Você está na página 1de 29

Albert Camus - Os justos

PERSONAGENS:

DORA DULEBOV
A GRAN DUQUESA
IVAN KALIAYEV
STEPAN FEDOROV
BORIS ANNENKOV
ALEXIS VOINOV
SKURATOV
FOKA
O CARCEREIRO

Estreada no Théâtre Hébertot de París, em 15 de dezembro de 1949


Albert Camus - Os justos

PRIMEIRO ATO
No apartamento dos terroristas. Pela manhã.
Abre o pano. Em silêncio. DORA e ANNENKOV em cena, imóveis. Se ouve uma vez a
campainha. ANNENKOV faz um gesto para deter DORA que parece querer dizer algo.
A campainha soa duas vezes seguidas.

ANNENKOV: É ele.
(Sai. DORA aguarda, sem mover-se. ANNENKOV volta com STEPAN, a quem agarra
pelos ombros.)
ANNENKOV: É ele! Aqui está Stepan.
DORA (se aproxima de STEPAN e lhe estende a mão): Que alegria, Stepan!
STEPAN: Olá, Dora.
DORA (lhe olha): Três anos já.
STEPAN: Sim, três anos. O dia que me detiveram, ia me reunir com vocês.
DORA: Te esperavamos. Passava o tempo e cada vez me encolhia mais o coração. Não
nos atrevíamos nem a olhar-nos.
ANNENKOV: Tivemos que mudar de apartamento outra vez.
STEPAN: Eu sei.
DORA: E lá, Stepan?
STEPAN: Lá?
DORA: Na cadeia?
STEPAN: As pessoas fogem.
ANNENKOV: Sim. Nos alegramos em inteirar-nos de que poderias chegar a Suíça.
STEPAN: Suíça é outra cadeia, Boria.
ANNENKOV: O que disse? Lá são livres, ao menos.
STEPAN: A liberdade será uma cadeia enquanto ainda houver um só homem
escravizado em terra. Eu era livre e não deixava de pensar na Rússia e seus escravos.
(Silêncio.)
ANNENKOV: Me alegra muito, Stepan, de que o partido tenha te mandado aqui.
STEPAN: Era necessário. Me sufocava. Atuar, atuar por fim... (Olha ANNENKOV.) O
mataremos, verdade?
ANNENKOV: Seguramente.
STEPAN: Mataremos esse maldito. Você é o chefe, Boria, e te obedecerei.
ANNENKOV: Não preciso da tua promessa, Stepan. Somos todos irmãos.
STEPAN: Falta disciplina. Compreendi isso na cadeia. O partido socialista
revolucionário necessita disciplina. Disciplinados mataremos o gran duque e
destruiremos a tirania.
DORA (aproximando-se dele): Sente-se, Stepan, deve estar cansado depois dessa longa
viagem.
STEPAN: Eu nunca me canso.
(Silêncio. DORA se senta.)
STEPAN: Esta tudo pronto, Boria?
ANNENKOV (mudando de tom): A um mês, dois dos nossos estudam os movimentos
do gran duque. Dora reuniu o material necessário.
STEPAN: Está redigida a proclamação?
ANNENKOV: Sim. Toda Rússia saberá que o gran duque Sergio foi executado com
uma bomba pelo grupo de combate do partido socialista revolucionário para acelerar a
liberação do povo russo. A corte imperial saberá também que estamos decididos a
exercer o terror até que a terra seja restituída ao povo. Sim, Stepan, tudo está preparado!
Se aproxima o momento.
STEPAN: O que eu devo fazer?
ANNENKOV: Para iniciar, ajudará a Dora. Schweitzer, a quem você substituirá,
trabalhava com ela.
STEPAN: Morreu?
ANNENKOV: Sim.
STEPAN: Como?
DORA: Um acidente.
(STEPAN olha para DORA. DORA desvia o olhar.)
STEPAN: E depois?
ANNENKOV: Depois, veremos. Deves estar disposto a substituir-nos, pegando o caso,
e a manter o enlace com o Comitê Central.
STEPAN: Quem são nossos camaradas?
ANNENKOV: Conheceste Voinov na Suíça. Confie nele, a pesar de sua juventude. Não
conheces a Yanek.
STEPAN: Yanek?
ANNENKOV: Kaliayev. O chamamos também o Poeta.
STEPAN: Não é um nome para um terrorista.
ANNENKOV (rindo): Yanek pensa o contrario. Diz que a poesia é revolucionaria.
STEPAN: Só a bomba é revolucionaria. (Silêncio.) Dora, crês que saberei te ajudar?
DORA: Sim. A única coisa que vai ter que cuidar é de que não se rompa o tubo.
STEPAN: E sê se romper?
DORA: Assim morreu Schweitzer. (Uma pausa.) Por quê está sorrindo, Stepan?
STEPAN: Sorrindo?
DORA: Sim.
STEPAN: Me acontece as vezes. (Uma pausa. STEPAN parece reflexivo.) Dora,
bastaria uma só bomba para fazer voar esta casa?
DORA: Uma só não. Mas faria estragos.
STEPAN: Quantas seriam necessárias para fazer voar Moscou?
ANNENKOV: Esta louco! Que quer dizer?
STEPAN: Nada.
(A campainha chama uma vez. Todos escutam e aguardam. Chamam duas vezes.
ANNENKOV passa para a ante sala e volta com VOINOV.)
VOINOV: Stepan!
STEPAN: Salve.
(Apertam as mãos. VOINOV se aproxima de DORA e a beija.)
ANNENKOV: Tudo ocorreu bem, Alexis?
VOINOV: Sim.
ANNENKOV: Estudaste o percurso desde o palácio até o teatro?
VOINOV: Agora posso desenha-lo. Veja (desenha.) Esquinas, ruas estreitas,
obstáculos..., o carro passará abaixo de nossos narizes.
ANNENKOV: O que significam essas duas cruzes?
VOINOV: Uma pracinha onde os cavalos terão que moderar o passo, e o teatro onde se
deterão. Na minha opinião, são os melhores lugares.
ANNENKOV: Me dê!
STEPAN: E os informantes?
VOINOV (vacilante): Há muitos.
STEPAN: Te impressionam?
VOINOV: Não me sinto tranquilo.
ANNENKOV: Ninguém se sente na frente deles. Não te preocupes.
VOINOV: Não temo nada. Acontece que não me acostumei a mentir.
STEPAN: Todo mundo mente. O que faz falta é mentir bem.
VOINOV: Não é fácil. Quando eu era estudante, meus companheiros se afastaram de
mim por que não sabia dissimular. Dizia o que pensava. Ao final me expulsaram da
Universidade.
STEPAN: Por quê?
VOINOV: No curso de história, o professor me perguntou como Pedro o Grande havia
edificado Petrogrado.
STEPAN: Boa pergunta.
VOINOV: Com sangue e a chicotadas, respondi. Me expulsaram.
STEPAN: E depois...
VOINOV: Compreendi que não bastava denunciar a injustiça. Era mister dar a vida para
combater-la. Agora sou feliz.
STEPAN: E no entanto, mentes?
VOINOV: Minto. Mas não mentirei o dia que jogarei a bomba.
(Chamam. Duas campainhas, depois uma só. DORA se precipita.)
ANNENKOV: É Yanek.
STEPAN: Não é a mesma senha.
ANNENKOV: Yanek se diverte mudando-a. Tem sua senha própria.
(STEPAN se encolhe de ombros. Vai falar com DORA na ante-sala. Entram DORA
e KALIAYEV, de braços dados. KALIAYEV rí.)
DORA: Yanek. Este é Stepan, que substitui Schweitzer.
KALIAYEV: Bem vindo, irmão.
STEPAN: Obrigado.
(DORA e KALIAYEV se sentam em frente aos demais.)
ANNENKOV: Yanek, estás seguro de que reconhecerás a carrogem?
KALIAYEV: Sim, a vi duas vezes muito demoradamente. E quando aparecer a
reconhecerei entre mil! Anotei todos os detalhes. Por exemplo, um dos cristais da liteira
esquerda esta desportilhado.
VOINOV: E os soplones?
KALIAYEV: Aos montes. Mas somos velhos amigos. Sempre me compram cigarros.
(ríem.)
ANNENKOV: Pavel confirmou a informação?
KALIAYEV: O gran duque irá esta semana ao teatro. Em algum momento, Pavel saberá
o dia exato e entregara uma mensajem ao porteiro. (Se volta para DORA e riem.)
Teremos sorte, Dora.
DORA (olhando-o): Já não é um carroceiro? Agora estás feito um senhor. Que bonito
estás.
KALIAYEV (ri): É certo, estava muito orgulhoso dela. (A STEPAN e a ANNENKOV.)
Passei dois meses observando aos carroceiros e mais de um mês ensaiando em meu
quarto. Meus colegas nunca tiveram suspeitas. «Um tipão», diziam. «Seria capaz de
vender até os cavalos do kzar.» E tratavam de me imitar.
DORA: Naturalmente, isso te divertia.
KALIAYEV: Sabes que não posso impedi-los. O disfarce, a nova vida... Tudo me
divertia.
DORA: Não gosto dos disfraces. (Mostra seu vestido.) E além do mais, esta antiguidade
luxuosa! Boria já deveria ter me encontrado outra coisa. Uma atriz! Singela como sou!
KALIAYEV (ri): Estas tão bonita com este vestido.
DORA: Bonita! Adoraria estar. Mas não há porque pensar essas coisas.
KALIAYEV: Por quê? Por que sempre esse olhar tão triste, Dora? Tem que ser alegre.
Tem que ser orgulhosa. A beleza existe, a alegria existe! «En los lugares tranquilos
donde te anhelaba mi corazón...
DORA (sorridente): Yo respiraba un eterno verano...»
KALIAYEV: Oh, Dora, você lembra desses versos. Sorria. Isso me alegra muito.
STEPAN (cortando-o): Estamos perdendo tempo. Boria, suponho que já avisaste o
porteiro, não?
(KALIAYEV lhe olha com assombro.)
ANNENKOV: Sim. Dora, queres descer? Não esqueça a gorjeta. Voinov te ajudara
depois a juntar o material no quarto.
(Saem cada um para um lado. STEPAN vai até ANNENKOV com passo decidido.)
STEPAN: Eu quero jogar a bomba.
ANNENKOV: Não, Stepan. Já estão designados os que vão jogá-la.
STEPAN: Te rogo. Sabes o que isso significa para mim.
ANNENKOV: Não. Regras são regras. (Um silêncio.) Eu não a jogo e vou esperar
aqui. A regra é dura.
STEPAN: Quem lançará a primeira bomba?
KALIAYEV: Eu. Voinov joga a segunda.
STEPAN: Tú?
KALIAYEV: Te entranha? Não tens confiança em mim!
STEPAN: É necessário experiência.
KALIAYEV: Experiência? Sabes muito bem que só se faz uma vez e depois... Ninguém
jogou nunca duas vezes.
STEPAN: É necessário uma mão firme.
KALIAYEV (mostrando sua mão): Olha. Crês que tremerei?
(STEPAN se afasta.)
KALIAYEV: Não tremerei. Vamos! Com o tirano a minha frente vou vacilar? Como
podes crer nisso? E mesmo que me trema o braço, conheço um meio seguro de matar o
gran duque.
