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Fundamentos das Políticas Sociais

Autoria: Tatiana de Souza Fonseca

Tema 01
Estudo do Surgimento das Políticas Sociais
Tema 01
Estudo do Surgimento das Políticas Sociais
Autoria: Tatiana de Souza Fonseca
Como citar esse documento:
FONSECA, Tatiana de Souza. Fundamentos das Políticas Sociais. Estudo do Surgimento das Políticas Sociais. Caderno de Atividades.
Valinhos: Anhanguera Educacional, 2014.

Índice

CONVITEÀLEITURA PORDENTRODOTEMA
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© 2014 Anhanguera Educacional. Proibida a reprodução final ou parcial por qualquer meio de impressão, em forma idêntica, resumida ou modificada em língua
portuguesa ou qualquer outro idioma.
CONVITEÀLEITURA
As transformações sociais, econômicas e até mesmo culturais que ocorrem em cada época trazem à tona novas
necessidades que, por sua vez, determinam a criação de um conjunto de intervenções políticas, cujo objetivo maior seria
atender as demandas da sociedade. As políticas para a sociedade, ou “políticas sociais”, deverão ser implementadas
de acordo com as possibilidades que o Estado tem de atender às reivindicações da população, e também segundo a
ideologia política do governo e sua articulação com parceiros na esfera pública, privada, terceiro setor e sociedade civil.

Neste tema você terá um panorama do surgimento das políticas sociais a partir de uma perspectiva sócio-histórica,
analisando o contexto em que ocorreram as transformações sociais, econômicas e culturais que determinam novas
necessidades da sociedade contemporânea. Você também começará a ter contato com os principais modelos teóricos que
pretendem explicar o desenvolvimento das políticas sociais. A leitura atenta e a reflexão a partir das questões apresentadas
neste caderno são de importância crucial para que você compreenda as políticas sociais de forma mais ampla e tenha
condições de participar mais ativamente do debate que vem sendo travado em torno do futuro dessas políticas.

PORDENTRODOTEMA
Estudo do Surgimento das Políticas Sociais

Quando falamos de política, de um modo geral, é preciso ter em mente que estamos tratando de interesses de
grupos diversos que lutam pelo poder, buscando acesso a maiores possibilidades de realização desses interesses.
Nesse sentido, o contexto em que se desenvolvem as políticas sociais nunca é neutro, porque sempre será marcado
por interesses, conflitos e negociações entre os que reivindicam os direitos e aqueles que os concedem, entre os que
se beneficiam e os que são prejudicados, em suma, entre os dominantes e os dominados. Tal situação corresponde
à luta de classes, que na visão marxista é considerada o motor da história, ou seja, aquilo que desencadeia grandes
transformações na sociedade.

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PORDENTRODOTEMA
Historicamente, as políticas sociais surgiram como processo social com o advento do Capitalismo e da Revolução Francesa,
período em que se acirra a luta de classes, aumentando as demandas por direitos sociais. No final do século XIX, com a
emergência de movimentos de massa social-democratas e a organização dos Estados-nação na Europa ocidental, fica
mais evidente a necessidade de uma maior intervenção estatal. Porém, segundo as professoras Elaine Rossetti Behring e
Ivanete Boschetti (2011), é difícil indicar um período específico para o surgimento das primeiras iniciativas reconhecíveis
de políticas sociais, podendo ser situadas no pós-2ª Guerra Mundial (1945), quando se deu a passagem do capitalismo
concorrencial para o capitalismo monopolista, especialmente em sua fase tardia (BEHRING; BOSCHETTI, 2011, p.47).
Podemos dizer que as políticas sociais possuem um caráter redistributivo e exercem um importante papel na organização
e coesão de uma sociedade. Nas sociedades tradicionais, ou pré-capitalistas, elas se estabelecem como uma relação
de dependência ou tutela, na forma de caridade ou troca de benesses, seja na esfera privada (relação entre senhores
feudais e seus vassalos, filantropia) seja na esfera religiosa.
Ainda antes da Revolução Industrial surgiram as chamadas “leis inglesas”, voltadas para o controle dos trabalhadores,
tendo um caráter mais punitivo e repressivo do que protetor. Em resumo, aqueles que tivessem condições, eram obrigados
a trabalhar para se manterem, enquanto alguns selecionados, pobres merecedores (pessoas incapazes de trabalhar
e alguns adultos capazes, mas considerados pela moral da época como pobres merecedores, em geral nobres que
perderam suas riquezas), poderiam receber auxílio proveniente de algum tipo de assistência, devido à ideia de que era
um dever moral e cristão ajudar os necessitados. Muitos pobres eram forçados a trabalhar nas workhouses (casas de
trabalho), recebendo auxílios mínimos necessários à sua sobrevivência, ou seja, basicamente trabalhavam em troca de
comida.
Nesse contexto, apresentamos a seguir as principais leis que estabeleceram um “código coercitivo do trabalho” (POLANYI,
2000; CASTEL, 1998 apud BEHRING; BOSCHETTI, 2011, p.48):
• Estatuto dos trabalhadores, em 1349.

