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Como não levar cão por gato - ou gato por lebre

NEUROCIÊNCIAS

Suzana Herculano-Houzel
Neurocientista -

Mães corujas são todas iguais, mas cada uma sempre tem sua
gracinha predileta. Para umas é o bebê contar até três; para outras,
é ele já empilhar cubinhos, ou beber água sozinho. E eu confesso
que fiquei boba de ver que minha bebéia de um ano e meio já sabia
a diferença entre Au-aus e Miaus, pouco importa se o bichinho
estava na rua, na televisão, desenhado lindamente num livrinho
infantil ou garranchado de qualquer jeito por pais pouco dotados
para as artes. Au-au é Au-au, Miau é Miau e pronto.

Pode parecer tolo, e certamente vem de uma mãe coruja, eu sei,


mas não faça pouco das habilidades classificatórias do meu (ou do
seu) bebê. Explique rápido: qual é a diferença entre um gato e um
cachorro? (Não, eu quero dizer além de um fazer Miau e o outro,
Au-au). O tamanho? A forma do corpo? A posição das orelhas? O
focinho pontudo? Não é tão simples assim. E no entanto, o cérebro
rapidinho aprende quem é quem.

Foi para investigar como o cérebro separa cães e gatos que o


americano David Freedman e seus colegas treinaram dois macacos
para diferenciar "caninidade" e "felinidade". Não que haja algo
urgente em determinar como o cérebro separa gatos e cachorros. É
que isso é apenas um exemplo fácil de categorização, uma tarefa
essencial para o relacionamento com o mundo, e que realizamos o
tempo todo sem perceber. Categorizar é classificar como
"parecidos" objetos diferentes, como bananas e maçãs, e identificar
como "diferentes" objetos parecidos, como maçãs e bolas de bilhar.
Bananas e maçãs são alimentos; bolas de bilhar, não. O que é
muito importante na hora de decidir o que levar à boca (agora
explique isso para um bebê de um ano!).

O interessante sobre cães e gatos é que, além de serem classes


que nós separamos facilmente, dá para usar um desses
programinhas de computador para combinar imagens de um gato,
tigre, ou hiena com um doberman, pastor ou terrier em várias
proporções e criar mais de duzentos gachorros e cãgatos com
diferentes graus de "pureza". A idéia era ensinar os macacos a
classificar tudo o que é mais gato do que cachorro como "felinos" e
vice-versa, e investigar como os neurônios no cérebro reagem. Ou
mais exatamente, determinar se existem no cérebro neurônios cuja
atividade corresponde à decisão do macaco entre "isto é um felino"
ou "isto é um cachorro".

Macacos que participam de experimentos são sempre nascidos em


cativeiro, e esses nunca haviam visto nada parecido com gatos ou
cachorros (embora seja prática comum hospedar todos os animais
de laboratório no mesmo mini-zoológico nas universidades). Mas
mesmo esses macacos rapidamente aprenderam que os animais
com pelo menos 60% de gato, hiena ou tigre eram "felinos", e os
que tinham pelo menos 60% de doberman, pastor ou terrier eram
"cachorros". Para comunicar a decisão, era só usar uma alavanca:
segurá-la se dois "gachorros" pertencessem a categorias diferentes,
soltá-la se pertencessem à mesma categoria. Quem acertasse
ganhava um prêmio: um gole de suco de fruta.

E se existem neurônios que decidem entre cães e gatos, onde eles


estariam? Outros pesquisadores já haviam localizado neurônios em
uma região do cérebro na altura das orelhas que parecem
reconhecer a identidade de certos objetos, mas neurônios
categorizadores devem estar um degrau acima, uma vez que
precisam tratar vários objetos diferentes da mesma maneira. Há
outra região no cérebro, mais à frente, que convenientemente
recolhe sinais desses neurônios-identificadores-de-objetos, e foi lá
que a equipe de David Freedman foi pescar neurônios. Se em
algum lugar do cérebro há neurônios "categorizadores", havia
grandes chances de ser por ali.

