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Editorial

Este número da Revista Serviço Social & Sociedade apresenta, como re‑ ferência analítica, alguns desafios políticos e sociais que interpelam a profissão no atual contexto societário de expansão de “diferentes matizes da extrema‑ ‑direita” cuja presença vem se tornando cada vez mais evidente nos últimos anos, como revela um dos artigos aqui publicados. O que se observa é o agra‑ vamento das intolerâncias, frente ao diferente, o crescimento do desrespeito aos direitos mais elementares do ser humano e processos de degradação da vida humana e da natureza. Conjuntura em que ressurgem processos de remercanti‑ lização de direitos sociais e fortalece‑se a defesa da tese de que cada indivíduo

é responsável por seu bem‑estar.

A referência ao social, ao campo político e às atuais ameaças aos direitos humanos emerge sob diferentes perspectivas nos artigos que compõem este número. Cabe destacar que essas questões aparecem sempre com suas contra‑ posições e resistências expressas na luta pela liberdade entendida em seu sig‑ nificado ontológico-social que supõe, como nos mostra Barroco, a sociabilidade, a alteridade e a equidade. A profissão (e seu projeto ético-político) é também apresentada como forma de enfrentamento dessas questões que permeiam a sociedade contemporânea.

Nesse debate, emerge, do ponto de vista filosófico como outra referência,

a análise do pensamento gramsciano sobre ideologia e política. Sabemos que

para Gramsci a ideologia não é mera aparência falsa da realidade, mas a compõe.

Para ele “não são as ideologias que criam a realidade social, mas é a realidade

(Gramsci,

1977:1595). Sem dúvida, a contribuição de Gramsci como um pensador dialé‑ tico marxista pode ser apreendida a partir de múltiplas categorias integradas, e

que podem ser interpretadas e utilizadas historicamente nas explicações sobre

o real.

Merece destaque ainda neste número a entrevista realizada por Raquel Raichelis com Rodrigo Castelo: A questão do neodesenvolvimentismo e as políticas públicas, temática relevante e de grande atualidade no debate atual da

social, na sua estrutura produtiva, que cria as ideologias [

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profissão, a questão do neodesenvolvimentismo vem sendo objeto de polêmicas e análises no âmbito da economia política.

Enfim, o presente número da Revista busca trazer aos seus leitores algumas pautas emergentes nos debates atuais, e que confrontam os chamados marcos civilizatórios da sociedade contemporânea, ao colocarem os “direitos humanos em questão”.

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A todos e a todas, instigantes leituras!

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A extrema-direita na atualidade*

Thefarrightnowadays

ARTIGOS A extrema-direita na atualidade* Thefarrightnowadays Adriana Brito da Silva** Cristina Maria Brites*** Eliane de

Adriana Brito da Silva** Cristina Maria Brites*** Eliane de Cássia Rosa Oliveira**** Giovanna Teixeira Borri*****

Resumo: Este ensaio objetiva sintetizar elementos teórico‑críticos sobre os diferentes matizes da extrema‑direita na atualidade, situando algumas de suas configurações históricas e tendências contemporâneas no Brasil e em países nos quais sua presença tornou‑se mais evidente nos últimos anos. Resulta de um seminário temático organizado no interior do Nepedh (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos — PUC‑SP) e, embora não esgote a complexidade do tema, indica elementos relevantes para a agenda política da esquerda em face da barbárie e das manifestações do irracionalismo no interior da so‑ ciabilidade burguesa.

Palavras‑chave: Irracionalismo. Extrema‑direita. Política. Ética e di‑ reitos humanos.

* Este ensaio é resultado do seminário temático “extrema‑direita na atualidade”, organizado pelas autoras como atividade do segundo semestre de 2013 do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos (Nepedh), PUC‑SP, coordenado pela profa. dra. Maria Lucia Silva Barroco.

** Assistente social, docente da União Nacional dos Estudantes de São Paulo (Uniesp), especialista em políticas públicas e direitos humanos (Fama), mestranda do Programa de Estudos Pós‑graduados em Serviço Social da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: adri_britosilva@yahoo.com.br.

*** Assistente social, doutora em Serviço Social pela PUC‑SP, Brasil; professora da Universidade Federal Fluminense, polo de Rio das Ostras, pós‑doutoranda do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da PUC‑SP sob supervisão da profa. dra. Maria Lucia Silva Barroco. E‑mail: crisbrites@uol.com.br.

**** Assistente social, agente fiscal do Cress 9ª Região, integrante do Nepedh, do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: elianecress@hotmail.com.

***** Assistente social, mestranda do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: giovannaborri@hotmail.com.

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Abstract: This article aims at summarizing theoretical and critical elements of the different graduations of the far right nowadays, as well as situating some of its historical configurations and contemporary tendencies in Brazil and in countries where its presence has become clearer in the past years. It results from a thematic seminar organized by Nepedh (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos — PUC‑SP) and, although it does not work out the complexities of the theme, it indicates relevant elements for the political agenda of the left, in the face of the barbarism and manifestations of irrationalism inside bourgeois sociability.

Keywords: Irrationalism. The far right. Politics. Ethics and human rights.

Introdução

E ste ensaio objetiva sintetizar elementos teórico‑críticos sobre os diferentes matizes da extrema‑direita na atualidade, situando algumas de suas configurações históricas e tendências contemporâneas no Brasil e em países nos quais sua presença tornou‑se mais evidente

nos últimos anos.

A relevância deste debate repousa sobre a perspectiva histórica dos direitos humanos e sua defesa intransigente em face da barbárie contemporânea. Fundamenta‑se na crítica teórica como instrumento primordial para orientar práticas vinculadas à construção de uma nova ordem social que assegure a emancipação humana. Coloca‑se, assim, no campo da esquerda, cuja trajetó‑ ria histórica tem se configurado como força política que procura formular alternativas à ordem burguesa na direção da superação da desigualdade e da opressão.

Nesta perspectiva, o debate sobre as configurações atuais da extrema-di‑ reita, e seu crescimento em algumas sociedades, ultrapassa os limites de uma tematização pontual e acadêmica, colocando‑se como pauta central na agenda política de toda esquerda 1 interessada em compreender o mundo em sua pro‑ cessualidade objetiva para transformá‑lo no horizonte de uma sociabilidade livre e igualitária.

1. A esquerda como campo político é abordada neste ensaio apenas como contraponto à discussão da direita e extrema-direita; sua análise foi objeto de seminário específico no interior do Nepedh.

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As manifestações de junho de 2013 2 que tomaram as ruas de inúmeras cidades brasileiras colocaram vários desafios para a intelectualidade, para os movimentos sociais, partidos e sindicatos que historicamente se vincularam às bandeiras de luta dos trabalhadores. Dentre eles: entender a força mobilizadora das novas tecnologias de informação e comunicação; a possibilidade de unifi‑ cação da agenda de lutas — inicialmente em protesto ao aumento das tarifas do transporte coletivo e em defesa do passe livre —; o perfil da juventude vigorosa e contundente que tomou os espaços públicos; o significado da ostensiva (e em algumas situações, violenta) recusa das formas clássicas de organização e participação políticas em torno dos movimentos sociais, partidos e sindicados e, principalmente, a presença de grupos conservadores e de extrema‑direita que do mesmo modo sentiram‑se legitimados para expor em público suas convicções segregadoras, irracionais e autoritárias.

A constatação do crescimento da extrema‑direita na atualidade e sua mera condenação ideológica parece-nos insuficiente para apreensão da ma‑ terialidade que lhes dá sustentação e da ação programática necessária para sua superação.

Por isso, apreender a persistente, e indesejável, presença do ideário de extrema-direita coloca-se como desafio ético-político fundamental àqueles que recusam o irracionalismo, os discursos e práticas racistas, xenofóbicas, homo‑ fóbicas, sexistas e opressoras.

Assim, apresentamos nossas reflexões sobre a extrema-direita na atualidade, elaboradas com base numa pesquisa bibliográfica e documental que, sem qualquer pretensão de esgotar o tema, procurou delimitá‑lo em torno de alguns eixos estruturantes. 3

2. As análises sobre essas manifestações, seus desdobramentos e possível vinculação com outras revoltas ocorridas em finais de 2010 e em 2011 (Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Indignados da Espanha entre outras) ainda estão em aberto. Uma aproximação competente com esses acontecimentos pode ser encontrada em Maricato, E. et al. (2013).

3. As referências bibliográficas e o material de pesquisa que serviram de apoio para elaboração deste ensaio estão indicados ao longo do texto em sistema de notas e não devem ser tomados como fontes seminais sobre o tema, mas como guia que orientou as reflexões formuladas pelas autoras. O recurso às citações foi necessário em várias passagens tendo em vista, especialmente, a diversidade das fontes consultadas e a metodologia adotada para realização do seminário que balizou a elaboração deste ensaio.

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1. Direita e extrema-direita como campo político: aproximações

A política para alguns pensadores da tradição marxista é considerada como

uma modalidade de práxis. Uma ação mediada por uma consciência que se eleva da cotidianidade e voltada para realização de finalidades que visam res

ponder a conflitos históricos que envolvem os destinos humanos. Desde os gregos, considerados seus “inventores”, a política é uma ação que supõe o es‑ paço público, que incide sobre comportamentos e escolhas que se articulam a projetos coletivos de sociedade, visando a realização de valores e princípios reguladores da vida social. Para Lukács, no interior da práxis, uma posição teleológica secundária. 4

Na tradição marxista não há consenso sobre o caráter genérico ou par‑ ticular da atividade política. Alguns pensadores consideram que se trata de uma atividade universal, um complexo da totalidade social que existe nas diferentes formações históricas. Outros, que se trata de uma atividade particular, existen‑ te apenas na configuração histórica das sociedades de classes pela mediação do Estado.

Para nossas reflexões interessa destacar algumas referências mais gerais que contribuam para situar tanto a política como o campo ideológico da direita.

Marx e Engels, em Manifesto do Partido Comunista, afirmam que quando “desaparecerem os antagonismos de classes e toda a produção for concentrada nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra”. 5 Assim considerada, a política é um complexo no interior da totalidade social que visa a disputa de poder em torno de interesses e necessidades de classes.

O termo esquerda e direita na política nasce no contexto de emergência da

Revolução Francesa, “delegados identificados com igualitarismo e reforma social sentavam-se à esquerda do rei; delegados identificados com aristocracia

4. O trabalho, posição teleológica primária, visa a transformação da natureza. As posições teleológicas

secundárias se voltam para a transformação (reprodução) da sociedade. Sobre as elaborações políticas de Lukács ver especialmente Coutinho e Netto (2011).

5. Marx, K.; Engels, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 1998. p. 58.

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e conservadorismo, à direita. […] ao longo do século XIX na Europa a distinção

entre esquerda e direita passa a ser associada com a distinção entre liberalismo

e conservadorismo”

O desenvolvimento do ser social e de suas modalidades de práxis introduz novas forças sociais que interferem na configuração e nos limites desses campos ideológicos. A constituição da classe trabalhadora como sujeito político — como classe‑para‑si — e a difusão da crítica marxiana à sociabilidade burguesa — vinculada à sua perspectiva revolucionária de classe — associam os conteúdos de esquerda à defesa dos interesses dos trabalhadores. O crescimento das ideias reformistas da social-democracia em finais do século XIX e a Revolução Rus‑ sa de 1917 marcam a delimitação dos interesses burgueses no campo ideológi‑ co da direita e dos trabalhadores no campo da esquerda.

A consolidação da hegemonia burguesa, seus mecanismos de reprodução da ordem do capital, a alienação política e os dilemas estratégicos para responder às configurações históricas das necessidades postas pela luta de classes amplia‑ ram o espaço político no qual esquerda e direita se moveram. A experiência do nazifascismo, a geopolítica mundial durante e no imediato pós‑Segunda Guerra Mundial, a experiência do Estado de Bem‑estar social, a disputa entre os blocos capitalista e socialista são determinações que incidem sobre os campos ideoló‑ gicos da esquerda e da direita de forma diferenciada em cada sociedade. 6

No plano político, conservadores e reacionários historicamente se manti‑ veram no campo ideológico da direita, resistindo a mudanças estruturais que levassem a perdas de poder econômico e político. Reformistas, socialistas e comunistas se colocaram em frentes comuns de defesa da democracia política e/ou do projeto civilizatório da modernidade. Essa mobilidade conjuntural num campo político mais amplo, marcada especialmente por coalizões políticas e/ou partidárias, contribui para dificultar a delimitação precisa entre um e outro cam‑ po ideológico, gerando polêmicas analíticas e muitas confusões.

No Brasil essa dificuldade é ainda maior, dada as características de nossa formação sócio‑histórica marcada pela(o): colonização; escravismo prolongado;

6. As posições do Partido Comunista do Brasil na era Vargas são emblemáticas nesse sentido. Ver, entre outros, Coutinho (2006); Frederico (1994); Sader (1995).

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herança patrimonialista, coronelista e conservadora de nossas elites; inserção periférica no capitalismo mundial; transição não clássica ao capitalismo; tardia formação do operariado urbano-industrial com forte influência da imigração europeia e pouca tradição de esquerda.

No contexto contemporâneo, investe-se na despolitização da vida pública e na recusa da validade ideológica da definição de esquerda e direita na política. Contribuem para essa despolitização a derrocada do socialismo soviético, o atual estágio de acumulação do capital e a ideologia pós‑moderna. Esta última recusando a centralidade do trabalho na vida social, os valores universais e insistindo na perspectiva subjetivista e contingencial de análise da realidade.

Partidos, movimentos e políticos profissionais vinculados ao ideário bur‑ guês, portanto, aos interesses dominantes que os situam no campo da direita, recusam tal associação diante da crítica contundente da esquerda revolucionária sobre os limites da ordem do capital para realizar a igualdade e a emancipação humanas. Por outro lado, segmentos oriundos da esquerda, especialmente aque‑ les que introduzem uma racionalidade instrumental na disputa pelo poder do Estado, secundarizando princípios, valores e interesses à lógica da disputa eleitoral, procuram se desvencilhar das pechas de totalitarismo e radicalismo atribuídos à esquerda.

Bobbio e Anderson protagonizaram um fecundo debate teórico sobre o campo político da esquerda e da direita. Bobbio, após extensa análise sobre o tema propõe como critério para distinguir direita e esquerda a ideia de igualda‑ de e para distinguir a ala moderada da extremista, tanto na esquerda quanto na direita, a postura diante da liberdade. Ao final de suas análises, apresenta uma esquematização na qual define extrema-direita, centro-direita, extrema-esquer‑ da e centro‑esquerda. 7

Numa apreciação rasa do esquema proposto por Bobbio é possível verifi‑ car a introdução de uma posição de centro, tanto de esquerda quanto de direita, que passa a funcionar como único divisor das posições extremistas. O centro esquerda traduz a própria posição política do filósofo, que ele denomina de

7. Bobbio, N. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Unesp, 2011. p. 14‑135.

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socialismo liberal, que, embora paradoxal, para ele abarca a social‑democracia. Nota-se que a esquerda clássica, revolucionária, passa a ser identificada com autoritarismo e considerada antidemocrática.

Anderson é contundente na sua crítica ao esquema proposto por Bobbio, explorando as concepções de igualdade e liberdade tratadas por esse autor e tomadas como critérios definidores do campo político, além de criticar o papel do centro e a ausência de uma referência à processualidade histórica. A crítica de Anderson se dirige, em suas próprias palavras, “à lógica interna dos argu‑ mentos de Bobbio” e “ao contexto externo”. Revela absoluta simpatia ao apai‑ xonado apelo de Bobbio pela preservação dos conceitos de Direita e Esquerda. No entanto, afirma,

não é fechando os olhos para o esvaziamento de seus conteúdos, por obra da tendência que hoje se afirma na política, que teremos como salvá-los. Uma defe‑ sa puramente axiológica da ideia de Esquerda, isolada de qualquer teoria históri‑ ca e de qualquer crítica às instituições em condições de abalar o status quo, não será suficiente para que se consiga a vitória.

Os traços gerais da polêmica entre esses dois grandes pensadores por si só indicam as dificuldades atuais de compreender e definir esses campos políticos. Para fins de nossa reflexão, ainda que pesem as transformações ocorridas na sociabilidade burguesa, no Estado e em seu papel na regulação dos antagonismos de classe e os novos desafios no interior da luta de classes, a nosso ver, a dife‑ renciação ideológica entre esquerda e direita não foi superada pela processua‑ lidade histórica. A direita permanece como campo político vinculado aos inte‑ resses de dominação, opressão, apropriação privada da riqueza social e, portanto, à reprodução da ordem do capital. Assim como a esquerda se mantém como campo político vinculado aos interesses da classe que vive do trabalho e à necessidade imperiosa de ultrapassagem da sociabilidade do capital.

A extrema‑direita, marcadamente associada às trágicas experiências do nazifascismo, continua apresentando muitos traços originais do contexto de sua emergência: irracionalismo, nacionalismo, defesa de valores e instituições tradi‑ cionais, intolerância à diversidade — cultural, étnica, sexual — anticomunismo,

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machismo, violência em nome da defesa de uma comunidade/raça considerada superior. Compartilhando do ideário político vinculado aos interesses de domi‑ nação, opressão e apropriação privada da riqueza social, distancia‑se da direita tradicional pela intolerância e pela violência de suas ações, embora, quando organizada em partidos ou associações públicas, recuse tais práticas por parte de seus membros.

Tomando a realidade histórica como critério de verdade das formulações teóricas, na sequência apresentamos alguns elementos visando assegurar maior concretude à nossa discussão.

2. Matizes da extrema-direita

2.1Todadireitaéfascista?

Paxton sustenta que nem todo movimento extremista, de direita ou de esquerda, pode ser denominado fascista e, ao longo de sua extensa pesquisa, procura identificar os condicionantes históricos de sua emergência, os estágios de sua consolidação, sua influência fora da Itália de Mussolini e da Alemanha de Hitler, além de propor características definidoras e possibilidades de repro‑ dução do fascismo na atualidade. Atribui às experiências históricas do fascismo os seguintes estágios: emergência, enraizamento político, tomada de poder, exercício do poder e um período mais longo no qual o regime opta pela radica‑ lização ou entropia.

Para Paxton, a preocupação contemporânea com as possibilidades de reedição desse trágico episódio da história humana deve se ater ao estágio de enraizamento político, visto que a emergência de movimentos fascistas pós‑ ‑guerra pode ser observada em todo o mundo sem, no entanto, representar risco efetivo ao projeto civilizatório, uma vez que não encontre uma base social, econômica e política que lhes dê sustentação (enraizamento político).

À nossa reflexão sobre a extrema-direita na atualidade interessa reter a definição e a caracterização feita por Paxton sobre o fascismo, procurando

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problematizá‑las em face de outras formas de irracionalismo. Para este autor, o fascismo é uma

forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades demo‑ cráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza. (2007, p. 358‑359)

Entre as paixões mobilizadoras indicadas pelo autor, destacamos: senso de crise catastrófica; primazia e vitimização do grupo considerado superior que legitima qualquer ação de extermínio do inimigo; defesa de chefes naturais sempre do sexo masculino, defesa da superioridade dos instintos do líder, di‑ reito do grupo considerado superior de dominar os demais, sem qualquer restrição de lei humana ou divina.

Embora a definição e as “paixões mobilizadoras” tratadas por Paxton não autorizem denominar de fascista as práticas de grupos, movimentos, organiza‑ ções e partidos que se situam no campo político da direita e da extrema‑direita, permitem identificar a existência de várias simetrias entre elas e o fascismo, tanto em relação ao comportamento e aos ideais políticos quanto às condições objetivas que contribuem para sua emergência.

O fascismo se configurou como uma experiência histórica emblemática da barbárie, uma vez que se concretizou no mesmo solo ocidental que semeou o projeto civilizatório da modernidade, fundado na razão, no Estado laico e no humanismo. Sua reedição tem sido recusada por vários pensadores, tanto pelas feridas traumáticas que o fascismo legou para a humanidade quanto pela compreensão da história como processo irrepetível. No entanto, uma abordagem crítica sobre a totalidade social permite identificar que se a his‑ tória não se repete, uma vez que expressa particularidades da ação concreta dos homens no atendimento de necessidades também históricas e particula‑ res, sua processualidade contraditória é constituída de momentos de conser‑

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vação e de superação que só são radicalmente ultrapassados por rupturas revolucionárias.

Os momentos revolucionários presentes no processo de desenvolvimen‑ to e complexificação do ser social não foram capazes de ultrapassar as formas históricas de sociabilidade fundadas na desigualdade de classes e na explo‑ ração do homem pelo homem. Desde a superação das sociedades comunais primitivas, a emergência da propriedade privada e do Estado até o capitalis‑ mo contemporâneo, a história da humanidade é a história da luta de classes (Marx). A marca diferencial dessa luta no capitalismo é sua reprodução ampliada num estágio altamente desenvolvido das forças produtivas e do ser social, no qual a desigualdade e a miséria não são determinações colocadas pelo intercâmbio do homem com a natureza, mas condição para reprodução da ordem do capital.

Neste sentido, concordamos com Paxton sobre a inviabilidade de reedição do fascismo como experiência particular do contexto entre as duas grandes guerras mundiais, ou seja, um fascismo com as mesmas características, simbo‑ lismo e programática seria uma impossibilidade histórica. Por outro lado, uma vez que não foram superadas, no sentido revolucionário do termo, as determi‑ nações econômicas e políticas que contribuíram para sua emergência e ascensão ao poder, práticas fascistas com outros matizes são plenamente possíveis na atualidade.

Nesta perspectiva, tomando o fascismo como uma expressão emblemática da barbárie, as análises de Paxton sobre esse fenômeno, a perspectiva histórica e de totalidade sobre o desenvolvimento do ser social, o reconhecimento onto‑ lógico de que a raiz dos problemas e soluções para as necessidades humanas deve ser buscada no próprio homem, nos propomos a discutir algumas expres‑ sões do fanatismo, do fundamentalismo e do campo político da extrema‑direi‑ ta, considerando‑os como formas de consciência histórica que emergem em contextos de crise de dominação inerentes à reprodução de determinada forma de relação entre os homens — sendo que, no contexto contemporâneo, trata-se de uma crise estrutural do capital — e que jogam um peso diferenciado sobre as potencialidades destruidoras de tais fenômenos em face do projeto civiliza‑ tório inaugurado pela modernidade.

