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PARA ACALMAR O HIPOCAMPO

04-05-2007

Neurociência –

Suzana Herculano-Houzel

Para acalmar o hipocampo

Escrever a coluna, corrigir provas, entregar o relatório, ligar para o


pedreiro que não apareceu, responder aos e-mails acumulados,
usar o microscópio, pagar contas, ir à reunião, buscar as crianças
na hora. A agenda de um único dia da vida moderna é atribulada, e
a lista precisaria ficar embaixo dos olhos o tempo todo para
assegurar o cumprimento de todas as tarefas na ordem certa se
não fosse por nossa própria agenda embutida: uma parte do
cérebro chamada hipocampo.

Tradicionalmente considerado a porta de entrada das memórias que


podemos expressar em palavras, o hipocampo mostrou, no final dos
anos 1990, que também é um alvo-chave para os ansiolíticos. O
que tem a memória recente a ver com a ansiedade? Lembre-se de
que essa memória é a base das projeções para o futuro próximo,
some isso aos resultados de uma década de pesquisas sobre o
hipocampo como inusitado controlador das respostas ao estresse e
você terá a resposta. Que, aliás, eu senti na pele há algumas
semanas, quando uma lista enorme de coisas por fazer -boas,
imagine- me deixou com a cabeça tão acesa que eu não conseguia
adormecer, apesar de precisar tanto dormir que até os olhos doíam.

Se as agendas eletrônicas levam sobre as de papel a vantagem de


soar um alarme quando os prazos se aproximam, a agenda do
hipocampo é ainda melhor. Além de guardar a lista de tarefas do
momento e do futuro próximo e manter o resto do cérebro ciente
delas, o hipocampo faz alarmes tocarem diretamente nas estruturas
que nos deixam atentos e alertas, prontos para a ação -e tensos
enquanto o assunto não for resolvido. Assim, ele garante que as
tarefas receberão sua atenção, sobretudo as mais prementes, que
provocarem no cérebro as respostas mais intensas de estresse
antecipado -ou seja, ansiedade.

Cumprir as tarefas, lógico, é a maneira garantida de desligar os


alarmes. Mas, enquanto isso não for possível, a neurociência
oferece alguns jeitos para evitar os problemas trazidos pela
ansiedade -além dos ansiolíticos, claro. Diversões como um filme
envolvente forçam o hipocampo a mudar de assunto, ao menos por
duas horas; exercício físico freqüente, carinho e sono suficiente
fazem o alarme hipocampal tocar mais baixo.

Juntar tudo é melhor ainda. Ao me encontrar insone e agitada no


sofá, vendo um filme e quase apelando para um "rivotrilzinho", meu
marido, meu melhor ansiolítico, me botou na cama e me fez cafuné
até eu adormecer. Dormi 14 horas. Foi tão bom...
SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da
UFRJ e autora de "O Cérebro Nosso de Cada Dia" (ed. Vieira &
Lent) e de "O Cérebro em Transformação" (ed. Objetiva)
suzanahh@folhasp.com.br

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2604200707.htm

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