Funções Trigonométricas

Grupo de Matemática da Universidade Técnica de Lisboa:
António St. Aubyn, Maria Carlos Figueiredo,
Luís de Loura, Luísa Ribeiro, Francisco Viegas
Lisboa, Março de 2004
O documento presente foi obtido directamente do código TeX fornecido pelos autores com alterações de formatação. A versão corrente é de
4 de Novembro de 2005. A revisão deste texto do ponto de vista gráfico ainda não está completa. Novas versões poderão ficar disponíveis no futuro
a partir de http://preprint.math.ist.utl.pt/files/ppgmutltrig.pdf. O DMIST agradece ao Grupo de Matemática da UTL a possibilidade de facultar o
texto aos alunos das disciplinas introdutórias de Matemática do IST.
1
Conteúdo
1 O círculo trigonométrico 2
2 Função seno 8
3 Função co-seno 18
4 Funções tangente e cotangente 30
5 Funções secante e co-secante 41
6 Funções trigonométricas inversas 44
6.1 Funções arco seno e arco co-seno . . . . . . . . . . . . . . . . 47
7 Coordenadas polares 49
1 O círculo trigonométrico
Uma das formas elementares de introduzir as funções trigonométricas é
utilizar o chamado círculo trigonométrico. Foi, aliás, desta maneira que as
referidas funções foram estudadas no ensino secundário.
Chamamos círculo trigonométrico a uma circunferência
1
de raio 1 cen-
trada na origemde umreferencial ortonormado directo no plano (O, e
1
, e
2
).
Relembramos que um referencial (O, e
1
, e
2
) do plano se diz ortonormado
directo sse os vectores
2
e
1
e e
2
tiverem igual comprimento e o ângulo ori-
entado de e
1
para e
2
for um ângulo recto, orientado no sentido contrário ao
dos ponteiros do relógio. Na figura 1 representamos o referencial (O, e
1
, e
2
)
e o círculo trigonométrico, que designaremos por C.
Designemos por ξ e η as coordenadas de umponto genérico Qdo plano
no referencial (O, e
1
, e
2
). Relembrando que a equação de uma circunferên-
cia centrada na origem O do referencial e com raio R > 0 é ξ
2
+ η
2
= R
2
,
vemos que o ponto Q pertence ao círculo trigonométrico sse
ξ
2
+ η
2
= 1 (1)
A condição (1) é, portanto, a equação do círculo trigonométrico
3
.
1
Seria mais razoável usar o termo circunferência trigonométrica mas, por tradição,
círculo trigonométrico é o termo usado.
2
Por convenção, escreveremos os vectores em letra escura não itálica.
3
Não esquecer que se trata de uma circunferência!
2
1
e
2
e
1 O
C
Figura 1: Círculo trigonométrico.
Seja x umnúmero real qualquer; vamos associar ao número x umponto
P do círculo trigonométrico. Para isso, consideramos, tal como indicado
na figura 2, o ângulo orientado
4
θ cuja medida em radianos é x. Esse
ângulo determina uma semi-recta a partir da origem O do referencial, que
intersecta o círculo trigonométrico num único ponto. É precisamente esse
o ponto P que, por definição, associamos ao número real x.
q ( radianos) x
P
Figura 2: O ponto P associado ao número real x.
Note-se que, do ponto de vista formal, acabámos de definir uma aplica-
çãoΨque, a cada númeroreal x, associa opontoPdocírculotrigonométrico
4
Relembramos que o sentido positivo é o contrário ao dos ponteiros do relógio.
3
construído da forma descrita:
Ψ : R → C.
A função Ψé obviamente sobrejectiva porque, dado um ponto P qual-
quer do círculo trigonométrico, é possível (e muito fácil) determinar um
número real x tal que P = Ψ(x), por outras palavras, tal que P seja o ponto
associado a x pelo processo descrito no início. De facto, basta considerar a
semi-recta OP, determinar umângulo orientado θque ela faça como vector
e
1
, e tomar para x a medida, em radianos, desse ângulo θ (ver figura 2).
No entanto a função Ψ não é injectiva. De facto, suponhamos que o
ponto P do círculo trigonométrico está associado a um certo número x, ou
seja, que P = Ψ(x). Isto significa que um ângulo orientado entre o vector e
1
e a semi-recta OP mede x radianos. Mas então um outro ângulo orientado
entre e
1
e a semi-recta OP mede, por exemplo, x + 2π radianos, visto que
um ângulo de 2π radianos corresponde a uma volta completa no círculo
trigonométrico. Consequentemente o ponto P está também associado ao
número real x + 2π, ou seja, P = Ψ(x + 2π). Das igualdades
P = Ψ(x) = Ψ(x + 2π)
concluímos que Ψnão é injectiva.
Pode agora pôr-se a questão: dado um ponto P do círculo trigonomé-
trico, a que números reais estará P associado? Por outras palavras, quais os
números x tais que P = Ψ(x)? Para responder a esta questão, designemos
por θ um ângulo orientado entre e
1
e a semi-recta OP. Sendo α a medida,
em radianos, do ângulo θ, tem-se P = Ψ(α). Todos os outros ângulos
entre e
1
e a semi-recta OP diferem de θ por um valor correspondente a um
número inteiro de voltas completas no círculo trigonométrico. Como uma
volta mede 2π radianos, todos os outros ângulos entre e
1
e a semi-recta
OP têm uma medida (em radianos) que difere da de θ por um múltiplo
inteiro de 2π. Quer isto dizer que a medida x, em radianos, de qualquer
um desses ângulos é igual a α mais um múltiplo inteiro de 2π; por outras
palavras, existe um número inteiro K tal que x é igual a 2Kπ + α:
∃K ∈ Z x = 2Kπ + α. (2)
Acabámos de ver que, se P é umponto do círculo trigonométrico associado
ao número real α (o que significa P = Ψ(α)), então P está associado ao
número real x (ou seja, P = Ψ(x)) sse a condição (2) for verificada. Dito de
outra forma, Ψ(x) = Ψ(α) sse a condição (2) for verificada.
4
No estudo da trigonometria é usual abreviar a escrita da condição (2),
omitindo o quantificador existencial. Assim, em vez de (2), escreveremos,
com o mesmo sentido,
x = 2Kπ + α. (3)
Já mostrámos que Ψ(x) = Ψ(α) sse a condição (3) for verificada.
Há que ter alguma atenção com a notação (3). O significado de (3) é,
por convenção, o de (2): existe um inteiro K tal que x = 2Kπ + α. Assim,
por exemplo, a condição (3) é equivalente a
x = −2Kπ + α. (4)
De facto x = −2Kπ + α pode escrever-se na forma x = 2(−K)π + α e,
como quando K percorre o conjunto dos inteiros o mesmo sucede a −K, as
condições (3) e (4) são equivalentes (não esquecendo que, por convenção
de linguagem, cada uma delas pressupõe um quantificador existencial na
variável K).
Um outro tipo de notação abreviada, muito usado no estudo da trigo-
nometria, é o que passamos a expor. Consideremos a seguinte condição:
(∃K ∈ Z x = −2Kπ + α) ∨ (∃K ∈ Z x = −2Kπ − α) . (5)
De acordo com a convenção já feita, cada uma das condições que se encon-
tram entre parênteses, pode ser escrita omitindo o quantificador existen-
cial. Assim, (3) é equivalente a
x = −2Kπ + α ∨ x = −2Kπ − α. (6)
É usual abreviar a escrita de (6) para
x = −2Kπ ± α. (7)
Cuidado na leitura de (7)! De acordo com as convenções feitas, o sinal ±
significa uma disjunção. Logo (7) é uma abreviatura de (6); mas, por sua
vez, x = −2Kπ + α e x = −2Kπ − α são abreviaturas, respectivamente, de
∃K ∈ Z x = −2Kπ + α e de ∃K ∈ Z x = −2Kπ + α, pelo que (6) significa (5).
Convem, nesta altura, o leitor familiarizar-se com este tipo de notações.
Para o ajudar nessa tarefa daremos mais alguns exemplos.
Exemplo 1. Consideremos os pontos P e Q do círculo trigonométrico repre-
sentados na figura 3.
Como determinar todos os números reais x tais que P ou Q estão asso-
ciados a x? Por outras palavras, quais os valores de x tais que P = Ψ(x) ou
5
a
P
Q
O
Figura 3: Exemplo 1.
Q = Ψ(x)? Como sabemos, pela figura 3, que P = Ψ(α) e Q = Ψ(π + α),
vem, por (3),
x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ + π + α. (8)
A primeira destas condições diz-nos que a diferença entre x e α é um
múltiplo inteiro de 2π, ou, o que é o mesmo, que é um múltiplo inteiro par
de π. A segunda condição, que se pode escrever x = (2K+1)π+α, diz-nos
que a diferença entre x e α é um múltiplo inteiro ímpar de π. A disjunção
das duas condições, que é precisamente (8), diz-nos que a diferença entre
x e α é um múltiplo inteiro par de π ou um múltiplo inteiro ímpar de
π; mas isto quer dizer que a diferença entre x e α é um múltiplo inteiro
(qualquer) de π, ou seja, x é da forma Kπ + α. Acabámos de mostrar que
(8) é equivalente a
x = Kπ + α. (9)
Exemplo 2. Consideremos os pontos P e Q do círculo trigonométrico repre-
sentados na figura 4 e determinemos todos os números reais x tais que P
ou Q estão associados a x, ou seja, tais que P = Ψ(x) ou Q = Ψ(x).
Sabemos, pela figura 4, que P = Ψ(α) e Q = Ψ(π−α). Por consequência,
tendo em conta (3),
x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ + π − α. (10)
A primeira condição diz-nos que x é obtido somando um múltiplo par de
π (2Kπ) a α. A segunda diz-nos que x é obtido fazendo a diferença entre
um múltiplo ímpar de π ((2K + 1)π) e α. A fórmula (10) pode então ser
abreviada para
x = Kπ + (−1)
K
α. (11)
6
a
P
p-a
Q
O
r
Figura 4: Exemplo 2.
Exemplo 3. Consideremos os pontos P e Q do círculo trigonométrico repre-
sentados na figura 5 e determinemos todos os números reais x tais que P
ou Q estão associados a x, ou seja, tais que P = Ψ(x) ou Q = Ψ(x).
a
P
Q
O
r
-a
Figura 5: Exemplo 3.
Sabemos, pela figura 5, que P = Ψ(α) e Q = Ψ(−α). Por consequência,
tendo em conta (3),
x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ − α. (12)
Tendo em conta a convenção de notação introduzida em (7), vemos que
(12) é equivalente a
x = 2Kπ ± α. (13)
7
2 Função seno
Nesta secção introduziremos o seno de um número real x, recorrendo ao
círculo trigonométrico, tal como foi feito no ensino secundário. Emseguida
estudaremos algumas propriedades da função seno.
Para definir o seno do número real x começamos, tal como indicado na
figura 6, por considerar o ângulo orientado θ cuja medida em radianos é x.
Em seguida consideramos o ponto P do círculo trigonométrico associado
ao número x, ou seja, tal que P = Ψ(x). Finalmente o seno de x é a
ordenada do ponto P no referencial ortonormado onde está inserido o
círculo trigonométrico
5
.
q ( radianos) x
P
sen x
Figura 6: O seno de x.
Desta forma associamos, a cada número real x, um outro número real a
que chamamos o seno de x. Oque estamos a fazer não é mais do que definir
uma função, a que chamaremos função seno (usualmente designada por
sen), que associa a cada número real x o valor do seno de x definido pelo
processo descrito.
A função seno tem por domínio o conjunto R dos números reais, uma
vez que o processo descrito para calcular o seno de x se pode aplicar a
qualquer número real. O contradomínio da função seno é o conjunto das
ordenadas dos pontos do círculo trigonométrico, ouseja, o intervalo [−1, 1].
Na notação usual para funções, podemos portanto escrever:
sen : R → [−1, 1].
5
Note-se que o valor do seno de x assim definido é independente do referencial orto-
normado directo escolhido.
8

• •
Para alguns valores de x é muitofácil, recorrendoaocírculotrigonométrico,
determinar o seno de x; por exemplo:
sen0 = 0; sen
π
2
= 1; senπ = 0;
sen

2
= −1; sen(2π) = 0; sen


π
2
¸
= −1.
Também é fácil determinar os valores da função seno nos pontos
π
6
,
π
4
e
π
3
. Consideremos o número real
π
6
; para calcular o seu seno devemos
recorrer ao círculo trigonométrico, tal como representado na figura 7, e
determinar a ordenada do ponto P, que, neste caso, é o comprimento do
segmento PR.
p/6
P
-p/6
R
Q
O
Figura 7: O seno de
π
6
.
Ora, por construção, os ângulos ∠OPQ e ∠OQP são iguais e a sua soma
mede π −
π
3
=

3
radianos, porque a soma dos ângulos de um triângulo
é sempre igual a π radianos. Logo cada um dos ângulos ∠OPQ e ∠OQP
mede
π
3
radianos, o que prova que o triângulo ∆OPQ é equilátero. Conse-
quentemente, a medida do lado PQ é igual à do lado OP (e também à do
lado OQ), cujo comprimento é 1, por ser o raio do círculo trigonométrico.
Como, por construção, os triângulos ∆OPR e ∆OQR são geometricamente
iguais, concluímos que os segmentos PR e QR têm o mesmo comprimento,
que terá de ser igual a
1
2
. Logo
sen
π
6
=
1
2
.
9
Para calcularmos o seno de
π
4
recorremos novamente ao círculo trigo-
nométrico, como representado na figura 8.
p/4
P
Q O
Figura 8: O seno de
π
4
.
Otriângulo∆OPQé rectânguloemQe oângulo∠POQmede
π
4
radianos.
Logo o ângulo ∠OPQtambémmede
π
4
radianos, pelo que o triângulo ∆OPQ
é isósceles. Designando por ξ o comprimento do segmento PQ(que é igual
ao do segmento OQ) tem-se, pelo teorema de Pitágoras, ξ
2

2
= 1, ou seja
ξ
2
=
1
2
; daqui se conclui que ξ =
1

2
=

2
2
. Portanto o seno de
π
4
, que é o
comprimento do segmento PQ, é dado por
sen
π
4
=

2
2
.
Calculemos ainda o seno de
π
3
, recorrendo à figura 9. Por construção,
os triângulos ∆OPQ e ∆ORS são geometricamente iguais, pelo que o com-
primento do segmento RS é igual ao comprimento do segmento PQ; mas
este último é o seno de
π
6
, que já sabemos ser igual a
1
2
. Designando por ξ o
comprimento do segmento OS, que é precisamente o seno de
π
3
, podemos
aplicar o teorema de Pitágoras ao triângulo ∆ORS, obtendo:
ξ
2
+

1
2
¸
2
= 1.
Concluímos assim que ξ
2
= 1 −
1
4
=
3
4
, ou seja ξ =

3
2
. Acabámos de
demonstrar que:
sen
π
3
=

3
2
.
10
p/3
P
S
O
p/6
R
Q
Figura 9: O seno de
π
3
.

• •
Seja x um número real qualquer e seja P o ponto do círculo trigonométrico
associado a x, ou seja, tal que P = Ψ(x). Tendo em conta (3), que nos
garante que, para todo o K inteiro, P = Ψ(2Kπ + x), vemos que
∀x ∈ R ∀K ∈ Z sen(2Kπ + x) = senx. (14)
Um outro resultado interessante, que se deduz facilmente do círculo
trigonométrico, é o seguinte:
∀x ∈ R sen(−x) = −senx. (15)
De facto, como se vê na figura 10, os segmentos PR e QR têm o mesmo
comprimento. Ora o comprimento de PR coincide com a ordenada de P
que, por definição, é o seno de x; o comprimento de QR coincide com o
simétrico da ordenada de Q que, por definição, é o seno de −x. Conse-
quentemente a igualdade (15) é verificada
6
.
6
A demonstração, tal como a fizémos, só é válida se o ponto P estiver no 1
o
ou no
2
o
quadrante; no entanto é fácil adapta-la aos casos em que P pertence ao 3
o
ou ao 4
o
quadrante.
11
Figura 10: sen(−x) = −senx.
De forma inteiramente análoga se prova as igualdades seguintes:
sen

π
2
+ x
¸
= sen

π
2
− x
¸
;
sen(π − x) = senx;
sen(π + x) = −senx;
sen


2
+ x
¸
= sen


2
− x
¸
.
Mais geralmente, e tendo em conta as propriedades (14) e (15), tem-se
sen(2Kπ − x) = −senx (16)
sen

2Kπ +
π
2
+ x
¸
= sen

π
2
− x
¸
(17)
sen(2Kπ + π + x) = −senx (18)
sen(2Kπ + π − x) = senx (19)
sen

2Kπ +

2
+ x
¸
= sen


2
− x
¸
(20)
As igualdades (16) a (20) são válidas quaisquer que sejam K pertencente a
Z e x pertencente a R.

