos famintos com os olhos esbugalhados e as cabeças serelepes.
É assistente da produtora e diretora de cinema Edwiges D’Lambert, que nesse momento produz e
dirige mais um de seus sucessos assistidos por meia dúzia de pessoas. Edwiges é bem famosa, de
modo restrito, entre atores, cineastas e críticos boêmios. Fizera alguns filmes pelo mundo que
rapidamente caíram no gosto dessa mesma meia dúzia de pessoas que assistiriam ao próximo e
tornou-se um gênero, uma referência cult, admirada.
Após repetir alguns “sins” e “nãos” de maneira entediada, desliga o telefone e senta-se no sofá da
sala e em seguida liga a televisão através do controle remoto. É preciso que saia em 15 minutos,
desça os dois andares do prédio, caminhe cinco minutos até o ponto de ônibus e espere mais alguns
pelo mesmo; chegue ao set de filmagens e tenha um longo dia e tarde e noite pela frente, somados a
todos os imprevistos fatídicos possíveis que podem ocorrer num dia de sorte, sem grandes
transtornos. Está esgotado com a precária vida que leva, com a falta de tempo, desdobrando-se para
manter aquele apartamento com o pouco que ganha até encontrar um novo colega com quem dividir as
despesas. Ainda sofre com aquela maldita infiltração no teto da sala, uma goteira sistemática na
direção do sofá, agora arredado para frente, uma tigela no chão aparando os pingos constantes dia e
noite. Espera que o morador do apartamento de cima retorne de sua viagem pela Europa, em
excursão com uma orquestra sinfônica. Horácio gostaria de tocar numa orquestra sinfônica, gostaria
de tocar algum instrumento possante como a tuba. Aprendeu a tocar serrote na adolescência com um
marceneiro que dava aulas de música de graça. Queria ter aprendido violino, mas como não havia
dinheiro para um, o serrote foi um meio versátil e interessante de se fazer música.
Entrou para o cinema como eletricista e havia passado por muitos cargos até chegar ao de
assistente de produção. Acreditava que o cinema enriquecia as pessoas. Idéia controvertida de um
garoto pobre criado num subúrbio isolado. Está decidido em mudar de ramo, desde que haja um
financiador para tal desvio de caminho. Acha-se muito velho para se dedicar à música e ficaria tão
frustrado quanto agora. Enquanto não se decide, pensa numa forma de ganhar dinheiro mais
rapidamente e não se enfadar tanto com seu trabalho.

Horácio apanha um punhado de cravos-da-índia no armário da cozinha e leva alguns à boca. Não
mastiga, apenas deixa-os lá, espalhados, escondidos debaixo da língua, nas laterais, nas pequenas
dunas que existem dentro de uma boca, sob um céu arqueado.
Veste uma camisa, calça os tênis, apanha a mochila e desce fatigado as escadas do prédio. Pensa
que talvez fosse melhor terem um porteiro, alguém para quem dizer bom-dia, até logo, como vai;
alguém que reportasse a tabela de resultados dos jogos de futebol, descrevesse os melhores lances,
as injustiças em campo e que torcesse pelo mesmo time que ele. O porteiro humaniza o edifício, além
de ser o elo entre os moradores, aquele que tudo sabe, que tudo ouve e vê, ou seja, um verdadeiro
equipamento de vigilância mantido com baixo salário, café e radinho de pilha.
Há muita paz ali: as escadas de mármore branco, as paredes frias e o silêncio sugerem ausência
de vida. Não fosse pelo piano do vizinho do terceiro andar e alguns encontros ocasionais com dona
Elza, uma senhora viúva, ele acreditaria ser o único respirando ali. Definitivamente precisam de um
porteiro.
Atravessa a rua. Ao virar apressado a esquina, esbarra em um homem que confere a numeração
dos prédios. Desculpas. “Amadeu é você?” É o que ele diz. Sim, é ele mesmo. Amadeu, o homem
que quer permanecer incógnito por alguns dias, pelo menos. Horácio olha o jornal que ele segura,
com alguns círculos feitos à caneta vermelha. Horácio, precipitado, apanha o jornal e confirma: “É
aqui mesmo. Logo ali, no velho doido. Tem uma placa lá em cima. Eu moro logo em frente, ali ô,
aqui é mesmo muito sossegado, se é isso que você procura”, diz Horácio, desenfreado. É exatamente
o que procura, há mesmo muita paz ali. “Tô atrasado, senão eu ia com você lá. Me parece um ótimo
lugar”, e despede-se. Horácio não entende por que disse aquilo, um ótimo lugar. Um pardieiro, um
ninho de pombos, mas essas gentilezas não se explicam. São convencionalismos culturais, a gente
simplesmente abre a boca e fala. Não raciocina. É uma reação emocional, não queremos que o outro
fique decepcionado.
Horácio detém suas passadas. “O quê que eu tô fazendo”, ele pensa. Algumas linhas atrás eu dizia
que ele reclamava de não ter com quem dividir as despesas. Agora, ali, bem na sua frente, um sujeito
com boas referências precisando de um lugar. Olha para o céu e pensa na providência divina ou
coisa que o valha. Não poderia deixar escapar essa oportunidade, Amadeu salvaria o seu mês. O
único sem-teto da cidade disposto a pagar por um lugar. Ele já havia empacotado até mesmo algumas
coisas e pensado em vender outras. Mas ali estava sua única chance. Amadeu, definitivamente, o
salvaria.
Checa as horas e avança na direção que segue para a casa de Lozonni. “Ei, Amadeu, eu tenho um
lugar sobrando. Tudo mobiliado e a gente divide as despesas.” Antes de responder, Amadeu passeia
com os olhos ao redor, faz cara de que talvez não seja uma boa idéia e segura com mais força a bolsa
vermelha. “Eu menti”, diz Horácio. “Não me parece ser um ótimo lugar coisa nenhuma, na verdade
esse sótão não se parece com lugar nenhum.” Horácio, muito ansioso, checa as horas novamente.
“Que se dane, já tô atrasado mesmo. Vamos subir, você dá uma olhada e eu tenho certeza de que você
vai gostar”, ele conclui muito esperançoso.

O que se há de fazer? Lá vai Amadeu andando lado a lado com Horácio, que não cala a boca, e
aquela verborragia soa como uma ejaculação desmedida. Entram no apartamento, mas Amadeu está
mesmo preocupado com a bolsa. Para ele, não lhe parece haver lugar seguro. Horácio é um bom
sujeito, mas um tipo intrometido que por melhor coração e caráter … por Deus, estamos falando de
muito dinheiro. Haveria lugar para bom caráter quando uma coisa dessas está em jogo? Acho que
não.
“Amadeu, faz o seguinte”, diz Horácio, destacando do seu molho de chaves uma delas. “Você fica
aqui um pouco. Sinta o lugar. Pode até descansar se quiser. Pela tua cara, tá precisando. Essa é a
chave da porta lá de baixo. Aqui só temos uma saída, que é essa”, Horácio aponta para a porta da
sala. “Se não gostar daqui, e não sei a que horas volto, você bate a porta da sala, que tranca sozinha,
e abre o portão lá embaixo com essa chave. Depois não esqueça de jogá-la por cima do muro, certo?
Não esquenta comigo, eu tenho uma cópia.” Horácio vira-se e bate a porta, resmungando seus
atrasos.
Amadeu só responde com um aceno vago. Fica impotente diante de Horácio. Como não concordar
com um sujeito como esse? Se fosse mulher, Amadeu certamente iria para a cama com ele, o tipo
determinado que resolve tudo bem rápido. E tudo que ele teria que fazer seria abrirlhe as pernas
sempre que pedisse. “As mulheres são mesmo sortudas”, pensa, e ele estava ali por causa de uma.

Amadeu perambula um pouco pelo apartamento. Procura a origem do cheiro de mofo e encontra-a
atrás do sofá, transbordando sobre o carpete. Cuidadosamente, leva a tigela até a cozinha e despeja a
água dentro da pia.
O quarto vago é prático, com uma cama, armário embutido e uma mesa com cadeira. Leva suas
coisas para o quarto, tira os sapatos e deita-se na cama abraçado à bolsa. Está mesmo cansado.
Dorme por três horas. Quando acorda, o silêncio continua e o cheiro de mofo também. Segue até a
janela da sala e empurra as duas bandas que estão mal fechadas. Lá está o seu quase esconderijo no
horizonte limitado que se tem daquela janela. Respira fundo. O resfriamento temporário do ar,
causado pela tempestade que agora revela-se em forma de chuviscos, lhe dá certa paz de espírito.
Pensa em usar o telefone, mas ainda não. Amadeu acredita que deve ligar para ela quando tudo
estiver resolvido. É isto o que um homem de verdade faz: ele desata nós.
Vai até o quarto e a bolsa está em cima da cama. Abre o zíper e é mesmo assustador vislumbrar
aquilo tudo, porque indica que sua vida vai mudar, e por que não experimentar um pouco dessa
sensação no seu estado bruto? Amadeu perfura um dos pacotes, que pesa quase meio quilo cada um.
Com a ponta de uma colher, retira um punhadinho. Lacra novamente o pacote com a ponta da fita
adesiva e deposita sobre a mesa do quarto o punhadinho branco, aquela pequena montanha mágica.
Pela primeira vez, desceria por ela, esquiaria por suas depressões, esquivaria-se de suas falhas.
Com o cabo da colher, a montanha transforma-se em trilhas paralelas e consegue construir três
fileiras curtas. São trilhas breves. Limitadas como a vida. Pensa por onde começar. Qual dos
caminhos ele deve escolher. Tapa a narina direita e arrasta, como um porco, o focinho sobre a mesa.
Absorve o estado bruto da liberdade, da mudança, e apaga da mesa os três caminhos que criou. A
primeira coisa que pensa é que não há mais caminhos ou rastros, ele os absorveu e torna-se o
próprio, o dono de suas trilhas.
Aquilo é nocivo e doce feito mel apodrecido. Está com fome e devoraria qualquer substância
orgânica nessa hora. Não almoçou e não se lembra de ter comido nada durante todo o dia. Talvez
agora tivesse um almoço.

Fecha o zíper da bolsa e anda pelos cômodos com a alça dela entrelaçada no pulso esquerdo. Ele
está agitado. Não é simples recuperar-se da descida de uma montanha mágica como aquela. É mesmo
uma descida extravagante. Mas está intacto, e diante dele, do outro lado da rua, um sótão com alguns
pombos circulando ao redor. Aquela descida deixa qualquer um sentindo-se imortal.
Atravessa a rua e bate no portão de Lozonni. Bate duas, três vezes. Está impaciente e sente uma
corrente elétrica nas veias. Lozonni abre a porta, vestindo um avental ensangüentado e segurando um
cutelo igualmente manchado de sangue. A descida foi maior do que imaginou, ele pensa. “Senhor,
senhor, senhor”, e ele engasga, não sai uma palavra sequer, mas aponta para o sótão e é o suficiente
para Lozonni entender. “Vem comigo”, diz o velho. “Ir com ele”, balbucia Amadeu para si. “Ir com
ele?” Lozonni não olha para trás e segue para os fundos da casa, onde fica a escada para o sótão.
Numa mesa debaixo de uma cobertura de telhas de amianto é onde jaz o garrote desmembrado. A
cabeça no primeiro degrau da escada muge um horror silencioso. O velho permanece cutilando
incessantemente o animal entre o fedor, moscas e gatos. “Pode subir aí”, diz o velho. “A porta tá
aberta. Tá sempre aberta. Mas não vá pensando em luxo, meu rapaz, aqui não há lugar pra isso.
Temos um sótão, se quiser luxo procure um hotel.” E torna-se imerso nas investidas contra o garrote.
Amadeu sobe os degraus apressado, atravessa a porta do sótão e fecha-se lá dentro. As paredes
forradas com papel azul, azul-céu inebriante, o acolhem e sente aliviar aquele instante de raro pavor.
Ainda sente-se imortal diante daquele pequeno céu artificial cujos limites são o rebaixamento de
gesso inchado e cheio de caroços. O desgaste e o apodrecimento do piso de madeira corrida estão
em condições similares. O banheiro fica no quintal, o que é extremamente desagradável. Mas nada é
mais desagradável do que os pombos no telhado. Arrulhando, trepando, comendo, brigando, cagando.
Amadeu sorri ao ver o pequeno pardieiro que acaba de encontrar. “É o cofre perfeito para o seu
tesouro, sobre a cabeça de um velho e debaixo de bostas de pombo, afinal, quem haveria de alugar
um lugar como aquele?”, ele pensa. Amadeu não sabe, nem nunca haveria de saber, mas existem
pessoas que alugariam sim um lugar como aquele. Há todo o tipo de pessoas, e eu, Dimitri, sou uma
dessas.

Ele caminha de um lado ao outro. Volteia os espaços livres. Todo o instante, seus olhos grudam
na bolsa e ainda pergunta se aquilo foi a última opção. Uma opção cara para pagar os altos preços
que lhe são cobrados. Inicia uma nova caminhada de um canto ao outro do cômodo e sente sob seus
pés um oco. Bate com o calcanhar e o oco lhe responde retumbante. Imagina até onde sua percepção
está alterada, até onde aquilo é real, e as dimensões sustentáveis. Um nervosismo eletrificado, um
ímpeto de coragem. Por instantes, as portas de sua percepção deixam atravessar, por espaços
entreabertos, sinais luminosos multicoloridos. O céu é o limite e ele acaba de alcançá-lo.
Outra batida e o sonoro oco retumbante está mesmo lá. O som ganha ecos que o deixam zonzo. O
azul do céu. A estática sobre sua cabeça. Sente vontade de correr, as mãos frias suam; as
extremidades de seu corpo parecem desprender-se e agora pode até voar.
O oco são brechas no piso de madeira corrida a um metro de distância de um jogo de mesa velha
e duas cadeiras. Retirando algumas das tábuas corridas, encontra, naquele oco, o lugar para guardar a
bolsa. Encaixa-os novamente e arrasta devagar a mesa com as duas cadeiras. Ficou muito bom e o
velho lá embaixo nem perceberia a mudança de posição dos móveis. Checa ao redor e percebe haver
um equilíbrio no ambiente, dentro das possibilidades.
Ao sair do sótão, bate a porta, não antes de admirar aquele céu cortante. Desce as escadas e o
velho continua a cutilar o cadáver do garrote. Sem olhar para Amadeu, pergunta: “E então, o que
achou?” “É um ótimo lugar, meu velho”, diz Amadeu agitado, seguindo para a saída. “Ótimo mesmo.”
E bate o portão ao atravessá-lo.
Capítulo 3

No início da noite, precipitada por nuvens pesadas que se conservavam no céu após a chuva rala
que tornou a cidade ainda mais abafada, Horácio retorna mais cedo para casa resmungando
inconformado o dia de trabalho praticamente perdido. As filmagens externas foram canceladas pelo
mau tempo e mais uma vez a garota da meteorologia lhes causa um prejuízo por ter afirmado que
haveria sol e um fim de tarde com céu alaranjado. No dia seguinte teriam trabalho em dobro, com
ânimos e humores mais aflorados.
Leva um punhado de cravos-da-índia à boca e põese a girá-los com a língua de um canto ao outro.
Vez ou outra sente um estalo na mandíbula e enquanto caminha pela rua, sentindo o vapor do asfalto
subir-lhe as pernas, encontra um tipo de seqüência rítmica naqueles estalos e segue-os com suas
passadas.
Diante do portão de seu prédio não vê jogada no chão a chave que havia deixado com Amadeu.
Há esperança ali. Ele respira fundo e talvez aquele dia não tenha se perdido por completo. Distraído,
sequer havia se lembrado de Amadeu. Olha para o alto e a janela da sala está aberta. Um ótimo sinal.
Horácio entra no prédio e antes de atingir o segundo andar cruza com sua vizinha, dona Elza, a
única vivente com quem costuma cruzar naquelas escadas e corredores. Esforça-se em ser simpático,
é uma senhora gentil vivendo dias tão solitários; certamente aquela senhora não deixaria que seu
cadáver apodrecesse, caso ele não desse as caras por mais de três dias. Ela, com seu aparente olfato
aguçado, providenciaria o arrombamento da porta. Se ficasse muito doente, ela levaria sopas e faria
chás para ele. Para Horácio, dona Elza soa como um tipo de socorro presente, uma mão amiga
morando um andar acima. É importante saber que certas pessoas se preocupam com você.
Degradante pensamento, porém eficaz.
Horácio dialoga prontamente, às vezes sem dar conta do que está falando, limitando-se a
responder. “Como vai a senhora?” “É mesmo um dia muito abafado, dona Elza.” “Eu não sei, não
senhora.” “Acho que eles ficam abertos até às 8.” “A senhora consegue sentir?” “Lá de cima e com
tudo fechado?” “É, eu sei … o cheiro de mofo tá terrível, mas fazer o quê?” “Enquanto o músico não
voltar da viagem …” “Pra senhora também, dona Elza.” “Boa noite.”
Horácio galga os poucos degraus que restam até seu apartamento sentindo-se mesmo aliviado.
Dona Elza sentiria o odor até mesmo de um pensamento pecaminoso.
Quando entra em seu apartamento, Amadeu, sentado no sofá, envolvido por uma toalha branca,
assiste televisão. Nunca, em toda sua vida, imaginou que um dia um homem semi-nu, sentado no sofá
de sua sala, assistindo televisão, significaria que sua vida estivesse salva por algum tempo e lhe
trouxesse tamanho contentamento. “Eu sabia que você ia gostar daqui”, é a primeira coisa que
Horácio diz, largando sua mochila num canto. Amadeu reconhece que aquele lugar é muito bom. Não
haveria de encontrar outro melhor. “Tivemos de cancelar muita coisa, a porcaria da chuva”, diz,
sentando-se no outro sofá. Ele desata os cadarços, tira os tênis e deita-se.
Amadeu ainda não completou sua descida. Sente-se vertiginoso, desviando-se de depressões,
saltando sobre falhas, mas a euforia já passou. Percebe que naquele dia ele terá de lidar com aquela
sensação de liberdade em estado bruto, mas está consciente e não lhe causa estranheza novas formas
de percepção.

Horácio e Amadeu, de olhos pregados na tela, o plasma azulado e a narração em tom cadenciado
trazem nostalgia e sonolência. Mas não se pode fechar os olhos e embalar-se em sonhos quando se
enfia ouriços-do-mar venenosos goela abaixo de um tubarão, para vingar seus ataques contra
pescadores de uma ilha na costa da Malásia. Os tubarões capturados e envenenados sofrerão, pelo
menos, uma semana até morrer, e têm todo o oceano por corredor da morte.
“O que ele fez?”, pergunta Horácio. “Parece que devorou um garoto, acho que foi isso”, responde
Amadeu. Voltam as atenções em extremo silêncio, com os pensamentos fervilhando e um tempo de
resposta bastante lento devido ao cansaço de um e à nostalgia do outro. “É uma boa vingança”, diz
Horácio. “Não sei se há boa vingança. Acho que o que há na verdade é vingança suficiente”, fala
Amadeu. Nos olhos arregalados e esbranquiçados do tubarão coagido estão também seus crimes.
Poderia ser capturado e castigado. Içado de algum oceano quando atraído à superfície por algum
sentimento perturbador. O tubarão volta ao mar debatendo-se, com dois ouriços venenosos presos à
garganta. Contornaria a imensidão, submergindo até morrer entre corais. Amadeu e seu corpo entre
corais, seu esqueleto revestido de algas marinhas, o espantalho do fundo do mar.
“Ouriços venenosos são bastante suficientes”, fala Horácio. Mas o que haveria de ser suficiente?
Aqueles tubarões aprenderam a comer carne humana, enquanto outros aprendem que chances e
oportunidades são raras. Amadeu avançou sobre a carne humana e tomou aquilo que não lhe pertence.
O instinto de sobrevivência adaptando-se às novas necessidades. Seja a mudança no hábito alimentar
ou de caráter.

Depois de degustar aquelas imagens formadas com a história de Amadeu, que sente o calo na
garganta decompor-se, Horácio estala os dedos e fecha os olhos para um breve cochilo, mergulhado
na escuridão. Seu corpo afundado no sofá, aquele peso imaginário que faz a cabeça rodopiar.
Amadeu se levanta para ir até o quarto, quando retorna a atenção à pergunta de Horácio:
“Amadeu, só os tubarões merecem ouriços venenosos?” Ele não sabe responder. Pensa que não. Mas
não responde nada.
Vai até o quarto e veste-se com uma camisa e short. Confere o estado inerte de Horácio e apanha
o telefonesem-fio na mesa de centro da sala e retorna para o quarto. Disca um número. Apreensivo,
anda de um lado ao outro, até que no terceiro toque alguém atende num “alô” agitado e esbaforido,
misturado ao som de tiroteios e gritos.
Este é Guilherme Benigno, que trabalha no ramo das artes, pelo menos é o que costuma apregoar.
Conhece toda uma nata de jovens e velhos artistas, e possui uma habilidade contabilística que lhe
permite fraudar borderôs e notas fiscais, sem que isso atinja a qualidade investida em suas
produções. Espera ansioso sua chance, um grande investimento cinematográfico ou teatral. Pretende
aposentarse cedo, e ouvira bons rumores de que Zeferino Manches prepara-se para um
empreendimento hollywoodiano. Se conseguir uma participação na produção, se aposentará antes dos
35.
Guilherme pede um segundo no telefone e afasta-se do local de ensaio. Está com uma equipe de
filmagens no alto de uma favela e preparam uma cena semelhante às situações extremas do local.
Precisou negociar com o dono do morro a presença da equipe, mas agora ele exige que sua namorada
atue no filme, naquele instante eles ensaiam o papel criado às pressas para Gislaine. Já estando no
vigésimo oitavo take, Gislaine ainda não conseguiu pronunciar corretamente a palavra “problema”.
“Porra, essa gente não sabe falar ‘problema’. Pensem em qualquer troço sem a letra R, pelo amor
de Deus”, diz Guilherme baixinho para alguém da equipe, enquanto sorri para o namorado de
Gislaine, dando um sinalzinho de OK. O traficante, acompanhado de outros do bando, está carregado
de armas e granadas. É assustador, mas o fuzil, ele usa como bengala para apoiar-se.
Um filme independente é o que realizam. E agora contam com patrocínio do sujeito ali parado,
que de tão admirado com este novo mundo diante de seus olhos, decidiu bancar uma parte da
produção. O idealizador do projeto e o diretor do filme manifestaram-se de modo contumaz: “A
dinheiro dado não se pergunta o nome da lavanderia. Que diferença faz a marca do sabão desde que
lave e faça espuma?”
Ali havia muita espuma e essa não faria parte do banho de Guilherme, não poderia se lavar com
aquele sabão. Nunca viveu tamanha pressão e tudo que faz é respirar fundo, erguer a cabeça e
acreditar que alguma coisa o faria deslizar para bem longe dali. Alguma coisa espumosa.
“Façam a cadela falar qualquer merda … Isso, ‘merda’ ela sabe falar com certeza e leva a letra R.
Tá resolvido. ‘Merda’ ou ‘caralho’, tanto faz. Mude a frase pra: ‘Senhor, estou com um caralho (ou
merda) pra resolver.’ ‘Resolver’ ela consegue falar, não consegue?”
É um dia terrível e está fadado a não ter fim. A cada nova tomada sente no bolso seus poucos
lucros escoarem. Não haveria rolo de negativo suficiente para alfabetizar aquela mulher. “Vamos
acabar logo com isso. Qualquer coisa a gente dubla. Acho que se aquele cara tossir ou peidar vai
explodir tudo.”
Continuam a cena e Guilherme vai para um canto reservado atender o telefonema.
“E aí? Viu alguma coisa? Você vai poder? Sim ou não?”, diz Amadeu, agitado.
“Amadeu, minha vida tá uma merda. Tô sob a mira de um homem-bomba e atrelado à missão de
fazer uma anta banguela falar corretamente ‘problema’, tô com merda demais na cabeça pra …”
“Você confia em mim, não confia? Olha, eu não posso falar muito, não agora. Mas eu tenho certeza
de que é muito bom. Falo por experiência própria, Guilherme. Eu preciso resolver isso logo”, diz
Amadeu querendo acertar tudo naquela conversa.
Eles barganham 40%, 25%, 35%, 30%. “É pegar ou largar: 30% é o máximo que eu posso te
dar”, diz Amadeu. “Acho que você não está em condições de fazer exigências, Amadeu.” “E você
não está em condições de me extorquir. Já me deve alguns favores, já esqueceu?” “Mas aquilo, a
gente tinha …” Guilherme é cortado por Amadeu, “Tá certo, esquece … 30%?” “Tá certo.” “Amanhã
eu te ligo.”

Amadeu retorna à sala e Horácio desperta do cochilo. Ele diz que pediu uma pizza e Horácio diz
que pra ele tudo bem. Que aceita uma pizza naquele instante. Senta-se e seu corpo está tenso, os
ombros petrificados. Gira um pouco para o lado e três estalos seqüenciais extraídos da coluna
vertebral e prolongam-se no ambiente.
Na televisão há um noticiário que não causa interesse em nenhum dos dois. Mas deixam lá a TV
ligada. Aquilo funciona como uma espécie de aquário sortido de tipos humanos raros, batendo suas
nadadeiras em ondas de pixels, nas águas azuladas do plasma reluzente.
“Você ainda não me disse quanto tempo pretende ficar”, pergunta Horácio. “É que ainda não sei”,
responde Amadeu sentando no mesmo local que antes. “Mas é por pouco tempo, conclui.” Horácio
pergunta se ele ainda faz filmes e ele confirma, desanimado, com um aceno de cabeça. Ele gostaria
de saber o quanto de tempo é pouco para Amadeu. Em sua tabela de pesos e medidas, o que
realmente representa a quantidade “pouco”? Horácio sabe que cada um possui uma tabela
diferenciada que funciona como um tipo de relatividade psico-temporal. Ele mesmo pouco
compreende disso e não se deixa perder em pensamentos estafantes. Mesmo por pouco tempo, sendo
esse tempo pouco representativo em sua rigorosa tabela pessoal, pensa Horácio que será
imprescindível a estadia de Amadeu ali. Isso lhe dá algum tempo para encontrar outra pessoa.
O interfone toca. Amadeu já se sente acomodado em sua temporária casa e recebe o entregador de
pizza. Pizza e cerveja é o que têm para o jantar, regado a um jogo de futebol de um time do interior
sobre um gramado encharcado, um tapete escorregadio que arranca breves risadas de quem assiste ao
jogo.
“Eu não pretendo ficar nisso por muito tempo”, diz Horácio. “Eu gosto do que faço no cinema,
mas é que tenho outras necessidades que esse trabalho não pode arcar.” Amadeu enfia uma grande
fatia de pizza na boca e se apressa a falar. “Eu sei … eu entendo.” “Como assim entende?”, questiona
Horácio. “Atores pornôs ganham bem.” Amadeu dá um gole na cerveja e põe-se meio injuriado, “As
mulheres ganham bem, você quer dizer.” Horácio apanha outra fatia de pizza e afasta as cebolas para
o canto da caixa.
“Que eu me lembre, é a única profissão em que as mulheres estão bem acima dos homens. No
topo pra valer”, continua Amadeu. “Se você ver as agulhadas de Caverjet que eu tomo no pau vai ver
que é uma posição injusta. A gente tem que ficar lá, duros, até ouvir a palavra de salvação: corta! É
muito humilhante.” Amadeu abre outra cerveja. “Esses caras têm família. Conheço um que de tão
desesperado implantou dois bastões de silicone no pênis e isso deixa ele duro o tempo todo. É sério,
cara, eu vi esse troço. E você pode moldar esses bastões com a mão em ângulos diferentes. Apontá-
lo pra várias direções. É assustador. Tem que ser muito homem pra isso. O apelido dele agora é João
Bobo, porque bate, bate e continua em pé.”
Horácio bate no peito pra não engasgar. Riem dessas desgraças e aberrações. Riem do mundo
cão. “Precisamos da porcaria de uma reforma nos nossos direitos trabalhistas”, conclui Amadeu,
quando ambos voltam a ficar em silêncio.
“Isso é culpa do ocidentalismo”, começa Horácio, deixando a pizza de lado e abrindo outra
cerveja. “Temos uma cultura falocrata, não-assumida, quando a grande maioria é enrustida e pouco
se importa em assistir bundas, peitos, bucetas. Querem paus. Os heteros e os gays querem paus. Pra
saciar a curiosidade. A vagina é um órgão interiorizado, reprimido, pra dentro. Não sacia os olhos,
só o toque. Quando alguém assiste a uma manifestação pornô, quer ver o pau. Ele é extensivo,
permite comparações de diâmetros, comprimentos, formatos; tem reações diversas, ritmos variados.
Reacionário. Toda revolução é feita de paus. Acredite, vocês não ganham mais porque precisamos
reforçar nosso interesse em buceta. Buceta é o ópio do povo.”
Amadeu abocanha outra fatia de pizza, lambe os dedos e murmura desanimado e sem entender
muito do discurso de Horácio: “É, deve ser isso aí”, diz.

Fim de jogo. O resultado deu empate. Horácio vai para cama mais cedo e Amadeu permanece
sozinho na sala, debruçado na janela, fitando o outro lado da rua. Lá está um novo começo. Sua vida
agora teria um rumo decente. Pensa para onde ir depois de capitalizar o conteúdo da bolsa. É bom
sentir o controle da situação, solucionar problemas e desatar nós.
Capítulo 4

Esperar. Isso é tudo que Amadeu faz, confinado entre o carpete mofado e o teto infiltrado,
desintegrando-se sobre sua cabeça, como a droga de uma tempestade e suas nuvens carregadas
alastrando-se descompensadas. Não demonstra ansiedade. Tem paciência, ainda que um sol glorioso
o convide a caminhar pela rua. Não se importa com a sua condição de confinado.
Horácio passou grande parte do dia dormindo. Trabalharia somente na parte da noite, madrugada
adentro, devido às mudanças no cronograma das filmagens.
Amadeu esvaziou a tigela duas vezes. Os pingos lhe parecem mais freqüentes que no dia anterior.
O cheiro de mofo já não incomoda mais. Algumas horas respirando aquele odor e ele desaparece de
sua percepção. Um longo banho de banheira, na banheira encardida de Horácio. Um longo cochilo na
banheira e as horas ainda escoam lentamente. Faz café duas vezes. Esvaziou a jarra duas vezes. Deu
longas mijadas. Assistiu aos filmes Desejo de matar partes 1, 2 e 3. Telefonou para Guilherme seis
vezes até que este se cansou e desligou o celular. Este é o dia e daqui a pouco ele atravessará a rua.
Guilherme fora bastante eficiente.
Horácio acorda, toma banho, apanha sua mochila e, com um punhado de cravos-da-índia na boca,
vai trabalhar sentindo-se refeito. Percebe que Amadeu não deixou um gole de café, mas não reclama.
Dormiu cerca de 16 horas. Não há nada que 16 horas de sono seguidas não resolvam. Está
descansado demais para discutir qualquer coisa. Acena um adeus para Amadeu e deixa para comer
no set de filmagens. Sempre há muita comida lá.

***

Escarrapachado em uma cadeira, apoiando o cotovelo esquerdo na mesa, Amadeu balbucia para
si algumas palavras de um texto que acabara de inventar. Finca, apreensivo, as unhas no couro
cabeludo. Levanta-se e arrasta para o lado a mesa com as duas cadeiras. Agachado, ele suspende
duas fileiras do piso de madeira corrida. A bolsa está envolta em delicadas e recentes teias de
aranha. Coloca-a sobre a mesa. Seu conteúdo ainda o surpreende e as possibilidades infinitas de vê-
lo capitalizado sulcam caminhos em sua imaginação. Batuca a bolsa com a ponta dos dedos,
pensativo. Apanha três pacotes e os coloca novamente sob o piso. Não poderia negociar a mesma
quantidade que roubara, porque seria o mesmo que entregar sua cabeça. Mas é de mentalidade
razoável, não havia pensado nisso. Nunca fora bom em fazer planos ou gerar resultados. Em toda sua
vida, precisou praticar desculpas e mentiras com dias de antecedência. Ainda sem os três pacotes,
seria bastante. Em passadas rápidas, murmura pelo sótão, e o ranger do piso proporciona um eco
ritmado em sua cabeça.

Por volta das 10h, Amadeu segue até o final da rua, onde vira à esquerda, entra num táxi e a 1,5
quilômetro dali, apanha Guilherme Benigno. “Você tá atrasado, sabia? Com essas pessoas não se
brinca. São como as porras dos ingleses. Odeiam atrasos. Se falarem alguma coisa, vou dizer que
você se atrasou. A culpa é toda sua”, diz Guilherme, apagando o cigarro numa pisada sobre a
calçada, antes de entrar no táxi. “Deus do céu, Guilherme, entra logo e cala essa boca.”
Guilherme aproveita o dia de folga e consegue, depois de arriscar-se por inteiro, um modo para
que tudo dê certo, tanto para Amadeu quanto para ele. “Deixa eu ver”, diz puxando a bolsa de
Amadeu, que apenas com um olhar severo o fez recuar. “Só pela tua cara, eu deveria ganhar no
mínimo o dobro do que vou levar.”
Guilherme toca no ombro do taxista, chamando sua atenção, e fala o endereço, seguido de algumas
coordenadas de como chegar.
“Você tem certeza de que está tudo certo?”, pergunta Amadeu, nervoso, sem deixar de contrair os
dedos. “Não tem armação nisso?”
Guilherme Benigno não admite ser alvo de desconfianças. Devido aos anos trabalhando num ramo
tão articulado, em que exerce com primor a arte da subtração, possui expressões calculadas em
relação à ofensa que ele acredita ter sofrido como reação prevista em defesa de sua inocência. Nunca
fora pego.
“Tá certo, tá certo. Foi mal”, diz Amadeu, batendo em seu ombro. “Mas sem doce ou falsas
ofensas”, diz Amadeu.
“Isso me ofendeu, cara. Eu confio em você, tô arriscando meu rabo nisso bem mais do que você
imagina e não me aponte esse dedo trêmulo de cagão dizendo sem doce ou falsas ofensas. E vamos
combinar o seguinte: você fica de boca calada, pra não fazer merda. Eu negocio, você olha, certo?”
Amadeu concorda com um aceno de cabeça e mantém-se agarrado à bolsa, sem conseguir
distinguir suas próprias atitudes e teme por reações precipitadas de sua parte. Ele sabe que é um
péssimo mentiroso, um péssimo ator, e talvez compense essa veia de fracasso, tornando-se bem-
sucedido no que será seu golpe de mestre por toda a vida. Resmunga em pensamentos não ter tido
mais tempo para se preparar.
“Onde você arrumou isso, hein? Pra mim pouco importa, agora eles vão querer saber. Não sei pra
quê tanto segredo”, fala Guilherme. “Eu achei”, reage Amadeu. “Como assim? Ninguém acha uma
bolsa com drogas num banco de praça ou em latas de lixo. Amadeu, você tem uma sacola com no
mínimo uns R$ 200.000,00 em drogas, sei lá, e não moedinhas de dez centavos. É isso que a gente
acha por aí. Moedinhas.” “Mas eu achei.” “Onde?”

Não pode contar a verdade para Guilherme e tragicamente não havia pensado na pergunta
“Onde?”. Deixa Guilherme insistindo enquanto chafurda em busca de uma saída, de um onde
convincente. Não há ondes convincentes na mente de Amadeu, tudo o que há é uma coincidência, o
acaso debochado, a sorte escancarada; somente esses adjetivos que em nada contribuem. Uma piada,
lembra-se de uma piada e ajusta algumas partes frouxas, afere entonação e deixa escapar a primeira
frase, cuja empatia lhe mostrará o resultado de sua improvisação.
“Na lavanderia do meu prédio”, diz Amadeu.
Espera a reação de Guilherme, que, olhando dentro de seus olhos, desvia o olhar num lapso de
consciência e entreabre a boca para fechá-la em seguida. Fixa novamente os olhos em Amadeu e
agora eles ganham um brilho efervescente, o brilho que ele vira em poucos até então, e que em muitos
momentos de atuação esforçou-se para expressar, o brilho de um crédulo.
“Eu desço pra lavar roupas e estou sentado, lendo uma revista velha que alguém esqueceu por lá e
vejo uma sacola vermelha num canto” — continua Amadeu, muito eufórico. “Aí, eu penso: ‘Alguém
muito distraído esqueceu as roupas aqui.’ Vou até lá, abro e encontro isso aqui”, apontando para a
bolsa.
“Porra, Amadeu, ninguém acha uma coisa dessas em lavanderias de prédios”, refuta Guilherme,
perplexo. “Em lavanderias a gente acha moedinhas.” Amadeu bate com a mão no banco para
enfatizar. “Foi isso que aconteceu. Eu achei, não tinha ninguém olhando, fiquei indeciso num primeiro
momento, mas depois resolvi apanhar. Ninguém reclamou com o síndico ou fez qualquer comunicado
na portaria do prédio.”
Amadeu e todos os testes em que fora reprovado. Amadeu, o péssimo ator. Amadeu e toda a
cúpula de diretores da escola de arte dramática em que estudou arduamente e obteve péssimos
resultados diante da banca avaliadora sem nunca lhe conferirem seu certificado de conclusão. A hora
é essa, acadêmicos teatrais. Passou pelo teste de enganar à base da improvisação, Guilherme
Benigno, o mesmo que subtrai gentilmente volumes consideráveis de suas produções artísticas, o
mesmo que ama a arte porque lhe permite roubar com mais delicadeza.
“Quem esqueceu deve ter voltado pra buscar, não acha?” “Eu não acho nada, Guilherme. A bolsa
tava lá sozinha, eu tava lá sozinho e foi isso.” “Ah, cara, isso é demais até mesmo pra mim”, fala
Guilherme, rindo desacreditado.
Seria impossível impedir Amadeu de prosseguir com o melhor momento de sua carreira. Seu
inefável instante criador.
“Você se lembra daquele caso, do cara que achou um bilhete premiado num banco de praça
enquanto lia um jornal, procurando nos classificados emprego de porteiro?”, diz Amadeu. “Ele
estava lá, apenas lá, sentado, preocupado com a sua condição, as contas pra pagar, dívidas crescendo
e precisando urgentemente de um emprego. O que ele acha? A porra de um bilhete premiado.
Ninguém explica essas coisas. Elas acontecem.”
“Não comigo”, resmunga Guilherme. “Que puta sorte! Se você não fosse meu amigo … falando
ninguém acredita. Você não desconfia de ninguém? De quem seja o dono, eu quero dizer.” “Não faço
idéia, até porque moro lá há pouco tempo.” “Cacete! E eu achava que era o sortudo por causa das
rifas.” “Você sempre foi bom em rifas e com as mulheres”, fala Amadeu. “É, eu sei. Mas essa puta
sorte eu nunca tive”, enfatiza Guilherme.
Ele coça a cabeça, agora ainda mais convencido, e Amadeu relaxa os ombros contra as costas do
banco, saboreando a sensação de que só os grandes atores e doutores da retórica podem desfrutar.
Dispara a falar sobre seus últimos trabalhos na indústria do cinema.
“Meu último filme foi com um novo talento. Se chama Greice Sally, A incrível xoxota engolidora
de fogo. É uma atriz que tem um talento precioso. Pratica pompoarismo expelindo bolinhas em
chamas pelos dois orifícios.” “Oh, meu Deus … como ela faz isso?”, diz Guilherme, rindo. “É
assustador, cara. Ela foi criada no circo, engolia fogo e domava leões. Viajou para o Oriente Médio,
conheceu o pompoarismo e uniu as duas habilidades. Você precisa ver, ela é como o Triângulo das
Bermudas. Não sobra nada de ninguém, um tipo de redemoinho enfurecido que suga tudo o que se
aproxima e depois cospe a dois metros de distância.” “Dois metros?” “Juro, ela quebrou a lente da
câmera com o impacto da bolinha. O cameraman agora usa tapa-olho.” “Eu não acredito em você,
cara. Isso é muito exagero, se bem que exagero mesmo é encontrar uma coisa dessas na porra da
lavanderia do prédio” — conclui Guilherme.

***

No alto da galeria da igreja de São Sebastião, ao lado de um arcanjo, uma câmera é posicionada
com a lente mirando a entrada principal. Fios atravessados, maquinaria, refletores e um sacristão que
acompanha passo a passo, tentando a todo custo preservar ao máximo a santidade de cada metro
quadrado do lugar. “Cuidado com os santos. Olha este quadro. Está sujando a parede. O altar é
sagrado.”
Edwiges D’Lambert, sentada em sua cadeira de diretora, levanta-se apoiando o peso do corpo
sobre uma bengala preta, que ostenta na ponta a pequena réplica de uma gelada montanha européia.
Segurando o megafone e sob o sinal de OK de seu assistente de direção, ela diz comedida: “Ação.”

As duas bandas da porta principal da igreja se abrem. Um potente ventilador é acionado contra o
ator que, vestido de anjo e ostentando um enorme par de asas quebradas e manchadas de sangue,
entra carregando o corpo de outro anjo nos braços. O longo véu esvoaçante da vestimenta do anjo
carregado impossibilita que ele veja o caminho. Edwiges ordena que prossiga em linha reta. Ele
caminha a passos lentos, muito dramático, expressivo e exagerado.
Edwiges D’Lambert está eufórica, comovida e vive junto do ator aquele ato de dramaticidade,
acompanhando cada movimento milimetricamente pelo monitor de vídeo. Antes que o ator chegue até
o altar, ela contrai o semblante, coloca os óculos e aproxima-se ainda mais do monitor, desconfiada.
“Quem são as porras desses sujeitos parados na porta? O que eles fazem dentro da porra do meu
monitor? Não há nenhuma observação no meu roteiro que nesta cena haveria dois idiotas parados na
porta principal, então me responda, o que eles fazem aqui?” — pergunta Edwiges para seu assistente.
“Não sei senhora, vou averiguar.” “Corta!” — ela grita e se retira.

