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1- Introdução à Patologia Florestal

1.1 Fitopatologia x perdas

O desenvolvimento da Fitopatologia como ciência data de período relativamente curto


(considera-se a partir de 1853, quando De Bary comprovou a natureza parasitária das doenças
de plantas, estabelecendo a Fitopatologia como ciência. Entretanto, o relato de doenças em
plantas é bastante antigo. Desde que o homem passou a fixar-se e desenvolver a agricultura
como forma de obter alimentos para sua sobrevivência, passou também a enfrentar problemas
relacionados a perdas completas de plantações por questões de doenças e pragas.
A Patologia Florestal é a mesma ciência que a Fitopatologia, porém voltada para as
espécies de interesse florestal, seja este por espécies plantadas ou espécies existentes em
florestas naturais.
O Setor Florestal Brasileiro conta com, aproximadamente, 530 milhões de hectares de
florestas nativas, 43,5 milhões de hectares em Unidades de Conservação Federal e 4,8 milhões
de hectares de florestas plantadas com pinus, eucalipto e acácia-negra.
As doenças florestais são responsáveis, em parte, pela diminuição da produtividade dos
plantios comerciais brasileiros. Até o momento, as doenças registradas em plantios e
povoamentos florestais têm sido provocadas principalmente por fungos, com alguns registros de
ocorrência de bactérias e sem registros concretos da ação de vírus ou outros microrganismos.
O eucalipto, que é a principal espécie de exploração florestal no Brasil, pode ser atacado
por vários patógenos, principalmente fungos, desde mudas até árvores adultas. As doenças
causam significativos impactos econômicos, de acordo com a espécie atacada e da época do
ano. As principais doenças que ocorrem nos eucaliptos são: tombamento, podridão de raízes,
mofo cinzento, podridão de estacas, oídio, murcha bacteriana, enfermidade rosada ou rubelose,
cancro, ferrugem, murcha de cilindrocladium, podridão do cerne, doenças foliares e complexos
etiológicos (possuem sintomas de doenças, mais tem origens diversas), como a seca de
ponteiros do vale do rio doce (SPEVRD), seca de ponteiros de arapoti (SPEA), seca de ponteiros
por falta de boro e seca da saia do Eucalyptus viminalis.
Existe um grande número de doenças abióticas (muitas vezes referidas como injúria) e
que decorrem de intempéries, condições inadequadas de manejo ou ação momentânea de
fatores adversos (físicos e, ou, químicos). Entre os principais agentes abióticos, observa-se:
déficit hídrico, umidade excessiva do solo ou substrato, temperaturas extremas (calor ou geada),
granizo, toxidade causada por fertilizantes e, ou, agrotóxicos, deficiências nutricionais, vento, fogo
e luminosidade inadequada. Durante ou após a ação do fator adverso, as árvores podem tornar-
se suscetíveis à infecção de patógenos secundários.
Seja qual for o problema, a prescrição de medidas de controle eficientes depende da
correto e completo diagnóstico do agente causal.
Outro aspecto importante a ser ressaltado é que a implementação de uma medida de
controle precisa ser balizada entre sua viabilidade técnica e a econômica. Por vezes, a medida
mais eficiente e econômica pode provocar impactos ambientais indesejáveis, como por exemplo a
contaminação ambiental por agrotóxico.

1.2 Perdas

No setor setor florestal podem ocorrer grandes perdas ocasionadas por doenças. Estima-
se que as doenças reduzem em até 60% a produção de eucalipto. Atualmente no Brasil, uma das
piores é a murcha de ceratocistis causada pelo fungo Ceratocystis fimbriata que está atacando de
Norte a Sul do país. A redução de produtividade é de cerca de 58% e além de diminuir
produtividade, afeta a madeira reduzindo a produção de celulose entre 10% a 14%. Outra grave