• •
Seja x ∈ [0,
π
2
]; já sabemos que o senode x é a ordenada dopontoPassociado
a x (P = Ψ(x)), tal como representado na figura 11.
12
Figura 11: x ≤ senx sempre que x ≥ 0.
Como x pertence ao intervalo [0,
π
2
], o seno de x coincide com o com-
primento do segmento PR (ver figura 11). O comprimento deste segmento
é menor ou igual
7
ao comprimento do arco de círculo trigonométrico PQ.
Mas, como o círculo trigonométrico tem raio 1, o comprimento do arco PQ
é igual à medida (emradianos) do ângulo ao centro, ou seja, x. Concluímos
assim que, para x ∈ [0,
π
2
], se tem senx ≤ x.
No caso de x ser maior do que
π
2
, o seno de x é sempre ≤ 1 e o arco
correspondente de círculo trigonométrico tem um comprimento maior do
que
π
2
, número este que é maior do que 1. Emconclusão podemos escrever:
∀x ≥ 0 senx ≤ x. (21)
Claro que, se x ≤ 0, então −x ≥ 0 e podemos aplicar a −x a desigualdade
(21): sen(−x) ≤ −x. Utilizando a equação (15), esta desigualdade pode
ainda escrever-se −senx ≤ −x, ou, multiplicando esta última desigualdade
por −1, senx ≥ x. Portanto:
∀x ≤ 0 x ≤ senx (22)
Para x ∈ [0,
π
2
] sabemos, por (21), que senx ≤ x. Como, para esses
valores de x, o seno de x é ≥ 0, concluímos que | senx| ≤ |x|. Analogamente,
para x ∈ [−
π
2
, 0], sabemos, por (22), que x ≤ senx. Mas, para x ∈ [−
π
2
, 0],
sabemos que o seno de x é ≤ 0, pelo que |x| = −x ≥ −senx = | senx|. Para
x ≤ −
π
2
ou x ≥
π
2
tem-se |x| ≥
π
2
> 1; como | senx| é sempre ≤ 1, temos
7
Aliás, só é igual no caso x = 0.
13
também| senx| ≤ |x|. Acabámos de demonstrar que
∀x ∈ R | senx| ≤ |x| (23)

• •
Figura 12: Gráfico da restrição do seno ao intervalo [0, 2π].
Vamos agora esboçar o gráfico da função sen : R → [−1, 1]. A função
seno assim definida, como função de R em [−1, 1], é, como já vimos,
sobrejectiva; no entanto as igualdades (16) a (20) mostram-nos que não é
injectiva. Quando x cresce de 0 até
π
2
, o ponto P do círculo trigonométrico
(ver figura 6) associado a x percorre, no sentido contrário ao dos ponteiros
de um relógio, o quarto de círculo trigonométrico que está no primeiro
quadrante do referencial (O, e
1
, e
2
). Vemos assim que o seno de x, que é
a ordenada de P, cresce de 0 até 1. Quando x cresce de
π
2
até π, o ponto
P percorre, no sentido contrário ao dos ponteiros de um relógio, o quarto
círculo trigonométrico que está no segundo quadrante do referencial, pelo
que o seno de x decresce de 1 até 0. Utilizando a igualdade sen(
π
2
+ x) =
sen(
π
2
− x), que é a fórmula (17) com K = 0, vemos que, no intervalo [0, π],
o gráfico do seno é simétrico em relação à recta vertical de equação y =
π
2
.
Finalmente, utilizando a igualdade sen(π + x) = −sen(π − x), que resulta
das fórmulas (18) e (19), vemos que, no intervalo [0, 2π], o gráfico do seno
é simétrico em relação ao ponto de abcissa π e ordenada 0. O gráfico
da restrição do seno ao intervalo [0, 2π] terá então uma forma como a
apresentada na figura 12.
Para outros valores da variável independente, o seno é facilmente cal-
culado através da igualdade (14). Esta igualdade diz-nos, em particular,
que sen(x + 2π) = senx; consequentemente o gráfico do seno vai ser uma
“repetição” da curva representada na figura 12. Apresentamos um esboço
do gráfico da função seno na figura 13. A curva esboçada nessa figura,
que é o gráfico da função seno, é usualmente chamada uma sinusóide (ou
14
curva sinusoidal). Repare-se que, por (15), a função seno é ímpar, pelo que
o seu gráfico é simétrico em relação à origem dos eixos.
Figura 13: Gráfico da função seno.
Pelo facto de se ter, para todo o x real, sen(x+2π) = senx, dizemos que a
função seno é periódica e que 2πé umperíodo dessa função. De uma forma
geral, uma função ϕ : R → R diz-se periódica sse existir um número real
T > 0 tal que, para todo o x em R, se tenha ϕ(x + T) = ϕ(x). Chamaremos
período de ϕa qualquer número real T que verifique esta última igualdade;
chamaremos período principal de ϕ ao ínfimo dos números reais T que
verificam aquela igualdade. A função seno é periódica e o seu período
principal é 2π.

• •
Não queremos deixar de referir uma outra propriedade geométrica interes-
sante do seno de um número real x. Para isso consideremos um triângulo
∆ORS, rectângulo em S, como o representado na figura 14.
q ( radianos) x
R
S
O
Figura 14: O triângulo rectângulo ORS.
Suponhamos que a medida doânguloθ, emradianos, é x, com0 < x <
π
2
. Consideremos um referencial ortonormado directo com origem no ponto
O, com o primeiro eixo na direcção de OS e o segundo na direcção de SR,
como representado na figura 15.
15
Figura 15: senx =
c
op
h
.
Designemos respectivamente por c
op
e por h o comprimento do cateto
oposto ao ângulo θ (ou seja, o comprimento do segmento RS) e o com-
primento da hipótenusa do triângulo rectângulo ∆ORS. Consideremos
o círculo trigonométrico com centro em O; seja P o ponto de intersecção
desse círculo com a semi-recta definida pela hipótenusa OR do triângulo
rectângulo ∆ORS
8
. Consideremos ainda o segmento PQ, que é um seg-
mento vertical, paralelo a RS, e que vai do ponto P até à semi-recta definida
pelo segmento OS. O seno de x, que é a ordenada do ponto P, é igual ao
comprimento do segmento PQ. Atendendo a que o comprimento de OP é
1, por se tratar do raio do círculo trigonométrico, tem-se
9
:
senx = PQ =
PQ
OP
.
Mas, recorrendo ao teorema de Thales, sabemos que
PQ
OP
=
RS
OR
; acabámos
de provar que
senx =
RS
OR
=
c
op
h
.
Por outras palavras, num triângulo rectângulo qualquer, sendo x a
medida, em radianos, de um dos ângulos agudos, o seno de x é igual ao
8
No caso representado na figura 15 o círculo trigonométrico intersecta a hipótenusa
OR mas isso não aconteceria se o comprimento dessa hipótenusa fosse inferior a 1.
9
Utilizaremos a notação AB para designar o comprimento do segmento AB.
16
quociente entre a medida do cateto oposto a esse ângulo e a medida da
hipótenusa.

• •
Seja α um número real qualquer e consideremos a equação
senx = senα (24)
Como resolver esta equação? A ideia é muito simples: recorrer ao círculo
trigonométrico. O seno de α é um número compreendido entre −1 e 1
e, na figura 16, representamos a recta horizontal r de equação y = senα.
Dizer que o seno de x é igual ao seno de α é dizer que os pontos do círculo
trigonométrico associados a x são os pontos de intersecção daquela recta
com o círculo, ou seja, os pontos P e Q na figura 16. Consequentemente x
é igual a α ou a π − α, ou difere destes valores por um múltiplo inteiro de
2π. Em resumo:
senx = senα ⇔ x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ + π − α (K ∈ Z) (25)
Figura 16: A equação senx = senα.
Detalhemos alguns casos particulares da equação (25). No caso de
se ter α = 0 (o que corresponde à equação senx = 0), vem x = 2Kπ ou
x = 2Kπ + π; significa isto que x é um múltiplo inteiro de π. Portanto
senx = 0 ⇔ x = Kπ (K ∈ Z) (26)
17
Consideremos ainda a equação (25), com α =
π
2
, que corresponde à
equação senx = 1. Por (25) sabemos que x = 2Kπ +
π
2
ou x = 2Kπ + π −
π
2
;
significa isto que x = 2Kπ +
π
2
. Portanto
senx = 1 ⇔ x = 2Kπ +
π
2
(K ∈ Z) (27)
Finalmente, consideremos (25) comα = −
π
2
(o que corresponde à equa-
ção senx = −1). Por (25) sabemos que x = 2Kπ −
π
2
ou x = 2Kπ + π +
π
2
, ou
seja, x = 2Kπ −
π
2
. Portanto
senx = −1 ⇔ x = 2Kπ −
π
2
(K ∈ Z) (28)
3 Função co-seno
Oco-seno de umnúmero real x pode ser definido por umprocesso análogo
ao do seno. Oco-seno de x é a abcissa do ponto P do círculo trigonométrico
associado a x, tal como representado na figura 17.
Figura 17: O seno e o co-seno de x.
Chamaremos função co-seno, e designá-la-emos por cos, à função que a
cada número real x associa o co-seno de x, ouseja, o número cos x. Tal como
para o caso do seno, é imediato ver, recorrendo ao círculo trigonométrico,
que
cos : R → [−1, 1]
é uma função sobrejectiva mas não injectiva.
18
Figura 18: cos x = sen(
π
2
− x).
Seja x um número real qualquer; representamos o ângulo cuja medida
em radianos é x na figura 18. O co-seno de x é, na figura 18, a abcissa do
ponto P, ou seja, o comprimento do segmento OQ. Os triângulos ∆ORS e
∆OPQ são, por construção, geometricamente iguais. Logo o comprimento
do segmento OQ(que coincide como co-seno de x) é igual ao comprimento
do segmento OS (que coincide com o seno de
π
2
− x). O raciocínio que
fizemos com o ponto P no 1
o
quadrante generaliza-se facilmente ao caso
em que P pertence aos outros quadrantes, pelo que se tem
∀x ∈ R cos x = sen

π
2
− x
¸
(29)
É, aliás, esta igualdade que justifica o nome de co-seno: os ângulos cujas
medidas são, em radianos, x e
π
2
− x são complementares.
Quando estudámos a função seno verificámos que, num triângulo rec-
tângulo qualquer, o seno de x (sendo x a medida, em radianos, de um dos
ângulos agudos) é igual ao quociente entre a medida do cateto oposto e a
medida da hipótenusa. Como o co-seno de x é o seno de
π
2
−x, e este valor
é a medida, em radianos, do outro ângulo agudo do triângulo, concluímos
que, num triângulo rectângulo, o co-seno de x é igual ao quociente entre a
medida do cateto adjacente e a medida da hipótenusa. Reportando-nos à
figura 14, podemos escrever:
cos x =
OS
OR
.
19

• •
A partir da fórmula (29) podemos facilmente calcular o valor do co-seno
em pontos onde conheçamos o seno. Assim, tem-se:
cos 0 = sen
π
2
= 1; cos
π
2
= sen0 = 0; cos π = sen


π
2
¸
= −1;
cos

2
= sen(−π) = 0; cos(2π) = sen



2
¸
= 1; cos


π
2
¸
= senπ = 0;
cos
π
6
= sen
π
3
=

3
2
; cos
π
4
= sen
π
4
=

2
2
; cos
π
3
= sen
π
6
=
1
2
.
Na tabela que apresentamos a seguir, indicamos os valores do seno de
x e do co-seno de x para os casos x = 0, x =
π
6
, x =
π
4
, x =
π
3
e x =
π
2
:
x 0
π
6
π
4
π
3
π
2
senx 0
1
2

2
2

3
2
1
cos x 1

3
2

2
2
1
2
0
Comrecursoaocírculotrigonométrico, ouà fórmula (29), é fácil deduzir
para o co-seno as igualdades correspondentes às estabelecidas para o seno
em (15), (14), (16), (17) e (20), e que são:
cos(−x) = cos x (30)
cos(2Kπ + x) = cos x (31)
cos(2Kπ − x) = cos x (32)
cos(2Kπ + π + x) = −cos x (33)
cos(2Kπ + π − x) = −cos x (34)
Estas igualdades são válidas quaisquer que sejam K pertencente a Z e x
pertencente a R.
A título de exemplo, deduziremos apenas a igualdade (30):
cos(−x) = sen

π
2
+ x
¸
= sen

π
2
− x
¸
= cos x.
Na expressão anterior, a primeira igualdade resulta de substituir x por
−x em (29); a segunda igualdade é obtida de (17), com K = 0; a última
igualdade não é mais do que (29). Recomendamos ao leitor interessado,
como exercício, a dedução das outras fórmulas, quer recorrendo a (29),
quer recorrendo directamente ao círculo trigonométrico.
20
Aliás todas estas igualdades são casos particulares de uma situação que
relaciona o seno do número K
π
2
+ x (K inteiro) com o seno ou o co-seno de
x. De facto, recorrendo ao círculo trigonométrico, é fácil mostrar que:
sen

K
π
2
+ x
¸
=

¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
senx se K = 4m (m ∈ Z),
cos x se K = 4m+ 1 (m ∈ Z),
−senx se K = 4m+ 2 (m ∈ Z),
−cos x se K = 4m+ 3 (m ∈ Z)
(35)
cos

K
π
2
+ x
¸
=

¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
cos x se K = 4m (m ∈ Z),
−senx se K = 4m+ 1 (m ∈ Z),
−cos x se K = 4m+ 2 (m ∈ Z),
senx se K = 4m+ 3 (m ∈ Z)
(36)
Há uma maneira de memorizar facilmente as fórmulas (35) e (36), que
passamos a descrever. Seja P o ponto do círculo trigonométrico associado
ao número K
π
2
; se o ponto P estiver situado no eixo das ordenadas, então
a função “muda de nome” (queremos com isto dizer que o seno passa a
co-seno e vice-versa); se P estiver situado no eixo das abcissas, a função
“mantém o nome”; o sinal + ou − é determinado pelo sinal que a função
em questão (o seno ou o co-seno) toma no quadrante a que pertence o
ponto do círculo trigonométrico associado a K
π
2
+ x, supondo que o ponto
associado a x está no primeiro quadrante.
Exemplifiquemos, aplicando a regra descrita a
cos

57π +
π
2
+ x
¸
.
Como 57π +
π
2
determina um ponto do círculo trigonométrico no eixo das
ordenadas, a função co-seno passa a seno. Como 57π +
π
2
+ x determina
um ponto do círculo trigonométrico no quarto quadrante (supondo que o
ponto correspondente a x está no primeiro quadrante) e, no quarto qua-
drante, o co-seno é positivo, deverá ter-se
cos

57π +
π
2
+ x
¸
= senx.
Repare-se que este resultado seria o obtido por aplicação de (36), tendo em
conta que
57π +
π
2
+ x = 115
π
2
+ x = (4 × 28 + 3)
π
2
+ x.

• •
21
A partir da igualdade (29) é imediato obter o gráfico da função co-seno:
basta transladar o gráfico do seno, para a esquerda, de
π
2
. Apresentamos
o gráfico da função co-seno na figura 19. A função co-seno é periódica e
o seu período principal é 2π. Por outro lado, a igualdade (30) mostra-nos
que a função co-seno é par, pelo que o seu gráfico é simétrico em relação
ao eixo das ordenadas.
Figura 19: Gráfico da função co-seno.

• •
Seja x um número real qualquer e seja P o ponto do círculo trigonométrico
associado a x. Designemos respectivamente por ξ e η a abcissa e a ordenada
de P no referencial onde está inserido o círculo trigonométrico. Já sabemos
que, por definição, se tem cos x = ξ e senx = η. Por outro lado, tendo
em conta que o raio do círculo trigonométrico é 1, sabemos que a equação
do círculo trigonométrico é ξ
2
+ η
2
= 1 (ver fórmula (1)). Acabámos de
demonstrar que, para todo o número real x, se tem
10
cos
2
x + sen
2
x = 1 (37)
Diremos que (37) é a igualdade fundamental da trigonometria.

• •
Prosseguiremos esta secção com a resolução de algumas equações trigono-
métricas. Comecemos por considerar a equação
cos x = cos α (38)
10
Não confundir os símbolos cos
2
x e cos x
2
. O primeiro designa (cos x)
2
, enquanto o
segundo designa cos(x
2
).
22
onde α é um número real dado e x é a incógnita. A resolução pode fazer-se
utilizando as igualdades (29) e (25):
cos x = cos α ⇔ sen

π
2
− x
¸
= sen

π
2
− α
¸

π
2
− x = 2Kπ +
π
2
− α ∨
π
2
− x = 2Kπ + π −
π
2
+ α
⇔ x = −2Kπ + α ∨ x = −2Kπ − α
⇔ x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ − α
⇔ x = 2Kπ ± α.
Um outro processo de resolver (38) é recorrer directamente ao círculo
trigonométrico, tal como fizemos na resolução de (24) — que é a equação
correspondente para o caso do seno. Dizer que o co-seno de x é igual ao
co-seno de α, é dizer que os pontos correspondentes a x e a α no círculo
trigonométrico têm a mesma abcissa, ou seja, situam-se numa mesma
recta vertical, de equação x = cos α, como representamos na figura 20.
Consequentemente x = α, ou x = −α, ou x difere destes valores por um
múltiplo inteiro de 2π. Por outras palavras, x = 2Kπ + α ou x = 2Kπ − α,
com K inteiro.
Figura 20: Resolução de cos x = cos α.
Como casos particulares da equação (38), assinalamos:
cos x = 0 ⇔x = Kπ +
π
2
;
cos x = 1 ⇔x = 2Kπ;
cos x = −1 ⇔x = 2Kπ + π.
23
Uma outra equação que se pode tratar de forma análoga é
cos x = senα (39)
A ideia é reduzir tudo a uma única função — que pode ser o seno ou o
co-seno. A equação (39) é equivalente a
cos x = cos

π
2
− α
¸
que é uma equação do tipo (38), onde em vez de α aparece
π
2
− α. Tem-se
então
x = 2Kπ +
π
2
− α ∨ x = 2Kπ −
π
2
+ α.
Consideremos agora a equação
cos x = senx (40)
Tendo em conta a resolução de (39), podemos garantir que x é solução de
(40) sse
x = 2Kπ +
π
2
− x ∨ x = 2Kπ −
π
2
+ x.
Como a segunda destas igualdades é uma condição impossível, vem
x = 2Kπ +
π
2
− x,
que é equivalente a
x = Kπ +
π
4
.
Uma outra forma de obter este resultado é recorrer directamente ao
círculo trigonométrico, como representado na figura 21.
Dizer que o seno de x é igual ao co-seno de x é dizer que os pontos do
círculo trigonométrico associados a x têm uma abcissa igual à ordenada,
ou seja, pertencem à recta r de equação y = x; na figura 21 trata-se dos
pontos P e Q. Logo x é igual a
π
4
, ou é igual a 5
π
4
, ou difere destes valores
por um múltiplo inteiro de 2π. Portanto x = Kπ +
π
4
, com K inteiro.
Consideremos ainda a seguinte equação:
cos
2
x − sen
2
x − cos x = 0 (41)
Já sabemos que a ideia para resolver uma equação deste tipo — onde
aparecem as funções seno e co-seno — é reduzir tudo à mesma função.
Neste caso isso consegue-se facilmente através da igualdade fundamental
24
Figura 21: Resolução de cos x = senx.
da trigonometria (37). Substituindo, na equação (41), o sen
2
x por 1−cos
2
x
obtemos
cos
2
x − (1 − cos
2
x) − cos x = 0,
equação que é equivalente a
2 cos
2
x − cos x − 1 = 0.
Substituindo, nesta última equação, o co-seno de x por ξ, ou seja, fazendo
a mudança de variável ξ = cos x, obtemos

2
− ξ − 1 = 0.
Trata-se de uma equação do segundo grau na variável ξ, cujas soluções
são obtidas utilizando a fórmula resolvente para este tipo de equações:
ξ =
1 +

1 − (4 × 2 × (−1))
2 × 2
∨ ξ =
1 −

1 − (4 × 2 × (−1))
2 × 2
.
Tem-se então
ξ = 1 ∨ ξ = −
1
2
.
Concluímos assim que x é solução da equação (41) sse
cos x = 1 ∨ cos x = −
1
2
.
25
A primeira destas equações já foi resolvida anteriormente (é do tipo (38));
a segunda pode escrever-se cos x = cos

3
, que é também uma equação do
tipo (38). As soluções de (41) são então
x = 2Kπ ∨ x = 2Kπ +

3
∨ x = 2Kπ −

3
,
ou ainda
x = 2K
π
3
.
Exercício 1. Determine o conjunto de soluções de cada uma das seguintes
equações:
(i) sen
2
x + 2 cos x − 1 = 0;
(ii) sen
2
x + cos x − 1 = 0.