ANNENKOV: Qual?
KALIAYEV: Joga-se abaixo das patas dos cavalos.
(STEPAN encolhe de ombros e vai sentar-se ao fundo.)
ANNENKOV: Não, não será necessário. Ele poderá tentar fugir. A organização
necessita de ti, deves se cuidar.
KALIAYEV: Obedecerei, Boria! Que honra, que honra para mim! Oh, serei digno dela.
ANNENKOV: Stepan, tú estarás na rua enquanto Yanek e Alexis esperam a chegada da
carroagem. Passará certo tempo diante de nossa janela e trocaremos uma senha. Dora e
eu esperaremos aqui o momento de lançar a proclamação. Com um pouco de sorte, o
gran duque cairá.
KALIAYEV (com exaltação): Sim, o matarei! Que felicidade se tivermos êxito! Pois o
gran duque não é nada. Terá que golpear mais acima!
ANNENKOV: Primeiro o gran duque.
KALIAYEV: E se fracassarmos, Boria? Devíamos imitar os japoneses.
ANNENKOV: Que queres dizer?
KALIAYEV: Durante a guerra, os japoneses não se rendiam. Se suicidavam.
ANNENKOV: Não. Não pense em suicídio.
KALIAYEV: Em que, então?
ANNENKOV: No terror, de novo.
STEPAN (falando desde o fundo): Para suicidar-se tem que querer muito. Um
verdadeiro revolucionário não pode amar a si mesmo.
KALIAYEV (voltando-se vivamente): Um verdadeiro revolucionário? Por quê me tratas
assim? Que te fiz eu?
STEPAN: Não me agrada os que entram na revolução porque se entedíam.
ANNENKOV: Stepan!
STEPAN (levantando-se e aproximando-se deles): Sim, sou brutal. Mas para mim o
ódio não é um jogo. Não estamos aqui para admirar-nos uns aos outros. Estamos aqui
para triunfar.
KALIAYEV (suavemente): Por quê me ofendes? Quem te falou que eu me entediei?
STEPAN: Não sei. Mudas as senhas, te agrada fazer o papel de carroceiro, dizes versos,
queres arremessar abaixo das patas dos cavalos, e agora, o suicídio (O fita.) Não tenho
confiança em ti.
KALIAYEV (dominando-se): Não me conheces, irmão. Amo a vida. Não me entedio.
Entrei na revolução porque gosto da vida.
STEPAN: Eu não amo a vida e sim a justiça, que esta por cima da vida.
KALIAYEV (Com visível esforço): Cada um serve a justiça como pode. Tem que
aceitar que somos diferentes. Teremos que querer-nos, se pudermos.
STEPAN: Não podemos.
KALIAYEV (estalando): Então, o que esta fazendo conosco?
STEPAN: Vim para matar um homem, não para ama-lo nem para reconhecer sua
diferença.
KALIAYEV (violentamente): Não o matarás sozinho, nem em nome de nada. O
matarás conosco e em nome do povo russo. Essa é tua justificativa.
STEPAN (Com o mesmo tom): Não a necessito. Achei uma justificativa em uma noite, e
para sempre, a três anos, na prisão. E não suportei...
ANNENKOV: Basta! Estão loucos? Lembram-se a quem devemos? Somos irmãos,
todos juntos, dispostos a executar os tiranos para libertar o país! Matamos juntos, e nada
pode nos separar. (Silêncio. Lhes olha.) Vem, Stepan, devemos combinar as senhas...
(STEPAN sai.)
ANNENKOV (a KALIAYEV): Não é nada. Stepan sofreu. Falarei com ele.
KALIAYEV (muito pálido) Assim me ofende, Boria.: (Entra DORA.)
DORA (ao ver a KALIAYEV): O que se passa?
ANNENKOV: Nada.
(Sai.)
DORA (a KALIAYEV): O que houve?
KALIAYEV: Nos chocamos. Não me querem.
(DORA se senta em silêncio. Pausa.)
DORA: Creio que não querem a ninguém. Quando tudo estiver terminado seremos mais
felizes. Não fique triste.
KALIAYEV: Estou triste. Necessito que todos vocês me queiram. Abandonei tudo pela
organização. Como suportar que meus irmãos se separem de mim? As vezes tenho a
impressão de que não me compreendem. É culpa minha? Sou meio lerdo, eu sei...
DORA: Te querem e te compreendem. Stepan é diferente.
KALIAYEV: Não. Sei o que pensa. Já Schweitzer dizia: «Demasiado extraordinário
para ser revolucionário.» Eu queria explicar-lhes que não sou extraordinário. Me tomam
um pouco por louco, demasiado espontâneo. Não obstante, creio como eles na causa.
Como eles, quero sacrificar-me. Eu também posso ser hábil, taciturno, dissimulado,
eficaz. Só que a vida segue parecendo-me maravilhosa. Amo a beleza e a felicidade. Por
isso e porque odeio o despotismo. Como explicar-lhes isto? A revolução, claro! Mas a
revolução pela vida, para dar uma possibilidade a vida, compreendes?
DORA (Com impeto): Sim... (Mais baixo, depois de um silêncio.) E não obstante,
vamos matar.
KALIAYEV: Quem? Nós?... Ah, queres dizer... Não é o mesmo. Oh não, não é o
mesmo. E ademais, matamos para construir um mundo em que ninguém mate nunca
mais! Aceitamos ser criminosos para que a terra se cubra por fim de inocentes.
DORA: E se não ocorrer isso?
KALIAYEV: Não fale assim, bem sabes que é impossível. Então Stepan tería razão. E
haveria que esculpir-lhe a beleza na cara.
DORA: Sou mais antiga que tu na organização. Sei que nada é facil. Mas você tem fé...
Todos necessitamos de fé.
KALIAYEV: Fé? Não. Um só a tem.
DORA: Você tem força de ânimo. E isso te abrirá o caminho até o fim. Por quê queres
jogar a primeira bomba?
KALIAYEV: Pode-se falar da ação terrorista sem praticá-la?
DORA: Não.
KALIAYEV: Tem que estar na primeira fila.
DORA (refletindo): Sim. Existe a primeira fila e o último momento. Devemos pensar
nisso. É dessa coragem, essa exaltação que necessitamos..., que você necessita.
KALIAYEV: A um ano não penso em outra coisa. Tenho vivido até agora por este
momento. E agora sei que quero morrer ai mesmo, ao lado do gran duque. Perder
sangue até a ultima gota, ou arder de uma só vez, na chama da explosão, e não deixar
nada atrás de mim. Compreende por quê pedi para jogar a bomba? Morrer pela causa é a
única maneira de esta a altura da causa. É a justificação.
DORA: Eu também desejo a morte.
KALIAYEV: Sim, é uma felicidade invejável. Pela noite, as vezes me agito em meu
jargão de carroceiro. Um pensamento me atormenta: nos convertemos em assassinos.
Mas penso ao mesmo tempo que vou morrer, e então meu coração se pacifica. Sorrio,
sabe, e durmo como uma criança.
DORA: Esta bem assim, Yanek. Matar e morrer. Mas, em minha opinião, Há uma
felicidade todavia maior. (Pausa. KALIAYEV a olha. Ela baixa os olhos.) O alçapão.
KALIAYEV (febrilmente): Eu pensei nisso. Morrer no atentado deixa algo inconcluso.
Entre o atentado e o alçapão, mudamos, há toda uma eternidade, a única possível talvez
para o homem.
DORA (com voz apreensiva, agarrando-lhe as mãos) Esse pensamento deve te ajudar.
Pagamos mais do que devemos.
KALIAYEV: Que queres dizer?
DORA: Vemos-nos obrigados a matar, correto? Sacrificamos deliberadamente uma
vida, uma só?
KALIAYEV: Sim.
DORA: Mas há o atentado e logo depois o alçapão, é dar duas vezes a vida. Pagamos
mais do que devemos.
KALIAYEV: Sim, é morrer duas vezes. Obrigado, Dora. Ninguém pode nos recriminar.
Agora estou seguro de mim. (Silêncio.) O que você tem, Dora? Não diz nada?
DORA Queria te ajudar um pouco mais. Só que...
KALIAYEV: Só que?
DORA: Não, estou louca.
KALIAYEV: Desconfias de mim?
DORA: Oh, não, querido, desconfio de mim. Desde a morte de Schweitzer as vezes me
ocorrem idéias raras. E além do mais, não corresponde a mim te dizer o que será difícil.
KALIAYEV: Eu gosto do difícil. Se me estimas, fala.
DORA (olhando-o): Eu sei. Es valente. Isso é o que me inquieta. Você ri, se exalta, te
encaminhas ao sacrifício cheio de fervor. Mas dentro de algumas horas terá que sair
deste sonho e atuar. Quem sabe seja melhor falar antes... para evitar uma surpresa, um
desfalecimento...
KALIAYEV: Não terá desfalecimentos. Diz-me o que pensas.
DORA: Bem, pois o atentado, o alçapão, morrer duas vezes, é o mais fácil. Te bastará o
ânimo. Mas a primeira fila... (Se cala, lhe olha e parece vacilar.) Na primeira fila vais a
vê-lo...
KALIAYEV: A quem?
DORA: Ao gran duque.
KALIAYEV: Um segundo apenas.
DORA: Um segundo em que vais vê-lo! Oh, Yanek, tens que saber, tens que estar
prevenido! Um homem é um homem. O gran duque talvez tenha olhos bondosos. O
verá coçar a orelha ou sorrir alegremente. Quem sabe, talvez tenha um pequeno taxo
feito com a navalha de barbear. E se te olha nesse momento...
KALIAYEV: Não é ele a quem vou matar. Mato o despotismo.
DORA: Claro, claro. Há que matar o despotismo. Eu preparei a bomba e ao selar o tubo,
no momento mais difícil, quando os nervos estão tensos, sentirá, sem embargo, uma
entranha felicidade no coração. Mas não conheço o gran duque e minha tarefa seria
menos fácil se, entretanto, o dito estiver sentado diante de mim. Tu vais vê-lo de perto.
Muito perto...
KALIAYEV (Com violência) Não o verei.
DORA: Por quê? Vais cerrar os olhos?
KALIAYEV: Não. Mas, Deus, mediante o ódio, me chegara no momento oportuno e
me cegara.
(chamam. Uma vez. Permanecem imóveis. Entram STEPAN e VOINOV.)
(Vozes na ante sala. Entra ANNENKOV.)
ANNENKOV: É o porteiro. O gran duque irá ao teatro amanhã. (Os olha.) Tudo deve
estar pronto, Dora.
DORA (com voz surda): Sim. (Sai lentamente.)
KALIAYEV (A observa sair e em voz baixa, voltando-se a STEPAN): O matarei. Com
alegria!