Horácio está segurando uma prancheta, carregado de rolos de fita crepe na cintura e extremamente
entediado com tudo aquilo. Coloca-se numa posição, sempre que possível, atrás de um dos pilares,
escondendo-se de chateações e aborrecimentos. Acha tudo aquilo muito cansativo, comicamente
chato e não entende uma linha do roteiro do filme que estão rodando. Edwiges nunca segue o roteiro,
tudo o que está no papel permanece nele e nele está fadado a desaparecer. Seu filme está em sua
cabeça e acha de menor valor artístico seguir qualquer meta preestabelecida, já que a arte para ela é
uma sucessão de lampejos da alma.
Boceja e, para não dormir ali mesmo de pé, deslocase a poucos metros de onde está, indo em
direção ao monitor de vídeo. Aproxima-se, surpreso. Suspende o olhar e gira-o ao redor. Abaixa-se
e mira-o novamente, seguido de uma expressão conclusiva em direção à porta. Discretamente,
desaparece das vistas de todos para entender melhor o que Amadeu está fazendo ali, segurando a
mesma bolsa vermelha com que chegou em sua casa há dois dias. Talvez estivesse interessado em
mudar de gênero e apostar em papéis dramáticos. Mas havia alguma coisa ali e não um tipo de visita
profissional.

O assistente de Edwiges comunica que os dois homens estão à sua procura. Sente-se surpresa,
suspende as sobrancelhas e arria-as logo que inicia sua lenta caminhada em direção aos dois,
apoiando-se na bengala, esmagando com a mão a pequena montanha a cada passada adiante.
Possui uma perna postiça de cor bege claro, sempre coberta por suas longas saias. Sua perna
direita fora decepada a um palmo de distância da virilha, quando descia pela última vez um pico
gelado praticando esqui em algum lugar invernoso da Europa. Todos os anos visitava aquela
montanha, porém uma raiz sobressaltada debaixo da neve lhe fez capotar diversas vezes, sendo
amparada pelo tronco de uma árvore ao final da descida. Quando acordou, faltava-lhe uma perna,
retirada devido à exposição da fratura que sofrera, para não gangrenar todo o corpo. Por isso,
pacientemente rema os flancos enquanto caminha, esmagando no topo da bengala a réplica da mesma
montanha gelada cuja dívida com ela é servir-lhe de apoio sempre que precisar da perna que lhe fora
saqueada.
Guilherme e Amadeu vão para o canto da igreja, saindo do campo de alcance da lente e
desaparecendo do monitor de vídeo, escondendo-se atrás de uma escultura do anjo Gabriel e lá
permanecem.
“A gente precisa inventar alguma coisa pra dizer a ela. Essa história de lavanderia não vai colar”
— diz Guilherme repentinamente. “Mas agora que você fala isso? A gente podia ter combinado
antes.” “Antes você não tinha me contado nada, esqueceu? Deixa comigo. Ela está vindo pra cá.” “O
que você vai fazer, Guilherme?” — sussurra Amadeu. “Confia em mim.”

Edwiges D’Lambert aproxima-se gradativamente e bastante séria, no mesmo movimento lento e


contínuo, apoiando-se na bengala. “Desculpe o atraso, Edwiges. Foi culpa dele. Eu sou Guilherme
Benigno.” “Achei que o Pablo viria com você. Onde ele está?”, pergunta.
Amadeu olha para Guilherme e em seu semblante lê-se a indagação “Que Pablo?”. Disfarça não
ter percebido a desaprovação do amigo e, com um sorriso forçado, gesticula nervosamente as mãos
soltas a sua frente, em movimentos desgovernados, mas em momento algum deixa de encarar
Edwiges, rebaixando os olhos. Segundo suas convicções, são eles que contêm toda sua força de
persuasão.
“Edwiges, o Pablo teve um probleminha, parece que foi alguma coisa com … a mãe dele, não sei.
Não deu detalhes, entende?” “Eu esperava o Pablo, não negocio com desconhecidos” — esclarece
Edwiges. “Eu garanto que não haverá problemas, ele assegurou que ambas as partes, a senhora e eu
nos daríamos muito bem” — diz Guilherme, cauteloso.

Edwiges hesita até olhar para a bolsa vermelha nas mãos de Amadeu. Ela tem uma bela casa,
carro, alguns outros bens de valor que seus meros filmes creditados por meia dúzia de pessoas
jamais compraria. Possui diplomacia, coisa que faltava em Aluísio, e tira qualquer argumento do
bolso. Os óculos pesados, a bengala, o rema-rema dos flancos tombados e a perna postiça impõem ar
de respeito, próximo ao da santificação, com o compadecimento alheio da deficiência nos
movimentos.
Agora que assumira as tarefas de Aluísio, precisa provar ser melhor do que qualquer traseiro.
Adquirir a mesma quantidade da droga que fora roubada, em menos de uma semana, era sua prova de
fogo.
D’Lambert sabe pouco do que realmente acontecera com Aluísio e Salvatore, e aquela história
ainda possui ecos de rumores e especulações. Zeferino acredita que sua mercadoria roubada será
vendida em partes, distribuída, por isso descartou desde o início a possibilidade de rastrear compras
e vendas de quantidade equivalente. Imagina que ninguém seria de fato tão estúpido de vender algo
de qualidade rara de uma só vez e de imediato, por isso decidira rastrear compras e vendas de
quantidades menores por todo o estado.
Hesitar naquele instante não é a coisa mais eficiente a fazer, pois seu prazo está se esgotando.
Terá de confiar na sorte e, de certa forma, nesse tal de Guilherme Benigno, cujo sobrenome lhe serve
de sinal verde para negociarem.
Com apenas um movimento comedido, eles a seguem para um outro canto da igreja e sincronizam
suas passadas, seus ritmos de acordo com o movimento lento, contínuo e pesado de Edwiges
D’Lambert.
“Que Pablo é esse?” — sussurra Amadeu. “Depois. Agora a gente precisa se concentrar.” “Quem
é esse Pablo?”, insiste Amadeu.
Edwiges vira-se para os dois. Amadeu pára de falar. Ela aponta para o confessionário, um pouco
maior que os convencionais, pois se trata de uma peça cenográfica.
De um lado, Edwiges; do outro, espremidos lado a lado, Guilherme e Amadeu. “Então, posso ter
uma amostra?” “Claro, sim senhora” — responde Amadeu, abrindo a bolsa.
Edwiges D’Lambert suspende pela metade o gradil do confessionário e experimenta uma amostra
da mercadoria, depositando um punhadinho da droga nas costas da mão. Aspira o pó que invade suas
largas narinas, restando um leve rastro preso aos pêlos na entrada do orifício esquerdo. Amadeu
sente vontade de avisá-la, mas contém seus movimentos e pensa somente em sua própria respiração,
que, caso se oxigene mais, conseguirá ultrapassar aquela situação sem sentir tantas pontadas de
medo. Guilherme, observando o mesmo leve rastro de pó em sua narina esquerda, fica apenas a olhar
o movimento dos pêlos impulsionados pela respiração que até o momento está numa freqüência
estável. O semblante da mulher é de análise e aprovação. Esboça quase um sorriso quando se detém
ao aparecimento de uma ruga, bem no centro da testa.
“Como você conseguiu tudo isso?” Guilherme esperava por perguntas e pôde elaborar em pouco
tempo uma história que acredita ser plausível, baseada no postulado de jamais desviar os olhos de
seu interlocutor.
“Bem …”, começa Guilherme. “… o meu amigo aqui está trabalhando para um sujeito que não
quer ser identificado. Ele é advogado e as pessoas lhe devem muitos favores. Você sabe, nem todo
mundo tem dinheiro vivo pra pagar. Dependendo do cliente, ele recebe até mesmo porcos como
pagamento.” “Porcos?”, questiona Edwiges. “Mas que delicado.” “Porcos, sim senhora. Ele livrou a
cara de um criminoso e tudo o que o sujeito tinha era muita cocaína estocada em casa. Esse advogado
esperou alguns meses e finalmente decidiu repassar a mercadoria.” “E onde você entra nessa
história?” — olha para Amadeu.
Amadeu engasga e desvia seu olhar para baixo e depois para Guilherme, quase tocando-lhe a face
com a ponta do nariz devido à aproximação provocada pelo espremido compartimento que dividem.
Guilherme conhece a hesitação do amigo e pisa em seu pé de maneira equilibrada, descartando
qualquer brusquidão nos movimentos, parecendo acionar o acelerador de um carro engasgado, mas
que devidamente guiado recobra o fôlego.
“Eu … eu sou seu assistente pessoal”, conclui Amadeu. “Isso. Ele é seu assistente pessoal. Cuida
de toda a burocracia, vai ao fórum, ao banco … Amadeu é de toda sua confiança” — continua
Guilherme. “O tipo que leva a mulher do chefe ao médico, busca as crianças na escola. Você sabe, se
você pode confiar sua mulher, seus filhos, sua casa a um sujeito, isso quer dizer que você confia a
sua própria vida a ele, não?”

Guilherme termina o discurso. Amadeu rói as unhas. Durante cinco segundos o silêncio ecoa do
coração para dentro do cérebro. O silêncio é interrompido com duas batidas na portinha do
confessionário. Ela não altera seu olhar, mas demonstra reação apenas ajeitando os cabelos louros
laqueados. Abre a portinha. O sacristão, bastante nervoso, alega que estão danificando o carpete
vermelho do altar. Ele desculpa-se por incomodar, mas está muito abalado com as marcas deixadas
por um dos equipamentos. O sacristão impaciente aguarda uma ordem por parte de Edwiges, que
soluciona seu problema com a promessa de um novo carpete. Muito satisfeito, o sacristão fecha a
portinha e vê naquela situação instaurada a possibilidade de uma breve reforma na igreja e inicia
uma ordem de pequenos ataques aos objetos obsoletos.
Edwiges inclina o dorso para frente, estende o braço em direção à perna, e permanece por alguns
segundos nesta posição. Amadeu e Guilherme esperam por sua decisão, por seu convencimento. Este
último não revela, mas está muito preocupado com o conteúdo e origem daquela mercadoria. Pensa
em quem esqueceu aquela bolsa na lavanderia do prédio, pensa nos outros rumos possíveis para
aqueles pacotinhos, pensa em todos os seus colegas desde a adolescência que se drogavam nas
festas, nos pequenos, médios e grandes comerciantes de drogas, pensa nos paraguaios, bolivianos,
colombianos; pensa em seu tio Alfredo, morto por overdose, pensa que ele pode não ser tão bom
quanto imagina e ter permanecido somente como fraudador de notas fiscais.
Enquanto isso Amadeu respira e pratica à sua moda exercícios aprendidos em laboratórios
teatrais de esvaziamento da mente, buscando alargar a audição ao encontro de sons distantes como
recurso paliativo.
Ela retorna à postura anterior trazendo nas mãos um objeto não esperado, causando o afastamento
dos dois, colando-se ao fundo do cubículo e expressando horror ao ver a perna da mulher agora
suspensa em suas mãos. Há o desejo de cair na gargalhada, de sair correndo, de fazer alguma
pergunta esclarecedora, porém sabiamente contentam-se em expressar suas reações pisando um no pé
do outro.

Edwiges manda que lhes passem por baixo do gradil suspenso os pacotes e ela retira de dois em
dois os maços robustos e azulados de dentro da perna postiça. Guilherme segura a primeira leva do
dinheiro com certo nojo, acreditando encontrar algo além das notas, porém estão intactas e até
mesmo levemente perfumadas, o que o encoraja a segurá-las com mais força. Trocam entre si seus
interesses. Ela vai depositando, conhecedora do espaço que lhe é permitido, exatamente quantos
quilos sua prótese permite. Em seus rápidos cálculos, a perna seria totalmente preenchida.
“Está faltando”, fala Edwiges. “Como assim?”, pergunta Guilherme, que sente o tremor de suas
pernas saudáveis, a possibilidade de não sair daquele lugar, ou a possibilidade de ganhar uma
daquelas pernas, pois a sua ficaria como pagamento do engano em que está metido. Num lapso, olha
confuso para Amadeu, que permanece bem quieto, permitindo-se ouvir os sons limitados de dentro
do confessionário. Respira fundo e precisa se lembrar exatamente de como falar.
“É verdade, tivemos um problema. Perdemos uma parte da mercadoria. Uma parte pequena, mas
ainda tem bastante”, diz Amadeu. “Não havíamos definido uma quantidade específica, dona Edwiges,
só aproximações. Fazemos a diferença”, conclui.
“Isto não são bananas”, indigna-se a mulher. “Não se pode dar o troco em balas e chicletes.
Vocês são o quê? Verdureiros?”
Amadeu emudece. Não há mais nenhuma informação em seu precário repertório.
“OK, OK, dona Edwiges. Está faltando uma parte do combinado, eu concordo”, diz Guilherme ao
olhar rapidamente para Amadeu e continua: “Mas ainda estamos falando de uma mercadoria que não
se encontra em feiras. Há muita coisa aqui e a senhora sabe que é de primeira qualidade. Por favor,
não nos faça essa desfeita. Estamos sendo sinceros, dizendo que tivemos um problema, perdemos
uma parte da mercadoria. Imprevistos acontecem.”
Edwiges sabe que pode conseguir o restante em poucas horas e que imprevistos acontecem. Olha-
os por instantes, esse gesto é importante, causa um tipo de insegurança e mostra quem está no
controle. Reconta o dinheiro e deixa dois maços dentro da prótese.
“Vocês poderiam se levantar, ir embora, já que estão com o dinheiro, mas tem uma coisa que eu
ainda não entgendi: o Pablo. Essa da mãe dele, francamente … só mais uma coisa antes de vocês
saírem daqui um pouquinho mais ricos, como Pablo é?” “Perdão”, diz Guilherme. “Ela quer saber
como o Pablo é”, reforça Amadeu, curioso.
“Ele é um ótimo sujeito”, Guilherme tenta não vacilar. “Como ele é?” — insiste Edwiges.
Guilherme contém o tremor do corpo e o coração disparado. Apanha um chiclete do bolso e o
coloca na boca. A musculatura de seu rosto sobressalta-se enquanto ele mastiga, ganhando alguns
segundos em sua mente. Agarra a alça da bolsa vermelha, agora contendo o dinheiro. Sente por
segundos aquela pequena fortuna ser arrancada de suas mãos. Segundos desoladores.
Uma desculpa, uma história, um pequeno relato. Passeou por alguns livros, filmes, conversas de
bar. Uma saída. Um outro blefe. Teve uma luz, saída não se sabe de onde; mas o importante é que
surgiu mesmo e estava ali na ponta da língua. Ele faz uma bola e, quando a estoura, coloca o murcho
balão novamente dentro da boca com a ajuda dos dedos e começa:
“A senhora o conhece, sabe muito bem como ele é. Eu não direi como ele é, porque não vim aqui
para ser testado, vim aqui para fazer um ótimo negócio, do qual quem levará a melhor será a senhora,
pois sabemos muito bem que isso aqui, mesmo faltando uma pequena parte, vale muito mais do que
estamos recebendo.”
Guilherme apanha o telefone do bolso e aperta um número da memória. O som do teclado ecoa
dentro do espremido confessionário. “Estamos numa situação delicada, dona Edwiges. Tente o
Pablo, pergunte a ele como se parece, como ele é. Vá em frente.”
Os pêlos do nariz salpicados pelo pó branco entram e saem apressadamente, revelando o abalo
provocado na mulher, em seu sistema nervoso, nos batimentos cardíacos, e por fim na aceleração da
respiração. Guilherme, ao perceber esse sutil detalhe, não tem dúvidas quanto ao seu talento retórico
e ao encerramento bem-sucedido daquela negociação.
Edwiges inclina o dorso novamente, levando a prótese ao local de origem, encaixando-a com
certa demora devido ao peso do novo conteúdo até que um estalo na engrenagem indica que tudo está
terminado, resolvido. É uma mulher inteligente, sabe apertar e afrouxar parafusos. A firmeza das
palavras de Guilherme, sua mandíbula sobressaltada, o hálito refrescante do chiclete de menta,
despertam desejos na mulher, desejos que a convencem e a fazem calar.
Edwiges D’Lambert levanta-se e abre a portinha do confessionário. Sai caminhando ainda mais
lenta e pesada, esmagando o topo da montanha gelada em movimento retilíneo, quando pára e vira-se
para os dois, que vão de encontro à saída principal.
“O que ele fez com o porco?” “Como?”, surpreende-se Guilherme. “Amadeu, o que o seu patrão
fez com o porco?” “Um cofre”, diz Amadeu. “Um cofre, senhora.” Ela abana a cabeça. “Claro, um
cofre. E eu pensando em salsichas.” E Edwiges segue para continuar as filmagens. Horácio,
escondido atrás de São Benedito, espia com atenção a breve despedida e não entende a piada, mas
entende que ela está ficando cada vez mais cansada, pois a dificuldade para arrastar aquela perna,
que o faz lembrar prisioneiros acorrentados por uma bola de ferro, aumentou desde a última vez em
que a viu deslocar-se pelo set de filmagens.
***

Guilherme desce as escadarias da igreja rapidamente, olhando ao longe em busca de um táxi,


preocupado em sair logo dali, seguido por Amadeu, que teme estar sendo ludibriado por Guilherme
por ainda ruminar aquele nome em sua mente: Pablo. Não descarta nem a possibilidade de uma
emboscada mais à frente, teme até mesmo o táxi em que entrarão, o amigo em quem confia
transforma-se na barreira que não o deixa prosseguir. Um homem aproxima-se da calçada da igreja,
olhando para os dois. Amadeu recua dois passos e o homem passa direto. Busca sob as marquises, os
cantos e vãos até onde seus olhos alcançam a presença de alguém que confirme sua suspeita.
“Agora explica isso direito, quem é Pablo? Que papo foi aquele? Por que você não disse como
ele era? É simples dizer como um sujeito se parece.”
Guilherme sinaliza para um táxi que passa direto. Apanha um cigarro do bolso e acende,
resmungando o pequeno fluxo de táxis por aquelas bandas, de cabeça altiva, intercalando sua atenção
para as portas grandes e pesadas da igreja e um meio de sair rapidamente daquele lugar.
“Explique você como se perde uma quantidade daquilo, quero dizer, não fazia tanta diferença no
montante, mas ainda assim é bastante coisa.” “Esqueça isso, Guilherme. Já está feito. Eu não sei se
perdi ou se calculei errado. Acho que foi isso. Erro de cálculo; quando dei por mim, antes de sair de
casa, vi que faltava. Foi isso. Uma coisa à toa.”
Amadeu mente e isso basta para que acredite em mentiras da parte de Guilherme. Os dois mentem,
ele sabe e julga-o por si próprio. Um táxi finalmente pára. Guilherme abre a porta para Amadeu
passar, ele o olha desconfiado, abaixa-se e o motorista lhe parece suspeito demais para estar
envolvido com Guilherme em alguma coisa, já que prima pela descrição. Ele entra, seguido do
amigo.
“Uma coisa à toa que quase põe tudo a perder”, diz Guilherme. “Tudo a perder? E esse Pablo?”,
retruca Amadeu.
O rosto de Guilherme ganha um tipo de refrigério quando o carro avança alguns metros
distanciando-se da igreja. Mais relaxado, toca com a ponta dos dedos na bolsa vermelha e ali está
um trabalho bem-feito, um blefe bem aplicado. Suspende as mãos e bate-as na perna ao som de um
sonoro “Tá certo” e, acendendo outro cigarro, ganha tempo tragando e soltando a fumaça pela janela.
“Eu sei que existe um tal Pablo, um sujeito que faz algumas transações por aí e é de confiança da
Edwiges. Eu nunca vi o sujeito, não sei se é preto, gordo, se manca de uma perna. Não faço idéia. Eu
blefei, tá bem?” “Guilherme, com essa gente não se blefa. São mais espertos do que você, eu e toda a
porra dos produtores e investidores que você já passou pra trás. Você não deveria ter feito isso.”
Mesmo tendo muitos golpes aplicados e amizades que ele não levava muito em conta, Guilherme
é sincero com Amadeu. Empenhou-se horas seguidas em descobrir um meio de vender aquele
problema, de atender às pressas um pedido de socorro e recebe em troca palavras moralizantes que
lhe são tidas como um esturro.
“Você tinha um problema e eu resolvi. Resolvi a droga do seu problema urgente, quando você
mais precisava. Agora você me diz que eu não deveria ter feito isso, agora que você meteu a mão
numa boa grana que vai te fazer sossegar por muito tempo? Filho-da-puta mais ingrato.” “Não se trata
de ingratidão. Você também se deu bem.” “Ah, realmente, me dei muito bem. Muito obrigado pela
gentileza de arriscar meu rabo por sua causa e ser tão bem remunerado. Um filho-da-puta ingrato é o
que você é.”
Eles se calam e não falam mais nada um com o outro. Permanecem observando as luzes da cidade
refletidas no vidro do carro até os nervos se acalmarem. Amadeu retira da bolsa a parte do dinheiro
que havia combinado com Guilherme, os 30%, e lhe entrega. Este é o primeiro a deixar o táxi, em
frente a um bar, decidido a gastar um pouquinho do que ganhou e comemorar da forma que melhor lhe
aprouver.
Antes de saltar, guarda o dinheiro sob a camisa e diz, com um tom definitivo e olhar sóbrio:
“Precisamos desaparecer, entende? Desaparecer.”
Alguns quarteirões à frente, Amadeu salta do táxi e caminha até a casa de Lozonni, pula o muro e
deixa a bolsa novamente no sótão, exatamente no mesmo local. Resolveria algumas coisas, ligaria
para sua namorada e retornaria para buscá-la. Sente-se aliviado e ainda não acredita que está tudo
ali, debaixo daquele piso estragado. Toda a sua sorte está ali dentro.
Pela segunda vez precisa desaparecer. Desce do sótão sem fazer barulho e pula o muro
novamente. Atravessa a rua, entra no prédio e depara-se com a escada de mármore que se estende à
sua frente, fria e desolada, como a branca montanha mágica que o levou ao céu, até que entra no
apartamento e lá dentro o terrível cheiro de mofo, que não se assemelha ao céu nem ao inferno, mas a
um sepulcro recente.
Uma olhada pelos curtos cômodos e Horácio ainda não chegou. Vai para seu quarto e seis horas
antes que amanheça ele cai no sono, para despertar quatro horas depois.
Capítulo 5

Horácio, depois de olhar as horas pela sexta vez, insiste com o motorista que avance, ultrapasse,
realize bandalhas. Pagará o dobro da corrida se em dez minutos ele percorrer os três quilômetros,
sendo que pelo menos uns dois estão congestionados. “O dobro da corrida”, pensa o taxista. “Dane-
se, o dobro é o dobro.” Ele acelera, passando rente ao meio-fio, subindo em calçadas, avançando,
ultrapassando. O calor está insuportável nesta manhã e, para compensar a falta de sorte de ter
escolhido um táxi sem ar-condicionado, a brisa vinda do mar atravessa as janelas e o cheiro salgado
traz certo conforto. Engarrafamentos à beira-mar são sempre mais amenos.
Atrasou-se mais que o habitual e valeria perder algum dinheiro investindo na corrida de táxi a
perder o emprego, mesmo estando enfadado por causa dele. Suas contas a pagar no fim do mês são
como dispositivos que se acionam automaticamente em sua cabeça, lembrando-lhe que só poderá se
dar ao luxo de trocar o certo por outro ainda mais certo. Precisa disciplinar-se mais em seu trabalho
enquanto este lhe dá o sustento diário.
Dormiu por apenas quatro horas, remexendo-se na cama de um lado para o outro. Quando
despertou, Amadeu já havia saído e deixado o café pronto. Inevitável. Lá estava Horácio
vasculhando os pertences de Amadeu e nada da tal bolsa vermelha ou qualquer outra coisa que
chamasse sua atenção, que justificasse aquele encontro com Edwiges. Está decidido a revelar a
Amadeu tê-lo visto na igreja e deixaria que sua reação lhe revelasse um pouco mais. Era isso mesmo
que faria.
O motorista acelera, avança, ultrapassa. O tranco pega Horácio de surpresa. Seu corpo é
arremessado com força para frente e para trás. O pescoço estala e a dor que sente por ter dormido
mal desaparece. As pastas escorregam do banco. O motorista, com as mãos na cabeça, desesperado.
Os dois saem do carro. Um homem estendido de bruços no asfalto, cacos da lanterna quebrada, a
massa esponjosa grudada no farol. Olhando melhor, uma orelha. O taxista apressa-se, porém dois
pivetes são ainda mais rápidos ao baterem a carteira da vítima. Entre os carros emparelhados, os
moleques avançam apressados. Para eles, uma grande oportunidade. Eles passam no local, um
homem é lançado e jogado no asfalto, uma carteira de dinheiro exposta num bolso fácil. Bobos
seriam os moleques de perderem tamanha chance. Eles não tinham nada a ver com aquele acidente.
Talvez o sujeito merecesse, quem poderia afirmar o contrário? Para eles, não era uma tragédia.
Definitivamente, não era problema deles. Na carteira, R$ 150,00. Uma chance única.
Horácio nunca tinha visto alguém ser atropelado, nem alguém ser morto. Dois homens se oferecem
para ajudar o taxista a colocar o homem dentro do carro. Horácio paralisado. Um dos homens manda
que entre no carro e segure o sujeito. Ele obedece. Depositam sobre seu colo um corpo
ensangüentado, inerte, faltando uma orelha. Horácio olha para o rosto do homem que tosse sangue em
sua cara. Está vivo, ainda. Olha toda a extensão do corpo do homem. Parte do crânio esfacelada, na
barriga, um corte profundo. É Amadeu.
“Ele se jogou na frente do carro. Ele saltou na minha frente feito a porra de um canguru”, diz o
taxista, repetindo, balbuciando, rogando alguma oração, até iniciar outra discussão com Horácio. “O
dobro, você falou. O dobro e ele vai morrer.”
Horácio, atônito, sustenta Amadeu em seus braços e limpa o sangue que escorre de sua boca. Seus
olhos cheios d’água e a dor que o faz contorcer-se, gemer. Ainda não o deixam perceber em que
braços está e repete, cada vez mais alto, que não quer morrer. A dor crescente na altura das costas o
faz sentir que partes de seu corpo estão desconexas. Ao tocar na carne esfacelada da barriga, nesse
emaranhado de carne e pele, pensa na respiração e começa a oxigenar-se na tentativa de manter-se
vivo.
Os trancos do carro aumentam as pontadas em seu corpo. Os gritos do motorista de mãos
ensangüentadas, que bate no teto do automóvel, sinalizam para os outros carros abrirem caminho e
fazem Amadeu tremer.

“Ei, moço, ele vai morrer?”, diz o motorista, afundado em tormento, pensamentos e reações
desordenados caminhando, com pés bambos, sobre um chão que não está mais lá, avançando para
frente quando o desejo é de retornar. Retroceder os minutos e prolongar seu café-damanhã,
esperando a filha acordar e dizer-lhe “Bom-dia”, recuar apenas poucos minutos e tudo sairia
diferente.
“Você disse o dobro, o dobro” — murmura insistentemente. “Ave Maria cheia de Graça o Senhor
é convosco bendita … o moço mandou acelerar … dez minutos e o dobro da corrida.”
Amadeu respira ofegante. Sente doer o corpo quando o oxigênio atravessa, com dificuldade, as
narinas empapadas de sangue. Precisa respirar de boca aberta porque o oxigênio que desliza
ressecado pela garganta dolorida fere seus pulmões. Sente prosseguir adiante pelos espaços desertos
de um coração não desbravado com iodo diluído no sangue. Sente o cheiro salgado e estragado do
mar. Pensa que lá estão os tubarões sendo envenenados com ouriços-do-mar, percorrendo o corredor
submerso da morte. Seus poros absorvem a brisa salgada. Uma coisa nunca imaginada.
Horácio despressiona seu ventre. Vê suas entranhas expostas e não acredita em tanto sangue, em
tanta coisa que sai daquela barriga. Amadeu finalmente enxerga-o, percebe seu rosto e sente certo
conforto por estar em braços conhecidos. “Horácio … Horácio … que foi isso, cara”, fala Amadeu.
“Que foi isso?” Horácio, atormentado, segura seu rosto e, como dizendo para si, repete com um
engulho na garganta: “Você vai ficar bem … já estamos chegando no hospital, é logo ali.” “É muito
sangue, cara. É muito sangue”, repete Amadeu. Não há parte daquele carro onde não possa se
enxergar uma mancha ou plasta vermelha. O sangue espalhou-se por toda a extensão do carro. “Eu
não quero morrer”, diz.
Horácio ordena ao motorista que ligue o rádio, que gire as estações até sintonizar em alguma
coisa boa, alguma coisa alegre. O motorista obedece mesmo sem entender.
Novamente, pressiona o ferimento que parece romper-se a cada tranco. Entre chiadeiras e
locuções abafadas, uma rumba arrebenta dentro do carro.
Amadeu apanha o isqueiro no bolso e o aperta com força dentro da palma da mão, quando inicia
uma série de lamentos insuportáveis. Um quebra-molas e o carro salta nos ares. O motorista distraiu-
se quando moedas caíram no chão do carro e ele abaixou-se para apanhá-las. A mão de Horácio
escorrega da barriga de Amadeu, que não pára de gritar e cospe sangue num ato involuntário.
Horácio limpa o sangue de seu rosto e fala desesperado: “Vá mais devagar, pelo amor de Deus!”
“Então faça ele calar a boca”, grita o motorista. “Cala a maldita boca senão ninguém vai chegar a
lugar nenhum.”
Amadeu permanece berrando e contorcendo-se sem parar enquanto lambuza ainda mais o carro.
Suspende o corpo, apoiando o braço direito no peito de Horácio e agarra a cabeça do motorista.
“Seu desgraçado, eu não quero morrer na droga do teu carro imundo”, grita Amadeu. “Eu não causei
essa situação, você causou, quando saltou feito um canguru”, diz o taxista. “Feito a porra de uma
gazela na minha frente.”
Amadeu deita o corpo novamente sobre o colo de Horácio e tenta controlar a respiração. A rumba
não está ajudando, o calor menos ainda, porém, ao sentir o excessivo cheiro do mar invadir seus
pulmões, torna-se mais sereno. Observa as pessoas até onde o alcance de sua visão permite, com
suas roupas de banho, seus sorrisos, os resíduos de sal na pele, o sol contemplado num dia em que se
deseja viver mais do que nos outros. Sua condição é o oposto, com exceção da vontade de viver. O
coração palpita ao contemplar a própria morte segundo a segundo, pois sente a vitalidade esvair-se
de suas entranhas.
Toca levemente seu rosto e pergunta: “Como estou?” Horácio, de olhos arregalados, porque é
assim que ele fica todo o tempo, estupefato de horror, responde: “Nem tão mal assim. Pra quem
acabou de ser atropelado, você está até mesmo bonitão.” Mas ali está um buraco, um aleijão; falta a
orelha esquerda. Ele abre sua mochila, apanha um lenço e começa a secar a testa de Amadeu, as
bochechas, o queixo, até que ele mesmo segura o lenço e começa a limpar o próprio rosto. “É
estranho, Horácio.” Não completa a frase ao perceber o oco ao lado da cabeça. “Onde tá?”, ele alisa
o local. “Onde tá ela?”, insiste Amadeu. Toca a outra orelha, que está no mesmo lugar. “Minha
orelha … a orelha … caiu … onde?”
A nova gritaria de um moribundo de forte pulmão faz o carro parar no meio da rua, impedindo o
trânsito. O motorista sai e, abaixado, retira um lenço quadriculado do bolso e desgruda a orelha do
farol, tapando a boca para não vomitar. Ele retorna muito agitado para o carro, estende a mão para
trás, passa o lenço com a orelha e arranca com o carro antes que um guarda municipal o alcance.
“Tome a tua orelha e agora cale essa boca.”
Havia um engarrafamento devido às obras incompletas em outra grande avenida. Amadeu já não
consegue gritar tanto e desfalece mais rapidamente, agarrado ao lenço quadriculado. A dor
substituída por uma sensação anestésica é, vez ou outra, interrompida por fisgadas agudas que
transitam da cabeça aos pés. Horácio tenta despertá-lo. Amadeu não fuma, mas pede um cigarro. O
motorista lhe entrega um, com pedido de desculpas. Após o polegar deslizar algumas vezes devido
ao sangue entranhado nas mãos, a inscrição “Para dissipar o tempo” lhe chama atenção pela última
vez, embalada por uma chama trepidante, surgida diante de seus olhos. Uma longa tragada, tosses
sucessivas. Recupera o fôlego e insinua, por instantes, rir de si.
O trânsito volta a fluir e o vapor morno do asfalto, já distante da orla, atravessa as janelas e os
assombra, enquanto seca as lágrimas e o sangue. Ele tenta dizer algumas palavras e questiona-se
sobre o que dizer na hora da morte. Pensa nos filmes e o que dizem grandes atores, nas mortes
históricas da vida real. Percebe que nunca pensou em sua morte, que não preparou um discurso
sequer, que não há o que falar, ou legado para deixar. Talvez, se tivesse mais tempo, poderia ter feito
tudo melhor, com mais calma e afinco. Lamenta-se não deixar um breve discurso que seja. Como foi
vazia sua vida e que nula contribuição para a humanidade. Se nada em trinta anos de existência
serviu, pelo menos sua morte lhe soa heróica, ao pensar num dragão vermelho que envolve todo o
corpo, começando um pouco abaixo da nuca e terminando com a cauda no umbigo. O único dragão
com piercing no rabo que cospe um cabelo vermelho sangrento. Ela arde em brasa e se orgulharia de
ver o que ele guarda sob o piso podre daquele sótão. Uma única chance, ainda que fosse daquela
maneira. Estendido sobre aquele banco, Amadeu sabe que é uma tragédia.
Considera aquela morte sua melhor performance. Nos últimos dias foi um ator de verdade, ainda
que ninguém saiba. Ele estava tendo uma morte a que as massas adorariam assistir, uma morte de
efeito, própria para a grande tela.
A ironia da tragédia está em seu único ato corajoso não servir para nada. Aflição em sua mente,
quando seu corpo está praticamente inerte, ao saber que tudo foi em vão e que ela nunca saberá que
ele morrera herói e não há nisso legado revelado.
A visão escurece como o dia que encontra a noite em dois segundos; com céu alaranjado
quedando-se violentamente para as trevas.
Concentra toda a força que seu corpo ainda preserva e aperta a mão de Horácio, suspendendo
ligeiramente a cabeça, tentando lhe dizer algumas palavras afogadas pelo sangue que escorre da
boca. Horácio percebe que essas podem ser as últimas e aproxima o ouvido à boca de Amadeu, para
que não faça tanto esforço com a cabeça. “No sótão … a bolsa.” Abre a mão de Horácio,
lambuzando-a ainda mais com seu sangue morno, e deposita, no centro da palma, o isqueiro,
enfatizando, com a mira do dedo indicador, a imagem do dragão.
Quer lhe dizer mais, esclarecer mais, sua mente sabe que aquilo não fará sentido algum, busca
outras forças e após algumas tosses coaguladas diz: “A bolsa é dela.” Novamente aponta o isqueiro
e, pela última vez, acaricia o dragão.
Pode não ter deixado um legado, porém, um enigma, sem querer. Pensa que, por ter sido assim, no
instante final suas últimas palavras soarão confusas e provavelmente sem resultados eficientes. Tolas
palavras que se dissipariam com o tempo.
“É estranho morrer”, pensa. O total afrouxamento do corpo. A alma desprendendo-se, deixando
uma espécie de oco num corpo que tornará complicada a vida dos outros. Não gostaria de deixar seu
resto e rastro; se pudesse, Amadeu arrastaria sua carcaça, o oco, para onde fosse sua alma, seu
fôlego inesgotável.
Chegam ao hospital e o taxista sempre murmurando: “Ele não vai morrer, né? Vai dar tempo. Ele
não vai morrer.” Os paramédicos tiram Amadeu morto de cima de Horácio, que permanece sentado
sem se mover. “Você está bem, moço? Você se machucou também? Esse sangue …?” Horácio sacode
a cabeça negativamente, chorando. Aperta o isqueiro e responde baixinho: “Não é meu. O sangue não
é meu.”

É liberado pela polícia, ao contrário do taxista, que ainda responderia a muitas perguntas. “O
dobro da corrida”, diz Horácio, colocando o dinheiro no bolso do homem. Olhando para o dinheiro,
o taxista diz: “O dobro da corrida e um homem morto.” Horácio sai, deixando Amadeu abandonado,
sem nome ou documentos, sobre uma mesa fria.

Naquele dia, Amadeu sumiu para quem o conhecia, abandonou a namorada, deu calote nos
cobradores, ignorou telefonemas e desrespeitou prazos de contrato.
Ao chegar em casa, Horácio vai direto para a barra de ferro, posicionada diante da janela da sala,
faz várias flexões, com sangue seco entranhado nas unhas, entre os dedos. Sente o corpo trêmulo,
subindo e descendo da barra. Controla a respiração, para não sentir pontadas no ventre. Lá está o
sótão, o único que conhece, o único horizonte de Amadeu naqueles dois dias morando ali. Cansado,
deita-se no sofá. Acende e apaga o isqueiro até adormecer. “Para dissipar o tempo.” E queima o
polegar sem sentir.
Capítulo 6

“Cigarros?” “Não.” “Deixou mesmo de fumar?” “Tenho me esforçado bastante, mas se você
continuar com isso: ‘Cigarros? Cigarros?’ a cada cinco minutos, acredito que todo o meu esforço vai
por água abaixo. E, por favor, não jogue essa fumaça na minha cara, você já deve ter secado por
dentro, cara. Não tem mais nada aí. Quando você morrer, acredite em mim, Edgar Wilson, a
cremação será automática. Combustão espontânea. Você vai virar fumaça e entrar no pulmão de todo
mundo durante o velório. Vai ser uma merda ter que te respirar pro resto da vida.”

Edgar Wilson e Pablo Sasaki trabalham para Zeferino Manches e, desde os últimos dias,
precisam encontrar o sujeito que, além de roubar certa mercadoria, saiu de um velho prédio no
Centro da cidade carregando uma bolsa vermelha de náilon, também deu um jeito, ainda fabuloso, de
liquidar Salvatore, simulando uma parada cardíaca. Edgar Wilson cruzou com o sujeito nas escadas,
na altura do terceiro andar, e Pablo, que tentava estacionar o carro, chegou tarde demais. Talvez o
acaso ou uma tragédia os colocasse de frente novamente.

Sereno, Edgar Wilson traga seu cigarro e dirige seu Santana preto, cravejado de balas, com
revestimento plástico nos bancos. Novamente reclama do calor e do ar-condicionado com defeito, e
Pablo, do revestimento plástico.
“Esses bancos deixam minha bunda suada. Olha isso! Molha tudo. Não sei pra quê isso. É
ridículo, Edgar.” “Mas é eficiente. Se você tivesse de arrastar alguns corpos pelo mato, depois
colocá-los dentro do seu carro, limpinho e perfumado, você entenderia. Sangue mancha tudo”, diz
Edgar Wilson. “A lavagem a seco estava me levando à falência.”

Quando criança, foi abandonado sob um viaduto e criado por freiras de um humilde convento,
sendo entregue para adoção aos 12 anos de idade. O corpinho franzino, barriga protuberante, feridas
de piolho na cabeça, um suor morrinhento, rosto pálido cadavérico e um olhar triste foram o
suficiente para que uma viúva, com apenas um filho, se compadecesse.
Sofreu um intenso tratamento à base de ervas, vermicidas, benzoato de benzila e banhos de
alecrim. Expelia lombrigas pelo quintal enquanto brincava, no banho, na cama e em pouco tempo
desenvolveu-se, ganhou uma tonalidade vívida e espichou.
Livre das lombrigas ganhou força descomunal. Continuava calado e sereno, forte e imperturbável,
comedor de abóboras e leitor das pilhas de revistinhas de fotonovela guardadas num quarto nos
fundos da casa. Foi trabalhar de empacotador e moedor de ossos no mercadinho do bairro, onde
constantemente ouvia desaforos e ofensas proferidos por dona Betinha, 65 anos, viúva, sem filhos, 38
gatos e duas pensões. A dela e a do Abelardo, 37 anos como funcionário da rede de água e esgoto,
franzino, religioso, esgotado e surdo do ouvido direito. Dona Betinha nunca soube disso, até o
médico atestar que morreu do coração e que tinha o tímpano perfurado há pelo menos trinta anos.
Eles tinham então 31 anos de casados. Seu Abelardo furou o próprio tímpano e dizia que, por ser seu
braço direito, Betinha deveria permanecer à sua direita. Assim, enquanto falava ao pé do ouvido
surdo, o esquerdo era preenchido com a locução do jogo de futebol, os noticiários e as lutas de boxe.
Dessa forma, encontrou o meio termo da felicidade a dois.
Dona Betinha tinha uma implicância pessoal com Edgar Wilson. Dizia que era um imbecil, que
colocava as latas de óleo por cima dos ovos, que esmagava os tomates com os dedos truculentos ao
colocá-los na sacola e que não servia nem para recolher as porcarias deixadas pelos cachorros nas
ruas. “Não se pode confiar em alguém cujos pais nem quiseram.”
Um dia, insistentemente decide conhecer o frigorífico e checar em que condições são preservadas
as carnes. Subserviente, Edgar Wilson destrancou as três pesadas portas, enquanto dona Betinha
resmungava impropérios atrás dele. Dentro do frigorífico, ela percebeu irregularidades. Culpou
Edgar pela sujeira e descuido do local. Ameaçou chamar a vigilância sanitária e, espumando, lançou
perdigotos em seu rosto. “Porcos! Deveriam ser abatidos! Somos pessoas de bem, de respeito. Que
fedor! Como você fede, rapaz! Você e esse frigorífico fedem! Por isso seus pais deixaram você,
rapazinho. Porque você fede o tempo todo; tanto que faz as carnes apodrecerem.”
O barulho de correntes precipitando-se entre as carnes penduradas estourou numa pancada forte e
abafada bem no meio do coque da velha. Lançada a uns quatro metros, abraçava as pernas de porcos
e permanecia de pé, segurando-se com muita firmeza. Novo barulho de correntes, aproximando-se
dela cada vez mais; as correntes giraram, vibraram e explodiram a cabeça de dona Betinha. O coque
ainda permanecia indissolúvel. Edgar Wilson caminhou até o balcão de atendimento e pegou o
radinho de pilha. Voltou para o frigorífico e mesmo com muito trabalho a fazer não pôde deixar de
ouvir a missa do padre Sebastião Anchieta. Um hábito adquirido com as doces irmãs do convento.
Amolou o cutelo com esmero e, durante as Salverainhas, desossou dona Betinha. Padre Sebastião
Anchieta repetia várias vezes a Salve-rainha, o que o aborrecia um pouco. A mulher resultou em
robustos e gordurosos bifes sangrentos, pois seus largos quadris produziram alimento para muitos
dias de festa. Dona Betinha era um banquete. Suculenta. Mas ainda assim de segunda. Os restos
mortais vão para a saca de ossos, junto de bois e porcos. A missa acabou e ele trocou de estação.
Resolveu moer logo os ossos da saca, cujos farelos são usados na fabricação de ração para cães.
Entre a chiadeira das estações de rádio, um som agradável, uma música o toca profundamente, ainda
que sem entender o significado. O som do Abba. If I have to do the same again, I will my friend,
Fernando. Com os olhos lacrimejantes, emocionado, moeu toda a saca.
Ele traga o cigarro mais uma vez, comprimindo os olhos de emoção estática, serenos, de
truculência desmedida, dos tempos de menino.
“Então eu estava falando”, continua Edgar. “Quando ele viu os cães carregando as partes
desmembradas de seu pai, simplesmente enlouqueceu.” “Eu também ficaria louco. Descarregaria um
cartucho nos vira-latas”, fala Pablo. “Foi exatamente isso que ele fez. Um conseguiu fugir, o outro
morreu.” “O velho não era surdo?” “Feito uma porta. Saiu pra fazer uma caminhada, levando o
cachorro pra fazer companhia, como sempre, e esqueceu de colocar o aparelho auditivo. Quando
atravessou a linha do trem, não ouviu o apito.” “E por que ele não usou a passarela?” “Por causa dos
pivetes que assaltam lá em cima.” “Pobre diabo.”
Ficam em silêncio por alguns instantes, com ares de pêsames. “Não se pode mais confiar nem no
cão, o melhor amigo do homem”, diz Pablo. “Vivemos dias difíceis. Até os cães comem os próprios
donos em plena luz do dia”, completa Edgar Wilson, dando mais uma tragada. “Já ouvi falar que é
bem normal isso acontecer. É um tipo de tradição dos cães, um tipo de instinto, sei lá. Eles comem os
donos antes dos urubus. Lembra daquele caso, da família que foi exterminada e nunca encontraram os
corpos?” “Lembro.” “A casa ficou uma lambança só, e não encontraram nenhum corpo. Dizem que
foi o Fofinho. Que ele comeu todos os cinco.” “Não me faça rir, Edgar Wilson. Depois de metralhar
todo mundo, eles colocaram os corpos dentro de um carro e desovaram em algum lugar.” “E eu te
faço uma pergunta: como colocar cinco corpos dentro de um fusca? Dentro de um fusca com três
homens dentro? E digo, homens de 1,8 metro pesando mais de noventa quilos cada um. Eles tinham
ordem somente pra matar, não pra desovar.” “O Fofinho? Mas era a porra de um poodle?” “Enquanto
chorava, ele comia um por um e depois vomitava tudo nos fundos da casa. O Fofinho comeu e
vomitou todo mundo debaixo de um pé de manga, o filho-da-puta.” “Eu não queria que um vira-lata
de merda me comesse”, suspira Pablo Sasaki. “Se eu tiver de ser comido, que seja por um tigre, um
leão … não um poodle viado cor-de-rosa chamado Fofinho. Não mesmo.”