• •
Vamos deduzir, com recurso ao círculo trigonométrico, algumas fórmulas
importantes. Começaremos comas fórmulas do seno e do co-seno da soma
de dois números reais x e y, que são:
sen(x + y) = senx cos y + cos x sen y (42)
cos(x + y) = cos x cos y − senx sen y (43)
Figura 22: Seno e co-seno da soma.
26
Para demonstrarmos as fórmulas (42) e (43), consideramos o círculo
trigonométrico representado na figura 22. O referencial ortonormado di-
recto onde está inserido o círculo trigonométrico é, como habitualmente,
designado por (O, e
1
, e
2
) e encontra-se também representado na figura 22.
Sejam respectivamente P e Q os pontos do círculo trigonométrico associ-
ados aos números reais x e x + y. Designemos por R o ponto do círculo
trigonométrico associado ao número x +
π
2
. Designando respectivamente
por u e por v os vectores correspondentes aos segmentos orientados OP
e OR, podemos pensar no referencial (O, u, v); por construção trata-se de
um referencial ortonormado directo.
As coordenadas dos pontos P e R no referencial (O, e
1
, e
2
) são, respecti-
vamente,
(cos x, senx),

cos

π
2
+ x
¸
, sen

π
2
+ x
¸¸
= (−senx, cos x),
pelo que os vectores u e v se podem escrever da seguinte forma:
u = cos xe
1
+ senxe
2
v = −senxe
1
+ cos xe
2
.
As coordenadas do ponto Q no referencial (O, u, v) são, por definição de
seno e co-seno,
(cos y, sen y).
Consequentemente o vector w, correspondente ao segmento orientado OQ
(ver figura 22), pode escrever-se da forma
w = cos yu + sen yv.
Introduzindo nesta última igualdade as expressões que obtivemos para u
e v como função de e
1
e e
2
, vem
w = cos yu + sen yv
= cos y(cos xe
1
+ senxe
2
) + sen y(−senxe
1
+ cos xe
2
)
= (cos x cos y − senx sen y)e
1
+ (senx cos y + cos x sen y)e
2
.
Portanto as coordenadas do ponto Q no referencial (O, e
1
, e
2
) são
(cos x cos y − senx sen y, senx cos y + cos x sen y).
Mas, por definição, as coordenadas de Q no referencial (O, e
1
, e
2
) são
(cos(x + y), sen(x + y)).
27
Logo
sen(x + y) = senx cos y + cos x sen y
cos(x + y) = cos x cos y − senx sen y,
que são precisamente as igualdades (42) e (43).
A partir das igualdades (42) e (43) é imediato obter as fórmulas para o
seno e o co-seno da diferença de dois números reais; basta substituir em
(42) e (43) y por −y, tendo em conta que o seno é uma função ímpar e o
co-seno é uma função par. Obtém-se
sen(x − y) = senx cos y − cos x sen y (44)
cos(x − y) = cos x cos y + senx sen y (45)
É também a partir de (42) e (43) que podemos obter o seno e o co-seno
da duplicação: basta substituir y por x em cada uma daquelas igualdades.
Vem
sen(2x) = 2 senx cos x (46)
cos(2x) = cos
2
x − sen
2
x (47)
A fórmula (47) permite-nos exprimir o quadrado do seno de x e o
quadrado do co-seno de x como função do co-seno de 2x. De facto, tendo
em conta a igualdade fundamental da trigonometria, podemos eliminar o
co-seno quadrado em (47), obtendo
cos(2x) = 1 − 2 sen
2
x,
ou ainda,
sen
2
x =
1 − cos(2x)
2
(48)
Analogamente, eliminando o seno quadrado em (47), por intermédio da
igualdade fundamental da trigonometria, vem
cos(2x) = cos
2
x − (1 − cos
2
x),
ou ainda,
cos
2
x =
1 + cos(2x)
2
(49)
Resta-nos deduzir quatro fórmulas importantes, que nos dão a soma e
a diferença entre os senos e os co-senos de dois números reais u e v, e que
28
são as seguintes:
senu − senv = 2 cos
u + v
2
sen
u − v
2
(50)
cos u − cos v = −2 sen
u + v
2
sen
u − v
2
(51)
senu + senv = 2 sen
u + v
2
cos
u − v
2
(52)
cos u + cos v = 2 cos
u + v
2
cos
u − v
2
(53)
Para deduzirmos (50), partimos das fórmulas (42) e (44):
sen(x + y) =senx cos y + cos x sen y
sen(x − y) =senx cos y − cos x sen y.
Subtraindo estas duas equações termo a termo, obtemos
sen(x + y) − sen(x − y) = 2 cos x sen y (54)
Como queremos obter uma fórmula para a diferença entre o seno de
u e o seno de v, é natural designarmos x + y por u e x − y por v, ou seja,
utilizarmos a seguinte mudança de variáveis:

¸
¸
¸
¸
¸
¸
x + y = u
x − y = v
(55)
Resolvendo o sistema (55) em ordem a x e y, obtemos

¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
x =
u + v
2
y =
u − v
2
(56)
Podemos agora introduzir na fórmula (54) os valores de x + y, x − y, x e y
dados por (55) e (56); obtemos
senu − senv = 2 cos
u + v
2
sen
u − v
2
que é precisamente a fórmula (50).
Substituindo, em (50), v por −v, e tendo em conta que a função seno é
ímpar, resulta imediatamente (52).
29
As deduções de (51) e (53) sãosemelhantes, partindoagora das fórmulas
(43) e (45):
cos(x + y) = cos x cos y − senx sen y
cos(x − y) = cos x cos y + senx sen y.
Subtraindo e somando estas duas equações termo a termo, obtemos res-
pectivamente
cos(x + y) − cos(x − y) = −2 senx sen y (57)
cos(x + y) + cos(x − y) = 2 cos x cos y (58)
Introduzindo em (57) e (58) os valores de x + y, x − y, x e y dados por (55)
e (56), obtemos respectivamente
cos u − cos v = −2 sen
u + v
2
sen
u − v
2
cos u + cos v = 2 cos
u + v
2
cos
u − v
2
que são precisamente as igualdades (51) e (53).
4 Funções tangente e cotangente
A função tangente, designada por tg, é definida pela fórmula
tgx =
senx
cos x
(59)
O domínio da função tangente, tal como decorre de (59), é o conjunto D
tg
de todos os números reais cujo co-seno é diferente de zero:
D
tg
= {x ∈ R; cos x 0} =
¸
x ∈ R; x Kπ +
π
2
(K ∈ Z)
¸
.
A tangente tem uma interpretação geométrica simples no círculo trigo-
nométrico, tal como indicado na figura 23, onde se considera o caso de x
pertencer ao intervalo ]0,
π
2
[.
Recordamos que o seno de x é a ordenada do ponto P do círculo trigo-
nométrico associado a x, ou seja, no caso da figura 23, o comprimento do
segmento PQ. O co-seno de x é a abcissa de P, ou seja, o comprimento do
segmento OQ. Portanto:
tgx =
senx
cos x
=
PQ
OQ
.
30
Figura 23: Primeira interpretação geométrica da tangente de x.
Recorrendo ao teorema de Thales, e tendo em conta que o comprimento
do segmento OS é igual a 1, visto ser o raio do círculo trigonométrico, vem
tgx =
PQ
OQ
=
RS
OS
= RS.
No caso de umqualquer valor de x pertencente ao domínio da tangente,
é imediatover que ovalor absolutoda tangente de x é igual aocomprimento
do segmento vertical, tangente ao círculo trigonométrico, e que une a semi-
recta OP, determinada pelo ponto P do círculo trigonométrico associado a
x, ao eixo das abcissas.
A tangente de x tem uma outra interpretação geométrica, no círculo
trigonométrico, que descrevemos na figura 24, onde a recta r é tangente ao
ponto P do círculo trigonométrico associado a x. Os triângulos ∆OPQ e
∆OPR são semelhantes, visto serem ambos rectângulos e terem um ângulo
agudo (de medida x radianos) igual. Ora nós sabemos que, em triângulos
semelhantes, a razão entre lados opostos a ângulos iguais é constante; logo,
e atendendo a que o raio do círculo trigonométrico é igual a 1, vem
tgx =
senx
cos x
=
PQ
OQ
=
PR
OP
= PR.
No caso de umqualquer valor de x pertencente ao domínio da tangente,
é imediato ver que o valor absoluto da tangente de x é igual ao compri-
mento do segmento da recta tangente ao ponto P do círculo trigonométrico
31
Figura 24: Segunda interpretação geométrica da tangente de x.
associado a x, definido pelos pontos P e pelo ponto de intersecção dessa
recta com o eixo das abcissas.
Em ambas as interpretações geométricas apresentadas o valor absoluto
da tangente de x corresponde à medida de um segmento de uma recta tan-
gente a umdeterminado ponto do círculo trigonométrico. Daí a justificação
para a designação de tangente.
Consideremos agora um triângulo ∆OPQ qualquer, rectângulo em Q,
como o representado na figura 25.
Figura 25: O triângulo rectângulo OPQ.
Já sabemos que, num triângulo rectângulo qualquer, o seno de x, sendo
x a medida em radianos de um dos ângulos agudos, é igual ao quociente
entre os comprimentos do cateto oposto a esse ângulo e da hipótenusa.
Sabemos também que o co-seno de x é igual ao quociente entre os compri-
mentos do cateto adjacente e da hipótenusa. Designemos por θ o ângulo
32
agudo ∠POQ e seja x a medida, em radianos, do ângulo θ. Tem-se
tgx =
senx
cos x
=
PQ
OP
OQ
OP
=
PQ
OQ
.
Em conclusão: num triângulo rectângulo qualquer, a tangente de x, sendo
x a medida em radianos de um dos ângulos agudos, é igual ao quociente
entre os comprimentos do cateto oposto a esse ângulo e do cateto adjacente.

• •
A interpretação geométrica da tangente feita na figura 23 permite-nos de-
monstrar uma propriedade importante da tangente de x, quandox pertence
ao intervalo [0,
π
2
[. De facto, e reportando-nos à figura 23, vemos que, para
x pertence ao intervalo [0,
π
2
[, a área do triângulo ∆ORS é maior ou igual
11
à área do sector circular OPS. Ora a área do triângulo ∆ORS é igual a
1
2
OS RS =
1
2
RS
e a área do sector circular OPS, tendo em conta que o raio do círculo
trigonométrico é 1, é igual a
12
1
2
x.
Concluímos assim que
1
2
x ≤
1
2
RS,
ou seja,
x ≤ RS.
Mas, para x ∈ [0,
π
2
[, o comprimento do segmento RS coincide com a
tangente de x. Acabámos de mostrar que
∀x ∈
,
0,
π
2
,
x ≤ tgx. (60)
Tendo emconta esta desigualdade e a desigualdade (21), podemos escrever
∀x ∈
,
0,
π
2
,
senx ≤ x ≤ tgx (61)
11
Aliás, só é igual se x = 0.
12
Relembramos que a área de um sector circular de raio R e ângulo ao centro x radianos
é igual a
1
2
R
2
x.
33

• •
Façamos agora umestudo da função tangente e esbocemos o seugráfico. Já
sabemos que o domínio da função tangente é o conjunto D
tg
dos números
reais x tais que o co-seno de x é diferente de zero, ou seja,
D
tg
= {x ∈ R; cos x 0} =
¸
x ∈ R; x Kπ +
π
2
(K ∈ Z)
¸
.
Recorramos à interpretação geométrica explicitada na figura 23. Aí ve-
mos que, quando x cresce de 0 até
π
2
, sem atingir este valor, o comprimento
do segmento RS — que coincide com a tangente de x — vai aumentando,
a partir de 0, tanto quanto nós queiramos. Isto significa que, no intervalo
[0,
π
2
[, a tangente é uma função crescente e toma todos os valores do inter-
valo [0, +∞[. O gráfico da restrição da função tangente ao intervalo [0,
π
2
[
está representado na figura 26.
Figura 26: Restrição da função tangente ao intervalo
,
0,
π
2
,
.
É muito fácil ver que a função tangente é ímpar porque
tg(−x) =
sen(−x)
cos(−x)
=
−senx
cos x
= −
senx
cos x
= −tgx.
Então o gráfico da tangente terá de ser simétrico em relação à origem
do referencial. A partir da figura 26, concluímos que a restrição da função
tangente ao intervalo ]−
π
2
,
π
2
[ terá umgráfico como o esboçado na figura 27.
Das igualdades sen(x+2π)=senx e cos(x+2π) = cos x resulta o seguinte:
tg(x + 2π) =
sen(x + 2π)
cos(x + 2π)
=
senx
cos x
= tgx.
34
Figura 27: Restrição da função tangente ao intervalo
¸

π
2
,
π
2
,
.
Devido à igualdade precedente, dizemos que a função tangente é periódica
e que um seu período é 2π. No entanto, tendo em conta as igualdades (35)
e (36), podemos escrever
tg(x + π) =
sen(x + π)
cos(x + π)
=
−senx
−cos x
= tgx.
Acabámos de mostrar que:
∀x ∈ D
tg
tg(x + π) = tgx (62)
Figura 28: Função tangente.
Devido a (62), dizemos que π é um período da função tangente. Tendo
emconta que a restrição da função tangente ao intervalo
¸

π
2
,
π
2
,
é injectiva,
como se depreende da figura 27, vemos que π é o menor período da função
tangente; dizemos tratar-se do período principal.
35
Uma vez conhecido o gráfico da restrição da função tangente ao in-
tervalo
¸

π
2
,
π
2
,
, esboçado na figura 27, e sabido que π é um período da
função tangente, é imediato obter o gráfico desta função. De facto ele vai
ser uma “repetição” do gráfico representado na figura 27. Esboçamo-lo na
figura 28.

• •
A função cotangente, designada por cotg, é definida pela fórmula
cotgx =
cos x
senx
(63)
O domínio da função cotangente, como se depreende de (63), é o conjunto
D
cotg
de todos os números reais cujo seno é diferente de zero:
D
cotg
= {x ∈ R; senx 0} = {x ∈ R; x Kπ (K ∈ Z)}.
Utilizando as igualdades (35) e (36) é imediato encontrar um relação
entre a cotangente e a tangente:
cotgx =
cos x
senx
=
sen

π
2
− x

cos

π
2
− x
= tg

π
2
− x
¸
.
Mostrámos assim que, para todo o x no domínio da cotangente, se tem
cotgx = tg

π
2
− x
¸
(64)
É precisamente (64) que sugeriu o nome de cotangente: a cotangente de x
é a tangente de
π
2
− x e os ângulos com estas medidas (em radianos) são
complementares.
A cotangente tem uma interpretação geométrica simples no círculo
trigonométrico, tal como indicado na figura 29, onde se considera o caso
de x pertencer ao intervalo ]0,
π
2
[. Na figura 29, os triângulos ∆OPQe ∆ORS
são semelhantes, pois são ambos rectângulos e o ângulo ∠POQ é igual ao
ângulo ∠ORS. Tem-se então:
cotgx =
cos x
senx
=
OQ
OP
=
RS
OS
= RS.
No caso de um qualquer valor de x pertencente ao domínio da cotangente,
é imediato ver que o valor absoluto da cotangente de x é igual ao compri-
mento do segmento horizontal, tangente ao círculo trigonométrico, e que
36
Figura 29: Primeira interpretação geométrica da cotangente de x.
une a semi-recta OP, determinada pelo ponto P do círculo trigonométrico
associado a x, ao eixo das ordenadas.
A cotangente de x tem uma outra interpretação geométrica, no círculo
trigonométrico, que descrevemos na figura 30, onde a recta r é tangente ao
ponto P do círculo trigonométrico associado a x. Os triângulos ∆OPQ e
∆OPR são semelhantes. Logo, atendendo a que o raio do círculo trigono-
métrico é igual a 1, vem
cotgx =
cos x
senx
=
OQ
PQ
=
PR
OP
= PR.
No caso de um qualquer valor de x pertencente ao domínio da cotan-
gente, é imediato ver que o valor absoluto da cotangente de x é igual ao
comprimento do segmento da recta tangente ao ponto P do círculo trigono-
métrico associado a x, definido pelos pontos P e pelo ponto de intersecção
dessa recta com o eixo das ordenadas.
Repare-se que, para todo o x pertencente simultaneamente ao domínio
da tangente e ao domínio da cotangente, se tem
cotgx =
1
tgx
.
Consequentemente, na figura 30, o comprimento do segmento PR é o
inverso aritmético do comprimento do segmento PS:
PR =
1
PS
.
37
Figura 30: Segunda interpretação geométrica da cotangente de x.
Consideremos um triângulo rectângulo qualquer; seja x a medida, em
radianos, de um dos ângulos agudos. Já sabemos que a tangente de x é
igual ao quociente entre os comprimentos do cateto oposto a esse ângulo
e do cateto adjacente. Por consequência a cotangente de x é igual ao quo-
ciente entre os comprimentos do cateto adjacente e do cateto oposto. Em
resumo, numtriângulo rectângulo qualquer, a cotangente da medida x (em
radianos) de um ângulo agudo é igual ao quociente entre o comprimento
do cateto adjacente a esse ângulo e o comprimento do cateto oposto.

• •
Para obtermos o gráfico da função cotangente, recorremos a (64) e ao facto
da tangente ser uma função ímpar:
cotgx = tg

π
2
− x
¸
= −tg

x −
π
2
¸
.
O gráfico da função x → −tgx obtem-se a partir do gráfico da tangente
(figura 28), por simetria em relação ao eixo das abcissas. Representamo-lo
na figura 31.
Finalmente, o gráfico da função cotangente pode obter-se a partir da
figura 31, por translação de
π
2
. Representamo-lo na figura 32.
38
Figura 31: Gráfico de x → − tg x.
Figura 32: Função cotangente.
Da observação da figura 32 vemos que o contradomínio da cotangente
é o conjunto R dos números reais e que se trata de uma função periódica,
cujo período principal é π. O gráfico apresenta assímptotas verticais de
equação x = Kπ, com K inteiro. A restrição da função cotangente ao
intervalo ]0, π[ é uma função decrescente. Aliás, o mesmo se passa com a
restrição da função cotangente a qualquer intervalo da forma ]Kπ, (K+1)π[,
com K inteiro.