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doença no campo e viveiro é a murcha bacteriana, causada pela bactéria Ralstonia solanacearum
que tem sido constatada em plantios realizados em áreas recém-desmatadas e resultaram em até
25% de mortalidade. Em 1987, cerca de um milhão de mudas de eucalipto foram dizimadas pela
doença em Monte Dourado (PA).
Quando se discutem perdas, o primeiro pensamento dirige-se às perdas causadas na
produção. É importante, porém, mencionar que na classificação de perdas devem ser
consideradas aquelas de níveis econômico e social.
Verifica-se que os danos causados pelos patógenos são bastante diversos e
significativos, permitindo a separação destes em vários níveis.
Dano potencial se refere ao dano que pode ocorrer na ausência de medidas de controle,
enquanto dano real se refere ao dano que já ocorreu ou que ainda está ocorrendo e divide-se em
dois grupos: dano indireto e dano direto. Danos indiretos compreendem os efeitos econômicos e
sociais das doenças de plantas que estão além do impacto agronômico imediato, podendo
ocasionar danos ao nível do produtor, da comunidade rural, do consumidor, do Estado e do
ambiente. Danos diretos são os que incidem na quantidade ou qualidade do produto ou, ainda,
na capacidade futura de produção, dividindo-se em dois grupos: danos primários e danos
secundários. Danos primários são os danos de pré e pós-colheita de produtos vegetais devidos
às doenças. Esses danos podem ser na quantidade ou na qualidade do produto, fatores que tem
importância variável dependendo do tipo de produto e do poder de compra dos consumidores.
Devem ser incluídos também os prejuízos representados pelos custos do controle das doenças e
pela necessidade, em algumas situações, do plantio de culturas ou variedades menos rentáveis.
Danos secundários são os danos na capacidade futura de produção causadas pelas doenças,
sendo comuns quando o patógeno é veiculado pelo solo ou disseminado por órgãos de
propagação vegetativa de seu hospedeiro. Exemplos destes vários tipos de perdas são
representados na Tabela 1.1.

Tabela 1.1 - Tipos de perdas ocasionadas por doenças de plantas


Perdas diretas Perdas indiretas
(setores atingidos pela
Perdas primárias Perdas secundárias
ocorrência de doenças)
• Propriedades agrícolas
• Quantidade • Contaminação do material de
plantio • Comunidades
• Qualidade
• Infestação do solo • Comerciantes e
• Custo de controle exportadores
(monitoramento) • Custo de controle (próximos
plantios) • Consumidores
• Custo extra para
colheita, seleção, • Enfraquecimento de plantas • Governo
etc perenes
• Ambiente

É fundamental reduzir todos os tipos de perdas decorrentes das doenças. Para isso, entre
as atividades inerentes à agricultura, são indispensáveis os princípios fitopatológicos. Para que
estes princípios sejam aplicados com sucesso, faz-se necessário o conhecimento do complexo da
doença-planta, conhecimento este encampado em Patologia Florestal. Serão discutidos aspectos
conceituais básicos e aplicados, visando, em última análise, ao manejo de doenças de plantas.

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2 - DEFINIÇÕES E HISTÓRIA DA FITOPATOLOGIA