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2.2 Expressões da barbárie: fanatismos e fundamentalismos religiosos e de mercado

Perseguições, pilhagens, práticas segregadoras de extrema violência, de extermínio e suicídios coletivos marcam as várias formas de fanatismos e fun‑ damentalismos no interior da luta de classes, ou seja, na história da humanida‑ de. O fundamento comum desses fenômenos, consideradas as particularidades históricas, sintetiza a articulação material de crises de dominação e formas de consciência irracionais.

O fundamentalismo religioso, por exemplo, comumente associado ao is‑ lamismo pelas elites dominantes, especialmente após 11 de setembro de 2001, 8 pode ser identificado em vários episódios históricos amplamente conhecidos, tanto na Idade Média como na contemporaneidade.

As cruzadas cristãs, “expedições militares‑religiosas medievais”, desde sua primeira edição, em 1095, foram convocadas por papas e sempre conjuga‑ ram motivações religiosas e interesses econômicos e políticos visando a domi‑ nação. Foram consideradas como guerras justas, inclusive na teologia de Santo Agostinho.

As guerras santas, tanto cristãs como muçulmanas, encontraram na crise de dominação seu fundamento material e no irracionalismo sua forma de consciência. Religião e irracionalismo partem do solo comum da transcendên‑ cia como princípio regulador da vida. Ou seja, um princípio incognoscível que, portanto, escapa aos domínios da razão.

Lukács, 9 no conjunto de sua monumental produção intelectual, dedicou importantes reflexões à crítica do irracionalismo e do comportamento religioso, identificando na transcendência um princípio que ignora a base ontológica material que fundamenta o ser social e institui formas de consciência que levam à intolerância.

8. Data do ataque da organização Al‑Qaeda aos Estados Unidos da América. Dois aviões comerciais

sequestrados pela organização atingiram as torres do World Trade Center, em Nova York, um terceiro atingiu

o

Pentágono e um quarto avião se dirigia à Casa Branca e supostamente caiu pela intervenção de passageiros

e

tripulantes.

9. Para Netto, em sua obra A destruição da razão, Lukács se dedica ao confronto das vertentes

irracionalistas, considerando‑as opositoras exclusivas do materialismo histórico e dialético. Somente na Ontologia considera os riscos do racionalismo formal das vertentes neopositivistas (Lukács, 1968).

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A ênfase religiosa se orienta pois a algo transcendente por princípio […] entre o homem inteiro concreto e o objeto de sua intenção religiosa se introduz uma transcendência principal; não o mero desconhecido, senão algo por princípio in‑ cognoscível — com os meios normais da vida — que pode, contudo, converter‑se em íntima convicção do homem mediante um correto comportamento religioso. (Lukács, 1966, p. 124)

O princípio transcendente é sustentado pela atitude de fé sobre verdades reveladas, superiores e absolutas que determinam toda a vida,

a fé não é nesse caso opinar, um estágio prévio do saber, um saber imperfei‑ to, ainda não verificado, senão, ao contrário, um comportamento que abre — o

solo — o acesso aos fatos e as verdades da religião [

[

]

]

que abarca o homem in‑

teiro e o consuma de um modo universal […]. Os fatos estão garantidos por uma

superior revelação, e esta prescreve também o modo como reagir a eles.

A transcendência obstaculiza o conhecimento racional e, nesse sentido, esvazia o fundamento ontológico material de toda atividade humana, abrindo espaço para incertezas consideradas intransponíveis e experiências históricas que favorecem práticas fanáticas e fundamentalistas.

Ainda no plano religioso, podemos lembrar outras faces do fanatismo: a caça às bruxas durante o período inquisidor da Igreja Católica na Idade Média, que fez da mulher sua principal vítima, mas também voltou‑se contra práticas, tradições e conhecimentos divergentes das “verdades” religiosas professadas pelo cristianismo, atingindo minorias étnicas, alquimistas, cientistas e artistas. 10 Seitas contemporâneas no mundo ocidental também revelam a face do fanatis‑ mo e são analisadas por Camargo, 11 como o Templo do Povo, liderado pelo “reverendo” Jim Jones, que em 1978, na Guiana, levou à morte — por envene‑ namento ou assassinato dos que se recusaram a beber o veneno — 913 pessoas, dentre elas 275 crianças e doze bebês. Camargo também analisa o final trágico

10. Neto, José Alves de Freitas. Caça às bruxas. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.). Faces do fanatismo.

São Paulo: Contexto, 2004. p. 49‑60.

11. Camargo, C. No reino das trevas. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.). Faces do fanatismo. São

Paulo: Contexto, 2004. p. 61‑75.

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da liderança de Vernon Howell (que mudou o nome para David Koresh) da Igreja Davidiana, que resultou, em abril de 1993, na morte de 87 pessoas, entre elas Howell e 25 crianças. Em 1994, três incêndios, dois em vilarejos da Suíça e um no Canadá, vitimaram cerca de 53 pessoas, incluindo crianças. Todos foram associados à seita Templo Solar, liderada pelo médico Luc Jouret.

Na contemporaneidade, o extremismo muçulmano torna‑se emblemáti‑ co tanto pela violência de seus vários grupos quanto pelo uso ideológico de uma imagem exclusiva do terror que oculta as mazelas provocadas ou ali‑ mentadas pelo fundamentalismo de mercado do Ocidente. Demant, 12 ao analisar o fundamentalismo islâmico, considera-o como uma forma particular de fanatismo contemporâneo que não expressa a totalidade histórica do isla‑ mismo — ecumênica na maior parte de sua trajetória — e que revela traços comuns “com outros movimentos totalitários que cresceram e se desenvol‑ veram com a modernidade, mas que lutam contra ela”. 13 Para esse autor, o fanatismo islâmico se aproxima de outros movimentos autoritários antimo‑ dernos que “apresentam projetos de uma nova engenharia social, que conde‑ na os rumos tomados pela modernidade”. 14

O islamismo, equivocadamente, é associado à práticas terroristas e extre‑ mistas, especialmente após o 11 de setembro. Segundo Chaui, “depois dessa data, islamismo e barbárie identificaram-se e a satanização do bárbaro conso‑ lidou‑se numa imagem universalmente aceita e inquestionável. Fundamentalis‑ mo religioso, atraso, alteridade e exterioridade cristalizaram a nova figura da barbárie e, com ela, o cimento social e político trazido pelo medo”. 15

Essa associação, islamismo e barbárie, foi amplamente divulgada pela mídia após a reação do governo estadunidense que “decretou” a existência de um eixo do mal e declarou guerra ao terror. As respostas do governo norte‑ ‑americano de George W. Bush ao atentado de 11 de setembro incluíram: in‑ vasão ao Afeganistão, em ataque ao Talibã, organização que teria abrigado

12. Demant, P. A escorregada rumo ao extremismo muçulmano. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.).

Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 16‑31.

13. Ibidem, p. 23.

14. Ibidem, p. 23.

15. Chaui, M. Fundamentalismo religioso: a questão do poder teológico‑político. Disponível em: <http://

bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/filopolconbr/Chaui.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2013.

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integrantes do Al-Qaeda, recrudescimento da vigilância interna sobre os imi‑ grantes; rigidez para conceder vistos de entrada a estrangeiros aos Estados Unidos da América e a publicação da lei de 2001, conhecida como Patriot Act, que visa “unir e fortalecer a América, fornecendo instrumentos apropriados

requeridos para interceptar e obstruir o terrorismo” e autoriza o governo esta‑ dunidense a realizar “invasão de lares, a espionagem de cidadão, interrogatórios

e torturas de possíveis suspeitos de espionagem ou terrorismo, sem direito a defesa ou julgamento”. 16

As intervenções e cooperações militares lideradas pelos Estados Unidos no imediato pós‑Segunda Guerra, contexto no qual essa potência assume hege‑ monia mundial, sempre foram legitimadas pela defesa abstrata da democracia

e dos direitos humanos, ocultando interesses econômicos e políticos de domi‑

nação e contrarrevolucionários, cujas experiências mais dramáticas podem ser exemplificadas pelo apoio econômico, político e técnico às ditaduras empresa‑ rial‑militares que assombraram os países latino‑americanos por mais de duas décadas; financiamento de guerras civis e ações terroristas na África e no Oriente Médio; intervenções militares na América Central; expansão de bases militares norte‑americanas em vários continentes; embargos diplomáticos e econômicos a inúmeros países que resistiam à sua intervenção imperialista. 17

No contexto da Guerra Fria, que polarizara o mundo em nações socialistas

e capitalistas, tais intervenções e cooperações militares norte‑americanas eram

alimentadas ideologicamente pela iminência de uma terceira grande guerra mundial e pela defesa das chamadas liberdades individuais e democráticas fundadas no American way of life, ou seja, no “livre” comércio de mercadorias. A guerra armamentista dava sustentação material à luta ideológica entre as nações consideradas democráticas (capitalistas) e as autoritárias (socialistas), além de alimentar a acumulação privada de capital das indústrias armamentis‑ tas num contexto de crise estrutural. A polarização provocava uma tensão permanente entre as duas grandes potências mundiais (Estados Unidos e União

16. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/USA_PATRIOT_Act>. Para uma análise acurada dessa lei, consultar Teixeira Jr. (2011).

17. Sobre o novo imperialismo, ver Havey, D. O “novo” imperialismo: acumulação por espoliação. Disponível em: <http://biblioteca.clacso.edu.ar/ar/libros/social/2004pt/05_harvey.pdf>. Acesso em: out. 2013.

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Soviética) e ao mesmo tempo um equilíbrio de forças na disputa pelo controle econômico e ideológico de ex‑colônias tornadas independentes e de grupos étnicos situados fora dos limites continentais de suas dominações.

Com o fim da Guerra Fria e do socialismo soviético, os limites externos às intervenções militares praticadas ou lideradas pelos Estados Unidos foram afrouxados, favorecendo a prática de guerra como mediação privilegiada para solução de conflitos. A primeira guerra do Golfo, invasão do Iraque em 1990 pelas forças de coalização lideradas pelos Estados Unidos e Grã‑Bre‑ tanha, é um dos símbolos de ostentação da supremacia estadunidense na condução de intervenções militares, tanto que a operação, conhecida como Tempestade no Deserto, foi televisionada pela rede CNN. Do mesmo modo, tal supremacia pode ser identificada nas intervenções da Otan, coordenadas pelos Estados Unidos, na Sérvia e na Bósnia, sem anuência do Conselho de Segurança da ONU.

Após o 11 de setembro, a intervenção militar dos Estados Unidos em vários países (Afeganistão, 2001; Iraque, 2003; Líbia, 2012) permanece fiel à defesa abstrata da democracia e dos direitos humanos, ocultando interesses econômi‑ cos e políticos, mas ganhando novos conteúdos em torno da Guerra ao Terror, que inclui a eliminação de grupos extremistas e a manutenção da guerra às drogas. Desse modo, voltam‑se especialmente para as regiões com grandes reservas minerais (petróleo e gás, por exemplo), cuja justificativa sustenta-se no combate ao terrorismo (grupos islâmicos em especial), na instabilidade do Estado que ameaça a democracia (regiões produtoras de substâncias psicoativas condenadas pela ideologia de guerra às drogas), na “restauração” da democra‑ cia, com tentativas ou golpes parlamentares apoiadas pelo Pentágono, nos países nos quais governos de orientação socialista foram eleitos pelas urnas (Venezuela, Honduras, Paraguai e Bolívia) e em defesa dos direitos humanos em face da ameaça de armas de destruição em massa (segunda guerra do Golfo, cuja intervenção se manteve de 2003 a 2011, e ameaças de invasão à Coreia do Norte e Irã, por exemplo).

Essas referências às formas da dominação estadunidense visam tomá‑las como expressões particulares de uma totalidade mais ampla que coloca as bases para várias expressões do fundamentalismo, tanto religioso quanto de mercado.

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Num belíssimo artigo, Chaui 18 analisa como o contexto da chamada “pós‑ ‑modernidade” abre espaço para um fundamento teológico‑político que também se alimenta da interdição do espaço público às expressões religiosas feita pela modernidade. Baseada nas análises de Harvey 19 sobre a compressão espaço‑ ‑tempo produzida pela acumulação flexível do capital, Chaui analisa o signifi‑ cado histórico das experiências fundadas na contingência.

Volátil e efêmera, hoje nossa experiência desconhece qualquer sentido de conti‑

nuidade e se esgota num presente vivido como instante fugaz. Essa situação [

leva ao abandono de qualquer laço com o possível e ao elogio da contingência e

de sua incerteza essencial. O contingente não é percebido como uma indetermi‑ nação que a ação humana poderia determinar, mas como o modo de ser dos homens, das coisas e dos acontecimentos. (2006, p. 127‑128)

]

Tal situação, para a autora, não “está separada da crise do socialismo e do pensamento de esquerda, isto é, do enfraquecimento da ideia de emancipação do gênero humano” (Idem, p. 127). A combinação de determinações econômi‑ cas, políticas e ideológicas que favorecem a hegemonia do Estado neoliberal cooperam para o encolhimento do espaço público e alargamento do espaço privado, contribuindo para a despolitização e para o fortalecimento tanto da transcendência divina quanto da autoridade política.

Para Chaui, o ressurgimento do fundamentalismo religioso resulta da secularização moderna, do mercado pós‑moderno, do Estado neoliberal e da condição de insegurança, “na qual o medo do efêmero leva à busca do eterno”. Em suas análises sobre o ressurgimento do fundamentalismo religioso, Chaui recupera elementos importantes da crítica marxista à religião que, ao contrário das demais formulações modernas, não se restringe à constatação de seu cará‑ ter alienante, o “ópio do povo”, mas se dirige ao fundamento que a mantém como necessidade. “Em outras palavras, Marx esperava que a ação política do proletariado nascesse de uma outra lógica que não fosse a supressão imediata

18. Chaui, M. Fundamentalismo religioso: a questão do poder teológico‑político. Disponível em: <http://

bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/filopolconbr/Chaui.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2013.

19. Harvey, D. A condição pós‑moderna. São Paulo: Loyola, 1992.

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da religiosidade, mas sua compreensão e superação dialética, portanto, um processo tecido com mediações necessárias” 20

Em suas análises, a privatização do espaço público, sustentadas pela ló‑ gica do mercado, pelo Estado neoliberal e pela intervenção dos megaorganis‑ mos econômicos privados nas decisões dos governos, resultam na despolitiza‑ ção e na ideologia da competência, “segundo a qual, os que possuem determinados conhecimentos têm o direito natural de mandar e comandar os demais em todas as esferas da existência” (p. 131).

Para Chaui, a articulação desses elementos revela os riscos do fim da po‑ lítica e contribuem para a proximidade entre fundamentalismo religioso e de mercado,“a transcendência da competência técnica corresponde à transcendên‑ cia da mensagem divina a alguns eleitos ou iniciados, e não temos por que nos surpreender com o entrecruzamento entre o fundamentalismo do mercado e o fundamentalismo religioso” (Idem).

A nosso ver, esses elementos analíticos se aproximam de nossa discussão sobre a articulação entre crise de dominação e irracionalismo, 21 permitindo a apreensão dos fundamentos materiais que contribuem para as várias formas de fanatismos e fundamentalismos que, sob diversos matizes, se proliferam na contemporaneidade e colocam em risco o projeto civilizatório da modernidade. Muitas dessas tendências, como veremos a seguir, colocam‑se no campo polí‑ tico da extrema‑direita.

3. Tendências contemporâneas da extrema-direita

Há inúmeras expressões da extrema‑direita na contemporaneidade. Algumas organizadas em partidos, outras em associações ou grupos e muitas pulverizadas em práticas violentas não autorais dirigidas a imigrantes, negros, homossexuais e, no caso do Brasil, também a nortistas e nordestinos.

20. Ibidem, p. 129.

21. Ver também Lukács (2009).

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A tendência predominante nesses grupos, inclusive entre formadores de

opinião que se autointitulam independentes e compartilham de convicções e valores situados no campo ideológico da extrema‑direita, é de recusa dessa denominação, dada a vinculação histórica desse campo com o nazifascismo e com a decorrente conotação racista e antissemita. No entanto, suas formulações são reveladoras do campo político no qual se situam.

O recorte que realizamos não abrange a magnitude dessa realidade, nem

em escala mundial tampouco entre nós, mas permite assegurar sua visibilidade que tanto nos preocupa quanto nos desafia.

No caso do Brasil, além das tendências contemporâneas, nos detivemos na história da Ação Integralista e da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). A primeira por sua explícita vinculação com o fascismo italiano e a segunda por sua emergência no contexto do golpe empre‑ sarial‑militar de 1964 como uma das expressões de direita que deram sustenta‑ ção ao golpe.

3.1 A extrema-direita no Brasil

AçãoIntegralista 22

O pensamento integralista foi gestado no contexto político‑cultural da

década de 1920. Em 1926, Plínio Salgado, principal líder integralista, lançou seu primeiro romance: O estrangeiro, no qual já delineava um projeto político para o Brasil. Plínio teve seu pensamento político influenciado pelo fascismo

italiano. A Ação Integralista Brasileira (AIB) surge em 1932, com o lançamen‑ to do Manifesto de Outubro, documento cujo conteúdo expressa os ideários fascistas que nortearam ideologicamente o movimento.

22. A síntese realizada sobre o integralismo foi baseada nas informações disponíveis especialmente em:

<http://www.tempopresente.org/>. Acesso em: 23 out. 2013; <http://integralismohistoriaedoutrina.blogspot. com.br/2012/05/concepcao-integralista-da-sociedade.html>. Estudos sistemáticos podem ser encontrados no mateiral disponibilizado pelo Grupo de Estudos de Integralismo (Geint) e outros movimentos nacionalistas. Disponível em: <http://historiaedireita.blogspot.com.br/>. Acesso em: 23 out. 2013.

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No mesmo ano, Plínio Salgado foi redator do jornal A Razão, veículo por intermédio do qual buscou ativar a consciência dos meios políticos e intelectuais em relação à crise econômica e política desencadeada na década de 1930. Fundou a Sociedade de Estudos Políticos que ficou conhecida como a antecâmara da AIB.

Durante sua atuação na década de 1930, a AIB aglutinou uma militância estimada entre 500 mil e 800 mil pessoas, e dentre os denominados camisas‑ ‑verdes (uniforme integralista) destacaram‑se: Miguel Reale (jurista e escritor), Gustavo Barroso (romancista e presidente da Academia Brasileira de Letras) e dom Hélder Câmara, que posteriormente se aproximou da esquerda.

A trajetória da AIB, que surge como um movimento de caráter “cívico‑

‑cultural”, é marcada por mudanças, uma das quais é a formação do Partido Ação Integralista, criado após deliberações do II Congresso Integralista, reali‑ zado em 1935, em Santa Catarina.

A criação do partido demonstrava a força e o crescimento do integralismo

no país. Segundo Neto, era a maior organização fascista fora da Europa e tinha

o

objetivo de chegar ao poder através da democracia.

Os integralistas se aliaram a Getúlio Vargas e apoiaram o golpe que levou

à

constituição do Estado Novo. A intenção era efetivar um prévio acordo entre

o

chefe estatal e os líderes integralistas, pois visualizavam possibilidades de

inserção ideológica dentro do futuro regime. Entretanto, após a consumação do golpe, o partido foi posto na ilegalidade.

A primeira tentativa de reorganização da AIB foi a criação da Associação

Brasileira de Cultura (ABC), que visava o retorno às origens não partidárias do integralismo, de caráter “cívico‑cultural”, no entanto, a empreitada também não garantiu legitimidade perante o Estado Novo. Na ocasião, alguns militantes abandonaram as camisas‑verdes e se aliaram ao governo federal. A liderança integralista oscilava entre tentativas de aproximação ao governo, numa pers‑ pectiva de barganha, e críticas públicas contra a traição de Getúlio. Do mesmo modo, surgiam iniciativas que pleiteavam o efetivo rompimento entre remanes‑ centes integralistas e o governo federal.

Em 1938, aliados a setores políticos diversos, entre eles liberais, os mili‑

tantes integralistas tentaram tomar de assalto o Palácio da Guanabara, visando

a derrubada de Getúlio, o que, consequentemente, poderia proporcionar uma

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investida integralista sobre o poder. A tentativa fracassou, e o Estado Novo reprimiu o movimento, com ações que variaram entre apreensão de materiais, prisão de militantes e uma pressão exercida sobre Plínio Salgado, que foi for‑ çado a exilar‑se em Portugal.

Durante o exílio de Plínio Salgado formou‑se o Partido de Representação Popular (PRP), que inicialmente pretendia se desvincular dos movimentos fascistas da década de 1930, especialmente pelo contexto mundial do segundo pós‑Guerra, que impunha limites às manifestações ideológicas análogas à tira‑ nia do fascismo internacional. Esse abandono dos referenciais originários do integralismo (símbolos, uniformes, organizações internas ou mesmo festivas) não foi bem-visto por uma parcela da militância, gerando, inclusive, proposta de rompimento e a criação de um partido genuinamente integralista.

Ao retornar do exílio, Plínio Salgado assumiu a presidência do PRP, cuja trajetória foi marcada por constantes tentativas de retomar alguns pressupostos integralistas originários, ao mesmo tempo em que havia a necessidade de se articular com a dinâmica partidária do segundo pós-Guerra. Mantiveram o sigma como símbolo do partido e alguns cerimoniais semelhantes aos existen‑ tes na década de 1930.

Durante a primeira metade da década de 1960, a ação integralista teve atuação partidária ou em organizações sob o controle e influência de Plínio Salgado. Assim ocorreu com as Confederações Culturais da Juventude (CCJ), cujo objetivo era a formação intelectual da juventude, os águias brancas.

Plínio Salgado e diversos integrantes do PRP apoiaram o golpe empresa‑ rial‑militar de 1964 no Brasil. Naquele contexto, o chefe integralista foi um fervoroso orador da “Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade”, realiza‑ da em São Paulo, em março de 1964. 23 Após o golpe, o PRP foi extinto, assim como vários outros partidos. Entretanto, Plínio e outros militantes integralistas fizeram parte do governo ditatorial. Plínio foi nomeado deputado federal pela Aliança Renovadora Nacional (Arena).

23. Atestando a importância desse debate, lembramos que após a realização do seminário que deu origem a este ensaio, em 31 de março de 2014, cinquentenário do golpe empresarial‑militar no Brasil, grupos de extrema‑direita reeditaram em várias cidades brasileiras a “Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade”. Ver reportagem “A direita sai do armário” (Caros Amigos, ano XVII, n. 205, 2014).