• •
A tangente e a cotangente de x são imediatamente calculáveis para valores
de x que conheçamos o seno e o co-seno. Na tabela que apresentamos a
39
seguir, indicamos os valores do seno de x, do co-seno de x, da tangente de
x e da cotangente de x (quando possível), para os casos x = 0, x =
π
6
, x =
π
4
,
x =
π
3
e x =
π
2
:
x 0
π
6
π
4
π
3
π
2
senx 0
1
2

2
2

3
2
1
cos x 1

3
2

2
2
1
2
0
tgx 0
1

3
1

3 —
cotgx —

3 1
1

3
0

• •
Utilizando as fórmulas (35) e (36) é imediato deduzir fórmulas correspon-
dentes para a tangente e para a cotangente; são as seguintes:
tg(Kπ + x) = tg x (65)
tg

Kπ +
π
2
+ x
¸
= − cotg x (66)
cotg(Kπ + x) = cotg x (67)
cotg

Kπ +
π
2
+ x
¸
= − tg x (68)
Há uma maneira de memorizar facilmente as fórmulas (65) a (68), que
passamos a descrever. Seja P o ponto do círculo trigonométrico associado
ao número que se quer calcular a tangente ou a cotangente (Kπ + x ou
Kπ +
π
2
+ x); se o ponto P estiver situado no eixo das ordenadas, então a
função “muda de nome” (queremos com isto dizer que a tangente passa a
cotangente e vice-versa); se P estiver situado no eixo das abcissas, a função
“mantém o nome”. Se a função mudar de nome aparece o sinal − ; se não
mudar de nome o sinal fica + .

• •
40
Repare-se que, para todo o x ∈ D
tg
∩ D
cotg
, se tem
cotgx =
1
tgx
.
No entanto a função x →
1
tgx
não coincide com a função x → cotgx. De
facto o domínio de x →
1
tgx
é a intersecção do domínio da tangente com
o conjunto de pontos onde a tangente não se anula, ou seja, o conjunto de
pontos onde nemo seno nemo co-seno se anulam. Trata-se de umconjunto
estritamente contido no domínio da co-tangente, pelo que as funções são
distintas. Obviamente, x →
1
tgx
é a restrição da função co-tangente ao
conjunto D
tg
∩ D
cotg
.
5 Funções secante e co-secante
Para além das funções seno, co-seno, tangente e co-tangente, é ainda usual
definir as funções secante e co-secante
13
. As funções secante — designada
por sec — e co-secante — designada por cosec — são definidas respectiva-
mente por:
sec x =
1
cos x
(69)
cosec x =
1
senx
(70)
Como se depreende de (69) e (70), o domínio da secante é o conjunto de
números reais x tais que cos x 0 e o domínio da co-secante é o conjunto de
números reais x tais que senx 0. Vemos assim que o domínio da secante
coincide com o domínio da tangente, enquanto o domínio da co-secante
coincide com o domínio da cotangente.
Os gráficos das funções secante e co-secante são facilmente obtidos,
respectivamente, a partir dos gráficos do co-seno e do seno. Representamo-
los nas figuras 33 e 34.
Da análise das figuras 33 e 34 vemos que o contradomínio das funções
secante e co-secante é o conjunto ]−∞, −1]∪[1, +∞[. São funções periódicas
de período principal 2π.

• •
13
Estas funções não fazem parte dos programas recentes do ensino secundário.
41
Figura 33: Função secante.
Figura 34: Função co-secante.
As funções secante e co-secante têm uma interpretação simples no círculo
trigonométrico, que passamos a descrever, com base na figura 35, onde
x é um número real compreendido entre 0 e
π
2
e P é o ponto do círculo
trigonométrico associado a x.
Os triângulos ∆OPQ e ∆ORA são semelhantes, pelo que, tendo em
conta que o raio do círculo trigonométrico é 1, se tem
OR =
OR
OA
=
OP
OQ
=
1
OQ
=
1
cos x
= sec x.
Vemos assim que a secante de x coincide com o comprimento do segmento
OR. Daí o nome de “secante”, visto a recta que passa em O e em P ser
42
P
O
x
R
Q A
S
B
Figura 35: Função co-secante.
secante ao círculo trigonométrico.
Para a interpretação da co-secante no círculo trigonométrico, conside-
ramos os triângulos ∆OPQ e ∆OSB. Como se trata de triângulos seme-
lhantes, sabemos que a razão entre lados correspondentes a ângulos iguais
é constante; logo
OS =
OS
OB
=
OP
PQ
=
1
PQ
=
1
senx
= cosec x.
A co-secante de x coincide com o comprimento do segmento OS. O nome
de co-secante vem do facto de ser a secante de
π
2
− x, o que é imediato
porque
cosec x =
1
senx
=
1
cos

π
2
− x
= sec

π
2
− x
¸
.
Recapitulamos as interpretações geométricas, no círculo trigonomé-
trico, das diversas funções trigonométricas do número x, compreendido
entre 0 e
π
2
, reportando-nos à figura 35:
senx = PQ cos x = OQ
tgx = AR cotgx = BS
sec x = OR cosec x = OS
43
Consideremos um triângulo rectângulo qualquer e designemos por x
a medida, em radianos, de um dos ângulos agudos. A secante de x,
por ser o inverso aritmético do co-seno de x, é igual ao quociente entre
o comprimento da hipótenusa e o comprimento do cateto adjacente ao
ângulo agudo em questão. A co-secante de x, por ser o inverso aritmético
do seno de x, é igual ao quociente entre o comprimento da hipótenusa e o
comprimento do cateto oposto.

• •
Da igualdade fundamental da trigonometria — fórmula (37) — podemos
deduzir relações semelhantes para as outras funções trigonométricas. Re-
lembremos (37):
cos
2
x + sen
2
x = 1.
Dividindo ambos os membros desta equação por cos
2
x (supondo cos x 0)
e por sen
2
x (supondo senx 0) obtemos, respectivamente,
1 +
sen
2
x
cos
2
x
=
1
cos
2
x
;
cos
2
x
sen
2
x
+ 1 =
1
sen
2
x
.
Tendo em conta as definições das funções tangente, cotangente, secante e
co-secante, as duas igualdades anteriores podem escrever-se da seguinte
forma:
1 + tg
2
x = sec
2
x (71)
cotg
2
x + 1 = cosec
2
x (72)
6 Funções trigonométricas inversas
Nesta secção abordaremos o problema da inversão das funções trigono-
métricas
14
. Começamos por recordar brevemente o que se entende por
inversa de uma função. Sejam A e B dois conjuntos quaisquer e seja f uma
função de A em B; significa isto que, a cada elemento a do conjunto A nós
associamos umelemento b do conjunto Bque designamos vulgarmente por
f (a). Suponhamos agora que a função f é bijectiva, ou seja, que verifica a
condição seguinte: todo o elemento b do conjunto a é imagem de um e de
14
As funções trigonométricas inversas, embora já tenham feito parte dos programas do
ensino secundário, não constam dos actuais programas.
44
Figura 36: Função inversa.
um único elemento a do conjunto A. Em linguagem simbólica, dizer que
f : A → B é bijectiva é dizer que:
∀b ∈ B ∃
1
a ∈ A b = f (a).
Tendo em conta a bijectividade de f , podemos definir uma nova função,
agora de B em A, que a cada elemento b do conjunto B associa o único
elemento a do conjunto A tal que b = f (a). Esta nova função, a que
chamaremos função inversa de f , será designada por f
−1
. Na figura 36
representamos esquematicamente uma função bijectiva f : A → B e a sua
inversa f
−1
: B → A. Claro que o domínio de f é o contradomínio de f
−1
e
o contradomínio de f é o domínio de f
−1
, tendo-se
∀a ∈ A ∀b ∈ B a = f
−1
(b) ⇔ b = f (a) .
Por exemplo, se f : R → R for a função definida por f (x) = x
3
(que
é uma bijecção de R em R), a função inversa f
−1
: R → R é definida por
f
−1
(x) =
3

x.
Suponhamos agora que A e B são dois subconjuntos de R e que f :
A → B é uma função bijectiva; como sabemos tem-se f
−1
: B → A. Como
os conjuntos A e B são subconjuntos de R, podemos pensar nos gráficos
das funções f e f
−1
; será que existe alguma relação de tipo geométrico
entre estes dois gráficos? Por outras palavras, será que, conhecendo o
gráfico de f , é possível determinar o gráfico de f
−1
? Vamos ver que
sim. Comecemos por relembrar que um ponto (a, b) do plano pertence ao
gráfico de uma função real de variável real
15
ϕ sse a pertencer ao domínio
de ϕ e b = ϕ(a). Seja agora x um ponto no domínio A de f e seja y =
f (x); então o ponto do plano (x, y) pertence ao gráfico de f . Mas, da
igualdade y = f (x), concluímos, por definição de função inversa, que x =
f
−1
(y); consequentemente o ponto (y, x) pertence ao gráfico da função f
−1
.
Aplicando um raciocínio análogo à função f
−1
, vemos que (x, y) pertence
15
Função com domínio e contradomínio contidos emR.
45
ao gráfico de f sse (y, x) pertencer ao gráfico de f
−1
. Mas, do ponto de
vista geométrico, é fácil relacionar (x, y) com (y, x), tal como se indica na
figura 37: são pontos simétricos um do outro em relação à bissectriz dos
quadrantes ímpares (ou seja, à recta de equação y = x).
Figura 37: Pontos (x, y) e (y, x).
Torna-se agora evidente a relação de tipo geométrico entre os gráficos
de f e de f
−1
: são simétricos um do outro em relação à bissectriz dos
quadrantes ímpares. Na figura 38 esboçamos os gráficos de uma função f
e da sua inversa f
−1
.
Figura 38: Funções f e f
−1
.
46
6.1 Funções arco seno e arco co-seno
Consideremos a função seno; já sabemos tratar-se de uma função de R em
[−1, 1], que é sobrejectiva, e cujo gráfico está representado na figura 13.
Como não se trata de uma função bijectiva (por não ser injectiva), não
existe a sua inversa. Será então que devemos abandonar o problema da
inversão das funções trigonométricas? Ou será que poderemos contornar
a dificuldade resultante daquelas funções não serem injectivas? É esta
segunda opção que adoptaremos.
A ideia é muito simples: a função seno não é invertível, visto não ser
injectiva; então consideremos uma sua restrição a um intervalo conveni-
entemente escolhido, por forma a obtermos uma função injectiva. Claro
que há uma arbitrariedade na escolha desse intervalo. Por exemplo (ver
figura 13), podemos escolher o intervalo [
π
2
,

2
], ou o intervalo [−
π
2
,
π
2
], ou
muitos outros intervalos. Convencionaremos escolher o intervalo [−
π
2
,
π
2
].
Figura 39: Gráfico da restrição do seno a [−
π
2
,
π
2
].
Designemos por f a restrição da função seno ao intervalo [−
π
2
,
π
2
]. Trata-
se de uma bijecção deste intervalo em [−1, 1], cujo gráfico representamos
na figura 39. A função f , por ser bijectiva, é invertível; à inversa de f
chamamos função “arco seno”. O arco seno será designado usualmente
por arcsen. Dizer que y é o arco seno de x, é dizer que x é o seno de y e que
y pertence ao intervalo [−
π
2
,
π
2
]:
y = arcsenx ⇔ x = sen y ∧ y ∈
,

π
2
,
π
2
¸
(73)
Vejamos um exemplo de aplicação da definição 73, calculando o arco
seno de
1
2
. Trata-se do único número real y tal que sen y =
1
2
e tal que

π
2
≤ y ≤
π
2
. Ora, como sabemos que sen
π
6
=
1
2
, vem arcsen
1
2
=
π
6
.
A função arco seno, por ser a inversa de uma função contínua e mo-
nótona num intervalo, é uma função contínua. O domínio do arco seno é
o intervalo [−1, 1] e o contradomínio é o intervalo [−
π
2
,
π
2
] . O arco seno é
47
uma bijecção do primeiro daqueles intervalos no segundo. O gráfico do
arco seno pode obter-se imediatamente a partir da figura 39, fazendo uma
simetria em relação à bissectriz dos quadrantes ímpares. Representamo-lo
na figura 40.
Figura 40: Gráfico da função arco seno.
Da análise do gráfico da função arco seno, representado na figura 40,
resulta evidente que se trata de uma função ímpar. Aliás não poderia
deixar de ser assim porque a função arco seno é a inversa da função que
designámos por f , que é restrição do seno ao intervalo [−
π
2
,
π
2
] . Ora f é
uma função ímpar e a inversa de uma função ímpar é também uma função
ímpar. Tem-se então
∀x ∈
,

π
2
,
π
2
¸
arcsen(−x) = − arcsen x (74)
A função arco seno, por ser a inversa de uma função estritamente
crescente, é estritamente crescente, comoaliás se depreende imediatamente
da figura 40:
∀a, b ∈
,

π
2
,
π
2
¸
a < b → arcsen a < arcsen b (75)

• •
O método utilizado para, partindo da função seno, obtermos a função
arco seno pode ser adaptado à função co-seno. O primeiro passo é con-
siderarmos, não a função co-seno, mas uma sua restrição a um intervalo
conveniente, por forma a obtermos uma função injectiva. Seja g a restri-
ção da função co-seno ao intervalo [0, π], cujo gráfico representamos na
figura 41.
48
Figura 41: Gráfico da restrição do co-seno a [0, π].
Afunção g é uma bijecção de [0, π] em[−1, 1]. Àinversa de g chamamos
função arco co-seno; designa-la-emos usualmente por arccos. A função
arco co-seno é uma bijecção de [−1, 1] em [0, π] e tem-se
y = arccos x ⇔ x = cos y ∧ y ∈ [0, π] (76)
O gráfico da função arco co-seno obtem-se imediatamente do gráfico
da função g — representado na figura 41 — por simetria em relação à
bissectriz dos quadrantes ímpares. Representamo-lo na figura 42.
Figura 42: Gráfico da função arco co-seno.
Afunção arco co-seno é contínua porque é a inversa de uma função con-
tínua e monótona definida numintervalo de R. Éestritamente decrescente,
por ser a inversa de uma função estritamente decrescente:
∀a, b ∈ [0, π] a < b ⇒ arccos a > arccos b (77)
7 Coordenadas polares
Consideremos um referencial ortonormado directo (O, e
1
, e
2
) no plano P.
Como é sabido, é possível associar a cada ponto P do plano P as coorde-
49
nadas x e y desse ponto no referencial em questão. O processo de o fazer,
que esquematizamos na figura 43, é simples. Começamos por traçar por P
uma recta paralela ao vector e
2
e designamos por A o ponto de intersecção
dessa recta com a recta definida por e
1
; a abcissa do ponto P é, por defi-
nição, o único número real x tal que o vector
−−→
OA é igual ao vector xe
1
. A
ordenada de P é obtida de forma análoga, sendo o único número real y tal
que
−−→
OB = ye
2
, onde B é a intersecção da recta paralela a e
1
que passa por
P e da recta definida por e
2
.
ye
2
O
P
A
B
xe
1
e
2
e
1
Figura 43: Coordenadas x e y do ponto P.
O que estamos a fazer, do ponto de vista metemático, ao associarmos
a cada ponto P do plano as suas coordenadas x e y no referencial consi-
derado? Estamos a definir uma função ψ que, a cada ponto do plano P,
associa um par ordenado de números reais, ou seja, um elemento de R
2
:
ψ : P →R
2
.
Dizer que x e y são as coordenadas do ponto P não é mais do que dizer que
o par (x, y) é a imagem de P pela aplicação ψ:
ψ(P) = (x, y).
De acordo com o processo descrito para, a partir de P, determinar x e y,
esta última igualdade é equivalente a
xe
1
+ ye
2
=
−−→
OP.
A aplicação ψ é injectiva: se P e Q forem dois pontos distintos do plano
P, então, ou a abcissa de P é diferente da de Q, ou a ordeneda de P é
diferente da de Q.
50
A aplicação ψé sobrejectiva. De facto, dados dois números reais x e y, é
sempre possível determinar umponto P do plano cujas coordenadas sejam
aqueles números. A construção, que podemos seguir na figura 43, é muito
simples. Começa por se determinar os pontos A e B tais que
−−→
OA = xe
1
e
−−→
OB = xe
2
; o ponto P é a intersecção da recta que passa por A e é paralela a
e
2
com a recta que passa por B e é paralela a e
1
.
A função ψ : P → R
2
é então uma bijecção, porque é injectiva e sobre-
jectiva. Este facto permite-nos “identificar” cada ponto P do plano com
o par ordenado (x, y) de números reais constituído pela abcissa e pela or-
denada de P. Repare-se que esta “identificação” só tem sentido uma vez
fixado o referencial (O, e
1
, e
2
) do plano. Por outras palavras, a aplicação ψ
depende do referencial em questão.
Às coordenadas x e y dopontoP, dadas por (x, y) = ψ(P), é usual chamar
coordenadas cartesianas. Com elas podemos referenciar qualquer ponto
do plano e, consequentemente, descrever figuras no plano. Por exemplo o
rectângulo R representado na figura 44, onde a, b, c e d são números reais,
com a < b e c < d, é descrito em coordenadas cartesianas por
R = {(x, y) ∈ R
2
; a ≤ x ≤ b ∧ c ≤ y ≤ d}.
Repare-se que o sinal =é umabuso de linguagem. De facto, à sua esquerda
está um subconjunto do plano — o rectângulo R — enquanto à direita está
um subconjunto de R
2
. O sinal =significa aqui que esse subconjunto de R
2
é constituído precisamente pelas coordenadas dos pontos do rectângulo R,
ou seja, pelos pares (x, y) tais que (x, y) = ψ(P), com P ∈ R.
O
R
a
e
2
e
1
d
c
b
Figura 44: Rectângulo R.
51
Um outro exemplo, esquematizado na figura 45: o círculo C centrado
na origem do referencial e de raio r. Tem-se, como é sabido,
C = {(x, y) ∈ R
2
; x
2
+ y
2
≤ r
2
}.
x y
2 2
+ =r
2
C
Figura 45: Círculo C.
Vejamos ainda outro exemplo: o quarto de círculo Q esquematizado na
figura 46.
x y
2 2
+ =1
Q
Figura 46: Quarto de círculo Q.
Este exemplo é um pouco mais complexo. Os ponto de Q têm abcissas
compreendidas entre 0 e 1. Mas não são todos os pontos do plano com
abcissas entre 0 e 1! De facto, a imagem geométrica do conjunto
{(x, y) ∈ R
2
; 0 ≤ x ≤ 1}
é a faixa representada na figura 47: sãopontos comabcissas compreendidas
entre 0 e 1 e com ordenadas quaisquer.
52
1
Figura 47: Faixa {(x, y) ∈ R
2
; 0 ≤ x ≤ 1}.
Os pontos de Qtêmas abcissas compreendidas entre 0 e 1; mas os pontos
de Q de abcissa a (ver figura 48) têm ordenadas compreendidas entre 0 e a
ordenada do ponto A da circunferência com essa mesma abcissa.
x y
2 2
+ =1
Q
A
a
b
Figura 48: Abcissas dos pontos de Q com ordenada a.
Ora as coordenadas (a, b) de A verificam a equação
a
2
+ b
2
= 1,
pelo que b, por ser positivo, é dado por
b =

1 − a
2
.
Então os pontos de Q de abcissa x têm ordenadas compreendidas entre 0 e

1 − x
2
. Logo:
Q =
¸
(x, y) ∈ R
2
; 0 ≤ x ≤ 1 ∧ 0 ≤ y ≤

1 − x
2
¸
.
53
O exemplo que acabámos de descrever é mais complicado, mas pode-
ríamos — mesmo com figuras simples — complicá-lo ainda mais. Basta
considerar o sector circular S representado na figura 49.
x y
2 2
+ =1
S
y=x
y=2x
Figura 49: Sector circular S.
Aconselhamos vivamente o leitor a tentar verificar que
S =

(x, y) ∈ R
2
;
¸
0 ≤ x ≤
1

5
∧ x ≤ y ≤ 2x


¸
1

5
≤ x ≤
1

2
∧ x ≤ y ≤

1 − x
2

,
para o que lhe será útil observar que os pontos de intersecção das rectas de
equação y = x e y = 2x com a circunfereência de equação x
2
+ y
2
= 1 têm,
respectivamente, as abcissas
1

5
e
1

2
.
Com os exemplos anteriores pretendemos mostrar ao leitor que figuras
simples — no nosso caso sectores circulares — podem ter uma descrição
complicada em termos de coordenadas cartesianas. Este facto leva-nos à
introdução de outro tipo de coordenadas: as coordenadas polares.