2.1 Definições: Fitopatologia, Doença e Sintomas

Fitopatologia é uma palavra de origem grega (phyton = planta, vegetal; pathos = doença e
logos = estudo, tratado) e indica a ciência que estuda as doenças das plantas, abrangendo todos
os seus aspectos, desde a diagnose, sintomatologia, etiologia, epidemiologia, até o seu controle.
Como definir doenças de plantas? O conceito de doenças de plantas é controvertido e,
praticamente, não há consenso quanto à sua definição. Algumas definições clássicas,
encontradas na literatura, servem para ilustrar a imprecisão do conceito de doença de planta,
entre as quais destacamos:
Kühn (1858): “As doenças de plantas devem ser atribuídas a mudanças anormais nos seus
processos fisiológicos, decorrentes de distúrbios na atividade normal de seus órgãos”.
Whetzel (1935) Um processo biológico contínuo onde ocorre interferência em processos
fisiológicos da planta, levando-a a um desempenho anormal e prejudicial em suas funções vitais,
causado por um agente infeccioso em uma relação de parasitismo.
Gaümann (1946): “Doença de planta é um processo dinâmico, no qual hospedeiro e
patógeno, em íntima relação com o ambiente, se influenciam mutuamente, do que resultam
modificações morfológicas e fisiológicas ”.
Walker (1950): “Plantas doentes são caracterizadas por mudanças na sua estrutura ou
processos fisiológicos acarretadas por ambiente desfavorável ou por algum agente parasitário”.
Stakman & Harrar (1957): “Doença de planta é uma desordem fisiológica ou anormalidade
estrutural deletéria à planta ou para alguma de suas partes ou produtos, ou que reduza seu valor
econômico”.
Horsfall & Diamond (1959): “Doença não é uma condição (...). Condição é um complexo de
sintomas (...). Doença não é o patógeno (...).Doença não é o mesmo que injúria (...). Doença
resulta de irritação contínua e injúria de irritação momentânea (...). Doença é um processo de mal
funcionamento que resulta em algum sofrimento para a planta”.
Agrios (1988) Qualquer mal funcionamento de tecidos do hospedeiro causada pela irritação
contínua por um agente patogênico ou fator ambiental e que resulta no desenvolvimento de
sintomas.
Um ponto importante em algumas definições – “irritação contínua” – é comumente utilizado
para distinguir doença (causada por um agente patogênico) e injúria (causada por insetos ou
ferimentos mecânicos, por exemplo).
Na caracterização de doenças, os sintomas são muito importantes. Plantas doentes
apresentam sintomas e, comumente, sinais.
Considera-se sintoma a expressão ou manifestação visual de uma anormalidade fisiológica
ou morfológica de uma planta (hospedeiro) resultante de uma doença. Os sintomas podem ser
internos ou externos e macroscópicos ou microscópicos. Sinais também são observados em
muitas doenças, eles são quaisquer estruturas ou partes do patógeno presentes no tecido
doente. Os mais comuns incluem estruturas vegetativas e reprodutivas de patógenos, como
micélio, esporos, corpos de frutificação (picnídios, peritécios), cistos de nematoides, etc. O estudo
do conjunto composto de sintomas e sinais é denominado sintomatologia.
• Patógeno = agente biótico ou infeccioso: Qualquer organismo ou unidade biológica capaz de
multiplicar-se na planta, de modo a causar doença. Podem ser fungos, bactérias, nematóides,
vírus, micoplasmas, espiroplasmas, protozoários ou plantas parasíticas
• Hospedeiro: Planta que é atacada por um patógeno, em uma relação de parasitismo
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2.2 Sintomas comuns associados a doenças de plantas
(veja também livro Clonagem e doenças do eucalipto)
Anasarca - extravasamento de conteúdo celular, que resulta em áreas de aspecto encharcado

Cancro - lesões necróticas, formando depressões nos tecidos corticais dos caules, tubérculos e
raízes.

Clorose – ausência parcial ou total da coloração verde normal. Os órgãos afetados podem se
tornar verde-amarelos, amarelados ou mesmo esbranquiçados.

Galha – desenvolvimento anormal de tecidos resultantes da hipertrofia (supercrescimento de


células) e, ou, hiperplasia (multiplicação excessiva de células).

Gomose – exsudação de goma a partir de lesões, principalmente em caules ou frutos.

Mancha – mais comum em folhas, mas também pode ocorrer flores, frutos ou ramos; resulta da
morte dos tecidos, que tornam secos e pardos. Dependendo da doença, as manchas foliares têm
formas variadas, podendo ser irregulares, angulares, circulares etc

Mosaico – áreas cloróticas intercaladas com áreas de verde mais escuro, observadas
principalmente em folhas.