• Estatuto dos Artesãos (Artífices), em 1563.

• Lei dos pobres elisabetanas (Poor Law), entre 1531 e 1601.

• Lei de Domicílio (Settlement Act), em 1662.

• Speenhamland Act, em 1795.

• Lei Revisora da Lei dos Pobres, ou Nova Lei dos Pobres (Poor Law Amendment Act), em 1834.

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PORDENTRODOTEMA
Até 1795, as legislações promulgadas tinham como objetivo manter a ordem de castas e restringir a livre circulação do
trabalho, o que contribuiu para retardar a constituição de um mercado de trabalho livre. A Lei dos Pobres obrigava o
trabalhador a aceitar qualquer trabalho a qualquer preço, já a Lei de Speenhamland, apesar de permitir certa margem
de negociação, proibia a livre circulação de mão-de-obra em troca de um bônus, o que dificultava o crescimento de um
mercado de trabalho competitivo.

Porém, as necessidades do mercado mudaram após a Revolução Industrial com a Nova Lei dos Pobres (1834), cujo
objetivo era liberar mão-de-obra para a nova sociedade de mercado, mesmo que tivessem novamente que obrigar os
pobres capazes ao trabalho forçado, revogando todos os direitos estabelecidos pela Lei Speenhamland (BEHRING;
BOSCHETTI, 2011).

Nas sociedades industriais, o Estado liberal com suas intervenções mínimas aponta para uma nova organização social,
baseada no mercado de trabalho livre e competitivo, abandonando a pouca proteção social estabelecida pelas legislações
anteriores, submetendo o trabalho ao capital e criando uma situação de pobreza ainda mais intolerável.

Não obstante, essa situação de pobreza desencadeou lutas por melhores condições de trabalho, especialmente em favor
da redução da jornada de trabalho (reduzida para 10 horas diárias após um período de lutas em 1848, mas só estendida
a todos os trabalhadores após uma longa guerra civil que durou até o início do século XX), contra a exploração de mão-
de-obra de mulheres, crianças e idosos, forçando o surgimento de novas legislações que atendessem as reivindicações
de grupos organizados, como os sindicatos, por exemplo (BEHRING; BOSCHETTI, 2011).

Apesar disso, a concessão desses direitos também foi usada como elemento de manipulação e pacificação dos
trabalhadores, submetendo-os às necessidades do sistema produtivo, a quem não interessa acabar com a desigualdade
de classes (FLEURY, 2010).

Ainda assim, a luta da classe operária acabou fundamentando novas políticas sociais e a criação de padrões de proteção
social, ampliando os direitos civis, especialmente os que visavam garantir a propriedade privada, o direito à vida e à
segurança. Porém, até o final do século XIX, a resposta do Estado liberal às demandas dos trabalhadores continuou
sendo repressiva, de caráter tão restrito que não chegou ao cerne da questão social que se apresentava frente à
exploração capitalista.

Nem mesmo no Estado social, no pós-2ª Guerra, isso aconteceu, visto que na passagem de um Estado a outro não houve
uma ruptura severa com o Estado liberal, apesar de o novo Estado assumir um caráter mais social, com investimentos
em políticas sociais.