CORTINAS
SEGUNDO ATO

No dia seguinte, a noite. No mesmo lugar.


(ANNENKOV Olha pela janela. DORA esta junto a mesa.)
ANNENKOV: Estão em seus postos. Stepan acendeu seu cigarro.
DORA: A que horas deve passar o gran duque?
ANNENKOV: De um momento a outro. Escuta. Não é uma carroça? Não.
DORA: Senta-te. Tem paciência.
ANNENKOV: E as bombas?
DORA: Senta-te. Não podemos fazer nada mais.
ANNENKOV: Sim. Inveja-los.
DORA: Teu posto esta aqui. Es o chefe.
ANNENKOV: Sou o chefe. Mas Yanek vale mais do que eu, e é quem talvez...
DORA: O risco é o mesmo para todos. Para o que lança e para o que não lança.
ANNENKOV: O risco é, ao fim, o mesmo. Mas pelo momento Yanek e Alexis estão na
linha de fogo. Sei que não devo estar com eles. No entanto, as vezes tenho medo de
aceitar com demasiada facilidade meu papel. É cômodo, depois de tudo, ver-se obrigado
a não jogar a bomba.
DORA: E se for assim? O essencial é que faças o que deves, e até o fim.
ANNENKOV: Como esta tranqüila?!
DORA: Não estou tranqüila: tenho medo. A três anos que estou com vocês, dois anos
que fabrico bombas. Tenho executado tudo e creio que não tenha esquecido nada.
ANNENKOV: Creio que sim, Dora.
DORA: Bem, pois faz três anos que tenho medo, esse medo que apenas o abandona no
sonho e que se recupera fresco pela manhã. De modo que tive que me acostumar. Tenho
aprendido a estar tranqüila nos momentos em que tenho mais medo. Não há de que se
orgulhar.
ANNENKOV: Ao contrário, orgulhe-se. Eu não nunca consegui dominar nada. Sabes
que tenho saudades dos tempos de antigamente, a vida brilhante, as mulheres... Sim,
adorava as mulheres, o vinho, aquelas noites intermináveis.
DORA: Eu suspeitava, Boria. Por isso te quero tanto. Teu coração não morreu. E é
preferível que deixe, todavia, o prazer a esse horrível silêncio que se instala as vezes no
mesmo lugar do grito.
ANNENKOV: Que esta dizendo? Não é possível.
DORA: Escuto...
(DORA se ergue bruscamente. Ruído de carruagem, logo silêncio.)
DORA: Não. Não é ele. Me bate o coração. Vê, todavia não aprendi nada.
ANNENKOV (se dirige a janela): Atenção. Stepan fez um sinal. É ele. (Se ouve, Com
efeito, o som de uma carruagem que se aproxima cada vez mais, passa abaixo das
Janelas e começa a afastar-se. Longo silêncio.)
ANNENKOV Dentro de uns segundos... (escutam.)
ANNENKOV: Que longo silêncio...
(DORA faz um movimento. Longo silêncio. Se ouvem campainhas a distância.)
ANNENKOV: Não é possível. Yanek já deveria ter jogado a bomba. O coche deve ter
chegado ao teatro. E Alexis? Olha! Stepan volta sobre seus passos e corre para o teatro.
DORA (abraçando-se a ele): Detiveram Yanek. Prenderam-no, com certeza. Tem que
fazer algo.
ANNENKOV: Espera. (Escuta.) Não. Se acabou.
DORA: Como pode ser? Yanek detido sem fazer nada! Estava disposto a tudo, sei.
Queria a prisão e o processo. Mas depois de haver matado ao gran duque! Não assim.
Não, não assim!
ANNENKOV (olhando para fora): Voinov! Rápido!
(DORA vai abrir. Entra VOINOV, com semblante descomposto.)
ANNENKOV: Alexis, pronto; fala.
VOINOV: Não sei nada. Eu esperava a primeira bomba. Vi que o carro deu a volta e
não passava. Perdi a cabeça. Pensei que no último momento havíamos mudado os
planos, vacilei. E então corri até aqui...
ANNENKOV: E Yanek?
VOINOV: Não o vi.
DORA: O detiveram.
ANNENKOV (que segue olhando para fora): Aí está!
(o mesmo jogo cênico. Entra KALIAYEV com o rosto banhado em lágrimas.)
KALIAYEV (delirante): Irmãos, me perdoem. Não pude.
DORA (se aproxima e lhe pega a mão): Não é nada.
ANNENKOV: Que se passou?
DORA (a KALIAYEV): Não é nada. As vezes, no último momento tudo se derruba.
ANNENKOV: Mas não é possível.
DORA: Deixe-o. Você não foi o único, Yanek. Schweitzer também não pode a primeira
vez.
ANNENKOV: Yanek, você teve medo?
KALIAYEV (sobressaltando-se): Medo, não. Não tens direito a...!
(chamam com a senha diferente. Uma senha de ANNENKOV, VOINOV sai. KALIAYEV
está prostrado. Silêncio. Entra STEPAN.)
ANNENKOV: E?
STEPAN: Iam crianças na carruagem do gran duque.
ANNENKOV: Crianças?
STEPAN: Sim. O sobrinho e a sobrinha do gran duque.
ANNENKOV: O gran duque iria só, segundo Orlov.
STEPAN: Estava também a gran duquesa. Era gente demasiada, suponho, para nosso
poeta. Por fortuna, não viram nada.
(ANNENKOV fala a STEPAN em voz baixa. Todos olham a KALIAYEV, que levanta os
olhos até STEPAN.)
KALIAYEV (irritado): Eu não podia prever... Crianças, crianças sobre tudo. Vocês
olharam as crianças? Esse olhar que tem as vezes... Nunca pude suportar esse olhar...
Um segundo antes, sem problema, na escuridão, no canto da praça, eu me sentia feliz.
Quando as liteiras da carroça começaram a brilhar a distância, meu coração começou a
palpitar de alegria, te juro. Batia cada vez mais forte a medida que aumentava o ruído.
Fazia o mesmo ruído em mim. Me dava vontade de saltar. Creio que estava rindo. E
dizia: «Sim, sim... » Compreendes? (Sai do olhar de STEPAN e recobra sua atitude
abatida.) Corri até o carro. E nesse momento os vi. Eles não riam. Estavam muito
erguidos e olhavam o vazio. Que ar mais triste tinham! Perdidos em seus trajes de gala,
com as mãos sobre as coxas, o busto rígido a cada lado das portas. Não vi a gran
duquesa, só eles. Se me tiverem visto, creio que teria jogado a bomba. Para apagar pelo
menos esse olhar triste. Mas seguiam olhando adiante. (Imita o olhar distante. Silêncio.
Mais baixo.) Então não sei o que se passou. Meu braço se debilitou. Me tremiam as
pernas. Um segundo depois era já demasiado tarde. (Silêncio. Olha para o chão.) Dora,
eu sonhei? Me pareceu que os sinos soaram neste momento.
DORA: Não, Yanek, não sonhaste.
(Apóia a mão no braço de KALIAYEV. Este levanta a cabeça e os vê a todos olhando-o.
Se levanta.)
KALIAYEV: Vejam, irmãos; olhem-me, Boria, não sou um covarde, não voltaria a
atrás. Não os esperava. Tudo ocorreu demasiado rápido. Aquelas com carinhas sérias e
esse peso terrível em minha mão. Tinha que jogar neles. Assim. Direto. Oh, não! Não
pude.
(Busca seu olhar um a um.)
KALIAYEV: Em outro tempo, quando conduzia o carro, em minha casa, na Ucrânia, ia
como o vento, não temia nada. Nada no mundo, salvo atropelar a uma criança. Me
imaginava o choque, a cabeça frágil golpeando o solo... (cala-se.) Ajuda-me (Silêncio.)
Queria me matar. Voltei porque pensei que devia-lhes satisfações, que vocês são meus
únicos juízes, que me diriam se tinha razão ou não, que não podiam equivocar-se. Mas
não dizem nada. (DORA se aproxima até tocá-lo. Ele lhe olha; com voz abatida.)
Proponho isto: Se decidirem que tenho que matar a essas crianças, esperarei na saída do
teatro e jogarei só a bomba na carroça. Sei que não falharei. Não terei mais o que dizer,
eu obedecerei a organização.
STEPAN: A organização te havia ordenado para matar o gran duque.
KALIAYEV: É verdade. Mas não me havia dito para assassinar a crianças.
ANNENKOV: Yanek tem razão. Isso não estava previsto.
STEPAN: Devia obedecer.
ANNENKOV: Eu sou o responsável. Tinha que estar tudo previsto para que ninguém
pudesse ter dúvidas sobre suas tarefas. O único que devemos decidir é se deixamos
escapar definitivamente esta ocasião ou se ordenamos a Yanek que espere na saída do
teatro. Alexis, o que diz?
VOINOV: Não sei. Creio que eu teria feito o mesmo que Yanek. Mas não estou seguro
disso. (Mais baixo.) Me tremem as mãos.
ANNENKOV: Dora?
DORA (com violência): Eu teria retrocedido, como Yanek. Posso aconselhar aos demais
o que eu mesma não podia fazer?
STEPAN: Se deram conta do que significa esta decisão? Dois meses de vigilância, de
terríveis perigos corridos e evitados, dois meses perdidos para sempre. Igor detido por
nada. Rikov abandonado por nada. E há que começar de novo? Outra vez longas