Murcha – perda de turgescência de folhas, pecíolos e hastes suculentas, decorrente da


obstrução do sistema vascular ou destruição do sistema radicular.

Necrose – escurecimento de tecido resultante da morte ou desintegração de células.

Podridão – morte e desintegração de tecidos, decorrentes da atividade enzimática de


fitopatógenos; as podridões podem ser adjetivadas como úmidas, secas, firmes, brancas,
marrons, etc.

Pústula – pequena mancha necrótica (geralmente menor do que 1 cm), com elevação da
epiderme, que se rompe por força da produção e exposição de esporos fúngicos.

Requeima ou crestamento – necrose repentina de órgãos aéreos (folhas, flores e brotações).

Tombamento (ou “damping- off”) – tombamento e morte de mudas, resultante de podridão dos
tecidos tenros da base se seu caulículo. Se a podridão ocorrer antes da emergência da planta,
havendo redução no estande de semeadura, diz-se que houve “tombamento em pré-
emergência”.

Verrugose – crescimento excessivo de tecidos epidérmicos e corticais, geralmente modificados


pela ruptura e suberificação das paredes celulares, originando lesões salientes e ásperas, em
frutos, tubérculos e folhas.

2.3 HISTÓRIA DA FITOPATOLOGIA

Doenças em plantas são observadas desde a Antiguidade. A partir do momento em que o


homem começou a cultivar as plantas, transferindo-as do seu ambiente natural para o de cultivo,
as perdas decorrentes de doenças tornaram-se mais expressivas. Na Bíblia, há relatos ocorrência
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de epidemias de ferrugens e carvões em cereais e de doenças de videira. Naquela época, as
doenças eram atribuídas a causas divinas e, em muitos casos, considerados como castigo.
Segundo Singh (1978), há vários relatos sobre doenças de plantas registrados na Índia, por volta
de 1500 a.C. O filósofo grego Teofrasto (~ 350 a C.) foi o primeiro ocidental a estudar as doenças
de plantas, atribuindo-as a causas siderais. Por volta de 23 a 79 d.C., Plínio, o velho, escreveu o
livro “História Natural”, em que há relatos de ocorrências de ferrugem em trigo e outros cereais.
Os romanos consideravam as doenças um castigo enviado pelo deus Robigo. Para aplacar a sua
fúria, era preciso sacrificar cães de cor vermelha durante o festival realizado após a colheita – a
Robigália (AGRIOS, 2005).
Na idade Média, no século XII, os árabes que ocupavam a Espanha já conheciam fatos
sobre doenças de plantas e os registraram na literatura. O principal compilador desse
conhecimento foi Ibn al-Awam de Sevilha. Na sua obra, em que já se discutia sobre o controle de
doenças, substâncias como vinagre, urina e cinzas eram recomendadas para controle de
doenças em fruteiras e videiras (ORLOB, 1971).
Do século XV ao XIX, nos países da Europa, ocorreram várias epidemias da doença
denominada esporão do centeio, causada pelo fungo Claviceps purpúrea ,o qual forma seus
escleródios do patógeno, ricos em alcalóides, causa a doença conhecida como ergotismo, cujos
sintomas são necrose nas extremidades do corpo (orelha, nariz, dedos), loucura, aborto e morte.
O grande misticismo aliado à teória da abiogênese que imperava naquela época impediu, em
parte, maior conhecimento científico sobre doenças.
Um evento que contribui para o avanço da Fitopatologia foi a invenção do microscópio por
Van Leeuwenhoek, em 1663. Dois anos mais tarde, Robert Hoooke publicou a primeira figura de
um fungo, supostamente teliósporos de uma espécie de (ferrugem) Phragmidium, mas não
reconheceu sua natureza ou função (ZADOKS; KOSTER, 1976).
Em 1729, Micheli observou que “partículas de pó preto”, tiradas de material afetado e
transferido para fatias de melão, reproduziram o pó preto. Posteriormente, descobriu-se que o “pó
preto tratava-se de possíveis estruturas fúngicas, do gênero Aspergillus ou Mucor.
Em 1755, Tillet conseguiu transmitir a doença fúngica denominada cárie do trigo, de
sementes de trigo infectadas para sementes sadias. Contudo, ele achava tratar-se de uma toxina
ou substância venenosa existente no “pó preto”.
Os italianos Fontana e Tozzetti, em estudos independentes em 1767, estavam
convencidos da natureza parasitária da ferrugem do trigo. A comprovação de que um fungo
poderia causar a doença veio apenas em 1807, quando o suíço Prévost provocou
conclusivamente que a cárie do trigo era provocada por um fungo (Tilletia caries), estudando os
esporos, sua produção e germinação. Conseguiu, inclusive, controlar a doença, ao imergir
sementes de trigo em solução de sulfato de cobre. Entretanto, foi, veementemente, combatido
pela teoria da geração espontânea.
Um marco importante na história, que muito contribui para a Fitopatologia e outras áreas
afins, foi a derrubada da teoria da geração espontânea ou da abiogênese, por Pasteur, em 1864.
A partir de então, estudos comprovando associação de organismos com doenças puderam ser
conduzidos em maior intensidade.
Até então, a Fitopatologia ainda não estava estruturada como ciência. Porém, com a
epidemia de requeima da batata em 1845, na Irlanda, passou-se a dedicar mais atenção às
doenças de plantas, o que levou à estruturação da Fitopatologia como ciência. Em 1861, o
cientista alemão Anton De Bary (considerado por muitos o pai da fitopatologia) provou
experimentalmente que Phytophthora infestans era o agente causal da requeima. Além desse
trabalho, este autor contribui de maneira significativa par o estudo de outras doenças de plantas.