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PORDENTRODOTEMA
Não se trata, então, de estabelecer uma linha linear entre o Estado liberal e o Estado social, mas sim de chamar a
atenção para o fato de que ambos têm um ponto em comum: o reconhecimento de direitos sem colocar em xeque
os fundamentos do capitalismo. (PISÓN, 1998, apud BEHRING; BOSCHETTI, 2011, p.63)

Mesmo sem superar a exploração capitalista, a mobilização e a organização da classe trabalhadora foram responsáveis
por grandes conquistas, especialmente na dimensão dos direitos políticos, que são direitos coletivos, garantidos a todos,
independente de sua relação com a propriedade privada, como, por exemplo, o sufrágio universal, que ocorreu primeiro
na Europa, no início do século XX.

Outra grande conquista dos trabalhadores ocorreu em 1883, na Alemanha, quando a incapacidade de trabalhar foi
reconhecida como contingência (idade avançada, enfermidades, desemprego). Assim, surgiram as primeiras políticas
sociais orientadas pela lógica do seguro social (BEHRING; BOSCHETTI, 2011). Estamos no contexto do fortalecimento
de uma ideologia marcada pela social-democracia alemã no parlamento e nas lutas sociais, que procurava ampliar a
ideia de cidadania, focando em políticas sociais mais universais, e não apenas centradas em casos de pobreza extrema.

Nesse período, a Alemanha criou uma série de medidas assistencialistas, com o intuito de pacificar os trabalhadores
que se organizavam cada vez mais em movimentos grevistas. Visando desarticular a organização de uma poupança
mantida por trabalhadores, que tinha como objetivo a ajuda mútua em situações de crise, o governo do Chanceler Otto
Von Bismark criou um seguro nacional obrigatório em 1883, o que culminou em um modelo baseado em um sistema de
seguros sociais, tal como os seguros privados.

Ainda no século XIX, surgiram na França as primeiras intervenções estatais, chamadas pelos críticos liberais de Etat
Providence (Estado-providência). Os opositores dessas políticas consideravam que não era dever do Estado intervir
na “providência divina” (ROSAVALLON, 1986 apud BEHRING; BOSCHETTI, 2011). Para alguns autores franceses, o
marco desse Estado-providência será a aprovação da primeira lei cobrindo acidentes de trabalho, que se estende de
forma obrigatória a todos os trabalhadores.

É possível perceber que não existe uma padronização na criação das políticas sociais, porém Pierson (1991, p.110 apud
BEHRING; BOSCHETTI, 2011) identifica algumas iniciativas que confirmam a intervenção estatal no período conhecido
como liberalismo:

Entre 1883 e 1914, todos os países europeus implantaram um sistema estatal de compensação de renda para
os trabalhadores na forma de seguros. No mesmo período, 11 dos 13 países europeus introduziram seguro-
saúde e nove legislaram sobre pensão aos idosos. Em 1920, nove países tinham alguma forma de proteção ao
desempregado. (PIERSON apud BEHRING; BOSCHETTI, Ibidem, p.67)

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PORDENTRODOTEMA
O período de política liberal demonstra seu fracasso a partir da Grande Depressão (1929-1932), que pela primeira
vez colocou o capitalismo em xeque e abriu espaço para uma nova forma de intervenção estatal, baseada em uma
política de bem-estar social (Welfare State). Estamos agora no contexto de superação de duas guerras mundiais, com o
fortalecimento dos ideais socialistas em vários países, sobretudo nos países da Europa oriental.

Nesse período crucial para o desenvolvimento de políticas sociais mais protecionistas, os países procuraram amortecer
a crise com medidas que permitiriam o controle dos ciclos econômicos:

Desses processos complexos decorre, então, uma espécie de “contestação burguesa” do liberalismo ortodoxo,
expressa principalmente na chamada “revolução keynesiana”. As proposições de Keynes estavam sintonizadas
com a experiência do New Deal, americano, e inspiraram especialmente as saídas europeias da crise, sendo
que ambas têm um ponto em comum: a sustentação pública de um conjunto de medidas anticrise ou anticíclicas,
tendo em vista amortecer as crises cíclicas de superprodução, superacumulação e subconsumo, ensejadas a
partir da lógica do capital. (BEHRING; BOSCHETTI, 2011, p.71)

É possível perceber que as políticas sociais sempre procuraram responder aos processos históricos que vão se constituindo
ao longo do tempo, como o advento do capitalismo, a industrialização e urbanização, as crises econômicas (quebra
da bolsa em 1929 nos EUA, crise do petróleo nos anos de 1970), as ideologias que fundamentaram as intervenções
estatais (Welfare State, neoliberalismo etc.), os avanços tecnológicos que permitiram novos processos produtivos, a
globalização e mundialização do capital etc.