semanas de vigilância e astúcia, de tensão incessante, antes de encontrar outra ocasião
propicia? Estão loucos?
ANNENKOV: Dentro de dois dias, o gran duque voltará ao teatro, você sabe.
STEPAN: Dois dias em que corremos o risco de que nos peguem, tu mesmo o disseste.
KALIAYEV: Vou indo.
DORA: Espera! (A STEPAN.) Tu podias, Stepan, com os olhos abertos, atirar a queima-
roupa sobre uma criança?
STEPAN: Podia, se a organização o ordenasse.
DORA: Por quê fechas os olhos?
STEPAN: Eu? Fechei os olhos?
DORA: Sim.
STEPAN: Então foi para me imaginar melhor a cena e contestar com conhecimento de
causa.
DORA: Abre os olhos e compreende que a organização perderia seu poder e sua
influência se tolerasse, por um só momento, que nossas bombas aniquilassem crianças.
STEPAN: Não tenho bastante coração para essas bobagens. O dia em que nos
decidimos a esquecer as crianças, seremos os donos do mundo e a revolução triunfará.
DORA: Nesse dia a humanidade começará a odiar a revolução.
STEPAN: Que importa, se a amamos o bastante para impor-la à humanidade inteira e
para salvá-la de si mesma e de sua escravidão.
DORA: E se a humanidade inteira rejeita a revolução? E se o povo inteiro, pelos que
lutamos, se negam a que matem seus filhos? Haverá que castiga-lo também?
STEPAN: Se é necessário, sim, até que compreenda. Eu também amo o povo.
DORA: O amor ao povo não tem esse rosto.
STEPAN: Quem disse?
DORA: Eu, Dora.
STEPAN: Es uma mulher e tens uma idéia deturpada de amor.
DORA (com violência): Mas tenho uma idéia justa do que é a vergonha.
STEPAN: Eu também tive vergonha, uma só vez, e por culpa dos demais. Quando me
açoitaram. Porque me açoitaram. Sabes o que é o chicote? Vera estava a meu lado e se
suicidou em sinal de protesto. Eu tenho seguido vivendo. De que deveria ter vergonha,
agora?
ANNENKOV: Stepan, aqui todo mundo te quer e te respeita. Mas quaisquer que sejam
tuas razões, eu não posso deixar-te dizer que tudo está permitido. Cem de nossos irmãos
estão mortos para que se saibam que nem tudo é permitido.
STEPAN: Nada do que possa servir a nossa causa está proibido.
ANNENKOV (com ira): Esta permitido entrar na policia e fazer jogo duplo, como
propunha Evno? Você faria isso?
STEPAN: Sim, se fosse necessário.
ANNENKOV (levantando-se): Stepan, esqueceremos o que acabas de dizer em
consideração ao que tem feito por nós e conosco. Mas lembre-se disto: se trata de saber
se dentro de um instante temos de jogar bombas contra essas duas crianças.
STEPAN: Crianças! É a única palavra que tens na boca. Mas não compreenderam nada?
Porque Yanek não matou a esses dois, milhões de crianças russas seguirão morrendo de
fome durante anos. Já viram morrer de fome uma criança? Eu sim. E a morte por uma
bomba é um prazer comparada com essa. Mas Yanek não os viu. Só viu aos dois
cachorros sábios do gran duque. Não éis homem? Vive só o momento presente? Então
elege a caridade e cura sozinho o mal de cada dia, não elegeste a revolução que quer
curar todos os males, os presentes e os por vir.
DORA: Yanek esta conformado em matar ao gran duque, já que sua morte pode
antecipar o dia em que as crianças russas não morram de fome. Isso não é fácil. Mas a
morte dos sobrinhos do gran duque não impedirá que nenhuma criança morra de fome.
Até na destruição há uma ordem, há limites.
STEPAN (Violentamente): Não há limites. A verdade é que vocês não crêem na
revolução. (Todos se levantan, menos YANEK) Vocês não creem. Se acreditassem
totalmente, completamente nela, sim, estariam seguros de que com nossos sacrifícios e
nossas vitórias chegaremos a construir uma Rússia livre do despotismo, uma terra de
liberdade que acabara por cobrir o mundo inteiro, se não duvidares de que então o
homem, liberado de suas obrigações e de seus prejuízos levantará ao céu o rosto dos
verdadeiros deuses, que pesaria a morte de duas crianças? Admitiria que os assistem
todos os direitos, todos, ouviram? E se esta morte os detém é porque não tens segurança
de estar em vosso caminho. Não creem na revolução. (Silêncio. KALIAYEV se levanta.)
KALIAYEV: Stepan, me envergonho de mim e no entanto não deixarei que sigas.
Aceitei matar para abater o despotismo. Mas detrás do que dizes vejo anunciar-se um
despotismo que, se uma vez instalado, fará de mim um assassino quando trato de ser um
justiceiro.
STEPAN: Que importa que não sejas um justiceiro se se faz justiça por meio de
assassinatos. Tu e eu não somos nada.
KALIAYEV: Somos algo e bem o sabes, já que hoje falas em nome do teu orgulho.
STEPAN: Meu orgulho é coisa minha. Mas o orgulho dos homens sua rebeldia, a
injustiça em que vivem, é coisa de todos nós.
KALIAYEV: Os homens não vivem só de justiça.
STEPAN: Quando lhes roubam o pão, de que podem viver, senão de justiça?
KALIAYEV: De justiça e de inocência.
STEPAN: Inocência? Talvez a conheça. Mas decidi ignora-la e fazê-la ignorar a
milhares de homens para que um dia adquiram um sentido maior.
KALIAYEV: Há que estar muito seguro de que chegará esse dia para negar tudo o que
faz que um homem consente em viver.
STEPAN: Eu estou seguro.
KALIAYEV: Não pode estar. Para saber quem dos dois, tu ou eu, tem razão, será
necessário, talvez, o sacrifício de três gerações, varias guerras, revoluções terríveis.
Quando esta chuva de sangue tiver secado sobre a terra, tu e eu levaremos já muito
tempo confundidos com o povo.
STEPAN: Outros virão então, e os saúdo como a irmãos.
KALIAYEV (gritando): Outros... Sim! Mas eu amo os que vivem hoje na mesma terra
que eu, e é a eles a quem saúdo. Por eles luto e consenso em morrer. E por uma cidade
distante, da que não estou seguro, não irei golpear o rosto de meus irmãos. Não irei
aumentar a injustiça vivente por uma justiça morta. (Mais baixo, mas com firmeza.)
Irmãos, quero falar-lhes francamente e dizer por menos isto que podia dizer o mais
simples de nossos camponeses: matar crianças é contrario a honra. E se alguma vez em
minha vida a revolução chegar a se separar da honra, eu me apartaria dela. Se
decidirem, irei dentro de um instante a saida do teatro. Mas me jogarei embaixo dos
cavalos.
STEPAN: A honra é um luxo reservado aos que tem carruagens.
KALIAYEV: Não. É a última riqueza do pobre. Tu sabes, e também sabes que há uma
honra na revolução. Por ela aceitamos morrer. Essa é a honra que te iça a um dia baixar
o chicote, Stepan, e o que te faz falar hoje.
STEPAN (gritando): Cala-te. Te proíbo de falar disso.
KALIAYEV (arrebatado): Por quê haveria de calar-me? Te deixei dizer que eu não
acreditava na revolução. Isso equivalia a me dizer que sou capaz de matar ao gran duque
por nada, que sou um assassino. Te deixei dizer e não te bati.
ANNENKOV: Yanek!
STEPAN: Não matar bastante, as vezes, é matar por nada.
ANNENKOV: Stepan, aqui ninguém compartilha tua opinião. A decisão esta tomada.
STEPAN: Então me inclino. Mas repetirei que o terror não é para os delicados. Somos
homicidas e elegemos sê-lo.
KALIAYEV (fora de si): Não. Eu elegi morrer para que o crime não triunfe. Elegi ser
inocente.
ANNENKOV: Yanek, Stepan, basta! A organização decidiu que o assassinato dessas
crianças é inútil. Temos que prosseguir a vigilância. Devemos estar dispostos a começar
de novo dentro de dois dias.
STEPAN: E se as crianças seguem com ele?
KALIAYEV: Esperaremos uma nova ocasião.
STEPAN: E se a gran duquesa acompanha o gran duque?
KALIAYEV: Não a perdoarei.
ANNENKOV: Escuta.
(Ruído de um carro. KALIAYEV se dirige irresistivelmente até a janela. Os outros
esperam. O carro se aproxima, passa abaixo das janelas e desaparece.)
VOINOV (olhando a DORA, que se dirige até ele): Temos que voltar ao começo,
Dora...
STEPAN (com desprezo): Sim, Alexis, voltar ao começo... Mas tem que fazer algo pela
honra!