Pablo Sasaki não era bom aluno em jornalismo, em arquitetura ou medicina, porém o último curso
transformou seu estômago num órgão frio, que não regurgitava nada, caso seu cérebro emitisse sinais
repugnantes. Durante meses, conviveu com o cheiro de éter e partes desmembradas dentro de tanques
e banheiras velhas, fetos em recipientes, anomalias depositadas sobre prateleiras e corpos intactos
sobre mesas de mármore.
Não concluiu nenhum dos cursos universitários que iniciou, frustrando imensamente sua família
classe média, cujos ancestrais de que se tem notícia são de alguma plantação de arroz localizada
numa curva qualquer da Ásia.
Há dois anos trabalha com Edgar Wilson, porém seu começo profissional se deu ainda na
faculdade de medicina, quando percebeu o lucro que tinha todos os meses ao comercializar alguns
órgãos ainda intactos de corpos que chegavam ao anatômico para fins diversos. Havia até uma tabela
de preços. A lista de espera em seu caderninho estendia-se em páginas com nomes de homens e
mulheres, crianças, adultos e velhos. Um esquema que envolvia um de seus professores e o
coordenador do centro anatômico.
Enlouquecido por uma oferta extraordinária, decide encontrar um rim compatível para a filha de
um empresário turco, através do contato feito por um homem chamado Edgar Wilson. Porém, peca
por tanta ansiedade, e, como um rato, deixa um rastro de bosta por onde passa.
Dessa forma é suspenso de suas atividades pelo coordenador do centro anatômico, cujo rim
compatível é retirado numa tarde chuvosa e vendido, sem Pablo nunca ter visto o dinheiro do acerto.
Depois disso, Edgar Wilson, sentindo-se culpado pelo golpe aplicado pelo turco e por ter lesado
Pablo Sasaki, oferece-lhe um trabalho a seu lado e nunca mais se separaram. O rim deu ótimos
resultados, não houve rejeição ou reações adversas, e por algum tempo ele foi feliz habitante de um
corpo jovem e feminino, para então naufragar quando o avião em que estava caiu no mar.
Está decidido a morar na Europa e nunca mais retornar, esse é seu sonho, sua válvula propulsora.
Odeia o Brasil imensamente, odeia o sol, a pele bronzeada, a alegria do povo, o carnaval, a
caipirinha. Quer morrer numa avalanche de neve, enquanto escala uma montanha. De acordo com
seus cálculos, precisará trabalhar por mais três anos até conseguir o suficiente para associar-se a um
pub fundado por um amigo que mora em Londres e que precisa de um novo sócio, desde que este
tenha capital para investir em algumas melhorias no local.
Sente-se fatigado ao imaginar tudo o que ainda deverá percorrer, mas sabe que é um péssimo
ladrão e já perdeu dinheiro em mesas de jogo e fazendo apostas. O jeito é trabalhar ao lado de Edgar
e torcer para não morrer de câncer no pulmão.
O intenso reflexo do sol cega repentinamente Edgar Wilson, que avança o sinal sem perceber. O
ziguezague brusco do carro consegue desviar de um pedestre, que salta assustado para trás, para a
pista ao lado, quando é atropelado por um táxi. Pablo, que não usa o cinto de segurança, bate com a
cabeça no vidro do carro e quase arranca o piercing de seu supercílio. Edgar Wilson pára. Um
homem lançado a uma altura de quase oito metros. Caído de bruços no asfalto, facilita para os
pivetes, que rapidamente se aproximam e roubam sua carteira, antes que um tumulto se estabeleça.
“Eu não vi. Esse maldito sol me cegou na hora. Porra de sol.” “Eu tô sangrando”, reclama Pablo.
“Foi só um arranhão”, diz Edgar.
Permanecem dentro do carro, sob olhares de alguns pedestres que entenderam a fatalidade,
apontando-os ao falarem entre si. Esses poucos ignoram o corpo estendido sobre o asfalto e
caminham na direção do carro em que estão os dois. Edgar consterna-se sempre que um acidente
ocorre, pois odeia fatalidades, erros de cálculos e imprevistos que chegam a abalar sua frieza de
temperamento.
Pablo sente dores fortes, agora que o imediato efeito anestésico da pancada começa a passar.
Procura por algo para conter a dor e estica o braço para fora do carro e lança mão de uma lata de
refrigerante das mãos de um pedestre parado, que admira o acidente. Leva a lata gelada contra o
ferimento e sente alívio imediato. Edgar arranca com o carro antes que um tumulto maior se forme,
antes que uma viatura da polícia chegue. “Você não acha melhor …” “Quer voltar pra quê? Voltar
pra quê, Pablo? Foi um acidente. Droga. A gente não pode fazer mais nada.” “Você deveria usar
óculos escuros. Eles realmente bloqueiam toda a claridade que …” “Cala a boca, Pablo.” “Quase
perco um olho e você me manda calar a boca.”
Edgar abre o porta-luvas e pega um estojo de primeiros-socorros. Joga-o em cima de Pablo,
afirmando que dará um jeito naquilo. Ele termina por sossegar.
Toda consternação de Edgar é resumida em alguns lamentos de “droga e maldito sol”. Seus olhos,
frios como duas banquisas de gelo, que antes pareciam derreter diante do calor do susto, agora
retrocedem, não permitindo que emoções vazem. “Espero que ele tenha algum cão”, sussurra Pablo.

***

Debruçado sobre o balcão, está o subgerente da Kumbuca videolocadora e irmão de criação de


Edgar Wilson, isso mesmo, sou eu, Dimitri … Dimitri Callaros, esse é o meu nome completo. Pelo
menos lá dentro o calor não chega por causa do poderoso ar-condicionado central que recebe, com
um sopro resfriado, a todos que atravessam a porta. Enquanto assisto às cenas finais do último filme
de Bruce Lee, passando a metros de distância na televisão que fica no topo da parede, eu concluo
uma ligação: “Tá certo, senhora. Vou reservar os dois pra essa tarde.” Bato com o fone no gancho de
maneira bastante entediada e logo um cliente suspende dois DVDS, ansioso por uma resposta. Um tipo
que já te olha de maneira prepotente. Um velho arrogante que afasta os DVDs o máximo que pode,
espremendo os olhos na tentativa de ler a sinopse. É deprimente uma coisa dessas. E não demora,
inicia as perguntas em série, as piores perguntas a serem respondidas. Gostaria de trabalhar numa
farmácia, logo enterraria metade da população.
“Então? O que você acha desses?”, pergunta o velho. Gostaria de responder que cianureto faz
bem para o fígado e vender-lhe duas caixas disso, mas ainda estamos numa videolocadora. “Eu não
devo me meter no gosto dos clientes”, digo. “Como assim? Você está aqui para orientar as pessoas”,
diz o velho.
Certo, sei que sou cínico durante várias horas do dia e que a palavra “cinismo” tem origem do
grego “kuvikos”, que quer dizer “canino”. Sou filho de grego, filho bastardo, mas ainda assim filho.
Sei lá quantos anos antes de Cristo havia um certo Diógenes, que levava uma vida realmente
miserável, como um cão. Dizem que vivia num tonel para demonstrar seu desprezo pelos outros e
masturbava-se em praça pública. Ótimo sujeito o Diógenes, não me admira sermos quase
conterrâneos; enfim, daí temos o cinismo. E essa lengalenga digressiva toda é só para salientar que,
apesar de o vovô aí achar que me pareço com um tipo de cão orientador de cegos, ele acabou de se
enganar.
“Estou aqui pra receber por essas locações e não pra escolher qual filme o cliente deve assistir”,
digo. “Sou contra essa política opressora do que se deve ou não assistir. Na dúvida, leve os dois.
Assim o senhor poderá fazer um balanço e tirar suas próprias conclusões.” E ele fica parado, o velho
com o ridículo chapeuzinho de palha ouvindo tudo, boquiaberto. “São só filmes, santo Deus. Apenas
filmes”, ele diz. “Basta dizer qual dos dois teve melhor saída.”
Sim, admito, são dias de cão e logo eu encontraria meu próprio tonel fétido e miserável. “É disso
que estou falando”, digo. “O senhor escolheu sua mulher porque antes ela teve uma melhor saída?”
“Perdão?” — ele franze o cenho e estica o pescoço para frente tentando entender melhor.
O maldito chapeuzinho de palha, bastante ridículo, arrefece minhas opiniões. Uma súbita vontade
de arrancálo me sobe pelas entranhas. “O senhor escolheu sua mulher porque antes ela teve uma
melhor saída? Isto são obras de arte, santo Deus.”

***

De acordo com minhas previsões, há pelo menos dois anos, eu já estaria fazendo filmes com
capital do governo e empresas privadas. Porém, continuo parado na mesma posição, intoxicando-me
de frustrações consecutivas, tédio invariável e uma paixão crescente em fazer cinema.
Se críticos de cinema são cineastas frustrados, então trabalhar numa videolocadora seria o caso
de estar abaixo de todos os críticos frustrados e diretores fracassados, e esse raciocínio silogístico
me faz lançar ácidos venenosos, obtendo algum prazer em meu dia ao responder e elucidar
questionamentos como os que acabo de fazer.
O cliente indignado derruba, no chão, algumas fitas de vídeo e DVDs, lança-me à face meia dúzia
de impropérios e retira-se da locadora. Dou de ombros e recolho os filmes sem me importar, coloco
outro filme para assistir, volto para trás do balcão, aperto o play no controle remoto e aumento o
volume da televisão, de onde gemidos agudos de prazer ecoam pelo ambiente.

Edgar Wilson e Pablo Sasaki cruzam com o velho transtornado, que continua a bufar calçada
afora. Os dois entram na locadora e Edgar me dá um beijo na testa, como de costume, e um café com
rosquinhas. É um ótimo irmão, preocupado com minha saúde e bem-estar. Pablo, tapando o olho
esquerdo, vai para a seção de filmes proibidos para menores de 18 anos.
“Dimitri, você tem se alimentado bem? Anda pálido, hein, garoto.” “Olá, Pablo”, eu grito. E ele
acena com um sorriso. “O que ele tem, Edgar?” “Dimitri, você ainda tá morando naquela espelunca?”
“Existem piores e eu até que gosto de lá. Sem contar que posso fazer um extra acompanhando aquela
velha que eu te falei.” “Daqui a duas semanas tem aquele almoço com a mamãe”, diz Edgar, me
encarando com os olhos inquisidores de sempre. “Você já comprou o presente dela?” “Ainda não
recebi. Tô mesmo duro esse mês.” “Só esse mês, é?” Edgar tira uma nota de R$ 50,00 da carteira e
coloca no bolso do meu jaleco, que ostenta o mesmo emblema que o letreiro néon: um babuíno com a
mão numa cumbuca, mostrando a bunda. Sim, é isso que carrego no peito metade do dia. Não pode
haver dignidade nisso, em ostentar bundas de macaco no peito.
No banheiro da locadora, Edgar remove o piercing e faz uma pequena sutura no supercílio de
Pablo, que toma alguns analgésicos e reclama da dor e da inchação no olho esquerdo. Pablo ressalta
o valor monetário e sentimental daquele piercing.
Eu abro a porta do banheiro e, com todo o sangue sobre a pia, afirmo que não vou limpar aquilo
de jeito nenhum, que da próxima vez procurem um pronto-socorro, e bato a porta com força. Volto
para o balcão e os sons dos gemidos de prazer soam como de dor. Meus olhos vidrados na televisão,
entortando o rosto num tom de horror e relaxando simultaneamente com o gemido de alívio emitido
em seguida.
Edgar e Pablo, agora parados no centro da locadora, me acompanham na contemplação do novo
horror instaurado. Edgar expressa desconforto e incompreensão ao inclinar a cabeça para o lado
esquerdo, desenhando um ângulo de noventa graus, despontando uma ruga entre as sobrancelhas ao
comprimir os olhos.
Pablo, por sua vez, leva a mão até a boca, sufocando um grito, espremendo o próprio corpo em
repugnância, medo e o pior de todos, culpa. Conhece aquele traseiro secretamente em escapulidas
sorrateiras, que podem levá-lo a perder a cabeça, tronco e membro, porque é assim que Zeferino
gosta de receber os acertos por partes, de traidores, tudo empacotado, em três vias autenticadas.
Nunca a vira praticar o pompoarismo de fogo. Aquilo o levou a passear por todas as suas transas,
e a culpa de sair com a atual namorada do chefe já era maior do que qualquer tipo de prazer.
Na tela, Greice Sally exibe sua arte notória, transformada em produto de exportação para o Japão
e submetendo médicos, físicos, médiuns e pesquisadores a decifrar a esfinge que é sua cavidade anal.
Num esforço sobrenatural, a tela é preenchida por uma bolinha em chamas, que rompe as pregas
besuntadas de Greice e num esturro é expelida através da janela de um carro em movimento.
Novo alívio, agora dos três, e o aplauso de Edgar Wilson, acompanhado por mim e Pablo, rende
louvores aos méritos conquistados pela jovem e talentosa atriz.
Uma senhora corpulenta, segurando um cachorro chiuaua, está parada dois passos depois da porta
da locadora, comprimindo também seus olhos, que devido à pouca visão que lhe é conferida, não
entende o que ocorre na tela, mas interessa-se pelos gritos e aplausos seguidos, conseguindo
perceber um objeto redondo e incandescente, que num passe malabarístico sai voando pela tela.
Aproxima-se do balcão e ali está a mãe do meu gerente. Imediatamente desligo a televisão, sob seus
protestos, que insiste em saber do que se trata.
“Um especial do Cirque du Soleil, senhora”, digo. “Uma coletânea com os melhores momentos.”
O piercing cai da mão de Pablo e o esmirrado chiuaua lança-se ao chão rapidamente e o mastiga.
Pablo suspende o cão e o sacode, com a esperança de vê-lo escorregar de sua garganta. “Ele engoliu
o meu piercing, ele engoliu meu piercing de prata, importado. Ele engoliu. Esse rato magrelo engoliu
mesmo.”
A corpulenta senhora apanha o cão. Impede, com bolsadas, que Pablo toque no animal novamente.
Xinga-o de tudo quanto sua mente pode recordar e, não querendo ficar nem um minuto sequer
conosco, ameaçando-me ao dizer que levará o ocorrido ao conhecimento do filho, solicita em breves
palavras antes de se retirar: “Reserve esse espetáculo do Cirque du Soleil e mande meu filho levar
pra mim.”
Sai indignada da locadora, afirmando que falarácom seu filho e desdenhosamente o chiuaua olha
para Pablo. “Espero que morra engasgado, vira-lata desgraçado”, murmura Pablo e não o cachorro.
Apesar de vivermos num mundo cão eles ainda não sabem falar.

Edgar apanha sobre o balcão o controle remoto e, na curiosidade de ver a conclusão do filme,
aperta o play. No decorrer da cena, já não ouve nem um gemido sequer ou os comentários de Pablo.
Aproxima-se da televisão e uma espécie de auréola o envolve por inteiro. Súbito, uma espécie de
espasmo facial.

***

Edgar Wilson e Pablo Sasaki saem apressados da locadora em direção ao carro estacionado do
outro lado da rua. Esperam o sinal fechar para atravessarem. “Você tem certeza de que é o mesmo
cara, Edgar?” “Absoluta.” “O mesmo cara com quem você cruzou nas escadas? Com a bolsa
vermelha?” “Já disse que absoluta.”
Edgar não fala mais nada e Pablo continua indignado pelo fato de o cão ter comido seu piercing.
Entram no carro e, a poucos metros dali, a robusta senhora, com o chiuaua nos braços, conta a uma
velha amiga, paradas numa calçada, sobre o espetáculo com bolas de fogo, um tanto inusitado, mas
muito interessante.
Pablo não se contém, salta do carro e com suas mãos cirúrgicas remove dos braços da mulher o
esmirrado cachorro. “Você tem certeza de que ele engoliu mesmo essa porcaria?” “É claro que
tenho, Edgar. Eu vi. Vi com o meu olho direito, o que me restou.”
Capítulo 7

Dentro do enquadramento com cerca de vinte polegadas, formado por dois edifícios, apresenta-
se o mar às costas de Zeferino Manches, homenzinho com cara de buldogue, atarracado, vestindo um
terno bege com gravata marrom, sentado em sua confortável cadeira revestida de couro de búfalo e
segurando um toco de charuto apagado. Diante dele está um homem vestindo uma camiseta branca
surrada, short florido e chinelos de borracha. Um homem com grandes olheiras, um tapa-olho e de
fala gozada. Uma fala fanhosa, que se arrasta na lentidão das pronúncias, sonolenta. Uma fala gozada
e de difícil descrição.
As vinte polegadas de mar estendidas às suas costas e a cadeira de couro de búfalo que reforça
sua masculinidade são os dois únicos elementos que impressionam naquela sala entulhada de caixas
de papelão lacradas, contendo CDS piratas, outro de seus investimentos, duas poltronas velhas, muitas
fitas de vídeo, DVDs, um grande cronograma pendurado na parede ao lado de pôsteres de filmes com
homens e mulheres nus, artigos de sex shop espalhados sobre a mesa ao lado de um cinzeiro, canetas,
relógios falsificados e uma pilha de notas fiscais suportando no topo uma calculadora.
“Quer dizer que ele te fez beber todo o silicone dos peitos da mulher? Inacreditável, esse
sujeito.” Zeferino faz a cara de buldogue chacoalhar quando não controla o excesso de riso
entrecortado por tosses secas. “Que requinte! Eu não pensaria em coisa melhor.” “Eu juro que
pensei: é o meu fim. Ele vai me matar agora”, comenta o homem. “Mas não, tudo que fez foi me
mandar levantar e ir embora.”
Zeferino baixa os olhos e sobre um papel faz algumas marcações com uma caneta vermelha,
contornando nomes de mulheres para testes de elenco, já que essa função, executada com primor por
Salvatore, está temporariamente assumida por ele. Leva o toco de charuto apagado até a boca,
movimenta-o entre os dentes e torna a segurá-lo entre os dedos.
“É, você teve muita sorte de encontrar um sujeito bem-humorado. Mas como foi mesmo a história
desse tapa-olho?” “Pois então, eu tava gravando o último filme da Greice Sally, e uma daquelas
bolinhas em chamas saltou forte demais, espatifou a lente da câmera e me deixou com um tapa-olho.
Mas é provisório.”
“Moça espetacular, essa”, exclama Zeferino. A satisfação em ouvir o nome da namorada lhe faz
girar a cabeça, chupar a ponta do toco de charuto e coçar o saco. “Mas me diga uma coisa, que gosto
tem?”, pergunta Zeferino. “O quê?” “Silicone.”
O telefone toca, e Zeferino atende sua secretária, que avisa sobre a presença, na recepção, de
Edgar Wilson e Pablo Sasaki.

Os dois estão sentados na sala de espera e é óbvio o nervosismo de Pablo, que batuca pés e mãos,
respira sonoramente e sente a garganta queimar. “Mas é a namorada do homem, Edgar”, sussurra
Pablo. “Acho meio estranho a gente entrar lá, colocar o filme e apertar o play. Estamos falando da
mulher do homem.” Edgar toca no braço de Pablo, que segura o chiuaua, levantam-se e caminham até
um canto da recepção, afastando-se da secretária que avisa poderem entrar. Edgar faz um sinal para
que ela espere. “Ele sabe bem quem é a mulher dele. Esse é o trabalho dela e o nosso é mostrar a
fita”, fala Edgar Wilson. “Uma coisa é a gente assistir em casa, na privacidade do lar, a mulher do
chefe lançando bolinhas em chamas com o rabo, outra é a gente assistir com o chefe”, diz Pablo,
nervoso. “O que você sugere?” “Eu tenho certeza de que esse sujeito é o tal cara.” “Como você vai
dizer a ele que o sujeito que virou a mulher dele do lado avesso nesse filme roubou a mercadoria
dele e ainda matou seu funcionário de confiança?”
A porta do escritório se abre repentinamente e uma gargalhada seguida da tosse seca rompe a
pequena recepção, quando Zeferino despede-se do homem com quem conversava e agora sinaliza
para Pablo e Edgar entrarem. Este apenas olha para o parceiro e aperta a caixa com o filme. Em
passadas contidas seguido por Pablo e o esmirrado cachorro comprimido sob sua axila atravessam a
porta. “E então, Edgar, Pablo, novidades?”
Pablo estaca-se ao fundo do escritório enquanto Edgar abaixa-se e liga o DVD, mas antes de
reproduzir o filme diz comedido que, respeitosamente, muito respeitosamente, assistirá às cenas que
aparecerão. Amadeu está em duas cenas com Greice Sally e, na primeira, ela recebe algumas
bofetadas suas e seguidas esporradas. Ele tenta encontrar a segunda cena, um tanto amena, porém o
nervosismo provocado pelo raciocínio de Pablo o impede de encontrá-la e a cena das bofetadas e
esporradas faciais são reproduzidas para Zeferino enquanto Edgar afirma que o ator é o mesmo
homem com quem cruzou as escadas.
Zeferino apanha uma caixa de fósforos em cima da mesa e acende o toco de charuto. Um ato
indicativo do ódio que somente a forte nicotina em seus pulmões pode aplacar. Traga o charuto e
expele a fumaça como um touro, como o búfalo que outrora era revestido com o couro daquela
cadeira que assenta seu traseiro. “Sabe quem é esse Amadeu? Um atorzinho chinfrim, péssimo e de
pau razoável. Só mantive ele aqui porque, além de ter fôlego o bastante, não me causava problemas”,
diz Zeferino, tentando conter sua raiva e a vergonha de ser lesado num golpe tão baixo. Edgar desliga
o aparelho de DVD apressadamente, em respeito a Greice Sally, sua nudez e perversidade sexual,
como se cobrisse o corpo nu de uma santa mulher. Pede desculpas, pois sente vergonha por seu
patrão, coisa que só a fidelidade com que serve aos outros que lhe confiam tarefas pode fazer.
Zeferino se coloca de pé e, permanecendo atrás de sua mesa, dá minúsculas passadas irritadas,
tragando aquele toco que lhe causa súbita tosse a ponto de curvar-se sobre a mesa e bater no peito.
Edgar abre a janela para arejar. Pablo está estarrecido: a sensação de culpa é vertiginosa como a
queda de uma das montanhas geladas da Europa, onde sonha morrer. E pensa que, se esse homem
sequer desconfiar de seu envolvimento com Greice Sally, a única queda que sofrerá será daquela
janela, amparado em seguida pelo asfalto quente, com bostas de cachorro e água de esgoto
empoçada.
Zeferino recobra o fôlego e joga pela janela seu toco de charuto com a ponta incandescente. Isso o
faz lembrar mais uma vez de sua Greice Sally. Agradece a Edgar, que considera um bom amigo.
Volta a sentar em sua cadeira, agora mais aliviado. Retira da gaveta um outro toco apagado de
mesma coloração e diâmetro e segura-o entre os dedos. Observa, com cautela, Pablo ao fundo do
escritório, e o pequeno animal que lambe sua mão carinhosamente. “Por Deus, Pablo, o que esse
bicho esquisito faz debaixo do teu braço?”
No mesmo instante abre-se a porta e Edwiges D’Lambert entra, carregando uma maleta prateada,
remando seus flancos cambaleantes, esmagando no topo da bengala a montanha em miniatura a cada
passada e arrastando a perna com menor dificuldade, já que dentro da prótese não há outro peso
senão de uma pedrinha de sachê aromatizada, sem ser anunciada. Ela gosta de entradas
surpreendentes.
Cumprimenta Zeferino, pergunta a Pablo sobre o estado de saúde de sua mãe, impedindo-o que
responda, quando estica a mão para apresentar-se a Edgar Wilson, de quem apenas ouvira falar até
então. O esmirrado chiuaua acolhido nos braços de Pablo agita-se com a presença da mulher, que ao
acariciá-lo tem sua pulseira de ouro abocanhada e engolida. “Não se preocupe, assim que ele der
condição eu apanho sua pulseira. Esse cachorro vive fazendo isso”, diz Pablo, que sai do escritório
com o cachorro.
Edwiges senta-se à frente de Zeferino e Edgar planta-se como um cão de guarda ao fundo da sala.
Zeferino abre a maleta e permanece atarracado atrás dela por alguns instantes. Instantes muito
parecidos com aqueles que Edwiges implementou na noite anterior, provocando a insegurança de
Guilherme e Amadeu.
Batuca o toco do charuto apagado na quina da maleta, o que demonstra análises, ponderações,
considerações. Essas batucadinhas a deixam apreensiva, a ausência de som também, o oco em sua
prótese começa a pesar em reação ao nervosismo. Decide desviar a atenção sobre o charuto e varre a
mesa de Zeferino, onde está a capa do filme a que acabaram de assistir. Uma foto na contracapa faz
despontar uma interjeição, uma fisgada na perna fantasma, uma péssima reação psico-nervosa.
Ele fecha a maleta e olha para Edwiges, que está trêmula, analisando a contra-capa. Olha para ele
e suspendea, quase sem palavras. “Foi esse o rapaz que me vendeu.” “E essa mercadoria é minha.
Foi roubada do Salvatore no dia em que foi morto.”

Não é mais um rumor ou boato, agora é fato. Salvatore está mesmo morto e todas as histórias
subseqüentes são validadas nesse momento. É preciso defender-se, lembrar-se de tudo, exatamente
tudo o que fora falado, visto, percebido, por mais sutil.
“Ele estava com um outro rapaz, Guilherme o nome dele. Guilherme Benigno. Eu só os recebi por
intermédio do Pablo. Esse Guilherme me ligou e disse que o Pablo havia sugerido meu nome e
pareciam bastante íntimos.”
Com expressão de surpresa, tanto de Zeferino quanto de Edgar, que se abstém temporariamente de
seu frio olhar, interrogam-se numa troca de expressões faciais, ao passo que Pablo retorna à sala
carregando o chiuaua com o focinho amarrado por uma silver tape. “Prontinho, gente, agora não entra
mais nada.”

Muitas explicações Pablo teve de dar naquele início de tarde, um interrogatório pelo qual ele não
esperava, mas sua boa reputação e lealdade lhe pouparam de maiores desentendimentos. Edgar
Wilson interveio na situação, alegando que Pablo jamais armaria pelas costas de ninguém com quem
estivesse trabalhando, que seu nome fora usado numa trapaça por alguém que conhece muito bem as
transações de Edwiges. Alguém que blefou na cara grande. Pablo passou a lhe dever esse favor pelo
resto da vida.

Guilherme Benigno foi encontrado por Edgar e Pablo e depois espremido por Edwiges
D’Lambert até dizer onde estava Amadeu. Ele não sabia de seu paradeiro, nem com quem andava.
Para livrar sua pele, disse que Amadeu falou em deixar o país, sem dizer para onde. Dois dias
depois, Guilherme deixou o gás ligado por acidente, segundo a perícia, e morreu. “Ele era muito
distraído”, foi o que disse uma tia para uma entrevista no telejornal. A afirmação da tia fez Zeferino
rir por alguns instantes. Rir por alguns instantes aliviava a pressão que sentia.
O sujeito que dividia o apartamento com Amadeu apanhou e ficou uma semana hospitalizado,
quando descobriram uma estranha multiplicação em seu saldo bancário. Ele havia acabado de
receber uma indenização, mas isso eles não procuraram averiguar. Alguém tinha de apanhar e sofrer.
Alguém tinha de pagar de alguma forma.
Amadeu espera friamente, dentro de uma gaveta, que alguém lhe resgate, liberte sua alma, lhe
confira um enterro com velas e lágrimas. Torna-se o fantasma que assombra Zeferino.
Enquanto não colocar as mãos em Amadeu, ele sabe que alguém estará brindando com seu
dinheiro, comendo a mulher do próximo com seu dinheiro, comprando nas mesmas lojas que ele com
seu dinheiro.
Tornou-se uma obsessão encontrar o sujeito que lhe roubou e depois lhe vendeu aquilo que lhe
pertence. Alguém armou uma cilada pra cima de Salvatore. Alguém que sabia exatamente o que ia
ocorrer naquela manhã. Alguém astucioso o suficiente para simular uma parada cardíaca na raposa
que era aquele homem. Alguém que entraria e sairia daquele prédio ordinário no Centro da cidade,
carregando uma pequena fortuna pendurada sobre os ombros debaixo de um sol insuportável. Um
esquema muito bem moldado e certamente alguns de seus influentes inimigos estão envolvidos. Em
anos, nunca vira algo tão bem articulado.
Capítulo 8

No teto da sala, a infiltração alarga-se, formando ramificações de cor verde-musgo e o constante


barulho de gotas sendo despejadas em intervalos regulares dentro de uma tigela colocada atrás do
sofá.
Com a cabeça recostada sobre o braço do sofá, Horácio não se move ao ouvir o telefone tocar
pela terceira vez. Não pretende levantar-se. Sente apenas vontade de esperar pelo retorno de seu
vizinho de cima e avisá-lo sobre aquela infiltração que, por sua vez, ele tem acompanhado. As belas
modificações e novos contornos que ganha cada vez que as gotas tornam-se mais pesadas e sonoras,
espocando na tigela, num eco aquático.
Vai até o quarto em que Amadeu ficou e abre uma das portas do armário. Tudo que pertencia a ele
está ali dentro, trancado. Horácio apanha a bolsa e novamente revira seus pertences. Não há nada que
revele coisa alguma. Torna a colocar a bolsa dentro do armário e fechá-lo. “Pra quê?”, ele pensa.
“Por que deixar tudo ali mesmo?” Ninguém virá apanhar nada e é melhor libertar os fantasmas
desatando as correntes de seus pulsos. Apanha a bolsa com todos os pertences de Amadeu e imagina
uma maneira de se desfazer daquilo. Jogar no lixo, dar aos pobres e mendigos. O que um sujeito
como Amadeu gostaria de fazer com suas coisas? Ele não sabe, não houve tempo suficiente para
confidências de morte. Lembra-se apenas do tubarão com os ouriços venenosos na garganta. Pensa no
mar, o oceano parecia agradá-lo, isso talvez. O oceano.
Horácio não dorme há dois dias. Dois longos dias em que o tempo não quer se dissipar. Dois
longos dias em que avista da janela de sua sala o emporcalhado sótão de janela aberta. “O velho
deve ter esquecido aberta”, ele pensa. E é desenfreado o entra-e-sai de pombos; eles tomaram o
local.
Percebe haver resíduos de sangue entranhado nas unhas e, por mais que as tenha lavado, teimavam
em não se dissipar. Acende e apaga o isqueiro. A inscrição “Para dissipar o tempo” o aflige como se
num castigo perene o tempo nunca haveria de se dissipar para ele. Como se aquele dragão devorasse
seu sossego, paz de espírito, senso crítico.
Talvez devesse ir até lá. Atravessar a rua e subir as escadas do sótão. Pensa em Edwiges
arrastando demoradamente sua prótese cor bege claro sob a saia longa. Havia um outro sujeito, o que
acompanhava Amadeu, o sujeito que andava à sua frente, determinado e de mãos nervosas.
O emaranhado de lembranças esparsas não lhe permite traçar um roteiro cronológico dos últimos
acontecimentos. Apenas lapsos de memória, deslizes do inconsciente que podem enganá-lo,
subvertendo os fatos. Porém, a bolsa estava mesmo com Amadeu e ele entrou e saiu daquele
confessionário. Os antes e depois convergem-se em frágeis instantes; um frágil instante que, súbito,
lhe coloca de pé. As passadas remotas de Edwiges, o esforço do deslocamento, o punho cerrado
apoiando-se na bengala e ali Horácio percebe que não importa a seqüência ordenada dos instantes,
mas Edwiges, sim, é possível que ela trouxesse algo dentro daquela prótese, algo que lhe fizesse
esforçar-se mais que o habitual. Trocas e negociações e o resultado estava dentro da bolsa, em algum
lugar daquele sótão encardido.
Horácio, carregando a bolsa de Amadeu, atravessa a rua e bate à porta de Lozonni. “O que você
quer?” “Dar uma olhada no sótão.” “Hum”, resmunga Lozonni, olhando-o de cima em baixo. É um
velho repugnante que fede e sua camisa encardida tem uns buracos feitos por traças.
“É pra um amigo. Eu só quero dar uma olhada. Eu moro aqui em frente, o senhor …” “Eu sei que
você mora aí em frente … você é o tarado do segundo andar que toca serrote e fica me espionando.”
“Não senhor … eu não fico.” “Você é um tipo bem depravado. Veio aqui me bolinar? Pois tanto o
sótão quanto eu não estamos disponíveis”, conclui Lozonni ao bater a porta. “Por favor, senhor. Há
dias aquela janela tá aberta. Os pombos estão fazendo ninho lá dentro. Eu só quero dar uma olhada.
Pro meu amigo.”
Lozonni hesita instantes até abrir a porta. “Você pode olhar o sótão, mas nada de me espionar, tá
ouvindo? Não gosto de músicos, não gosto de bichas, não gosto que me espiem. Suba pelos fundos e
cuidado com a maldita ratazana. Ela pode rasgar sua garganta se você não se cuidar.”

Lozonni tranca-se em casa. Horácio segue para os fundos, até chegar à escada que leva ao sótão.
Ele sobe pelos degraus podres e, ao atingir o topo, abre a porta e sente o cheiro terrível vindo de
dentro do sótão; são os pombos que cagam todo o lugar, fazem ninho, esparramam-se por todos os
cantos.
Tapa o nariz e avança para o interior do lugar. O assoalho range, os pombos arrulham e a pouca
claridade que entra pela janela lhe permite avistar o pequeno céu de paredes pintadas de azul. Um
azul encardido e manchado.
Parado bem no meio do sótão, murmura: “O que ele queria?” Olha ao redor. Há tão pouca coisa e
tudo fede, infestado.
Um pombo sobrevoa sua cabeça. Ele se debate. Tropeça numa cadeira. Atrapalha-se até chegar à
janela. Avista seu apartamento e percebe que esqueceu a televisão ligada. Coloca a cabeça pra fora e
respira fundo. Começa a se acostumar com o cheiro do lugar. “Droga, Amadeu, o que você queria
dizer?”, pensa Horácio. Fisga do bolso o isqueiro e acende-o algumas vezes. Mas isso parece
queimar seus pensamentos e carbonizar suas memórias. A luz do fogo não lhe revela nada. Revira as
opções e não há nada. É só um lugar imundo.
Ainda assim, puxa uma cadeira e senta-se apoiando os cotovelos na mesa; as mãos sustentando o
peso do rosto. Pensa. Pensa em Amadeu na sua casa, sua rápida chegada e nas conversas banais,
também não há nada lá. No armário que usou durante os dois dias em que ficou lá, só mesmo aquela
bolsa com roupas e outros pertences. Edwiges sabe, disso ele tem certeza, ela sabe do que se trata.
Mas essa é a pior parte, estar envolvido com ela.
Edwiges considera-se uma artista iluminada, mas o que realmente traz brilho à sua alma é sua
capacidade negociadora. Durante as filmagens de seu penúltimo longametragem, estava negociando
duas telas valiosas, roubadas de um colecionador. Tudo estava acertado para que repassasse a
mercadoria na locação em que filmava, porém o colecionador roubado, que já havia roubado essas
telas, soube da transação e, decidido a recuperá-las, enviou alguns homens. Edwiges precisava
entregá-las ao contato e tirá-las do país, mas estava coagida. Num lapso de iluminação da alma,
incluiu no cronograma do filme uma cena em que o protagonista seria escoltado até o aeroporto. Com
a ajuda de policiais que se prontificaram em fazer a cena, utilizaram três viaturas. No início da noite
as telas embarcaram na primeira classe com destino à Alemanha e o filme recebeu o Kikito de
melhor direção.
Essa história percorre, sorrateira, os bastidores, tornando a mulher ainda mais misteriosa.
Horácio acredita que ali houve uma soma em dinheiro considerável para que qualquer pessoa se
sentisse favorecida na Terra. Uma situação que ele contestaria há alguns anos, mas não agora. Não
depois de tanto tempo esperando por uma chance de verdade, viesse de onde quer que fosse, e
aprendeu nessa espera a ler os estranhos sinais de mudança.
Um homem morreu em seus braços, não por sua culpa, mas por uma tragédia. Uma tragédia que
carregará por todos os dias de sua vida. Encontrar a bolsa seria o preço pago por essa tragédia que o
acaso colocara em seu caminho. Pensando dessa forma, não se sente como um ladrão ou
aproveitador, é a boa sorte que lhe indica caminhos possíveis, ainda que aberto a golpes de facão.
Por outro lado há o grande problema que martela sua consciência: “Quem é ela?” A quem
Amadeu se referiu, apontando para o dragão. Alguém que foi sua última lembrança e preocupação,
alguém a quem todo seu sacrifício era destinado. Em algum lugar, ela espera por ele, por aquela
bolsa.
Bate o portão ao sair. Não vê nenhuma ratazana por lá, somente gatos dormindo, enfurnados
debaixo da escada. Atravessa a rua com a sensação de que deixou escapar algum lugar, que debaixo
daquelas bostas de pombos existe uma pequena fortuna que mudaria sua vida ou a de qualquer um.
Caminha à beira-mar por quase uma hora. Onde as ondas arrebentam com mais força contra uma
muralha de pedra, acredita ser o lugar ideal para jogar as coisas de Amadeu. Escala as pedras
menores e logo senta-se no topo daquela muralha. Abre a bolsa e lança ao mar peça por peça, que
são tragadas pelas ondas enfurecidas que as abocanham famintas, carregando tudo para dentro do
mar.