E de fato eles estão lá. De 395 neurônios testados inserindo um


minúsculo eletrodo de metal no cérebro para ouvir a atividade dos
neurônios, 82 - ou um em cada cinco neurônios - respondiam muito
mais para "felinos" do que "caninos", ou vice-versa. Metade preferia
felinos; a outra metade preferia cachorros. O mais importante era
que a diferença ficava aparente muito antes do animal precisar
indicar sua decisão, como se esses neurônios já fossem decidindo
a categoria da imagem assim que ela aparece.

Para determinar se novas categorias podem ser aprendidas, os


pesquisadores mudaram a tarefa de "gatos/cachorros" para três
novas categorias absolutamente arbitrárias: "gatos ou dobermans",
"hienas ou pastores", e "tigres ou terriers". Testando neurônios nos
mesmos pontos dessa região frontal do cérebro (já que é
praticamente impossível voltar exatamente nos mesmos neurônios),
Freedman e sua equipe viram que quando o animal já havia
aprendido as novas categorias, os neurônios agora não mais se
dividiam entre preferir "felinos" ou "caninos" como antes, e sim
gatos ou hienas ou tigres, e dobermans ou pastores ou terriers.

Tudo indica que esses neurônios na região frontal do cérebro


definem a qual categoria pertence um objeto. E mais importante
ainda, mudam suas propriedades para criar novas categorias. O
curioso é um em cada cinco neurônios nessa região diferenciar
entre "gato" e "cachorro". É muito neurônio para apenas duas
categorias! Parece até uma insensatez ter tantos neurônios
dedicados a uma classificação tão trivial. O que sobraria então para
outras classificações, se essa região do cérebro for a única
encarregada da categorização?

A resposta mais simples, mas que por enquanto é especulação, é


que cada neurônio tem sua preferência em mais de uma categoria
ao mesmo tempo. Para ver se é o caso, será preciso fazer
experimentos semelhantes analisando a resposta de cada neurônio
para várias categorizações diferentes. Algo como "Felino e/ou
Comestível e/ou Sobe-em-árvores", ou "Macaco-muito-maior-do-
que-eu e/ou Dá-dor-de-barriga e/ou Serve-para-tirar-formigas-do-
formigueiro", no caso dos macacos. Ou no caso dos nossos
pequenos anjinhos, "Au-au e/ou Aqui-eu-posso-desenhar e/ou
Mamãe-vai-brigar-se-eu-botar-na-boca"... (SHH)

Fonte:
Freedman DJ, Riesenhuber M, Poggio T, Miller EK (2001).
Categorical representation of visual stimuli in the primate prefrontal
cortex. Science 291, 312-315.

Copyright © 2007, Suzana Herculano-Houzel. All rights reserved.

Fonte:
http://www.cerebronosso.bio.br/ces-gatos-e-lebres/

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Site: O Cérebro Nosso de Cada Dia
http://www.cerebronosso.bio.br/welcome/

Livros publicados: SHH

 neurocientista: SUZANA HERCULANO-HOUZEL

• Fique de bem com o seu cérebro (2007)


• Por que o bocejo é contagioso? (2007)
• O Cérebro em Transformação (2005)
• Sexo, Drogas, Rock'n'Roll & Chocolate (2003)
• O Cérebro Nosso de Cada Dia (2002)

Fique de bem com seu cérebro

Suzana Herculano-Houzel

Editora Sextante, 2007

208 p., R$ 19,90

Este livro foi escrito para quem deseja alcançar o bem-estar e torná-lo algo cada
vez mais intenso e freqüente em sua vida. Suzana Herculano-Houzel mostra o
melhor caminho para a conquista desse objetivo: ficar de bem com o próprio
cérebro, isto é, cuidar para que ele funcione da melhor maneira possível − sempre.

Aqui você conhecerá uma série de descobertas recentes da neurociência e saberá


de que modo elas podem ajudar você a manter o cérebro saudável. Com um texto
claro e cativante, a autora apresenta uma abordagem prática desse assunto, com
dicas que estimularão você a arregaçar as mangas e se dedicar a obter mais paz e
felicidade no dia-a-dia.

Cada um dos 15 capítulos deste livro contém informações a respeito de um aspecto


relacionado ao bem-estar. Entre outras coisas, você aprenderá que é essencial:
- Cuidar bem da sua saúde física − o cérebro precisa do corpo.