CORTINA

TERCEIRO ATO
No mesmo lugar, na mesma hora, dois dias depois.

STEPAN: O que esta fazendo, Voinov? Já deveria estar aqui.


ANNENKOV: Necessita dormir. E, todavia teremos uma meia hora pela frente.
STEPAN: Posso ir em busca de notícias.
ANNENKOV: Não. Temos que limitar os riscos. (Silêncio.) Yanek, por quê não dizes
nada?
KALIAYEV: Não tenho nada que dizer. Não te preocupes. (chamam.) Aí esta.
(Entra VOINOV)
ANNENKOV: Você dormiu?
VOINOV: Sim, um pouco.
ANNENKOV: Toda a noite?
VOINOV: Não.
ANNENKOV: Era necessário. Há meios.
VOINOV: Eu tentei. Estava até cansado.
ANNENKOV: Te tremem as mãos.
VOINOV: No. (Todos o olham.) Por quê me olham? Um não pode estar cansado?
ANNENKOV: Sim, pode estar cansado. Pensamos em ti.
VOINOV (Com subta violência): Tinha que ter pensado anteontem. Se tivéssemos
lançado a bomba a dois dias, não estaríamos cansados agora.
KALIAYEV: Me perdoe, Alexis. Eu compliquei as coisas.
VOINOV (em voz mais baixa): Quem disse isso? Por quê mais difíceis? Estou cansado,
nada mais.
DORA: Agora tudo irá rapidamente. Dentro de uma hora terá acabado.
VOINOV: Sim, haverá acabado. Dentro de uma hora... (Olha ao seu redor. DORA se
aproxima e lhe passa a mão. Ele abandona sua mão, logo a retira com violência.)
Boria, queria falar contigo.
ANNENKOV: A sós?
VOINOV: A sós.
(Se olham. KALIAYEV, DORA e STEPAN saem.)
ANNENKOV: O que houve? (VOINOV cala.) Diga, por favor...
VOINOV: Me da vergonha, Boria. (Silêncio.) Me da vergonha. Devo te dizer a
verdade.
ANNENKOV: Não queres lançar a bomba?
VOINOV: Não poderei lança-la.
ANNENKOV: Tens medo? Não é mais que isso? Isso não é para envergonhar-se.
VOINOV: Tenho medo e me da vergonha ter medo.
ANNENKOV: Mas anteontem estavas alegre e animado. Quando saíste te brilhavam os
olhos.
VOINOV: Sempre tive medo. Anteontem havia juntado todo meu valor, nada mais.
Quando ouvi rodar a carruagem a distância, me disse: «Vamos! É coisa de um minuto.»
Cerrava os dentes. Tinha todos os músculos tensos. Ia lançar a bomba com tanta
violência como se tivesse que matar o gran duque com o choque. Esperava a primeira
explosão para fazer estalar toda a força acumulada em mim. E então, nada. A carruagem
chegou até mim. Como corria rápido! Me deixou atrás. Compreendi que Yanek não
havia lançado a bomba. Nesse momento me transpassou um frio terrível. E de golpe me
senti débil como uma criança.
ANNENKOV: Não era nada, Alexis. A vida continua.
VOINOV: Faz dois dias que a vida não volta. Tenho mentido a um tempo, não dormi a
noite. Me batia com demasiada força o coração. Ai, Boria, estou desesperado.
ANNENKOV: Não deves estar. Todos nós temos nos sentido igual. Não lançarás a
bomba. Um mês de descanso na Finlândia e voltará conosco.
VOINOV: Não. É outra coisa. Se não lanço a bomba agora, não a lançarei nunca.
ANNENKOV: Como?
VOINOV: Não fui feito para o terrorismo. Agora eu sei. Mas vale que os deixe. Falarei
nos comitês, na propaganda.
ANNENKOV: Os riscos são os mesmos.
VOINOV: Sim, mas se pode atuar fechando os olhos. Não se sabe nada.
ANNENKOV: O que queres dizer?
VOINOV (febrilmente): Não se sabe nada. É fácil assistir a reuniões, discutir a situação
e transmitir depois a ordem a executar. Se arrisca a vida, claro, mas as cegas, sem ver
nada. Ao contrário, estar de pé quando cai a noite sobre a cidade, no meio da multidão
dos que apertão o passo para encontrar a sopa quente, as crianças, o calor de uma
mulher, estar em pé e mudo, com o peso da bomba na mão, e saber que dentro de três
minutos, dentro de dois minutos, dentro de uns segundos te precipitarás ao encontro de
uma carruagem resplandecente, isso é o terror. E agora sei que não pode começar de
novo sem me sentir de sangue frio. Sim, me da vergonha. Apontei demasiado alto.
Tenho que trabalhar em meu posto. Um posto muito pequeno. O único de que sou
digno.
ANNENKOV: Não há posto pequeno. A prisão e a forca estão sempre ao final.
VOINOV: Mas não vemos como se vê o que vamos matar. Tem que as imaginar. Por
sorte, eu não tenho imaginação. (riem nervosamente) Nunca cheguei a crer realmente
na polícia secreta. É raro num terrorista, né? Depois do primeiro pontapé no ventre
crerá. Antes, não.
ANNENKOV: E uma vez no cárcere? No cárcere se sabe e se vê. Já não há ouvido.
VOINOV: No cárcere não há decisão a tomar. Sim, é isso, não tomar mais decisões!
Não ter que dizer: «Vamos, se toca. Tu tens que decidir o segundo em que vais a abalar-
se.» Agora estou seguro de que se me detiverem, não tentarei fugir. Para fugir, todavia,
é necessario tomar a iniciativa. Se não foges, são os demais os que se deitam com a
iniciativa. Eles ficam com todo o trabalho.
ANNENKOV: Trabalham para te enforcar, as vezes.
VOINOV (Com desespero): Às vezes. Mas será menos difícil morrer que levar minha
vida e a de outro na mão e decidir o momento em que precipitarei essas duas vidas nas
chamas. Não, Boria, a única maneira que tenho de me redimir é aceitar o que sou.
(ANNENKOV cala-se.) Até os covardes podem servir a revolução. Basta encontra-lo
em seu posto.
ANNENKOV: Então todos somos covardes. Mas não sempre temos ocasião de
comprovar. Faz o que quiser.
VOINOV: Prefiro marchar em frente. Me parece que não poderiam mirar na cara. Pero
tu me dirás.
ANNENKOV: Eu te direi.
(Se aproxima.)
VOINOV: Diga a Yanek que ele não tem culpa. E que o quero como os quero a todos.
(Silêncio. ANNENKOV lhe beija.)
ANNENKOV: Adeus, irmão. Tudo terminará. A Rússia será feliz.
VOINOV (rogando): Oh, sim. Que seja feliz! Que seja feliz!
(ANNENKOV se dirige a porta.)
ANNENKOV: Venham.
(Entram todos com DORA)
STEPAN: O que há?
ANNENKOV: VOINOV não lançará a bomba. Está decidido. Não seria seguro.
KALIAYEV: Tenho eu a culpa, verdade, Boria?
ANNENKOV: Me disse que é o que quer.
KALIAYEV: Voltaremos a vê-lo?
ANNENKOV: Talvez. Por agora nos deixa.
STEPAN: Por quê?
ANNENKOV: Será mais útil nos Comitês.
STEPAN: Ele quem pediu? Porque tem medo?
ANNENKOV: Não. Eu decidi.
STEPAN: A uma hora do atentado, nos privas de um homem?
ANNENKOV: A uma hora do atentado tive que decidir só. É demasiado tarde para
discutir. Eu ficarei no lugar de VOINOV.
STEPAN: Corresponde a mim por direito.
KALIAYEV (a ANNENKOV): Tu é o chefe. Teu dever é ficar aqui.
ANNENKOV: Um chefe tem as vezes o dever de ser covarde. Mas com a condição de
que ponha a prova sua firmeza, chegado a ocasião. Estou decidido. Stepan, tu me
substituirás o tempo que faz falta. Vem, tens que conhecer as instruções. (Saem.
KALIAYEV se senta. DORA se aproxima e lhe toma uma mão. Mas muda de opinião.)
DORA: Tu não tens culpa.
KALIAYEV: Lhe fiz mal, muito mal. Sabes que me disse outro dia?
DORA: Repetia sem parar que era feliz.
KALIAYEV: Sim, mas me disse que não havia felicidade para fora de nossa
comunidade. «Estamos nós, dizia a organização. E depois não há nada. É uma ordem de
cavalaria.» Que pena, Dora!
DORA: Voltará.
KALIAYEV: Não. Imagino o que eu sentiria em seu lugar. Eu estaria desesperado.
DORA: E agora, não estás?
KALIAYEV (Com tristeza): Agora? Estou com vocês e sou feliz como era ele.
DORA (lentamente): É uma grande felicidade.
KALIAYEV: É uma felicidade muito grande. Não pensas como eu?
DORA: Penso como tu. Então, por quê estás triste? Há dois dias teu rosto estava
resplandecente. Parecía que ias a uma grande festa. Hoje...
KALIAYEV (levantando-se, com grande agitação): Hoje sei o que não sabia. Tens
razão, não é tão facil. Eu acreditava que era fácil matar, que bastava a ideia, e o valor.
Mas não sou tão grande e agora sei que não há felicidade no ódio. Tanto mal, tanto mal,
em mim e nos demais. O crime, a covardia, a injustiça... Oh, tenho, tenho que matá-lo...
Mas chegarei até o fim! Mais longe que o ódio!
DORA: Mais longe que o ódio? Não há nada.
KALIAYEV: Esta o amor.
DORA: O amor? Não, não é isso o que faz falta.
KALIAYEV: Oh, Dora, como podes dizer isso a mim, que conheço teu coração...
DORA: Há sangue demais, violência demais. Os que amam de verdade a justiça não
tem direito ao amor. Estão erguidos como estou eu, com a cabeça alta, com os olhos
fixos. O que pinta o amor nos corações orgulhosos? O amor curva docemente as
cabeças, Yanek. Nós temos a nuca rígida.
KALIAYEV: Mas nós amamos nosso povo.
DORA: O amamos, é certo. O queremos com um vasto amor sem apoio, com um amor
feliz. Vivemos longe deles, fechados em nossas casas, perdidos em nossos pensamentos.
E o povo nos quer? Sabe que o queremos? O povo cala. Que silêncio, que silêncio...!
KALIAYEV: Mas isso é o amor; dá-lo todo, sacrifica-lo todo sem esperança de
reciprocidade.
DORA: Talvez. O amor absoluto, a alegria pura e solitária é o que me queima, sim. Em
certos momentos, sem demora, me pergunto se o amor não é outra coisa, se pode deixar
de ser um monólogo, e se não há resposta as vezes. Eu imagino, sabes? O sol brilha, as
cabeças se curvam docemente, o coração abandona seu orgulho, os braços se abrem. Ai,
Yanek, se alguém pudesse esquecer, mesmo que se fosse por uma hora, a miséria atroz
deste mundo e se deixasse levar. Uma só hora de egoísmo, imaginas?
KALIAYEV: Sim, DORA, isso se chama ternura.
DORA: Você sabe tudo, querido. Isso se chama ternura. Mas a conheces de verdade?
Amas a justiça com ternura? (KALIAYEV cala.) Amas o nosso povo com esse
abandono e essa doçura ou, ao contrario, com a chama da vingança e da rebeldia?
(KALIAYEV segue calado.) Já o vês. (Se aproxima; em tom muito débil.) E a mim? Me
amas com ternura?
(KALIAYEV olha.)
KALIAYEV (depois de um silêncio): Ninguém te quererá nunca como eu te quero.
DORA: Eu sei. Mas não é preferível querer como todo mundo?
KALIAYEV: Não sou qualquer um. Te quero como sou.
DORA: Me queres mais que a justiça, mais que a organização?
KALIAYEV: Não te separo da organização e da justiça.
DORA: Sim, mas me responda; te rogo, responda. Me queres na solidão, com ternura,
com egoísmo? Me quererias se fosse injusta?
KALIAYEV: Se fosses injusta e pudesse querer-te, não te quereria a ti.
DORA: Não questione. Diz-me isto somente: me quererias se eu não estivesse na
organização?
KALIAYEV: Onde estarias, então?
DORA: Recordo o tempo em que estudava. Ría. Era charmosa. Passava as horas
passeando e sonhando. Me quererias ligeira e despreocupada?
KALIAYEV (vacila; em voz muito baixa): Morro de vontade de e dizer que sim.
DORA (lançando um grito): Então diz que sim, querido, se pensas e se é certo. Sim,
frente a justiça, diante da miséria e do povo condenado. Sim, sim, te rogo, apesar da
agonia das crianças, apesar dos enforcados e dos açoitados até a morte...
KALIAYEV: Cala-te, DORA.
DORA: Não, que uma vez, pelo menos, fale o coração. Espero que me chames, a mim,
a DORA, que me chames por cima deste mundo envenenado de injustiça...
KALIAYEV (brutalmente): Cala-te. Meu coração só me fala de ti. Mas, dentro de um
instante, não deve tremer.
DORA (irritada): Dentro de um instante? Sim, me esquecia... (ri como se chorava.) Não,
está muito bem, querido. Não te aborreças, não fui razoável. É o cansaço. Eu tãopouco
poderia dizer-lhe. Te quero com o mesmo amor um pouco fixo, na justiça e nas prisões.
O verão, Yanek, lembra? Mas não, é o eterno inverno. Não somos deste mundo, somos
justos. Há um calor que não é para nós. (separando-se.) Ai, piedade para os justos!
KALIAYEV (olhando-a com desespero): Sim, essa é nossa parte, o amor é impossível.
Mas matarei o gran duque, e haverá então uma paz tanto para ti como para mim.
DORA: Paz! Quando a encontraremos?
KALIAYEV (com violência): Ao dia seguinte.
(Entran ANNENKOV Y STEPAN. DORA e KALIAYEV Se afastam um do outro.)
ANNENKOV: Yanek!
KALIAYEV: Um momento. (Respira profundamente.) Por fim, por fim...
STEPAN (aproximando-se): Adeus, irmãos, estou contigo.
KALIAYEV: Adeus, Stepan. (se volta para DORA.) Adeus, DORA.
(DORA se aproxima. Estão muito próximos um do outro, mas não se tocam.)
DORA: Não, adeus não. Até a vista. Até a vista, querido. Nos encontraremos.
(Ela o olha. Silêncio.)
KALIAYEV: Até a vista. Eu... Rússia será maravilhosa.
DORA (com lágrimas): Rússia será maravilhosa.
(KALIAYEV se persigna delante del icono.)
(Sai com ANNENKOV. STEPAN se dirige a janela. DORA não se move; segue olhando
a porta.)
STEPAN: Que caminhar erguido. Me equivoquei, sabes? Em não confiar em Yanek.
Não me agradava seu entusiasmo. Se persignó, viste? É crente?
DORA: Não pratica.
STEPAN: Sem duvida, tem uma alma religiosa. Isso é o que nos separava. Eu sou mais
áspero que ele, bem sei. Para nós que não cremos em Deus, temos toda a justiça ou o
desespero.
DORA: Para ele, a justiça é mesmo desesperada.
STEPAN: Sim, uma alma débil. Mas a mão é forte. O vale mais que sua alma. O
matará, é certo. Isso está bem, está muito bem. Destruir: isso é o que faz falta. Mas não
disseste nada? (A observa.) Você gosta dele?
DORA: Falta tempo para gostar. Apenas temos tempo bastante para a justiça.
STEPAN: Tens razão. Há muito que fazer. É necessário destruir este mundo de cima a
baixo... Depois... (Na janela.) Já não os vejo, terão chegado.
DORA: Depois...
STEPAN: Nos amaremos.
DORA: Se seguimos com vida.
STEPAN: Outros se amarão. Dá no mesmo.
DORA: Stepan, diz: «o ódio».
STEPAN: Como?
DORA: Essas duas palavras, «o ódio», pronunciaste.
STEPAN: O ódio.
DORA: Esta bem. Yanek as pronunciou muito mal.
STEPAN (depois de um silêncio e caminhando até ela): Compreendo: me desprezas.
Mas esta segura de que tens razão? (Um silêncio; com violência crescente.) Estão todos
aí lembrada o que fizeste em nome do nobre amor. Mas eu não amo ninguém e odeio,
sim, odeio meus semelhantes! O que me importa seu amor? O conheci no cárcere, faz
três anos. E faz três anos que o levo encima. Queres que me compadeça e que arraste a
bomba como uma cruz? Não! Não! Foste demasiado longe, sei das coisas... Veja... (abre
a camisa. DORA faz um movimento até ele. Recua diante das marcas dos chicotes.)
São as marcas! As marcas de seu amor! Me desprezas agora?
(ela se aproxima e lhe beija bruscamente.)
DORA: Quem poderia desprezar a dor? Te quero também.
STEPAN (a olha surdamente): Me perdoe, Dora. (Uma pausa. Se separam.) Talvez seja
a fadiga. Anos de luta, a angústia, os delatores, o presidio... e para terminar isto.
(mostra as marcas.) Onde irei encontrar forças para amar? Pelo pouco que me resta para
odiar. É preferível isso a não sentir nada.
DORA: Sim, é preferível.
(Ele a olha. Soa as sete.)
STEPAN (voltando-se bruscamente): Vai passar o gran duque.
DORA (se dirige a janela e pega os cristais. Longo silêncio. E depois, a distancia, a
carruagem. Se aproxima, passa.): Se estiver só...
(A carruagem se afasta. Uma terrível explosão. Sobre salto de DORA, que esconde a
cabeça nas mãos. Longo silêncio.)
STEPAN: Boria não lançou a bomba! Yanek triunfou. Triunfou! Oh povo! Oh alegría!
DORA (caindo em lágrimas sobre ele): Nós o matamos! Nós o matamos! Fui eu.
STEPAN (gritando): A quem matamos? A Yanek?
DORA: Ao gran duque.