***

Alguns socos explodem contra um homem que grita: “Concentre-se, concentre-se. Você está
girando demais pra direita, garota.” Ele pára de gritar e ela quase desaba no chão. Treina durante
horas e ele, seu treinador, sabe que nos últimos dias sua cabeça não está ali, somente seu corpo. Se
continuar assim será esmagada no próximo ringue que subir, e ela também sabe disso.
Gina Trevisan se coloca de pé e vai para o vestiário. Toma um demorado banho, lava os cabelos,
veste-se e vai embora, não antes que ele lhe diga algumas palavras:
“Gina, você é uma das melhores e sabe disso. Daqui a um mês teremos outro campeonato. No
boxe, se sua cabeça está aqui e sua mente não, ela se espatifa no primeiro assalto. Eu não quero vê-la
partida, entendeu?”
Nos últimos dias, fita o telefone por horas, mas, quando toca, nunca é quem espera. Cansou de
esperar e parece saber de alguma maneira que nunca atenderá quem ela realmente quer. Confiou na
pessoa errada, nunca confiou antes assim em alguém e se arrependeu imensamente. Deveria ter
permanecido na sua condição de desconfiada, auto-suficiente. Os cobradores estão em sua porta
quando chega em casa e segue adiante até uma padaria. Um bolinho com café. Esperou que eles
desistissem para fazer suas malas e ir embora. Mas pensa em Mônica, com quem divide o
apartamento. Eles descontariam nela, porque sempre descontam em alguém.
Sem patrocinador, Gina decidiu conseguir dinheiro emprestado com certa agiota, chamada
Edwiges D’Lambert, e continuar sua carreira. Não sabia exatamente no que se metia. Perdeu todas as
lutas importantes e o pouco que ganhou em outras de menor visibilidade não dava para acertar as
contas no fim do mês. Ainda contava com algum dinheiro da publicidade de uma cachaça muito
vendida nas Minas Gerais, mas eles descobriram que a maioria de seus consumidores preferiam uma
mulher de pele morena, mais avantajada. Seus cabelos vermelhos, sua pele branca e o dragão tatuado
nas costas lhe tiraram o único meio de sustento nesse período.
Gina deve muito dinheiro. Os juros se acumulam e reagem como pontadas no estômago. Ela só
conta com uma pessoa, que prometeu lhe ajudar, que ligou dizendo que havia conseguido o dinheiro.
Seu treinador acredita no seu talento, mas ela nem tanto. Não depois de tantas derrotas seguidas.
Naquela noite, recebe um telefonema. No dia seguinte, pela manhã, Gina chega ao escritório de
Zeferino Manches.
“Gina Trevisan, uma luta”, ele diz e suspende o dedo indicador para enfatizar. “Pense bem,
garota.”
Uma luta. Uma chance de se livrar para sempre da dívida com Edwiges D’Lambert, que na
verdade não passa de testa-de-ferro de Zeferino Manches, que autorizou o empréstimo meses atrás,
porque sabia que Gina não seria capaz de pagá-lo em dinheiro. Para um sujeito como ele, ter
devedores é imprescindível.
Vale-tudo. Uma luta clandestina, realizada nos fundos de um de seus estabelecimentos, contra
Hugo Valentino, um lutador de boxe que, por enquanto, concentra sua fama em agressões contra
mulheres. Filho de um industrial, nunca precisou medir o impacto das porradas que distribuía ou se
preocupar com as muitas ocorrências policiais. A grande jogada era Matias Valentino, o pai, cuja
conta bancária comporta o tamanho de seu novo investimento. Está quase fechando negócio, quando
Valentino insinuou o grande desejo do filho: um vale-tudo com mulheres num ringue de verdade e
uma pequena platéia de amigos para acompanhá-lo. Essa seria sua festa de despedida, já que em
poucos dias competiria num importante campeonato em Miami. Imediatamente, Zeferino estendeu a
mão, apanhou o telefone e, sorrindo para Matias Valentino, disse: “Diga ao Hugo para preparar a
lista de convidados, ele terá uma despedida inesquecível.”
“Uma única luta e sua dívida morre comigo. Ainda receberá uma determinada quantia para os
cuidados médicos”, diz Zeferino ironicamente. “Caso seja necessário, é claro.”
Gina Trevisan pensa em todas as últimas lutas que perdeu, seu status indo por água abaixo, em sua
cabeça espatifada no ringue, em sua cabeça erguida e livre da dívida. Zeferino a encara, quer a
resposta naquele momento. Pegar ou largar. Bater ou correr. Uma única luta. Já havia apanhado por
bem menos. “Eu topo”, responde.
Capítulo 9

Os olhos tristonhos arregalados e a rachadura na testa vazavam sangue. A velha Gisela se atirou
do prédio onde morávamos e eu havia acabado de perder meu segundo emprego: ouvir suas histórias.
Aquele dinheiro como acompanhante em minhas horas vagas iria fazer muita falta.
Ao me deparar com seu corpo estendido no chão, segurei os livros emprestados ainda mais
firmemente e entrei no prédio. Me senti estranho com essa reação, mas a primeira coisa que me veio
à cabeça foi: “Eles vão ficar melhor na minha prateleira.” Que pensamento horrível era aquele e
ainda bem que temos o direito de pensá-los em silêncio. Pensamentos devem ser quietos e assim
permanecer. O que quer que tivesse acontecido não poderia fazer nada.

Entrei em seu apartamento, já que a porta estava aberta, e parte dos outros moradores fazia
plantão ali. Onde há morte, sempre há vida especulativa ao redor. Espiei pela última vez o quadro
mais soturno que vi em minha vida: a mulher debruçada numa antiga sacada e uma lua apunhalada e
sangrenta, derramando-se dentro de seu copo de vinho. A triste mulher de olhos grandes para sempre
bebendo o sangue da lua. Dei meia-volta no lugar e fui embora sem que percebessem.

Duas horas depois, arrumei minhas coisas, o que não era muito, porque tudo era alugado. Naquela
tarde, segurando um jornal de classificados, chego ao sótão de Lozonni, que ostenta a placa ALUGA-SE
ainda mais desgastada pela chuva dos últimos dias. Sem os serviços prestados a Gisela, não poderia
continuar pagando aquele aluguel. Consegui pegar R$ 200,00 escondidos numa lata de goiabada. Ela
não precisaria mais do dinheiro. Não senti culpa. Aliás, isso é coisa que quase nunca sinto.
“Urubus devorando os restos capitais dos mortos. Somos todos”, pensei, coçando a cabeça. Meus
cabelos estavam sebosos eu precisava lavá-los imediatamente.
Eu não suportaria morar naquele prédio assombrado pela velha. Ela me perseguiria até me atirar
da janela também. Gisela viria numa hora qualquer e me empurraria da janela para que tivesse
alguém para escutar suas histórias.
“Pago metade do depósito e prometo acertar assim que receber.” Lozonni também não faz
pergunta alguma, ainda que eu dissesse: “Eu trabalho numa videolocadora aqui perto, senhor
Lozonni.” “Pouco importa”, murmura o velho. Me adverte sobre a ratazana e entrega as chaves do
sótão, do banheiro, e volta a trancar-se dentro de casa.
Lozonni, a decadência de um vigor esgotado, de lembranças turvas, despencando como sua
própria casa, e eu, o ar de juventude. O vigor das pernas galopando as escadas para o sótão, a força
com que bato o portão para ouvir reverberar a placa de alumínio já bamba, os passos firmes e
apressados, as possibilidades infinitas que se estendem a minha frente. Lozonni até que gosta de mim
e me deseja uma morte prematura. “Não queira isso pra você, Dimitri. Apodreça a sete palmos.”
Sempre deseja a morte como alguém que diz “Bom-dia” e nunca achei aquilo ruim ou agourento. No
seu entender é a melhor coisa que pode desejar a alguém.
Os pisos rangem, sonoros, e as irregularidades do teto formam bolhas no rebaixamento de gesso,
como se todo o lugar estufasse, inchasse, talvez até explodir. Piso com cuidado. Os tacos cedem, os
pombos arrulham, trepam, cagam, disseminam criptococose, histoplasmose, ornitose, salmonelose.
Um pardieiro estupendo. Me divirto como posso, matando os pombos do telhado. Centenas. Pretos,
brancos, cinzas, pardos, alguns reluzem um arco-íris na plumagem. Fascinante quando se misturam ao
vermelho do sangue pisado. Lindo.
Não movo do lugar um móvel sequer. Deixo tudo como está, até porque há muito pouco. Isso na
parte de cima, porque jamais imaginei que todas as vezes em que me sentava naquela mesa para fazer
alguma refeição ou coisa que o valha havia uma pequena fortuna debaixo dos meus pés. Sequer
percebi aquele oco. Enquanto as aranhas teciam redes em torno da tal pequena fortuna, os pombos
cagavam na minha cabeça e os gatos se matavam na minha porta quando sentiam o cheiro de sardinha
em conserva. Uma coisa lamentável.

Em garfadas comedidas, como sardinha em conserva, trepado na janela do sótão, escondido por
uma penumbra. Corro e apanho outra lata no armário. Meu pai morreu de problemas no coração, meu
avô, dois tios e um primo também. Um médico me disse que, nas sardinhas em conserva, encontra-se
boa quantidade de ácidos graxos ômega-3. Isso manteria reduzida a pressão arterial. Com pouco
dinheiro, as sardinhas matam a fome e mantêm vivo o meu coração.

Acerto um pombo com um estilingue, que tomba para a esquerda, mas não cai. Odeio essas aves
que insistem em dividir o mesmo espaço comigo. Meu constante mau humor às vezes me incomoda, a
falta de dinheiro também. Não vejo muitas possibilidades adiante. Imaginar-me daqui a vinte anos,
vivendo a mesma porcaria de vida, e a sensação de terminar meus dias num tonel, masturbando-me
em troca de centavos, uma espécie de atração asquerosa; é preferível atirar-me deste sótão e ser
comido pelas aves. Penso que esses malditos pombos comeriam a minha cara, ou melhor, eles me
comeriam até os ossos e depois me cagariam por toda a cidade. Praças, igrejas, escolas, carros.
Haveria Dimitri por todos os cantos. Eu faria uma lambança.
Havia tentado trabalhar em algumas produções do estúdio de Zeferino, por intermédio de Edgar
Wilson, mas fui dispensado porque não conseguia conter a excitação com tantas mulheres nuas; e não
havia naquilo arte alguma, o que maculava minha alma. Talvez devesse aceitar a proposta de Edgar e
seguir seus passos. Passaria por um estágio, um treinamento, e talvez encontrasse algum tipo de
motivação artística para desenvolver o ofício de meu irmão.
Minhas divagações são interrompidas pelo som insuportável do serrote de Horácio, a melodia
tristonha me faz querer vomitar, como todo o resto. Fecho a janela e me sento na poltrona, quero
algum silêncio, mas é insuportável o barulho dos cupins devorando aquele lugar. Estão por toda
parte, entrincheirados. Você pode escutá-los, aos milhares, emaranhados, incrustados naquele sótão
de madeira.
Resolvo sair um pouco e aproveitar a noite quente para perambular pela cidade, enquanto os céus
sustentam o peso das águas prestes a romper numa torrente de chuva de verão e entro num bar quando
sinto pingos largos sobre meus braços. Olho pra cima e os céus se rendem à minha presença, mas
somente os céus e nada mais.
Ali dentro todos são loucos e solitários e explodem de dentro para fora, de fora para dentro, e eu
estou no meio dessa efervescência de cores, barulhos, gemidos, portas batendo e cheiros. Muitos
cheiros e confissões. Antes ouvir explosões ao pé do ouvido ao marulhar dos cupins ruminantes. É
estranho, mas quando me sento diante do balcão percebo que eles se confessam, e assemelham-se aos
cupins, confabulando, mas a música alta não me deixa compreender o quê. Segredos compartilhados
não são segredos, são angústias. Angústia compartilhada é desespero. Compartilham entranhas. Há
entranhas espalhadas, misturadas, sangrando por todos os espaços; entranhas boas e ruins, entranhas
inflamadas. Vou me sentar ao lado das caixas de som, ali eu ficarei surdo o bastante para dormir
sossegado naquela noite.
Me oferecem conhaque e me lembro de alguém dizendo “mas essa lua, mas esse conhaque botam a
gente comovido como o diabo”. Não me lembro quem disse isso. Talvez tenha sido o balconista da
padaria; lá vende conhaque. Pouco me importa. De qualquer forma, eu não bebo conhaque e nunca
fico comovido como o diabo. Apenas fugindo de cupins. Há algum mal nisso?

***

A porta do Santana fecha-se e o carro que arranca em seguida faz o chiuaua escorregar do banco
traseiro, emitindo um choramingo. Pablo Sasaki olha pelo retrovisor lateral e decide trocar o
curativo do supercílio. Ajeita-se no banco e apanha uma capa de CD sobre o painel do carro. “Vamos
mesmo ter que ouvir isso?”, pergunta.
Edgar Wilson não responde. Permanece com a atenção voltada para a direção. O cachorro
começa a uivar tristemente, com lágrimas nos olhos. Pula para o colo de Pablo, amedrontado. “O
pior é que nem música isso é”, continua a reclamar. “O que esse cachorro tem?”, fala Edgar. “Acho
que está com medo.” Pablo acalenta o animal, afagando-o nos braços. “Ele está assustado com essa
coisa aí. Edgar, vamos ter que ir ouvindo …” Ele apanha a capa do CD novamente e lê o título e o
subtítulo. Brisas, lufadas e refregas dos trópicos. Sons de relaxamento? “Isso não é música e está
assustando o cachorro. Por Deus, pelas freirinhas que te criaram, desliga isso!”
Edgar atende ao apelo de Pablo, aos choramingos entristecidos do cachorro, e muda de CD. Os
mais diversos sons crepitantes das lareiras Suíças? “Nossa, muito melhor, agora sim, Edgar
Wilson, isso é que é música. Sons crepitantes das lareiras Suíças.” “Isso me ajuda a ficar mais
relaxado.” É tudo o que Edgar responde, contraindo os dedos contra o volante, e o cachorro
finalmente sossega. O som dos carros na pista ao lado, cortando o ar, parece invadir seus
pensamentos arrematados pelo crepitar dos fogos, que causa certa nostalgia temporária.
“Pra quê esses vidros escuros se estão sempre arriados”, resmunga Pablo Sasaki. “Você precisa
dar um jeito neste ar-condicionado ou então troque os vidros porque desse jeito não tem propósito.”
“Que propósito?”, pergunta Edgar. “Permanecer incógnito. É pra isso que eles servem. Sem contar
que vidros arriados tiram o status. Vai por mim, ou você suspende essa porcaria ou vai a pé.”
Edgar não ouve uma palavra das reclamações de Pablo, já está acostumado e só ouve o que bem
entende. “Eu não sei como esse sujeito conseguiu desaparecer dessa forma”, diz Pablo. “Esse
Amadeu, o cara simplesmente … Não temos mais onde procurar, quer dizer, estamos indo resolver
um problema seu, ao invés de tentar mais alguns contatos”, diz Pablo. “Não vamos demorar lá”, diz
Edgar, e faz uma pausa antes de prosseguir. “Mas isso é um problema pra você, Pablo? Um pequeno
atraso nas buscas te incomoda tanto assim?” “Eu disse porque acho que o Zeferino não vai gostar de
saber que enquanto ele nos paga pra procurar por aquilo que ele quer achar, ficamos por aí
resolvendo seus problemas.”
Edgar reduz a velocidade do carro e troca de marcha. Marcha lenta, e isso é sinal de discussão. É
modo peculiar de agir. Sempre que tem um problema para resolver, precisa que tudo ao seu redor se
torne lento o bastante para deixar ultrapassar seus pensamentos.
“Você acha isso mesmo? Então por que você não liga pra ele, hein? Liga pra ele e diga como eu
sou irresponsável e o quanto você se preocupa com seu trabalho. Explique a ele de forma clara o que
seu nome fazia na boca do sujeito que roubou a droga dele e depois a vendeu pra ele mesmo.
Explique a ele porque o tal do Amadeu conseguiu escapar daquele prédio, hein? Não será por que o
Pablito aqui estava ocupado demais dando um telefone pra quem mesmo? Ah … não seria pra uma
certa Greice Sally, porque ele não consegue ficar com o pinto quieto dentro das calças? Ligue pro
Zeferino, e até no inferno, Pablito, você vai suar frio.”
Edgar fala o equivalente a uma semana. É terrível quando fala demais pois indica que está
enfurecido. Enquanto alguns se calam, ele fala. E quando se cala, é sinal de total tranqüilidade.
“O tal do Guilherme Benigno disse que só usou o meu nome pra chegar até a Edwiges. Que o meu
nome abre algumas portas. Ele confessou isso, você estava lá.”
“Quantas portas seu nome pode abrir?”, pergunta Edgar, desdenhoso. “Muitas portas … e pernas
também”, fala, com certo peso de responsabilidade. “Como as da Greice Sally?” “Esqueça essa
mulher.”
“É verdade aquela história de que você encontrou um …” Edgar gira o dedo indicador no ar,
tentando se lembrar do nome. “Enquanto vocês estavam …” “Como você soube disso? Com licença,
mas é minha vida particular”, interrompe Pablo.
Edgar começa a rir de forma contida, mas com um terrível semblante irônico. Pablo perde a
resistência. “As pessoas falam”, responde Edgar Wilson. “Imagina você, está lá numa boa e de
repente encontra um termômetro. Quer dizer, ele foi saindo, sozinho. Senti as cutucadas e pensei que
fosse algum método contraceptivo, alguma invenção sofisticada. Mas era a porra de um termômetro
fincado nas entranhas da mulher. Fiquei desacreditado e pela preservação da minha saúde terminei
tudo ali mesmo. Eu não posso me relacionar com uma mulher que esquece objetos estranhos e
pontiagudos dentro do rabo. O que eu encontraria na próxima vez? E se fosse alguma coisa cortante?
Eu estaria mijando sentado agora.”
Pablo Sasaki balança a cabeça, consternado com o que acaba de dizer. Havia sido uma
experiência da qual ele temia interferir diretamente em sua vida sexual. Respira profundamente,
sentindo-se um pouco mais relaxado. “São mesmo eficientes esses sons crepitantes das lareiras
Suíças. Me empresta depois?”
Capítulo 10

Ajoelhada num canto de seu quarto, Gina faz uma breve oração e entrega sua cabeça à
providência divina. Um pressentimento comprime seu peito, teme lutar. “Uma única chance”, pensa.
Levanta-se e beija uma foto da mãe, que guarda no bolso, e benze-se diante de uma placa escrito:
“Nós amamos apenas aqueles que resistem; os demais, nós toleramos.” Até poderia ter sido uma das
frases ditas por sua mãe, mas era o que estava escrito no alto da porta do ginásio em que treina boxe.
Seu treinador cubano gosta de manter viva a filosofia da luta de sua terra natal.
A estridente buzina de um carro estacionado em local proibido, com as luzes do alerta acesas,
provoca nos vira-latas da rua algazarra e latidos, competindo em estridência com o barulho da
buzina.
Elvis Wanderley, é assim que se chama. Uma homenagem ao rei do rock por parte de pai e uma
homenagem a Wanderley Cardoso por parte de mãe. Ele prefere os Beatles e os Bee Gees. Talvez
por isso cultive um visual setentista, de roupas extravagantes, cabelos em desalinho proposital à base
de cera fixadora, o gosto pelas boates e drinks exagerados.
Não conhece os arranjos da situação em que Gina Trevisan está envolvida, mas está habituado a
não fazer muitas perguntas e criou uma membrana de isolamento nos dois ouvidos, que se fecham
quando preciso. Para todos os efeitos, diz trabalhar durante a madrugada num arquivo central de uma
multinacional, eliminando o excesso de papelada. De todo não mente, porém o tempo verbal
empregado quando afirma isso é que está desatualizado. Há muito largou esse emprego, terceirizou
sua mão-de-obra e agora desfruta de tempo e dinheiro suficientes, o que para um homem jovem e
solteiro é o terceiro céu.
Elvis e Gina são amigos, e naquele momento ele é a única pessoa em quem confia, ainda que
decidida a não confiar sua vida a mais ninguém. Para encarar um vale-tudo clandestino, nos fundos
de uma boate, seria necessário confiar em alguém que lhe desse cobertura.
Chegam ao local da luta, nos fundos de uma boate de Zeferino Manches, no Centro da cidade.
Elvis permanece em seu carro e Gina entra sozinha. Nem sinal de Hugo. Alguns sujeitos conversam e
bebem no também improvisado bar, próximo ao ringue.
Edgar Wilson ainda não chegou. Pablo Sasaki acompanha Gina até o vestiário. Outras duas
garotas se arrumam. Uma delas carrega uma cicatriz na boca, deixada por Gina Trevisan em seus
bons tempos de lutadora. A garota ri debochada e exibe um dente numa tonalidade diferente dos
outros. Parece um Mentex preso à gengiva, um implante malfeito, depois que o original ficou sobre o
ringue, perdido em uma poça de sangue gosmenta.
“Eu tinha que ter imaginado. Gina Trevisan, a vampira demolidora”, diz a mulher. “Como vai,
Anita?”
Anita Santiago, 27 anos, especialidade: Hapki-Do. Conhecida como Anita Moenda, por triturar as
oponentes e pela cara amassada de tantos golpes. O nariz, uma cartilagem esparramada, as maçãs do
rosto deformadas por pequenos inchaços roxeados. A gordura excessiva, comprimida por um
quimono preto, e os 1,82 metro de altura fazem dela um gigante feio, assustador, mas que nunca
dispensa o batom vermelho dos lábios riscados por pequenos cortes ao longo da carreira. Moenda
tem orgulho das cicatrizes, do nariz esparramado, da gordura comprimida. “Você me deu alguns
prejuízos, mas uma hora a gente se acerta”, diz Moenda.
Gina olha para a outra garota. Ela a fez beijar a lona na última luta e levou uma boa grana. Nem
por isso Gina guarda ressentimentos. Elas se cumprimentam um tanto constrangidas.
Clara Ribeirinha, 24 anos, especialidade: caratê de contato. Possui boa técnica. Ribeirinha por
causa da calma e tranqüilidade com que conduz suas lutas. Era bailarina antes de começar a lutar e
estuda Direito. Elas se respeitam, mas Ribeirinha demonstra, na forma de encarar Gina Trevisan,
grande admiração.
“É vampira, nem mais uma luta sequer, não? Não ganha mais nada.” “Acho melhor você se
acalmar, Anita.” “E eu acho melhor você baixar esse teu nariz prepotente e essa tua pose de lutadora
invicta, porque todo mundo sabe que você não derruba nem barata.”
Gina respira fundo. A cada palavra saída da boca de Anita, arrepende-se de estar ali. A outra
lutadora pede para que Anita pare de falar. Zeferino entra no vestiário, girando o toco de charuto na
boca e dizendo: “Então, meninas? Botando o papinho em dia? Espero que estejam bem dispostas.
Clara, você será a primeira; Anita, a segunda.”
Zeferino caminha até Gina, que permanece de costas, revirando a bolsa. Ele olha seu dragão e
estremece. “E você, Gina, será a última. Espero que não tenha nenhum compromisso. Você pode se
atrasar.”
Os convidados não eram poucos e a animação faz vibrar o assoalho quase eletrificado. Homens e
mulheres, a sacola de apostas roda cada mesa, as garçonetes servem os convidados. Uma hora da
tarde. Lá fora um sol calcinante, trânsito descompassado, pessoas suadas trabalhando, os
desempregados em grandes filas de agências de emprego, amontoados em velhos prédios,
preenchendo fichas de inscrição, e dentro daquele salão, autoridades de respeito despejam o dinheiro
público em salvas, patrocinando o espancamento, vez ou outra debochando de alguma decisão
jurídica.
Hugo, de pé no ringue, pula de um lado para o outro no ritmo das batidas de uma música techno.
Um touro que beberica uísque e conta piadas enquanto se aquece.

Senhoras e senhores, estamos reunidos para nos despedir de nosso querido Hugo, que
competirá em Miami dentro de dois dias. Uma despedida à altura de nosso lutador, um
preaquecimento oferecido por seu anfitrião: Zeferino Manches. Não deixem de apostar nas
meninas, todo o dinheiro perdido será revertido em obras de caridade. Eu sou o árbitro Gyro e
tenham uma boa luta.

A música pára. Gyro faz as apresentações. Hugo e Ribeirinha iniciam uma dança, girando um ao
redor do outro. Ela não ousa entrar, Hugo abre os braços vez ou outra, convidando a garota. Ela
arrisca e um golpe de direita em seu rosto desprotegido a faz rodopiar no ringue como um pião.
Entre a platéia, o silêncio é quebrado quando um sujeito grita “Esmaga ele, garota!”. Do outro
lado alguém retruca: “Pense nas obras de caridade, eu apostei em você, garota.”
Ela tenta levar Hugo para o chão, mas este aplica vários diretos seguidos e finaliza com um
uppercut. Caída no chão, Gyro começa a contagem, mas Ribeirinha sinaliza que está bem. Uma
toalha branca voa até suas mãos. Ela seca o sangue que irrita os olhos. As pernas bambeiam.
Posiciona-se diante de Hugo, fecha guarda, esquiva-se de dois ganchos direita-esquerda e um
cruzado finaliza a luta.
Menos de três minutos de luta e Ribeirinha talvez nunca mais suba em um ringue. Arrebentada no
chão, tenta se mexer, alguém vestido de branco vem retirá-la. Ribeirinha desmaia e o nariz afilado,
única marca da aristocracia de sua família falida, deixa de existir, afogado no sangue pastoso que sai
de todos os poros de seu rosto.
Hugo pula de um lado para outro. A luta será breve, os outros voltarão para seus escritórios
depois da hora do almoço. Ele gostaria de estender mais um pouco, o problema é que aqueles corpos
frágeis, a pele delicada, não agüentam seus primeiros golpes.
Anita Moenda sobe ao ringue rosnando. Pega Hugo desprevenido, com a direita aberta. Ele sente
a pancada e o impacto dos quase oitenta quilos de Moenda. Recompõe-se e desfere alguns golpes
que abalam a estrutura de Moenda, que revida em dois golpes certeiros. Ele apóia-se no canto do
ringue, ela ri com sangue na boca. A luta começa a provocar reações na platéia. Agora há uma luta:
uma avalanche de diretos explode contra Moenda e um gancho de esquerda a faz engolir o implante
vagabundo. Engasga, sufoca, enquanto recebe socos de todos os lados, apoiada na lateral do ringue.
Gyro separaos e Moenda, roxa, não consegue dizer o que acontece. Segura o próprio pescoço, os
convidados agitados. “Ela está roxa”, uma mulher grita.
O homem de branco sobe ao ringue, Hugo aproxima-se e tenta acudí-la. Moenda cospe seu dente
preso na goela, parecendo um chafariz expelindo tanto o dente quanto sangue em cima de Hugo, que
pula para trás. Ela faz sinal de que está bem, o homem de branco desce do ringue, ela avança sobre
Hugo e acerta alguns golpes enfurecidos e tenta levá-lo para o chão, sem que Gyro possa fazer nada.
A platéia vibra. As apostas em Moenda crescem. Matias Valentino demonstra uma ruga de
preocupação bem no meio da testa. Hugo cai duas vezes, Moenda cai duas vezes três. Gyro dá vitória
a Hugo. Ela sai andando do ringue e, antes de desabar no vestiário, cospe alguns dentes. O nariz
desapareceu, o rosto rasgado. Diante do espelho, olha o reflexo de Gina e murmura, com a boca
frouxa: “Espelho, espelho meu. Existe alguém mais bela do que eu?”

Clara Ribeirinha levará meses para ficar boa. O dinheiro que ganharia seria para pagar uma
cirurgia de seu irmão caçula. Agora, precisaria de dinheiro para duas cirurgias ou andaria com uma
máscara pelo resto da vida.

Zeferino entra no vestiário. Gina Trevisan sabe que será massacrada, que aquilo é uma
carnificina, e ela quer desistir. “É sua vez, Gina.” Está apavorada. Olha para Ribeirinha. Talvez ela
nunca mais se recupere. “Vocês massacraram a garota”, diz. “Talvez sim, talvez não, e daí? Essas
garotas conhecem o risco que correm, eu conheço o risco que corro. Uma velhinha de oitenta anos
conhece o risco que corre quando atravessa sozinha uma rodovia. Não interessa, são os riscos. Agora
é sua vez.” “Eu não vou”, ela insiste. “Subir naquele ringue ou continuar te devendo dinheiro é a
mesma coisa. Não é arriscar, é acerto.”
Zeferino Manches não torna atrás. Ele havia prometido uma luta com três garotas, três boas
lutadoras, e ele teria. Hugo teria. Matias Valentino teria e ficariam todos felizes. Ele olha sério para
Gina. “De jeito nenhum. Pode acabar comigo aqui mesmo. Lá eu não vou.”
Ser desafiado por uma mulher como Gina Trevisan lhe faz comprimir a braguilha. Leva a mão e
ajeita seu pau. Seu hálito doce, muito próximo do rosto de Zeferino, esmorece seu olhar. Ele ri. Do
pau, sua mão vai parar no bolso da calça. Tira a carteira e apanha um talão de cheques. “Três mil e
você sobe.”
Uma chance única, ainda que fosse daquela maneira. Duas tragédias a cercam: Ribeirinha e
Moenda. Elas sabiam no que estavam se metendo. Uma chance única. “Três mil. Mais as despesas
médicas e minha dívida com a Edwiges cai no esquecimento?” “Opa, opa! Você não acha que é o
bastante? Três mil mais as despesas médicas … você deveria me dar o troco.” “Eu tô aqui por causa
da dívida. Acertamos isso agora e você nunca mais terá que olhar pra minha cara.” “Dessa parte eu
não gostei”, retruca Zeferino. “Eu esqueço a dívida, te dou os 3000,00 mais as despesas médicas, e o
troco você me dá mais tarde.”

Ele aproxima-se e ajeita seu cabelo, colocando-o atrás da orelha, e dois dedos deslizam
delicados sobre o rosto de Gina, que permanece firme, sem reagir ao gesto. “Essa luta é muito
importante pra mim. Você não imagina o quanto. Suba lá, dê o melhor de si, e vai ver que no final
ainda sairá no lucro. Te apanho às 8 em ponto.”
Ele faz sinal pra que ela se vire de costas e apoiado sobre aquele dragão, abaixo do cabelo
vermelho fogo, sem pressa, Zeferino preenche o cheque, com a braguilha quase se rompendo e uma
dor fria e aguda sobe e desce do pau até o estômago. Gina olha para o cheque. “Se quiser que eu suba
lá, vai ter que ser em dinheiro.” “Dinheiro? Agora?” Ela aproxima-se dele e o hálito doce penetra em
suas narinas. “Agora”, diz.
Ele sai do vestiário e vai até o escritório da boate. Retorna minutos depois com um envelope
amarelo timbrado. Dentro, R$ 4000,00. Gina pede pra ficar sozinha e fazer uma oração, pois é uma
garota católica. Ele ri e coça o pau mais uma vez.

***

Elvis Wanderley espera dentro do carro, estacionado num beco nos fundos da boate, enquanto
come uma esfirra de queijo e faz caça-palavras. Atende o telefone, que relincha três vezes. Relinche
é seu toque predileto. “Elvis, eu preciso que você me ajude, agora.” Ele pede um segundo e risca a
palavra “ROSÁCEA”. Coça a cabeça, mastiga três vezes e engole. “Pode falar.”

***

“Do meu lado esquerdo, pesando 63 quilos, Gina Trevisan”, anuncia Gyro. No quadro de apostas
está escrito: idade 25 anos. Especialidade: boxe — muay thai. Esta última especialidade foi
adquirida graças ao empréstimo com a agiota. Treina há meses.
Edgar Wilson permanece encostado no improvisado bar, sob uma penumbra discreta, contraindo
os olhos, preocupado. Uma das garçonetes, a que segura uma bandeja vermelha, recolhendo as
apostas, avança em sua direção e estende-lhe o braço. Ele apaga seu cigarro sobre a bandeja e vai se
sentar do outro lado do ringue, atrás dos convidados.
Essa é a luta mais esperada. Gina tem um nome importante, ainda que sem nenhuma aquisição de
títulos nos últimos tempos. Hugo, um pouco fatigado por causa de Anita Moenda, sente-se refeito
para encará-la. Um corte no rosto e um inchaço. Ele não está satisfeito com o rumo que tomou a
segunda luta, mas fora um bom aquecimento.
Gina está belíssima. A pele clara e delicada, as maçãs do rosto levemente sobressaltadas
produzem suave sombreamento que define a estrutura de seu rosto, os lábios vermelhos, o corpo
rígido, equilibrado, firme, e um olhar de estremecer qualquer um. Gyro autoriza o início do assalto.
Eles se estudam, em movimentos ponderados, giram um ao redor do outro. Assimilam-se. Gina tem
uma ótima envergadura, Hugo é preciso nos golpes. Ele joga alguns jabs, preparando-se para entrar.
Uma única chance. Ela se concentra e recebe um direto que a faz balançar pra valer, perdendo o
equilíbrio, mas recupera-se antes que caia. Sacode a cabeça e a visão retorna mais definida.
Esquiva-se de dois golpes seguidos e acerta Hugo com um uppercut, bem no meio do queixo. Ele
sente a pancada. Afasta-se. Como um touro, lança-se para cima de Gina, que aproveita a força com
que ele se aproxima, abaixa em sua direção e inverte o peso do próprio Hugo a seu favor. Gina
Trevisan tece, como uma aranha, uma seqüência de movimentos e engalfinha-se entre as pernas de
Hugo, imobilizando-o. O boxe não tem conhecimento da luta de chão. Ele tenta esquivar-se e aplica-
lhe golpes na altura das costelas. Ela sustenta. Suas coxas comprimem o pau de Hugo, o perfume, a
boca ao pé do ouvido, lançando suaves gemidos, a respiração ofegante. Ela sente a firmeza sob suas
coxas, ele não consegue se concentrar, não sabe o que fazer. Está perdido. Alguém grita na platéia.
Ele reage, encontrando uma brecha, mas ela torna a situação favorável para si. É no chão que ela
sabe lutar melhor. Com a força das pernas, ela aplica-lhe uma guilhotina e agora seu rosto sente a
maciez de suas coxas nuas. Engalfinhados pela segunda vez, ela monta em Hugo, que aplica socos
onde há brechas.
Pensa em Amadeu e na sua promessa. Não poderia confiar em homem nenhum. Ele era o
responsável por aquilo, ela confiou sua vida e agora precisa apanhar para mantê-la. Ela prende o
quadril de Hugo entre suas coxas e os movimentos dos corpos, friccionando para um lado e para
outro, fazem Hugo gemer de dor e prazer. Gina olha para Zeferino, desafiadora, este contrai os olhos
e levanta-se diante da iminente explosão, com a mão sobre o peito, e seu proeminente Churchill
amarelado desprende-se de seus lábios, agora empalidecidos, que murmuram: “Maldita.”
Vários socos arrebentam a cabeça de Hugo. Quanto mais socos recebe, mais seu pau endurece, e
ela sente o corpo dele relaxar, inerte, até espirrar sangue em seu rosto. Hugo não reage. Gyro avança
sobre Gina, que não pára de desferir golpes contra a cabeça do lutador. Os outros invadem o ringue e
debruçam-se sobre ele, desmaiado. Ela se coloca de pé, com pequenas manchas de sangue sobre si, e
recua, enquanto a atenção fixa-se em Hugo. Corre para a porta dos fundos, que dá no beco.

Pablo Sasaki desce do ringue e numa rápida olhada tenta encontrar Edgar Wilson. Chega à porta
dos fundos e ele está parado no meio do beco, enquanto o carro acelerado termina de dobrar a
esquina.

“Vai vai vai”, é o que Gina Trevisan grita, batendo a porta do carro. Elvis, lambuzado de esfirra,
acelera, cantando pneu, e desaparece virando à esquerda.
Pablo está afobado. “E aí, Edgar, cadê a mulher? Que cê tá fazendo aí parado?” “Eu não encontro
as chaves do carro.” “Ela tá fugindo e você tá parado aqui?” “Já disse que não encontro as chaves do
carro.” “Cacete, onde você foi colocar essas chaves?”
Gina dividiu o dinheiro por todo o corpo. Retira o envelope amarelo de dentro do short, preso à
cintura por ataduras, e de cada tênis, mais dois pequenos maços. Seca o rosto respingado de sangue
com um lenço de Elvis. “Eu não esperava que fosse desse jeito”, diz Elvis. “Esse sangue é seu?”
“Um pouco, acho”, responde. “Quem era aquele sujeito?” “Que sujeito?” “Aquele parado lá no
beco.” “Não sei.” “Mas ele estava parado lá.” “Eu não sei, Elvis. Não vi sujeito nenhum.”
Elvis, nervoso, não consegue controlar as mãos que tremem, o coração que trepida quase
arrebentando o peito. “Você arrebentou mesmo com o desgraçado, não? A Vampira acordou com
fome.”
Ele liga o rádio e troca as estações. Uma rumba explode dentro do carro, ricocheteando nos
vidros, sufocando o raciocínio. O sinal fecha. Gina permanece calada por alguns minutos, o olhar
transtornado. Um carro pára ao seu lado. O motorista olha para ela e seu olho direito e parte da
cabeça são deformados. Ela desvia o olhar e abaixa a cabeça, colocando-a entre as pernas. O lenço
com manchas de sangue. A cabeça espatifada de Hugo, a boca de Zeferino proferindo “Maldita” num
murmúrio gelado. Elvis batuca no volante. Está quente e não corre uma brisa sequer.
“Você está bem?” “Eu vou vomitar”, diz Gina.
Ele apanha o saco de papel gorduroso, cheirando a queijo, sobre o banco traseiro. Gina vomita.
Ele segura sua cabeça com a mão direita e arranca com o carro, segurando o volante com a esquerda.
Ela volta à posição anterior e sente-se melhor, com o vento que atravessa as janelas. Retira das
mãos as ataduras manchadas de sangue. Um soco inglês em cada uma, com revestimento acolchoado
na parte interna. Sente muitas dores, mas não quebrou nenhum osso.
“Droga, Gina, você acabou com o sujeito. Ele não tem volta” — diz Elvis, olhando para suas
mãos roxeadas de tantos golpes. Seca o suor do rosto. Com um olhar vago, fixado no centro da pista,
permanece murmurando durante muito tempo. “O desgraçado não tem volta, você acabou com a
cabeça dele. Droga.”
Capítulo 11

Elvis Wanderley joga algumas notas e moedas sobre a mesa de uma lanchonete, levanta-se e vai
até o banheiro. Olha-se no espelho e percebe a lama já na altura da cintura, a lama em que se afunda
mais e mais, no ritmo compassado para o fim. As horas avançam, a lama o engole e de alguma forma
precisa terminar o que começou.
Dois anos eliminando o excesso de papelada do arquivo de uma multinacional lhe colocaram
diante de outras possibilidades eliminatórias quando ouviu e viu além do que devia. Recebeu, em
troca de seu silêncio, uma proposta por parte de seu superior e assim juntou-se a uma quadrilha que
age por todo o país, eliminando os mais variados tipos de excessos e resolvendo problemas, desde
que sejam ordenados e bem pagos. No início, pensou nos riscos que corria num tipo de atividade
como essa. Entretanto, sua lógica o fez acreditar que riscos corria também em seus trabalhos
anteriores, desde a contaminação com amostras de sangue, fezes e urina dos tempos de técnico em
patologia e a possível amputação de um dedo quando era assistente num restaurante japonês. Os
riscos estão por toda parte, mas não uma remuneração que os valha. Aceitou tudo com a condição de
não precisar matar ninguém. Disso nunca seria capaz.
Ao ajudar Gina a escapar, sem saber exatamente no que estava metida e o que realmente
representava essa luta, Elvis comprometera toda sua vida. Zeferino Manches é um dos homens que
comanda aquela quadrilha, porém sem nunca conhecê-los pessoalmente, deixando tudo a cargo de
Américo. Todos naquele grupo sabem que a maioria das ordens vem de Zeferino, filtradas por
Américo. O tipo de sujeito que nunca deixa seus funcionários na mão. Elvis sabe disso por conhecer
pessoalmente histórias de intervenções de Zeferino. Por exemplo, o aparelho nos dentes da filha de
um dos colegas do grupo, a fisioterapia da mãe de Américo, a pequena reforma na casa de Zito, o
integrante mais velho do grupo, são alguns de seus feitos.
Porém não é por bondade e sim por uma política empresarial que acredita ser o sucesso de seus
negócios. Funcionário satisfeito, serviço cem por cento. E dependendo do risco da ação, sempre
recebem uma gratificação. Estar envolvido em qualquer assunto que prejudique Zeferino é mexer
diretamente com aqueles homens com quem trabalha e o peso do medo recai sobre seus ombros cada
vez que respira.
Após a luta, ele levou Gina para sua casa e ela lhe contou todos os detalhes, enquanto ele
afundava desesperadamente no sofá da sala, transformado em areia movediça. Decidiu continuar
mantendo segredo sobre seu trabalho e ajudar Gina de uma maneira que conseguisse eliminar seus
vestígios, os possíveis rastros de ter estado nos fundos daquela boate.
O telefone toca e Elvis atende apreensivo, apanha uma caneta do bolso e numa folha de papel
toalha anota um nome e um endereço. Agradece com um sorriso e agora, bem mais aliviado, olha-se
no espelho e dá uma piscadela ao estalar a língua no céu da boca.