Esses processos históricos ditaram as transformações do mercado de trabalho, gerando novas demandas por qualificação
e novas profissões. No Brasil, a intervenção conservadora do Estado, que se inicia após a crise de 1929, marca a
conexão entre política social e Serviço Social. Porém, é somente a partir dos anos 1950 que a temática da política social
passa a ser discutida de maneira profissional em congressos internacionais, e na década de 1970, em plena ditadura
militar, entra no debate brasileiro dando ênfase ao planejamento de programas sociais.

Dessa forma, podemos entender que em nosso país as coisas ocorreram de maneira muito particular, visto que não
participamos do processo inicial da Revolução Industrial. Passamos por um longo período de colonialismo e imperialismo,
incluindo uma economia movida por trabalho escravo até o fim do século XIX. Somente na passagem para o século
XX que teremos no Brasil uma maior industrialização e urbanização, com organização de trabalhadores em sindicatos
formados principalmente por imigrantes europeus, que traziam ideias anarquistas e socialistas para o cenário político
brasileiro.

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Algumas mudanças podem ser destacadas, como a redução da jornada de trabalho para 12 horas diárias em 1911 (não
sendo ainda um direito assegurado para todos), e a proteção aos acidentados no trabalho, desde que procurassem seus
direitos individualmente via inquérito policial (BEHRING; BOSCHETTI, 2011).
Nesse período, as perspectivas do Serviço Social apontam para a “pobreza categorial; natureza descritiva e operacional;
vocação para o empírico e o pragmático, com certa hostilidade para com a teoria; subordinação da produção às práticas
governamentais conjunturais” (COIMBRA, 1987 apud BEHRING; BOSCHETTI, 2011, p.14). Dessa forma, a crítica de
Coimbra à perspectiva do Serviço Social sobre as políticas sociais se dá no sentido de sua limitação ao âmbito local e
nacional, dentro de programas governamentais e empresariais isolados, ao empirismo e ao enfoque teórico confuso,
com forte tendência ideológica.
Quem não ouviu falar da famosa frase de Delfim Neto, economista, responsável pela política econômica nas décadas
de 1960 e 1970 que afirma que é preciso “deixar crescer o bolo para depois dividir”? Essa lógica marcou um processo
de modernização conservadora, fundamentando o desenvolvimento nacional em uma industrialização e urbanização
aceleradas, visando o crescimento do “bolo”, que não foi acompanhado por sua divisão de maneira igualitária.
É dentro desse contexto que o Serviço Social ultrapassa as portas das instituições de ensino isoladas e confessionais
e chega às universidades, tornando-se público e laico (desvinculando-se de orientações religiosas), atraindo jovens
oriundos das classes médias baixas e da classe trabalhadora, e dando início à profissionalização e ao assalariamento
dessa categoria.
Esse assalariamento, ou proletarização, também ocorreu com outras categorias de nível universitário que, juntamente
com o aumento e concentração da classe operária em regiões como o ABC paulista, veio constituir uma nova situação
estrutural que daria força às reivindicações da classe trabalhadora e colocaria o projeto conservador dos militares em
risco em um momento de esgotamento do “milagre econômico”.
Essa nova situação estrutural exigiu do Serviço Social uma reflexão mais sofisticada sobre a realidade brasileira
e a criação de identidades políticas com os “de baixo”, que assumiam uma nova posição no cenário político dos
anos 1970, marcado pelas greves dos metalúrgicos paulistas, pela presença dos movimentos sociais, urbanos e
do movimento estudantil, entre outros. (BEHRING; BOSCHETTI, 2011, p.15)

Uma classe trabalhadora organizada vai se desenvolvendo em um ambiente de contestação que irá culminar em um
forte movimento pela redemocratização do país (movimento civil pelas eleições diretas chamado de “Diretas Já!”),
alimentando uma revisão crítica articulada com o Centro Latinoamericano de Trabajo Social – CELATS e com o Trabajo
Social Latinoamericano. Da discussão travada em 1979, no congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (o famoso
“Congresso da Virada”), origina-se o chamado projeto ético-profissional, que estudaremos mais adiante.