• •
Voltemos a considerar o plano P e o referencial ortonormado directo
(O, e
1
, e
2
). Seja P um ponto do plano distinto de O. Ao ponto P pode-
mos associar os seguintes dois números: a distância ρ de P a O e a medida
(em radianos) θ do ângulo entre os vectores e
1
e
−−→
OP.
54

Conteúdo
1 O círculo trigonométrico 2 Função seno 3 Função co-seno 4 Funções tangente e cotangente 5 Funções secante e co-secante 2 8 18 30 41

6 Funções trigonométricas inversas 44 6.1 Funções arco seno e arco co-seno . . . . . . . . . . . . . . . . 47 7 Coordenadas polares 49

1

O círculo trigonométrico

Uma das formas elementares de introduzir as funções trigonométricas é utilizar o chamado círculo trigonométrico. Foi, aliás, desta maneira que as referidas funções foram estudadas no ensino secundário. Chamamos círculo trigonométrico a uma circunferência1 de raio 1 centrada na origem de um referencial ortonormado directo no plano (O, e1 , e2 ). Relembramos que um referencial (O, e1 , e2 ) do plano se diz ortonormado directo sse os vectores2 e1 e e2 tiverem igual comprimento e o ângulo orientado de e1 para e2 for um ângulo recto, orientado no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Na figura 1 representamos o referencial (O, e1 , e2 ) e o círculo trigonométrico, que designaremos por C. Designemos por ξ e η as coordenadas de um ponto genérico Q do plano no referencial (O, e1 , e2 ). Relembrando que a equação de uma circunferência centrada na origem O do referencial e com raio R > 0 é ξ2 + η2 = R2 , vemos que o ponto Q pertence ao círculo trigonométrico sse ξ2 + η2 = 1 A condição (1) é, portanto, a equação do círculo trigonométrico3 .
Seria mais razoável usar o termo circunferência trigonométrica mas, por tradição, círculo trigonométrico é o termo usado. 2 Por convenção, escreveremos os vectores em letra escura não itálica. 3 Não esquecer que se trata de uma circunferência!
1

(1)

2

C e2 1 O e1

Figura 1: Círculo trigonométrico. Seja x um número real qualquer; vamos associar ao número x um ponto P do círculo trigonométrico. Para isso, consideramos, tal como indicado na figura 2, o ângulo orientado4 θ cuja medida em radianos é x. Esse ângulo determina uma semi-recta a partir da origem O do referencial, que intersecta o círculo trigonométrico num único ponto. É precisamente esse o ponto P que, por definição, associamos ao número real x.

P q (x radianos)

Figura 2: O ponto P associado ao número real x. Note-se que, do ponto de vista formal, acabámos de definir uma aplicação Ψ que, a cada número real x, associa o ponto P do círculo trigonométrico
4

Relembramos que o sentido positivo é o contrário ao dos ponteiros do relógio.

3

construído da forma descrita: Ψ : R → C. A função Ψ é obviamente sobrejectiva porque, dado um ponto P qualquer do círculo trigonométrico, é possível (e muito fácil) determinar um número real x tal que P = Ψ(x), por outras palavras, tal que P seja o ponto associado a x pelo processo descrito no início. De facto, basta considerar a semi-recta OP, determinar um ângulo orientado θ que ela faça com o vector e1 , e tomar para x a medida, em radianos, desse ângulo θ (ver figura 2). No entanto a função Ψ não é injectiva. De facto, suponhamos que o ponto P do círculo trigonométrico está associado a um certo número x, ou seja, que P = Ψ(x). Isto significa que um ângulo orientado entre o vector e1 e a semi-recta OP mede x radianos. Mas então um outro ângulo orientado entre e1 e a semi-recta OP mede, por exemplo, x + 2π radianos, visto que um ângulo de 2π radianos corresponde a uma volta completa no círculo trigonométrico. Consequentemente o ponto P está também associado ao número real x + 2π, ou seja, P = Ψ(x + 2π). Das igualdades P = Ψ(x) = Ψ(x + 2π) concluímos que Ψ não é injectiva. Pode agora pôr-se a questão: dado um ponto P do círculo trigonométrico, a que números reais estará P associado? Por outras palavras, quais os números x tais que P = Ψ(x)? Para responder a esta questão, designemos por θ um ângulo orientado entre e1 e a semi-recta OP. Sendo α a medida, em radianos, do ângulo θ, tem-se P = Ψ(α). Todos os outros ângulos entre e1 e a semi-recta OP diferem de θ por um valor correspondente a um número inteiro de voltas completas no círculo trigonométrico. Como uma volta mede 2π radianos, todos os outros ângulos entre e1 e a semi-recta OP têm uma medida (em radianos) que difere da de θ por um múltiplo inteiro de 2π. Quer isto dizer que a medida x, em radianos, de qualquer um desses ângulos é igual a α mais um múltiplo inteiro de 2π; por outras palavras, existe um número inteiro K tal que x é igual a 2Kπ + α: ∃K ∈ Z x = 2Kπ + α. (2)

Acabámos de ver que, se P é um ponto do círculo trigonométrico associado ao número real α (o que significa P = Ψ(α)), então P está associado ao número real x (ou seja, P = Ψ(x)) sse a condição (2) for verificada. Dito de outra forma, Ψ(x) = Ψ(α) sse a condição (2) for verificada.

4

No estudo da trigonometria é usual abreviar a escrita da condição (2), omitindo o quantificador existencial. Assim, em vez de (2), escreveremos, com o mesmo sentido, x = 2Kπ + α. (3) Já mostrámos que Ψ(x) = Ψ(α) sse a condição (3) for verificada. Há que ter alguma atenção com a notação (3). O significado de (3) é, por convenção, o de (2): existe um inteiro K tal que x = 2Kπ + α. Assim, por exemplo, a condição (3) é equivalente a x = −2Kπ + α. (4)

De facto x = −2Kπ + α pode escrever-se na forma x = 2(−K)π + α e, como quando K percorre o conjunto dos inteiros o mesmo sucede a −K, as condições (3) e (4) são equivalentes (não esquecendo que, por convenção de linguagem, cada uma delas pressupõe um quantificador existencial na variável K). Um outro tipo de notação abreviada, muito usado no estudo da trigonometria, é o que passamos a expor. Consideremos a seguinte condição: (∃K ∈ Z x = −2Kπ + α) ∨ (∃K ∈ Z x = −2Kπ − α) . (5)

De acordo com a convenção já feita, cada uma das condições que se encontram entre parênteses, pode ser escrita omitindo o quantificador existencial. Assim, (3) é equivalente a x = −2Kπ + α ∨ x = −2Kπ − α. (6)

É usual abreviar a escrita de (6) para x = −2Kπ ± α. (7)

Cuidado na leitura de (7)! De acordo com as convenções feitas, o sinal ± significa uma disjunção. Logo (7) é uma abreviatura de (6); mas, por sua vez, x = −2Kπ + α e x = −2Kπ − α são abreviaturas, respectivamente, de ∃K ∈ Z x = −2Kπ + α e de ∃K ∈ Z x = −2Kπ + α, pelo que (6) significa (5). Convem, nesta altura, o leitor familiarizar-se com este tipo de notações. Para o ajudar nessa tarefa daremos mais alguns exemplos. Exemplo 1. Consideremos os pontos P e Q do círculo trigonométrico representados na figura 3. Como determinar todos os números reais x tais que P ou Q estão associados a x? Por outras palavras, quais os valores de x tais que P = Ψ(x) ou 5

(10) A primeira condição diz-nos que x é obtido somando um múltiplo par de π (2Kπ) a α. vem. que é um múltiplo inteiro par de π. (9) Exemplo 2. A segunda condição. pela figura 4. ou seja. x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ + π − α. que é precisamente (8). Consideremos os pontos P e Q do círculo trigonométrico representados na figura 4 e determinemos todos os números reais x tais que P ou Q estão associados a x. A segunda diz-nos que x é obtido fazendo a diferença entre um múltiplo ímpar de π ((2K + 1)π) e α. A fórmula (10) pode então ser abreviada para x = Kπ + (−1)K α. tais que P = Ψ(x) ou Q = Ψ(x). mas isto quer dizer que a diferença entre x e α é um múltiplo inteiro (qualquer) de π. (11) 6 . x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ + π + α. Por consequência. que P = Ψ(α) e Q = Ψ(π−α). Q = Ψ(x)? Como sabemos. diz-nos que a diferença entre x e α é um múltiplo inteiro ímpar de π. tendo em conta (3). pela figura 3. diz-nos que a diferença entre x e α é um múltiplo inteiro par de π ou um múltiplo inteiro ímpar de π. A disjunção das duas condições. Sabemos. que se pode escrever x = (2K + 1)π + α. ou seja. por (3). (8) A primeira destas condições diz-nos que a diferença entre x e α é um múltiplo inteiro de 2π. que P = Ψ(α) e Q = Ψ(π + α). o que é o mesmo.P O Q a Figura 3: Exemplo 1. ou. Acabámos de mostrar que (8) é equivalente a x = Kπ + α. x é da forma Kπ + α.

vemos que (12) é equivalente a x = 2Kπ ± α. P a -a Q r O Figura 5: Exemplo 3. pela figura 5. x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ − α. tais que P = Ψ(x) ou Q = Ψ(x). Por consequência. que P = Ψ(α) e Q = Ψ(−α). (13) 7 . Consideremos os pontos P e Q do círculo trigonométrico representados na figura 5 e determinemos todos os números reais x tais que P ou Q estão associados a x. Sabemos. Exemplo 3. tendo em conta (3). (12) Tendo em conta a convenção de notação introduzida em (7).Q r p-a a O P Figura 4: Exemplo 2. ou seja.

tal como foi feito no ensino secundário. podemos portanto escrever: sen : R → [−1. a cada número real x. Desta forma associamos. uma vez que o processo descrito para calcular o seno de x se pode aplicar a qualquer número real. Note-se que o valor do seno de x assim definido é independente do referencial ortonormado directo escolhido. 1]. um outro número real a que chamamos o seno de x. O que estamos a fazer não é mais do que definir uma função. P sen x q (x radianos) Figura 6: O seno de x. o intervalo [−1. Para definir o seno do número real x começamos. por considerar o ângulo orientado θ cuja medida em radianos é x. 1]. ou seja. A função seno tem por domínio o conjunto R dos números reais. Em seguida consideramos o ponto P do círculo trigonométrico associado ao número x. Em seguida estudaremos algumas propriedades da função seno. Finalmente o seno de x é a ordenada do ponto P no referencial ortonormado onde está inserido o círculo trigonométrico5 . que associa a cada número real x o valor do seno de x definido pelo processo descrito.2 Função seno Nesta secção introduziremos o seno de um número real x. ou seja. tal como indicado na figura 6. 5 8 . recorrendo ao círculo trigonométrico. tal que P = Ψ(x). O contradomínio da função seno é o conjunto das ordenadas dos pontos do círculo trigonométrico. a que chamaremos função seno (usualmente designada por sen). Na notação usual para funções.

concluímos que os segmentos PR e QR têm o mesmo comprimento. 6 2 9 . sen = 1. sen − = −1. os ângulos ∠OPQ e ∠OQP são iguais e a sua soma mede π − π = 2π radianos. por exemplo: π sen π = 0. a medida do lado PQ é igual à do lado OP (e também à do lado OQ). recorrendo ao círculo trigonométrico. por construção. 3 P p/6 R -p/6 Q O Figura 7: O seno de π . 2 3π π sen = −1. Conse3 quentemente. para calcular o seu seno devemos e 6 recorrer ao círculo trigonométrico. neste caso. 1 que terá de ser igual a 2 . por construção. os triângulos ∆OPR e ∆OQR são geometricamente iguais. e determinar a ordenada do ponto P. Logo cada um dos ângulos ∠OPQ e ∠OQP mede π radianos. sen 0 = 0. porque a soma dos ângulos de um triângulo 3 3 é sempre igual a π radianos. é o comprimento do segmento PR. Como. π . 6 Ora. que. 2 2 Também é fácil determinar os valores da função seno nos pontos π . cujo comprimento é 1. por ser o raio do círculo trigonométrico. determinar o seno de x. tal como representado na figura 7. π 6 4 Consideremos o número real π . Logo sen π 1 = . sen(2π) = 0.• • • Para alguns valores de x é muito fácil. o que prova que o triângulo ∆OPQ é equilátero.

que já sabemos ser igual a 2 . Designando por ξ o comprimento do segmento PQ (que é igual ao do segmento OQ) tem-se. pelo que o triângulo ∆OPQ 4 é isósceles. Designando por ξ o 6 comprimento do segmento OS. 4 2 Calculemos ainda o seno de π . 4 Concluímos assim que ξ2 = 1 − demonstrar que: 1 4 = ou seja ξ = 3 . 4 Logo o ângulo ∠OPQ também mede π radianos. recorrendo à figura 9. como representado na figura 8.Para calcularmos o seno de π recorremos novamente ao círculo trigo4 nométrico. Por construção. P p/4 O Q Figura 8: O seno de π . é dado por √ π 2 sen = . que é o 4 comprimento do segmento PQ. mas 1 este último é o seno de π . Portanto o seno de π . 3 2 10 . que é precisamente o seno de π . ξ2 + ξ2 = 1. ou seja √ 1 1 ξ2 = 2 . daqui se conclui que ξ = √2 = 22 . 4 O triângulo ∆OPQ é rectângulo em Q e o ângulo ∠POQ mede π radianos. podemos 3 aplicar o teorema de Pitágoras ao triângulo ∆ORS. obtendo: 1 ξ + 2 2 2 = 1. 3 os triângulos ∆OPQ e ∆ORS são geometricamente iguais. √ 3 . pelo teorema de Pitágoras. pelo que o comprimento do segmento RS é igual ao comprimento do segmento PQ. 2 Acabámos de √ π 3 sen = .

no entanto é fácil adapta-la aos casos em que P pertence ao 3o ou ao 4o quadrante. é o seno de x.S R P p/3 p/6 O Q Figura 9: O seno de • • • π . que nos garante que. tal que P = Ψ(x). que se deduz facilmente do círculo trigonométrico. é o seguinte: ∀x ∈ R sen(−x) = − sen x. os segmentos PR e QR têm o mesmo comprimento. por definição. (14) Um outro resultado interessante. só é válida se o ponto P estiver no 1o ou no 2 quadrante. ou seja. como se vê na figura 10. A demonstração. o comprimento de QR coincide com o simétrico da ordenada de Q que. tal como a fizémos. (15) De facto. Tendo em conta (3). 3 Seja x um número real qualquer e seja P o ponto do círculo trigonométrico associado a x. para todo o K inteiro. é o seno de −x. Ora o comprimento de PR coincide com a ordenada de P que. 6 o 11 . P = Ψ(2Kπ + x). vemos que ∀x ∈ R ∀K ∈ Z sen(2Kπ + x) = sen x. Consequentemente a igualdade (15) é verificada6 . por definição.

tal como representado na figura 11. π ]. tem-se sen(2Kπ − x) = − sen x π π −x sen 2Kπ + + x = sen 2 2 sen(2Kπ + π + x) = − sen x sen(2Kπ + π − x) = sen x 3π 3π sen 2Kπ + + x = sen −x 2 2 (16) (17) (18) (19) (20) As igualdades (16) a (20) são válidas quaisquer que sejam K pertencente a Z e x pertencente a R. 3π 3π + x = sen −x . De forma inteiramente análoga se prova as igualdades seguintes: π π + x = sen −x . sen 2 2 sen Mais geralmente. • • • Seja x ∈ [0. e tendo em conta as propriedades (14) e (15). já sabemos que o seno de x é a ordenada do ponto P associado 2 a x (P = Ψ(x)).Figura 10: sen(−x) = − sen x. 12 . sen(π + x) = − sen x. 2 2 sen(π − x) = sen x.