***

Com um pacote de torradas sobre o colo, Gina mastiga uma a uma, sem pressa, enquanto olha para
um quadro na parede do hotelzinho fuleiro no Centro da cidade, que mostra uma mulher debruçada
numa antiga sacada e uma lua apunhalada e sangrenta, derramando-se dentro de seu copo de vinho.
Triste mulher, de grandes olhos distantes, para sempre bebendo o sangue da lua.
Seus olhos se refletem nos da mulher da pintura, a mesma tristeza numa sacada de angústias e o
gosto de sangue de seus molares magoados. Desde pequena, seus molares sangram, sem nunca ter
entendido a razão, e ainda assim nunca se acostumou ao gosto férrico. Ele lhe causa enjôos
momentâneos e o sangramento funciona como uma reação a iminentes acontecimentos, mediúnico.
Aprendeu desde pequena a bater. Sua mãe era inválida e, sendo filha única de pai ausente, era
preciso saber se defender. Com a morte de seu avô, militar aposentado, e a pensão deixada por ele,
pôde viver, ela e sua mãe, uma vida modesta e sem apertos. A austeridade da mãe foi aplicada na
filha através de palavras de ordem, e como não podia aplicar-lhe correções como as que recebeu de
seu pai severo, ordenava que a filha aplicasse nos outros. Não era de muitos conselhos, porém um
era insistente: “Se te maltratarem, bata! Se te ofenderem, bata! Se xingarem a tua mãe, bata! Se tiver
medo, bata! Se não estiver de acordo, bata!”
O retorno do pai após a morte do avô, interessado em desfrutar da pensão deixada por ele e torrar
o que podia com bebidas e prostitutas, levou sua mãe a descansar a sete palmos mais cedo do que
esperava. No mesmo dia, Gina recolheu suas roupas, algum dinheiro, e pôs o pé na estrada. Viveu
uns tempos com uma tia, porém as constantes investidas do primo insaciável a fizeram ir embora,
mas já estava com 17 anos e trabalhava para se sustentar.
Começou a lutar boxe porque, se continuasse a seguir o conselho da mãe, não duraria por muito
tempo, mas antes de cada luta orava à mãe, rogando-lhe forças. Quando se sentia enfraquecida,
relembrava seus olhos determinados, sua boca retorcida e irada, dizendo “Bata”, e dificilmente
perdia uma luta.
A música de abertura do noticiário na televisão a faz despertar e ansiar por notícias sobre o
estado de Hugo. Não pretendia bater tão forte. Quando sentiu seu corpo afrouxar debaixo do seu,
deveria ter parado, mas era a lembrança da mãe dizendo “Bata sempre que estiver com medo”.
Aperta a camisa na altura do peito e sente comprimir seu coração acelerado, bombeando sangue
mais rapidamente, acalorando as extremidades de seu corpo.
A batida na porta a coloca de pé num salto. Lembra-se de Elvis. Olha as horas e depois o pacote
de torradas, agora vazio. Caminha até a janela, onde coloca os farelos para os pombos que arrulham
no parapeito, antes de abrir a porta para o amigo.
Antes de entrar, ele checa as extremidades do corredor e não há ninguém, ninguém o vê entrar e
isso é um conforto. Percebe que aquela situação está chegando ao fim, antes de seu próprio fim.
Chicoteia com os olhos cada canto do quarto que cheira à gordura proveniente do restaurante do
andar de baixo. “É mesmo uma espelunca aquele lugar”, ele pensa. Olha para a porta fechada atrás
de si e imagina ser descoberto ali dentro. Debruça-se na janela e confere as esquinas, os carros, os
ambulantes, os transeuntes. “Está terminando”, é só o que pensa.
“Eu falei com aquele meu amigo”, diz Elvis. “Ele falou com um amigo dele, que não se importou
de você ficar lá por alguns dias. Desde que você pague, entendeu?” Caminha pelo quarto,
vasculhando de perto os espaços encardidos. Verifica a resistência da cama, balançando seu traseiro
sobre ela, e ouvindo o ranger das molas enferrujadas. Gina não fala nada. Espera pelas conclusões
de Elvis.
“Também avisei a ele pra dizer ao sujeito que nada de perguntas a respeito de sua vida. Disse que
ele é boa pessoa, tá apertado com as despesas do apartamento e que será bem-vinda. Parece que
passa a maior parte do tempo trabalhando.”
Coloca-se de pé e apanha no bolso da calça a folha de papel toalha dobrada e lhe entrega. “Tá
aqui: o nome dele, endereço, telefone, tudo.” Depara-se com o quadro da mulher sobre a sacada.
Observa-o por instantes, sem ouvir o que diz Gina, que guarda o papel e movimenta-se pelo quarto.
Acha assustadora aquela pintura, lhe dá repulsa, mas não imagina o que exatamente pode ser: a
mulher de grandes olhos tristonhos, a velha sacada desbotada ou o sangue da lua misturado ao vinho.
Um quadro sombrio, sem propósito para estar naquele quarto de decoração colorida, flores de
plástico em jarros pintados com motivos florais, paredes bicolores: rosa salmão e verde oliva. As
cores das paredes também lhe causam repulsa. Todo o quarto e a situação em que se encontra o
fazem querer vomitar.
“Ei, Elvis, tá me ouvindo? Vamos agora?” “Ah … sim. Desculpa, Gina, mas não posso te deixar
lá”, diz ao despertar. “Você pode pegar um táxi aqui em frente” — faz uma pausa. “Perdão, você está
bem?” Toca em seu rosto e ela responde com um aceno. Elvis vai até a janela e novamente checa as
ruas. “Saiu daqui pra fazer alguma coisa? Alguém suspeito?” “Não saí e tô morrendo de fome.”
Após a apresentação de uma reportagem sobre talentos do samba, a notícia ainda cheia de
caroços e lacunas sobre o caso Hugo Valentino repercute nos dois como ondas gigantes de um mar
bravio engolindo-os para a imensidão. O repórter afirma não ter detalhes e que, em breve, a polícia
fará um pronunciamento sobre o caso. Hugo está em coma e tudo o que se sabe é que uma luta
clandestina o pôs nesse estado.
Preferem não trocar olhares e permanecem calados. Apenas a respiração preocupada e
descompassada é que troca confidências, preservando o silêncio da situação. Gina Trevisan fecha o
zíper de sua bolsa e a joga atrás das costas. Parada em frente a Elvis, que desliga a televisão,
demonstra estar pronta para ir. Ele apanha a bolsa de suas costas e a carrega como um cavalheiro, até
colocá-la no táxi em frente ao hotelzinho fuleiro cheirando a costelas de porco com batatas assadas.
É o prato do dia. Porcos e batatas.
Antes de entrar no táxi, Gina lhe dá um abraço e, com olhos lacrimosos, agradece ao amigo, que
diz: “Nós amamos apenas aqueles que resistem.” E ela conclui, dizendo: “Os demais, nós
toleramos.” Ao vê-la partir, lhe acena com um suspiro de grande alívio. “Terminou. Por tudo que é
sagrado, terminou”, ele pensa.

Gina abre o zíper de suas botas e descansa os pés. É tudo o que tem para calçar e, através da
janela do carro, muitos pés em sandálias e chinelos de borrachas. Precisa de um par confortável.
“Você conhece alguma sapataria no caminho?”, pergunta ao motorista. “Conheço muitas sapatarias.
Alguma especial?” “Só uma sandália, dessas de tirinhas, bem confortável.” O motorista olha para
seus pés, suas botas. “Quem usa uma coisa dessas num dia tão quente?”, ele pensa. “Minha prima
vende sandálias e fica bem no caminho.” “Pra mim tá ótimo.” A prima vende sandálias, incensos,
lingerie, mel de abelha e diversos tipos de ervas e tônicos numa esquina quente, abarrotada, próximo
a uma obra de saneamento com enormes manilhas atravancando a passagem. Sem sair do carro, Gina
aponta para uma sandália com tiras de couro e solado de borracha, e de troco leva alguns incensos.
Calça-as. Três esquinas seguintes, entram numa rua e chegam. Ela paga a corrida e antes de descer
do carro o motorista diz: “Você tem pés lindos … deveria usar mais sandálias. Essas botas
escondem a verdadeira beleza feminina. Pés à mostra é o que diz o quanto uma mulher é bela.”
Ela olha para o nome e o número do apartamento que estão anotados no papel. Toca o interfone.
Um homem atende e o portão se abre. Antes de atingir o segundo andar, carregando a bolsa numa mão
e as botas na outra, ela ouve o som de uma porta destrancar-se. Ao colocar o pé no último degrau, um
sorriso acompanhado de olhos admirados a esperam. Ele pensa em avançar em sua direção e apanhar
sua bolsa, porém seu raciocínio dificulta a mobilidade de seus movimentos, já que ela é exatamente o
oposto do que imaginava ser. Uma itinerante mal ajambrada ou uma mulher mal humorada que odeia
hotéis e pousadas, era isso que esperava. Nenhuma história esclarecedora lhe fora contada, apenas
vagas afirmações de que ela precisava de um lugar para ficar por alguns dias, que logo partiria e que
não poderia ficar em hotéis. Bem, isso não souberam lhe explicar, apenas a garantia foi de não se
tratar de uma ladra ou viciada ou pervertida. Mas estava convencido de que lhe enganaram
terrivelmente, pois aquela mulher acabara de saquear seu coração, provocando uma aceleração dos
batimentos numa taquicardia abstênica. As perversões que assolam sua imaginação em tão poucos
segundos, nossa!, o encabulam. Nunca seus pensamentos haviam sido ocupados com tanta
promiscuidade, nem mesmo quando deslumbrava-se com a professora de inglês e seguidamente, na
mesma aula, aliviava-se no banheiro, tendo de ser encaminhado ao médico por acharem se tratar de
incontinência urinária.
Desajeitada, Gina termina por deixar cair sua bolsa e num lance de olhar em sua direção ele
entende o pedido e vai ao seu socorro e gentilmente segura sua bolsa. Estica a mão e cumprimenta-a.
“Gina Trevisan? Muito prazer.”
O toque áspero de sua mão o surpreende ao perceber hematomas nos nós dos dedos. Os leves
roxeados em seu rosto o fazem sentir repugnância ao que aquilo realmente representa. Ela foi
espancada pelo marido ou namorado e agora precisa se esconder. Pobre garota. Ele não pára de
admirar os olhos brilhantes dela, envoltos por aquelas marcas ultrajantes e seus cabelos vermelhos
presos num rabo de cavalo arredio. Vontade de aninhá-la em seus braços e garantir que nunca mais
sofrerá um arranhão sequer. Que ao atravessar aquela porta, seus problemas ficarão do lado de fora e
ele se esforçará para que ela esqueça os dias maus. “O prazer é todo meu, Horácio”, diz Gina.
Dentro do apartamento, ele esforça-se por acomodá-la da melhor maneira possível. Mostra alguns
pequenos reparos que fez no quarto em que Gina ficará e na cama de madeira, garantindo total
resistência. Ela não se admira com nada no lugar, mas é exatamente o que precisa. É simples e calmo
e com um cheiro de mofo que não chega a incomodá-la. Há cheiros piores. Vai até a janela da sala e
dá de cara com o casarão de Lozonni. Respira fundo e sente o cheiro orvalhado, o canto de alguns
passarinhos, embora as freadas dos carros na avenida principal atinjam, enfraquecidas, aquela rua
pacífica e pouco movimentada.
Comenta sobre a calma do lugar. Horácio, depois de mostrar todo o funcionamento do
apartamento, lhe dá uma pequena lista com os lugares mais baratos para se comprar remédio e
comida. Ele olha as horas e novamente está atrasado, mas não consegue desvencilhar-se dela, que
caminha de um lado para o outro, tocando nos bibelôs, olhando de perto as fotografias em um
pequeno mural, admirando alguns pôsteres de filmes que revestem quase todas as paredes do
apartamento. Ele se justifica: “Eu trabalho com cinema. Esse troço contamina a gente, sabe.” Percebe
que ela se detém mirando o serrote sobre o sofá. “Ah … isso aqui … eu toco. Você quer ver? Eu
posso tocar alguma coisa pra você.” Ela estranha e concorda em ouví-lo. Aquela conversa termina
com um solo de serrote, até Gina, recostada no sofá da sala, pegar no sono. Cuidadosamente,
Horácio sai sem fazer ruído e vai trabalhar.
***

Gotas de suor escorrem pelas costas. Sente queimar a pele, sufocar os poros. A cauda de serpente
contornando o umbigo expele bolinhas de suor que borbulham da pele. O pescoço aquece, a garganta
incandescente do dragão frita seus pensamentos, suas garras fincadas nas costelas, as asas querendo
transportá-la para uma outra dimensão.
Gina Trevisan faz muitas flexões. A musculatura da barriga divide-se em contornos sulcados
profundamente. Enquanto os músculos trabalham, os pensamentos ventilam, o coração amortece.
De pé, agarra a barra de ferro atravessada no alto da janela da sala, de frente para o sótão. Sobe e
desce e agora seus braços esforçados reagem ao deixarem em evidência veias salientes, dilatadas.
Sua pele branca está vermelha. Todo o seu corpo está vermelho. O dragão nas costas, enfurecido,
disposto a dragar a areia, o lodo entulhado no fundo do lago de seu espírito, do oceano de seus
pensamentos. Ela transpira as horas incompetentes, o coração dilacerado, o medo, as surras, os
conselhos da mãe, a musgosidade dos dias e o inquebrantável silêncio que sonda sua alma, sem
deixar brechas para tomar resoluções. Gina Trevisan transpira-se.
As mãos doem; o forte aperto na barra expulsa todo o sangue das pontas dos dedos. Gina sente-se
falhar. A pressão do sangue na cabeça bloqueia a audição, a visão escurece. O rosto salpica de
calor; larga-se sobre o chão, com um engulho na garganta, e vagarosamente sente a pressão reduzir, e
seus sentidos alargam-se. Pela primeira vez percebe a infiltração rasgada sobre sua cabeça, a gota
que atravessa o teto que chora, dependurando-se por instantes como um pingente transparente. O
barulho, gota a gota, sendo despejado em intervalos regulares atrás do sofá duplica de sonoridade.
Levanta-se e verifica a tigela transbordando. Apanha com cuidado e despeja a água dentro do
vaso sanitário. Retorna com a tigela e tenta secar o carpete encharcado.
Vai até o quarto. Seus pertences sobre a cama, já espalhados por todo canto em tão pouco tempo,
a deixam desanimada. Tenta arrumar, mas decide tomar um banho antes. Revira a bolsa sobre a cama
e retira uma roupa limpa e confortável. Entra no banheiro, deixando a porta semi-aberta sem se
importar, porque está só, até o momento em que o barulho do molho de chaves sacudindo atrás da
porta da sala é seguido por Horácio, que entra no apartamento. Ele sente o impacto do vapor, o
vulcão que continua ali. O calor de Gina, seu rastro de fogo, seu cheiro agridoce misturado ao
intensificado mofo.
Horácio avança silencioso, acompanhado da morosidade que reveste o apartamento. Seus olhos
brilham, o coração acelera, a porta do banheiro entreaberta, entreabre a imaginação e deixa-se
invadir por minúscula perversão. As pestanas dos olhos batem sistematicamente como se quisessem
voar. Deixa o queixo arriado, de quatro. “Não é certo”, pensa, e vai tomar um copo d’água gelada na
cozinha, ainda silencioso. Um copo d’água não pode aplacar sua sede: ainda que uma represa estoure
em sua frente, não será o suficiente. Serpenteia novamente até o banheiro. Gina ligou um rádio que
está sobre um banco, um toca-fitas velho que o acompanha nos banhos demorados. Não conhece
aquela música, é triste e é em inglês. Seu inglês é péssimo, mas sabe de alguma forma que fala de
amor, corações partidos. Horácio simplesmente suspira, é uma de suas preferidas e ela foi tocada.
Gina ameaça se virar e ele recua a cabeça, prende a respiração, permanece suspenso e amedrontado.
As pestanas batem, processando sua memória, e novamente estica o pescoço, os olhos alcançam as
mãos de Gina, que suspendem a camisa suada que se detém ao passar pela cabeça, deixando por
segundos suas costas livres, totalmente à mostra. Lá está o contorno do dragão, que olha para ele, que
incendeia seu coração, que paralisa as pernas, invalida a respiração. Num puxão ela faz a camisa
atravessar a cabeça e solta os cabelos.
Horácio recua ao sentir uma língua de fogo lambê-lo da cabeça aos pés, fritar seus miolos,
encrespar seus cabelos. Vira-se e, em três passadas, entra em seu quarto e fecha a porta. Terceira
gaveta da cômoda ao lado de uma janela é onde guarda o isqueiro de Amadeu. O mesmo dragão, as
mesmas asas e a mesma cauda de serpente, o mesmo fogo que o consome, provocando o degelo do
recente resfriamento de seus pensamentos. E uma esfinge de gelo começa a desmoronar, causando
uma enchente, fazendo-o transbordar ao encontrar-se dentro de um carro, com as últimas palavras de
Amadeu apontando para aquele isqueiro, enfatizando o dragão, com o dedo trêmulo e lambuzado de
sangue, “A bolsa é dela”. O dragão era ela. Sentado na cama, batuca no isqueiro, pensando nas horas
terríveis, no trágico e no inevitável, a ironia das coincidências. “É apenas um dragão, deve haver
centenas deles”, pensa. “Qualquer um pode ter um desses, droga, qualquer um.” Da janela de seu
quarto, vê parte do sótão entre os galhos de uma árvore e ali permanece debruçado.
Capítulo 12

“Eu gasto R$ 4,40 por dia com cigarros. Isso dá … R$ 132,00 por mês. Levando em conta sete
meses com 31 dias, hum … deixa eu ver … multiplica 4,40 vezes sete …. R$ 30,80. Descontando
dois dias em fevereiro …”, tagarela Pablo Sasaki, ponderando seus gastos na ponta do dedo
indicador, o único que usa quando é para digitar. “Por que você não multiplica tudo por 365?”, diz
Edgar Wilson, interrompendo-o e quebrando sua concentração, enquanto abocanha uma bomba de
chocolate. Suspira em seguida. Poucas coisas nessa vida fazem homens como ele suspirar, e bombas
de chocolate, assim como doces de abóbora, são capazes de arrancar-lhe lágrimas.
“O cigarro é meu. O pulmão é meu e eu calculo do meu jeito, tá certo?”, responde Pablo, que tem
à sua frente um copo de suco de maracujá. É tudo o que tem ingerido, e alguns chás de ervas
chinesas, para livrar-se de vez da vontade de fumar. “Porra”, continua Pablo. “Dá R$ 1533,00. Em
ano bissexto dá 1537,40.” “Não esqueça os fósforos. Some cada palito riscado”, complementa
Edgar, lambendo os dedos. “Sem contar o purificador de hálito”, fala Pablo. “Um frasco com
sessenta mililitros custa R$ 6,50. Gasto dois desses por mês … vezes 12 … R$ 156,00. Porra, eu
trabalho pra fumar. Sem contar as doenças, o pigarro, preciso de xampu duas vezes mais pra tirar o
cheiro insuportável. É toda uma engrenagem”, conclui. Toma o restante do suco de maracujá e fica
alguns instantes chafurdando naquela fumaça provocada por seu dinheiro incinerado.
“No total, uns 2000,00 ao ano”, diz Edgar Wilson. “O cacete”, fala Pablo. “O cacete, Edgar. E os
adesivos, hein? hein? Esqueceu os quase dois anos usando essa porcaria? E me disseram pra usar
dois de uma vez porque potencializava o poder neutralizante da nicotina e não sei mais o quê. Sei lá,
deve ter ido umas 1000 pratas com isso.” “Eu nunca usaria essas porcarias”, fala Edgar. “Mas usa
emplastro sabiá”, retruca Pablo. “Quando tenho dores nas costas, e por que não?”
“Porra, você sabe o quanto eu ralo pra isso. Pra conseguir todo esse dinheiro. Meu pulmão deve
tá valendo uns 15.000, cada um.” “Vinte talvez”, reforça Edgar. “É mesmo uma merda”, diz Pablo.
Ele contabiliza na ponta do dedo indicador tudo o que tem, e tudo o que tem é bem menos do que
carrega nos pulmões. Daria um deles em troca de liberdade porque é exatamente essa a quantia que
lhe falta. Precisa ir embora o quanto antes. A cada identificação de chamada em seu telefone, ele
chacoalha da cabeça aos pés. Greice Sally liga várias vezes e não tem obtido retorno satisfatório.
Seu relacionamento com Greice Sally começou a partir de uma afronta: japonês tem pau pequeno.
“Mas é o que todos dizem”, insistia Greice. “Não tem, não. Nem todos.” Sasaki representava naquele
instante o homem brasileiro másculo, viril, e todo o continente asiático de paus subjugados e
amarelos. Era muita responsabilidade e o peso dela sentia entre as pernas. “Não espere que eu saia
pelo Japão medindo pau a pau, mas posso responder por mim mesmo”, ele disse antes de arriar as
calças. E por algum tempo ele sentia-se um bi-patriota. Reforçou a imagem do brasileiro e
desmistificou a piada contra os asiáticos. E como todo mártir está fadado a morrer, isso sim, caso
Zeferino ligeiramente desconfiasse de seu envolvimento com Greice.
“Desse jeito eu nunca vou conseguir o suficiente pra me mandar pra Londres. Você não imagina
como eu quero sair disso aqui e investir nesse pub”, diz Pablo. “De que adianta investir nos
pulmões? Esse dinheiro agora resolveria minha vida.”
Eles se levantam e vão para a pequena fila em frente ao caixa. “Quanto você acha que tá valendo
o teu, Edgar?” Ele apanha a carteira do bolso e confere algumas notas. “Num sei, Pablo.” “Por alto,
diz aí”, insiste. Edgar dá um passo à frente e diz ao caixa: “Duas bombas de chocolate, por favor.” O
homem registra a cobrança. “Uns 80 … cada um”, ele responde. “Porra, Edgar, você me surpreende,
cara.” O homem do caixa distrai-se um instante com a televisão, que está ligada, e a notícia em
questão. “Dá R$ 7,30, senhor.” Edgar apanha uma nota de 10 e entrega ao homem.
“Teus pulmões valem uns 160.000 e teu carro não tem nem ar-condicionado.” “É, eu sei”,
responde Edgar Wilson. “Quando eu morrer, eu deixo eles pra você. Toda a minha fortuna.
Investimento de uma vida.”
O homem lhe dá o troco e aumenta, através do controle remoto, o volume da televisão. Pablo
pergunta quanto deu. “Dois e oitenta”, responde o homem. “Dois e oitenta por um suco de maracujá?
Onde vocês cultivam essa coisa? Solo sagrado?”

“… o boxeador Hugo Valentino, de 25 anos, chegou ao hospital das Clínicas em estado de coma,
dois dias antes de viajar para Miami, onde competiria pelo título de campeão dos pesos pena latino-
americanos. Uma denúncia anônima sobre o ocorrido partiu de dentro do hospital e fotos do lutador
em coma foram tiradas e vendidas a veículos de comunicação de todo o país. A polícia apura a
veracidade do caso e ainda não se tem os nomes dos envolvidos. Acredita-se que a máfia de lutas
clandestinas entre sexos opostos é manipulada por um grupo argentino.”

“Grupo argentino”, repete Zeferino Manches pela terceira vez, sentado em seu escritório,
desdenhando da notícia ao abocanhar uma garfada de macarrão. O molho bolonhesa derrama-se
sobre a camisa em largas gotas vermelhas. Limpa-se com um guardanapo e continua a desdenhar.
“Tiram o nosso mérito. Grupo argentino … Estamos falando de boxe e eles me vêm com tango.
Quanta porcaria.”
Edgar Wilson aprecia seu prato de macarrão ao molho picante e toma um gole de cerveja direto
no gargalo para não perder o poder dilatador. Confirma a notícia, dizendo que não param de creditar
méritos a esse tal grupo argentino, pois é verdade que ainda não sabem de nada.
“Que falem”, resmunga Zeferino. “O problema é o garoto. Se esse moleque morre, aí sim preciso
me preocupar. Você também e todo o resto. Esta cerveja está quente, porcaria!” Levanta-se e
caminha até o frigobar no canto do escritório e apalpa cada garrafa de cerveja long neck. Todas estão
quentes e confirma sua suspeita de que está com defeito. Dá um chute no frigobar, que reanima as
funções, e apanha uma cerveja mais ao fundo, pois acredita ser possível ingerir sem que fermente em
seu estômago. “Me consigam um novo frigobar. Anota isso aí, entenderam?”
Zeferino coloca o corpo ereto e fecha com o pé a pequena geladeira, que precisa ser escorada
com um banquinho de madeira. Gira a tampa da garrafa com os dedos e, com a pressão, a espuma é
derramada sobre sua camisa. Sente-se muito infeliz e profere alguns palavrões ignorados por Pablo e
Edgar, que continuam a comer.
Dá um trago na bebida e simultaneamente aprecia o pôster de A incrível xoxota engolidora de
fogo. Greice Sally está terrivelmente diabólica nessa foto. A personificação das mais baixas
fantasias. Tudo com que sempre sonhou. Zeferino suspira ao engolir a cerveja e retorna tranqüilo
para seu assento. Retira a camisa branca de manga comprida manchada e mantém-se somente com a
camiseta justa por baixo. Crava o garfo no macarrão e gira-o, ávido por abocanhá-lo, mas deixa-se
deter.
“Eu quero que vocês sigam a Greice. Eu me importo mesmo com essa moça e acho melhor checar
de perto”, diz. “Saber com quem anda, quem são as amigas, se é assediada por ex-namorados, essas
coisas. Ela é um alto investimento, não posso deixar que nada atrapalhe, certo?”
Pablo suga um fio de macarrão entre os lábios afogados em molho de tomate e sente respingar
uma gota muito fina sobre sua testa. Sente sua traição descamar-se como uma cebola, que, lançando
respingos ácidos nos olhos, lhe faz chorar, intempestivo. Edgar acata as ordens de Zeferino com um
olhar vazio, sem piscar. Um olhar como se não houvesse dimensões à sua frente. Um olhar sem
possibilidades. Pablo olha para o cachorro que persegue o próprio rabo, feliz e inocente, e é isso que
terá de fazer. Girar em torno de si atrás do próprio rabo e depois entregá-lo à tortura. Não poderia
fazer isso, se bem que pode ganhar tempo fingindo não conseguir alcançá-lo. Isso o faz regurgitar o
macarrão. O chiuaua, de pulo em pulo, consegue atrair sua atenção e ele decide deixar o animal
devorar seu jantar.
“Amanhã sem falta, vocês vão começar a fazer algumas cobranças. Preciso de dinheiro pra cobrir
os prejuízos, senão vou ter que descontar do salário de vocês.”
Zeferino sente-se constrangido, mas não reflete nada do que se passa em seu coração. Ele tem um
e está apaixonado. Por isso seu aguçado instinto sente o cheiro de traição. Algumas garfadas
silenciosas, o barulho do cachorro degustando o macarrão e o silêncio sombrio de Edgar tornam
aquele escritório nostálgico, como se houvesse um peso sobre o teto, as paredes mais próximas e o
chão mais aprofundado.
Capítulo 13

Edgar Wilson e Pablo Sasaki caminham lado a lado por uma calçada quente sob o sol enfurecido
da manhã. Tão cedo e tão imperdoavelmente quente. E mesmo assim, Edgar não abre mão de seu
paletó de couro de corte aprumado, hábito adquirido quando morou no Sul do país. Ele não transpira,
o que irrita Pablo, que sofre com o calor e precisa trocar de camisa algumas vezes ao dia. “Você é
desidratado, Edgar. Não sai uma gota daí. Você secou por dentro, cara”, resmunga Pablo, que tenta
acompanhar a elegância de Edgar, mas num visual mais leve, e continua a carregar o chiuaua aonde
quer que vá.
Uma barraca com frutas e verduras bloqueia parte da passagem da calçada, obrigando-os a
desviar. As abóboras. Edgar Wilson há tempos não vê abóboras tão maduras e redondas e suculentas.
Um sabor melancólico que invade seus sentidos, fantasmagórico.
Sua juventude teve o cheiro doce das abóboras. Quando foi adotado pela mãe de Dimitri, ganhou
uma família e muitas abóboras que imploravam por serem devoradas antes que sucumbissem. As
ramas do pé de abóbora subiam pelas paredes da casa e iam conceber em cima do telhado, o que a
tornava um atrativo encantador, com seu teto revestido de abóboras suculentas, rosadas e redondas.
Com uma faquinha meio enferrujada comia abóboras quase o dia inteiro, sob o deslumbramento solar
que se estendia sobre ele.
Era inevitável não contemplar abobadamente abóboras rosadas. Sob os bravos questionamentos
de Pablo, Edgar abraçou a maior, envolvendo-a nos braços com carinho, pagou a vendedora e
continuou sua caminhada.
Os resmungos de Pablo foram interceptados pela ausência de Edgar Wilson, que consegue ouvir o
que quer e o que não quer. Uma dádiva que o faz abstrair-se mesmo entre tiros e explosões.
Chegam a um pequeno prédio, espremido entre um cinema alternativo e uma casa de massagens.
“Já procurei esse terço em todo lugar”, diz Edgar Wilson. “Essas freiras foram mesmo muito boas
comigo. Se não fosse por elas, o que eu seria hoje?” A portaria está abandonada, mas percebe-se a
recente ausência do porteiro; ainda há fumaça saindo de um copo com café. Cruzam o pequeno hall
em direção às escadas, percebendo naquilo um tipo de cooperação inconsciente.
“Edgar, e o que você é hoje?”, pergunta Pablo. O prédio é mal iluminado, as escadas contam com
claridade rarefeita, vindas de basculantes enferrujados e pequenos. A escada estreita-se conforme
aproximam-se do andar seguinte. Nas paredes, lê-se registros de amor e ódio em rabiscosconfessos
escritos com batom, giz, carvão.
Os degraus estreitos e gastos chegam a ser inclinados. Pablo sente que somente a ponta dos pés
toca cada um e equilibra-se tateando a parede para não cair. Edgar, por sua vez, sobe de lado,
deixando as laterais dos pés acomodarem-se em cada degrau.
“Elas me ensinaram coisas como: dignidade, honestidade, respeito pelo próximo”, ele diz. “Esse
terço é sim muito importante. Nunca me separo dele porque me dá proteção. Proteção pra valer.”
Ele apanha do bolso do paletó um pedaço de papel e confere o número do apartamento. Sente-se
um pouco confuso com a numeração nas portas e certifica-se de que é preciso subir mais um lance de
escadas. Avançam pelos degraus.
“Esse terço não é como uma porcaria de um piercing, presente de uma puta qualquer. Foi benzido
pelo papa, no próprio Vaticano”, fala Edgar, seguindo por um corredor muito mal iluminado, de piso
também inclinado. A fluente queda para a esquerda. “Mas você é materialista demais pra entender o
que tudo isso representa”, conclui.
Sentem o cheiro de feijão cozinhando, temperado com coentro, lingüiça, pé de porco e carne-
seca, misturado ao cheiro vindo detrás de outra porta, molho de tomate apimentado. Tocam a
campainha e surpreendem-se ao ouvirem o hino da França ser reproduzido ao contrário de um sonoro
dim-dom. “Devem ser franceses”, diz Pablo. “Merda, cara, odeio os franceses e aquela merda toda.”
Percebem uma agitação vinda do interior do apartamento, as falas confusas de personagens de
algum desenho animado seguidas de disparos; o som de garfos batendo contra pratos e o telefone
tocar. Uma voz grita que já vai atender. Eles esperam.
“Grande merda essa tua conversa, meu chapa”, diz Pablo. “Grande merda. Putas fodem, padres
fodem. Por que o teu terço é mais precioso do que o meu piercing, hein?” Sacode a camisa na
tentativa de abrir brechas de ventilação. Seca a testa molhada com um lenço que retira do bolso.
“Não é uma questão de quem fode e quem deixa de foder. Santidade, é disso que estou falando”,
diz Edgar, sem despregar os olhos da porta, e dando ouvidos alargados ao movimento vindo de
dentro do apartamento. Toca a campainha mais uma vez e afasta-se para o lado, desviando-se do
campo de visão do olho mágico. Sabe que não é bem-vindo e sua cara enquadrada ali pode tornar
tudo mais difícil, e ele aprecia os dias que se desenrolam descomplicados.
“E se você tivesse conhecido a Rosalinda, veria que, quando ela se ajoelha, meu amigo, reza e faz
milagres. E as suas mãos quando tocam num corpo morto e inerte, fazem qualquer um sair da caverna.
Não me venha com essa de santidade”, conclui Pablo.

A porta se abre e, após deparar-se com os dois homens, a mulher atarantada lembra-se da
correntinha. Nunca a usa e isso ainda pode lhe custar muito, na verdade já sente os custos diante dos
dois. Ela os observa e estranha tanto a abóbora nos braços de um quanto o chiuaua nos do outro. Isso
aplaca sua sensação inicial de medo, pois aquilo não corresponde exatamente a nada de perigoso.
Somente espera ser interpelada. Há uma pequena demora, um instante suspenso e antes que faça
alguma pergunta, Edgar cumprimenta-a, desejando um bom-dia, perguntando se seu marido se
encontra. A mulher afirma que ele saiu para fazer cooper, mas não demora. Eles agradecem e ela
pergunta se ele fez alguma coisa errada. Edgar apieda-se da pobre mulher, que conhece bem o
marido e, pela aparência desleixada, sofre nas mãos do homem. Olheiras, os cabelos ressecados nas
pontas, as costas das mãos manchadas de respingos de gordura fervente, pernas finas, seios flácidos,
quadris estreitos e um tom desanimador na voz, muito preocupante.
Ele afirma sobriamente que não há com que se preocupar, agradece mais uma vez e vão sentar-se
nas escadas. Edgar acende outro cigarro e Pablo retira do bolso das calças duas ameixas pretas,
coloca-as na boca, retira os caroços e dá ao cachorro, que os lambe prazerosamente. “E isso agora
… pra quê dar ameixas pro cachorro?” “Ele tá com prisão de ventre. Tento de tudo e nada de merda
nenhuma.” “Ele está coagido demais pra cagar”, fala ao tragar o cigarro e solta a fumaça no focinho
do animal, que pisca os olhos. “Como assim?”, questiona Pablo, boquiaberto com o ridículo do
comentário. “Pessoas coagidas têm prisão de ventre”, responde Edgar.
Aquilo faz Pablo negar várias vezes com a cabeça, em silêncio, calculando a análise de Edgar e
tentando lembrar-se de alguma vez já ter ouvido algo parecido. “De onde você tirou isso? Por acaso
você … o que você entende sobre prisão de ventre, cara? Tenho tratado esse cachorro muito bem,
obrigado. Na verdade já me afeiçoei muito a ele e duvido que se sinta coagido. Coagidos não cagam
… era só o que me faltava.”
Edgar nunca reage imediatamente, não sabe o que é ímpeto, impulsividade. Pondera as questões,
percebe o todo e sua unidade, e toma as atitudes com o domínio invernoso da razão. No silêncio
encontra conforto, impõe respeito, temor, e mergulha no doce e minúsculo lago do espírito, enquanto
o mundo extingue-se sem fazer barulho, submerso.
“Pois eu te digo uma coisa, Pablo, se a gente não encontrar logo esse Amadeu e essa lutadora,
pode comprar toda a produção de ameixa em calda que você encontrar, porque vamos ficar sem
cagar por um bom tempo.”
Passadas firmes ecoam pelas escadas. Passada após passada. Os dois colocam-se de pé e recuam
para o corredor. Edgar apanha o cigarro da boca e joga-o no chão, esmagando-o em seguida num
torcer do pé. Estão calmos e Pablo boceja desanimadamente. “Espero que isso não demore. Não
dormi nada essa noite”, diz.
O homem cruza a porta das escadas e dá de cara com os dois. Sente suas pernas conduzirem seu
corpo numa reação mais rápida do que seu consciente pode perceber. Consternado. Edgar joga em
sua direção a grande abóbora que, num reflexo tão inconsciente quanto ao das pernas, é agarrada
pelo homem contra seu peito. Ele pára. “Eu vou acertar tudo. Assim que eu …”, mas é interrompido
pelos latidos do chiuaua. Edgar, sereno, toca em seu ombro; caminham para dentro do apartamento. O
homem converge o corpo para frente, num ato de consternação, ainda segurando a abóbora.

“Iá-badá-badúuuu” é o som que vem da televisão. Justamente ao ver a mulher, os três entram pela
porta da sala, e a terrível consternação do marido a faz recolher as duas crianças de três e quatro
anos, que saltam entusiasmadas: “Olha o cachorrinho, olha o cachorrinho! Ele riu, o cachorrinho
riu!” O chiuaua contrai o focinho, num espasmo, deixando os pequenos caninos à mostra. A euforia
das duas garotinhas é contida pela mãe, que as empurra e corre para dentro do banheiro, por ser o
único cômodo que possui tranca.
Edgar manda-o colocar sua abóbora em cima de uma mesa no canto da sala. Ele obedece e torna à
posição anterior, parado no meio da sala, olhando para o chão. Pablo permite que o cachorro ganhe
mais espaço ao deixá-lo livre e imediatamente ele começa a farejar todos os cantos do apartamento e
visitar cômodo por cômodo.
Edgar aponta o sofá da sala para o homem se sentar e estala os dedos numa sucessão progressiva
que soa para o músico como um dó ré mi. Uma perversa escala de notas musicais que o condena.
Toca os dedos entre si. Sente suas mãos firmes e delicadas, os dedos alongados e unhas cutiladas. O
nervosismo eleva-o a um solo de flauta. Enquanto segue mentalmente a execução da música, seu
coração disparado retoma, cadenciado, e sua respiração desobstrui.
Pablo, diante da televisão, assiste ao desenho animado, o que atrai Edgar Wilson, que agora
divide a atenção da tela com o amigo. Olhos de meninos vidrados naquela tela vinte polegadas,
respingada de não se sabe o quê. Permanecem assim por pelo menos três longos minutos e dão uma
risada com o desfecho da história. O flautista ali sentado nunca viu tamanha crueldade, porque havia
isso em seus gestos inofensivos, na atenção absoluta do brilho colorido na tela, no divertimento que
se assemelha a um sério distúrbio emocional.
Pablo vira-se para o homem, que voltou a chacoalhar de medo, e pergunta: “Por acaso vocês são
franceses? Onde tá a porcaria do sotaque?” O flautista não entende se há algo subentendido naquela
pergunta e não responde de imediato, o que irrita Pablo profundamente. “Quando eu te fizer uma
pergunta, você tem que se esforçar pra responder.” “Então?”, diz Pablo. “Não, não somos”, gagueja o
homem franzino e desolado. Seu rosto magro torna-se cadavérico, as olheiras roxeadas aprofundam-
se, uma espécie de manto o reveste, um rígido e pesado manto.
“Então por que o hino da França na campainha?”, diz Pablo, aguardando sério por uma boa
resposta. “As crianças gostam … acham bonito … são só crianças”, ele responde, tentando justificar-
se. “A música faz a menorzinha dançar. Antes ela não gostava de dançar.” Ele conclui e torna-se
cabisbaixo novamente. “Essa é a razão?”, questiona Edgar Wilson. “Você ensina à sua filha o hino de
outra nação porque ela gosta de dançar?” O homem não se justifica mais, apenas calado lança
olhares de soslaio, aguardando o desfecho daquela desapropriada discussão. “É mesmo uma pátria
estranha essa nossa”, pensa Edgar, “com um hino desapropriado”.
Pablo desliga a televisão e um zunido estático reverbera suave pela sala. Edgar apanha outro
cigarro no bolso do paletó e o homem sinaliza espontaneamente com a mão em negação à sua atitude,
mas recua quando percebe o erro. Edgar o indaga o porquê, ele diz que sua filha é alérgica.
Calmamente Edgar traga com força o cigarro, comprimindo os olhos, que se avermelham, e vai até a
janela da sala expelir a fumaça, apagando-o em seguida e jogando-o lá embaixo. Volta-se para o
homem cabisbaixo, que agradece.
Pablo reclama da vontade de ir ao banheiro. “Você não pode esperar isso terminar?” “Não,
Edgar, você demora muito com as coisas. Eu tenho que ir ao banheiro … é a abstinência do cigarro,
fazer o quê?” Eles olham para o homem, que indica, com o dedo trêmulo, a direção do banheiro.
“Segunda porta à esquerda”, diz.
Pablo bate na porta e a mulher abre cuidadosamente. “A senhora poderia me deixar usar o
banheiro? Eu prometo que não vou demorar.” Assustada, agarra as filhas e não sabe que atitude
tomar, porém o olhar insistente dele a faz sair com as crianças e esperar no corredor.
“Você vai acabar logo com isso?”, pergunta o homem cautelosamente a Edgar Wilson. “Eu vim
aqui receber o que você deve ao senhor Zeferino Manches. Não preciso falar muito.” O homem
afirma não ter condições de pagálo, que precisa de mais tempo. Edgar sabe lidar com o tempo, com a
espera, é bastante paciente. Para ele, não haveria problemas em esperar mais um mês, mas Zeferino
nunca soube lidar com o tempo, nem com o dele nem com o dos outros, portanto, o caso lhe causa
aborrecimentos.
Uma das meninas entra correndo pela sala e escorrega no piso de taco polido. O pai faz menção
de pegá-la, mas Edgar é mais rápido e coloca a menina nos braços e ela cala-se imediatamente. A
mulher permanece parada observando o homem segurar sua filhinha e sacudí-la no ar. Como é doce
aquele anjo de cabelos ruivos! Doce e avermelhado como as abóboras. O som da descarga é a única
coisa que divide as atenções com os risinhos da menina. Pablo aparece na sala para conduzir a
mulher e as crianças de volta ao banheiro, desculpando-se pelo mal cheiro que deixou. “Desculpe,
senhora, eu não ando bem do estômago, é a abstinência.” E as tranca lá dentro.
O homem continua negando ter qualquer quantia em dinheiro, alegando precisar de mais tempo. O
calor arrefece os ímpetos de Pablo, que esbofeteia-o algumas vezes. O estalar de sua mão contra o
rosto do homem vaga pelo corredor e atravessa a porta do banheiro, onde a mulher decidiu dar um
banho divertido nas filhas, fazendo-as cantar suas canções favoritas e produzindo bastante o
borbulhar das águas. As meninas nada ouvem.
O homem chora, com o nariz dando indícios de inchaço e os lábios sangrando. Pablo sente-se
mais aliviado, para ele esse é um dia difícil. Afasta-se e vai sentar-se num banquinho. Edgar leva a
flauta à boca e mostra que sabe tocar uma música infantil, de simples execução. Ao ser interpelado, o
homem concorda que está mesmo muito boa.
“Eu sei onde vocês podem conseguir esse dinheiro, na verdade tem até muito mais”, diz o homem,
percebendo que precisa começar a cooperar, precisa agarrar-se a alguma coisa, abraçar uma chance,
ainda que pequena, precisa arriscar porque duas garotinhas estão em jogo e nada lhes custa ir até ao
banheiro e terminar com elas. Desde que as duas nasceram, sua alma dividiu-se ao meio e deu uma
parte a cada uma. As meninas são sua melhor sinfonia, a melhor composição e execução que jamais
poderá realizar novamente. Se sua vida, já sem alma, valesse para pagar a dívida, tudo se resolveria.
“Tocamos na mesma orquestra. Ele é sozinho e tem bastante dinheiro guardado num cofre na
parede da sala, atrás de um quadro … desses abstratos. Eu garanto que tem muito lá”, diz o homem,
tornando-se mais firme e consciente de suas possibilidades. “E como você sabe disso?”, pergunta
Edgar. “Ele me mostrou uma vez, tem tempo.” “Traidores”, murmura Pablo, sacudindo a cabeça em
negação à conduta do homem, que não responde. Ele conhece suas condições e sabe que é sim um
traidor e envergonhase disso.
“Por que, ao invés de dedurar o sujeito, você não pede emprestado a ele?”, pergunta Edgar. “Não
tenho crédito com ninguém e eu preciso de muito dinheiro. Ninguém vai me emprestar tudo isso”,
responde. “Se a gente concordar, isso não te livra da dívida”, diz Pablo. “Quero dizer, de boa parte
sim, mas você vai ficar devendo pequenos favores ao senhor Zeferino.” O homem não se importa em
dever pequenos favores pelo resto da vida, desde que sua família fique em paz. Lembre-se: “Nunca
sacaneie Zeferino Manches porque uma hora ele te acha”, conclui Pablo.
Suas próprias palavras o enchem de terror. Um zunido ricocheteia de um ouvido a outro. Sua
afirmação o condena. Sente-se agarrado, alcançado, atingido por um bloco de concreto que se
desprende de uma marquise enquanto ele perambula por uma calçada, despreocupado. Essa é a forma
de Zeferino. O elemento inesperável. Novamente, Pablo se vê correr atrás do próprio rabo como um
cão idiota.