CORTINA

ACTO CUARTO
Uma cela na torre Pugatchev, na prisão Butirki. Pela manhã.
Ao abrir as cortinas, KALIAYEV esta na cela e olha a porta. Um GUARDA e um
PRISIONEIRO, que traz um cubo, entram.
GUARDA: Limpa. E rápido.
(Se coloca junto a janela. FOKA começa a limpar sem olhar KALIAYEV. Silêncio.)
KALIAYEV: Como te chamas, irmão?
FOKA: Foka.
KALIAYEV: Esta condenado?
FOKA: Assim parece.
KALIAYEV: O que fizeste?
FOKA: Matei.
KALIAYEV: Tinhas fome...
GUARDA: Não tão alto.
KALIAYEV: Como?
GUARDA: Não tão alto. Os deixo falar a pesar da consigna. Assim, não falem tão alto.
Imite o velho.
KALIAYEV: Tinhas fome?
FOKA: Não, tinha sede.
KALIAYEV: E então?
FOKA: Então, havia um machado. O desidratei todo. Parece que matei a três.
(KALIAYEV o olha.) Bem, barão, já não me chamas de irmão? Estas doente?
KALIAYEV: Não. Eu também matei.
FOKA: A quantos?
KALIAYEV: Te contarei, irmão, se quiseres. Mas me responde; te arrependestes do que
passou, verdade?
FOKA: Claro, vinte anos são caros. Te fazem arrepender-se.
KALIAYEV: Vinte anos. Entro aqui aos vinte e três e saio com os cabelos brancos.
FOKA: Oh! Talvez seja melhor. Os juízes tem altos e baixos. Depende se estão
cansados e com quem. E ademais você é barão. Não é a mesma tarifa para os pobres
diabos. Muda-se o passo.
KALIAYEV: Não creio. E não quero. Não poderia suportar a vergonha durante vinte
anos.
FOKA: A vergonha? Que vergonha? A fim, são idéias de barão. A quantos matastes?
KALIAYEV: Um só.
FOKA: O que disse? Isso não é nada.
KALIAYEV: Matei o gran duque Sergio.
FOKA: O gran duque? Eh, boa feita. Há que ver estes barão! É grave, verdade?
KALIAYEV: É grave. Mas era necessário.
FOKA: Por quê? Vivas na corte? Uma historia de mulheres, não? Bonito como é...
KALIAYEV: Sou socialista.
GUARDA: Não tão alto.
KALIAYEV (mais alto): Sou socialista revolucionário,
FOKA: Valha! E que necessidade tinhas tu de ser o que diz? Não tinhas mais que
aquietar-se tranquilo e tudo te teria ido bem. A terra foi feita para os barões.
KALIAYEV: Não, foi feita para ti. Há demasiada miséria e demasiados crimes. Quando
houver menos miséria, haverá menos crimes. Se a terra fosse livre, tu não estarias aqui.
FOKA: Sim e não. Em fim, livre ou não, nunca é bom beber demais.
KALIAYEV: Nunca é bom. Só que se bebe porque se está humilhado. Chegará um dia
em que já não será útil beber, em que nada sinta vergonha: nem o barão, nem o pobre
diabo. Todos seremos irmãos e a justiça fará transparentes nossos corações. Sabes de
que te falo?
FOKA: Sim, do reino de Deus.
GUARDA: Não tão alto.
KALIAYEV: Não há que dizer isso, irmão. Deus não pode nada. A justiça é coisa
nossa! (Um silêncio.) Não compreendes? Conheces a lenda de São Demetrio?
FOKA: Não.
KALIAYEV: Tinha encontro na estepe com o mesmo Deus, e lá ia com pressa quando
encontrou um camponês com o carro atolado. Então São Demetrio o ajudou. O barro era
espesso, o atoleiro profundo. Teve que lutar durante uma hora. E ao terminar, São
Demetrio correu para o encontro, mas Deus já não estava.
FOKA: E então?
KALIAYEV: E então estão os que sempre chegaram tarde ao encontro porque há
demasiadas carretas atoladas e demasiados irmãos que socorrer.
(FOKA retrocede.)
KALIAYEV: O que houve?
GUARDA: Não tão alto. E tu, velho, apressa-te.
FOKA: Não acredito. Tudo isto não é normal. A ninguém lhe ocorre de meter-se na
cadeia por histórias de santos e de carretas. E, além do mais, tem outra coisa...
(O GUARDA ri.)
KALIAYEV (Olhando-o): O que?
FOKA: O que fazem com os que matam aos grandes duques?
KALIAYEV: Os enforcam.
FOKA: Ah!
(E se vai, aproximando do GUARDA rindo cada vez mais forte.)
KALIAYEV: Acalme-se. O que te fiz?
FOKA: Não me fizeste nada. Por mais barín que sejas, não quero te enganar. Uma
conversa assim passa o tempo, mas se te vão enforcar, não esta bem.
KALIAYEV: Por quê?
GUARDA (rindo): Vamos, velho, diga a ele...
FOKA: Porque não podes falar-me como a um irmão. Eu sou o que enforca os
condenados.
KALIAYEV: Não eis tu também um preso?
FOKA: Precisamente por isso. Me propuseram fazer este trabalho, e por cada enforcado
me tiram um ano de prisão. É um bom negócio.
KALIAYEV: Para te perdoarem teus crimes, te fazem cometer outros?
FOKA: Oh, não são crimes, porque há uma ordem. E, além do mais, isso se da igual. Se
queres saber minha opinião, não são cristãos.
KALIAYEV: E quantas vezes, já?
FOKA: Duas vezes.
(KALIAYEV retrocede. Os outros se dirigem a porta; GUARDA empurra FOKA.)
KALIAYEV: ¿Así que eres un verdugo?
FOKA (na porta): Bem, barín, e tu?
(Sai. Se ouvem passos, ordens. Entra SKURATOV, muito elegante, com o GUARDA.)
SKURATOV: Deixe-nos. Bom dia. Não me conhece? Eu sim lhe conheço. (ri.) Já
célebre, heim? (O olha.) Posso apresentar-me? (KALIAYEV não diz nada) Não diz
nada? Compreendo. A incomunicacão, heim? Deve ser muito duro estar oito dias
incomunicado. Hoje temos suprimido a falta de comunicação e terá visitas. Estou aqui
para isso, além do mais. Já lhe mandei Foka. Excepcional, não é verdade? Pensei que
lhe interessaria. Esta contente? É bom ver caras depois de oito dias. Não?
KALIAYEV: Tudo depende da cara.
SKURATOV: Bela voz, bem timbrada. Você sabe o que quer (Uma pausa.) Se
compreendi bem, minha cara não 1he agrada, verdade?
KALIAYEV: Sim.
SKURATOV: Que pena! Mas é um mal entendido. O que passa é que isto está muito
mal iluminado. Em um sótão ninguém é simpático. Além do mais, você não me
conhece. As vezes, uma cara fechada não nos agrada. Mas logo, quando se conhece a
fundo a...
KALIAYEV: Basta. Quem é você?
SKURATOV: Skuratov, diretor do departamento de Polícia.
KALIAYEV: Um lacaio.
SKURATOV: Para servir a você. Mas em seu lugar eu me mostraria menos orgulhoso.
Talvez chegue a suceder-lhe o mesmo. Se começa por querer a justiça e acaba
organizando uma polícia. Além do mais, a verdade não me assusta. Vou ser franco com
você. Você me interessa e lhe ofereço os meios de obter a graça.
KALIAYEV: Que graça?
SKURATOV: Como, que graça? Te ofereço salvar sua vida.
KALIAYEV: Quem pediu isso?
SKURATOV: A vida não se pede, querido amigo. Se recebe. Nunca concedeu você
graça a ninguém? (Pausa.) Pense bem.
KALIAYEV: Rejeito sua graça de uma vez por todas.
SKURATOV: Me escute, ao menos. Não sou seu inimigo, a pesar das aparências.
Admito que possa ter razão no que pensa. Salvo no que se refere ao assassinato...
KALIAYEV: Lhe proíbo de usar essa palavra.
SKURATOV (olhando-o): Ah! Nervos delicados, heim? (Pausa.) Sinceramente, queria
te ajudar.
KALIAYEV: Me ajudar? Estou disposto a pagar o necessário. Mas não suportarei essa
familiaridade comigo. Deixe-me.
SKURATOV: A acusação que pesa sobre você...
KALIAYEV: Retifico.
SKURATOV: Como disse?
KALIAYEV: Retifico. Sou um prisioneiro de guerra, não um acusado.
SKURATOV: Como queira. No entanto, você causou estragos, verdade? Deixemos de
lado o gran duque e a política. Pelo menos, houve a morte de um homem. E que morte!
KALIAYEV: Lancei a bomba contra a tirania de vocês, não contra um homem.
SKURATOV: Sem duvida. Mas foi o homem quem a recebeu. E isso não lhe ficou nada
bem. Sabe, querido amigo, que quando encontrarão o corpo faltava a cabeça? A cabeça,
desaparecida! E quanto ao resto, apenas se pode reconhecer um braço e uma parte da
perna.
KALIAYEV: Eu executei uma sentença.
SKURATOV: Talvez, talvez. Ninguém está lhe recriminando. O que é uma sentença? É
uma palavra que pode se discutir noites inteiras. O que se recrimina... não, a você não
lhe agradaria essa palavra.... é, digamos, um trabalho fanático, um pouco desordenado,
cujas conseqüências, isso sim, são indiscutíveis. Todo mundo pode vê-las. Pergunte a
gran duquesa. Havia sangue, compreende? Muito sangue.
KALIAYEV: Cale-se.
SKURATOV: Bem. Eu queria dizer simplesmente que se você se obstina em falar da
sentença, em manter que foi o partido e só ele quem julgou e executou, que o gran
duque foi morto não por uma bomba, e sim por uma idéia, então você não necessita a
graça. Suponha, no entanto, que voltamos a evidência, suponha que foi você o que fez
saltar a cabeça do gran duque; então, tudo muda, verdade? Nesse caso você necessitará
a graça. Quero ajudar. Por pura simpatía, acredite. (sorrindo.) O que quer você, a mim
não me interessam as idéias, me interessam as pessoas.
KALIAYEV (estourado): Minha pessoa está acima de você e de seus chefes. Você pode
me matar, não me julgar. Sei onde quer chegar. Busca um ponto fraco e espera de mim
uma atitude envergonhada, lágrimas e arrependimento. Não conseguirá nada. O que eu
sou não lhe concerne. O que lhe concerne é nosso ódio, o meu e o de meus irmãos. Está
a seu serviço.
SKURATOV: O ódio? Outra idéia. O que não é uma idéia é o crime. E suas
conseqüências, naturalmente. Quero dizer, o arrependimento e o castigo. Aí estamos na
realidade. Por isso sou da polícia. Para estar no centro das coisas. Mas a você não lhe
agradam as confidencias. (Uma pausa, se aproxima lentamente dele.) Tudo o que
queria dizer-lhe é isto: não deveria fingir que há esquecido a cabeça do gran duque. Si a
tiver em conta, a idéia já não lhe servirá de nada. Se sentiria envergonhado, por
exemplo, no lugar de orgulhar-se do que fez. E a partir do momento em que sente
vergonha, desejará viver para reparar. O mais importante é que se decida a viver.
KALIAYEV: E se me decidir?
SKURATOV: Obteria a graça para si e seus camaradas.
KALIAYEV: Os prendeu?
SKURATOV: Não. Precisamente. Mas se decidir viver, os deteremos.
KALIAYEV: Compreendi bem?
SKURATOV: Com segurança. Não se irrite outra vez. Reflita. Do ponto de vista da
causa você não pode entrega-los. Do ponto de vista da evidência, pelo contrario, os faz