Em conclusão podemos escrever: 2 ∀x ≥ 0 sen x ≤ x. Mas. π ] sabemos. como o círculo trigonométrico tem raio 1. Mas. só é igual no caso x = 0. para x ∈ [− π . que x ≤ sen x. 2 No caso de x ser maior do que π . x. Concluímos assim que. que sen x ≤ x. Como x pertence ao intervalo [0. como | sen x| é sempre ≤ 1. ou seja. por (22). 2 2 sabemos que o seno de x é ≤ 0. por (21). π ]. para x ∈ [− π . (21) Claro que. o seno de x é sempre ≤ 1 e o arco 2 correspondente de círculo trigonométrico tem um comprimento maior do que π . o comprimento do arco PQ é igual à medida (em radianos) do ângulo ao centro. para x ∈ [0. multiplicando esta última desigualdade por −1. então −x ≥ 0 e podemos aplicar a −x a desigualdade (21): sen(−x) ≤ −x. Como. ou. Portanto: ∀x ≤ 0 x ≤ sen x (22) Para x ∈ [0. sen x ≥ x. pelo que |x| = −x ≥ − sen x = | sen x|. O comprimento deste segmento é menor ou igual7 ao comprimento do arco de círculo trigonométrico PQ. temos 2 2 2 7 Aliás. número este que é maior do que 1. 0]. se x ≤ 0. Utilizando a equação (15). 0]. para esses 2 valores de x. o seno de x coincide com o com2 primento do segmento PR (ver figura 11). Para x ≤ − π ou x ≥ π tem-se |x| ≥ π > 1. sabemos. se tem sen x ≤ x. concluímos que | sen x| ≤ |x|. esta desigualdade pode ainda escrever-se − sen x ≤ −x.Figura 11: x ≤ sen x sempre que x ≥ 0. o seno de x é ≥ 0. 13 . π ]. Analogamente.

o seno é facilmente calculado através da igualdade (14). Utilizando a igualdade sen( π + x) = 2 sen( π − x). como já vimos. Esta igualdade diz-nos. cresce de 0 até 1. 1]. que é a fórmula (17) com K = 0. o quarto de círculo trigonométrico que está no primeiro quadrante do referencial (O. no entanto as igualdades (16) a (20) mostram-nos que não é injectiva. que é a ordenada de P. é usualmente chamada uma sinusóide (ou 14 . vemos que. o ponto 2 P percorre. e1 . π]. o gráfico do seno é simétrico em relação ao ponto de abcissa π e ordenada 0. como função de R em [−1. A curva esboçada nessa figura. que sen(x + 2π) = sen x. Quando x cresce de 0 até π . e2 ). 1]. A função seno assim definida. Vamos agora esboçar o gráfico da função sen : R → [−1. o ponto P do círculo trigonométrico 2 (ver figura 6) associado a x percorre.também | sen x| ≤ |x|. que resulta das fórmulas (18) e (19). no intervalo [0. em particular. Vemos assim que o seno de x. 2 o gráfico do seno é simétrico em relação à recta vertical de equação y = π . 2π]. Para outros valores da variável independente. consequentemente o gráfico do seno vai ser uma “repetição” da curva representada na figura 12. 2 Finalmente. no sentido contrário ao dos ponteiros de um relógio. no intervalo [0. é. Apresentamos um esboço do gráfico da função seno na figura 13. o quarto círculo trigonométrico que está no segundo quadrante do referencial. no sentido contrário ao dos ponteiros de um relógio. utilizando a igualdade sen(π + x) = − sen(π − x). vemos que. sobrejectiva. 2π]. pelo que o seno de x decresce de 1 até 0. Quando x cresce de π até π. O gráfico da restrição do seno ao intervalo [0. Acabámos de demonstrar que ∀x ∈ R • | sen x| ≤ |x| • • (23) Figura 12: Gráfico da restrição do seno ao intervalo [0. 2π] terá então uma forma como a apresentada na figura 12. que é o gráfico da função seno.

pelo que o seu gráfico é simétrico em relação à origem dos eixos. é x. dizemos que a função seno é periódica e que 2π é um período dessa função. • • • Não queremos deixar de referir uma outra propriedade geométrica interessante do seno de um número real x.curva sinusoidal). em radianos. Repare-se que. chamaremos período principal de ϕ ao ínfimo dos números reais T que verificam aquela igualdade. Suponhamos que a medida do ângulo θ. a função seno é ímpar. Para isso consideremos um triângulo ∆ORS. Figura 13: Gráfico da função seno. Pelo facto de se ter. uma função ϕ : R → R diz-se periódica sse existir um número real T > 0 tal que. sen(x+2π) = sen x. para todo o x real. como representado na figura 15. se tenha ϕ(x + T) = ϕ(x). para todo o x em R. por (15). De uma forma geral. Consideremos um referencial ortonormado directo com origem no ponto O. R O q (x radianos) S Figura 14: O triângulo rectângulo ORS. como o representado na figura 14. rectângulo em S. Chamaremos período de ϕ a qualquer número real T que verifique esta última igualdade. com 0 < x < π 2 . 15 . com o primeiro eixo na direcção de OS e o segundo na direcção de SR. A função seno é periódica e o seu período principal é 2π.

Figura 15: sen x = cop . sabemos que de provar que cop RS = . que é a ordenada do ponto P. sen x = h OR = RS OR . num triângulo rectângulo qualquer. h Designemos respectivamente por cop e por h o comprimento do cateto oposto ao ângulo θ (ou seja. tem-se9 : sen x = PQ = PQ OP . é igual ao comprimento do segmento PQ. por se tratar do raio do círculo trigonométrico. de um dos ângulos agudos. O seno de x. Consideremos ainda o segmento PQ. paralelo a RS. Consideremos o círculo trigonométrico com centro em O. Atendendo a que o comprimento de OP é 1. 9 Utilizaremos a notação AB para designar o comprimento do segmento AB. o comprimento do segmento RS) e o comprimento da hipótenusa do triângulo rectângulo ∆ORS. que é um segmento vertical. PQ OP Mas. seja P o ponto de intersecção desse círculo com a semi-recta definida pela hipótenusa OR do triângulo rectângulo ∆ORS 8 . em radianos. recorrendo ao teorema de Thales. acabámos Por outras palavras. o seno de x é igual ao No caso representado na figura 15 o círculo trigonométrico intersecta a hipótenusa OR mas isso não aconteceria se o comprimento dessa hipótenusa fosse inferior a 1. sendo x a medida. 8 16 . e que vai do ponto P até à semi-recta definida pelo segmento OS.

No caso de se ter α = 0 (o que corresponde à equação sen x = 0). Consequentemente x é igual a α ou a π − α.quociente entre a medida do cateto oposto a esse ângulo e a medida da hipótenusa. os pontos P e Q na figura 16. Portanto sen x = 0 ⇔ x = Kπ (K ∈ Z) (26) 17 . ou seja. Detalhemos alguns casos particulares da equação (25). Dizer que o seno de x é igual ao seno de α é dizer que os pontos do círculo trigonométrico associados a x são os pontos de intersecção daquela recta com o círculo. representamos a recta horizontal r de equação y = sen α. vem x = 2Kπ ou x = 2Kπ + π. na figura 16. ou difere destes valores por um múltiplo inteiro de 2π. significa isto que x é um múltiplo inteiro de π. • • • Seja α um número real qualquer e consideremos a equação sen x = sen α (24) Como resolver esta equação? A ideia é muito simples: recorrer ao círculo trigonométrico. Em resumo: sen x = sen α ⇔ x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ + π − α (K ∈ Z) (25) Figura 16: A equação sen x = sen α. O seno de α é um número compreendido entre −1 e 1 e.

recorrendo ao círculo trigonométrico. à função que a cada número real x associa o co-seno de x. Por (25) sabemos que x = 2Kπ − π ou x = 2Kπ + π + π .Consideremos ainda a equação (25). tal como representado na figura 17. ou 2 2 seja. O co-seno de x é a abcissa do ponto P do círculo trigonométrico associado a x. Chamaremos função co-seno. 1] é uma função sobrejectiva mas não injectiva. o número cos x. Portanto 2 sen x = −1 ⇔ x = 2Kπ − π 2 (K ∈ Z) (28) 3 Função co-seno O co-seno de um número real x pode ser definido por um processo análogo ao do seno. que corresponde à 2 equação sen x = 1. Portanto 2 sen x = 1 ⇔ x = 2Kπ + π 2 (K ∈ Z) (27) Finalmente. consideremos (25) com α = − π (o que corresponde à equa2 ção sen x = −1). com α = π . 2 2 significa isto que x = 2Kπ + π . e designá-la-emos por cos. ou seja. Figura 17: O seno e o co-seno de x. Tal como para o caso do seno. x = 2Kπ − π . é imediato ver. que cos : R → [−1. Por (25) sabemos que x = 2Kπ + π ou x = 2Kπ + π − π . 18 .

em radianos. em radianos. 2 Quando estudámos a função seno verificámos que. Os triângulos ∆ORS e ∆OPQ são. a abcissa do ponto P. representamos o ângulo cuja medida em radianos é x na figura 18. aliás. e este valor 2 é a medida. podemos escrever: cos x = OS OR . o seno de x (sendo x a medida. Reportando-nos à figura 14. Como o co-seno de x é o seno de π − x. num triângulo rectângulo.Figura 18: cos x = sen( π − x). o comprimento do segmento OQ. esta igualdade que justifica o nome de co-seno: os ângulos cujas medidas são. de um dos ângulos agudos) é igual ao quociente entre a medida do cateto oposto e a medida da hipótenusa. Logo o comprimento do segmento OQ (que coincide com o co-seno de x) é igual ao comprimento do segmento OS (que coincide com o seno de π − x). pelo que se tem ∀x ∈ R cos x = sen π −x 2 (29) É. num triângulo rectângulo qualquer. por construção. ou seja. o co-seno de x é igual ao quociente entre a medida do cateto adjacente e a medida da hipótenusa. 2 Seja x um número real qualquer. 19 . na figura 18. geometricamente iguais. do outro ângulo agudo do triângulo. O raciocínio que 2 fizemos com o ponto P no 1o quadrante generaliza-se facilmente ao caso em que P pertence aos outros quadrantes. O co-seno de x é. em radianos. x e π − x são complementares. concluímos que.

indicamos os valores do seno de x e do co-seno de x para os casos x = 0. a segunda igualdade é obtida de (17). x = π e x = π : 6 4 3 2 x sen x cos x 0 0 1 π 6 1 2 √ 3 2 π 4 √ 2 2 √ 2 2 π 3 √ 3 2 1 2 π 2 1 0 Com recurso ao círculo trigonométrico. (16). quer recorrendo directamente ao círculo trigonométrico. x = π . deduziremos apenas a igualdade (30): cos(−x) = sen π π + x = sen − x = cos x. 6 3 2 4 4 2 3 6 2 π = 1. quer recorrendo a (29). cos − = sen π = 0. a dedução das outras fórmulas. cos(2π) = sen − = 1. 2 cos Na tabela que apresentamos a seguir. cos = sen = . a última igualdade não é mais do que (29). tem-se: cos 0 = sen π π = sen 0 = 0. Assim. como exercício. (17) e (20). x = π . é fácil deduzir para o co-seno as igualdades correspondentes às estabelecidas para o seno em (15). A título de exemplo. com K = 0.• • • A partir da fórmula (29) podemos facilmente calcular o valor do co-seno em pontos onde conheçamos o seno. cos = sen = . a primeira igualdade resulta de substituir x por −x em (29). 2 2 2 √ √ π 3 2 π π π π π 1 cos = sen = . 20 . (14). ou à fórmula (29). 2 2 3π 3π π cos = sen(−π) = 0. cos π = sen − = −1. 2 2 Na expressão anterior. e que são: cos(−x) = cos x cos(2Kπ + x) = cos x cos(2Kπ − x) = cos x cos(2Kπ + π + x) = − cos x cos(2Kπ + π − x) = − cos x (30) (31) (32) (33) (34) Estas igualdades são válidas quaisquer que sejam K pertencente a Z e x pertencente a R. Recomendamos ao leitor interessado.

é fácil mostrar que:  sen x  se K = 4m (m ∈ Z). Como 57π + π + x determina 2 um ponto do círculo trigonométrico no quarto quadrante (supondo que o ponto correspondente a x está no primeiro quadrante) e. 2 Repare-se que este resultado seria o obtido por aplicação de (36). Exemplifiquemos. se o ponto P estiver situado no eixo das ordenadas. no quarto quadrante. 2 2 2 • • • 21 . recorrendo ao círculo trigonométrico.    − sen x se K = 4m + 1 (m ∈ Z). tendo em conta que π π π 57π + + x = 115 + x = (4 × 28 + 3) + x. a função “mantém o nome”. que passamos a descrever.    cos x  se K = 4m + 1 (m ∈ Z). se P estiver situado no eixo das abcissas.  2    − cos x se K = 4m + 3 (m ∈ Z)   cos x  se K = 4m (m ∈ Z). π  (35) sen K + x =  − sen x se K = 4m + 2 (m ∈ Z). a função co-seno passa a seno. deverá ter-se cos 57π + π + x = sen x. De facto. supondo que o ponto 2 associado a x está no primeiro quadrante. o co-seno é positivo. 2 Como 57π + π determina um ponto do círculo trigonométrico no eixo das 2 ordenadas. Seja P o ponto do círculo trigonométrico associado ao número K π .  π  (36) cos K + x =  − cos x se K = 4m + 2 (m ∈ Z). aplicando a regra descrita a cos 57π + π +x . então 2 a função “muda de nome” (queremos com isto dizer que o seno passa a co-seno e vice-versa).  2    sen x  se K = 4m + 3 (m ∈ Z) Há uma maneira de memorizar facilmente as fórmulas (35) e (36).Aliás todas estas igualdades são casos particulares de uma situação que relaciona o seno do número K π + x (K inteiro) com o seno ou o co-seno de 2 x. o sinal + ou − é determinado pelo sinal que a função em questão (o seno ou o co-seno) toma no quadrante a que pertence o ponto do círculo trigonométrico associado a K π + x.

O primeiro designa (cos x)2 . Figura 19: Gráfico da função co-seno. para a esquerda.A partir da igualdade (29) é imediato obter o gráfico da função co-seno: basta transladar o gráfico do seno. a igualdade (30) mostra-nos que a função co-seno é par. • • • Seja x um número real qualquer e seja P o ponto do círculo trigonométrico associado a x. pelo que o seu gráfico é simétrico em relação ao eixo das ordenadas. Já sabemos que. se tem10 cos2 x + sen2 x = 1 Diremos que (37) é a igualdade fundamental da trigonometria. para todo o número real x. • • • (37) Prosseguiremos esta secção com a resolução de algumas equações trigonométricas. A função co-seno é periódica e o seu período principal é 2π. tendo em conta que o raio do círculo trigonométrico é 1. por definição. enquanto o segundo designa cos(x2 ). Por outro lado. Designemos respectivamente por ξ e η a abcissa e a ordenada de P no referencial onde está inserido o círculo trigonométrico. sabemos que a equação do círculo trigonométrico é ξ2 + η2 = 1 (ver fórmula (1)). de π . Por outro lado. Apresentamos 2 o gráfico da função co-seno na figura 19. Comecemos por considerar a equação cos x = cos α 10 (38) Não confundir os símbolos cos2 x e cos x2 . 22 . Acabámos de demonstrar que. se tem cos x = ξ e sen x = η.

A resolução pode fazer-se utilizando as igualdades (29) e (25): cos x = cos α ⇔ ⇔ ⇔ ⇔ ⇔ π π − x = sen −α 2 2 π π π π − x = 2Kπ + − α ∨ − x = 2Kπ + π − + α 2 2 2 2 x = −2Kπ + α ∨ x = −2Kπ − α x = 2Kπ + α ∨ x = 2Kπ − α x = 2Kπ ± α. com K inteiro. 2 cos x = 1 ⇔x = 2Kπ. 23 . cos x = −1 ⇔x = 2Kπ + π. ou seja. sen Um outro processo de resolver (38) é recorrer directamente ao círculo trigonométrico. Por outras palavras. ou x difere destes valores por um múltiplo inteiro de 2π. Consequentemente x = α.onde α é um número real dado e x é a incógnita. Como casos particulares da equação (38). Figura 20: Resolução de cos x = cos α. é dizer que os pontos correspondentes a x e a α no círculo trigonométrico têm a mesma abcissa. assinalamos: cos x = 0 ⇔x = Kπ + π . tal como fizemos na resolução de (24) — que é a equação correspondente para o caso do seno. de equação x = cos α. Dizer que o co-seno de x é igual ao co-seno de α. ou x = −α. como representamos na figura 20. situam-se numa mesma recta vertical. x = 2Kπ + α ou x = 2Kπ − α.

com K inteiro. como representado na figura 21. Dizer que o seno de x é igual ao co-seno de x é dizer que os pontos do círculo trigonométrico associados a x têm uma abcissa igual à ordenada. pertencem à recta r de equação y = x. ou é igual a 5 π . podemos garantir que x é solução de (40) sse π π x = 2Kπ + − x ∨ x = 2Kπ − + x. ou seja. onde em vez de α aparece então π π x = 2Kπ + − α ∨ x = 2Kπ − + α. 2 2 Consideremos agora a equação cos x = sen x − α. na figura 21 trata-se dos pontos P e Q. 4 Uma outra forma de obter este resultado é recorrer directamente ao círculo trigonométrico. 2 π . vem x = 2Kπ + que é equivalente a π − x. A equação (39) é equivalente a cos x = cos π −α 2 π 2 que é uma equação do tipo (38). 2 2 Como a segunda destas igualdades é uma condição impossível. 4 Consideremos ainda a seguinte equação: x = Kπ + cos2 x − sen2 x − cos x = 0 (41) Já sabemos que a ideia para resolver uma equação deste tipo — onde aparecem as funções seno e co-seno — é reduzir tudo à mesma função. Portanto x = Kπ + π . Tem-se (40) Tendo em conta a resolução de (39). ou difere destes valores 4 4 por um múltiplo inteiro de 2π. Logo x é igual a π .Uma outra equação que se pode tratar de forma análoga é cos x = sen α (39) A ideia é reduzir tudo a uma única função — que pode ser o seno ou o co-seno. Neste caso isso consegue-se facilmente através da igualdade fundamental 24 .

Substituindo. Trata-se de uma equação do segundo grau na variável ξ. o co-seno de x por ξ. cujas soluções são obtidas utilizando a fórmula resolvente para este tipo de equações: ξ= 1+ 1− 1 − (4 × 2 × (−1)) ∨ ξ= 2×2 ξ=1 ∨ 1 − (4 × 2 × (−1)) . 2 Tem-se então 25 . equação que é equivalente a 2 cos2 x − cos x − 1 = 0. Substituindo. da trigonometria (37). fazendo a mudança de variável ξ = cos x. 2 Concluímos assim que x é solução da equação (41) sse cos x = 1 ∨ 1 cos x = − . nesta última equação.Figura 21: Resolução de cos x = sen x. ou seja. na equação (41). 2×2 1 ξ=− . obtemos 2ξ2 − ξ − 1 = 0. o sen2 x por 1 − cos2 x obtemos cos2 x − (1 − cos2 x) − cos x = 0.