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Com a morte de Plínio Salgado, em 1975, houve uma fragmentação entre os integralistas. Abriu‑se espaço para disputas internas — evidenciadas desde a criação do PRP, no entanto, acomodadas na figura do líder — entre a busca da herança do legado de Salgado e as alianças partidárias. Surge, assim, o neointe‑ gralismo. Nesse contexto, a atuação dos integralistas não almejava ambições partidárias, em função do próprio contexto político do final da década de 1970. Desse modo, optaram por manter viva a memória de Plínio Salgado. Com esse objetivo, fundaram o jornal Renovação Nacional — criado por Jader Medeiros, bem como fundações, associações culturais e espaços de conservação da memó‑ ria, como a Casa Plínio Salgado, criada em 1981 na cidade de São Paulo.

A conjuntura política de 1984, marcada pela campanha das Diretas Já, abriu possibilidades para a reorganização de um partido integralista. A emprei‑ tada foi encabeçada por Anésio de Lara Campos Jr., membro do antigo PRP e criador da Ação Nacionalista Brasileira (ANB). No entanto, foi um movimento efêmero, que se extinguiu em 1985, mesmo ano em que Anésio registrou a AIB em seu nome. Essa iniciativa, somada às aproximações de Anésio ao Partido de Ação Nacionalista (PAN) (efêmero), ao movimento dos Carecas do Subúrbio e a outros grupos neonazistas, foram fatores que contribuíram para impedir a formação de um novo partido integralista.

Após a morte de Plínio Salgado, houve uma fragmentação dos grupos integralistas, pois não havia uma unidade programática que acomodasse todos os neointegralistas. A primeira tentativa dessa articulação ocorreu no I Congresso Integralista do século XXI, realizado em São Paulo, em 2004. Esse congresso contou com o apoio dos simpatizantes da TFP, da União Nacionalista Demo‑ crática e da União Católica Democrática. Na ocasião, foi criado o Movimento Integralista Brasileiro (MIB), entretanto, não conseguiram registrar a sigla em cartório, pois Anésio Lara, que participara desse evento, já havia registrado anteriormente a sigla em seu nome, sem comunicar aos demais. Uma vez mais fracassou a tentativa de unificação.

Essa tentativa frustrada abriu caminho para a criação de três grupos. A Frente Integralista Brasileira, criada para manter o integralismo dos anos 1930, preservando seus símbolos e doutrinas. Embora não apresentasse aspirações partidárias, aproxima-se, por exemplo, do Partido de Reedificação Nacional

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(Prona). O Movimento Integralista e Linearista (MIL‑B) também visa a atuali‑ zação da ideologia integralista da década de 1930. Para isso recorre às análises de autores integralistas e antissemitas. Posiciona‑se contra os partidos políticos e a liberal democracia. Afirma, inclusive, que a democracia é uma farsa que contribui para manter a opressão dos povos. AAção Integralista Revolucionária (AIR), que tem uma posição “extremamente crítica” em relação ao sistema partidário, inclusive às propostas do período de Plínio Salgado. Considera que a essência do integralismo pode ser encontrada entre os anos 1932 e 1935. Defende uma revolução interior nos costumes, espiritualistas, o que seria um caminho ideal a ser perseguido para uma atuação integralista revolucionária do século XXI.

Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) 24

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade é

uma associação civil fundada em 1960. Seu fundador e líder espiritual, Plínio Côrrea de Oliveira é venerado por seus membros.

A TFP tem por fim combater a maré-montante do socialismo e do comu

Assim, a TFP — entre

os diversos modos necessários que há para combater o comunismo — se dedi‑ ca primordialmente à ação ideológica.

A ação ideológica envolve a venda de livros e oferta de cursos que são

destinados a combater a filosofia materialista e evolucionista dos comunistas, bem como a sociologia, a economia e a cultura decorrentes dessa perspectiva.

Fundamenta-se na filosofia de Santo Tomás de Aquino e nas encíclicas papais, na defesa de valores considerados naturais e que afirmam de forma positiva a Tradição, a Família e a Propriedade. Referências que dão nome a entidade.

A defesa da tradição por parte de seus integrantes está associada a noção

de que “o verdadeiro progresso não é destruir, mas somar, não é romper, mas

nismo, dois sistemas que reputamos afins entre si. [

].

24. A síntese apresentada sobre a TFP foi organizada com base nas informações disponíveis em: <http:// www.tfp.org.br/>. Acesso em: 23 out. 2013.

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continuar para o alto. [

]

Visa impedir que o progresso se torne desumano,

odioso”. 25 Defendem que “a família gera necessariamente a tradição e a hierarquia social. Depauperar e enfraquecer a família destrói a cultura e a civilização im‑ pregnadas de tradições cristãs”. 26 Assim, para os membros dessa entidade, a

família é a base que mantém a tradição viva. Portanto, são contrários ao divórcio.

A propriedade é considerada um direito natural, inerente à essência huma‑ na: “o fundamento da propriedade está na própria natureza do ser humano. Os direitos à liberdade, ao trabalho e ao fruto de seu trabalho, isto é, à propriedade nascem da essência do homem”. 27 Posicionam‑se claramente contrários à refor‑ ma agrária.

A TFP prega que só pela verdade ensinada pela Igreja (é a única) é possí‑ vel construir uma autêntica civilização. Os princípios, objetivos e documentos públicos veiculados pela entidade explicitam concepções nacionalistas e exclu‑ dentes, marcadas pelo anticomunismo, antissocialismo e antiliberalismo. Seu surgimento está ligado à obra Revolução e Contrarrevolução, de Plínio Côrrea de Oliveira, que, em linhas gerais, defende que a revolução (liberal e comunis‑ ta) está voltada para destruição da Igreja Católica. Por seu turno, a contrarre‑ volução se coloca em defesa da Igreja, preservando seus valores tradicionais, num conservadorismo radical e antimoderno.

Apesar das simetrias existentes entre as novas organizações integralistas, a TFP e o campo ideológico da extrema‑direita, essas entidades não se consi‑ deram integrantes desse campo político.

Outros grupos de extrema-direita no Brasil contemporâneo

No Brasil, os grupos neonazistas surgem na década de 1980, especialmente em São Paulo, num contexto no qual “o país passava por um processo de trans‑ formação da classe operária, do crescimento dos movimentos sindicais, em meio

25. Disponível em: <http://www.tfp.org.br/>. Acesso em: 23 out. 2013

26. Idem.

27. Idem.

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à reabertura política, anistia e a redemocratização” (Andrade, 2013, p. 75). Nesse

contexto de efervescência política e influenciado pelo punk londrino, que vivia uma new wave (nova onda), surgem Os Carecas do Subúrbio como oposição ao punk considerado comercial. Seus idealizadores criam uma ala radical do punk que procura se distanciar de sua referência inspiradora para compor, na sua visão, um movimento sério e nacionalista com o lema “União, Força e Seriedade”.

Os integrantes dos Carecas do Subúrbio eram oriundos das camadas em‑ pobrecidas da classe trabalhadora; a grande maioria provinha da Zona Leste de São Paulo, naquele contexto uma área industrial. De acordo com Almeida (2011), os Carecas se definiam como “jovens conscientes e não alienados, fortes de corpo, puros de mente e com o intuito de formar um exército para salvar o Brasil dos políticos corruptos e das multinacionais”. Defendiam a ideia de “um movimento sério, um estilo de vida, um movimento de trabalhadores, de brasi‑ leiros, sem negócio de fora, de gente que mora nos subúrbios”. Nesse momen‑ to, apesar de recusarem influências externas, os carecas se aproximam e se identificam com o movimento skinhead dos ingleses.

Em sua origem, esse movimento era composto por diferentes etnias, não partilhava do conceito de segregação e/ou preconceito racial, não incorporava

simbologia nazista. A ideologia era baseada em princípios como o culto ao físico, 28

a prática da defesa pessoal e era contrária à utilização de drogas. Segundo An‑ drade, esses são os traços mais marcantes na origem do movimento no Brasil.

Uma parte dos Carecas se aproxima das ideias neonazistas e passa a utili‑ zar seus símbolos, cindindo o movimento, já que alguns membros não aceitavam

a segregação racial em face da diversidade étnico‑racial brasileira. Surge, assim, um grupo dissidente, os Carecas do ABC, um movimento de extrema‑direita identificado com a ideologia nazista.

A mudança ideológica desse grupo influenciará o aparecimento de outros grupos de extrema‑direita pelo Brasil, principalmente no Sul do país. As ideias neonazistas são incorporadas por parte desses grupos que aderem a linha de pensamento da White Power (Força Branca), que tem como características o

28. De acordo com Ana Maria Dietrich (2011), o culto ao físico é um dos preceitos básicos da juventude hitlerista (Dietrich. A. M. Juventude nazista e neonazista no Brasil: objetivos e perspectivas. In: Victor, R. L. (Org.). À direita da direita. Goiânia: Ed. da PUC-Goiás, 2011).

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ultrarracismo e atua como uma “irmandade”. O primeiro grupo dessa corrente surgiu em São Paulo e ficou conhecido como Skinheads White Power.

A partir dos anos 1990 há um crescimento desses grupos no Brasil. Pes‑ quisa realizada por Dias revela que de 2002 a 2009 o número de sites que veiculam informações de conteúdo neonazista subiu 170%, saltando de 7.600 para 20.502. No mesmo período, os comentários em fóruns sobre o tema cres‑ ceram 42.585%. Nas redes sociais, os dados são igualmente assustadores. Existem comunidades neonazistas, antissemitas e negacionistas 29 em 91% das 250 redes sociais analisadas pela antropóloga. E nos últimos nove anos o nú‑ mero de blogs sobre o assunto cresceu mais de 550%. 30

Segundo Dias, aproximadamente 150 mil brasileiros visitam mensal‑ mente mais de cem páginas com conteúdos nazistas ou realizam mais de cem downloads. 31 Desses, 15 mil são tidos como líderes e coordenam as incitações de ódio na internet. A pesquisa aponta os estados brasileiros com maior nú‑ mero de internautas que baixaram mais de cem arquivos de sítios neonazistas:

Minas Gerais (6 mil); Goiás (8 mil); Paraná (18 mil); São Paulo (29 mil); Rio Grande do Sul (42 mil); Santa Catarina (45 mil). A região Sul é a que mais concentra simpatizantes neonazistas. 32

Com base nesses dados, realizamos um breve levantamento na internet para caracterizar alguns movimentos de extrema-direita atuantes no Brasil. Identifi‑ camos oito deles: Kombat Rac; White Power SP; Front 88; 33 Ultra Defesa; Ultra Skins; Brigada Integralista; Resistência Nacionalista; Terror Hooligans. 34

29. As ideias negacionistas são resultado do negacionismo. Este é definido como a capacidade em negar algo que está aparente na realidade.

30. Disponível em: <http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/04/conheca‑o‑mapa‑neonazista‑no‑

brasil.html>. Acesso em: 20 out. 2013.

31. O número de acesso e de downloads realizados pelos visitantes foi o critério utilizado pela

pesquisadora para definir a identificação com o conteúdo divulgado.

32. Existe na região Sul do país o movimento separatista sulista chamado O Meu País É o Sul, cujo

objetivo é transformar a região em um país, separando‑se do Brasil.

33. O número 88 é uma forma simbólica que grupos nazista ou neonazistas utilizam para fazer

referência ao líder Adolf Hitler. O número 8 representa a oitava letra do alfabeto (H) e para eles significa “Heil Hitler!” (HH).

34. É um movimento neonazista inspirado nos torcedores do time Hooligans, que vão aos estádios

especialmente para entrar em conflito com torcedores de outros times.

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De forma ilustrativa, destacamos alguns elementos dos conteúdos dispo‑ nibilizados na internet por dois desses grupos: a Ultra Defesa e a Resistência Nacionalista.

A Ultra Defesa, de Mairinque, cidade do interior de São Paulo, de acordo

com o seu próprio site, 35 “é uma instituição social, política e reivindicatória de cunho nacionalista e patriota”. Defende a moral, e seus participantes são tidos como homens virtuosos e aguerridos que defendem os verdadeiros valores. Prezam a ordem e a disciplina. Utilizam a saudação romana, pois consideram que a antiga Roma é depositária da verdadeira e original tradição do Ocidente. Defendem “um Estado forte, espiritualista e transcendente”, “valores aristo‑ cráticos e guerreiros” de nossa formação cultural e uma “nação viril, coman‑ dada por uma verdadeira elite, virtuosa e viril”. Posicionam‑se abertamente contra o neoliberalismo, o aborto e a homossexualidade. Defendem as forças armadas, a harmonia entre as classes e a terceira via (um Estado espiritualista e transcendente).

A Ultra Defesa, conforme seu site, realiza reuniões semanais, atividades

culturais, esportivas e ministra palestras aos jovens com os seguintes conteúdos:

O crime do aborto, O mal das drogas, O respeito à família, Ordem e disciplina

na rua e no lar, Educação moral e cívica, O direito a propriedade, Direito a le‑ gitima defesa, Filosofia, História, Valorização do que é nacional, bem como outros assuntos pertinentes.

A Resistência Nacionalista 36 é um movimento/grupo que se autodefine

como de extrema‑direita e que recusa a identidade neonazista ou fascista. Con‑ sidera que por “acolherem nordestinos e negros”, segundo seu líder, não pode ser identificado com o nazifascismo. Afirma que o seu ideal é nacionalista e não étnico. Revela a pretensão de montar um partido conservador de direita, 37 pois de acordo com seus membros, vivemos numa ditadura de esquerda no Brasil.

O movimento defende a família e é contrário às drogas, ao aborto e à homos‑

sexualidade.

35. Disponível em: <http://ultradefesa.blogspot.com.br>. Acesso em: 20 out. 2013.

36. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=4xo-bRSE7GE>. Acesso em: 20 out. 2013.

37. O líder da Resistência Nacionalista, em depoimento disponível na internet, se refere ao filósofo,

jornalista e colunista Olavo de Carvalho como um de seus mentores intelectuais.

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Chama atenção a facilidade de acesso aos conteúdos disponibilizados por esses grupos na internet e a dificuldade de se obter informações mais detalhadas sobre seus membros, sedes e formas de funcionamento. Outro elemento que chama a atenção é que esses grupos não se assumem como nazistas ou fascistas.

Paxton, mesmo considerando a improvável reedição das características do fascismo clássico, afirma que na década de 1990 o fim do regime fascista foi posto em dúvida. Analisa a proliferação pelo mundo de uma série de grupos fragmentados de extrema‑direita com uma grande variedade de temas e práticas extremistas. E diz que o “medo da decadência e do declínio; afirmação da iden‑ tidade nacional e cultural; a ameaça à identidade nacional e à ordem social re‑ presentada pelos estrangeiros inassimiláveis; e a necessidade de uma autorida‑ de mais forte para lidar com esses problemas” (2007, p. 304), bem como ataques ao liberalismo e ao individualismo econômico, ao comunismo, às instituições democráticas, ao Estado de direito, o princípio da transcendência, devoção ao líder virtuoso e a defesa de uma suposta supremacia racial ou de grupos, são traços que podem ser encontrados explícita ou implicitamente nas ideias defen‑ didas por tais grupos.

Ao mesmo tempo que encontramos profundas simetrias com as ideologias fascistas e nazistas, encontramos também o esforço por parte de alguns desses grupos para se diferenciar desse campo ideológico. No entanto, como tendência geral nos grupos pesquisados, identificamos a demonização ou a ideia de eli‑ minação de algum inimigo externo, o anticomunismo e o antiliberalismo. São ultranacionalistas, e sua identidade se constrói em torno de uma liderança forte e de símbolos medievais, religiosos e nacionalistas.

Do ponto de vista ético e político, tanto os que defendem quanto a razão de sua existência merecem uma análise mais aprofundada na perspectiva de superação das condições que as favorecem.

3.2 A extrema-direita e o poder do Estado

Os elementos até aqui analisados permitem identificar que há movimentos, grupos e entidades de extrema‑direita muito próximos do campo ideológico do

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nazifascismo. Do mesmo modo, analisamos como o capitalismo contemporâneo apresenta traços de esgotamento do projeto civilizatório da ordem do capital. Discutimos também como as crises de dominação e o irracionalismo criam as condições para o florescimento de práticas fanáticas e fundamentalistas.

Considerando que na democracia burguesa o exercício do poder é realiza‑ do não apenas, mas hegemonicamente, no âmbito do Estado, pareceu-nos im‑ portante apresentar no cenário mundial, 38 ainda que brevemente, como vem ocorrendo o desempenho político dos partidos de extrema‑direita. 39

A ascensão dos atuais movimentos de extrema‑direita, principalmente na

Europa, não é episódica. Na verdade, essa ideologia nunca deixou de existir, mesmo após a derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial.

Na França, a extrema‑direita vem crescendo com o fortalecimento do Partido da Frente Nacional, fundado em 1972, por Jean Marine Le Pen, candi‑ dato derrotado por cinco vezes à presidência da República. A atual presidente do partido é sua filha, Marine Le Pen, que conseguiu triplicar o número de militantes (70 mil) e não aceita que o partido seja identificado como sendo de extrema-direita. A Frente Nacional influenciou a criação de novos partidos da extrema‑direita na Europa, em função de seu desempenho nas disputas eleitorais na década de 1980.

Sader destaca que Engels apontou este país como “o berço das grandes lutas emancipatórias contemporâneas”, mas que este ciclo se encerra na década de 1960, mais precisamente após as barricadas de 1968. Analisa mudanças na identidade política dos trabalhadores e constata que “a extrema‑direita passou a explorar, de forma intensa e efetiva, a imigração, incentivando as tendências chauvinistas e até mesmo racistas dos trabalhadores franceses”.

O jornalista argentino Eduardo Febbro, alerta que “a Frente Nacional

deixou de ser um partido de uma minoria para se converter no partido de todos:

jovens, trabalhadores, votantes comunistas, eleitores oriundos da direita clás‑ sica, do Partido Socialista, executivos e agricultores”.

38. As informações sobre os partidos de extrema‑direita na Europa foram sintetizadas a partir dos conteúdos de vários sítios da internet e de agências de notícias.

39. No momento de revisão deste ensaio, a Frente Nacional, extrema‑direita da França, ganhava as eleições para o Parlamento Europeu.

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A revista Caros Amigos 40 dedica duas páginas para análise do crescimen‑

to da Frente Nacional na França. Apresenta os traços de renovação do discurso do partido pela liderança de Marine Le Pen e dados sobre as preferências do eleitorado que favorecem o partido. O mote político desse desempenho é a questão da imigração, pois “mais de 95% dos eleitores da Frente Nacional acham que há estrangeiros demais no país”. Eduardo Cypel, brasileiro radicado na França, eleito deputado estadual em 2010, foi vítima de discriminação por parte de um deputado da Frente Nacional, o europeu Bruno Gollnisch.

A Grécia, mergulhada numa profunda crise recessiva que já dura seis anos,

tem sido cenário de ataques violentos contra imigrantes. Em 2013, o rapper Pavlos Fyssas, de 34 anos, ligado ao movimento antifascista de Atenas, foi morto a facadas. Muitas das violências praticadas contra imigrantes estão associadas aos membros do partido Aurora Dourada. O analista político Stan Draenos entende que as autoridades gregas têm sido negligentes na apuração

dos crimes. 41

O Partido Aurora Dourada, surge na década de 1980, com a queda dos par‑

tidos tradicionais, sobretudo do Partido Socialista. É um partido nazista, militar,

masculino, que comete assassinatos. Identificam como seus inimigos principal‑ mente os comunistas, além dos imigrantes. Seu líder Nikólaos Michaloliákos (56 anos), é um puro produto da ditadura de extrema‑direita (1967‑1974). Em entrevista ao Jornal O Globo, o Filósofo Grego Michel Vakaloulis afirma, que “o eleitorado da Aurora Dourada é muito popular” que “voltamos à lógica dos anos 30, com a crise econômica: na França, foi a emergência da Frente Popular, e na Alemanha, do nazismo. O fascismo não é uma fatalidade. É preciso acabar com ele”. 42

Em 2009 o Partido obteve 0,29% dos votos, três anos mais tarde elegeu dezoito deputados para o Parlamento grego, com 7% dos votos. Por outro lado

40. A extrema‑direita se populariza na França (2013, p. 32‑33).

41. Carta, G. Cidadãos gregos expressam sua opinião sobre o Aurora Dourada. Disponível em: <http://

www.esquerda.net/artigo/gr%C3%A9cia-aurora-dourada-outra-face-da-extrema-direita-europeia/28766>.

Acesso em: 26 out. 2013.

42. Berlinck, D. “Aurora Dourada é uma organização mafiosa”, diz filósofo grego. Disponível em:

<http://oglobo.globo.com/mundo/aurora-dourada-uma-organizacao-mafiosa-diz-filosofo-grego-1-10047712.

Acesso em: 27 out. 2013.

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os partidos tradicionais, os sociais democratas Pasok e a Nova Democracia (direita clássica) que tinham 77% dos eleitores, hoje tem somente 32%.

Na Holanda, o destaque no campo da extrema‑direita é o Partido da Li‑ berdade/PVV, fundado em 2006, cujo líder é Geert Wilders, xenófobo e anti‑ muçulmano. O partido considera a imigração muçulmana um desastre para a

economia, afetando também a qualidade da educação, aumentando a insegu‑ rança nas ruas, no que se refere aos judeus e homossexuais. O primeiro minis‑ tro Rutte ao se manifestar na Câmara, alegou que não interfere “nas posições particulares de nenhum partido”, o que significa que tem se eximido no com‑ bate de práticas da extrema‑direita, principalmente para manter seus apoios políticos. Em 2010, o Partido da Liberdade elegeu 25 deputados, ficando atrás apenas dos liberais (Mark Rutte), com 31 eleitos, e dos trabalhistas (Job Cohen), com trinta. O jornal Ouronews 43 destaca que “a crise econômica, a imigração e

o desemprego têm sido o objetivo principal das políticas de direita na Europa,

nestes últimos anos. Os resultados em nível regional e mesmo nacional progre‑ diram, mas nos parlamentos, principalmente no Parlamento europeu, a repre‑

sentação continua a ser baixa”. 44

Na Alemanha, destacam‑se dois partidos de extrema‑direita. O Partido

Nacional Democrata Alemão (NPD) e o partido A Direita. O NPD, fundado em 1964, é uma agremiação antissemita, xenófoba e racista. O Parlamento alemão

e o Conselho Federal pediram a cassação da sigla do NPD, a última em 2001, que, após dois anos, sofreu derrota judicial.

O partido A Direita foi criado em 2012, e seu nome é uma analogia ao partido alemão A Esquerda. Prega “preservação da identidade alemã” como um dos “pontos cruciais” da nova facção. Entre outras ideias, defende‑se que “a tolerância a estrangeiros que vivem permanentemente na Alemanha” deveria ser cessada”. É presidido por Christian Woch, que já pertenceu ao Partido do Povo Alemão (DVU) que se fundiu em 2011 ao NPD.