Para Edgar Wilson, é possível que uma parte tenha se resolvido, mas ele nunca lançou mão
daquilo que não podia pagar. “No suor do rosto comerás o teu pão”, conhece bem esse ditado, e ali
um incrível explorador e traidor. Um homenzinho vil e covarde. Por Deus, um homenzinho franzino
que acredita que o mundo pode creditar sua incompetência e fracasso. Deixou que ele anotasse o
endereço e o nome do colega de profissão, cuja confiança chegava a ponto de mostrar seu cofre atrás
do quadro e deixar escapar, diante dos olhos arregalados do sujeito, maços robustos de dinheiro.
Mas, sob outro ponto de vista, mudando de posição e colocando-se do outro lado da sala, Edgar
começa a pensar no tal homem, um convencido, um exibido que por instantes desejou despertar
inveja e humilhação no colega de profissão. “Está vendo este quadro? Pois então, veja o que tem
atrás dele.” Edgar Wilson tem motivos diversos para estar tão enojado. Um traidor endividado e um
soberbo exibido. Mas ele daria um jeito para que cada um fosse medido e ferido a fio de espada.
Sob a ameaça de dizimar toda a família caso as informações fossem falsas, Pablo apanha o papel
com o endereço anotado e ouve algumas coordenadas sobre o local, dadas pelo flautista, que está
mais calmo, desobstruído.
Edgar o segura pelo braço e pede para que o acompanhe até a cozinha. Sobre a pia, a louça suja
do dia anterior; no fogão, feijão cozinhando, e o arroz queimado continua a esturricar na panela.
Edgar apaga o fogo e repara o frigobar no canto da pequena cozinha. Uma peça nova, cor branca,
enfeitada com ímãs de frutinhas. Lembra-se de que Zeferino precisa de uma peça daquelas.
Apanha um pano de prato caído no chão, onde se lê: “Entrega os teus caminhos ao Senhor, confia
Nele e o mais Ele fará.” Dá um nó no meio do pano e amordaça o homem, que é segurado por Pablo.
O homem bambeia as pernas e agita os braços. Edgar estica sua mão direita e apóia-a sobre a pia. O
peito do homem arfa velozmente. Em meio à louça suja, uma faca não muito afiada é retirada dentre
pratos, o que causa um pequeno desmoronamento dentro da pia. Nesses momentos Pablo prefere não
dizer nada. Segura ainda mais firme o homem ao perceber o aço que se precipita rápido sobre seu
dedão. Estranhamente pensa que nunca mais o homem poderá espremer espinhas ou matar piolhos,
cumprimentar num forte aperto de mão, e dezenas de outras coisas que só o dedão nos permite fazer.
Por instantes pensa que aquele dedão poderia ser o seu, mas sua condenação certamente será mais
violenta se Zeferino descobrir seu caso com Greice Sally. Pablo sente o corpo do homem desabar e
larga-o no chão da cozinha, escorado no fogão. Ele não quer olhar, sua ferramenta de trabalho, o
sustentáculo para a execução da flauta, seu polegar opositor não existe mais e isso o torna menos
humano, menos racional. Permanece grunhindo como um primata, banhado em lágrimas e suor,
imolado.
O sangue espalha-se em trilhas logo farejadas pelo chiuaua, que se compadece. Edgar destampa a
panela de feijão e joga o dedo lá dentro, junto de pés, orelhas e costelas de porco. Verifica o
frigobar e acha razoável levá-lo para Zeferino. Isso lhe pouparia tempo e dinheiro. Desconecta a
tomada do interruptor, recolhe os ímãs de frutinhas, que o fazem lembrar-se da mãe e coloca-os no
bolso. “Porra, Edgar, sair carregando uma geladeira?” “Frigobar”, ele responde. “O Zeferino precisa
de um e esse sujeito deve o equivalente a dezenas de frigobares. É claro que vamos levar.” Edgar
abraça a grande abóbora e coloca o cachorro dentro do bolso do paletó, enquanto Pablo, aos
resmungos, ajeita-se com o frigobar.
Um bibelô com uma casinha azul de portas e janelas amarelas sobre a estante da sala chama a
atenção de Edgar Wilson. Quando sacode, uma nevasca preenche todos os espaços. Fica encantado e
por instantes ele gostaria de caber dentro daquela redoma de vidro, morar naquela casinha e
contemplar a neve diariamente. Há muita paz ali dentro, mas os grunhidos do homem estirado no chão
da cozinha atestam uma realidade em que há muita sujeira e nenhuma misericórdia. Nesses instantes,
Edgar deixa-se preencher de alguma bondade, meditar e contemplar coisas simples porque isso o
redime. Apanha o bibelô e coloca dentro do outro bolso.
“Pronto, vamos logo, antes que eu fique sem minhas pregas. Isso aqui pesa toneladas”, diz Pablo.

***

O novo frigobar na sala de Zeferino o deixa mais feliz, porém ele rejeita os ímãs de frutinha, que
são substituídos por algumas fotos de Greice Sally. Reforça que se apressem quanto ao caso de Gina
e Amadeu, para logo vigiarem Greice a todo instante. Ele precisará viajar dentro de alguns dias e a
deixará sob a custódia dos dois.
Pablo Sasaki conhece o momento certo para entrar e sair de situações. Possui muitos propósitos e
reconhece seus erros, mesmo que não os admita em voz alta. Edgar Wilson não comenta sobre o
assunto, mas sabe dos maus passos do parceiro e pela primeira vez sente recair de forma terrível
sobre seus ombros a possibilidade de matar alguém. Zeferino o faria morrer pelas mãos do parceiro,
porque isso seria também humilhante, e Edgar, em silêncio, busca uma maneira de resolver aquela
questão protelando o pedido de Zeferino para vigiar Greice.
No início Zeferino não concordou muito com a idéia, porém a confiança depositada sobre Edgar
Wilson o fez amolecer e aceitar fazer um assalto ao cofre do músico. Edgar lhe dá garantias de se
encarregar pessoalmente e com todo o prazer caso houvesse algum imprevisto. Ele pensa nas duas
meninas que ainda precisam daquele bastardo e de certa forma arrisca-se por elas também, pelos
dois anjos ruivos, porque carrega uma dívida e isso fará descontá-la. Mas de forma alguma seriam
eles a executarem o assalto. Não fazem esse tipo de trabalho. Deixaram a cargo de um grupo
especializado sobre o qual Zeferino tem muita influência.
Capítulo 14

Como um enxame de mariposas perseguindoo com suas asas serelepes, assim vão seus
pensamentos, zunindo pela rua escura. Está cansado e tem a sensação pesada de que mesmo depois
de tanto tempo ainda não se acostumou com seu trabalho, com imprevistos rotineiros, fios
atravessados, rolos de fita-crepe, ordens expressas, ação, corta, repetir a mesma cena muitas vezes
até a exaustão, a perfeição nem sempre percebida. Um déja-vu editado.
Horácio entra no prédio e as mariposas continuam a persegui-lo, aquelas malditas borboletas
noturnas, delicadas vampiras devoradoras de sonhos. Em cada passada nos degraus das escadas
sente comprimir no bolso da calça o isqueiro que carregou todo o dia. Essa pressão próxima à
virilha lhe causa uma pequena excitação, ainda que lembre da morte em seus braços. Passa por sua
vizinha, dona Elza, que sobe vagarosa, com dificuldade, pernas inchadas e varizes estufadas. Ele
segura sua sacola e a acompanha até a porta de seu apartamento, que fica um andar acima. “Horácio,
meu filho, aquele vazamento na sua sala, você já providenciou o conserto?” Ele entrega a sacola à
mulher, que espera pela resposta. “Ainda não, senhora, tô esperando ele chegar”, diz, apontando para
a porta em frente. “Como assim? Ele já está aí, meu filho. Já chegou, mas anda meio silencioso.” Ele
faz cara de surpreso e não sente desejo de falar sobre vazamentos, não é um assunto dos mais
apreciáveis depois de um dia duro, de perseguições de mariposas, de confrontos com dragões que
torturam alma e mente. A boca da mulher abre e fecha e sua voz torna-se aguda a ponto de quase
romper uma veia saliente no meio de sua testa. Não acompanha suas palavras, está anestesicamente
cansado.
“Vazamentos são perigosos, apodrecem as paredes, enfraquecem a estrutura da casa, provocam
desabamentos”, ela diz. Horácio suspira, vira-se para a porta do vizinho e toca a campainha.
Um nariz imponente e aristocrático o atende. O homem é corpulento, seus grandes olhos
expressam inteligência e a constante soberba de ser um artista erudito. Consegue perceber ao fundo
os grandes móveis de madeira pesada, as cortinas escuras e um emaranhado de esculturas de tipos
diversos. Imagina o peso sobre sua cabeça todos os dias, há objetos demais naquela casa, que se
torna menor quando o homem toca o piano, mas este ele não consegue ver.
Horácio explica a situação sob olhos incrédulos, desconfiados, e compreende pela primeira vez o
que sentem os vendedores ambulantes e as testemunhas de Jeová. Quanto mais se explica, mais sente
seu ventre rastejar no chão como um lagarto, prestes a ser esmagado por imensos pés. “Não parece
haver nada de errado com a instalação da minha banheira”, diz o homem. “Você está certo disso que
acaba de me dizer?” Horácio está certo de que acaba de ser esmagado. É mesmo um lagarto comendo
poeira. Apenas sacode a cabeça em confirmação e a senhora interfere na conversa. “Ele tem uma
infiltração no teto da sala, que vem do seu banheiro. Sei disso porque conheci esse apartamento. Seu
banheiro fica em cima da sala dele”, ela diz e continua a explicar de forma mais esclarecedora ao
homem os possíveis motivos do problema em questão. Horácio pensa que todas as vezes que aquele
homem usa o banheiro, tem sua sala de estar por esgoto. A humilhação fica mais evidente e o músico
aumenta de tamanho, o nariz parece cantarolar, pois empina-se querendo tocar os céus, “homenzinho
soberbo”, pensa, e sua sala de estar é o esgoto particular dele. Não havia ali espaço para discussões.
Horácio é o morador de seu esgoto, sua fossa. Não consegue prosseguir e o melhor a fazer é levar o
caso ao síndico do prédio.
Deixa dona Elza falando com o homem nada aprazível e desce silencioso os degraus, como um
rato que vai para o refúgio dos esgotos frios e úmidos. Entra em seu subterrâneo e é inevitável olhar
para aquele lago verde-musgo repulsivo, que contraria as leis da gravidade. Suas ramificações
estendem-se como teias numa rede que parece querer aprisioná-lo. A coloração está mais forte, os
pingos d’água são despejados em menor intervalo de tempo. Perde o pouco de fome que sente.
O chuveiro está ligado, sabe quando a ducha atinge ou não o corpo de Gina, o som é
interrompido, o barulho constante da água muda de freqüência, e é aí que ela desliza por toda a sua
extensão. Boceja e esfrega os olhos. Ruma em direção ao seu quarto, mas no caminho, lá estão as
coisas dela, espalhadas, reviradas e basta espiar parado diante da cama, sem esforçar-se para ver o
calção amarelo, longas ataduras, um par de munhequeiras amarelas com seu nome bordado,
exatamente como no calção. Ele passa a mão nos cabelos, puxando-os de leve. Vira a cabeça para a
direita e estala o pescoço. Isso o faz relaxar e gemer suave. Mergulha a mão pelas laterais da bolsa e
sente a rigidez metálica de objetos ao fundo. Um par de socos-ingleses com revestimento
acolchoado. Nunca vira um desses, uma peça de artesanato.
A queda d’água no chuveiro silencia, fazendo com que saia depressa do quarto, indo sentar-se no
sofá da sala, um pouco mais desperto. Liga a televisão porque o plasma da tela colabora para seu
raciocínio e mantém apenas a luz de um abajur acesa. Este revestimento alaranjado que toma o
ambiente o faz esquecer que vive num esgoto e num lago de carniça prestes a transbordar.

Gina, vestida com uma blusa florida e saias longas de algodão, seca os cabelos adentrando a sala,
esfregando a toalha branca nos muitos fios vermelhos e sorri ao ver Horácio. Ele olha para seus pés,
são compridos e delicados, as unhas pintadas de vermelho e um pequeno lagarto tatuado descansa
sobre o pé esquerdo. Os dedinhos descalços no carpete da sala contraem-se, espetaculares; Horácio
os chuparia um por um. Aperta o volume no bolso da calça. Pensa se é mesmo ela e nas estranhas
coincidências que nos assolam. As marcas roxas em seu rosto e a mão machucada já não lhe causam
a mesma sensação. Já não há mais pena, só o feitiço; esse continua. Quantas vezes isso acontece, ele
pensa, o acaso, as chances, as possibilidades. Indica uma poltrona e ela questiona com o olhar, ele
indica novamente, mais enfático. Desconfiada, senta-se. Gina vê a nuvem de concreto sobre a cabeça
de Horácio e seus olhos parecem hipnotizados pela luz azulada vinda da televisão. “Por que você
está aqui?”, diz, e ela permanece estática, isso não gera em sua alma rebordosa. “Eu não deveria
fazer essa pergunta e você pode ir embora, ter seu dinheiro de volta, mas eu quero saber.” “Que
diferença isso vai fazer?”, ela pergunta, recostando-se, confortável, na poltrona. “A diferença de que
eu vou saber quem você é”, responde Horácio, tentando manter-se calmo e consegue isso graças ao
cansaço. Gina sabe que sua presença o perturba, que ele a tem espiado, suspirado pelos cantos, sido
cauteloso para pegá-la desprevenida. Estica-se para apanhar um cigarro sobre a mesa de centro da
sala e distrai-se, batucando-o levemente contra as costas da mão esquerda, sem ver seus fósforos por
perto. “Talvez essa diferença seja mesmo grande, tanta diferença assim não compensa”, ela diz.
Horácio sabe que ela tenta ludibriá-lo, envolvê-lo ainda mais. Talvez ele acenda seu cigarro e
isso comece a fazer alguma diferença para ela. A música de abertura do noticiário começa a tocar
seguida de um “Boa-noite”. Casos de crimes serão despejados nos próximos minutos por aquela tela
e isso não importa, já que carrega o seu próprio e não precisa espetar-se com farpas das cruzes dos
outros.
Gina ameaça levantar-se com a desculpa de pegar seus fósforos, ele pede para esperar e leva a
mão no fundo do bolso. “Eu tenho fogo”, ele diz. “Não sabia que fumava.” “E não fumo, mas
esqueceram esse isqueiro comigo”, conclui, já próximo de Gina, que leva o cigarro à boca e
enquanto o fogo queima-o diante de seus olhos, um dragão trepida por causa da chama. “Para
dissipar o tempo.”
Como o barulho seco de vidros espatifando-se, um eco ocupa a dimensão dos pensamentos.
Horácio acende e apaga o isqueiro. Não há dois dragões como aquele, carregando sob as patas a
mesma inscrição. De simples sujeito, Horácio torna-se um desafio e a voz da mãe dizendo “bata”
ocupa os espaços dos vidros estilhaçados. Sente seus molares sangrarem, passa a língua pelos dentes
e há uma infiltração dentro de sua boca, como a do teto da sala, que mina seu horror. Gina traga o
cigarro em silêncio e demora alguns instantes para expelir a fumaça, e esse instante ganha proporção
relativa para Horácio, que tem a impressão de que a fumaça se desfaz dentro dela, até que Gina a
expele, sentindo terrível inveja por não dissipar-se como tal.
Horácio estica o braço e coloca o isqueiro de pé sobre a mesa de centro da sala. “O que eu sei
sobre esse isqueiro …”, sugere Horácio. “Não é muito, Gina. O que sei do calção, das ataduras
dentro da sua bolsa … muito pouco, Gina. Talvez agora você se sinta mais confortável em me
responder o que te perguntei.” Ela estica a mão até o cinzeiro e deixa descansar seu cigarro. “Gina,
você está aqui por causa dele?”, pergunta Horácio. Ela leva a toalha até a boca e cospe um punhado
de sangue acumulado, que a faz engasgar. “O que você sabe sobre o Amadeu?”, ela questiona.
Horácio olha para o teto, um refúgio ocular. O que ele sabe sobre Amadeu é talvez a última coisa
da qual gostaria de saber a respeito de alguém. “Vazamentos são perigosos, apodrecem as paredes,
enfraquecem a estrutura da casa, provocam desabamentos, sabia?”, é tudo o que ele consegue dizer.
Horácio vaza, mina suas horas, sente apodrecer as paredes internas que revestem sua alma e percebe
o seu iminente desmoronamento.
O grande sapo verde atravessado na garganta de Gina alimenta-se de desilusões e angústias, um
sapo que insiste em não saltar para fora. “Onde ele está agora?”, ela pergunta. “Eu não tenho certeza
de onde ele está”, responde. “Foi ele quem me conduziu até aqui?” “Acho difícil ele ter te conduzido
até aqui, ele …”, diz Horácio. “Eu dei esse isqueiro pra ele … pra acender meus cigarros, mas ele
não gosta que eu fume. Ele disse por que fugiu e não me procurou?” “Ele não fugiu, ele desapareceu.
Amadeu não existe mais.”
Não há muito o que dizer quando alguém desaparece e apaga seus rastros; quando deixa de existir.
As palavras do repórter a fazem despertar: “Hugo Valentino, jovem lutador, promessa do boxe, atleta
nacional …” Adjetivos que alavancam o sentimento de patriotismo e nada pior do que lutar contra
isso, quando se transforma um cretino em símbolo de dedicação, em esperança nacional. Maldito
patriotismo, isso pode levar qualquer um a nocaute.
Apanha o controle remoto sobre a mesa de centro e desliga a televisão. Volta a fumar o cigarro,
que se consumiu quase por inteiro dentro do cinzeiro. “Eu me meti numa confusão muito grande e
acho melhor desaparecer também. É um meio de se tentar resolver algumas coisas, não todas.”
“É você a lutadora, não é?”, pergunta Horácio, sabendo que a resposta é positiva e que aquilo o
eleva a um novo grau de complicação. Sabe que ela não negará e sente-se culpado. É tudo culpa sua
e a responsabilidade começou no dia da morte de Amadeu.
“Agora você quer saber a sensação de dar tantos socos em alguém a ponto do sangue ficar
entranhado na sua pele, na sua roupa, nos cabelos. Tomo seis, sete banhos por dia e ainda tá
entranhado. Sabe o que é ter o sangue de outro entranhado na sua alma, Horácio?”, diz Gina, sentindo
o sapo saltar de sua garganta direto para a cabeça de Horácio e lá ele fica, sentado e espumando uma
gosma verde. Gina levanta-se e deixa a sala. Entra apressada na cozinha.
Horácio conhece aqueles crimes, a sensação, o cheiro do sangue entranhado na pele e ela agora
torna-se seu pior acusador, sua presença o sentencia. Ter o sangue de outro entranhado na alma.
Isso lhe soa sumário, uma acusação, e as farpas de muitas cruzes espetam-no. Levanta-se e, sem sair
da sala, diz em voz alta: “Ele morreu. Amadeu está morto.” Pronto, está feito. Espera pelo alívio da
confissão, mas nada acontece. A bomba-relógio dentro do peito não está desativada. O barulho de
pratos e copos espatifando-se no chão da cozinha faz Horácio correr até Gina, parada no centro de
um oceano de vidros, cacos pontiagudos. Horácio quer desarmar aquela bomba antes que exploda
dentro dele, lançando-o pelos ares, fazendo-o grudar nas paredes, teto e chão. “Desculpa, Gina, ele
está morto.” “Antes tivesse desaparecido, seria um canalha, um covarde, mas não um morto e é isso
que ele é agora, um morto.” A bomba desarma-se e ela desaba sobre os cacos.
Capítulo 15

O relógio de pulso com pulseira de couro marrom e grandes ponteiros vermelhos deixou de
funcionar há seis minutos, mas isso Elvis Wanderley não percebeu, sentado atrás do volante,
distraído de maneira imprudente com a leitura de uma revista e discordando da lista dos cem
melhores filmes do século. A cada avanço na lista, uma negação com a cabeça.
Gerson Mariano, sentado ao seu lado, bebe por um canudo amarelo um milk-shake de morango,
que seria doce demais para um adulto comum, mas Gerson parece disfarçar certas amarguras com o
excesso de açúcar. Ele tem um rosto amigável, de garoto bobo, andar desajeitado, ombros estreitos,
cabelos finos e ralos. Mas suas pernas são extremamente fortes, uma massa muscular compacta que
concentra desmedida quantidade de energia. Funciona como uma bomba atômica: retirado o isolador
e juntando-se as duas metades, começa a reação em cadeia; um nêutron empurra dois, estes empurram
quatro e assim em poucos segundos tem-se a terrível explosão. Ainda é jovem, jovem demais para
morrer ou matar, mas não se importa tanto assim. Seu trabalho lhe dignifica. Possui uma conta
bancária, talões de cheques e cartões de crédito; os riscos são grandes, mas o desfrute também é,
considerando suas possibilidades iniciais, o pouco que teve a vida toda até ali.
“Ainda não está na hora?”, pergunta Gerson antes de dar mais um forte chupão em sua bebida.
Elvis, de olhos pregados na revista, diz que acabou de checar as horas e ainda faltam seis minutos, e
mesmo considerando-os lentos de transcorrer, não dá tanta importância.
Gerson será padrinho de casamento de uma prima e precisa buscar até 17h um terno alugado numa
loja que fica nas redondezas. Está disposto a fazer tudo bem rápido e descansar um pouco antes do
casamento. “Combinamos às 16”, diz Elvis calmamente e concentrado em sua leitura. Em serviços
como esses, simples de fazer, bastam duas pessoas. Tudo o que precisam é entrar silenciosos no
apartamento e esperar lá dentro pelo dono. De acordo com o que foi passado aos dois, ele chegará
por volta das 16h30min. “A gente podia entrar logo e eu dou uma relaxada. Vê se tem alguma coisa
pra comer também. Tomara que não demore, porque preciso me arrumar pro casamento”, fala
Gerson, mudando as estações do rádio, incomodado de ficar tanto tempo ali sentado.
Elvis pára a leitura e olha Gerson Mariano: “Se for o caso você já pode colocar o arranjo na
cabeça, eu não ligo”, ele fala, rindo, e retoma a leitura. “São impressionantes esses sujeitos. Quem
faz essas merdas de listas, hein? Por favor, me diga quem são os desgraçados. ‘O que você faz?’ ‘Eu
faço listas, os melhores e piores de todos os tempos, não importa o assunto em questão, o meu
negócio é fazer listas’”, conclui seus resmungos. Sente-se solitário por não ter retorno opinativo da
parte de Gerson, que não pára de sugar sua infantilidade por aquele canudo e batucar com a mão
livre os ritmos que toca no rádio. O som, como de restos d’água sendo puxados para o ralo, ecoa
dentro do carro, indicando o restante de milk-shake no fundo do copo e com isso sente-se satisfeito.
“As listas servem pra guiar o senso de mediocridade das pessoas”, diz Gerson. “Sem listas elas
ficam desorientadas; cavalos sem cabrestos, morcegos surdos.”
Elvis concorda, suspirando, e fecha a revista. Joga-a no painel do carro e verifica as horas
novamente. Os seis minutos fixados o fazem perceber que aquele não é um relógio tão bom e para
serviços precisos como esses precisa de outro. Tira-o do pulso e lança-o pela janela. Os dois
homens saem do carro. Elvis segura uma sacola jeans bastante surrada. Gerson espreguiça-se e ajeita
a arma na cintura, que por pouco não escorrega. Ele olha para o céu e sente um arrepio na espinha; é
quando o sol fica da cor do desespero. Não gosta dessa tonalidade nos céus porque indica dias
difíceis. Apalpa-se ao redor da cintura, afoga metade do corpo dentro do carro e apanha no porta-
luvas o silenciador.
Elvis pisa no relógio, crack, gosta de sons de crack, porém jamais arriscaria a fumar tal porcaria.
Seus ouvidos são viciados nesses sons, crack, craaaaack. Elvis adora biscoito crocante, papel
celofane, superfície porosa, plástico pouco resistente e mastigar ossos de frango bem assado.
“Nunca conheci ninguém que tocasse numa orquestra”, diz Gerson Mariano. “Deve ser difícil
manter o ritmo com os outros.” Na esquina, um pipoqueiro gira a manivela da panela enquanto os
milhos estouram, cercado de pombos que arrulham, brigando entre si por algumas ninharias.
Aproximam-se de um prédio sem porteiro ou recepção. Gerson abre o portão sem dificuldade usando
uma chave apropriada e é seguido por Elvis, que refuta sua observação. “Quando se é bem pago dá-
se um jeito de acompanhar os outros”, diz. Abrem uma segunda porta com a mesma chave e deparam-
se com as escadas de mármore branco, muito limpas. “Jamais moraria num prédio desses, não tem
segurança nenhuma”, fala Gerson, que faz uma pausa, pensativo. “É por isso que se fodem, duvido
que alguém entre no meu bairro sem ser revistado.”
Avançam pelos degraus e Elvis retira do bolso um pedaço de papel com o endereço e o número
do apartamento 201, em uma caligrafia desleixada. “Ainda não me conformo com esse casamento da
Suelen”, diz Gerson. “O sujeito tá desempregado. Se mulher tivesse pau, ainda assim ia mijar
sentada. Não sabem aproveitar a situação.”
Eles cruzam o primeiro andar e as escadas que levam ao segundo iniciam uma série em espiral,
estreitando os degraus. “O filho do pastor queria casar com ela … ele também vai ser pastor. Eu
disse ‘Suelen, pastor tá em alta. Entra pra igreja, aceita Jesus e casa com o sujeito. Vocês formam um
rebanho e se fazem na vida’. Sabe o que a filha-da-puta me disse? ‘Não sou fazendeira.’ Preferiu o
desempregado. Daqui a pouco tá lá na igreja dando o dízimo do desemprego e pedindo cesta básica.
Por isso os homens ganham um pau e elas, uma buceta. Gostam de ser fodidas, entende?”, conclui
Gerson, bastante seguro de suas convicções, e suspende o fecho da braguilha, que precisa ser
consertada. “Porra, e se entendo”, murmura Elvis, vestindo um gorro preto. Ele gira a chave na
maçaneta e sente a porta ainda travada. Uma argüição em forma de ruga desponta em sua testa.
Prédios como aqueles são simples, janelas sem segurança, portas sem travas especiais ou alarmes.
Não haveria problemas em abrila, porém, se estava trancada, era porque havia alguém do lado de
dentro e isso necessitaria de mais esforços. Olha para Gerson abaixado, amarrando os cadarços do
tênis comprado há dois dias, com sua touca presa na cintura, fazendo uma bola de chiclete, mas não é
uma bola considerável. Gerson continua a murmurar a respeito do casamento da prima: “Por isso não
gosto de mulher, nunca gostei. Cambada de idiotas, songamongas. Prefiro tomar no rabo, sempre
preferi.”
Elvis sabe que ele ficará muito aborrecido e isso será chato de suportar. Gerson tem paciência
bastante limitada e costuma dizer que para dar o rabo é preciso ser duas vezes homem. Para comer e
para dar. Cristo deu a outra face, Gerson costuma dar as costas para levar outra.
“Tem alguém do lado de dentro”, sussurra Elvis. “Deve ser a empregada, sei lá.” Gerson termina
seus cadarços, pára de falar, coloca-se de pé e apanha mais um chiclete no bolso das calças e
verifica o sabor: abacaxi. Não é o seu favorito, mas precisa de uma grande goma para uma grande
bola. “Merda, cara … tá tudo dando errado hoje. Daqui a três horas vou estar naquele altar e quero
estar limpo, entende? Não queria fazer esse serviço hoje”, consterna-se Gerson, que não quer sujar
suas mãos e depois encarar todos os santos na igreja, dividir o mesmo altar com o padre. Um dia de
sacrilégio.
Coloca a touca ninja somente até o nariz, permitindo fazer suas bolas enquanto trabalha. Não há
barulho algum vindo de dentro do apartamento. Elvis arria seu gorro. A compacta massa muscular de
Gerson Mariano, que concentra desmedida quantidade de energia, é acionada e, num chute, a porta
rompe-se de primeira, não dando tempo para os vizinhos perceberem de onde vem o barulho. Entram
no apartamento e fecham a porta. O pequeno trinco que os detinham está esmigalhado. Não vêem
ninguém e percebe-se uma recente presença, o calor humano, o cheiro de suor. “Você espanta as
pessoas”, diz Elvis. “Eu pego elas de surpresa, você, com toda a gentileza, é que dá bandeira”,
retruca Gerson.
Nada se parece com a casa de um músico que toca em uma orquestra. Gerson imagina que ele não
ganha assim tão bem e sente falta do tal quadro de pintura abstrata pendurado na parede. Os pôsteres
na parede não coincidem. A infiltração no teto e o cheiro de mofo não coincidem. “Me dá aqui esse
papel”, fala Gerson. “Isso não coincide.” Ele verifica o endereço, suspende-o contra a luz que entra
pela janela, torna a olhar bem de perto e chega à conclusão de que se trata do número 301.
“Isso não é três, é dois”, insiste Elvis, falando, abafado, sob a máscara. “Olha essa perninha aqui
ô, é um três sim. Foi escrito às pressas, mas tem sim uma perninha e entramos no apartamento
errado”, conclui Gerson não furioso pelo erro, mas com certa altivez por corrigir Elvis, que se sente
superior a ele, com seus gestos mais finos, roupas de grife e dois idiomas que fala fluentemente. Mas
a perninha do número três embutida numa grafia borrada, isso seus atributos esnobes não lhe
permitiram enxergar.
Avançam cuidadosos pelo apartamento. Gerson vai checar a cozinha e a área de serviço de arma
em punho; Elvis, os quartos, carregando também uma arma, porém descarregada. Ele nunca pensou na
possibilidade de matar o que quer que seja. Apavora-se com sangue. Não come carne vermelha,
molho de tomate ou ketchup. Está muito ofegante sob a máscara, espiando com atenção. Há um
descontrole ali, algum embuste. Entra em um quarto e de longe parece reconhecer aquelas roupas
espalhadas, olha para trás e não há sinal de Gerson. Verifica embaixo da cama, protela suas
passadas, sente medo de entrar naquele quarto, espiar; medo que desde a infância não sente. A bolsa
aberta em cima de uma cadeira, o calção amarelo com o nome de Gina Trevisan bordado lhe dá
tonturas. Não se lembra do endereço que anotou no dia em que a viu pela última vez, mas sabia que
era o mesmo bairro, nunca estivera a par de coincidência tão terrível. Suspende a máscara até o
nariz, encontrando ventilação para seus pensamentos sufocados. Elvis sabe que não passa de um
grande idiota: tentando resolver um problema, criou dois, assim como a reação atômica de um
nêutron, que empurra dois e em poucos segundos sente que explodirá aquela massa compacta
desmedida de energia, que é o seu cérebro.
“Temos isso agora pra resolver”, soa a voz de Gerson. Ele vira-se; parado na entrada do quarto,
Gerson Mariano segura Gina, tapando sua boca enquanto aponta a arma para sua cabeça. Ele tem um
filete de sangue escorrendo da testa e uma mancha avermelhada, formando a cabeça de uma seta
provocada quando Gina o acertou com o ferro de passar roupas. Um forte cheiro de abacaxi perfuma
o ambiente quando ele estoura uma bola de chiclete. “Você é quem tinha de resolver essa merda, mas
como eu não posso me atrasar, então vamos fazer do meu jeito”, conclui, irritado e apressado.
Elvis conhece sua maneira e Gina tem os olhos mais assustados que já viu. Ele a leva para a sala,
com raiva, e detém-se diante de um pequeno quadro espelhado. Consterna-se com o rosto
machucado. Joga-a no chão, quando golpeia sua cabeça com força. Gina sente o impacto e seu corpo
torna-se leve o bastante para fazê-la flutuar. A cabeça quica no carpete da sala, que absorve a
pancada. Sente duplicar os sons das gotas despejadas dentro da tigela.
“Padrinhos de casamento não têm essa cara”, diz Gerson, que contém, com um pedaço de pano, o
minguado filete de sangue. Reclama da dor — “Porra, eu tenho a porra de uma seta na testa,
apontando pro meu cabelo.” Gerson engatilha a arma e avança em direção a Gina. “Sua vaca
maldita.” Elvis lança-se sobre Gerson e o coloca contra a parede. “Cara, o que cê tá fazendo?”,
sussurra Elvis. Gerson bufa, intrigado com o porquê de Elvis sussurrar. “A gente não veio aqui pra
isso, cara, deixa que eu resolvo”, diz Elvis, ainda sussurrando. “O erro foi meu, eu resolvo.” Gerson,
mascando rancoroso o chiclete, diz “Filha-daputa baranga de vaca maldita” e vai para a cozinha,
onde encontra gelo para aliviar a pancada no rosto.
Elvis decide apenas sussurrar. Assim Gina não reconhecerá sua voz. Aproxima-se dela, que pensa
em duas coisas simultaneamente: em bater e em Amadeu. Para ela, procuram por Amadeu. “Deve ter
feito algo de muito grave”, é o que pensa. E lembra-se da tal história sobre a bolsa vermelha contada
por Horácio e em suas próprias dívidas. “O que tem nessa maldita bolsa? Onde você colocou?”,
questiona-se em silêncio.
“Eu não sei de nada … não me mate, por favor. Eu errei, o dinheiro da luta tá lá na minha bolsa.
Eu usei só um pouco. Diga pro Zeferino que eu devolvo tudo. Ele morreu … o Amadeu morreu. Eu
não sei onde ele tá … eu acerto tudo. Não me mate.”
Elvis manda que ela não olhe para ele, que fixe apenas os olhos no chão. Teme que reconheça
seus olhos, porque sabe que as impressões visuais são identidades únicas como impressões digitais.
Caso Gina fitasse-o por mais alguns instantes, seus olhos o delatariam.
“Se você quiser viver, precisa colaborar comigo. O meu amigo ali tá muito furioso.” Ela
concorda, com um aceno, e Elvis manda que tire a camisa. Gina resiste e ele tenta tirar. Ela empurra
sua mão e obedece, sempre de olhos arriados. Elvis rasga a camisa e faz algumas tiras que servem
para amordaçá-la e amarrar pés e mãos.
“Já se arrumou com a mocréia?”, pergunta Gerson, arrancando o fio do telefone num puxão,
enquanto descansa uma compressa de gelo sobre o rosto dolorido. “Eu sabia que ia ser um dia
difícil”, diz Gerson Mariano, olhando para o teto. “O que o músico aí toca?”, pergunta para Gina.
Ela consegue responder abafado, sob a mordaça, a palavra piano. “Piano? É preciso ter dedos
longos”, diz Gerson, olhando para sua própria mão.
Elvis coloca-se de pé e diz “OK” num gesto breve. Gina está de sutiã preto de renda, que
suspende seus seios firmes, tornando-os mais desejáveis. O sangue de seus molares começa a
espalhar-se pela mordaça. Gerson admirase com a cauda de serpente envolta do umbigo e o piercing
de prata no meio. “Se eu não estivesse com pressa, eu fazia um sacrificiozinho e juro que te
ordenhava.” E bate com o cabo da pistola em sua cabeça. A queda é rápida e ela desmaia.
“Sempre tenho dias de merda quando o sol fica dessa cor”, diz Gerson, espiando o céu pela
janela da sala. “Olha só … cor de desespero.”