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Segundo Behring e Boschetti (2011, p.16), toda essa movimentação vai criar condições para “uma nova reflexão sobre
a política social, de viés democrático, na perspectiva da cidadania e dos direitos, uma marca da produção profissional
a partir dos anos 1980”.

A década de 1980 é marcada ainda pela Constituição de 1988, que vai trazer novos direitos sociais para os brasileiros.
Nesse momento, tanto o tema da redemocratização como o da formulação constituinte integram um debate teórico-
metodológico mais crítico entre os profissionais de Serviço Social, apresentando-se de forma mais aprofundada na
Revista de Serviço Social & Sociedade e em outras importantes produções no âmbito nacional. O objetivo desse
debate mais aprofundado é romper com a perspectiva do Serviço Social acerca da política social criada na época da
modernização conservadora, que era ligada mais aos interesses do Estado do que às reivindicações sociais. Com isso,
esses profissionais passam a estar mais sintonizados com o processo de redemocratização do país, dialogando com a
perspectiva marxista de modo a direcionar esforços para superar a desigualdade social.

Hoje em dia muito se fala de sociedade civil organizada, atribuindo a ela a responsabilidade de se reconhecer como
uma unidade constituída por agentes históricos da transformação. Porém, isso só irá ocorrer com o amadurecimento da
cidadania, ultrapassando a esfera privada para que o cidadão venha a engajar-se na organização de movimentos que
lutam por interesses coletivos. Caso contrário, como afirma Marshall (1967), o status político de cidadão apenas procura
garantir a igualdade de todos diante do Estado, o que não significa uma garantia de igualdade social.

Os profissionais de Serviço Social têm um papel muito importante nesse processo, qual seja o de qualificar a ideia de
cidadania dentro de uma agenda democrática entendida segundo os princípios éticos encontrados no Código de Ética
do Assistente Social (1993). Ou seja, ajudar o cidadão a saber-se cidadão e a agir como tal. Segundo Herbert de Souza,
o Betinho, sociólogo que lutou pela cidadania ativa, o indivíduo cidadão pode ser descrito da seguinte maneira:
Cidadão é o indivíduo que tem consciência de seus direitos e deveres e participa ativamente de todas as questões
da sociedade […]. A ideia de cidadania ativa é ser alguém que cobra, propõe e pressiona o tempo todo. O cidadão
precisa ter consciência de seu poder. (SANTOS JUNIOR, 1997,1998, p.8)

Para atingir esses objetivos, é preciso que o Serviço Social brasileiro amadureça ainda mais, desenvolvendo estudos
dentro de linhas de pesquisa que tratem da realidade brasileira e latino-americana, buscando compreender os processos
políticos, econômicos e sociais dos últimos anos, especialmente após os anos 1990, quando o fortalecimento do
neoliberalismo impactou profundamente as políticas sociais nessa região, como veremos nos próximos temas.

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Vidas no Lixo

• A greve dos garis no Rio de Janeiro durante o carnaval chamou atenção para a importância do
trabalho daqueles que recolhem o lixo que a sociedade produz. A população teve a oportunidade
de repensar sua relação com o consumo e descarte de materiais, e os trabalhadores conseguiram
que o governo atendesse algumas de suas reivindicações. Neste filme-documentário você
vai acompanhar a vida de crianças e adolescentes que literalmente vivem do lixo, recolhendo
materiais recicláveis e até mesmo alimentos. Em meio a essa triste realidade, os jovens falam
de seus sonhos e problemas cotidianos.
Link para acesso: <http://portacurtas.org.br/filme/?name=vidas_no_lixo>.

Tempo: 15 minutos.

Entrevista com Eric Hobsbawm - para pensador, ao contrário dos séculos 19


e 20, situação atual não indica um caminho de progresso

• Em entrevista para Sylvia Colombo, jornalista da Folha de São Paulo, Hobsbawm, morto em
2012, assume uma posição crítica diante do uso da força visando o controle social. O autor
de “A Era das Revoluções”, que trata dos movimentos revolucionários burgueses do século Clique
XVIII e XIX, fala das transformações do mundo contemporâneo, com a hegemonia das políticas & Acesse
internacionais devastadoras dos Estados Unidos e as novas crises provenientes da globalização.
Link para acesso: <www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3009200707.htm>