(ii) sen2 x + cos x − 1 = 0.A primeira destas equações já foi resolvida anteriormente (é do tipo (38)). com recurso ao círculo trigonométrico. 3 π x = 2K . 3 Exercício 1. a segunda pode escrever-se cos x = cos 2π . que é também uma equação do 3 tipo (38). • • • Vamos deduzir. que são: sen(x + y) = sen x cos y + cos x sen y cos(x + y) = cos x cos y − sen x sen y (42) (43) Figura 22: Seno e co-seno da soma. 26 . As soluções de (41) são então x = 2Kπ ou ainda ∨ x = 2Kπ + 2π 3 ∨ x = 2Kπ − 2π . Começaremos com as fórmulas do seno e do co-seno da soma de dois números reais x e y. algumas fórmulas importantes. Determine o conjunto de soluções de cada uma das seguintes equações: (i) sen2 x + 2 cos x − 1 = 0.

As coordenadas dos pontos P e R no referencial (O. sen y). u. cos x). v). v) são. e2 ) e encontra-se também representado na figura 22. (cos y. Mas. π π + x . pode escrever-se da forma w = cos yu + sen yv. Designando respectivamente 2 por u e por v os vectores correspondentes aos segmentos orientados OP e OR. e1 . e1 . cos 2 2 pelo que os vectores u e v se podem escrever da seguinte forma: u = cos xe1 + sen xe2 v = − sen xe1 + cos xe2 . e2 ) são. podemos pensar no referencial (O. u. por construção trata-se de um referencial ortonormado directo.Para demonstrarmos as fórmulas (42) e (43). respectivamente. Introduzindo nesta última igualdade as expressões que obtivemos para u e v como função de e1 e e2 . (cos x. sen(x + y)). 27 . e1 . vem w = cos yu + sen yv = cos y(cos xe1 + sen xe2 ) + sen y(− sen xe1 + cos xe2 ) = (cos x cos y − sen x sen y)e1 + (sen x cos y + cos x sen y)e2 . e2 ) são (cos(x + y). as coordenadas de Q no referencial (O. As coordenadas do ponto Q no referencial (O. Portanto as coordenadas do ponto Q no referencial (O. sen x). e1 . Designemos por R o ponto do círculo trigonométrico associado ao número x + π . como habitualmente. sen + x = (− sen x. Consequentemente o vector w. sen x cos y + cos x sen y). por definição. Sejam respectivamente P e Q os pontos do círculo trigonométrico associados aos números reais x e x + y. e2 ) são (cos x cos y − sen x sen y. por definição de seno e co-seno. O referencial ortonormado directo onde está inserido o círculo trigonométrico é. consideramos o círculo trigonométrico representado na figura 22. designado por (O. correspondente ao segmento orientado OQ (ver figura 22).

vem sen2 x = cos(2x) = cos2 x − (1 − cos2 x). que nos dão a soma e a diferença entre os senos e os co-senos de dois números reais u e v. Vem sen(2x) = 2 sen x cos x cos(2x) = cos x − sen x 2 2 (46) (47) A fórmula (47) permite-nos exprimir o quadrado do seno de x e o quadrado do co-seno de x como função do co-seno de 2x. Obtém-se sen(x − y) = sen x cos y − cos x sen y cos(x − y) = cos x cos y + sen x sen y (44) (45) É também a partir de (42) e (43) que podemos obter o seno e o co-seno da duplicação: basta substituir y por x em cada uma daquelas igualdades. 1 − cos(2x) (48) 2 Analogamente.Logo sen(x + y) = sen x cos y + cos x sen y cos(x + y) = cos x cos y − sen x sen y. podemos eliminar o co-seno quadrado em (47). obtendo cos(2x) = 1 − 2 sen2 x. e que cos2 x = 28 ou ainda. por intermédio da igualdade fundamental da trigonometria. tendo em conta que o seno é uma função ímpar e o co-seno é uma função par. 1 + cos(2x) (49) 2 Resta-nos deduzir quatro fórmulas importantes. eliminando o seno quadrado em (47). A partir das igualdades (42) e (43) é imediato obter as fórmulas para o seno e o co-seno da diferença de dois números reais. . ou ainda. que são precisamente as igualdades (42) e (43). tendo em conta a igualdade fundamental da trigonometria. De facto. basta substituir em (42) e (43) y por −y.

utilizarmos a seguinte mudança de variáveis:  x + y = u   (55)  x − y = v  Resolvendo o sistema (55) em ordem a x e y. Substituindo. e tendo em conta que a função seno é ímpar. em (50). x − y. Subtraindo estas duas equações termo a termo. resulta imediatamente (52). ou seja. obtemos sen u − sen v = 2 cos u−v u+v sen 2 2 que é precisamente a fórmula (50). partimos das fórmulas (42) e (44): sen(x + y) = sen x cos y + cos x sen y sen(x − y) = sen x cos y − cos x sen y. v por −v. é natural designarmos x + y por u e x − y por v.são as seguintes: sen u − sen v = 2 cos u+v u−v sen 2 2 u−v u+v sen cos u − cos v = −2 sen 2 2 u+v u−v sen u + sen v = 2 sen cos 2 2 u+v u−v cos u + cos v = 2 cos cos 2 2 (50) (51) (52) (53) Para deduzirmos (50). 29 . obtemos  x = u + v    2   y = u − v  2 (56) Podemos agora introduzir na fórmula (54) os valores de x + y. x e y dados por (55) e (56). obtemos sen(x + y) − sen(x − y) = 2 cos x sen y (54) Como queremos obter uma fórmula para a diferença entre o seno de u e o seno de v.

designada por tg. Subtraindo e somando estas duas equações termo a termo. 4 Funções tangente e cotangente sen x cos x A função tangente. cos x OQ 30 . tal como indicado na figura 23. Portanto: tg x = PQ sen x = . o comprimento do segmento OQ. x e y dados por (55) e (56). onde se considera o caso de x pertencer ao intervalo ]0. tal como decorre de (59).As deduções de (51) e (53) são semelhantes. partindo agora das fórmulas (43) e (45): cos(x + y) = cos x cos y − sen x sen y cos(x − y) = cos x cos y + sen x sen y. é definida pela fórmula tg x = (59) O domínio da função tangente. no caso da figura 23. O co-seno de x é a abcissa de P. é o conjunto Dtg de todos os números reais cujo co-seno é diferente de zero: Dtg = {x ∈ R. o comprimento do segmento PQ. obtemos respectivamente cos(x + y) − cos(x − y) = −2 sen x sen y cos(x + y) + cos(x − y) = 2 cos x cos y (57) (58) Introduzindo em (57) e (58) os valores de x + y. x − y. obtemos respectivamente u−v u+v sen 2 2 u−v u+v cos cos u + cos v = 2 cos 2 2 cos u − cos v = −2 sen que são precisamente as igualdades (51) e (53). π [. cos x 0} = x ∈ R. ou seja. 2 Recordamos que o seno de x é a ordenada do ponto P do círculo trigonométrico associado a x. x Kπ + π (K ∈ Z) . 2 A tangente tem uma interpretação geométrica simples no círculo trigonométrico. ou seja.

e atendendo a que o raio do círculo trigonométrico é igual a 1. que descrevemos na figura 24. onde a recta r é tangente ao ponto P do círculo trigonométrico associado a x.Figura 23: Primeira interpretação geométrica da tangente de x. visto ser o raio do círculo trigonométrico. cos x OQ OP No caso de um qualquer valor de x pertencente ao domínio da tangente. Recorrendo ao teorema de Thales. visto serem ambos rectângulos e terem um ângulo agudo (de medida x radianos) igual. é imediato ver que o valor absoluto da tangente de x é igual ao comprimento do segmento vertical. e tendo em conta que o comprimento do segmento OS é igual a 1. A tangente de x tem uma outra interpretação geométrica. determinada pelo ponto P do círculo trigonométrico associado a x. Os triângulos ∆OPQ e ∆OPR são semelhantes. logo. a razão entre lados opostos a ângulos iguais é constante. no círculo trigonométrico. No caso de um qualquer valor de x pertencente ao domínio da tangente. vem tg x = PQ PR sen x = = = PR. vem tg x = PQ OQ = RS OS = RS. é imediato ver que o valor absoluto da tangente de x é igual ao comprimento do segmento da recta tangente ao ponto P do círculo trigonométrico 31 . e que une a semirecta OP. ao eixo das abcissas. em triângulos semelhantes. tangente ao círculo trigonométrico. Ora nós sabemos que.

como o representado na figura 25.Figura 24: Segunda interpretação geométrica da tangente de x. Já sabemos que. Daí a justificação para a designação de tangente. num triângulo rectângulo qualquer. Figura 25: O triângulo rectângulo OPQ. é igual ao quociente entre os comprimentos do cateto oposto a esse ângulo e da hipótenusa. definido pelos pontos P e pelo ponto de intersecção dessa recta com o eixo das abcissas. Designemos por θ o ângulo 32 . associado a x. Consideremos agora um triângulo ∆OPQ qualquer. Em ambas as interpretações geométricas apresentadas o valor absoluto da tangente de x corresponde à medida de um segmento de uma recta tangente a um determinado ponto do círculo trigonométrico. rectângulo em Q. Sabemos também que o co-seno de x é igual ao quociente entre os comprimentos do cateto adjacente e da hipótenusa. sendo x a medida em radianos de um dos ângulos agudos. o seno de x.

2 Concluímos assim que 1 1 x ≤ RS. em radianos. x ≤ RS. (60) Tendo em conta esta desigualdade e a desigualdade (21). Relembramos que a área de um sector circular de raio R e ângulo ao centro x radianos é igual a 1 R2 x. • • • A interpretação geométrica da tangente feita na figura 23 permite-nos demonstrar uma propriedade importante da tangente de x. a área do triângulo ∆ORS é maior ou igual11 2 à área do sector circular OPS. do ângulo θ. sendo x a medida em radianos de um dos ângulos agudos. a tangente de x. podemos escrever ∀x ∈ 0. vemos que. Mas. De facto. 2 2 ou seja. Ora a área do triângulo ∆ORS é igual a 1 1 OS RS = RS 2 2 e a área do sector circular OPS. π [. π [. π [. para x ∈ [0. e reportando-nos à figura 23. para 2 x pertence ao intervalo [0. 2 33 . Em conclusão: num triângulo rectângulo qualquer. o comprimento do segmento RS coincide com a 2 tangente de x. é igual a12 1 x. quando x pertence ao intervalo [0. só é igual se x = 0. 11 12 π 2 sen x ≤ x ≤ tg x (61) Aliás. tendo em conta que o raio do círculo trigonométrico é 1. Tem-se sen x tg x = = cos x PQ OP OQ OP = PQ OQ . é igual ao quociente entre os comprimentos do cateto oposto a esse ângulo e do cateto adjacente. Acabámos de mostrar que ∀x ∈ 0. π 2 x ≤ tg x.agudo ∠POQ e seja x a medida.

cos(x + 2π) cos x 34 . ou seja.• • • Façamos agora um estudo da função tangente e esbocemos o seu gráfico. π . tanto quanto nós queiramos. sem atingir este valor. quando x cresce de 0 até π . cos(−x) cos x cos x Então o gráfico da tangente terá de ser simétrico em relação à origem do referencial. 2 2 Das igualdades sen(x+2π)=senx e cos(x+2π) = cos x resulta o seguinte: tg(x + 2π) = sen(x + 2π) sen x = = tg x. Figura 26: Restrição da função tangente ao intervalo 0. O gráfico da restrição da função tangente ao intervalo [0. Dtg = {x ∈ R. π [ 2 está representado na figura 26. o comprimento 2 do segmento RS — que coincide com a tangente de x — vai aumentando. +∞[. a partir de 0. cos x 0} = x ∈ R. Isto significa que. a tangente é uma função crescente e toma todos os valores do inter2 valo [0. Já sabemos que o domínio da função tangente é o conjunto Dtg dos números reais x tais que o co-seno de x é diferente de zero. π [ terá um gráfico como o esboçado na figura 27. x Kπ + π 2 (K ∈ Z) . A partir da figura 26. no intervalo [0. concluímos que a restrição da função tangente ao intervalo ]− π . Aí vemos que. Recorramos à interpretação geométrica explicitada na figura 23. 2 É muito fácil ver que a função tangente é ímpar porque tg(−x) = sen(−x) − sen x sen x = =− = − tg x. π [.

dizemos tratar-se do período principal. Tendo em conta que a restrição da função tangente ao intervalo − π . cos(x + π) − cos x Figura 28: Função tangente. vemos que π é o menor período da função tangente. dizemos que a função tangente é periódica e que um seu período é 2π. 35 . 2 2 Devido à igualdade precedente. 2 2 como se depreende da figura 27. π é injectiva.Figura 27: Restrição da função tangente ao intervalo − π . Devido a (62). dizemos que π é um período da função tangente. podemos escrever tg(x + π) = Acabámos de mostrar que: ∀x ∈ Dtg tg(x + π) = tg x (62) sen(x + π) − sen x = = tg x. tendo em conta as igualdades (35) e (36). No entanto. π .

pois são ambos rectângulos e o ângulo ∠POQ é igual ao ângulo ∠ORS. sen x 0} = {x ∈ R. Esboçamo-lo na figura 28. e que 36 . tal como indicado na figura 29. sen x OP OS No caso de um qualquer valor de x pertencente ao domínio da cotangente. x Kπ (K ∈ Z)}. como se depreende de (63). para todo o x no domínio da cotangente. Utilizando as igualdades (35) e (36) é imediato encontrar um relação entre a cotangente e a tangente: cos x sen cotg x = = sen x cos π 2 π 2 −x −x = tg π −x . é definida pela fórmula cotg x = cos x sen x (63) O domínio da função cotangente.Uma vez conhecido o gráfico da restrição da função tangente ao intervalo − π . Tem-se então: cotg x = OQ cos x RS = = = RS. Na figura 29. De facto ele vai ser uma “repetição” do gráfico representado na figura 27. é imediato ver que o valor absoluto da cotangente de x é igual ao comprimento do segmento horizontal. A cotangente tem uma interpretação geométrica simples no círculo trigonométrico. se tem cotg x = tg π −x 2 (64) É precisamente (64) que sugeriu o nome de cotangente: a cotangente de x é a tangente de π − x e os ângulos com estas medidas (em radianos) são 2 complementares. esboçado na figura 27. tangente ao círculo trigonométrico. os triângulos ∆OPQ e ∆ORS 2 são semelhantes. designada por cotg. • • • A função cotangente. é imediato obter o gráfico desta função. é o conjunto Dcotg de todos os números reais cujo seno é diferente de zero: Dcotg = {x ∈ R. 2 Mostrámos assim que. e sabido que π é um período da 2 2 função tangente. onde se considera o caso de x pertencer ao intervalo ]0. π . π [.

Logo. no círculo trigonométrico. Repare-se que. une a semi-recta OP. se tem cotg x = 1 . Os triângulos ∆OPQ e ∆OPR são semelhantes. para todo o x pertencente simultaneamente ao domínio da tangente e ao domínio da cotangente. vem cotg x = OQ PR cos x = = = PR. determinada pelo ponto P do círculo trigonométrico associado a x. que descrevemos na figura 30. . onde a recta r é tangente ao ponto P do círculo trigonométrico associado a x. A cotangente de x tem uma outra interpretação geométrica.Figura 29: Primeira interpretação geométrica da cotangente de x. tg x Consequentemente. definido pelos pontos P e pelo ponto de intersecção dessa recta com o eixo das ordenadas. é imediato ver que o valor absoluto da cotangente de x é igual ao comprimento do segmento da recta tangente ao ponto P do círculo trigonométrico associado a x. o comprimento do segmento PR é o inverso aritmético do comprimento do segmento PS: PR = 37 1 PS . sen x PQ OP No caso de um qualquer valor de x pertencente ao domínio da cotangente. atendendo a que o raio do círculo trigonométrico é igual a 1. na figura 30. ao eixo das ordenadas.

Já sabemos que a tangente de x é igual ao quociente entre os comprimentos do cateto oposto a esse ângulo e do cateto adjacente. num triângulo rectângulo qualquer. Representamo-lo na figura 31. seja x a medida. Representamo-lo na figura 32. • • • Para obtermos o gráfico da função cotangente. por simetria em relação ao eixo das abcissas. Consideremos um triângulo rectângulo qualquer. de um dos ângulos agudos. por translação de π . Em resumo. Por consequência a cotangente de x é igual ao quociente entre os comprimentos do cateto adjacente e do cateto oposto. em radianos. 2 38 . Finalmente. recorremos a (64) e ao facto da tangente ser uma função ímpar: cotg x = tg π π − x = − tg x − .Figura 30: Segunda interpretação geométrica da cotangente de x. a cotangente da medida x (em radianos) de um ângulo agudo é igual ao quociente entre o comprimento do cateto adjacente a esse ângulo e o comprimento do cateto oposto. 2 2 O gráfico da função x → − tg x obtem-se a partir do gráfico da tangente (figura 28). o gráfico da função cotangente pode obter-se a partir da figura 31.

cujo período principal é π. com K inteiro. (K+1)π[. A restrição da função cotangente ao intervalo ]0. π[ é uma função decrescente. o mesmo se passa com a restrição da função cotangente a qualquer intervalo da forma ]Kπ. Da observação da figura 32 vemos que o contradomínio da cotangente é o conjunto R dos números reais e que se trata de uma função periódica. O gráfico apresenta assímptotas verticais de equação x = Kπ. Na tabela que apresentamos a 39 . • • • A tangente e a cotangente de x são imediatamente calculáveis para valores de x que conheçamos o seno e o co-seno. Aliás.Figura 31: Gráfico de x → − tg x. com K inteiro. Figura 32: Função cotangente.

Se a função mudar de nome aparece o sinal − . para os casos x = 0. do co-seno de x. se P estiver situado no eixo das abcissas. 6 4 x = π e x = π: 3 2 x sen x cos x tg x cotg x 0 0 1 0 — π 6 1 2 √ 3 2 1 √ 3 √ 3 • • • Utilizando as fórmulas (35) e (36) é imediato deduzir fórmulas correspondentes para a tangente e para a cotangente. a função “mantém o nome”. então a 2 função “muda de nome” (queremos com isto dizer que a tangente passa a cotangente e vice-versa). Seja P o ponto do círculo trigonométrico associado ao número que se quer calcular a tangente ou a cotangente (Kπ + x ou Kπ + π + x). • • 40 • . x = π . indicamos os valores do seno de x. se o ponto P estiver situado no eixo das ordenadas. são as seguintes: tg (Kπ + x) = tg x tg Kπ + π + x = − cotg x 2 π + x = − tg x 2 (65) (66) (67) (68) π 4 √ 2 2 √ 2 2 1 1 π 3 √ 3 2 1 2 √ 3 1 √ 3 π 2 1 0 — 0 cotg (Kπ + x) = cotg x cotg Kπ + Há uma maneira de memorizar facilmente as fórmulas (65) a (68). se não mudar de nome o sinal fica + . x = π . da tangente de x e da cotangente de x (quando possível).seguir. que passamos a descrever.