43. Partidos de direita unem‑se para fazer coligação para as eleições europeias. Disponível em: <http://

pt.euronews.com/2013/10/23/partidos-de-direita-unem-se-para-fazer-coligacao-para-as-eleices-europeias/>.

Acesso em: 28 out. 2013.

44. Quadro que já foi alterado. Ver nota 19.

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Na Hungria, a extrema‑direita é representada pelo Partido Jobbik, que surge em 2002 como uma associação juvenil de direita, criada por estudantes

universitários católicos e protestantes, em 2003 torna‑se partido, e, atualmente

é o terceiro maior no Parlamento. Naquele ano, houve a realização do Congres‑

so Mundial Judaico. A cidade de Budapeste foi escolhida diante da realidade de que 600 mil judeus foram mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Para protestar contra a realização do Congresso Judaico, cerca de mil apoiadores do Jobbik realizaram uma manifestação em Budapeste e segundo o líder do parti‑ do Gabor Vona: “Somos especiais na Europa não porque somos a maior nação antissemita, mas porque mesmo tendo toda a Europa a seus pés, mesmo que a Europa lhes lamba os pés, nós não o vamos fazer”.

Na avaliação de Peter Feldmajer, líder da Federação das Comunidades Judaicas da Hungria, “o fortalecimento do Jobbik é apenas um sintoma destas questões; o grande problema é que existe cerca de meio milhão de pessoas que apoiam a extrema‑direita e muitas mais aceitam a atitude negativa com os judeus”.

Na Itália de Mussolini, o partido Liga Norte foi criado em 1989, após a união de seis movimentos independentes, e desde 1996 defende a separação das regiões do Norte da Itália. Defende um Estado federativo. É contra a adoção de moeda única no Parlamento europeu. Coloca‑se como defensor das pequenas e médias empresas e contra os grandes capitalistas. Cria o Sindicato Autonomis‑ ta Lombardo, chamado depois de Sindicato Padano, com poucos filiados, que nunca teve muita expressão. Os votos da Liga são tanto dos patrões quanto dos operários.

O partido tem destacado a importância das empresas do Norte da Itália e

a produção de riquezas (vários operários hoje são patrões) e acusa o Sul de

parasitas e os imigrantes de ocuparem seus postos de trabalho, “no entanto, é

útil na fábrica para fazer os serviços mais pesados, mais sujos. A Liga dirige‑ ‑se aos trabalhadores nativos instigando sentimentos de ódio contra os imi‑ grantes e se posiciona sempre pela proteção da família constituída pelo homem

e pela mulher”.

O fundador e secretário do partido é Umberto Bossi, envolvido junto com seu filho em escândalos sobre financiamento público à Liga Norte. Nas

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eleições para o Parlamento na Itália em 2013, o centro esquerda ganha maio‑ ria na Câmara, mas Berlusconi ganha no Senado.

Matéria publicada em abril de 2012 trata da proximidade entre a Liga Norte e a Frente Nacional (França):

a amizade entre a Frente Nacional francesa e movimentos de extrema‑direita

na Itália é antiga. [

Mario Borghezio, em março de 2011 trouxe Marine Le Pen à ilha de Lampedusa,

], anunciou

que no próximo 1º de maio vai a Paris participar da manifestação da Frente Na‑ cional em homenagem a Joana D’Arc. 45

no sul da Itália, para um comício contra os imigrantes. Borghezio [

] [

um dos políticos mais extremistas e xenófobos da Itália,

]

Em junho de 2013 a vereadora da Liga Norte Dolores Valandro, pergunta no facebook: “Por que ninguém estupra essa mulher?”, 46 se referindo à ministra Cecile Kyenge, nascida na República do Congo, responsável pela pasta da In‑ tegração, que tenta implementar medidas aos imigrantes para acesso a cidadania.

Nossas breves incursões sobre o panorama dos partidos de extrema‑direi‑ ta em alguns países da Europa revelam tanto sua popularização, pelo crescente desempenho nas urnas, como profundas identidades com a ideologia nazifas‑ cista. Os inimigos desses partidos são os imigrantes de um modo geral, negros, muçulmanos e judeus em especial. A recusa ao comunismo também é uma constante em suas bandeiras, assim como a violência praticada por grupos a eles associados.

O cenário é assustador, mas como insistimos desde o início de nossa ex‑ posição, a mera constatação ou recusa ideológica não têm sido suficientes para frear o seu crescimento, o que revela a centralidade do tema para a agenda da esquerda.

A título de considerações finais, na última parte desse ensaio esboçamos algumas aproximações com o debate da ética e dos direitos humanos.

45. Marine Le Pen vira ídolo da extrema-direita italiana. Disponível em: <http://www.portugues.rfi.fr/ europa/20120427-marine-le-pen-vira-idolo-da-extrema-direita-italiana>. Acesso em: 28 out. 2013.

46. Carvalho, F. Por que estupra essa mulher. Disponível em: <http://180graus.com/politica/vereadora‑ italiana-fala-sobre-ministra-negra-por-que-ninguem-estupra-essa-mulher>. Acesso em: 28 out. 2013.

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Ética, direitoshumanoseaextrema-direita: consideraçõesfinais

O material com o qual tivemos contato nesse breve levantamento sobre os

matizes da extrema-direita no contexto contemporâneo revela que os valores, princípios e concepções de homem e sociedade defendidos pelos grupos que integram esse campo ideológico na atualidade utilizam o princípio da transcen‑ dência (irracional e sagrado) para justificar seus discursos e práticas em face de condições de profundas desigualdades, insatisfações, medo e insegurança.

Neste sentido, é possível afirmar que a base material que propicia formas de consciência irracionais permanece sendo em seus fundamentos uma crise de dominação, como ocorreu no período de ascensão do nazifascismo.

Embora haja uma recusa por parte dos grupos, movimentos e partidos de extrema‑direita ao ideário fascista e nazista, a aproximação de suas convicções e ações com esses fenômenos é latente.

Do ponto de vista da ética e dos direitos humanos, quais são os desafios postos pela existência e pelo crescimento da extrema‑direita? Desse mesmo ponto de vista, quais os riscos de ampliação do enraizamento político desse campo ideológico?

A sociabilidade burguesa coloca limites concretos para a realização da

ética e dos direitos humanos. O caráter desigual e opressor da ordem do capital

não assegura a igualdade e a emancipação. Ao contrário, reproduz de forma contraditória as mediações necessárias para sua manutenção.

No entanto, a realização tanto da ética quanto dos direitos humanos, em‑ bora suponham escolhas valorativas não alienadas e possibilidades objetivas, inscrevem‑se nas posições teleológicas e alternativas da práxis, uma vez que os indivíduos sociais são dotados — no sentido histórico —, ainda que de forma desigual, de capacidades humano‑genéricas que lhes confere potencialidades para superar as indeterminações postas pela totalidade social.

O espectro da extrema‑direita supõe um enfrentamento ético e político,

especialmente pela mediação de projetos coletivos capazes de enfrentar de forma autêntica as condições materiais que estão na base das expressões con‑ temporâneas da barbárie.

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A ética, uma modalidade de práxis, visa a transformação de comportamen‑ tos, formas de consciência e de valores que orientam as escolhas dos indivíduos sociais. Seu conteúdo histórico vincula-se às conquistas humanas que afirmam a liberdade como valor ético central e que orientam práticas concretas que, pela mediação da política, concretizam projetos de caráter humanitário e emancipa‑ dor. Os direitos humanos, considerados numa perspectiva histórica, assumem importância estratégica para a constituição da unidade na diversidade para formulação de tais projetos coletivos. O mesmo ocorre com valores conquista‑ dos no interior da luta de classes, como a democracia, a igualdade e a liberdade. Os direitos humanos e os valores éticos que expressam conquistas do gênero não perdem sua validade histórica, mesmo diante da barbárie. Permanecem como horizonte e referência para orientar as determinações da práxis.

No entanto, tal defesa não pode ser formal, abstrata, supõe a crítica con‑ tundente e radical sobre as determinações históricas que geram a desumanização. Envolve, portanto, uma crítica radical da ordem do capital e sua forma contem‑ porânea de produção da barbárie e a construção de estratégias coletivas para seu enfrentamento.

Outro desafio ético e na perspectiva dos direitos humanos é a crítica do cotidiano. A ultrapassagem da reificação do cotidiano contemporâneo é funda‑ mental para uma consciência crítica sobre as mediações particulares presentes em todos os poros da vida social que contribuem para reprodução ampliada da barbárie.

As expressões da extrema‑direita na atualidade encontram na crise estru‑ tural de acumulação do capital sua base material. A barbárie não é fruto de grupos desumanos em sua essência, mas de um modo de organização social que gera uma particular forma de essência humana.

A crítica teórica é um instrumento fundamental para superação da barbárie, mas torna‑se inócua se desvinculada da prática social e política. Por isso, insis‑ timos que entender e enfrentar o campo ideológico da extrema‑direita é uma agenda urgente para a esquerda.

Os desafios para enfrentar o enraizamento político do ideário de extrema‑ ‑direita são enormes. A favor da ideologia de extrema‑direita jogam um peso diferenciado toda a cultura pós‑moderna e neoliberal, com seus traços consti‑

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tutivos: efêmera, irracional, fragmentária, contingencial, negadora de valores universais, das formas clássicas de organização e participação política (sindi‑ catos, partidos, movimentos sociais), de militarização da vida social, de produ‑ ção da cultura do medo e da insegurança, de banalização da vida.

Vimos como os grupos de extrema‑direita se conectam pela rede virtual que favorece o anonimato e a ausência de controle social democrático. Cotidia‑ namente somos bombardeados pela mídia patronal com mensagens consumis‑ tas, individualistas, sensacionalistas, satanizadoras do Estado, das políticas sociais públicas, do espaço público, dos partidos e da política e sacralizadoras do mercado, do empreendedorismo, da celebridade, do intimismo, do subjeti‑ vismo fútil e rasteiro.

A televisão, os blogs, faces e páginas pessoais ou da mídia estão saturados de mensagens e filosofias que dão sustentação ideológica para o campo ideoló‑ gico da extrema‑direita. Os opositores de esquerda, os jovens, os pobres, os negros, mulheres e homossexuais são vandalizados, estigmatizados e caricatu‑ rados diariamente pela mídia patronal nos conteúdos de seus vários programas diários ou editoriais “jornalísticos”. A terceira via, tão propalada pela extrema‑ ‑direita, por meio dos formadores de opinião, reveste‑se de um humanismo abstrato cuja concretização aparece de forma oscilante pela mediação da trans‑ cendência religiosa ou do governante forte.

O projeto da extrema‑direita é alimentado por fundações, associações, institutos e grupos que articulam a chamada sociedade civil organizada, empre‑ sários e pensadores de ocasião, como é o caso de âncoras de jornal, comentaristas e filósofos profissionais que trabalham para a grande mídia patronal. Alguns se autointitulam independentes, vendendo livros e cursos. Pautam a vida social pelos seus interesses de classes. A barbárie que extermina só se torna informação de interesse público quando seu projeto está ameaçado. A barbárie do desem‑ prego, da falta de moradia, do agrotóxico nas nossas mesas, da degradação do meio ambiente, do trabalho escravo e infantil, da ação letal da polícia e das milícias nas periferias urbanas, dos coronéis nas zonas rurais, das privatizações, do sucateamento das políticas sociais não integram o conteúdo de suas análises.

Uma análise um pouco mais detida dos princípios, regimentos e documen‑ tos publicados pelas entidades e grupos de extrema-direita indica a afirmação

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do conservadorismo e de valores do humanismo abstrato: defesa da vida, da família, da paz social e da harmonia. No entanto, todos, sem exceção, defendem como direito natural a propriedade privada, que inclui os meios de produção obviamente, fundamento da desigualdade na ordem do capital. Indicam também traços xenofóbicos e segregadores, pois sempre identificam um outro como inimigo desses valores, em sua maioria comunistas, estrangeiros, imigrantes, negros e homossexuais. À mulher não é reservado nenhum papel ou lugar pú‑ blico e de liderança.

A mídia patronal e alguns agentes “independentes” cumprem um papel funcional à reprodução de visões que alimentam o campo ideológico da extre‑ ma‑direita. O poder de comunicação — a fala fácil, direta, pouco aprofundada, parcial e saturada de sensacionalismo explorador das mazelas cotidianas — tem grande receptividade num contexto social despolitizado e cindido entre os pro‑ jetos e aspirações individuais e genéricas. 47 A mensagem da extrema‑direita, embora faça referência a um nós, procura identificar na mazela comum da barbárie contemporânea aquilo que remete à profundidade do eu, aquilo que permite a identificação imediata entre os anseios, angústias, incertezas e medos produzidos pela realidade comum de todos, aqueles que são intimamente expe‑ rimentados por cada um.

O terror produzido pelo fundamentalismo religioso, pelo terrorismo, pelo narcotráfico, pela violência urbana e rural é dissociado do fundamentalismo de mercado, este último sequer considerado como real. Todos esses elementos aparecem no material analisado neste ensaio e colocam o desafio ético e polí‑ tico para sua profunda compreensão e enfrentamento.

Recebido em 9/5/2014

Aprovado em 2/6/2014

47. Dois episódios que ocorreram após a realização do seminário que baliza este ensaio merecem destaque: 1) as manifestações de apoio da jornalista Rachel Sheherazade do SBT, em fevereiro de 2014, aos “justiceiros do Flamengo” na cidade do Rio de Janeiro. O grupo espancou um jovem acusado de roubo e, posteriormente, o deixaram nu e preso a um poste, pelo pescoço, com uma trava de bicicleta; 2) em maio de 2014, Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi agredida até a morte por dezenas de moradores de uma comunidade na cidade do Guarujá, litoral de São Paulo, depois da publicação de um retrato falado em uma página no Facebook de uma mulher que realizava rituais de magia negra com crianças sequestradas.

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PolíticasocialeDireitosHumanossob

ojugoimperialdosEstadosUnidos

Social policies and human rights under the imperial rule of the United States

human rights under the imperial rule of the United States Potyara Amazoneida P. Pereira* Marcos César

Potyara Amazoneida P. Pereira* Marcos César Alves Siqueira**

Resumo: Este ensaio versa sobre ataques aos direitos humanos e à política social, apesar da força discursiva que, contemporaneamente, ambos passaram a ter. Tais agressões se acentuaram com o fim da bi‑ polaridade entre Estados Unidos (EUA) e ex‑União Soviética (URSS), no final dos anos 1980, com a autodissolução da URSS, em 1991, e com a transformação dos EUA em superpotência mundial. Contudo, ao se transformar, os Estados Unidos, em alvo de atos terroristas, su‑ postamente praticados por países pobres, a pobreza foi criminalizada e transformada em inimigo número um. Isso explica o desmonte dos direitos humanos, notadamente os sociais, e das políticas publicas que visam concretizá‑los.

Palavras‑chave: Política social. Direitos humanos. Imperialismo. Criminalização da pobreza.

Abstract: This article deals with the attacks to human rights and to social policies, in spite of their discursive power contemporarily. Such attacks were stressed by the end of the bipolarity between the United States (USA) and the ex‑Soviet Union (USSR) at the end of the 1980’s, by the USSR’s

* Professora titular e emérita do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB)/ Distrito Federal, Brasil. Vice‑coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social (Neppos), do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam) da UnB; pesquisadora do CNPq e líder do Grupo de Estudos Político‑Sociais (Politiza) do Programa de Pós‑graduação em Política Social da UnB, registrado no Diretório dos Grupos de Pesquisas do CNPq. E‑mail: potyamaz@gmail.com.

** Pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social (Neppos/Ceam/UnB); membro do Grupo de Estudos Politiza do Programa de Pós‑Graduação em Política Social (PPGPS) da UnB; mestre e doutorando em política social pelo PPGPS/UnB. E‑mail: mcasiqueira@gmail.com.

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self‑dissolution in 1991, and by the transformation of the USA into a world superpower. However, when the USA became target of terrorist attacks, supposedly committed by poor countries, poverty was criminalized and became enemy number one. That fact explains the disassembling of the human rights, mainly the social ones, and of the public policies which aim at implementing them.

Keywords: Social policy. Human rights. Imperialism. Criminalization of poverty.

Introdução

T ratar da temática conjugada da política social e dos direitos humanos

implica reconhecer que tal política e tais direitos estão seriamente

ameaçados, apesar da força discursiva que passaram a ter, desde o final

dos anos 1980, com o término da Guerra Fria e do socialismo real.

Com efeito, a partir dos anos 1990, generalizou‑se a ideia de que, com o fim da bipolaridade entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS), e com a autodissolução desta, o mundo viveria em paz, sob a hegemonia da de‑ mocracia liberal norte‑americana. No entanto, foi justamente a América do Norte, defensora das liberdades individuais, que, nas palavras de Loïc Wacquant (2006), se transformou na primeira sociedade de “insegurança avançada” da história — uma sociedade que “promoveu a insegurança como princípio de organização da vida coletiva e forma de regulação das trocas socioeconômicas e dos comportamentos individuais” (p. 23).

Para tanto, o modo de ser e de fazer negócios norte‑americanos foram estratégica e sistematicamente exportados, tanto para a periferia do capitalismo, da qual o Brasil faz parte, quanto para outros países e regiões capitalistas cen‑ trais. Nestes, é emblemático o caso da Europa que, na sequência da Segunda Guerra Mundial, se tornou dependente da ajuda estadunidense para sair dos escombros produzidos pelo conflito bélico e para compensar a perda de suas antigas e rentáveis colônias (Judt, 2008; Sader, 2003). Consequentemente, a partir daí, os Estados Unidos foram se tornando uma potência dominante, não só no continente europeu, mas em todo o mundo.

Esse quadro indica, ademais, que não se pode falar em ameaça aos direitos humanos e à política social de forma abstrata ou pontual; mas, pelo contrário, exige situar tal ameaça no contexto mais amplo das concretas relações de poder

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econômico, político, cultural, militar e midiático, no qual, desde o fim do se‑ gundo pós‑guerra, os Estados Unidos vêm assumindo liderança inconteste.

Por outro lado, é fato empírico que, na ausência de seu mais poderoso oponente — a URSS 1 —, os Estados Unidos “elegeram” um novo adversário:

a pobreza; ou melhor: os perigos que a pobreza interna e externa ao seu terri‑ tório passaram a representar sob a forma de terrorismo, narcotráfico, guerrilhas, corrupção, migração ilegal, inveja, fundamentalismo religioso, resistência ao consumismo e incapacidade de aceitação do American way of life (Sader, 2003). Indícios desse fato não faltam.

Em 2002, em discurso na Conferência Internacional sobre Financiamento ao Desenvolvimento, na cidade mexicana de Monterrey, o então presidente George W. Bush declarou, em meio à emotividade pós‑11 de Setembro do ano anterior, que

lutamos contra a pobreza porque a esperança é uma resposta ao terrorismo. Nós lutamos contra a pobreza porque a oportunidade é um direito e uma dignidade humana fundamental. Nós lutamos contra a pobreza porque a fé o exige, e a consciência o pede. E nós lutamos contra a pobreza com a convicção cada vez maior de que progressos importantes estão ao nosso alcance. (Departamento de Estado dos Estados Unidos, 2014)

Tal declaração reiterava, sem dúvida alguma, a nova postura maniqueísta dos Estados Unidos de encarar pobreza como contraparte de “condutas desvian‑ tes” (terrorismo, principalmente), como se ambos fossem faces de uma mesma moeda, cujo combate constituiria uma cruzada de fé ou um ato de generosida‑ de de uma nação predestinada a ser a guardiã do planeta.

Contudo, na contramão do discurso, os Estados Unidos, como diz Wacquant (2006), apresentam taxas de criminalidade mais altas do que em outras nações

1. Depois de 1945, isto é, com o término da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América “estabeleceram com a União Soviética — a outra superpotência da época — uma espécie de condomínio mundial caracterizado por uma furiosa rivalidade que será designada de Guerra Fria” (Ramonet, 1998, p. 43). Entretanto, com a “implosão da União Soviética”, em 1991, os Estados Unidos se viram “colocados em uma situação que nenhuma potência conheceu” no século XIX. Desde então, institui‑se no mundo uma hegemonia única e exclusiva, fato considerado sem igual na história da humanidade (Idem).

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desenvolvidas e índices alarmantes de homicídios e encarceramentos. Isso, sem falar da sua superioridade na corrida armamentista mundial que, depois da Segunda Grande Guerra e da Guerra Fria que lhe sucedeu, aparentemente não teria por que continuar existindo. Diz‑se aparentemente porque se sabe que a indústria armamentista e o estímulo a guerras é uma das formas de o capitalis‑ mo se reproduzir, ampliar e dissipar riquezas (Mészáros, 2009) — coisa que nenhum país do globo exercitou tão bem como os Estados Unidos. Que o digam as contínuas vitórias econômicas e políticas desse país no plano internacional, incluindo a recuperação da Europa mencionada, as quais tiveram como leitmotiv “a intensificação do comércio de armas” (Ramonet, 1998, p. 45).

Com efeito, desde 1945, os Estados Unidos vêm se envolvendo, direta ou indiretamente, em centenas de conflitos armados, movidos, em última instância, por interesses econômicos. Dentre os mais importantes e escancarados (seja por meio da atuação militar efetiva, ajuda logística, financiamentos diretos e indiretos, seja mediante lucrativas vendas de armamentos), 2 pode‑se destacar: Irã (1953); Guatemala (1954 e 1993); Baía dos Porcos — Cuba (1961); República Domini‑ cana (1961); Brasil 3 (1964); Iraque (1968, 1990 e 2003); Chile (1973); Afeganis‑ tão (1979 e 2001); Turquia (1980); Nicarágua (1981); Granada (1983); Panamá (1989); Bósnia‑Herzegovina (1995); Iugoslávia (1999); Venezuela (2002); Líbia (2011), entre muitos outros 4 (Chomsky, 1999; Mitchell e Schoeffel, 2005).

Além dessas intervenções, outras dezenas foram e ainda são realizadas com vistas a monitorar os passos de diversas nações. Segundo reportagem de

2. Como no famoso escândalo Irã-Contras, em que os Estados Unidos venderam armas ao Irã (em meio

a um embargo internacional sobre a venda de armas para esse país), sendo que parte dos lucros foi utilizada para financiar o movimento anticomunista dos “Contras”, na Nicarágua, a partir de 1979.

3. Que por muito pouco não foi invadido pelos Estados Unidos, como parte da chamada Operação

Brother Sam.