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Dicionário de termos técnicos

• É sempre bom ter um dicionário à mão, principalmente quando ele é especializado nos termos
que mais utilizamos. No link abaixo você vai encontrar um Dicionário especialmente desenvolvido
para conceituar alguns termos técnicos mais usados pelos profissionais do Serviço Social. Clique
Link para acesso: <http://www.cedecacasarenascer.org/uploads_arquivos/livros/1705175954000000-dicionar-
& Acesse
io_de_termos_tecnicos_da_assistencia_social_2007.pdf>

AGORAÉASUAVEZ
Instruções:
Agora, chegou a sua vez de exercitar seu aprendizado. A seguir, você encontrará algumas questões de múltipla
escolha e dissertativas. Leia cuidadosamente os enunciados e atente-se para o que está sendo pedido.
Questão 1

Quando pensamos no surgimento e desenvolvimento das políticas sociais, devemos levar em conta o contexto histórico. Reflita
e responda: como as transformações sociais, políticas e econômicas podem influenciar a construção das políticas sociais? Cite
exemplos recentes, dos quais você se lembra, de reivindicações que influenciaram a criação de políticas públicas.

Questão 2

Uma das primeiras iniciativas pontuais de caráter assistencial, consideradas detentoras de características de políticas sociais,
foram as chamadas “leis inglesas”. Faça uma pesquisa na internet e em livros e explique os principais objetivos dessas leis diante
das necessidades da sociedade da época em que foram criadas.

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Questão 3

Analise as sentenças abaixo e escolha (V) para verdadeiro e (F) para falso:

( ) O Estado liberal pode ser entendido como um Estado de mínima intervenção social, logo, apresenta políticas sociais mais
restritas.

( ) Após a Revolução Industrial, mesmo com muita luta da classe operária, o Estado liberal não cedeu à pressão, restringindo
ainda mais os direitos dos trabalhadores.

( ) O Estado social pode ser entendido como um Estado de grande intervenção social, já que apresenta políticas sociais mais
amplas.

( ) Não houve uma ruptura e sim continuidade na passagem do Estado liberal para o Estado social, pois apesar de representarem
ideologias opostas, nenhuma delas chegou ao cerne da questão social que representa a desigualdade de classes, já que não é
de interesse do capitalismo.

Questão 4

O Brasil teve suas particularidades em termos de Políticas Sociais. A respeito do contexto em que essas particularidades foram
sendo criadas, identifique a resposta incorreta.

a) O Brasil não participou da Revolução Industrial, e sim passou por um longo período de colonialismo e imperialismo, além de
uma economia movida por trabalho escravo até o fim do século XIX.

b) Somente com a mão-de-obra livre, especialmente com a chegada de imigrantes europeus, que a classe trabalhadora começou
a se organizar em sindicados e reivindicar seus direitos.

c) No Brasil, o Welfare State começa em 1929, com a Grande Depressão, que obrigou o governo a estabelecer leis que
garantissem o estado mínimo de sobrevivência dos cidadãos.

d) Foi num contexto de modernização conservadora que as políticas sociais foram surgindo no Brasil com maior intensidade,
acompanhadas pela necessidade de formação profissional na área de assistência social.

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Questão 5

Qual é o papel dos profissionais do Serviço Social em relação às políticas públicas da sociedade contemporânea?

FINALIZANDO
Devemos entender as políticas sociais como um processo inscrito na história, considerando as transformações
sociais, econômicas e culturais pelas quais passaram governo e sociedade.

Não há um período específico para o seu surgimento, mas é possível perceber que ocorreu de forma gradual e diferenciada,
sendo influenciado fortemente pelo desenvolvimento das forças produtivas e pela pressão da classe trabalhadora, que
conquistou direitos civis no século XIX e direitos políticos no século XX.

Nas sociedades pré-capitalistas havia algumas ações privadas filantrópicas ou religiosas assistenciais, cujo maior
objetivo era manter a ordem social. As leis inglesas pré-Revolução Industrial eram mais voltadas para o controle dos
trabalhadores, tendo um caráter mais punitivo e repressivo do que protetor.