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2.4 HISTÓRIA DA PATOLOGIA FLORESTAL NO BRASIL
Enquanto 1874 é considerado o marco inicial da Patologia Florestal no mundo, com os
trabalhos do pai desta especialidade, o alemão Robert Hartig, estabelecendo a associação do
apodrecimento da árvore com a presença de estrutura fúngica, o início das atividades de
Patologia Florestal no Brasil deu-se na década de 1960. Nessa época, o serviço Florestal do
estado de São Paulo contava com a pesquisadora Luiza Cardoso May como responsável pelo
problemas de Patologia Florestal. L.C. May publicou revisões de leitura sobre doenças de Pinus
ssp., dando ênfase àquelas que já ocorriam no Sudeste e no Sul do Brasil, com informações
sobre a distribuição, importância, sintomatologia e tecendo comentários sobre a situação dessas
doenças em nosso País, na ocasião. Em várias de suas publicações, procurou alertar o público
para o perigo de se introduzir no Brasil doenças importantes de Pinus ssp., a partir de outros
países. Esses trabalhos de L.C May encontram-se publicados principalmente na revista
Silvicultura em São Paulo, no período de 1962 a 1967. Em décadas anteriores, a Patologia
Florestal brasileira contou com contribuições, esporádicas, de fitopatologistas do setor agrícola.
Micologistas brasileiros como A. P Viegas e A. Chaves Batista descreveram muitos fungos
patógenos em essências florestais nativas.
A primeira instituição de ensino no Brasil a tratar de Patologia Florestal como área de
Engenharia Florestal e especialidade de Fitopatologia de maneira efetiva, foi a Universidade
Federal de Viçosa. Dentre as escolas de Florestas mais antigas do País a da UFV sempre
contou, desde a sua criação, com um ou mais profissionais com dedicação exclusiva ao ensino,
pesquisa e extensão nessa área. Uma grande contribuição para a área foi o estabelecimento do
Setor de Patologia Florestal, do PRODEPEF, do convênio FAO/IBDF, em Viçosa, MG, e tinha
basicamente os seguintes objetivos:
a) Realizar levantamentos de doenças florestais no País.
b) Iniciar programas de pesquisas sobre as doenças florestais selecionadas como
economicamente mais importantes;
c) Treinar pessoal técnico, ou, em outras palavras, criar patologistas florestais, a curto
prazo, para dar continuidade as pesquisas iniciadas.
A liderança técnica desse Setor, de 1973 a 1976, ficou a cargo do perito da FAO em
Patologia Florestal, o americano Charles S. Hodges, a quem a Patologia Florestal brasileira deve
muito pelo conhecimento e entusiasmo sobre a área que conseguiu transmitir a Francisco Alves
Ferreira e Acelino Couto Alfenas, engenheiros Florestais contratados em 1974 e 1975 para se
tornarem patologista florestais, como mencionado acima. Os objetivos, há pouco abordados,
foram cumpridos, e, na atualidade, A. C. Alfenas atua como professor de Patologia Florestal na
UFV, onde, além das atividade de didáticas, pesquisa e extensão na área, dedica-se à formação
de patologistas florestais a nível de pós-graduação.
Outra instituição brasileira com setor de Patologia Florestal idôneo é a Escola Superior de
Agricultura Luiz Queiroz - ESALQ, em Piracicaba, SP. Até os ano 90, essa instituição e a UFV
eram os dois únicos centros de ensino que abrigam setores destinados a treinamento de
patologistas florestais no Brasil, a nível de pós-graduação.
Nesse histórico de Patologia Florestal no Brasil não inclui o desenvolvimento de estudos
sobre doenças da seringueira. O estudo dessas doenças teve início em 1940, no Instituto
Agronômico do Norte, desvinculado do rótulo de estudo de doenças florestais e do objetivo
filosófico de desenvolvimento da Patologia Florestal brasileira, mas hoje as doenças da
seringueira é um rico acervo didático-científico desta área.
A Patologia Florestal brasileira, até o momento, encontra-se voltada totalmente para as
doenças fúngicas. A falta de estudos sobre as doenças florestais no Brasil, causadas por
nematoides, bactérias, vírus, viroides, micoplasmas, espiroplasmas e outro agentes
fitopatogênicos é creditada por F. A. Ferreira (1989) à escassez de patologistas florestais.
Existem, hoje, 56 cursos de Engenharia Florestal no Brasil, onde existe, ao menos, um
docente envolvido com a Patologia Florestal, porém apenas cinco instituições oferecem pós-
graduação em Fitopatologia, e nem todas tem linha de pesquisa em Patologia Florestal.
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2.5 EXEMPLOS DE DOENÇAS IMPORTANTES
Há vários de doenças que ocorreram em diferentes lugares do mundo e causaram perdas
vultosas. Serão comentadas algumas que tiveram ou têm reflexos sobre a agricultura.