4. Como os demais países da América do Sul, a saber: Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, que (com

o Chile e o Brasil) integraram um movimento orquestrado entre todos os regimes militares autoritários deste

continente, denominado Operação Condor. Esta iniciativa, chancelada pelos Estados Unidos, tinha como objetivo neutralizar todas as investidas socialistas, comunistas e demais organizações não afinadas com os regimes autoritários dos respectivos países. Justamente por ser uma manobra articulada no âmbito de toda a América do Sul, criou‑se uma rede de informações, investigações e repressão interligada, cooperativamente, entre todos os seus membros. Essa rede facilitou a ocorrência de atrocidades, como assassinatos, torturas, sequestros e extradições ilegais.

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2013 do site canadense Global Research, os Estados Unidos, até aquele mo‑ mento, interviram (direta ou indiretamente), em nada menos do que 74 países, em especial na África e no Oriente Médio, sendo que o atual presidente Barack Obama ampliou o espectro dessas atuações em relação ao seu antecessor, George W. Bush. Isso confirma o intento autodeclarado dos Estados Unidos de se tornar o grande império global. 5

Entretanto, em todas as intervenções estadunidenses a questão dos direitos humanos e da política social foi matematicamente calculada. Em vista disso, tal questão não constituía um assunto da alçada doméstica dos países monito‑ rados, mas algo cujo enfrentamento devia passar pelo crivo dos Estados Unidos, de suas forças armadas, de sua inteligência, de seus políticos e investidores, bem como de órgãos multilaterais sintonizados com a sua ideologia. Tome‑se como exemplo a ajuda financeira concedida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e suas instituições afiliadas a muitos desses países:

tal ajuda era acompanhada de condicionalidades que impunham medidas de ajuste nas economias dos países tomadores de empréstimos (os chamados ajus‑ tes estruturais), as quais contribuíram para o surgimento de nações com poten‑ te capacidade agroexportadora, mas, ao mesmo tempo, com uma população pobre e desfalcada de direitos sociais.

Violência institucionalizada contra os direitos humanos a partir do domínio imperial estadunidense

Efetivamente, a postura imperial norte‑americana tem estimulado ataques frontais aos direitos humanos, proclamados no século XVIII, na esteira das conquistas iluministas que combatiam as arbitrariedades do Estado absolutista e elegiam o indivíduo como “sujeito da liberdade e da criação” (Touraine, apud Acanda, 2006, p. 52); e responde, consideravelmente, pela disseminação inter‑

5. Isso pôde ser verificado após os escândalos da rede clandestina de vigilância eletrônica internacional (liderada pelos Estados Unidos), denunciada pelo ex‑técnico da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden, em 2013.

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nacional desses ataques e pela prática da violência cotidiana no seio de cada nação, incluindo os Estados Unidos.

Como observa David Harvey (2005, p. 40), “[esse] país tem um histórico de intolerância [interna] que nega seu apego à sua Constituição e ao regime de direito”. Porém, é em relação ao mundo externo que a sua intolerância se exacerba com falsas justificativas.

Suas constantes intervenções bélicas em nações menores, identificadas como inimigas, tem‑se feito a pretexto de repressão preventiva, que passa por cima de acordos internacionais e da soberania dessas nações. Seu tradicional apoio e patrocínio a golpes de Estado onde lhe der na telha, já lhe rendeu a pecha de “maior ‘Estado irresponsável’ da terra” (Harvey, 2005, p. 40). Suas numerosas e diversificadas formas de interdição econômica e política em países

e instituições internacionais, como os “embargos comerciais ao Iraque e a Cuba”,

e ingerências favoráveis à adoção de políticas de austeridade junto ao FMI, têm sido tão deletérias quanto a “força física” (Idem). Contemporaneamente, a exclusiva preponderância do seu poder imperialista tornou-se uma realidade inusitada porque tal poder, conforme Ramonet (1998), não mais se mede, como acontecia nos impérios anteriores, pela influência geográfica e militar, mas “resulta essencialmente da supremacia no controle das redes econômicas, dos fluxos financeiros, das inovações tecnológicas, das trocas comerciais, das ex‑ tensões e projeções (materiais e imateriais) de toda espécie” (p. 45).

Daí o seu magnetismo e força em um momento histórico de relativa con‑ solidação de fronteiras geográficas.

De fato, desde a Guerra Fria, nenhuma nação capitalista sente‑se imune ao poder de influência norte-americano, seja em que área for. Caso emblemá‑ tico é o da “indústria do imaginário” que, como nenhum outro país, os Estados Unidos souberam capitalizar tão bem. Trata‑se, em linhas gerais, da indústria de filmes, músicas, modas, bebidas e comidas, dentre outros produtos culturais qualitativamente ruins, embora não sem reações de alguns países, como a Fran‑ ça. 6 No entanto, tem‑se que admitir que o seu poder de penetração e controle

6. Foi na França, segundo Judt (2008, p. 232), que os planos de expansão internacional da Coca‑Cola “provocaram turbulências públicas. Quando Le Monde revelou que a companhia havia estabelecido a meta

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de mentes e preferências é inegável. Para ficar apenas com um produto, vale lembrar que, na Europa,

entre 1947 e 1949, a Coca‑Cola Company abriu fábricas na Holanda, Bélgica, em Luxemburgo, na Suíça e Itália. Cinco anos após ter sido criada, a Alemanha Oci‑ dental contava com 96 dessas fábricas e se tornara o maior mercado fora dos Estados Unidos. (Judt, 2008, p. 232)

Confiante em seu poderio universal, alicerçado em uma economia “flame‑ jante”, no dizer de Ramonet (1998), os Estados Unidos radicalizaram as suas idiossincrasias contra o seu mais novo inimigo: as subclasses (underclasses) perigosas, internas e externas. Em 1990 o governo de George W. Bush criou uma nova doutrina de segurança nacional (ou de guerra), em represália à in‑ vasão do Kuwait pelas tropas do Iraque de Saddam Hussein; e, em 2001, essa doutrina foi consolidada após os ataques terroristas às torres gêmeas de Nova York (Sader, 2003). Tal consolidação instituiu o que foi denominado de guerra infinita contra o terrorismo, a qual passou a ser conhecida como guerra assimé‑ trica, devido à imprevisibilidade dos atos de terror (Sader, 2003, p. 31). E, a partir de então, os pobres, tidos como empecilhos e potenciais agressores a uma sociedade pautada pelo ideário da acumulação incessante de lucro e riqueza, graças à mecânica exploração do trabalho humano, deveriam sofrer o seguinte enquadramento: trabalhar para prover o seu autossustento ou ser criminalizados. Esta é a lição ou a ética capitalista da “responsabilidade”, atualmente em voga, a qual expressa, segundo Dean (2007), o triunfo do princípio da obrigação do indivíduo pelo seu próprio bem‑estar sobre o direito de ser assistido; ou o que pode ser descrito como retração da responsabilidade pública para com as ne‑ cessidades dos cidadãos.

de 240 milhões de garrafas a serem vendidas, em 1950, houve objeções veementes — incentivadas, mas não orquestradas, pelos comunistas, que se limitavam a advertir que os serviços de distribuição da Coca‑Cola funcionariam também como rede de espionagem norte‑americana”. Porém, cabe informar que, a despeito das resistências francesas à “coca‑colonização”, havia, na Europa, de modo geral, noções comuns (à direita e à esquerda) a respeito das evidentes ambições imperialistas por trás da expansão cultural de seus produtos, que iam dos filmes de bang‑bang a refrigerantes.

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Incremento do processo de criminalização da pobreza e de afrontas aos direitoshumanos

Como era previsível, o crescimento de crimes cometidos contra segmentos sociais desprotegidos, para além das fronteiras dos Estados Unidos, não se fez tardar. Porém, parafraseando Dean (2007), considera‑se que a proliferação da violência expressa nesse crescimento, atingindo países periféricos como o Brasil, se deu de forma incremental e não abrupta. Além disso, a expansão progressiva do capitalismo em busca de lucros crescentes não criou novas fór‑ mulas de destruição da natureza e da vida humana, mas renovou e intensificou as de sempre.

Dados veiculados pelo Relatório Anual da Anistia Internacional, de 2009, revelam que, no bojo da crise sistêmica e estrutural do capital, ressaltam a se‑ guinte realidade: em 2008, 81 países restringiram a liberdade de expressão em seu território; 78% das execuções ocorreram em países do G‑20; 7 27 países negaram asilo a pessoas que poderiam morrer se voltassem para sua terra de origem; e, em 47% dos países do G‑20, pessoas sofreram julgamentos injustos. Ainda de acordo com o referido Relatório, o mundo está passando por uma grave e preocupante crise de direitos humanos, que não tem explicação em si mesma, mas faz parte de uma situação calamitosa de desigualdade e inseguran‑ ça sociais prestes a explodir.

As agressões aos direitos humanos são também praticadas por setores da sociedade contra cidadãos (nativos ou estrangeiros), e entre concidadãos, mo‑ tivados por preconceitos de classe; ódios raciais, religiosos, ideológicos; into‑ lerâncias a opções sexuais; recrudescimento de nacionalismos, xenofobias, separatismos; moralismos, superexploração do trabalho e criminalização da pobreza (Alves, 2005).

Vários estudos, como os de Wacquant, indicam a prevalência contempo‑ rânea de um “Estado penal” que, rejeitando a ética da proteção social, crimina

7. O Grupo dos 20 é formado por representantes governamentais, geralmente ministros das Finanças, e banqueiros das dezenove maiores economias mundiais, mais a União Europeia (UE). Esta, por sua vez, é formada por 28 países que se uniram para realizar parcerias econômicas e políticas.

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liza e pune os pobres, os diferentes, os desiguais, os estranhos, que não conse‑ guiram se colocar acima ou à parte do vasto sistema de insegurança social capitalista. Nesse sistema, pontua Wacquant, referindo‑se à América do Norte, só escapa “a alta nobreza das empresas e do Estado” (2006, p. 24), o que reve‑ la o paroxismo a que chegou a divisão de classes numa época em que muitos acreditam não mais existir classes sociais.

Efetivamente, sob a égide do Estado penal, as políticas de enfrentamen‑

to à pobreza e à desigualdade social tornaram‑se antissociais (Pereira‑Perei‑ ra, 2009). E, como tal, desincumbiram‑se de quaisquer responsabilidades que possam caracterizar deveres do Estado e direitos dos cidadãos. Pautadas por uma ortodoxia moralista burguesa, que contrapõe o mérito ao direito e a autorresponsabilização individual à proteção social pública, tais políticas

— a despeito de se manter contraditórias e, por isso, passíveis de reversões

— têm apenado a quem mais delas precisam — os cidadãos que vivem do

seu trabalho — e privilegiado os interesses do capital. É o que será discutido

a seguir.

Tendências regressivas da política social sob a égide do Estado penal: da idade de ouro à idade de bronze

Se entre os anos 1945 e 1975 as políticas sociais das chamadas democra‑ cias ocidentais conheceram uma “fase de ouro”, que lhes permitiu realizar, mediante intervenções públicas, melhorias nas condições de vida e de trabalho de considerável parcela da população, a partir dos anos 1980 tais políticas in‑ gressaram em outra fase: a de “prata” (Moreno, 2012). Esta começou a romper com a responsabilidade democrática da “idade de ouro” anterior, que prestigia‑ va os direitos humanos.

O primeiro grande passo nessa direção foi o desmonte do amplo consen‑ so interclassista, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, em torno da proteção social pública. E isso ocorreu no contexto da crise capitalista do final dos anos 1970 que, a par de produzir o esgotamento do modelo econômico keynesiano‑fordista, sustentáculo do Estado social, expandiu a ideologia

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neoliberal estadunidense para a Europa e demais países desenvolvidos, a começar pela Grã‑Bretanha. Tal expansão exigiu a adoção de políticas eco‑ nômicas e sociais ortodoxas, que pregavam: cortes nos gastos sociais, retração da intervenção pública, ênfase no controle da inflação, forte disciplina finan‑ ceira e enfraquecimento dos movimentos e organizações trabalhistas (Moreno, 2012, p. 20).

Embora essas políticas não tenham se disseminado uniformemente e nem rendido ativos políticos homogêneos aos diferentes governos nacionais que as promoveram, é fato que, onde quer que elas tenham se realizado, os direi‑ tos humanos perderam força. Coerentemente, “uma inédita aversão à inter‑ venção estatal” (Moreno, 2012, p. 21) foi se robustecendo, no mesmo passo em que uma fé fundamentalista no trabalho assalariado e na capacidade do mercado (inclusive o financeiro) de gerir a vida econômica e social se trans‑ formou em dogma.

Em vista disso, as teses neoliberais, enaltecedoras “da eficiência, da cria‑ tividade e da inovação mercantis” (Idem) ressuscitaram antigas doutrinas eco‑ nômicas, como as de Schumpeter, que postulava, entre outras orientações, a destruição criadora e a emergência de empresários audaciosos (Jessop, 2013). Além do mais, a fé fundamentalista e suas teses, consolidadas no chamado Consenso de Washington, de 1989, fortaleceram a convicção neoliberal de substituir o keynesianismo pelo monetarismo.

Foi sob a batuta monetarista que a “idade de prata” da política social ganhou consistência e, conforme Moreno (2012), sucumbiu aos ditames do mercado. Desde então, tal política convive com o desmonte gradativo dos direitos humanos, principalmente os sociais; a privatização de bens e serviços sociais; o enaltecimento do trabalho assalariado, remunerado ou autorrentável, como o meio mais digno e eficaz de enfrentamento da pobreza; e a sua foca‑ lização na pobreza extrema, sob a mais estreita forma de “alívio” (relief) as‑ sistencial. Paralelamente, verificou-se o esvaziamento da atribuição primordial dessa política, que é a de concretizar direitos sociais, e o culto à meritocracia; isto é, ocorreu a reificação de uma prática que, ao mesmo tempo em que ne‑ gava ao pobre a proteção social pública, o submetia ao teste seletivo do mere‑ cimento, que, a despeito de se considerar imparcial e moralmente defensável,

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pautava‑se pelos princípios da hierarquia e da competição. Logo, em vez de direitos, tais políticas passaram a operar mecanismos de triagem entre quem merecia ou não ter as suas necessidades “aliviadas” pelo Estado, sendo que mérito, neste caso, tinha sabor de demérito, visto que o merecedor era tido como fracassado.

Tem-se, assim, uma flagrante sucumbência da política social aos impera‑ tivos do mercado, a qual pode ser sucintamente descrita como uma drástica guinada para a extrema‑direita das suas características social‑democratas, vi‑ gentes entre os anos 1945 e 1975. É por isso que se diz que a política social contemporânea, além de se ter tornado “de direita” e se colocado mais a servi‑ ço das necessidades do capital do que das necessidades sociais (Gough, 2003), está sendo impedida de concretizar direitos sociais — estes sim uma relevante conquista civilizatória nos limites do capitalismo. E esse fato, evidentemente, constitui a maior tragédia para as parcelas mais desprotegidas da sociedade porque, sem direitos assegurados, elas ficam sem salvaguardas.

Desde então, tornou‑se compulsória uma prática moralista de ativar os pobres para o mercado de trabalho, ou para atividades autossustentáveis, por meio das quais poderiam obter renda para sobreviver e “comprar” benefícios e serviços sociais que antes o Estado tinha o dever de distribuir, incondi‑ cionalmente.

Cristalizou‑se, desse modo e à margem dos direitos de cidadania, o prin‑ cípio da autorresponsabilização, já referido, o que em outras palavras quer dizer: autonomia econômica dos indivíduos por meio de sua inclusão ativada pelo Estado nos precários circuitos empregatícios disponíveis (Siis, 2012).

Com base nesse princípio — que não é novo e remonta à famigerada Lei dos Pobres inglesa, instituída pelos liberais no século XIX —, reafirma-se a ideologia liberal de que “todos devem ser considerados responsáveis tanto pela sua pobreza quanto pelo seu comportamento” (Sader, 2003, p. 44); e, portanto, a pobreza não deve ser utilizada para desculpar erros ou crimes cometidos pelos seus portadores.

Tal tendência se agravou ainda mais com o passar do tempo. No início dos anos 2000, a legitimação da política social como ação punitiva da pobreza fa‑ cilitou a sua entrada na chamada “idade de bronze”, de acordo com Moreno

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(2012), na trilha do processo de agudização da crise capitalista global e sistê‑ mica, em 2008.

Mas antes de tecer comentários sobre essa última fase de decadência da política social, convém trazer à tona os ataques de filiação pós-moderna que,

em consonância com o ideário de uma “nova direita” 8 emergente, foram des‑ feridos contra a pretensão dessa política de ser uma área de conhecimento. Assim, se no seu período de ouro tal política teve algum estofo teórico, agora o seu perfil é outro. Ela vem sendo obrigada a restringir-se a uma ação que, como tudo o que se baseia em dogmas, palavras de ordem e ideias preconce‑ bidas, recusa a teoria como recurso necessário a um processo de conhecimen‑ to que transcende o senso comum e especulações intuitivas. Daí a reiteração do entendimento, estrategicamente difundido, de que a teoria, no campo da política social, é um luxo intelectual, e não uma necessidade (Bruyne, Herman

e Schoutheete, 1977, p. 101). Ou daí o prevalecimento de posturas acríticas e miméticas, adeptas do pragmatismo pós‑moderno, que produzem indagações como essas (Sader, 2003, p. 13): “Para que teoria, se os índices do mercado

afirmam o que é e o que pode ser feito; o que vale a pena e o que não adianta;

o que é bom, bonito e legítimo?”. Ou, então: para que servem as grandes nar‑

rações teóricas, típicas da era moderna, se estamos vivendo em outra era, a pós‑moderna, que se contenta com o conhecimento de pequeno porte, ou com

o que o noticiário da televisão e os colunistas econômicos divulgam? (Sader, 2003; Boron, 2001).

Não admira que, em meio a essas mudanças, e certamente por causa delas,

a pobreza, que teima em crescer até nas cidades vitrines do chamado Primeiro

Mundo, como Nova York, Londres, Paris, seja considerada um delito ou um símbolo da barbárie terceiro‑mundista, que ofende a civilização capitalista. Por isso, a pobreza passou a servir de álibi ao controle punitivo, seja por meio da repressão policial saneadora, seja por meio da educação corretora e adestrado‑ ra para o trabalho impositivo (o workfare), que vem se tornando a forma privi‑ legiada de “inclusão excludente” (Martins, 1997) na atual idade de bronze da política social.

8. Fusão de neoliberais e neoconservadores.

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Motivos e práticas da atuação crescentemente perversa da política social

Segundo Sader (2003, p. 41), depois do atentado às torres gêmeas de Nova York, os Estados Unidos, nas suas relações internacionais, sepultaram antigos conceitos políticos como “dissuasão”, “contenção”, “aliança”, “ajuda interna‑ cional”, “relações entre Estados fortes e fracos”. Em compensação, surgiu não só uma nova linguagem, mas também uma nova filosofia de regulação social,

acompanhada de uma crítica radical ao Estado social e de uma firme condena‑ ção dos direitos sociais. E isso não só em relação às pessoas pobres, mas também

a

países e continentes inteiros, terceiro‑mundistas.

Acreditando ser missão sua travar uma guerra infinita entre a civilização

e

a barbárie, e identificando a pobreza com o caldo cultural desta última, nada

mais natural do que utilizar a política social e particularmente a assistência como

um dentre outros instrumentos estratégicos nessa guerra.

Isso explica a maior ênfase nos projetos correcionais do que sociais; e mais empenho no fomento de medidas que despertem a consciência de cada um acerca de seus atos, do que no resgate social da miséria e do abandono (Sader, 2003) a que muitos condenados pelo sistema estão sujeitos. E, como corolário, tem sido incentivada a substituição do bem‑estar como direito (Welfare) pelo bem‑estar em troca de trabalho (workfare) que, de regra, se confunde com sa‑ crifícios e expiações de culpas morais.

Esta tem sido a ortodoxia do momento, na qual, como nunca, a relação entre política social e ética capitalista do trabalho se tornou visceral. Acossada por uma feroz competição, a política social tem sido instada a deixar de ser “passiva” para ser “ativa” pela via da indução dos demandantes da proteção social pública para o exercício de atividades econômicas. Assim, ainda que tal transição se apresente como uma espécie de proteção ao desemprego estrutural

e massivo que, desde os anos 1970, se tornou um dos maiores fantasmas dos

países capitalistas centrais, ela é francamente funcional à política econômica geral. Seus efeitos sobre a legitimidade do trabalho assalariado como fator primaz de produção, de valorização do capital e de reprodução social da força de trabalho são evidentes, assim como se torna clara a importância desses efei‑ tos para o fortalecimento do credo neoliberal de que o mercado de trabalho

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seria o melhor agente de bem-estar dos indivíduos. Afinal, não se pode esquecer que é a exploração do trabalho, por meio do mercado laboral, e não a eficiência pura e simples deste mercado, que garante o crescimento capitalista.

Consequentemente, o direito à proteção contra os abusos do trabalho as‑ salariado tem se esvanecido porque a conquista do trabalho em si, ou como

simples meio de obtenção de rendimentos econômicos, tornou‑se essencial. Poder trabalhar, em conformidade com a lógica capitalista, inclusive na con‑ cepção de setores ditos progressistas, transformou‑se no melhor ganho político

e maior “direito de cidadania” conquistado pelos que foram obrigados a depen‑

der das políticas passivas de bem‑estar social (leia‑se incondicionais). Essa é a ilusão de corte schumpeteriano, num primeiro momento de predomínio do modelo monetarista de desenvolvimento capitalista, e de corte ricardiano (tri‑ butário da economia política clássica) da atual idade de bronze da política social, cujo lema é o bem‑estar humano por meio do trabalho remunerado; ou do que foi concebido nos Estados Unidos desde os anos 1970, que é a substituição progressiva e perversa do Welfare pelo workfare.