Após a Revolução Industrial, as políticas sociais tornaram-se ainda mais restritas, devido ao caráter liberal do Estado, que
apostava em um mercado livre e competitivo. Não obstante, a exploração e pauperização dos trabalhadores chegaram
a tal nível que alimentaram uma luta de classes entre proletários e capitalistas, garantindo algumas conquistas sociais
através da pressão da classe trabalhadora.

No Brasil, as políticas sociais se desenvolveram em um contexto de modernização conservadora, em meados das


décadas de 1950 e 1960. Somente com os movimentos sociais pela redemocratização é que a sociedade passou a se
organizar e reivindicar seus direitos de forma mais contundente. Essa foi a época das grandes greves no ABC paulista,
quando as lutas dos trabalhadores e também da sociedade em geral pressionaram o governo a criar novas leis de
proteção social, culminando com a Constituição de 1988.

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REFERÊNCIAS
BEHRING, Elaine Rosseti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: Fundamentos e História. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal - Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social. Dicionário de termos técnicos
da assistência social. Belo Horizonte: ASCOM, 2007. Disponível em: <http://www.cedecacasarenascer.org/uploads_arquivos/
livros/1705175954000000-dicionario_de_termos_tecnicos_da_assistencia_social_2007.pdf>. Acesso em: 03 mar. 2014.

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política I. Brasília: Editora Universidade de Brasília,
1998. Disponível em: <http://www.pgcsiamspe.org/Mario_Porto/02-DicionarioDePolitica.pdf.pdf>. Acesso em: 07 mar. 2014.

COLOMBO, Sylvia. Entrevista com Eric Hobsbawm: Força não pode impor ideias, diz pensador. Folha de São Paulo, São Paulo,
30 set. 2007. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3009200707.htm>. Acesso em: 06 mar. 2014.

FLEURY, Sônia. Políticas sociais. In: OLIVEIRA, Dalila Andrade; DUARTE, Adriana M.C.; VIEIRA, Lívia M.F. Dicionário: trabalho,
profissão e condição docente. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Educação, 2010. Disponível em: <http://www.gestrado.org/
index.php/?pg=dicionario-verbetes&id=327>. Acesso em: 01 mar. 2014.

GUHUR, Dominique Michèle Perioto; SOUZA E SILVA, Irizelda Martins de. As políticas sociais neoliberais no quadro da mundialização
do capital: um “movimento em busca dos anéis sacrificados no Passado para salvar os dedos”. Revista HISTEDBR On-line,
Campinas, n.35, p. 76-95, set. 2009. Disponível em: <http://www.histedbr.fae.unicamp.br/revista/edicoes/35/art06_35.pdf>. Acesso
em: 06 mar. 2014.

HOBSBAWM, Eric J. A Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

MARSHALL, Thomas Humprey. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

MARX, Karl H; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. Ed. Ridendo  Castigat  Mores. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.
org/adobeebook/manifestocomunista.pdf>. Acesso em: 07 mar. 2014.

SANTOS JUNIOR, Belisário et al. Cidadania, verso e reverso. São Paulo: Secretaria da Justiça e da Cidadania, 1997-1998. p. 8.

Vidas no Lixo. Direção: Alexandre Stockler. Brasil, 2008. Disponível em: <http://portacurtas.org.br/filme/?name=vidas_no_lixo>.
Acesso em: 05 mar. 2014.