Requeima da Batateira (causada por Phytophthora infestans)


No século XIX, nos países da Europa, a batata era alimento importante. Na Irlanda,
cultivavam-se grandes áreas com batata, e este tubérculo constituía a base alimentar das famílias
irlandesas de baixa renda. Entretanto, em 1845 e 1846 ocorreram perdas expressivas na
produção de batata, em conseqüência de epidemias severas da requeima ou mela. Em vista da
severidade da doença e da escassez de alimentos, estima-se que 50 irlandeses morreram por dia
e ocorreu expressiva migração para os Estados Unidos. Aproximadamente, dois milhões de
pessoas morreram ou emigraram. Ainda hoje, a requeima constitui sério problema para
produtores de batata e de tomate em todo o mundo.

Murcha-Bacteriana (causada por Ralstonia solanacearum)


A murcha-bacteriana é doença causada por Ralstonia solanacearum, bactéria comumente
encontrada em solos de regiões tropicais e subtropicais. O patógeno pode infectar mais de 200
espécies de plantas distribuídas em mais de 50 famílias botânicas. Quando infecta um hospedeiro
suscetível, causa murcha irreversível da planta e perda total. No Brasil, entre os hospedeiros de
importância econômica mais afetados citam-se batateira, tomateiro, bananeira, cucurbitáceas e
eucalipto. O controle da doença é muito difícil.