***
Deixam o apartamento e ao fecharem a porta ouve-se apenas o eco seco da batida. Um edifício
fantasma, uma convenção de almas penadas, ou importam-se muito pouco com seus vizinhos. Ali não
há ninguém bisbilhotando. Chegam ao apartamento 301 e destrancam a porta sem problemas. Gerson
gostaria de descansar um pouco, mas sabe que agora não há mais tempo para isso. Precisam esperar
pelo homem, que, de acordo com as horas, não demorará. Segundo suas apreensões, isso sim é o
apartamento de alguém que toca numa orquestra. Lá estão os móveis pesados de madeira, as cortinas
escuras, esculturas e peças de arte, o piano de cauda enfeitado com bustos de gesso, o quadro
abstrato e a cabeça de um veado empalhada ao lado. Veados são animais tímidos e velozes, Gerson
sabe disso porque assistiu na televisão e pensa no porquê de alguém colocar a cabeça de um na
parede da sala. Aquilo lhe embrulha o estômago. Os olhos do animal parecem vivos por trás do
semblante paralisado, acossado. Percebe a dor congelada neles, se olhar bem de perto talvez seja
possível ver o reflexo de seu assassino, a última imagem antes da morte, o horror, o horror, é isso
que há ali, horror e sua própria imagem nos olhos envidraçados do animal. Gerson afasta-se e vai se
deitar no sofá, sem tirar os olhos do veado empalhado.
Depois de andar pelo apartamento checando os cômodos e verificar o cofre atrás do quadro,
Elvis puxa uma cadeira e senta-se ao lado da porta, parecendo sentir na sola dos pés Gina ferida e
amarrada. Esse pensamento deixa-o agitado, girando a arma, jogando-a de mão em mão, tentando
distrair sua preocupação.
“Por que empalhar a cabeça do bicho? Será que comeu a mão dele?”, murmura Gerson, sentindo-
se cansado. “Eu nunca pensei em empalhar a cabeça dos homens que já matei.” Elvis desperta de sua
preocupação e diz: “Não haveria paredes suficientes.” “É, acho que não”, diz Gerson, buscando
propósito para a crueldade diante de seus olhos. Nunca matou sem propósito e perguntaria ao músico
o que fez o animal de tão grave para merecer ser morto e exposto numa parede como um troféu de
vingança consumada.
O som das chaves balançando e o estalo na fechadura fazem Elvis arriar a máscara e se colocar
de pé, porém Gerson continua deitado, um tanto desolado. O homem atravessa a porta, carregando
uma sacola de plástico cheia de verduras e frutas e uma pasta de couro. A frieza do aço da arma de
Elvis é a primeira coisa que ele sente tocar seu soberbo nariz, resfriando o calor do terrível dia
abafado, como têm sido esses últimos.
“Não fale nada, largue tudo no chão, não tente nenhuma gracinha e isso vai acabar bem rápido”,
diz Elvis, com voz comedida. Gerson coloca sua máscara e dá um pulo do sofá, percebendo que é
melhor despertar e concluir seu dia de trabalho. Checa as horas no relógio de parede: é um alívio
saber que não estão atrasados, já que precisa buscar seu terno até as 17h e isso o estava
preocupando.
O homem contém o nervosismo — mesmo com o corpo teso e os olhos apavorados — e
demonstra sobriedade. Elvis pensa que isso é bom, facilita seu trabalho, poupa-lhe esforços. Por
outro lado, Gerson acredita estar diante de um predador e não lhe escapa o olhar prepotente do
homem. Na verdade aquele homenzinho erudito das notas musicais está sentindo um tremendo nojo e
repulsa dos dois. Quanto mais ele transpira seu medo, mais seu perfume exala, forte e poderoso.
Importado. Um cheiro que não se esquece, que se paga muito caro para ter. Um cheiro que te escolhe,
reflete seu modo de vida. Sente seu desprezo, mesmo com o cano gelado da arma no meio da cara,
aquele homem é melhor do que os dois e talvez mesmo depois de morto seu cadáver continue a
exalar a mesma antipatia e soberba. Respira fundo e conclui, fazendo uma bola de mascar, pensando
que perfume seu cadáver exalaria.
Elvis manda-o sentar e o homem obedece, controlando a respiração, sem baixar a guarda, o nariz
presunçoso. “Vou ser bem claro: queremos o cofre. Se der um pio, morre, entendido?” O homem
confirma com a cabeça, mas não menciona levantar. Atrás do quadro estão seus próximos vinte anos
de férias. Sem o dinheiro, seus próximos vinte anos terminariam ali mesmo, naquele apartamento,
remoendo um palitinho, embebedando-se todas as tardes, e um grande vão se formaria em seu sofá,
demarcando seu traseiro atochado dia e noite, o vão da inércia, da ociosidade. “Na morte há mais
alegria”, ele pensa, e não entregaria seus vinte anos de férias, economizados em trinta anos de
trabalho. “Por favor, eu gostaria de …” — mas é interrompido por Elvis, que está retirando o quadro
e colocando-o no chão. “Sua mãe é uma galinha e você não tem medo de morrer, não é? Eu te mandei
ficar calado. Nem um pio, esqueceu?”
O homem suspende a mão direita em sinal de concordância e desculpas. Volta a olhar para o
cofre e sente o balançar das águas do Atlântico a bordo de um cruzeiro. Elvis o apressa, mas Gerson
interfere, não deixando que ele se levante. “Me diga uma coisa: o que esse bicho aí na parede te
fez?” Ele não responde e encara Gerson, que faz outra bola. “Anda, tô esperando”, diz. Percebe que
o homem é perfeito, nenhum membro lhe parece faltar, nenhuma cicatriz aparente, a não ser: “Ele
comeu teu pau? Por isso você colocou ele aqui?” Pela provocação de Gerson, acha melhor responder
e sanar sua dúvida. Olha para Elvis, que se torna espectador curioso da situação. Dessa forma, ele
sente permissão para falar. “Não, ele não comeu nada.” Gerson impacienta-se com o mínimo
respondido pelo homem e continua a esperar por uma justificativa sob os olhares atentos. “É bonito”,
diz o músico. “Combina com a sala.” Finalmente a justificativa e o semblante de Gerson Mariano
demonstra a satisfação que coincide com o que tinha imaginado. Está diante de um predador. “É
verdade, combina sim. Sabia que esses animais são muito tímidos?”, diz Gerson estranhamente. “Eu
também sou bastante tímido … problemas pra me relacionar, essas coisas.”
Elvis Wanderley interrompe as revelações de Gerson e puxa o homem pelo braço. “Agora abra
essa porcaria”, diz. O homem apanha no bolso da camisa um par de óculos e seca com as costas da
mão a testa suada. “Gerson, vê se acha uma sacola por aí … esqueci essa porra no andar de baixo.”
Imediatamente ele adentra o apartamento, mascando seu chiclete, cantarolando baixinho e abrindo
todas as portas que há no corredor, bisbilhotando cada cômodo. Entra em um quarto e abre a porta do
armário. Algumas malas e bolsas de viagem. Apanha uma mala com rodinhas, sempre quis uma
dessas e talvez fosse a hora de comprar um jogo delas. Acha uma bolsa preta de couro com espaço
que considera suficiente. Toma o corredor novamente.
O silêncio incorporado recentemente anuncia a ameaça que o aguarda. Mais três, quatro passadas
e Elvis está caído no chão, com uma facada na altura da clavícula e outra na barriga, chafurda entre
maços de dinheiro na pequena poça de sangue que começa a se formar. “O filhoda-puta tem uma faca.
O filho-da-puta … tinha uma faca dentro da porra do cofre. Mata esse desgraçado!”
Antes de Gerson se virar para invadir o apartamento, a fúria do homem seguida de um grito o
surpreende com o ataque de uma adaga, cravejada de algumas pedras preciosas, um instrumento
suntuoso, porém de pequeno porte. Um tipo de relíquia que não possui dignidade para acabar com a
vida de um homem como Gerson Mariano, uma faquinha miserável, indigna de verter seu sangue.
Desvia-se do homem, agarra sua mão e após alguns segundos de sufoco, segura a adaga. Trinta e duas
facadas numa estimativa de tempo que talvez tenha sido seu recorde. Trinta e dois é a quantidade de
dentes que ostenta na boca e orgulha-se disso. Poucos conseguem conservar dentes tão saudáveis,
vivendo dias tão miseráveis. Além de tímido, ele também é veloz, exatamente como o triste animal
empalhado.
Recolhe todo o dinheiro e o coloca na bolsa juntamente da adaga cravejada de pedras. E arranca
a cabeça do veado; está decidido a enterrá-la numa floresta.
“Elvis, você sabe das conseqüências … não posso te levar. Vão mandar alguém logo, agüenta aí,
tá? Agüenta, seu miserável, vão mandar alguém te pegar.” Elvis aperta a mão de Gerson, dizendo:
“Tira esse sangue de mim … tira isso de mim”, grita. “Me limpa … tira isso”, e Gerson o coloca
dentro da banheira e tempera a água até ficar agradavelmente morna.
“Eu tô apavorado, cara. Tira isso de mim … eu vou morrer aqui.” “Segura firme, eles vão vir te
pegar”, diz Gerson. “Merda nenhuma, me tira daqui.” “Eu preciso me encontrar com o cara e entregar
o dinheiro, imprevisto é com eles, eles resolvem isso.”
“Me leva com você, Gerson.” “Não dá, Elvis, você sabe. São os riscos, cara. Músico filho-da-
puta, esse. Você é o imprevisto agora, Elvis, e isso é com eles. São os riscos, você conhece.”
Gerson tira sua camisa ensangüentada e coloca-a dentro da bolsa. Limpa, com uma toalha, o
sangue respingado pelos braços, rosto e pescoço. Veste uma camisa jogada no chão do banheiro,
quatro vezes o seu tamanho, e sai do prédio sem que ninguém perceba um homem carregando uma
bolsa preta de couro, um veado empalhado, vestindo uma camisa quatro vezes o seu número. É
mesmo uma rua bastante tranqüila.
Capítulo 16

Os olhos tremem poucos segundos antes de abrirem-se. A claridade que os invade faz arder ainda
mais a cabeça magoada, tombada no chão. Depois da luz, a imagem do carpete verde, os próprios
pés amarrados, os dedinhos movimentando-se inibidos. Os pingos continuam a espocar dentro da
tigela, gota a gota.
Gina Trevisan sente o calor e o cheiro férrico do sangue liberado por seus molares. Sangue seco,
coagulado, que escorreu por seu pescoço e concluiu-se no carpete. Desprende as mãos sem
dificuldade. Elvis sabia o que fazia; os pés foram libertados e a boca desatada. Eram nós simples,
descomplicados, desconfiados.
Alguns fios do cabelo estão grudados na lateral da cabeça, colados com sangue. Gina permanece
sentada por instantes, buscando algum som interior, exterior, mas só os pombos na janela arrulham
agitados. Ela esperava pelo meu retorno para ir até lá, mas eu ainda não tinha chegado. Pensa em
esperar por Horácio, mas o esperaria em outro lugar. Decide ir embora dali, juntar suas coisas e
partir de uma vez. Se encontrariam mais tarde, procuraria por mim outra hora, mas aquele era o
momento de partir.
Vai até o banheiro e lava o rosto, a cabeça, a boca. Prende os cabelos e faz um curativo. Os
molares cessaram de sangrar. Toma dois analgésicos e recolhe seus pertences espalhados pelo
quarto. É rápida, sente alguma tontura vez ou outra, mas está acostumada a levar na cabeça, recupera-
se sem demora. Veste-se, calça o par de botas e volta à sala para apanhar seus cigarros. Olha para
cima e pensa no que aconteceu lá, com o homem que toca piano, que está acima de sua cabeça.
Caminha silenciosa pelo apartamento, tentando perceber alguma vibração vinda do alto, mas não há
nada lá. Como se nem fôlego houvesse mais.
A tigela está cheia, quase transborda. Antes de sair, Gina decide despejá-la no vaso, mas há algo
que não estava antes, que nunca percebera. A coloração escurecida, levemente, mas perceptível.
Detém-se e espera. Olha para a infiltração e vê uma nova gota. Espera paciente e angustiada, até que
ela se incha o bastante para desprender-se do teto. Apara a robusta gota com a mão em concha, onde
se forma uma pequena poça avermelhada. O cheiro férrico, o sabor ferroso. “Pode ser o
encanamento”, pensa, “mas poderia ter aparecido antes”. Não é o encanamento. Esvazia a tigela no
vaso sanitário e a coloca no mesmo lugar. Alguém lá em cima está esvaindo por aquela infiltração,
que não é só água, mas também sangue e lágrima.
Joga a bolsa nas costas e bate a porta da sala. Desce seis degraus e pára, arredia, de olhar
suspenso, peito ofegante. Descida covarde, quando deveria subir. Ninguém subiria aqueles degraus, a
não ser os loucos extremados, viciados em sabor ferroso. Gina retorna ao apartamento de Horácio e
apanha um bastão de madeira na área de serviço. Sai do apartamento e sobe o lance de escada
silenciosa, na ponta dos pés. Agarra o bastão até os nós dos dedos empalidecer. Deixa a bolsa no
chão do corredor antes de prosseguir rumo à porta do 301. Não há sinal de danos na porta, que está
destrancada. Toca levemente na maçaneta e abre-a com suavidade. Nenhum barulho ou fôlego, mas o
silêncio é intrigante. Aquele silêncio que reserva uma explosão interna, dá para sentir o peso da
gravidade agindo com mais ímpeto naqueles metros quadrados, um iminente impacto que te
arremessa para longe, que nunca mais te deixa levantar, o silêncio que te manda voltar atrás.
Gina Trevisan passa a língua nos dentes e engole seu sangue, o suficiente para encorajá-la a
continuar. A desordem estabelecida entre as quatro paredes que a contornam quebra o silêncio
inicial. Olha para trás, o coração disparado e o cheiro forte de uísque derramado no chão, os cacos
de vidro da garrafa como garras afiadas, esperando mordê-la. Desvia dos cacos, contorna as duas
cadeiras caídas, mas as 32 punhaladas numa esponjosa montanha de carne e gordura estão ali no
chão, atrás do sofá, esperando surpreendê-la. Morreu de olhos e braços abertos, rogando clemência,
o músico amortalhado.
Prende a respiração e controla a ânsia de vômito ao ouvir um leve marulho, as águas movendo-se.
Ela avança pelo corredor e, diante da porta do banheiro, Elvis olha fixo para o teto, com lágrimas
nos olhos, recitando baixinho alguns versos. Não é hora para assistir à própria vida, insistir em
ponderações; apenas purificar-se. Não há muita coisa para fazer quando se espera pela morte, e
aquela água morna limparia seu corpo e os versos, o seu coração. “E que coisa mais estranha é a
realidade do mundo desolado e infinito, que não tem destino, significado, nem centro e o doce e
minúsculo lago do espírito”, ele balbucia, desfalecendo, mergulhando na imensidão de seu próprio
lago, de volta ao primeiro significado, aproximando-se do centro de abalo de um terremoto.
Gina descansa o bastão de madeira, largando-o no chão. As curtas e reguladas passadas em
direção à banheira fazem Elvis perceber a aproximação de seu epicentro. Ela o reconhece ainda à
distância e quando se aproxima percebe que suas roupas e as do sujeito que a amordaçou
correspondem. “E que coisa mais estranha é a realidade do mundo …”, ele continua, agora olhando
para ela, que se agacha ao lado da banheira, o rosto avermelhado, o eco seco como de vidros
espatifando-se. “ … desolado e infinito …”, continua Elvis, sentindo o peito arfar, o desespero lhe
cumprimentar. Ela segura em sua mão e conclui: “que não tem destino, significado, nem centro e o
doce e minúsculo lago do espírito”.
“Me perdoa, Gina. Me perdoa”, diz. Ela toca em sua boca, fazendo-o calar. Ele engole as
palavras, que entram no esôfago, e segura sua mão sobre o peito. “Foi um engano”, balbucia Elvis ao
girar a cabeça, encontrando espaço para falar. “A porra de um engano. Saiu tudo errado, Gina. Eu
trabalho pro Zeferino, mas era pra pegar o músico, a confusão foi minha.”
Ela solta suas mãos e lhe dá um beijo na testa sem dizer uma palavra sequer. Ele continua a
imergir na imensidão do lago do espírito. Vai até a sala e apanha o telefonesem-fio. Disca
rapidamente e retorna para o banheiro, de pé na porta, dá o endereço de onde estão e agradece.
Desliga o telefone e coloca-o ao lado da banheira. Agacha-se novamente e segura sua mão. “Promete
que me acha?” Ele dá um riso dolorido. “Uma facada aí …”, diz Gina. “Você levaria dias pra
morrer. Eles já estão vindo … é aqui perto.” Elvis interrompe, afirmando que a encontrará, sempre
onde houver uma boa briga. “Nós amamos apenas aqueles que resistem”, diz Gina. “Os demais, nós
toleramos”, conclui Elvis, esboçando um sorriso irônico em meio à tragédia.

Sai apressada do prédio e espera, escondida numa esquina, o socorro chegar. Cobre parte do
rosto com um boné preto e sai para fazer hora, pensar exatamente no que fazer, esperar por Horácio.
Termina por entrar numa sessão de cinema que exibe o filme Acossado de Jean-Luc Godard. Nunca
assistiu a um filme dele, não sabe do que se trata, é apenas uma sessão vazia que acaba de começar,
com ingressos baratos ainda à venda, onde estará segura por algum tempo para colocar seus
pensamentos em ordem.
Ordem é o que falta, mas há progresso das idéias. Um avanço tímido, de passadas curtas. Não
demora para ser também perseguida por um enxame de mariposas que lançam lampejos bruxuleantes.
Horácio havia contado tudo que sabia sobre Amadeu e lá estavam muitas dúvidas. “Não adianta
explicar certas coisas que, por mais fictícias que pareçam, são mais reais do que eu e você”, foi o
que disse Horácio. “Qual realidade veio primeiro?”, questionou Gina, em silêncio.
Alisa o isqueiro, acende e apaga. Os olhos lacrimejam. Lacrimejam toda a ansiedade, os golpes
baixos, o gosto de sangue na boca, as mentiras e desilusões. Uma nova estrada mudaria o rumo das
coisas. Acende e apaga o isqueiro. Eles iriam se casar. O choro atravessa a garganta ressequida. Um
longo suspiro. Precisa desaparecer e tomaria o oeste por caminho.
Quando termina o filme, de alguma forma, seus crimes estão estampados ali e a última cena é para
ela o início de sua própria história. Enquanto na tela tudo termina com uma morte, uma morte
denunciada, traída, para ela a morte foi o começo de tudo. O mais cruel é que em ambos os casos
havia o intrínseco desejo de provar o amor, de salvá-lo com uma morte tanto no fim quanto no início.
E de quem haveria de ser a culpa?
Elvis é encontrado e retirado da banheira pouco antes de desmaiar. Ele sobrevive. Aquela havia
sido uma chance única e coisas como essas não se desperdiçam. Não se sabe o quanto de sangue
perdeu e o quanto atravessou o vazamento do teto do apartamento de Horácio, respingando na tigela
até transbordar e encharcar o carpete mofado. Houve muito sangue e lágrimas também; o suficiente
para desencorajá-lo a continuar naquilo. Talvez o novo sangue nas veias, recebido na transfusão, o
tenha modificado. Havia um frescor percorrendo suas veias, o corpo suturado; aquilo era bom.
Talvez o fato de permanecer sangrando, sozinho, dentro de uma banheira com água morna e tempo
suficiente para perceber o que vale realmente a pena, ainda que ponderações como essas fossem a
última coisa que quisesse fazer. Mas não há como mergulhar no próprio lago do espírito sem sair de
lá rarefeito. Muitos não têm essa sorte, essa de sangrar embalado em água morna e ter a chance de
sobreviver para fazer tudo diferente. Espero de todo o coração ter a mesma sorte, caso queira fazer
diferente o que quer que seja.

Não é uma noite das mais fáceis. Olho para o canto e vejo minha mochila arrumada. Edgar me
apanharia e visitaríamos nossa mãe no interior do estado. Viajaríamos e comemoraríamos juntos seu
aniversário. Ela esperava ansiosa, eu podia ouvir, toda vez que olhava para o céu, o barulho de suas
preces. Ficaria com ela por uns tempos, já que havia acabado de ser despedido da videolocadora.
Quem precisa de uma porcaria dessas? Já estava mesmo na hora de dar o fora. Voltar para o interior
me faria um bem tremendo por algum tempo. Pelo tempo que durasse meu seguro-desemprego. Estava
devendo ao velho Lozonni e decidi escrever um bilhete, dizendo que, assim que arrumasse um novo
emprego, eu retornaria e acertaria os dias restantes.
A massa de curiosos já havia se dissipado, restando alguns poucos; duas viaturas da polícia ainda
se mantinham no local. Não tive coragem de ver de perto, desci rapidamente para saber o que houve,
por uns cinco minutos no máximo, e voltei para o sótão; não, dessa vez não tive coragem porque tudo
me lembrava a velha Gisela e eu ainda remoía a sua morte.
Fiquei sentado na velha poltrona, imóvel, assistindo televisão. Eu estava quieto aquela noite e os
pombos também. E só esperava por Edgar Wilson, atravessando aquela porta e me dizendo: “Ei,
Dimitri, vamos embora, vamos ver a mamãe.” Me sentia um ingrato por não ter comprado um
presente para ela e gastado a nota de R$ 50,00 estalando de nova que Edgar havia me dado. Se ele
quisesse me dar uns tapas, tudo bem, eu mereço uma boa surra, um dente quebrado e uns hematomas.
Não me faria mal ficar roxo por uns dias, acho que até me cairia bem essa cor, uma cor difícil de
combinar, mas não com dias difíceis de se levar.
Edgar aprendeu com minha mãe que todo homem tem sua porção sob o sol. “Eis aqui tua porção
sob o sol”, diz o livro de Eclesiásticos, e ela adora proferir citações bíblicas. Eis aqui nossa porção
para tudo que façamos, desde pequenos. Mamãe nos dosava, era estranho. Pesava nossas atitudes.
Eis aqui nossa porção! E eram porções sobrenaturais, nunca se materializavam, uma porção como o
vento, que não se apanha. E eu pensava, “Mas o vento espalha e não há porções que resistam”. Não,
obrigado, estou farto delas.
Houve silêncio suficiente ali dentro para me fazer ouvir os cupins agitados, devorando todo
aquele lugar apodrecido. Minha cabeça estava apoiada na poltrona ao lado do armário de roupas.
Colei meu ouvido direito no armário e o som amplificado causava horror. Abaixei no chão e colei
meu ouvido esquerdo contra aquele piso de madeira corrida. Um inferno de cupins continuava a
traçar o lugar. Eles o colocariam abaixo, e eu até que gostaria de ver aquele sótão desabar por
inteiro. Diferente de Edgar, que gosta de partes, desmembramentos. Ele costuma desmembrar
primitivamente a realidade, mas tem uma poderosa visão do todo.
Ao lado de minha mochila estava a bola de basquete que ganhei de brinde de um representante de
vendas que freqüentemente visitava a videolocadora. Haviam lançado uma porcaria qualquer de
filme sobre basquete, um troço intragável, mas a bola promocional era um brinde maravilhoso. Na
verdade quem ganhou foi o meu gerente, o sacripanta, mas eu a merecia muito mais e tomei para mim
aquilo que considerava a minha porção; ainda está comigo. Decidi experimentá-la ali mesmo,
enquanto esperava por Edgar. Arredei o pequeno tapete, a televisão, a mesa e as duas cadeiras.
Consegui um corredor com pouco mais de três metros, mas dava para me movimentar. Timidamente,
comecei a quicar a bola, andando de um lado para o outro. Uau, que bola. A filha-da-mãe
branquinha, reluzia; macia e de costura firme, tocava em minha mão, batia no chão e retornava muito
obediente. O cesto de lixo em cima da geladeira era para receber meus lances, que nunca entravam.
Precisaria de muito treino e comecei ali mesmo, girando meu corpo de um lado para o outro com
velocidade gradativa; tocando com mais firmeza a bola, passando-a de uma mão para outra. O piso
reverberava, os cupins estavam em pandemônio. “Toma isso, seus roedores! Toma, toma, toma.
Quem faz mais barulho, hein?” Eu quicava a bola com muita força e crack, crack, o piso foi rachando
e cedendo, eu queria provocar um terremoto e sossegar aquela cupinzama, o marulhar dos ruminantes
de madeira.
Foi naquele instante que a primavera reconquistou meu coração: ao vê-la atravessar aquela porta.
Um dragão vermelho que envolvia todo o corpo, começando um pouco abaixo da nuca e terminando
com a cauda no umbigo. O único dragão com piercing no rabo, que cuspia um cabelo vermelho
sangrento. É o que todos sempre dizem ao vê-la, mas dessa vez eu estava lá.
“Essa é a minha porção”, pensei na hora. E acreditei, por instantes insanos, que aquilo fosse a
materialização do que o vento não conseguiu espalhar. Mas ela era mais bravia que o vento e
deslizava no ar, penetrando em brechas inimagináveis do meu coração.
Abracei a bola e fiquei parado bem no meio do sótão, ouvindo aquela história absurda; ela quase
chorou. “Dragões não choram”, eu pensei, “eles cospem fogo pelas entranhas”, e eu ali, inflamado.
Fez um resumo, destacando o que havia de mais importante sem detalhar sua vida. “Quem diabos é
Amadeu?”, fiquei pensando enquanto ela falava. Que filho-da-mãe mais sortudo esse. É mesmo tudo
o que conseguia pensar. Mesmo morto esse filho-da-mãe arranca lágrimas de um dragão.

“Sinto muito, Gina, mas não sei de nada disso. Cheguei aqui faz pouco tempo e só sei o nome do
meu senhorio e que esse sujeito que mora aí em frente é um bastardo tocando aquele serrote. Onde
ele pensa que está, não é mesmo? Num circo? Se tem alguma coisa aqui, dê só uma olhada nisso! Não
tem muita coisa, mas pode procurar à vontade. Ah, sim … esta é minha mochila. Vou embora nesta
noite. Fiquei desempregado. Não, não sinta, era degradante. Mas não fale nada, não, porque eu tô
devendo ao velho. Agora já era, né? Não vai dá pra acertar.”
Ela responde com um leve gesto dos ombros, não entendi muito bem o significado dele, mas
relevei. Fitou os deslocamentos em frente ao prédio, buscando compreensão nos movimentos ali
embaixo. No vai-e-vem das poucas pessoas, nas palavras dos policiais. “Eles já sabem o que
houve?” “Sei lá … não faço idéia. Mas um cara morreu e o outro, que estava dentro de uma banheira
ainda estava vivo. Se safou. É o que disseram, mas não tive coragem de ficar lá. Deve ter sido um
assalto, né? Sei lá.” E ela permanece calada.
Era possível ouvir a algazarra dos gatos no latão de lixo, por causa de algumas latas de sardinha
em conserva que eu havia deixado lá. Bichos escrotos aqueles! Ela ali, andando de um lado para o
outro e eu, agora, com o traseiro pregado na poltrona. Estava mesmo embasbacado, coisa que já sou
naturalmente. Agora, nossa!, eu chegava a virar os olhos.
“Mas essa bolsa não estaria em outro lugar? Com o velho?” “Talvez, pode ser”, diz Gina. “Mas
nem tente essa hora”, digo. “Ele odeia ser incomodado depois das 8 da noite … é … mas nesse caso
… assim tão grave. Se você não se importar, eu posso tomar a frente disso.”
Agora sim eu falava como um homem. Um verdadeiro desatador de nós e me lambuzaria de graxa.
Estava precisando mesmo me lambuzar um pouco. E pensando que fosse permanecer quieto até ir
embora, agora quero descer as escadas e dialogar com o velho, esta é a minha porção, sem dúvida
que sim, ser um idiota até a morte.

***

Horácio consegue entrar no prédio depois de identificar-se como morador. Dona Elza ajuda os
policiais na identificação dos moradores, a mulher não arreda o pé. Dá para perceber a satisfação em
seu semblante, uma história para contar pelo resto de vida que ainda lhe resta. “Ah, que tristeza, que
mundo terrível, que coisa bárbara”, diz toda hora levando a mão até o rosto, apiedada. Quanta
besteira.
Ela havia sido a última pessoa a falar com o músico, isso lhe dá um destaque que há tempos não
tinha, subindo e descendo aquelas escadas de mármore, limpas e frias, solitariamente. Antes de ir à
delegacia prestar testemunho, relatar sua breve conversa com o músico, coloca seu melhor vestido e
borrifa laquê nos cabelos. Dona Elza foi requisitada por vizinhos durante muito tempo, formavam
uma roda onde ela parava. Guardou com carinho o recorte de jornal da página policial em que seu
nome era citado como a vizinha que o viu pela última vez com vida. “Sim, ele era um bom homem.
Grande músico.” Na verdade ela havia dito muito mais, porém isso não importava. O recorte de
jornal permanece preso no espelho de sua penteadeira ao lado de retratos de filhos e netos que nunca
a visitavam.
Horácio tem dificuldade em abrir sua porta, a fechadura não responde à ação da chave; está
travada. E com muita paciência ele abre a porta para logo ver as lascas de madeira no caixonete, a
correntinha arrebentada e sentir que já era inverno em sua barriga. Sente dor na nuca e medo de
avançar para o interior do apartamento. Deixa a porta aberta e chama por Gina várias vezes. Antes
de alcançar o telefone, seus olhos alcançam o fio desprendido da tomada, rompido. Corre até o
quarto e seus pertences já não estão mais lá. Não há nada lá, nada que a lembre, a não ser o bilhete
sobre a mesa da sala: “Vou esperar pelo rapaz do sótão. Vou falar com ele. Gina.” Do outro lado da
rua, a janelinha aberta e iluminada o faz descer rapidamente, cruzar, aparvalhado, sem olhar para os
lados e é quase atropelado numa rua tranqüila, o que seria um acidente bem ridículo, já que o carro
guiado em marcha lenta não causava riscos ou suspeitas.
Horácio resmunga um palavrão com o susto que o fez pular e atravessa a rua. Dentro do carro, os
falatórios de Pablo Sasaki a respeito dos imprevistos e da pouca sorte dos últimos dias não cessam.
“Não podemos fazer mais nada, já devem ter levado ele há muito tempo. Será que tá vivo?”, pergunta
Pablo. “Só vamos saber se perguntarmos”, responde Edgar Wilson. “Então eu faço isso, você é
suspeito demais pra perguntar qualquer coisa a policiais”, diz Pablo.
Edgar estaciona o carro mais à frente e permanece esperando por Pablo, que não demora com as
notícias. “Disseram que um cara foi encontrado dentro da banheira e foi levado pro hospital e que
tava muito mal. Mas acham que vai conseguir escapar”, diz Pablo.
Edgar desce do carro e caminha em direção ao sótão, afirmando que coincidentemente é ali que
eu moro e que havia combinado de me apanhar. “Mas isso não é hora, Edgar, temos que terminar
isso.” “E desde quando não termino o que começo, Pablo? Eu preciso falar com o Dimitri, talvez ele
tenha visto alguma coisa. A gente apanha ele e deixa na minha casa, depois resolvo o resto.”
Pablo, antes de seguir os passos de Edgar Wilson, apanha dentro do carro o chiuaua que,
descompensado, sai a correr pela rua, demarcando cada metro quadrado com discretos jatos de mijo.

***

Parado bem no centro do sótão, entre Gina e Horácio, eu repito, pela terceira vez, de maneira
insegura e contida: “Não sei de porcaria de bolsa nenhuma.”
Horácio caminha de um lado para o outro no limitado espaço entre uma mesa e uma parede,
mastigando cravos-da-índia, fazendo inclinar o chão, que duplica os rangidos, parecendo acalmá-lo,
pois ocupa seus intervalos de silêncio. Permaneço quicando a bola, sem sair do lugar. “Vocês podem
ficar aqui se quiserem, vou embora logo, logo. Eu não sei de nada, mas me digam uma coisa: o que
tem nessa bolsa, hein?”
Horácio percorre com olhos vagos as extremidades do sótão. Gina, desanimada, senta-se na
poltrona. Quase morreu naquela tarde, não valeria a pena continuar. Apanha sua bolsa e diz ir
embora. “Pra mim isso é tudo, eu vou agora.” “Mas você não pode ir assim, desse jeito, Gina.” Ela
pensa em responder à sua petulância de lhe dizer o que deve ou não fazer, mas dá dois passos e fala
apenas: “Faça o que você quiser, Horácio. Eu preciso achar o Amadeu.” “Eu posso ir com você”, diz
Horácio, que é impedido de completar sua frase quando Gina abre a porta e bate-a ao sair. Ouve-se
suas três primeiras passadas descendo a escada. Me sento à mesa e com a ponta de uma faca risco
minhas iniciais, D.C., Dimitri Callaros. Depois de Cristo.
Horácio permanece sem reagir, fica pensando por instantes e eu gostaria que ele fosse embora,
que fosse pensar o tanto de instantes que quisesse em sua casa. Novamente começo a quicar a bola.
Ele não gosta do barulho das batucadas, queria irritá-lo como ele vem fazendo com aquele serrote.
Isso me agrada muito. “Por que você toca aquele serrote?”, pergunto. “Por que você quica essa
bola?”, diz. “Porque bolas são feitas pra quicar”, respondo, e bato mais fortemente contra o chão.
Gina Trevisan atravessa a porta velozmente, deixando um rastro incandescente com a cauda do
dragão, me fazendo sossegar. Pablo Sasaki entra disparado, seguindo o chiuaua, que, aparvalhado,
com uma lata de sardinha na boca, tentando se esconder, encontra uma lasca no piso que assenta seu
corpo franzino e desaparece sob os tacos. “Esse vira-lata ainda vai te fazer quebrar o pescoço”, diz
Edgar Wilson, o último a entrar, e que apaga um toco de cigarro contra um aglomerado de cupins no
caixonete da porta para logo fechá-la atrás de si.
Capítulo 17

Recuei do centro daquele terremoto e fiquei quieto num canto, remoendo farelos de cereal,
quando os intempestivos diálogos começaram. Eles se conheciam e se acusaram. Gina acusou Edgar
Wilson de encaminhála a uma tal agiota e enrolá-la numa tremenda dívida. Edgar por sua vez
acusava-a de deixá-lo pelo tal Amadeu. “Eu não sabia nada sobre as lutadoras e quando te vi lá
fiquei mesmo preocupado. Tudo o que pude fazer foi te deixar escapar”, diz Edgar Wilson. “Você
acha mesmo que eu não te alcançaria se não quisesse? Sou a porra de um profissional, Gina, eu
deixei você escapar.”
Edgar Wilson apaixonado era uma grande novidade, sentimentalismo ou sacrifício por amor, isso
eu desconhecia nele. Mas ali estava o gigante insólito, a esfinge de gelo, derretendo diante daquele
dragão, transformando-se numa poça d’água suja. Tive pena dele. É difícil amar, principalmente
quando se está completamente só, principalmente quando se carrega o fel do sangue da própria
maldade, expurgada. “Lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer, compra-se a preço de
alma.” Plutarco disse isso, é o que estou lendo agora, enquanto espero pela neve, os seus fragmentos.
E os fragmentos de Edgar Wilson dizem que, quando se carrega o peso de muitas almas, é injusto
lutar por um coração.

Pablo continua estirado sobre o chão, batendo com as mãos e chamando pelo cachorro. “Ele vai
morrer aqui embaixo”, repete Pablo, incansável. “Ei, tem um cachorro preso aqui embaixo, alguém
pode me ajudar?” Horácio e eu iniciamos uma busca, caminhando de quatro, de um lado para o outro,
colando o ouvido sobre o piso em busca de algum ruído e eu só conseguia escutar os cupins. Se não
fôssemos rápidos, eles devorariam o cão.
Apanhei minha bola e comecei a quicá-la para despertar o cachorro. Batia cada vez mais forte e
ele não respondia. A essa altura não havia mais conversas, só a tensão de ter o bichinho preso ali.
Continuei quicando a bola com força e as lascas desprendiam-se com mais rapidez. Deveríamos cair,
todos, num imenso buraco. Um largo vão surge imediatamente quando decido parar com aquilo.
Pequenos estalos pipocam de forma crescente. Pablo coloca-se de pé num rompante ao meu sussurro
desesperado de “Não faça isso!”, exatamente onde antes estava a mesa com as duas cadeiras,
exatamente onde estava o tesouro sem mapa.

Parte do piso desaba sobre a sala de Lozonni, fazendo Pablo escorregar. Ele busca onde segurar-
se e arrasta consigo muito lixo, poeira, dois pombos petrificados, uma bolsa vermelha de náilon, que
se rompe juntamente com os três pacotes de cocaína, entre as pontas expostas do piso dilacerado.
Espalha sobre a sala de Lozonni um pó branco que sugere um nevoeiro e alguns grossos maços de
dinheiro, notas soltas de R$ 100,00, que, como folhas secas ao vento, formam uma visão de matar
qualquer um de felicidade. É o outono que antecipou sua chegada, nos pegando de surpresa, o melhor
outono que já contemplei. A estação das folhas secas, das notas de dinheiro caindo do céu, a melhor
das estações.

Pablo permanece pendurado, segurando no que resta do piso apodrecido. Nós quatro
contemplamos silenciosos o vão, que agora se estende até os pés de Horácio. Edgar Wilson agacha-
se e verifica tanto o pó esparramado quanto a bolsa vermelha, e aquilo indica que uma parte de seus
problemas está resolvida. “Pablo, você sabe o que acaba de fazer?” “É claro que sei, e a culpa é do
Dimitri.”
Lozonni no centro da sala, esbranquiçado pelo pó, olhando exasperado para o alto, se esparrama
em gritos: “Dimitri, seu desgraçado, o que você aprontou dessa vez? Agora temos chineses caindo do
teto.” “Dimitri, seu desgraçado, que raio de chiqueiro é esse em que você mora”, resmunga Edgar.
“Puta que pariu, temos uma fortuna lá embaixo”, digo. “Puta que pariu digo eu! Vocês vão me deixar
cair?”
Edgar e eu trazemos Pablo para cima. O chiuaua ainda permanece desaparecido entre os tacos que
restaram, mas Pablo diante dos fatos resolve procurá-lo depois. Lozonni, ainda parado no meio da
sala, toma mais um gole de vinho no gargalo da garrafa e resmunga: “Dimitri, venha limpar essa
bagunça, moleque endiabrado. Dimitri, você é pior do que aquela ratazana maldita.”
Recuperados do susto, nos movemos para descer até a sala do velho e Horácio, segurando minha
bola de basquete, por algum motivo, decide jogá-la para mim. Ela está caída num canto, mas ele é
implicante, o sujeito, e me diz: “Segura essa!” Mas não seguro porque a bola passa direto pelo
enorme vão entre nós dois e permanece quicando ao lado de Lozonni, quando este, ao ser atingido na
cabeça, despencou no chão sobre o volumoso dinheiro que não pára de crescer.

***

A pequena cachoeira formada no centro da sala de Lozonni não pára de jorrar as cristalinas notas
azuis, embaladas no nevoeiro de pó branco dos pacotes rompidos e do rebaixamento de gesso da
sala, que agora se assenta sobre móveis e chão. Eu estou encantado e começo a apanhar uma aqui
outra acolá e enfiá-las no bolso, até Edgar mandar devolver. “Taí o dinheiro, que merda de mundo
miudinho é esse”, comenta Pablo, admirado. “A porra de um microcosmo”, completa Edgar Wilson.
Gina e Horácio verificam o pulso do velho e não há resposta. A garrafa de vinho virada ao seu
lado empapa as notas de dinheiro espalhadas pelo chão. Eu apanho na cozinha um copo d’água e
tentam reanimá-lo, molhando seu rosto. Gina massageia o coração e Horácio, os pulsos, mas não há
abalo, sopro ou fôlego. “É melhor tirar o velho daqui”, diz Pablo, enquanto caminha novamente
preocupado com o sumiço do cachorro, olhando para o alto em busca de vestígios ou ruídos. Gina
espia a movimentação pela janela que fica na mesma direção de um dos vãos do muro e pode ver do
outro lado da rua as luzes da viatura brilhando.
Edgar recolhe o dinheiro espalhado e começa a formar sobre uma mesa num canto da sala uma
montanha de notas. Pablo recolhe alguns maços que não se desprenderam. Horácio continua sentado
ao lado de Lozonni numa espécie de choque, mascando cravos-da-índia em silêncio.
“Não podemos deixar o velho pra trás”, eu manifesto. “Ele era um bastardo, sei disso, mas não
podemos fazer isso.” “A propósito, nosso amigo aqui”, eu digo, apontando para Horácio, “é que é
responsável pelo defunto. Então você é quem vai fazer ele sumir, do mesmo modo que fez aparecer.”
“Bastante justo”, diz Pablo. “Suficientemente justo”, completa Edgar.
“Desaparecer com ele, mas antes será preciso fazer eles desaparecerem”, diz Gina, ainda
observando a pouca movimentação de policiais e transeuntes do outro lado da rua.
Recolhemos todos os maços e notas espalhadas pela sala e o montante completo sobre uma mesa
exige uma sacola para serem depositados. Eu vou até a cozinha checar os armários em busca de um
saco de lixo ou coisa que o valha, resmungando: “Por que diabos não coloquei aquele sótão abaixo
antes de chegarem?” Certamente não estaria aqui agora. Toda aquela cupinzama e eu, e mais um tanto
assim de dinheiro; mais uma vez o vento espalhou minha porção.
“Então tá, temos pouco tempo. Precisamos tirar o velho daqui e levar pro carro sem que os
homens aí na frente percebam nada.” “Como vamos fazer?”, pergunta Pablo. “Tornando ele menor”,
fala Edgar Wilson. “Como assim?” “Como?”, eu digo. “Encurtando algumas partes, ensacando os
pedaços … Como se faz um corpo desse tamanho desaparecer? Se tiver idéia melhor, por favor”,
conclui Edgar.
“Ninguém aqui tá pensando em retalhar o velho”, gagueja Horácio. “Edgar, que mania de tornar
tudo menor. Eu acho que …”, digo. “Ele sempre teve esse costume de diminuir as pessoas.
Inferiorizá-las”, interrompe Pablo. “Você não acha nada Dimitri … a não ser alguma coisa pra
embalar o velho”, diz Edgar. “Além do mais, você sabe que não se deve deixar homens insepultos.”
Pablo retorna da cozinha, segurando o cutelo de Lozonni, revestido por uma camada de sangue
seco. “Dei uma olhada na cozinha e só isso aqui. Acho pouco prático.” “Não gosto desses cutelos.”
“Ele é músico”, falo, apontando para Horácio. “Toca um serrote que carrega pra cima e pra baixo.”
“O quê?”, ele grita. “Cale essa boca. Eu não vou serrar ninguém … vocês estão … estão …”

Um suave ruído sobre nossas cabeças, o som de unhas diminutas em atrito com a madeira. Um
choramingo abafado dentre o piso esfacelado. “É o cachorro? Acho que tá preso”, falo.
E a cabecinha dele aparece entre lascas e pontas de madeira. Sua cor, outrora bege, agora
aproxima-se de um tom pardo devido à poeira e a teias de aranha entrelaçadas por toda a extensão do
franzino corpo. Os olhinhos lacrimosos brilham de horror, grita por ajuda, e estalos vindos do teto
são ouvidos regularmente, anunciando o iminente desabamento. No chão da sala há flores amarelas
que rompem vertiginosamente o piso e a figura truculenta na parede parece despertar, possuída do
espírito de Lozonni. Todo o lugar parece ruir e o demoníaco cavaleiro de sobrancelhas espessas não
tardará em sair de sua parede mofada. Uma grande mancha causada por infiltrações que apropriou-se
da forma de seu morador.
As pontas do piso inclinam-se com o peso da precária massa muscular do animal, que pressente,
apavorado, sua queda definitiva e precipita-se em direção a Pablo, que o ampara nos braços.
Aquele gesto de confiança instigado por Pablo levou ao imediato relaxamento intestinal do
cachorro, que, desmedido, defecou o acúmulo de dias. Seu peso fora ainda reduzido ao expelir um
piercing de prata, uma pulseira de ouro, uma tampa de caneta, uma antena de telefone, e por fim,
causando aguda aflição e admiração pela valentia, o terço de Edgar Wilson, outrora benzido pelo
papa, que precisou de um pequeno puxão, já que a cruz engasgada provocou tenebrosos gemidos.
Intestino aliviado, cu suturado.
Uma trilha aberta no chão da sala, coberto pelo pó branco, devido às inalações do cachorro,
demarca um caminho até Lozonni, estirado num canto. O efeito da droga parece provocar alterações
no sistema nervoso do animal, seguido de espasmos, os vasos sangüíneos dos olhos dilatamse e ele
inicia uma incessante busca pelo próprio rabo, com pouco mais de cinco centímetros. O focinho
contrai-se, revelando a frágil gengiva ressequida e os caninos delicados, assomado de horror. Corre
em direção à parede mofada, com a figura do truculento cavaleiro de sobrancelhas espessas, e inicia
uma série de cabeçadas acompanhadas de engasgos.
Pablo segura-o e recebe uma mordida na mão. Desfere um tapa no focinho do animal, que solta
um gemido e aquieta-se com a língua para fora, olhos ainda mais esbugalhados, vez ou outra
rosnando grotescamente em diferentes tons.

Horácio e eu suspendemos o velho Lozonni pelos braços e pernas e o levamos para o banheiro.
Horácio atravessa a porta do banheiro no instante em que batidas no portão são ouvidas. Batidas
impacientes de “Aqui é a polícia abram por favor”. Silêncio. Dentro da casa todos nós nos
entreolhamos, esperando que a voz desapareça, que as batidas desapareçam, que aquele segundo
desapareça. Pablo apanha agilmente o restante do dinheiro sobre a mesa. Termina por colocar tudo
dentro do saco de lixo, que joga sobre os ombros, até deixá-lo no forno sujo. Miados estridentes nos
fundos do quintal, e os gatos não se aquietam, chamando ainda mais atenção, nos delatando. Edgar
acena com a cabeça para que continuemos a carregar o corpo. Na passada seguinte, avançando mais
um lance para dentro do banheiro, novas batidas impacientes e essas são de “Sabemos que tem gente
aí, abra agora”. De fato, essas são bem mais difíceis de ignorar.
Capítulo 18

Uma noite tenebrosa, é isso que temos lá fora. Armada e pesada, como o corpo do velho, que
pesa tenebrosamente e a mão do policial batendo à nossa porta. Edgar Wilson acende um cigarro e
dá uma olhada no lugar, possibilidades. Sugiro abrir a porta, atendê-los, mas Pablo retruca, irônico:
“Cooperar segurando um cadáver?” Edgar apalpa a cintura e o tornozelo, e verifica que não possui
nenhuma arma. Aquilo lhe aborrece por um momento, mas a mim tranqüiliza. Lozonni é o suficiente e,
mesmo assim, um acidente. Noites tenebrosas não são adequadas para matar policiais quando estes
batem à sua porta ou mesmo sua carteira numa blitz.
“Você e Pablo recebem os homens. O resto fica no banheiro com o corpo do velho”, diz Edgar.
“Nada disso”, eu falo. “Os policiais sempre pedem pra usar o banheiro. Sempre usam o banheiro e
tomam café na cozinha. É um padrão.”
Nos olhamos em silêncio, eles tentam entender o que afinal é um padrão naquela situação e antes
que eu me explique mais, Gina abre a porta da biblioteca e sugere que se escondam ali. E encontram
um esconderijo seguro atrás da grande estante de madeira, que toca o teto. Um vão justo, possibilita
que se espremam Edgar, Gina e Lozonni, deixando Horácio de fora. Ele sai calado da biblioteca e
vai sentar-se na cozinha e tomar um gole d’água. Encontra um punhadinho de cravos-da-índia e
permanece a mastigá-los, atônito e em silêncio, sem despertar sua presença ali.
Edgar mantém de pé o velho, Gina espreme seu corpo contra o de Edgar, e essa proximidade dos
dois, a respiração ofegante, a claridade que rompe os diminutos vãos entre os livros formam suaves
listras transparentes que os iluminam.