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GLOSSÁRIO
Capitalismo: É tanto uma forma particular de agir econômico como um subsistema econômico que nasceu no limiar da
industrialização, e é baseado na propriedade privada dos meios de produção e no lucro como objetivo final. O capitalismo
pode ser considerado também uma relação, já que apresenta um conflito de interesses entre capitalistas (donos dos
meios de produção) e proletários (donos da força de trabalho), no qual prevalece a exploração da mão-de-obra operária
através do que Marx chama de “mais-valia” (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 1998).
Cidadania: Pode ser definida como o pertencimento dos indivíduos a uma situação ou status social em que são
garantidos direitos e deveres. Segundo Marshall (1967), o século XVIII foi o berço dos direitos civis, e o século XIX
marcou a conquista dos direitos políticos na Europa. Ambos são considerados direitos de 1ª geração. Já os direitos
sociais (2ª geração), só vieram a se estabelecer no século XX.
Keynes: John Maynard Keynes, criador das ideias que viriam a se chamar “keynesianismo”, ou Estado de Bem-Estar
Social ou Welfare State, no período pós-2ª Guerra Mundial (1945).
Liberalismo: É um conjunto de ideias que visam a liberdade individual, especialmente econômica, com a menor
interferência possível do Estado.
Luta de classes: A luta de classes representa o antagonismo de interesses entre a classe que detém o poder em
determinado período e aquela que é obrigada a se submeter a ele. Segundo Marx, em O Manifesto Comunista (1848),
“A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias é a história da luta de classes”. Ou seja, o que move a
história em todos os tempos é a luta entre os dominantes e os dominados; isso demonstra o caráter materialista-dialético
da visão marxista.
Neoliberalismo: É um modo de acumulação com predomínio da esfera financeira. Foi adotado pelos neoconservadores
pouco antes da 2ª Guerra Mundial, em Paris, a partir do manifesto chamado “O caminho da servidão”, de Friedrich
Von Hayek (1944). A política econômica neoliberal configura-se da seguinte forma: “privatização, abertura comercial e
desregulamentação financeira e do mercado de força de trabalho” (GUHUR; SOUZA E SILVA, 2009).
New Deal: Saída pragmática implementada pelo presidente Roosevelt, EUA (1932-1936 e 1936-1940), para acabar com
a crise econômica iniciada com a crise de 1929. De acordo com Behring e Boschetti (2011, p.71), “O New Deal marcou
um período de forte intervenção estatal na regulação política agrícola, industrial, monetária e social, demarcando um
recuo em relação ao liberalismo predominante até então”.
Revolução Francesa: Faz parte das revoluções burguesas que fundaram a sociedade contemporânea. Eclodiu na França,
no final do século XVIII e influenciou movimentos de emancipação da burguesia em todo o mundo (HOBSBAWM, 1996).

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GABARITO
Questão 1

Resposta: O aluno deve relacionar as políticas sociais ao seu contexto histórico de desenvolvimento econômico, político e
social (como Revolução Industrial, novas demandas do mercado de trabalho, criação de movimentos sociais organizados
etc.), e citar exemplos de como algum movimento de reivindicação acabou fomentando alguma política social.

Questão 2

Resposta: As “leis inglesas” antecederam a Revolução Industrial e apresentavam regulamentações sobre as atividades
laborais, estabelecendo também alguns benefícios restritos aos pobres “selecionados”. Eram garantidos auxílios mínimos
(alimentação) aos pobres reclusos nas workhouses (casas de trabalho), que em troca eram obrigados a trabalhar.

Até 1795 (Estatuto dos Trabalhadores; Estatuto dos Artesãos; Poor Law; Lei de Domicílio e Speenhamland Act), as
legislações promulgadas tinham como objetivo manter a ordem de castas e restringir a livre circulação do trabalho, o
que contribuiu para retardar a constituição de um mercado de trabalho livre. Já a Nova Lei dos Pobres (1834), ocorreu
no contexto da Revolução Industrial, que demandava mão-de-obra para as novas atividades industriais que começavam
a constituir uma sociedade de mercado.

Questão 3

Resposta:

(V) O Estado liberal pode ser entendido como um Estado de mínima intervenção social, logo, apresenta políticas sociais
mais restritas.

(F) As reivindicações da classe operária fomentaram algumas políticas sociais por parte do Estado liberal, especialmente
com relação à ampliação de direitos sociais, como o direito à vida, à segurança e à propriedade.

(V) O Estado social pode ser entendido como um Estado de grande intervenção social, já que apresenta políticas sociais
mais amplas.

(V) Não houve uma ruptura e sim continuidade na passagem do Estado liberal para o Estado social, pois apesar de
representarem ideologias opostas, nenhuma delas chegou ao cerne da questão social que representa a desigualdade
de classes, já que não é de interesse do capitalismo.

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Questão 4

Resposta: c) O Welfare State é uma política econômica que surgiu na Europa após a 2ª Guerra Mundial.

Questão 5

Resposta: O papel dos profissionais de serviço social é planejar e executar políticas públicas que ajudem a desenvolver
e qualificar a ideia de cidadania, dentro de uma agenda democrática entendida segundo os princípios éticos encontrados
no Código de Ética do Assistente Social (1993). Ou seja, ajudar o cidadão a saber-se cidadão e a agir como tal, sendo
participativo na sociedade em que vive.

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