Cantro-Cítrico (causado por Xanthomonas axonopodis pv. citri)


A doença existia no Japão e Sudoeste asiático e provavelmente foi introduzida no Brasil
por meio de imigrantes. Em 1957, foi constatada na região de Presidente Prudente, SP. Como a
bactéria havia sido erradicada da Flórida (EUA), pela eliminação de plantas doentes, esta técnica
foi implementada no Brasil. De 1957 a 1959, aproximadamente dois milhões de árvores foram
destruídas em São Paulo. A campanha de erradicação do cancro cítrico continua até hoje e,
anualmente, consome milhões de reais. Entretanto sendo um dos fatores responsáveis pelas
quedas de safra de citros no País.

“Greening”ou Huanglongbing dos citros (causada por Candidatus liberibacter)


Em 2004, contatou-se a doença “greening” (ou huanglongbing), causada por duas
subespécies da bactéria Candidatus Liberibacter, em pomares citrícolas de São Paulo.
Atualmente, a doença está disseminada em várias regiões produtoras do Estado. Segundo
referências da literatura, o “greening” pode afetar todas as espécies e variedades cítricas. Ainda
não se tem idéia das perdas ocasionadas pela doença no Brasil, mas ela preocupa os
citricultores, pois foi altamente destrutiva em países asiáticos e africanos (FERNANDES,2005;
LOPES,2005)

Meloidoginose do cafeeiro (Meloidogyne exígua)


Este nematóide tem importância história, pois o gênero Meloidogyne foi criado por Goeldi
no Brasil, em 1887, a partir de raízes de cafeeiros parasitadas pelo patógeno. Atualmente, M.
exígua está bastante disseminado no País, ocorrendo em todas as regiões cafeeiras do Brasil,
principalmente nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo e
Bahia. Em algumas dessas regiões, é problema sério na cultura do café.

Tristeza dos citros (causada pelo closterovirus Citrus tristeza vírus CVT)
Essa doença originou-se na África do Sul e foi constatada em 1930 na Argentina e
Uruguai. Em 1937, foi encontrada no Vale do Paraíba, SP, e, em menos de 10 anos, destruiu
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aproximadamente cerca de nove milhões de árvores cítricas no Estado de São Paulo. Fato
importante relacionado a essa doença foi o desenvolvimento de controle por meio de “proteção
cruzada”, que consiste em utilizar estirpes fracas do vírus para proteger plantas da infecção por
estirpes fortes.

Míldio da videira (causado por Plasmopara viticola)


Em 1878, viticultores europeus importaram dos Estados Unidos material de videira
resistente ao pulgão de raízes (Phylloxera SP.), praga que estava causando perdas severas nos
vinhedos. O material americano era resistente ao pulgão e ao míldio, o material introduziu
esporos de P. viticola, o que foi catastrófico, pois todas as variedades de videira plantadas na
França naquela época eram altamente suscetíveis à doença.
Em 1882, acidentalmente, Alexis Milladert, que trabalhava em Bordeaux, França, constatou
que parreiras de uva sobre as quais aplicara-se mistura de sulfato de cobre adicionada a cal
tinham menor intensidade de doença. Continuou os estudos e, em 1885, descobriu a Calda
Bordalesa (mistura de sulfato de cobre e cal) para controle de doenças de plantas. Este fungicida,
empregado até hoje, incrementou o uso de controle químico de doenças.

Ferrugem do eucalipto (causada por Puccinia psidii)


A ferrugem é considerada uma das doenças mais severas na cultura do eucalipto no Brasil, pois
se desenvolve em climas mais frios e úmidos, com temperaturas entre 15°C e 20°C,
características típicas das florestas plantadas no Sudeste e Sul do Brasil. Ataca apenas plantas
jovens, com menos de dois anos de idade, seja no viveiro ou no campo. O cultivo de eucalipto
sofre há anos com os prejuízos causados pela ferrugem (Puccinia psidii). As primeiras evidências
do fungo ocorreram em 1929 e atualmente é um dos principais responsáveis por resultados
negativos nas áreas de plantio da espécie, com perdas de até 27% no volume de madeira
produzido.