Eu tiro a camisa e encharco os cabelos para aparentar ter saído do banho às pressas. Desculpo-
me em voz alta pela demora ao abrir a porta e deparo-me com apenas um policial. Por um segundo
questiono o fato de ele ter falado no plural, mas percebo que é outro padrão, eles, mesmo sendo um,
representam um todo, uma corporação.
Atrás do policial, que aparenta cinqüenta anos, rosto redondo bonachão e corpo cansado, a rua
encontra-se deserta e silenciosa, permitindo aos miados dos gatos dimensão crescente. Do outro
lado, apenas uma viatura desligada e sem a presença de outro policial. “Desculpe incomodá-lo, mas
devido aos acontecimentos no prédio em frente gostaria de fazer algumas perguntas, o senhor se
importa?”, diz o policial. “De forma alguma, pois não”, eu digo.
O barulho de objetos desabando se faz ouvir até mesmo na rua. Finjo não escutar, permanecendo
com o mesmo semblante que aguarda pelas perguntas. O cachorro dispara a latir. O policial salienta
curiosidade no olhar. “Tem mais alguém aí?” “É … tem … tem sim … meu primo Douglas.”

Entro apressado, chamando por Douglas. Pablo questiona com o olhar e expressa-se com as mãos
em movimentos espasmódicos. O policial atravessa a porta da sala e adentra o lugar com ares de
espanto. “Minha santa mãezinha do céu, o que aconteceu aqui?” “Estamos em obras”, diz Pablo.
“Você deve ser o Douglas.”
Pablo olha mais uma vez para mim e retorna para o policial, que aguarda a confirmação com um
sorriso simpático até então nunca visto. “Exatamente, Douglas. Esse sou eu.” “Desculpe filho, mas
seu nome …” “Alex”, eu digo. “Reginaldo”, diz Pablo simultaneamente. “É Alex Reginaldo. Minha
mãe gosta de nome composto”, concluo.
“Muito bem, Douglas e Alex Reginaldo, como vocês devem saber” — o policial começa a
caminhar pelos entulhos no meio da sala — “ocorreu um assalto no prédio em frente e um homem
está gravemente ferido e outro morto. Gostaríamos de saber se os senhores viram alguma
movimentação estranha nos últimos dias.”

Comprimo os olhos, caminho lentamente em busca de imagens que possam esclarecer o policial e
Pablo corresponde com gestos analíticos, sondando a fundo a memória. “Sinto muito, senhor, mas
realmente não percebi nada de estranho”, respondo. “E você, filho, notou alguma coisa?”, pergunta
para Pablo. “Eu … bem, seu guarda.” “Miranda, tenente Miranda”, interrompe o policial. “Desculpa.
Bom, tenente Miranda … infelizmente não me lembro de nada.”

O policial retira do bolso da calça um bloquinho e faz breves anotações. Caminha pela sala,
analisando curiosamente mais uma vez o iminente desmoronamento, estudando a arquitetura do local,
silencioso, enquanto eu despedaço os tocos de unha e Pablo morde o lábio inferior, nós dois parados
de forma tensa, com o corpo carregado, esperando que o policial vá embora.
Mas o homem não demonstra pressa ou irritabilidade. Parece adorar cumprir suas funções e
interessa-se bastante por assuntos que vão além daqueles que lhe competem. Insiste em iniciar um
pequeno discurso sobre arquitetura e engenharia, expondo seus conhecimentos práticos do tempo em
que, ainda garoto, trabalhava como servente de pedreiro. Cinco minutos se passam. Pablo sente gosto
de sangue, vindo do lábio cerrado por seus dentes. Eu também sinto o mesmo gosto, vindo das
laterais dos dedos em carne viva.
O homem pára de falar quando o chiuaua entra na sala e inicia uma série de cabeçadas contra suas
botas. Acha muita graça e suspende o animal até a altura de seu rosto. O cachorro lança-se contra seu
nariz abatatado e imediatamente um pequeno inchaço provocado pelo arranhão desponta alarmante.
Coloca-o no chão, sem irar-se com o cachorro, e acha graça de si mesmo. Encaminho-o até o
banheiro e lá, enquanto lava o rosto, inicia uma história sobre Loli, a cadelinha de sua filha caçula.
Ao deixar o banheiro, a porta semi-aberta, pesada e de madeira escura, lhe atrai os sentidos. Num
gesto ordinário, ela se abre e a imensidão daquela sala cheia de livros o arrebata, fazendo-o
confessar que também é um escritor.
“Santa mãe do céu, eu não me importaria de passar algumas horas aqui.” Após essa frase, ele
invade em largas passadas o interior da biblioteca. Advirto Pablo, tocando em seu ombro para que
mantenha a calma quando percebo que ele segura o cutelo que há pouco estava na cozinha. Ele o
coloca por dentro da blusa e permanece apoiado na porta.
Acompanho lentamente os passos do tenente Miranda, que desliza os dedos pelos livros,
admirado, revolvendo os olhos por toda a extensão da pesada estante e inicia uma listagem dos
concursos de redação que ganhara desde os tempos de escola. Volta e meia olho para Pablo, que está
impaciente, prestes a pôr um fim naquela situação, porém os meus olhares misericordiosos imploram
paciência. Em minha lista de coisas improváveis a serem feitas estava a morte de um policial.
“Mãe do céu … você tem aqui, garoto, uma coleção e tanto. É tudo seu?” “Não, não … é do meu
tio”, digo, querendo que ele desista logo daquilo, mas sua insistência e frases repetidas de “Olhe
isto, veja, veja só … mas é simplesmente … posso?” deixam meus nervos em frangalhos.
Tenente Miranda a todo instante aponta exemplares que considera extraordinários, sempre
educadamente pedindo permissão para tocá-los numa reverência ecumênica, parecendo beijar pés
santificados. E não pára de fazer breves comentários a respeito do que leu e do que não leu.
Os olhos arregalados de Gina são destacados pela pouca luminosidade que invade o cubículo. As
respirações, ainda mais ofegantes ao sentirem a nossa proximidade, provocam o repentino
deslizamento do corpo do velho dos braços de Edgar, o que provoca uma pequena agitação na
estante, um balançar suave, mas perceptível ao tenente. “Às vezes ela faz isso”, comento com
naturalidade. “Essa casa tá toda velha. Essa estante vive balançando, tremendo.”
Concluo, nervoso, e o tenente permanece emudecido, alargando suas passadas rumo ao final da
estante. A repentina escuridão dentro do cubículo é entendida imediatamente por Gina e Edgar. O
homem está de pé, bloqueando a claridade, e com os olhos fitos em direção a um livro que lhe faz
arrepiar de excitação. Algumas fileiras de livros é tudo o que os separam, no entanto um exemplar
específico pode causar uma repentina turbulência. Tenente Miranda lança mão do único exemplar
que, se retirado da prateleira, possibilitará a exposição da cabeça tombada de Lozonni. “Crime e
castigo, o russo”, diz. “Minha santa mãe do céu! O melhor.”
De posse do livro, avança um ligeiro passo à frente e a claridade, antes invadida por suaves
listras, agora rompe-se atravessando o vão deixado pelo russo que jazia sereno entre compatriotas.
Edgar tenta invadir, aprofundando-se para o interior do cubículo, mas todo o espaço já está
preenchido.
Decido não olhar, comprimo os dedos nervosos uns contra os outros. Grudado em minhas costas
está Pablo com o cutelo sob a camisa, ansioso por resolver aquele impasse instaurado. Lanço-lhe
mais uma vez um pedido de clemência e esse demonstra não se conter. “Douglas, por que você não
dá uma olhada lá na cozinha pra saber se não tem pó de café? Talvez seja bom um café, não é,
tenente?”
“Ah, sim …, mas estou com azia. Terrível”, diz o tenente, dando uns tapinhas na barriga, sem
despregar os olhos do livro que segura. “Mas um copo d’água eu aceito, por favor.”

Parado atrás do tenente, eu aceno para Pablo buscar a água, que eu mesmo termino com aquilo.
Pablo aponta para o cutelo sob a camisa e em seguida para o tenente, que já iniciou um novo discurso
literário. Insisto e Pablo retira-se, caminhando atento. Tenente Miranda vira-se para mim e continua a
jorrar palavras que acredita estarem sendo colhidas por mim, o jovem Alex Reginaldo.
“Então”, continua o tenente. “Ele decide usar a machada em vez de uma faca de jardineiro porque
não confia nas próprias forças.” Esqueço de respirar, pois todo o meu esforço agora é para ordenar
meus pensamentos cautelosamente. Trepidando dos pés à cabeça, tento balbuciar algumas palavras
gagas.
“A história é sobre um sujeito que mata uma velha a machadadas pra poder roubá-la”, diz. “O fato
dele considerá-la uma avarenta torna tudo mais aceitável.”
Meu semblante apodera-se de pavor e, gaguejando consternação, sinto-me obrigado a manifestar
verbalmente algo em resposta ao olhar do tenente, que me parece inquisidor.
“Porém”, salienta com o dedo em riste, “houve um imprevisto”, diz. Estico o pescoço para frente
em direção ao homem e aperto as pontas dos dedos contra a beirada da estante, diante do vão
recente, expondo a poucos centímetros a cabeça inerte de Lozonni e seus olhos estatelados. “Alguém
aparece na hora, a irmã da velha”, diz o tenente. “É aí que ele precisa matá-la também e isso não
estava nem de longe em seus planos.”
Respiro fundo, olho para o chão, retiro a mão apoiada sobre a estante, rendendo-me. Olho o
tenente quase rogando por clemência. “Mas ele paga por seu crime, no fim todos pagam, não é
mesmo, filho?” E não diz mais uma palavra sequer. Inicio em meus pensamentos as primeiras
palavras de confissão para meu crime, ainda que não soubesse qual exatamente, mas um olhar
daqueles te faz querer confessar o que quer que seja. Tenente Miranda, homem que arrisca a própria
vida diariamente em nome da ordem e segurança, me será como um padre, e lembrome da última vez
em que entrei num confessionário. Há muito tempo. Mas percebo, com estranhamento, o semblante
nostálgico ainda não contemplado, resplandecendo na face do homem e um filete de sangue começa a
escorrer pela testa em linha reta, contornando o nariz abatatado, deslizando até perder velocidade,
empoçando-se verticalmente na profunda cova no canto da boca, quando outros filetes despontam por
entre seus finos cabelos. Tenente Miranda, com os olhos abertos e contemplativos, avança morto
sobre meus braços, com um cutelo cravado em sua cabeça.
“Os policiais sempre pedem pra usar o banheiro. Sempre usam o banheiro e tomam café na
cozinha. É um padrão”, esbraveja Pablo. “Blábláblá … o nosso pede pra usar a biblioteca, a porra
de um crítico de literatura.”
Edgar faz descansar o corpo de Lozonni no chão e olha para o recém-fabricado corpo do tenente
Miranda. Gina sai do cubículo e depara-se com Horácio, de semblante confuso, parado na porta da
biblioteca. Ele agacha-se ao sentir-se nauseado e, sobre algumas revistas velhas e páginas
desprendidas de livros, lê-se: “… mas em ouriços pontiagudas comas sobre o dorso se eriçam”. Não
há significado para aquelas letras, mas elas trazem um novo enxame de mariposas que revoam sobre
sua cabeça e, ao ver sua bílis amarga e segredada pelo fígado, percebe que acaba de deixar um rastro
que certamente o comprometeria. “E só os tubarões merecem ouriços venenosos”, pensa.
“Odeio matar policiais, eles sempre deixam rastros”, diz Edgar Wilson, olhando para o homem
amontoado no chão, decrépito. “São como ratos, os desgraçados”, remói Pablo. “Andam e deixam
uma trilha de bostas.”
Quando recobro o fôlego pergunto se vamos deixá-lo ali, daquela maneira, um vexame de horror
sem medida. “É claro que não vamos deixar ele assim, desse jeito”, diz Edgar. “A gente se aperta um
pouco no carro e dá pra levar a cabeça e as mãos.”
E sinto como se faíscas douradas saltassem de minhas orelhas, como se quisessem induzir meu
espírito à rebelião.
Ao invés disso, na sala ao lado, sob o faro ansioso do chiuaua, que abre trilhas salientes no chão,
desperto por causa do pó branco entranhado em seu sistema nervoso, esperamos calados que Edgar
Wilson remova a cabeça e as mãos do tenente, com o emporcalhado cutelo que lhe dificulta a
remoção.
Ouvimos o primeiro golpe. Gina tapa os ouvidos e balbucia alguma canção. Sentada no chão,
balança o corpo para frente e para trás, de olhos estremecidos e mente distante; e consegue atingir
uma estrada plana, deserta e com dia ensolarado. Uma estrada perfeita para desaparecer no horizonte
e lá permanece até Edgar terminar sua tarefa.
Pablo vasculha a casa em busca de mais sacos plásticos. Horácio, esse torna-se oco de repente,
não há nada lá, continua a respirar mas sua mente de alguma forma apagou. Talvez eu consiga escutar
solos de violino saindo de seus ouvidos. É o que parece haver dentro de sua cabeça, estranhos solos
de violino e nada mais.
Eu corro até o aparelho de som e ligo em uma rádio, giro as estações, procurando por alguma
coisa boa, e nada pode ser bom quando se tem um vexame de horror sem medida a poucas passadas
de distância. O que haveria de ser bom, eu não sei, mas entre a chiadeira, cá ouvimos o gracejo de
uma doce música francesa da qual nunca soube o nome, mas tanta doçura trouxe ainda mais horror.
Edgar Wilson pena entre golpes severos com o desajeitado cutelo cego; e assim como
Raskolinikov, também já não confia mais em suas forças, esgotado, chegando ao fim de um dia tão
exaustivo, mas que ainda havia de se concluir.
Capítulo 19

Sou o primeiro a atravessar o portão, carregando nas costas minha mochila, que, graças ao último
desabamento ocorrido poucos instantes antes de sairmos, me permitiu recuperar minhas coisas. A rua
está deserta e caminho até o carro de Edgar Wilson estacionado a poucos metros dali e deixo-o
parado em frente à casa, com o motor ligado. Entro novamente e, com um movimento de cabeça
positivo, os outros saem em fila. Pablo Sasaki, controlando nos braços o agitado cachorro, abre o
porta-malas do carro. Horácio e Edgar Wilson colocam o corpo do velho lá dentro, inteiro,
acompanhado da cabeça e mãos do tenente Miranda, agora ensacadas.
Pablo bate a porta do porta-malas, que é impedida de ser fechada devido ao excesso de conteúdo.
“É a cabeça dele”, diz Pablo, fazendo força. “É muito grande. Não cabe aqui.” E Edgar verifica o
interior do porta-malas e com alguns golpes consegue acomodar as partes do tenente ao som de um
estalo.
Pablo odeia em Edgar aquela maneira de resolver facilmente e de forma muito prática qualquer
situação. Entre resmungos, fecha o porta-malas com força, fazendo o carro balançar.
Nós cinco entramos no carro de maneira mecânica e silenciosa. Ao dobrar a esquina, Horácio
dispara a falar. “Eu ainda não entendo por que tenho que ir com vocês.” E Pablo responde que é a
tradição. “Eu não participo de tradições. Não pertenço a guetos. Não sou religioso. Que tradição?”,
pergunta Horácio. “Quem fabrica o cadáver abre a cova”, diz Pablo. “Eu não fabriquei cadáver
nenhum”, retruca. “E o velho aí atrás? Quem correu afobado, hein?”, digo, querendo acabar logo com
aquele assunto. Mas é Edgar que acaba com a discussão, afirmando que Horácio irá até o necrotério
com ele e Gina, para convencê-lo dessa história sobre Amadeu, acidente e coincidência trágica.
Sem dizer uma palavra desde que entrou no carro, Gina é observada por Edgar através do espelho
retrovisor. Mergulhada numa consternação, olhos marejados, queimados e doloridos, aperta com
força o isqueiro dentro da palma da mão direita. Não ouve nada do que é dito, sente o vento salgado
que atravessa a janela do carro, que resseca sua pele. “Ele está mesmo lá, não é?”, murmura Gina. E
Horácio concorda com um aceno de cabeça, olhos arriados, sentindo culpa e vergonha.
A viagem segue sem maiores problemas e o silêncio instaurado é rompido pelo som crepitante
das lareiras suíças e dos trancos no sofrido carro, feitos por alguns quebra-molas e depressões na
pista. É uma noite de céu estrelado e há lá em cima mais estrelas reveladas que o normal. Consigo
perceber um emaranhado delas, com a cabeça recostada no vidro do carro. Um emaranhado de novos
pontos de luzes e eles indicam outras mortes; outras estrelas, outras mortes anunciadas.
Consigo perceber os olhos de Edgar pelo retrovisor, e lá está a banquisa de gelo querendo
derreter no calor da noite, um olhar desolado e infinito que corre de uma ponta a outra pelos
retrovisores laterais, desvendando novas suspeitas. “É o segundo carro que ultrapassa e fica me
encarando”, comenta, aguçando seus sentidos, incomodado. “Tem alguma coisa … ouviu essas
batidas?” “São essas lareiras crepitantes”, responde Pablo.

Ele abaixa o volume e, avançando cada vez mais em direção ao horizonte da estrada, sente a
crescente inquietação percorrer seu corpo. Até que começo a sentir também uma nova vibração e
digo que deve ter alguma coisa frouxa. Mas é aí que vem a pergunta que traz um silencioso desespero
coletivo: “Pablo, você fechou o porta-malas?” “Claro que sim, Edgar. Está tudo certo, homem. Pára
com isso.” “Você não fechou o porta-malas. Eu tenho certeza disso.” “E eu tenho certeza de que você
está enlouquecendo. Eu fechei a porra do porta-malas quando você enfiou aquele cabeção bem lá no
fundo da mala.” “Onde tá o cachorro?”, pergunta Edgar ao lançar um olhar duvidoso para Pablo.
“Droga, esqueci no porta-malas. Pára aqui!” “Nada disso. Deixe ele lá atrás, não quero aquele bicho
aqui amolando. Ele está perturbado.”
Sons abafados de latidos e rosnados podem ser ouvidos vez ou outra. Um carro colado à nossa
traseira pisca o farol, sinaliza com as mãos.
O carro, uma caminhonete vermelha com a caçamba coberta por uma lona, avança até encontrar-
se emparelhado e sinaliza insistentemente para pararmos.
Horácio sente seus intestinos afrouxarem, um relaxamento repentino, que não consegue deter. O
couro cabeludo eletrificado arrepia os cabelos. Características de pavor que ainda não havia
experimentado totalmente.
Edgar pára, mesmo contra a vontade manifesta de nós quatro. À frente, o carro que o segue
também pára. Pelo retrovisor, os olhos arregalados de todos nós indicam a crescente gravidade. O
cachorro não se permite um só segundo de sossego. Está agitado e suas cabeçadas ecoam dentro do
carro. “Arranca com esse carro”, diz Horácio.
Um casal de idosos desce da caminhonete. Ela, corpulenta, caminha remando os braços grossos,
os flancos excessivamente carnudos, difícil manter o equilíbrio do corpo. Ele aproxima-se com
destreza, sustentando um largo sorriso altruísta. No carro, permanecemos todos grudados no banco.
“Edgar, eu juro que fechei a maldita porra do porta-malas, eu fechei”, insiste Pablo.

O rosto enrugado do senhor enquadra-se na janela de Edgar Wilson, acompanhado do largo


sorriso. “Ei, filho, acho que você está com problemas aí atrás. Eu e minha senhora ficamos
preocupados, porque poderia causar um acidente, e como guarda rodoviário aposentado, já vi
pequenas coisas causarem grandes tragédias. Não queremos isso, não é, moço?”
“Muito obrigado pela preocupação, mas está tudo sob controle”, diz Pablo, inclinado sobre
Edgar, na direção do velho. “Você não entendeu”, insiste o homem. “Nós vimos, minha senhora e eu,
quando alguma coisa caiu do porta-malas e saiu rolando pelo asfalto.”

Luzes vermelhas e azuis brilham sobre minha cabeça. Luzes giratórias, crescentes. Dois segundos
e todo o carro é tomado por essas duas cores que indicam decisões rápidas. A viatura aproxima-se e
pára próximo ao carro. “O que está acontecendo?” É o que pergunta o policial sentado no banco do
carona. Exatamente o que precisávamos, não poderia ser melhor.
“Este rapaz está com problemas”, grita o velho. “Alguma coisa caiu do porta-malas e saiu
rolando pelo asfalto.”
O policial, carregando um fuzil, desce da viatura, enquanto o outro permanece sentado atrás do
volante com o motor ligado. Ele aproxima-se, suspende as calças e pendura a arma sobre o ombro
direito. “O que vocês estão carregando aí?”, pergunta. “É melhor descer todo mundo.”
Aquele velho está mesmo satisfeito e não é que eles adoram criar situações para remoer no
túmulo? O velho está bastante agitado e a satisfação estampada no rosto da velha é de causar inveja.
Nunca consegui uma expressão de tamanha satisfação.
Enquanto Edgar mostra seus documentos com bastante frieza, o tempo todo pensa nas duas
pistolas, uma no porta-luvas e outra sob seu banco. Pablo tem uma chance de fechar o porta-malas
num único e discreto tranco ao dar a volta por trás do carro, e torce para ter conseguido. “Pra onde
vocês estão indo?”, o policial pergunta, ajeitando a arma sobre o ombro. “Estamos indo pra
rodoviária”, responde Edgar, e que desejo de deslizar a mão até embaixo de seu banco e terminar
com aquilo.
“Quem vai viajar?” “Meu irmão ali”, diz Edgar, apontando para mim.
“Por que tomaram a orla?”, diz o policial. Definitivamente é a noite deles, essa. “É que eu queria
ver o mar”, eu digo. “Vou pro interior e não sei quando volto.”
O homem de uniforme e fuzil nos ombros nos olha com bastante atenção, fazendo um tipo de
esforço mental para calcular quanto poderia arrancar de nós cinco. “Sabe o que me intriga?”, começa
o policial já terminando de contabilizar sua extorsão. “Pra vocês irem pela rodoviária terão que
atravessar o túnel, e ele já está fechado a essa hora.”
Não respondemos e ele caminha para a traseira do carro, não antes de pedir a Edgar que abra a
mala. “Sem problemas”, diz Edgar. “Mas só tem umas coisas minhas”, eu digo, rápido. “São umas
encomendas da minha mãe, essas coisas, o senhor sabe.”
“Não, não sei”, diz o homem. “Só vou saber se der uma olhada.” E no que depender de Edgar ele
terá uma bela olhada, ou melhor, uma bela vista. Ele não se importa em lhe mostrar o que carrega na
mala, de forma alguma, mas sabe que já está com problemas demais para uma noite, em uma única
noite.
Edgar certifica-se discretamente, que o porta-malas está fechado, sob o atento olhar de nós
quatro, sim, de fato estamos ali paralisados. A mesma sensação que acompanhei em dezenas de
filmes sobre vampiros. Pela primeira vez vejo na minha frente Van Helsing abrindo o caixão do
conde Drácula.
Edgar enfia a chave na fechadura e força um pouco para ambos os lados. Não tem como escapar e
novamente faíscas douradas saem das minhas orelhas e dissipam-se quando Edgar suspende a chave,
ou melhor, um toco de chave porque a outra parte ficou presa na fechadura. “Veja só isso”, comenta
Edgar. “Você não mandou arrumar isso, não é mesmo?”, conclui, olhando para Pablo. O policial
segura a chave e verifica o toco preso dentro da fechadura.
Eu preciso reagir de alguma forma, dar mais realismo à situação. “Como você espera que eu
apanhe minhas coisas agora, hein, cara? Ou achamos um chaveiro imediatamente ou você me leva até
o interior porque eu não viajo sem as minhas coisas.”
Do rádio da viatura, uma voz metálica desvia a atenção do policial, enquanto o outro em breves
palavras desliga o aparelho e sinaliza, agitado, para que entre na viatura. Ele entrega as chaves para
Edgar e lança-se para dentro do carro e os dois arrancam com a sirene ligada, mas nos alertam que
não podemos estacionar ali, que toda a área está sob vigilância. Vigiar e punir, esse é o trabalho que
eles pensam que fazem. Numa cidade como essa, seus crimes são sempre superados assim que você
os comete. A grama do vizinho é mais verde e seus pecados mais escandalosos.
Com exceção de Edgar Wilson, que se despede do nobre casal de senhores, saímos a procura do
que caiu na estrada. “A única coisa que pode sair rolando é aquele cabeção”, resmunga Pablo Sasaki
e é ele quem o acha, ainda mais inchado e esfoliado. Eu não quis ver aquilo. Gina entrou no carro
quando Pablo gritou: “Achei.” Nós já esperávamos pela cabeça e um novo vexame de horror
desmedido se manifestava.
Acompanho Gina e também decido esperar pelos outros lá dentro. Edgar apanha um pé de cabra
sob seu assento e abre o porta-malas num só golpe. Deixa-o aberto, esperando por Pablo, que corre
enfurecido, vindo de longe: arremessa a cabeça exatamente de onde nunca deveria ter saído. Edgar
chama sua atenção e ele olha lá para dentro, para encontrar lambuzado, chafurdando numa gosma
sangrenta, o frenético chiuaua de olhos esbugalhados, dentro de uma grande cavidade exposta. Ele
mastiga, com lágrimas nos olhos, a enrugada carne italiana com sete décadas de existência, enquanto
o devora em pequenas dentadas no que parece um ritual ou um fardo por demais pesado, que levará
anos para se concluir. “Você tinha razão, Edgar, malditos cães”, diz Pablo, que, soluçando, apanha o
animal e afaga-o nos braços.
Retornamos para dentro do carro e após levar as mãos sob o volante e remexer em alguns fios,
Edgar arranca nos fazendo grudar no banco até que minha pergunta, segundos depois, nos desgrudará,
lançando nossos corpos para a frente por causa da brusca freada. Olho para o lado e percebo que
Gina também possui um certo temperamento frio, um tanto desmedido como o de Edgar, e me surge
uma dúvida que, antes de argüir, me faz olhar para trás até me certificar em levantar aquele
questionamento: “Alguém sabe do Horácio?”

***

A camisa encharcada de suor, passadas ágeis, a cabeça serelepe girando em todas as direções, os
olhos temerosos e o volumoso pacote sob a camisa, preso às calças, assume movimentos
independentes na definida cintura de Horácio.
E foi no tempo em que permaneceu sentado na cozinha, sem ser percebido, mascando cravos-da-
índia, que Horácio despertou para a possibilidade diante de suas mãos: abriu o forno e desensacou o
dinheiro, escondendo, apressado, alguns maços dentro da calça.
Pensou em Amadeu antes de se levantar e abrir aquele forno, no entanto, era uma oportunidade
única e o resto definitivamente não era problema seu, mas seria se deixasse escapar aquela chance.

Luzes vermelhas e azuis são refletidas nos prédios ao redor, sem que se ouça o som de sirenes.
Espreita-se nos cantos das portas das lojas, disputando espaço com os moradores de uma calçada.
As luzes desaparecem. Corre o máximo que suas pernas suportam, tropeçando nos entulhos, bueiros.
As luzes vermelhas e azuis despontam à distância, ele corre, cruza duas esquinas e uma piscada
rápida e um breve grito de sirene o fazem parar. Os dois policiais o colocam contra uma parede e
retiram os 27.000,00 presos à sua cintura.
Em uma noite que prometia apenas investidas frustradas e estilhaços de fuzis, um envelope com
27.000,00. O policial mais alto ficou intrigado com as manchas de sangue em sua camisa. “Que se
danem as manchas de sangue, isso são 27.000,00”, arremata o outro.

Horácio recusa-se a responder as muitas perguntas e piadas investidas contra ele. Vinte e sete
mil! Não havia tido chance de contar o quanto pegou, mas são 27.000,00 e 27 é sua idade.
Consternado, não havendo outra maneira de encarar a situação, engole ásperos soluços, sentado no
banco traseiro da viatura. Garantem sua segurança e seu silêncio, prometendo-o uma visitinha para
um café, caso ele decida desabafar o ocorrido em alguma delegacia. O policial mais baixo, mais
roliço e com menos cabelo, calcula com dedos agitados o tanto de dinheiro, enquanto divertidamente
conta uma piada para Horácio. “Deixa o cara em paz”, diz o policial ao volante. “Estou tentando
contar uma piada, todo mundo gosta de piadas.” Ele calcula rapidamente e diz: “Vai dar 13.500,00
pra cada.” Vira-se para Horácio e pergunta se ele conhece aquela do cameraman e a pompoarista.
“Você sabe o que essas mulheres fazem?”
“Nada disso, tá errado”, interrompe o policial ao volante. “Vinte e sete dividido por dois são
13.500,00, como nada disso?” “Você me deve 2000,00”, diz, batendo com as mãos no volante.
“Aqueles 2000,00 eu vou te pagar quando …”
“Não é piada”, fala Horácio, despertando. “Definitivamente, essa história não é uma piada.”
“Então tá. Me conta uma piada legítima”, diz ao olhá-lo bastante sério. “Por que a galinha atravessou
a rua?”, pergunta Horácio.
“Aqueles 2000,00, agora são estes 2000,00. Eu quero 15.500,00”, diz o policial que está
dirigindo. Ele olha através do retrovisor para Horácio. “Essa é muito fácil, tente outra.” “Você tá
louco”, diz o policial mais baixo. “Eu combinei de te pagar no próximo mês”, e vira-se para
Horácio, dizendo: “E foda-se a galinha, isso não é piada, é a história da sua mãe.”
O policial pára a viatura em frente ao prédio de Horácio, que aguarda a porta ser destravada.
“Você tem o dinheiro agora, então eu quero receber essa porcaria agora.” “Não me aponte esse dedo
de galinha velha. Eu vou te pagar no mês que vem como combinamos.”
O policial mais alto possui os dedos finos e enrugados. Característica genética que sugere ser sua
mãe uma galinha. Enlouquece ao ouvir piadas sobre suas mãos. Segura o volante com a mão esquerda
e saca uma arma com a direita, posta em seguida no ouvido do policial mais baixo.
“Ou você me dá 15.500,00, ou eu fico com os 27.000,00.” “O que você tá fazendo?” “O que vou
fazer, você quer dizer. E eu te garanto que será um buraco bastante roliço, exatamente como você.”
Horácio agita-se, forçando a maçaneta em reação ao iminente acontecimento. “Guarda, a porta,
por favor. Será que dá pra …”, diz. E eles continuam a discutir e se esquecem dele por alguns
instantes. “Você é um desgraçado, sabia? Na primeira chance, hein?” “Eu só quero os meus 2000,00
agora. Acertamos isso agora mesmo.”
O policial que agora tem a arma apontada para o seu ouvido busca cuidadosamente a pistola
presa na altura das costelas. “Não volto atrás”, esbraveja. “Eu disse no mês que vem e não cedo à
pressão de cagão com dedo de galinha velha.”
Horácio está acostumando-se a situações limites. Duplo disparo, um estoura o ouvido do policial
e Horácio tapa os seus, encolhendo-se no banco. Um zunido alarmante permanece ricocheteando
dentro da viatura, como um clamor injustiçado que não quer dissipar. Segundos de silêncio. O
policial ao volante procura, atordoado, o rumo do segundo disparo, apalpando o próprio corpo, o
teto do carro acima de sua cabeça, até que sente tocarem em seu ombro. “Eu sinto muito”, diz
Horácio.
O policial, estarrecido, olha para o parceiro morto e para Horácio de modo complacente,
enquanto chacoalha a arma na mão devido à tremedeira que não consegue conter. “Pra chegar do
outro lado da rua”, murmura o policial. “Perdão?” “A galinha só queria chegar do outro lado, não é
essa a piada?” “Claro, e aproveite o dinheiro, ele te fará um homem feliz”, diz Horácio.
Ele debruça-se à frente, sobre o banco, e destrava a porta. O policial, atônito, apenas coça a
cabeça com a ponta da arma. Horácio sai da viatura e sente os pés no chão, firma-se sobre as pernas,
olha para o alto e depara-se com a janela do sótão cercada por algumas aves agitadas que não se
cansam de bater suas asas de um lado para o outro.
Olha-a durante três segundos, que lhe são eternos, acompanhado do vento suave provocado pelas
asas de um pombo que está a rodeá-lo, espreitando-o de olhos encarnados. Cai morto sobre o asfalto,
com o ferimento provocado pelo segundo disparo, que encontrou abrigo em suas entranhas, agora
também expostas. E entendeu no terceiro segundo que o tiro não o matara e sim aquela janela aberta.
Uma janela para a eternidade.
Capítulo 20

Havíamos tido um dia cujo sol foi da cor do desespero e a lua, a lua está embaçada e um tanto
desgastada, e não tem outra opção senão refletir sua luz. Outra vez temos mais desespero sobre
nossas cabeças. Ainda bem que não precisamos matar a lua ou o sol todos os dias, mas se tivéssemos
resplandeceríamos sua cor.
Seguimos calados, chacoalhando dentro do carro, esgotados e embaçados como a lua, que se
esforça para desaparecer. Certamente, se eu vivesse nas alturas desapareceria quando as coisas
atingissem essa tonalidade, mas seguimos adiante até pararmos em frente ao hospital em que Horácio
afirmou estar o corpo de Amadeu. Edgar Wilson tenta dissuadir Gina de procurá-lo, devido à
movimentação daquela madrugada na entrada principal pelo fato de Hugo Valentino ter saído do
coma, o que soubemos pelo rádio a caminho do hospital.
Teimosa, atravessa a rua correndo, seguida por Edgar, que a puxa para um beco nos fundos do
hospital, onde há outra entrada. Ela dá alguns solavancos contidos por ele, decidido a impedi-la.
“Você quer acreditar que ele está aí dentro. Espere mais alguns dias, agora é muito arriscado”,
diz Edgar. “Eu tenho esperado como se fosse toda a minha vida”, fala Gina.
Esbaforido e cansado, após cruzar a rua correndo, me apóio numa parede, com os braços abertos
e as palmas das mãos viradas para cima e digo pouco paciente: “Gente, e aí? Edgar, você disse que
era rápido. Vamos embora.”

***

A claridade da tela do computador reflete nos óculos de aro espesso da enfermeira acomodada
sobre uma cadeira em que sua gordura pode esparramar-se largamente. Ela faz alguns apontamentos,
com intenção de serem confirmados em seguida, sem demonstrar pressa.
“Sim senhora, um homem moreno, magro, sem documentos … isso, atropelado … hã, sem uma
orelha? Não sei, hã … acho que tinha duas, mas eu posso perguntar.”
Uma porta abre-se atrás de mim e um rapaz ordena que o acompanhe. Perfuro o corredor envolto
em uma luz trepidante, tapando o nariz para não vomitar com o cheiro de produtos químicos
espalhados pelo ar. Entramos numa sala, um tipo de arquivo gigante com várias gavetas prateadas. O
homem, segurando uma prancheta, puxa uma das gavetas e abre o zíper do saco preto.
“A orelha está aqui, separadamente”, diz, suspendendo um saquinho transparente retirado de
dentro do saco preto.
Eu seguro pequenas golfadas vindas de minhas entranhas e um pequeno vulcão é contido de
maneira elegante. Não havia comido nada por horas e agradeço-me por isso. A orelha vem
separadamente, como em uma caixa de cereais com um brinde para colecionar. Absorto, passeando
por todos os tipos de coleção que havia feito até o momento com brindes que acompanham caixas de
cereais, penso no ridículo a que se podem chegar os seres humanos. Esses homens lidam com
defuntos e cereais de forma muito semelhante.
Agradeço e digo que tomarei as providências necessárias para que ele tenha um enterro decente;
mas o que haveria de ser decente para alguém que chegou nessas condições? Senti-me envergonhado
e sequer olhei para Amadeu ensacado. Ensacado como meu gato Agripino, morto atropelado.
Ensacado como um tipo de vergonha segredada, como tantos ensacados todos os dias.

“É ele mesmo. Um pouco diferente, mas é ele”, eu digo. “Eu quero vê-lo”, fala Gina. “Se você
amava mesmo esse homem, não faça isso”, afirmo. “Gina, você precisa desaparecer, entendeu?”
“Desaparecer”, diz Edgar, que apanha do bolso da jaqueta preta dois maços de dinheiro, afirmando
serem dela e que devem ser o bastante. “O bastante pra quê?”, pergunta. À sua frente, ele suspende o
olhar para além de seus ombros. Não saberia se justificar, nem tudo tem justificativa, e pra quê fazer
papel de tolo em busca delas? Seus olhos marejam suavemente e respira fundo ao recobrar a
resistência quase inviolável.

Gina recua a passos lentos, indecisa. Já não há o que fazer. De que valeria todo o esforço de
Amadeu, se agora ela se rendesse? Os passos ganham agilidade e vão dar num táxi, que desaparece,
virando à esquerda para logo chegar à rodoviária. Uma passagem com destino ao oeste, com saída
em pouco mais de uma hora.
O oeste lhe faz bem. Quando o dinheiro acaba, o que não demora, pois aquele dinheiro está
fadado a ser consumido em pouco tempo, vai trabalhar em bares como garçonete durante o dia e lutar
nos fundos durante a noite. E assim vai de cidade em cidade. Sem conseguir um outro título sequer.

***

Naquela noite, levamos o corpo de Lozonni e as partes desmembradas do tenente Miranda até um
chiqueiro, para os lados do subúrbio, mantido por Edgar Wilson, que, dentre outros investimentos,
diz que os porcos lhe dão lucro considerável. Em pouco tempo os famintos suínos se encarregam de
eliminar qualquer vestígio de existência do corpo e das partes do tenente. Dentre alguns de seus
princípios, quando os homens não dão conta, os porcos se encarregam, é o seu predileto.
Devido à criação religiosa, gosta de manter vivos em seu trabalho ensinamentos bíblicos. Quando
Cristo teve problemas com certo homem endemoniado, foram os porcos que carregaram sobre si suas
aflições, seus demônios e depois lançaram-se corajosamente de um precipício pondo fim àquele
caso, trazendo ao santo homem solução. Resultados eficientes.

Observando a ação dos porcos, Pablo sente sua mente vacilar; seria também devorado e o som
dos ossos sendo triturados reverberam nos ligamentos, atravessando seus próprios ossos até a
medula. Está decidido a ir embora; se não quiser ser devorado por porcos também, é o que deve
fazer imediatamente. Edgar Wilson preza a amizade e lealdade de Pablo por todos esses anos, e isso
é o que há de melhor nele; se você mergulhar bem fundo no lago escuro que é seu espírito, vai
encontrar coisas incríveis.
Sempre silencioso, vai até o carro, apanha alguns maços do dinheiro e toca no ombro direito de
Pablo. Entrega-lhe o dinheiro e diz apenas ter sido bom trabalhar com ele e que sentirá sua falta.
Pablo ameaça abraçá-lo, mas ele recua. Não se permite invadir, isso nunca; e quebrar o mito e a
frieza que conserva com tanto sofrimento? Apenas vira-se e volta para o carro, seguido por mim; e
deixamos Pablo ali, que afirma querer contemplar aqueles animais, porque talvez nunca mais veja
algo tão fascinante quanto porcos se alimentando.
***

Até que daqui do meu quarto posso ver flocos brancos voarem pelo ar e corro até a janela e a
neve finalmente chegou. Chegou há tempos, mas só agora percebo ela ali, porque estava mergulhado
demais nessas lembranças. Calço minhas galochas pela primeira vez e ao abrir a porta sinto o
imediato resfriamento, tão potente quanto o que havia na videolocadora, nunca sentira um frio tão
intenso e natural como esse. Suspendo a gola do casaco ao máximo, cobrindo parte das orelhas e
praticamente tudo se faz branco. Inicio uma caminhada para o mais distante que consigo. Os flocos
brancos sobre minha cabeça são como um enxame de mariposas albinas, azucrinando os
pensamentos, e a espessura da neve sobre o solo ainda não me permite afundar os pés, mas já se
formam pegadas brancas e não vejo ninguém nas imediações. É o extremo do mundo. Uma cidade
desolada habitada por ecos dos poucos que até aqui chegaram.
Desde que Edgar e eu chegamos até a cabana não vimos ninguém. Ele precisava dessas férias no
fim do mundo e eu também, mas há horas em que os ruídos histéricos que só uma cidade pode ter
acabam fazendo falta; deve ser o caos da expansão do nosso microcosmo, esse tipo de necessidade
meramente humana.
Há uma pequena colina diante de mim e quando atinjo seu topo grito por Edgar Wilson, porque
ele quer ver como vou me comportar diante da neve, mas saiu faz um dia e ainda não retornou. Sob
meus pés, a delicadeza do gelo me faz lembrar clara de ovo batida até chegar àquela consistência
peculiar e agora meus pés já podem afundar suavemente, porque a nevasca aumentou desde o
percurso até o topo da colina. Adoro observar minhas pegadas porque nunca deixei um rastro tão
bem demarcado. Do alto, eu escorrego algumas vezes e são tombos incríveis.
Cansado de escorregar, percebo que se não retornar logo, não enxergarei mais nada e
permanecerei vagando nessa brancura até meus ossos estalarem, pois o vento a espalha com
violência. Grito novamente por ele e meus gritos ricocheteiam na imensa cordilheira dos Andes, que
continua a desabar furiosa no oceano. Até que posso vê-lo caminhando sozinho e aceno, sorrindo,
para que me veja. Não demora para me alcançar e vejo que seus rastros são demarcados com sangue,
gelo — e sangue é o que deixa quando passa.
Pergunto o que houve e ele passa por mim, sem ao menos ver minha expressão diante da neve. Vai
sentar-se dentro da cabana com os sapatos ensangüentados, emudecido, e ali ficará por uma semana
até as férias acabarem. Predadores não tiram férias, resvalam na consciência de um possível ajuste,
mas nunca deixam de acossar.
E todos os dias subo no topo da colina: quero registrar dentro dos meus pulmões aquele
resfriamento para os prováveis próximos dias quentes do sudeste. É mesmo fascinante a nevasca que
toma conta rapidamente de tudo, subentendendo qualquer vestígio de horizonte. Adiante não há mais
horizonte e quando olho para trás minhas pegadas bem demarcadas estão sempre desaparecendo e
isso faz o mundo parecer ruir em silêncio.
Certamente uma coisa dessas faz qualquer um sentir-se desolado e infinito, sem destino,
significado, nem centro.
Este livro foi composto em Electra LH corpo 11 e impresso pela gráfica Geográfica
Editora sobre papel Pólen Soft 80 g/m2, com tiragem de 1000 exemplares, em março de
2007.