- Identificar e cultivar os seus prazeres − eles são a base do bem-estar.

- Ouvir as suas emoções − elas são imprescindíveis para as boas decisões.

- Sorrir e buscar a felicidade − ela torna o corpo mais saudável.

- Saber a diferença entre tristeza e depressão − para respeitar a primeira e


tratar a segunda.

- Tirar proveito do estresse agudo − é surpreendente, mas ele tem efeitos


benéficos.

- Lidar com a ansiedade − em doses saudáveis, ela é uma benção.

- Fazer as pazes com os remédios − às vezes os medicamentos são realmente


necessários.

- Combater o estresse crônico − um vilão causador de muitos males físicos e


mentais.

- Exercitar-se regularmente − isso pode funcionar como um "exilir da


juventude".

- Dormir bem e bastante − descubra a importância das sonecas para o cérebro.

- Cultivar os relacionamentos − o isolamento é um fator intenso de estresse


social.

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Por que o bocejo é contagioso?

e outras curiosidades da neurociência do cotidiano

Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007

Há perguntas que nós fazemos todos os dias e, mesmo assim, nunca conseguimos
responder: por que sentimos medo de filmes de terror? Por que suamos frio? Por que
comer chocolate é tão bom? Por que fui contar aquele segredo? O que não desconfiamos
é que as respostas para todas estas questões estão na neurociência.
Em Por que o Bocejo é Contagioso?, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel
responde a 80 dessas perguntas que tanto nos intrigam no cotidiano. Tudo isso de um
modo simples, fácil de entender e, ao mesmo tempo, de acordo com as pesquisas mais
recentes em sua área. A publicação inaugura ainda a série Ciência da Vida Comum,
nova coleção de divulgação científica da Zahar, que apresenta para o leitor as aplicações
da ciência e da tecnologia em nossas vidas cotidianas.

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Cérebro em Transformação

Ed. Objetiva, 2005.

Cabeça de adolescente é um mistério: tédio, paixão, bobeira, ansiedade, e muita, muita


irresponsabilidade. Em O Cérebro em Transformação, da neurocientista Suzana
Herculano Houzel, você vai descobrir que nem só de hormônio vive a adolescência. Na
verdade, tudo o que ocorre entre os 11 e os 18 anos é fruto de uma grande revolução
química e neurológica. Daí as súbitas mudanças de humor, as inúmeras questões, a
insegurança.

Numa abordagem original, Suzana Herculano revela que a adolescência é um período


necessário e desejável da vida. O que acontece então na cabeça do adolescente é muito
mais do que uma simples enxurrada hormonal. Seu comportamento é fruto de um
cérebro adolescente, que passa por uma grande reformulação.

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Sexo, Drogas, Rock'n'Roll... & Chocolate


O Cérebro e os prazeres da vida cotidiana

Vieira & Lent Casa Editorial, Rio de Janeiro, 2003. 2a edição.

O que nos faz querer mais? Por que tudo o que envolve sexo, música, comida e drogas
dá prazer? O que todos os prazeres cotidianos têm em comum? Respostas a essas e
outras perguntas você encontra neste livro, escrito em linguagem acessível e bem-
humorada.

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O Cérebro Nosso de Cada Dia

Descobertas da neurociência sobre a vida cotidiana

Vieira & Lent Casa Editorial, Rio de Janeiro, 2002. 8a edição.

A neurociência é o conjunto de áreas da ciência que se interessam pelo sistema nervoso:


como ele funciona, se desenvolve, evolui, é alterado por substâncias químicas, e como
resultado disso tudo produz a mente e os comportamentos. Neste, que foi o primeiro
livro da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, você descobre como a neurociência
explica vários aspectos da vida cotidiana, da dificuldade de lembrar dos sonhos às
vantagens cognitivas das mães, passando pela razão da falta de originalidade da ficção
científica e pela descoberta intrigante das falsas memórias. Um livro escrito em
linguagem ágil, acessível e bem-humorada, para o leitor não-especialista curioso com o
que traz dentro da própria cabeça.