Mal-das-folhas da seringueira (causado por Microcyclus ulei)


A seringueira é originária da Região Amazônica. Até o início do século XX, a borracha era
obtida de forma extrativa de seringueiras dispersas ao longo da floresta. Nos anos 1920, a
companhia Ford decidiu instalar extensa monocultura de seringueira no Pará, em local
denominado Fordlândia, e em 1928, havia 3.500 ha de seringueira implantados. Entretanto, o
mal-das-folhas ocorreceu severamente e destruiu 25% dos seringais nos seis anos seguintes. Em
1934, o empreendimento foi abandonado. Neste mesmo ano, novo projeto foi implantado em
novo local (Belterra). Porém, em função do mal-das-folhas, desse plantio também foi abandonado
em 1945.
Hoje, procuram-se alternativas de manejo da doença. Entre essas, inclui-se a busca de
áreas-escape com condições de ambiente desfavoráveis ao protógeno. Normalmente, tais áreas
são distantes da Região Amazonica, centro de origem da seringueira.

Vassoura-de-Bruxa do Cacaueiro (causada por Crinipellis perniciosa)


Como o cacaueiro, a vassoura-de-bruxa é originária da Região Amazônica, de onde
disseminou para todos os países produtores da América Latina. Já se observaram perdas na
produção de até 90% em fazendas da Venezuela, Trinidade e Tobago e do Estado de Rondônia.
Até 1989, a doença não ocorria na Bahia, principal região produtora de cacau do Brasil, com
aproximadamente 700.000 ha contínuos de cacaus. Em 1989, ano de constatação da doença, o
volume exportado foi de 104 mil toneladas, enquanto em 1996 foi de apenas 31 mil. A epidemia
da vassoura-de-bruxa é severa hoje na Bahia e, além de consequências econômicas, ocasionou
sérios problemas sociais, como êxodo rural e desemprego, e ecológicos, como a destruição de
partes da Mata Atlântica.
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Cancro do eucalipto
O cancro do eucalipto causado pelo fungo Chrysoporthe cubensis é considerada uma das
doenças importantes para a cultura do eucalipto que levam a prejuízos quantitativos e
qualitativos, pois retarda o crescimento da planta, quebra de fuste pelo vento no local da lesão e a
sua madeira tem o valor para o uso da serraria afetado, além de baixo rendimento da celulose.
No Brasil, as principais áreas de ocorrência compreendem uma faixa que se estende desde a
região Amazônica, passando pela região costeira do Nordeste e do Espírito Santo, até os Estados
de Minas Gerais e São Paulo. O controle do cancro do eucalipto é exemplo mundial de sucesso
do uso do método de resistência de plantas para o efetivo controle de doença florestal no campo.
Esse controle tem sido feito com o plantio inicial ou de reposição florestal, com material
resistente, empregando-se mudas a partir de sementes ou de enraizamento de estacas
provenientes de matrizes selecionadas intra ou interpopulacionais. A seleção de eucalipto
resistente à doença tem reduzido grandes perdas nas plantações causadas por cancro. A
propagação clonal de genótipos resistentes forneceu um controle eficaz da doença no Brasil, e na
seleção de clone resistentes do híbrido baseados em Eucalyptus grandis e muitas outras
espécies para a África do Sul.

2.6 Considerações Finais


As dificuldades no diagnóstico de doenças fazem com que os profissionais – agrônomos e
engenheiros florestais, mais especificamente, fitopatologistas – tenham papel fundamental na
identificação correta do problema e na prescrição segura de medidas de controle. Com isso, mais
cultivos poderão ser produzidas com menores gastos e riscos ao ambiente.

Referências
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