Embora seja difícil definir o workfare, este pode ser descrito, segundo Gough (2000), como um contraponto à política social incondicional e como direito. Constitui uma política compatível com um tipo de intervenção social requerido por uma economia capitalista internacionalizada, de última geração, preponderantemente baseada no conhecimento e na financeirização (Jessop, 2013). Tais formas de funcionamento econômico tem sido associadas a Schum‑ peter e a David Ricardo porque, no que se refere ao primeiro, elas privilegiam o conhecimento de ponta, o empreendimento audaz, o empoderamento e a autossuficiência em relação ao Estado. Em vista disso, as pressões estruturais

e políticas para desmantelar direitos, reduzir salários e diminuir gastos sociais

são enormes, o que induz ao prevalecimento de medidas sociais ativadoras de mecanismos que reforcem a rentabilidade econômica. A privatização e a mo‑ netarização dos programas sociais, atualmente em voga, são exemplos elo‑ quentes dessa indução. Mas é a associação das políticas sociais atuais às teorias ricardianas que caracterizam a idade de bronze dessas políticas. Nessa asso‑ ciação — cabe ressaltar com base em Jessop (2013) —, transparece a adequa‑ ção das políticas sociais à contemporânea forma de acumulação capitalista

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ancorada nas finanças — e não só no domínio do conhecimento. Sendo Ri‑ cardo o teórico do comércio internacional e defensor da exploração do fator de produção mais barato e abundante (o trabalho), é nele que a ética capita‑ lista corrente vem se inspirando. E, consequentemente, a ruptura com os di‑ reitos sociais (agora chamados apenas de entitlements) tem radicalizado no rebaixamento dos salários, na flexibilidade do mercado e na diminuição dos custos sociais do Estado. Trata‑se, em suma, do aprofundamento mais acen‑ tuado dos mandamentos neoliberais do livre mercado e da competitividade privada, que se traduzem nas seguintes tendências de extração ricardiana:

desregulação, tanto do mercado para liberar a competição, quanto dos orde‑ namentos legais e do controle dos Estados nacionais; privatização do setor público; residualização e focalização da política social com o objetivo de criar condições favoráveis à generalização de uma cultura mercantilista; interna‑ cionalização da economia interna para evitar incompatibilidades com os fluxos econômicos mundiais, precaução contra pressões competitivas e, supostamente, propiciar o aprendizado de boas práticas comerciais e financeiras;

e estímulo ao consumismo.

É nessa conjuntura que as políticas sociais, especialmente a assistência, tornaram‑se reféns da prédica da ativação e do workfare. E, como tal, se con‑ verteram em estratégias complementares de exploração econômica ricardiana do trabalho, considerado este na sua mais bitolada expressão de insumo‑chave ou mero fator de produção a serviço da reprodução do capital (Jessop, 2013).

Eis por que o primeiro compromisso da política de assistência social, transvertida em alívio, passou a ser com o trabalho (seja ele qual for), e não com o atendimento de legítimas necessidades do trabalhador; e, consequen‑ temente, ela não mais funciona como um um colchão de segurança capaz de impedir que as pessoas pobres se afundem na miséria. Ademais, o workfare transforma a assistência social num trampolim que serve apenas para lançar

o pobre para fora da sua órbita em direção ao mundo do mercado, onde o

trabalho é desprotegido, precário e flexível. Em alguns casos, o workfare prevê educação e treinamento para tornar laboriosos os beneficiários da as‑ sistência social, mas esse expediente faz parte do processo de ativação para mercado de trabalho.

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Nos Estados Unidos, onde o workfare foi concebido, ele tem relação di‑ reta com o conceito de subclasse (underclasses), para identificar desvios de comportamento ou uma cultura da dependência específica dos pobres, enquan‑ to na Europa, o workfare tem como referência o conceito de exclusão social (Barbier, 2008). Mas em ambas as concepções percebe‑se que, a despeito de algumas diferenciações, eles se distanciam da tradição de análise crítica do sistema que produz a pobreza. A esse respeito, Gough (2000) assinala que tais conceitos expressam um evidente afastamento da análise de tradição marxista, que se centra na categoria classe social; e, para ressaltar a estreita identificação funcionalista desses conceitos, de raiz durkheimiana, Gough lembra que nem o mesmo a categoria status, tributária de Max Weber, é levada em conta. São as categorias anomia, integração, solidariedade, tomadas de empréstimo de Émile Durkheim, que estão em alta.

As desventuras dos direitos humanos

As implicações das mudanças regressivas das políticas sociais para os direitos humanos têm sido desastrosas e bem conhecidas por aqueles que con‑ seguem enxergar para além da aparência. Todavia, vale listar os principais óbices que essas mudanças vêm impondo a esses direitos nas suas três dimensões:

civil, política e social (incluindo‑se na dimensão social os chamados direitos difusos).

Começando pelos direitos sociais, cabe ressaltar que, sob o influxo da globalização neoliberal, pós‑moderna e “pelo alto”, como denomina Otávio Ianni (2004), e das aceleradas inovações tecnológicas que requerem menor quantidade de mão de obra — a despeito da ênfase nas políticas de ativação para o trabalho — 2/3 da população mundial continuam drasticamente atin‑ gidos pelo desemprego e insegurança social. Isso quer dizer que apenas 1/3 dos habitantes do planeta foi, e está sendo, contemplado pelos benefícios dessa globalização ou pela oferta de bens, serviços, conhecimentos e infor‑ mações que ela propicia via mercado — mas sem que esse 1/3 esteja livre da possibilidade de marginalização. Isto porque a busca obsessiva de eficiência

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e lucratividade neoliberal, por meio de feroz competitividade, só faz aumen‑ tar os números dos descartáveis. E, nesse processo, os pobres, seja de que lugar for, são, pela sua própria condição de classe, irremediavelmente tragados pelo chamado “darwinismo social”, isto é, pela atitude expressa no ditado popular de que “quem for pobre que se quebre”, ou aos vencedores o apoio e aos perdedores o extermínio.

Diante dessa tendência, a política social deixou de ser universal para se tornar focalizada na indigência, com toda gama de atentados aos direitos sociais que essa orientação provoca. Nessas circunstâncias, ocorre o seguinte círculo vicioso: o desmonte dos direitos sociais tem como consequência a quebra do protagonismo do Estado na provisão e na garantia da política social, ficando essa provisão por conta do mercado e das organizações da sociedade civil, que não têm poderes para garantir direitos. Mas isso, como diz Alves (2005), longe de produzir sentimentos de solidariedade, gera divisões.

Em sociedades em que predominam abismos sociais e em que o Estado não está mais incumbido de implementar políticas redistributivas e instituir princípios de justiça social, “as classes abastadas se isolam em sistemas de segurança privada” (Alves, 2005, p. 27); e a população cobra dos legisladores diminuição da idade penal de adolescentes em conflito com a lei e penas aumentadas para os crimes comuns, aprofundando intolerâncias sociais preexis‑ tentes. Com isso, agridem‑se, também os direitos civis.

No Brasil os direitos civis possuem uma história notória de violações. Primeiro, porque eles não funcionam nas ditaduras, e o país já experimentou dois longos períodos de regime ditatorial cujas marcas ainda estão presentes. Nestes casos, a liberdade de ir e vir, de expressão, de imprensa, de organiza‑ ção, de pensamento e de acesso a justiça, é cerceada. Segundo, porque quan‑ do essas liberdades são restabelecidas, durante os períodos denominados de redemocratização, a população não mais acredita nas instituições ou tem medo delas. Na última e atual experiência de redemocratização do país, a Consti‑ tuição federal, promulgada em 1988, resgatou os direitos civis e inovou ao criar outros direitos, como o de habeas data, com base no qual “qualquer pessoa pode exigir do governo o acesso a informações sobre si, existentes nos registros públicos, mesmo as de caráter confidencial” (Carvalho, 2001,

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p. 209); e o mandado de injunção, “pelo qual se pode recorrer à Justiça para exigir o cumprimento de dispositivos constitucionais ainda não regulamenta‑ dos” (Idem).

Além disso, a referida Carta Magna definiu o racismo e a tortura como crimes inafiançáveis e previu a defesa do consumidor. Foi nesse contexto que também foram criados o Programa Nacional dos Direitos Humanos e os Jui‑ zados Especiais de pequenas causas cíveis e criminais, para tornar a justiça mais acessível (Carvalho, 2001). Isso significou inovações legais e institucio‑ nais importantes, mas que, na prática, encontram severas limitações. A falta de garantias desses direitos no que concerne à segurança individual, à integri‑ dade física e ao acesso à justiça responde pela grande abstinência no uso desses recursos legais, seja porque o interessado não quer contato com a polí‑ cia, seja porque a justiça é lenta, cara e seletiva. Poucos são os crimes de ho‑ micídio verdadeiramente investigados, principalmente se a vítima for pobre ou anônima.

Por outro lado, a descrença no sistema político e nos políticos em si tem desestimulado o exercício dos direitos políticos por parte de grande parcela da população. Assim, apesar de a Constituição federal de 1988 ter inovado também neste âmbito, facultando o voto ao analfabeto e ao jovem a partir dos dezesseis anos de idade, muitos eleitores quando não votam por obrigação, quase sempre votam contra alguém ou por protesto (Carvalho, 2001). Com isso, agridem‑se os direitos políticos conquistados a duras penas pelos movimentos democráticos e, correlativamente, agridem‑se os demais tipos de direitos.

Recentemente, ganharam visibilidade os chamados direitos difusos, que, para vários analistas, são extensões dos direitos sociais num mundo globaliza‑ do e tecnologicamente avançado (Pisón, 1998). Tais direitos refletem ainda as novas realidades que afetam o planeta e as transformações globais, requerendo solidariedades e entendimentos entre os seres humanos, como: o direito à paz, ao meio ambiente saudável, à autodeterminação dos povos, à preservação cul‑ tural da humanidade. Estes são direitos que interpelam o individualismo neoli‑ beral e as fragmentações pós-modernas, ao tempo em que desafiam governos e sociedades a encontrarem saídas supranacionais, mesmo que regionalizadas, para o seu enfrentamento.

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É nesse ambiente repleto de contradições que a política social se encontra e precisa voltar a estabelecer vínculos orgânicos com a cidadania para que inclusive se justifique como social. Mas para que isso aconteça faz‑se necessária a construção de um projeto contra‑hegemônico pelas forças sociais que acredi‑ tam ser possível construir outro mundo e que nem tudo está perdido.

Ponderaçõesfinais

Um sintoma de que nem tudo está perdido no campo dos direitos e, por‑ tanto, desperta esperanças, é o fato, assinalado por Alves, de o discurso dos direitos humanos permanecer vivo e cada vez mais extenso e conhecido. No curso de seus cinquenta e poucos anos de existência, diz ele, esses direitos ganharam aperfeiçoamentos em meio a velhas e novas violações. Inicialmente declarados como direitos do “homem”, passaram a se denominar direitos “hu‑ manos” para indicar que também as mulheres estavam contempladas. A palavra “universal”, que compõe seu título original, ganhou, em 1993, foro de concei‑ to quando, na Conferência de Viena, tais direitos tiveram como apoiadores “representantes de todas as grandes culturas, religiões e sistemas sociopolíticos, com delegações de todos os países de um mundo já praticamente sem colônias” (2005, p. 25).

Disso se conclui que os direitos humanos declarados universalmente e apoiados extensivamente por culturas variadas não perderem prestígio. O pro‑ blema é a sua aplicação como um recurso progressista a serviço dos desprovidos de bens materiais e de poder. Este é o desafio do presente que interpela o futuro e compromete todos. E mais: exige que se desmitifique a matriz das desven‑ turas desses direitos: os Estados Unidos legitimado como baluarte mundial da democracia e da paz social.

Para tanto é preciso ter claro que este é, pelo contrário, um país de profun‑ das incoerências e mistificações. É um país que se apresenta como o paladino da paz, mas que foi o que mais guerreou, que se coloca em uma luta antinuclear, mas obsta planos de países que querem apenas ampliar a sua capacidade ener‑ gética. Além disso, foi o único país que realmente fez uso desses explosivos

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(em duas ocasiões), dizimando centenas de milhares de vidas inocentes, sob o ingênuo (para dizer o mínimo) pretexto de que seria para poupar a vida de soldados americanos e japoneses. Um país que historicamente apoiou e ainda apoia regimes autoritários. Uma nação que iniciou uma guerra “permanente” e “infinita” ao terror, quando foi, e ainda é, a que mais praticou e pratica atos globais de terrorismo.

Enfim, pode-se dizer que o regime de Estado-padrão dos Estados Unidos, desde a Primeira Guerra Mundial, é o do warfare — um constante estado de conflitos e guerras ao redor do mundo, como princípio básico de manutenção do seu modo capitalista de produção, assentado em um colossal complexo in‑ dustrial‑militar. Sobre essa sua característica particular repousa outra contradi‑ ção fundamental, que é o da não intervenção estatal: os Estados Unidos são um país que sempre pregou a não intervenção do Estado em assuntos pertinentes ao mercado. Entretanto, o esforço e o dinheiro empregados pelos seus governos no fortalecimento do seu modelo capitalista causaria acanhamento ao mais totalitário dos Estados.

Trata‑se, na verdade, de um país (os Estados Unidos) capaz de, literalmen‑ te, matar para conseguir manter os patamares mínimos de lucratividade de sua indústria. É um país que erigiu, como já salientado, o maior complexo industrial‑ ‑militar que o mundo já viu, composto de uma formidável rede de empresas, indústrias militares e de inteligência, que existem para salvaguardar os interes‑ ses de suas megacorporações e de seus negócios. Na cabeça desse enorme “polvo”, com seus tentáculos espalhados pelo globo, estão os principais nomes do sistema financeiro, midiático, industrial e energético estadunidense. E o principal financiador e “chanceler” desse intrincado sistema é ninguém menos do que o próprio Estado, mesmo que a custa de um colossal endividamento público e do desmonte dos direitos de cidadania em larga escala.

Recebido em 8/5/2014

Aprovado em 2/6/2014

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Reflexõessobreliberdadee(in)tolerância*

Reflectionsuponfreedomand(in)tolerance

Reflectionsuponfreedomand(in)tolerance Maria Lucia S. Barroco** Não se pode tolerar o

Maria Lucia S. Barroco**

Não se pode tolerar o intolerável. Pode‑se, con‑ tudo, ser tolerante em relação a muita coisa, pode‑ ‑se conviver com divergências e evitar “castigos”.

Leandro Konder

Resumo: Neste texto, refletimos sobre a concepção liberal de li‑ berdade sinalizando que seu individualismo leva a atitudes de intole‑ rância frente às diferenças sociais. Em contraposição, resgatamos o significado ontológico-social da liberdade que supõe a sociabilidade, a alteridade e a equidade.

Palavras‑chave: Liberdade. Tolerância. Intolerância. Alteridade. Equidade.

Abstract: In this article, we discuss about the liberal conception of freedom, and we stress that its individualism leads to intolerant attitudes for social differences; on the other hand, we rescue the ontological and social meaning of freedom presupposing sociability, otherness and equity.

Keywords: Freedom. Tolerance. Intolerance. Otherness. Equity.

* Essa produção integra a pesquisa Neoconservadorismo e irracionalismo contemporâneo: fundamentos teóricos e manifestações ideoculturais, desenvolvida pela autora entre 2011‑2014, com o apoio do CNPq.

** Assistente social, professora de Ética Profissional e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos (Nepedh) do Programa de Estudos Pós‑Graduados em ServiçoSocial da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: barroco.lucia@gmail.com.

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Liberdade e individualismo: a exclusão do outro

A liberdade é um valor e uma categoria ético‑política construída historicamente na práxis da humanidade e configurada teórica e ideologicamente de formas diferenciadas em cada momento his‑ tórico particular.

Na emergência da sociedade moderna, a liberdade objetivou‑se como valor imanente, ocupando lugar de destaque no ideário da burguesia revolucio‑ nária, em seu processo de ruptura com a ordem feudal, na produção filosófica

e na cultura humanista desenvolvida na Europa ocidental no período entre o Renascimento e a Revolução Francesa.

Nesse contexto, sua forma peculiar de objetivação teórico‑prática corres‑ pondeu às possibilidades abertas ao indivíduo pela dinâmica do novo modo de produção. Superadas as formas limitadas da produção, os limites concretos da comunidade e das relações sociais feudais, com seus laços de dependência, o indivíduo emergiu como sujeito histórico capaz de decidir o seu destino.

Entretanto, a produção capitalista criou novos vínculos de dependência que se materializam a partir das relações de produção, determinando a institui‑ ção de uma sociabilidade mediada pelo mercado. A liberdade passa a se confi‑ gurar como sinônimo de autonomia dirigida à realização individual pela apro‑ priação privada de bens materiais e espirituais.

Esse modo de ser do indivíduo burguês, ou seja, esse ethos, tem uma base objetiva de sustentação fundada na forma de organização do modo de produção capitalista; atende às necessidades de reprodução dessa ordem social cuja di‑ nâmica supõe a produção incessante e universalizante de novas mercadorias e sua apropriação privada.

Cria‑se um modo de vida orientada para o consumo, a competitividade e

o individualismo. Os indivíduos passam a valer enquanto proprietários de mer‑

cadorias e por isso são considerados legalmente iguais e livres. Os objetos materiais se expressam como qualidades humanas que, ao serem consumidas, passam a dar sentido à existência, e o próprio indivíduo passa a identificar a sua condição humana à condição de proprietário, consumidor. Para MacPherson, trata‑se da identidade do individualismo possessivo:

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O

indivíduo numa sociedade de mercado possessivo é humano em sua qualidade

de

proprietário de sua própria pessoa; sua humanidade realmente depende de sua

independência de quaisquer relacionamentos contratuais com outros, exceto os que são de seu interesse; sua sociabilidade realmente consiste de uma série de

relações de mercado (MacPherson, 1979, p. 283).

Na medida em que cada indivíduo se reconhece como livre, independente, proprietário potencial de bens e proprietário de si mesmo (de seus desejos, necessidades, preferências), sua existência passa a ter como finalidade a objetivação de sua liberdade, o que significa a plena satisfação de seus desejos e a instituição social de garantias de que sua autonomia não seja posta em risco. O Estado e a lei garantem que seus bens privados sejam invioláveis, cabendo à ideologia garantir a sua legitimação moral.

A ideologia dominante exerce a função de controle social extraeconômico ao influir nas ideias dos homens entre si, motivando-os a se comportar de certo modo, valorado positivamente em função das necessidades de reprodução social da ordem burguesa. A moral se reproduz pelo hábito, pela repetição de normas

e comportamentos de valor que moldam o comportamento dos indivíduos sin‑

gulares na vida cotidiana, constituindo‑se num campo favorável de reprodução

da ideologia mercantil e da alienação.

Nesse sentido, para garantir a legitimidade da propriedade privada e a identidade do individualismo possessivo, são reproduzidas determinadas má‑ ximas que funcionam como normas de convivência, visando à regulação do comportamento dos indivíduos em sua convivência social. Dentre elas, destaca‑ -se a máxima que afirma que “a sua liberdade termina quando começa a do outro”. Ocultando a realidade ao invocar a proteção da liberdade de todos, ou seja, do “bem comum”, difunde a falsa ideia de que a delimitação do espaço de liberdade de cada um equivale a uma atitude de respeito mútuo.

(In)tolerância: a face oculta da liberdade burguesa

Em geral, costuma-se definir tolerância como uma relação social que supõe

a existência de alguma diferença aceita como um direito: o direito de ser dife‑

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rente. Entretanto, alguns autores discordam do próprio uso do termo tolerância para retratar essa relação social. Jacquard, por exemplo, chama a atenção para não confundirmos respeito com tolerância, uma vez que “a tolerância é uma

, julgar‑se em condições de dominar, julgar; é ter de si mesmo um conceito o bastante positivo para aceitar o outro com todos os seus defeitos” (Jacquard, 1997, p. 4).

O autor propõe substituir tolerância por alteridade “é necessário tomar um rumo completamente diferente e tomar consciência da contribuição dos outros, que se torna tanto mais rica quanto maior for a diferença em relação consigo mesmo” (Idem).

dizia Claudel). Tolerar é

atitude muito ambígua (para isso, existem casas

Para Cortella, o uso corrente do termo tolerância é problemático:

Eu venho me rebelando há certo tempo contra a palavra “tolerância” [ acho

que a palavra “tolerância” produz quase um sequestro semântico, pois quando

alguém a usa está querendo dizer que suporta o outro. Afinal tolerar é suportar

] [

eu mesmo. Não quero ter contato, só respeito a sua individualidade. Em vez de utilizar a palavra “tolerância”, tenho preferido outra: “acolhimento”. Há uma diferença entre tolerar que você não tenha as mesmas convicções que eu — sejam religiosas, políticas ou outras — e acolher suas convicções. Porque acolher sig‑

Eu o suporto, aguento. Você não é como eu, aceito isso, mas continuo sendo

[ ]

]

nifica que eu recebo na qualidade de alguém como eu. (Cortella, 2005, p. 28-29)

Em qualquer caso, seja com o uso do termo ou substituindo‑o por outro, trata‑se sempre de uma relação social mediada pela presença e aceitação de uma diferença. Para Vázquez, não basta a existência da diferença (convicções, pre‑ ferências, modos de vida etc.); é preciso que ela seja consciente, isto é, que seja reconhecida como tal e que nos afete de alguma forma, ou seja, que não fique‑ mos indiferentes a ela (Vázquez, 1999, p. 115).

Esse reconhecimento não significa concordar com as opções do outro; não significa nem tentar mudar o modo de ser do sujeito tolerante nem do outro; significa aceitar o direito do outro a ser diferente com suas opções. Portanto, não existe consenso na tolerância; somente o dissenso reclama a tolerância (Idem).

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Na intolerância, também ocorre uma relação social em que um dos sujei‑ tos (ou um grupo, uma classe social etc.) é diferente ou faz algo diferente, e isso nos atinge. Porém nossa reação é oposta à da tolerância; aqui, diante das dife‑ renças, assumimos atitudes destrutivas, fanáticas, racistas, reacionárias. A di‑ ferença é negada; mais do que isso, buscamos destruí‑la, excluir a identidade do outro por meio da afirmação da nossa, tomada como a única válida (Idem, p. 116).

Assim, enquanto na tolerância a diferença é reconhecida e respeitada, embora não seja compartilhada, na intolerância a identidade do outro é recha

çada justamente por ser diferente. Enquanto a tolerância exige um horizonte de liberdade, uma reciprocidade objetivadora de relações de comum liberdade e igualdade, a intolerância objetiva uma relação assimétrica em que somente um

é livre e quer impor a sua identidade ao outro (Idem, p. 117).

Voltamos à questão da liberdade liberal, expressa na máxima que define “a liberdade de um indivíduo termina onde começa a do outro” para considerar

o seu caráter intolerante, manifesto no individualismo da sociedade burguesa.

Em primeiro lugar, trata‑se de uma liberdade individualista que não suporta a presença do outro com suas escolhas e modos de vida. Por isso, essa máxima só ganha sentido quando divulgada ou reproduzida em situações em que dois ou mais indivíduos têm escolhas diferentes. Vê‑se, então, que a exclusão do outro se refere ao outro que se apresenta como diferente; mais do que excluir o outro, exclui‑se a possibilidade de convivência entre sujeitos que têm escolhas, preferências ou modos de vida diferentes. Sendo assim, além de individualista, trata‑se de uma norma de convivência intolerante.