um favor. Lhes evitará novos problemas e, ao mesmo tempo, os liberará da forca. Mas,
sobre tudo, obterá a paz de coração. De muitos pontos de vista, é um negócio vantajoso.
(KALIAYEV se cala.) Então?
KALIAYEV: Meus irmãos não tardarão em lhe dar resposta.
SKURATOV: Outro crime! Decididamente, é uma vocação. Bem, minha missão
terminou. Meu coração está triste. Mas vejo que você se agarra a suas idéias. Não posso
separa-lo delas.
KALIAYEV: Você não pode me separar de meus irmãos.
SKURATOV: Até a vista. (Vai saindo e volta.) Por quê, neste caso, poupou a vida da
gran duquesa e a seus sobrinhos?
KALIAYEV: Quem lhe disse?
SKURATOV: O informante de você nos informava também. Em parte, ao menos... Mas
por quê lhes poupou a vida?
KALIAYEV: Isso não lhe interessa.
SKURATOV (rindo): Percebe? Vou lhe dizer por que. Uma idéia pode matar a um gran
duque, mas dificilmente chega a matar crianças. Isso é o que voce descobriu. Então se
planta uma questão: se a idéia não chega a matar crianças, merece que se mate a um
gran duque? (KALIAYEV faz um gesto.) Oh, não me responda, não me responda! Dirá
você a gran duquesa.
KALIAYEV: A gran duquesa?
SKURATOV: Sim, quer ver-lo. E eu vim, sobre tudo, para assegurar-me que esta
conversa era possível. E é. Até pode fazer vpcê mudar de opinião. A gran duquesa é
cristã. A alma, sabe, é sua especialidade.
(ri.)
KALIAYEV: Não quero vê-la.
SKURATOV: Sinto, ela insiste. E depois de tudo, você lhe deve algumas
considerações. Além do mais dizem que desde a morte de seu marido não está em seu
juízo. Não queremos contrariá-la. (na porta.) Se mudar de opinião, não esqueça minha
proposta. Voltarei. (Uma pausa. Escuta.) Aqui está. Depois da polícia, a religião!
Decididamente, lhe mimamos. Mas tudo se relaciona. Imagine Deus semn as prisões.
Que solidão! (Sai. Se ouvem vozes e ordens.)
(Entra A GRAN DUQUESA, que permanece imóvel e silenciosa. A puerta esta aberta.)
KALIAYEV: O que quer?
A GRAN DUQUESA (descubrindo o rosto): Veja. (KALIAYEV cala.) Muitas coisas
morrem com um homem.
KALIAYEV: Eu sei.
A GRAN DUQUESA (com naturalidade, mas com uma voz gastada): Os assassinos
não sabem. Se soubessem, como poderiam matar?
(Silêncio.)
KALIAYEV: Já lhe vi. Agora desejo estar só.
A GRAN DUQUESA: Não. Necessito lhe ver também. (KALIAYEV retrocede. A GRAN
DUQUESA se senta, como cansada.) Já não posso estar só. Antes, se eu sofria, ele
podia ver meu sofrimento. Sofrer era algo bom então. Agora... Não, já não posso estar
só, calar-me... Mas com quem falar? Os outros não sabem. Fingem estar tristes. O estão,
uma hora ou duas. Depois vão comer, e dormir... Dormir, sobre tudo... Pensei que
devias estar como eu. Tu não dormes, estou certa. E com quem falar do crime, senão
com o criminoso?
KALIAYEV: Que crime? Só recordo um ato de justiça.
A GRAN DUQUESA: A mesma voz! A mesma voz que ele. Todos os homens adotam
o mesmo tom para falar de justiça. Ele dizia: «Isso é justo!», e ninguém deveria falar.
Talvez se equivocava, talvez tu te equivocaste...
KALIAYEV: O encarnava a suprema injustiça, a que faz geminar o povo russo desde os
séculos. Por ele, só recebia privilegios. Ainda que me equivoquei, a prisão e a morte são
meu pagamento.
A GRAN DUQUESA: Sim, tu sofres. Mas mataste a ele.
KALIAYEV: Morreu surpreendido. Uma morte assim não é nada.
A GRAN DUQUESA: Nada? (Mais baixo.) É certo. Te trouxeram em seguida. Parece
que pronunciavas discursos em meio dos policiais. Compreendo. Isso te ajudaria. Mas
eu cheguei uns segundos depois. Vi. Pus em uma maca tudo o que pude encontrar.
Quanto sangue! (Uma pausa.) Eu levava um vestido branco...
KALIAYEV: Cale-se.
A GRAN DUQUESA: Por quê? Digo a verdade. Sabes que fazia ele duas horas antes de
morrer? Dormia. Em uma poltrona, com os pés sobre uma cadeira... como sempre.
Dormia, e tu o esperavas, na noite cruel... (chora.) Ajúda-me agora. (Ele retrocede,
rigido.) Es jovem. Não podes ser mal.
KALIAYEV: Não tive tempo de ser jovem.
A GRAN DUQUESA: Por quê te pões tão rígido? Nunca tiveste compaixão de si
mesmo?
KALIAYEV: Não.
A GRAN DUQUESA: Fazes mal. Isso alivia. Eu já não tenho compaixão se não de mim
mesma. (Uma pausa.) Sofro. Deveria ter me matado com ele, em vez de poupar-me a
vida.
KALIAYEV: Não poupei a sua e sim a das crianças que iam consigo.
A GRAN DUQUESA: Eu sei... Eu não os queria muito. (Uma pausa.) São os sobrinhos
do gran duque. Não eram culpados como seu tio?
KALIAYEV: Não.
A GRAN DUQUESA: Os conhece? Minha sobrinha tem mal coração. Se nega a dar ela
mesma esmola aos pobres. Tem medo de tocar-los. Não é ela injusta? É injusta. Ela,
pelo menos, queria aos camponeses. Bebia com eles. E tu o mataste. Certamente, tu
também é injusto. A terra esta deserta.
KALIAYEV: Tudo isto é inútil. Você tenta deixar-me sem forças e desesperar-me. Não
o conseguirá. Deixe-me.
A GRAN DUQUESA: Não queres rezar comigo, arrepender-se?... Assim não estaremos
sós.
KALIAYEV: Deixe me preparar para morrer. Se não morrer, então sim serei um
assassino.
A GRAN DUQUESA (se ergue): Morrer? Queres morrer? Não. (Se aproxima de
KALIAYEV com grande agitação.) Deves viver e convencer-te de que es um assassino.
Não o mataste? Deus te justificará.
KALIAYEV: Que Deus, o meu ou o seu?
A GRAN DUQUESA: O da Santa Igreja.
KALIAYEV: A Santa Igreja não tem nada haver com isto.
A GRAN DUQUESA: Ela serve a um senhor que também conheceu a prisão.
KALIAYEV: Os tempos mudaram. E a Santa Igreja escolheu entre a herança de seu
senhor.
A GRAN DUQUESA: Que escolheste? Que queres dizer?
KALIAYEV: Se aquietou com a graça e jogou em nossas mãos o exercício da caridade.
A GRAN DUQUESA: A nós? A quem?
KALIAYEV (gritando): A todos os que vocês enforcam.
(Silêncio.)
A GRAN DUQUESA (com doçura): Eu não sou sua inimiga.
KALIAYEV (com desespero): É, como todos os de sua raça e de seu clã. Há algo mais
abjeto que ser um criminoso: forçar ao crime quem não nasceu para ele. Olhe. Lhe juro
que eu não fui feito para matar.
A GRAN DUQUESA: Não me fale como se fora sua inimiga. veja. (fecha a porta.)
Confio em você. (chora.) O sangue nos separa. Mas você pode alcançar-me em Deus,
no lugar da infelicidade. Polo menos, reze comigo.
KALIAYEV: Me nego. (Se aproxima dela.) Só sinto por você compaixão e acaba de
comover minha alma. Agora me compreenderá, porque não lhe ocultarei nada. Já não
espero o encontro com Deus. Mas ao morrer serei pontual no encontro que tenho com
os que amo, com meus irmãos que pensam em mim neste momento. Rezar sería traí-los.
A GRAN DUQUESA: O que quer dizer?
KALIAYEV (com exaltação): Nada, senão que vou ser feliz. Tenho que sustentar uma
larga luta e a sustentarei. Mas quando se pronunciar o veredicto e a execução estiver
pronta, ao pé do alçapão me separarei de você e deste mundo horrível e desejarei levar o
amor que preencho. Compreende?
A GRAN DUQUESA: Não há amor longe de Deus.
KALIAYEV: Sim. O amor pela criatura.
A GRAN DUQUESA: A criatura é abjeta. Que outra coisa cabe fazer senão destruí-la
ou perdoá-la?
KALIAYEV: Morrer com ela.
A GRAN DUQUESA: Morremos só. Ele morreu só.
KALIAYEV (com desespero): Morrer com ela! Os que hoje se amam, devem morrer
juntos se querem reunir-se. A injustiça separa, a vergonha, a dor, o dano que se faz aos
demais, os crimes separam. Viver é uma tortura, posto que viver separa...
A GRAN DUQUESA: Deus junta.
KALIAYEV: Não neste mundo. E meus encontros são neste mundo.
A GRAN DUQUESA: É o encontro dos cachorros, com o focinho no chão, sempre
fuçando, sempre decepcionados.
KALIAYEV (volta para a janela): Pronto! O sabes. (Uma pausa.) Mas não é possível
imaginar que dois seres que renunciam a toda alegria, se amem na dor sem poder dar-se
outro encontro que o da dor? (O olha.) Não é possível imaginar que a mesma corda
una, então, esses dois seres?
A GRAN DUQUESA: Que é esse amor terrível?
KALIAYEV: Você e os seus nunca nos permitiram outro.
A GRAN DUQUESA: Eu também amava o que você matou.
KALIAYEV: A compreendi. Por isso a perdôo o mal que você e os seus me fizeram.
(Uma pausa.) Agora, deixe-me.
(longo silêncio.)
A GRAN DUQUESA (erguendo-se): Vou deixa-lo. Mas vim aqui para lhe conduzir a
Deus, agora sei. Você quer julgar-se e se salvar só. Não pode fazê-lo. Deus poderá, se
você vive. Pedirei graça por você.
KALIAYEV: Lhe suplico, não faça. Deixe-me morrer ou a odiarei mortalmente.
A GRAN DUQUESA (na porta): Pedirei graça por você, aos homens e a Deus.
KALIAYEV: Não, não! A proíbo. (Corre a porta para encontrar de repente a
SKURATOV. KALIAYEV retrocede, fecha os olhos. Silêncio. Olha SKURATOV de
novo.) O necessitava.
SKURATOV: Aqui me tens, encantado. Por quê?
KALIAYEV: Necessitava desprezar de novo.
SKURATOV: Uma pena. Vinha buscar a minha resposta.
KALIAYEV: Já a tens.
SKURATOV (muda de tom): Não, todavia não a tenho. Escute bem. Tenho facilitado
esta entrevista com a gran duquesa para poder publicar amanhã a notícia nos periódicos.
O relato será exato, salvo em um ponto. Consentirá na confissão de seu arrependimento.
Seus camaradas pensarão que você os traiu.
KALIAYEV (tranquilamente): Não acreditarão.
SKURATOV: Só deterei a publicação no caso de que você confesse. Tem a noite para
decidir. (volta até a porta.)
KALIAYEV (mais forte): Não acreditarão.
SKURATOV (voltando-se): Por quê? Nunca pecaram?
KALIAYEV: Você não conhece o amor deles.
SKURATOV: Não. Mas sei que não se pode crer na fraternidade toda uma noite, sem
um só minuto de desfalecimento. Esperarei o desfalecimento. (tranca a porta e fala
pelas grades.) Não se apresse. Sou paciente.
(Permanecem frente a frente.)