Representamolos nas figuras 33 e 34. o domínio da secante é o conjunto de números reais x tais que cos x 0 e o domínio da co-secante é o conjunto de números reais x tais que sen x 0. −1]∪[1. • • • 13 Estas funções não fazem parte dos programas recentes do ensino secundário. Trata-se de um conjunto estritamente contido no domínio da co-tangente. para todo o x ∈ Dtg ∩ Dcotg . Obviamente. +∞[. tangente e co-tangente. pelo que as funções são 1 distintas. As funções secante — designada por sec — e co-secante — designada por cosec — são definidas respectivamente por: 1 cos x 1 cosec x = sen x sec x = (69) (70) Como se depreende de (69) e (70). respectivamente. o conjunto de pontos onde nem o seno nem o co-seno se anulam. tg x 1 não coincide com a função x → cotg x. se tem cotg x = No entanto a função x → 1 . De tg x 1 facto o domínio de x → é a intersecção do domínio da tangente com tg x o conjunto de pontos onde a tangente não se anula. São funções periódicas de período principal 2π. 5 Funções secante e co-secante Para além das funções seno.Repare-se que. Da análise das figuras 33 e 34 vemos que o contradomínio das funções secante e co-secante é o conjunto ]−∞. x → é a restrição da função co-tangente ao tg x conjunto Dtg ∩ Dcotg . é ainda usual definir as funções secante e co-secante13 . Vemos assim que o domínio da secante coincide com o domínio da tangente. Os gráficos das funções secante e co-secante são facilmente obtidos. co-seno. ou seja. 41 . a partir dos gráficos do co-seno e do seno. enquanto o domínio da co-secante coincide com o domínio da cotangente.

com base na figura 35. onde x é um número real compreendido entre 0 e π e P é o ponto do círculo 2 trigonométrico associado a x. As funções secante e co-secante têm uma interpretação simples no círculo trigonométrico. cos x Vemos assim que a secante de x coincide com o comprimento do segmento OR. Os triângulos ∆OPQ e ∆ORA são semelhantes. pelo que. visto a recta que passa em O e em P ser 42 . Daí o nome de “secante”. se tem OR = OR OA = OP OQ = 1 OQ = 1 = sec x.Figura 33: Função secante. Figura 34: Função co-secante. tendo em conta que o raio do círculo trigonométrico é 1. que passamos a descrever.

secante ao círculo trigonométrico. sen x A co-secante de x coincide com o comprimento do segmento OS. das diversas funções trigonométricas do número x. O nome de co-secante vem do facto de ser a secante de π − x. compreendido entre 0 e π . cosec x = sen x cos π − x 2 2 Recapitulamos as interpretações geométricas.B R P x S O Q A Figura 35: Função co-secante. reportando-nos à figura 35: 2 sen x = PQ tg x = AR sec x = OR 43 cos x = OQ cotg x = BS cosec x = OS . no círculo trigonométrico. o que é imediato 2 porque 1 π 1 = = sec −x . Para a interpretação da co-secante no círculo trigonométrico. logo OS = OS OB = OP PQ = 1 PQ = 1 = cosec x. Como se trata de triângulos semelhantes. sabemos que a razão entre lados correspondentes a ângulos iguais é constante. consideramos os triângulos ∆OPQ e ∆OSB.

respectivamente. 14 44 . cos2 x cos2 x 1 cos2 x +1= . Dividindo ambos os membros desta equação por cos2 x (supondo cos x e por sen2 x (supondo sen x 0) obtemos. por ser o inverso aritmético do seno de x. que verifica a condição seguinte: todo o elemento b do conjunto a é imagem de um e de As funções trigonométricas inversas. de um dos ângulos agudos. ou seja. Relembremos (37): cos2 x + sen2 x = 1.Consideremos um triângulo rectângulo qualquer e designemos por x a medida. 1+ 1 sen2 x = . significa isto que. A co-secante de x. Sejam A e B dois conjuntos quaisquer e seja f uma função de A em B. cotangente. Suponhamos agora que a função f é bijectiva. • • • Da igualdade fundamental da trigonometria — fórmula (37) — podemos deduzir relações semelhantes para as outras funções trigonométricas. A secante de x. é igual ao quociente entre o comprimento da hipótenusa e o comprimento do cateto adjacente ao ângulo agudo em questão. secante e co-secante. Começamos por recordar brevemente o que se entende por inversa de uma função. 2x sen sen2 x 0) Tendo em conta as definições das funções tangente. não constam dos actuais programas. por ser o inverso aritmético do co-seno de x. em radianos. é igual ao quociente entre o comprimento da hipótenusa e o comprimento do cateto oposto. a cada elemento a do conjunto A nós associamos um elemento b do conjunto B que designamos vulgarmente por f (a). embora já tenham feito parte dos programas do ensino secundário. as duas igualdades anteriores podem escrever-se da seguinte forma: 1 + tg2 x = sec2 x cotg x + 1 = cosec x 2 2 (71) (72) 6 Funções trigonométricas inversas Nesta secção abordaremos o problema da inversão das funções trigonométricas14 .

Figura 36: Função inversa. então o ponto do plano (x. dizer que f : A → B é bijectiva é dizer que: ∀b ∈ B ∃1 a ∈ A b = f (a). tendo-se ∀a ∈ A ∀b ∈ B a = f −1 (b) ⇔ b = f (a) . será que. vemos que (x. podemos pensar nos gráficos das funções f e f −1 . Por exemplo. y) pertence ao gráfico de f . consequentemente o ponto (y. Comecemos por relembrar que um ponto (a. que x = f −1 (y). Em linguagem simbólica. Aplicando um raciocínio análogo à função f −1 . Mas. x) pertence ao gráfico da função f −1 . que a cada elemento b do conjunto B associa o único elemento a do conjunto A tal que b = f (a). Esta nova função. Tendo em conta a bijectividade de f . será designada por f −1 . Claro que o domínio de f é o contradomínio de f −1 e o contradomínio de f é o domínio de f −1 . como sabemos tem-se f −1 : B → A. Suponhamos agora que A e B são dois subconjuntos de R e que f : A → B é uma função bijectiva. um único elemento a do conjunto A. concluímos. y) pertence 15 Função com domínio e contradomínio contidos em R. podemos definir uma nova função. Seja agora x um ponto no domínio A de f e seja y = f (x). conhecendo o gráfico de f . b) do plano pertence ao gráfico de uma função real de variável real15 ϕ sse a pertencer ao domínio de ϕ e b = ϕ(a). a que chamaremos função inversa de f . 45 . se f : R → R for a função definida por f (x) = x3 (que é uma bijecção de R em R). é possível determinar o gráfico de f −1 ? Vamos ver que sim. agora de B em A. por definição de função inversa. Como os conjuntos A e B são subconjuntos de R. a função inversa f −1 : R → R é definida por √ f −1 (x) = 3 x. será que existe alguma relação de tipo geométrico entre estes dois gráficos? Por outras palavras. Na figura 36 representamos esquematicamente uma função bijectiva f : A → B e a sua inversa f −1 : B → A. da igualdade y = f (x).

Mas. do ponto de vista geométrico. Na figura 38 esboçamos os gráficos de uma função f e da sua inversa f −1 . x). x). é fácil relacionar (x. y) com (y.ao gráfico de f sse (y. y) e (y. Figura 38: Funções f e f −1 . Figura 37: Pontos (x. Torna-se agora evidente a relação de tipo geométrico entre os gráficos de f e de f −1 : são simétricos um do outro em relação à bissectriz dos quadrantes ímpares. tal como se indica na figura 37: são pontos simétricos um do outro em relação à bissectriz dos quadrantes ímpares (ou seja. x) pertencer ao gráfico de f −1 . 46 . à recta de equação y = x).

Como não se trata de uma função bijectiva (por não ser injectiva). O arco seno é 2 2 47 . A ideia é muito simples: a função seno não é invertível. vem arcsen 1 = π . 2 2 (73) Vejamos um exemplo de aplicação da definição 73. π ]. à inversa de f chamamos função “arco seno”. O domínio do arco seno é o intervalo [−1. por ser bijectiva. Claro que há uma arbitrariedade na escolha desse intervalo. 1] e o contradomínio é o intervalo [− π . e cujo gráfico está representado na figura 13. já sabemos tratar-se de uma função de R em [−1. O arco seno será designado usualmente por arcsen. 3π ]. é uma função contínua. visto não ser injectiva. 2 2 Designemos por f a restrição da função seno ao intervalo [− π . Trata2 2 se de uma bijecção deste intervalo em [−1. π ] . cujo gráfico representamos na figura 39. 2 2 6 2 2 6 A função arco seno. 1]. podemos escolher o intervalo [ π . Ora. Por exemplo (ver figura 13). é dizer que x é o seno de y e que y pertence ao intervalo [− π . Trata-se do único número real y tal que sen y = 2 e tal que 2 − π ≤ y ≤ π . 1]. A função f . ou o intervalo [− π . como sabemos que sen π = 1 . Convencionaremos escolher o intervalo [− π . por ser a inversa de uma função contínua e monótona num intervalo.1 Funções arco seno e arco co-seno Consideremos a função seno. Dizer que y é o arco seno de x. 2 2 Figura 39: Gráfico da restrição do seno a [− π . π ]. por forma a obtermos uma função injectiva. é invertível. π ]. que é sobrejectiva. Será então que devemos abandonar o problema da inversão das funções trigonométricas? Ou será que poderemos contornar a dificuldade resultante daquelas funções não serem injectivas? É esta segunda opção que adoptaremos. π ]: 2 2 y = arcsen x ⇔ π π x = sen y ∧ y ∈ − .6. π ]. não existe a sua inversa. ou 2 2 2 2 muitos outros intervalos. calculando o arco 1 seno de 1 . então consideremos uma sua restrição a um intervalo convenientemente escolhido.

obtermos a função arco seno pode ser adaptado à função co-seno. π]. por forma a obtermos uma função injectiva. π ] . Tem-se então π π ∀x ∈ − . 48 (75) . fazendo uma simetria em relação à bissectriz dos quadrantes ímpares. resulta evidente que se trata de uma função ímpar. não a função co-seno. 2 2 a < b → arcsen a < arcsen b • • • O método utilizado para. mas uma sua restrição a um intervalo conveniente. O gráfico do arco seno pode obter-se imediatamente a partir da figura 39. Da análise do gráfico da função arco seno. Aliás não poderia deixar de ser assim porque a função arco seno é a inversa da função que designámos por f . Ora f é 2 2 uma função ímpar e a inversa de uma função ímpar é também uma função ímpar. cujo gráfico representamos na figura 41. b ∈ − . partindo da função seno. que é restrição do seno ao intervalo [− π . Figura 40: Gráfico da função arco seno. como aliás se depreende imediatamente da figura 40: π π ∀a. representado na figura 40. por ser a inversa de uma função estritamente crescente.uma bijecção do primeiro daqueles intervalos no segundo. é estritamente crescente. 2 2 arcsen (−x) = − arcsen x (74) A função arco seno. Representamo-lo na figura 40. O primeiro passo é considerarmos. Seja g a restrição da função co-seno ao intervalo [0.

e2 ) no plano P. b ∈ [0. Representamo-lo na figura 42. Figura 42: Gráfico da função arco co-seno. π] a<b ⇒ arccos a > arccos b (77) 7 Coordenadas polares Consideremos um referencial ortonormado directo (O. é possível associar a cada ponto P do plano P as coorde49 . por ser a inversa de uma função estritamente decrescente: ∀a. π] e tem-se y = arccos x ⇔ x = cos y ∧ y ∈ [0.Figura 41: Gráfico da restrição do co-seno a [0. 1] em [0. À inversa de g chamamos função arco co-seno. A função arco co-seno é uma bijecção de [−1. 1]. e1 . Como é sabido. π] (76) O gráfico da função arco co-seno obtem-se imediatamente do gráfico da função g — representado na figura 41 — por simetria em relação à bissectriz dos quadrantes ímpares. designa-la-emos usualmente por arccos. É estritamente decrescente. π] em [−1. A função arco co-seno é contínua porque é a inversa de uma função contínua e monótona definida num intervalo de R. π]. A função g é uma bijecção de [0.

por defi−→ − nição. y) é a imagem de P pela aplicação ψ: ψ(P) = (x. O que estamos a fazer. o único número real x tal que o vector OA é igual ao vector xe1 . ou seja. y). do ponto de vista metemático. associa um par ordenado de números reais. ou a ordeneda de P é diferente da de Q. a abcissa do ponto P é. ao associarmos a cada ponto P do plano as suas coordenadas x e y no referencial considerado? Estamos a definir uma função ψ que. ou a abcissa de P é diferente da de Q. a cada ponto do plano P. esta última igualdade é equivalente a − − → xe1 + ye2 = OP. então. que esquematizamos na figura 43. determinar x e y. a partir de P. A ordenada de P é obtida de forma análoga. B ye2 P e2 A O e1 xe1 Figura 43: Coordenadas x e y do ponto P. sendo o único número real y tal − − → que OB = ye2 . A aplicação ψ é injectiva: se P e Q forem dois pontos distintos do plano P. Dizer que x e y são as coordenadas do ponto P não é mais do que dizer que o par (x. um elemento de R2 : ψ : P → R2 . é simples. onde B é a intersecção da recta paralela a e1 que passa por P e da recta definida por e2 . De acordo com o processo descrito para. O processo de o fazer. 50 .nadas x e y desse ponto no referencial em questão. Começamos por traçar por P uma recta paralela ao vector e2 e designamos por A o ponto de intersecção dessa recta com a recta definida por e1 .

é muito −→ − simples. A função ψ : P → R2 é então uma bijecção. é descrito em coordenadas cartesianas por R = {(x. onde a. Por outras palavras. y) ∈ R2 . a ≤ x ≤ b ∧ c ≤ y ≤ d}. que podemos seguir na figura 43. dados dois números reais x e y. e1 . o ponto P é a intersecção da recta que passa por A e é paralela a e2 com a recta que passa por B e é paralela a e1 . é sempre possível determinar um ponto P do plano cujas coordenadas sejam aqueles números. descrever figuras no plano. consequentemente. Começa por se determinar os pontos A e B tais que OA = xe1 e − − → OB = xe2 . com P ∈ R. c e d são números reais. O sinal = significa aqui que esse subconjunto de R2 é constituído precisamente pelas coordenadas dos pontos do rectângulo R. Repare-se que o sinal = é um abuso de linguagem. A construção. y) = ψ(P). y) tais que (x. b. e2 ) do plano. Às coordenadas x e y do ponto P. a aplicação ψ depende do referencial em questão. pelos pares (x. d R e2 a O e1 b c Figura 44: Rectângulo R. De facto. Este facto permite-nos “identificar” cada ponto P do plano com o par ordenado (x. ou seja. porque é injectiva e sobrejectiva. com a < b e c < d. à sua esquerda está um subconjunto do plano — o rectângulo R — enquanto à direita está um subconjunto de R2 . é usual chamar coordenadas cartesianas. dadas por (x. Por exemplo o rectângulo R representado na figura 44.A aplicação ψ é sobrejectiva. De facto. y) = ψ(P). 51 . y) de números reais constituído pela abcissa e pela ordenada de P. Repare-se que esta “identificação” só tem sentido uma vez fixado o referencial (O. Com elas podemos referenciar qualquer ponto do plano e.

a imagem geométrica do conjunto {(x. esquematizado na figura 45: o círculo C centrado na origem do referencial e de raio r. Os ponto de Q têm abcissas compreendidas entre 0 e 1. x +y =1 Q 2 2 Figura 46: Quarto de círculo Q. y) ∈ R2 . como é sabido. Vejamos ainda outro exemplo: o quarto de círculo Q esquematizado na figura 46. y) ∈ R2 . Este exemplo é um pouco mais complexo. 0 ≤ x ≤ 1} é a faixa representada na figura 47: são pontos com abcissas compreendidas entre 0 e 1 e com ordenadas quaisquer. x2 + y2 ≤ r2 }. C = {(x. Mas não são todos os pontos do plano com abcissas entre 0 e 1! De facto. 52 .Um outro exemplo. Tem-se. x +y =r C 2 2 2 Figura 45: Círculo C.

por ser positivo. 0 ≤ x ≤ 1}. é dado por √ b = 1 − a2 . y) ∈ R2 . b A x +y =1 Q a 2 2 Figura 48: Abcissas dos pontos de Q com ordenada a. y) ∈ R2 . Os pontos de Q têm as abcissas compreendidas entre 0 e 1. 0 ≤ x ≤ 1 ∧ 0 ≤ y ≤ 1 − x2 . b) de A verificam a equação a2 + b2 = 1. Então os pontos de Q de abcissa x têm ordenadas compreendidas entre 0 e √ 1 − x2 . 53 .1 Figura 47: Faixa {(x. pelo que b. Ora as coordenadas (a. Logo: √ Q = (x. mas os pontos de Q de abcissa a (ver figura 48) têm ordenadas compreendidas entre 0 e a ordenada do ponto A da circunferência com essa mesma abcissa.

0 ≤ x ≤ √ ∧ x ≤ y ≤ 2x 5 √ 1 1 ∨ √ ≤ x ≤ √ ∧ x ≤ y ≤ 1 − x2 . Basta considerar o sector circular S representado na figura 49. Com os exemplos anteriores pretendemos mostrar ao leitor que figuras simples — no nosso caso sectores circulares — podem ter uma descrição complicada em termos de coordenadas cartesianas. as abcissas √5 e √2 . 5 2 para o que lhe será útil observar que os pontos de intersecção das rectas de equação y = x e y = 2x com a circunfereência de equação x2 + y2 = 1 têm. 54 .O exemplo que acabámos de descrever é mais complicado. • • • Voltemos a considerar o plano P e o referencial ortonormado directo (O. y=2x y=x S x +y =1 2 2 Figura 49: Sector circular S. Aconselhamos vivamente o leitor a tentar verificar que 1 S = (x. Seja P um ponto do plano distinto de O. y) ∈ R2 . e2 ). Este facto leva-nos à introdução de outro tipo de coordenadas: as coordenadas polares. e1 . 1 1 respectivamente. mas poderíamos — mesmo com figuras simples — complicá-lo ainda mais. Ao ponto P podemos associar os seguintes dois números: a distância ρ de P a O e a medida − − → (em radianos) θ do ângulo entre os vectores e1 e OP.

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