A intolerância que se expressa de forma tão límpida na máxima que defi‑ ne a liberdade burguesa revela‑se cotidianamente no contexto neoconservador atual. Parte da sociedade finge “tolerar” as escolhas alheias desde que elas se objetivem fora do espaço de convivência pública, desde que não perturbem a ordem social e moral, desde que não demande um envolvimento com os seus sujeitos. Isso ocorre também em situações que não derivam de escolhas alheias, mas de determinações sociais que não fazem parte do universo daqueles que são intolerantes: “tolera‑se” a existência da pobreza desde que os pobres este‑ jam presos, longe do convívio social e dos espaços públicos frequentados pela

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burguesia e pelas classes médias. É como lembrou o autor citado: as “casas de tolerância” foram assim chamadas na medida em que não se podia negar a existência de casas de prostituição e tratou‑se de garantir que elas se estabele‑ cessem nas periferias das cidades.

Marcuse se refere a uma “falsa tolerância”, típica da sociedade de classes das democracias existentes no capitalismo; sociedades democráticas com orga‑ nizações totalitárias determinadas pela desigualdade institucionalizada. Nesse contexto ocorre uma “tolerância” falsa e repressiva, especialmente veiculada pela publicidade, pela propaganda e pelo controle ideológico que reprime o impulso à liberdade, passando a falsa ideia de imparcialidade do poder domi‑ nante (Marcuse, apud Vázquez, 1999, p. 119‑120).

A intolerância percorre a trajetória da humanidade, destacando-se a reli‑ giosa e a étnica como dois grandes marcos da opressão e injustiça, a exemplo da escravidão, da Inquisição, dos genocídios. No Brasil, em pleno século XXI, práticas que remontam a um estágio histórico pré‑civilizatório têm se apresen‑ tado cotidianamente, desvelando um cenário de barbárie intolerável, a exemplo do aumento de linchamentos, das práticas de “justiceiros” contra jovens infra‑ tores, das execuções sumárias realizadas pela polícia, da eliminação de grupos e populações indígenas, camponesas, quilombolas pelos latifundiários, entre outros.

A intolerância se reproduz ideologicamente no apoio dado a essas prá‑ ticas por parte da sociedade e de certos meios de comunicação, incitando a pena de morte, o rebaixamento da maioridade penal, o armamento da popu‑ lação e o uso da força pelo Estado, respaldadas por uma intelectualidade ir‑ racionalista de direita que encontra espaço para se promover em jornais, em programas de TV, em cursos, em publicações próprias. Os “outros”, os inimi‑ gos que impedem a liberdade da burguesia e das classes médias são os pobres, os favelados, os jovens moradores das periferias, os indígenas, os trabalha‑ dores do campo e da cidade, principalmente quando eles comparecem coleti‑ vamente nas ruas, nas praças, nos espaços de lazer, como os shoppings, entre outros. Para a intelectualidade de direita, “os outros” são as forças organiza‑ das de esquerda, os setores progressistas, os movimentos sociais, os militan‑ tes de direitos humanos.

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Esse processo de barbárie tem sido contestado por parte da sociedade, resultando nas inúmeras manifestações populares que se espraiam por todo o país desde junho de 2013. Organizando‑se em partidos, associações, movimen‑ tos sociais ou através dos meios virtuais, essa população comparece às passea‑ tas, deflagra greves, para o trânsito de vias públicas e estradas em repúdio às ações de extermínio cometidas pela polícia nas favelas e periferias das cidades, denunciando a barbárie, reivindicando direitos e justiça social.

Trata‑se, portanto, da coexistência entre a prática da liberdade e da tole‑ rância e da sua negação, embora essa convivência seja desigual, na medida em que o movimento de negação tem uma base de sustentação objetiva na barbárie promovida pelas determinações conjunturais e estruturais do modo de produção capitalista.

Nesse sentido, voltando ao eixo de nossa reflexão, coloca-se uma questão ética e política que interessa àqueles que defendem e praticam a resistência à barbárie: a tolerância tem limites?

Umaquestãoéticaepolítica: atolerânciatemlimites?

Algumas correntes de pensamento consideram que devemos ser tolerantes em qualquer situação: tendências do relativismo cultural e do relativismo ético, com influências do irracionalismo e do pensamento pós-moderno. Para justifi‑ car o relativismo, apoiam‑se na negação da universalidade dos valores, na de‑ fesa da diversidade, das particularidades e do pluralismo.

O relativismo cultural questiona a possibilidade de julgamento de um padrão cultural particular a partir de critérios considerados válidos para toda a humanidade. No âmbito da filosofia, as correntes do relativismo ético defendem a ideia de que “não é possível chegar a um acordo racional universal na discussão dos princípios éticos, sendo impossível discernir — entre juízos morais em conflito — qual é o correto” (Etxberria, 2001, p. 54).

A defesa do pluralismo encontra sua razão de ser nessas formas de pensar, pois a afirmação de que não é possível discernir eticamente entre valores e

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práticas diferentes implica considerar que as práticas e as ideias existentes têm o mesmo valor e, portanto, que todas devem ser respeitadas.

No entanto, quando nos deparamos com práticas que representam atos de violência inadmissíveis, cabe a pergunta: devemos tolerar o intolerável?

Podemos citar como exemplos de práticas culturais: o genocídio, o etno‑ cídio, o racismo e várias práticas de discriminação e de violência contra a mulher, entre elas a da mutilação sexual e do apedrejamento, sem contar a lista interminável de violações que consta dos documentos de direitos humanos e que não se restringem a práticas culturais, tais como o trabalho escravo, a tor‑ tura, o terrorismo de estado, a guerra, a fome, a prostituição infantil etc. Por isso, é importante salientar que embora os exemplos a respeito das práticas culturais de violação aos direitos humanos acabem recaindo sobre os países não ocidentais, isso não significa afirmar que a civilização ocidental seja um exem‑ plo de não violação.

Em nome de quais valores tais práticas são justificáveis? Devemos nos manifestar em oposição a isso ou devemos “respeitar” esses valores? Respon‑ demos a tais indagações afirmando que a tolerância tem limites e que os parâmetros para essa afirmação são teóricos e históricos.

Para Bobbio, “a tolerância absoluta é uma pura abstração” (Bobbio, in Vázquez, 1999, p. 120). Vázquez adota como medida a liberdade, afirmando que “deve tolerar‑se o que amplia ou enriquece a liberdade e, ao contrário, não se deve tolerar o que a obstaculiza ou nega” (Vázquez, 1999, p. 121).

Entretanto, como já afirmamos, a categoria liberdade pode ser utilizada em diferentes práticas e discursos, com significados opostos. Por isso, é preci‑ so informar quais são os critérios teóricos e históricos, éticos e políticos que orientam nossa defesa dos limites da tolerância.

O caráter universal dos valores e os limites da tolerância

A ética é aqui concebida como uma forma de práxis: uma ação prática consciente derivada de uma escolha racional entre alternativas de valor que

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visa produzir uma transformação de valor nos homens entre si. A ética permi‑ te ao indivíduo sair de sua singularidade para estabelecer uma conexão cons‑ ciente com o humano genérico; logo, é uma atividade universalizante, mesmo sendo realizada por um indivíduo singular.

A criação de alternativas funda a capacidade de escolha (liberdade), e a valoração das escolhas objetiva a criação de valores e as escolhas de valor, instituindo a possibilidade do agir ético‑moral. Logo, valor e liberdade são fundantes da práxis ética, e seu significado ontológico é dado pela sua objeti‑ vidade na reprodução do ser social: esses componentes da práxis são liberados

e liberam pelas/as forças e capacidades humanas essenciais postas em movi‑

mento no processo de (re)produção humana a partir do trabalho: a liberdade, a sociabilidade, a consciência e a universalidade humana.

Desse modo, o caráter universalizante dos valores é um dado ontológico historicamente observável. Basta observar a história social da liberdade, em que sua objetividade é dada por todas as situações históricas de emancipação de homens, mulheres, de povos, classes e grupos sociais em face de situações de dominação, exploração, escravidão, de sofrimento material e espiritual provo‑ cado pelo impedimento forçado de liberação das capacidades e forças essenciais humanas. Portanto, negar a universalidade dos valores só tem sustentação em formas de pensar irracionalistas e a‑históricas.

Marx trata da riqueza humana 1 construída pelo gênero como a base fun‑ dante da livre e múltipla atividade de todo o indivíduo (Heller, 1978, p. 40). Por riqueza humana, ele concebe a universalidade das necessidades e capacidades,

o domínio do homem sobre a natureza, a explicitação absoluta de suas faculda‑

1. “Em todas as formas, ela [a riqueza representada pelo valor] se apresenta sob forma objetiva, quer

se trate de uma coisa ou de uma relação mediatizada por uma coisa, que se encontra fora do indivíduo e

casualmente a seu lado [

não a universalidade dos carecimentos, das capacidades, das fruições, das forças produtivas etc., dos indivíduos, criada no intercâmbio universal? O que é a riqueza se não o pleno desenvolvimento do domínio do homem

sobre as forças da natureza, tanto sobre as da chamada natureza quanto sobre as da sua própria natureza? O que é a riqueza se não a explicitação absoluta de suas faculdades criativas, sem outro pressuposto além do desenvolvimento histórico anterior, que torna finalidade em si mesma essa totalidade do desenvolvimento, ou seja, do desenvolvimento de todas as forças humanas enquanto tais, não avaliadas segundo um metro já dado?” (Marx, 1970, I, p. 372).

Mas, in fact, uma vez superada a limitada forma burguesa, o que é a riqueza se

].

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des criativas, em suas palavras: “Uma explicitação na qual o homem não se reproduz numa dimensão determinada, mas produz sua própria totalidade ” (Marx, 1970, I, 372).

Esses fundamentos fornecem uma medida de valor para julgar as ações humanas:

São de valor positivo as relações, os produtos, as ações, as ideias sociais que fornecem aos homens maiores possibilidades de objetivação, que integram sua sociabilidade, que configuram mais universalmente sua consciência e que aumen‑ tam sua liberdade social. Consideramos tudo aquilo que impede ou obstaculiza esses processos como negativo, ainda que a maior parte da sociedade empreste‑lhe um valor positivo. (Heller, 1972, p. 78)

Assim, a defesa da existência de limites à tolerância é alicerçada numa concepção ontológica e histórica baseada no nível de desenvolvimento da hu‑ manidade, em termos de suas conquistas emancipatórias e valores. Elas expres‑ sam a autoconsciência emancipatória do gênero humano e tornam‑se conscien‑ tes para os indivíduos em suas lutas políticas particulares. É nesse movimento entre o particular e o humano genérico que as conquistas e os valores se uni‑ versalizam. As conquistas também são traduzidas em documentos, leis, decla‑ rações, em âmbito nacional e internacional que visam obter um consenso em torno de princípios para balizar os limites entre o tolerável e o intolerável, a exemplo da Declaração de Direitos Humanos de 1948, elaborada no pós‑Se‑ gunda Guerra, objetivando um posicionamento universal em face dos crimes praticados pelo nazismo.

Uma das questões abordadas pelas correntes do relativismo cultural refe‑ re‑se ao fato de que os padrões utilizados para o julgamento das violações de direitos humanos são marcados pela cultura da civilização ocidental. Esses padrões não podem ser considerados universais, o que não deixa de ter sentido (Diniz, 2001). Entretanto, a questão é muito mais complexa, pois a negação de um posicionamento baseado no argumento de recusa à dominação imperialista tem seus desdobramentos, com implicações éticas e políticas que podem pro‑ duzir um resultado objetivo oposto ao desejado pela sua crítica.

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Assim, as tendências que defendem a diversidade, considerando que de‑ vemos respeitar a totalidade de práticas e ideias particulares em nome da liber‑ dade, encontra uma contradição insolúvel quando se depara com práticas que negam a própria liberdade, mais do que isso, a humanidade do outro. Na ver‑ dade, acabam propondo um posicionamento neutro em face de crimes e viola‑ ções de direitos humanos.

Consideramos que o enfrentamento dessa problemática não se resolve pelo relativismo, mas o inverso — a defesa do universal — também implica muitas mediações. A validade ou a abrangência dos documentos e leis que

tratam dos direitos humanos deve ser medida pelo nível de incorporação das diferentes culturas e modos de ser, das reivindicações dos diversos movimen‑ tos e lutas sociais, na construção de um debate orientado pelo horizonte da emancipação humana e pela noção de que, para o humano, a medida de valor

é o próprio homem.

Quanto ao chamado relativismo ético, com sua defesa da impossibilidade de haver um acordo racional diante de vários códigos morais em conflito, con‑ sideramos uma negação irracionalista e niilista da ética, pois anula a capacida‑ de de escolha do sujeito e a sua responsabilidade em face de situações que demandam escolhas de valor. Na medida em que a ética, com sua exigência de posicionamento; a razão, com sua capacidade de conhecer a essência da reali‑ dade; a ação política, com sua interferência na realidade social, deixam de ter sentido, essa forma de pensar passa a coincidir com a ideia defendida pela ideologia dominante: “cada um na sua”.

Pelo exposto, podemos considerar que as diferenças culturais, sociais, políticas, teóricas podem expressar a multiplicidade de capacidades e possibi‑ lidades do gênero humano rico em necessidades e formas de satisfação. Ao mesmo tempo, podem expressar desigualdade, dominação, exploração, discri‑ minação, empobrecimento da humanidade. Isto porque, em sua história de desenvolvimento, a humanidade tem produzido, ao mesmo tempo, a riqueza e

a miséria; a humanização e a barbárie.

A universalidade histórica dos valores, como construções humanas, for‑ necem parâmetros universais para avaliar o que é barbárie, tendo como medida o nível de humanização do ser social atingido até hoje e documentado em

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manifestos, acordos, leis, elaborados universalmente. Como seres humanos e sociais, somos dotados de discernimento ético para fazer distinção entre valores, com base nas conquistas já efetuadas historicamente. Os torturadores podem dizer que estavam agindo em nome da “liberdade”; parte da sociedade pode até apoiá‑los. Mas o patamar emancipatório conquistado pela humanidade em termos da autoconsciência da liberdade e dos direitos humanos permite a con‑ testação por parte dos que não toleram o que é intolerável.

Isso significa afirmar que a discussão acerca do que é tolerável, nos marcos de uma sociedade cindida pela divisão entre classes e interesses econômicos e políticos, não é somente uma discussão ética filosófica; trata-se de um embate ético‑político prático que envolve referências teóricas, projetos sociais, ideolo‑ gias e valores.

Por isso, a questão do pluralismo, assim como a da diversidade, não sig‑ nifica ausência de conflitos e interesses, mas sim o posicionamento diante deles,

a possibilidade de todos se manifestarem, a responsabilidade ética de tomar uma posição diante do que não concordamos e a condição política de lutar pela hegemonia do projeto societário que defendemos e pela universalização dos valores a ele conectados.

A liberdade liberal, portanto, é enganosa porque divulga uma falsa noção de respeito ao outro, quando, na verdade, exclui o outro porque é diferente. A

concepção de liberdade aqui tratada não se separa da sociabilidade. Pressupõe‑ ‑se que indivíduos sejam livres em relação uns com os outros; não podemos ser livres enquanto os outros não o são. Isso supõe o enfrentamento dos con‑ flitos, das contradições, a aceitação consciente dos demais como seres iguais

e diferentes.

Nesse sentido, o Código de Ética dos(as) Assistentes Sociais (CFESS, 1993) é transparente quando afirma que os assistentes sociais elegem como

princípios fundamentais a liberdade, a democracia, a equidade, a justiça social,

o empenho na eliminação de todas as formas de preconceito e de discriminação

por questões de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual, idade e condição física, incentivando o respeito à diversidade, à discussão das diferenças e a garantia do pluralismo, por meio do respeito às correntes profis‑ sionais democráticas existentes.

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De forma explícita, o Código indica uma concepção de pluralismo que limita a tolerância ao campo democrático, negando as práticas, ideias e mani‑ festações que produzem o racismo, a xenofobia, o nacionalismo agressivo, o fascismo, o preconceito, a discriminação por motivos diversos, enfim que negam os valores que dão suporte à ética profissional.

Recebido em 9/5/2014

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Aprovado em 2/6/2014

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La formación en Derechos Humanos como parte delproyectoéticopolíticodelTrabajoSocial

The education in human rights as part of the ethical and political project of Social Work

as part of the ethical and political project of Social Work Cory Duarte Hidalgo* Resumen: La

Cory Duarte Hidalgo*

Resumen: La consideración de la formación en Derechos Humanos en tanto elemento primordial del proyecto ético político del trabajo social es el elemento basal de este artículo, el que indaga en los proyec‑ tos curriculares de Trabajo Social en Universidades Estatales Chilenas. El estudio de carácter cualitativo, descriptivo y exploratorio, analiza el contenido de estos proyectos permitiéndonos así elaborar recomen‑ daciones para la inclusión de los Derechos Humanos en la política pública de educación superior en general, y en las carreras de trabajo social en particular.

Palabras claves: Formación en Trabajo Social. Derechos Humanos. Educación universitaria.

Abstract: The education in human rights as a fundamental element of the ethical and political project of Social Work is the base of this article, related to the curriculum projects of Social Work in state Chilean universities. This qualitative, descriptive and exploratory study analyses the content of such projects, so as to lead to recommendations to include human rights in the public policy for college education in general, as well as in the careers in Social Work

Keywords: Background in Social Work. Human rights. College education.

* Asistente social, licenciada en Trabajo Social, máster en Trabajo Social Comunitario, máster en Estudios Feministas, máster en Inmigración, refugio y relaciones intercomunitarias, doctoranda en Trabajo Social, Universidad de Atacama, Copiapó, Chile. Email: cory.duarte@uda.cl.

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1.

Presentación

E l presente artículo revisa la consideración de la formación en derechos humanos en las carreras de trabajo social de instituciones de educa‑ ción superior pertenecientes al Consorcio de Universidades Estata‑ les Chilenas (CUECH) ubicadas en la Macrozona Norte del país.

Así, se planteó como objetivo de investigación el identificar la presencia o ausencia de la formación en derechos humanos en los perfiles de egreso y mallas curriculares, reflexionando sobre la consideración de la formación en derechos humanos como elemento primordial del proyecto ético político del trabajo social.

Como marco referencial se presenta una somera revisión respecto de la educación en derechos humanos, basándose en los instrumentos internacionales que versan sobre la temática, para luego dar paso a la exploración de los ante‑ cedentes que hablan de la inclusión de la formación de los derechos humanos en trabajo social.

Respecto de la forma en que se desarrolla este estudio, se declara su ca‑ rácter cualitativo, descriptivo y exploratorio, en el cual mediante el análisis de contenido se logran resultados respecto de los objetivos planteados con ante‑ rioridad. El documento finaliza con una serie de recomendaciones para la in‑ clusión de la formación de derechos humanos en la política pública de educa‑ ción superior en general, y en las carreras de trabajo social en particular.

En consideración a lo que más adelante se plantea, la educación en derechos humanos, se transforma en un imperativo de primer orden para las escuelas de trabajo social.

2. El contexto del estudio: la educación en Derechos Humanos

La educación por la paz y por los Derechos Humanos ha sido construida con base a múltiples esfuerzos internacionales, los que han sido plasmados en diversos instrumentos, conferencias, encuentros y reuniones. Si bien es cierto, la gran mayoría de las declaraciones y convenciones dedican algunos párrafos a

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la educación en los ámbitos específicos de cada instrumento, existen pactos y

declaraciones en las que se plasman en detalle las obligaciones de los Estados

al respecto. En este sentido, destaca la Declaración y Programa de acción de

Viena (Naciones Unidas, 1993), la cual considera que los Estados partes debie‑

sen incluir “los derechos humanos, el derecho humanitario, la democracia […] como temas de programas de estudio de todas las instituciones de enseñanza

académica y no académica” (art. N. 79). Establece además que la educación en materia de derechos humanos “debe abarcar la paz, la democracia, el desarrollo

y la justicia social” (art. N. 80), estipulando que los Estados deben elaborar

“programas y estrategias específicos para ampliar al máximo el nivel de educa‑ ción y difusión de información pública en materia de derechos humanos, tenien‑ do particularmente en cuenta los derechos humanos de la mujer” (art. N. 81).

La Declaración sobre el derecho y el deber de los individuos, los grupos

y las instituciones de promover y proteger los Derechos Humanos y las liber‑ tades fundamentales universalmente reconocidos, aprobada por la Asamblea General en su Resolución 53/144, de 9 de diciembre de 1998, establece que

Incumbe al Estado la responsabilidad de promover y facilitar la enseñanza de los derechos humanos y las libertades fundamentales en todos los niveles de la edu‑ cación, y de garantizar que los que tienen a su cargo la formación de abogados, funcionarios encargados del cumplimiento de la ley, personal de las fuerzas ar‑ madas y funcionarios públicos incluyan en sus programas de formación elemen‑ tos apropiados de la enseñanza en derechos humanos. (art. N. 15)

A su vez, en el Decenio de las Naciones Unidas para la educación en la esfera de los derechos humanos, según consta en la Resolución 49/184 del 23 de diciembre de 1994, de la Asamblea General de Naciones Unidas, se fija como objetivo el fomento de la educación en derechos humanos en todos los niveles de enseñanza, así como el establecimiento y fortalecimiento de programas y capacidades para la educación en derechos humanos, entre otros aspectos.

En el caso latinoamericano, se ha exhortado y orientado para que los Es‑ tados elaboren planes de acción y diseñen estrategias de educación en derechos humanos. Ejemplo de esto es la conferencia Regional sobre Educación en

484

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Derechos Humanos (DDHH) en América Latina y el Caribe, realizada el 2001 en Ciudad de México, en la que se define un programa de acción sobre DDHH. En este documento los Estados comprometen la introducción temas de Derechos Humanos, paz y democracia en los planes educativos, incluyendo políticas multiculturales, interdisciplinares y multisectoriales sobre Derechos Humanos, así como la articulación de políticas de igualdad, acciones que deberían ser monitoreadas en forma permanente.