CORTINA

QUINTO ATO
Outro lugar, mas no mesmo estilo. Uma semana depois. A noite. Silêncio. DORA anda
de um lado para o outro.

ANNENKOV: Descansa, Dora.


DORA: Tenho frio.
ANNENKOV: Vem deitar aqui. Se agasalhe.
DORA (sempre caminhando): A noite é longa. Que frio tenho, Boria!
(chamam. Um golpe, logo dois. ANNENKOV vai abrir. Entram STEPAN e VOINOV
que se aproxima de DORA e a beija. Ela se aperta em seus braços.)
DORA: Alexis!
STEPAN: Orlov disse que poderia ser esta noite. Todos os suboficiais que não estão de
serviço foram convocados. De modo que estará presente.
ANNENKOV: Onde te encontrarás com ele?
STEPAN: Nos esperara VOINOV e a mim no restaurante da rua Sophískaia.
DORA (que se sentou, esgotada): Será esta noite, Boria.
ANNENKOV: Nem tudo está perdido, a decisão depende do kzar.
STEPAN: A decisão dependerá do kzar se Yanek houver pedido graça.
DORA: Não pediu?
STEPAN: Por quê ia ver a gran duquesa se não para pedir graça? Ela disse por todas as
partes que Yanek havia se arrependido. Como saber a verdade?
DORA: Sabemos o que disse diante do Tribunal e o que nos escreveu. Yanek disse que
lamentava não dispor senão de uma só vida para lançar como um desafio a autocracia. O
homem que disse isso pode mendigar graça? Pode arrepender-se? Não. Queria... Quer
morrer. Não se renega de um ato como o seu.
STEPAN: Não devia ver a gran duquesa.
DORA: Ela é sua única juíza.
STEPAN: Segundo nossa regra, não devia vê-la.
DORA: Nossa regra é matar, nada mais. Agora é livre, livre por fim.
STEPAN: Todavia não.
DORA: É livre. Tem direito a fazer o que queira, agora que vai morrer. Porque morrerá,
alegre!
ANNENKOV: Dora!
DORA: Sim. Se obtiver graça, que triunfo! Sería a prova, não é certo? De que a gran
duquesa disse a verdade, de que ele se arrependeu e nos traiu. Se morre, pelo contrario,
o crês e podereis seguir o querendo. (os olha.) Vosso amor sai caro.
VOINOV (aproximando-se dela): Não, Dora. Nunca duvidamos dele.
DORA (caminhando de um extremo a outro da casa): Sim... Talvez... Perdoem-me.
Mas que importa, depois de tudo! Vamos saber esta noite... Ah, pobre Alexis, que vieste
fazer aqui?
VOINOV: Ao substituí-lo, chorei. Estava orgulhoso ao ler seu discurso no processo.
Quando lí. «A morte será meu supremo protesto contra um mundo de lágrimas e de
sangue»... tremi todo.
DORA: Um mundo de lágrimas e de sangue... Disse isso, decerto.
VOINOV: Disse... Ah, DORA, que valor! E ao final seu grande grito: «Se estiver a
altura do protesto humano contra a violência, que a morte coroe minha obra com a
pureza da idéia.» Então decidiu vir.
DORA (escondendo o rosto entre as mãos) : Ele queria a pureza, sim. Mas que
coroação atroz!
VOINOV: Não chores, DORA. Ele pediu que ninguém chore sua morte. Oh, o
compreendo tão bem agora. Não posso duvidar dele. Sofro por ter sido covarde. E
depois lancei a bomba em Tiflis. Agora não me diferencio de Yanek. Quando soube de
sua condenação, só tive uma idéia: ocupar seu lugar, já que não pude estar a seu lado.
DORA: Quem pode ocupar seu lugar esta noite? Esta só, Alexis.
VOINOV: Devemos sustentá-lo com nosso orgulho, como ele nos sustenta com seu
exemplo. Não chores.
DORA: Veja. Tenho os olhos secos. Mas orgulhosa. Não, nunca mais poderei estar
orgulhosa!
STEPAN: DORA, não me julgue mal. Desejo que Yanek viva. Necessitamos homens
como ele.
DORA: Ele não deseja. E devemos desejar que morra.
ANNENKOV: Esta louca.
DORA: Devemos deseja-lo. Conheço seu coração. Assim se sentirá apaziguado. Oh,
sim, que morra! (Mais baixo.) Mas que morra rápido.
STEPAN: Vou indo, Boria. Venha, Alexis. Orlov nos espera.
ANNENKOV: Sim, e não tardemos em voltar.
(STEPAN e VOINOV se dirigem a porta. STEPAN olha a DORA.)
STEPAN: Vamos nos inteirar. Cuida dela.
(DORA está junto da janela. ANNENKOV a olha.)
DORA: A morte! A forca! A morte uma vez mais! Ai, Boria!
ANNENKOV: Sim, irmãzinha. Mas não há outra solução.
DORA: Não digas isso. Se a única solução é a morte, não vamos por bom caminho. O
bom caminho é o que conduz a vida, ao sol. Não se pode ter sempre frio.
ANNENKOV: Isso também conduz a vida. A vida dos demáis. A Rússia viverá, nossos
netos viverão. Recorda o que dizia Yanek: «A Rússia será bela.»
DORA: Os demais, nossos netos... Sim. Mas Yanek está, na prisão e a corda é fria.
Talvez tenha morrido já para que os outros vivam. Ai, Boria! E se os outros não
viverem? E se morreu por nada?
ANNENKOV: Cala.
(Silêncio.)
DORA: Que frio faz. E estamos na primavera. Há árvores no pátio da prisão, sei disso.
Ele as verá.
ANNENKOV: Espera saber. Não tremas assim.
DORA: Sinto tanto frio que tenho a impressão de estar já morta. (Uma pausa.) Tudo
isto nos envelhece tão rapidamente. Nunca seremos crianças, Boria. Com o primeiro
crime, morre a infância. Lançou a bomba e em um segundo, sabes, transcorre toda uma
vida. Ai, adiante podemos morrer. Demos já a volta no homem.
ANNENKOV: Então morreremos lutando, como o fazem os homens.
DORA: Haveis ido demasiado rápido. Já não sois homem.
ANNENKOV: A infelicidade e a miséria também são rápidas. Já não há lugar para a
paciência e a maturidade neste mundo. A Rússia tem pressa.
DORA: Eu sei. Nós temos feito cargo da infelicidade do mundo. Ele também havia feito
cargo. Que valor! Mas as vezes me digo que é o orgulho que será castigado.
ANNENKOV: É o orgulho que pagamos com nossas vidas. Ninguém pode ir mais
longe. É o orgulho a que temos direito.
DORA: Estamos seguros de que ninguém irá mais longe? As vezes, quando escuto
Stepan, sinto medo. Talvez cheguem outros que fundaram sua autoridade em nós para
matar e que não pagaram com suas vidas.
ANNENKOV: Isso seria uma covardia, Dora.
DORA: Quem sabe? Talvez isso seja a justiça. E então ninguém se atrevera já a olha-la
de frente.
ANNENKOV: Dora! (Ela cala.) Esta duvidando? Não te reconheço.
DORA: Tenho frio. Penso nele que não se permitirá tremer para que não pensem que
tem medo.
ANNENKOV: Então já não esta conosco?
DORA (se lança até ele): Oh, Boria, estou com vocês! Irei até o fim. Odeio a tiranía e
sei que não podemos fazer outra coisa. Mas eu elegi isto com o coração em gozo e agora
continuo com o coração triste. Essa é a diferença. Somos prisioneiros.
ANNENKOV: A Rússia inteira está presa. Temos de botar seus muros em pedaços.
DORA: Da-me a bomba e já veras. Avançarei em meio da fogueira e sem embargo meu
passo será firme. É fácil, é muito mais fácil morrer por suas contradições que vive-las.
Já amaste, pelo menos, já amou, Boria?
ANNENKOV: Amei, mas faz tanto tempo que já não me recordo.
DORA: Quanto tempo?
ANNENKOV: Quatro anos.
DORA: Quantos faz que dirige a organização?
ANNENKOV: Quatro. (Uma pausa.) Agora meu amor é para a organização.
DORA (caminhando para a janela): Amar, sim, mas ser amada! ... Não, há que seguir o
caminho. Mesmo que se queria deter. A caminho! A caminho! Mesmo que se queira
soltar os braços e se deixar levar. Mas a maldita injustiça no pega como grude.. A
caminho! Estamos condenados a ser maiores do que nós mesmos. Os seres, os rostos,
isso é o que alguém quer amar . O amor é melhor que a justiça! Não, há que seguir o
caminho. O caminho, DORA! O caminho, Yanek! (chora.) Mas para ele, se aproxima o
fim.
ANNENKOV (Pegando-a em seus braços): Será agraciado.
DORA (olhando-o): Bem sabes que não. Bem sabes que não estaria bem. (ele desvia o
olhar.) Talvez esteja saindo ao pátio. Toda essa gente em silêncio, apenas ele aparece.
Como se não tivesse frio. Boria, sabes como enforcam?
ANNENKOV: No extremo de uma corda. Basta, Dora!
DORA (cegamente): El verdugo salta sobre os ombros. O pescoço deslocado. Não é
terrível?
ANNENKOV: Sim. Em certo sentido. Em outro sentido, é a felicidade.
DORA: A felicidade?
ANNENKOV: Sentir a mão de um homem antes de morrer. (DORA se senta em uma
cadeira. Silêncio.) Dora, temos que marchar em seguida. Descansaremos um pouco.
DORA (enojada): Marchar? Com quem?
ANNENKOV: Comigo, Dora.
DORA (o olha): Marchar! (olha pela janela.) Chega a alvorada. Yanek esta morto. Já
estou segura.
ANNENKOV: Sou teu irmão.
DORA: Sim, eis meu irmão. Todos são meus irmãos e os quero. (Se ouve a chuva.
Amanhece. DORA fala em voz baixa.) Mas que horrivel gosto tem as vezes a
fraternidade!
(Chamam. Entram VOINOV e STEPAN. Todos permanecem imóveis, DORA vacila mas
se recobra com um visível esforço.)
STEPAN (em voz baixa): Yanek não nos traiu.
ANNENKOV: Orlov pode vê-lo?
STEPAN: Sim.
DORA (avançando firmemente): Senta. Conta.
STEPAN: Para quê?
DORA: Conta tudo. Tenho o direito de saber. Exijo que contes. Com detalhes.
STEPAN: Não saberei fazer. E além do mais, agora temos que marchar.
DORA: Não, falará. Quando lhe avistaram?
STEPAN: As dez da noite.
DORA: Quando o enforcaram?
STEPAN: As duas da manhã.
DORA: E durante quatro horas esperou?
STEPAN: Sim, sem dizer nem uma palavra. E depois, tudo se precipitou. Agora acabou.
DORA: Quatro horas sem falar? Espera um pouco. Como ia vestido? Tinha posto o
capote?
STEPAN: Não. Estava todo de negro, sem abrigo. E levava um chapéu negro.
DORA: Que tempo fazia?
STEPAN: Noite fechada. A neve estava suja. E depois, a chuva a converteu em um
barro pegajoso.
DORA: Tremia?
STEPAN: Não.
DORA: Viu Orlov?
STEPAN: Não.
DORA: Que olhava?
STEPAN: A todo mundo, disse Orlov, sem ver nada.
DORA: Que mais, que mais?
STEPAN: Deixa, Dora.
DORA: Não, quero saber. Sua morte, pelo menos, é minha.
STEPAN: Lhe leram a sentença.
DORA: Que fazia nesse tempo?
STEPAN: Nada. Uma vez somente sacudiu a perna para tirar um pouco de barro que lhe
manchava o sapato.
DORA (com a cabeça nas mãos): Um pouco de barro!
ANNENKOV (bruscamente): Como sabes? (STEPAN cala.) Perguntaste tudo isso a
Orlov? Por quê?
STEPAN (se afastando do olhar): Havia algo entre Yanek e eu.
ANNENKOV: O que?
STEPAN: Eu o invejava.
DORA: Que mais, Stepan, que mais?
STEPAN: O padre Florenski foi apresentar-lhe o crucifixo. Ele se negou a beija-lo. E
declarou: «Já lhe disse que terminei com a vida e estou em regra com a morte.»
DORA: Como estava sua voz?
STEPAN: Exatamente igual. Sem a febril idade e a impaciência que tinha.
DORA: Parecia feliz?
ANNENKOV: Estas louca?
DORA: Sim, sim, estou segura. Parecia feliz. Porque sería demasiado injusto que
havendo-se negado a ser feliz na vida para preparar-se melhor para o sacrifício, não
haveria recebido a felicidade ao mesmo tempo que a morte. Era feliz e marchou com
calma para a forca, não é certo?
STEPAN: Alguém cantava no rio com um acordeom. Caminhou. Uns cães ladrarão
nesse momento.
DORA: Então subiu...
STEPAN: Subiu. Se afundou na noite. Se via vagamente o sudário com que o cobriram
de cima a baixo o verdugo.
DORA: E depois, e depois...
STEPAN: Ruidos surdos.
DORA: Ruidos surdos. Yanek! E logo...
(STEPAN cala.)
DORA (com violência): E logo, te digo. (STEPAN guarda Silêncio.) Fala, Alexis.
Logo?
VOINOV: Um ruído horrível.
DORA: Ah! (Se lança contra a parede.)
(STEPAN desvia a cabeça. ANNENKOV, sem um gesto, chora. DORA se volta, lhes
olha pregada a parede.)
DORA (com voz mudada, irritada): Não chorem. Não, não, não chorem! Já vêem que é
o dia da justificação. Algo se eleva nesta hora que é nosso testemunho de rebeldes:
Yanek já não é um assassino. Um ruído terrível! Bastou um ruído terrível para retornar
a à alegria da infância. Recordam seu riso? Ria sem motivo as vezes. Que jovem era!
Agora deve estar rindo, com a cara pegada na terra! (Se dirige até ANNENKOV.) Boria,
é meu irmão? Disseste que me ajudaria?
ANNENKOV: Sim.
DORA: Então faz isso por mim. Dá-me a bomba. (ANNENKOV a olha.) Sim, a próxima
vez. Quero lançar eu. Quero ser a primeira a lança-la.
ANNENKOV: Sabes que não queremos mulheres na primeira linha.
DORA (com um grito): Sou eu uma mulher, agora?
(A olha. Silêncio.)
VOINOV (vagarosamente): Aceita, Boria.
STEPAN: Sim, aceita.
ANNENKOV: Era teu turno, Stepan.
DORA: Me darás, verdade? A lançarei. E mais tarde, em uma noite fria...
ANNENKOV: Sim, Dora.
DORA (chorando) Yanek! Uma noite fria, e a mesma corda! Tudo será mais fácil
agora.

CAI O PANO