La declaración estipula entre otras cosas garantizar la libertad de cátedra, la instalación de defensorías y la docencia en derechos humanos. Busca que las Universidades desarrollen los derechos humanos en todas las carreras, a través de metodologías sólidas y de carácter plural, fomenten la educación de posgra‑ do en derechos humanos., y que incentiven investigaciones “sobre la realidad nacional y/o regional desde la perspectiva de la población‑víctima de violacio‑ nes a sus derechos, para conocer las causas que las originan y contribuir en propuestas para su erradicación” (Declaración de México, 2001). Así también, la declaración indica que los Estados deben entregar “la garantía de una forma‑ ción profesional comprometida con los valores y principios de la democracia para que ello forme parte de los perfiles profesionales y las competencias re‑ queridas en el ejercicio de los mismos” (Declaración de México, 2001).

Resulta interesante la visión de esta declaración en torno a centrarse en el sujeto, reconociendo que “la educación en derechos humanos debe ser un pro‑ ceso de enseñanza aprendizaje que transforme la vida de las personas e integre lo individual con lo comunitario, lo intelectual con lo afectivo”, pero además ha de considerar “el reconocimiento y valoración de la pluralidad cultural pre‑ sente en la región” (Ramírez, 2004, p. 33).

Los informes especializados identifican 13 instrumentos internacionales que tienen disposiciones atingentes respecto de la consideración de los Derechos Humanos en la Educación (Azúa, 2011, p. 33) en lo que ha implicado que, a partir de la década de los noventa, el Estado Chileno adquiriese compromisos concretos respecto de la Educación en derechos humanos en los distintos nive‑ les educativos.

En el año 2012, en su informe anual el Instituto Nacional de Derechos Humanos (INDH) consignaba la necesidad de considerar los acuerdos suscritos

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por el Estado Chileno en los cuales compromete la inclusión de los derechos humanos en la formación educativa en general y con especial énfasis en la formación universitaria. En el mismo informe el INDH manifiesta que las Uni‑ versidades no han sido capaces de declarar el compromiso ciudadano con los derechos humanos en las misiones y visiones institucionales. Así también, en el estudio realizado por dicho Instituto respecto de la inclusión de los derechos humanos en las mallas curriculares de pedagogía, derecho y periodismo, se evidencia la inclusión marginal de los derechos humanos en la formación pro‑ fesional (Azúa, 2011).

En 2011, el Dr. Nash, del Centro de Derechos Humanos de la Facultad de Derecho de la Universidad de Chile denunciaba la escasa importancia de los derechos humanos en las misiones y mallas curriculares de las carreras de de‑ recho a nivel nacional. El académico señala las deficiencias en los currículos en torno a materias relacionadas con la teoría general de derechos humanos, los instrumentos internacionales, la jurisprudencia internacional y los grupos en condición de vulnerabilidad (Nash, 2011, p. 63).

Como resultado del estudio señalado se recomienda la inclusión en los currículos de las carreras del área, el estudio de los grupos protegidos a nivel internacional a través de convenciones específicas, es decir, la consideración de los derechos de las mujeres, niños, niñas y adolescentes, migrantes, diversi‑ dades sexuales, pueblos originarios, personas privadas de libertad y refugiados (Nash, 2011, p. 63). En el caso de la teoría general de los derechos humanos, el mismo estudio sugiere su abordaje en asignaturas específicas, pero también en cátedras como Derecho Procesal Penal y Derecho Internacional Público.

Por no encontrarse material respecto de la incorporación de los derechos humanos en las mallas curriculares de trabajo social se hace relevante estudiar respecto de esto, teniendo en cuenta que el objetivo central de la educación en derechos es empoderar a las personas para sean sujetos de derecho, avan‑ zando hacia la consolidación de la justicia y la paz en nuestras sociedades (Mujica, 2002). La educación en derechos humanos es una propuesta ético política que implica la consideración de la teoría general de derechos humanos, pero también la atención de las desigualdades y los grupos que las sufren. De esta forma, los perfiles de egreso permiten formar profesionales sujetos de

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derechos, lo que en resumidas cuentas significa entregar las competencias necesarias para que desarrollen su acción profesional siendo capaces de pro‑ mocionar y defender sus derechos y los de las personas, grupos y comunida‑ des con quienes trabajan.

3. Algunas consideraciones sobre la formación en Derechos Humanos en TrabajoSocial

En el ámbito internacional, la Federación Internacional de Trabajo Social (FITS) reconoce desde sus inicios la estrecha interrelación existente entre de‑ rechos humanos y trabajo social, lo que se ha consolidado al figurar como en‑ tidad consultiva en materias relacionados con derechos sociales, infancia, salud ente otros (Naciones Unidas, 1995). En el año 1992, el Centre for Human Rights de las Naciones Unidas, en conjunto con la International Federation of Social Workers (IFSW/FITS) y la International Association of Schools of Social Work (IASSW), publican por primera vez un manual dedicado a las Escuelas de “Servicio Social”, en el que se considera imperativo “que las personas que participan en la enseñanza y la práctica del servicio social se comprometan claramente y sin reservas en la promoción y la protección de los derechos hu‑ manos y en la satisfacción de las aspiraciones sociales fundamentales” (p. 11). En el mismo documento se insta a las escuelas de trabajo social a introducir los derechos humanos en sus propuestas curriculares:

Algunas escuelas podrán ofrecer un curso facultativo separado, otras exigir a sus alumnos que sigan un curso de derechos humanos y otras introducir el estudio de los derechos humanos en todos sus cursos fundamentales obligatorios. Esos mé‑ todos no tienen por qué excluirse mutuamente, ya que cada uno de ellos tiene ventajas y desventajas. (p. 12)

Así también, en dicho manual, se señala la necesaria coherencia en los programas de trabajo social, los que debiesen reflejar “dimensiones de los de‑ rechos humanos y la justicia social” (p. 12). Considerando lo anterior, se señala

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la necesidad de contar con misiones y principios en las escuelas que den cuenta de estas dimensiones, así como las instalación de relaciones y procedimientos con base en los derechos humanos.

En la Declaración del 2000, la FITS reconoce a los derechos humanos y la justicia social como principios de la profesión, relevando su importancia en el proyecto ético político del trabajo social. Reconocer lo anterior implica pen‑ sar los derechos consignados en la Declaración Universal como mínimos éticos en el desarrollo de los pueblos, constituyéndose en tanto “condiciones de posi‑ bilidad de realización y de transformación con vistas a conseguir una mayor justicia y solidaridad” (Cordero, Palacios y Fernández, 2006, p. 7). Sin embar‑ go, la concepción de derechos de la Declaración Universal resulta problemáti‑ ca en atención a los cuestionamientos sobre la visión universalista, burguesa, androcéntrica y eurocentrista contenida en ella; ante lo cual se hace necesario ligar la idea de dignidad humana con el reconocimiento de múltiples contextos, situados, fundados y multiculturales. Por estas razones, la propuesta de la FITS y la AIETS respecto de la definición de Trabajo Social posee un gran número opositores respecto de la visión etnocéntrica, funcionalista y eurocéntrica de la misma, imponiéndose “los parámetros de principios éticos amplios” (AIETS, 2003), lo que de todas formas, deja a un lado los contextos y especificidades propias de cada región. Las distintas asociaciones regionales, han trabajo en sendas propuestas de modificación de la definición de 2000, las que no han logrado acuerdo ni los consensos necesarios.

En el año 2004, la FITS lista siete instrumentos de derechos humanos considerados de especial relevancia para la práctica y acción del trabajo social (FITS / AIETS, 2004, p. 3), entre estos se encuentran la Declaración Universal, el Pacto de Derechos civiles y políticos (PIDCP), el Pacto de Derechos Econó‑ micos, Sociales y Culturales (PIDESC), la Convención por la Eliminación de todas las Formas de Discriminación Racial; la Convención por la Eliminación de todas las formas de discriminación contra la Mujer (CEDAW), la convención de los Derechos del Niño (CDN), y la convención sobre pueblo indígenas y tribales (convenio de la OIT, n. 169). En el mismo año la FITS compromete sus esfuerzos para denunciar y contribuir en la eliminación de toda forma de vul‑ neraciones a los derechos humanos.

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En el caso chileno, el Consorcio de Escuelas de Trabajo Social compues‑ to por algunas Universidades del CUECH en 2006 1 trabajó en una propuesta colectiva de perfil académico, proceso en el cual se revisaron los ámbitos dis‑ tintivos de desempeño profesional y los núcleos históricos de formación profe‑ sional. En dicho trabajo se reconoce la pertinencia de las competencias concer‑ nientes a los derechos humanos en los ámbitos relacionados con sujetos y procesos. En la sistematización realizada por Castañeda y Salamé mencionan que los y las profesionales de lo social se enfrentan a desafíos relacionados con transformaciones estructurales relacionadas con la tecnología y la economía, en un sistema social que se ha complejizado, en el que las respuestas a las de‑ mandas corren el riesgo de quedar obsoleta, en lo que las autoras identifican como una crisis de sentido. Así, “la sociedad contemporánea demanda nuevas exigencias a los profesionales del ámbito social, cuestionando los contenidos de su formación y los desempeños laborales que le han sido tradicionales” (Castañeda y Salomé, 2009, p. 3).

Esas nuevas exigencia se dan por las características contextuales de cada escuela de trabajo social y su conexión con el medio local en el que estén in‑ sertas; así, materias como migraciones, medio ambientes o movimientos socia‑ les cobran una trascendencia especial debido a las particularidades regionales/ locales, lo que de alguna forma u otra inciden en la formación entregada.

Podemos afirmar que los derechos humanos y su incorporación en trabajo social atienden a una visión ético política de la profesión y disciplina, en la que se considera como perspectiva ética la noción de derechos humanos en toda su complejidad. De esta forma, el principal desafío para las escuelas es la forma de implementar esta perspectiva, evitando caer en una concepción mítica, en‑ frentándoles como una realidad efectiva (Martín, Esteban y Ramos, 2006), de alcance y complejidad situada.

La consideración de los derechos humanos como marco axiológico de intervención, praxis e investigación en trabajo social, implica adoptarlos en su

1. Este trabajo fue realizado en el marco del proyecto MECESUP UCM 0401, en el cual participaron las siguientes Universidades: Universidad Católica del Maule, Universidad de La Frontera, Universidad de Concepción, Universidad del Bío Bío, Universidad de Antofagasta, Universidad Tecnológica Metropolitana, Universidad Católica de Temuco y Universidad de Los Lagos.

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complejidad e historicidad, facilitando, a través de ellos, procesos de subjeti‑ vación de las personas y los pueblos, componente esencial del proyecto ético político del trabajo social. Desde este marco, la consideración de los derechos humanos en las acciones transformadoras de los y las trabajadoras sociales implica la realización de investigaciones e intervenciones respetuosas de la diversidad, democráticas, situadas y críticas. Así, los Derechos Humanos cons‑ tituyen el guión emancipatorio de nuestra acciones, en torno a un “diálogo in‑ tercultural sobre la dignidad humana que eventualmente puede conducir a una concepción mestiza de los derechos humanos, una concepción que en lugar de recurrir a falsos universalismos, se organice como una constelación de signifi‑ cados locales” (Santos, 2002, p. 69‑70).

4. ¿A qué apela el proyecto ético político del Trabajo Social?

Puesto que somos ciudadanos y ciudadanas y nos desempeñamos como tales, inmersos en un sistema democrático en el cual el derecho a tener derechos debiera de considerarse la consigna primordial, las profesiones de lo social requerimos de un marco ético para nuestro actuar, una ética aplicada, puesto que la cotidianeidad de los complejos escenarios en los que nos situamos nos hacen enfrentar dilemas frente a los cuales no existen soluciones estandarizadas, requiriendo de mínimos éticos, pero también, el ejercicio ético de nuestras vocaciones (Cortina, 2002). De esta forma la consideración de la ética aplicada en profesiones como la nuestra permite “orientar de forma mediata, ofreciendo un marco reflexivo para la toma concreta de decisiones” (Cortina, 1996, p. 121).

Considerando esta concepción de ética aplicada, creemos relevante aclarar lo que entendemos en este documento por proyecto ético político del trabajo social. Para esto seguiremos la reflexión de Montaño, respecto de la crisis en la “base de sustentación funcional‑laboral” de la profesión, crisis que obliga a reaccionar a través de propuesta de acción de orden colectivo, entre las que el autor señala la necesidad de “construcción/consolidación […] de un proyecto profesional hegemónico que integre la dimensión ética y la dimensión política” (Montaño, 2005, p. 7), este ha de ser construido en forma democrática por el

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colectivo profesional, “inspirado y articulado a proyectos societarios”. Como propuesta, Montaño plantea un proyecto profesional progresista fundado en diversos valores y principios, entre los que destacan los derechos humanos (Montaño, 2005, p. 8). Para el desarrollo de dicho proyecto el autor propone una agenda que considera cuatro elementos: la organización profesional; un marco legal profesional en el que se plasme la operatividad del proyecto y la propuesta; en dicho marco han de estar señalados el reglamento de ejercicio profesional y el código de ética (Montaño, 2005, p. 9); la formación profesional, la que procuraría la “unificación de niveles de formación”, “planes de estudios básicos”, posgrados y la “promoción de las condiciones para la producción bibliográfica teórica de calidad”; y por último, Montaño considera la articula‑ ción con las fuerzas vivas de la sociedad.

En este sentido, si comprendemos a los y las profesionales del trabajo social como sujetos y sujetas que desde sus contextos, historicidades y diversi‑ dades enfrentan las distintas realidades sociales en las que están inmersos, elementos como la formación profesional darán contenido a su praxis profesio‑ nal (Olaya, 2009). Así, el proyecto ético político exigido por Montaño y otros de similares características implican una propuesta que “garantiza compromiso y responsabilidad social, permitiendo que el sujeto sea crítico frente a los de‑ safíos que impone la propuesta del relativismo y la neutralidad y lo más impor‑ tante, posibilita que se vincule a un proyecto de sociedad radicalmente demo‑ crático” (Olaya, 2009, p. 7).

5. Definición del problema de investigación

Concluida la presentación de los elementos referenciales que sustentan el estudio realizado corresponde asentar aquellos que permiten plantear el proble‑ ma de investigación. Entendiendo la conformación tradicional de construcción de este apartado se presentarán el objetivo de investigación, las preguntas guí‑ as y la justificación necesaria.

El objetivo principal de este estudio es comparar los perfiles de egreso y mallas curriculares de cuatro carreras de trabajo social pertenecientes al CUECH,

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ubicadas en la Macrozona norte, en relación a la consideración de la formación en derechos humanos como elemento primordial del proyecto ético‑político de la profesión.

Considerado lo anterior, los objetivos específicos tienen relación con la pregunta de investigación que guía el análisis: ¿cuáles son los énfasis identificables en los perfiles de egreso y mallas de estudios de las carreras de trabajo social pertenecientes al CUECH en la Macrozona norte, respecto de la formación en derechos humanos?

Por tanto, los objetivos específicos fueron:

a)

Identificar la presencia o ausencia de la formación en derechos humanos en los perfiles de egreso y mallas curriculares.

b)

Reflexionar sobre la consideración de la formación en derechos hu‑ manos como parte del proyecto ético del trabajo social.

c)

Proponer algunas recomendaciones para la inclusión de la formación de derechos humanos en la política pública de educación superior en general, y en las carreras de trabajo social en particular.

Dado lo anterior, se configuran como supuestos de este estudio el que los distintos énfasis identificados en la formación en Derechos Humanos afectan a las configuraciones y representaciones sociales de los egresados y egresadas de trabajo social de las universidades consideradas, así, los énfasis formativos influirían de alguna forma en la disposición que tengan los y las profesionales

a la hora de realizar investigaciones e intervenciones. De esta forma, si la for‑

mación en derechos humanos se convierte en el contenido valórico explícito en el cual se comprometen las instituciones, la carencia de este contenido afectaría

a la construcción de un proyecto ético profesional, de las características esta‑ blecidas por Montaño.

La ausencia de la formación en Derechos Humanos afectaría a los y las egresadas, pero también, afectaría directamente a la conformación del proyec‑ to ético político, puesto que perdería las bases fundacionales del mismo.

Esta situación resulta de interés profesional, disciplinar y gremial pues‑ to que se requieren de identificar competencias mínimas en la formación de

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trabajadores y trabajadoras sociales, las que han de estar respaldadas por las discusiones internacionales realizadas en ese orden, pero también por la con‑ textualización y situación de las unidades académicas en función de las nece‑ sidades y demandas locales y regionales.

6. La inclusión de los derechos humanos en los perfiles de egreso y mallas curriculares de las carreras de trabajo social en las universidades del CUECH en la macrozona norte

Brevemente mencionaremos que, para lograr conocer y comprender acer‑ ca del tema, se utilizó como base un enfoque metodológico cualitativo. Se optó por este enfoque, por considerarse una perspectiva que genera conocimiento acerca de la realidad social, incorporando en las formas de conocer múltiples perspectivas eminentemente éticas y políticas (Tójar, 2006, p. 145), con las que se pretende comprender una realidad múltiple, dinámica y holística.

Siguiendo esta línea, la investigación cualitativa construye conocimientos inclusivos, históricos, contextuales, provisionales, reflexivos, multimetódicos, sistemáticos, subjetivos y holísticos, lo cual potencia y enriquece los procesos de generación y búsqueda de conocimientos emprendidos desde las ciencias sociales, con la finalidad de comprender, investigar (para transformar) interpretar y reflexionar, realidades de características diversas y divergentes.

Dicho esto, expondremos brevemente el método de análisis realizado respecto de la inclusión de los derechos humanos en los planes de estudios de la carrera de trabajo social en las Universidades del Consorcio de Universidades Estatales de Chile, en la macrozona norte, zona comprendida entre las ciudades de Arica y La Serena, analizando la información disponible en las web site de las Universidades de Tarapacá, rturo Prat, de Antofagasta y de Atacama.

Para efectos de la reflexión desplegada, se ha tomado como unidad de análisis los perfiles de egreso y mallas de estudio de las casas de estudio antes señalada, los cuáles han sido trabajados a través de la técnica de análisis de contenido.

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7. Método: el análisis de contenido

El análisis de contenido como técnica de investigación en ciencias socia‑ les indaga en la naturaleza de los discursos, permitiendo “formular, a partir de ciertos datos, inferencias reproducibles y válidas que puedan aplicarse a un contexto” (Krippendorff, 1990, p. 82). Esta técnica obliga a quien investiga a situarse desde una triple perspectiva, considerando los datos, su contexto y los marcos interpretativos propios del investigador o investigadora (Porta y Silva, 2003, p. 2). Así, según lo planteado por Raigada, llamamos análisis de conte‑ nido al “conjunto de procedimientos interpretativos de productos comunicativos” (Raigada, 2002, p. 2).

Resulta interesante ahondar en la presentación que realiza el mismo autor respecto de los significados de este tipo de análisis:

[…] su propia denominación de análisis de “contenido”, lleva a suponer que el “contenido” está encerrado, guardado, incluso a veces oculto dentro de un “con‑ tinente” (el documento físico, el texto registrado, etc.) y que analizando “por dentro” ese continente”, se puede desvelar su contenido (su significado, o su sentido), de forma que una nueva “interpretación” tomando en cuenta los datos del análisis, permitiría un diagnóstico, es decir, un nuevo conocimiento (gnoscere “conocer” a través de su penetración intelectual. (Raigada, 2002, p. 2)

De esta forma, el análisis de contenido logra la emergencia del sentido latente que procede de las prácticas sociales (Raigada, 2002, p. 7), por lo que no sólo interesa indagar respecto de los datos visibles en los documentos co‑ municativos, sino también en aquellos aspectos no dichos en el discurso.

En este estudio se utilizaron unidades temáticas de análisis, las que per‑ mitieron conducir la reflexión a partir de los conceptos, temas y referencias utilizadas o enunciadas en los perfiles de egreso y malla analizados. Ahora bien, para efectos de esta investigación sólo se consideraron aquellos conceptos y temas relacionados con el objeto de estudio. De esta forma, se ha elaborado una serie de categorías, las cuales cumplieron con los requerimientos plantea‑ dos por Berelson (1967, apud López Noguero, 2011, p. 176), en la cual quien

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investiga razona los motivos de categorización observando los criterios de para ellos establecidos.

Este tipo de análisis se complementa con el enfoque de análisis de marcos de política los cuales son entendidos por Mieke Verloo como un “principio organizador que transforma la información fragmentaria o incidental en un problema de estructura y sentido, en la que una solución está implícita o explí‑ citamente incluido” (Verloo, 2005, p. 20). En este sentido, el análisis de marcos de política puede contribuir a la identificación de la coherencia entre un proble‑ ma y su solución, y cómo ambos elementos están presentes en los textos polí‑ ticos (Verloo y Lombardo, 2007).

Uno de los aspectos relevantes de este enfoque es la identificación de las ausencias en el discurso político, además, permite identificar prejuicios “que pueden, sin proponérselo formar los discursos políticos y, en consecuencia, se puede revelar inconsistencias latentes, o incluso los prejuicios” (Verloo y Lom‑ bardo, 2007). Asimismo, este tipo de análisis permite identificar las exclusiones existentes en la formulación de las políticas, visibilizando la forma en que “las estrategias discursivas pueden modificar el proceso en sí mismo por medio de la exclusión de algunos actores del debate” (Triandafyllidou y Fotiou, 1998, p. 6.4 apud Verloo y Lombardo, 2007, p. 29).

Así, y considerando el carácter exploratorio y descriptivo de este estudio, en los apartados siguientes se expondrán los análisis preliminares.

8. Análisis

Desconocemos los procesos que configuraron los planes de estudios y respectivas mallas de las escuelas de trabajo social de la macrozona norte, sin embargo, podemos realizar análisis acudiendo a la información que cada casa de estudio ha considerado estratégica de difundir. De esta forma los análisis primarios tienen relación con la consideración de los Derechos Humanos en los perfiles de egreso tal y como se grafica a continuación.

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Tabla 1. Categorías de contenidos Nivel 1: Consideración Derechos Humanos en los perfiles de egreso.

   

Universidades

 

Categorías

1

2

3

4

Consideración Derechos Humanos en forma explícita (enfoque de derechos)

No de forma explícita, pero hace referencia a la calidad de vida de las personas, grupos, organizaciones y comunidades.

No. Pero sí hace referencia al empoderamiento y la superación de situaciones conflictivas que afectan a personas, familias, grupos y comunidades.

No hace referencia directa. Sin embargo, se pronuncia en el reconocimiento de diversidad, habla de diferentes sujetos y territorios elementos

Sí. Declara como sello distintivo el enfoque de derechos

Referencia a derechos civiles y políticos

No

No

No

No

Referencia a

       

derechos

económicos,

No

No

sociales y

culturales

Referencias a

     

Sí, declara ponerles en el centro.

personas o

colectivos “sujetos

No

No

de derechos”